A brincar? No caminho para o sucesso não há lugares sentados

Julho 12, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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UP to Kids

Texto e imagem do site Up to Kids

By Ana Fonseca

“E ele fica apenas a brincar?”

“Mas o que é que ele faz entre a escola e a hora do jantar? Não achas que tem demasiado tempo livre?”

“Mas Ana, tem de entender que temos de lhe ocupar estas horas vagas. Se não ele não consegue aprender a utilizar o tempo de uma forma útil”

“Mas está a sugerir o quê, que o deixemos apenas a brincar?”

Sim, de facto estou a sugerir que as crianças devem ficar um tempo bastante alargado “apenas” a brincar. De preferência em espaços abertos. De preferência em espaços naturais. De preferência com outras crianças que não sejam necessariamente colegas. De preferência sem a interferência dos adultos.

No caminho para o sucesso não há lugares sentados

Numa sociedade cada vez mais acelerada e mais competitiva, é normal que sintamos que todos os nossos segundos acordados sejam no sentido de produzir alguma coisa. Quantas vezes chegamos a cortar nas horas de sono e de descanso para mais uma horinha no escritório?  Ou mais uns minutos para acabar aquele relatório. Parece que o sentar, só por sentar já não existe sem alguma culpa por não estarmos a ser “produtivos” para o nosso caminho de “sucesso”.

Neste caminho, resolvemos também levar as nossas crianças.

Muitas crianças têm um horário tão ou mais preenchido que os adultos. Começam as aulas muito cedo. Têm um dia repleto de aprendizagens, de absorção de conhecimento que muitas vezes continua para as AEC e outras atividades de enriquecimento curricular. Depois os ATL, centros de explicações e afins. E quantas vezes seguem para desportos, músicas, atividades de expressão, entre outras

A oferta é tanta, que muitas vezes o próprio fim-de-semana é sacrificado, perdendo-se tempo em família em prol das tais atividades.

“Ah, ele está nos escuteiros, porque tem de desenvolver as capacidades sociais”

“Está no xadrez para desenvolver o raciocínio”

“Está na música e no violino para desenvolver a motricidade fina e o ritmo. Também ouvi dizer que era muito importante para a leitura”

“Não quisemos abdicar da vela, para melhorar a concentração e a motricidade global”

Estas, entre tantas outras justificações para a sobrecarga horária das nossas crianças. Estas e a minha preferida do:

“Antes isto, do que ficar apenas a brincar”.

Actividades extra-curriculares ou tempo para ficar a brincar?

A verdade é que existe hoje em dia uma oferta extremamente abrangente de atividades infantis e uma quantidade de informação que chega a sobrecarregar os pais na hora da tomada de decisões. As atividades extracurriculares, em certa medida, são de extrema importância para o desenvolvimento de diversas capacidades. Mas o brincar livre, ao ar livre e em ambientes naturais de preferência sem a interferência permanente de um adulto é também muito importante. Há que haver um equilibrio, como em tudo na vida.

Tanto nas atividades extracurriculares, como em grande parte do dia da criança, está sempre um adulto presente. Salvo raras excepções, nós adultos temos a tendência de orientar a criança para o que consideramos ser mais importante para o seu desenvolvimento. Para resolvermos as dificuldades imediatas do seu quotidiano. Para interferir nos pequenos conflitos entre crianças que possam aparecer. Ao fazermos isto estamos a tirar à criança a sua capacidade de decisão, de autonomia e de desenvolvimento então das suas capacidades sociais.

Que competências se desenvolvem a brincar?

O brincar não é “apenas brincar”. É o palco de diversas de aquisições de extrema importância no desenvolvimento psicomotor, académico e sócio-emocional. Ao colocarmos a criança ao ar livre, e sobretudo em ambientes naturais, a criança tem a hipótese de ter uma estimulação multisensorial. Isto vai permitir-lhe fazer uma generalização do mundo que a rodeia.

Mais do que isso, vai perceber a existência das flores, árvores, solos e vários animais que a rodeiam. Esta descoberta é essencial para a construção da sua curiosidade, espírito crítico e noção ecológica.

Por outro lado, sendo uma brincadeira livre, poderá subir às árvores, correr, saltar e realizar outras ações motoras. Estas ajudarão no desenvolvimento do equilíbrio, noção de corpo, estruturação espacial, avaliação de risco, resolução de problemas, entre outros. Estes factores serão necessários mais tarde para as aquisições académicas.

Sociabilizar desde criança

Se a esta brincadeira livre se associar o estar com outras crianças, a criança tem a oportunidade de inventar jogos e brincadeiras de grupo, fomentando a criatividade, o raciocínio na construção de regras, o trabalho em equipa, o ceder e perceber o lado do outro.

Se existirem conflitos, como é tão comum na infância, ao estarem livres as crianças terão a oportunidade de, sozinhas, encontrar o melhor caminho para resolver a situação. Todas estas aquisições são essenciais para o desenvolvimento da empatia, uma capacidade tão falada hoje em dia.

Desta forma, estando num parque, num recreio, num jardim, as crianças desenvolvem ao seu tempo, no seu ritmo e em conjunto, grande parte das competências que atribuímos a necessárias de serem desenvolvidas de forma estruturada e fechada.

Brincar é a preparação para a aprendizagem

Vários estudos já nos mostraram que o brincar e as várias fases do brincar são na realidade a preparação para aprendizagens mais permanentes e necessárias em outros períodos de vida, pelo que tirar mérito ao brincar é no fundo desvalorizar a infância e a sua importância.

Como dissemos, realmente existe um grande interesse em atividades extracurriculares. Claro que a presença adulta é sempre necessária na vigilância das nossas crianças. Mas tudo isso não tira mérito ao jogo e ao brincar. E acima de tudo, à agência da criança como construtura do seu próprio desenvolvimento.

Filhos sobrecarregados, pais stressados – e brincar é tão importante

Julho 5, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia e imagem do Notícias Magazine de 18 de junho de 2019.

Alicia Banderas, psicóloga e escritora espanhola, lembra que as brincadeiras com os filhos são um importante veículo na educação dos valores que realmente importam. Mas os pais continuam mais focados no sucesso e na competição. Para que os filhos sejam super filhos. Sejam brilhantes.

Os filhos têm de ser os melhores, os mais talentosos. Brilhantes. Todos os dias, em qualquer competição. E os dias ficam demasiado pequenos quando se encaixam atividades atrás de atividades extracurriculares. Quase não há tempo para respirar. Os pais andam stressados, os filhos com horários sobrecarregados. Os pais querem o melhor para os filhos. Os filhos ficam ansiosos para corresponder às expectativas. É uma roda-viva, uma lufa-lufa.

Alicia Banderas, numa conversa reproduzida pelo jornal espanhol El País, avisa que é preciso respeitar o ritmo de aprendizagem dos mais pequenos. “Temos crianças de dois anos em Chinês, Inglês, natação, estimulação musical”, refere. Um constante e frenético para a frente e para trás. E brincar? Brincar é essencial. Porque se aprende a brincar. E ao brincar. “O que a criança precisa? Jogo livre. Ou seja, sabemos que o conhecimento é gerado de dentro para fora.”

Olhar nos olhos dos filhos e perguntar o que querem jogar, como querem brincar. É o primeiro passo. Brincar estimula a criatividade, desenvolve o aparelho psicomotor. Aproxima pais e filhos. É também uma forma de respeitar a infância. É não deixar um brinquedo no fundo da gaveta ano após ano. Brincar é também educar. É escutar, é envolver. É interiorizar princípios. Incutir valores. Brincar torna-se, sustenta a psicóloga, uma “maneira maravilhosa de partilhar sem forçar, sem palestras.”

Há que saber equilibrar as brincadeiras com a parafernália tecnológica. Mas há situações a evitar. A Academia Americana de Pediatria desencoraja o uso de ecrãs nos dois primeiros anos de vida, uma vez que, dessa forma, as crianças são submetidas a um estímulo frenético que pode favorecer a desatenção e a dificuldade de concentração.

Há ainda outra questão. Se há o costume de “saciar o prazer através de um ecrã”, cada vez mais é necessário “um maior número de estímulos que, às vezes, podem ser prejudiciais.” E as crianças ficam expostas “a estímulos de uma forma muito prolongada e depois perderão o interesse pelas atividades da natureza, que ocorrem a um ritmo muito mais lento”.

Brincar é preciso. Brincar sem abafar o espírito criativo e inato que os mais pequenos têm dentro de si. “Brincar é o ambiente mais seguro para testar e construir o que se deseja fazer.” Uma criança criativa será capaz de pensar em soluções alternativas para os problemas. Dentro das suas próprias brincadeiras.

“Quando brincamos com os nossos filhos, somos a melhor versão de nós mesmos,” diz a psicóloga que trabalha com crianças e adolescentes em projetos de educação há mais de duas décadas. O tempo passa, há mudanças sociais e os pais continuam a dizer que querem, em primeiro lugar, que os filhos sejam felizes. Mas nota-se a vontade que os filhos sejam brilhantes, que tenham maiores habilidades, muito sucesso. Que sejam super filhos.

O cérebro não é uma esponja
E mesmo uma esponja atinge o seu limite de capacidade. O mesmo acontecerá no cérebro dos mais novos. Alicia Banderas refere que um cérebro não é propriamente uma esponja. “O que são ou o que chamo de crianças super-estimuladas? São aquelas crianças submetidas à estimulação excessiva, mesmo antes dos seus cérebros estarem preparados. E, no final, o que geramos nelas é um bloqueio e stresse nas suas aprendizagens.” Convém, então, não pensar que um cérebro consegue absorver tudo e fazer os devidos enquadramentos.

Mais uma vez, a questão das atividades extracurriculares. Dos cérebros que sugam tudo. Muitas vezes, são os pais que decidem o que os filhos devem aprender. E a desmotivação acontece. Perceber o que gostam, o que os motiva, os seus gostos, é fundamental. “Como aprendemos melhor? Através de emoções positivas: alegria, satisfação, autorrealização”. “Devemos cuidar do cérebro das crianças porque podemos magoá-lo”, avisa a psicóloga e escritora espanhola.

Vídeo da participação de Ana Lourenço do IAC no programa da RTP1 “A Nossa Tarde”

Junho 28, 2019 às 2:00 pm | Publicado em O IAC na comunicação social, Vídeos | Deixe um comentário
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A Drª Ana Lourenço do Sector da Actividade Lúdica do Instituto de Apoio à Criança, participou no programa da RTP1 “A Nossa Tarde” do dia 26 de junho. O tema da sua participação foi “Como brincam as nossas criança?”.

Visualizar o vídeo no link:

https://www.rtp.pt/play/p5720/e415088/a-nossa-tarde/753919

 

“Poderíamos prevenir doenças se durante a infância tivéssemos tempo com os nossos pais”

Junho 19, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Expresso de 27 de março de 2019.

Marta Gonçalves

Conte o tempo que passa todos os dias com o seu filho. Conte os minutos em que está com ele e não está a despachá-lo para ir para a escola, a dar-lhe o jantar ou a prepará-lo para a cama. Conte quando está mesmo com ele. Quanto tempo tempo brinca diariamente com o seu filho?

Estar não é estar presente. Estar presente é muito mais do que estar apenas ali. Estar com um filho é ter tempo para brincar. E é também a importância destas horas que estão na base da Greenspan Floortime, uma abordagem desenvolvida no final dos anos 70 do século passado pelo psicólogo infantil norte-americano Stanley Greenspan.

Este modelo tem sido aplicado em crianças com perturbação do espectro do autismo. Falámos com Jake Greenspan que é, além de filho do fundador da abordagem, um dos responsáveis pelo centro de desenvolvimento Greenspan Floortime, em Washington, nos EUA. Esta quinta-feira, está em Coimbra para um workshop.

Qual é a génese desta abordagem?
O meu pai foi um dos primeiros médicos a defender que logo no nascimento as crianças têm emoções. E que são também estas primeiras experiências emocionais que influenciam a forma como estamos no mundo: aquilo que nos assusta e o que nos entusiasma, o que gostamos e o que detestamos. Até essa altura – estávamos no final da década de 70 – acreditava-se que só por volta dos três ou quatro anos é que as nossas emoções e traumas se desenvolviam. Na realidade, lembramo-nos de todas as experiências anteriores, que ficam gravadas ao nível neurológico. É mais ou menos assim que começa a desenvolver a sua teoria: a Greenspan Floortime. Acreditava que passamos por seis fases desenvolvimento e que as emoções são a força propulsora da vida. Por exemplo, não desenvolvemos a linguagem e o pensamento apenas por uma razão cronológica, mas sim porque as nossas experiências emocionais nos levam a explorar e a aprender, tal como também nos podem reprimir. Defendia que ao controlarmos o ambiente a que a criança é exposta e ensinando os pais a interagirem com os filhos de uma forma mais carinhosa e positiva se pode “religar” o cérebro. Quando há uma predisposição para um atraso na fala ou um défice social, isso pode significar que aquela parte do cérebro não está a funcionar tão bem como as restantes e, aumentando a quantidade de experiências emocionais significativas, pode “religar-se” essa parte do cérebro. E é a isso que chamamos a Floortime: em que os pais, filhos e terapeutas passam mais tempo no chão a conhecerem-se e em que os adultos ouvem mais vezes as crianças.

Porque são tão importantes as emoções?
Sabemos que o cérebro organiza as informações principalmente de duas formas. Por exemplo, quando olhamos para uma cor e vemos que é azul, essa é a primeira forma. Depois, sendo consciente ou não, fazemos logo a distinção se gostamos ou dessa cor. Essa é uma distinção emocional e a segunda forma. Todos guardamos um ficheiro emocional associado a cada experiência. É por isso que aquilo que gostamos procuramos fazer mais vezes, enquanto tentamos evitar o que não gostamos – sobretudo as crianças. Se passarmos um bom bocado a conversar, jogar ou a olhar para alguém vamos querer voltar a fazê-lo. No entanto, se for uma má experiência, não queremos repetir. As emoções são uma das partes mais importantes da forma como o cérebro funciona.

E de que forma a Greenspan Floortime é útil para uma criança com perturbação do espectro do autismo?
Isso depende de cada criança. Diria que a abordagem é tão boa quanto o tempo que lhe dedicarmos e nos EUA temos muitas famílias que, em casa, não dedicam o suficiente, acabando por desistir. Por outro lado, as famílias que seguem o programa tal como se fosse um plano de medicação têm resultados. Algumas crianças – e não estou de todo a dizer que isto é uma cura para o autismo – foram tiradas da categoria da perturbação do espectro do autismo. Ou seja, inicialmente, foram avaliadas por um médico que diagnosticou a perturbação do espectro do autismo e agora, depois da nossa abordagem, foram reavaliadas e já não se enquadram nos critérios. Claro que não tenho a certeza de que o diagnóstico foi desde logo bem feito, mas o que é certo é que já não apresentam os sintomas que apresentavam. Outras crianças têm tido progressos mais pequenos, depende sempre da capacidade de cumprimento do plano e do perfil biológico de cada criança.

Na prática, o que é que é feito?
Existe um laço biológico entre pais e filhos, essa relação deve ser parte do programa. Alguns estudos defendem que o cérebro da criança fica mais ativo com a voz dos pais do que com a voz de um estranho. As partes do cérebro que estão mais ativas são os centros emocionais, comunicacionais e sociais. E, por definição, o autismo é um atraso ou uma dificuldade em comunicar e relacionar-se com os outros, ou seja, no desenvolvimento das capacidades socioemocionais. Portanto, quem melhor que os pais para estimular essas partes do cérebro? Ao mesmo tempo, os pais não podem fazer tudo sozinhos e também precisam de orientação. O ideal é ter o acompanhamento de pelo menos um profissional que entenda a abordagem.

Que tipo de exercícios fazem?
Não há exercícios específicos. A ideia do Floortime é que devemos seguir as crianças para ativarmos o seu cérebro, a criança tem de ser um participante ativo e a única forma de garantir que participa é fazendo as coisas que ela quer fazer: se gosta de camiões, usamos camiões; se gosta de correr, corremos com ela; se gosta de andar as voltas, ajudamos a dar voltas. É baseado nos interesses de cada um, não nas idades.

Qual o tempo necessário até se verem resultados?
O único estudo alguma vez feito sobre a quantidade de tempo a que a criança deve estar exposta a esta abordagem concluiu que para conseguir uma mudança neurológica significativa, o mínimo de tempo são 20 horas por semana, ou seja, uma média de três ou quatro horas diárias.

Quais as melhorias ou mudanças registadas?
Cada uma das crianças com que lidamos torna-se mais ligada, feliz e em sintonia com as pessoas que se preocupam com ela. Torna-se mais amável e ama mais. Basicamente, constroem-se relações. Depois, melhora a sua comunicação e não estamos, necessariamente, a falar da linguagem. A forma como todas as crianças comunicam antes de desenvolverem a linguagem é com o corpo: sorriem, choram, apontam, acenam, puxam, empurram… E, na maioria das crianças com autismo, ninguém retrocede para trabalhar com elas primeiro a linguagem corporal e só depois a linguagem.

Acredita que esta abordagem deve ser combinada com outras terapias?
Não, mas apenas porque o que queremos realmente é que esta abordagem seja usada pelo terapeuta da fala, pelo terapeuta ocupacional, pelo professor de educação especial… todos devem usar a abordagem. Não é combinada com nada, é usada dentro de cada uma dessas sessões.

Pelo menos em Portugal, a Greenspan Floortime não é uma abordagem amplamente conhecida. Como espera que isto seja recebido?
O melhor que guardo da experiência no estrangeiro é a dinâmica familiar que não há nos EUA. É muito mais próxima e as famílias gostam de estar mais tempo juntas. Isso é fundamental para desenvolver esta abordagem com sucesso. Infelizmente, nos EUA é o contrário e estamos a ir contra a norma cultural ao dizermos aos pais para passarem tempo com os filhos. Aqui, os pais já passam tempo com os filhos, estamos apenas a ensinar estratégias para conseguir extrair resultados disso. Sei que em Portugal ainda não é uma abordagem muito difundida, embora creio que existem duas ou três clínicas que a aplicam.

Posso concluir da nossa conversa que, independentemente de as crianças terem ou não uma perturbação do espectro do autismo, acredita que é essencial os pais terem tempo para brincar com os filhos?
Correto. Estudos recentes defendem os benefícios de cada um dos pais estar pelo menos 30 minutos diários com os filhos. E a nossa abordagem defende o mesmo, apenas dez vezes mais tempo que esse [risos]. Cada criança precisa do tempo e da atenção dos pais e os 30 minutos por dia são o mínimo dos mínimos. Sinceramente, acho que poderíamos prevenir determinadas doenças no futuro se durante a nossa infância tivéssemos tempo com os nossos pais. Funciona assim como uma espécie de medicamento em antecipação. Talvez não resultasse em algumas crianças, mas pelo menos estaríamos a começar a intervenção mais cedo. Este é o nosso objetivo: que as todas as famílias percebam a importância de brincar com as crianças. E, se existir um factor biológico que provoque algum tipo de atraso no desenvolvimento, então intensificamos consoante a necessidade de cada uma delas.

Carlos Neto: “A brincadeira pode ser a resposta para a maioria dos males”

Junho 6, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Shutterstock

Notícia e imagem do site Delas de 25 de fevereiro de 2018.

Carlos Neto, Investigador da Faculdade de Motricidade Humana, em Lisboa, explica por que razão é brincar é a melhor prescrição para um desenvolvimento saudável das crianças. Até porque não queremos adultos infantis, doentes e com falta de iniciativa.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) já considera a obesidade infantil uma epidemia e um problema de saúde pública. Segundo dados desta entidade do ano passado, existem no mundo cerca de 200 milhões de crianças com excesso de peso e a Diabetes tipo 2 afeta faixas etárias cada vez mais jovens.

As principais causas? A má alimentação e a falta de exercício. 90% das crianças portuguesas consome fast food e 57% das que moram perto da escola deslocam-se de carro. Aliás, em 2014, Portugal era dos países da Europa que tinha mais crianças obesas (5%), logo atrás da Grécia (6,5%), Macedónia (5,8%), Eslovénia (5,5%) e Croácia (5,1%) de acordo com a OMS. Por outro lado, há cada vez mais petizes diagnosticados o síndrome de Défice de Atenção e Hiperatividade.

O que estará a acontecer? São os miúdos sedentários ou elétricos ao ponto de quem os rodeia entrar em parafuso Pode ser só falta de brincadeira e de uma alimentação mais equilibrada. Quem o afirma é Carlos Neto, Professor da Faculdade de Motricidade da Universidade de Lisboa, que trabalha com os mais jovens há cerca de cinco décadas: “Estamos a criar uma geração de crianças doentes, afastadas da sua fisicalidade, da realidade e que dificilmente serão adultos empreendedores”.

O Delas.pt falou com o especialista e procurou saber que medidas podem e devem os pais e a sociedade tomar para tornar as nossas crianças mais saudáveis, expeditas, interventivas, ativas e equilibradas, pelo menos no que diz respeito aos tempos livres. A escola, como veremos, terá um papel fundamental. Porque para Carlos Neto, de entre todos os segredos pedagógicos, “a brincadeira e o tempo a ela consagrado é fundamental. Pode ser a resposta para a maioria dos males”.

Há uma frase sua que li há algum tempo e me marcou: “Passeamos mais os cães do que as crianças…”

(Risos) Não será tanto assim, mas de facto neste país quem tem um cão leva-o a passear e a brincar pelo menos duas vezes por dia, faça chuva ou sol. O mesmo já não acontece com as crianças. Basta estar um pouco mais frio que coitadinhas, correm o risco de apanhar uma constipação! Ficam em casa agarradas às consolas – não é que tenha algo contra as novas tecnologias – e não se mexem durante horas, não interagem, não brincam uns com outros e nem desenvolvem competências sociais…

Brincar parece uma palavra um pouco perdida no léxico contemporâneo.

Sim, a partir do momento em que vão para a escola, as crianças perdem o tempo que tinham para brincar. Os intervalos são curtos, por vezes de apenas 15 minutos para quase 5 horas de estudo na sala de aula, quando nem um adulto trabalha tanto tempo seguido. E todos os estudos apontam para que as crianças ativas tenham mais capacidade de aprendizagem de concentração, além de, a longo prazo, maior probabilidade de terem sucesso.

Então é altura de rever a importância da brincadeira e da duração e qualidade dos intervalos escolares?

Claro. Brincar permite adquirir instrumentos fundamentais para a resolução de problemas, tomada de decisões e permite também e desenvolvimento de uma capacidade percetiva em relação ao espaço físico e em relação aos outros. Além de que muitos estudos evidenciam que, quanto mais tempo a criança tem de atividade lúdica e física no recreio, maior capacidade de concentração tem na sala de aula. Já para não dizer que manter o corpo ativo é uma forma de combater o flagelo dos nossos tempos que é o sedentarismo.

Que contribui para doenças tão graves como a obesidade e até a Diabetes tipo 2?

Para não falar nas questões psicológicas. Há uns tempos eu defendia que as crianças saudáveis eram aquelas que tinham os joelhos esfolados. Hoje penso que elas têm é a cabeça esfolada.

Porquê?

Porque brincar não é só manipular brinquedos, é estar em confronto com a natureza, com o risco, com o imprevisível e com a aventura. E uma criança que não o faz, dificilmente no futuro assumirá riscos, enfrentará adversidades com segurança…

A falta da brincadeira não as torna menos sensíveis aos riscos? Recordo-me que quando era pequena não nos atirávamos a um poço, muito menos se não soubéssemos nadar. Tínhamos noção do risco…

Exato. As crianças aprendem através de situações inesperadas. Ainda há pouco num jardim assisti a duas situações distintas: um pai lia o jornal descansado enquanto o filho trepava uma árvore, descia, subia e às vezes caía. O outro estava sempre a controlar o pequeno e a dizer-lhe “não faças isto, cuidado com aquilo…”. Ora o miúdo nem conseguiu descer…

O que se vai refletir no futuro.

Estamos a criar totós, dependentes, inseguros e sem qualquer cultura motora. Vemos crianças de 3 anos que, ao fim de dez minutos de brincadeira dizem que estão cansadas, outras de 5 e 6 anos que não sabem saltar ao pé-coxinho. Já as de 7 não sabem saltar à corda e algumas de 8 anos não conseguem atar os sapatos. É o que chamo de iliteracia motora.

Estamos a falar de sedentarismo, ileteracia motora, mas então porque se discute tanto a hiperatividade?

Na realidade, os currículos hoje estão a ser demasiado exigentes quanto ao número de horas em que as crianças têm de estar sentadas. Devemos ter um plano para tornar a sala de aula mais ativa. Já estamos a preparar, com o Ministério da Educação, programas alternativos que passam, por exemplo, pela colocação distinta das mesas escolares de forma a tornar a aula mais ativa. É inaceitável que 220 mil crianças estejam medicadas em Portugal. Temos crianças de 8 anos que não sabem atar os sapatos…

Esta super proteção não será consequência da baixa de natalidade? Se só temos um filho há que o preservar… Já os nossos avós tinham 5, 7 ou mais…

Talvez. Mas é sobretudo cultural. Sabemos que famílias com poucas crianças são mais protetoras, mas de forma geral todas as crianças têm poucas oportunidades para desenvolver a sua identidade territorial. Instalaram-se medos nas cabeças dos adultos. Medos das crianças serem autónomas. Há uma relação muito direta entre risco e segurança. Quanto mais risco, mais segurança e quanto mais risco, menos acidentes.

Devemos, então, ser pais mais duros?

Sim e não. Todos os estudos têm vindo a demonstrar que na infância, até aos 10/12 anos de idade, é absolutamente essencial brincar para desenvolver a capacidade adaptativa. E hoje não é isso que estamos a fazer. Estamos a dar tudo pronto, tudo feito, e não a confrontar as crianças com problemas que elas têm de resolver. Sejam eles com a natureza; sejam eles com os outros. Os pais necessitam desenvolver empatia com os filhos, mostrar autoridade, mas fazê-las sentirem-se seguras.

O risco tem de ser um ritual de passagem, então?

Claro. A ciência demonstra que, no ciclo da vida humana, o pico maior, onde há mais dispêndio de energia, é entre os cinco e os oito anos. Temos de ter muito respeito por isso. Não podemos confundir tudo e achar que essas energias são anormais. São naturais e por isso temos de olhar para elas como naturais e não patológicas e medicá-las.

Então qual deverá deverá ser o papel dos pais?

Na verdade, existe muito pouca harmonização do tempo de família. E é preciso perceber que as crianças não devem brincar apenas entre elas; precisam de tempo para experimentar e brincar com os pais também. Assim sentem-se mais seguras.

Mas os pais podem pensar: o meu filho anda no ténis, e no futebol e na natação, pratica muito desporto…

Isso não resolve nada. Uma boa alimentação e o exercício físico apenas resolvem o problema da iliteracia motora ou o excesso de gordura.

Os nossos horários não facilitam. Em algumas empresas o último a sair é o primeiro a ser promovido.

Pois, tem que haver coragem política para mudar este estado de coisas. Em países como a Holanda ou a Austrália entra-se no trabalho às 8h e sai-se às 16. Os pais vão buscar os miúdos de bicicleta e depois brincam no parque ou em casa.

Cá encaminham-se os pequenos para os ATL ou similares…

É por isso que digo que a escola tem de ajudar, proporcionar a brincadeira enquanto a sociedade como um todo não mudar. Neste momento, com a rua em vias de extinção, os recreios são a única alternativa que as crianças têm. E os ATL não têm que ser necessariamente negativos. Só não se pode pedir que essas horas sejam passadas a fazer os trabalhos de casa. E então os jogos, o teatro, a dança, a música?

Não será outro tipo de sobrecarga, tantas atividades extracurriculares?

Não, desde que sejam encaradas de forma lúdica e não como complemento à formação escolar, do género “o meu filho vai ser o melhor violinista, a minha filha a melhor bailarina…” Há que reorganizar as escolas, os recreios e as atividades extracurriculares.

Além de brincar, não é importante o espaço para a contemplação? Ver as nuvens a passar, os rios a correr, os pingos da chuva a cair?

Olhe nunca tinha pensado nisso, mas as palavras são como as cerejas. E, pensando, bem, é a dinâmica da sobrevivência. Tão importante quanto a ação. O tempo para refletir e usufruir, estarmos connosco e com o mundo…

Sara Raquel Silva

 

 

Da falta de tempo para brincar ao excesso de tecnologia, os inimigos da infância

Junho 5, 2019 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia da TSF de 20 de maio de 2019.

Rita Costa

A psicóloga clínica Catarina Lucas identifica alguns dos fatores que estão a impedir que as crianças vivam uma infância mais saudável.

“Temos vários, temos a falta de socialização, a falta do estar com as outras crianças, temos um excesso de tecnologia e de horas de isolamento”, começa por dizer Catarina Lucas. Para a psicóloga, estar ligado ao mundo através da internet é uma forma de isolamento.

Mas os inimigos da infância não se ficam por aqui. “Temos os pais que trabalham muitas horas e têm pouco tempo para eles, temos a falta de brincar na rua com outros amigos e tudo isto são inimigos das crianças”, afirma Catarina Lucas.

Além disso, a psicóloga aponta a exigência académica como outro elemento de pressão na vida das crianças. “Temos que ser os melhores, temos que ter boas notas e também temos que ter uma série de outras habilidades, seja artísticas, seja desportivas. Estamos a colocar toda esta exigência e pressão nas crianças e estamos a tirar-lhes o direito a brincar.”

Ouvir as declarações de Catarina Lucas no link:

https://www.tsf.pt/portugal/sociedade/interior/da-falta-de-tempo-para-brincar-ao-excesso-de-tecnologia-os-inimigos-da-infancia-10919805.html?fbclid=IwAR2GIbJF2eWF2UO28T_mdQuMOx6K9iFB2tQAe_Od82FkfxR9M-rAt6EkT0c

 

 

Famílias que brincam em conjunto são mais saudáveis e felizes

Junho 3, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Lifestyle Sapo de 18 de dezembro de 2019.

Fazer jogos e rir em família reduz a ansiedade, reforça a intimidade e desenvolve competências sociais. As incríveis virtudes das brincadeiras entre pais, filhos e irmãos.

Partilhar os tempos livres torna as famílias mais felizes, mais próximas e menos ansiosas, indica um estudo realizado pela Lego, que garante que há uma relação direta entre as horas que pais e filhos passam a jogar juntos e a felicidade que dizem sentir.

A investigação da marca de brinquedos indica que nove em cada dez famílias (88%) que costumam brincar juntas asseguram ser felizes. Esta percentagem diminui significativamente (75%) em famílias que não o fazem, segundo o El País.

Apesar disso, mais de um terço das famílias (38%) não consegue arranjar um furo na agenda para se sentar com os mais novos, ou seja, têm problemas em priorizar o tempo de divertimento devido a horários, tanto de pais como de filhos.

“A brincadeira é uma boa maneira de promover o vínculo, melhorar a comunicação e a autoestima das crianças. É um momento em que os pais e as crianças deixam os problemas e as preocupações de lado”, afirma Silvia Álava, especialista do centro de psicologia Álava Reyes e autora do livro Queremos filhos felizes.

A felicidade e o reforço da cumplicidade não são os únicos benefícios de brincar ou jogar em família. O processo de aprendizagem também tem muito a ganhar: os mais novos aprendem a divertir-se e, pelo meio, desenvolvem habilidades sociais. Ganham uma tolerância saudável à frustração, melhoraram a capacidade de comunicar, de sentir empatia e respeito, aperfeiçoam a capacidade de análise e reflexão, e melhoram a concentração, como afirma Pepe Pedraz, fundador da Funnynnovation Academy, de Madrid.

“Tudo isto é feito de uma forma simples e natural”, explica Álava. “Por exemplo: quando escolhem o jogo à vez aprendem a ceder; quando seguem as regras, aprendem a obedecer. Também trabalham a capacidade de sair derrotados –por isso não é bom deixá-los ganhar sempre, pois na vida por vezes ganha-se e noutras perde-se. De caminho, os miúdos ainda aprendem valores como a coexistência, respeito e gratidão.”

Atenção: pais e mães também aprendem. E muito. Especialmente a conhecer os filhos: que gostos têm, que tipo de jogos preferem, se lhes custa relacionar-se com outras crianças, se preferem jogos de agilidade e manipulação ou de estratégia e concorrência, salienta Pepe Pedraz.

Silvia Álava defende a ideia de tentar jogar/brincar todos os dias, se possível, mesmo que seja por pouco tempo. “Embora tenha de ser realista (não é viável jogar todos os dias Monopólio ou Ludo, que demoram muito tempo), é aconselhável dedicar 10 minutos de brincadeiras com elevada intensidade emocional. Fazer cócegas, por exemplo, não leva muito tempo.”

 

 

Brincar faz assim tanta diferença? Os benefícios estudados pela ciência

Junho 1, 2019 às 7:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia e imagem do i de 30 de abril de 2019.

Marta F. Reis

Um artigo publicado em 2018 na revista “Pediatrics” fez uma revisão dos efeitos demonstrados ao longo das últimas décadas, também em animais.

Uma função superior mas não só 

“Embora a brincadeira esteja presente numa grande faixa de espécies, de invertebrados (como o polvo, lagarto, tartaruga e abelha) a mamíferos (ratos, macacos e humanos), a brincadeira social é mais proeminente em animais com um grande neocórtex” [área mais desenvolvida no Homo sapiens], lê-se no artigo “The Power of Play”. Brincar dá competências vitais para a sobrevivência, mas há indícios de que os animais brincam mesmo em situações que os deixam em risco.

As primeiras brincadeiras no berço 

Cucu? “O bebé humano nasce imaturo em comparação com outras espécies, com o desenvolvimento do cérebro a acontecer após o nascimento. Os bebés são totalmente dependentes dos pais para regular os ritmos de sono-vigília, alimentação e muitas interações sociais. Brincar facilita a progressão da dependência para a independência e da regulação para a autorregulação. Esta evolução começa nos primeiros três meses de vida”, dizem os autores.

Mudanças vísiveis no cérebro 

O artigo assinala que muitos estudos têm sido feitos em animais, não sendo possível extrapolar as conclusões para o ser humano. Ainda assim, os trabalhos com animais como ratinhos dão pistas. Crias privadas de brincar revelam, mais tarde, menos eficiência e comportamentos mais imaturos. “Ratos criados em gaiolas cheias de brinquedos tinham cérebros maiores, córtex mais espesso e completavam labirintos mais rapidamente”, exemplificam os autores.

Os benefícios para a saúde… e académicos 

O exercício físico associado a muitas brincadeiras não só previne o excesso de peso como tem vantagens para o sistema imunitário, endócrino e cardiovascular, mas também na prevenção de doenças como a depressão. Os autores, da Academia Americana de Pediatria, citam ainda trabalhos que sugerem que as crianças prestam mais atenção às aulas depois de um recreio de brincadeiras livres do que por exemplo de atividades de educação física, mais estruturadas.

Um cérebro pró-social

O artigo faz referência ao livro Affective Neuroscience, de Jaak Panjsepp (1998), para sublinhar que vários estudos com animais sugerem que a função de brincar é construir um cérebro pró-social capaz de interagir com outros de forma efetiva. O autor estudou as bases neurológicas das emoções em animais e sugeriu também que a privação de brincadeira estará ligada a casos de síndrome de défice de atenção e hiperatividade.

Menos stress?

É mais uma pista de estudos com animais. “Doses elevadas de brincadeira estão associadas a níveis baixos de cortisol, o que sugere que brincar reduz o stresse ou que animais sem stresse brincam mais”, lê-se no artigo. Um estudo com crianças de três e quatro anos ansiosas com a ida para a escola estudou o efeito de 15 minutos de brincadeira em comparação com ouvir a professora a ler uma história. O grupo que brincou tinha níveis de ansiedade mais baixos.

Aprender a negociar

“Brincar com colegas geralmente envolve a resolução de problemas sobre as regras do jogo, o que requer negociação e cooperação. Através destes encontros, as crianças aprendem a usar uma linguagem mais sofisticada”, escrevem os autores.

O faz de conta

A análise cita estudos que sugerem que brincar com brinquedos tradicionais está ligado a um vocabulário maior e com mais qualidade do que brincar sobretudo com brinquedos eletrónicos. Também aponta vantagens às brincadeiras de faz de conta: “Encorajam a autorregulação uma vez que as crianças têm de colaborar no ambiente imaginário, concordar em fingir e conformar-se aos papéis, o que melhora a sua capacidade de raciocinar sobre acontecimentos hipotéticos”.

O estudo citado na notícia é o seguinte:

The Power of Play: A Pediatric Role in Enhancing Development in Young Children

Portugal a Brincar : Relatório do brincar de crianças portuguesas até aos 10 anos – 2018

Maio 30, 2019 às 8:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Descarregar o relatório no link:

https://estrelaseouricos.sapo.pt/backoffice/files/file_20677_1_1556883880.pdf

Reportagem sobre a 1ª Conferência Estrelas & Ouriços : As crianças portuguesas brincam pouco

Maio 30, 2019 às 8:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia e imagem do site Estrelas & Ouriços

O encontro estava marcado para as 9.30h, em Cascais, para debater um tema essencial e transversal ao desenvolvimento – como brincam hoje as crianças portuguesas e em que adultos se tornarão amanhã. O painel de oradores foi de luxo, pelo domínio do tema, pela entrega e pelo sentimento comum da urgência de brincar por uma sociedade mais bem sucedida. As conclusões são preocupantes: as crianças brincam em média (apenas) 2 a 3 horas por dia, a maior parte do tempo na escola, pouco ao ar livre e ainda menos com os pais.

“Esta primeira conferência da Estrelas & Ouriços é uma homenagem a todas as crianças”. Assim abriu o evento – que reuniu pais, professores, profissionais de serviços educativos, psicólogos e especialistas das diferentes áreas ligadas ao universo da família e da criança – na Casa das Histórias Paula Rego, em Cascais, pelo diretor-geral executivo da revista, Francisco Camacho. Estava dado o pontapé de saída para um “jogo” cheio de lances fortes e de propostas com potencial vencedor.

Foi o caso de Frederico Manuel Pinho de Almeida – vereador da Câmara Municipal de Cascais com os pelouros da Habitação e Desenvolvimento Social, Promoção de Saúde e Educação – que, depois de se congratular com o facto de a conferência ter aberto o Mês do Brincar em Cascais, partilhou as práticas que a Câmara Municipal de Cascais tem vindo a implementar neste âmbito, nomeadamente o Programa “Crescer a Tempo Inteiro” bem como o alargamento da rede de Ludobibliotecas e Ludotecas (16 e 5 equipamentos respetivamente).

Da prática ao estudo, Rui Mendes, coordenador do “Portugal a Brincar: Relatório do brincar de crianças portuguesas até aos 10 anos – 2018” apresentou este estudo que serviu de ponto de partida para a conferência. O professor da Escola Superior de Educação de Coimbra partilhou o palco com Ana Lourenço, psicóloga do setor de atividade lúdica do Instituto de Apoio à Criança, Madalena Nunes Diogo, diretora geral da Estrelas & Ouriços e Dulce Garcia – a jornalista, autora, editora e mãe brindou o público com uma moderação de debates que oscilou entre provocações saudáveis e interpelações pertinentes para passar a palavra aos oradores.

Brincar: quando, onde, com quem?

Quanto tempo brincam as crianças portuguesas? Onde brincam? Com quem brincam? Como brincam as crianças na Escola? Qual o papel dos brinquedos? Brincar e as tecnologias. Brincadeiras e jogos tradicionais. Estas são as bases do referido estudo – realizado numa parceria entre a Escola Superior de Educação de Coimbra, o Instituto de Apoio à Criança e a Estrelas & Ouriços – que procura não só dar a conhecer quais as tendências relacionadas com o brincar em Portugal, mas também sensibilizar a população para a importância do brincar e da promoção de hábitos de brincar.

Já em 2011 o Parlamento Europeu havia proposto algumas estratégias para que o brincar seja mais valorizado e para que, tanto as crianças como os adultos, possam usufruir ao máximo dos seus benefícios. Assim, esta organização sugere que se promova não só a consciência sobre a importância do brincar, mas que haja também uma mudança de atitudes face a esta atividade. Propõe-se a melhoria nos tempos e espaços que possam promover a brincadeira e a criação de condições para que as crianças arrisquem de forma segura e desenvolvam a sua resiliência.

Com base em inquéritos a cerca de 1.500 pessoas, com 39 anos de média de idades e maioritariamente do sexo feminino (92,6%), o estudo retirou algumas conclusões preocupantes, duas das quais: as crianças brincam pouco – a média é de 2 a 3 horas (25%) por dia – nomeadamente ao ar livre, em contacto com a Natureza, concentrando-se o maior tempo de brincadeira na escola.

Foi neste ponto que Ana Lourenço, do Instituto de Apoio à Criança reforçou a necessidade que sente de voltar ao brincar da infância dos que hoje são pais – o sucesso para uma criança é estar com o outro, brincando. E assim se trabalha a empatia, tão cara à nossa Sociedade.

“A brincadeira não é só necessária como vital”, lembrou Madalena Nunes Diogo, referindo a forma como os parceiros têm acompanhando esta necessidade, indo ao encontro das famílias, com atividades tão diversas que vão da robótica à pintura, e que respeitam disponibilidades físicas, mentais e económicas destas mesmas famílias, a quem a Estrelas & Ouriços há 10 anos serve e facilita a vida, divulgando diferentes tipologias de atividades.

Aquando da reestruturação da revista, em outubro de 2019, a Estrelas & Ouriços teve inclusive a preocupação de dar mais visibilidade à sua secção “Parques e Ar Livre”, depois de auscultar os pareceres, os gostos e as necessidades do público para quem trabalha.

Dos grandes aos pequenos oradores, Beatriz, de 9 anos, João, de 7, e Madalena, de 6, foram unânimes a responder à questão da preferência de brincar ao ar livre. Brincar às escondidas, jogar à bola e brincar com bonecas foram algumas das brincadeiras apontadas pelas crianças presentes na sala.

Famílias, escolas e cidades portuguesas pouco ativas

Carlos Neto foi das primeiras vozes a chamar a atenção dos portugueses para a extrema importância do brincar e para os seus efeitos benéficos no desenvolvimento das crianças. Professor Catedrático na Faculdade de Motricidade Humana (FMH) da Universidade de Lisboa, continua, algumas décadas depois desses primeiros alertas, a ser a figura de referência em Portugal quando se fala de brincar.

Foi da sua boca que ouvimos que tanto as famílias como as escolas e as cidades portuguesas não são ativas, o que contribui diretamente para que as crianças sejam pouco ativas e mais destinadas ao insucesso.

A maioria dos pais, segundo o especialista, não valoriza a parte física do brincar, referindo mesmo que “para os pais, o que entra na escola é só a cabeça e não o corpo todo”. São estes mesmos pais que trabalham demasiadas horas e que não têm tempo para os filhos, embora o desejem – 37 minutos é o tempo diário que lhes sobra; são estes pais que têm medo que as crianças se confrontem com o risco; pais cansados, que dificilmente conseguirão educar crianças saudáveis e felizes, “situação deveras preocupante”.

O que fazer? Apelar ao papel do Estado central e do Estado local para que possa dar maior liberdade aos pais, fomentar uma relação de maior amor entre pais e filhos, fomentar a importância de brincar na rua (nos países nórdicos, independentemente do clima, as crianças brincam 7 a 8 horas lá fora) e evitar “encharcar” as crianças de brinquedos, nomeadamente para colmatar a falta de tempo com presentes.

Em suma, para Carlos Neto, brincar mais significa desenvolver no futuro: maior sentido crítico e uma maior capacidade de resolver problemas, de trabalhar em equipa e de comunicar; melhores competências espirituais e melhores dinâmicas de agir.

É preciso, na opinião do professor e investigador: viver mais devagar, ter tempo para não fazer nada, trabalhar a introspeção, a consciência de si próprio e da Natureza, a dinâmica de superação de forma a que a saúde mental dos adultos possa passar para as crianças a quem deve ser dado todo o tempo e espaço para brincar, “dinâmica biológica” que estamos a encaminhar para uma crise.

Quando a tecnologia se senta à mesa

A abrir a segunda mesa redonda, Rosário Carmona e Costa não perdeu tempo a detetar sintomas e doenças associadas. “Quando os miúdos começam a falhar nas competências humanas, percebemos que podem estar demasiado ligados”, defendeu a psicóloga clínica.

Com alguma tensão (saudável) com a oradora anterior, Jorge Vieira, da Nintendo, afiançou que “antes de falar das novas tecnologias, é preciso falar do nosso papel enquanto pais”. O também pai relembrou a importância que pode ter em matéria de diversão, a família jogar em conjunto.

Onde também se pretende que a família se junte é na cozinha, como sugeriu Ana Leonor Perdigão, responsável pela Unidade de Nutrition, Health and Wellness da Nestlé Portugal. Associar emoções positivas aos alimentos é fundamental, mas também perceber de onde vêm e confecioná-lo. Esta é uma forma de as crianças se familiarizarem com os alimentos ainda antes de lhes chegarem ao prato.

“As crianças que são envolvidas na confeção dos alimentos são mais disponíveis para comer e experimentar coisas diferentes”, defende a nutricionista. Levá-las ao supermercado – onde acontecem “explosões de sabores e aromas” – pode ser também uma hipótese de criar um momento lúdico, ao mesmo tempo que se vai ao encontro da logística lá de casa.

Dicas muito interessantes a reter sem o mínimo objetivo de causar angústia nos pais. Foi Domingos Amaral quem trouxe a palavra para cima da mesa para referir que, hoje em dia, e é algo que observa no exercício do seu cargo de presidente da direção da Escola Avé Maria, os pais vivem cada vez mais angustiados com o que de mal possa acontecer aos seus filhos. Mas o que fazer? «Deixá-los brincar. A vida é risco, não há outra maneira de o fazer!».

Depois de um momento de intervenções do público, Lina Varela – da Direção-Geral da Educação fechou a 1ª Conferência Estrelas & Ouriços afirmando que “deve haver complementaridade entre brincar e aprender”.

E assim soou a despedida da Estrelas & Ouriços: “Brinquem sempre!”.

Obs.: A 1ª Conferência Estrelas & Ouriços contou com o apoio de vários parceiros – Maria do Mar, Nesquik, MEO, Associação Mutualista Montepio, RTP, Antena 1 e Casa das Histórias Paula Rego.

 

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