Duas horas antes de dormir, as crianças devem ficar longe do telemóvel

Dezembro 19, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia da TSF de 4 de dezembro de 2018.

Além de poder causar danos à visão, a luz azul dos smartphones, tablets e computadores portáteis tira o sono.

“Estes aparelhos emitem uma luz azul que interfere com o ritmo dos ciclos sono/vigília das crianças”, afirma o oftalmologista pediátrico Filipe Martins Braz.

É por isso que à noite, antes de dormirem, as crianças devem manter-se longe destes ecrãs, recomenda Filipe Martins Braz, que defende mesmo que, nas duas horas que antecedem a ida para a cama, os telemóveis, tablets e ecrãs com luz azul devem ser evitados.

O oftalmologista refere que os fabricantes de telemóveis já começaram a fazer algumas alterações tendo em conta os malefícios da luz azul, mas, ainda assim, a recomendação dos especialistas mantém-se.

Declarações de Filipe Martins Braz no link:

https://www.tsf.pt/sociedade/interior/duas-horas-antes-de-dormir-as-criancas-devem-ficar-longe-do-telemovel-10273924.html?fbclid=IwAR3j-nNl_UqzNQm8U6dsGvjJo_u_wOsNJBRgG3Z2q-bMU28qvuH33Lte32M

 

A geração superficial

Dezembro 15, 2018 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Tim Gouw on Unsplash

Artigo de opinião de Carmo Machado publicado na Visão de 13 de novembro de 2018.

Nós, os professores de Português, somos confrontados com a repulsa dos alunos ao verbo escrever. Vivemos este descalabro diariamente.

Qualquer professor hoje em dia se apercebe das dificuldades que os alunos sentem quando se lhes pede um texto, qualquer que seja a sua tipologia. E então nós, os professores de Português, somos confrontados diariamente com a repulsa dos alunos ao verbo escrever. Vivemos este descalabro diariamente. Por isto mesmo, em mais um sábado à noite de trabalho – enquanto lá fora a chuva caía, as pessoas normais dormiam e eu corrigia a enorme pilha de trabalhos escritos dos meus alunos – não fiquei surpreendida ao ler esta advertência de um aluno: Bom dia ou boa noite, professora. Nas próximas duzentas a trezentas palavras lerá aquela que foi provavelmente a composição que mais me custou escrever. Por isso mesmo, sente-se, coma qualquer coisa e tenha misericórdia de mim.

Sim, a maior parte dos alunos tem aversão à escrita porque não lê, sentindo uma enorme dificuldade em escrever, problema que aumenta de ano para ano. Ler estimula o raciocínio, desenvolve o vocabulário, aumenta a capacidade de interpretação, diminui os erros ortográficos, ajuda a produzir textos coesos, desenvolve a capacidade argumentativa, só para referir algumas vantagens. De facto, se vocês não lerem, como irão conseguir escrever? A esta pergunta, alguns alunos respondem-me de imediato: Ó stora, mas a gente lê. Todos os dias lemos imensas coisas na Internet… Bingo!

Preocupada com esta realidade – a constatação crescente de que os alunos sentem cada vez maior dificuldade em redigir um texto, por pequeno que seja – fui à procura de respostas. O livro de Nicholas Carr, Os Superficiais – O que a internet está a fazer com os nossos cérebros (Gradiva), seguindo a proposta da biblioterapeuta Sandra Barão Nobre, ajudou-me a compreender melhor este flagelo. De facto, enquanto lia este livro dei várias vezes comigo a concordar com o autor, ao mesmo tempo que transferia o que ele afirma para aquilo que eu constato diariamente nas aulas e no contacto com os alunos. A geração com que trabalho é uma geração alienada e cada vez mais superficial. A internet, sabemo-lo, veio mudar o mundo. Está a mudar as nossas vidas e começou já a transformar os nossos cérebros.

A dependência do computador e da ligação à rede começa a interferir na forma como percecionamos o mundo, provocando danos irreparáveis na maneira como utilizamos a linguagem. Penso que reside aqui, neste uso e abuso que fazemos das tecnologias, uma das principais causas das dificuldades crescentes dos alunos no uso da escrita. O que pode então a Ciência dizer-nos sobre as consequências do uso da internet nos nossos cérebros e nos cérebros dos nossos alunos? Muito mesmo. Vários estudos realizados por educadores, investigadores de diferentes áreas como psicólogos e neurobiólogos mostram que quando os alunos estão em rede (o que acontece a maior parte do tempos nos dias que correm), o ambiente em que se encontram promove uma leitura negligente e rápida. Ora, neste contexto, o pensamento torna-se também ele apressado sendo a aprendizagem que fazemos das coisas cada vez mais superficial.

O que fazemos quando estamos em rede acarreta consequências neurológicas impercetíveis no imediato mas cujo efeito é preocupante. Não é preciso ser-se professor para se constatar que a capacidade de concentração dos jovens e adolescentes é cada vez menor. Na verdade, tal como o tempo gasto a explorar páginas web (na maior parte das vezes sem qualquer conteúdo de interesse) suplanta o tempo que passamos a ler noutros registos e formatos (já nem me atrevo a referir-me aos livros), também o tempo que se consome a redigir mensagens curtas de texto (vulgo sms) suplanta o tempo que se utiliza a escrever um parágrafo, vários parágrafos, um texto… Deste modo, enquanto saltitamos entre hiperligações que nos levam a nenhures perdemos a oportunidade de refletir silenciosamente. Eis o ponto seguinte desta rede de vazios. O silêncio é praticamente inexistente na vida dos nossos alunos. Dentro ou fora da aula, os alunos não o conhecem. Logo, os antigos processos e funções intelectuais que permitiam o raciocínio aprofundado e a reflexão começaram a destruir-se e a desaparecer. O cérebro recicla os neurónios e as sinapses não utilizadas, dando-lhe outras tarefas mais urgentes. É certo que os alunos possuem e/ou ganharam outras competências que nós não possuímos mas perderam capacidade de foco e de concentração. Segundo Nicholas Carr, o nosso cérebro está a regredir ao cérebro primitivo ou reptiliano, em alerta e distração permanente.

Facto: estamos perante uma geração cada vez mais alienada e superficial que pensa cada vez com menor profundidade e que, como consequência, relaciona ideias e conceitos de forma cada vez mais rudimentar. Perante isto, é quase impensável que quando peço aos meus alunos para pesquisarem informações suplementares sobre um determinado tema, eles queiram aprofundar seja o que for. A grande questão que se nos coloca enquanto professores é se conseguiremos encontrar um ponto de equilíbrio entre a utilização abusiva que os nossos alunos hoje em dia fazem de todo o aparato tecnológico que têm à sua disposição e a necessidade de silêncio e introspeção que a leitura profunda de um livro pode proporcionar. Porque rodeados que estão de estímulos tecnológicos, ler torna-se mais difícil, aprofundar é um esforço hercúleo e escrever uma quimera.

Por tudo isto, decidi responder ao meu aluno: Bom dia ou boa noite, querido aluno. Nas duzentas a trezentas palavras que escreveste, li aquela que foi provavelmente a composição que mais me custou ler. Por isso mesmo, levanta-te e desliga-te. A internet promove uma leitura diagonal dos temas e dá-te apenas fragmentos dispersos do conhecimento que procuras. Sim, querido aluno, a internet é uma biblioteca de fragmentos. Por isso mesmo, come qualquer coisa e abre um livro: a plasticidade cerebral espera por ti.

Carmo Miranda Machado é formadora profissional na área comportamental e professora de Português no ensino público há vinte e sete anos, tendo trabalhado com alunos do 7º ao 12º anos de escolaridade. Possui um Mestrado em Ciências da Educação (Orientação das Aprendizagens) pela Universidade Católica Portuguesa e tem como formação base uma Licenciatura em Línguas e Literaturas Modernas pela Universidade Nova de Lisboa. Tem dedicado a sua vida às suas três grandes paixões: o ensino, a escrita e as viagens pelo mundo. Colabora na Revista Mais Alentejo desde Fevereiro de 2010 como autora da crónica Ruas do Mundo, tendo ganho o Prémio Mais Literatura atribuído por esta revista nesse mesmo ano. Publicou até ao momento, os seguintes títulos pela editora Colibri: Entre Dois Mundos, Entre Duas Línguas (2007); Eu Mulher de Mim (2009); O Homem das Violetas Roxas (2011) e Rios de Paixão (2015).

 

Qual deve ser o tempo máximo em frente a um ecrã de telemóvel?

Dezembro 13, 2018 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia da TSF de 27 de novembro de 2018.

Rita Costa

As recomendações do oftalmologista pediátrico Filipe Martins Braz no TSF Pais e Filhos.

“Existe uma série de estudos que aponta para que o uso das novas tecnologias com monitores tende a agravar os problemas oftalmológicos, nomeadamente a miopia”, avisa o oftalmologista pediátrico Filipe Martins Braz.

O médico refere que na Ásia, onde a utilização das novas tecnologias ainda é maior, a miopia está a aumentar exponencialmente. “Não havendo ainda linhas de orientação rígidas e cientificamente comprovadas. O que recomendamos é o bom senso, períodos de 20 minutos em frente ao monitor e depois fazer uma pausa”, revela o oftalmologista.

Filipe Martins Braz sugere que se peça à criança que olhe para o longe, indo com ela à rua passear um pouco. No fundo deve evitar-se fazer períodos de tempo excessivos em frente aos monitores dos telemóveis ou dos tablets.

Declarações de Filipe Martins Braz no link:

https://www.tsf.pt/sociedade/educacao/interior/qual-deve-ser-o-tempo-maximo-em-frente-a-um-ecra-de-telemovel-10241202.html?fbclid=IwAR2cWcNzuMgwXhzpRsRsMqx84iq8-JwohWPDD3eCif7Pj8_vwos_evrB_PE

O tablet não é uma ama digital no mundo das crianças

Dezembro 7, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do site dn_insider de 21 de novembro de 2018.

Cátia Rocha

A partir de que idade é que as crianças devem ter acesso a telemóveis, tablets e computadores? Os especialistas respondem à pergunta, numa era em que a tecnologia já é usada para acalmar birras ou apenas para distrair os mais pequenos.

Nativos digitais e imigrantes digitais são dois conceitos sociológicos nos quais não se pensa no dia-a-dia. No primeiro grupo estão as pessoas que já cresceram com tecnologia – normalmente está associado a quem nasceu depois de 1980, os millennials; já os imigrantes digitais são pessoas que tiveram de fazer a transição e o processo de habituação a um admirável mundo novo – o da tecnologia.

Um dado relevante: os nativos digitais são, na sua maioria, os pais das crianças de hoje. E por que razão é que isto é importante? Porque estas crianças vão bem além do conceito dos nativos digitais, vivendo uma experiência ainda mais imersiva do que a dos pais.

E é precisamente a consciência tecnológica destes últimos que os leva a questionar: a partir de que idade é recomendável uma presença tech na vida dos mais pequenos?

A verdade é que a tecnologia está cada vez mais presente na vida das crianças, com acesso a smartphones, dispositivos de realidade virtual e tablets – talvez o gadget que mais vezes é citado como um motivo de birras ou simplesmente de distração.

“Não deve haver pressa no uso do ecrã”, adverte o especialista, defendendo que a recomendação passa por evitar os meios digitais nos primeiros anos de vida. “Até aos 2 anos, o pensamento simbólico é muito imaturo, aquilo que a criança vê no tablet não consegue aplicar na sua vida normal, no dia-a-dia, exceto se for complementado por um adulto.” E, mesmo a partir dessa idade, há limites: “Um tablet não consegue perceber se uma criança está a ficar frustrada com a brincadeira, não há ainda uma inteligência artificial para conseguir lidar com a frustração.”

O pedopsiquiatra Pedro Strecht, que publicou recentemente o livro Pais sem Pressa, concorda com a visão de que, até aos dois anos, a tecnologia não deve ser um ponto central da vida. “Nessas idades, as crianças estão em fase de desenvolvimento de outras formas de comunicação e de relação; não podemos esquecer que é a partir dos 12 meses que a maioria começa a andar e a correr, descobrindo assim o mundo em seu redor. É a partir dessa idade que a aquisição e a expansão da linguagem adquirem um aspeto verdadeiramente central no desenvolvimento cognitivo e emocional dos mais novos.”

Pedro Strecht reconhece naturalmente um “mundo tecnológico que está presente no dia-a-dia e que, de verdade, as crianças já nascem por dentro dele”. Critica, porém, pais que “usam as tecnologias como forma de preencher espaços ou lacunas na relação direta com os filhos, mesmo com os de baixa idade”. Exemplo disso é o uso de tablets durante a refeição “para que não existam birras ou o tempo da alimentação seja mais rápido”.

Para a especialista em sono infantil Filipa Sommerfeldt Fernandes “vedar o acesso das crianças à tecnologia é tolice”, embora acredite na lógica do “bom senso e no equilíbrio”, para que se possa “retirar o melhor da tecnologia”.

São três especialistas com uma opinião transversal a todos: a tecnologia não é superior ao contacto humano no processo de desenvolvimento infantil. Ter um adulto em interação com a criança continua a ser o melhor caminho – e há estudos que o comprovam.

Pequenos nas lojas de apps

Um estudo do departamento de pediatria da Universidade de Medicina de Nova Iorque mostrou a influência que os meios eletrónicos têm na vida de crianças com menos de 2 anos. Os resultados revelaram, em 2010, que crianças mais expostas a conteúdos como filmes, DVD, televisão ou vídeos eram menos desenvolvidas em comparação com crianças com menor tempo de exposição a estes meios.

Recentemente, o estudo “Happy Kids: Aplicações Seguras e Benéficas para Crianças”, do Católica Research Centre for Psychological, Family and Social Wellbeing (CRC-W), da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa, mostrou que as crianças mais novas – até aos 2 anos – são quem mais recorre às aplicações em dispositivos móveis.

O estudo foi feito através da plataforma Pumpkin e contou com as respostas de 1968 pais em Portugal, de filhos com idades até aos 8 anos. Além de mostrar que as crianças fazem um uso quase independente da tecnologia, o estudo coloca a questão: em que circunstância é que há maior permissão para os miúdos terem acesso à tecnologia?

No topo da lista surgem situações sociais: em restaurantes, 587 dos inquiridos dizem dar acesso a aplicações. Depois, os pais (490) cedem quando precisam de trabalhar ou de cumprir tarefas domésticas. Por fim, 99 apontaram para um uso em situações de stress – quando é preciso acalmar as birras dos filhos.

O processo de imitação

O número a que Pedro Strecht chegou dá que pensar: os pais passam 37 minutos por dia em interação exclusiva com os filhos.

Paulo Oom destaca o papel dos pais em todo o processo de educação, que deve ter em conta a moderação. “Entre os 2 e os 4 anos a criança pode ter ecrãs durante uma hora, mas com a presença de um adulto para orientar.” E não é apenas nesse ponto que pais e educadores têm importância. Muita da aprendizagem é feita através de imitação. “É fundamental os pais evitarem os ecrãs, porque às vezes dão um mau exemplo.”

Mas ainda há mais a ter em conta, principalmente nas ocasiões em que a palavra de ordem é brincar. “Não deve haver ecrãs nos momentos de brincadeira”, diz o pediatra. Filipa Sommerfeldt Fernandes aponta na mesma direção, referindo inclusive que a presença dos ecrãs na vida dos adultos também é excessiva.

“Os ecrãs em demasia impedem que haja momentos de conexão entre pais e filhos e são mais um fator para as birras dos pequenos – que passam a querer ver vídeos a toda a hora e que não gostam que estes lhes sejam retirados. Na hora de deitar podem ser mais um motivo de zanga. Além de que, embora estejam ‘quietos’ na cama, na realidade estão com o cérebro estimulado de uma forma que não ajuda ao sono”, garante a especialista.

Para dormir melhor

Quantas vezes é que não se ouve um pai ou uma mãe dizer que o filho não dorme bem? Cada criança tem uma rotina de sono muito particular, é certo, mas vale sempre a pena olhar para o ecrã do smartphone ou do tablet e perceber se não estará ali um contribuinte para o caso.

Os gadgets emitem luz azul. Embora os estudos nesta área sejam recentes, é referido sempre que esta tem influência no sono. “A forma como a luz é emitida pelos ecrãs afeta o relógio biológico, pois inibe a secreção de melatonina, a hormona do sono, desregulando os ritmos circadianos”, explica Filipa. E isto é válido tanto para adultos como para crianças. “Além de que a utilização de tablets antes de dormir atrasa a hora de deitar, e pode haver outros efeitos bem mais graves para a saúde física e mental” das crianças.
Paulo Oom refere que os pais devem aplicar a regra de não haver ecrãs uma hora antes de deitar. “A criança precisa de produzir melatonina antes de dormir.”

“Com a ativação e a excitação de certas zonas cerebrais, desencadeadas pelo uso excessivo de tecnologias (muitas delas mantêm-se ligadas durante a noite), é natural que as implicações negativas sejam diversas, como por exemplo no comportamento ou no aproveitamento escolar”, segundo o pedopsiquiatra. Mas também há que desdramatizar e perceber que a tecnologia no mundo infantil precisa de estar alicerçada no bom senso, no equilíbrio e numa forte orientação dos pais.

Paulo Oom acredita que o uso consciente da tecnologia nos momentos de interação “não se trata de uma cruzada contra os momentos de media – é sim uma cruzada contra não haver momentos de brincar na rua”.

*Este artigo foi originalmente publicado na Insider de outubro de 2018.

 

Crianças até 2 anos de idade são das que mais usam aplicações

Novembro 4, 2018 às 1:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do Observador de 16 de outubro de 2018.

Ana Cristina Marques

Um novo estudo refere que 51% das crianças com menos de 8 anos usa aplicações. Inquérito feito a quase 2.000 pais mostra que tecnologia serve de ama nos lares portugueses.

As crianças que mais usam aplicações têm até 2 anos de idade e são os pais os primeiros a dar aos filhos o acesso a dispositivos eletrónicos. A isto soma-se outra realidade: a grande maioria das casas portuguesas (90%) tem ligação à internet, “smartphones, computadores portáteis ou tablets”. Estas são as principais conclusões do estudo “Happy Kids: Aplicações Seguras e Benéficas para Crianças”, do Católica Research Centre for Psychological, Family and Social Wellbeing (CRC-W), da Universidade Católica Portuguesa, avançado pelo Jornal Público.

O estudo que é apresentado em Lisboa esta terça-feira resulta de um inquérito feito através da plataforma Pumpkin sobre a utilização de tecnologia por crianças entre os 0 e os 8 anos. Ao inquérito responderam 2.677 pais, mas apenas 1.986 respostas foram consideradas válidas e utilizadas para efeitos deste estudo — refira-se que a maior parte dos inquiridos vive na capital (1.232), é licenciado e é mãe.

Quase 600 pais  — 587 dos mil inquiridos que responderam que os filhos usam aplicações — admitem permitir a utilização de apps nos restaurantes; 490 fá-lo em casa, quando precisam de trabalhar ou de fazer tarefas domésticas; e 99 dos pais garante que as apps são usadas quando precisam de acalmar os filhos na sequência de uma birra.

Apesar de a maioria dos pais reconhecer que as apps trazem consequências negativas no respeita à atividade física (854), ao sono (702) e à sociabilidade (616), 427 dos inquiridos dizem que os dispositivos servem para fazer “atividades educativas”. Os pais admitem ainda acreditar que o seu uso permite aos filhos adquirir determinadas competências, sobretudo em ambiente escolar, nas quais se incluem áreas como a matemática e a leitura.

O que mais desagrada os pais, tendo em conta as apps, é o facto de não ser apropriadas para as crianças (544), de serem viciantes (424), violentas (422), de permitirem a diversão das crianças sem que estas aprendam alguma coisa (400) e de as deixarem mais aceleradas e excitadas (337). Segundo os pais, as crianças preferem aplicações de ação e aventura, vídeos e quebra-cabeças. Refira-se ainda que, por norma, são os pais que instalam as apps, a maior parte delas gratuitas.

Apesar de os pais dizerem que os filhos não publicam conteúdos nas redes sociais — não estando, assim, expostos a perigos como cyberbullying –, entre as apps preferidas dos mais novos, também de acordo com os pais, estão o Messenger, WhatsApp, Instagram, SnapChat e Facebook.

 

 

Pedro Strecht: “Uma criança passa menos tempo ao ar livre do que um recluso”

Novembro 3, 2018 às 1:00 pm | Publicado em Livros | Deixe um comentário
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Entrevista de Pedro Strech ao Observador no dia 20 de outubro de 2018.

Ana Cristina Marques

Crianças agarradas aos ecrãs, fechadas em salas, com agendas preenchidas e pouco tempo para estar com os pais. No seu novo livro, Pedro Strecht faz uma análise aos desafios desta geração.

Em média, uma criança até aos 10 anos passa diariamente 8 horas na escola, enquanto o tempo de interação exclusiva entre pais e filhos, também num registo diário, resume-se a 37 minutos. Os ecrãs ocupam mais de duas horas e meia por dia e os reclusos passam mais tempo ao livre do que uma criança em idade escolar. Estas são algumas das conclusões assinaladas na nova obra do pedopsiquiatra Pedro Strecht, que acaba de lançar o livro Pais Sem Pressa, da editora Contraponto, numa tentativa de convencer os pais a abrandar.

Em entrevista ao Observador, Pedro Strecht, autor de diversos livros e com um percurso profissional intenso, fala em pais exigentes e perfecionistas, demasiado preocupados com o rendimento escolar dos filhos, e discursa sobre aulas muito longas, com poucos intervalos, TPC em excesso e recreios fisicamente diminutos. A tecnologia é também tema de conversa, com o pedopsiquiatra a acusar pais de usar tablets e suas aplicações para “para colmatar pequenas coisas, muitas delas tarefas diárias do nosso dia a dia que dão trabalho, confronto e insucesso”. Porque a tecnologia não pode servir de am

“É entre o primeiro e o segundo ano de idade que os miúdos começam a andar, a correr e a explorar o mundo; o tablet é para se estar quieto. E é a partir do segundo ano, e também no terceiro, que há uma expansão enorme da linguagem também enquanto modelo de ligação. Ou seja, quando é que os miúdos desenvolvem mais a linguagem? É nessa idade. É imaginá-los quietos em vez de estarem a explorar o mundo e é imaginá-los a não falar porque a linguagem e o som que vem de uma série ou de algo que estejam a ver num tablet não pede reciprocidade.”

O livro chama-se Pais sem Pressa, mas aborda precisamente o contrário. Quem são estes pais sem tempo?
Estes pais sem tempo somos, no fundo, quase todos nós. Há muitos fatores à nossa volta que não controlamos — muitos deles têm que ver com a forma como as sociedades estão a evoluir em vários campos, no profissional, económico e relacional. O livro surge um pouco como um apelo à necessidade de ficarmos mais conscientes disto. Acho cada vez mais importante destacar a necessidade de criarmos um balanço diferente entre trabalho e lazer, ocupação profissional e tempo livre. Vivemos socialmente em estruturas que nos pedem cada vez mais, do ponto de vista do trabalho e do ponto de vista económico. É engraçado, a maior parte da linguagem que hoje caracteriza muitas coisas é quase exclusivamente economicista ou tecnológica. É muito menos humanista ou muito menos relacional. Por outro lado, cada vez mais vemos em crianças e em adultos situações que têm que ver com perturbações de ansiedade ou perturbações na linha depressiva que, em muitos casos, não são mais do que situações de burnout, de esgotamento, de excesso de tensão, de incapacidade de parar e respirar.

Os pais sem tempo estão conscientes destas limitações?
Há muitos pais que dizem que não têm tempo para fazer determinadas coisas. Por vezes, apercebem-se disso, mas dão como dado adquirido a incapacidade de lutar mais ativamente contra isto. É algo que se verifica nas sociedades mais desenvolvidas. É uma coisa muito transversal. Vivemos no tempo que nos é imposto de fora, sem que as pessoas sintam que têm capacidade de o gerir mais autonomamente, quando na realidade têm. Não é preciso fazer grandes ruturas, mas podem fazer-se pequenos movimentos de equilíbrio sem cortes radicais.

No livro encontramos as seguintes expressões: “ritmo diário extremamente exigente” e “elevados níveis de tensão emocional”. Estamos perante um problema geracional?
Sim. Acho que é muito geracional. Costumo dizer aos meus filhos que tive o meu primeiro telemóvel aos 26 anos. Em Portugal, os telemóveis com internet têm menos de 10 anos… Estamos a falar de diferenças geracionais não só muito fortes, como também cada vez mais rápidas — e isto acontece em quase todas as áreas. Agora, as mudanças acontecem de uma forma muito mais surpreendente e num ritmo muito mais intenso. Acho sempre que a evolução das sociedades, com todas as oscilações que há em cada momento, têm acontecido num sentido positivo. O que vai havendo são realidades diferentes — todos os miúdos que nasceram neste século já nasceram completamente mergulhados em determinadas vivências que nós próprios, os pais, não vivemos e não temos. Este é um desafio diferente para os dias de hoje. É uma questão adaptativa.

“Muitas crianças passam uma média de 8 horas na escola”

De que forma é que isto afeta a parentalidade?
Desde há muitos anos que temos tido um decréscimo significativo em termos de natalidade. A média de natalidade hoje em dia em Portugal é 1,1. Portanto, a maioria dos casais tem um filho. Três filhos já corresponde a uma família numerosa. Em Portugal, quando se pergunta aos casais porque é que não têm mais filhos, as duas respostas mais frequentes são fatores económicos e falta de tempo, de disponibilidade concreta. A vida dos adultos mudou bastante. Hoje, o normal é pai e mãe trabalharem, é homem e mulher serem ambos pessoas ativas do ponto de vista profissional. Muitas vezes, em algumas áreas, há mulheres que querem cumprir a sua função materna e que são frequentemente prejudicadas na sua atividade profissional. Já falei com mães que trabalham em áreas bancárias em que ter um filho é um desafio de confrontação com a entidade empregadora. O que sentimos é que, por um lado, os pais sabem mais e querem participar mais, por outro, acabam por ter menos disponibilidade concreta para o fazer e, quando ela existe, tendem a não ser capazes de se descentrar de algumas coisas que podiam ser mais secundárias e não tão essenciais.

Como por exemplo?
Pais e filhos podem ter tempo livre, mas há pais extremamente preocupados com o rendimento escolar dos filhos. Há pais que sobrecarregam as crianças com mais atividades letivas — “Ao sábado, vou pô-lo na explicação”, “Se conseguir trabalhar mais horas, posso ter mais isto e aquilo”. É uma questão de prioridades. São situações deste género que cada vez acontecem mais. Depois, há outras situações que são externas e que se veem muito na medida em que as sociedades se organizam: o tempo das deslocações, o tempo dos horários profissionais… Muitas crianças passam, hoje em dia, uma média de 8 horas na escola.

De acordo com o livro, são, em média, 8 horas diárias na escola e, também em média, 37 minutos diários de interação exclusiva entre pais e filhos…
Este rácio é completamente desproporcional. Há miúdos que estão na escola às 08h e que chegam a casa já são 19h30, 20h… são 12 horas fora de casa para uma criança. Hoje em dia, há crianças que passam muito mais tempo em interação direta com um professor de uma escola primária do que com uma mãe ou um pai. Vemos noutros países da Europa, como os países nórdicos, situações em que o tempo de permanência na escola é menor e nem por isso os miúdos têm menos capacidades escolares e cognitivas.

Como profissional, defenderia menos tempo passado na escola ou horários de aulas mais curtos? Qual é a alternativa?
Passaria por horários escolares francamente mais intervalados, até porque estamos a dar aos miúdos estímulos de pergunta-resposta com grande rapidez e na escola pedimos exatamente o inverso, que fiquem quietos durante uma hora e meia. Aulas mais curtas e com mais tempo de intervalo favorecem os mais novos. Esta geração passa muito mais tempo na escola e faz muito mais na escola do que qualquer pessoa da minha geração. Conheço alguns pais que me dizem “Ah, mas ele está a estudar pouco, vou metê-lo em explicações”… Às vezes recordo aos pais que, na nossa geração, começávamos as aulas em outubro e não em setembro, tínhamos aulas de 50 minutos e não de uma hora e meia. Há vivências temporais completamente distintas só de uma geração para a outra.

Devia existir algum incremento de atividades, que até podem decorrer no espaço da escola, mas que não têm de ser necessariamente letivas: os miúdos podem ter desporto, música e/ou ateliers de várias coisas. Também defendo que há imensas escolas que pedem um excesso de trabalho de casa. E muitas escolas esquecem-se ou não investem nos espaços de recreio — pensam na sua função centradas naquilo que acontece dentro da sala de aula e depois, no recreio, não têm vigilantes ou, então, os recreios são muito pequenos, em termos de tempo e/ou de espaço. Há escolas em Lisboa cujo espaço físico é mínimo para o número de alunos.

É por isso que escreve que um prisioneiro tem mais tempo ao ar livre do que uma criança?
É um pequeno filme que está no Youtube. É norte-americano, mas também corresponde à realidade portuguesa. Nesse filme mostra-se que uma criança norte-americana, tal como muitas portuguesas, passa menos tempo por dia ao ar livre do que um recluso. É verdade. Nas grandes cidades já não é tão frequente vermos crianças pela rua. A cultura de bairro também se perdeu. Onde estão os miúdos? Estão nas escolas, estão em casa ou estão em trânsito no transporte escola-casa. Até mesmo o espaço de brincadeira, para muitas das nossas crianças e adolescentes, acontece no quarto, em casa, e é à base de tecnologias — Playstation, internet… Brincam no espaço de quarto, embora ligados a outros, mas não propriamente num espaço livre, de expansão, de risco, de procura.

“Estamos a pedir às crianças que cresçam demasiado depressa”

No livro também escreve que, além dos horários aplicados nas escolas e dos TPC, há uma tendência para que os pais transformarem as atividades lúdicas preferidas dos filhos numa espécie de obrigação…
Sim. E numa espécie de preocupação com imensa antecipação. Os pais  projetam nos filhos um peso enorme em termos do desempenho escolar, como se os miúdos — às vezes de 9 ou 10 anos — tivessem de pensar no curso que vão tirar, na média que vão ter, no ordenado que vão ter ou não com aquele curso. Há uma projeção demasiado pesada e até negativa sobre a perspetiva de futuro, muito centrada na questão da rentabilidade — acho que isso começou de uma maneira muito mais nítida nos anos de crise. Nos últimos 5 anos comecei a ver uma coisa que não via há bastante tempo: os pais a induzirem, de uma forma ainda mais ativa, as escolhas das áreas de estudos no final do nono ano. Isto já foi uma coisa muito mais livre. Agora, ouvem-se frases como “Ah, mas não vás para isso, nisso não há emprego”, “Assim não tens ordenado nenhum”, “Artes? Artes é para o desemprego”…

Esse discurso começa cada vez mais cedo?
Sim. Cada vez mais cedo e, sobretudo, naquela fase do nono ano, em que os miúdos têm de fazer opções.

Os pais de agora são muito exigentes?
Há uma ideia errada de perfeição, parece que todos temos de ser perfeitos em tudo: no corpo, no trabalho, na educação, na escola, etc. O ótimo é inimigo do bom: as pessoas precisam de ser boas em algumas áreas e de perceber que também têm limites e que, às vezes, as coisas correm mal. É preciso que os pais deixem de ser tão exigentes consigo próprios e até para com os filhos — nesse ritmo, por muito bem que as coisas possam estar a correr, há sempre um sentimento de insatisfação recorrente. Parece que o copo nunca está cheio. Por isso é que falo do conceito “pais suficientemente bons”, que reporta para a ideia de que os adultos também têm falhas e não precisam de ser os melhores pais do mundo para serem bons pais.

Tendo em conta agendas muito preenchidas, é possível que o tempo passado entre pais e filhos comece a ser, de alguma forma, encarado como uma espécie de “obrigação”? Estamos a perder o foco do que é estar em família?
Sim, sobretudo o foco do que é estar em família de uma maneira até mais espontânea e livre. Porque cada vez mais as pessoas tendem a programar muito os dias, mesmo sem notarem. Depois, parece que a vivência do espaço livre, do espaço sem um rumo predefinido assusta e inquieta. Às vezes é bom a pessoa entregar-se a isso. Os miúdos precisam de estar no quarto, sem estar a fazer nada de especial, a brincar ou olhar para o teto. Não há uma agenda. Há cada vez mais pais que referem que os filhos, em diferentes etapas de crescimento, quando acabam uma tarefa perguntam o que podem fazer a seguir. Em casos extremos, há muitos adultos que trabalham imenso durante a semana e que, quando chegam à véspera do fim de semana, têm uma espécie de angústia porque não estão naquele ritmo de adrenalina e de tensão.

Estamos a pedir às crianças que cresçam demasiado depressa?
Sim. Estamos a atirá-las demasiado para a frente. O engraçado é que, mesmo que por vezes não notem, há cada vez mais adultos a quererem andar demasiado para trás — vivências eternamente adolescentes porque, talvez, não tenham vivido tudo como deve de ser na infância. Os mais novos são projetados muito para a frente e os mais velhos querem voltar atrás. Os adultos quererem escapar à passagem do tempo. Há frases muito engraçadas como “Agora os 40 são os novos 30”.

“Há pais que usam a tecnologia como se fosse uma ama”

Esta semana foi apresentado um estudo, com base num inquérito feito a quase 2.000 pais, que mostrou que as crianças até aos 2 anos são das que mais usam aplicações. Como comenta isto?
Crianças até aos 2 anos que são levadas a usar aplicações, porque elas não as usam autonomamente, não têm capacidade para isso, os pais metem-nas nas mãos ou à frente delas. E põem cada vez mais — e isto é mesmo uma crítica séria — para colmatar pequenas coisas, muitas delas tarefas diárias do nosso dia a dia que dão trabalho, confronto e insucesso. Um exemplo concreto? Os miúdos nem sempre comem bem e fazem birras, mas, hoje em dia, somos capazes de passar por um restaurante e vemos uma criança pequena sentada à mesa com os pais e com o tablet à frente, a ver as imagens quando, distraidamente, lhe dão a comida. Ainda neste caso dos tablets até aos dois anos, ocorre-me o seguinte: é entre o primeiro e o segundo ano de idade que os miúdos começam a andar, a correr e a explorar o mundo; o tablet é para se estar quieto. E é a partir do segundo ano, e também no terceiro, que há uma expansão enorme da linguagem também enquanto modelo de ligação. Ou seja, quando é que os miúdos desenvolvem mais a linguagem? É nessa idade. É imaginá-los quietos em vez de estarem a explorar o mundo e é imaginá-los a não falar porque a linguagem e o som que vem de uma série ou de algo que estejam a ver num tablet não pede reciprocidade.

As tecnologias, neste caso as aplicações, podem realmente interferir no desenvolvimento das crianças?
Podem, nesse aspeto podem. E o mesmo em relação a algumas áreas cognitivas e de relação social. Se um menino de 8 anos brinca no tablet ou se um de 12 anos joga na playstation, diria que isso é normal e não vejo mal nisso — só aconselho os pais a darem os jogos apropriados à idade dos filhos; mas se ele só brincar com o tablet ou com a playstation… Há crianças que crescem quase só com experiências de relação e de estímulo centradas no ecrã. Há pessoas que acham que tenho uma visão muito crítica em relação às tecnologias… As tecnologias têm coisas ótimas que podem facilitar ganhos de tempo, simplesmente acho que, nos dias de hoje, elas próprias se tornam tão opressivas no chamado tempo tecnológico que também bloqueiam a nossa vivência, o nosso tempo biológico e emocional.

A tecnologia começa a ser encarada como uma ama?
Exatamente. E isso é um risco em imensas circunstâncias. Não tem mal os miúdos verem os seus desenhos animados, não tem mal usarem as tecnologias, mas isso precisa de ser enquadrado em muitas outras coisas que fazem parte de um plano muito mais vasto de estimulação e de relação.

O livro também fala na importância de estabelecer rotinas, algo que parece estar associado à diminuição de ansiedade. Como é a criança que cresce sem rotinas?
A criança que cresce sem rotinas, sem regras ou limites, é uma criança que vai correr o risco de ficar progressivamente desregulada em relação a ela própria e na relação com os outros. As rotinas dão muita segurança e são uma maneira de se poupar tempo — a criança já sabe que, em princípio, é para tomar banho todos os dias antes do jantar… As rotinas dão uma certa pervisiblidade ao que vai acontecer. Não precisam de funcionar ao minuto, mas os miúdos agradecem estas regulações de tempo. Falando no sono, por exemplo, somos dos países da União Europeia que tem piores dados sobre o sono na infância, na adolescência e no estado adulto: dormimos pouco e dormimos mal. Telemóveis ligados durante a noite, que vão tocando, ou jogar na playstation imediatamente antes ir de para a cama… Assim não se consegue adormecer por causa do nível de excitação e de ativação cerebral. As rotinas facilitam muitas áreas do crescimento infantil e adolescente.

Qual a diferença entre a criação de rotinas e as agendas preenchidas de que há pouco falámos?
As rotinas implicam que algumas coisas básicas do dia, quer das crianças quer da relação das crianças com os adultos, possam decorrer de uma forma mais ou menos semelhante. É o acordar, por exemplo, às 07h durante a semana porque há aulas; é o jantar todos juntos à mesa sem os telemóveis por perto… Isto é diferente do excessivo preenchimento da agenda do tempo dos miúdos.

E como é uma criança que cresce sem contacto com a natureza?
É uma criança que em muitas áreas pode ser bastante mais inábil e, tendo conta áreas da estimulação cognitiva e emocional, pode ter dificuldades acrescidas. A natureza reporta-nos para determinados ritmos naturais que existem, aos quais não podemos fugir. O próprio contacto de adultos com a natureza é relaxante — baixa o ritmo cardíaco e dá-nos muito mais espaço para refletir sobre as nossas coisas.

Somos pais cada vez mais tarde. De que forma é que isso pode afetar a parentalidade?
Por um lado é bom porque, durante muito tempo, fomos recordistas de gravidez adolescente. Agora, acho que há pais que adiam muito a questão da natalidade porque fogem um pouco à responsabilidade que isso implica ou, então, têm aquela perspetiva da perfeição: primeiro querem um bom emprego, depois um bom ordenado, uma casa maior… Portanto, vão adiando, como se adia a saída de casa dos pais ou a autonomia económica. Estamos com vontade em não crescer e, sobretudo, com muito pouca vontade em assumir responsabilidades. Recordo-me de um estudo que dizia que, em algumas cidades, já há mais cães do que crianças. É mais fácil ter um cão, não vai à escola e tem um tempo de vida mais curtinho, obedece quase sempre. Crescer não é propriamente perder coisas, é somar coisas ao que já adquirimos.

Seria essencial trazer o conceito de mindfulness para a parentalidade?
Sim, eu acho que sim. No fundo, é orientar o nosso espaço mental para aquilo que é mesmo importante, no aqui e agora, connosco próprios e com aqueles que temos à nossa frente, as pessoas de quem gostamos.

 

 

Bebês & Tecnologias – Vídeo do NUFABE da Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Agosto 24, 2018 às 8:00 pm | Publicado em Vídeos | Deixe um comentário
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Crianças não devem passar mais de duas horas em frente aos ecrãs

Agosto 24, 2018 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia da Sábado de 13 de agosto de 2018.

Novo estudo revela que as crianças entre os 8 e 18 anos estão a passar mais de sete horas por dia em frente a ecrãs.

As crianças não devem usar computadores e smartphones mais do que duas horas por dia, revela um estudo publicado pela Associação American Heart.

Hoje em dia, revela a investigação, crianças entre os 8 e 18 anos passam mais de sete horas por dia em frente a ecrãs, contribuindo para uma “vida sedentária” que aumenta riscos de obesidade e problemas cardiovasculares.

A associação recomenda os pais a proibirem o uso de ecrãs durante refeições e antes de ir dormir. “Apesar de ainda não ser clara a correlação entre a obesidade e o tempo que se passa em frente a ecrãs, há uma preocupação crescente que os ecrãs tenham influência nos hábitos alimentares e sono”, diz Tracie Barnett, que liderou a investigação.

A organização recomenda brincadeiras “mais saudáveis”, ao ar livre.

Mais informações nas notícias:

New tools, old rules: Limit screen-based recreational media at home

Limit screen time among kids, experts caution

 

Acabaram os telemóveis e tablets nas escolas francesas

Agosto 14, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia e imagem do PPLWare de 31 de julho de 2018.

Há mais de um mês, informámos aqui que em França estavam a ser tomadas medidas para proibir a utilização de telemóveis nas escolas. O ministro da Educação francês batizou tal lei de “medida de desintoxicação” e apenas faltava a votação para saber se iria ser aprovada ou não.

A medida foi a votação ontem e ganhou de forma estrondosa! A partir do início de setembro acabaram-se os telemóveis nas escolhas francesas.

Está aprovada a medida que visa proibir a utilização de telemóveis nas escolas francesas segundo revela o jornal  Le Monde. A proposta do partido de Emammunel Macron, La République en Marche, ganhou com maioria absoluta, tendo conseguido 62 votos a favor e apenas um contra. De referir que o partido de Emammunel Macron detém uma maioria absoluta na Assembleia Nacional.

O que proíbe tal lei?

Esta nova lei, que será aplicada a partir de setembro, permite às escolas decidir o modo como querem aplicar a proibição, podendo obrigar os alunos a colocarem os dispositivos numas bolsas específicas dentro das mochilas escolares, mas permitindo o acesso em caso de emergência, ou uso pedagógico, mas também proibir a sua utilização por completo, sob a pena de sanções. Isto aplica-se a alunos, a partir dos 15 anos, que frequentem a escola secundária.

Crianças entre os três e os 15 anos não poderão ter ligados nas escolas francesas os seus smartphones, tablets, smartwatches ou outros equipamentos com ligação à internet.

Segundo a agência France Presse, a lei faz exceções para “uso pedagógico”, atividades extracurriculares e no caso de alunos com necessidades especiais.

Mais de 90 por cento das crianças francesas entre os 12 e os 17 anos tinham smartphones em 2016, de acordo com a agência reguladora de telecomunicações francesa ARCEP.

Pedro Pinto

 

As armadilhas dos falsos desenhos animados que as crianças veem na Internet

Julho 13, 2018 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia e imagens da Visão de 7 de julho de 2018.

Rui Antunes

Vídeos com conteúdos impróprios, como o homem-aranha a urinar na banheira da protagonista de Frozen ou um cão da Patrulha Pata a ser abalroado por um comboio, estão à distância de alguns cliques. E um estudo recente em Portugal indica que apenas um em cada dez pais monitoriza o que os filhos pequenos visualizam no telemóvel e no tablet

Um cão da Partulha Pata a ser brutalmente atropelado por um comboio e outro a atirar-se do telhado de um arranha-céus. A Porquinha Peppa a beber lixívia. Personagens de As Aventuras de Labybug a dançar no varão. O homem-aranha a urinar na banheira de Elsa, protagonista do filme de animação Frozen. O Mickey estendido numa poça de sangue após ser abalroado por um carro ou a Minnie presa pela cintura num alçapão de uma escada rolante.

Se não quer que o seu filho veja este tipo de conteúdos na Internet, o melhor é começar a prestar mais atenção aos vídeos a que ele acede a partir do telemóvel ou tablet. Disfarçados em desenhos animados que fazem as delícias dos mais pequenos, estes comportamentos violentos e impróprios proliferam na web, ao alcance de meros cliques. Obviamente, não são vídeos das séries originais, mas nenhuma criança o sabe. Se surgem na lista de recomendações, por semelhança de conteúdo, é para elas irresistível assistir a mais um episódio com as suas personagens preferidas.

“A exposição reiterada a cenas violentas, mesmo que virtualmente, gera o efeito de banalização e legitimação da violência e aumenta a probabilidade dos impactos negativos sobre o desenvolvimento cognitivo, emocional e espiritual da criança”, alerta a psicóloga Joana Garcia Fonseca. “Quando os heróis das crianças resolvem tudo por métodos violentos, elas não aprendem outra maneira de resolver os conflitos, pelo que estarão mais predispostas a reproduzir atitudes violentas no seu comportamento”, acrescenta a coordenadora da equipa técnica de Lisboa, Santarém e Setúbal da Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Proteção das Crianças e Jovens.

Esta consequência é expectável, sobretudo, em crianças que vivem em contextos familiares de agressividade e violência. “As crianças que vivem em ambientes caracterizados pelo diálogo e compreensão mútua, mesmo que também vejam programas violentos, tenderão a desenvolver um sentido crítico”, esclarece Joana Garcia Fonseca.

Quase um quarto das crianças em idade pré-escolar usa a Internet

Um estudo divulgado já este ano pela ERC (Entidade Reguladora da Comunicação Social) concluiu que 22% das crianças portuguesas em idade pré-escolar já utiliza a Internet. Até aos oito anos, a percentagem sobe para os 62%. E os desenhos animados estão entre os conteúdos mais procurados. A maior parte é inofensiva – ou pelo menos não atinge a gravidade dos exemplos citados, que chegam a ter milhões de visualizações antes de serem removidos ou etiquetados como conteúdo para adultos -, mas outros nem tanto. Por essa razão, diz Joana Fonseca, “é importante que os pais se preocupem com os programas que os seus filhos veem, da mesma maneira que se preocupam com a alimentação, o sono, a roupa, a higiene ou o cuidado com que atravessam a rua”.

Segundo o estudo da ERC, com o sugestivo título “Boom Digital? Crianças e ecrãs”, apenas um em cada dez pais monitorizam as páginas a que os filhos acedem, o que, perante estas (e outras) armadilhas pode ser visto como negligência. Na verdade, nem aplicações destinadas aos mais novos, em idade pré-escolar ou no primeiro ciclo, como o Youtube Kids, estão a salvo de recomendar conteúdos impróprios para crianças. Confiar apenas no filtro dos algoritmos é um erro crasso.

“Os pais devem conhecer os conteúdos do que dão a visualizar aos seus filhos. Se tiverem dúvidas, devem visualizar conjuntamente, a fim de poder explicar e ajudar a selecionar”, aconselha a psicóloga da comissão que zela pelas crianças, sugerindo aos pais o recurso à linha Internet segura para o esclarecimento de dúvidas relacionadas com o uso que os filhos dela fazem. Mais do que restringir o acesso, sustenta Joana Garcia Fonseca, importa “ajudá-los a saber pensar e a tomar decisões”, sendo fundamental que aprendam a distinguir o bom do mau. “Conversar com os filhos é essencial para compreenderem o que é real e o que é fantasia.” Na escola, a mensagem deve ser a mesma, de modo a reforçar o sentido crítico das crianças quando navegam no mundo virtual.

Outro ponto chave é não fazer dos ecrãs uma espécie de ama para todas as ocasiões, faça chuva ou faça sol. “Muitas vezes, os pais utilizam a televisão ou os programas disponibilizados na Internet, nomeadamente no Youtube, como babysitter. Escasseiam as alternativas de interação real da criança com o meio ambiente e com os outros. Passear, ouvir uma história, jogar um puzzle, fazer um piquenique ou, simplesmente, brincar. Quantas vezes os pais oferecem estas oportunidades de socialização e relação aos seus filhos atualmente?”, questiona a psicóloga.

 

 

 

 

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