Taxa de “percursos de sucesso” entre alunos com mães sem habilitações é de apenas 8%

Novembro 10, 2016 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 20 de outubro de 2016.

O estudo mencionado na notícia é o seguinte:

Desigualdades Socioeconómicas e Resultados Escolares — 2.º ciclo do ensino público geral

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Mais desiguais, piores alunos

Outubro 29, 2016 às 5:51 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia da http://visao.sapo.pt/de 20 de outubro de 2016.

O estudo mencionado na notícia é o seguinte:

Desigualdades Socioeconómicas e Resultados Escolares II : 2.º Ciclo do Ensino Público Geral 

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Quanto mais habilitações tem a mãe, melhores os resultados dos filhos na escola. O nível socioeconómico também joga um papel importante, diz um estudo do Ministério .

É a segunda vez – primeiro para o terceiro ciclo, no ano passado, e agora para o segundo – que o Ministério da Educação, através da Direção-geral de Estatísticas, analisa os resultados em função de algumas características das famílias portuguesas, no estudo “Desigualdades Socioeconómicas e Resultados Escolares”. E as tendências mantêm-se: uma relação muito forte entre o desempenho e o contexto socio-económico dos alunos, a somar a assimetrias regionais.

Mas o estudo revela também que a dinâmica das escolas pode subverter este cenário, o que liberta os dados de interpretações deterministas que levem a concluir, por exemplo, que nem as habilitações literárias permitem mobilidade social.

Os escalões do Apoio Social Escolar (ASE) confirmam as dificuldades escolares associadas às financeiras. “Entre os alunos que não recebem qualquer apoio ASE, a percentagem de percursos de sucesso no 2.º ciclo é de 63%. Entre os alunos com maior apoio ASE (escalão A), alunos oriundos de agregados familiares com condições económicas mais modestas, a mesma percentagem de percursos de sucesso é apenas de 27 por cento”. No grupo de estudantes sem apoio financeiro, 92% transitam de ano. Já as famílias com o maior apoio do ASE, a taxa de sucesso escolar não vai além dos 78 por cento.

A investigação agora publicada revela ainda que nos casos em que as mães têm licenciatura ou bacharelato, a percentagem de percursos de sucesso é de 80 por cento. Pelo contrário, os alunos com mães que não foram além do 4.º ano atingem bons resultados em apenas 26% dos casos.

Quanto mais letrados os encarregados de educação, melhor a prestação escolar dos filhos, confirmando-se igualmente a importância dos rendimentos familiares: “Alunos provenientes de meios socioeconómicos favorecidos tendem a obter, em média, melhores resultados escolares do que os seus colegas oriundos de meios mais desfavorecidos”.

Esta conclusão é especialmente preocupante na medida em que põe em causa a própria génese do sistema público – e universal – de educação que se pretende em Portugal. Nivelamento de oportunidades e promoção da mobilidade social ficam, assim, longe de garantidas.

Mas a análise estatística regional forneceu dados curiosos, que obrigam a olhar para o estudo com mais pormenor. Embora Setúbal tenha mães mais diferenciadas do que os outros distritos, o resultado académico dos filhos não é coerente. Com 43% de sucesso escolar, Setúbal é o pior distrito do País, por oposição a Coimbra (60%), com a melhor prestação. “Em média, os alunos do distrito de Braga cujas mães têm habilitação baixa, equivalente ao 6.º ano, têm um desempenho escolar no 2.º ciclo superior aos alunos do distrito de Setúbal cujas mães têm como habilitação o 12.º ano completo. Existem, portanto, outros fatores importantes em jogo, além do nível socioeconómico.”

Se o percurso académico e os rendimentos dos pais jogam um papel importante, as condicionantes regionais parecem um dado a ter cada vez mais em conta. “Os alunos dos distritos do sul do país têm níveis de habilitação das mães acima da média de Portugal continental, mas resultados escolares significativamente abaixo da média. Observe-se em particular como os alunos dos distritos de Faro, Lisboa ou Setúbal, tendo níveis de habilitação das mães francamente superiores aos dos seus colegas de Viseu, Braga ou Aveiro, têm ainda assim taxas de percursos de sucesso bastante inferiores – cerca de 12 pontos percentuais mais baixas – do que estes seus colegas do norte do país”.

Os autores do estudo alertam, por isso, para a necessidade de cruzar variáveis. “O nível socioeconómico não equivale a destino, ou seja, não determina de forma inapelável o desempenho escolar dos alunos. Prova disso é o facto de os alunos de certas regiões do país com indicadores socioeconómicos desfavoráveis, como Braga ou Viseu, terem, não obstante, indicadores de desempenho no 2.º ciclo francamente superiores à média nacional.”

Além do nível socioeconómico e das habilitações dos encarregados de educação, alertam os autores do estudo, “o dinamismo das escolas e dos professores”, bem como a importância atribuída à escola em cada região podem fazer a diferença.

Embora o sistema seja o mesmo, as variações entre escolas são ainda assinaláveis, o que aponta para a necessidade de atuar em cada universo.

 

 

 

Desigualdade do Rendimento e Pobreza em Portugal – publicação digital

Outubro 5, 2016 às 6:00 am | Publicado em Livros | Deixe um comentário
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https://www.ffms.pt/FileDownload/a98e63bd-0e40-436f-926c-68e800225fd2/desigualdade-do-rendimento-e-pobreza-em-Portugal

Desde 2009 até ao presente, a situação económica e social do nosso país alterou-se significativamente. Assim, considerou-se de absoluta importância acompanhar o fenómeno e prolongar o primeiro estudo da Fundação sobre Desigualdade, cuja análise terminava em 2009, conhecendo os efeitos das políticas de austeridade nas condições de vida das famílias. Com este objectivo, apresenta-se hoje uma nova análise sobre os reais impactos da crise económica: o estudo “Desigualdade do Rendimento e Pobreza em Portugal: Consequências Sociais do Programa de Ajustamento”, da autoria de Carlos Farinha Rodrigues e cujas principais conclusões se encontram em portugaldesigual.ffms.pt

 

Introdução ao Estudo Desigualdade do Rendimento e Pobreza em Portugal – publicação digital

Outubro 4, 2016 às 8:00 pm | Publicado em Livros | Deixe um comentário
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descarregar o documento no link:

https://www.ffms.pt/publicacoes/grupo-estudos/1700/desigualdade-do-rendimento-e-pobreza-em-Portugal

Este estudo contribui para esclarecer as principais alterações ocorridas na distribuição do rendimento e nas condições de vida dos portugueses ao longo do período de vigência do programa de ajustamento, procurando responder às seguintes questões:

 

  • Quais as consequências da profunda crise económica que Portugal enfrentou/enfrenta nos rendimentos dos diferentes grupos da população? Verificou-se um empobrecimento da classe média ou uma redução generalizada dos rendimentos familiares?

 

  • Qual o impacto das políticas de austeridade sobre os rendimentos familiares nos diferentes escalões de rendimento? Os mais pobres foram efectivamente poupados às políticas mais agressivas de redução/ contenção dos rendimentos? As famílias com maiores rendimentos foram as mais penalizadas pelas políticas adoptadas?

 

  • Quais os efeitos, sobre os diferentes grupos sociais, das alterações introduzidas nas políticas sociais? A contracção das políticas sociais, tanto na sua abrangência como nos montantes atribuídos, alterou significativamente as condições de vida das famílias mais pobres?

 

  • Quais as consequências do agravamento do desemprego e das mudanças introduzidas na legislação laboral na distribuição dos salários? O que se alterou na desigualdade salarial?

 

  • Comparativamente a outros países da UE e, em particular, da Zona Euro, as políticas nacionais para contrariar os efeitos da crise económica foram mal ou bem-sucedidas? Quais foram os seus custos económicos e sociais?

Com este estudo pretende-se uma avaliação rigorosa, e tão aprofundada quanto a informação estatística disponível o permite, das consequências sociais de uma das mais profundas crises que Portugal atravessou nas últimas décadas; e uma análise, sempre que possível, das medidas implementadas pelas autoridades públicas para lhes fazer frente.

Disparidades entre ricos e pobres são flagrantes e crescentes nas crianças

Julho 13, 2016 às 12:00 pm | Publicado em Relatório | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 28 de junho de 2016.

O relatório citado na notícia é o seguinte:

The State of the World’s Children 2016: A fair chance for every child

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Ana Dias Cordeiro

Angola continua a ser o país com a taxa de mortalidade infantil mais elevada do mundo. Relatório da UNICEF 2016 é publicado esta terça-feira.

Os avanços conseguidos para se alcançarem os Objectivos do Desenvolvimento do Milénio (ODM) em 2015 permitem olhar para a pobreza e níveis de desenvolvimento numa perspectiva mais positiva nalgumas partes do planeta. Globalmente, as taxas de mortalidade de crianças até aos cinco anos baixaram para menos de metade do que em 1990 e o total das pessoas a viver na pobreza extrema é quase metade do que era nessa década.

Mas isso apenas nalguns países e regiões do globo, escreve o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) no seu relatório Uma oportunidade justa para todas as crianças publicado hoje. Angola continua a ser o país do mundo onde morrem mais crianças: 157 em mil com menos de cinco anos. Este país produtor de petróleo tem assim a maior taxa de mortalidade infantil, seguido do Chade e da Somália. Também a Guiné Equatorial, outro Estado petrolífero e membro da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) desde 2014, apresenta uma taxa elevada, posicionando-se em 11º, logo a seguir à República Democrática do Congo e do Níger, com 93 mortes em cada mil crianças com menos de cinco anos.

Guiné-Bissau e Moçambique também estão na lista dos 25 países onde essa taxa é mais elevada, com 93 mortes por mil e 79 mortes por mil respectivamente, sendo os dois únicos países lusófonos onde a UNICEF encontrou uma carência extrema de médicos, enfermeiros e parteiras – com números abaixo dos 10 profissionais do sector por 10 mil pessoas, sendo o nível considerado mínimo para a Organização Mundial de Saúde de 23 profissionais de saúde por cada 10 mil habitantes.

O relatório identifica causas para retrocessos e exemplos de sucesso e coloca o enfoque na igualdade, ao admitir  que “os progressos alcançados não foram uniformes nem justos”. As expectativas negativas traduzem-se em números avassaladores no relatório e o prefácio do director-executivo Anthony Lake, alerta para isso mesmo, se nada for feito para inverter a tendência.

“O tempo de agir é agora”, escreve o responsável da UNICEF. É urgente esbater as desigualdades “que colocam milhões de crianças em perigo e ameaçam o futuro” num mundo onde é dez vezes mais provável uma criança da África Subsariana morrer antes dos cinco anos, do que uma criança num país rico, defende.

Os Objectivos para o Desenvolvimento do Milénio não foram atingidos entre 2000 e 2015. E 2030 passou a ser a nova meta para se alcançarem idênticos indicadores – os Objectivos de Desenvolvimento Sustentável – que introduzem, entre outras coisas, a redução das desigualdades dentro dos países mas também entre eles.

Em média, e tendo em consideração a dimensão da população, a desigualdade aumentou 11% entre 1990 e 2010 nos países em desenvolvimento. E uma grande maioria de famílias, mais de 75% segundo as Nações Unidas, vive em sociedades onde o rendimento é menos bem repartido do que na década de 1990.

Avanços e diferenças

No mundo inteiro, as crianças que nascem hoje têm 40% mais hipótese de sobreviver antes de completarem cinco anos e de irem à escola do que as crianças nascidas no início da década de 2000, conclui o documento de mais de 180 páginas. Porém, ao mesmo tempo que assinalam avanços, as médias nacionais escondem disparidades flagrantes – e por vezes crescentes – entre crianças de famílias mais pobres e crianças de famílias mais ricas. “Não podemos deixar que a história se repita”, assume o documento que quantifica claramente custos e consequências do fracasso e qualifica-os de “enormes”.

O fracasso é previsível, se as tendências dos últimos 15 anos se mantiverem nos próximos 15 anos. Se assim for, 167 milhões de crianças poderão estar a viver na pobreza extrema, a maioria das quais na África Subsariana. Estima-se igualmente que 3,6 milhões de crianças por ano poderão morrer antes dos cinco anos, ainda e na maior parte dos casos por doenças ou causas que poderiam ter sido evitadas se tivessem sido prestados cuidados de saúde.

Síria e refugiados entre as principais preocupações

A África Subsariana, a Síria devido ao prolongamento e à violência da guerra, e os milhões de refugiados que fugiram deste e de outros países são os três focos de maior preocupação da UNICEF relativamente à pobreza infantil. A população pobre da Síria mais do que triplicou, ao passar de 12,3% do total em 2007 para 43% do total em 2013. Estima-se que entre os milhões de refugiados, sobretudo sírios, mais de dois terços sejam pobres. E neste conjunto, as crianças representam mais de metade. Nalguns casos, só há dados estatísticos disponíveis até 2013.

A UNICEF constata por outro lado que depois de vários anos em que a pobreza baixou nos países do Norte de África e Médio Oriente, voltou a estagnar ou mesmo a aumentar nalguns países. Nos países da África Subsariana, vive não apenas a maioria da população pobre mas aquela que continua a aumentar. Lê-se no relatório que, partindo das tendências actuais, e se nada se alterar, nove em cada 10 crianças a viver com menos de 1,9 dólares por dia (1,7 euros) serão em 2030 de países da África Subsariana.

 

3º Fórum da Cidadania – 28 de maio

Maio 5, 2016 às 6:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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mais informações:

http://lisboasolidaria.cm-lisboa.pt/101000/1/001529,052016/index.htm

Crianças mais pobres têm acesso a 40% do rendimento de uma “criança média”

Abril 14, 2016 às 1:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança, Relatório | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 14 de abril de 2016.

descarregar o relatório citado na notícia em baixo:

Fairness for Children: A league table of inequality in child well-being in rich countries

mais informações no site da Unicef Portugal

Report Card 13 – Equidade para as crianças

 

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Andreia Sanches

Nenhum país consegue proporcionar “o mesmo começo de vida a todas as crianças”, diz a Unicef. Mas há uns mais desiguais do que outros. No ranking geral das desigualdades, Portugal fica a meio da tabela. O pior é quando se analisam os rendimentos.

Até que ponto as crianças dos países desenvolvidos, sobretudo as que se encontram numa situação mais desfavorecida, “estão a ficar para trás”? É a esta pergunta que um novo relatório da Unicef, que será divulgado nesta quinta-feira, procura dar resposta. Chama-se Equidade para as crianças: uma tabela classificativa das desigualdades no bem-estar das crianças nos países ricos. No ranking geral, que ordena os Estados dos que registam menores disparidades para os que apresentam mais desigualdade, Portugal está em 19.º lugar. Uma posição abaixo dos EUA e uma acima da Islândia.

São analisadas quatro áreas: rendimento disponível nas famílias; desempenho escolar; problemas de saúde percepcionados pelos jovens; e satisfação com a vida.

Portugal destaca-se pela positiva quando estão em causa as disparidades em termos de saúde percepcionada pelas crianças. É 7.º no ranking. Já quando se analisa a dimensão “desigualdade de rendimentos”, tudo se complica. Dados: na Noruega, o rendimento de uma criança de uma família pobre é 37% inferior ao de uma “criança média”; em Portugal, é 60,17% inferior. Somos o 33.º mais desigual em 41 para os quais há dados disponíveis sobre rendimentos das famílias com crianças. A Noruega é o menos desigual nesta dimensão.

“Em 19 dos países analisados, as crianças mais pobres dispõem de menos de metade dos rendimentos da criança média dos seus países”, explica a Unicef, numa síntese dos dados. “Em Espanha, na Grécia, Itália e Portugal, bem como em Israel, no Japão e México, a diferença de rendimentos entre as crianças mais pobres e as do meio da distribuição é superior a 60%. Isto significa que as mais pobres dispõem de menos de 40% dos rendimentos da média.”

A metodologia usada pelo Centro de Investigação — Innocenti, da Unicef, pode resumir-se deste modo: em cada uma das quatro áreas, e em cada país, foi analisada a dimensão do fosso que separa uma criança que se encontre na base da tabela — ou seja, no grupo das que estão em pior posição — de uma “criança média” desse país.

Participam 41 países da União Europeia e da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE). A Dinamarca está no topo do ranking geral, que congrega as quatro dimensões. Não é que proporcione exactamente “o mesmo começo de vida” a todas as crianças. Isso, na verdade, não acontece em nenhum dos estados, nota a Unicef. Mas na Dinamarca as diferenças entre crianças mais desfavorecidas e os seus pares são menores.

Rendimento: desigualdade aumenta

A Unicef começou por ter em conta o rendimento dos agregados com filhos — descontados impostos, incluídas prestações sociais e ponderado o tamanho e composição do agregado. Os dados sobre rendimento e condições de vida da União Europeia, de 2013, constituem uma das fontes. Em cada país, a mediana do rendimento foi comparada com o rendimento do agregado de uma criança que pertença ao grupo das famílias mais pobres — as 10% mais pobres do país.

A tendência geral é esta: “As disparidades de rendimento aumentaram na maioria dos países ricos desde a crise económica. Esta tendência é particularmente gritante nos países do sul da Europa, onde os rendimentos das crianças mais pobres caíram mais relativamente à média, também esta em queda.”

Em Portugal, entre 2008 e 2013, as disparidades de rendimento aumentaram 5,4 pontos percentuais, “dado que o rendimento dos 10% de crianças na base da distribuição diminuiu mais rapidamente do que o da mediana”, prossegue a Unicef.

“Os maiores aumentos das desigualdades de rendimento — aumentos de pelo menos cinco pontos percentuais — ocorreram em quatro países do sul da Europa, Grécia, Espanha, Itália e Portugal, e em três países da Europa de Leste, Eslovénia, Eslováquia e Hungria.”

Portugal é também dos países onde as transferências sociais — subsídios, abonos, etc. — menos atenuam a desigualdade de distribuição de rendimentos. O Reino Unido, a Irlanda e a Bélgica são aqueles onde o Estado tem um papel mais relevante na redução do fosso entre crianças.

Em 2013, a taxa de pobreza infantil em Portugal era de 17,4% (há 11 países com taxas maiores). E perto de três quartos das crianças que viviam em agregados familiares pobres encontravam-se em situação de privação material (não tinham capacidade para dispor de bens considerados essenciais, como aquecimento em casa ou uma refeição com o nível adequado de proteínas a cada dois dias, recorda ainda a Unicef, na síntese que reúne os dados para o país).

A Unicef nota ainda que dois dos países mais ricos do mundo, o Japão e os EUA, aparecem, como Portugal, no último terço da tabela das desigualdades no que diz respeito aos rendimentos a que as crianças têm acesso.

Educação: países-modelo pioram

Na tabela que mede as disparidades na educação — outra das quatro áreas analisadas —, Portugal aparece em 19.º em 37 países para os quais há dados. A análise é feita com base nas conclusões do PISA 2012, um estudo internacional que avaliou as competências dos alunos de 15 anos em três áreas-chave: Matemática, Leitura e Ciências. Em cada país compara-se o desempenho dos alunos com piores resultados com a média.

O Chile e Roménia aparecem como sendo os que apresentam menor disparidade entre alunos, “mas pelos piores motivos — porque a situação é má para todos”, explica Margarida Gaspar de Matos, investigadora da Universidade Técnica de Lisboa, que participou na elaboração do estudo da Unicef.

Naqueles dois países, tal como acontece na Bulgária e no México, “perto de um quarto dos alunos de 15 anos não dispõem das aptidões e competências necessárias para resolver exercícios básicos de leitura, matemática e ciências”, o que é considerado pela Unicef “um número particularmente alarmante”. Em Portugal, são 12,6%, um valor que representa uma melhoria, face a 2006.

No que diz respeito às competências de leitura, especificamente, há mais boas notícias para Portugal: “As disparidades entre as crianças com resultados médios e os 10% que se encontravam na base da distribuição diminuíram 9,3 pontos, dado que estas melhoraram as suas notas mais do que os seus pares.”

Apesar das boas notícias, os alunos portugueses “provenientes de famílias com um estatuto socioeconómico mais baixo tinham 12% mais probabilidade de não atingir os níveis mínimos de competências nas três áreas do que os seus pares de meios mais privilegiados”.

De resto, na generalidade dos países, as desigualdades no que diz respeito ao desempenho escolar diminuíram. Mas não na Finlândia e a Suécia, “anteriormente considerados como exemplos de sucesso e de equidade em matéria de educação. Em ambos verificou-se um aumento das desigualdades e dos níveis de insucesso.

“Uma sociedade não pode ser equitativa se a algumas crianças for negado um bom começo de vida”, alerta a Unicef que pede aos governos que “considerem como prioritário” proteger os rendimentos dos agregados familiares das crianças mais pobres, promover o sucesso escolar das crianças mais desfavorecidas e “apoiar estilos de vida saudáveis”. Em Portugal, o relatório é apresentado nesta quinta-feira à tarde no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.

Saúde: meninos e meninas muito diferentes

Quantas vezes nos últimos meses sentiste sintomas físicos como dor de cabeça, ou de estômago; quantas te sentiste nervoso, ou irritado? Foram perguntas deste tipo que se fizeram em 2014 aos adolescentes de 11, 13 e 15 anos de dezenas de países, no âmbito do Health Behaviour in School-aged Children, da Organização Mundial da Saúde, cujos resultados finais foram divulgados no mês passado. E a Unicef foi buscar também esse estudo para a sua análise sobre desigualdades.

“Nenhum país conseguiu progressos claros na redução das disparidades no que toca a problemas de saúde sinalizados pelas crianças”, conclui. Pelo contrário, as desigualdades acentuaram-se na maioria dos Estados, incluindo Portugal, “verificando-se mesmo aumentos consideráveis na Irlanda, em Malta, na Polónia e na Eslovénia”.

Ainda assim, Portugal ocupa, como se viu, uma boa posição neste ranking: é o 7.º em 35 países com menos disparidades no que toca a problemas de saúde sinalizados pelas crianças. Já no que diz respeito à alimentação saudável (consumo de fruta e vegetais), é apontado como o país onde as desigualdades mais aumentaram (6,6 pontos percentuais entre 2002 e 2014).

Sobre este aspecto, Margarida Matos lembra que “o consumo de fruta desceu muito a nível nacional, embora continue razoável em termos europeus”, e que Portugal foi “penalizado” na avaliação da Unicef porque “foi o país onde o consumo de fruta desceu mais entre 2010 e 2015 — mas a verdade é que era o maior consumidor em 2010”.

O estudo da OMS também pediu aos jovens que classificassem a sua “satisfação com a vida”, numa escala de zero a 10. E, uma vez mais, a Unicef compara a “criança média” com as crianças menos satisfeitas. Resultado: “Nos países ricos, o nível de satisfação com a vida atribuído pela criança média é de 8.” Mas “na grande maioria dos países, mais de uma em cada 20 crianças classifica a sua satisfação com a vida num nível 4 ou menos”. Em Portugal, a percentagem é 6%.

O países onde o fosso entre a média e as menos satisfeitas é menor é a Holanda. Portugal ocupa o 18.º lugar neste ranking da satisfação com a vida, em 35 países.

A Unicef sublinha que há um outro tipo de desigualdade preocupante: a de género, que é “generalizada e persistente”. Em todos os países, “as raparigas têm uma probabilidade significativamente mais elevada de ficar para trás relativamente à saúde”. Em dez, as disparidades de género aumentaram.

“Por outro lado, as raparigas dão conta de um nível de satisfação com a vida inferior ao dos rapazes, especialmente na faixa etária dos 15 anos.” Margarida Matos diz que vários estudos têm alertado para este tema e não tem dúvidas: “A iniquidade de género merece uma reflexão séria.”

 

 

 

 

 

Só 19% dos filhos de mulheres com a 4.ª classe têm sucesso escolar

Fevereiro 25, 2016 às 1:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do Diário de Notícias  de 24 de fevereiro de 2016.

O estudo citado na notícia é o seguinte:

Desigualdades Socioeconómicas e Resultados Escolares : 3.º Ciclo do Ensino Público Geral

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Pedro Sousa Tavares

Estudo realizado pela Direção-Geral de Estatísticas de Educação comprova grande impacto do nível socioeconómico das famílias

A conclusão não é nova nem surpreendente: há muito que se sabe, através de estudos e comparações nacionais e internacionais, que as habilitações literárias dos pais são um bom indicador das expetativas de sucesso escolar dos filhos. Mas esta é a primeira vez que o Ministério da Educação faz um levantamento de toda a sua rede – centrado nos alunos do 3.º ciclo de escolaridade – e chega a números definitivos.

E estes números são preocupantes: entre os estudantes cujas mães têm a quarta classe ou menos, apenas 19% têm percursos escolares de sucesso. Quando as mães têm habilitações ao nível da licenciatura ou bacharelato, a realidade é quase oposta: 71% de sucesso.

O critério de sucesso estipulado para este estudo da Direção geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC) combina a avaliação interna com os resultados alcançados pelos estudantes nos exames nacionais de Português e de Matemática do 9.º ano. Para ser considerado um aluno de sucesso, este tem de concluir o 9.º ano sem retenções no seu currículo, conseguindo também uma nota positiva em ambos os exames nacionais.

Apesar destas conclusões, a DGEEC constata também que o insucesso não é uma fatalidade para os alunos, dando os exemplos dos distritos de Braga e Viseu, onde alunos cujas mães tinham qualificações muito baixas tiveram desempenhos superiores aos do distrito de Beja entre filhos de mulheres com o 12.º ano completo.

Numa nota de imprensa, o Ministério da Educação defende que “este estudo reforça a necessidade de colocar o foco na melhoria das aprendizagens e na inovação pedagógica como estratégia para a melhoria dos resultados, suportada pelo facto de ser possível inverter tendências preditas pelos baixos rendimentos”.

A análise da DGEEC centrou-se nos alunos das escolas públicas – porque são os únicos para os quais o Ministério da Educação tem indicadores socioeconómicos completos. A escolha das mães como termo de comparação foi uma opção dos autores do trabalho que, no entanto, fizeram também uma simulação com os dados relativos aos pais, com resultados “semelhantes”.

 

 

 

Desigualdade à hora do jantar

Outubro 2, 2015 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Reportagem da Visão de 18 de setembro de 2015.

Nunca foi tão clara a associação entre o que se come e o estatuto social. Em Portugal há um milhão de obesos e 31,6% de crianças com peso a mais, que vivem sobretudo no campo e pertencem a famílias desfavorecidas. Paradoxalmente, a pobreza obriga a alargar o cinto

Sónia Calheiros (texto) e José Carlos Carvalho (fotos) – artigo publicado na VISÃO 1175, de 10 de setembro

Rita Quintela não dá ponto sem nó. Todas as sextas-feiras gasta parte da hora de almoço a elaborar a ementa da semana. Antes, consulta os menus escolares dos quatro filhos de modo a variar entre a carne, o peixe, os ovos e os vegetais. O que nunca muda é a sopa no início e a fruta no fim das refeições, tal como recomenda a Organização Mundial de Saúde: ingestão diária de, pelo menos, 400 gramas de frutas e hortícolas. Segue-se a consulta dos sites e blogues especializados em cupões de descontos. As compras quinzenais feitas online evitam tentações de campanhas desnecessárias ou produtos apelativos. “Com um orçamento mensal para seis pessoas resvés aos dois mil euros esta gestão financeira ajuda-me a ter uma alimentação saudável”, explica enquanto prepara uma lasanha de carne para o jantar. Tenta que nenhuma refeição exceda um euro por cabeça. No final, contas feitas, o tabuleiro de lasanha para seis fica pronto por 3,50 euros.

Legenda: (de cima para baixo) - Família Furtado Rendimento mensal: €700. Na ementa de Isabel, jardineira e guisados alternam com massas e fritos. Os filhos não dispensam os refrigerantes; Família Quintela Rendimento mensal: €2 000. Rita fez um tabuleiro de lasanha por 3,50 euros. Todas as refeições começam com sopa e terminam com fruta; Família Marques Rendimento mensal: > €2 000. Sara cozinhou salmão de aquacultura sustentável no forno com bulgur e salada biológicos

Legenda: (de cima para baixo) – Família Furtado Rendimento mensal: €700. Na ementa de Isabel, jardineira e guisados alternam com massas e fritos. Os filhos não dispensam os refrigerantes; Família Quintela Rendimento mensal: €2 000. Rita fez um tabuleiro de lasanha por 3,50 euros. Todas as refeições começam com sopa e terminam com fruta; Família Marques Rendimento mensal: > €2 000. Sara cozinhou salmão de aquacultura sustentável no forno com bulgur e salada biológicos

É ao domingo, a partir das seis da tarde, que forno e fogão começam a aquecer. Metódica, Rita vai para a cozinha alinhavar o que lhe há de facilitar a confeção das refeições durante a semana. Por seis euros compra três quilos de carne de porco da mais barata e junta-lhe 200 gramas de soja hidratada, cenoura, molho de tomate e um refogado feito com azeite, cebola e alho. “Usar a soja como proteína saudável faz reduzir o consumo de carne”, argumenta. Depois da carne cozinhada divide em seis porções, deixando metade a uso no frigorífico e congelando a outra metade. Nessa noite ainda faz uma das quatro panelas de sopa semanais com legumes vindos da horta de um tio (outra forma de poupar), e um bolo, se tiver tempo, pois lá em casa não entram sobremesas prontas. Costuma fazer comidas de tacho e não abdica das refeições vegetarianas – ora ratatouille ora cuscuz e tofu com legumes salteados. Apesar da variedade, as quatro crianças da família Quintela nunca devem ter comido linguado. “O peixe continua a ser um alimento caro e dentro do meu orçamento só cabem tentáculos de lulas, pescada congelada, filetes para fazer no forno e pastéis de bacalhau”, enumera. Todos os truques que usa para esticar o orçamento foram partilhados, durante alguns anos, no site Mãe Galinha, a que se seguiu o blogue “O Que É o Comer”, por agora em banho-maria.

Este poderá ser o típico exemplo da família de classe média que desde o início da crise, em 2008, tem vindo a apertar o cinto e a fazer cada vez mais ajustes alimentares, procurando não ceder aos alimentos processados e às comidas prontas – quase sempre mais baratas mas cheias de gordura e açúcar

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Legenda (da esquerda para a direita): Família Furtado A sobremesa de maçã do Banco Alimentar partilha o espaço com frango, sopa de lombardo, refrigerantes e margarina; Família Quintela É ao domingo que se prepara a maior parte das refeições da semana. Depois é só escolher uma caixa no frigorífico e aquecer. A sopa nunca falta; Família Marques De forma exímia cada prateleira é dedicada a um grupo de alimentos, na sua maioria biológicos, orgânicos, caseiros, livres de gorduras e açúcar

Nunca se gastou tão pouco com a alimentação. Segundo o Inquérito às Despesas Familiares, do INE, em 1995 os portugueses gastavam 21,5% do seu orçamento em alimentação, valor que baixou para 13,3%, em 2011. Desde o último Inquérito Alimentar Nacional já passaram 35 anos e nesse tempo muitos hábitos se alteraram. Até ao início dos anos 80, o paradigma era os ricos serem gordos. “Nessa altura o peso a mais e a opulência eram fatores sociais diferenciadores, bem vistos pela sociedade”, nota Pedro Graça, diretor do Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável. Havia a ideia de que as populações com mais capacidade económica, de um modo geral, tinham acesso a produtos mais calóricos. Até que a indústria alimentar começou a produzir calorias baratas. “Com o aumento do número de hipermercados, mudou a forma de consumo. Passou a comprar-se com menos regularidade e isso fez com que os produtos tivessem de ser conservados à custa de dois ingredientes: gordura e açúcar”, explica o nutricionista. Só em 1995 se fala, pela primeira vez, da relação entre o estatuto social e a obesidade. É o pediatra William H. Dietz que afirma que “a fome e a obesidade ocorrem com uma frequência aumentada nas populações pobres”. E isso pode parecer, à primeira vista, estranho, como nota Pedro Graça: “Como é que uma pessoa que não tem dinheiro para comprar comida acaba por engordar?” Os dados hoje são inequívocos, como ficou bem expresso no final do Ciclo de Conferências da Gulbenkian, o Futuro da Alimentação, que aconteceu em 2012: a incidência de obesidade é cinco vezes maior no estrato socioprofissional mais baixo, sobretudo em famílias de maior vulnerabilidade económica, com horários irregulares, trabalhando até muito tarde ou por turnos, desfasados do resto da família. As crianças, estando sozinhas, acabam por fazer escolhas piores, preferindo alimentos muito calóricos, ricos em gorduras e açúcares.

Engordar em frente à tv

Portugal tem a taxa mais elevada de mães trabalhadoras da União Europeia e, segundo um estudo da OCDE, de 2011, é também o país onde os filhos passam menos tempo com os pais (100 minutos/dia, contra os 400 da Irlanda, que lidera a lista). A televisão depressa passa a baby-sitter, o que também aumenta o risco de obesidade e de tensão arterial alta. E quanto menor é o grau de ensino, maior é o valor de obesidade, concluiu-se ainda num estudo sociodemográfico para avaliar a alteração dos valores de obesidade infantil da população portuguesa, de 2002 a 2009, liderado por Cristina Padez, investigadora da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra. Foram inquiridas 17 424 crianças, dos 3 aos 11 anos, de várias regiões do País, e a percentagem que passa mais de duas horas a ver televisão, ultrapassando os limites considerados de referência pela Academia Americana de Pediatria, dá que pensar: 28% de meninos e 26% de meninas, durante a semana. Ao sábado e domingo os valores disparam para 75 e 74 por cento. “Ver televisão tem maior impacto no excesso de peso pois as crianças ingerem comida menos saudável, ao contrário de quando usam o computador ou jogos eletrónicos, que exigem mais concentração e interação”, explica a investigadora Cristina Padez. Quarenta por cento destas crianças permanecerão obesas na idade adulta. As que conseguirem estabilizar o peso terão, ainda assim, maior risco de doenças cardiovasculares.

No mesmo sentido vai o estudo publicado por Elisabete Ramos, do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto, na revista científica Nutrition, onde se comprova que o sedentarismo tem efeito nas escolhas alimentares dos jovens. Dos 1 436 participantes com 13 anos, 52% gasta, em média, mais de duas horas por dia a ver televisão, ficando mais propensos a consumir alimentos com altos teores de gordura e de açúcar, em detrimento de frutas e de hortícolas

O cenário não melhora na adolescência, apesar de os jovens ganharem autonomia para praticarem exercício fora de casa e depois das aulas. O problema é mais acentuado no meio rural, onde vivem os rapazes e as raparigas entre os 13 e os 16 anos que menos se mexem. Apesar dos espaços em liberdade, durante o ano letivo os miúdos dos meios rurais passam mais tempo a ver televisão do que os das cidades, que têm uma maior oferta de atividades extra curriculares, como o desporto ou a música, concluiu um estudo da Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física da Universidade de Coimbra que, entre 2007 e 2012, analisou o comportamento de 500 adolescentes da região Centro (Aveiro, Castelo Branco, Coimbra, Leiria e Viseu). No campo, a média semanal nos rapazes é de 3 horas e 24 minutos em frente à televisão, enquanto os da cidade estão 2 horas e 48 minutos. Nas raparigas, o valor desce para 2 horas e 48 minutos e 2 horas e 24 minutos, respetivamente.

“Os de 15 e 16 anos são menos ativos do que os de 13 e 14. Há um decréscimo da atividade ao longo da adolescência, mais visível nas raparigas, que nestas idades privilegiam o convívio social em detrimento do exercício físico. Os rapazes têm sempre um campo de brita para jogar à bola”, diz  o autor do estudo, Aristides Machado-Rodrigues. “Quem mora em zonas seguras, bem iluminadas, perto de jardins com sombras e bebedouros, com bons acessos propícios para se deslocarem a pé, tem um comportamento mais ativo. Além da escola, também as famílias, as autarquias e outros agentes sociais devem organizar e promover hábitos de exercício físico entre os jovens.”

Sopa, mas só às vezes

No frigorífico de Isabel Furtado, 54 anos, há sopa de lombardo, mas depois de andar desde manhã na rua a jogar à bola, o seu neto Max prefere, às cinco da tarde, almoçar restos de frango assado e comer depois um gelado cheio de corantes e açúcar. Falta uma hora e meia para o rapaz de 14 anos ir jantar e encher três vezes o prato com frango guisado e esparguete. Enquanto o ano letivo não começa é ainda mais difícil impor-lhe regras e horários, queixa-se Isabel, que sai de casa às sete da manhã e até regressar, à uma e meia da tarde, não consegue controlar quem já almoçou nem o que comeu.

Só ao fim de semana é que consegue juntar à mesa os sete inquilinos da casa alugada há 24 anos no bairro Sá Carneiro, em Caxias (o casal com os três filhos de 27, 23 e 18 anos, e dois netos de 14 e 5 anos).

Com o marido desempregado há mais de dois anos e sem receber subsídio de desemprego desde maio, Isabel tem cerca de 700 euros mensais para gerir, arrecadados entre os 460 euros que traz para casa das limpezas, mais uns pozinhos de dois filhos. O baixo rendimento familiar faz com que precisem de apoio social. Uma vez por mês, recolhem os cabazes do Banco Alimentar, um de secos, outro de frescos. Nunca fez contas ao que gasta todos os meses em alimentação, o que sabe é que consegue “dar conta do recado” e pôr comida na mesa para todos. Como anda sempre atenta às promoções dos supermercados nunca lhe falta proteína no congelador. Nem feijão demolhado, nem rissóis de carne ou panadinhos de salmão, opções mais baratas para as refeições familiares. E o dinheiro ainda estica para refrigerantes e gelados. A matriarca costuma fazer sopa mas reconhece que às vezes tem de deitá-la fora. Os filhos e netos nem sempre querem… e ela não consegue obrigá-los.

Comemos mais do que precisamos

Diz-me o teu peso, dir-te-ei o que comes. O padrão de alimentação saudável recomenda a ingestão diária de 2 000 a 2 500 calorias, consoante se é mulher ou homem, e as proteínas devem ser repartidas entre 40% animal e 60% vegetal. Estes valores são largamente desrespeitados na maioria da população – e nem sempre por questões económicas. Dados da Balança Alimentar Portuguesa (BAP) 2008-2012 revelam que atingimos, em média, 3 963 calorias per capita, um aumento de 2,1% face aos números da BAP 2003-2008. O suficiente para saciar não um mas dois adultos. Desde os anos 1990 que os portugueses têm vindo a afastar-se da combinação saudável, consumindo 62,8% de proteína animal e 37,2% de vegetais.

Mesmo quem está informado cede aos apelos do marketing. “Mais do que identificar o inimigo é preciso criar opções saudáveis e baratas”, refere Pedro Graça. Vivemos numa sociedade obesogénica, um “palavrão” que a OMS usa para falar de um conjunto de alterações que interfere com as escolhas. “Costumo dizer aos meus alunos do 4.º ano de Nutrição, talvez as pessoas que mais sabem do tema em Portugal, que basta marcar-lhes aulas ou um exame entre as 11 e as duas da tarde para desregularem a sua alimentação”, exemplifica o professor

Como Sara Marques dos Santos não trabalha fora de casa, pode dedicar-se à pesquisa e leitura sobre alimentos orgânicos, gastar tempo na ida às compras a diversos supermercados, dar um salto à praça e ao mercado de biológicos, onde por mês gasta perto de 600 euros só em comida para o casal, duas empregadas (uma delas interna) e três filhos com 7, 4 e 1 ano e meio.

O conhecimento existe mas o tempo é fundamental para esta ex-advogada, 39 anos, pôr em prática tudo o que aprendeu no curso online de “health coach”, uma espécie de treinadora de bem-estar, do americano Institute for Integrative Nutrition.

Foi há sete anos, com o nascimento do primeiro filho, que se intensificou a preocupação com o que a família come. “Abria-se um caminho para ingerirmos cada vez menos químicos”, explica. Quico nasceu com paralisia cerebral e Sara viu na alimentação saudável a maneira mais fácil de potenciar a aptidão cognitiva do filho. Anda sempre a pesquisar quais os alimentos que tratam problemas, aumentam capacidades e mudam o estado de espírito. “Sou realmente diferente do tradicional, uso muitos produtos biológicos, cereais integrais, presto mais atenção aos rótulos e à tabela de ingredientes.”

Na casa de Sara e Miguel Marques dos Santos o frigorífico organizado é digno de uma revista de decoração. Nas gavetas inferiores arrumam-se os frescos da estação do Prove, um cabaz semanal com seis quilos que Sara compra por dez euros. Nas prateleiras superiores há pasta de amêndoa (para barrar o pão ou usar em batidos), manteiga clarificada indiana (ghee), hummus (pasta de grão), doces de abóbora e de marmelo feitos com açúcar de coco (o único que entra lá em casa), potes com queijo quark (0% de gordura e fermentos lácteos), puré de fruta e granula caseira feita com cereais, sementes, frutos secos e mel. Um caso sério de sucesso entre os amigos que leva Sara a ponderar a sua venda. Já anda, aliás, a testar embalagens e logótipos – quem sabe não aproveita a imagem do seu blogue “S de Salada”. Para aqueles momentos de fome antes das refeições existem umas “bolinhas energéticas” de amendoim, coco, manteiga de coco, manteiga de amêndoa, levedura de cerveja e tâmaras. Na porta há chocolate preto (70% cacau), iogurtes artesanais, picle caseiro de cenoura, leite de coco, pasta de sésamo, leite caseiro de aveia e espelta. No congelador, os gelados feitos com fruta fresca são “um mimo” para os filhos.

A cada refeição, preocupa-se em servir depois da sopa um prato com proteína, hidratos e vegetais. A fruta vem em sumo ou como sobremesa. Para o jantar, entre frango biológico ou lombo de salmão de aquacultura sustentável optou por fazer no forno o peixe com citrinos e molho de arando, acompanhado de bulgur (um substituto do arroz) e salada. De tudo o que Sara faz a única coisa que Miguel rejeita são os sumos com legumes. Apesar de ter sido atleta de alta competição de ski aquático e de sempre ter tido cuidado com o que comia, o advogado não consegue beber o “sumo do Hulk”, como lhe chama Duarte, de 4 anos. E, de vez em quando, também jantam fora, sem fundamentalismos, e até comem pizza e batatas fritas. Em casa, Miguel gosta de cozinhar massas (o único senão é que a mãe só come as versões integrais). Divergências ultrapassadas com muito sabor – mas também sem a preocupação de olhar para o preço dos melhores produtos, na hora de decidir o que será o jantar.

 

Seminário «Finanças Conjugais em Contexto de Crise: Género, Poder e Desigualdades» (31 ago. – 1 set., Lisboa)

Agosto 25, 2015 às 8:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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