Colóquio Brincar e os modos de ser Criança – 26 e 27 de maio em Coimbra – Organização do IAC – Fórum Construir Juntos

Março 23, 2017 às 1:09 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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O Instituto de Apoio à Criança (IAC) tem por objetivo principal contribuir para o desenvolvimento integral da Criança, na Defesa e Promoção dos seus Direitos, sendo a criança encarada na sua globalidade como sujeito de direitos na família, na escola, na saúde, na segurança social e justiça.

É convicção do IAC que a promoção do “Direito de Brincar” consagrado no artigo 31º da Convenção sobre os Direitos da Criança, conduz a um crescimento equilibrado e feliz, já que através do Brincar a Criança atribui significados, comunica, compreende os outros, aprende a respeitar regras, inventa, constrói vezes sem fim, numa reconstrução permanente.

Neste sentido, o IAC-FCJ divulga o Colóquio Brincar e os modos de ser Criança, a decorrer nos dias 26 e 27 de maio, na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação, em Coimbra.
Este evento tem como principal objetivo refletir sobre o BRINCAR como direito das crianças, como expressão do seu modo de ser e estar, e como estratégia cientificamente fundamentada de educação e de integração social. Iremos procurar despertar o interesse de todos os participantes para a importância da atividade lúdica, dando ao mesmo tempo a conhecer investigações e iniciativas já realizadas, na medida em que elas possam ser inspiradoras para novas ações, por ventura da iniciativa dos próprios formandos.

Mais informações e inscrições através do link: https://sites.google.com/site/brincar2017/

Em anexo segue Cartaz de divulgação e o Flyer com o programa.

Cartaz (pdf)

Programa (pdf)

 

 

Uma entrevista para pais, dirigentes e treinadores. “Os atletas brincaram muito na rua e foram felizes, não se fabricaram em laboratório”

Março 13, 2017 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista de Carlos Neto ao http://tribunaexpresso.pt/ de 1 de março de 2017.

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Carlos Neto é professor e investigador da Faculdade de Motricidade Humana e não há ninguém melhor para explicar como a formação desportiva em crianças e jovens deve ser feita. É que a atual, em Portugal, não está adequada às necessidades dos mais novos, explica à Tribuna Expresso, ressalvando também que é urgente formar… os pais

Mariana Cabral

[começa a falar antes da pergunta] Bem, gostava de começar por dizer que, em pleno século XXI, o fenómeno desportivo é um fenómeno social de grande envergadura em termos mundiais, o que significa que nunca o desporto teve tanto impacto na sociedade como nos dias de hoje. Quer de um ponto de vista económico, porque é de facto uma economia gigantesca, como social, porque motiva todas as idades e credos, e ultrapassa fronteiras em todos os espaços geográficos e culturas diferenciadas. De facto tornou-se um fenómeno nunca visto na vida do homem. Significa que tem impacto ao longo da idade, desde as crianças até aos idosos, quer quanto a praticantes, quer quanto a espetadores, quer quanto aos que são agentes relacionados com o desporto, sejam treinadores, dirigentes ou formadores. É um fenómeno de facto fantástico. Hoje em dia temos imensas crianças e jovens a fazer atividade desportiva organizada e estruturada, o que significa que há uma expectativa muito forte destas crianças poderem atingir sucesso.

Tem tudo a ver com o mediatismo do desporto?

Também. É evidente que nas últimas décadas os orgãos de comunicação social são responsáveis por tornar o fenómeno desportivo altamente mediático e altamente participativo em todo o mundo e em todas as culturas. O que significa que de um ponto vista sociológico, de um ponto de vista cultural, de um ponto de vista político, a prática desportiva em crianças e jovens e adultos tornou-se de facto viral. É algo que faz parte da vida, não só em termos de objetivos de saúde, em termos de objetivos pedagógicos, mas também do ponto de vista que é o treino de alto rendimento, o espectáculo desportivo, com todos os seus ingredientes de natureza emocional, de natureza psicológica, de natureza económica, de natureza antropológica. Diria que a prática desportiva faz parte do quotidiano dos portugueses e praticamente de todas as sociedades. O que é interessante aqui analisar é a questão de como a formação desportiva em crianças e jovens deve ser feita.

Pelos clubes ou pelos pais?

Necessariamente a questão da família, a questão do clube, do local onde pratica, que também pode ser na escola. Os pais têm um papel absolutamente fundamental na capacidade de guiar os seus próprios filhos nessa prática desportiva. Nos últimos anos têm vindo a ser feitos alguns estudos no sentido de demonstrar como o comportamento parental é uma variável muito importante neste processo. É claro que podemos discutir esta questão do ponto de vista das perceções que os adultos têm do que deve ser a vida dos filhos. Normalmente os pais têm uma tendência quase patológica de querer colocar nos filhos as frustrações do seu próprio processo de desenvolvimento desportivo e querem que os filhos sejam campeões a qualquer preço, e muitas vezes esquecem-se que eles são seres humanos em crescimento, que necessitam de aprender coisas fundamentais da vida, que necessitam de um acompanhamento escolar como deve ser… E tudo isso está integrado. Significa que há aqui perceções, crenças, valores e imaginários que é preciso compreender, quer do ponto de vista das crianças e jovens, quer do ponto de vista dos pais, quer do ponto de vista dos treinadores. Esta trilogia pais-treinadores-crianças… é absolutamente importante falar nisto hoje em dia. Há um assunto que considero da maior importância, que é, como é que se dá valorização à formação desportiva dos jovens do ponto de vista de criação de valores, de cidadania.

É preciso mais desportivismo e menos competitividade?

O desporto é uma atividade absolutamente fascinante para tornar as pessoas mais cidadãs, com mais humanismo, com mais socialização e com mais capacidade crítica e mais capacidade de perceber o mundo que as envolve. Portanto há aqui constragimentos sociais e políticos que muitas vezes são centrados numa preocupação excessiva de querer uma competitividade fora das características de desenvolvimento da criança e do jovem e por outro lado um sucesso muito rápido e a qualquer preço. Os campeões não se fazem à pressa. Tem que ser respeito o seu processo de desenvolvimento e têm que ser respeitadas as motivações intrínsecas das crianças. E há aqui algumas regras que são absolutamente fundamentais: é preciso ter tempo para crescer. Ainda recentemente, a Telma Monteiro, uma grande atleta olímpica portuguesa, dizia, porque começou a atividade desportiva de judo muito tarde, “deixem as crianças brincar”, e depois então fazer a atividade desportiva. E, de facto, é preciso que as crianças primeiro tenham uma vivência variada do seu próprio corpo, que tenham uma exploração diversa de vários tipos de atividades, que possam construir uma cultura motora básica e fundamental, que seja essencial depois para uma capacidade adaptativa a habilidades e atividades mais específicas mais tarde. Claro que isto varia muito de modalidade para modalidade desportiva, não podemos comparar a aprendizagem na ginástica aos jogos coletivos, são duas dinâmicas distintas. Mas é preciso que as crianças construam primeiro a sua própria identidade, brinquem muito na infância, consigam correr riscos, consigam fazer uma diversidade de atividades, de modo a ganharem essa cultura motora básica, que é o pré requisito para terem sucesso mais tarde, do ponto de vista de atletas.

Puxando o exemplo do futebol, atualmente fala-se muito da necessidade do futebol de rua no desenvolvimento de talentos, mas hoje em dia já não temos futebol na rua, praticamente. Como é que pomos uma criança na rua, a brincar, a subir às árvores?

Vivemos num tempo de grande sedentarismo e as crianças sofrem por isso. É um tempo de analfabetismo motor, porque elas não têm de facto uma literacia corporal adequada, porque o tempo de brincar na rua desapareceu, está em vias de extinção. As crianças hoje não têm tempo para brincar, explorar com os amigos a rua, não jogam à bola – porque uma coisa é jogar futebol, outra coisa é jogar à bola. É preciso dizer que há declínio enorme nas últimas décadas do ponto de vista de tempo e espaço para brincar. Para ter uma ideia, 70% das crianças em Portugal brincam menos de uma hora por dia. As crianças hoje têm menos tempo para brincar do que os prisioneiros nas prisões, que têm mais tempo de ócio fora das celas. Tempo, na infância, passou a ser um treino muito organizado, muito estruturado, muito limitado. Temos currículos escolares muito extensos e intensos, e a criança passa muito tempo sentada e quieta, sem mexer o corpo. É uma criança sedentária por princípio, devido ao facto de se terem criado agendas muito organizadas.

Mas a educação física na escola não tem sido permanentemente desvalorizada? Sim, de facto tem sido completamente desvalorizada. Mas penso que há, no entanto, boas notícias, deste ministério atual e deste governo atual, porque vai ser implementada a educação física no 1º ciclo com um professor coadjuvante que ajuda o professor titular e isso é uma boa medida. Está a ser feita neste momento uma reflexão sobre os objetivos da educação em Portugal e há 30 dias para discussão pública. É uma boa oportunidade. Também foi feita uma revisão das recomendações para o ensino pré-escolar que considero absolutamente fundamental: a motricidade, o movimento, o jogo, são coisas fundamentais nessas idades porque é aí que tudo começa, isto é, a atividade física começa mais cedo do que as pessoas julgam. Não se fazem campeões a partir dos 12, 13, 14 anos. Começa antes, mas é preciso perceber qual é a conceção que se deve trabalhar nas primeiras idades.

Não se deve trabalhar em especificidade, portanto. Primeiro deve haver uma diversidade de atividades, numa atitude lúdica, e mais tarde é que vem a especialização. Porque, repare, a criança tem direitos no desporto. A criança tem direito de expressar, em primeiro lugar, a sua individualidade. Isto é, o pai não pode impor. Quem decide? Esta é a pergunta. Os pais ou as crianças? O pai não pode impor a modalidade desportiva que o filho deve praticar, em função de alguma frustração ancestral. Não pode ser feito dessa forma. Depois as crianças devem ser tratadas como crianças e não como atletas. Deve ser respeitado o seu processo de desenvolvimento. Também devem participar de forma independente, isto é, quando fazem desporto deve ser respeitado o seu nível de habilidade e, obviamente, devem competir com os seus opositores mas em função de valores, daquilo a que se chama o fair play. Tem de haver fair play na formação desportiva, para não acontecer depois aquelas coisas desgraçadas e lamentáveis que acontecem no desporto dos adultos, ao mais alto nível. A criança deve poder decidir quais são as atividades que quer fazer. Conheço imensos jovens que começaram a fazer ginástica, depois foram para o atletismo, depois natação, depois ténis… e se calhar acabaram por ser grandes atletas no futebol, por exemplo.

Quem é muito bom numa modalidade normalmente também tem aptidão para outras modalidades. Exatamente. Há uma cultura motora eclética, uma cultura de rua intensa e uma apropriação de habilidades muito diversificada. Os atletas de alto nível brincaram muito na rua e foram felizes, não se fabricaram em laboratório. Há aqui muitas variáveis em jogo que têm a ver com o local onde vivem, onde crescem, a identidade do lugar… Os estudos biográficos demonstram que o sucesso desportivo ao mais alto nível está diretamente ligado à qualidade de vida que tiveram na infância e à estimulação diversificada que tiveram do ponto de vista motor e do ponto de vista social. Isso é perfeitamente claro. Há crianças que são talentosas e em termos dos clubes não se pode impor desde muito cedo uma prática muito especializada sem explorar primeiro as tendências que essa criança pode apresentar. E isto não é só no desporto, também é nas áreas artísticas.

Mas, às vezes, quando os treinos são mais lúdicos dão a sensação de desorganização e há pais que depois reclamam. Preferem ver filas e obediência.

Uma das maiores prioridades que deve haver é discutir este tema, que recentemente foi promovido pela Panathlon clube, em conjunto com o Comité Olímpico: o papel dos pais no desporto. De facto, é preciso fazer formação parental. É urgente que os clubes façam escolas de formação de pais. Os pais têm de perceber que os seus filhos não podem ter um sucesso a qualquer preço. Têm de respeitar os níveis de envolvimento, têm de respeitar os treinadores e as perspetivas de aprendizagem que eles têm. Os pais têm de compreender bem primeiro que tem de haver uma educação motora básica, um saber inicial fundamental no qual se suporta uma especialização, mais tarde. É um processo progressivo que tem de respeitar várias fases de desenvolvimento. A especialização desportiva deve obedecer a níveis de desenvolvimento e de aprendizagem, a etapas de ensino no processo desportivo. Por isso, as crianças devem ter uma aprendizagem muito lúdica numa primeira fase e depois então quando consolidam essas habilidades motoras específicas é que podem treinar num sentido mais exaustivo. Aliás, há um estudo que foi recentemente publicado pela academia americana de pediatria, em que é demontrado efetivamente que os benefícios de uma criança praticar desporto são enormes, quer do ponto de vista da capacidade de liderança, do prazer que têm em fazer desporto, da autoestima, da autoconfiança, da autoregulação, do sentido de equipa, da capacidade de aprendizagem de capacidades motoras mais complexas e da socialização em pares, que é uma questão fundamental nos tempos de hoje, as crianças têm de ter amigos. Mas também é verdade que se sabe que cerca de 70% destas crianças não chegam ao mais alto nível. Quer dizer que há aqui um fenómeno no meio que é preciso que os pais tenham consciência e a sociedade em geral tenha consciência, é que dos milhares de crianças que fazem prática desportiva organizada durante anos nem todos têm sucesso, nem todos podem chegar ao topo. Quer dizer que pelo caminho perdem-se imensos e esse é um fenómeno que devia ser mais estudado em Portugal e que não está efetivamente bem consciencializado, quer por treinadores, quer por pais, quer por dirigentes, quer por políticos, que é o abandono desportivo. Há muito abandono desportivo em Portugal, provocado por métodos de treino que não estão adequados, que desmotivam as crianças, e por pressões que muitas vezes existem de pais e treinadores para que as crianças tenham sucesso, e não têm.

Neste caso o sucesso entendido apenas e só como a vitória, correto?

Exatamente. Por outro lado, também se sabe que só 30% dos desportistas, uma percentagem muito baixa em Portugal, conseguem continuar os seus estudos nas escolas. O que significa que tem de haver aqui uma preocupação de haver coerência entre o processo desportivo e a escola, porque é fundamental que o cidadão tenha uma formação mínima. E muitas vezes sacrifica-se a formação escolar pela formação desportiva. Isto tem de ser bem pensado em Portugal. As crianças não podem ser vítimas de uma expetativa social e familiar de querer o sucesso a qualquer preço, fazendo disto um negócio em que todos tenham de ser Cristianos ou Messis.

Os piores pais são esses, que querem que os filhos, ainda crianças, sejam jogadores à força toda?

Exato. Como já disse, é preciso fazer a formação dos pais e a primeira mensagem que temos de transmitir é que é importante que a criança tenha uma formação escolar, que o sucesso desportivo não pode ser a qualquer preço, que tem de haver uma variedade de atividades físicas e desportivas numa primeira fase antes da especialização… É preciso que eles compreendam isso. Se você for ver aí, não só no futebol, mas noutras modalidades, quando os pais estão a observar treinos é inaceitável o que se passa, diria mesmo que é uma vergonha. É um atentado à dignidade social e cívica das crianças. Os nomes que os pais chamam, as ofensas que fazem aos treinadores, aos árbitros, aos próprios filhos… Isto não é aceitável em lado nenhum. Quer dizer que tem de haver uma dignificação no que é a formação desportiva, porque não se pode confundir o que é o desporto de alto nível com o que é o desporto de formação. E infelizmente em Portugal tem-se discutido muito pouco, tirando as universidades, que fazem investigação, o que é a formação desportiva de jovens. E não é só no futebol, é em todas as modalidades. Hoje em dia, em todo o mundo, estão em debate duas questões essenciais na formação desportiva: a seleção de talentos e a questão da especialização. Quanto à seleção de talentos, isso já está muito discutido e sabemos que é um fenómeno multifatorial, mas quanto à especialização tem de se saber de uma forma clara, de um ponto de vista cientifíco, que é necessária uma formação motora global, primeiro, e só depois a formação específica. Diria que há quatro fases na formação desportiva: a estimulação motora, que é brincar e adquirir um repertório motor genérico; uma fase em que se associam vários tipos de habilidades e a criança começa a ter uma capacidade de organizar tarefas motoras mais complexas; depois então uma escolha de atividades desportivas até chegar à fase de transição para uma especialização motora, que implica muito trabalho, persistência e resiliência. É preciso muitas horas de prática. Repare, para se ter sucesso desportivo não basta fazer meditação, não é?

É preciso treinar.

É preciso trabalho, muitas horas de prática. E essas horas de prática roubam muito tempo a outras coisas fundamentais na vida. Há muitos atletas que perderam a sua infância e a sua adolescência, e é preciso medir bem isto na balança do que se quer na vida. Os atletas que conseguem sucesso são verdadeiros heróis, porque muitas vezes investiram toda a sua infância e adolescência num objetivo, que é ganhar uma medalha. Mas há estudos muito críticos sobre isso. Uma medalha não vale a vida de uma criança, não é? Mas, enfim, o que interessa aqui é focar esta triangulação pais-jovem-escola. A política desportiva de formação tem de ter em atenção que as crianças e jovens têm direito ao seu desenvolvimento normal, como qualquer cidadão praticante de desporto, e que há que haver um balanço entre a prática desportiva e o tempo escolar.

Há tempo para tudo?

Em Portugal há muitas famílias que vivem um verdadeiro inferno a gerir a vida dos filhos entre o tempo escolar e o tempo de prática desportiva nos clubes, e é preciso suavizar isto. Diria, por exemplo, que é preciso não atirar as culpas todas para cima dos pais, porque de facto a forma como em Portugal se gere o tempo de vida é algo que é inconsistente do ponto de vista dos modelos de qualidade de vida das famílias que existem na comunidade europeia. Porque nós temos pais cansados, que trabalham demasiadas horas e que têm pouco tempo para os filhos. Há uma falta de harmonização entre o tempo de trabalho, o tempo passado na escola e o tempo passado na família, para além do tempo passado no clube. No meu prédio vejo crianças a chegarem a casa às onze da noite, vestidas a rigor dos treinos, e os pais completamente exaustos, e se calhar ainda vão fazer os trabalhos de casa e no outro dia às 7h da manhã já estão a sair de casa. Portanto isto atingiu uma dimensão patológica. É preciso suavizar isto e fazer uma prática desportiva humanista, com uma perspetiva de poder respeitar os direitos da criança no desporto mas também o direito à vida, ao prazer, a ter sucesso escolar. Veja-se o que acontece nas camadas jovens, nos infantis, nos iniciados, nos benjamins, com aquelas classificações todas que existem, em que as crianças já fazem uma competição como se fossem adultos. Acho inaceitável ver crianças a aprenderem a ser guarda-redes com quatro anos de idade, por exemplo. Isto é um disparate conceptual. Os modelos que existem de formação desportiva nos clubes têm de ser repensados. Têm de haver formação especializada para os dirigentes, para os pais, mas também para os treinadores, porque tem de ser perceber o que é uma criança e um jovem em desenvolvimento. Nós precisamos, com as federações, com as associações, com as próprias instituições do Estado – estou a falar do Instituto do Desporto…

Os cursos de treinador em Portugal foram remodelados há pouco tempo.

Sim, já houve coisas interessantes que foram feitas, mas ainda falta fazer muitas coisas. Porque depois temos no desporto um ciclo de influências muito complexo que vai desde a perspetiva dos media até à perspetiva do país em relação ao número de medalhas, ao número de atletas, ao sucesso. Mas nós não podemos ter medalhas fruto do acaso, como tem sido até aqui. Isto tem de ser visto como um sistema que tem de ser bem pensado, sob um ponto de vista de formação de base, de formação intermédia e de formação especializada. E depois há os pais que, como já disse, têm de ter formação.

Um “mau” pai será aquele que pergunta ao filho “ganhaste?” e um “bom” será o que pergunta “gostaste do jogo?”

Sim. Nós temos normalmente quatro tipos de comportamento parental. Temos os pais desinteressados, que têm algumas vantagens – eu sou desse tempo, o meu pai não sabia bem qual era a minha vida desportiva na escola e no clube -, depois temos os pais mal formados, que têm uma visão errónea do desporto e às vezes comportam-se de forma inaceitável de um ponto de vista verbal, não verbal, de pressão sobre as crianças, os treinadores e os árbitros. Depois temos os pais excitados, que se colocam excessivamente na vivência do desporto dos próprios filhos. E depois temos os pais fanáticos, aqueles que querem o sucesso a qualquer preço. Temos vários comportamentos. Há pais que são excessivamente críticos, muito exaltados, aquilo que chamamos de treinadores de bancada. Outros são super protetores e hoje o maior drama da sociedade é a super proteção. Esta super proteção não dá autonomia às crianças e aos jovens. São muito controlados. Isto acontece na escola e no clube. Nós temos hoje muitas crianças que até têm alguma aptidão motora mas depois são demasiadamente frágeis do ponto de vista emocional e cognitivo, porque são super protegidas. Os pais levam-nas aos treinos, vão lá buscá-las, observam tudo o que se passa, perguntam tudo o que acontece… A criança é uma vítima, de algum modo, e não tem autonomia. Para se ter sucesso desportivo é preciso ter-se autonomia, capacidade crítica, capacidade criativa e inovadora. Para se ser campeão tem de se ser também, de algum modo, caótico. Quero crianças e jovens ativos, impertinentes, que façam perguntas, que tenham motivação, que tenham objetivos. Quero crianças selvagens no desporto, porque são essas crianças selvagens que vão ser os verdadeiros campeões do futuro. Não podem ser totós. Nós hoje temos crianças que são rejeitadas pelo próprio sistema desportivo, porque não têm jeito, porque são gordinhas, etc. E isso é muito mau, porque é o reflexo de uma contradição que está a acontecer no desporto e na escola em Portugal, que é por um lado haver uma super proteção dos pais e ao mesmo tempo quererem que eles sejam génios. Esta super proteção é uma das maiores pragas que temos hoje na formação de crianças e jovens no mundo escolar e desportivo.

Quando os pais não os podem levar de carro, há jovens que dizem que não podem ir ao treino.

Que vão a pé. Neste momento o sucesso comanda o processo – e não pode ser. Tem de se respeitar outras coisas, como já disse. Uma formação correta e bem fundamentada do ponto de vista pedagógico, científico e técnico, daí ter de haver formação de treinadores, havendo também formação sistemática nas federações, associações e clubes, com estratégias bem delineadas do que deve ser o perfil de formação em todos os escalões e em todas as fases de desenvolvimento da criança. Ter muito atenção ao abandono desportivo, estudar as razões do abandono, se as crianças quiserem desistir têm esse direito, mas não se podem expulsar a qualquer preço as crianças que não têm jeito. A questão que se coloca da dispensa deixa algumas crianças traumatizadas para toda a vida pelo facto de terem criado uma expectativa que depois não se realiza e ninguém se preocupa com isso, só se preocupam em formar os talentos. Então e aqueles que desistem? É preciso repartir o tempo passado no clube e o tempo passado na família, porque as crianças têm direito a estar com os pais e a ter tempo livre. Em Portugal não houve coragem política até agora de fazer esta harmonização do tempo. Porque se você for a qualquer país nórdico vê que às 16h30 sai toda a gente e vão todos buscar os filhos à escola, todos têm tempo. Aqui, um indivíduo que trabalhe mais do que 12 horas se calhar é considerado um indivíduo altamente competente – e é tudo ao contrário. Não estão a ser respeitados os tempos de sono e de lazer, e está a sacrificar o tempo em benefício do trabalho. E quem paga isto são as crianças e os jovens, porque os pais não têm tempo para eles e eles não têm tempo para brincar. Nós fizemos aqui um estudo recente na FMH sobre a formação desportiva e o bullying, a violentação que acontece entre pares no clube. É uma amostra gigantesca de todas as partes do país, do sexo masculino, em várias modalidades, e verificámos que no contexto desportivo há de facto bullying e isso é muito preocupante. Isto acontece principalmente no balneário, onde não está ninguém e aí os treinadores e pais não têm acesso. Encontrámos 11,5% de agressores e 10% de vítimas, o que é elevadíssimo. E essas crianças dificilmente comunicam o bullying aos adultos. Estas crianças que sofrem bullying no clube mais cedo ou mais tarde abandonam. Fizemos também uma retrospetiva com atletas de alto nível para identificarem situações de bullying no seu processo desportivo. Temos neste momento um projeto com o IPDJ que é o cartão vermelho ao bullying e estamos a criar um projeto dirigido à formação desportiva com linhas condutoras para os treinadores, pais e dirigentes.

Se os clubes identificarem que a criança não está a ter sucesso escolar devem falar com os pais e castigá-la no âmbito desportivo?

Não tem de haver castigos. Acho que tem de haver coerência e diálogo entre os treinadores e os pais, na regulação e no acompanhamento que as crianças devem ter no ponto de vista do treino e no ponto de vista da escola. Não estou a falar das academias onde as crianças já ficam a dormir, com uma grande estrutura que dá apoio. Estou a falar de uma forma mais genérica. Os estudos internacionais mais recentes têm vindo a demonstrar que a tendência é desvalorizar a escola a favor do sucesso desportivo. E nós temos de resolver este assunto, porque a criança tem direito de ser um cidadão bem formado e não se pode dimunuir a a importância da sua formação escolar. Tal como comecei a dizer-lhe no início, o desporto é um fenómeno de grande envergadura atualmente, mas tem depois aspetos muito negativos.

Como por exemplo?

Não lhe posso contar casos concretos que conheço, mas há pais que sacrificaram toda a sua vida para que os filhos tivessem êxito. Mudaram de residência, mudaram de país, endividaram a sua própria vida e depois acabou tudo mal. Há também a situação absolutamente chocante de africanos que vêm para a Europa para fazer desporto de alto nível e que ficam abandonados nas ruas, esquecidos, porque não tiveram êxito. É uma verdadeira vergonha europeia. Até com crianças de sete, oito, nove anos já se fazem contratos porque se pensa que vão ser grandes talentos. E isso acontece um pouco por todo o mundo. O fenómeno tem um lado sagrado, mas também tem um lado perverso. Por exemplo, qual é o nível de participação das crianças na sua formação desportiva? É tudo imposto. Tal e qual como nas escolas, onde têm de estar sentadas, quietas e a ouvir professores cansados, velhos e chatos. O que é que elas gostariam de fazer no treino? Algumas vez os treinadores ouvem as crianças? Os pais ouvem os próprios filhos? A formação de crianças e jovens em Portugal é de uma visão autocrática e isto é mau, porque as crianças do século XXI mereciam outro respeito e um processo mais democrático. Haveria mais participação, um melhor ambiente, mais entreajuda… como acontece nos países que já o fazem de forma mais adequada, como o Canadá e alguns países nórdicos. As crianças não são atletas em miniatura. Eu posso fazer um campeão à martelada. Se repetir exaustivamente, eu chego lá. Só que ele não vai ser criativo, não se vai adaptar, vai morrer cedo. Se eu fizer um atleta inteligente, dinâmico, com capacidade adaptativa, esse é que vai ser um bom atleta, e quero na formação um modelo que forme estes atletas. O Cristiano Ronaldo é um caso exemplar. Vem de uma família pobre, vivenciou muito a sua infância na rua, foi para um clube, teve a sorte de ter uma boa condução no desporto, tem uma boa capacidade pessoal de trabalho parar ter sucesso. Não há milagres no desporto, é preciso muito trabalho. E para uma criança ter muita resiliência é preciso ter uma grande capacidade de autoregulação emocional, autoconfiança e autoestima. Hoje há muitos fatores a jogar contra as crianças, como já dissemos. Elas não têm tempo para ser selvagens. Para se ser um atleta de alto nível tem de se ser selvagem no decorrer da infância e da adolescência. Isto é um bocadinho agressivo, sei que é perigoso o que estou a dizer, mas eu não quero crianças totós no desporto. Quero crianças com uma grande vivência física e emocional, que sejam impertinentes e resolvam problemas. Crianças com energia. Não quero crianças obedientes. É como os meus alunos. Em 40 anos de aulas aprendi isso. Aquela criança que está quieta e em silêncio, à espera que eu a comande… isso não tem sentido. E no desporto começa a passar-se isso.

Mas é muito isso que se valoriza hoje em dia, a obediência e a quietude.

Está a acontecer uma espécie de fabricação de campeões em laboratório, o que é uma ilusão. Tem de haver um trabalho correto ao nível do clube, da escola, do desporto escolar, da educação física… Porque o trabalho no clube e no desporto escolar é para os que têm mais jeito, mas a educação física é para todos. Mas em todos estes casos há que respeitar as tais etapas de desenvolvimento das crianças e dar-lhes autonomia e liberdade de participação. Creio que o desporto em Portugal tem de ser repensado nesta perspetiva, tal e qual como a escola tem de ser repensada e até os clubes – ou seja, todos os locais onde se pratique desporto organizado e intencional. Não é só a escola que precisa de reforma, é necessária também uma reforma na formação desportiva em Portugal. Digo isto com toda a convicção. Dou aulas aqui na universidade e vejo como é que os meus alunos vêm dos clubes. Na formação desportiva o objetivo não é focarmo-nos no produto, marca, resultado, medalha. Temos de nos centrar na qualidade do processo de treino e de formação. Se não o que acontece é que as crianças sofrem e desistem, porque temos um modelo centrado na cabeça dos adultos, centrado em atingir o sucesso a qualquer preço. Mas, como disse, não se fazem campeões à pressa. Qual é a criança que não gosta de brincar? Qual é a criança que não gosta de explorar a sua envolvente? Qual é a criança que não gosta de ter amigos? Qual é a criança que não gosta de ter autonomia? Qual é a criança que não gosta de sair de lá feliz? Qual é a criança que não gosta de correr riscos? É que às vezes nos clubes está tudo sistematizado, tudo organizadinho, e não há nenhum risco a correr. Assim não se faz formação. Como é que vamos resolver isto? Tem de haver uma grande intervenção por parte da tutela, com políticas desportivas bem sistematizadas, no sentido de produzir documentos e informação. Temos de repensar a formação desportiva em Portugal e eu sei que o que estou a dizer vai ser muito criticado e vou levar muita pancada, mas eu digo: a formação desportiva em Portugal precisa de ser remodelada. Ainda ninguém em Portugal pensou como se faz a formação de pais. Os clubes devem ter regulamentos em relação aos comportamentos dos atletas mas também em relação aos pais. Há clubes no estrangeiro em que se os pais têm um comportamento inapropriado, a criança é expulsa do clube. Tal e qual como precisamos de uma reforma do sistema educativo para uma visão mais humanista, nós precisamos de uma revisão do sistema de formação desportiva numa perspetiva mais respeitadora dos direitos das crianças e dos jovens. Esta agora foi bem dita, não foi? [risos]

 

 

 

Investigador defende mais tempo em família do que na escola

Março 12, 2017 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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notícia do http://lifestyle.sapo.pt/ de 19 de fevereiro de 2017.

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O investigador Carlos Neto defendeu esta sexta-feira que as crianças já passam muito tempo na escola e que o importante é discutir um novo modelo de trabalho dos pais.

“As crianças já passam muito tempo na escola, ao contrário do que acontece noutros países europeus”, disse à agência o especialista, para quem o importante é discutir um novo modelo de organização social do tempo de trabalho dos pais, que reforce o tempo passado em família.

Para o catedrático da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa, os pais precisam de ter mais tempo para os filhos e as crianças precisam de mais espaço para brincar e estar em contacto com a natureza.

A posição surge a propósito da intenção do governo, inscrita na proposta de Orçamento do Estado, de alargar “a escola a tempo inteiro” a todo o ensino básico, ou seja, até ao 9.º ano.

“Os currículos hoje estão a ser demasiado rigorosos quanto ao número de horas exigidas pelo sistema de educação”, afirmou, defendendo que sobra “muito pouco tempo para criar um equilíbrio” entre o que é espontâneo e o que é organizado.

“Em muitos países onde estes estudos existem, os horários de trabalho têm mais alguma flexibilidade. Por exemplo, pode-se começar a trabalhar mais cedo e sair mais cedo, os pais às 16:00 saem e vão buscar os filhos à escola e têm mais tempo em família”, indicou.

O que está em causa, sublinhou, é “uma repartição do tempo entre a família e a escola”, é a criança ter mais espaço natural com os amigos, “poder correr mais riscos, ter mais autonomia, mais capacidade adaptativa”.

Segundo Carlos Neto, as crianças estão hoje sujeitas a um nível excessivo de “sedentarismo, analfabetismo físico e superproteção”.

As atividades extracurriculares, frisou, “não compensam o facto de não se subir a uma árvore ou a um muro, de andar de bicicleta ou de patins”.

Cair, escorregar, equilibrar-se, são atividades que “devem fazer parte da adaptação ao mundo”, sustentou: “As crianças têm hoje super agendas, é preciso suavizar isso”.

Neste sentido, o catedrático defende uma discussão em torno de uma nova organização social do tempo, que contemple o tempo escolar, laboral e familiar. “É preciso audácia política para fazer isto”.

A experiência de 40 anos de trabalho com crianças levou-o a concluir que o tempo de recreio é fundamental para a saúde mental e física da criança.

“As crianças e os jovens não têm margem para a descoberta livre, com experiências audazes, correndo riscos em função de situações imprevisíveis, por forma a ampliarem competências motoras, sociais e emocionais imprescindíveis à sobrevivência no futuro”, lamentou.

De acordo com Carlos Neto, existe um ambiente “excessivamente institucionalizado e um tempo disposto com atividades muito padronizadas”, que contraria a natureza ativa e as necessidades humanas de brincar e socializar livremente.

“As vivências de um corpo em ação permanente são fundamentais para uma infância feliz e empreendedora no futuro e, por isso, se não existirem têm repercussões colossais na construção do ser humano”, alertou o investigador.

artigo do parceiro: Nuno Noronha

 

 

 

Como era ser criança no século passado. E se brincava na rua e na lama

Março 7, 2017 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do http://observador.pt/ de 6 de março de 2017.

… enquanto outras testam as leis da gravidade numas escadas numa corridas de caixotes.

Marta Ferreira Leite

Não havia consolas a prender miúdos em casa, ninguém tinha medo da lama nem de partir um braço nos baloiços sem proteção. Do pião aos carrinhos de rolamentos, assim era brincar na rua há umas décadas.

Não havia computadores, consolas ou telemóveis que prendessem os miúdos ao ecrã na sala. Nem mesmo a rádio ou, mais recentemente, a televisão tinham o poder de combater um bom jogo de futebol com duas pedras a fazer de baliza e uma bola de trapos. Brincava-se no meio da lama sem medo de rasgar as calças nos joelhos (para quem não andava de calções e descalço), testava-se o limite da elasticidade com acrobacias no parque e as invenções mais engenhosas nos carrinhos de rolamentos. No século passado, ser criança era brincar na rua sem grandes receios do que acontecia lá fora.

A imaginação era a líder de todas as brincadeiras. Com os grupos de amigos da vizinhança, no intervalo na escola ou com os cães como melhores amigos, estivesse o calor mais abrasador ou a chuva miudinha, a diversão só acabava quando o Sol começava a por-se e as mães iam à janela chamar para jantar. E os miúdos chegavam a casa com a roupa numa desgraça e a cara cheia de terra como testemunhos de um dia bem passado na rua.

O Observador encontrou imagens de como era a infância, em Portugal e no estrangeiro, durante o século passado. Nenhuma tem data nem localização, mas permite fazer uma viagem para o recordar aquelas corridas em carrinhos de rolamentos, dos jogos de berlindes e dos baloiços improvisados. Veja 31 imagens desse tempo na fotogaleria.

fotogaleria:

http://observador.pt/2017/03/06/como-era-ser-crianca-no-seculo-passado-e-se-brincava-na-rua-e-na-lama/

 

 

 

Há quem ensine os pais e os filhos a brincarem para terem sucesso no futuro

Março 2, 2017 às 10:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.publico.pt/ de 23 de fevereiro de 2017.

pedro-cunha

Consórcio entre ministérios, fundações e universidades levam as brincadeiras a cinco distritos do pais. Os resultados são positivos, agora só falta saber como vai continuar.

Bárbara Wong

Durante dez meses, duas vezes por semana, em sessões de duas horas, os bebés e as suas mães (ou pais, avós, amas… houve mesmo uma bisavó) saíam de casa e iam aprender a brincar, a socializar, a estar com outros bebés (até aos quatro anos e que não tivessem tido experiência de creche ou de pré-escolar). A experiência foi feita ao longo de dois anos e os resultados não podiam ser mais positivos. Por isso, o objectivo é dar continuidade a este projecto, embora ainda não se saiba como.

Brincar, explorar o espaço – interior e exterior –, descobrir, interagir, conversar. O projecto chama-se Grupos Aprender, Brincar, Crescer (GABC) e não é uma novidade no mundo – são os chamados playgroups –, nem sequer em Portugal – a Associação A Par promove esta relação entre os pais e os bebés, em Lisboa, desde 2008. A novidade está no facto de estes grupos terem nascido de uma parceria dos ministérios da Educação e da Segurança Social, com as fundações Gulbenkian (FCG) e Bissaya Barreto (FBB), a Universidade de Coimbra e o ISCTE, assim como com o Alto Comissariado para as Migrações, num projecto financiado pela Comissão Europeia.

Os GABC foram testados no terreno, monitorizados, avaliados e, nesta quinta-feira, elogiados pelo secretário de Estado da Educação, João Costa, na Gulbenkian, em Lisboa, durante a abertura do encontro sobre Políticas públicas para a infância: o papel da família e das comunidades. Estes grupos permitem preparar os mais novos para, no futuro, terem sucesso.

“A vida começa aos zero”

João Costa lembrou que, embora o Ministério da Educação, tenha a seu cargo a educação de infância a partir dos três anos, há uma “aposta forte” nos anos que antecedem essa idade. “Entendemos que a vida começa aos zero, quando falamos de infância, falamos dos 0 aos 6 anos e tem de ser contínua a aposta”, declarou. Também Pedro Cunha, da Direcção-Geral da Educação (DGE), elogia esta iniciativa que se trata de uma “forma inovadora de responder às necessidades das famílias”, sobretudo das mais frágeis – uma vez que os GABC chegaram a bairros e a famílias desfavorecidas, com a ajuda do programa Escolhas.

Apesar de ter chegado a famílias com pais desempregados ou que recebem subsídios, estas foram as que tiveram mais dificuldade em aderir e em manter-se no projecto, notou Joana Alexandre, do ISCTE, responsável pela monitorização. “As famílias que vão mais são as que têm mais rendimento, foram essas que se auto-propuseram para participar. As que têm menos rendimento, que são referenciadas, que têm mais apoio, são as que se interessam menos. Mas é nessas que devemos apostar em termos de estratégias”, explica a investigadora, acrescentando que as monitoras do GABC tiveram formação especifica para captação dessas famílias.

O projecto revela que, no final, as crianças e os seus cuidadores (83% das participantes eram mães) têm mais competências para escolher as brincadeiras, que a qualidade do ambiente familiar aumenta, acrescenta Clara Barata, da Universidade de Coimbra, responsável pela avaliação do projecto.

A aposta agora é na continuidade. Quando o projecto terminou, as famílias nem queriam acreditar, conta Joana Freitas Luis, coordenadora nacional dos Gabc. A educadora de infância da FBB conta que na Gafanha da Nazaré – o projecto decorreu em cinco distritos (Aveiro, Coimbra, Lisboa, Porto e Setúbal) e abrangeu 228 famílias – uma mãe decidiu abrir a sua casa para dar continuidade ao grupo. A ideia sensibilizou de tal maneira o presidente da junta de freguesia que este disponibilizou um espaço para as famílias se encontrarem.

Para Pedro Cunha, a continuidade do projecto passa pela sociedade civil, por instituições particulares de solidariedade social, associações, juntas de freguesias. O desafio é as pessoas “inspirarem-se nesta resposta para romper com a ideia fatalista de que não há nada a fazer”, defende o dirigente da DGE. E chegar a grupos e etnias “mais vulneráveis”, defende o secretário de Estado. “Esta é uma meta fundamental: ver quais são os grupos a que ainda não chegámos”, acrescenta, lembrando a importância da inclusão até para, no futuro, apostar no sucesso escolar. “As crianças mais pequenas são as que estão mais abertas à inclusão, elas oferecem-nos instrumentos para aprender com elas”, concluiu o governante na cerimónia de abertura do encontro.

 

 

 

Uso de eletrônicos em excesso atrasa desenvolvimento infantil, diz Unicamp

Março 2, 2017 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do site http://g1.globo.com/ de 29 de setembro de 2016.

Vídeo da notícia aqui

globo

Estudo foi feito com crianças de 8 a 12 anos, na região de Campinas.

Pesquisadora se surpreendeu com o tempo gasto com os aparelhos.

Um estudo da Faculdade de Educação (FE) da Unicamp, em Campinas (SP), concluiu que as crianças que usam aparelhos eletrônicos sem controle e não brincam, ou brincam pouco, no “mundo real” podem ter atraso no desenvolvimento. A pesquisa foi realizada com meninos e meninas de 8 a 12 anos de idade, que ficam de quatro a seis horas diante das telas de computadores, tablets, celulares e videogames.

Para a pedagoga Ana Lúcia Pinto de Camargo Meneghel, que desenvolveu o estudo na FE durante o mestrado na linha de psicologia da educação, as crianças que se enquadram neste perfil acabam não brincando e nem tendo uma rotina, o que afeta no ritmo de construção do desenvolvimento cognitivo.

Ao todo, 21 meninos e meninas de uma escola particular na região de Campinas (SP) passaram por testes para avaliar as capacidades que eles precisam ter para, inclusive, aprender bem o conteúdo ensinado na escola. Para a surpresa da pesquisadora, de todas as crianças, apenas uma mostrou as habilidades esperadas para essa faixa.

“Apenas uma criança, de 12 anos, tinha construído as noções lógico-elementares, que seriam as noções matemáticas e a noção de espaço”, afirma a pesquisadora da Unicamp.

Brincar aumenta a criatividade

O uso de eletrônicos em si não é exatamente o problema, segundo a pesquisa, mas sim a falta de brincadeiras no “mundo real”.

“O mais importante é eles brincarem. Num parquinho, na piscina, na escola. Precisa oferecer para essas crianças atividades criativas. Atividades que eu vou buscar, que eu tenha curiosidade”. explica Ana Lúcia. [Veja exemplos no vídeo acima]

Moradora de uma chácara em Vinhedo (SP), Isabella Bracalente, de 9 anos, aproveita para subir em árvores e explorar brincadeiras, como andar de bicicleta, patins e pular corda.

“Eu acho que só ficar no tablet o dia inteiro, a gente não desenvolve a nossa criatividade. Por isso que eu gosto de brincar”, conta a menina.

Segundo a pesquisa, quando a criança brinca, faz uso das operações infralógicas, que garantem noção operatória de espaço, tempo e causalidade. Um exemplo é uma brincadeira simples de entrar debaixo de uma cadeira. A criança precisa viver a experiência para saber se cabe naquele espaço ou não.

Crianças foram entrevistadas

A pedagoga e pesquisadora Ana Lúcia conversou com as crianças e todas afirmaram ter pelo menos quatro aparelhos eletrônicos em casa. Sobre brincadeiras na rua, os meninos e meninas responderam que não brincavam porque os pais não deixavam, por ser perigoso.

Sobre a prática de atividades físicas, das 21 crianças avaliadas, 14 afirmaram que não praticavam nenhuma. As que disseram sim, afirmaram fazer natação, uma ou duas vezes na semana.

A pesquisadora percebeu em outros questionamentos, sobre o que as crianças fazem quando não estão na escola, que muitas não conseguem descrever suas rotinas.

Dificuldades para medir espaço

Entre os testes desempenhados, as crianças tiveram que montar uma torre com peças de madeira em uma mesa e depois outra no chão, com peças diferentes. A ideia é que construíssem torres de igual tamanho. Elas tiveram dificuldades para medir as duas.

Em outra prova, a pesquisadora avaliou a perspectiva. Com a ajuda de uma maquete de casas e fotos de diversos ângulos da maquete, muitas das crianças não conseguiram definir as posições das casas. Ana Lúcia concluiu que essas crianças ainda não tinham desenvolvido a noção de espaço.

E em atendimentos psicopedagógicos, verificou que as crianças sem oportunidade de brincar, explorar e que passam horas diante dos aparelhos eletrônicos, apresentaram dificuldade na hora de organizar os pensamentos. Foi difícil, por exemplo, montar contas matemáticas no papel com um número embaixo do outro.

 

 

 

 

O mais importante na vida de uma criança é ter com quem brincar, diz especialista

Janeiro 27, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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texto do site http://www.psicologiasdobrasil.com.br/de 9 de outubro de 2016.

capturar

Por: Larissa Roso

Foto de capa Edu Oliveira / Arte ZH

Luciano Lutereau, psicanalista e pesquisador da Universidade de Buenos Aires, afirma que as atuais opções de brinquedos e lazer dos pequenos não ajudam a desenvolver a capacidade de elaborar conflitos.

Doutor em Filosofia e Psicologia, o psicanalista argentino Luciano Lutereau, pesquisador e professor da Universidade de Buenos Aires, afirma que a melancolia sempre esteve associada à infância, mas reconhece que hoje essa condição se faz mais presente. O autor do livro O idioma das crianças lamenta que a brincadeira perca espaço para passatempos que são simples entretenimento, como videogames e outros atrativos tecnológicos, o que acarreta um prejuízo à capacidade de elaborar conflitos.

– As crianças estão mais expostas à melancolia já que não têm como reparar aquilo que as faz sofrer – explica Lutereau.

Os adultos têm enfrentado dificuldades para lidar com alguns sentimentos das crianças, como a tristeza, a raiva, a frustração?

Sem dúvida. Hoje nos encontramos com uma particular intolerância a respeito das emoções das crianças. Uma ideia própria da psicanálise, a de que a criança cresce através dos conflitos, é abandonada diante da expectativa de que ela sempre deve estar alegre. O imperativo do bem-estar, estendido à infância, leva o adulto a se assustar e a não saber como agir em situações normais, como as que demonstram a presença, na criança, de um sentimento de culpa inconsciente: por exemplo, as crianças são tachadas de instáveis ou impulsivas, quando esses estados expõem um traço particular do desejo infantil, o desejo de ser castigado. Um grande problema do nosso tempo é a intensa vigilância da infância em função de padrões adaptativos, como rendimento escolar, hábitos de higiene e costumes, e não baseada em seus próprios critérios de crescimento.

Em um artigo sobre a melancolia infantil, você escreveu que “começamos a temer o tédio como o mais urgente de todos os males e, no caso das crianças, nos preocupa muito mais que tenham algo para fazer do que pensar na plenitude do que fazem”. Pode falar um pouco mais sobre isso?

Hoje em dia, parece muito mais importante ter uma vida exitosa do que uma vida autêntica. Dito de outra maneira, a sociedade contemporânea se baseia no efeito e não tanto no sentido. Desde muito cedo, as crianças são incluídas em práticas que ocupam o seu tempo, sem que isso implique uma “temporalização”. Quando o tempo não está “ocupado”, elas se sentem vazias e se aborrecem. Pedem para ser estimuladas. Inclusive os pais planejam suas viagens de férias considerando lugares que tenham recreação para seus filhos. Na tradição ocidental, o tédio e o aborrecimento não representaram apenas um tempo perdido, mas também uma passagem para a lucidez e a criação. A sociedade contemporânea, baseada na agilidade, esquece que o homem é a projeção no mundo da sua capacidade de invenção, e isso se reflete na infância como uma perda crescente da experiência lúdica. A brincadeira, antes de ser uma atividade, é uma ação que a criança inventa repetidas vezes. A brincadeira é o modo como a criança se inclui em um tempo próprio, e não uma temporalidade objetiva que prejudica o seu desenvolvimento.

Que tipo de mensagem o intenso consumismo de nossa época pode estar transmitindo às crianças?

O consumismo não tem mensagem, é uma ordem vazia de acumulação, de posse e descarte. O principal problema da atitude consumista é quando não se vincula apenas a objetos, mas também a pessoas. Desde pequena, a criança pode se acostumar a tratar os outros como descartáveis e as relações humanas como recicláveis e sem profundidade. O capitalismo atual é muito diferente daquele que se seguiu à Revolução Industrial. A sociedade pós-moderna não é utilitária, mas cínica, e este cinismo pode atingir as crianças se não levarmos em conta o importante papel da educação. Por exemplo, alguém poderia dizer a uma criança que ela não deve roubar porque pode ser presa, e isso não é mais do que um conselho prático. Na realidade, o fundamental é ensinar que ela não deve roubar porque assim prejudicará alguém. À moral de conveniência de nosso tempo, é preciso voltar a se opor uma ética da lei.

Por que a tristeza da criança é diferente da tristeza do adulto?

Porque nas crianças a possibilidade de perda é muito mais angustiante. Um adulto já está preparado para fazer uma relação entre o que se perde e o que permanece, através do luto, mas a criança costuma dramatizar essas perdas como absolutas. Além disso, a perda na infância pode acarretar um intenso sentimento de culpa – a criança acredita que fez algo errado ou foi má. A maneira como os adultos devem lidar com a tristeza das crianças é no sentido de reduzir o sentimento de culpa, permitindo que a brincadeira seja uma via de exploração das fantasias que as afligem. Esse território intermediário oferecido pela ficção, entre o interno e o objetivo, permite que a criança veja que seus temores não são tão intensos e que, além disso, são passageiros. E também que ela pode compartilhá-los com o outro sem ter medo de represálias. O mais importante na vida de uma criança é ter  com quem brincar.

FONTE Zero Hora

 

 

 

 

 

WORKSHOP | Vamos Brincar? “Perspectivando o Brincar através dos Touchpoints” | 10 e 11 de Fevereiro

Janeiro 24, 2017 às 8:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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mais informações:

http://fundacaobgp.com/pt/formacao-workshop-vamos-brincar

“As crianças têm de ter liberdade para não fazer nada”

Janeiro 12, 2017 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista do http://expresso.sapo.pt/ a Álvaro Bilbao no dia 8 de outubro de 2016.

expresso

Álvaro Bilbao é neuropsicólogo e pai de três filhos. Em Portugal para falar do seu livro, explica como conhecer melhor o cérebro pode ajudar-nos a educar melhor

Katya Delimbeuf

Álvaro Bilbao, 40 anos, é doutorado em Psicologia da Saúde pela Universidade de Deusto, em Bilbau. Já colaborou com a Organização Mundial de Saúde e trabalha no Centro Estatal de Referência de Atenção ao Dano Cerebral – mas costuma dizer que o seu maior currículo são os três filhos, de 6, 4 e 3 anos. O seu livro, “O Cérebro das crianças explicado aos Pais” (editora Planeta), já chegou às livrarias do nosso país.

Porque é importante conhecer o cérebro para educar melhor?

Porque este oferece-nos muitas estratégias e ferramentas que nos ajudam. Explica-nos como aprende o cérebro da criança, as suas necessidades de desenvolvimento e que ferramentas devem usar os pais na ordem que os filhos precisam. O cérebro do adulto aprende através da linguagem e da razão. O das crianças aprende essencialmente através do jogo e do carinho.

E através do exemplo, não?

Também. As crianças aprendem muito através da observação dos adultos. Se queres ter um filho feliz mas passas o dia aborrecido e frustrado, ele vai imitar essa forma de lidar com os problemas. O nosso exemplo é muito importante. Acontece o mesmo com os smartphones e iPads. Podemos pôr-lhes regras, mas se nós próprios andarmos com o telemóvel atrás o dia todo, eles vão fazer o mesmo.

O que lhe ensinaram os seus filhos?

Ensinaram-me que uma coisa é a teoria e outra é a prática. A teoria ajuda-nos muito a melhorar a prática, mas a prática não sai sempre como queremos. Ensinaram-me também uma coisa muito importante, que não vem nos manuais: a importância do carinho, de lhes dar beijos. A minha mulher ajudou-me muito, porque vem de uma família muito afetuosa, com poucos limites, muito hippie, e eu venho de uma família muito conservadora e tradicional. Juntos, encontrámos uma forma equilibrada de educar. Mas uma das coisas fundamentais para educar é errar – para os teus filhos verem que também te enganas e que é normal não fazer tudo bem. Também é muito importante estarmos em contacto com a nossa criança interior. Estar com crianças põe-nos em contacto com aquela parte de nós que esquecemos em adultos – a capacidade de brincar, de sonhar, de sentir afeto.

Brincar é fundamental?

Sim. O jogo livre é fulcral. O momento em que se apaga a televisão é mágico. É incrível o que os miúdos inventam quando os pais não lhes dizem o que fazer. Isso ajuda imenso a desenvolver a imaginação.

Defende que, até aos 6 anos, as crianças não devem ter contacto com a tecnologia. Isso é possível nos dias que correm?

Até aos 3 anos não devem contactar com tecnologia, absolutamente. Em minha casa não há tablets e os miúdos não usam os telemóveis. Este verão, perguntei ao mais velho o que achava de lhe comprarmos um tablet. Respondeu: ‘Talvez seja melhor esperar mais um pouco. Gosto muito de brincar com legos, de desenhar e não quero deixar de gostar’. Não comprámos.

Mas os limites são igualmente essenciais, não?

Absolutamente. Os limites ajudam as crianças a saber o que não devem fazer. A não bater nos irmãos, a respeitar os mais velhos, a não desobedecer, a não gritar… Há pais que, sabendo da importância dos afetos, não dão limites. Não está certo.

O “não” é a palavra mais importante na educação de uma criança?

Enquanto palavra, talvez seja. Mas o mais importante não está nas palavras – são os abraços, os beijos, o carinho. Afetos e limites são igualmente importantes. Ao dizermos ‘não’, estamos a ensinar-lhes o autocontrolo, a disciplina, a capacidade de controlar a frustração.

O que podemos fazer para lidar com as terríveis birras?

Entre os 2 e os 3 anos, não há nada que se possa fazer. Têm que fazê-las e pronto. Mas há três coisas que podem ajudar e três outras que podem piorar a situação – e a maioria dos pais costuma fazer estas últimas. A primeira que não devemos fazer é zangarmo-nos com as crianças ou ficarmos nervosos. A segunda é envergonhá-las, comparando-as; e a terceira é tentar agarrá-las pela força. Pelo contrário, aquilo que pode ajudar é empatizar com elas, mostrar-lhes que percebemos o que sentem; dar afeto, abraçá-las; e ajudá-las a serem flexíveis, oferecendo-lhes uma alternativa (por exemplo: adiar aquele ato para outro dia).

Alguma vez bateu num filho?

Nunca. Castiguei-os duas vezes, mas nunca através do castigo físico. Está demonstradíssimo que o castigo físico não é bom. Ensina à criança a perda de controlo, a agressividade. Humilha-a, põe-na triste. O castigo físico não pode ser uma forma de educar. Educamos melhor quando não batemos. Já me aconteceu pedir ajuda aos meus filhos, para não gritar com eles.

Há rotinas imprescindíveis em vossa casa?

Somos mais flexíveis em termos de horários e mais ritualistas em relação a certas coisas. Jantamos sempre em família – e se eu não tiver fome, sento-me com eles. Lê-se sempre uma história antes de dormir. Dormem pelas 21h30. Somos bastante flexíveis. Para nós, os afetos são mais importantes do que a ordem.

Não estaremos a passar demasiado stress às crianças, com horários para tudo?

O cérebro não percebe as horas, percebe as sequências. É importante que as crianças e os pais aprendam a ter flexibilidade. As regras são importantes, mas não é preciso ter síndromas de perfecionismo. Para a criança, também é duro ter de fazer tudo perfeito. Atualmente, sabemos que o maiores problemas das crianças se devem ao stress. O déficit de atenção, a obesidade infantil, problemas de comportamento, derivam daí. Isso deriva de querermos que as crianças tenham muitas atividades, façam muitas coisas, que cheguem a horas a todo o lado… E nós também queremos fazer tudo de forma perfeita. A exigência e o perfecionismo da nossa sociedade são tremendos. Em minha casa, tentamos ter manhãs sem stress. Tentamos fazer tudo com antecedência, levo os meus filhos à escola mais perto de casa.

A avaliação, a preocupação excessiva com as notas, não são também um sintoma de obsessão da nossa sociedade?

Sim. O mais importante é que as crianças se apaixonem pela aprendizagem, mais do que por terem boas notas. A maior prenda que podemos dar aos nossos filhos é incutir-lhes o gosto por aprender. Os melhores alunos são miúdos que gostam de aprender.

Fazer depressa não é fazer bem

Como se pode tentar passar o gosto por saborear em vez de consumir?

A primeira coisa que podemos tentar é não consumirmos nós próprios, no dia-a-dia. Não consumir tecnologia, ócio. Não temos que fazer 25 coisas ao fim de semana, podemos simplesmente passar o fim de semana sem fazer NADA. Estar em casa, brincar, dar um passeio. Quando consumimos muito, damos impressão à criança de que tudo acontece muito depressa, de que tem de estar sempre ocupada, sempre feliz. Das primeiras coisas a fazer é dar à criança a liberdade e a confiança para não ter de fazer nada. Depois, é importante não dar demasiada importância ao resultado. Podemos jogar a passar a bola, sem ser a marcar golos.

A nossa sociedade vive cheia de pressa?

Sim. Vivemos num modelo que diz que fazer depressa é fazer melhor. Não é verdade. Um tomate biológico é melhor que um tomate de estufa. Se se for maduro aos 7 anos, em que idade se vai ser imaturo? É muito importante respeitar os ritmos das crianças.

O que mais o fascina no cruzamento da neurologia com a pedagogia?

facto de tudo encaixar. Tudo faz sentido quando juntas a neurologia (que explica como aprende o cérebro), a pedagogia (que explica como aprendemos) e a psicologia (que nos explica o que fazemos e sentimos). As memórias afetivas, por exemplo, são as mais antigas. Situam-se na parte do “cérebro emocional”. Podemos esquecer quem é uma pessoa, mas não esquecemos que nos sentimos bem ao pé dela. Um filho nunca vai esquecer uma bofetada. Mesmo que isso não seja consciente.

 

 

 

 

Quando o brinquedo favorito de uma criança é um pneu velho

Dezembro 23, 2016 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do http://observador.pt/ de 17 de dezembro de 2016.

O brinquedo desta criança do Burkina Faso é um pneu velho

O brinquedo desta criança do Burkina Faso é um pneu velho

Um projeto promovido pela Gapminder Foundation revela alguns dos brinquedos favoritos de crianças em vários pontos do mundo. Há pneus velhos, embalagens de plástico e bonecas desfeitas.

São imagens que fazem pensar, sobretudo numa altura como o Natal. A Gapminder Foundation, uma organização não governamental sem fins lucrativos, especializada em análise estatística e que se propõe a promover o desenvolvimento global sustentável, lançou um projeto onde, entre outros aspetos, revela os hábitos de consumo de várias famílias em muitos pontos do globo, desde o tipo de casa em que vivem até às camas onde adultos e crianças dormem. Mas há outros detalhes impressionantes: no Burkina Faso, por exemplo, existem crianças cujos brinquedos favoritos são antigas embalagens de plástico ou simplesmente um velho pneu de camião.

O projeto da Gapminder Foundation, batizado como Dollar Street, mereceu o destaque do Business Insider, que acrescenta alguns dados relevantes, como o facto de 15% das pessoas em todo mundo viverem em casas cujo rendimento mensal médio por adulto é de apenas 39 dólares, cerca de 37 euros.

Em declarações à Business Insider, Anna Rosling Rönnlund, co-fundadora da Gapminder, explicou que, além de querer chamar atenção para as desigualdades gritantes entre a riqueza disponível nos vários países, o objetivo deste projeto é também tornar o “mundo menos assustador”, aproximando as pessoas.

Uma das possibilidades que o Dollar Street oferece é precisamente a de conhecer a história de famílias do Haiti, da Ucrânia ou do Camboja e provar que, independentemente da região onde vivamos, muitos dos desafios que enfrentamos diariamente são os mesmos. “É impressionante ver quão semelhantes são as nossas vidas”, notou Anna Rosling Rönnlund.

 

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