#MovimentoViverIntensamente – Entrevista de Melanie Tavares do IAC na TSF

Junho 22, 2020 às 6:00 am | Publicado em O IAC na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista da Dra. Melanie Tavares, Coordenadora dos Sectores da Actividade Lúdica e da Humanização dos Serviços de Atendimento à Criança do Instituto de Apoio à Criança à TSF Pais e Filhos de 18 de junho de 2020.

Ouvir o programa Aqui

https://viverintensamente.com/

Não é tanto a pandemia. É mais o que rodeia os mais novos

Junho 16, 2020 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Notícias Magazine de 11 de junho de 2020.

Contexto familiar e forma como a covid-19 é “desmontada” determinam potenciais consequências dos tempos de crise sanitária global nos mais novos.

Ana Tulha

Caso um. Em conversa com a psicóloga, uma criança questiona, inconformada: “Mas se as creches já abriram, até os restaurantes, porque é que não posso ir para a minha escola? Tenho saudades de estar com os meus amigos e com os meus professores”. Caso dois. Um menino vai com os pais visitar o novo primo. Lá chegado, recusa entrar. Mesmo com máscara. Explicação: tem medo de infetar o bebé.

Caso três. Uma criança já com antecedentes da ansiedade verbaliza a angústia que lhe tolhe o peito: “E se os meus pais, como continuam a trabalhar fora, ficam doentes e morrem?”. Caso quatro. Uma menina, fechada em casa há semanas para proteger o irmão que sofre de doença neoplásica, desabafa: “Estou farta de estar rodeada de mim mesma”.

Estes e outros casos têm chegado a gabinetes de psicólogos e pedopsiquiatras pelo país fora. Em tempos de covid, de semanas a fio de confinamento, de suspensão das aulas presenciais e atividades extracurriculares por tempo indeterminado, a pergunta emerge: que impacto pode a pandemia ter nos mais pequenos?

A questão encerra uma miríade de nuances, do contexto familiar a possíveis históricos de ansiedade e transtornos obsessivo-compulsivos. Ou simplesmente à faixa etária em causa.
Cristina Costa, psicóloga clínica que tem na infância e adolescência a principal área de intervenção, partilha a sua perceção.

“Aquilo que tenho sentido é que, no caso de crianças em idade pré-escolar, estão a gostar de estar em casa, sobretudo porque os pais têm mais tempo para elas. As crianças entre os seis e os dez anos é que já as tenho notado mais ansiosas. Depois, a partir de uma certa idade, torna-se mais simples porque já têm telemóveis e redes sociais mais acessíveis para manterem contacto com os amigos.”

A perspetiva de profissional é complementada pela visão de mãe. “Tenho dois filhos, uma com 11 anos e um com sete. A minha filha tem sido muito pragmática. Vai mantendo contacto com os amigos e diz que temos é de enfrentar isto. O meu filho já anda mais triste, mais ansioso. Ainda há uns dias os meus pais vieram cá e ele foi logo buscar o álcool, preocupado.”

Também a pedopsiquiatra Lia Moreira tem notado reações distintas consoante a faixa etária. “A maior parte dos miúdos até aos dez anos está bem em casa, até porque tem na família o núcleo central. A partir da adolescência já começa a fazer mais falta o grupo de pares.”

Realista e não alarmista

O contexto familiar tem um papel decisivo na forma como os mais pequenos lidam com as restrições próprias da pandemia. E mesmo com eventuais sequelas que ela possa deixar. “Se a criança está inserida num meio familiar em que as pessoas são alarmistas e os pais não conseguem gerir o que se está a passar, tendencialmente também não vai saber lidar”, aponta Cristina Costa.

Também aqui há nuances específicas que podem revelar-se decisivas. Eventuais dificuldades financeiras, tão prementes nesta fase farta em lay-offs e despedimentos, são um bom exemplo disso. Quando tal não acontece, e quando mesmo o medo do vírus e os cuidados a ter são normalizados, o prognóstico, ao nível do impacto nas crianças, é naturalmente mais risonho.

“Se a família conseguir filtrar as preocupações, os mais novos acabam por não ter medo. O impacto que a situação possa ter dependerá sempre da reação dos adultos e da forma como eles conduzem a comunicação que deve ser realista, mas não alarmista”, enfatiza o pedopsiquiatra Ivo Peixoto.

O facto de haver antecedentes – ou seja, de já se tratar de uma criança com um perfil mais agitado ou mesmo com transtornos de ansiedade – também pesa, pois. Ora, se a isso se juntar uma envolvência desfavorável, poderemos mesmo estar a falar de consequências a médio e longo prazo.

“Se crescer rodeada de mensagens catastrofistas, com uma perceção de insegurança, vai obviamente sentir um desconforto. No mínimo. Eventualmente, pode mesmo haver um impacto no desenvolvimento da própria personalidade. Poderão tornar-se adultos mais suscetíveis a potenciais ameaças e mais inseguros nas relações, menos capazes de aproveitar as coisas boas.”

O especialista tem notado um aumento do número de pais que leva os filhos a uma primeira consulta de pedopsiquiatria, e estima que parte considerável desta subida seja motivada por situações relacionadas com a covid. No entanto, não considera que o crescimento da procura se traduza numa degradação substancial da saúde mental das crianças.

“É verdade que tem havido um agravamento de patologias de base e o aparecimento de novos sintomas em miúdos potencialmente saudáveis. Mas isto também tem muito que ver com o facto de os pais estarem mais em casa e se aperceberem com muito mais facilidade das dificuldades que os filhos enfrentam. Nesta fase, os pais estão sem dúvida mais alerta.”

O tempo do confinamento, da convivência escolar e entre pares em suspenso até sabe-se lá quando, é também o tempo do contacto físico proibido, dos afetos negados, do distanciamento social altamente recomendado. Os especialistas concordam que, à exceção dos mais pequenos, que não têm noção das restrições, a ideia da prudência no toque é regra geral aceite e respeitada pelas crianças.

Mas o facto de se verem privados da proximidade física numa fase tão precoce da vida pode trazer consequências para o futuro? Mais uma vez, Ivo Peixoto entende que a resposta a esta pergunta terá mais que ver com a envolvência em que se encontram. “O risco deste distanciamento social, para todos nós, é fazer com que nos fechemos mais e percamos mais competências sociais. Quanto aos mais novos, é óbvio que se os adultos tiverem mais parcimónia, eles tendem a reproduzir esses modelos. Mas acho que isso terá mais que ver com o código de conduta que será adotado pela sociedade daqui para a frente. Os miúdos tendem a adaptar-se com facilidade.”

Para os mais pessimistas (ou preocupados), vale a pena assinalar a visão da pedopsiquiatra Lia Moreira. “Eu até vejo isto numa perspetiva positiva. Mesmo em termos pessoais, com os meus filhos, não tenho tido uma má experiência. Noto que brincam mais juntos do que alguma vez brincaram. E esta questão da responsabilidade social, do uso da máscara, do cuidado que temos de ter connosco e com os outros, esta capacidade empática, pode trazer influências positivas.”

“Há algumas famílias que se sentem muito aliviadas com a situação presente”

Maio 14, 2020 às 8:00 pm | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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Texto do Público de 3 de maio de 2020.

Ao fim de quase dois meses de confinamento, há famílias que olham para este período com cansaço. Porém, há também quem descreva estes tempos como uma oportunidade — e não esteja ansioso pelo desconfinamento.

Carla B. Ribeiro

O isolamento deixou alguns sozinhos, mas também fez que outros ficassem mais acompanhados do que nunca: sempre pelas mesmas pessoas, num mesmo espaço, onde todos se desdobram em múltiplas personagens.

“O mais parecido que tivemos com isto foram as férias quando os miúdos eram mais pequenos — e é sempre uma situação diferente”, recorda Luís Castelo. “Antes, passávamos o dia todo sem nos vermos; cruzávamo-nos ou não ao pequeno-almoço, mas cada qual tinha a sua própria rotina. À noite, sim, jantávamos juntos.” A maior dificuldade deste intenso convívio, com os miúdos com as aulas à distância e a mulher em teletrabalho de forma contínua, é “lidar com o facto de que qualquer questão pode ser amplificada e a tensão precisa de mais tempo para se dissipar”.

A tensão alimentada por “um medo difícil de identificar” tornou-se, como descreve a psicóloga e terapeuta familiar Sofia Nunes da Silva, “um elemento novo e invisível no seio de muitas famílias”, considerando que para o combater “a receita, às vezes, não é falar mais, mas optar por actividades prazenteiras que não obriguem ao diálogo”, evitando, assim, a escalada de um conflito que noutra altura não o seria. Quando se atinge um clímax, Sofia Nunes da Silva diz que se pode recorrer aos serviços da Sociedade Portuguesa de Terapia Familiar que, desde 6 de Abril, tem uma linha de apoio (+351 213 555 193), onde diariamente têm chegado alguns pedidos de ajuda.

Porém, explica, o que é essencial para não se chegar a esse ponto é “definir fronteiras; respeitar espaços e tempos individuais, deixando o encontro para, por exemplo, o tempo da refeição”.

regra dos encontros à refeição, explica Luís Castelo, é o que tem ajudado a que o quotidiano corra de feição: “Definir uma hora de almoço e uma de jantar deu-nos uma disciplina importante”, diz, acrescentando que assumiu as tarefas do dia-a-dia por ter mais disponibilidade (o espaço onde trabalha está encerrado; estando a leccionar algumas aulas à distância). “Excepto lavar a loiça; tenho sempre a boa desculpa de já ter feito a refeição!”

“Não estamos mal em casa juntos, mas também sabemos que saudável não é.” No entanto, refere, sente que têm sorte por ter acontecido agora: “Os nossos filhos já são adultos [de 20 e 22 anos]; quem tem crianças ou jovens deverá ter mais dificuldades.”

Gerir os tempos em família

Maria (nome fictício), casada e com uma menina de 7 e um menino de 2 anos, reforça a teoria de Luís Castelo. “É positivo estar mais tempo com os filhos, mas há dias em que não os posso ver nem pintados de ouro”, gargalha, ao mesmo tempo que relata já ter tido reuniões com os dois “literalmente em cima” de si.

“Quem está em teletrabalho de uma forma mais intensa terá mais dificuldade em gerir os tempos em família”, sintetiza a terapeuta familiar Sofia Nunes da Silva. E é esse o caso de Maria.

Estando, desde o início do primeiro estado de emergência, em teletrabalho na área da saúde e segurança ocupacional — o que significa que tem tido mais que fazer do que noutras alturas —, tenta conciliar as responsabilidades laborais com os dois filhos. Tem-lhe valido, refere, o facto de o marido ter sido dispensado de se apresentar ao serviço e de este apoiar ambas as crianças.

No entanto, mesmo que confesse as saudades “do silêncio dos tempos de condução, de ir ao café, dos almoços em casa dos pais”, encara estes dias como “uma oportunidade para a família crescer em conjunto”, com pontos negativos e outros que compensam. É que, se, por um lado, sente falta da ajuda preciosa que era ter uma empregada doméstica uma vez por semana, por outro, envolve hoje a filha mais velha em tarefas domésticas que nunca tinha tentado antes.

Nem tudo são rosas: nota que a criança manifesta muitas saudades da escola e dos amigos, e até alguma irritação — “odeia a telescola”, conta. Um estado de espírito presente em muitos dos mais pequenos com que Sofia Nunes da Silva tem falado. “De uma forma geral, têm saudades do convívio”, ainda que ressalve que a maioria não manifesta vontade de sair de casa, não tanto pelo medo, mas pelo sentimento de conforto. A psicóloga reforça, no entanto, a ideia de que também os pais têm de dar espaço aos filhos, que também não estavam habituados de estarem permanentemente sob o controlo parental: “Não podem achar, por exemplo, que passaram a ser também os professores.”

Ao sabor dos filhos

A forma como se tem lidado com o tempo de confinamento não depende apenas de se estar em teletrabalho ou da idade das crianças da casa. O temperamento dos filhos também acaba por marcar o passo. “Pais com filhos mais rebeldes vêem-se em situações difíceis”, explica a psicóloga. E o mesmo se passa quando os pais passam o tempo a adaptar a sua abordagem a cada criança.

Em teletrabalho tal como a mulher, Paulo Dinis tem o seu dia dividido entre estar atento ao trabalho e em simultâneo lidar com a preocupação da mais velha, de 8 anos, com a reguilice da do meio (“com 5, não leva nada a sério”) e com a “capacidade de inventar” do mais novo, com 2 anos. Tem ajudado a manutenção de regras: “Mantêm os mesmos horários de irem para a cama, de almoçar, jantar.”

“Não está a ser fácil, mas também tem sido uma oportunidade para fazermos coisas que não faríamos noutra situação, como voltar aos jogos de tabuleiro.” Por outro lado, sente que este tempo o ajudou a ser capaz de se lembrar de si próprio quando tinha as idades das suas crianças — e a ser mais tolerante.

Isabel também tem a casa cheia — até mais do que antes. A si, ao marido, aos três filhos (de 13, 16 e 18 anos), aos três cães e aos dois gatos juntaram-se a cunhada e a cadela desta. “Vivemos numa casa dividida por andares, o que ajuda” e, com os três miúdos com aulas e todos os adultos em teletrabalho, “às vezes só nos encontramos ao fim do dia ou às refeições”.

A primeira fase foi mais complicada, mas os próprios miúdos acabaram por ajudar à organização e, numa operação digna de qualquer programa televisivo, criaram um quarto a partir de um escritório, conseguindo cada qual o seu próprio espaço.

Também a gestão das tarefas da casa mudou. Antes, havia uma pessoa que assegurava as limpezas maiores, ficando para si a manutenção. Agora, sem essa colaboradora (“ficou como nós: a trabalhar em casa”, brinca) todos cooperam: “Ao sábado, cada um ocupa-se de diferentes áreas e tarefas.”

Mesmo assim, e apesar de considerar que está tudo a correr bem, há dias mais complicados: “Não sou à prova de bala”, desabafa. E já aconteceu meter “um dia de folga” — e a família respeitou.

O quebrar da rede

Do que Isabel sente mais falta é do jantar semanal com a família completa. “Tínhamos uma rotina que implicava que, todas as quartas-feiras, os avós iam buscar os três à escola e traziam-nos para casa para jantarmos todos.”

A rede de apoio com que contava, dos pais e dos sogros, também é uma das coisas que Catarina Coutinho mais sente falta, não vendo a hora de regressar ao ritmo que tinha antes. “Uma coisa é estar em casa por opção, outra é estar por obrigação.”

Professora e a dar aulas numa escola a cinco minutos da residência, o que implicava não sofrer com o trânsito e até às vezes poder ir almoçar a casa, explica que o facto de a sua vida entre a casa e o trabalho ser relativamente fácil faz com que sinta tanta falta do antes.

Além disso, com um rapaz de 7 anos, tinha toda a semana programada num esquema em que contava com o apoio dos avós: “O meu filho está tão bem comigo como com os meus pais ou sogros.” Isso permitia-lhe “não andar a correr” e, algumas vezes, ter momentos sociais de ir jantar fora, ir a um concerto, enquanto, relata, o rapaz contava com todo o mimo dos avós e as brincadeiras com os primos.

O mais complicado, nas duas primeiras semanas, foi gerir a casa, sem a empregada de limpeza que ia uma vez por semana e com todas as refeições — “e com um miúdo de 7 anos não dá para ser qualquer coisa ao almoço”. Depois, ao longo do dia, multiplica-se entre ser professora do filho, professora dos seus alunos, mãe, etc. Por tudo isto, e apesar de sublinhar estar grata por estarem bem e por gerirem o dia-a-dia em casal sem nenhuma dificuldade, está desejosa de voltar ao normal.

Esse antes é, pelo contrário, o lugar onde Ana Conceição não quer voltar. “Quase me sinto culpada por dizer isto e sei que há muita gente a sofrer, mas nunca vi isto [de ficar em casa fechada em família] como uma coisa má.”

A terapeuta Sofia Nunes Silva explica que, enquanto as pessoas que estavam mais apoiadas terão maior vontade de regressar ao estado anterior, “há algumas famílias que se sentem muito aliviadas com a situação presente”.

É o caso de Ana Conceição, mãe de duas meninas em idade pré-escolar, cujo dia-a-dia implicava muito tempo no trânsito e demasiadas horas fora de casa. E, apesar de se ter mantido em teletrabalho, tal como o marido, e de afirmar que tem sido “muito cansativo”, não lhe passa pela cabeça queixar-se: “Eu pedi isto muitas vezes: ter tempo para ver as minhas filhas a crescer.” Já o tempo que passava no trânsito, passou a dedicá-lo ao seu hobby: o desenho.

Para conseguir aproveitar, porém, teve de prescindir da ideia de ter sempre a casa imaculada, ainda que a divisão das tarefas em casa seja natural e feita de forma equilibrada e, por isso, não tenha sido um factor de stress.

Sente falta de algumas coisas, como das pausas no trabalho: “Em casa, as pausas do teletrabalho representam outro trabalho.” Mas aquilo de que tem mesmo saudades é do silêncio. “De vez em quando, compro-o, dando acesso às pequenas ao telemóvel, que não costumam ter”, confessa, num tom de voz em que se percebe o sorriso de quem encontrou ferramentas para atingir o equilíbrio.

Sessão “Os Direitos da Criança em contexto escolar e familiar” com Paulo Guerra, 18 março em Rio de Mouro

Março 10, 2020 às 6:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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No âmbito do Projeto Sintra ES+, realiza-se no dia 18 de março, às 17:30, no auditório da Escola Secundária Leal da Câmara, uma sessão sobre INCLUSÃO/Direitos das crianças em contexto escolar e familiar (Veja aqui o cartaz) dinamizada pelo  Juiz Desembargador Paulo Guerra.
Esta intervenção permitirá uma reflexão e um trabalho de partilha entre os  diferentes agentes da comunidade educativa sobre o tema.
A participação  está sujeita a uma inscrição prévia através do link infra: https://forms.gle/go8T2bSVJwTPiCMEA

Telemóveis à mesa? O alerta “oportuno” do Papa

Fevereiro 17, 2020 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Snews

Notícia e imagem do Educare de 5 de fevereiro de 2020.

Sara R. Oliveira

O mundo já não vive sem tecnologia e os dispositivos móveis fazem parte do cérebro dos nativos digitais. Há, porém, momentos de convívio que não merecem ser perturbados. As refeições em família são tempos de comunicação por excelência. O que fazer? Como usar esse objeto que tanto aproxima como afasta?

No último domingo de 2019, dia da Sagrada Família, o Papa Francisco saiu ligeiramente do seu discurso durante a habitual missa no Vaticano, em Roma, Itália, para lançar uma pergunta incómoda na era da globalização e do mundo tecnológico e digital. “Na tua família, sabes comunicar ou és como aqueles jovens que estão à mesa com o telemóvel, a conversar no chat?”, perguntou para avisar que a comunicação em família é fundamental e não pode ser negligenciada. Este alerta do Papa volta a centrar as atenções num tema pertinente e atual. Os telemóveis não devem fazer parte das refeições. “Devemos reanimar a comunicação na família”, pediu.

“Do Telemóvel para o Mundo. Pais e Adolescentes no Tempo da Internet” é o título do mais recente livro de Daniel Sampaio, psiquiatra e professor catedrático. “O apelo do Papa é oportuno, mas não se deve criticar o uso dos telemóveis, que são muito importantes para comunicar com o mundo”, refere ao EDUCARE.PT. E, como sustenta no seu livro, “ninguém deve ter telemóveis à mesa (filhos e pais)”. “Os telemóveis devem ser desligados antes da hora de dormir”, acrescenta.

Nesse livro, Daniel Sampaio recupera a expressão “galáxia internet”, termo do sociólogo espanhol Manuel Castells, para sublinhar e reafirmar que hoje é impossível viver sem internet e que o número de utilizadores aumenta todos os dias. “Os jovens são os habitantes mais ativos desta nova galáxia e por vezes até a glorificam em excesso. A realidade é que os adolescentes não são capazes de viver sem internet e é bom que pais e professores se convençam disso”.

O telemóvel já faz parte do cérebro e do corpo dos jovens. Não há volta a dar, não adianta afirmar o contrário. Esta é uma das mensagens principais do livro de Daniel Sampaio que explica que a constatação não tem necessariamente de ser uma coisa má. Esse objeto permite contactar muita gente, marcar uma viagem, um jantar, um encontro, uma festa. Um pequeno objeto que cabe na palma de uma mão e que é uma porta aberta para o mundo. Não há distâncias, não há barreiras. “Tudo isto deve ser aproveitado. Estamos num mundo novo e é fundamental que pais e filhos se encontrem nesse mundo e que o telemóvel não seja apenas um motivo de conflito”, escreve Daniel Sampaio.

Tito de Morais, fundador do projeto MiudosSegurosNa.Net, que ajuda famílias, escolas e comunidade a promover a segurança online, considera a declaração do Papa sobre os telemóveis “extremamente oportuna”. “A utilização de dispositivos móveis durante as horas das refeições está a destruir a comunicação familiar e o próprio tempo de refeição”, refere ao EDUCARE.PT. E, a propósito, lembra um episódio contado por uma amiga pediatra que ao explicar a uma mãe que às refeições não deveria haver intromissão de aparelhos tecnológicos, essa mãe perguntou o que era isso de refeições, contando que, em sua casa, cada um se servia do tacho na cozinha. Ela ia para a sala ver televisão enquanto comia e o filho para o quarto comer enquanto jogava.

Entrar num restaurante fundamenta a preocupação do Papa, segundo Tito de Morais. “Rara será a mesa com crianças em que estas não estejam hipnotizadas pelo telemóvel ou pelo tablet. Os pais estarão também provavelmente grudados à televisão”. O problema é os pais não terem noção de que se estão a retirar de um tempo único, cada vez mais raro, de convívio e diálogo com os filhos. “Quando se aperceberem do erro que cometeram e procurarem repor esse tempo, já irão tarde demais e dificilmente o conseguirão fazer, por duas razões: o tempo que se perdeu, está perdido, não volta para trás, e já desenvolveram nos filhos, ao longo de anos, um hábito e uma rotina e, como sabemos, hábitos e comportamentos são das coisas mais difíceis de alterar”.

Nem smartphones, tablets ou televisões ligadas nos momentos das refeições. Esses momentos devem ser espaços de interação pessoal, para falar, ouvir, conversar. Tito de Morais refere que o papel da escola e dos educadores deve centrar-se na educação parental, “mostrando, com exemplos, a importância da preservação do tempo da refeição como um tempo de diálogo familiar e dos benefícios que daí se tiram ao nível do acompanhamento parental da vida dos nossos filhos”. “Pais, famílias, escolas, professores e educadores devem promover o ensino da gestão do tempo e das prioridades como uma competência essencial para os dias de hoje e para o futuro”, defende o autor do MiudosSegurosNa.Net.

“Os filhos perdem-se em casa”
Os telemóveis e as novas tecnologias constituem um enorme desafio para as comunidades e um constrangimento para as famílias em todo o mundo. São realidades demasiado evidentes. Para Luís Fernandes, psicólogo, mestre em Observação e Análise da Relação Educativa, o alerta do Papa Francisco “faz todo o sentido” e, vindo de quem vem, alcança mais gente, em diversos contextos, e fá-lo com um grande impacto social. Em seu entender, é preciso analisar vários fatores e olhar para o mundo digital como um aliado, não como um inimigo.

A geração “always on”, sempre ligada, vive agarrada à tecnologia. Os nativos digitais não conhecem outro mundo, e os seus pais, mais velhos, tiveram de entrar nessa realidade, sentem também que têm e devem estar sempre ligados, onde estiverem, a que horas for, seja por motivos pessoais, seja por razões profissionais. “Damos a tecnologia muito cedo aos miúdos e isso acaba por afetar a comunicação”, comenta. E, muitas vezes, os telemóveis nas mãos dos mais novos tornam-se momentos de descanso para os mais velhos.

“Os filhos perdem-se em casa pelas navegações que fazem”, refere Luís Fernandes. A frase exemplifica o que acontece quando se vive constantemente ligado às novas tecnologias e o tempo de brincar na rua já se encontra em vias de extinção. “Na adolescência, os jovens afastam-se um bocadinho, não comunicam tanto com os pais, e as novas tecnologias amplificam a falta de comunicação”, comenta o psicólogo. É preciso impor algumas restrições e se não há telemóveis à mesa, não há para todos, filhos e pais, pais e filhos. “Os miúdos não podem ver isso como algo injusto, eles não podem, mas os pais podem. Tem de ser algo negociado. Para todas as partes, os mesmos deveres”. Há famílias que, sobretudo ao fim de semana, estabelecem um horário sem telemóveis para passear, fazer jogos, brincar. Pais e filhos, juntos, sem toques e interferências por perto.

A tecnologia também mudou a forma de ensinar, a forma de preparar e dar aulas. Há novas ferramentas que prendem a atenção dos alunos. “Temos de ver como usar essas ferramentas a nosso favor e isso passa muito por dialogar e envolver esses dispositivos na aprendizagem”, refere. Dar aulas de outras maneiras, explorar abordagens mais atrativas. “Não faz sentido querer que a tecnologia não faça parte da vida dos nativos digitais”, avisa Luís Fernandes. O melhor caminho é limitar e consciencializar os mais novos. Proibir não ajuda, nem resulta.

“Desencontros comunicacionais”
Sónia Seixas, psicóloga e professora universitária, licenciada em Antropologia Social e em Psicologia Educacional, doutorada em Psicologia Pedagógica, abre e fecha parênteses antes de abordar diretamente o assunto. O facto de alguém de uma geração anterior comentar ou avaliar comportamentos da geração seguinte, mais nova, nomeadamente quanto à introdução de elementos de inovação que interferem na vivência quotidiana das duas gerações (a anterior e a seguinte), é complexo, difícil, e possivelmente tendencioso. É com esta ressalva que fala do assunto e comenta a declaração do Papa Francisco, sobretudo enquanto mãe e membro de uma sociedade em acelerada transformação.

“É inevitável que esta nova geração se habitue, desde cedo, a contactar, interagir e comunicar à distância, através dos ecrãs, utilizando habilmente todos os dispositivos e aplicações que se encontram disponíveis e acessíveis à sua exploração e utilização”, afirma. Mas, sublinha, estas novas maneiras de comunicação “não se substituem às formas presenciais de interação que a geração dos seus pais avós não só prefere, como utiliza de sobremaneira”. Por causa destas preferências que não coincidem instalam-se, por vezes, “desencontros comunicacionais” que, em seu entender, “não deveriam ser obrigatoriamente entendidos nem como opostos nem como obstáculos”, apesar da tecnologia sempre presente, desde o acordar ao deitar, poder dificultar a partilha de alguns momentos em família, como a refeição quando é feita em conjunto.

“Nos dias de hoje, em que vivemos o nosso dia a dia de forma acelerada, apressados para conseguirmos responder simultaneamente a todas as demandas profissionais, pessoais e familiares, torna-se difícil garantir momentos em família, onde a comunicação tenha um espaço devidamente assegurado. É por isso fundamental criar oportunidades em que todos os elementos da família possam comunicar presencialmente, olharem-se nos olhos, ler e interpretar emoções e estados de espírito através da linguagem não verbal (corporal e facial), escutar, expressar-se verbalmente, sem a mediação de ecrãs”, refere Sónia Seixas.

A utilização das tecnologias é muito atrativa e isso é inquestionável. Há, no entanto, outros fatores a ter em consideração. “Em momentos que temos a família reunida, nomeadamente à volta da mesa de refeição, deveríamos encontrar mecanismos para que a familiaridade, a intimidade, a cumplicidade, a partilha, o auto e hetero conhecimento, se pudessem desenvolver e aprofundar”. Pais e filhos distantes, por momentos, dos alertas de mensagens, do email, daquela necessidade de consultar, de mil informações que passam pelo ecrã.

A família em primeiro lugar. “Havendo um papel a atribuir, seria à família e não à escola, uma vez que esses momentos familiares, a serem ‘regulamentados’ ou negociados, devem sê-lo nesse contexto, com esses interlocutores e tendo como referência a sua própria rotina e dinâmica relacional”. Em seu entender, não é que a comunicação necessite de ser “reestabelecida ou retomada” na família, mas antes que “tenha de haver um esforço consciente e voluntário, para que se mantenha nos termos daquilo que possamos considerar como menos digital e mais presencial, menos online e mais offline”.

Trabalho por turnos: casais contam como se guarda tempo para os filhos

Fevereiro 7, 2020 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do Notícias Magazine de 28 de junho de 2020.

Vivem momentos únicos quando apenas um dos pais está presente, são poucas as vezes que estão todos reunidos, passam dias sem ver um dos progenitores, dão uma notícia por mensagem e recebem um aconchego num telefonema. Vivências de uma realidade com rotinas muito próprias e organizadas ao pormenor.

Sofia Filipe

Liliana Morais tem 35 anos e é enfermeira no Hospital de Chaves. Situada nessa cidade transmontana, a creche de Carolina, de dois anos, abre as portas às oito da manhã. A hora a que Liliana já tem de estar no Bloco Operatório. Deixa a filha em casa dos pais do marido, Tiago Morais, três anos mais novo. A pré-escola do filho mais velho, Afonso, de cinco anos, permite entrar mais cedo, mas há um acréscimo na mensalidade. Fica também em casa dos avós. “Os meus sogros levam os miúdos às diferentes escolas.”

Se o turno desta mãe terminar às 15.15 horas, vai buscar o primogénito às 16 e a mais nova meia hora depois. Se for às 17, vão os avós ou o pai, que também é enfermeiro, mas no Serviço de Urgência Geral do Hospital de Vila Real. “Certos dias, somos quatro pessoas a levar e buscar os meninos”, comenta Liliana. A organização familiar é alterada se estiver no turno da tarde (15 às 22.15) ou no da noite (22 às 8.15).

Tiago tem os mesmos horários e a planificação é feita a cada mês. Segundo dados do Instituto Nacional de Estatística, no final de setembro de 2019 eram 835 mil as pessoas a trabalhar por turnos em Portugal. Mais de 423 mil mulheres tinham horários variáveis, contra 409 mil homens. No entanto, a população masculina ganhava à feminina, uma vez que há 226 mil homens a trabalhar mais serões, noites, sábados e domingos do que as mulheres.

Este casal de Chaves faz séries de turnos. Ou seja, num dia estão de tarde; no noutro, de manhã ou de tarde. Um horário que faz com que não vejam os filhos praticamente dois dias. “De manhã estão na escola. Saio de casa às 14 horas e regresso pelas 23.30, quando já estão a dormir. No dia seguinte, saio pelas 6.50. Ainda estão a dormir. Quando regresso, pelas 16.30, estou pouco tempo com eles, porque volto a sair às 20.50 para iniciar o turno da noite”, exemplifica Tiago.

Das datas especiais, refere o Natal como das mais difíceis. “Ter a família sentada à mesa, chegar aquela hora e ter de sair. Fica sempre um gosto amargo. Por muito que expliquemos, os nossos filhos ainda não conseguem perceber por que razão o pai não pode estar ali para abrir os presentes com eles.” No dia a dia, “é duro” quando Afonso lhe diz ao telefone que tem saudades.

“O trabalho por turnos gera inseguranças e frustrações que muitas vezes se refletem no bem-estar e na própria relação do casal” Marta Marques
Psicóloga educacional”

Para a família Morais, conseguir desfrutar de tempo de qualidade em conjunto “é uma tarefa árdua”. Requer, por exemplo, uma organização pormenorizada, de forma a conseguirem gozar algumas folgas no mesmo dia. Em novembro, coincidiram apenas dois dias. À logística familiar acresce uma profissão “desgastante, física e psicologicamente”. “É muito difícil sair da porta do hospital e esquecer tudo o que vimos e fizemos lá dentro. Quando folgamos, a energia está muito próxima do zero. O esforço é levantar a cabeça e aproveitar os momentos que não acontecem com muita frequência”, diz Liliana. Apesar de sentirem que deveriam estar mais presentes, têm noção de que conseguem “dar o apoio necessário aos filhos”.

Mara Granadas, 34 anos, e Nuno Rafael, de 43, não identificam qualquer vantagem numa vida por turnos. “Só desvantagens.” Moram na Quinta do Anjo, em Palmela, e em 15 minutos chegam ao Parque Industrial da Autoeuropa, onde trabalham como operadores de linha, mas em fábricas diferentes. Ela na Faurecia, desde 2013, e ele na Benteler, desde 2011. Mara está a fazer dois turnos (7 às 15.30 e 15.30 à meia-noite). Em fevereiro, passa a cumprir também o terceiro (meia-noite às 7), que já é feito pelo companheiro de há 13 anos. “Estaremos em turnos diferentes. Vai facilitar a vida com a nossa filha, mas sairemos prejudicados enquanto casal. Apenas vamos estar juntos nas férias de verão e no Natal”, desabafa esta mãe, ela própria “filha dos turnos”.

Francisca tem dez anos e dificilmente terá irmãos. “Sentimos que deveríamos estar mais presentes no crescimento. Por isso, não queremos mais filhos”, assume Mara, que gostaria de ter presenciado certos momentos. “O primeiro dente que caiu ou a primeira leitura podiam ser hoje memórias.” Prefere o turno da manhã, pois, dessa forma, consegue estar com a filha em casa ao fim do dia. “Como uma família normal.” Já Nuno dá preferência ao turno da noite. “Descanso muito pouco, mas consigo levar e buscar a Francisca à escola e participar em atividades extracurriculares, como atletismo, explicação e aulas de canto.”

Quando cumprem o turno da tarde, só veem a menina cerca de uma hora por dia, antes de a deixarem na escola. Ao regressarem da jornada, já dorme. Uma semana por mês estão no mesmo horário e recorrem aos avós. Se estes não puderem, porque ainda trabalham, têm de “pedir a amigos e vizinhos”. Nas férias, a Francisca tem de ir para um ATL. “O nosso subsídio de férias é para comportar essa despesa”, realça a operadora de linha, classificando a época de testes escolares como a mais complicada. “Pede apoio e dificilmente alguém está com disponibilidade para a ajudar a estudar. Nem sempre é fácil explicar a uma criança que temos mesmo de trabalhar por turnos e que não podemos estar com ela sempre que precisa.”

A presença regular e emocionalmente significativa das figuras parentais é fundamental para o processo de desenvolvimento dos mais novos, frisa Marta Marques, psicóloga educacional e investigadora do projeto IDEA (Investigação de Dificuldades para a Evolução na Aprendizagem) na Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa. “O trabalho por turnos é muitas vezes acrescido de maior stresse, com noites pouco regeneradoras do funcionamento emocional e sintomas de burnout. Estas situações podem levar os pais a sentir que estão sozinhos na prestação de cuidados à criança e poderá fazer crescer a perceção de não corresponderem de forma adequada às necessidades, gerando inseguranças e frustrações que muitas vezes se refletem no bem-estar e na própria relação do casal”, sustenta.

“[filhos de casais que trabalham por turnos] Tornam-se mais desatentos e, por vezes, menos interessados em aprender novos conteúdos”
Maria João Senos Educadora de infância

Na opinião de Maria João Senos, educadora de infância na Santa Casa da Misericórdia de Ílhavo, a presença menos frequente dos progenitores em simultâneo poderá afetar os filhos em idade pré-escolar. “Pode não ser logo evidente, mas no decorrer do dia a dia vamos notando algumas alterações, principalmente no comportamento.” Mais tarde, sublinha, surgem outras consequências. “Tornam-se mais desatentos e, por vezes, menos interessados em aprender novos conteúdos”, observa, destacando que, em idade escolar, “o ambiente familiar tem de ser bom e estável para não haver implicações negativas”.

“Só queria estar presente para a abraçar”

Para Marisa Matias, professora auxiliar e investigadora na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto, a consequência mais óbvia da dessincronização entre o horário de trabalho e os tempos sociais “é a não participação nas atividades rotineiras da família e o menor envolvimento nas tarefas domésticas e de cuidado aos filhos”. Segundo a docente, as famílias cujos pais trabalham por turnos procuram criar rotinas diferentes das habitualmente adotadas pelos casais com empregos tradicionais. “Não podem jantar, mas, por exemplo, tomam o pequeno-almoço juntos.”

A proximidade emocional é fundamental para o sucesso das relações familiares. No entanto, Marisa Matias lembra que isso não acontece por acaso. Requer “tempo passado em conjunto, disponibilidade e investimento afetivo”. E é essa proximidade que Susanna Lee Carvalho e Carlos Rafael tentam manter, mesmo quando o cansaço dá cartas ou perante sintomas de burnout. Susanna e Carlos são técnicos de tráfego de assistência em escala na placa no Aeroporto de Lisboa há mais de duas décadas.

Desde que, há 11 anos, nasceu Amy, não se cruzam no local de trabalho. “Se nos colocarem no mesmo horário, pedimos para mudar. Dentro das possibilidades operacionais, a gestão do planeamento é flexível”, esclarece Susanna, de 43 anos, que há quatro anos voltou a ser mãe, de Scarlett. “Está sempre um de nós em casa para levar as meninas às respetivas escolas ou para as receber”, completa Carlos, 46 anos.

A “maior alegria” desta família de Cascais é quando estão os quatro juntos. Não deixam as filhas nos avós maternos para uma “escapadela a dois”, preferem declinar convites para casamentos ou batizados se apenas um estiver disponível e optam por ter uma vida social “menos agitada”. “Normalmente, temos um fim de semana juntos de seis em seis semanas”, aponta a mãe de Amy e Scarlett. Carlos explica que mesmo alguns desses fins de semana em família são de horário reduzido.

“Se sair à meia-noite de uma sexta-feira e na segunda entrar às quatro da manhã…” Quanto a férias, embora não seja na época que preferem, podem tirar 15 dias no mesmo período do ano, devido ao acordo de empresa referente a casais. Os turnos de Carlos abrangem as 24 horas, os de Susanna nunca ultrapassam a uma da manhã, mas podem começar às quatro da madrugada. Nesses dias, acorda às 2.50 horas. “É o meu horário preferido, pois permite-me ter mais tempo para as meninas e realizar diversas tarefas.”

Quando as filhas eram pequenas, Susanna e Carlos optaram por não usufruir da creche do Aeroporto de Lisboa. “As meninas teriam de fazer turnos, interromper o sono. Se a nós custa, imagino a elas.” Trabalhar com horários complexos acaba por deixar marcas. Como daquela vez em que estava num turno noturno e a filha mais velha lhe telefonou. “A Amy teve uma desavença com uma amiga e ligou-me a desabafar. Eu só queria estar presente para a abraçar. As minhas filhas são filhas dos turnos e aprenderam cedo que há beijinhos dados num telefonema.”

“Os momentos em que um abraço é substituído por palavras confortantes podem ter implicações se a família representar isso como um problema”, defende Marta Marques. “As crianças não nascem com uma ideia pré-formatada de família. Adquirem-na pela forma como os adultos a ajudam a viver”, assinala a psicóloga educacional, que considera importante transmitir segurança e tranquilidade. “A ausência física não representa abandono. E se a criança se sentir segura vai viver com maior tranquilidade essa saudade.”

Estranhava ver pai e mãe presentes em simultâneo

Tal como as irmãs Amy e Scarlett, também Beatriz Leal, de 11 anos, (con)vive bem com os horários atípicos dos pais e, inclusivamente, quando era mais nova chegou a estranhar ter os dois presentes em simultâneo. Ana Torrão, 43 anos, e João Leal, 46, são funcionários da Tabaqueira há 18 e 20 anos, respetivamente. Ambos trabalharam quatro anos num regime de turnos específico. Eram quatro dias seguidos com 12 horas de trabalho e outros tantos de folga. Ou seja, foram quatro anos desencontrados.

Quando muito, cruzavam-se na cancela da fábrica quando um saía e o outro entrava. Atualmente, a técnica de qualidade só faz dois horários (7 às 15.30 e 15.30 à meia-noite). O técnico de manutenção ainda cumpre o turno da meia-noite às sete da manhã. Os horários mudam semanalmente, mas, para garantirem o apoio à filha, Ana Torrão faz duas semanas de manhã e uma de tarde. “As chefias são flexíveis. É menor e, assim, não fica sozinha”, afirma Ana.

Residem na Malveira, no concelho de Mafra, e não contam com o apoio dos avós maternos, porque vivem no Cartaxo, nem dos paternos, que estão em Benavente. “Um dia, tive de deixar um trabalho a meio para dar assistência à Beatriz”, lembra João. O casal usufruiu das vantagens de ter a menina na creche da Tabaqueira e a mãe recorda como lhe custou o primeiro dia. “Se eu fazia 12 horas de trabalho, a Beatriz tinha de lá estar todo esse tempo.”

De acordo com o Relatório da Carta Social 2018 do Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, no ano letivo de 2018/19, o Instituto de Segurança Social assegurou o financiamento da comparticipação complementar a 1 186 creches pela prática de horário de funcionamento superior a 11 horas diárias. “O período de permanência numa creche ou jardim de infância deveria ser o menor possível. Hoje em dia, é quase impossível e é muito triste”, lamenta Maria João Senos, que recebe algumas crianças às 7.30 horas e, por vezes, só saem às 19.30 horas.

Voltando ao casal que trabalha na Tabaqueira, atualmente, quem está no turno da manhã deixa a Beatriz na escola, perto do trabalho, às 7 horas. O cônjuge vai buscar a menina às 17 horas. “É difícil termos disponibilidade para dar apoio nos estudos, daí a importância do ATL. Tem tido boas notas”, salienta João Leal. Para estes pais, a filha está em primeiro lugar e por ela vencem a saturação psicológica, a falta de paciência e o cansaço físico inerentes ao trabalho por turnos. Dos direitos, não abdicam. Ana recorda que “bateu o pé” quando a chefia não pretendia facilitar horários durante a gravidez e ao regressar da licença de maternidade. “Não sofri represálias. Mas algumas pessoas têm medo. Se existem leis que protegem os trabalhadores, são para ser usadas.”

Diane Cristóvão Augusto, advogada-estagiária, lembra que o Código do Trabalho prevê matéria dedicada à parentalidade. “Estas normas são uma projeção do princípio da proteção do trabalhador, sendo cada vez mais alvo de atenção e de alterações.” No entanto, não há nenhuma norma que regule os profissionais que trabalham por turnos. São de aplicação geral. O direito ao trabalho flexível previsto no artigo 56.º do Código do Trabalho, por exemplo, é aplicado a todos os trabalhadores com filhos menores de 12 anos. “É intenção do legislador harmonizar o direito do trabalhador à conciliação da atividade profissional com a vida familiar”, diz a jurista. “Uma pessoa que concilie as duas áreas é mais realizada, mais produtiva, com ganhos para todos. Pessoas felizes garantem melhores resultados.”

Carla Mota vive na Costa da Caparica, tem 36 anos, é mãe de Ethan Gabriel Gonçalves, de três, e conhece o direito ao horário flexível. “Ainda não precisei. Se houver necessidade, não hesito em solicitar”, assume esta funcionária da Europ Assistance na área da assistência em viagem. Na empresa, o plano de turnos é feito mês a mês. De momento, apresenta-se ao trabalho às oito ou às dez da manhã, mas tem outros horários possíveis, como o das 18 às duas da madrugada. É casada com Byron Gonçalves, de 34 anos, cujos turnos cobrem as 24 horas. É técnico de telecomunicações e manutenção de redes na Oni há dez anos e também costuma estar de prevenção, que implica deslocação ao local de trabalho, se for necessário.

Trabalham em Lisboa. Saem, por isso, de casa com alguma antecedência. Se acontecer estarem no mesmo horário, recorrem aos avós paternos ou maternos, que moram a poucos quilómetros. “Se não tivéssemos esta rede de apoio, seria muito complicado. Quando entro às oito da manhã, levanto-me às cinco da madrugada. Para o Ethan não acordar a essa hora, por norma, dorme em casa da mãe do Byron”, explica Carla, que já esteve uma semana sem ver o marido, devido aos horários opostos. Quando estão juntos, tentam ter “tempo de qualidade, com muitas atividades”. Quando o pai está a fazer madrugadas, preparam um pequeno vídeo e enviam. “Assim, a noite não custa tanto a passar.”

Para Marisa Matias, uma vantagem do trabalho por turnos reside “na compensação financeira que certos horários atípicos acarretam”. Carla e Byron confirmam. “O meu subsídio de turno não compensa tanto como o do meu marido”, comenta Carla, que deseja um dia poder trabalhar a partir de casa, para estar mais tempo com Ethan. Todavia, o trabalho em horário atípico “associa-se a maior stresse, problemas com o sono, conflitos conjugais e menos tempo para o casal”, frisa a investigadora. Ana Torrão e João Leal não escondem que “o casamento esteve ameaçado”. “Estávamos habituados a estar quase sempre sozinhos”, diz Ana. “Tivemos de reaprender a viver juntos”, completa João. Conseguiram ultrapassar essa fase e assistem, juntos, ao crescimento da Beatriz.

No próximo ano letivo, Francisca vai para o Ensino Preparatório. Na perspetiva de Mara Granadas e Nuno Rafael, a conjugação de todos os horários “não será fácil, mas não vale a pena sofrer por antecipação”. Susanna Lee Carvalho e Carlos Rafael não se imaginam a trabalhar com horários fixos. “Não temos de pedir para faltar porque vamos a uma consulta médica e podemos tratar de assuntos pessoais”. Também Liliana e Tiago Morais preferem manter os turnos. Em termos profissionais, “é menos rotineiro”. Nas questões familiares, existe “a grande vantagem” de poderem estar presentes na vida dos filhos “em diferentes alturas do dia e nos dias úteis”.

Para a psicóloga educacional Marta Marques, os filhos de pais trabalhadores por turnos podem criar representações da rotina familiar diferentes. Mas essas vivências não têm que representar um problema, “se os pais mantiverem uma comunicação e colaboração positiva e se a criança sentir uma vinculação de segurança”. A educadora de infância Maria João Senos sublinha a importância de um bom ambiente familiar. “Se todos se compreenderem e conseguirem conversar, sem telemóveis, será um bom caminho.”

Seminário Nacional “Os tempos da Família: Estrutura, Uso, Desigualdades” 13 janeiro em Lisboa

Dezembro 4, 2019 às 8:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Seminário Nacional “Os tempos da Família: Estrutura, Uso, Desigualdades”

Conferência “Family Centered Care: um apoio partilhado à criança doente” 14 outubro em Lisboa

Outubro 2, 2019 às 8:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Inscrições até 7 de outubro

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https://www.facebook.com/events/1421789707985200/

II Colóquio de Lisboa Tempo e Família – 27/28 setembro em Lisboa

Setembro 7, 2019 às 7:34 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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II Colóquio de Lisboa

A família como ninho mas também como rampa de lançamento

Julho 12, 2019 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Daniel Sousa publicado no Público de 10 de fevereiro de 2019. Imagem do Público.

Os filhos não são dos pais. Crescem para poder voar. Pode ser-se pai ou mãe toda a vida, mas há funções parentais com tempos determinados.

Muito se tem discutido sobre o declínio do papel da família. Será ainda a estrutura social que sustenta o desenvolvimento pessoal e social de indivíduos e sociedades? Também se tem assistido a uma transformação da família tradicional, que passou a coexistir com enquadramentos familiares outros, por exemplo, as famílias monoparentais, de casais homossexuais ou as famílias reconstruídas. Contudo, a família como estrutura social parece manter ainda alguns traços essenciais, tornando-a fundamental para que, desde tenra idade, possamos crescer, desenvolver, construir uma identidade.

A família, não obstante as suas variantes, é um espaço fundamental para o crescimento dos indivíduos. É o ninho. Dá protecção, acolhimento e, sobretudo, um ambiente afectivo propício e essencial ao desenvolvimento humano. É difícil crescer saudavelmente sem amor. O ninho constitui a base, o chão seguro, a confiança, a segurança. Mas é também entre muros que aprendemos a aceitar os limites, que vamos estabelecendo os valores e a moral, onde construímos a nossa ética. É também através dos mais próximos — pais, cuidadores — que vamos estabelecendo duas das funções mais importantes: aprender a ver o mundo e desenvolver um olhar sobre nós mesmos.

É através do olhar do outro mais próximo que começo a desvelar o modo de estar no mundo, e não menos importante, a ver-me, a desenvolver um sentimento de mim mesmo. O mesmo é dizer, construir-me como pessoa. Nas primeiras fases, no essencial existe uma relação mais hierárquica entre pais e filhos, com os primeiros a exercem um papel de maior referência, estabelecendo regras e valores, sem estes deixarem de ser aconchegados pelo afecto. Na adolescência, as articulações mudam, com dinâmicas muito desafiantes, tanto para jovens como para educadores. A entrada na vida adulta tece outros obstáculos. Em todas as fases, sabe-se que é necessário realizar ajustamentos. De parte a parte. Expresso em cliché: é um processo. Ajustes comportamentais, emocionais, das funções e papéis de cada membro da família.

Repleto de questões e incógnitas, o caminho do desenvolvimento pessoal poderá ser percorrido mais tranquilamente pelos pais, se for aceite que a perfeição parental é uma idealização. Os jovens, por sua vez, adiam a entrada definitiva no mundo do adulto. Apesar dos rituais de preparação, é por vezes uma porta difícil de trespassar, sobretudo, aceitando todas as suas consequências. Medos, receios, angústias, expectativas claras e outras mais implícitas adiam a passagem para uma outra fase da vida. Este momento tem naturalmente de ser preparado. Serão fundamentais as aprendizagens realizadas em estádios anteriores, para o jovem adulto se sentir confiante a avançar por novos caminhos.

Este momento de vida crucial é muitas vezes posto em causa pelos próprios pais. Na entrada da “adultice” dos seus filhos, os pais não são capazes de aceitar, compreender ou lidar com este novo momento. Os pais não realizam os ajustamentos necessários à fase de vida dos seus filhos e acabam por os acorrentar emocionalmente. Querem manter um registo de ninho quando este já se transformou ou deveria verdadeiramente ser uma rampa de lançamento.

Os filhos não são dos pais. Crescem para poder voar. Pode ser-se pai ou mãe toda a vida, mas há funções parentais com tempos determinados. Portugal está repleto de jovens adultos, ou homens e mulheres nas faixas etárias dos 30 ou 40, com vida estabelecida a nível familiar, profissional, social, que vivem numa prisão emocional. Estes filhos adultos não se sentem verdadeiramente livres. Não sentem legitimidade na sua liberdade psicológica. Sentem-se em falta. Por não serem tão presentes, por não estarem e agirem, como lhes fazem sentir que deveriam ser, estar e fazer. Uma dependência emocional dos pais, não dos filhos. Por razões várias, que passam por questões culturais ou aspectos de personalidade, pais ou elementos de uma família original promovem e mantêm uma dinâmica relacional que fomenta a culpa e a tristeza dos filhos adultos.

Limites não respeitados, exigências que alimentam o sentimento de estar em falta, ingerência nos assuntos de uma nova família constituída por um filho ou filha, expressões de sofrimento dos pais como se este fosse causado pelos filhos ou mesmo um silêncio ensurdecedor são exemplos que se constituem como correntes de ferro e que impedem uma verdadeira autonomia. O cordão umbilical psicológico não foi ainda cortado. Por parte dos pais. Mesmo em períodos muito adiantados do desenvolvimento pessoal dos seus filhos. E pode mesmo não existir a vontade de alguma vez o cortar. Se assim for, será então mais um desafio, ainda que por vezes sentido como enorme, para os filhos adultos ultrapassarem. Mais um obstáculo a transpor. Não depende no essencial de distâncias físicas, mas de capacidades emocionais que legitimem essa liberdade individual. E não depende de juízos de valor sobre os pais. Estes estão a lidar com a vida, com os momentos desta, consigo próprios, como conseguem.

Mais importante do que juízos é a capacidade de compreensão, um trabalho interior que diminui culpabilidades, um crescimento que assume as consequências de ser adulto e de estabelecer o seu espaço pessoal. Talvez caiba assim a estes adultos exercer a capacidade de mudança psicológica, que lhes permita viver em plenitude a sua autonomia, individualidade, identidade.

Docente e director da Clínica de Psicologia do ISPA

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