O mais importante na vida de uma criança é ter com quem brincar, diz especialista

Janeiro 27, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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texto do site http://www.psicologiasdobrasil.com.br/de 9 de outubro de 2016.

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Por: Larissa Roso

Foto de capa Edu Oliveira / Arte ZH

Luciano Lutereau, psicanalista e pesquisador da Universidade de Buenos Aires, afirma que as atuais opções de brinquedos e lazer dos pequenos não ajudam a desenvolver a capacidade de elaborar conflitos.

Doutor em Filosofia e Psicologia, o psicanalista argentino Luciano Lutereau, pesquisador e professor da Universidade de Buenos Aires, afirma que a melancolia sempre esteve associada à infância, mas reconhece que hoje essa condição se faz mais presente. O autor do livro O idioma das crianças lamenta que a brincadeira perca espaço para passatempos que são simples entretenimento, como videogames e outros atrativos tecnológicos, o que acarreta um prejuízo à capacidade de elaborar conflitos.

– As crianças estão mais expostas à melancolia já que não têm como reparar aquilo que as faz sofrer – explica Lutereau.

Os adultos têm enfrentado dificuldades para lidar com alguns sentimentos das crianças, como a tristeza, a raiva, a frustração?

Sem dúvida. Hoje nos encontramos com uma particular intolerância a respeito das emoções das crianças. Uma ideia própria da psicanálise, a de que a criança cresce através dos conflitos, é abandonada diante da expectativa de que ela sempre deve estar alegre. O imperativo do bem-estar, estendido à infância, leva o adulto a se assustar e a não saber como agir em situações normais, como as que demonstram a presença, na criança, de um sentimento de culpa inconsciente: por exemplo, as crianças são tachadas de instáveis ou impulsivas, quando esses estados expõem um traço particular do desejo infantil, o desejo de ser castigado. Um grande problema do nosso tempo é a intensa vigilância da infância em função de padrões adaptativos, como rendimento escolar, hábitos de higiene e costumes, e não baseada em seus próprios critérios de crescimento.

Em um artigo sobre a melancolia infantil, você escreveu que “começamos a temer o tédio como o mais urgente de todos os males e, no caso das crianças, nos preocupa muito mais que tenham algo para fazer do que pensar na plenitude do que fazem”. Pode falar um pouco mais sobre isso?

Hoje em dia, parece muito mais importante ter uma vida exitosa do que uma vida autêntica. Dito de outra maneira, a sociedade contemporânea se baseia no efeito e não tanto no sentido. Desde muito cedo, as crianças são incluídas em práticas que ocupam o seu tempo, sem que isso implique uma “temporalização”. Quando o tempo não está “ocupado”, elas se sentem vazias e se aborrecem. Pedem para ser estimuladas. Inclusive os pais planejam suas viagens de férias considerando lugares que tenham recreação para seus filhos. Na tradição ocidental, o tédio e o aborrecimento não representaram apenas um tempo perdido, mas também uma passagem para a lucidez e a criação. A sociedade contemporânea, baseada na agilidade, esquece que o homem é a projeção no mundo da sua capacidade de invenção, e isso se reflete na infância como uma perda crescente da experiência lúdica. A brincadeira, antes de ser uma atividade, é uma ação que a criança inventa repetidas vezes. A brincadeira é o modo como a criança se inclui em um tempo próprio, e não uma temporalidade objetiva que prejudica o seu desenvolvimento.

Que tipo de mensagem o intenso consumismo de nossa época pode estar transmitindo às crianças?

O consumismo não tem mensagem, é uma ordem vazia de acumulação, de posse e descarte. O principal problema da atitude consumista é quando não se vincula apenas a objetos, mas também a pessoas. Desde pequena, a criança pode se acostumar a tratar os outros como descartáveis e as relações humanas como recicláveis e sem profundidade. O capitalismo atual é muito diferente daquele que se seguiu à Revolução Industrial. A sociedade pós-moderna não é utilitária, mas cínica, e este cinismo pode atingir as crianças se não levarmos em conta o importante papel da educação. Por exemplo, alguém poderia dizer a uma criança que ela não deve roubar porque pode ser presa, e isso não é mais do que um conselho prático. Na realidade, o fundamental é ensinar que ela não deve roubar porque assim prejudicará alguém. À moral de conveniência de nosso tempo, é preciso voltar a se opor uma ética da lei.

Por que a tristeza da criança é diferente da tristeza do adulto?

Porque nas crianças a possibilidade de perda é muito mais angustiante. Um adulto já está preparado para fazer uma relação entre o que se perde e o que permanece, através do luto, mas a criança costuma dramatizar essas perdas como absolutas. Além disso, a perda na infância pode acarretar um intenso sentimento de culpa – a criança acredita que fez algo errado ou foi má. A maneira como os adultos devem lidar com a tristeza das crianças é no sentido de reduzir o sentimento de culpa, permitindo que a brincadeira seja uma via de exploração das fantasias que as afligem. Esse território intermediário oferecido pela ficção, entre o interno e o objetivo, permite que a criança veja que seus temores não são tão intensos e que, além disso, são passageiros. E também que ela pode compartilhá-los com o outro sem ter medo de represálias. O mais importante na vida de uma criança é ter  com quem brincar.

FONTE Zero Hora

 

 

 

 

 

WORKSHOP | Vamos Brincar? “Perspectivando o Brincar através dos Touchpoints” | 10 e 11 de Fevereiro

Janeiro 24, 2017 às 8:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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http://fundacaobgp.com/pt/formacao-workshop-vamos-brincar

“As crianças têm de ter liberdade para não fazer nada”

Janeiro 12, 2017 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista do http://expresso.sapo.pt/ a Álvaro Bilbao no dia 8 de outubro de 2016.

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Álvaro Bilbao é neuropsicólogo e pai de três filhos. Em Portugal para falar do seu livro, explica como conhecer melhor o cérebro pode ajudar-nos a educar melhor

Katya Delimbeuf

Álvaro Bilbao, 40 anos, é doutorado em Psicologia da Saúde pela Universidade de Deusto, em Bilbau. Já colaborou com a Organização Mundial de Saúde e trabalha no Centro Estatal de Referência de Atenção ao Dano Cerebral – mas costuma dizer que o seu maior currículo são os três filhos, de 6, 4 e 3 anos. O seu livro, “O Cérebro das crianças explicado aos Pais” (editora Planeta), já chegou às livrarias do nosso país.

Porque é importante conhecer o cérebro para educar melhor?

Porque este oferece-nos muitas estratégias e ferramentas que nos ajudam. Explica-nos como aprende o cérebro da criança, as suas necessidades de desenvolvimento e que ferramentas devem usar os pais na ordem que os filhos precisam. O cérebro do adulto aprende através da linguagem e da razão. O das crianças aprende essencialmente através do jogo e do carinho.

E através do exemplo, não?

Também. As crianças aprendem muito através da observação dos adultos. Se queres ter um filho feliz mas passas o dia aborrecido e frustrado, ele vai imitar essa forma de lidar com os problemas. O nosso exemplo é muito importante. Acontece o mesmo com os smartphones e iPads. Podemos pôr-lhes regras, mas se nós próprios andarmos com o telemóvel atrás o dia todo, eles vão fazer o mesmo.

O que lhe ensinaram os seus filhos?

Ensinaram-me que uma coisa é a teoria e outra é a prática. A teoria ajuda-nos muito a melhorar a prática, mas a prática não sai sempre como queremos. Ensinaram-me também uma coisa muito importante, que não vem nos manuais: a importância do carinho, de lhes dar beijos. A minha mulher ajudou-me muito, porque vem de uma família muito afetuosa, com poucos limites, muito hippie, e eu venho de uma família muito conservadora e tradicional. Juntos, encontrámos uma forma equilibrada de educar. Mas uma das coisas fundamentais para educar é errar – para os teus filhos verem que também te enganas e que é normal não fazer tudo bem. Também é muito importante estarmos em contacto com a nossa criança interior. Estar com crianças põe-nos em contacto com aquela parte de nós que esquecemos em adultos – a capacidade de brincar, de sonhar, de sentir afeto.

Brincar é fundamental?

Sim. O jogo livre é fulcral. O momento em que se apaga a televisão é mágico. É incrível o que os miúdos inventam quando os pais não lhes dizem o que fazer. Isso ajuda imenso a desenvolver a imaginação.

Defende que, até aos 6 anos, as crianças não devem ter contacto com a tecnologia. Isso é possível nos dias que correm?

Até aos 3 anos não devem contactar com tecnologia, absolutamente. Em minha casa não há tablets e os miúdos não usam os telemóveis. Este verão, perguntei ao mais velho o que achava de lhe comprarmos um tablet. Respondeu: ‘Talvez seja melhor esperar mais um pouco. Gosto muito de brincar com legos, de desenhar e não quero deixar de gostar’. Não comprámos.

Mas os limites são igualmente essenciais, não?

Absolutamente. Os limites ajudam as crianças a saber o que não devem fazer. A não bater nos irmãos, a respeitar os mais velhos, a não desobedecer, a não gritar… Há pais que, sabendo da importância dos afetos, não dão limites. Não está certo.

O “não” é a palavra mais importante na educação de uma criança?

Enquanto palavra, talvez seja. Mas o mais importante não está nas palavras – são os abraços, os beijos, o carinho. Afetos e limites são igualmente importantes. Ao dizermos ‘não’, estamos a ensinar-lhes o autocontrolo, a disciplina, a capacidade de controlar a frustração.

O que podemos fazer para lidar com as terríveis birras?

Entre os 2 e os 3 anos, não há nada que se possa fazer. Têm que fazê-las e pronto. Mas há três coisas que podem ajudar e três outras que podem piorar a situação – e a maioria dos pais costuma fazer estas últimas. A primeira que não devemos fazer é zangarmo-nos com as crianças ou ficarmos nervosos. A segunda é envergonhá-las, comparando-as; e a terceira é tentar agarrá-las pela força. Pelo contrário, aquilo que pode ajudar é empatizar com elas, mostrar-lhes que percebemos o que sentem; dar afeto, abraçá-las; e ajudá-las a serem flexíveis, oferecendo-lhes uma alternativa (por exemplo: adiar aquele ato para outro dia).

Alguma vez bateu num filho?

Nunca. Castiguei-os duas vezes, mas nunca através do castigo físico. Está demonstradíssimo que o castigo físico não é bom. Ensina à criança a perda de controlo, a agressividade. Humilha-a, põe-na triste. O castigo físico não pode ser uma forma de educar. Educamos melhor quando não batemos. Já me aconteceu pedir ajuda aos meus filhos, para não gritar com eles.

Há rotinas imprescindíveis em vossa casa?

Somos mais flexíveis em termos de horários e mais ritualistas em relação a certas coisas. Jantamos sempre em família – e se eu não tiver fome, sento-me com eles. Lê-se sempre uma história antes de dormir. Dormem pelas 21h30. Somos bastante flexíveis. Para nós, os afetos são mais importantes do que a ordem.

Não estaremos a passar demasiado stress às crianças, com horários para tudo?

O cérebro não percebe as horas, percebe as sequências. É importante que as crianças e os pais aprendam a ter flexibilidade. As regras são importantes, mas não é preciso ter síndromas de perfecionismo. Para a criança, também é duro ter de fazer tudo perfeito. Atualmente, sabemos que o maiores problemas das crianças se devem ao stress. O déficit de atenção, a obesidade infantil, problemas de comportamento, derivam daí. Isso deriva de querermos que as crianças tenham muitas atividades, façam muitas coisas, que cheguem a horas a todo o lado… E nós também queremos fazer tudo de forma perfeita. A exigência e o perfecionismo da nossa sociedade são tremendos. Em minha casa, tentamos ter manhãs sem stress. Tentamos fazer tudo com antecedência, levo os meus filhos à escola mais perto de casa.

A avaliação, a preocupação excessiva com as notas, não são também um sintoma de obsessão da nossa sociedade?

Sim. O mais importante é que as crianças se apaixonem pela aprendizagem, mais do que por terem boas notas. A maior prenda que podemos dar aos nossos filhos é incutir-lhes o gosto por aprender. Os melhores alunos são miúdos que gostam de aprender.

Fazer depressa não é fazer bem

Como se pode tentar passar o gosto por saborear em vez de consumir?

A primeira coisa que podemos tentar é não consumirmos nós próprios, no dia-a-dia. Não consumir tecnologia, ócio. Não temos que fazer 25 coisas ao fim de semana, podemos simplesmente passar o fim de semana sem fazer NADA. Estar em casa, brincar, dar um passeio. Quando consumimos muito, damos impressão à criança de que tudo acontece muito depressa, de que tem de estar sempre ocupada, sempre feliz. Das primeiras coisas a fazer é dar à criança a liberdade e a confiança para não ter de fazer nada. Depois, é importante não dar demasiada importância ao resultado. Podemos jogar a passar a bola, sem ser a marcar golos.

A nossa sociedade vive cheia de pressa?

Sim. Vivemos num modelo que diz que fazer depressa é fazer melhor. Não é verdade. Um tomate biológico é melhor que um tomate de estufa. Se se for maduro aos 7 anos, em que idade se vai ser imaturo? É muito importante respeitar os ritmos das crianças.

O que mais o fascina no cruzamento da neurologia com a pedagogia?

facto de tudo encaixar. Tudo faz sentido quando juntas a neurologia (que explica como aprende o cérebro), a pedagogia (que explica como aprendemos) e a psicologia (que nos explica o que fazemos e sentimos). As memórias afetivas, por exemplo, são as mais antigas. Situam-se na parte do “cérebro emocional”. Podemos esquecer quem é uma pessoa, mas não esquecemos que nos sentimos bem ao pé dela. Um filho nunca vai esquecer uma bofetada. Mesmo que isso não seja consciente.

 

 

 

 

Quando o brinquedo favorito de uma criança é um pneu velho

Dezembro 23, 2016 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do http://observador.pt/ de 17 de dezembro de 2016.

O brinquedo desta criança do Burkina Faso é um pneu velho

O brinquedo desta criança do Burkina Faso é um pneu velho

Um projeto promovido pela Gapminder Foundation revela alguns dos brinquedos favoritos de crianças em vários pontos do mundo. Há pneus velhos, embalagens de plástico e bonecas desfeitas.

São imagens que fazem pensar, sobretudo numa altura como o Natal. A Gapminder Foundation, uma organização não governamental sem fins lucrativos, especializada em análise estatística e que se propõe a promover o desenvolvimento global sustentável, lançou um projeto onde, entre outros aspetos, revela os hábitos de consumo de várias famílias em muitos pontos do globo, desde o tipo de casa em que vivem até às camas onde adultos e crianças dormem. Mas há outros detalhes impressionantes: no Burkina Faso, por exemplo, existem crianças cujos brinquedos favoritos são antigas embalagens de plástico ou simplesmente um velho pneu de camião.

O projeto da Gapminder Foundation, batizado como Dollar Street, mereceu o destaque do Business Insider, que acrescenta alguns dados relevantes, como o facto de 15% das pessoas em todo mundo viverem em casas cujo rendimento mensal médio por adulto é de apenas 39 dólares, cerca de 37 euros.

Em declarações à Business Insider, Anna Rosling Rönnlund, co-fundadora da Gapminder, explicou que, além de querer chamar atenção para as desigualdades gritantes entre a riqueza disponível nos vários países, o objetivo deste projeto é também tornar o “mundo menos assustador”, aproximando as pessoas.

Uma das possibilidades que o Dollar Street oferece é precisamente a de conhecer a história de famílias do Haiti, da Ucrânia ou do Camboja e provar que, independentemente da região onde vivamos, muitos dos desafios que enfrentamos diariamente são os mesmos. “É impressionante ver quão semelhantes são as nossas vidas”, notou Anna Rosling Rönnlund.

 

Ciclo de Workshops sobre Parentalidade – 23 nov., 6 dez. e 13 dez. em Coimbra

Novembro 21, 2016 às 6:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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mais informações:

https://www.facebook.com/info.gabinetedepsicologia

 

Voltar a brincar na rua

Novembro 14, 2016 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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texto do site http://www.educare.pt/ de 10 de outubro de 2016.

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Associação de Leiria lança projeto para que os mais novos brinquem nas ruas e jardins da cidade. São criados grupos comunitários e os adultos são embaixadores do brincar.

Sara R. Oliveira

“Queremos os mais novos a brincar livremente no espaço público, encontrando os amigos de sempre ou fazendo novos amigos, explorando a criatividade e com interferência mínima dos adultos.” Francisco Louro, presidente da associação Ludotempo, de Leiria, explica, em declarações à Lusa, a base do projeto “Brincar na Rua” que pretende recuar aos tempos das brincadeiras ao ar livre. A ideia é que as crianças brinquem nas ruas e jardins, que tenham essa experiência, mas de uma forma adequada aos tempos modernos e com toda a segurança.

O modelo está definido, a iniciativa destina-se a crianças entre os 5 e os 12 anos, e o projeto-piloto será testado num bairro na cidade de Leiria em outubro. Há vontade de replicar o projeto em outras cidades. São criados grupos de brincar comunitários, cada um não deverá ultrapassar as 15 inscrições. Cada grupo será monitorizado por dois adultos formados e certificados pela associação sem fins lucrativos de Leiria. E esses adultos monitores serão os embaixadores do brincar, responsáveis por garantir a segurança dos mais novos, por dinamizar a comunidade. Têm outras tarefas no processo, podem, por exemplo, ativar brincadeiras, mas logo que o façam retiram-se do palco das brincadeiras.

Crescer e aprender a brincar é também um dos motores do projeto. A associação sabe que os mais novos passam muito tempo fechados em casa à volta dos aparelhos tecnológicos e, além disso, auscultou a comunidade local. As conclusões são claras: 85,7% dos pais querem dar prioridade às atividades ao ar livre, 69,8% das crianças gostariam de brincar na rua, 58,9% dos pais querem espaços infantis onde os filhos possam brincar em segurança. Indicações importantes e que dão força à iniciativa.

“O grande bastião do projeto é a segurança das crianças”, refere, à Lusa, o responsável pela Ludotempo. E isso é assegurado por um sistema de geolocalização. “Este sistema permite definir um perímetro de segurança e se por alguma razão extraordinária, a criança se afastar, o sistema emite um alerta imediato e os monitores sabem que a criança saiu do perímetro de segurança e conseguem localizá-la”, explica Francisco Louro.

“Brincar na Rua” é um projeto de inovação social e foi reconhecido como uma das dez melhores iniciativas nacionais de 2016 pela Fundação Calouste Gulbenkian. Está nas mãos da Ludotempo e conta com as parcerias da Escola Superior de Educação e Ciências Sociais do Instituto Politécnico de Leiria, da câmara local, da União de Freguesias de Leiria e do Instituto Português do Desporto e Juventude.

http://www.ludotempo.pt/

Brincar na rua. Os miúdos querem, os pais têm medo

Novembro 8, 2016 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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reportagem do Notícias Magazine de 9 de outubro de 2016.

pedro-correia

descarregar a reportagem no link:

https://ciecum.wordpress.com/2016/10/18/brincar-na-rua-os-miudos-querem-os-pais-tem-medo/

O Bernardo já é hipertenso

Outubro 18, 2016 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto publico no http://p3.publico.pt/ de 3 de outubro de 2016.

jenn-richardson

Hoje, as crianças já não podem sair à rua e estão entre as mais sedentárias da Europa. Porquê? Porque é perigoso, porque em cada adulto, um pedófilo, e hoje já não se pode confiar em ninguém, nem nos amigos, nem nos vizinhos

Texto de João André Costa

Eu, quando era catraio e frequentava a preparatória, era na “aldeia dos macacos”, espaço de recreio recheado a pinheiros, caruma, areia e baloiços, que encontrava toda a brincadeira, todas as aventuras no topo das árvores, os joelhos esfolados na areia mais as calças rasgadas de todos os dias, sem que por isso viessem aí as nossas mães de mãos ao ar e credo na boca porque no dito recreio não morava uma caixa de primeiros socorros, um adulto sempre de plantão que nos dissesse o que era permitido, ou não, fazer, e como, um seguro contra todos e uma resma de papel em folha de 25 linhas com todas as medidas a tomar em caso de acidente.

E, se calhar, por não termos a tal resma é que o Francisco partiu a cabeça no 6.º ano quando o Tó lhe mandou uma pedrada à pinha. O Francisco não morreu nem contraiu uma septicemia, foi para os bombeiros e levou três pontos a sangue frio com uma dessas agulhas da caixa de costura, no regresso ainda deu umas lambadas ao Tó e hoje são grandes amigos.

Hoje, a “aldeia dos macacos” foi substituída por um pavimento infantil com placas de borracha, já não há areia nem árvores “derivado ao perigo para as crianças“, ou assim nos disse o presidente da junta, as áreas de recreio foram delineadas a régua e esquadro e no lugar dos baloiços de madeira, cujas farpas insistiam em cravar-se nas mãos e nas pernas, para gáudio do sistema imunitário, temos agora escorregas esterilizados no fim dos quais não há quaisquer hipóteses de nos matarmos e/ou partirmos os dentes, nem que nos atiremos de cabeça, assim logrando todas e quaisquer hipóteses de impressionar as ”garinas“ lá da escola.

Isto, se deixarem as crianças sair à rua. Hoje, as crianças já não podem sair à rua e estão entre as mais sedentárias da Europa. Porquê? Porque é perigoso, porque em cada adulto, um pedófilo, e hoje já não se pode confiar em ninguém, nem nos amigos, nem nos vizinhos, e noutro dia o Paulo teve de dar explicações à polícia por andar de mão dada com o filho num parque.

Não, hoje em dia temos telemóveis com ”touche“, ”tablets“, ecrãs led com ligação à net e computadores, todos ligados ao mesmo tempo para que os catraios não nos chateiem quando chegamos a casa cansados do trabalho, ou da falta dele. Para que, passiva e “ruminantemente”, cresçam e engordem, felizes para todo o sempre. Pelo menos até chegarem à escola onde não existem nem audiovisuais nem quadros interactivos e onde os professores ainda pagam os paus de giz do próprio bolso à senhora contínua, sempre muito incomodada quando a interrompem a meio da leitura da ”Maria“.

E porque hoje as crianças já não podem sair à rua temos ginásios, onde as crianças que ontem corriam na ”aldeia dos macacos“ podem agora aprender a brincar com toda a segurança e conforto. Porque os Bernados deste mundo ainda só têm oito anos mas já são hipertensos e 40 quilos de peso falam sempre mais alto. Mas não só, pois ir ao ginásio também é fino e fica sempre bem dizê-lo em conversa com os amigos ou através daquela ”selfie no “Facebook”. Quando aprendi a andar de bicicleta malhei não sei quantas vezes a saltar por cima das tampas de esgoto. O Miguel, a pedalar freneticamente logo atrás de mim para dar um salto anda maior, ficou com os dentes da frente perdidos entre as gengivas e o volante da “bêémexis”.

De caminho, não deixámos de percorrer em duas rodas todas estas estradas que ainda nos correm no sangue. O teu sobrinho, no entanto, nunca vai poder andar de bicicleta. Da última vez que fomos a casa deixámos-lhe uma bicicleta novinha em folha encostada a um canto para pasto da ferrugem. Entretanto, já ficámos a saber que lá no ginásio tem uma bicicleta de ginástica só para ele. Só nos resta saber quem vai pagar a conta, se tu, se a tua mãe, e eu nunca me lembro de ter pago o que quer que seja para correr na “aldeia dos macacos” ou em cima da bicicleta.

 

 

 

“Nós, pais, somos os melhores brinquedos dos nossos bebés” Mário Cordeiro

Setembro 30, 2016 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista de Mário Cordeiro ao site http://www.novemeses.pt/pt/

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Escrito por: Iolanda Veríssimo

Com os depoimentos e revisão de: Mário Cordeiro, Pediatra.

Em entrevista à Nove Meses, o pediatra Mário Cordeiro lembra porque devem os pais brincar com os filhos.

O que é brincar?

Brincar é uma coisa que deveríamos fazer a vida toda. Trata-se de uma mistura de entretenimento, prazer lúdico, jogo com regras e organização, interação com os outros, mas com leveza, sem segundos sentidos, sem outros objetivos menos bons que não o descobrir potencialidades, talentos, áreas de interesse e que, na vida, se podem encontrar momentos endorfínicos e de prazer, e não apenas atividade sôfrega e sofrimento.

Quando é que um bebé começa a brincar?

Desde sempre. Um bebé brinca com a mãe, designadamente quando mama, brinca com as mãos, entretém-se. Aliás, há especialistas que demonstraram que um bebé brinca ainda dentro da barriga da mãe, ou seja, faz gestos e movimentos pensados e coordenados apenas pelo prazer de os fazer. Não digo que os pontapés que a mulher grávida sente correspondam a um jogo de futebol, mas sabe-se, por registos ecográficos e outros estudos, que o bebé se entretém, brinca e utiliza o seu próprio corpo para isso. Sabemos também que ouve, ouve os sons da mãe, ouve os batimentos cardíacos, a voz do pai e as vozes das outras pessoas. Brincar acompanha o ser humano desde sempre.

Porque devem os pais brincar com os filhos?

Porque os pais, sendo os modelos e exemplos, são as pessoas melhor colocadas para ajudar os filhos a crescer, não apenas em autonomia e responsabilidade, mas também no que toca ao saber brincar e jogar. Ensinando organização, metodologia, estruturação progressiva, de jogo em jogo, de momento em momento, de brincadeira em brincadeira, podemos ensinar aos nossos filhos a necessidade de uma atitude assertiva e responsável perante a vida, mas ao mesmo tempo uma descontração que é uma das maiores qualidades do ser humano e que nos ajuda, em muito, a enfrentar o quotidiano e a angústia existencial. O humor desconstrói muita da ansiedade e do drama, por vezes exagerado, que introduzimos nas nossas vidas.

Como é que o podem fazer?

Tendo (leia-se, arranjando) tempo, não sobrecarregando os momentos com excesso de regras e de espartilhos, e pensando que, mais importante do que estar novamente a ver as mesmas notícias na televisão ou agarrado obsessivamente ao facebook, talvez não seja disparatado reganhar o prazer de estar com outras pessoas, designadamente os filhos. Ter filhos não é só produzi-los ou “geri-los”…

Qual é o papel dos pais nas brincadeiras dos filhos?

Muito grande. Embora considere indispensável que, desde cedo (desde bebé), uma criança aprenda a brincar sozinha, o que é um excelente fator protetor para a vida futura porque nos ajuda a ter um mundo interior mais rico, o que serve de airbag quando a vida nos traz momentos maus e de desamparo ou abandono, as crianças precisam dos pais como companheiros de brincadeiras, mantendo o seu estatuto de pais (não andamos todos no mesmo infantário!) mas com cumplicidade e amizade. Aliás, o que estou a referir não é apenas para crianças pequenas, mas aplica-se a adolescentes também, e porventura durante toda a vida, mesmo quando os filhos já são adultos.

Há diferenças entre brincar com a mãe e brincar com o pai?

Sim. Diferenças naturais porque desempenham funções complementares, mesmo em casais do mesmo sexo. Os homens foram, durante milénios, os promotores da brincadeira exterior, especialmente com os rapazes, os grandes desafiadores dos espaços lúdicos exteriores e dos jogos, quando não estavam a caçar ou a fazer a guerra. Atualmente, contudo, pais e mães brincam, embora a brincadeira seja, ainda, um atributo natural e espontâneo dos pais, em geral. Dou um exemplo: uma mãe terá a tendência em contar uma história, como a dos Três Porquinhos, lendo o livro. Um pai fará uma dramatização, inventará vozes, desfiará o enredo, gozará com as situações… O registo é diferente.

Diz-nos num dos seus livros que “os pais são, ainda, o brinquedo favorito do bebé”. Porquê?

São. Os bebés descobrem a vida a partir dos pais e estes são muito melhores do que qualquer brinquedo que exista numa loja de brinquedos. Têm cheiro, toque, falam, ouvem… Vêm equipados com muitas funções e até têm pilhas que duram eternidades… A sério: nós, pais, somos os melhores brinquedos dos nossos bebés.

Porque é que é bom para a criança brincar?

Brincar não é uma atividade feita de gestos gratuitos e sem nexo, como muitas vezes a desconsideramos, porque o que a criança faz é supostamente «coisa de criança». Não! Brincar é uma das atividades mais elaboradas porque, para além de indispensável, desenvolve a criatividade, o imaginário, a imaginação, a alternância, o sentido figurativo e representativo, e a organização dos gestos, das falas e dos cenários. Não há outra atividade tão completa como o brincar. Dizia o Professor Robert Debré, um grande pediatra, fundador da Unicef, que até as amibas brincam: após uma fase em que agitam os seus prolongamentos em busca de comida, continuam a fazê-lo, nem que seja para tocar em outras amibas – se não é para recolher alimentos, então fazem-no provavelmente para brincar.

Que erros devem os pais evitar neste contexto?

Não basta pegar nuns quantos brinquedos e bonecos e dar a uma criança para que esta se sinta feliz. Pelo contrário, vai sentir-se, em determinados momentos, muito frustrada e infeliz. Os bebés precisam de aprender a brincar sozinhos, e fazem-no enquanto o brinquedo permite exploração e descoberta, mas logo esgotam as suas possibilidades individuais e precisam de quem lhes aponte mais soluções para o objeto ou para o jogo. É por isso que brincar com uma criança é estar com essa criança. Estar disponível, estar ao nível dela (no chão, olhos nos olhos), ter tempo e não dar ao bebé a sensação de que se está sempre com pressa e a despachá-lo. Não se trata de sermos escravos dos nossos filhos, mas de estarmos disponíveis e tentar encontrar esse tempo que é escasso mas que pode ser arranjado. Às vezes entramos num registo um bocado bizarro: queixamo-nos do pouco tempo que temos para estar com os nossos filhos e estragamos esse tempo com palermices que não valem nada, com regras e regrinhas, a que acresce uma enorme falta de paciência e de disponibilidade. E as crianças sentem isso, pode crer.

Brincar com um irmão mais velho pode colmatar o facto de a criança não brincar com os pais?

Todas as crianças brincam e não precisam de brinquedos, embora quando a brincadeira passa a jogo, é sempre bom ter alguém com quem brincar. A ausência de um outro pode levar ao isolamento e ao refúgio em ecrãs, sejam os do telemóvel, sejam a televisão ou computadores. Os bebés, por exemplo, servem-se do próprio corpo, que é um excelente brinquedo, e brincam com as mãos, com os pés. Brincar de esconde-esconde, bater palminhas, conhecer a própria cara, cantar músicas. Os mais velhos agarram em dois ou três objetos e fazem deles o que querem, inventam histórias e ações. As crianças brincam onde quer que estejam, porque também consideram brinquedos todos os objetos e utensílios que manuseiam. Quantas vezes nos irritamos quando queremos que eles se despachem a comer ou a vestir, de manhã, quando faltam cinco minutos para o autocarro ou para o trânsito, ou para isto ou para aquilo, e eles já estão a utilizar os talheres ou as roupas para inventar histórias. E nós dizemos: «Mas come!» e eles já estão noutra. E nós então dizemos: «Mas não sejas criança!» e não há ninguém por perto que nos faça ver o ridículo da nossa atitude, porque brincar é um processo do desenvolvimento e os processos de desenvolvimento são processos muito importantes, acima de qualquer poder de adulto, um processo contínuo, desde que se nasce até que se morre.

Porque é que brincar é um direito da criança?

A resposta é simples: porque viver, ser feliz, ter momentos humanos de simplicidade, imaginação, criatividade, alegria e prazer fazem parte da nossa existência terrena. Não é só no Céu que se deve procurar a felicidade. A nossa velha Terra pode proporcionar-nos momentos de plenitude e reconforto. Brincar é um deles, para lá do que se aprende com o brincar. Em qualquer altura da vida. Pelo menos, falo pela minha experiência pessoal. Gosto de brincar e não tenho vergonha de o dizer. E sinto-me mais humano, uma pessoa melhor e mais rico, quando brinco. Com a devida proporcionalidade e com o sentido de adequação, mas sem deixar de o fazer. Acho que, numa sociedade que tende para ser cinzenta e baça, preocupada em formar «cavalos de corrida para a retoma económica», o brincar seja cada vez mais reduzido… Será uma perda irreparável para a Humanidade e para as pessoas, em particular.

Perfil de Mário Cordeiro

É um dos pediatras mais reconhecidos em Portugal. Pai de cinco filhos, escreveu várias obras dedicadas aos pais e educadores, aliando a sua formação como médico pediatra aos vastos conhecimentos que tem nas áreas da Psicologia, Sociologia e Antropologia. Entre os seus livros mais conhecidos estão O Grande Livro do Bebé, Dormir Tranquilo e 1333 Perguntas para Fazer ao Seu Pediatra. Doutorado em Pediatria, foi professor de Saúde Pública na Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa e é membro da Sociedade Portuguesa de Pediatria e da British Association for Community Child Health.

 

 

“É inacreditável que hoje se passeiam mais os cães do que as crianças”

Setembro 28, 2016 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista do http://www.dn.pt/ a Carlos Neto no dia 26 de setembro de 2016.

antonio-pedro-santos

Carlos Neto é professor e investigador da Faculdade de Motricidade Humana de Lisboa | António Pedro Santos / Global Imagens

Ana Bela Ferreira

Há mais de 40 anos que o investigador Carlos Neto trabalha com crianças e está preocupado com o sedentarismo. “Há pais que já não têm prazer em brincar com os filhos”

A falta de autonomia das crianças é culpa das famílias ou das escolas que também as ocupam demasiado tempo?

Eu diria que temos de encontrar um conjunto de fatores para explicar o fenómeno, porque não se pode pôr culpas a ninguém em particular. Veja-se a cidade de Lisboa e o inferno que é às seis da tarde e às oito da manhã e a maneira como as famílias têm de se encarregar de distribuir a vida dos filhos no tempo escolar e para além da escola. Por outro lado, não há uma política habitacional pensada do ponto de vista de criar uma mobilidade saudável no crescimento e no desenvolvimento dos jovens. Só dessa maneira é que se pode compreender o que é que está a acontecer com o baixo índice de mobilidade que temos em Portugal. Os estudos que fizemos em 16 países demonstram que ficámos em 14.º lugar. Muito abaixo dos países escandinavos, onde essa mobilidade é muito elevada, onde têm uma autonomia muito grande e vivem a natureza e o território da cidade de forma plena. Em Portugal, e nos países do Mediterrâneo, a situação é muito complexa, porque há perigos diversos e depois há medos que se instalaram na cabeça dos pais.

Mas esses perigos não existem também nos países nórdicos?

Eles têm uma filosofia de organização do tempo e do espaço completamente diferente. Significa que os nossos jovens e crianças têm muita dificuldade em ter essa autonomia desde muito cedo, porque encontram diversos constrangimentos. Desde o trânsito, o fenómeno da urbanização, a maneira como o tempo escolar e o tempo de trabalho dos pais está organizado. Por outro lado, ganhou-se um medo enorme de as crianças andarem autónomas na rua. A rua desapareceu, está em extinção como local de jogo, de brincadeira, de encontro de amigos. O problema da socialização é uma das questões mais importantes que se colocam hoje na nossa juventude e nas culturas de infância. Temos aqui um problema muito sério que só pode ser resolvido com medidas corajosas e arrojadas do ponto de vista político.

Isso significa facilitar os transportes, criar espaços verdes?

Espaços verdes, política habitacional mais adequada à política educativa e também à gestão do tempo de trabalho dos pais. Está tudo demasiadamente formatado e as crianças e jovens precisam que isso seja desconstruído para a vivência do corpo em situações mais espontâneas e mais naturais, do espaço construído e do espaço natural da cidade. Quando falamos em índice de mobilidade baixa, isso significa que temos de atuar em várias frentes para tornar mais sustentável uma vida feliz e com sucesso das crianças e jovens porque elas merecem. E acima de tudo uma perspetiva de não repressão do corpo em movimento porque o sedentarismo não é só físico, é também mental, social e emocional. A investigação científica tem demonstrado claramente que quem mais faz atividade física, mais brinca na infância, mais tem relação com os amigos, são crianças que normalmente têm mais sucesso no futuro, mais rendimento escolar e obviamente têm um índice de felicidade e de empatia muito maior.

Mas hoje as crianças quase só se relacionam com as outras em atividades organizadas.

Praticamente está tudo organizado quer do ponto de vista das atividades no meio escolar quer nas atividade extraescolares. Se isto ainda não bastasse têm depois uma cultura de ecrã muito agressiva. É muito natural ver crianças à volta de uma mesa de café e não se falam, estão todas a olhar para o iPhone. O corpo em movimento é fundamental para todo o desenvolvimento, não só emocional, também cognitivo, social e emocional. A escola tem de urgentemente mudar o modelo de funcionamento, quer na organização curricular quer na forma como as crianças são mais ou menos participativas. Temos de dar uma espécie de um trambolhão na sala de aula, no sentido de tornar as aulas mais ativas por parte das crianças.

Falta uma política de brincadeira?

Há alguns sinais interessantes do Ministério da Educação de tentar que a vida na escola não seja uma coisa tão formal e tão séria, isto é, de ter tempos mais disponíveis para expressão dramática, educação física, música, dança ou um conjunto de atividades que consigam que o corpo disponibilize maior capacidade expressiva, de empatia, de modo a tornar os cidadãos mais cultos, com maior capacidade de ética e de cidadania e portanto não estar apenas centrado nos rankings. Está provado cientificamente que crianças com maior nível de atividade física e relacional no recreio aprendem mais na sala de aula. Portanto, não podemos querer crianças sedentárias ou a ouvir um conhecimento que muitas vezes não lhes interessa. O ensino não pode ser isto no século XXI.

A gestão do tempo da família também tem de mudar?

Temos de dar um ar fresco a este país, este país não pode estar com esta depressão enorme em que temos pais e professores esgotados, porque as crianças reparam em tudo. Há pais que já não têm prazer em brincar com os filhos, e há professores que já não têm capacidade de perceber a importância dessa atividade espontânea do que é correr atrás de uma bola, subir a uma árvore, fazer um jogo de grupo no recreio ou pura e simplesmente subir o muro e tentar descobrir o que está do lado de lá. Ou ter locais secretos. Como é que nós promovemos a saúde pública e mental numa perspetiva de maior cidadania, de maior empreendedorismo e de maior grau de felicidade? É isso que está em causa quando falamos em promover o corpo em movimento. Nunca foi tão importante o papel dos pais e da família na educação dos filhos no que diz respeito à implementação deste tipo de atividades. Sair com as crianças para a rua e brincar, desfrutar a natureza. Os pais têm de ter mais tempo disponível para fazer este tipo de atividades. É inacreditável que hoje se passeiem mais os cães do que as crianças. Inacreditavelmente faz-se hoje um esforço inadmissível de tornar os robôs mais humanos e ao mesmo tempo estamos a robotizar o comportamento humano.

 

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