Crianças e jovens dormem cada vez menos

Fevereiro 12, 2016 às 9:00 am | Na categoria Estudos sobre a Criança | Deixe o seu comentário
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Notícia do http://www.nos.uminho.pt de 26 de janeiro de 2016.

doutissima

Catarina Dias

Estudo do CIEC conclui que 72% dos menores dormem de 7 a 9 horas diárias durante a semana, “o que é pouco”, diz Olinda Oliveira. Foram inquiridos 502 alunos, com idades entre os 9 e 17 anos.

Um estudo da Universidade do Minho revela que 72% dos menores dormem de 7 a 9 horas diárias durante a semana, “o que nem sempre é suficiente” para assegurar o seu bem-estar físico e psicológico. Associados a noites “mal dormidas” estão sintomas como mudança de humor, desmotivação, ansiedade, falta de concentração ou ainda, em casos extremos, problemas de comportamento, obesidade e menor resistência a doenças, diz Olinda Oliveira, autora deste trabalho. A presença de aparelhos multimédia no quarto parece ser um dos fatores que mais retarda a hora de deitar.

A investigação incluiu uma amostra de meio milhar de alunos, com idades compreendidas entre os 9 e 17 anos. Pretendeu averiguar a quantidade e a qualidade de sono dos alunos em função do meio de residência, sexo e ano de escolaridade, identificar fatores externos com impacto na redução progressiva das horas de repouso, bem como avaliar de que forma a qualidade do sono interfere na saúde física e emocional, nos comportamentos e na aprendizagem dos envolvidos.

Os resultados comprovam o que se passa na generalidade dos países do Ocidente: a tendência em dormir menos de 9 horas por noite aumenta à medida que se avança nos anos de escolaridade. “Esta mudança nos hábitos e padrões do sono pode ter efeitos negativos nos processos de desenvolvimento, no progresso psicossocial e na performance académica dos jovens”, realça a investigadora, que teve a orientação de Zélia Anastácio, do Instituto de Educação. A culpa é também dos aparelhos eletrónicos A tese de mestrado mostra ainda que mais de metade dos estudantes admite sentir, “às vezes”, distração. E há outros sintomas que, mesmo não sendo manifestados pela maioria dos 502 inquiridos, surgem com alguma frequência, tais como mudanças de humor (198), ansiedade (195), bocejo constante (185), agitação (166), desmotivação (160), olheiras (141), irritabilidade (129), pequenos acidentes (118), muita tristeza (114) e fadiga muscular (100). Da amostra integral, 12% confessou ter adormecido pelo menos uma vez nas aulas.

Entre os fatores externos que mais retardam a hora de deitar está a existência de aparelhos multimédia no quarto. Mais de sete em cada dez inquiridos afirmaram ter televisão no quarto, seguindo-se do computador, aparelho de música e internet (55,8%). “A necessidade cada vez maior de privacidade por parte das crianças e dos adolescentes leva os pais a colocarem uma panóplia de aparelhos nos quartos dos filhos, propiciando hábitos de sono pouco saudáveis”, justifica Olinda Oliveira. A Fundação Nacional do Sono dos EUA vai ainda mais longe ao afirmar que os alunos com quatro ou mais itens eletrónicos nos quartos têm quase o dobro da probabilidade de adormecer na escola e/ou enquanto fazem os trabalhos de casa.

Meio rural favorece qualidade do sono

O local de residência parece igualmente influenciar a qualidade do sono dos mais jovens. Os que habitam em meios rurais tendem a ter períodos de sono mais tranquilos e deitam-se mais cedo durante a semana (21h00-22h00) e ao fim de semana (23h00-24h00). “As profissões praticadas pelos pais do meio urbano nem sempre implicam horários fixos de trabalho, o que atrasa a hora do jantar e, consequentemente, de deitar, afetando negativamente toda a unidade familiar”, esclarece.

Foram ainda identificadas diferenças significativas nos hábitos de sono, segundo o sexo dos inquiridos (249 do sexo feminino e 253 do sexo masculino). Durante a semana, as raparigas acordam mais cedo do que os rapazes, invertendo-se a tendência ao fim de semana. Estas discrepâncias vêm confirmar o que já é defendido noutros estudos internacionais: “Por norma, as mulheres têm ao longo da vida maior incidência de problemas de sono, como insónias e pesadelos”, sublinha a investigadora Olinda Oliveira. O seu trabalho foi também alvo de publicação pela Elsevier e pela Asociación Nacional de Psicología y Educación.

 

 

 

Palmadas afetam saúde mental das crianças. Mas não só

Fevereiro 8, 2016 às 1:00 pm | Na categoria A criança na comunicação social | Deixe o seu comentário
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Notícia do site http://www.noticiasaominuto.com de 27 de janeiro de 2016.

pixabay

Por Daniela Costa Teixeira

As palmadas dadas às crianças são a primeira forma de abuso que os mais novos sofrem, dizem os especialistas.

Há quem defenda que umas palmadas ‘nunca fizeram mal a ninguém’ e são, mesmo, uma ‘forma de educar e de impor respeito’. Mas não serão essas mesmas palmadas uma forma de abuso contra as crianças?

A questão foi colocada pelo professor psiquiátrico Ronald Pies, que defende que a chamada ‘punição corporal’ não só é um abuso contra as crianças, como pode mesmo afetar a saúde mental das mesmas.

“Eu e a minha esposa não temos filhos e, por isso, não posso julgar os casais que têm filhos com difíceis problemas comportamentais. Mas, como psiquiatra, não posso ignorar a evidência de que os castigos corporais, incluindo a palmada – que é geralmente definida como a palmada de mão aberta e que não causa danos – tem um impacto grave na saúde mental das crianças”, disse Ronald Pies, citado pelo Daily Mail, que traz o assunto à ribalta depois de o senador do Texas (Estados Unidos) Ted Cruz ter revelado que bate à sua filha de cinco anos quando esta diz mentiras.

Um caso controverso nos Estados Unidos

Dar uma palmada, ou não dar uma palmada, eis a questão.

Nos Estados Unidos, os castigos corporais são comummente alvo de estudo, crítica e opinião. Michelle Knox, professor de psiquiatria na Universidade de Toledo, passou a pente fino todos os dados acerca das agressões (graves ou não) de pais contra filhos e detetou uma atitude “irónica” entre os norte-americanos.

Nos Estados Unidos, diz o docente, “é contra a lei bater em prisioneiros, criminosos e outros adultos”, mas “ironicamente” é o único país onde “ainda é legal bater nos membros mais vulneráveis da sociedade – aqueles que deveriam proteger – as crianças”.

Para o psiquiatra, as palmadas não só não são uma solução, como “bater é, frequentemente, o primeiro passo num ciclo de abuso infantil”, ideia defendida, também, em 2011, pela Associação Nacional de Profissionais de Enfermagem Pediátrica dos Estados Unidos.

De acordo com o organismo, citado pelo Daily Mail, “o castigo corporal é um importante fator d risco para as crianças que desenvolvem um padrão de comportamento impulsivo e anti-social”. Mas não só, as crianças que “frequentemente” são alvo de castigos corporais “são mais propensas a envolverem-se em comportamentos violentos na vida adulta”.

As palmadas em Portugal e no mundo

Em Portugal o castigo físico é ilegal desde 2007 e punido pelo Código Penal – que condena o castigo em ambiente de violência doméstica, maus-tratos ou ofensa à integridade física. A proibição deste tipo de agressão está presente nos crimes de Violência doméstica (artigo 152º) e de ‘Maus-tratos (artigo 152º-A).

No ano passado, o Papa Francisco disse que uma palmada não faz mal às crianças, “desde que não afete a sua dignidade”. A declaração não foi bem aceite e levou o Vaticano a emitir alguns esclarecimentos sobre o assunto.

Também no ano passado, o Conselho da Europa condenou a França por não proibir, de “forma suficientemente clara, coerciva e precisa os castigos corporais” a crianças. De acordo com o Público, 80% dos franceses, que receberam palmadas – ou até mesmo tareias – dos seus pais em pequenos, são contra a proibição de bater nos filhos.

Em 2014, o Brasil aprovou a Lei da Palmada, uma legislação que não só proíbe o castigo corporal como encaminha os pais a tratamento psicológico.

Nesse mesmo ano, a Time listou os 43 países em que o castigo corporal é ilegal. Veja aqui os países que já na altura puniam tal comportamento.

Em 2011, Cristiana Silveira Ribeiro, Wilson Malta e Teresa Magalhães, da Universidade de Coimbra, desenvolveram um estudo de revisão acerca do tema. Pode consultá-lo aqui.

 

 

 

 

O açúcar é o maior veneno que damos às crianças

Janeiro 21, 2016 às 12:00 pm | Na categoria A criança na comunicação social | Deixe o seu comentário
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Entrevista da Visão a Júlia Galhardo no dia 3 de abril de 2015.

visão

Veja aqui a Grande Reportagem Interativa da SIC, com a participação da pediatra Júlia Galhardo, responsável pela consulta de obesidade no Hospital de Dona Estefânia, em Lisboa, e que usa palavras fortes para se referir ao abuso do açúcar em idades precoces: “maus tratos”

A GRANDE REPORTAGEM INTERATIVA DA SIC: Somos o que comemos 

Quando as crianças não têm excesso de peso  é mais difícil que as famílias percebam os perigos do açúcar em excesso?

Sim. Os pais não devem ficar descansados quando o seu filho, que come muitos doces, é magro. Muitos desses meninos, que são longilíneos, têm alterações dos lípidos no sangue, têm problemas de aterosclerose. Não são gordos, mas têm alterações metabólicas. Nem tudo o que é mau se vê. Nem tudo o que é mau dói. A hipertensão não dói, a diabetes não dói. Não doem, mas matam. E, mesmo quando existe excesso de peso, os pais não dão a devida importância. Acham que a criança vai esticar quando crescer, como se fosse plasticina, e que o problema vai desaparecer. Só começam a perceber que há, de facto, um problema quando as análises dão para o torto. Quando o colesterol ou os glícidos ou o ácido úrico vêm aumentados, quando as análises revelam inflamação…

E as crianças que segue na consulta de obesidade têm, frequentemente, problemas nas análises?

Mais de 90 por cento das vezes. O que eu até agradeço, inicialmente. Porque é a única forma que tenho de mostrar aos pais que alguma coisa não está bem. Eu ajudei a começar esta consulta em 2006. Estamos em 2015 e vejo crianças mais obesas, com maiores problemas nas análises e em idades mais precoces. Ontem vi uma criança que tinha 10 meses e pesava 21 quilos. Tenho adolescentes com diabetes tipo 2, com hipertensão, com colesterol elevado. Patologias que, quando eu andava na faculdade, eram ditas de adulto, na pediatria não se falava! Surgiam aos 40 anos, agravavam aos 60 e tinham consequências mesmo palpáveis aos 80. Esses problemas são cada vez mais precoces e cada vez têm consequências mais graves. Quanto mais precocemente surgem, mais graves se tornam.

Como é que se explicam mudanças tão significativas no espaço de uma geração?   

Traduz toda uma modificação ambiental, porque a genética não muda numa geração. Se tiver dois gémeos, iguaizinhos, monozigóticos – em que o genoma é precisamente o mesmo – e  os sujeitar a ambientes diferentes, eles vão desenvolver problemas diferentes. Fazer menos e comer mais, foi isto que mudou no ambiente que nos rodeia. E comer mais erradamente. Come-se mais do pacote da prateleira. Produtos em que, além daquilo que parece que lá está, estão inúmeras coisas que os pais não identificam.

Por exemplo?

Os açúcares. Os pais só identificam a palavra “açúcar”. Se eu lhe chamar glícidos, dextrose, maltose, frutose, xarope de milho… Tudo isso é de evitar, mas os pais não identificam isso como açúcar. E a quantidade de açúcar que as crianças ingerem, diariamente, é assustadora. Tudo o que é processado e vem num pacote tem açúcar. Basta olhar para o rótulo. Se eu não conseguir ensinar mais nada na minha consulta, consigo ensinar, pelo menos, que é importante olhar para o rótulo. E que o ideal é escolher produtos sem rótulo, sem lista de ingredientes: aqueles que vieram da terra ou do mar ou do rio.  É a melhor forma de evitar o açúcar.

Costuma envolver os avós, a família alargada, nas consultas?

Os avós têm um papel fundamental! Os avós são do tempo em que não havia esta parafernália do pacote. O doce era o mimo do dia de festa. Mas transformam este mimo num bolo ou num chocolate todos os dias. Porque… “coitadinho do menino”. Eu peço aos avós, por favor, que transformem estas coisas em mimos de abraços, de afetos. Que vão com eles ao parque brincar, ver o pôr do sol, fazer castelos de areia. Que os ensinem a cozinhar coisas saudáveis. A fazer pão, salada de frutas. Eu aprendi a fazer pão com a minha avó e ainda hoje me lembro. Peço aos avós que nos ajudem a modificar esta carga. E que percebam que, hoje em dia, o maior inimigo dos seus netos é o açúcar. A comida não é castigo nem prémio.

Começa a ser frequente ouvir especialistas dizer que, um dia, olharemos para o açúcar como olhamos hoje para o tabaco. Concorda?

Eu acho que ainda é pior. O açúcar, em termos neurológicos, e de neurotransmissores, e de prazer, e da precocidade com que é introduzido, tem consequências mais nefastas do que o tabaco. A frutose, a dextrose, todos os açúcares criam dependência. Entramos no domínio dos recetores cerebrais, no domínio do prazer, da compensação, do conforto. Se eu me habituar a consumir açúcar e a ter prazer pelo açúcar, há modificações epigenéticas – genes que são acionados e que fazem com que eu passe a ter mais tendência para o açúcar. Ou para o sal. E a mesma dose não surte o mesmo efeito a longo prazo. Portanto vou aumentando o açúcar.

Qual é o limite máximo, se é possível responder a isto, que uma criança deve consumir de açúcar por dia?

O mínimo possível. Não tenho número para lhe dar. E quanto mais tarde, melhor. É óbvio que precisamos de açúcar, nomeadamente de glicose, porque é esse o nosso combustível. É a nossa lenha celular. Mas não é disso que estamos a falar quando dizemos a palavra açúcar.

Os açúcares de que precisamos estão presentes nos alimentos.

Claro. Nos cereais, no leite e derivados, nas frutas.

Como é que explica, às crianças e aos pais, os efeitos do açúcar na saúde?

Aos mais pequeninos costumo dizer que o açúcar é um bocadinho venenoso. Aos pais explico que o açúcar adicionado causa os mesmos problemas metabólicos que o álcool. Lembro que o álcool vem, precisamente, do açúcar. Do açúcar dos tubérculos, do açúcar das frutas. E que a consequência é exatamente a mesma: o chamado “fígado gordo”. A curto prazo traduz-se em alterações nas análises. Mais tarde traduz-se em tudo aquilo que contribui para o síndrome metabólico: diabetes tipo 2, hipertensão arterial, alteração do colesterol no sangue, aumento do ácido úrico. E, a longo prazo, tudo isto se traduz em alterações cardiovasculares. Enfarte precoce do miocárdio, acidente vascular cerebral… São doenças que os pais associam aos pais deles.

E não aos seus filhos.

E não aos seus filhos. Mas, se assim continuarem, vão presenciá-las nos filhos. Estarão vivos, ainda, para as presenciar nos filhos. Porque um adolescente que é diabético tipo 2, 20 anos depois vai ter problemas desta diabetes. E, se for uma menina, é exponencial, porque vai gerar um bebé neste ambiente intrauterino. Em que a própria carga genética — que não é alterada, porque genes são genes — vai ser ativada ou inibida de acordo com o ambiente que lhe estamos a dar in utero. É assustador.

Estudos recentes, como o EPACI Portugal 2012 ou o Geração 21, mostram que as crianças portuguesas começam a consumir doces muito cedo, a partir dos 12 meses. Aos 4 anos mais de metade bebe refrigerantes açucarados diariamente e 65% come doces todos os dias. É por falta de informação?

Alguns pais ficarão chocados, mas há uma expressão para o abuso do açúcar em idades tão precoces: maus tratos. Os meninos já não sabem o que é água. Os meninos, ao almoço e ao jantar, bebem refrigerantes. Não acredito que seja falta de informação. Toda a gente sabe que bolachas com chocolate, leite achocolatado, gomas, bolos, estas coisas, fazem mal. É a ambiência, é o corre-corre. É porque é mais fácil ir no carro a comer bolachas e sumo, a caminho da escola. Para alguém que já se deita muito tarde, porque tem tarefas sobreponíveis, pode ser difícil acordar meia hora mais cedo para preparar um bom pequeno-almoço.

Como é um bom pequeno-almoço?

Deve ter três componentes: fruta, um componente do grupo dos cereais e leite ou derivados. Quando a criança tem mais de 3 anos, estamos a falar de produtos meio gordos. Os cereais podem ser, por exemplo, papas de aveia, pão fresco ou torradas. Pão da padaria, não é pão de forma. Porque o pão de forma tem, além de imensos aditivos, açúcar. O pequeno-almoço deve ser variado, ao longo da semana, e deve garantir 20 a 25% da quantidade diária de calorias. Nem um por cento das pessoas faz isto. E o stress é o centro de toda esta nossa conversa. É o centro de todas estas alterações que nós estamos a sofrer. Porque os pais não têm tempo, porque chegam a casa e estão estoirados. Não há tempo para ser criança, não há tempo para ser pai. Para estar à mesa meia hora a contar o dia de cada um. As nossas crianças não dormem o que deviam. A sociedade moderna está a adoecer os seus cidadãos.

Os médicos têm suficiente formação sobre nutrição?

Não. Só se a procurarem. Se não a procurarem, não têm. Falo-lhe do meu curso, que foi há uma década, e falo-lhe de agora. Apesar de haver alguma modificação, não é suficiente. A nutrição é vista como secundária. Não é fármaco, não é vista como tratamento. Mas é. Por exemplo, após uma cirurgia, se não houver uma nutrição adequada, o organismo não consegue organizar o colagénio e tudo o que favorece o processo de cicatrização, para sarar. Na oncologia, por exemplo, há muito cuidado em várias terapias, mas muito pouco cuidado na parte da nutrição. A alimentação está na base da saúde e da doença.

É favorável a taxas sobre os produtos mais açucarados, como acontece em países como França, Hungria ou Finlândia?

Para não criar tanta polémica: e se deixássemos de taxar aqueles que são frescos, por exemplo? Peixe. Fruta, nomeadamente a portuguesa. Os legumes, os hortícolas. O nosso leite dos açores. Com tudo isto, é possível fazer refeições saudáveis para os meninos. Mas, se vir o IVA dos seus talões de supermercado, poderá constatar que há coisas que não deveriam ser taxadas ao nível que são.

Por exemplo?

Alguns refrigerantes são taxados a seis por cento. Mas a eletricidade e o gás, por exemplo, estão à taxa mais alta. Consegue cozinhar sem eletricidade e sem gás? Não é um produto de luxo. Às vezes sentimo-nos a puxar carroças sozinhos. E nós contra a indústria não temos muita força. Eu gostaria de perceber porque é que é permitido oferecer brinquedos com alimentos que são considerados nefastos. Pior: brinquedos colecionáveis. O problema é que cada governo preocupa-se a quatro anos. E os ministérios trabalham cada um por si.

O Ministério da Educação reduziu, em 2012, a carga horária de Educação Física no terceiro ciclo e no ensino secundário. E a nota de Educação Física deixou de contar para a média de acesso ao ensino superior.

Pior do que reduzir as aulas de educação física, é vê-las como supérfluas. Eu vou-lhe confessar: eu era péssima. Era um desastre. E também era obesa. Portanto, estou à vontade para falar disto. E digo isto aos meus doentes, porque acho que os estimula. Tenho saudades de crianças que esfolavam os joelhos em cima do que já estava esfolado. Não vejo isto hoje em dia. Não é que goste de ver meninos magoados. Mas significa que estão quietos. Quando muito, têm tendinites nos polegares, que vai ser a doença ortopédica do futuro. E miopia.

Estive três anos num hospital no Reino Unido, onde via adolescentes, sem patologias de base, com obesidade simples, deitados numa cama, que nem banho conseguiam tomar. Nós sabemos isto. Não há falta de informação, há inércia. Eu não queria que o meu país fosse para aí, não queria que a geração que vem a seguir a mim fosse para aí.

E está a ver o país ir para aí?

Estou. E não há prevenção, não há comportas. Estou a tentar montar um projeto para chegar aos pais e às crianças nos jardins de infância e nas escolas. Sinalizar para os centros de saúde, através da saúde escolar, crianças que estão a começar a ter peso a mais. A este hospital só deveria chegar a obesidade que tem uma causa endócrina, genética, ou que, não a tendo, já tem consequências. Mas há centros de saúde que nem nutricionistas têm. Isto, a longo prazo, paga-se com juros. Basta fazer contas. Basta ver a carga que são as consultas de obesidade, que eu já não sei o que hei de fazer a tanta consulta que me pedem. Uma consulta hospitalar de nível 3, como esta, tem um custo. Pais que faltam ao trabalho para vir com os meninos tem um custo. Fora as consequências que vêm por aí. A obesidade é a epidemia do século XXI. Mas como, ao contrário das infeções, o impacto não é imediato — é a 10, 20, 30 anos — ninguém olha para ela como tal. Só quando se transformar na epidemia de doença, e não na epidemia de caminho para a doença, é que vamos tentar travar. Mas já não vamos travar nada, porque já tivemos o acidente completo. E aí vamos gastar o dobro. E já nem estou a falar só de saúde e de vida. De anos de saúde e de vida que se poderiam poupar. Falo da questão monetária, porque parece que é aquilo que as pessoas entendem melhor atualmente.

 

 

Conheça as causas e tratamentos do crescimento lento em crianças

Janeiro 15, 2016 às 12:00 pm | Na categoria A criança na comunicação social | Deixe o seu comentário
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Notícia da http://www.ebc.com.br de 5 de janeiro de 2016.

Por Conceição Lemes Fonte:ABC da Saúde Infanto-Juvenil

Queixas em relação à baixa estatura dos filhos são recorrentes entre os pais quando vão ao pediatra. Geralmente, a primeira reclamação ocorre por volta dos três ou quatro anos de idade, quando a criança entra na escola. Isso porque a família tem os amiguinhos da mesma faixa etária para comparar.

O que ocorre é que, felizmente, em boa parte dos casos, a comparação é equivocada. A criança está se desenvolvendo bem, apenas respeitando seu organismo e índices de desenvolvimento, que é diferente dos do colega. “Entretanto, quando, de fato, há algum distúrbio atrasando o crescimento, essa é uma idade ótima para identificar. O diagnóstico e tratamento precoces permitirão que a criança atinja toda a altura prevista no seu potencial genético”, afirma pediatra Durval Damiani, chefe da Unidade de Endocrinologia do Instituto da Criança.

“Há os que pecam pelo excesso, questionando desenvolvimentos totalmente normais. Em compensação, alguns pacientes chegam tarde demais, quando não há mais o que fazer”, pondera doutor Durval.

Na entrevista a seguir o especialista esclarece mais sobre o assunto:

ABC – Como é possível saber se o crescimento da criança está normal ou atrasado?

Durval Damiani – A partir das curvas de crescimento. São referenciais em que nos baseamos para dizer se determinada criança tem estatura normal ou está baixa em relação à população em que ela está inserida. O crescimento é muito complexo.

ABC – Depende do quê?

Durval Damiani – Crescer depende de um bom substrato energético, um bom ambiente hormonal, uma genética adequada e um osso responsivo, ou seja, a criança precisa ter uma boa alimentação, produzir adequadamente vários hormônios envolvidos no crescimento e não ter doença, genética ou não, que interfiram no desenvolvimento, inclusive dos ossos. Todos esses fatores precisam estar equilibrados, caso contrário, o crescimento fica comprometido. Sendo assim, quando a criança não cresce, nós estamos diante de várias causas que precisam ser investigadas.

ABC – O senhor pode citar alguns exemplos?

Durval Damiani – A criança pode não crescer por desnutrição, devido à falta de comida. Mas às vezes ela tem alimento, mas não absorve os nutrientes. Ou seja, o problema está na maneira como o organismo absorve os diferentes nutrientes para poder crescer. É o caso da doença celíaca, que afeta o intestino. Neste caso, ocorre uma sensibilização do organismo ao glúten (proteína encontrada no trigo, centeio, cevada, aveia e malte), que altera as vilosidades intestinais, reduzindo a área de absorção dos nutrientes.

Doenças respiratórias, como a asma, são outro exemplo. Elas comprometem o crescimento, pois são crônicas. Algumas exigem ainda o uso de corticosteroides, remédios que, quando usado por tempo prolongado e/ou sob altas doses, afetam o desenvolvimento.

O órgão que projeta o crescimento é o osso e não o músculo. Consequentemente, doenças ósseas atrapalham também. É o que acontece na criança com acondroplasia. Ela tem braços e pernas curtinhas, desproporcionais ao restante do corpo.

Há casos em que a criança é geneticamente menor. Ou porque os pais são pequenos e essa característica é transmitida geneticamente. Ou são crianças pequenas numa certa fase da vida, mas crescem mais tarde. A falta de hormônios da tireoide também prejudicam o crescimento.

ABC – Como é o tratamento?

Durval Damiani – Vai depender da causa. Portanto, analisamos cada caso. Vamos supor que a criança tenha doença celíaca. Aí, o tratamento é tirar da dieta alimentos que contenham glúten, como o trigo e aveia. Isso praticamente resolve o problema e ela volta a crescer. Em compensação, há situações mais complicadas, quando é necessário fazer reposição de vários hormônios, por exemplo. Boa parte dos casos tem tratamento e é possível retomar o crescimento normalmente.

ABC – Qual o momento ideal para começar o tratamento?

Durval Damiani – Quanto mais cedo chegarmos ao diagnóstico e tratamento, melhor. Hoje em dia a recomendação é o iniciar o tratamento muito precocemente para que as crianças possam atingir uma altura adequada. Infelizmente, há casos que buscam ajuda tardia, quando há pouco ou nada a fazer pelo crescimento da criança.

ABC – Então, o que o senhor recomendaria às mães?

Durval Damiani – Se você, mãe, tiver alguma dúvida sobre o crescimento do seu filho, procure o pediatra, para esclarecê-la. Ele é quem vai ponderar se a sua desconfiança tem procedência ou não, já que em alguns casos, a criança está abaixo da média, mas é normal.

Mas, se o pediatra perceber que algo não está indo bem, ele mesmo irá encaminhar seu filho para um endocrinologista pediátrico investigar o que está acontecendo. Quanto mais cedo o diagnóstico for concluído, maior a possibilidade de a criança crescer todo o potencial genético que ela tem.

ABC – Quais as indicações para um bom crescimento?

Durval Damiani – Quando não há patologias associadas, para crescer adequadamente, a criança precisa praticar atividade física, pois o exercício estimula o hormônio do crescimento. Dormir bem também é essencial, já que boa parte do hormônio de crescimento é fabricada à noite, em uma das fases do sono. Uma alimentação equilibrada e tomar sol diariamente. O sol é o responsável pela produção de vitamina D, fundamental para o desenvolvimento dos ossos. A falta dessa substância diminui as defesas do organismo e causa raquitismo.

 

 

 

 

Para evitar lesões, entidade americana proíbe cabeceios no futebol infantil

Novembro 24, 2015 às 6:00 am | Na categoria A criança na comunicação social | Deixe o seu comentário
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Notícia do site http://mulher.uol.com.br de 12 de novembro de 2015.

Declaração da USSF citada na notícia é a seguinte:

JOINT STATEMENT REGARDING CONCUSSION LAWSUIT RESOLUTION

getty images

Para prevenir contusões e lesões na cabeça de crianças, a USSF (Federação de Futebol dos Estados Unidos, tradução da sigla em inglês) proibiu que praticantes do esporte menores de dez anos façam cabeceamentos. A entidade também limitou esse tipo de jogada aos treinos, no caso de adolescentes de 11 a 13 anos.

A mudança é consequência de uma ação judicial, movida por um grupo de pais em 2014, que acusou várias organizações ligadas ao futebol de negligência no tratamento de lesões e contusões ocasionadas por choques da bola na cabeça de estudantes que praticam o esporte.

Na ação, os autores afirmam que quase 50 mil jogadores de futebol em categorias estudantis teriam sofrido contusões em 2010. Eles pleitearam também uma mudança no regulamento universal da modalidade, mas conseguiram apenas que houvesse alterações nos Estados Unidos, referentes às categorias de menor faixa etária.

Para o médico Robert Cantu, autor do livro “Concussions and Our Kids” (contusões e nossos filhos, em tradução livre do inglês), por terem cabeças mais maleáveis e não completamente desenvolvidas, os mais jovens correm o risco de ter o cérebro agitado ao cabecear a bola, o que pode gerar sequelas no futuro.

Risco intrínseco

De acordo com o pediatra Getúlio Bernardo Morato Filho, especialista em medicina do esporte, apesar de protetora, a medida é um tanto exagerada. “Todo esporte tem um risco intrínseco de lesões, e cabecear faz parte do futebol. Além disso, para fazer esse movimento, a criança aprende uma técnica que minimiza os riscos. Mais grave seria começar a cabecear na adolescência sem ter aprendido direito como fazer”, afirma.

De acordo com o médico, boladas, cotoveladas inesperadas na cabeça e quedas são mais graves do que cabeceios propositais. “O problema não é o choque em si, mas a aceleração e a desaceleração do cérebro dentro da caixa craniana. Se isso acontece repetidamente, o risco de surgir uma lesão no futuro é maior.”

Segundo o especialista, tem havido muitos debates sobre concussões nos Estados Unidos por conta dos depoimentos de ex-lutadores de boxe e ex-jogadores de futebol americano que tiveram demência em virtude de pancadas levadas na prática esportiva. “Quanto mais cedo as concussões acontecem, mais precocemente podem aparecer problemas”, diz Morato Filho.

O médico considera que a decisão da entidade americana é uma precaução para evitar processos futuros, caso alguma criança se machuque jogando. “Já houve no passado uma tentativa de adotar capacetes na liga infantil, mas não funcionou. Talvez fosse melhor usar bolas mais leves e criar regras específicas para diminuir o choque, uma vez que a criança não tem tanto cuidado quanto o adulto ao jogar.”

 

 

Cuidado com as mochilas escolares!!

Novembro 21, 2015 às 1:00 pm | Na categoria Divulgação | Deixe o seu comentário
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mochilas

LoureSaúde Fisioterapia

Cuidado com as mochilas escolares!! Mais de metade das crianças em idade escolar transporta peso a mais nas suas mochilas. O peso da mochila não deve ultrapassar 10% do peso de quem a transporta. Isto significa que uma criança de 35 a 40 kg não deverá carregar às costas mais do que 3,5 a 4 kg. Não respeitar esta regra pode provocar alterações posturais preocupantes, bem como dores, desconforto e alterações na marcha sendo as zonas mais afectadas são a coluna vertebral, os pés e as ancas. Um estudo realizado em Portugal constatou que as crianças mais novas são as mais afectadas: 61% dos estudantes com 10 anos transportavam cargas excessivas, o mesmo acontecendo a 44% com 12 anos. Existem algumas regras de ouro no que diz respeito à arrumação e transporte das mochilas:

• Os objectos maiores e mais pesados devem ser colocados junto das costas, de forma a repartir melhor o peso e a poupar a coluna;

• A mochila deve ser transportada nos dois ombros e poisá-la sempre que haja oportunidade (por exemplo, nos transportes públicos e quando estão à espera das aulas);

• As alças da mochila devem ser largas e deve fazer-se um correcto ajuste das mesmas: o fundo da mochila deve ficar acima das ancas. Todos somos responsáveis para actuar na PREVENÇÃO dos problemas que surgem associados à utilização incorrecta das mochilas. Se tiver dúvidas esclareça connosco!!

Crianças e lentes de contacto: a partir de quando?

Outubro 23, 2015 às 6:00 am | Na categoria A criança na comunicação social | Deixe o seu comentário
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Texto do site http://lifestyle.sapo.pt

CC

Nuno Noronha

O uso de lentes de contacto para a correção visual em pré-adolescentes pode contribuir para melhorar a sua auto-estima e a capacidade para assumir responsabilidades. Segundo a Sociedade Portuguesa de Oftalmologia, uma em cada cinco crianças em idade escolar necessita de correção visual e este número tem vindo a aumentar.

Aproximadamente uma em cada cinco crianças com idades compreendidas entre os 5 e os 15 anos necessitam de algum tipo de correção visual, e este número tem vindo a crescer tanto em Portugal como no resto do mundo. O excesso de exposição em tarefas de visão próxima, o grande número de horas em frente a aparelhos tecnológicos e a exposição intensa a luzes artificiais são alguns dos vários fatores que podem ter contribuído para esta tendência.

Nos problemas visuais infantis mais recorrentes, poderão ser encontradas a miopia, o astigmatismo e a hipermetropia, sendo que a maioria das crianças com défice de visão manifesta problemas refrativos, ou seja, suscetíveis de serem corrigidos com o uso de lentes de contacto ou óculos.

Apesar de ainda existir, entre os pais portugueses, uma grande resistência ao uso de lentes de contacto em crianças pré-adolescentes, a verdade é que vários estudos indicam que o uso de lentes de contacto em idades infantis traz todos os benefícios que o uso de lentes de contacto garante nos adultos e, para além disso, contribui para melhorar o seu sentido de responsabilidade e a sua auto-estima.

Falta de consenso entre especialistas

Apesar de as crianças terem capacidade para utilizar lentes de contacto com autonomia a partir dos 8 anos de idade, não existe, entre os especialistas, um consenso sobre uma idade mínima para usar lentes de contacto.

Estes concordam que as crianças que demonstrem o desejo de usar lentes de contacto podem usá-las a partir do momento em que também revelem um certo nível de responsabilidade e maturidade, assim como hábitos de higiene pessoal independente.

Esta é também a experiência de Sofia Matos, coordenadora de ensaios clínicos no laboratório de investigação em optometria clínica e experimental da Universidade do Minho, e que desde há 4 anos adapta lentes de contacto a crianças a partir dos 8 anos.

Segundo esta optometrista, “é muito interessante ver como crianças de tão curta idade evoluem desde as primeiras consultas em que existem alguns receios, até uma utilização independente, embora sob vigilância atenta dos pais, passadas algumas semanas. Surpreende também ver como são conscientes da importância de ter cuidados com a sua higiene para manusear as lentes, sobretudo quando comparados com jovens adultos de 18 ou mais anos. Talvez seja por isto que num estudo recente realizado pela Dra. Robin Chalmers nos Estados Unidos, se observou que a faixa etária entre os 8 e os 12 anos era aquela que apresentava um menor índice de complicações.”

Os benefícios do uso de lentes de contacto em idade pré-adolescente e adolescente são facilmente quantificáveis:

  • Melhoria da autoestima. Uma vez que é nesta fase pré-adolescente e adolescente que iniciam os problemas com a identidade e aparência e o uso de lentes de contacto em vez de óculos melhora substancialmente a forma como as crianças se vêm a si mesmas.
  • Ausência das restrições impostas pelo uso de óculos, pois as lentes de contacto não são passíveis de serem partidas em atividades físicas como os óculos.
  • Melhoria do sentido de responsabilidade. Segundo o estudo “Vision specific quality of life of pediatric contact lens wearers” as crianças que demonstram o desejo de usar lentes de contacto em vez de óculos tendem a ser cuidadosas com a limpeza das mesmas e demonstram facilidade no seu manuseamento.
  • O uso de lentes de contacto pode beneficiar em grande escala a vida de uma criança pré-adolescente e adolescente e libertá-la de certas restrições impostas pelo uso de óculos para a correção visual.

Neste sentido, o uso de lentes de contacto descartáveis diárias está altamente recomendada pela simplicidade e facilidade de utilização.

Por vezes a dificuldade de aceitação das lentes de contacto como um método prático para corrigir problemas de visão pode estar relacionada com mitos, ou neste caso, com a subestimação das capacidades infantis. No entanto, já foi demonstrado que cerca de nove em dez crianças pré-adolescentes consideraram a limpeza e a manipulação de lentes de contacto fácil, assim como também está provado que as crianças apresentam níveis de higiene e de cuidados com as lentes de contacto iguais ou superiores aos adultos.

 

 

O Wi-Fi é um risco para a saúde das crianças?

Outubro 15, 2015 às 9:15 am | Na categoria A criança na comunicação social | Deixe o seu comentário
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Notícia do Expresso de 10 de outubro de 2015.

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Em França, proibiu-se o wi-fi em creches, por se considerar que os campos eletromagnéticos são um risco para a saúde. Fomos perceber se o perigo é real.

Katya Delimbeuf

Texto

Ana Serra

Infografia

Os campos eletromagnéticos estão por todo o lado. E não se veem — daí, possivelmente, suscitarem tanto temor. Tudo o que o olho não consegue observar, a mente imagina a dobrar. Na última década, o nosso quotidiano alterou-se profundamente no que à parafernália tecnológica diz respeito. Integrámos inúmeros gadgets e trouxemo-los para dentro de casa. Pior: eles andam nas mãos dos nossos filhos, a toda a hora, se nos descuidarmos. E se algum destes objetos tiver efeitos nocivos para a saúde? Entre o smartphone com Wi-Fi ou 3G, o portátil com ligação à internet, os espaços públicos com Wi-Fi, o Wi-Fi em casa, o micro-ondas, são muitas as novas fontes de campos eletromagnéticos… Que consequências para a saúde terão todos estes campos com radiações na próxima geração, que cresce em contacto com eles diariamente? Depois da corrida à tecnologia ‘sem fios’, teremos de arrepiar caminho?

Em França foi aprovada, em fevereiro deste ano, uma lei que proíbe o Wi-Fi em creches e jardins de infância para crianças com menos de três anos. A alegação tem na saúde dos mais novos o principal argumento, sendo que os cérebros dos bebés, mais finos e em formação, podem ser mais sensíveis a esta emissão constante. Além disso, um bebé pode, literalmente, bater com a cabeça e ficar a centímetros de distância de um router, uma box emissora de ondas ou uma antena.
Luís Correia, professor de Engenharia Eletrotécnica há três décadas no Instituto Superior Técnico, e investigador do Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, estuda questões relacionadas com telecomunicações há mais de 16 anos. “A preocupação com os campos eletromagnéticos nasceu nos anos 90 e aumentou com o aparecimento do GSM (sistema global para comunicações móveis)”, explica. “O telemóvel foi a tecnologia com a penetração mais rápida de sempre na sociedade ocidental: em 12 anos, 100% da população passou a usá-lo. Mas como as ondas eletromagnéticas não se veem, a perceção do risco é muito maior do que a realidade.”

Para o engenheiro, “o que está em causa não é a quantidade de fontes que temos à nossa volta, mas a intensidade da radiação. Essa intensidade está regulada por uma recomendação do ICNIRP, organismo da Organização Mundial da Saúde, que fixou um valor máximo de 28 Volts/metro como limite a que as pessoas podem estar expostas sem risco, em modo contínuo”. Luís Correia defende que não há qualquer problema relativamente às emissões eletromagnéticas — desde que se cumpram os limites mínimos admitidos por lei. Em seu entender, “a proibição aprovada em França não tem sustentação técnico-científica, até porque o Wi-Fi emite a potências muito baixinhas (0,1 Watts).”

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O investigador ressalva ainda: “As antenas de rádio e de televisão, que irradiam a potências muito superiores (400.000W para televisão, 50.000W para rádio contra os 600W para telemóvel), existem há mais de 50 anos. Se houvesse consequências nefastas para a saúde causadas pelos campos eletromagnéticos, não teriam já surgido casos de pessoas doentes nas imediações?”, questiona.

O pediatra Mário Cordeiro não é tão rápido a ‘arrumar’ o assunto. “Embora inicialmente se pensasse que a rede sem fios não causasse qualquer problema, um pouco à semelhança das micro-ondas emitidas pelos telemóveis, têm surgido alguns estudos que põem em causa esta certeza e colocam a hipótese de existirem alterações do ADN celular por exposição intensa e prolongada à rede sem fios, sobretudo nas crianças. Alguns estudos têm três décadas de evolução, pelo que os resultados são sólidos”, afirma. “Com os telemóveis e o aquecimento que provoca o seu uso, as crianças, por terem um tabique ósseo menos espesso que o dos adultos, estariam em maior risco de sobreaquecimento das células cerebrais. Elas são mais sensíveis devido ao desenvolvimento celular, designadamente do sistema nervoso central.” É fundamental dosear e remeter para o “apenas necessário” uso das tecnologias. Os locais wireless deveriam, de facto, ser limitados. “Para quê, num infantário, haver este tipo de ligação à internet?”, questiona o pediatra. Que conclui: “Mais vale prevenir do que remediar… E poupar as crianças será certamente uma boa ideia.”

Em 2011, a OMS (através da Agência Internacional de Pesquisa contra o Cancro) classificou os “campos magnéticos de baixas frequências e os campos eletromagnéticos de radiofrequências” como “possivelmente cancerígenos para humanos” — a par do “chumbo, do café e dos motores a gasolina”. Para o médico nefrologista António Vaz Carneiro, professor na Faculdade de Lisboa e diretor do Centro de Estudos de Medicina Baseada na Evidência, “não há estudos científicos que permitam concluir que os campos eletromagnéticos têm efeitos nocivos na saúde das pessoas. O risco associado é muito baixo”. Para ele, “a lei aprovada em França reflete uma preocupação social válida, mas sem fundamentação científica”. Ressalva: “Um adolescente que vai para a praia das 8h às 20h apanha mais radiação (solar e ultravioleta) do que se utilizar telemóvel a vida inteira.” Se é verdade que não há certezas científicas absolutas sobre os efeitos nefastos dos campos eletromagnéticos, se pensarmos em possíveis consequências para os nossos filhos, haverá quem queira arriscar?

 

 

 

 

Mário Cordeiro. “Há mais crianças que se sentem infelizes, tristes e deprimidas. Até bebés…””

Julho 24, 2015 às 10:00 am | Na categoria A criança na comunicação social | Deixe o seu comentário
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Entrevista do i a Mário Cordeiro no dia 18 de julho de 2015.

Ana Brígida

“O problema não são os divórcios. Qualquer evento pode ser traumático se os miúdos se sentirem ameaçados”

Marta F. Reis e Vítor Rainho

A paixão pela medicina e as críticas à sua desumanizaçao são os fios condutores desta conversa.

Médico há mais de 30 anos, autor de mais de uma dezena de livros em diferentes registos. Toca piano, é um leitor compulsivo e fotógrafo amador. Acaba de tirar um curso de História de Arte e está decidido a aprender violino para acompanhar um dos filhos. Mário Cordeiro tem bicho carpinteiro como as crianças. Encontramo-lo numa manhã de férias numa esplanada com vista para a Praia da Areia Branca. Há anos que o seu retiro é por ali, na aldeia de Cezaredas, perto da Lourinhã. A caminho dos 60 anos, gosta cada vez mais do campo e sente-se cada vez com mais sede e fome do mundo, na corrida contra o tempo da vida.

Como decidiu seguir a carreira de medicina?

Foi sempre uma coisa que me entusiasmou, até pela parte da ciência, da descoberta. Aquele aspecto mais de trabalho de Sherlock Holmes, de chegar ao diagnóstico a partir dos dados, como se estivesse a fazer um puzzle. Depois terei sido influenciado por ter crescido num ambiente médico.

O pai, também Mário Cordeiro, insistiu nisso?

Ele era pediatra. Sei que gostava da ideia, mas não. O meu irmão mais velho andou em Medicina e depois desistiu e tenho uma irmã médica. Na altura não havia serviços de urgência de pediatria – o primeiro em Santa Maria era numa casa de banho adaptada para ver crianças. Como em casa ele estava de prevenção, aos almoços e jantares era frequente estarmos todos à mesa e alguém telefonar a pedir indicações para o filho que estava doente. Era engraçado porque nós a certa altura já fazíamos apostas sobre o que ia ser com base nas respostas e perguntas que ele fazia.

O interesse surge aí?

Sim. Gostava daquilo mas havia um problema: se via sangue começava logo a tremer, por isso pensei que nunca iria para Medicina. Tanto que quando me fui inscrever no liceu escolho Direito, que era algo que também me interessava. Todo feliz vou para a paragem do autocarro, que terei perdido por uns instantes. É enquanto estou à espera pelo autocarro seguinte que tomo a decisão de voltar à secretaria, rasgar os papéis e inscrever-me para Medicina.

O que o fez voltar atrás? 

Acho que foi pensar ‘não vou deixar de fazer o que quero por medo’. Não podia ser o facto de tremer ao ver sangue que me ia limitar na profissão. Nunca houve de facto pressão familiar, embora curiosamente toda a minha família do lado paterno, pai, avô e trisavô, tenham sido médicos.

Uma grande referência sua foi, contudo, o seu avô materno. O que o marca tanto?

A vida dele. Não conheci os meus avós paternos – o pai do meu pai já tinha morrido quando nasci e a mãe estava na Índia. Esse avô era realmente uma pessoa incrível, um homem da Renascença. Médico, oficial da Marinha, perito em história medieval italiana, em orientalismo. Foi secretário-geral da Sociedade de Geografia. Foi inventor! Inventou uma maca que permitia que duas pessoas transportassem um ferido em vez de quatro, ainda hoje ensinada na NATO. E fazia tudo discretamente. Não era um homem dos sete ofícios mas dos 70. Tive a sorte de ficar com o seu espólio quando a minha mãe morreu e ele tinha escrito memórias e apontamentos sobre a participação nas campanhas da República. Note-se que nasceu em 1881, foi mobilizado para derrotar Paiva Couceiro quando houve a tentativa de restaurar a Monarquia e depois esteve na Primeira Grande Guerra e nas campanhas de África. Era agnóstico e foi um dos únicos portugueses a ter autorização para consultar os arquivos secretos do Vaticano. Descubro tudo isto nas memórias, lá em casa o avô era o avô. Sabia que tinha estado em África mas não sabia nada sobre o seu pensamento religioso ou político. Achei esse processo de descoberta de uma pessoa fascinante, mais porque estava tudo escrito com uma letra irrepreensível. Era como se estivesse escrito em Word. Digo muito aos meus filhos: escrever é comunicar e é bom que, mesmo com os computadores, consigam rabiscar coisas que sejam entendíveis 100 anos depois.

Há algo desse avô no seu lado de cultivar vários ofícios, da escrita à música?

Não sei o que será genético, mas acho que esta vontade que tenho de fazer coisas é uma resposta a uma certa angústia existencial. É isto de sentir que há tanta coisa por fazer, ouvir, ler, escutar, aprender e ao mesmo tempo ver que a vida não é eterna.

Sente essa ânsia aumentar?

Sim, é aquela coisa de pensarmos que morremos velhinhos e isso a certa altura começa a cair por terra. Começam a morrer pessoas próximas de nós, da nossa idade, mais novas. Digo isto sem fatalismos. Ela anda aí e acho que isso deve ser uma força motivadora para tudo. Sinto sobretudo a ânsia de não perder tempo com coisas que não interessam. Durante muitos anos não fui capaz de dizer que não e agora já sou.

O que mudou nas doenças das crianças desde que começou a trabalhar?

Houve muitas mudanças em tudo. Quando comecei as crianças morriam de desidratação na sequência de uma gastroenterite. Em Peniche, no início dos anos 80, no serviço médico à periferia, chegava a fazer bancos em que entrava às 8 da noite de sexta-feira e estava até às 8 da manhã de segunda. Eram quase 72 horas de urgência e via-se de tudo: desde uma grávida em trabalho de parto, picadas de peixe-aranha e, se havia festas na aldeia, era quase certo que apareciam facadas e navalhadas.

Havia muitas situações de alcoolismo, mesmo em miúdos?

Sim, as sopas de cavalo cansado. Havia essa ilusão nas aldeias de que o álcool dava calor, o que ajudava a fazer frente ao frio. Claro que também havia miúdos que iam à garrafeira dos pais, quase para experimentar o menú dos adultos. Hoje é diferente. A bebida passou a ser vista quase como uma condição para estar contente e feliz. Há uma noção um bocado perversa do que estar feliz e contente implica dizer alarvices e fazer figura de palhaço…

Os pais levam essa preocupação ao consultório?

Sim, mas vejo sobretudo isso nos agrupamentos escolares. O álcool hoje aparece muito barato aos jovens. Até à volta de algumas escolas há happy hours de cerveja, imperiais a 60 cêntimos, o que fica mais barato que uma água ou um refrigerante.

Em termos de doenças, que diferenças se nota mais nas crianças?

Não nos podemos esquecer que somos campeões na redução da mortalidade infantil. Houve uma diminuição do peso das doenças infecciosas e há mais situações crónicas, seja perturbações do desenvolvimento, cancro e as consequências de violência e acidentes. Mas há muito mais problemas de saúde mental, se calhar porque as pessoas ligam também mais a isso, mas não digo só esquizofrenias e neuroses. Há mais casos de crianças que se sentem infelizes, tristes, deprimidas.

Crianças de que idade?

Quatro e cinco. No fundo miúdos deprimidos por se sentirem mal nos seus ecossistemas, mal em casa, muito fechados. São quatro paredes sem casa, no carro, no consultório. E muitas vezes tudo plastificado, mesmo os afectos.

Falta de amor que gera falta de amor-próprio?

Sim. Creio que o nosso discurso de adultos não contribui muito para uma boa auto-estima.

Que idade tinha a criança mais nova que viu com uma depressão?

Já vi depressões em bebés. Um bebé que não seja objecto de afecto explícito corre esse risco. Agora, o ser humano tem uma boa resiliência desde que perceba o que se passou.

Mas como se trata uma criança com depressão?

Primeiro é preciso descobrir o que a deprime, o que a traumatizou, magoou. Isso nem sempre é fácil. E depois é tentar fazê-la ver o lado bom da vida, o que às vezes não é fácil pois é residual.

Dizia que os adultos podem contribuir para esse fenómeno.

Sim, há duas coisas erradas que fazemos. Uma é criar a expectativa de uma vida maravilhosa que depois não se concretiza. Aquela pressão para ir para o quadro de honra, ter a camisa de marca. A outra coisa é precisamente o contrário, aquela atitude de “escusas de estar a esforçar-te para ser uma pessoa completa porque, das duas uma, ou vais ser um malandro ou a vítima do malandro.” É o que vemos no telejornal: a galeria de horrores em que se salta do malandro, para o assassino, o pedófilo, o ladrão, o corrupto, o mentiroso. Isto não é muito estimulante para quem está a crescer e acho que devemos, enquanto adultos, ter a preocupação de passar um quadro de liberdade do que é a vida adulta. Devemos dizer que há o malandro, a vítima do malandro e depois a terceira hipótese, que é a da generalidade das pessoas. Acho que os adultos se vitimizam um bocado e desfrutam pouco para estar obcecados com o que não têm e isso passa às crianças.

Os pais que o procuram hoje são diferentes de há 30 anos?

Sabem mais coisas. Sempre foram mas hoje assumem-se mais como os primeiros cuidadores dos filhos e os médicos vão perdendo felizmente aquela arrogância, aquilo de se achar que os pais não sabiam nada e o doutor é que era o bom. Antes, se os pais fossem ignorantes, saíam tão ignorantes como quando tinham chegado ao consultório porque nada era explicado ou então os médicos usavam um jargão impressionante. É aquela velha história de dizer ao doente quem tem espondiloartrose e não bicos de papagaio. Espondiloartrose é mais solene e às vezes isto ainda acontece… A medicina evoluiu muito pouco neste sentido.

Da humanização?

Sim, continua a haver este desfasamento entre uma ciência que não sendo exacta tem de ser muito rigorosa, mas que tem de saber ao mesmo tempo comunicar. Não será caso único, acontece o mesmo com a linguagem jurídica. Acho que se um diagnóstico ou uma terapêutica é um acto negocial, como uma lei é para ser seguida pelas pessoas, tem de ser antes de mais entendido.

Uma relação negocial em que sentido?

Se faço um diagnóstico ou prescrevo um antibiótico de oito em oito horas, e os pais questionam que por causa do infantário têm receio que a educadora falhe, tenho de ver se há alternativa, se pode ser de 12 em 12. Tem de haver um entendimento mínimo para haver um compromisso e as coisas funcionarem.

 

Vacinas: Arriscar a vida deles

Julho 16, 2015 às 8:00 pm | Na categoria A criança na comunicação social | Deixe o seu comentário
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Artigo da Visão de 9 de julho de 2015.

Getty Images

A morte de um menino espanhol com difteria relançou o debate à volta do movimento contra as vacinas

Rosa Ruela (artigo publicado na VISÃO 1165, de 2 de julho)

Pau tinha seis anos e já ia sozinho à papelaria comprar cromos de futebol. No bairro de Benavent, em Olot, província de Girona, os vizinhos recordam um rapazinho falador que adorava nadar na piscina municipal. Viam-no muitas vezes passar naquelas ruas que têm nomes das crateras vulcânicas da região, com os pais e a irmã mais nova, de um ano. Jordi e Marta, os pais, não são nenhuns hippies, disse uma carteira que os conhecia ao El Mundo.

Percebe-se o comentário quando se sabe que Marta é fisioterapeuta e osteopata numa clínica onde se pratica a homeopatia. Sim, ela não é nenhuma hippie mas não acredita nas vacinas. Nunca vacinara os filhos até aquele dia 29 de maio em que os médicos lhe disseram que as dores de garganta de Pau eram sintomas de difteria.

Durante um mês, o rapazinho esteve ligado às máquinas, na unidade de cuidados intensivos do Hospital Universitário Vall d’Hebron de Barcelona. Recebeu uma antitoxina vinda da Rússia, mas o seu coração não resistiu e ele acabou por morrer na madrugada de 29 de junho.

Há 29 anos que não se via um caso de difteria em Espanha, onde a taxa de cobertura vacinal ronda os 97 por cento. O debate estalou lá e cá, onde o cenário é semelhante: a difteria foi erradicada há 22 anos e temos apenas 3% de pessoas não vacinadas.

‘Vacinar, vacinar, vacinar’

Em outubro faz cinquenta anos que o Plano Nacional de Vacinação (PNV) arrancou em Portugal. Estreou-se com a campanha da poliomielite e, desde então, foram eliminadas seis doenças: varíola, poliomielite, tétano neonatal, difteria, sarampo e rubéola. Apesar de ser apenas uma recomendação, temos uma taxa de cobertura vacinal de cerca de 97 por cento.

O professor Arnaldo Sampaio, o grande impulsionador do PNV, afirmava que para prevenir doenças só havia três hipóteses: “Vacinar, vacinar, vacinar.” O pai do antigo Presidente da República Jorge Sampaio e do psiquiatra Daniel Sampaio iria gostar de saber que as vacinas salvam 2,5 milhões de vidas por ano, segundo a Organização Mundial de Saúde. Mas, apesar de a maioria da comunidade médica concordar que a saúde pública merecia ver a vacinação ser obrigatória (excetuando nos casos de quem tem as defesas diminuídas), são raros os países onde isso acontece.

Em Portugal, um velhinho decreto-lei de 1962 determina a obrigatoriedade das vacinas da difteria e do tétano, mas o PNV, posterior, como já se viu, é apenas uma recomendação. Além do acompanhamento dado pelos centros de saúde, o boletim de vacinas deve ser verificado nas escolas, no momento da matrícula, mas os pais podem recusar, bastando para isso assinar um termo de responsabilidade. “Temos de insistir na informação correta e na desmistificação dos argumentos que os grupos antivacinação apresentam”, diz Amélia Cavaco, da Sociedade de Infeciologia Pediátrica/Sociedade Portuguesa de Pediatria.

Na Austrália, contornou-se a questão: argumentando que a recusa poderá acarretar encargos para o erário público, o Governo decidiu que quem não vacina um filho recebe menos benefícios fiscais. A decisão foi tomada em 2011, quando havia 11% de menores de cinco anos desprotegidos.

O Ministério da Saúde espanhol ainda não terá fechado as contas, mas não será pequena a fatura deste surto de difteria. Mal chegaram os resultados das análises feitas a Pau, começou uma investigação epidemiológica para encontrar a origem do foco da infeção. Descobriram-se dez portadores do bacilo (todos vacinados), mas fez-se o despiste a mais de duzentas pessoas. Os dez infetados, apesar de assintomáticos, receberam tratamento antibiótico para eliminar a bactéria; e sujeitaram-se 140 crianças e adultos a um esfregaço faríngeo.

O surto de sarampo que deixou muito boa gente em pânico nos Estados Unidos, no final do ano passado, também não terá ficado barato. Contabilizaram-se 121 casos em 17 Estados. Se pensarmos que, há quatro anos, o custo de 107 casos ficou estimado entre os 2,4 milhões de euros e os 4,7 milhões de euros, espera-se um rombo semelhante nos cofres estatais, escreve a revista Forbes.

A maioria das pessoas que contactou com a doença estaria vacinada, embora se tenha escrito que existem zonas na Califórnia com taxas de vacinação baixíssimas, próximas do Sul do Sudão. Nesta região dos EUA, o movimento antivacinação é muito forte.

Tudo começou no Reino Unido, com um estudo que veio a provar-se ser fraudulento, encabeçado por um cirurgião de origem canadiana – Andrew Wakefield – que, em 1998, publicou na revista The Lancet uma pretensa causa-efeito entre a vacina tríplice (sarampo, papeira e rubéola) e o autismo. ?A revista faria desaparecer o estudo dos seus arquivos em 2010, mas três anos antes já a teoria de Wakefield se espalhara nos EUA pela mão de Jenny McCarthy, então namorada do ator Jim Carey. Segundo Jenny, o seu filho Evan tornara-se autista depois de ter sido vacinado com aquela vacina.

Hoje, o movimento antivacinação espalhou-se a uma boa parte do mundo, outros médicos se juntaram a Wakefield e já não é só a tríplice a má da fita. Os pais que optam por não imunizar os filhos habitualmente não lhes dão nenhuma vacina. Beneficiam da chamada imunidade de grupo porque as vacinas (à exceção da do tétano) não conferem apenas proteção individual; com taxas acima dos 95% atinge-se a imunidade de grupo. É por isso que grande parte da comunidade científica os considera egoístas.

Mais do que egoístas, Marta e Jordi sentem-se culpados por terem acreditado no movimento antivacinação. Já vacinaram a filha mais nova e fizeram, eles próprios, um reforço da antidiftérica. Agora percebem que é uma questão de saúde pública.

O que é a difteria

É uma doença infeciosa, provocada por uma toxina que se aloja nas vias respiratórias superiores. Ao entrar na corrente sanguínea pode afetar rins, cérebro e coração. A vacina foi descoberta em 1890.

Os gurus antivacinação

Nos últimos dias, as redes sociais encheram-se de tributos ao médico James Jeffrey Bradstreet, que apareceu morto num rio em Chimney Rock, na Carolina do Norte, com um tiro no peito. Os peritos apontam para suicídio, mas a família vai avançar com uma investigação. Jeff seria demasiado incómodo para a indústria farmacêutica, dizem – há anos que chamava a atenção para a alegada ligação entre o mercúrio presente nas vacinas e o autismo. Os posts sobre a sua morte cruzam-se com as conferências de Andrew Wakefield, impedido de praticar medicina no Reino Unido pela sua cruzada antivacinas.

 

 

 

 

 

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