Bebês & Tecnologias – Vídeo do NUFABE da Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Agosto 24, 2018 às 8:00 pm | Publicado em Vídeos | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , ,

Crianças não devem passar mais de duas horas em frente aos ecrãs

Agosto 24, 2018 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , ,

Notícia da Sábado de 13 de agosto de 2018.

Novo estudo revela que as crianças entre os 8 e 18 anos estão a passar mais de sete horas por dia em frente a ecrãs.

As crianças não devem usar computadores e smartphones mais do que duas horas por dia, revela um estudo publicado pela Associação American Heart.

Hoje em dia, revela a investigação, crianças entre os 8 e 18 anos passam mais de sete horas por dia em frente a ecrãs, contribuindo para uma “vida sedentária” que aumenta riscos de obesidade e problemas cardiovasculares.

A associação recomenda os pais a proibirem o uso de ecrãs durante refeições e antes de ir dormir. “Apesar de ainda não ser clara a correlação entre a obesidade e o tempo que se passa em frente a ecrãs, há uma preocupação crescente que os ecrãs tenham influência nos hábitos alimentares e sono”, diz Tracie Barnett, que liderou a investigação.

A organização recomenda brincadeiras “mais saudáveis”, ao ar livre.

Mais informações nas notícias:

New tools, old rules: Limit screen-based recreational media at home

Limit screen time among kids, experts caution

 

Acabaram os telemóveis e tablets nas escolas francesas

Agosto 14, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , ,

Notícia e imagem do PPLWare de 31 de julho de 2018.

Há mais de um mês, informámos aqui que em França estavam a ser tomadas medidas para proibir a utilização de telemóveis nas escolas. O ministro da Educação francês batizou tal lei de “medida de desintoxicação” e apenas faltava a votação para saber se iria ser aprovada ou não.

A medida foi a votação ontem e ganhou de forma estrondosa! A partir do início de setembro acabaram-se os telemóveis nas escolhas francesas.

Está aprovada a medida que visa proibir a utilização de telemóveis nas escolas francesas segundo revela o jornal  Le Monde. A proposta do partido de Emammunel Macron, La République en Marche, ganhou com maioria absoluta, tendo conseguido 62 votos a favor e apenas um contra. De referir que o partido de Emammunel Macron detém uma maioria absoluta na Assembleia Nacional.

O que proíbe tal lei?

Esta nova lei, que será aplicada a partir de setembro, permite às escolas decidir o modo como querem aplicar a proibição, podendo obrigar os alunos a colocarem os dispositivos numas bolsas específicas dentro das mochilas escolares, mas permitindo o acesso em caso de emergência, ou uso pedagógico, mas também proibir a sua utilização por completo, sob a pena de sanções. Isto aplica-se a alunos, a partir dos 15 anos, que frequentem a escola secundária.

Crianças entre os três e os 15 anos não poderão ter ligados nas escolas francesas os seus smartphones, tablets, smartwatches ou outros equipamentos com ligação à internet.

Segundo a agência France Presse, a lei faz exceções para “uso pedagógico”, atividades extracurriculares e no caso de alunos com necessidades especiais.

Mais de 90 por cento das crianças francesas entre os 12 e os 17 anos tinham smartphones em 2016, de acordo com a agência reguladora de telecomunicações francesa ARCEP.

Pedro Pinto

 

As armadilhas dos falsos desenhos animados que as crianças veem na Internet

Julho 13, 2018 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , ,

Notícia e imagens da Visão de 7 de julho de 2018.

Rui Antunes

Vídeos com conteúdos impróprios, como o homem-aranha a urinar na banheira da protagonista de Frozen ou um cão da Patrulha Pata a ser abalroado por um comboio, estão à distância de alguns cliques. E um estudo recente em Portugal indica que apenas um em cada dez pais monitoriza o que os filhos pequenos visualizam no telemóvel e no tablet

Um cão da Partulha Pata a ser brutalmente atropelado por um comboio e outro a atirar-se do telhado de um arranha-céus. A Porquinha Peppa a beber lixívia. Personagens de As Aventuras de Labybug a dançar no varão. O homem-aranha a urinar na banheira de Elsa, protagonista do filme de animação Frozen. O Mickey estendido numa poça de sangue após ser abalroado por um carro ou a Minnie presa pela cintura num alçapão de uma escada rolante.

Se não quer que o seu filho veja este tipo de conteúdos na Internet, o melhor é começar a prestar mais atenção aos vídeos a que ele acede a partir do telemóvel ou tablet. Disfarçados em desenhos animados que fazem as delícias dos mais pequenos, estes comportamentos violentos e impróprios proliferam na web, ao alcance de meros cliques. Obviamente, não são vídeos das séries originais, mas nenhuma criança o sabe. Se surgem na lista de recomendações, por semelhança de conteúdo, é para elas irresistível assistir a mais um episódio com as suas personagens preferidas.

“A exposição reiterada a cenas violentas, mesmo que virtualmente, gera o efeito de banalização e legitimação da violência e aumenta a probabilidade dos impactos negativos sobre o desenvolvimento cognitivo, emocional e espiritual da criança”, alerta a psicóloga Joana Garcia Fonseca. “Quando os heróis das crianças resolvem tudo por métodos violentos, elas não aprendem outra maneira de resolver os conflitos, pelo que estarão mais predispostas a reproduzir atitudes violentas no seu comportamento”, acrescenta a coordenadora da equipa técnica de Lisboa, Santarém e Setúbal da Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Proteção das Crianças e Jovens.

Esta consequência é expectável, sobretudo, em crianças que vivem em contextos familiares de agressividade e violência. “As crianças que vivem em ambientes caracterizados pelo diálogo e compreensão mútua, mesmo que também vejam programas violentos, tenderão a desenvolver um sentido crítico”, esclarece Joana Garcia Fonseca.

Quase um quarto das crianças em idade pré-escolar usa a Internet

Um estudo divulgado já este ano pela ERC (Entidade Reguladora da Comunicação Social) concluiu que 22% das crianças portuguesas em idade pré-escolar já utiliza a Internet. Até aos oito anos, a percentagem sobe para os 62%. E os desenhos animados estão entre os conteúdos mais procurados. A maior parte é inofensiva – ou pelo menos não atinge a gravidade dos exemplos citados, que chegam a ter milhões de visualizações antes de serem removidos ou etiquetados como conteúdo para adultos -, mas outros nem tanto. Por essa razão, diz Joana Fonseca, “é importante que os pais se preocupem com os programas que os seus filhos veem, da mesma maneira que se preocupam com a alimentação, o sono, a roupa, a higiene ou o cuidado com que atravessam a rua”.

Segundo o estudo da ERC, com o sugestivo título “Boom Digital? Crianças e ecrãs”, apenas um em cada dez pais monitorizam as páginas a que os filhos acedem, o que, perante estas (e outras) armadilhas pode ser visto como negligência. Na verdade, nem aplicações destinadas aos mais novos, em idade pré-escolar ou no primeiro ciclo, como o Youtube Kids, estão a salvo de recomendar conteúdos impróprios para crianças. Confiar apenas no filtro dos algoritmos é um erro crasso.

“Os pais devem conhecer os conteúdos do que dão a visualizar aos seus filhos. Se tiverem dúvidas, devem visualizar conjuntamente, a fim de poder explicar e ajudar a selecionar”, aconselha a psicóloga da comissão que zela pelas crianças, sugerindo aos pais o recurso à linha Internet segura para o esclarecimento de dúvidas relacionadas com o uso que os filhos dela fazem. Mais do que restringir o acesso, sustenta Joana Garcia Fonseca, importa “ajudá-los a saber pensar e a tomar decisões”, sendo fundamental que aprendam a distinguir o bom do mau. “Conversar com os filhos é essencial para compreenderem o que é real e o que é fantasia.” Na escola, a mensagem deve ser a mesma, de modo a reforçar o sentido crítico das crianças quando navegam no mundo virtual.

Outro ponto chave é não fazer dos ecrãs uma espécie de ama para todas as ocasiões, faça chuva ou faça sol. “Muitas vezes, os pais utilizam a televisão ou os programas disponibilizados na Internet, nomeadamente no Youtube, como babysitter. Escasseiam as alternativas de interação real da criança com o meio ambiente e com os outros. Passear, ouvir uma história, jogar um puzzle, fazer um piquenique ou, simplesmente, brincar. Quantas vezes os pais oferecem estas oportunidades de socialização e relação aos seus filhos atualmente?”, questiona a psicóloga.

 

 

 

 

Carlos Neto. “Não se pode aprisionar as crianças em férias. É preciso libertá-las para que possam viver tudo”

Julho 3, 2018 às 6:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , , , , , , , ,

© Bruno Gonçalves

Entrevista do i a Carlos Neto no dia 23 de junho de 2018.

Marta F. Reis

Começaram as férias grandes para quem não tem exames. Para o especialista em desenvolvimento infantil, são uma oportunidade para fazer reset a uma cultura de superproteção. E para os pais abrandarem

“Não podemos aprisionar as crianças e os adolescentes em casa em tempo de férias”. O conselho é de Carlos Neto, professor na Faculdade de Motricidade Humana que há mais de 30 anos se dedica à área da educação física e motora e ao papel do jogo no desenvolvimento das crianças. Com mais um período de férias grandes à porta, o investigador acredita que tentar cultivar um pouco mais de autonomia e liberdade na relação com os mais novos será benéfico para eles mas também para os pais. O objetivo é que as férias sejam um momento de prazer e descoberta e não uma “batalha campal”, a realidade de muitas famílias, lamenta. As dicas são práticas: mais contacto com a natureza e deixá-los experimentar e até fazer coisas um pouco mais arriscadas do que o costume, seja trepar às árvores, andar de skate, correr na praia com um papagaio… ou porque não acampar todos juntos este ano? A saúde física e mental de todos agradece.

É há muito tempo uma pessoa preocupada com o espaço que as crianças não têm para brincar ao longo do ano e o impacto que isso tem no seu desenvolvimento motor e psicológico. Este tempo das férias grandes pode ser usado pelos pais para as estimular?

De facto os pais deveriam encontrar soluções para reinventar o tempo de férias para os filhos. Não pode continuar a acontecer as férias serem um tormento quer para os filhos quer para os pais, que é o que muitas vezes acontece. Muitas vezes os pais até têm quase medo que chegue este tempo – durante o ano as crianças passam muito tempo nas escolas, os pais no trabalho e passam muito pouco tempo juntos e depois, quando chegam as férias, é um verdadeiro drama. Há soluções como pôr as crianças em colónias de férias que de certa forma os liberta de estarem com os filhos, mas fazer só isso por sistema não é bom.

E nem todas as famílias têm posses para isso.

Claro que isto dependerá sempre do nível sociocultural e há muitos tipos de famílias e de crianças, por isso as oportunidades serão sempre diferentes. O ponto de partida é que as crianças que agora terminam o ano escolar têm a expectativa que o tempo de férias seja agradável, prazeroso e que seja diferente do ano escolar. Sobretudo que consigam finalmente ter um tempo sem regras muito rígidas e usufruir da possibilidade de fazer coisas novas.

Tem a perceção de que hoje os miúdos chegam ao fim do ano letivo mais sedentos de férias?

Não tenho dúvidas disso. Há 30 ou 40 anos, e falo até da minha geração, temos boas memórias das férias mas o período escolar não tinha nada a ver: havia liberdade, andávamos na rua. Isto hoje não acontece, o que faz com que as crianças tenham uma expectativa maior de que o período de férias seja diferente, desafiante, misterioso. Mas também que traga um contacto mais afetivo e emocional com os pais, que haja uma vinculação afetiva emocional maior. E por isso era bom que os pais pudessem partir para férias com essa consciência e tentar corresponder a essas expectativas.

Pais cada vez mais absorvidos pelo trabalho.

Esse é o grande problema, a falta de harmonização entre o tempo passado no trabalho e em família. As férias devem ser uma oportunidade para tentar dar um pouco mais de qualidade a esta relação.

Mas há um desfasamento prático: as férias escolares duram dois meses e meio e o período normal de férias por ano de um trabalhador são 22 dias úteis.

Claro, pressupõe uma organização diferente das famílias e certamente que haverá muitas coisas em jogo até de natureza política mas, antes de irmos aí, penso que importa perceber também que é preciso respeitar a necessidade que as crianças têm de ter um tempo de intervalo da rotina para brincarem mais livremente. Diria que deve haver quatro ou cinco preocupações dos pais em tempo de férias: proporcionar situações de liberdade que sejam uma alternativa ao tempo organizado. O segundo conselho que daria aos pais é tentarem proporcionar tempos mais ativos, de relação com a natureza, e por outro lado que não seja algo muito previsível e estruturado. Os pais tentarem levar as crianças a sítios novos, conhecer o interior do país. Por exemplo acampar: o contacto com a natureza é essencial.

O campismo no passado era um clássico do verão de muitas famílias.

Sim, se calhar hoje nem tanto mas é uma forma de as crianças estarem fora do seu contexto habitual e da identidade do espaço onde vivem e basta isso para se libertarem. Também diria que há necessidade de haver atividades desafiantes e isto tanto pode ser ir a um parque aquático, uma ida à serra. Ser mais desafiante significa permitir às crianças correrem mais riscos.

Fala-se por vezes dos “pais-helicóptero”, que tentam controlar e gerir todas as experiências para que as crianças não tenham de enfrentar obstáculos. Um estudo publicado há dias concluía que este estilo de parentalidade acabava por ter um impacto negativo no rendimento escolar e nas relações sociais. É contrariar essa tendência?

Sim e isso de certa forma implica que os pais consigam reconhecer que os filhos podem ter mais autonomia do que aquela que eles pensam que têm.

Os pais tendem a menosprezar as capacidades dos filhos?

Penso que tendem a ter uma perceção diferente e o desafio está em perceber como é que as férias podem ajudar a desconstruir os medos que os pais têm em relação aos filhos. Estou a falar sobretudo nas idades mais baixas, dos 3 aos 5 e dos 5 aos oito.

Que medos são mais comuns?

Coisas tão simples como deixá-los nadar, subir às árvores, trepar.

Há pais com medo que os filhos subam às árvores?

É uma força de expressão mas é um bom exemplo daquilo que é necessário para as crianças melhorarem a sua literacia motora e as férias devem ser uma oportunidade para que isso aconteça, promovendo jogos e brincadeiras ativas. Isto pode acontecer dentro de casa mas devem poder ter uma atividade física mais intensa e ao ar livre e com a participação dos próprios pais, porque isso é importante. Neste sentido, os filhos deviam ajudar os pais a libertarem-se do peso que foi o ano de trabalho. A sociedade portuguesa anda a viver muito à pressa, há uma excitação no quotidiano que está a criar gravíssimos problemas de saúde mental e física nos adultos e nas crianças.

A neurologista Teresa Paiva, especialista em problemas de sono, já tem alertado, por exemplo, para a tendência de ter debates e programas televisivos muito acesos noite dentro, como se o dia não acabasse. É um sintoma dessa excitação?

Sim, é um bombardeamento completo e, no geral, temos uma organização do tempo cada vez mais stressante. E, portanto, o tempo de férias é uma oportunidade para proporcionar novas atividades aos mais novos mas também deve ser uma oportunidade para as pessoas aprenderem a viver mais devagar, a aproveitar o silêncio do corpo, fazerem mais reflexão e contemplação do que é a família. Este conceito de aprender a viver mais devagar é dar mais tempo para a interiorização de cada um e de consciência do que é a vinculação afetiva entre filhos e pais.

É investigador no campo do desenvolvimento infantil, sobretudo motor. Recentemente os resultados nacionais das provas de aferição revelaram que as crianças de sete anos têm dificuldades em saltar à corda e dar cambalhotas. Quão preocupantes são estes indicadores?

São preocupantes mas não podemos dramatizar. Quer o saltar à corda quer a cambalhota [provas em que muitos alunos falharam] são duas habilidades motoras complexas que só atingem o seu nível maduro por volta dos oito/nove anos. Creio que não devemos ter uma visão sensacionalista sobre os resultados porque uma criança de sete anos não terá ainda as condições para ter um êxito absoluto nestas atividades, sobretudo quando se pede algo muito estandardizado como acontece nessas provas. Disto isto, os indicadores de fundo dados pelas provas de aferição é que podem ser considerados mais preocupantes: temos um sedentarismo implantado nas nossas crianças, principalmente nas primeiras idades. Digo-o há mais de 20 anos: temos tido um progressivo declínio do jogo e da atividade física.

Em Portugal em particular?

É um problema dos países mais desenvolvidos. E, ao mesmo tempo, o que vimos nas últimas décadas foi um aumento das desordens do foro mental: ansiedade, depressão, hiperatividade, défice de atenção e até da taxa de suicídio na passagem da adolescência para a idade adulta. Estas transições de ciclo de vida são sempre difíceis, mas a cultura do tudo dado e tudo pronto na hora para as crianças não favorece a sua capacidade de adaptação motora, cognitiva, social e emocional.

Acaba por ser um ciclo vicioso.

Sim. Temos uma superproteção patológica que não cria condições para que as crianças possam ter uma capacidade criativa e de adaptação, que leva os pais a protegerem-nas mais. E isso é o grande problema da sociedade atual em relação às culturas de infância. Só há uma solução: no período escolar e sobretudo nos períodos de férias, proporcionarem-lhes atividades para que essas competências motoras, sociais e emocionais possam ser valorizadas. É dar mais tempo de informalidade e imprevisibilidade e deixar que as crianças possam encontrar o seu caminho. Deixe-me usar este termo: é deixar as crianças fazerem coisas ‘malucas’, deixar os miúdos ter o skate, os patins, a bola, o papagaio, e deixá-los enriquecer o seu vocabulário motor e social à vontade.

Em Portugal há uma percentagem elevada de criança em risco de pobreza e exclusão social, mais de um quarto. Estão particularmente vulneráveis?

Sim, mas às vezes as crianças que vivem em meios empobrecidos têm mais oportunidades de brincar de forma livre do que as que vivem em meios socioeconómicas mais elevados mas estão sujeitos a uma superproteção inaceitável. E aos medos dos pais. Temos de desconstruir os medos dos pais, é algo absolutamente urgente na sociedade portuguesa, as famílias andam cheias de medos e isso leva a que as crianças não tenham autonomia, mobilidade e, por fim, participação.

Como é que os pais devem gerir as tecnologias nesta altura do ano? Mais liberdade também pode significar mais tempo para usar tablets e afins…

Penso que deve haver um decréscimo durante o tempo de férias de tudo o que sejam equipamentos digitais, telemóveis, tablets, televisão. Não diria impor: se dizemos que é um tempo de liberdade, não podemos impor, mas podemos negociar. Vamos negociar com os filhos reduzir o tempo dedicado a estes aparelhos, passar de ter o tempo todo ativo na ponta dos dedos para o tempo ativo nos pés.

Mas há algum limite adequado?

Diria que até aos cinco, seis anos não devem usar mas a partir dos sete já todos os miúdos têm telemóvel. A questão dos limites tem sobretudo a ver com o exemplo dos pais.

Se passarem os tempos livres agarrados aos telemóveis, os miúdos vão copiar.

Sim. É toda a gente perceber que as férias saudáveis incluem menos tempo só agarrado aos equipamentos digitais. Não quer dizer que não se usem: um GPS pode ajudar a criar um desafio na natureza.

Há professores que partilham que, por vezes, há pais que não querem que a escola feche num feriado ou numa ponte, insistem em ter onde deixar as crianças mesmo que até estejam de folga.

Sim, querem ter os filhos ocupados.

Imagina que, continuando assim, vamos chegar a uma altura em que se tornará incontornável reduzir a duração das férias grandes?

Penso que tudo vai depender da evolução da lei laboral. Hoje existe uma assimetria muito grande entre os países do norte da Europa e os do sul em relação à organização do tempo de trabalho e já seria tempo de Portugal alinhar pelas políticas públicas que dão valor à qualidade de tempo familiar, sobretudo às famílias que têm filhos. Não iria por mais tempo de férias, o que é preciso mudar é o tempo que os pais têm disponível para os filhos e isso passa sobretudo por uma flexibilização dos horários de trabalho, poder sair-se às 16h, 16h30. Nos países do norte da Europa os pais saem do trabalho para ir buscar os miúdos à escola com toda a naturalidade. Aqui agora até se está a pensar na escola a tempo inteiro para o 2.º ciclo, o que para mim é um escândalo. Ter crianças dos 10 aos 12 anos na escola todo o dia não faz sentido.

O que diz é que mesmo estando a trabalhar, se os pais saíssem mais cedo podiam dar outro acompanhamento aos filhos no período de férias.

Sim, mesmo que pudesse haver mais ou menos dias de férias, seriam um fardo menor. Tenho a sensação de que hoje em dia as crianças chegam ao fim de férias com uma certa frustração: não fizeram o que estava nas suas expectativas. E era bom que quando chegassem ao novo período escolar em setembro pudessem ir com a sensação de que viveram um período de férias de forma tão intensa que então vale a pena voltar à escola para aprender. Isso não acontece na maior parte dos casos. As férias devem ser uma oportunidade para os pais conhecerem melhor os seus filhos, aprender a controlar o medo, incentivando as brincadeiras mais arriscadas fora de casa, percursos de autonomia fora de casa, não têm de os acompanhar sempre, mas estar presentes. Não estou a dizer coisas extraordinárias, às vezes é simplesmente passear. Há crianças que nunca saíram de casa à noite com os pais para dar uma volta, descobrir a cidade, a aldeia, a vila. Deve ser um tempo também para os pais gostarem mais de serem pais.

Essas experiências de brincadeira e autonomia vão refletir-se mais tarde no desempenho escolar?

E não só. Hoje não há dúvidas sobre isto: quase todos os indivíduos que tiveram sucesso, foram felizes e empreendedores, tiveram infâncias felizes.

Há aquela ideia de que, por vezes, depois das férias até há mais separações: as pessoas não estão habituadas a tanto tempo juntos.

Não tenho dúvidas: há pais e crianças que vêm das férias completamente exaustos e temos de conseguir inverter isto. Mas isso tem a ver com os pais não estarem habituados por um lado mas também não conseguirem perceber que as férias podem ser tempo de liberdade, de autonomia, de descoberta.

E os primeiros excessos? Nas festas da aldeia, por exemplo, começa-se a beber muito cedo, aos 13, 14 anos

É uma outra realidade, mas hoje muitas dessas diferenças que existiam entre a infância no meio rural e no meio urbano estão esbatidas. Hoje os jovens fazem exatamente a mesma coisa e até há estudos que indicam que as crianças de meios rurais têm maior exposição à televisão do que nos meios urbanos.

Os namoros de verão são outro clássico. É outro campo em que os pais não devem coartar demasiado a liberdade dos jovens?

Deve haver com certeza responsabilidade e regras, mas deve haver oportunidade para isso. Costuma-se dizer que a adolescência é a idade esquecida. Hoje temos políticas para a infância, até para os idosos mas não há nada para os adolescentes, que é uma fase central no desenvolvimento. Os adolescentes precisam de experimentar desafios que não são só físicos mas também de natureza emocional. Ninguém esquece os seus amores de verão e os pais também não os devem esquecer e é natural dar mais liberdade aos adolescentes nas ferias. Deve haver algum controlo mas nada de muito sofrido ou patológico: não se pode aprisionar as crianças e os adolescentes em férias, é preciso libertá-los para que possam viver tudo, inclusive o seu corpo.

Os mais cautelosos argumentarão que o mundo mudou nas últimas décadas, que está mais perigoso.

Sim, mas por vezes há uma perceção errada dessa mudança. Portugal é um dos países mais seguros do mundo. Basta ver o turismo que temos, a forma como o país é amado por quem chega cá. Muitas vezes há uma perceção errónea na cultura portuguesa e nas famílias no geral de que somos um país com problemas de segurança quando, pelo contrario, somos um dos países mais seguros.

Não há mais perversidade?

São os tais medos que se instalaram na cabeça dos pais e, seja como for, as crianças e os jovens têm de saber como reagir às situações.

Que conselhos práticos se pode dar às famílias que agora começam a estruturar as férias? Faz sentido planear as semanas para incluir diferentes atividades, fazer um programa do verão em família?

Acho que pode ser interessante, mas com uma condição: com a participação dos filhos. Deixar que os filhos sugiram as atividades que querem fazer, dar-lhes ouvidos. É uma excelente ideia. Era o que se devia fazer mais nas escolas e não se faz, porque os professores impõem quase tudo. Temos de passar de uma cultura de imposição para uma cultura de participação. Mas, essencialmente, é tentar fazer tudo para inverter os indicadores que mais nos preocupam: cada vez há mais obesidade, mais diabetes. Temos de dedicar mais tempo ao exercício físico, comer melhor, guardar tempo para o descanso.

Guarda boas memórias das suas férias grandes?

Sim, ainda hoje. Acabávamos a escola e havia um período em que os pais ainda estavam a trabalhar, por isso passávamos a maior parte tempo na rua.

Em Lisboa?

Cresci em Leiria, uma cidade maravilhosa, com castelo, rio, tudo o que precisávamos. Mal acabava a escola era uma libertação enorme. Depois vinha a altura de ir para a praia, conhecer novos amigos. Andávamos 15 dias a um mês na praia, com dias muito intensos. Nadávamos, jogávamos à bola. Jogar à bola na praia ou mesmo andar é um desafio fabuloso em termos de educação motora, é um desafio em termos de equilíbrio e adaptação e isto para as crianças pequenas é um estímulo muito bom. Isto além do iodo e do próprio contacto com a água do mar, que é revigorante e ao mesmo tempo uma forma de acalmar. Precisamos urgentemente de estratégias para que os corpos acalmem. Mas as minhas memórias são isto: a liberdade que tínhamos, a autonomia e alegria. A melhor recordação que tenho era não gostar que chegasse a noite porque sabíamos que íamos ter de ir dormir. E ter de ir dormir era improdutivo.

Mas adormecia num instante, não?

[Risos] Verdade, quanto mais cansados melhor é para adormecer. Mas a sensação de que ir dormir é uma chatice, uma perda de tempo, significa que tivemos um dia feliz. E é uma sensação que acho que hoje as crianças não têm. Às vezes veem-se famílias em férias que mais parece uma batalha campal. Torna-se cansativo porque já ninguém está adaptado a ninguém e ao mesmo tempo há cada vez mais uma cultura egocêntrica que faz com que os pais já não tenham o hábito de estar com os filhos a tempo pleno. Costuma-se dizer que cada um de nós tem uma criança dentro de si. Não iria tão longe, mas certamente cada um de nós tem memórias da sua infância. Era preciso retomá-las para descobrir a forma como devemos passar as férias com os filhos.

 

 

 

O que acontece quando os pais trocam os filhos pelos smartphones

Junho 21, 2018 às 12:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , , , , , , , , ,

Photo by rawpixel on Unsplash

Notícia do Diário de Notícias de 14 de junho de 2018.

Profissionais de saúde infantil contam ao DN que há pais que não conseguem parar de utilizar os dispositivos eletrónicos nem quando vão às consultas com os filhos

Frustração, birras, queixas, amuos. É este o resultado da “tecnoferência”, ou seja, da interferência que a tecnologia tem nas relações familiares. De acordo com um estudo feito por investigadores dos estados do Illinois e Michigan (EUA), quando os pais passam muito tempo a ver televisão ou agarrados aos smartphones durante as refeições e nos momentos de brincadeira, as crianças tendem a mostrar comportamentos problemáticos, maior frustração e hiperatividade. A longo prazo, alertam, as relações podem ficar comprometidas.

A questão já se colocava com a televisão, mas os dispositivos móveis vieram agravar o problema. Segundo a Science Daily, os investigadores acompanharam 172 famílias com filhos de cinco anos ou mais novos durante dois anos. Na grande maioria das famílias, um ou mais dispositivos eletrónicos interrompiam a interação pais e filhos em algum momento do dia. Enquanto estavam absorvidos pelos ecrãs, os pais conversavam menos e reagiam mal quando as crianças tentavam obter atenção.

“O bom senso já nos dizia que isto acontece, mas é bom que haja estudos que o demonstrem. O facto de os pais estarem muito agarrados aos ecrãs vai prejudicar as relações com os filhos”, admite o pediatra Hugo Rodrigues. Nessas alturas, explica, “os filhos sentem que os pais não estão genuinamente interessados neles, em brincar com eles. Não chega estar ao lado”.

Para “ativar os adultos”, as crianças têm comportamentos desajustado: “Se os pais não lhes prestam atenção, elas desviam-lhes a atenção dos ecrãs com maus comportamentos”. À pergunta sobre se estas situações são comuns, a resposta é afirmativa. “Basta olhar à nossa volta, nos transportes públicos, nos restaurantes. Sempre que se veem famílias com crianças, há uma alta probabilidade de pais e filhos estarem agarrados ao ecrã”.

Impacto a longo prazo

O estudo publicado na revista Pediatric Research tinha como objetivo examinar o impacto que os dispositivos eletrónicos têm na paternidade e no comportamento das crianças. Entre as conclusões, os investigadores dizem que a tecnologia pode influenciar negativamente as relações entre pais e filhos a longo prazo.

Inês Afonso Marques, responsável pela área infantojuvenil da Oficina de Psicologia, diz que “pode levar a um fenómeno de desamparo aprendido”. Se for muito repetido, explica a psicóloga, “há um desligamento entre pais e filhos que não tem um impacto positivo nas relações”. Estas, prossegue, “fazem-se de contacto físico, ocular”.

Nas sala de espera do consultório, Inês Afonso Marques vê frequentemente “crianças e pais agarrados ao telemóvel”. E até mesmo dentro do consultório. “Há pais que não conseguem não olhar para o smartphone na consulta. Qual a mensagem que passam aos filhos? Que eles não são assim tão importantes?”

A mesma situação é relatada ao DN pela pedopsiquiatra Ana Vasconcelos: “Vejo pais a mexer nos telemóveis enquanto converso com eles e com os filhos”. Segundo a especialista, estes têm caraterísticas semelhantes às de muitas crianças: “Têm de estar sempre ocupados com algo que lhes preencha o espírito, caraterísticas do défice de atenção e da hiperatividade”.

Ao passarem muito tempo focados nos ecrãs, Ana Vasconcelos diz que os pais “não são a bússola empática para guiar os filhos, e as crianças ficam em auto-gestão”. Paralelamente, há ambientes familiares “de grande tensão”.

Falta consciência

Da parte dos adultos, não haverá consciência do tempo que dedicam às novas tecnologias. “Os pais tentam cada vez mais regular o tempo que os filhos passam nos dispositivos, mas não o que eles passam ligados”, adianta a psicóloga Cátia Teixeira. É preciso, frisa, que tenham consciência de que são modelos. “Se o modelo de relação é mais distante, isso terá as suas consequências”, assinala.

Segundo os investigadores, a situação complica-se porque há um ciclo vicioso: há pais que se refugiam na tecnologia dos comportamentos problemáticos dos filhos, dando menos atenção às crianças, o que vai gerar mais comportamentos desajustados.

 

Mais informações na notícia:

Digital devices during family time could exacerbate bad behavior

 

Daniel Sampaio: “Vivemos uma espécie de Big Brother familiar, todos a vigiarem-se uns aos outros”

Junho 4, 2018 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , , , , , , , ,

Entrevista do Observador a Daniel Sampaio no dia 22 de maio de 2018.

Ana Kotowicz

Pornografia, sexo, álcool, saídas à noite. As maiores preocupações dos pais estão no livro de Daniel Sampaio, no qual pede aos adultos que repensem a forma de comunicar com os filhos adolescentes.

“Deixe-me contar-lhe uma história curiosa…” Daniel Sampaio, que já a seguir nos vai falar sobre O homem que matou Liberty Valance, abriu-nos a porta de sua casa para conversarmos sobre o seu mais recente livro, “Do telemóvel para o mundo: pais e adolescentes no tempo da internet”. O título, como se vê, é auto-explicativo.

Ao longo da conversa, vai partilhando vários episódios do seu dia a dia, embora dizendo que não valem a pena ser referidos nesta entrevista. Este é um deles: “Ontem à noite vi um filme antigo, gosto muito de ver filmes antigos, e entrava o Lee Marvin, um ator de filmes duros. E eu lembrei-me de uma cena de outro filme em que o Lee Marvin atira um café a ferver para cima da namorada e ela aparece com uma cicatriz. Aquilo impressionou-me muito quando vi. Andei à procura na internet e descobri o nome da atriz e o filme onde isso se tinha passado. Isto é uma coisa maravilhosa, é uma recordação minha, antiga. O filme é de Fritz Lang, um filme muito antigo, e eu jamais encontraria esta cena numa enciclopédia de cinema.”

Com este exemplo, o professor de psiquiatria jubilado, de 71 anos, quer exemplificar aquilo que tenta dizer aos pais dos adolescentes no seu 27.º livro: as vantagens da internet superam largamente os riscos. Riscos, como diz, existem em todo o lado, “até quando usamos uma faca”. Frontalmente contra que as famílias se espiem na internet, defende que o importante é saber utilizar esta tecnologia e não deixar que ela se torne motivo de conflito. “Sabe… tenho consultas que nada têm a ver com psiquiatria. As pessoas não estão doentes, estão só a gerir mal a comunicação na família”, diz, sentado no sofá do seu escritório em casa, ao mesmo tempo que faz questão de lembrar que é psiquiatra e não psicólogo. Pelos últimos tem muito respeito, é até a profissão do seu filho, mas ele, Daniel Sampaio é psiquiatra com muito orgulho.

Do seu lado esquerdo vê-se um quadro do surrealista português Raúl Perez que mais tarde irá sugerir ao fotógrafo que aproveite para o enquadramento do seu retrato. “Já sei que o escritório tem pouca luz e que o espaço é pequeno. Também já sei que pestanejo muito. Mas não quer aproveitar este quadro? É surrealista, é lindo, é a melhor peça que tenho cá em casa.” Quanto ao início da conversa, e ao duro Lee Marvin, também nós fomos à internet. O filme de Fritz Lang, de 1953, chama-se Corrupção (Big Heat) e a namorada é Gloria Grahame. A partir daqui, a conversa começa e acaba nos telemóveis e na Galáxia Internet.

Posso deixar aqui o telemóvel? O meu colega fotógrafo vai avisar quando estiver próximo de nós.
Claro que sim. O meu está aqui [diz, pondo a mão no bolso]. Os telemóveis hoje fazem parte de nós, vão connosco para todo o lado.

Nem de propósito, é mesmo sobre telemóveis que vamos falar.
Vamos lá, então.

Nós, como diz, andamos sempre com o telemóvel atrás. Mas como é que devemos agir quando os miúdos nos começam a pedir o telefone?
Quando as crianças começam a exigir — e a palavra é mesmo exigir — é importante que nos sentemos ao lado deles a dizer desde muito cedo: “O que é que estás a ver?”, “Como é que estás a jogar este jogo?”, “Olha que não deves estar muito tempo com esse jogo, vamos interromper, vamos jogar um jogo de tabuleiro, vamos para a rua”. É importante introduzir a ideia de que o telemóvel é para usar durante um curto período de tempo. Mas se deixarmos uma criança sozinha com um tablet como vemos hoje, enquanto os adultos vão fazer outra coisa, passamos a mensagem errada. Hoje estive com uma pessoa que me disse que uma criança com um ano já tem uma grande apetência para pedir o telemóvel. E os pais dão-lho porque para eles o telemóvel é completamente banal. Nós adultos estamos sempre com o telemóvel.

Estamos a falar de crianças de 5, 6, 7 anos?
Ou menos, mesmo com 4! Se observar nos restaurantes, é muito frequente ver crianças de 4 anos com um ipad na mão enquanto os pais ou estão no telemóvel ou estão a comer, não é?

Ainda há dias assisti a isso. Era uma criança que teria uns dois anos, no máximo, e a mãe ainda antes de vir a refeição, preparou o tablet com uns desenhos animados e durante todo o tempo em que esteve a dar de comer à criança, ela esteve a ver o que se passava no tablet.
Seguramente que isso se passa em casa também. Temos de evitar que a criança se habitue a estar a fazer outras coisas enquanto está no tablet. Temos de evitar que ele seja utilizado como uma ama eletrónica. O que estamos a pedir é que seja o dispositivo a tomar conta da criança.

Às vezes, os pais estão desesperados…
Sim, claro, se for por um curto período não tem qualquer problema. Aliás, não há qualquer problema na utilização do telemóvel se tivermos a ideia de que tem de ser um curto período de tempo e de que aquelas horas de que eu falo no livro, que são horas fundamentais para os jovens e a família, sejam preservadas: a hora do pequeno-almoço, a hora de chegar a casa, a hora de jantar e a hora de deitar. Depois pode haver muita abertura… Mas é importante perceber que é preciso ensinar a fazer uma boa utilização quando se dá um telemóvel a uma criança de 10 anos.

“Uma criança com um telemóvel antiquado vai ser alvo de piadas”

É essa a idade certa para a criança ter o seu primeiro telemóvel?
É a altura que eu acho que é adequada. Mas deve dar-se um smartphone, não se deve dar um telemóvel de teclas, porque isso vai fazer com que sejam gozados na escola. Temos de perceber que se damos um telemóvel antiquado a uma criança de dez anos, que até poderia ser adequado para a idade, ela é automaticamente alvo de piadas na escola.

Mas a pedagogia do telemóvel não pode começar só aos 10 anos, pois não?
Não. A pedagogia do ecrã começa com a televisão. Os adolescentes não vêem televisão praticamente nenhuma e se precisarem vêem no telefone. Mas as crianças vêem. Podemos começar a pedagogia do ecrã desde muito cedo para que elas saibam ver televisão moderadamente e para, mais tarde, quando entrarem em contacto com o computador e o telemóvel, também os saberem utilizar de uma forma correta.

A televisão pode então ser uma preparação para mais tarde saberem usar um telemóvel?
É essa a ideia.

E o que devem os pais fazer nessa altura?
Restringir o tempo. No livro, tenho a certa altura uma proposta que não é minha, é do Serge Tisseron [psicanalista], sobre a utilização dos ecrãs. Eles começam com desenhos animados na televisão. Devem ver durante um curto período e não estar muito tempo a ver televisão para criar, desde logo, a ideia de que qualquer visionamento tem de ter uma regra de utilização. O que é fundamental é criar nas crianças e nos jovens a ideia de uma boa utilização. A internet é uma coisa maravilhosa se for bem utilizada.

A internet tem esse lado óptimo, um estudante pode ver uma palestra que se está a passar do outro lado do mundo e já ninguém procura enciclopédias de papel.
Isso é muito importante. Tenho ali uma Enciclopédia Larousse, muito boa, mas que já ninguém utiliza. A internet tem esta coisa maravilhosa, abre para o mundo, permite aumentar o conhecimento, marcar uma viagem, marcar um restaurante, um encontro amoroso… Sou contra que se diga que a internet é uma coisa má. Tem riscos, mas qualquer coisa tem riscos. Uma faca pode ter riscos. É preciso é interiorizarmos esta ideia, desde muito cedo, de que a internet onde eles todos vão viver é uma coisa extremamente positiva, desde que bem utilizada.

É uma porta para o mundo, como diz no livro?
Essa é a perspetiva que tem de ser dada. Porque, se não é trabalhada na infância, transforma-se num instrumento de poder de filhos contra pais. Depois os pais têm necessidade de repor o poder na família e vivemos uma espécie de Big Brother familiar, o Orwelliano, no sentido do livro “1984”, não no sentido da TVI. Tudo a vigiar-se uns aos outros.

Vê isso acontecer nas famílias, essa vigilância excessiva?
O que se passa em algumas famílias é muito preocupante: é a entrada nos telemóveis dos filhos, a vigilância constante do computador de casa, o tal Big Brother Orwelliano. E esse é o principal motivo para não haver confiança entre pais e filhos, porque as pessoas passam a vida a vigiar-se umas às outras. Há casais que também se espiam no telemóvel. Mas quando os pais entram no telemóvel dos filhos, depois ficam prisioneiros por que não podem confessar que o fizeram. Descobriram coisas que não gostaram.

E depois o que é que os pais fazem com a informação que recolheram dos telemóveis dos filhos? 
Não conseguem fazer nada. Esta semana tive uma consulta onde estava um rapaz de 14 anos que frequentava sites pornográficos — muito frequente nestas idades — e o pai marcou uma consulta para lhe poder dizer que estava a espiar o telemóvel. A consulta foi muito difícil, porque o filho tomou consciência de que o pai andava a entrar-lhe no telemóvel e ficou extremamente zangado. Tive de trabalhar o conflito, porque o pai ficou preso à sua informação.

Então como é que se pode fazer de outra forma?
Através da confiança. Através de o pai e a mãe estarem habituados a partilhar o mais possível aquilo que os filhos fazem nos ecrãs. Claro que há sempre uma zona que os filhos não vão partilhar, mas se houver algum problema significativo, o filho que está habituado a partilhar os problemas com os pais desde o princípio vai fazê-lo.

“Quando os filhos sabem mais do que os pais, o poder na família é abalado”

Diz-nos no livro que, pela primeira vez, e falando dos telemóveis, os filhos sabem mais do que os pais. Isto cria conflitos na família?
Esse é um ponto fundamental. Escrevi este livro porque sei que há muitos conflitos na família a propósito da internet e do telemóvel. Foi o ponto de partida. Ao longo da história, as gerações mais velhas sempre tiveram maior experiência de vida e souberam mais do que os filhos em praticamente todas as circunstâncias. Pela primeira vez com estas novas tecnologias — que não são tão novas assim, mas continuamos a chamá-las novas — os filhos têm um conhecimento maior de que os pais, sabem mais. Isso faz com que a situação de poder na família, que deve estar sempre do lado dos pais, seja abalada. Donde, uma advertência dos pais aos filhos é rejeitado com a expressão “não sabes nada disto”. E é mesmo esta a expressão que se usa. Não sabes nada disso. Isto gera um desequilíbrio de poder que tem sido fonte de conflitos.

E os pais estão preparados para esta inversão de papéis?
Os pais estão a preparar-se, sobretudo os mais novos. Os pais das crianças estão mais preparados e há uma grande diferença entre eles e os pais dos adolescentes, que têm 45 anos aproximadamente. O que está a acontecer é que a partir dos conflitos de utilização do telemóvel, começam a surgir outros problemas na família que têm a ver com a intimidade, com a privacidade, com a gestão da hora do sono, com a relação com os amigos… Problemas que foram levantados por uma situação que devia ser banal na família e que é a autoregulação da internet.

Está a fazer uma diferenciação entre pais de adolescentes e de crianças. O nível de problemas tem também a ver com o conhecimento que os próprios pais têm das tecnologias?
Claro. Os pais mais novos têm mais experiência, mais conhecimento, estão mais à-vontade e isso facilita. Os pais das crianças atuais estão mais alerta para o problema e quando esses filhos chegarem à adolescência poderão gerir melhor a situação. Muitas vezes o que aconteceu foi que os pais não fizeram nada durante a infância, deram o telemóvel aos filhos aos 10 anos, e continuaram sem fazer nada. Depois surgem os problemas.

Se não os ensinamos a pôr a roupa suja no cesto quando têm 5 anos, não vão passar a fazê-lo só porque um dia fizeram 15 anos. É isso?
Sim, como a história da cadeira que quase todos têm no quarto, onde deixam a camisa usada para vestir noutro dia. Um dia vou escrever sobre isso. Esta regra tem de ser explicada na infância, que a roupa não fica atirada, tem de ser arrumada. Ou seja, uma adolescência saudável ganha-se na infância. É muito importante passar essa mensagem. As pessoas dizem: “Não deu problema nenhum na infância, mas agora está a dar.” É verdade, mas na infância os pais tinham uma grande possibilidade, um grande poder sobre a criança. Depois perdem poder, perdem autoridade. Se as regras não estão interiorizadas, é muito mais difícil na adolescência conseguir isso.

Ou seja, os pais não podem esperar que um dia os jovens passem a respeitar regras que nunca lhes ensinaram na infância. É isso que quer dizer?
Sim, sim. Há outra coisa a propósito disso. É a ideia de que a adolescência é uma fase em que vai haver muitos problemas, mas vai passar. Essa é uma ideia errada. A adolescência, de facto, tem problemas, mas se não tivermos uma intervenção nos problemas, não vai passar. Pelo contrário, vai-se agravar. Como sabemos que a adolescência se prolonga, muitas pessoas chegam à idade adulta com problemas que podiam ter sido resolvidos antes. Deve-se intervir. Os pais devem ter uma atitude muito presente, bastante assertiva, com envolvimento. E isso é muito mais fácil se tiver havido essa relação na infância.

No livro usa a imagem de que os pais devem ir sentados no banco de trás do carro durante a adolescência dos filhos.
É uma metáfora que funciona bem. Primeiro, os pais devem conduzir o carro, depois devem passar para o lado do volante quando ele fizer 18 anos e começar a conduzir, e depois devem ir no banco de trás. Significa que temos sempre de acompanhar a vida dos filhos, mas que o controlo que vamos exercer é menor à medida que eles vão avançando na idade. Os pais nunca podem achar que os filhos podem estar sozinhos — aquilo a que eu chamo a educação indulgente, que é deixar fazer tudo, não haver vigilância nenhuma —, mas também tem de haver envolvimento afetivo.

A tal parentalidade construtiva de que fala?
Quando introduzo o tema da parentalidade construtiva, que é baseado em muitos estudos, não quis maçar o leitor com muita informação, mas há dados consistentes que dizem que se os pais tiverem uma atitude com autoridade, sem autoritarismo, e ao mesmo tempo estiverem envolvidos afetivamente, se partilharem a vida dos filhos, se forem acompanhando, se se interessarem, esta parentalidade é mais eficaz e funciona como modelo. É muito provável que esses filhos quando forem pais tenham esse modelo apreendido. Se os pais forem muito autoritários, ou pelo contrário muito permissivos, é muito pouco provável que funcione.

Aliás, diz isso no livro, que o tipo de parentalidade que exercemos influencia de forma determinante a adolescência.
Não é só os anos da adolescência. Há estudos que dizem que influencia também as gerações seguintes, porque esse modelo, apreendido pelo adolescente, vai ser posto em prática quando ele, mais tarde, for pai ou mãe.

“É utópico pensar que um rapaz de 16 anos não vai beber”

Até porque quando somos pais acabamos por ir buscar memórias de que não nos lembrávamos há anos, não é?
Começando logo pelo parto. As mulheres lembram-se sempre das suas mães na altura do parto, é muito frequente. E quando não têm uma boa relação com a mãe é mais difícil. Os avós também são cada vez mais importantes, vivem mais tempo, têm mais saúde e há muitos divórcios. É um papel muito significativo, como o dos padrastos e das madrastas, a quem se deve tirar a carga negativa, porque em muitos casos são extremamente importantes e positivos para os adolescentes. O importante é ter adultos disponíveis por perto dos adolescentes. As pessoas pensam que os jovens não gostam de falar com adultos e isso não é verdade. Os jovens gostam de falar entre si, mas gostam de ter momentos com os adultos.

Por falar na conversa com os adultos, no livro diz que não faz sentido estar a maçar os adolescentes com conversas muito longas…
As chamadas conversas à séria… Foi um amigo do meu neto que me inspirou, tem 18 anos. Ele dizia: “Eu ficava logo nervoso quando os meus pais diziam que íamos ter uma conversa séria.” Sobretudo no campo da sexualidade. Daí a pequena conversa: um pequeno acontecimento de vida que é comentado, uma série que se está a ver e que serve para uma pequena conversa. Quando a filha fala dos amigos e diz, por exemplo, a Carolina está grávida… Bom, isto é uma mensagem que quer dizer que ela própria está a iniciar a vida sexual e que está com esse problema. Temos de captar essas mensagens e usar esses momentos em vez daquela coisa antiga, que alguns pais ainda tentam, que é ter uma conversa muito a sério sobre a pílula ou as drogas. Nada disso funciona. Funciona a pequena coisa. “Vais sair à noite, já sei que vais beber. Mas o que deves fazer em relação ao beber? Beber pouca quantidade, beberes água e comeres antes de sair.” São três coisas fundamentais.

E isso chega?
Não chega, porque há excessos. Não digo que isto, do álcool, não é um problema. Mas é mal abordado. Para já, a grande maioria dos jovens não se vai tornar alcoólico como às vezes oiço dizer. Eles bebem em excesso e isso não é bom, mas é preciso desdramatizar o consumo e dar-lhes regras de utilização. É utópico pensar que um rapaz de 16 anos vai sair à noite e não vai beber. Se o pai lhe diz para não beber, perde autoridade. É preferível não dizer. O que deve fazer é ensinar-lhe as regras fundamentais: comer, não ter o estômago vazio, beber água, beber com moderação e não misturar as bebidas. Quando o adolescente está a sair e vai cheio daquele entusiasmo é preciso lembrar estas regras.

Essa pequena conversa funciona melhor do que sentá-los para a conversa séria?
Funciona melhor do que a dos perigos do álcool, dos jovens que acabam na esquadra ou em coma alcoólico. Eles já sabem isso tudo. O que é preciso é saber beber.

Esse estilo de conversa passa também por falar com os filhos através de mensagens ou WhatsApp?
O mais possível. É uma ferramenta que é extremamente importante e que é a comunicação instantânea. Sem ter a preocupação de estar sempre a controlar, mas ter alguma noção de onde eles estão e o que estão a fazer. Em relação aos meus netos, que me introduziram no WhatsApp, foi muito bom. Mas disseram-me: “Instagram não, avô. Não é para ti.” Mas o WhatsApp é muito bom porque podemos comunicar.

E se calhar os adolescentes respondem mais depressa a uma mensagem do que a 4, 5 ou 6 telefonemas, não é?
Completamente. Eles não gostam muito de falar ao telefone, a não ser quando namoram. Eles próprios comunicam muito rapidamente. Eles não gostam de conversas prolongadas. E os pais, a falar com eles, dizem: “Como foi a escola? Já lanchaste? Trouxeste o caderno? Ligaste à avó?” E eles respondem com monossílabos: “Sim, pai, sim, mãe.”

É o nagging de que fala no livro?
nagging é o ralhar persistente. É muito importante deixá-los descontrair um bocadinho quando chegam a casa e isso pode passar pela ida ao computador, ao telemóvel e à internet. Não faz mal nenhum. Não se deve começar logo a dizer tens de estudar, tens teste amanhã, vai tomar banho… Este tipo de persistência, o nagging, nos jovens de hoje que são mais cientes dos seus direitos, vai provocar uma contra-reação.

Essa é uma das grandes angústias dos pais de adolescentes, a perda do controle?
Sim, é o grande problema. Antes, quando os filhos ficavam na casa de um amigo, era muito fácil saber o que se passava. Telefonava-se à mãe do amigo. Hoje, o mundo é diferente, é a tal Galáxia Internet do Manuel Castells [sociólogo espanhol]. Os pais não sabem o que se passa: se eles estão a ver pornografia, se estão num site perigoso, se estão a dar elementos de identificação a um estranho… Há novos riscos, mas eles só se podem obviar com confiança.

“A confiança nas famílias é mais importante do que o diálogo”

A confiança é fundamental no mundo de hoje?
É, é a palavra-chave. A confiança nas famílias é mais importante do que o diálogo. Se vir os meus livros anteriores, eu falava muito no diálogo. O que tenho vindo a perceber é que a palavra-chave, neste momento, é a confiança. Tem de haver confiança entre as gerações. Por isso é que sou completamente contra que se espie o telemóvel, ou que se entre no quarto de um adolescente sem bater à porta. É preciso que os pais se habituem a conceder alguma privacidade, mas também é importante os filhos perceberem que estão numa casa de família e têm de ter respeito pelas convicções dos pais. Eles têm de ter o seu território privado, que é o seu quarto, mas o quarto não está fechado em relação ao que se passa à volta.

Mas os adolescentes são desconfiados por natureza…
São desconfiados porque têm muito receio de ser controlados. E quando temos só a perspetiva do controlo, sem envolvimento, o controlo torna-se excessivo e eles ficam muito preocupados com isso. Por isso é que digo sempre que é preciso tender para a autonomia. E como se vence a desconfiança? Com confiança. Parece uma coisa de La Palice, mas é verdade. Se temos uma relação de abertura — há coisas que nos vão sempre escapar como pais — mas, de uma forma geral, as coisas correm bem.

Estes pais que agora vão espreitar os telemóveis dos filhos são os mesmos que há uns anos não gostavam que as mães lhes fossem ler os diários…
Não tinha pensado nisso, mas sim, é o correspondente. Lembra-se que os diários tinham uma chave? Uns livrinhos muito bonitos, mais para as raparigas do que para os rapazes, mas tinham essa pequena chave que depois se escondia. É a mesma coisa. Havia mães que às vezes até tentavam arrombar a fechadura. É a mesma coisa, mas muito ampliada porque a internet é uma coisa muito constante.

Faz sentido sermos amigos dos nossos filhos nas redes sociais?
Acho que se pode ser amigo, mas sem ter a preocupação de controlo excessivo. Por outro lado, toda a excessiva camaradagem entre pais e filhos não é uma coisa boa, é preciso saber-se separar o que é ser pai do que é ser pai camarada. No livro conto a história de um pai que fumava charros ao pé do filho. Isso é o pai camarada e o pai camarada perde autoridade. Não é suposto sermos amigos dos nossos filhos, somos pais. Evidente que há pais amigos, mas não somos os amigos deles. A partir dos anos 1980, as gerações tornaram-se mais próximas e os pais de hoje — o Eduardo Sá diz isso e eu concordo — são muito próximos dos filhos. Isso é muito bom do ponto de vista dos afetos. Mas há o reverso, o excesso de camaradagem com a respetiva perda de autoridade. E é preciso recuperar a autoridade, mas não passa pelo regresso do não… não é isso. O caminho é a confiança e caminhar lado a lado com os filhos desde a infância.

Mas é preciso dizer não de vez em quando?
É preciso dizer não muitas vezes, mas tem muito mais força dizer não se se tiver uma relação de confiança com os filhos.

Em relação aos pais que são amigos dos seus filhos nas redes sociais, temos de pensar bem nos comentários que fazemos?
Claro que sim. Não se deve fazer comentários, devemos evitá-los, tal como as imagens que podem ser contestadas mais tarde. É preciso muita prudência com as imagens que se põem dos nossos filhos. As que parecem muito adequadas e fáceis na infância podem, mais tarde, ser detestadas. Conto-lhe um exemplo: um pai disse-me que estava radiante porque conseguiu que o filho de 7 anos fosse fotografado ao lado dos jogadores do Benfica, e perguntou-me se devia pôr no Facebook. Eu disse para não pôr. Ele vai achar maravilhoso agora, mas se calhar aos 14 ou 15 anos pode não gostar dessa imagem. Tire antes a fotografia e partilhe através do telemóvel com as pessoas amigas. Se põe no Facebook fica uma marca para sempre.

E nós não temos isso, mas os nossos filhos vão ter uma pegada digital desde o dia em que nascem.
Sabe que agora quando vão a uma festa de anos e sabem as pessoas que lá estão, a primeira coisa que vão fazer é ver o perfil dessa pessoas na redes sociais? Quando vão a uma seleção para uma entrevista de emprego, a primeira coisa que o empregador vai saber é o que consta na internet sobre essa pessoa. Descobrem-se coisas que depois não são boas paras as pessoas.

É difícil ser pai de um adolescente e ter de lidar com tantas preocupações e cuidados e alertas…
A adolescência é uma época difícil por definição. Nunca disse que é fácil, o que eu proponho e torná-la mais fácil e divertida. Não temos de ter aquela ideia de que é uma época trágica e de crise. Mas é difícil. É muito mais fácil ter as crianças com 5, 6, 7 anos. Um pai de um adolescente está permanentemente preocupado. Tem é de compensar a preocupação com as coisas positivas que tem a adolescência.

“Os adolescentes sempre viram pornografia, agora o acesso é mais fácil”

Falta-nos falar da questão da pornografia.
Adoro o tema. Adoro porque temos de falar sobre ele. O que me preocupa na pornografia — os adolescentes sempre viram pornografia— é que agora o acesso é muito simples e mais fácil. A grande questão é que nós não temos educação sexual em Portugal. Não temos sítios onde as pessoas possam falar sobre o que é a sexualidade saudável. E os adolescentes podem estar a ser influenciados por visões de imagens sexuais que não correspondem à sexualidade das pessoas.

Que tipo de visões?
O corpo da mulher é explorado, o corpo do homem é exagerado… As imagens que parecem proezas do ponto de vista sexual não correspondem à vida das pessoas e isso pode dar a ideia, sobretudo nos rapazes que vêem mais pornografia do que as raparigas, que assim é que deve ser. Isso é mau. O que é que vamos fazer? Não vamos entrar no telemóvel e ver se eles estão a ver pornografia, vamos normalmente falar sobre o tema: “É natural que estejas a ver sites pornográficos. O que é que estás a pensar sobre isso?” Isto costuma acontecer por volta dos 12, 13, 14 anos.

Um adolescente que consome pornografia com muita frequência pode acabar viciado?
Claro, é viciante. Completamente viciante porque está ligado à masturbação. E é antes do início da vida sexual ativa que o fazem, quando a iniciam vêem muito menos pornografia. Corresponde à fase da descoberta do corpo e da sexualidade. É muito possível que ao evitar falar sobre a pornografia, ela se torne viciante e o adolescente acaba com um problema de dependência.

Mas o que se pode fazer para evitar uma situação de dependência? Como disse, é certo que vão vê-la. Antigamente era mais difícil, era preciso ter coragem para ir ao quiosque, encarar o vendedor e comprar a revista pornográfica.
Devemos falar sobre a pornografia, abrir a porta de nossa casa aos amigos deles, não os deixar estar muito tempo sozinhos. Quando temos um grupo de rapazes e raparigas é muito pouco provável que vão ver pornografia em conjunto. Antigamente dizíamos que eram preocupantes os casos de adolescentes que saíam muito e que iam muito para as discotecas. Hoje, devemos preocupar-nos com um jovem que está muitas horas no quarto sem nenhum controle. Não se pode entrar lá de repente, mas deve-se chamar a atenção. E, aos poucos, eles vão falando. Temos de fazer isso: falar da sexualidade normal, não ter medo de abordar o tema, até porque é uma fase passageira.

A pornografia pode influenciar as relações futuras dos adolescentes?
Ainda não há estudos sobre isso, mas há esse receio entre os investigadores. Pode estar relacionado com a violência sexual no namoro, por exemplo. Alguns estudos dizem que eles podem estar a reproduzir comportamentos que vêem em sites pornográficos. Aí, entra novamente a educação sexual: o que se pode ver e o que se pode fazer a partir daí. Mas há esse risco, daí ter abordado este tema.

Falou sobre a necessidade de uma boa educação sexual. O que é que devia estar a acontecer nas escolas?
Como sabe, pertenci a um grupo de trabalho que lançou a Educação Sexual nas escolas através de uma lei de 2009. O que se verifica, penso que sobretudo por falta de vontade política e porque o tema não está na agenda do Ministério da Educação, é que depende muito da vontade dos professores. É uma pena. Como vimos, é muito difícil eles falarem com os pais sobre este assunto, o acesso à internet é muito fácil, e se a escola não faz nada… Temos um problema. Espero que a disciplina prometida de Cidadania não seja apenas com conteúdos muito teóricos e muito gerais, mas que seja com coisas muito práticas e que a Educação Sexual seja recuperada. Falar de educação sexual é uma oportunidade para falar de educação. À volta dela tem tudo: o respeito entre pessoas, a privacidade, o amor. A escola não é só o Português e a Matemática. Os pais são o mais importante, mas a escola pode dar um contributo, tem de dar instrução e educar.

A internet também mudou as amizades e o amor dos jovens?
Sobre a amizade, seguramente. Sobre o amor, não se sabe, é uma questão muito complexa. Não sabemos muito sobre o amor. Sobre a amizade, sim. Havia a ideia de que havia jovens com poucos amigos reais e muitos virtuais. Hoje sabe-se que não. Têm muitos amigos reais e depois continuam a contactar com os amigos reais através da internet. A amizade aumentou muito com a internet e aumentou para além fronteiras, porque há muitos jovens que através do Erasmus têm amigos estrangeiros. E isto é uma coisa completamente nova. Em relação ao amor, acho que seguramente vai ter influência, mas ainda não sabemos qual é a repercussão. Nos casais, sim, há casos de ciúmes potenciados pela internet. Nos adolescentes, ainda vamos ter de esperar alguns anos para ver.

 

 

Adição digital: estudo comprova ligação entre uso excessivo de dispositivos digitais e depressão

Junho 2, 2018 às 1:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , , , , , , ,

moodsapo

Notícia e fotografia do moodsapo de 22 de maio de 2018.

As ligações entre uso excessivo da tecnologia e o desenvolvimento de problemas de saúde mental são cada vez mais faladas. Uma nova pesquisa realizada nos EUA veio comprovar esta ligação e ainda estabelecer uma relação causal entre o posicionamento do corpo, a energia e o humor da população que usa excessivamente os dispositivos digitais.

Já se sabe que os tablets, smartphones e outros gadgets digitais tomaram conta do dia-a-dia da população. E também já se sabe que essa ‘normalidade’ não traz benefícios à saúde, muito pelo contrário. Mas um novo estudo levado a cabo pela Universidade de São Francisco, nos EUA, veio agora comprovar que realmente «existe uma forte ligação entre a adição digital, especialmente no uso compulsivo do telemóvel, e a ansiedade e depressão».

A recente investigação contou com a participação de dois grupos de estudantes universitários, na qual se observou que vários indivíduos dos dois grupos, dentro e fora das aulas, estavam constantemente com a cabeça inclinada para baixo a fazer scroll nos seus telemóveis, em vez de estarem a conviver com as pessoas que os rodeavam. Este facto levou os investigadores a uma conclusão: o grupo que mais utilizou o telemóvel reportou um maior nível de solidão, ansiedade e depressão do que o grupo que menos o usou. «Para a preservação da saúde mental, é necessária a comunicação humana, porque é assim que aprendemos a modular os nossos estados de humor», esclarece Erik Pepper, investigador e professor no Instituto de Estudos de Saúde Holística da Universidade de São Francisco.

O investigador explica que as mensagens de texto e emails são formas de comunicação digital assíncronas, ou seja, são comunicações transmitidas de forma intermitente. Através desse tipo de comunicação, as pessoas não veem com quem estão a falar, logo não podem aperceber-se de sinais não-verbais, como a linguagem corporal ou vocal, entoação, etc., «razão pela qual não é possível medir o impacto emocional do seu discurso», elucida Erik Peper, o que pode originar uma errada interpretação da mensagem enviada. Além disso, o nível de profundidade dessas comunicações tende a ser mais superficial.

Durante as últimas três décadas, o investigador e professor da Universidade de São Francisco Erik Pepper afirma notar uma grande diferença comportamental nos estudantes. Antes do boom tecnológico, a maioria dos jovens estabelecia «contacto visual, falando entre si à medida que desciam os corredores nas pausas entre as aulas. Hoje em dia, é mais provável vê-los encostados a uma parede enquanto mexem nos seus smartphones ou tablets», conta. «Estão na sua própria bolha digital», frisa, acrescentando que se não se criar intimidade através da comunicação com os outros, irá criar-se um clima de isolamento e, consequentemente, o início de uma depressão. Além disso, a comunicação não-satisfatória não é a única forma pela qual os aparelhos eletrónicos afetam a saúde mental.

Os autores do estudo Erik Pepper e Richard Harvey foram mais longe, tentando estabelecer uma relação causal entre o posicionamento do corpo, a energia e o humor da população objeto de estudo. «Quando uma pessoa está deprimida e sem esperança, tende a adotar uma postura mais curvada», explicam. Se esse indivíduo «já tiver histórico de depressão, estados de pessimismo, ansiedade ou medo, ao colocar o corpo nesta posição está a evocar esses mesmos estados de espírito», prosseguem. Mas, assim que corrigem a postura, irão sentir-se menos deprimidos, mesmo que nenhum outro fator seja alterado.

Para além de serem parte integrante no aparecimento de sintomas de doenças do foro mental, os dispositivos móveis também dificultam o ato de adormecer devido à luz azul emitida pelos ecrãs, fator este que também «contribui para um maior desenvolvimento de doenças», sejam estas de foro psíquico ou físico, acrescenta Erik Pepper.

Também a estimulação dos conteúdos visualizados pode privar os cidadãos de um sono tranquilo e regenerador. «Nas redes socais, as pessoas tendem a ficar emocionalmente mais ativas, ao responder em várias frentes, mantendo-se assim mais acordados e com uma maior perda de sono», explica, acrescentando que não é por acaso que muitos dos alunos alvos de estudo se encontrem numa situação crónica de privação de sono. Quanto mais tempo gastar a consumir media, digital ou não, menos tempo gasta para se manter ativo, sendo por isso «o melhor tratamento para o combate à depressão, o movimento e o exercício», diz.
Assim sendo, como sabe se está dependente do seu smatphone? «Coloque o telemóvel longe do seu alcance e tente, durante alguns dias, não o usar», sugere o especialista. De acordo com os investigadores, se ficar agitado e começar a sentir que é impossível não ir verificar as redes sociais e emails, então poderá estar com um problema de dependência digital. Veja na galeria, no início do artigo, seis formas de controlar a obsessão pelo mundo digital, segundo estes especialistas.

O estudo citado na notícia é o seguinte:

Digital Addiction: Increased Loneliness, Anxiety, and Depression

 

Conferência “Há tecnologia a mais na vida dos nossos filhos?” 5 maio no ISCTE

Maio 2, 2018 às 9:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , , , , ,

mais informações no link:

https://www.facebook.com/events/202454583689992/

 

Crescendo entre ecrãs: competências digitais de crianças de três a oito anos

Abril 22, 2018 às 1:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , , , , , , , , ,

Artigo publicado na Revista do Centro de Estudos de  Comunicação e Sociedade (CECS) Universidade do Minho

As crianças portuguesas de três-oito anos estão a crescer em lares apetre­chados com dispositivos móveis, individualizados, de pequeno porte e ecrãs tácteis, com aplicações diversificadas. Apesar desta ecologia digital, o pri­meiro inquérito nacional sobre como as crianças estão a crescer entre ecrãs (N= 656), realizado para a Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC), em 2016, contraria pressuposições de um boom tecnológico. Apenas 38% dos pais reportam que as crianças usam a internet e prevalece uma mediação centrada no controlo e na restrição. Este texto apresenta e discu­te resultados desse inquérito e do estudo qualitativo em 20 famílias cujas crianças acedem a meios digitais, centrando-se nas competências digitais. Estas incluem competências tradicionais (ler, escrever e contar), e outras re­lacionadas com acesso e uso das tecnologias digitais (Sefton-Green, Marsh, Erstad & Flewitt, 2016)

Castro, T. S.; Ponte, C.; Jorge, A. & Batista, S. (2017). Crescendo entre ecrãs: competências digitais de crianças de três a oito anos. In S. Pereira & M. Pinto (Eds.), Literacia, Media e Cidadania – Livro de Atas do 4.º Congresso (pp. 144-157). Braga: CECS.

visualizar / descarregar o artigo no link:

http://www.lasics.uminho.pt/ojs/index.php/cecs_ebooks/article/view/2671/2579

Página seguinte »


Entries e comentários feeds.