“As crianças não votam”, mas têm de estar no centro das decisões

Novembro 28, 2017 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista do https://www.publico.pt/ a Joshua Sparrow no dia 9 de novembro de 2017.

Joshua Sparrow, sucessor de Brazelton, o famoso pediatra norte-americano, esteve em Lisboa para dar formação a profissionais que têm como objectivo o bem-estar dos mais novos.

Bárbara Wong

O pedopsiquiatra Joshua Sparrow concorda que é preciso uma aldeia inteira para educar uma criança, mas vai mais longe: são precisas políticas económicas, sociais e ambientais para que uma criança nasça e cresça saudável. A ideia de que todas as especialidades, da medicina à assistência social, passando pela economia e política, devem pensar em conjunto a saúde e o bem-estar das crianças e das suas famílias é o que T. Berry Brazelton advogou desde a década de 1960 e Sparrow, como sucessor do famoso pediatra norte-americano à frente do Brazelton Touchpoints Center, em Boston, veio dizer a Lisboa, durante a conferência Pelo Bem-estar da criança e da família, promovida pela Fundação Brazelton/Gomes-Pedro, que decorreu nesta quinta-feira.

O famoso livro de Brazelton, cuja primeira edição é de 1995, chama-se Touchpoints, mas quando foi traduzido para português, ganhou o nome de Grande Livro da Criança porque não se sabia como traduzir a palavra, conta Ana Teresa Brito, da Fundação Brazelton/Gomes-Pedro.

Pode falar-se em “pontos de toque”, “pontos de contacto” ou “pontos de relação”, mas nenhuma das expressões tem o mesmo sentido, continua. Também o professor e pediatra João Gomes-Pedro, que no próximo ano celebra 50 anos de prática clínica, lançou neste dia o livro Pensar a Criança, Sentir o Bebé, onde confirma a importância de todas as ciências para o desenvolvimento da criança e Joshua Sparrow, em entrevista ao PÚBLICO, procura explicar o que são os touchpoints: “É uma proposta de investigação que visa construir fortes relações entre pediatras e outros especialistas na área da saúde e do bem-estar das crianças e das famílias.”

E o trabalho que veio fazer a Lisboa foi esse mesmo. Além da conferência, o investigador da Faculdade de Medicina de Harvard esteve também a dar formação a médicos, enfermeiros, educadores de infância, assistentes sociais, psicólogos, terapeutas.

E voltamos à aldeia. Todos são precisos. Contudo são necessárias também políticas que ponham a criança no centro, o que não acontece porque “as crianças não votam”. Sparrow fala do seu país: com eleições de quatro em quatro anos, o objectivo dos políticos é serem reeleitos, logo, “há falta de incentivos para fazer uma política a pensar no futuro”, no longo prazo.

“Estamos distraídos do papel central que têm as crianças”, lamenta o especialista, lembrando ainda que são a “indústria, a economia e os interesses financeiros que influenciam as decisões políticas”. “Não põem a sobrevivência humana no centro do seu interesse, mas os seus produtos”, alerta.

“Não perder a esperança”

O médico defende que um dos “ingredientes” para promover o bem-estar e a saúde das crianças é “não perder a esperança”. “O não ter esperança é uma desculpa para não fazer nada”, justifica, citando Nelson Mandela quando o prémio Nobel disse, em Harvard, em 1998, que qualquer coisa “parece sempre ser impossível até estar feito”.

E quais são os outros ingredientes? “O primeiro é ter uma visão partilhada”, para a qual todos possam contribuir, mesmo que tenham opiniões diferentes; depois há que manter o contacto entre os diferentes serviços e “continuar a comunicar”; de seguida é importante “partilhar dados”, de maneira a que se possam fazer escolhas e tomar decisões com base em toda a informação que existe. Sparrow lamenta que ainda existam sectores da sociedade que não comunicam entre si, por exemplo, a saúde de um lado e o ambiente do outro; ou a assistência social de costas voltadas com a justiça. “É preciso ter uma visão partilhada, pelas crianças e pelo futuro”, apela.

O modelo de Touchpoints é um, mas existem outros, reconhece o médico que já vem a Portugal desde 2012 e está envolvido noutros projectos não só no seu país – “tenho ido ao Capitólio, sensibilizar democratas e republicanos”, diz –, mas à volta do mundo. “Onde quer que vá descubro sempre bons programas e fico sempre surpreso: ‘Como é que ainda não tinha ouvido falar deles?'”

Preocupação com o bem-estar das crianças

Em Portugal reconhece que há uma preocupação com o bem-estar das crianças e que houve uma grande evolução, do tempo da ditadura à última crise económica. Contudo ainda “há muitos desafios”. Por exemplo, a Fundação Brazelton/Gomes-Pedro vai associar-se a outras organizações e municípios para, no terreno, ter projectos de apoio às famílias, conta Ana Teresa Brito.

Se há toda uma comunidade que deve preocupar-se com cada uma das crianças que nasce, os pais são os primeiros a quem o desafio é colocado. Ter um filho, criá-lo e educá-lo “não é um desafio técnico”, reflecte o pedopsiquiatra, lembrando a sua experiência como pai. Nem sequer a muda da fralda é uma parte técnica porque depende de muitas variáveis – da idade da criança, do seu estado de espírito e de quem vai fazer a muda, da hora do dia, do conteúdo da fralda… “Portanto, é um desafio constante em que estamos sempre a adaptarmo-nos”. “É preciso ouvir e observar a criança desde que nasce, assim como ter atenção a nós próprios. Não existe um livro de instruções.”

 

 

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Conversas Pais & Filhos | Segurança e Saúde – 23 novembro no Oceanário de Lisboa

Novembro 19, 2017 às 5:27 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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mais informações no link:

http://eventos.globalmediagroup.pt/eventos/conversas-pais-filhos-saude-seguranca/

 

Amamentação – o óbvio e o menos óbvio

Outubro 9, 2017 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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texto do site http://uptokids.pt/de 26 de setembro de 2017.

Amamentar é daquelas coisas que tem tanto de simples como de complicado. Se por um lado dispomos de equipamento para o efeito – leia-se mamas – por outro trata-se de uma actividade nova para as partes envolvidas – a mãe nunca usou as suas mamas como fonte de alimento, o bebé nunca precisou de fazer nada para se alimentar, limitava-se a receber o alimento necessário através do cordão umbilical.

No nosso caso, foi complicado. A Letícia nasceu quase prematura, tinha os valores da glicémia baixos (esteve quase a ir para a incubadora) e por isso, depois de ter mamado o meu leite, bebeu leite artificial (LA). Mais, tinha imensa dificuldade em permanecer acordada para mamar e em fazer a pega (colocava o lábio inferior para dentro). No hospital (privado) foram incansáveis, apareciam constantemente no quarto para assegurar que a pega estava a ser bem feita, para vigiar se o leite já tinha subido/descido (ao início produzes colostro, um líquido amarelado ou transparente) e para me motivarem.

Embora no hospital tenha dado sempre leite materno (LM) e de seguida LA, em casa decidi investir mais no primeiro. Dava LM, ela adormecia, acordava pouco tempo depois a querer mamar; na altura diziam-me que devia fazer intervalos, criar horários – tudo errado!

Na primeira consulta de pediatria a nossa filha tinha perdido peso, o que para um bebé que desde o nascimento se enquadrava no percentil 15 era péssimo. Chorei muito, senti-me a pior mãe do mundo por ter insistido no LM; a pediatra deu-nos duas alternativas: abandonar o LM ou continuar a dar entre o LA. Nos dias seguintes, com o aumento de consumo do LA, notava-se um desinteresse cada vez maior pelo LM, como resultado eu produzia cada vez menos; sentia-me triste porque adorava dar de mamar (aquele momento só nosso de pele com pele) e por acreditar que o meu leite era o alimento ideal para a nossa filha. Estava prestes a desistir quando recebi uma mensagem no facebook de uma prima do meu primo (daquelas pessoas simpáticas com quem raramente nos cruzamos) que dizia algo deste género: “Olá, Tânia! Espero que tudo esteja a correr bem. Não sei se sabes que me tornei conselheira de aleitamento materno, se precisares de alguma coisa, avisa“. Lembro-me de ter chorado de tão feliz que fiquei, aquela pessoa surgia no meu caminho na hora exacta.

A primeira sessão com a Cristina (a tal prima) foi fantástica – ouviu-me, acarinhou-me, sugeriu e deixou-me escolher o caminho que iríamos seguir. Contrariamente ao que me diziam, a Cristina explicou-me e provou-me (enviou material de apoio) as vantagens de amamentar em livre demanda (sempre que o bebé quer); tal também faria com que a minha produção aumentasse. Confesso-vos que as primeiras noites foram terríveis, enquanto com o LA ela mamava e dormia várias horas seguidas, com o LM tinha de acordar constantemente para dar de mamar (no início chegou a ser de 30 em 30 minutos). Gradualmente a produção foi aumentando, passei a ter de acordar menos vezes e a dar menos LA.

Contra todas as expectativas, a nossa filha mamou até aos 12 meses, altura em que, com muita pena minha, fez o desmame natural.

Dar de mamar foi das experiências mais maravilhosas e duras da minha vida. Gostava de ter sido avisada sobre alguns aspectos desde o início, de dispor de várias alternativas que só mais tarde descobri. Posto isto, deixo-vos uma lista com as aprendizagens que fui fazendo (sobretudo com a ajuda da conselheira em aleitamento materno) e que poderão fazer a diferença entre uma amamentação feliz e uma amamentação abandonada precocemente.

1 -Prepara-te para que não acertar à primeira.
O bebé está programado para mamar, a tua mama está programada para dar leite, ainda assim nem tudo flui imediatamente. O bebé pode ter dificuldade em fazer a pega, pode ter tendência a adormecer assim que começa a mamar, entre outros; os teus mamilos podem ter um formato que não facilita a amamentação (com ajuda tal poderá ser contornado, evita recorrer de imediato aos bicos de silicone que tornam a sucção mais complicada e podem reter o leite), podem ter mais tendência a formar gretas, etc. Com o tempo (pode demorar!) vais dominar isto e perceber o que resulta com vocês.

2 – Dá de mamar sempre que o bebé quiser.
Não te foques em horários, em criar intervalos e rotinas, tudo isso surgirá naturalmente. O teu bebé necessita de se alimentar e, tal como todos nós, terá o seu ritmo de o fazer – há quem coma pouco em cada refeição, e por isso coma mais vezes ao dia, há quem coma mais em cada refeição, e por isso coma menos vezes ao dia. Além disso, o bebé mama de acordo com as suas necessidades em cada fase e será deste modo que as tuas mamas irão perceber a quantidade de leite que precisam de produzir.

3 – “As mamas não são armazéns, são fábricas”.
Esta frase da Cristina é mágica e libertadora! Quando começares a amamentar irás reparar que nos segundos que antecedem a mamada as tuas mamas parecem ter silicone de tão grandes e rijas que ficam; no final apenas te restarão duas uvas passa, moles e sem graça. Quando o bebé pede novamente para mamar e as tuas mamas ainda estão em modo uva passa sentirás que estás a produzir pouco, que ainda não tens leite suficiente para o alimentar, o que é altamente stressante. Eis que surge a Cristina com a explicação de que as nossas mamas não funcionam como armazéns, elas vão produzindo leite enquanto o bebé mama, pelo que uma mama aparentemente vazia não é uma mama inútil.

4 – Quanto mais os bebés mamam, mais leite produzimos.
Este princípio é básico mas menos óbvio do que se possa imaginar. Se sentes que estás a produzir pouco, permite que o bebé mame mais vezes ou, em último caso, recorre a uma bomba tira-leite (deverás ter muito cuidado para não começares a produzir demasiado leite e entrares num círculo vicioso em que por produzires demais tens de tirar com a bomba e ao tirar  vais produzir ainda mais).

5 – O vosso conforto é fundamental.
Apanha as almofadas todas que andem aí por casa e constrói um castelo de almofadas que te permitam (e ao bebé) sentir confortável enquanto amamentas – nas costas, por baixo dos braços, no colo, vale tudo.

6 – Respira, relaxa e aproveita o momento.
Enquanto a prolactina é a responsável pela produção de leite, a ocitocina, conhecida pela hormona do amor (é a que está também ligada aos orgasmos) é responsável por estimular a produção de prolactina e permitir que o tecido mamário se contraia de forma a que o leite passe pelas glândulas mamárias; traduzido por miúdos, a amamentação será mais fácil se estiveres relaxada pois a produção de ocitocina acontecerá de forma mais natural. Andares preocupada por teres “pouco leite” contribui para que tal aconteça.

7 – Não existem leites fracos, nem insuficientes, nem que alimentam pouco.
Vais ouvir esta frase várias vezes, sobretudo quando o bebé chora, mesmo que por  outro motivo. O teu leite é óptimo, tem tudo o que o teu bebé necessita, nas quantidades exactas. Como referi, existem bebés que precisam de comer mais do que outros, que querem mamar como forma de consolo, entre tantas outras opções que em nada colocam em causa a qualidade do teu leite.

8 – Inicia a mamada na mama em que terminaste.
Não me irei alargar em explicações técnicas, até porque não estou qualificada para isso, só quero transmitir a ideia de que enquanto amamentas a composição do leite vai-se alterando – inicialmente produzes um leite mais aguado, destinado a saciar a sede do bebé, ao passo que no final da mamada o leite torna-se mais rico em gordura e possui mais nutrientes e calorias. Se o bebé não esvaziar a mama e iniciar a mamada seguinte na outra mama poderá não chegar novamente à fase do leite mais rico em gordura; para evitar que tal suceda, deverás começar pela mama em que mamou da última vez.

9 – Existem dezenas de posições para dar de mamar.
Recordo-me perfeitamente do dia em que a Cristina me perguntou se já tinha experimentado dar de mamar noutras posições – “como assim, outras posições?!”, perguntei eu completamente baralhada. Sim, existe uma espécie de “mamasutra” a que podes recorrer, com posições que poderão ser mais confortáveis do que a posição tradicional que sempre nos foi imposta. No nosso caso, a Leti mamar sentada (posição cavalinho) permitia que ficasse mais desperta e bolsasse muito menos no final

10 – Cuida bem dos teus mamilos.
Dares de mamar com mamilos feridos/gretados pode tornar-se impossível. Deste modo, coloca algumas gotas do teu próprio leite ou usa um creme adequado.

11 – A amamentação nocturna é importante.
Conheço alguns casos de mães que decidiram “saltar” as mamadas da noite, dando LA, o que rapidamente condicionou a sua produção de leite. Durante a noite os níveis de prolactina atingem o seu pico, pelo que é fundamental dar de mamar neste período.

12 – Não laves as mamas antes de amamentar.
A mama tem um cheiro próprio que incentiva o bebé a mamar, retirá-lo não é proveitoso.

13 – Podes sentir o útero a contrair durante a amamentação.
Não te preocupes, é desejável que assim seja! Amamentar facilita a contracção do útero, isto é, que regresse ao seu tamanho original (já não precisas de um útero todo dilatado).

14 – “Passei o dia a dar de mamar”.
Poderão existir dias em que andarás de mamas ao léu por saberes que dentro de momentos darás de mamar de novo, em que sentirás que passaste o dia a dar de mamar, em que te questionarás se amamentar é assim tão importante – é natural, senti o mesmo. Não obstante, são momentos de cansaço que passam, contrariamente aos benefícios da amamentação que duram uma vida inteira.

15 – Pede ajuda, não serás menos mãe por isso.
Sem ajuda provavelmente a nossa aventura no mundo da amamentação teria durado menos de 1 mês. Se tens dúvidas, se notas que a amamentação poderia correr de forma diferente, procura ajuda profissional. Existem grupos no facebook dedicados ao aleitamento materno (embora alguns deles sejam compostos por pessoas fundamentalistas), a rede amamenta, as Cam’s de Portugal  e as conselheiras em aleitamento materno em carne e osso.

16 – Amamentar deverá ser prazeroso para ambos.
Não o será todos os dias, em todos os momentos, pelo menos convém que seja na sua maioria. Se chegaste a um ponto em que já tentaste de tudo, em que sentes que realmente não está a ser proveitoso nem para ti nem para o bebé, tens direito a não querer prosseguir (na verdade tens direito logo desde o início). O LM é fundamental para o bebé, mas a felicidade e o bem-estar da mãe são mais.

imagem@dephositphotos

 

 

“A Verdade e a Mentira das Vacinas”, o livro que Mário Cordeiro gostaria de não ter escrito

Setembro 25, 2017 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do http://observador.pt/ de 7 de setembro de 2017.

Diz que devia ser óbvio que as vacinas só fazem bem mas que o surto de sarampo que este ano custou a vida a uma adolescente mostrou que ainda há dúvidas. Em livro, Mário Cordeiro responde a todas.

Da descoberta de Edward Jenner no século XVIII à moda atual da não vacinação, passando pela ligação ao autismo e pelos casos raros das vacinas que, ao contrário de outras, “não são para tomar” — Mário Cordeiro explica em A Verdade e a Mentira das Vacinas (edições Desassossego, do grupo Saída de Emergência) tudo aquilo que é preciso saber (ou esquecer) sobre a questão que em abril voltou à ordem do dia em Portugal.

Meses depois do surto de sarampo que custou a vida a uma adolescente de 17 anos e levou ao internamento de dezenas de outras pessoas, o pediatra, defensor da não obrigatoriedade da vacinação, escreve o livro que, assume no prefácio, gostaria que já não fosse necessário escrever e ao longo de 244 páginas, desfaz mitos, teorias da conspiração, fake news e ideias erradas.

No final, parafraseia o médico Arnaldo Sampaio (pai do antigo presidente da República) e admite que existem três hipóteses à disposição dos pais, que é a quem compete tomar uma decisão sobre o assunto: “Vacinar, vacinar e vacinar!”.

O Observador faz a pré-publicação do capítulo 4: “Doze mitos perigosos, que é preciso desfazer, sobre as vacinas”.

1. As melhorias das condições de higiene e sanitárias fizeram desaparecer as doenças e, portanto, não há necessidade nenhuma em vacinar, mas sim investir em infraestruturas…

FALSO! Enganosamente falso.

As doenças evitáveis pela vacinação foram controladas ou desapareceram exatamente porque se vacinou em massa. Claro que ter boas condições sanitárias (água potável, saneamento básico, rede de refrigeração de alimentos, controlo da cadeia alimentar, etc.) é indispensável para prevenir muitas doenças infeciosas, designadamente as relacionadas com a qualidade da água, moscas e outros insetos, etc. No entanto, mesmo nos países mais desenvolvidos, como a Alemanha ou França, por exemplo, nas regiões onde há grande resistência à vacinação continua a haver estas doenças, apesar dos excelentes padrões de vida. Assim, se a melhoria sanitária geral de um qualquer país é uma prioridade e permite controlar muitas doenças infeciosas, não evita, todavia, a circulação dos microrganismos causadores das doenças evitáveis pela vacinação. Só a vacinação, da população toda ou, pelo menos, de 95% dela, consegue evitar a ocorrência destas doenças, levando ao seu controlo ou mesmo eliminação, como foi o caso da varíola.

Há infeções que se podem prevenir com medidas tão simples como lavar bem as mãos ou usar máscara se se está constipado e a espirrar, ou não tossir para cima dos outros, mas para as doenças evitáveis pela vacinação, como o nome indica, o que as controla e evita é… a vacinação. É por isso que não se podem abrir brechas ou esmorecer — se isso acontecer, as doenças voltarão.

Por outro lado, em países com condições sanitárias terríveis, foi possível erradicar, por exemplo, a varíola ou controlar totalmente a poliomielite… mesmo sem água corrente e com esgotos a céu aberto — isto graças apenas às vacinas.

2. As vacinas têm imensos efeitos secundários e até alguns a longo prazo que não se conhecem. Há pessoas que dizem que sem vacinas não teríamos cancros. E podem causar a morte!

FALSO! Rotundamente falso!

As vacinas são extraordinariamente seguras. Comparadas com os medicamentos em geral, são ainda mais seguras! Todos os estudos e dados estatísticos o comprovam. Quantas vezes será preciso repetir isto?

Obviamente que podem causar reações, mas são leves e temporárias, como dor no local da injeção ou febre ligeira. Aliás, há um enorme controlo das reações secundárias moderadas ou graves, de modo a suspender de imediato o lote que possa eventualmente estar envolvido… mas não é isso que acontece com tudo o que utilizamos?

Não são, volta não volta, recolhidos brinquedos, mobiliário ou algumas séries de modelos de automóveis? Não acontece comprarmos um quilo de belas laranjas ou maçãs e, por dentro, uma ou outra estarem estragadas? Só que, neste caso, a hipotética laranja estragada é uma entre milhões e milhões de laranjas. As vacinas são inofensivas. O risco de uma criança ter uma reação adversa a uma vacina é muito, mas mesmo muito, inferior ao risco de uma complicação grave da doença que essa vacina previne. Além disso, não é possível saber, antecipadamente, quais as crianças em que a doença poderá ser grave ou matar. O que faz adoecer e mata são as doenças. A maioria das pessoas, no mundo ocidental, dado que as doenças evitáveis pela vacinação quase desapareceram, já não se lembram do que é uma meningite, uma pneumonia, surdez ou encefalite do sarampo, asfixia pela difteria, insuficiência respiratória por tosse convulsa, paralisia infantil pela poliomielite ou o que é morrer por varíola ou tuberculose.

Aliás, ao longo da história do Programa Nacional de Vacinação português, houve a preocupação de introduzir vacinas que tivessem cada vez menos efeitos secundários, como aconteceu, por exemplo, com a vacina contra a tosse convulsa.

As vacinas, tal como qualquer medicamento, são alvo de um sistema de vigilância apertado, garantindo que qualquer reação anormal seja exaustivamente investigada, o que, com tantos anos de experiência e muitos milhões — sim, centenas de milhões! — de vacinas administradas em todo o mundo, permite afirmar que as vacinas têm um elevado grau de segurança, eficácia e qualidade. O sistema está tão bem gizado que a notificação oficial de reações adversas às vacinas pelos profissionais de saúde é obrigatória. As vacinas atualmente são muito seguras e eficazes. É preciso escrever outra vez?

3. As vacinas podem causar a síndroma da morte súbita do lactente…

FALSO! Comprovadamente falso!

A síndroma da morte súbita do lactente nada tem a ver com vacinas, embora, quando se começou a estudar a síndroma, a hipótese de associação tivesse academicamente de ser colocada, mas como o foi relativamente a tudo o que se passava na vida dos bebés dessa idade… todavia, rapidamente se constatou que não era o caso e que não havia qualquer relação entre uma coisa e outra.

O facto de este tipo de morte súbita surgir nos primeiros meses de vida, quando um bebé «leva» muitas vacinas, fez surgir a ideia de que estas seriam as responsáveis… mas é errado, e afirmar isso é tão tonto como dizer que o aleitamento materno causa a morte súbita!

Além disso, quando há mais de 25 anos se decidiu que as crianças deveriam dormir de barriga para cima, a síndroma da morte súbita diminuiu para um quarto… e «por acaso» a percentagem de vacinação até aumentou. Então, se fosse verdade, agora deveriam morrer muito mais bebés com morte súbita…

4. Certo… as vacinas são uma coisa boa, mas estar a gastar dinheiro e tempo com doenças que já não existem é um bocado idiota, não é? Com tanta coisa que há a fazer…

FALSO! Demagogicamente falso!

Como já foi referido — mas nunca é de mais sublinhar —, as doenças evitáveis pela vacinação que foram sendo sucessivamente controladas diminuíram e até desapareceram de alguns países. Todavia, salvo a varíola que, essa sim, foi erradicada do mundo e já dispensa a vacinação no planeta, todas as outras doenças que podem ter pouca ou nenhuma expressão no nosso país ainda existem em muitos outros.

Veja-se o sarampo. Existe endemicamente em Angola e há surtos em Espanha, Alemanha, França, Itália e muitos outros países. Como não se vive num mundo de fronteiras fechadas, se chegar a Portugal um cidadão de outro país com sarampo e encontrar uma população vacinada, nada se passa — foram apenas casos «importados» que não significam um título de jornal a dizer: «Sarampo em Portugal».

Infelizmente, em 2017, como a taxa de vacinação tem vindo a diminuir desde há uns anos, já surgiu um surto «português» com pelo menos uma morte, e já foi, infelizmente, «abertura de telejornal».

Por outro lado, se os portugueses não estiverem vacinados, arriscam-se a apanhar a doença — sarampo ou outra — quando, por exemplo, viajarem para outro país.

curioso como, em tempos de globalização, haja pessoas a pensar em termos de «Condado Portucalense» (e mesmo nesses tempos, eram milhares os cidadãos de outras paragens que cá vinham ter, por terra e mar). As doenças atualmente evitáveis pela vacinação ainda ocorrem em diversas partes do mundo, incluindo a Europa.

Há, assim, dois motivos principais para vacinar: a proteção individual, porque, apesar de algumas destas doenças serem raras em Portugal, qualquer pessoa não protegida pode contraí-la ou, se se deslocar a um local onde a doença é endémica, terá fortes probabilidades de a «apanhar» — e, no regresso, trazer a doença para a comunidade; mas também porque vacinar dá uma proteção à comunidade, a chamada «imunidade de grupo». Nos países e regiões com elevadas coberturas vacinais, a comunidade toda acaba por estar protegida, porque os microrganismos como que encontram uma «barreira» que não os deixa «explodir» e atingir, por exemplo, seja aqueles que ainda não têm idade para se vacinar, seja os que, por qualquer razão clínica ou até social, não o podem fazer.

Numa altura em que se fala de prevenção, evitar doenças e sentimentos solidários e comunitários, custa a entender como um gesto que pode proteger o próprio e os outros é, por vezes, desdenhado.

5. A administração simultânea de várias vacinas pode aumentar o risco de efeitos secundários e sobrecarregar o sistema imunitário, abrindo portas a outras doenças.

FALSO! Cientificamente falso!

Todos os estudos científicos mostram que a administração simultânea de vacinas não causa qualquer problema, dado que a imunidade que cada uma estimula é independente. Aliás, todos os dias a imunidade dos bebés e crianças é estimulada por inúmeros vírus e bactérias com as quais eles contactam, designadamente quando os pais lhes dão beijinhos!

O simples ato de ingerir um alimento provoca respostas imunitárias muito maiores do que uma vacina — aliás, a maioria das bactérias vivem na boca e no nariz das pessoas e não na seringa da vacina, onde não há nenhuma!

Para lá disso, há que ver os aspetos práticos de não ter de ir ao centro de vacinação tantas vezes, de lhe serem administradas menos injeções, e também de se poder elaborar um calendário/programa vacinal que deixa a criança defendida numa idade precoce; caso contrário, se fosse uma a uma, quando se tivesse vacinado totalmente, a criança já teria apanhado a doença!

Um dos objetivos do PNV é a proteção precoce… esperar por tempos mais tardios seria a inutilidade total… e a morte de muitas crianças.

A administração simultânea de várias vacinas, repito, não aumenta as reações secundárias. Como referi, no dia a dia a criança está exposta a inúmeros estímulos infeciosos, estando o sistema imunitário preparado para lidar com todos eles e sendo até muito benéfico… os pais queixam-se do «infectário», porque muitas crianças, no infantário, «estão sempre doentes», mas rapidamente descobrem que, pelos 3-4 anos de idade, a criança deixa de ter infeções e fica «sã como um pero».

Acresce que a tecnologia permitiu o aumento do número de componentes das chamadas vacinas combinadas, ou seja, a proteção contra várias doenças com uma única injeção, diminuindo o número de injeções que a criança teria de receber e a melhor adesão aos esquemas vacinais, principalmente no primeiro ano de vida.

6. Veja o exemplo da gripe. Ter gripe é uma coisa normal e, além disso, a vacina é fraca e até muita gente que é vacinada tem gripe por causa da vacina.

FALSO! Ridiculamente falso!

Em primeiro lugar, a gripe pode ser grave. Muito grave. As consequências da gripe, para lá do incómodo e da baixa do estado geral da pessoa, podem ser pneumonias mortais, sobretudo em idosos e em pessoas com a imunidade diminuída, como nas que estão a ser tratadas para cancros. Uma gripe na grávida pode levar a um aborto espontâneo ou a um parto prematuro, e uma gripe num recém-nascido é muito grave.

A maioria das vacinas da gripe produz imunidade para as três estirpes de vírus desse ano (e elas mudam de ano para ano, daí a vacina de um ano ser diferente da do ano anterior, embora haja estirpes que vão e vêm, como a gripe A).

Uma pessoa vacinada para a gripe não tem gripe. Mas, atenção (e é este o motivo da confusão): chamamos «gripe» a qualquer constipação ou situação viral em que há febre, mal-estar, dores musculares… mas pode ser outro vírus ou apenas aquilo a que os anglo-saxónicos chamam, com muita propriedade, uma «common cold» — um resfriado. Para esses vírus, a vacina da gripe não serve… mas esses vírus não provocam, felizmente, doenças tão graves como a que a gripe pode provocar.

7. Se ter as doenças faz com que a pessoa fique defendida para a vida toda, então é melhor ter a doença do que vacinar com vírus atenuados e coisas do género, não?

FALSO! Perigosamente falso!

A «pequena» grande diferença é que, enquanto a doença causa imunidade, de facto, mas pode levar a consequências desastrosas e à morte, para lá dos dias em que se está doente (ou até reativações a prazo, como a zona, que é consequência da varicela), a vacina desenvolve a mesma imunidade, mas sem essa parte indesejável. Assim sendo, não se percebe este mito.

Acresce que, ao argumento de que as vacinas são caras — e algumas são-no, efetivamente —, as doenças também custam muito dinheiro ao Estado e às famílias, através dos medicamentos, internamentos, anos de vida perdidos, e custos como os do absentismo escolar e laboral, para lá, evidentemente, do sofrimento ou da morte, que não têm preço.

A vacinação é segura, porque é controlada, estudada, «feita à medida»do que o sistema imunitário pede e não, como a doença, com um caráter aleatório e, por vezes, brutal.

8. As vacinas têm mercúrio… pois se ele até está a ser retirado dos termómetros porque é um metal pesado e polui os oceanos…

FALSO! Exageradamente falso!

O tiomersal, que algumas vacinas têm como conservante do princípio ativo, principalmente nas vacinas que são dadas em múltiplas doses, não está presente em quantidades que ponham em risco a saúde humana.

A dose que uma criança recebe durante a vacinação é igual à que recebe durante os 4-6 meses de aleitamento materno, e essa dose é 250 vezes inferior a uma dose que pudesse causar problemas. 250 vezes!

Muitos leitores leem as bulas ou recorrem à Internet e ficam assustados com o que leem. É normal, porque, não sendo profissionais de saúde, e ao mesmo tempo sabendo nós que os espaços cibernéticos estão carregados de fake news, ficam assustados.

Se ficam assustados, é porque querem o melhor para os filhos. Então, leitor, acredite, não apenas na minha palavra, mas em todas as autoridades nacionais e mundiais de Saúde. Acha, sinceramente, que, como cantava o Rui Veloso, «o mundo todo se uniu para o tramar»? Porquê dar ouvidos a vendedores da banha da cobra e não acreditar, por uma vez, nos cientistas?

As vacinas salvam mais vidas do que qualquer outro tratamento médico — incrível, não é? Já temos décadas de utilização generalizada mundial para poder afirmar isto com «letras garrafais», através dos resultados e da inacreditável diminuição das mortes, internamentos e doença, não tendo, em contrapartida, efeitos indesejáveis de relevo. Ainda acredito, leitor, que surja o dia em que uma das maiores descobertas e avanços da Humanidade não seja olhada de esguelha… eu, por mim, agradeço às vacinas a hipótese de eu e os meus filhos e netos não termos morrido por uma doença evitável pela vacinação.

9. Apanhar muitas vacinas no mesmo dia faz mal…

FALSO! Embora se entenda, porque «pai é pai e mãe é mãe»!

Obviamente que custa pensar que o nosso bebé vai levar tantas «picas», mas, garanto-lhe, leitor ou leitora, não há qualquer risco acrescido de reações secundárias quando se administram simultaneamente as vacinas recomendadas para determinada idade — e até podem ser bastantes.

Atrasá-las é que é perigoso e deixa-se o bebé vulnerável a essa doenças. O ideal é cumprir o esquema recomendado, que está estudado para dar a melhor proteção, o mais cedo possível e de acordo com a idade da criança.

Aliás, alguma vez a DGS e os serviços de saúde iriam colocar em risco a saúde do bebé? Nos primeiros anos de vida, o que custa a um bebé é saber que vai ao centro de saúde, não o número de «picas» — se for «às pinguinhas», acaba por ser mais traumático, já sem falar dos dias perdidos, do contacto com pessoas eventualmente doentes, da maçada…

Portanto, leitor ou leitora, não se sinta um «monstro» por «sujeitar» o seu bebé a este «suplício» — pense quão bom pai ou mãe é, em dar-lhe o que há de melhor e como está a prevenir doenças que o poderiam afetar muito, inclusivamente matar… mesmo que, obviamente, como mãe ou pai, lhe custe ver o seu bebé a «apanhar» tantas «picas».

9. As vacinas causam autismo. Toda a gente sabe, e até tenho um sobrinho que…

FALSO! Mentirosamente falso!

O estudo de 1998 que suscitou inquietação acerca de uma possível relação entre a vacina antissarampo, parotidite e rubéola (VASPR) e o autismo era uma fraude. Sim, uma fraude. O autor foi obrigado a retratar-se, dado ter cometido enormes irregularidades metodológicas, para lá da reduzidíssima amostra, e obrigado a deixar de exercer medicina.

Também nos Estados Unidos, um médico que era um dos principais detratores das vacinas, Jeff Bradstreet, pai de uma criança autista, lançou essa ideia e acabou por se suicidar em 2015, ao que se crê devido a um eventual remorso pelas suas atitudes. Outro caso foi o de Andrew Wakefield, um médico que forjou os resultados de um pretenso estudo em que relacionava a VASPR com o autismo; o estudo foi publicado na prestigiada revista Lancet e causou mossa, mesmo depois de um jornalista, Brian Deer, ter investigado o caso e descobrir que tudo era mentira e o médico acabar por ser irradiado da Ordem e deixar de exercer; a revista publicou um pedido de desculpas, cerca de dois anos depois.

O mal estava feito. Nos EUA, o conhecido ator Robert de Niro, pai de uma criança autista, deu voz a essa relação entre as vacinas e a doença, porventura para tentar ter uma explicação para o infortúnio do filho, mas com isso conseguiu que milhares de crianças não fossem vacinadas e muitas tivessem morrido. É compreensível que alguns pais tentem arranjar uma explicação para fenómenos que não são explicáveis, ou para os quais a ciência ainda não descobriu uma razão. Na falta de uma explicação, e para não nos culparmos a nós próprios, aos nossos genes, a culpa «judaico-cristã» leva a que se arranje um bode expiatório. As vacinas, por serem tão «vagas», desempenham um bom papel…

As vacinas são seguras e eficazes e todas as crianças e adultos devem cumprir os esquemas de vacinação recomendados para a sua idade e estado de saúde. O autismo, desculpe o leitor o coloquialismo, «não é para aqui chamado!».

11. Como toda a gente se vacina, escuso de vacinar o meu filho… assim, não tenho, nem a doença, nem os eventuais efeitos secundários da vacina…

FALSO! Arriscado, traiçoeiro e… horrendamente egoísta!

Quem pensa assim pensa errado, por várias razões, entre as quais: é de um enorme egoísmo querer que os outros nos protejam e nós não façamos o mesmo, dado que não estaremos a contribuir para a imunidade de grupo. É como não pagar impostos ou outra coisa qualquer de espírito comunitário — uma atitude abjeta do ponto de vista social.

Por outro lado, todas as crianças devem ser vacinadas nas idades recomendadas desde que não tenham uma verdadeira contraindicação (o que será determinado pelo médico-assistente), porque qualquer criança não vacinada ficará suscetível às doenças e suas complicações (que podem ser muito graves e não se consegue prever em quem surgirão) por não ter imunidade natural (uma vez que não teve a doença) ou adquirida (pela vacinação).

A recusa individual da vacinação compromete o interesse coletivo, já que uma criança não vacinada por opção dos pais se adoecer, pode contagiar outras crianças não vacinadas por contraindicação médica comprovada ou por ainda não terem idade para ter iniciado ou completado a vacinação. Mas, mais, quem lhe garante que o seu filho não irá, daqui a uns anos, viajar para países onde as doenças ainda são endémicas — tuberculose, sarampo… — ou entrar em contacto com alguém doente que veio desses países? Não pretende que ele ou ela vivam num bunker, certamente, até porque isso seria impossível com a globalização da vida das pessoas.

Assim, se optar por não vacinar o seu filho, deverá ter bem ciente que está a fazê-lo correr riscos desnecessários quanto à saúde e quanto à vida — já agora, porque é que não o transporta no carro deitado no banco de trás, sem cadeirinha, ou não o expõe ao sol, sem protetor, durante oito horas seguidas num dia de verão? É exatamente o mesmo tipo de atitude!

Caso tome essa opção — o que espero sinceramente que não faça depois de ler este livro —, há alguns cuidados a ter, nomeadamente: se o seu filho adoecer e tiver de recorrer a um serviço de saúde, deve avisar imediatamente os profissionais de saúde que a criança não recebeu todas ou algumas das vacinas recomendadas para a sua idade, uma vez que é necessário, nestes casos, considerar que a criança pode ter uma doença evitável pela vacinação. Se aparecer na escola alguma criança com uma doença evitável pela vacinação, o seu filho terá de cumprir um período de afastamento da escola e de outras atividades de grupo até haver a certeza que não contraiu a doença e não a irá disseminar.

Esse período varia conforme a doença (que pode ser de dias ou semanas). Se o seu filho viajar, é bom ter a noção de que muitas das doenças que estão controladas no nosso país ainda existem «à grande» noutros países, como, por exemplo, o sarampo, pelo que o seu filho não estará protegido. Para além de adoecer, pode trazer de novo a doença para Portugal quando regressar e contagiar outras crianças não vacinadas. Quanto maior for o número de pais que optam por não vacinar os filhos, maior é o risco de disseminação das doenças evitáveis pela vacinação. Ao decidir não vacinar, não põe só o seu filho em risco, mas também toda a comunidade.

Todavia, sei que o leitor ou leitora é inteligente e que, se ainda não vacinou o seu bebé, irá vaciná-lo, quanto mais não seja, porque o ama e quer o melhor para ele.

12. Os ministérios da Saúde estão feitos com as multinacionais, com a alta finança e com os países ricos que exploram os mais pobres… aliás, são as multinacionais que disseminam as doenças, para depois venderem medicamentos e vacinas.

FALSO! Se não fosse tão grave, dava para rir.

É… e nos séculos XIII, XIV, XV e XVI, quando houve epidemias de peste negra, tuberculose, sífilis, ou gripe «espanhola» já em 1918, para só citar algumas, eram seguramente os índios americanos, organizados em multinacionais (apesar de não haver aviões nem Internet) que faziam isso tudo. Depois, com o que ganhavam, compravam amuletos e faziam totens…

Se o ridículo matasse, haveria muita gente que já tinha ido… o pior é que, com base nestes mitos e fake news, propalados pelas redes sociais, muitas pessoas de carne e osso morrem porque acreditam nestes profetas que dizem as maiores mentiras impunemente.

Claro que uma multinacional que fabrica vacinas quer recuperar o investimento de milhões que fez, e ao mesmo tempo, numa sociedade de economia de mercado, quer dar aos investidores e acionistas o maior rendimento possível. Isso acontece tanto com vacinas, como, por exemplo, com sapatos ou lâmpadas.

A questão, aqui, é mais o que os Estados podem e devem fazer, já que se trata de uma questão de saúde pública, em termos de regularizar preços, negociar condições e realizar concursos públicos internacionais em que se podem conseguir custos de cerca de um terço de uma compra simples de «venda ao público». Quanto aos Estados produzirem vacinas, torna-se impossível por se exigir uma tecnologia que não têm e as vacinas passarem a ser incrivelmente mais caras e menos fiáveis.

 

 

Médica alerta que problemas de visão afetam uma em cada cinco crianças

Setembro 14, 2017 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do https://lifestyle.sapo.pt/ de 29 de agosto de 2017.

Nuno Noronha

Uma em cada cinco crianças sofre de problemas oftalmológicos, uma situação que pode agravar-se com o excesso de horas que os mais pequenos passam de olhos postos nas novas tecnologias.

Aproveitar o verão para tirar as crianças da frente dos aparelhos eletrónicos ajuda a minimizar os riscos, aconselha a Sociedade Portuguesa de Oftalmologia (SPO).

“As horas passadas em contacto com dispositivos eletrónicos e exposição a ecrãs podem ser prejudiciais”, confirma Alcina Toscano, coordenadora do grupo de Oftalmologia Pediátrica e Estrabismo da SPO.

Apesar de, refere a médica, “não estarem diretamente relacionadas com problemas oculares”, quando em exagero “e em más condições ergonómicas (má postura, luminosidade incorreta, distância inadequada)”, os ecrãs que conquistam a atenção dos mais pequenos “contribuem para o aparecimento de sinais e sintomas, não só oculares como gerais. Estudos recentes apontam para uma maior incidência de miopia nestas crianças, quando comparadas com crianças que passam mais tempo ao ar livre”.

Recomendam-se, por isso, alguns cuidados. A começar pela atenção dada à posição, iluminação e distância adequada em relação a estes aparelhos, assim como a escolha “de programas de valor educacional”.

Alcina Toscano aconselha ainda o estabelecimento “de regras e tempos em que estes não devem ser usados (refeições, viagens em família)” e ainda aquilo que define como “a regra do 20/20/20 (sobretudo para os mais velhos): a cada 20 minutos olhar 20 segundos para uma distância de 20 pés (cerca de 6 metros)”.

Lá fora, há também que ter atenção ao sol. Neste caso, os cuidados para os olhos são os mesmos que aqueles que se deve ter com a pele: “evitar a exposição direta ao sol nas horas de radiação ambiente mais elevada ou onde houver maior radiação, e proteger a face do sol com uso de boné ou chapéu de abas largas”. No que diz respeito ao uso de óculos de sol, este está indicado para os mais pequenos “quando houver exposição a níveis elevados de radiação UV ou quando a refletividade for elevada”. No entanto, a médica reforça que “óculos com lentes escuras não são sinónimo de proteção ocular. O que cria barreiras aos raios UV é um filtro incorporado na lente e não a coloração”.

Não falando de situações agudas e benignas como as conjuntivites, os problemas oftalmológicos mais comuns entre as crianças são, avança a especialista, os erros refrativos, cujo diagnóstico e tratamento precoces fazem a diferença. “Podemos prevenir o desenvolvimento de ambliopia. Esta é uma doença exclusiva da idade pediátrica, que ocorre durante o período de desenvolvimento da visão, o chamado período crítico, de maior sensibilidade a qualquer interferência com a visão e maior plasticidade cerebral”, refere.

A médica salienta ainda que a “primeira avaliação oftalmológica deve ser realizada à nascença e pode ser realizada pelo pediatra, para despiste de patologias congénitas como a catarata”.

Para um rastreio oftalmológico “existem atualmente métodos de foto-rastreio, que podem ser realizados por técnicos de saúde, sendo a idade ideal para a sua realização entre os 2 e 2,5 anos e que se pretende que sejam implementados a nível nacional”.

Segundo a especialista, não havendo sinais ou sintomas de alerta, “nem história familiar de doença ocular, a primeira consulta de oftalmologia deve ser realizada entre os 3 e os 4 anos, para um exame oftalmológico completo”.

 

 

 

Dois terços dos alunos carrega mochilas com demasiado peso

Setembro 12, 2017 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do http://lifestyle.publico.pt/ de 29 de agosto de 2017.

Lusa

O peso é carregado por alunos sujeitos a uma carga horária que pode chegar a nove horas, sem contar com o percurso entre a casa e a escola.

Dois terços dos alunos portugueses carregam às costas mochilas demasiado pesadas, que podem atingir 11 quilos com todos os livros e material necessário, segundo a associação Deco Proteste, que analisou seis escolas públicas e privadas da Grande Lisboa.

No estudo, publicado no número de Setembro da revista Proteste, aponta-se os riscos para a saúde de tanto peso a que estão sujeitos corpos cujos ossos ainda estão a formar-se, nas idades entre os 10 e os 13 anos.

O caso mais extremo de excesso de peso encontrado foi o de um rapaz de 11 anos que transportava 11 quilos, mais de um terço do seu peso corporal, o que é três vezes mais do que é recomendado pela Organização Mundial de Saúde.

A Deco vai pedir uma audiência à comissão parlamentar de Educação e Saúde, a quem enviará os resultados do estudo.

Uma petição com 48 mil assinaturas pedindo medidas para reduzir o peso das mochilas está já a ser analisada na comissão.

A investigação, conduzida em Março deste ano, centrou-se em 174 alunos, 66% dos quais tinham peso a mais nas mochilas, percentagem superior aos 53% encontrados no estudo semelhante anterior, feito em 2003.

As cargas mais intensas, representando 20% do peso corporal de quem as carrega, também são mais frequentes: aumentaram de 4,5% em 2003 para 16% este ano.

Para além dos livros necessários a cada disciplina, alguns dos quais com muito pouco uso, o que enche as mochilas são cadernos, dossiês, estojos, carteiras, chaves, roupa e calçado para Educação Física, enumera um aluno entrevistado pela Proteste.

Este peso é carregado durante todo o dia várias vezes por alunos sujeitos a uma carga horária que pode chegar a nove horas, sem contar com o percurso entre a casa e a escola.

A Deco apela à tutela, às editoras e às escolas, defendendo medidas como mais conteúdo digital na educação, livros em fascículos ou instalação de cacifos. Aos pais, pede-se um olhar atento para distinguir o que é mesmo necessário nas mochilas, que devem ir à balança antes de saírem de casa.

 

 

 

O açúcar é “tão viciante como a cocaína”, alertam especialistas

Setembro 8, 2017 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.noticiasaominuto.com/ de 25 de agosto de 2017.

Um estudo publicado no British Journal of Sports Medicines sugere que o açúcar pode ser tão viciante como a cocaína, o que significa que pode provocar ânsias, vontade de comer sem parar e sintomas semelhantes aos que surgem a um toxicodependente em abstinência – como depressão e distúrbios comportamentais. 

Os especialistas estão preocupados com o consumo excessivo de açúcar, especialmente nas crianças, uma vez que o consumo médio é cerca de três vezes superior ao recomendado – a dose diária recomendada é de 90 gramas para um adulto com uma dieta diária de duas mil calorias. Este consumo excessivo pode levar a obesidade, cáries, diabetes tipo 2 e doenças cardiovasculares.

Para o seu estudo os investigadores do Saint Luke’s Mid-America Heart Institute analisaram investigações sobre o açúcar e a dependência.

Concluíram que o açúcar refinado e as drogas opiáceas espoletavam uma resposta semelhante do sistema de recompensa do cérebro, ambos levando o cérebro a libertar dopamina e outros químicos de indução de prazer. O problema é que quando o corpo se habitua a esta resposta, quer mais e mais, levando à dependência.

Mais informações na notícia do The Guardian:

Is sugar really as addictive as cocaine? Scientists row over effect on body and brain

 

 

 

“O que está em causa não são motivações éticas, mas sim de saúde publica” – Vacinação

Agosto 17, 2017 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do http://www.educare.pt/ de 3 de agosto de 2017.

Pais estão informados dos riscos da não vacinação e defendem que nas escolas todos os alunos tenham pelo menos as vacinas do Programa Nacional de Vacinação.

Andreia Lobo

Nenhum dos seus irmãos foi vacinado em criança. E a mãe continua a não acreditar nas vantagens da vacinação. Hoje, aos 38 anos e pai de uma criança de dois anos, não passaria pela cabeça de Luís, nome fictício, seguir o exemplo da progenitora. “A minha realidade, em criança, era diferente. Estava em casa com a minha mãe. A minha filha foi para o berçário com menos de um ano. E é claro que o sistema imunológico nestas idades é demasiado frágil para estar em contacto com outras crianças.”

O boletim de saúde da criança está atualizado com o registo da aplicação de todas as vacinas do Programa Nacional de Vacinação (PNV) contra a tuberculose, a hepatite B, a difteria, o tétano, a tosse convulsa, as doenças causadas por Haemophilus influenzae, a poliomielite, a meningite C, o sarampo, a papeira e a rubéola. “Mesmo que a minha filha ficasse em casa, muito provavelmente, não corria o risco de não vacinar”, acrescenta Luís.

Ricardo Costa acompanhou, com interesse de pai, as notícias que foram surgindo na Internet e nos jornais sobre “a polémica da vacinação”. A morte de uma adolescente, devido a uma complicação causada pelo sarampo, extremou posições sobre como sensibilizar os pais a cumprir o PNV. Uma proposta do CDS-PP, rejeitada pelo Parlamento em maio, recomendava que fosse ponderada a possibilidade de impedir as matrículas – ou a sua renovação – aos alunos que não tivessem a vacinação recomendada no Programa Nacional de Vacinação.

O filho de Ricardo Costa, tem 6 anos e frequenta a primeira classe. Como acontece todas as crianças que entram para o 1.º ciclo, na hora da matrícula foi pedido aos encarregados de educação que apresentassem o registo de vacinas. Trata-se de um livrinho amarelo – que faz parte do boletim de saúde – onde os profissionais de enfermagem registam a vacinação. Para isso, colam a etiqueta da embalagem que identifica o lote e a composição da vacina dada. Ou, em alternativa, colocam carimbo do Ministério da Saúde ou da Unidade de Saúde familiar, onde a vacina foi administrada, e a respetiva data.

No boletim de saúde da criança constam todas as vacinas obrigatórias. Para Ricardo Costa, não poderia ser de outra forma. Conhece as razões que levam pais e mães que não querem vacinar os filhos, mas acredita que “os movimentos antivacinas só vêm confundir a opinião pública”. O cirurgião pediatra, João Moreira Pinto concorda, lembrando que, “infelizmente” um grande mito continua a alimentar muita da descrença na vacinação.

Trata-se de um estudo conduzido em 1998 pelo médico britânico Andrew Wakefield, publicado na revista científica Lancet, e que associava a administração da vacina do sarampo a alguns casos de autismo. Mais tarde, em 2004, a credibilidade do estudo caía por completo, depois de ter sido descoberto que o investigador tinha falsificado os dados clínicos a troco de dinheiro dos advogados dos pais das crianças autistas que queriam processar as empresas produtoras das vacinas.

Entretanto, explica João Moreira Pinto, “o artigo supostamente científico onde constavam essas falsidades foi retirado de publicação. E, agora, o caso é uma vergonha para a comunidade científica”. O episódio deixou, no entanto, graves consequências. Em 2008, pela primeira vez em 14 anos, o sarampo voltava a ser frequente no Reino Unido: 461 casos registados em Inglaterra e no País de Gales, 68 na Escócia, segundo dados do Centro de Prevenção e Controlo de Doenças Europeu.

Em Portugal, até maio deste ano, a Direção-Geral de Saúde (DGS) tinha registado 28 casos confirmados de sarampo e 134 notificações em território nacional. Como pai, Ricardo Costa tem uma visão prática sobre a importância da vacinação. “O que está em causa não são motivações éticas, mas sim de saúde publica.” Se dependesse de Cristina Cruz, mãe de um menino de 12 anos, a proposta dos centristas teria sido aprovada e os alunos não se poderiam matricular sem a vacinação em dia. Bárbara Pinto, mãe de uma menina de 12 anos, não iria tão longe. “Penso que as escolas poderiam comunicar às autoridades competentes os casos das crianças que não estão devidamente vacinadas.

João Moreira Pinto também teria votado a favor de uma proposta que responsabilizasse mais os pais na proteção das crianças. “Ao matricular a criança na escola os pais estão a aceitar que ela pertença a uma comunidade que tem as suas regras e estas passam por uma segurança para o próprio e os outros”, argumenta.

O cirurgião pediatra lembra que as crianças não vacinadas – sendo ainda em número muito menor em relação às que o são – beneficiam da “imunidade coletiva”. Ou seja, não adoecem pelo facto de a maioria dos colegas serem vacinados. O aumento de não vacinados afetará este equilíbrio. Pior, diz o médico, uma criança não vacinada “pode estar a colocar em perigo também crianças já vacinadas”. Como? “A taxa de eficiência de uma vacina nunca é de 100%. Pode haver uma criança vacinada que não ficou completamente imune e, portanto, se outros não estiverem vacinados e o vírus andar a circular, pode de facto ficar infetada.”

Muitas das dúvidas dos pais sobre o Programa Nacional de Vacinação encontram resposta na página eletrónica da DGS [https://www.dgs.pt/pns-e-programas/programas-de-saude/vacinacao.aspx]. Nos projetos de resolução aprovados em maio consta a realização de uma campanha nacional de sensibilização para a importância das vacinas na redução da mortalidade e controlo e erradicação de doenças.

A pensar nos riscos da vivência escolar, Cristina Cruz defende que a escola esteja atenta aos alunos que não têm a vacinação mínima. “É uma forma de proteger os nossos filhos e a sociedade em geral”, argumenta. No boletim de vacinas do filho constam as vacinas do PNV e mais as que não são obrigatórias. “Existem muitas vacinas não comparticipadas e eu investi nelas, por saber que são importantes”, refere Cristina, lembrando que quando se trata de ponderar a administração de vacinas “polémicas” recorre ao aconselhamento médico. “Quando houve o surto de hepatite A, o pediatra do meu filho não achou fundamental vaciná-lo e eu não vacinei.”

 

 

Ter uma criança passa a ter um guia online

Julho 17, 2017 às 8:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Notícia da https://www.rtp.pt/ de 30 de junho de 2017.

ouvir a notícia do link:

https://www.rtp.pt/noticias/pais/ter-uma-crianca-passa-a-ter-um-guia-online_a1011503#

mais informações:

https://www.portaldocidadao.pt/web/instituto-da-seguranca-social/tenho-uma-crianca

Descarregar o manual Tenho uma Criança : Guia para conhecer os seus direitos, deveres e outras informações úteis no link:

https://www.portaldocidadao.pt/documents/842037/0/tenho_uma_crianca.pdf/

Com a casa às costas: O que levam os alunos dentro das mochilas?

Julho 12, 2017 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do http://www.educare.pt/ de 28 de junho de 2017.

O estudo citado na notícia é o seguinte:

O peso das mochilas escolares: contributos para uma reflexão fundamentada

Cada criança deve levar na mochila cerca de 10% do seu peso. Um relatório do Observatório de Recursos Educativos (ORE) sugere várias medidas para resolver o problema, desde a atribuição de uma sala a cada turma à divisão dos manuais escolares em fascículos.
Andreia Lobo

O que levam as crianças nas mochilas? Manuais, cadernos, estojos, o lanche e talvez um ou dois spinners. O peso que carregam é muitas vezes considerado excessivo. Quando assim é, as crianças e os adolescentes, tal como acontece com os adultos, podem sofrer de dores nas costas, alterações da marcha e postura incorreta. Em 2009, a Organização Mundial de Saúde (OMS) mostrava-se preocupada com este fenómeno. Alertava que o peso da mochila não devia ultrapassar os 10 a 15% do peso da criança e adolescentes.

Uma reportagem da RTP mostrava, na mesma altura, que no 7.º ano os alunos chegavam a carregar diariamente cerca de sete quilos de material escolar. Sendo certo que à medida que a escolaridade progride, e as disciplinas vão aumentando, também se avolumavam livros e cadernos. Ao ponto da OMS considerar o excesso de peso nas mochilas um problema de saúde pública. O debate não é novo, nem exclusivo. Outros países questionam que medidas adotar para aliviar os alunos.

Mas voltemos à pergunta inicial. O que levam as crianças nas mochilas? Gonçalo, 10 anos, aluno do 4,º ano do ensino público, dá uma longa resposta. “Levo o caderno diário de Português, o caderno diário de Matemática, o manual de Estudo do Meio, o manual de matemática, o manual de português, levo três estojos, um livro, a sebenta, a lancheira e outras coisas…” A meio da listagem, Gonçalo pede uma pausa. Vai verificar dentro da mochila se não esquece nada. “Não levo os manuais todos os dias, só quando é preciso, mas normalmente levo sempre o de Português e o de Matemática e os dois cadernos…”, retifica, depois a lista continua: “Levo a caderneta, o Dicionário de Português, se tiver de fazer alguma ficha de português…” Os cadernos de exercícios entram no rol de passageiros “só quando é preciso corrigir os trabalhos de casa”.

Quando fecha a mochila, o peso rondará os quatro a cinco quilos, contas feitas a olho, pela mãe. Independentemente do peso, Gonçalo acaba por não andar muito carregado. De manhã, a mãe leva-o de carro. A mochila vai também no banco de trás. No final das aulas é pior. A avó vai buscá-lo a pé. Dez minutos de percurso, da escola à casa da avó, mas Gonçalo vai de “mãos livres”. “A minha avó queixa-se que a mochila é pesada, até diz que só queria ter aquele peso em dinheiro!”, graceja.

Muitos dos cadernos A4 que os alunos utilizam não chegam até ao fim. Se isso fosse levado em conta, a lista de material talvez pudesse ser encurtada. No relatório “O peso das mochilas escolares: contributos para uma reflexão fundamentada”, publicado este mês, Adalberto Dias de Carvalho e Nuno Fadigas, investigadores do Observatório dos Recursos Educativos, chamam a atenção precisamente para “o material escolar excedentário” que alunos e jovens carregam para a escola. Estojos e cadernos escolares “que não raramente terminam a sua vida útil com pouco mais de um quarto de páginas utilizadas”. Também é comum as crianças levarem nas mochilas objetos que nada têm a ver com a escola.

A maior fatia do peso continua, no entanto, a ser a dos manuais escolares Quando se avança para a hipótese de substituir os vários manuais por tablets com versões e-book, a dupla de investigadores recomenda “especial cautela”. Porquê? Por um lado, porque o sedentarismo, a falta de exercício, o número de horas passadas em frente à TV ou ao computador são outros fatores que concorrem com as mochilas para a má postura física de crianças e jovens.

Por outro lado, a aprendizagem feita através de plataformas digitais permanece envolta em condicionantes, como mostrava em 2015 o estudo “Students, computers and learning: making the connection”, publicado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), evidenciando que os sistemas educativos ainda não tinham conseguido criar pedagogias de ensino e aprendizagem que permitissem tirar o melhor proveito da tecnologia.

Legos, bonequinhos e livros
Rafael, 10 anos, a frequentar o 4.º ano no ensino privado, prepara a mochila sozinho. Antes de correr o fecho, a mãe dá quase sempre uma espreitadela. Não são raras as vezes em que se vê forçada a retirar alguma “tralha”. O que leva o miúdo para a escola? “Tudo, se puder leva tudo!”, responde Marta Oliveira fazendo uma breve listagem: “Legos, bonequinhos pequeninos, livros para ler, desenhos soltos, quando era mais pequeno levava também carrinhos…” A propósito do item “livros”, a mãe refere que a professora – “e muito bem” – põe as crianças a ler. Por isso, Rafael enche também a mochila com livros de histórias para usar nesses momentos de leitura.

Além dos brinquedos, dos manuais, cadernos e dos livros, há que contabilizar o lanche e a garrafa de água. Uma vez por outra, durante uma vistoria ao conteúdo da mochila, Marta encontra uma circular da escola perdida no meio da papelada. A mochila, serve para Rafael transportar “uma verdadeira lixeira”, ironiza. Mesmo no final do ano letivo, Marta acredita que a mochila pese à volta dos cinco quilos. Rafael pesa 38 quilos.
Uma investigação realizada em 2013 em Espanha, com crianças de 8 a 10 anos, a frequentar o 3.º e o 4.º anos, concluía que “o peso excessivo resulta da falta de supervisão do aluno sobre o material que necessita para a aula”. Os investigadores verificaram como alunos da mesma turma chegam a transportar mochilas com diferenças de peso até 4,2 quilos. Quando abriram as mochilas detetaram algumas situações passíveis de serem corrigidas.
Um erro frequente era o uso de mochilas de grande proporção. Ou seja, com tanto espaço para “meter coisas”, tudo cabia na mochila. Alguns alunos levavam para a escola manuais de disciplinas que não tinham aula nesse dia. Ou estojos com materiais não pedidos pelos professores. E, mesmo dicionários de língua espanhola e estrangeira que, segundo os investigadores, deveriam permanecer na sala de aula.

Adalberto Dias de Carvalho e Nuno Fadigas avançam com algumas recomendações sobre como aliviar o peso das mochilas. Na escola, a atribuição de uma sala fixa por turma, um cacifo por aluno, horários capazes de minimizar as solicitações de material escolar por dia. Logo no início do ano, dizem os autores, deve ser enviada aos pais uma lista não apenas com o material, mas com o seu escalonamento temporal.

Outra das medidas passa por esclarecer os encarregados de educação sobre como ajudar as crianças e os jovens a “preparar a mochila”, sobretudo nos 1.º e 2.º ciclos. Os autores sugerem ainda uma contenção dos TPC de modo a que não obrigam ao transporte dos manuais para casa, o uso de uma balança na sala de aula, para autorregulação do peso carregado. Mas também a valorização da disciplina de Educação Física, como forma de criar hábitos e posturas mais saudáveis.

O relatório do ORE sugere ainda às editoras uma mudança de formato no fabrico dos manuais. E sugere a divisão dos manuais escolares em fascículos e o uso de papel com uma gramagem mais leve. As recomendações estendem-se aos fabricantes de mochilas, pedindo-se uma “valorização prioritária dos aspetos ergonómicos”.

Às costas ou pelo chão?
Por muita variedade de cores, tamanhos e formatos, no que toca às mochilas escolares, existem apenas duas opções: mochila para carregar às costas ou para mover pelo chão com rodas. O ORE encontrou uma vasta revisão de literatura sobre as vantagens e desvantagens destas duas opções. As evidências sugerem que o uso dos carrinhos escolares tem como consequência um aumento do peso carregado.

Os resultados de uma investigação feita no ensino privado, publicada na Revista Brasileira de Fisioterapia, publicada em 2008, mostravam crianças a transportar nas suas mochilas carrinho cargas superiores a 10 quilos quando o material de uso diário exigido pelos professores não ultrapassava 1,5 quilo. Uma situação alterada através de um programa de educação postural, aplicado em 129 escolas, nos 4.º e 5.º anos de escolaridade, ter sensibilizado alunos e professores para os cuidados a ter com a coluna vertebral.

A pouca maleabilidade das rodas, por exemplo, quando é preciso subir e descer escadas, condiciona a utilização destes carrinhos. Apesar de ser a opção considerada menos prejudicial. Até agora, Rafael usava a mochila carrinho, por recomendação expressa do pediatra. “Se usasse mochila normal, com as coisas que ele leva atualmente para a escola, era bem possível que ao pô-la aos ombros caísse para trás”, constata.

Em 2014, a BackCare, uma organização sem fins lucrativos que alerta para o conhecimento das lesões na coluna, conduziu uma pesquisa nacional no Reino Unido entre um grupo considerado de risco, crianças de 11 e 12 anos de idade. Em média, as crianças carregavam mochilas com 13% do seu peso, em alguns casos com 60%. Além do peso, os investigadores verificaram que as crianças carregam mal a mochila, usando apenas a alça num dos ombros.

No próximo ano letivo, Rafael vai deixar as “rodas” e usar a tradicional mochila às costas. Talvez por uma questão de moda. Talvez porque o miúdo já se sinta crescido o suficiente para um modelo de mochila que julga ser mais “de adulto”. Seja qual for a razão, o pediatra já fez saber que a nova mochila deverá “obrigatoriamente” ser carregada nos dois ombros.

 

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