O que precisam as raparigas de saber para crescerem seguras e independentes

Maio 19, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do http://lifestyle.publico.pt/ de 10 de maio de 2017.

Steve Biddulph é um psicólogo australiano que escreve sobre as diferenças entre rapazes e raparigas.

Como é que os pais podem garantir que as suas filhas se tornam mulheres fortes, independentes e confiantes? O australiano Steve Biddulph, perito em educação e psicólogo infantil, escreveu o livro 10 Things Girls Need Most to Grow up Strong and Free (“As 10 coisas de que as raparigas mais precisam para crescerem fortes e livres”). De acordo com este australiano, estas dez coisas são: um início de vida seguro e com amor, tempo para ser criança, competências para as amizades, o respeito e amor de um pai, uma faísca, tias, uma sexualidade feliz e saudável, coragem, feminismo e espírito.

Quando estava a decidir quais eram os dez componentes, Biddulph reflectiu sobre os aspectos que, segundo os estudos, reforçam o desenvolvimento das raparigas e falou com mulheres sobre aquilo que sentiam que tinha prejudicado a sua infância e o seu desenvolvimento.

Biddulph aconselha os pais a livrarem-se das “pressões mediáticas loucas sobre a aparência” e a não transmitirem nenhum dos seus problemas e inseguranças com o corpo em frente às filhas. Do mesmo modo, enfatiza a importância de ter modelos femininos fortes, incluindo tias, tal como a necessidade de falar sobre sexo de forma positiva, ao mesmo tempo que se enfatiza que a rapariga, e mais ninguém, é dona do seu corpo.

No livro, Biddulph explica que muitos dos problemas individuais das raparigas e das mulheres não são de todo individuais. Muitas vezes, eles resultam das forças, pressões, desigualdades, estigmas e abusos que afectam as mulheres ao longo dos anos. É por isso que o feminismo é apresentado como um dos dez componentes para educar uma rapariga forte. “O feminismo é importante porque muitas vezes uma rapariga individualiza,” explica o psicólogo ao jornal britânico The Independent.  “Descobrir que esta luta decorre há mais de um século em todas as partes do mundo e que não é só ela melhora a saúde mental, porque nos deixa zangados em vez de assustados ou inseguros. Sentimo-nos parte de algo maior.”

Antes deste livro, o australiano já tinha escrito outros dois, um sobre cada género, porque defende que não é igual educar um rapaz e uma rapariga. Assim, os seus bestsellers anteriores chamam-se Educar Rapazes e Educar Raparigas. Mas, um dia, Biddulph espera que as diferenças desapareçam.

Alguns dos conteúdos deste novo livro podem aplicar-se aos rapazes, mas, salvaguarda o especialista, são elas que têm maior propensão para sofrer de ansiedade, depressão e distúrbios alimentares. “Os rapazes têm mais probabilidade, em termos estatísticos, de morrer, de ser violentos ou de acabar na prisão”, acrescenta.

“A pressa é inimiga do amor”

“Desde bebés, as pessoas não têm tempo para estar em paz e estar perto da família”, explica o autor. “Não protegemos nem tomamos conta dos jovens pais, de forma a que eles consigam ser pais. Os governos neoconservadores querem que toda a gente faça parte do mercado de trabalho e fazem-nos sentir que ser pai é uma actividade inferior… eu defendo que ‘a pressa é inimiga do amor’ e que o nosso reflexo para estar ocupado se descontrolou. Somos um animal de manada e é difícil remar contra a maré, mas as pessoas começam a fazer essa escolha. Quando as pessoas estão ocupadas, as ligações enfraquecem, as crianças não nos contam os seus problemas, as mães e os pais começam a ficar tensos e infelizes devido à falta de paz e de intimidade e as crianças são geridas e tratadas como uma manada, em vez de serem realmente cuidadas e acarinhadas. Acontece o mesmo na escola, quando os professores em todo o mundo me dizem que não têm tempo para se preocupar.”

O resultado é que as crianças crescem no meio do stress e com inúmeras pressões, como ser o melhor na escola. Segundo o especialista, no Reino Unido, uma em cada cinco crianças foram diagnosticadas com ansiedade; e uma em cada três automutila-se.

 

 

 

Eduardo Sá: “As crianças saudáveis também ficam tristes”

Maio 18, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista do http://observador.pt/ a Eduardo Sá no dia 10 de maio de 2017.

Eduardo Sá respondeu às perguntas mais complicadas. Desmistificou a Baleia Azul, criticou a forma como a escola está organizada e pediu aos pais mão dura quando ela é necessária. Leia a entrevista.

 Eduardo Sá, psicólogo, professor, 55 anos, cinco filhos. Esteve na redação do Observador esta manhã numa entrevista coletiva, transmitida em direto, e onde também houve lugar às perguntas dos leitores. Foi esclarecedor, foi provocador, foi polémico. E falou de muita coisa. Desde a Baleia Azul, passando pelas vacinas, educação e dando dicas e truques sobre a difícil temática: como conseguir lidar com os adolescentes?

 Fala muito de pais e filhos. De certeza que há imensos pais e mães pelo país inteiro que costumam lê-lo e ouvi-lo e aposto que eles têm uma pergunta sempre atrás da orelha: “Será que ele consegue ser o pai que diz que nós devemos ser?”
Eu costumo dizer que os bons pais, e sublinhe-se bons, têm três qualidades ou três defeitos consoante a perspetiva que queiram colocar. Têm, invariavelmente, coração grande. Têm a cabeça quente, o que significa que as boas pessoas têm obrigatoriamente mau feitio e falam de mais. E, portanto, numa circunstância dessas, mal seria que eu achasse que deveria ser bacteorologicamente puro. Aliás, eu devo dizer que era engraçadíssimo que, um dia, um jornal como este fizesse uma campanha para transformar o lado esganiçado das mães em património da humanidade, porque eu acho lindíssimo, acho do mais bonito e comovente que existe, quando uma mãe faz aquelas reações acaloradas, fúria de mãe, que culmina sempre com duas pérolas: “Qualquer dia vou-me embora desta casa e vocês vão ver” ou “Não fales assim que sou tua mãe”, que faz com que os filhos fiquem estranhamente tranquilos, porque os filhos balizam-se pelos mesmos indicadores que os pais em relação a eles. Quando um filho sente que uma mãe está estranhamente calada é porque está doente e quando assume aquela postura acalorada que só as mães com um coração muito grandes são capazes de ter, começam: “Pronto, ela está no seu melhor”. Eu penso que os pais por dentro não são diferentes.

Portanto, também se irrita, lá em casa?
Mal seria se não o fizesse.

Tem um bebé de 17 meses… Tem uma diferença muito grande para os outros quatro, não é? Como é que é ter agora um bebé em casa? Vai ser um pai completamente diferente? Pensou muito sobre o assunto?
Não. Eu acho, aliás, que devia ser proibido pensarmos demais quando somos pais. Mas vou ser diferente. Tenho a ideia que num primeiro filho nós somos sempre piores pais. E isto vale para todos, acho eu.

É bastante provável, sim…
Portanto, os nossos primeiros filhos deviam ser sempre considerados crianças em perigoso porque nós, às vezes, lemos demais, às vezes queremos que eles se comportem de acordo com um conjunto de regras que depois têm muito a ver com a nossa história. Nós queremos sempre que um primeiro filho cicatrize muitas experiências da nossa vida. E, portanto, temos um bocadinho a ideia de que, num primeiro filho, acima de tudo, queremos ser melhores do que os pais que nós tivemos, queremos, de preferência não repetir os erros que eles foram repetindo, por mais que nós imaginássemos que eles estavam distraídos e, por ventura, até nem estariam. Queremos que eles peguem os sonhos que nós deixámos mais ou menos pelo caminho. E isto, num primeiro filho, é uma coisa terrível. Qual é a vantagem de um primeiro filho? O álbum do bebé tem as fotografias todas.

Verdade.
E, portanto, à medida que nós vamos sendo pais, vamo-nos reconciliando com o equipamento base com que todos nós lidamos e que muitas vezes desprezamos. Nós temos um sexto sentido absolutamente magnífico. As mães, não é publicidade enganosa, passam a vida a dizer que têm um dedo que adivinha. Só as mães é que descobrem os pacotes de leite debaixo das almofadas do sofá. E, portanto, este lado, que eu acho que é muito bonito, só se vai desenvolvendo à medida que vamos deixando de querer ser bons pais. E eu acho que às vezes, esta exigência de sermos bons pais estraga toda esta capacidade que nós temos para sermos pais, só pais.

Há uma questão preocupante, que temos visto nas últimas semanas, que é a da Baleia Azul. Acha que todas as crianças ou jovens estão sujeitos ao mesmo risco ou só aqueles que são mais problemáticos, à partida é que estão mais expostos?
Tenho medo de algum discurso público sobre os adolescentes, porque tenho medo que, às vezes, seja um bocadinho invejoso. É inacreditável que quando nós falamos dos adolescentes, falamos de riscos, de perigos, e, invariavelmente, esquecemo-nos das mais-valias incalculáveis que eles têm. E, portanto, é muito importante que nós possamos deixar claro para os pais que não há como um adolescente passar a ser um adolescente auto-mutilado, à conta de um jogo. Não vale a pena. Mas isto deve colocar-nos com uma discussão dura em cima da mesa, isto é, continuo a achar que devia ser proibido os pais terem programas espiões dentro dos computadores dos filhos. É batota. Mas acho que os pais são a verdadeira entidade reguladora da vida dos filhos e, portanto, não consigo compreender porque é que os pais se encolhem quando se trata de saber quais são os sites pelos quais os filhos andam a passear, quais são os amigos virtuais que têm, quais são os jogos por onde passam, etc. Não me choca que os pais façam isso na presença dos filhos, fazendo o uso da sua autoridade que é calma, uma autoridade que advém da sabedoria e da bondade dos próprios pais. E, portanto, tenho medo que se tenha falado tudo isto com tanto bruaá, que eu acho inquietante, mas às vezes não consigo perceber outras inquietações que deviam ser igualmente importantes. Há muitos mais adolescentes que entram nas redes sociais e que, de repente, de fotografia em fotografia, estão a tirar a roupa para alguém que está do outro lado. E, quando a determinada altura decidem parar, são advertidos, são ameaçados e as represálias em relação aos seus próprios pais são mais que muitas. Em termos de dimensão, é incomparavelmente superior em relação àquilo que se passa com a Baleia Azul e é uma rede que, de uma forma incompreensível para mim, tem merecido um silêncio que não consigo entender.

Mas, nesse caso, a polícia até já fez um vídeo para avisar os jovens e os pais. O que eu lhe queria perguntar era se está toda a gente sujeita ao mesmo risco?
Não, como é evidente. Não, por favor.

Ou até um jovem que parece mais equilibrado…
Quando vê aqueles filmes de época, em plena segunda guerra, vê o modo como muitas pessoas que estavam sob tortura induziam uma dor aguda de forma a calarem uma dor que, obviamente, a tortura infligia. Portanto, vamos ser claros: a esmagadora maioria dos jovens é incomparavelmente saudável e, comparados com os pais, seguramente mais saudáveis, por uma razão simples: porque os pais têm feito até um bom trabalho. Não vale a pena, no entanto, nós termos a ideia de que todos os adolescentes são saudáveis. Há adolescentes que são de facto muito doentes e que, às vezes, quando entram nesta vertigem, claro que estão à procura de uma dor, mutilam-se para sossegar, como é evidente, e silenciar, quando mais não seja, transitoriamente, uma dor que é muito mais intensa e muito mais regular na vida deles.

E o facto de isto se ter tornado uma onde louca nos meios de comunicação social…
Devia ser proibido.

Acha que isto leva a que haja mais curiosidade ainda e que possa levar a mais casos?
A prova de que talvez a comunicação social não esteja tão sintonizada com os adolescentes são as manchetes sobre manchetes que isto tem dado. A comunicação social, curiosamente, tem uma atitude, uma discrição exemplar em relação aos números de suicídios que vão acontecendo, porque a própria comunicação social tem a noção de que às vezes desencadeia um efeito dominó, que é francamente prejudicial, sobretudo naqueles adultos ou naqueles adolescentes que estão naquele registo quase impulsivo: “Faço ou não faço?”. É evidente que tudo isto fez com que muitos adolescentes, que nem sequer sabiam da existência do Baleia Azul, tenham lá ido ver. Não acho que isto seja razoável ou, pelo menos, é escorregadio. Mas sejamos razoáveis. Tomando em consideração o modo autogestacionário como muitos adolescentes circulam na internet, a percentagem de adolescentes que resvalam para o perigo é absolutamente mínima, tomada em consideração a distração dos pais em relação a isso.

ler o resto da entrevista no link:

http://observador.pt/especiais/eduardo-sa-as-criancas-saudaveis-tambem-ficam-tristes-a-tristeza-e-o-melhor-ansiolitico-do-mundo/

 

Portugal é um dos cinco países com mais adolescentes obesos

Maio 17, 2017 às 1:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança, Relatório | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.publico.pt/ de 17 de maio de 2017.

Relatório da OMS analisa 27 países e regiões. É apresentado nesta quarta-feira no Porto. Mostra que entre 2002 e 2014 o país estagnou no combate a esta doença. Consumo de vegetais é insuficiente e o de fruta é positivo, mas caiu muito nos últimos 12 anos.

Romana Borja-Santos

A luta contra a obesidade em Portugal não está a ter resultados significativos entre os mais novos. Em 2002 os dados não eram animadores e 12 anos depois o cenário continuava bastante preocupante: os adolescentes portugueses estão entre os mais obesos da Europa. Só a Grécia, a Macedónia, a Eslovénia e a Croácia apresentam valores mais negativos, revela um relatório da Organização Mundial de Saúde (OMS), que será apresentado nesta quarta-feira no Congresso Europeu de Obesidade, no Porto, e que compara 27 países e regiões.

O documento Adolescent obesity and related behaviours: trends and inequalities in the WHO European Region, 2002-2014, aponta para que a prevalência da obesidade em Portugal, nos adolescentes aos 11, aos 13 e aos 15 anos, seja de 5%. Este número representa uma subida de 0,3 pontos percentuais desde 2002, quando o objectivo era travar esta doença. O valor mais elevado na região europeia é registado na Grécia, com 6,5% de adolescentes obesos. No caso de Portugal, a contribuir para este resultado estão sobretudo os rapazes, com 6,9%. Já as raparigas registam um valor de 3%.

“Os níveis de obesidade nos adolescentes são preocupantes, associados a uma má alimentação, pouca actividade física e comportamentos sedentários”, sintetiza ao PÚBLICO a investigadora Margarida Gaspar de Matos, que coordena a parte portuguesa do trabalho da OMS.

A psicóloga da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa lembra que “a obesidade está associada a problemas de saúde no futuro”, dando como exemplo a diabetes, mas também problemas cardiovasculares, respiratórios ou até de sono e mentais. “Quanto mais cedo a obesidade se instala mais difícil é combatê-la e mais se acumulam os efeitos prejudiciais para a saúde física, mental e social”, reitera.

“É necessária uma acção política ambiciosa para atingir o Objectivo de Desenvolvimento Sustentável de travar o aumento da obesidade infantil. Os governos devem direccionar esforços e quebrar este ciclo prejudicial da infância para a adolescência e para o futuro”, reforça a directora regional da OMS para a Europa, Zsuzsanna Jakab, em comunicado.

Também João Breda, coordenador do Programa de Nutrição, Actividade Física e Obesidade da OMS/Europa realça que “a maioria dos jovens não superará a obesidade: cerca de quatro em cada cinco adolescentes que se tornam obesos continuarão a ter problemas de peso na idade adulta”.

Menos fruta

O trabalho da OMS olha também para outros indicadores que podem ajudar a explicar estes resultados, como alguns hábitos alimentares, mas também comportamentos sedentários e pouca actividade física regular. Por exemplo: Portugal não chega a ser dos países onde os adolescentes comem mais fruta diariamente, mas não está longe. O país com melhores resultados é a Bélgica (zona francesa), onde 49,1% dos adolescentes comem fruta todos os dias. Nos portugueses o valor é de 40,9%, mas há uma nuance: o país está entre aqueles onde o consumo de fruta mais caiu entre 2002 e 2014, com uma descida de 6,8 pontos percentuais neste período.

Concretamente sobre a fruta, Margarida Gaspar de Matos lembra que o relatório da OMS não apresenta explicações para estas mudanças, mas a investigadora avança com alguns argumentos. Com a crise económica, diz, comer fruta ficou mais “caro do que um hambúrguer” e são reportados mais casos de crianças que se deitam sem comer por dificuldades económicas em casa. Ainda assim, a psicóloga diz que as escolas têm conseguido ter alguns programas de distribuição de fruta que talvez tenham travado uma descida ainda maior.

A OMS analisa, no documento, a relação entre a obesidade e o contexto socioeconómico em que os adolescentes vivem, percebendo-se que a má alimentação anda de mãos dadas com as dificuldades financeiras. No caso de Portugal, o relatório apenas consegue estabelecer uma relação entre o excesso de peso e o baixo estatuto socioeconómico nos rapazes de 11 anos. Ainda assim, Margarida Gaspar de Matos salienta que é precisamente nesta idade que o país tem o maior pico de obesidade nos adolescentes.

Poucos vegetais

Ainda nos hábitos alimentares, quanto aos vegetais, só 28% dos adolescentes portugueses comem estes produtos diariamente. Os valores mais elevados encontram-se na Bélgica e Ucrânia, onde ultrapassam os 50%. Mesmo assim o valor subiu dois pontos percentuais em Portugal desde 2002. O que é positivo.

Outra boa notícia é que nestes 12 anos registou-se uma queda significativa em Portugal no consumo de produtos como refrigerantes e doces, tanto em rapazes como em raparigas e em todas as faixas etárias.

Margarida Gaspar de Matos lembra que já outro estudo da OMS, Health Behaviour in School-aged Children, publicado no ano passado, e que serve de ponto de partida à avaliação que será divulgada nesta quarta-feira, indicava que os jovens portugueses teciam críticas à qualidade da alimentação das cantinas escolares. A psicóloga sublinha: uma alimentação saudável não implica servir refeições com pouco sabor.

De resto, ainda de acordo com o estudo, os hábitos alimentares e a actividade física vão piorando com a idade, mas é entre os rapazes de 11 anos que se verifica uma maior prevalência de obesidade. Factores relacionados com o crescimento contribuirão também para esse facto, diz.

Entre os 11 e os 15 anos aumentam também alguns comportamentos sedentários, como utilizar a televisão ou o computador mais de duas horas por dia, ainda que se tenha registado uma queda nos últimos anos. O relatório não explica, mas a psicóloga lembra que estes hábitos podem estar a ser substituídos por outros, como o uso de tablets e smartphones– até porque nem por isso a actividade física tem aumentado entre os adolescentes portugueses. Aliás, as raparigas até estão mais sedentárias.

Os dados da OMS levam Margarida Gaspar de Matos a deixar algumas recomendações ao Governo. Mais do que políticas novas, a investigadora apela à continuidade nas medidas e pede uma avaliação dos resultados do que já foi feito – criticando, no entanto, opções como as tomadas pelo então ministro da Educação, Nuno Crato, que desvalorizaram a importância de disciplinas como a Educação Física.

descarregar o documento citado na notícia em baixo:

Adolescent obesity and related behaviours: trends and inequalities in the WHO European Region, 2002–2014

E depois dos ecrãs: que vida pode sobrar?

Maio 11, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do https://www.publico.pt/ de 1 de maio de 2017.

Estamos rodeados de ecrãs e a vida parece caber em meia dúzia de polegadas. Nos transportes públicos, nos restaurantes, em casa. Há quem pense que a utilização febril dos dispositivos conduz afinal a uma nova forma de ignorância.

Inês Chaíça

“Nada é mais significativo e deprimente do que ver numa entrada de uma escola, ou num restaurante popular, ou na rua, pessoas que estão juntas, mas que quase não se falam, e estão atentas ao telemóvel, mandando mensagens, enviando fotografias, vendo a sua página de Facebook, centenas de vezes por dia”, escreveu o colunista José Pacheco Pereira na sua última crónica de 2016 para o PÚBLICO. Nela, define um novo tipo de ignorância: aquele que não está apenas relacionado com a falta de conhecimento pura e dura, mas com a falta de interesse pelo que nos rodeia – e que estaria, em grande parte, relacionada com os dispositivos electrónicos e as redes sociais.

Fala também da falta de capacidade de questionar o mundo e de distinguir a informação certa da falsa. E, pior: porque a informação não-verificada se propaga de forma tão rápida nas redes sociais, Pacheco Pereira define-as como “viveiros de populismos”. Será apenas isso?

Miguel C. Tavares e José Alberto Gomes estiveram em Hong Kong e as imagens que trouxeram parecem ilustrar a crónica de Pacheco Pereira (ainda que não estejam directamente relacionadas). Em cinco minutos, a curta-metragem In Between mostra uma sociedade alheada do que se passa à sua volta e presa aos ecrãs.

Miguel Tavares, formado em arquitectura mas que hoje em dia é realizador freelancer, explicou ao PÚBLICO que não foi para Hong Kong com uma ideia pré-definida – passou lá um mês a misturar-se com a população e com a cidade e a perceber como funcionam as dinâmicas de comunicação. “A ideia surgiu lá, não foi algo pensado”, explica. “É um tema que também me interessa e é bastante actual e pertinente: essa alienação, o facto de cada pessoa viver no seu mundo”. E trouxe para Portugal imagens de pessoas nas suas deslocações quotidianas, mas que não conseguem desligar-se: os olhos estão presos ao ecrã do smartphone e os auriculares não saem dos ouvidos.

Conta que sentiu mais isso em Hong Kong do que em Portugal, “pela própria dinâmica da cidade” e “pelas distâncias que as pessoas percorrem de transportes”, que acabam por atirá-las para o refúgio do telemóvel e das redes sociais. “Em Portugal não há nada parecido”, considera. Talvez nas grandes metrópoles europeias, mas ainda assim com algumas reservas.

As reacções que teve enquanto filmava são sintomáticas dessa diferença entre as sociedades ocidentais e orientais: “Era impossível tentar fazer o mesmo em Portugal. Eles têm um à-vontade muito grande com as fotografias e com as câmaras”. No entanto, salienta uma certa falta de abertura em relação ao outro, uma certa reserva e uma vontade de manter as distâncias – salvaguardando que o choque de culturas pode ser a causa disso.

Miguel C. Tavares já não é novato nas andanças dos festivais de cinema. Com a curta-metragem Sizígia, realizada pelo colectivo Ruptura Silenciosa, do qual fez parte, esteve no Festival Internacional de Cine de Mar del Plata, na Argentina, no Festival Court c’est Court, em Cabrières d’ Avignon, França, e no Indie Lisboa, todos em 2013. A curta-metragem ??? IN BETWEEN ???, filmada em 2016, ainda não se estreou em nenhuma plataforma e é mostrada publicamente agora pela primeira vez.

A “linha da vida” que é o smartphone

Estamos cada vez mais ligados e já quase não sobram dúvidas: o smartphone passou a ser o veículo principal da navegação na Internet a nível global – e os jovens são os seus principais utilizadores. “No Brasil, em três anos, passou-se de 30% de jovens que acediam à Internet pelo smartphone para 85%”, explica Cristina Ponte, investigadora e professora na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (FCSH-UNL) que se especializou nas questões que envolvem crianças e jovens e os media. “Num estudo com 44 jovens universitários angolanos, verificou-se que menos de 10 têm um computador e uma ligação à Internet a partir de casa, por isso é o smartphone que os liga ao mundo”. Em Portugal, ainda há uma grande tradição na utilização do computador porque “os jovens cresceram com os programas do e-escolas e e-escolinhas, que lhes deram acesso a computadores portáteis”, explica a investigadora.

Mas a tendência para a crescente utilização do smartphone é real e começa a ter consequências. Pacheco Pereira, por exemplo, alerta para a alienação quase total dos jovens: “Não há maior punição para um adolescente do que se lhe tirar o telemóvel, e alguns dos conflitos mais graves que ocorrem hoje nas escolas estão ligados ao telemóvel que funciona como uma linha de vida”, escreveu.

Cristina Ponte, professora universitária, confirma que os jovens confiam cada vez mais no smartphone. “Por exemplo, os meus alunos dizem-me muitas vezes que deram uma vista de olhos no texto que mandei para ler no telemóvel, mas isso não dá para nada”. A investigadora diz que há coisas que têm de levar o seu tempo – e ler é uma delas. “Concordo com Pacheco Pereira quando ele diz que o tempo da leitura não é o tempo da imagem em movimento – sobretudo se estas imagens durarem apenas 60 segundos e forem mudas. Há um tempo que pede para ser vivido de forma mais lenta”.

No entanto, salienta que a sensibilidade para os perigos da Internet e dos ecrãs é fruto da cultura familiar e dos processos prévios – e não apenas do facto de se ser jovem, como parece sugerir Pacheco Pereira na passagem citada acima. O espírito crítico nasce de um “ambiente estimulante” criado em casa, diz a investigadora, de jovens que foram incentivados, desde cedo a exprimirem as suas opiniões. “Não podemos ver os jovens e a tecnologia e ignorar os ambientes familiares em que viveram, a educação que tiveram, o facto de terem crescido em condições de liberdade e de acesso a um conjunto diversificado de literatura, cinema, teatro…”, explica a investigadora, acrescentando que todas as pessoas têm recursos diferentes, o que justifica o facto de a tecnologia não actuar em todas as pessoas da mesma forma. Por isso, defende, é perigoso generalizar, como fez Pacheco Pereira.

Activismo político e as redes sociais

“Há jovens que têm a capacidade de ter um espírito crítico e tiram partido das redes sociais, normalmente com um sentido mais activista”, adianta a mesma investigadora. O que explica, em parte, os movimentos activistas (de jovens e não só) nascidos nas redes sociais. Cristina Ponte considera que os telemóveis e as redes sociais facilitam a organização e mobilização em torno de uma causa. Isso ganha mais expressão no caso dos jovens porque “estão sempre na vanguarda das tecnologias, são capazes de se mobilizar e fazer curto-circuito à informação mainstream”.

Ao mesmo tempo, assiste-se a um tempo em que os jovens não parecem ter outra alternativa às redes sociais. Cristina Ponte salienta que na actualidade há alguns espaços que lhes são interditos, e que os obrigam a procurar outras formas de estarem em contacto uns com os outros. A rua, por exemplo, tornou-se num espaço quase proibido e os adolescentes são vistos como arruaceiros se andarem em grupo.

Já Tiago Lapa, investigador do Centro de Estudos de Sociologia do ISCTE-IUL e professor na mesma universidade, salienta o carácter mais tradicional das manifestações de interesses políticos que começam nas redes sociais e que passam para a rua. “Quem usa as redes sociais quer transmitir uma mensagem”, sintetiza. “Os movimentos sociais organizam-se a partir das redes sociais – o que provoca uma certa globalização desses movimentos – mas há que perceber que um dos objectivos dessas mobilizações é, precisamente, aparecer na televisão”, acrescenta o investigador.

Exemplo disso foi a manifestação de 12 de Março de 2011, que ficou conhecida como manifestação da “gração à rasca. Tiago Lapa diz que as redes sociais foram peças centrais nessa manifestação, mas que se “não tivesse sido televisionada, não teria o impacto que teve na percepção das pessoas”.

Já António Guerreiro, ensaísta, crítico literário e cronista, tem uma visão mais céptica sobre a possibilidade de as redes sociais se constituírem como a voz de um movimento político. Conta ao PÚBLICO que, até hoje, “não há uma comunidade política ou um sujeito social constituídos através das redes sociais”. O que não quer dizer, explica, que as redes sociais não produzam efeitos, mas são “de outra ordem”. “As redes sociais são um bom exemplo de um mecanismo hipertélico, algo que vai para além dos seus próprios fins e se anula por isso”, considera.

“Quem não está na rede é como se não existisse”

Se não foi fotografado, comentado ou gravado no Facebook, no YouTube, no Twitter ou no Instagram é porque não aconteceu: é esta a lógica que parece reger a comunicação nas redes sociais. E, segundo Cristina Ponte, é importante pensar nos tipos de vigilância que instaura. Por um lado, a vigilância positiva, o facto de “podermos tirar uma fotografia a algo que achemos injusto”, como descreve a investigadora, e partilhá-lo numa questão de segundos. Por outro, instaura “um tipo de vigilância e controlo, tidos quase como naturais, e que colocam muitas questões de privacidade e reserva”. E, de facto, o que está na Internet não sai da Internet – para o bem e para o mal. O direito ao esquecimento impõe-se como um novo debate político, cujas bases só agora foram lançadas. “É uma batalha política pura que poderá ganhar algum relevo nos próximos anos”, avalia Tiago Lapa.

Parecemos cada vez mais alheados do mundo – mas saltamos de aplicação em aplicação e sabemos exactamente o que cada um dos nossos amigos está a fazer. Como Pacheco Pereira coloca a questão: “quem envia um ping espera um pong”, escreveu o colunista da sua primeira crónica deste ano no PÚBLICO, em que voltou ao tema. “É uma pressão para estarmos constantemente ligados e a responder num tempo vertiginoso”, confirma Cristina Ponte. “[Os novos meios] são quase totalitários. Quem não está na rede é como se não existisse”, afirma a investigadora da FCSH.

Em Portugal são cada vez menos os casos de pessoas que optam por não pertencer ao universo das redes sociais. O número de utilizadores continua a aumentar e isso tem a ver com a “nossa cultura latina”, de querer saber sempre o que os outros estão a fazer. “A cuscar”, como resume a professora.

“A sociedade da transparência, ditada pelos media sociais, retira a distância mas ao fazer isso retira a possibilidade da descoberta e da curiosidade”, explica Tiago Lapa. Dá a falsa impressão de que é possível conhecer e saber tudo sobre uma pessoa, apenas através daquilo que ela escolhe publicar na Internet. “Essa transparência é enganadora e extremamente redutora”, adverte o investigador do CIES, até porque a personagem online é construída e “aquela pessoa tem outra vida, outras máscaras e outros sentimentos, é apenas uma versão de si mesma”.

Contudo, não se trata, necessariamente, de “sociedades sem relações humanas de vizinhança, de companhia e amizade, sem interacções de grupo, sem movimentos colectivos de interesse comum” como avalia Pacheco Pereira. Cristina Ponte afirma, que, pelo menos no caso dos adolescentes, estas dinâmicas sociais não são novas. “É o que faz com que o jovem se sinta integrado”, especialmente no caso das raparigas. Antigamente “eram as cartas, depois as cassetes, os telefones, todo um conjunto de recursos tecnológicos que eram dados aos adolescentes” e que, na essência, não são diferentes dos media sociais.

Alienação e a (aparente) ascensão dos populismos 

Quando se tira o holofote dos jovens e adolescentes e se passa para os adultos, o cenário não sofre grandes alterações. Pacheco Pereira escreve que “não é por acaso que o grande reservatório do populismo político e social nas sociedades ocidentais são as redes sociais, que, não sendo a causa do populismo, são um seu grande factor de crescimento e consolidação”. Será que há necessariamente uma relação entre as duas coisas?

A opinião de Tiago Lapa não é totalmente contrária. Explica que o problema não é exclusivo das redes, mas de um conjunto de condições políticas especiais que “tornam esses discursos atractivos”. As pessoas transmitem as suas opiniões sobre um determinado assunto “utilizando uma ferramenta que têm à mão, que são as redes”. Mas ressalva que tem mais a ver “com os mensageiros do que com os meios” – portanto isto podia acontecer na Internet, na rua ou nas páginas de um jornal. De acordo com o professor do ISCTE, as redes sociais suprimem algumas necessidades de sociabilidade mas “ainda são um meio que temos de aprender a utilizar”. O que falta, muitas vezes, é uma abordagem crítica sobre o que se lê – uma certa desconfiança em relação à fidedignidade e credibilidade das pesquisas online. E para generalizar esse espírito crítico há que aumentar a literacia da população: fazer com que saibam descodificar mensagens e perceber o objectivo do emissor quando escreve e publica nas redes sociais.

Não se trata de uma época com falta de informação. Trata-se, antes, de um contexto em que há “várias informações contraditórias disponíveis” – há demasiada informação e não se sabe em quem acreditar. Em paralelo, houve a deterioração de “um conjunto de autoridades, sendo o jornalista uma delas”. Também neste ponto, Tiago Lapa e Pacheco Pereira estão de acordo.

Discordam apenas na definição de “nova ignorância”. Pacheco Pereira define “este novo tipo de ignorância” como um “ataque ao saber, ao conhecimento certificado, em nome de um igualitarismo da ignorância”. Tiago Lapa tem algumas reservas. A existência de várias fontes de informação não é necessariamente negativa: “Permitem canais alternativos para obter informação fora dos canais mainstream”, diz Tiago Lapa, o que é positivo porque cada pessoa pode fazer a sua dieta informativa própria.

O investigador, por outro lado, não concorda que os ecrãs e as redes sociais por si sejam um meio de alienação, como sugere Pacheco Pereira. A discussão, aliás, já é antiga. “É uma associação muito antiga e que já vem com o cinema, com a televisão, com os grandes meios de comunicação e que agora é associado à Internet”, explica Tiago Lapa. Essa teoria baseia-se num conjunto de pressupostos, como a falta de pensamento crítico e passividade dos consumidores de conteúdos. “Sim, qualquer meio tem potencial de alienação”, admite o professor, “mas há que perceber para que grupo e em que condições”.

António Guerreiro, por sua vez, coloca a questão da alienação noutra perspectiva: “o mundo que nos rodeia não é o das tecnologias, da realidade virtual, das imagens sem referente? Se estamos atentos a esse mundo, estamos atentos ao real porque não existe outro”. Não se trata necessariamente de alienação. Na perspectiva do ensaísta aceitar que existe alienação “seria aceitar uma velha concepção de que estamos mergulhados na ‘ideologia’”, que precisa de ser afastada, “como um véu”, para aceder à verdade.

Para além dos ecrãs, o que existe?

Nem a Organização Mundial de Saúde nem o manual da Associação Americana de Psicologia definem a dependência da Internet como uma doença mental. No entanto, há programas de tratamento para a dependência da Internet, que a equiparam a adições a substâncias como a droga ou o álcool. Daniel Sampaio, psiquiatra responsável pelo Núcleo de Utilização Problemática da Internet do Hospital de Santa Maria, explica ao PÚBLICO que “as pessoas que têm dependências da Internet, do ponto de vista do cérebro, não são muito diferentes das que são dependentes das drogas ou do álcool”: “Tem a ver com a diminuição da ansiedade”, explica.

O que distingue a utilização normal da utilização abusiva da Internet é o prejuízo da vida pessoal e social. Faltar à escola, ao trabalho, às refeições e aos convívios com amigos seriam sinais de uma utilização abusiva. O simples facto de estar sempre ligado não faz com que alguém seja viciado na Internet – acontece apenas a partir do momento em que se deixar de lado as actividades do quotidiano. Na categoria dos casos pouco problemáticos estão as “pessoas sozinhas”, mas com “óptimas relações em presença”, que desenvolvem com recurso a vários dispositivos, descreve Daniel Sampaio.

“O grande problema das pessoas dependentes da Internet é que muitas vezes têm patologias associadas, sintomas de outras doenças mentais, particularmente sintomas depressivos ou ansiosos”, afirma o psiquiatra. O tratamento é psicológico e psiquiátrico e consiste em tratar as perturbações associadas, fazendo, ao mesmo tempo, uma desabituação à Internet – mas nunca cortando abruptamente o seu uso.

Os casos de pessoas que apresentam sintomas de dependência relançam o debate sobre o progresso. Este debate é antigo, e no entender de Tiago Lapa, está resolvido. O progresso técnico nem sempre anda de mãos dadas com o progresso social e isso é óbvio em muitas esferas da vida quotidiana. “Não é por termos melhores aparelhos que vivemos melhor”, resume.

A questão do trabalho é sintomática de uma utilização da Internet que nem sempre se traduz numa melhoria das condições de vida, que é, por sua vez, um debate político. Algumas profissões tornaram-se obsoletas e a intensificação do trabalho é uma realidade. O direito a desligar, que deu origem a uma nova lei em França e que tem passado, também, para as agendas políticas de outros países europeus, é exemplo disso. Para Cristina Ponte, a questão é simples: trata-se de bom senso da parte de quem manda um e-mail ou tenta telefonar fora do expediente. “Esta discussão é importante para nos fazer pensar que temos que ter respeito pelo outro e pelo seu tempo de descanso”, considera. Resume a questão de maneira peremptória: “Podem mandar e-mail, mas não fiquem à espera que responda”.

No entanto, evidencia que “na maior parte do tempo, as pessoas estão ligadas, não por causa do trabalho, mas porque há um certo horror ao ‘não fazer nada’”. E isso reflecte-se na maneira como os pais educam os filhos: “Há pais que acham que o tempo dos ecrãs deve ser útil, por isso, os filhos devem estar a fazer alguma coisa educativa”, resume a investigadora. E isso nem sempre é o melhor do ponto de vista pedagógico.

Esta nova sociabilidade “faz parte de sociedades em que deixou de haver silêncio, tempo para pensar, curiosidade de olhar para fora, gosto por actividades lentas como ler, ou ver com olhos de ver”, escreve Pacheco Pereira. As questões avolumam-se – a Internet mudou assim tanto o nosso quotidiano? Constitui um tipo de progresso? É uma nova forma de expressão política? A comunidade cientifica ainda não chegou a um consenso mas estas questões – que começam a ser agora discutidas no âmbito político – tornam-se cada vez mais relevantes.

Texto editado por Sérgio B. Gomes e Hugo Daniel Sousa

 

 

 

 

 

 

Baleia-Azul. O jogo na internet que está a levar jovens no Brasil a suicidar-se

Maio 7, 2017 às 1:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Notícia do http://www.dn.pt/ de 24 de abril de 2017.

Através de grupos no facebook, jovens são desafiados pelo “curador” a cumprir tarefas
| Pedro Correia / Global Imagens

Desafio do mundo virtual tem 50 níveis e incentiva ao suicídio e à automutilação. Já originou vítimas em oito estados do país. Polícia investiga origem do jogo que surgiu primeiro numa rede social russa

O casal de namorados Luís Kafru-ne e Kaena Maciel, de 19 e 18 anos respetivamente, hospedou-se no Maksoud Plaza, hotel de luxo na região da Avenida Paulista, em São Paulo. Horas depois, Luís matou Kaena com um tiro na cabeça e suicidou-se. As autoridades suspeitam que este crime é mais um episódio do macabro Baleia-Azul, jogo na internet que já levou ao suicídio ou à automutilação adolescentes em oito estados do Brasil.

“A culpa é da baleia”, escreveu no Facebook um rapaz de 17 anos de Bauru, cidade do interior do estado de São Paulo, minutos antes de se tentar atirar de um viaduto. Casos semelhantes aconteceram nos estados do Paraná, Minas Gerais, Mato Grosso, Pernambuco, Rio de Janeiro, Santa Catarina e Paraíba.

A origem do Baleia-Azul, um jogo com 50 níveis de dificuldade que tem o suicídio como etapa final, é controversa. As primeiras informações datam de 2015 e estavam na rede social Vkontakte, o equivalente russo do Facebook. Os participantes são selecionados de madrugada por um administrador – chamado de “curador” – que vai lançando desafios, cada vez mais difíceis e perigosos. Além do Brasil, há casos relacionados com o jogo, cujo nome deriva do mamífero dos oceanos Atlântico, Índico e Pacífico que procura praias para morrer por vontade, na Rússia, Ucrânia, Roménia, Espanha e França.

Além dos casos citados, também em Jaú (estado de São Paulo), um rapaz de 13 anos tentou matar-se cortando os braços com uma lâmina de barbear, após ser excluído da família das redes sociais por suposta determinação do curador. O site G1 teve acesso a um trecho do diálogo em que o curador começa por perguntar ao adolescente se quer jogar e se está disposto a ir até ao fim, para depois determinar a primeira de 50 tarefas que consistia em listar aquilo que o fazia sentir triste.

Uma jovem de 25 anos, do Paraná, estava preocupada com o comportamento da irmã, de 11, e resolveu investigar o computador dela. Contou ao O Estado de S. Paulo que não conseguiu chegar ao fim das mensagens enviadas pelo curador: “Incitam-nos a fazer o mal às pessoas que amamos, é agressivo, intenso, perigoso.” Ainda no Paraná, oito adolescentes dos 13 aos 17 anos deram entrada em hospitais da capital Curitiba após tentativas de suicídio por medicamentos e automutilação. Um deles admitiu à polícia jogar Baleia-Azul. “Vamos procurar os responsáveis por incitação ao suicídio”, disse o secretário estadual de segurança. A pena prevista pelo Código Penal para esse tipo de crime é de dois a seis anos de prisão.

A Polícia Militar da Paraíba identificou 20 participantes no Baleia–Azul que se tentaram mutilar ou matar na capital estadual João Pessoa e noutras cidades. Há dois casos de aliciamento ao jogo no Rio de Janeiro e nove de mutilações juvenis em Santa Catarina. No Mato Grosso, a polícia suspeita que o suicídio de Maria Olívia, de 16 anos, se deveu ao Baleia-Azul, identificando na sequência uma comunidade de 350 participantes do jogo. Em Minas Gerais, registaram-se mais dois casos de suicídio nas últimas semanas. Maria de Fátima, mãe de Gabriel (19 anos), um dos jovens que morreu, disse que ele “não aguentou a pressão. Dizia que eles têm os dados das famílias de quem tenta sair e fazem ameaças. Quem for mãe ou pai dê umas palmadas, mas olhe o telemóvel dos seus filhos, não quero que mais nenhuma mãe passe pelo que estou passando”.

Em Pernambuco, a polícia aposta na prevenção, com vídeos na internet e visitas a escolas. A Escola de Comércio Álvares Penteado (São Paulo), lançou o Coelho Branco, que consiste em 15 tarefas “do bem”, e a psicóloga Tamara Camargo, com dois publicitários, lançou o site Baleia Rosa, onde adolescentes podem desabafar. “Cerca de 20% são utilizadores de Baleia-Azul e outros sites”.

 

 

 

 

“Os filhos fechados em casa não estão mais seguros” Entrevista de Manuel Coutinho do IAC ao JN

Maio 5, 2017 às 4:50 pm | Publicado em O IAC na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista do Dr. Manuel Coutinho (Secretário–Geral do Instituto de Apoio à Criança e Coordenador do  Sector SOS-Criança do Instituto de Apoio à Criança) ao Jornal de Notícias de 30 de abril de 2017.

 

Adolescentes portugueses sentem-se mal quando não têm Internet por perto

Maio 5, 2017 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.publico.pt/ de 19 de abril de 2017.

Mais informações na notícia da OECD:

Most teenagers happy with their lives but schoolwork anxiety and bullying an issue

A satisfação com a vida, a relação com os pais e com a escola também foram avaliadas joana bourgard

Estudo da OCDE diz que jovens que têm um uso extremo da Internet mostram-se menos satisfeitos com a vida e têm também desempenhos académicos piores.

Clara Viana

Portugal é dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) onde existe uma maior percentagem de jovens de 15 anos a afirmar que se sentem mal quando não têm disponível uma ligação à Internet. São mais de 77% os que o afirmam, quando a média na OCDE é de 54%.

Acompanham Portugal naquele pelotão a França, Grécia, Suécia e Taipé, segundo revelam os resultados dos inquéritos efectuados aos alunos que realizaram os testes PISA em 2015, divulgados nesta quarta-feira de manhã num relatório da OCDE sobre o bem-estar dos jovens.

Os testes PISA, que são promovidos pela OCDE, realizam-se de três em três anos para a aferir a literacia a leitura, matemática e ciências dos alunos com 15 anos de idade.

Apesar da aparente dependência dos alunos portugueses face à Internet, o tempo em que estes dizem estar online durante os dias da semana (140 minutos) está ligeiramente abaixo da média da OCDE (146). Ao fim de semana a situação inverte-se: os alunos portugueses passam 190 minutos na Net contra uma média de 184 minutos na OCDE.

Margarida Gaspar de Matos, coordenadora em Portugal do grande estudo sobre a adolescência promovido, de quatro em quatro anos, pela Organização Mundial de Saúde (Health Behaviour in School-Aged Children), confirma que Portugal se tem “evidenciado” no uso da Internet, desde 2010, mas alerta que não se deve confundir “o abuso do uso” com “dependência”.

“A dependência da Internet tem um critério clínico de diagnóstico que transcende as horas passadas” online, adianta. Mas o abuso tem também consequências “uma vez que traz associado problemas de saúde física, nomeadamente higiene do sono, problemas sensoriais, de alimentação, de sedentarismo e psico-sociais”, alerta.

A investigadora salienta, contudo, que não se deve esquecer que “o acesso e uso da Internet é um avanço civilizacional que inclui acesso à informação, gestão do trabalho, comunicação e recreação”.

“São três realidades diferentes e baralhá-las não ajuda a compreender a situação. Deve-se aproveitar os pontos positivos, que são muitos, e tentar limitar os problemas”, conclui.

Quase 90% dos jovens inquiridos na OCDE concordam que a Internet “é um óptimo recurso para obter informação” e 84% consideraram que as redes sociais “são muito úteis”. Na generalidade, a primeira afirmação foi mais apontada por estudantes de meios socioeconómico favorecidos do que pela dos oriundos de meios carenciados. Mas Portugal tem, também aqui, um lugar de destaque: o fosso entre os dois grupos não chega aos cinco pontos percentuais. Há poucas diferenças entre ambos. Dinamarca, Islândia e Macau alinham com Portugal neste grupo. Já no México a diferença entre os dois grupos é de 20 pontos percentuais.

No geral, o uso da Internet “pode aumentar a satisfação com a vida por propiciar entretenimento e retirar obstáculos à socialização”, mas também pode ser uma fonte de riscos ao bem-estar dos jovens, alerta-se no relatório. Por exemplo, os jovens que têm um uso extremo da Internet mostram-se menos satisfeitos com a vida e têm também desempenhos académicos piores.

Satisfeitos com a vida

Saber se os estudantes estão satisfeitos com a sua vida foi um dos objectivos do inquérito realizado. Numa escala de 0 a 10, em que 0 corresponde à pior vida possível e 10 à melhor, em média os alunos da OCDE apontaram para um valor de 7,3.

Em Portugal o lugar nesta escala é de 7,36. No valor mais alto da escala, estão 31% dos alunos portugueses, que dizem estar muito satisfeitos com a vida (34,1% na OCDE) e na posição oposto existem 8,9%, cerca de três pontos percentuais abaixo da média.

Mas a satisfação com a vida está também marcada pelo género: no conjunto dos países da OCDE, existem 39% de rapazes de 15 anos que se dizem muito satisfeitos com a vida, um valor que baixa para os 29% quando são as raparigas a falar. Em Portugal o fosso entre os dois grupos é idêntico (35,6% para os rapazes e 26,3% para as raparigas).

Uma das conclusões a que a OCDE chegou é a de que a relação entre satisfação com vida e o desempenho escolar é fraca. Já o ambiente em que os estudantes aprendem e se desenvolvem têm peso na satisfação com a vida. E aqui, frisa-se, os professores têm um “papel particularmente importante”: “Os estudantes mais felizes tendem a dar conta de uma relação positiva com os seus professores.”

Também os pais têm aqui um papel a desempenhar. Os estudantes cujos pais passam tempo a falar com eles, que comem uma refeição em conjunto ou debatem o modo como o filho se está a sair da escola têm uma probabilidade maior de terem maiores níveis de satisfação com a vida.

Portugal aparece, também aqui, em destaque com 90% dos alunos a dizerem que comem pelo menos uma refeição em conjunto com os pais contra uma média de 82% na OCDE. E 92% dos alunos portugueses também dizem que os pais têm o hábito de falar com eles depois da escola, um valor igualmente superior à média da OCDE (86,1%).

Ir mais longe

A motivação dos alunos em ir mais longe é outro factor preditor de uma maior satisfação com a vida, frisa a OCDE. Aos 15 anos, 44% dos alunos da organização dizem querer completar um curso universitário. Em Portugal são menos: 39,9%.

Em todos os países, os estudantes mais carenciados tendem a ter expectativas mais baixas do que os seus colegas de meios favorecidos no que toca à conclusão do ensino superior. Mas há países piores do que outros e Portugal sai-se mal do retrato, com um fosso de 50 pontos percentuais a separar as expectativas dos dois grupos. Na OCDE este valor ronda os 40 pontos percentuais.

Se o sentimento de pertença à escola é nestas idades um dos factores que mais conta para se estar satisfeito com a vida, e a maioria está nesta situação, também se podem viver ali experiências devastadoras. O bullying é uma delas.

No conjunto dos países da OCDE, cerca de 11% dos estudantes diz-se alvo de gozo, 7% afirmam que são postos à parte e 8% contam que são objecto de boatos maldosos.

A violência física repetida é reportada por 4% dos alunos. No conjunto, 18,7% dizem-se vítimas de um qualquer acto de bullying, um valor que em Portugal desce para 11,8%.

Os resultados dos inquéritos mostram que os rapazes têm maior probabilidade de serem vítimas do que as raparigas, embora estas tenham maior peso se o que está em causa é ser posto de parte ou ser objecto de boatos maldosos. Por outro lado, os estudantes com piores desempenhos estão mais expostos a agressões verbais físicas e psicológicas do que os seus colegas mais bem-sucedidos.

 

 

 

Baleia Azul. “Os adolescentes nunca deviam levar o telemóvel para o quarto à noite”

Maio 4, 2017 às 2:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do https://sol.sapo.pt/ de 3 de maio de 2017.

No seu consultório já recebeu dois jovens desesperados por terem recebido uma mensagem a pedir que se automutilassem. A esses casos, a psicóloga Bárbara Dias aconselha calma e desprezo por um jogo que é apenas isso, um jogo

Bárbara Dias está habituada a lidar com os jogos que aliciam os adolescentes a pisar o risco. “No ano passado era a ‘Maria Sangrenta’, este ano é a Baleia Azul”, refere, lembrando que o importante é dotar os adolescentes de ferramentas que lhes permitam dizer não a esse tipo de desafios. Um acompanhamento mais próximo dos pais e um acesso limitado à internet são fundamentais, defende a psicóloga.

Já recebeu dois jovens ligados ao jogo da Baleia Azul. De que forma entraram no jogo?

Nos dois casos, os miúdos já eram acompanhados por mim por episódios de ansiedade ou falta de concentração e organização na escola. Como forneço o meu Whatsapp a todos eles, estou habituada a receber desabafos do género “Já não aturo a minha irmã” ou “chateei-me com a Maria”. Desta vez, vieram perguntar-me se podiam ter consulta nesse mesmo dia, porque tinham recebido uma mensagem estranha no telemóvel.

O que dizia?

“Desenha uma baleia com a ponta de uma faca e envia uma fotografia. Se não o fizeres, sabemos onde moram os teus pais e eles morrem.”

Soube imediatamente que se tratava do jogo Baleia Azul?

Não conhecia o jogo, mas fui logo informar-me. Estes jogos são muito comuns. No ano passado era a Maria Sangrenta – jogo em que tinham que enviar uma mensagem 20 vezes “senão a tua mãe morre”. Este é o da Baleia Azul e para o ano será outro. Os miúdos têm é que estar preparados para lidar com estas situações, sejam elas quais forem.

Como é que os tranquiliza?

Tento que percebam que nada de mal vai acontecer à família, que nada daquilo é real e que não passam de brincadeiras de mau gosto. Os miúdos ficam mesmo em pânico.

E é normal essa reação?

Para o comum dos mortais, não. Mas falamos de miúdos mais sensíveis, que já têm necessidade de serem acompanhados, alguns até que se automutilam.

Existe um grupo mais vulnerável portanto.

Sim, quem está mais fragilizado acredita muito mais facilmente. Além disso, olham para este tipo de desafio como a prova de que conseguem cumprir tarefas e são capazes de ultrapassar todas as fases.

Este comportamento também é fruto de uma nova adolescência?

De facto, a adolescência atual não tem nada a ver com a de há uns anos. Os jovens passam imenso tempo sozinhos, o que lhes dá tempo para tudo e mais alguma coisa. Além disso, têm total liberdade para usar tecnologias. À noite, por exemplo, ficam até às tantas ao telefone, a jogar ou a falar com amigos. Nunca deviam levar o telemóvel para o quarto à noite.

Até que idade?

Tem mais a ver com maturidade do que com a idade. Mas um filho meu seria até aos 16 anos.

Os pais estão sensibilizados para a necessidade de um contacto mais próximo?

Faço por isso. Mas ainda a semana passada me apareceram pais a dizer que tiraram os telemóveis aos filhos para evitar que entrem no jogo. Não são essas medidas drásticas que funcionam.

O que recomenda?

Temos é de os ensinar a lidar com essas situações. Se tiverem confiança e uma boa autoestima, são capazes de ultrapassar estas questões facilmente. Da mesma forma que ensinamos os nossos filhos a sentarem-se à mesa e comer com talheres, também temos de os ensinar a navegar na net, sabendo o que é ou não seguro fazer.

 

 

 

Prevenção contra Desafio “Baleia Azul” vídeo da PSP

Maio 4, 2017 às 12:30 pm | Publicado em Vídeos | Deixe um comentário
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Começou a jogar o Baleia Azul? “Saia o mais depressa possível e peça ajuda”, diz Daniel Sampaio

Maio 4, 2017 às 11:08 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.publico.pt/ de 3 de maio de 2017.

O jogo é perigoso quando falamos de pessoas vulneráveis, diz Daniel Sampaio. Miguel Manso

Psiquiatra Daniel Sampaio falou com jovens que lhe disseram que há amigos e colegas vulneráveis contactados por curadores do desafio online.

Ana Henriques e Clara Viana

Há um traço comum entre os jovens que estão a ser desafiados para entrar no jogo online da Baleia Azul: estão fragilizados ou em sofrimento psicológico. Quem o diz é o psiquiatra Daniel Sampaio, que tem estudado o comportamento dos adolescentes. Na imprensa internacional começa, entretanto, a ser posta em causa a genealogia deste jogo.

Daniel Sampaio contou ao PÚBLICO que falou recentemente com quatro jovens que têm amigos ou colegas aliciados para o Baleia Azul e todos lhe relataram o mesmo: que um responsável pelo desafio, um curador com um perfil falso, os convidou para o jogo depois de os adolescentes terem deixado online pistas de que se encontravam fragilizados ou em sofrimento psicológico. “Há muitos jovens que escrevem mensagens na Internet a dizer que não estão bem e segundo me dizem são esses que são contactados”, explica o psiquiatra, chamando a atenção para a gravidade deste tipo de actuação.

O incitamento ao suicídio é considerado crime. Quem tentar convencer outra pessoa a fazê-lo ou lhe prestar ajuda para esse fim sujeita-se a uma pena de prisão até três anos caso a tentativa seja mesmo feita ou venha a consumar-se. Se a vítima tiver menos de 16 anos ou padecer de incapacidade de compreensão a moldura penal sobe até aos cinco anos de cadeia. O Código Penal determina ainda que quem publicitar um produto, objecto ou método de suicídio é punido com pena de prisão até dois anos ou então com uma multa.

“Se as coisas se passam conforme me relataram, identificar a fonte de recrutamento [das vítimas] revela-se um aspecto fundamental”, sublinha Daniel Sampaio, para quem o risco acaba por ser reduzido se os jovens em causa estão bem consigo próprios: “Um jovem normal não adere – ou, se adere, isso não tem consequências”, equaciona. “O jogo em si não provoca suicídio, nem automutilação. É perigoso quando falamos de pessoas vulneráveis. Aí, pode funcionar como factor precipitante do suicídio.”

Para quem já começou a jogar, o psiquiatra deixa um conselho: “Sair o mais depressa possível e pedir ajuda.” Um auxílio que poderá ser prestado, por exemplo, pela equipa que integra o Núcleo de Utilização Problemática da Internet do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, que tem consultas às quartas-feiras e tanto auxilia jovens como os seus pais.

Daniel Sampaio defende também que os pais devem proibir os filhos de aceder a este jogo. Se não o conseguirem de imediato, devem acompanhar mais de perto os filhos, porque esta atitude poderá impedir, por exemplo, que o filho saia de casa para se dirigir a um local alto onde vai arriscar a vida, já que uma das 50 tarefas impostas aos jogadores do Baleia Azul passa precisamente por correr esse tipo de perigo.

 Notícia falsa?

Em declarações a um site de notícias russo, Lenta.ru, o alegado autor deste desafio, More Kitov, já disse que a sua intenção nunca foi a de levar menores ao suicídio, mas sim aumentar o número de frequentadores dos perfis dos administradores do jogo, tornando-os mais atractivos para quem quer colocar anúncios publicitários.

Pelo seu lado, Thiago Tavares, presidente da Safernet, uma organização não-governamental brasileira de combate ao crime na internet, não tem dúvidas de que o jogo Baleia Azul teve origem numa “notícia falsa” publicada em Maio de 2016 pelo diário russo Novaya Gazeta. Este artigo dava conta de uma série de suicídios de adolescentes na Rússia que, alegadamente, tinham participado em fóruns da rede social russa Vkontakte, onde aparecia a referência Baleia Azul.

Até agora ainda não existem provas da relação entre ambos. “Era um ‘fake news’, mas existe um efeito que, sendo verdadeira ou não, a notícia gera um contágio, principalmente entre os jovens”, afirmou Thiago Tavares ao diário Globo.

 Em Fevereiro, na sequência do suicídio de mais duas adolescentes na Sibéria, o administrador do site foi detido. O caso continua em investigação. Foi por volta dessa altura que as notícias sobre o Baleia Azul chegaram ao Reino Unido, por via do jornal The Sun. E daí espalhou-se pelo mundo.

Fora da Rússia, um dos primeiros países onde o alegado jogo chegou foi a Bulgária. Mas também ali o Centro Para a Internet Segura alertou que não existem provas da ligação do Baleia Azul a uma onda de suicídios. “Essa incrível história atrai sites de tablóides, que lucram com visitas, acrescentando mais e mais detalhes e histórias horríveis, que não são apoiados por factos”, disse um dos responsáveis do centro ao jornal Balcan Insight.

 Também têm existido denúncias na imprensa internacional sobre a veracidade de fotos e vídeos que têm aparecido online apresentando mutilações das alegadas vítimas do jogo.

Em Portugal o mais recente caso de um jogador hospitalizado sucedeu esta terça-feira, depois de terem sido identificadas situações idênticas em Sines, no Algarve e em Portalegre, que estão a ser investigadas pela Procuradoria-Geral da República.

Serviços telefónicos de ajuda e apoio ao suicídio em Portugal e na Europa

SOS – Serviço Nacional de Socorro 112

SOS Voz Amiga (entre as 16 e as 24h00) 21 354 45 45 91 280 26 69 96 352 46 60

SOS Telefone Amigo 239 72 10 10

Telefone da Amizade 22 832 35 35

Escutar – Voz de Apoio – Gaia  22 550 60 70

SOS Estudante (20h00 à 1h00) 808 200 204

Vozes Amigas de Esperança (20h00 às 23h00) 22 208 07 07

 

 

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