“Automutilações são um flagelo entre os jovens”

Abril 28, 2017 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista de Jorge Humberto Costa ao https://ionline.sapo.pt/ de 26 de abril de 2017.

Marta Reis

Jogo que está a causar alarme incentiva os jovens a cortarem-se. Psicólogo escolar alerta que este comportamento tem vindo a aumentar entre os adolescentes portugueses. Jovens instáveis emocionalmente são os mais vulneráveis mas outros fazem-no por imitação ou para se integrarem no grupo.

Entre os 50 desafios do jogo Baleia Azul, a maioria visa levar os jovens a cortarem-se ou usarem objetos com lâmina para escrever na pele. Embora este jogo só agora comece a causar preocupação por cá, o fenómeno das automutilações entre adolescentes tem vindo a ser estudado e os últimos dados nacionais sugerem que dois em cada dez jovens do 8.º ano e 10.º ano já se magoaram de propósito, a maioria quando se sentia triste e “farta”. Jorge Humberto Costa, psicólogo escolar no Agrupamento de Escolas de Valongo e membro de um grupo informal que junta peritos nesta área, a plataforma Psi Escolas, diz ao i que as automutilações são um flagelo nas escolas que importa despistar precocemente e defende que pais e professores devem estar alerta.

Já tinha conhecimento deste jogo?

Não, mas o que sabemos de há uns anos para cá é que há alunos que participam neste tipo de jogos para experimentar diferentes estágios de dor. Tivemos relatos há dois ou três anos de um jogo em que o culminar era os alunos ficarem suspensos, agarrados pela pele, por exemplo com anzóis. São fenómenos que começam nas redes sociais e em que o problema é acontecerem fora das escolas.

E até que ponto as escolas estão preparadas para despistar estes casos?

Como as automutilações no geral, acaba por ser complicado a deteção porque os alunos tendem a fazê-lo em zonas do corpo que não são visíveis, como o tornozelo ou a coxa. Mas a partir do momento em que as situações são sinalizadas, é fácil iniciar o trabalho com os alunos e envolver as famílias. O ponto que nos preocupa sempre mais é a identificação deste tipo de comportamento.

Como se poderia melhorar o despiste? A falta de psicólogos nas escolas é um problema?

Claro que a falta de psicólogos é sempre um problema. Hoje continuamos a ter um rácio de um psicólogo por vezes para mais de 2000 alunos com a dificuldade de os agrupamentos escolares serem muito distendidos, com escolas longe umas das outras. O que tentamos fazer é ter um trabalho estreito com os professores de Educação Física, que são quem vê os alunos com menos roupa, com o fato de treino ou o calção.

E já existe essa sensibilização? Há orientações da tutela?

Creio que existe sensibilização dos professores. Mesmo que não haja por parte do ministério orientações claras sobre isto, os psicólogos que trabalham no terreno já fazem esse trabalho de forma insistente e reúnem-se regularmente com colegas. Por outro lado, por exemplo no meu agrupamento temos já academias de pais, em que falamos com os encarregados de educação. O ministério pode sempre ter uma maior intervenção, mas isso não justifica inércia porque provavelmente não iria trazer nada de novo. Nesse aspeto o que faltava era aproximarmo-nos de um rácio de um psicólogo por mil alunos e termos pelo menos dois psicólogos nos agrupamentos maiores e também equipas multidisciplinares onde a intervenção dos assistentes sociais fosse valorizada.

O PCP apresentou recentemente um projeto de lei para que seja definido o regime jurídico da psicologia em contexto escolar e denuncia que o último concurso para a admissão nesta carreira é de 1997.

Vamos também nas próximas semanas voltar a dinamizar o grupo Psi Escolas que tem funcionado mais no Facebook para promover esse reforço da psicologia nas escolas.

Como o atual rácio, como funciona a intervenção? Chegam apenas aos casos mais graves?

Acabamos por dedicar-nos aos casos mais graves, ainda que em termos de prevenção existam estes dois grandes vetores de preocupação que são bullying e as automutilações.

Os últimos dados para Portugal do inquérito Health Behaviour in School-aged Children” (HBSC) revelaram que, em 2014, 20,3% dos jovens tinham-se magoado pelo menos uma vez a si próprios nos 12 meses anteriores.

Penso que é um número que até pecará por defeito. É um flagelo que temos nas escolas.

O que leva os jovens a ter estes comportamentos?

Podemos dividi-los em dois patamares. Temos por um lado os alunos que usam a dor física para suportar a dor emocional e depois temos outros alunos que o fazem por imitação. Como os primeiros o fizeram e deram um feedback positivo, os segundos que teoricamente não iriam ter esse comportamento acabam por fazê-lo também.

Acontece mais em que faixas etárias?

Na casa dos 13 e 4 anos.

Os dados nacionais indicam que é um comportamento mais recorrente nas raparigas.

Sim, ainda que os rapazes também o façam.

Não sendo um comportamento saudável, colocam a vida em risco?

Na maioria das situações não existe essa intenção, só por descuido ou erro de cálculo. Mas o problema é que é um comportamento progressivo e como percecionam bem-estar acabam por ir fazendo com mais frequência. O perigo é mais por aí, até porque depois acaba por ser a primeira resposta que têm quando são confrontados com uma situação problemática. É quase uma resposta primária.

E é algo que associem a algum tipo de aluno, mais isolado, com piores notas?

É um comportamento transversal e daí o problema da imitação. Se um aluno líder tiver esses comportamentos, há maior probabilidade de mais alunos serem seguidores.

Quando detetam uma situação e os pais são chamados, há surpresa?

Sim, muitos deles não fazem mesmo ideia. Claro que depois reconhecem que havia um afastamento emocional dos filhos e isso é um fator de risco importante.

Uma das jovens com quem falámos sobre o jogo Baleia Azul dizia-nos ter receio de não ser forte o suficiente para resistir à pressão psicológica. Mesmo jovens mais maduros podem ser vulneráveis neste tipo de situações?

O problema é que não conseguimos saber, em determinados alunos, até que ponto a força do grupo tem poder suficiente ou não. Se a grande maioria dos colegas tiver um determinado comportamento, vão-se sentir afastados do grupo e na adolescência esse afastamento é doloroso. Eles referem-nos muitas vezes aquela ideia de não conseguirem fazer parte das conversas. Se a automutilação ou qualquer outro comportamento for um tema de participação e conversa, podem sentir que não aderir é um fator para a rejeição. Ou saem do grupo ou por vezes o sentimento de pertença obriga-os a determinados rituais. Nesse sentido ninguém está imune.

Que mensagem passaria aos pais?

O melhor que podemos dizer aos pais é para desligarem a televisão na hora das refeições e conversarem. Se percebem que os miúdos têm alguma alteração do comportamento por exemplo ao nível do sono ou da própria alimentação devem tentar perceber. Outra preocupação pode ser verificar com alguma frequência quando saem do banho se há alguma marca nos braços ou nos antebraços.

Não é uma recomendação alarmista?

Às vezes é preferível sermos um bocadinho mais alarmistas e identificar os problemas do que facilitarmos e vermo-nos com uma situação mais difícil de resolver. Numa frase, diria que os pais devem procurar estar emocionalmente próximos dos filhos e pensarem na sua disponibilidade e como às vezes tentam comprar emocionalmente os filhos. Nota-se a diferença nas crianças que têm os pais presentes.

Esse afastamento dos pais é algo que tem notado?

Trabalho nas escolas há 18 anos e sempre houve situações de automutilação. Sentimos que está a aumentar da mesma forma que tudo tende a aumentar, a partilha das gratificações na redes sociais é muito mais rápida. Por outro lado, os jovens estão emocionalmente mais instáveis. Temos uma sociedade cada vez consumista e eles sentem-se mais frustrados, o que se nota também nas dificuldades vocacionais. Sabemos que hoje em dia a parte social e monetária e os pais para terem mais dinheiro têm de estar mais tempo fora e acabam por compensar os alunos de forma mais material do que emocional.

 

 

 

Baleia Azul. O jogo que mata os mais novos e já assusta em Portugal

Abril 28, 2017 às 10:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do https://sol.sapo.pt/ de 26 de abril de 2017.

Carlos Diogo Santos

O desafio mortal que tem feito vítimas em vários países, entre os quais no Brasil e na Rússia, já pôs a PSP em alerta. O i falou com Sara, uma adolescente que garante existir já medo na sua escola e na dos amigos. No Brasil, Mariana explica como conseguiu sair: “A morte é o que eu mais queria”

Sara tem 16 anos, sente-se mais madura do que a maioria dos seus colegas, mas também vive as crises da adolescência, os medos e as desilusões. Tem medo de morrer e nem entende os adolescentes que entram num jogo como o da Baleia Azul, onde o objetivo final é o suicídio. Não sabe porque muitos procuram estes desafios fatais, mas receia ser apanhada pela teia.

Grande parte das notícias sobre o jogo da Baleia Azul vêm da Rússia e do Brasil – onde até já houve registos de mortes – , mas as mensagens do outro lado do Atlântico já circulam em escolas nacionais, públicas e privadas. Depois de entrarem no jogo, os jovens são convencidos de que já não há volta a dar e que têm de seguir todos os passos – 50 desafios diários – debaixo de uma forte pressão psicológica, inclusivamente com ameaças de que algo acontecerá às famílias se desistirem. É isso que tem levado muitos a mutilarem-se e a correr grandes perigos. O último passo, que também é determinado pelo “curador” é o do suicídio.

“A primeira vez que vi uma mensagem a dizer para não abrir o link do jogo foi no InstaSnap de uma amiga. Eu acredito nestas coisas, eles podem fazer pressão e nós podemos não ser fortes o suficiente para resistir”, diz Sara ao i, explicando que tem muitas amigas que andam assustadas. “Há colegas que têm medo de seguir as regras até ao fim, uns de certeza que iam ignorar, mas outros iam fazer tudo até ao fim e iam guardar para si, há amigas minhas que de certeza que nem iam dizer nada aos pais para se resguardarem”.

E se foi rápido a atravessar o oceano, aqui também não tem demorado a expandir-se. Sara, que anda numa escola privada na Estrela, diz que ela e os seus colegas tiveram contacto com o jogo através de mensagens enviadas por amigos que andam em outras escolas. As autoridades já estão a analisar os casos conhecidos até ao momento. Fonte oficial da PSP diz que “tem conhecimento e que se encontra a monitorizar este fenómeno, que pode afetar crianças e jovens em território nacional”.

A delegada brasileira Fernanda Fernandes, da Delegacia de Repressão aos Crimes de Informática, não põe de parte que a estrutura montada no Brasil possa capturar vítimas portuguesas, uma vez que partilhamos a mesma língua – ainda que até ao momento não tenha conhecimento de qualquer evidência nesse sentido.

Ao i, a investigadora explica que estão a ser feitos trabalhos com vista a identificar as vítimas naquele país, enquanto que está a ser levado a cabo uma investigação sigilosa para identificar todos os “curadores”, ou seja, administradores do jogo. “Essa linha de investigação corre atualmente em sigilo para não prejudicar os trabalhos”, contou, lembrando que houve já jovens brasileiros a aceitar o último desafio – o do suicídio.

“A morte é o que eu mais procurei”

Mariana é brasileira (nome fictício) e tem menos um ano que Sara. Em entrevista ao jornal “O Globo” conta que “confiava no jogo”: “Eu acreditava que aquilo ali ia me fazer ter coragem de me suicidar”.

Uma das alterações no seu comportamento foi o de achar que a sua mãe já não gostava de si e isso fazia-a ficar ainda mais dependente do que o “curador” lhe pedia. E foi esse afastamento que mais alertou a família, que conseguiu evitar um fim trágico.

“A morte é o que eu mais procurei. É o que eu mais queria”, revelou àquele jornal brasileiro a jovem, adiantando que mesmo depois de ter estado internada e deixar o jogo já tentara o suicídio novamente. Mariana decidiu parar após um novo tratamento, quando percebeu o sofrimento em que tinha mergulhado a família.

“Se eu fosse [as pessoas], não entraria [no desafio da Baleia Azul]. Só vai causar coisas ruins. Ao invés de parar sua tristeza, só vai aumentar. E vai acumular, acumular. Quando você vir, já vai estar vazio por dentro e por fora. Eu pediria para poder apostar uma única chance numa coisa que se gosta. Talvez, sei lá, uma música boa que essas pessoas ouviram na rádio e de que gostem. Talvez possam escutar aquilo e se sentir melhor. Porque eu sei o quanto que dói, mas não vai ser um jogo que vai fazer você parar de sentir dor. Nem a morte”. Mariana sabe do que fala, sente todos os dias as consequências do caminho que escolheu, ou melhor que a induziram a escolher, para fugir a uma depressão. Em vez de fugir ainda se afundou mais.

No Brasil foram já detetados suicídios de jovens em diversos estados que podem estar relacionados com os desafios que são impostos pelos administradores. Isto porque os alvos, segundo a delegada Fernanda Fernandes, são jovens entre os 12 e os 14 anos com problemas de isolamento e ou depressão, que têm dificuldades em abandonar o jogo por medo de que as ameaças feitas pelos administradores aconteçam mesmo.

Sempre que os mais novos cedem a mais um desafio, o mesmo tem de ser enviado por vídeo ou por fotografia – o corte, no caso de ser uma mutilação – para o “curador”.

Naquele país, os crimes que estão em causa na investigação que foi aberta em 2016 são: “associação criminosa, ameaça, lesão corporal (em relação às automutilações praticadas pelos participantes) e homicídio tentado ou consumado”.

Na Rússia, onde o jogo foi notícia pela primeira vez, duas jovens com 15 e 16 anos decidiram por fim às suas vidas em fevereiro, atirando-se de um prédio com 14 andares, em Irkutsk. Uma delas partilhou no Facebook uma fotografia de uma baleia azul.

 

 

 

I Seminário da Rede Regional do Norte de Apoio e Proteção a Vítimas de Tráfico de Seres Humanos – 8 maio no Porto

Abril 28, 2017 às 6:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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A participação é gratuita mas sujeita a inscrição (número limitado de lugares), através do link:

 https://goo.gl/forms/uQutSytrnhrhVV3q1

 

Jogar é uma das maneiras inatas para aprender

Abril 27, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do site http://porvir.org/ de 30 de março de 2017.

Palestrante do Transformar, Gonzalo Frasca, professor e designer de jogos, discute a importância dos jogos para a aprendizagem

por Vinícius de Oliveira

Todos aprendemos jogando, seja encaixando blocos de plástico durante a infância, ou mais tarde, comandando heróis e planejando cidades nos videogames. Movidos pelo desafio, a emoção e a vontade de experimentar o novo, continuamos envolvidos por um longo tempo, o que infelizmente nem sempre acontece na educação. Segundo Gonzalo Frasca, uruguaio que é professor da disciplina de videogames na Universidade ORT, em Montevidéu, e chefe de design de jogos na startup WeWeWantToKnow, isso acontece porque a educação se preocupa demais com conteúdos e, com isso, deixou de lado uma característica natural do ser humano. Para ele, o aprendizado se tornou um sofrimento e, em referência ao jogo das Eliminatórias da Copa entre Brasil 4 x 1 Uruguai, o especialista em jogos diz que muitas crianças estão perdendo por goleada, todos os dias na escola.

“Jogar é uma das maneiras inatas para aprender. É a estratégia cognitiva com que conhecemos e exploramos o mundo e, se não conseguimos entender sua profunda relação com a aprendizagem, é justamente porque a escola foi por outro caminho”, disse ao Porvir, alguns dias antes de sua visita ao Brasil para participar do painel “Como engajar e ensinar alunos através de jogos”, do Transformar, evento sobre inovação em educação organizado por Porvir/Inspirare, Fundação Lemann e Instituto Península, que acontece na próxima terça-feira (4), em São Paulo (SP).

Leia também: Games engajam os alunos e trazem significado para a matemática

Na entrevista que você lê abaixo, Frasca mostra como a estrutura de jogos alicerçada em feedbacks (retornos avaliativos) pode ajudar a sala de aula e como vê o professor diante de uma encruzilhada: na formação inicial, ele tem que manter “ordem e progresso” da sala de aula, mas os jogos, especialmente videogames como o (simulador de construção de cidades) SimCity e o (construtor de mundos feitos em blocos virtuais) Minecraft, que não têm um objetivo claro, colocam o aluno diante do “caos” e trazem novas questões para quem ensina.

Frasca também trata na conversa com o Porvir do programa da empresa WeWeWantToKnow, que está desenvolvendo um programa piloto na França e na Noruega para ensinar crianças a partir de 5 anos a resolverem os primeiros problemas de álgebra. De antemão, o designer e professor uruguaio mostra-se realista. “Não vai aparecer um aplicativo milagroso que vai mudar tudo. Mas, sim, é possível inovar para que as crianças aprendam e gostem de aprender. Isso é fundamental”.

Porvir – Como jogos podem ser usados para ensinar e mudar a lógica de ensino e aprendizagem que temos atualmente?

Gonzalo Frasca – Vou respondê-lo de duas maneiras: uma de maneira mais teórica e outra, mais prática, com o que estamos fazendo no projeto piloto na França e na Noruega com o (aplicativo para sistemas iOS e Android) Dragonbox. Jogar é uma das maneiras inatas para aprender e seres humanos aprendem as coisas mais difíceis e complicadas jogando. É a estratégia cognitiva com que conhecemos e exploramos o mundo e se não conseguimos entender sua profunda relação com a aprendizagem, é justamente porque a escola foi por outro caminho. Nos Estados Unidos, a carga de matérias para o jardim da infância é um disparate absoluto. Existem várias razões históricas e econômicas, mas em resumo, não se pode aprender sem emoção. Se eu não me interesso por alguma coisa, não vou aprender. Ouvir (o que o professor está ensinando) me importa porque parece um tema interessante ou porque vão me castigar com uma nota baixa, mas a segunda opção é de curto prazo. Isso é um pouco da teoria. De maneira concreta, produzo videogames para crianças há quase duas décadas para Cartoon Network e Pixar. A estratégia que se aplica a maior parte dos videogames é capturar a atenção, emocionar a criança e oferecer um desafio.

Porvir – Mas na educação poderia ser a mesma coisa, não é verdade?

Gonzalo Frasca – Bem, deveria ser a mesma coisa, mas não estou dizendo que se deve ter apenas videogames na educação. O Dragonbox, primeiro produto que desenvolvemos, desenvolve consciência algébrica em crianças de cinco anos. Ele é uma amostra que a álgebra, ensinada a partir da educação secundária, tem uma base é que é possível de ser entendida por uma criança pequena. E como isso acontece? Primeiro não pode ser muito fácil porque entendia e não pode ser muito difícil, porque paralisa. E tem que se adaptar a cada criança. E dar feedbacks imediatos, sempre que estiver fazendo as coisas bem ou mal. O que fazemos é manter o nível alto para que se mantenha o desafio. Sempre digo que o oposto do tédio não é a diversão, é o desafio. Quando não se está entediado, quer dizer que tenho algo um pouco difícil para fazer.

Porvir – Como o programa Dragonbox funciona nas escolas?

Gonzalo Frasca – Comecei pela Noruega e pela França, países onde minha empresa possui sedes. Temos 600 crianças na Noruega, em diversas escolas, e 50 na França. Não fizemos uma solução só com videogames. Temos tablets para tarefas digitais com jogos, mas não nos limitamos a isso. Também temos vários livros de texto. Em nosso método, as crianças têm espaços reais e virtuais para experimentar, por exemplo, o conceito de “maior que” ou “menor que”. Uma vez que trabalharam com isso por 20 minutos, o professor pede que expliquem o que acontece, os alunos participam de um pequeno jogo e fazem um teste para ver se aprenderam. Uma das diferenças do programa é que cada criança pode fazer o teste no momento em que se sentir preparado. Nunca aplicamos uma prova até o momento em que acreditamos que ela já sabe, porque cada uma aprende em um ritmo diferente. E também asseguramos que vamos avaliá-los para que fiquemos tranquilos sobre o quanto eles já sabem. É um processo que estamos trabalhando com os professores. Não somos um grupo de entendidos em tecnologia que está desconectado da escola. Fazemos visitas diárias, sempre trabalhando para tentar melhorar.

Porvir – Em uma de suas palestras do TEDxMontevideo, você dizia que não existe nenhuma criança que diz não servir para jogar videogames, mas isso acontece com matemática, física, história. Por que?

Gonzalo Frasca – É uma soma de muitas coisas. O que quer dizer jogar? Jogar quer dizer ter interesse em uma ação e testar o que acontece em sua volta. É o mesmo que experimentar. Essa manhã eu estava com a minha filha de 1 ano, que estava colocando um brinquedo dentro de uma garrafa de água. Eram patos grandes, que não entravam. Ela continuava tentando, tentando até que encontrava outra coisa, usava um frasco maior e aí conseguia. Isso é jogar e também é testar uma hipótese. Tento colocar, vejo que não funciona e trato de colocar o cubo em outro lado. Dessa maneira, ela está entendendo o conceito do que é dentro ou fora, tamanhos, circunferências, um montão de coisas por meio da experiência. O importante é que ela seja desafiada.

Porvir – Mas as famílias costumam pensar que videogames são perda de tempo.

Gonzalo Frasca – O problema é que pensamos o videogame como entretenimento, e não conseguimos ensinar tudo com videogames. Por exemplo, para apresentar o conceito de litro, usamos garrafas de verdade, com água de verdade. Os pais se preocupam com os jogos, mas é difícil dizer qual jogo oferece boa qualidade de aprendizagem, mais ou menos da mesma forma que avaliar qual livro pode ser bom ou não. Se o site RottenTomatoes (de avaliação de filmes) diz que um filme é muito ruim, então você pode deixar de assistir. Com videogames é mais difícil, sobretudo porque a maior parte do que se chama jogo educativo é muito básica, sem estudos científicos por trás, porque é muito caro. Todo mundo diz que é educativo, mas é como se não houvesse controle sobre a medicina e disséssemos que este remédio cura calvície ou o câncer. Na realidade, isso nem sempre é verdade.

Porvir – Em entrevistas anteriores, você fala muito de jogos como The Sims e SimCity. O que eles têm de especial?

Gonzalo Frasca – Eles são os clássicos. O SimCity, como o Minecraft, não têm um objetivo definido. Nos jogos de futebol, deve fazer mais gols. Em SimCity é como ir ao parque, pode-se fazer muitas coisas. O interessante é que parece um laboratório de experimentação.

Porvir – E como devemos preparar os professores para chegada dos jogos à sala de aula?

Gonzalo Frasca – Muitas vezes os professores têm uma formação para ter controle sobre a classe porque, com 25-30 alunos, é necessário ter ordem e progresso. E o jogo é visto como o caos. De um lado, ensinam aos professores a manter a ordem e, de outro, dizem que do caos podem sair coisas boas. É um processo complicado e que não vem só da formação, mas do processo cultural. É aceitar que o jogo é uma maneira de aprender e entender o mundo. Isso se vê por exemplo em algumas empresas e trabalhos que são mais criativos e não te obrigam a bater ponto de 9 às 5 todos os dias. Mas o mundo ideal para escola não é aquele em que alunos estão jogando videogame toda hora, mas algo parecido com o jardim da infância, em que se cultiva o espírito do jogo.

Porvir – Para terminar, poderia enviar uma mensagem ao público que irá acompanhar sua palestra?

Gonzalo Frasca – Não existem sugestões mágicas. Não vai aparecer um aplicativo milagroso que vai mudar tudo. Mas, sim, é possível inovar para que as crianças aprendam e gostem de aprender. Isso é fundamental. Temos muitos desafios como civilização, mas não podemos fazer com que crescer e aprender se torne um sofrimento. Tem que ser difícil, mas não um sofrimento. É como futebol. Se fosse fácil, não seria tão bom. Mas sofrer o tempo todo. Se todos os jogos fossem 4×1 como o que o Brasil ganhou do Uruguai, seria um sofrimento. Hoje em dia, muitas crianças estão perdendo por goleada, todos os dias na escola. E isso precisa ser evitado.

 

 

 

Segurança das crianças analisada pelo Centro Comum de Investigação da Comissão Europeia

Abril 27, 2017 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.publico.pt/ de 23 de março de 2017.

mais informações na notícia do Joint Research Centre (JRC):

Connected dolls and tell-tale teddy bears: why we need to manage the Internet of Toys

A privacidade e segurança das crianças e famílias podem estar em causa com a proliferação de brinquedos ligados à internet, alerta um relatório do Centro Comum de Investigação da Comissão Europeia, divulgado nesta quinta-feira.

No documento, o centro defende a necessidade de monitorizar e controlar a emergente “Internet dos brinquedos” e destaca como principais áreas de preocupação a segurança e a privacidade, tendo em conta que há novos brinquedos que podem gravar, armazenar e partilhar informações sobre as crianças.

Grande número de brinquedos conectados foram postos à venda nos últimos anos, devendo o volume de negócios deste novo segmento de mercado chegar aos 10 mil milhões de euros até 2020, contra 2,6 mil milhões em 2015.

A “Internet dos brinquedos” surge sob diferentes formas, desde relógios inteligentes a ursos de peluche que interagem com as crianças. Estão ligados à Internet e, em conjunto com outros aparelhos formam a “Internet das coisas”, levando a tecnologia para a casa das pessoas como nunca antes.

Uma equipa de cientistas do centro e especialistas internacionais analisaram as questões de segurança e privacidade e ligadas à socialização decorrentes da ascensão da “Internet dos brinquedos”. E convida, no relatório, os decisores políticos, a indústria, os pais e os professores a estudar a questão em profundidade, para proporcionar uma estrutura que garanta que esses brinquedos são seguros e benéficos para as crianças.

Na área da robótica, diz-se no documento, são cada vez mais os brinquedos robóticos ou com inteligência artificial, embora ainda se saiba pouco sobre as consequências da interacção dos mais jovens com os brinquedos robóticos, sendo possível que representem uma oportunidade, mas também um risco para o desenvolvimento cognitivo, socio-emocional e desenvolvimento moral e comportamental.

Alerta aos pais

Parecendo certo que podem por exemplo ajudar na aprendizagem de línguas estrangeiras, ou em casos como o autismo, também podem aumentar o risco de “bolhas educacionais”, onde as crianças só recebem informação que se ajustam aos seus interesses pré-existentes, como acontece na interacção dos adultos nas redes sociais.

Outra questão levantada pelo relatório diz respeito à forma como os dados recolhidos pelos brinquedos são analisados, manipulados e armazenados. O documento diz que esta não é transparente e representa uma ameaça emergente para a privacidade das crianças.

Lembra o relatório que os dados fornecidos pelas crianças enquanto brincam, como sons, imagens e movimentos registados pelos brinquedos online são dados pessoais, protegidos pela lei.

Outra preocupação registada, esta de mais longo prazo, relaciona-se com o crescimento numa cultura em que seguir, registar e analisar as escolhas diárias das crianças é considerado normal mas pode moldar o comportamento e o desenvolvimento dos jovens.

No relatório apela-se à indústria e aos decisores políticos para criarem uma estrutura que actue como um guia de utilização da tecnologia, forma de ajudar também os fabricantes a enfrentarem os desafios do novo Regulamento Europeu de Protecção de Dados, que entra em vigor em maio de 2018 e que aumenta o controlo dos cidadãos sobre os seus dados pessoais.

O documento apela ainda aos pais que entendam como as crianças interagem com os brinquedos em rede e quais os riscos e oportunidades para o desenvolvimento, além de se informarem sobre as capacidades, funções, medidas de segurança e configurações de privacidade dos brinquedos.

 

 

Vidas Suspensas – Conflitos parentais destroem as crianças

Abril 27, 2017 às 10:00 am | Publicado em Vídeos | Deixe um comentário
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Reportagem da http://sic.sapo.pt/ de 17 de abril de 2017.

Visualizar a reportagem no link:

http://sic.sapo.pt/Programas/vidas-suspensas/videos/2017-04-17-Vidas-Suspensas—Conflitos-parentais-destroem-as-crianças

 

Geração i. Eles têm menos problemas com as drogas que os pais

Abril 27, 2017 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do https://ionline.sapo.pt/ de 13 de abril de 2017.

Têm hábitos de consumo de drogas diferentes dos pais e dos avós. A Geração i dedica esta edição à troca de experiências inebriantes entre gerações.

Eles gostam da noite, gostam das conversas até às tantas, gostam de dançar sem parar e gostam de experimentar coisas novas, tal como os jovens de todas as outras gerações. As drogas não são novidade para a geração dos millennials, mas quem viveu os tempos mais negros do uso de substâncias ilícitas foram as geração anteriores à que teimamos chamar Geração i.

Em Portugal sabe-se que foi com a Revolução dos Cravos que as ondas de substâncias psicoativas começaram a inundar uma sociedade mal habituada no que à liberdade dizia respeito.

“O consumo de substâncias ilícitas em Portugal ganhou expressão depois do 25 de Abril e a grande diferença para com outros países europeus foi que muitos dos consumidores de então vieram a ter um uso problemático. Subitamente, as pessoas experimentavam e, quando davam por elas, estavam dependentes”, explica João Goulão, diretor-geral do Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD), que garante que o consumo de droga tem hoje um menor impacto na saúde individual e coletiva do que no passado.

No livro “LX 70”, de Joana Stichini Vilela, lê-se: “A novidade está na democratização. Se, antes do 25 de Abril, as drogas eram de acesso quase exclusivo a estrangeiros ou gente viajada, logo em 1975. o responsável da secção de narcóticos da Polícia Judiciária afirma que ‘o consumo tem aumentado assustadoramente’. Multiplicam-se os desvios das unidades de saúde e, a partir de meados de 1977, tornam-se vulgares os assaltos a farmácias.” Já na altura, os mais jovens tinham especial adoração pelas drogas sintéticas: “A juventude adora speeds, drogas legais consumidas de forma criativa.”

Orgia de sensações

“Naquele tempo vivíamos uma orgia de sensações, era impossível resistir, todos os dias chegavam novidades a Lisboa”, conta ao i Alverga, de 55 anos, agora emigrada, que experimentou do haxixe à erva, da coca à heroína, do LSD aos speeds:“Para nós era espetacular, proporcionava-se uma onda de experimentações, era o início da era dos concertos, era a camaradagem. O regime tinha acabado e nós fomos levando aquilo numa corrente de vontade de sermos iguais ao resto do mundo.”

Alverga explica que nunca houve falta de informação – não havia internet, mas sabia-se o que se estava a experimentar. A grande diferença entre gerações, na sua opinião, é que a dos pais dos jovens da sua geração não faziam ideia em que é que os filhos estavam metidos, não havendo noção de que se começavam a perder: “Estou a falar da minha visão, de alguém que sobreviveu a tudo isto e está a contar porque está viva, mas tive amigos meus que morreram de overdoses, de danos colaterais como a sida, pessoal que se meteu na prostituição, que se suicidou, que foi preso, que ficou louco. Agora, como tudo na vida, ao fazermos as experiências, há quem consiga passar pelas coisas de forma experimental, sem se deixar levar pela degradação, e a minha geração teve, penso eu, as duas partes. Era tudo perfeitamente consciente, só que os nossos pais nunca o tinham feito. Por isso, não conseguiam perceber os sintomas e o que andávamos a fazer. Os pais de hoje sabem porque muitos experimentaram; então, podem guiá-los.”

João Goulão, especialista no cenário português, confirma: “É verdade que há muito consumo hoje em dia, mas os impactos na saúde pública são muito menores do que noutras alturas. É uma geração mais aberta, o que é uma das grandes diferenças, também ocasionada pelo facto de o consumo ter deixado de ser considerado um crime. Há uma maior abertura para discutir o assunto em muitos contextos, desde o familiar ao laboral e às escolas. As pessoas falam mais abertamente e pedem ajuda com muito mais facilidade. A evolução continua a ser globalmente positiva.”

Goulão elucida que “hoje em dia há muito consumo que não conduz necessariamente à dependência. É uma geração muito informada, os problemas ocasionados por drogas são percentualmente muito inferiores aos que ocorriam há 20 anos”.

O álcool também é droga

Entre todas as gerações, “a canábis sempre foi, de longe, a substância ilícita mais consumida, a seguir ao álcool, que é lícito”, conclui. José Henrique dos Santos, psicólogo clínico e um dos autores do Plano Nacional de Prevenção de Suicídio, descreve a alteração de consumos: “A grande mudança é que, nas duas gerações mais recentes (millennials e geração Z) há um consumo muito de grandes volumes e quantidades de álcool num tempo muito reduzido, o conhecido binge drinking. Hoje em dia utiliza-se muito este padrão e é por isso que existem os shots, que são autênticos tiros na cabeça. Em relação às gerações anteriores, o padrão de consumo era diferente. Era um padrão que normalmente assentava em quantidades diárias, com um consumo mais regular, mas mais contido. Mesmo com o tabaco vê-se este padrão: não fumam, mas ao fim de semana desforram-se, comportamentos típicos das culturas do norte da Europa.”

As estatísticas comprovam

De acordo com o Instituto Nacional sobre o Abuso de Drogas (NIDA), nos Estados Unidos da América, os millennials realmente usam menos drogas e menos álcool do que os seus pais. O uso de drogas entre adolescentes diminuiu mais de 34% entre 1993 e 2013, um período de tempo crucial que abrangia a adolescência de quase todos os pertencentes à geração millennial.

Em Portugal, os dados também confirmam essa realidade e ainda apontam para que a tendência se mantenha para as próximas gerações. As conclusões constam do European School Survey Project on Alcohol and other Drugs (ESPAD), feito entre 2011 e 2015 junto de alunos que completaram 16 anos no ano da recolha de dados.

Relativamente às drogas, a percentagem de alunos que até aos 16 anos já tinham experimentado está a estabilizar: 16% em Portugal (18% média europeia), sendo a canábis a mais experimentada, e a mais consumida no último ano e no último mês.

As novas substâncias psicoativas são mais consumidas em alguns países do que “outras drogas”, sendo a média europeia de experimentação de 4% e, em Portugal, apenas 1%.

Também o consumo de álcool e tabaco entre jovens até aos 16 anos tem vindo a diminuir na Europa, com Portugal a situar-se abaixo da média europeia, mas ainda assim com consumos elevados de bebidas alcoólicas.

 

 

 

O 25 de Abril contado às Crianças e aos Outros – 30 de Abril, às 16h, na livraria Tigre de Papel em Lisboa

Abril 26, 2017 às 8:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Leitura para crianças por Joana Patricio, a partir de O 25 de Abril contado às Crianças e aos Outros, de José Jorge Letria
Domingo, 30 de Abril, às 16h, na livraria Tigre de Papel | entrada livre

Todos os anos têm um mês de Abril e todos os meses de Abril têm um dia 25. Porém, o dia 25 de Abril de 1974 foi um dia especial para os portugueses. Porquê? Porque o país e os seus habitantes voltaram a viver em liberdade, depois de quase cinquenta anos de tristeza e de silêncio.
Diz José Jorge Letria: «Eu tenho a certeza que em casa ou na escola já te falaram do 25 de Abril, mas não sei o que te disseram sobre o seu significado e a sua importância para a vida de Portugal. É por isso que vou contar-te esta história. Uma história pessoal como todas as histórias, mas que envolve muito do que é a minha memória sobre esse dia e sobre tudo aquilo a que ele veio pôr fim.»
O dia 25 de Abril de 1974 vale por si mesmo, ou seja, por aquilo que aconteceu nessas vinte e quatro histórias. Mas vale, principalmente, por aquilo com que acabou e por aquilo a que deu início.
E assim também começa este livro, especialmente escrito a pensar nos pequenos e jovens leitores, nos seus pais, nos seus familiares e nos seus amigos.

mais informações no link:

https://www.facebook.com/events/115790848981109/

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Abril 26, 2017 às 3:15 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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As casas de banho escolares – falar disto agora para resolver até setembro…

Abril 26, 2017 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Mário cordeiro publicado no https://ionline.sapo.pt/ de 11 de abril de 2017.

Pouco se fala do assunto, mas as consequências podem ser graves. Depois de ler este artigo, o leitor, seja pai, professor, diretor de escola ou meramente cidadão, faça o que puder para que as coisas melhorem!

As más condições das casas de banho escolares são um problema frequente no dia–a-dia das crianças. A maioria das crianças evitam usar a casa de banho da sua escola, muitas delas durante todo o dia.

As razões apontadas – e que poderiam sê-lo por qualquer leitor – incluem: cheiro desagradável, sujidade, portas que não fecham e falta de privacidade, sanitas partidas, ausência de papel higiénico, vandalismo e graffiti nas casas de banho, localização inconveniente das mesmas, o facto de estas se encontrarem por vezes trancadas e, em muitas escolas, só se poderem usar nos intervalos, em que a chusma de crianças a necessitar de ir à casa de banho é grande e, naqueles escassos 15-20 minutos, muita outra coisa há a fazer.

A falta de privacidade é o problema principal referido pela maioria das crianças; num estudo que fizemos, 70% relataram existência de urina e fezes no chão, paredes ou assento da sanita. Neste mesmo estudo, perto de quatro quintos das crianças referiram que as casas de banho eram “sujas, desagradáveis, a cheirar mal, assustadoras e locais de bullying”.

A retenção urinária e fecal por recusa de usar as casas de banho escolares são causa de problemas de saúde, psicológicos e educacionais significativos. No primeiro ciclo, as crianças estão a aprender os hábitos higiénicos, pelo que é fundamental adquirir comportamentos visando autonomia, intimidade e uma boa sexualidade, o que obriga a um nível mínimo de qualidade das instalações sanitárias.

Ao longo do tempo, a retenção pode levar a uma situação conhecida como síndroma de eliminação disfuncional, com um padrão alterado de micção e defecação, e com obstipação, micção infrequente ou síndroma da bexiga preguiçosa. Esta situação pode dar dor abdominal, levar a não conseguir reter as fezes (encoprese), infeções urinárias recorrentes, urgência miccional, enurese, refluxo vesico-ureteral e até lesões renais.

É sabido, também, que a melhor posição para o esvaziamento da bexiga é a posição sentada, com apoio para as coxas e os pés, e o corpo ligeiramente dobrado para a frente. Pois… mas, na prática, 85% das mulheres que usam as casas de banho públicas normalmente agacham-se quando o fazem, resultando num aumento de cerca de uma vez e meia do volume urinário residual. Do mesmo modo, em escolas com sanitas sujas e sem assentos, as meninas tendem a agachar-se para não tocarem nas sanitas, o que pode levar a uma micção incompleta e aumentar o volume residual urinário, com aumento do risco de disfunção vesical e infeção urinária.

Por outro lado, a pressa que as crianças têm de se “despachar”, entre outras razões para evitar o contacto com o assento da sanita, faz com que se verifiquem situações em que a urina reflui para a zona vulvovaginal, molhando depois as cuecas quando se levanta, o que é uma situação muito desagradável do ponto de vista psicológico.

Algumas crianças referem beber menos líquidos, com vista a terem de ir menos à casa de banho, mas isso pode levar a uma leve desidratação, que resulta em menor atenção, irritabilidade, mau humor e falta de concentração, e também aumentar o risco de infeção urinária ou obstipação.

Além destes efeitos físicos, os problemas causados por casas de banho escolares inaceitáveis podem provocar ansiedade e vergonha, especialmente nas crianças que acabam por sofrer de incontinência, podendo ser vítimas de bullying, o que afeta o rendimento escolar, com mais baixa autoestima, pior desempenho e mal-estar na escola.

Sabe-se igualmente que uma em oito meninas (cerca de 12,5%) tem o primeiro período menstrual (menarca) durante o 1.o ciclo e a ausência de condições sanitárias das casas de banho escolares, desde a falta de privacidade (casas de banho mistas) a outros pormenores, como a ausência de caixotes de lixo, pode tornar a menstruação uma experiência traumática que afeta a criança e perturba o desenvolvimento de uma sexualidade saudável.

É ainda de referir a importância das condições higiénicas na disseminação de doenças, designadamente gastroenterites e hepatite A, através da utilização de assentos, sabonetes ou torneiras contaminadas, ainda por cima quando sabemos que a utilização é feita nos intervalos, altura em que as crianças comem os lanches da manhã e da tarde, bem como antes das refeições principais, o que facilita a contaminação se houver má higiene.

Muitos pais “bramem”, nas reuniões de pais, por causa do “tamanho da maçã” ou porque “o Manel deu um encontrão ao Zé”, mas raramente referem as condições das casas de banho como um problema – e muitas direções escolares assobiam para o lado e ignoram a questão. Além disso, existe uma lacuna na legislação, a nível europeu. Em Portugal apenas existem algumas recomendações da responsabilidade do Ministério da Educação, que são escassas e insuficientes, e uma breve referência na Circular Normativa do Ministério da Saúde.

É necessário, pois, falar deste assunto sem papas na língua e que os jornalistas façam reportagens, pressionem e levantem questões a quem de direito – não esqueçamos que estamos a falar de crianças do 1.o ciclo, que ainda estão numa fase inicial da aprendizagem das regras de promoção de saúde e num contexto que deve ser eminentemente educativo e modelar.

Só para dar um exemplo de medidas que se podem tomar se se quiser fazer alguma coisa: num país escandinavo verificou–se que os meninos gostavam de pegar na sua “mangueirinha” e “regar” em todas as direções. Resposta: para lá de sermões, conselhos e normas, pintaram-se alvos em círculos, dentro da sanita. Resultado: as crianças passaram a querer acertar no “100” e deixaram de molhar o resto. Simples, não é? Aqui fica, à atenção de quem de direito. Com imaginação, criatividade e colaboração dos próprios alunos, conseguir-se-ão grandes avanços… mas só depois de reconhecer esta situação como um verdadeiro problema de saúde pública.

 

 

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