Estudo revela que mais de um terço dos jovens não usou preservativo na última relação sexual

Abril 22, 2019 às 12:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Mais de um terço dos jovens inquiridos num estudo nacional relatou não ter usado preservativo na última relação sexual e 14,5% disse ter tido relações sexuais associadas ao consumo de álcool ou drogas.

“Uma minoria significativa” reportou não ter usado preservativo na última relação sexual (34,1%), sublinha o estudo “Comportamentos sexuais de risco nos adolescentes”, divulgado a propósito do 10.º Congresso Internacional de Psicologia da Criança e do Adolescente, que vai decorrer na quarta e na quinta-feira em Lisboa.

A investigação, a que a agência Lusa teve acesso, concluiu que são os rapazes que mais frequentemente usam preservativo, que têm relações sexuais associadas ao consumo de álcool ou drogas e que não têm a vacina contra o vírus do papiloma humano (HPV).

O estudo realizado em Portugal faz parte do Health Behaviour in School Aged Children (HBSC) 2018, um inquérito realizado de quatro em quatro anos em 48 países, em colaboração com a Organização Mundial de Saúde, que pretende estudar os comportamentos dos adolescentes nos seus contextos de vida e a sua influência na sua saúde/bem-estar.

Segundo os dados recolhidos em Portugal, os jovens mais novos, do 8º ano, são os que mais frequentemente têm relações sexuais associadas ao consumo de álcool ou drogas, realça o estudo, advertindo que estes resultados “podem ter implicações significativas na alteração das políticas de educação e de saúde, direcionando-as para o desenvolvimento de competências pessoais e sociais nas várias estruturas que servem de apoio aos adolescentes portugueses”.

Os autores do estudo apontam como justificações possíveis para estes resultados “o desinvestimento na educação sexual”, a redução do número de campanhas de prevenção e o facto de a infeção se ter passado a considerar uma doença crónica e não uma “sentença de morte”, o que “poderá estar a desvalorizar a importância da proteção.

O estudo “Comportamentos sexuais de risco nos adolescentes” abrangeu 5.695 adolescentes, 53,9% dos quais raparigas, com uma média de idades de 15,46 anos, a frequentarem o 8º ano, o 10º ano ou o 12º ano.

A maioria dos adolescentes inquiridos mencionou já ter tido um relacionamento amoroso, apesar de não ter no momento (48,4%), sobretudo os rapazes (51,8%) e os adolescentes do 8.º ano (50,9%).

Segundo o estudo, a maior parte disse não ter tido relações sexuais (77%). Dos que referiram já ter tido, contaram que a primeira relação sexual foi aos 15 anos.

Os dados indicam também que 85,6% dos inquiridos não realizaram o teste de VIH e 84,7% não têm a vacina contra o HPV.

Segundo os últimos dados estatísticos da UNICEF, cerca de 30 jovens entre os 15 e os 19 anos foram infetados com o VIH/sida, por hora no mundo em 2017, números “particularmente alarmantes se se considerar que nos restantes grupos etários a epidemia estará a diminuir”.

Em Portugal, a situação é também preocupante pois cerca de um terço dos infetados com o VIH/sida tem menos de 30 anos e cerca de 16% tem entre 15 e 24 anos.

O estudo lembra que o melhor meio de evitar a infeção VIH/sida e outras infeções sexualmente transmissíveis continua a ser o preservativo.

HN // JMR

Lusa/fim

 

Raparigas são as que se sentem mais gordas mas há mais rapazes com excesso de peso

Abril 22, 2019 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia da LUSA de 9 de abril de 2019.

As raparigas são as que se sentem mais gordas, mas há mais rapazes com excesso de peso, revela um estudo, segundo qual quase 70% dos adolescentes portugueses têm peso normal.

“Terão os adolescentes portugueses uma alimentação adequada?” é o título da investigação integrada no estudo Health Behaviour in School aged Children (HBSC), um inquérito realizado de quatro em quatro anos em 48 países, em colaboração com a Organização Mundial de Saúde, sobre os comportamentos dos adolescentes.

Caracterizar os hábitos alimentares e perceções relativas ao corpo dos adolescentes foi o objetivo do estudo, que envolveu 6.997 alunos (51,7% meninas) do 6º, 8º e 10º ano.

Segundo o estudo, 54,7% dos adolescentes percecionam-se como tendo o corpo ideal. As meninas são as que mais se percecionam como estando “um pouco” gordas (28,5% versus 21,6%) e os rapazes “um pouco” magros (11,8 contra 17,3%).

Ao longo da escolaridade mais adolescentes tendem a considerar o seu corpo um pouco gordo ou muito gordo e uma menor percentagem considera ter um corpo ideal, refere o estudo divulgado a propósito do 10.º Congresso Internacional de Psicologia da Criança e do Adolescente, que decorre na quarta e quinta-feira em Lisboa.

Cerca de 45% e 33% dos adolescentes reportaram comer diariamente frutas e vegetais, respetivamente, enquanto um quarto disse consumir doces e colas (refrigerantes) quase todos ou todos os dias, sendo as raparigas a referirem um consumo mais frequente.

Ao longo da escolaridade, menos adolescentes referem tomar o pequeno-almoço diariamente e mais jovens dizem nunca o fazerem.

O estudo conclui que “os adolescentes portugueses têm comportamentos alimentares desajustados ao recomendado para esta faixa etária e que o excesso de peso e a imagem corporal são um problema relevante nesta população”.

Em declarações à agência Lusa, Nuno Loureiro, um dos autores do estudo, afirmou que existem alguns alunos que “não têm claro que têm excesso de peso, e se percebem [que o têm] terão a perceção que está sob controlo”.

“Alguns destes alunos poderão ser atletas, e com a pressão por obter um corpo ‘Ronaldo'” ou “simplesmente porque a sua modalidade assim o determina, têm práticas intensas de exercício com grande predomínio de ganho muscular, algo que influencia e muito a fórmula de cálculo de IMC [Índice de Massa Corpora]”, disse o professor do Instituto Politécnico de Beja.

Estes alunos entrarão no indicador em excesso de peso, mas terão satisfação com o seu peso, explicou.

Também podem existir alunos que efetivamente estão com excesso de peso, mas gostam de si: “estão satisfeitos como estão e são mais resistentes à mudança, digamos que podem ser classificados com estando no estado pré-contemplativo”, adiantou.

“A perceção da imagem do corpo não está muitas vezes ligada ao valor da classificação do IMC, pois os jovens apresentam um valor normal e continuam a reportar estarem insatisfeitos com o seu corpo”, sublinhou.

Nuno Loureiro advertiu que o indicador excesso de peso “não pode nem deve ser visto como uma correspondência inversa para a ideia de corpos bonitos, corpos de modelos ou da procura de abdominais de ferro, porque devido a fatores genéticos e outros fazem com que esta tarefa seja muito difícil para muitos”.

Considerou ainda “preocupante” 15,8% dos adolescentes terem excesso de peso e 3,1% obesidade, defendendo “estratégias efetivas” de apoio, como gabinetes multidisciplinares na escola, onde se concilie uma abordagem estruturada para alteração destes indicadores, “mas num ambiente sem culpas ou dramas, incentivando a adoção de estilos de vida saudável”.

A coordenadora do estudo HBSC em Portugal, Margarida Gaspar de Matos, acrescentou que ter uma alimentação saudável e moderada, rica em fibras e com baixo teor de gordura sal e açúcar, a par da atividade física, é essencial para combater o excesso de peso, mas reconheceu que muitas vezes é difícil pôr em prática na escola e em casa,

“Temos já conhecimento científico (dos profissionais e dos alunos), mas é difícil pôr em prática”, porque muitas vezes existe “um ‘ambiente’ não solidário ou não amigável” da alimentação saudável.

HN // ZO

Lusa/fim

 

 

Do jogo ao desporto – Carlos Neto

Abril 16, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Photo by Virgil Cayasa on Unsplash

Artigo de Carlos Neto publicado no site Fronteiras XXI

Em Portugal 70% das crianças brincam menos de uma hora por dia. As crianças têm hoje menos tempo para brincar do que os prisioneiros nas prisões. A inversão desta tendência pode ser alcançada através de políticas públicas que promovam mais atividade física regular, uma educação física consistente no contexto escolar, atividades desportivas adequadas em diferentes idades e cidades que permitam a criação de estilos de vida saudável para todos os cidadãos.

Vivemos num tempo de grande inatividade física e as crianças e jovens sofrem por isso. É um tempo de analfabetismo motor, porque elas não têm de facto uma literacia física e motora adequada, porque o tempo de brincar na rua desapareceu e está em vias de extinção (Neto, 2001). As crianças hoje não têm tempo para brincar, explorar com os amigos a rua de forma livre e espontânea.

É preciso dizer que há um declínio enorme do jogo livre nas últimas décadas do ponto de vista de tempo e espaço para brincar. Por outro lado, aumentou de forma dramática as desordens mentais: ansiedade, depressão, hiperatividade/deficit de atenção e taxa de suicídio na adolescência.

Esta mudança nas últimas quatro décadas, poderá dever-se a uma transição epidemiológica (excesso de peso e obesidade, diabetes, doenças cardíacas e respiratórias, etc.), transição demográfica (densidade populacional e espacial), transição nutricional e digital (alteração de hábitos alimentares e aumento da utilização quotidiana de dispositivos digitais) e diminuição significativa de tempo e espaço de jogo de atividade física.

Para ter uma ideia, 70% das crianças em Portugal brincam menos de uma hora por dia. As crianças têm hoje menos tempo para brincar do que os prisioneiros nas prisões, que têm mais tempo de ócio fora das celas. O tempo na infância, passou a ser vivido de forma muito organizada, estruturada e limitada. Temos currículos escolares muito extensos e intensos, e as crianças passam muito tempo sem mexer o corpo estando sentadas e quietas. Os relatórios da Organização Mundial de Saúde (OMS), têm vindo a alertar para um aumento exponencial de sedentarismo em todas as idades, géneros, raças, continentes e culturas, com consequências nocivas a curto, médio e longo prazo para a saúde física e mental da população mundial.

A inversão desta tendência pode ser alcançada através de políticas públicas que promovam mais atividade física regular, uma educação física consistente no contexto escolar, atividades desportivas adequadas em diferentes idades e cidades mais saudáveis que permitam oportunidades de criação de estilos de vida saudável para todos os cidadãos. Uma relação mais próxima com a natureza, colocar o corpo em situações de maior nível de risco e desenvolver atividades lúdicas e desportivas em grupo é um grande desafio para a saúde pública dos cidadãos do século XXI.

Na infância e juventude é urgente encontrar estratégias de ação para melhorar o seu reportório motor, lúdico e desportivo. A formação desportiva mobiliza milhares de crianças e jovens, mas interessa elaborar uma reflexão séria como esse processo deve ser caraterizado e implementado na escola e no clube desportivo.

A nossa opção quanto à filosofia de ação na formação desportiva, inicia-se através de duas dinâmicas complementares: oportunidades de brincar (jogo exploratório) e jogar (atividade motora com regras) em situações informais (em casa, na rua, recreio escolar, espaços ao ar livre) e no plano escolar (educação física e desporto escolar) através de atividades físicas e motoras de forma intencional, sistemática e periódica. Deste modo, será necessário:

1-Criar condições propícias para a formação de uma cultura motora básica (saber fundamental), através de formas de trabalho diversificado e capazes de desenvolver e manter durante qualquer idade, uma plasticidade motora, capaz de permitir a adaptação a novas situações de maior complexidade ou culturalmente institucionalizadas;

2-Permitir o acesso a tarefas motoras mais ou menos definidas, a fim de permitir uma estruturação percetiva consistente (consciência da sua mobilidade corporal e perceção de dados exteriores). Desenvolver igualmente aspetos relacionados com aquisições motoras centradas sobre conceitos de direção, lateralidade, ajustamento postural, coordenação motora global e segmentar, perceção temporal e espacial e imagem do corpo, nas relações estabelecidas na utilização do próprio corpo, dos objetos e com os companheiros, como elementos decisivos para um aperfeiçoamento desejável no desenvolvimento motor infantil.

A designação de cultura motora fundamental que propomos não significa cultura de movimentos. Pretende somente traduzir a capacidade de domínio do corpo a partir da vivência de múltiplas situações de movimento. De outra forma, poderemos designar a qualidade de desempenho motor adquirido como uma capacidade facilitadora de novas aprendizagens em situações mais estruturadas ou inabituais.

Por outro lado, a mobilidade das crianças em contexto pedagógico significa que as ações motoras apresentam um processo dinâmico com um fim definido, sem muitas vezes se perceber de forma bem clara a intencionalidade dos seus comportamentos (fantasia, simbolismo e afeto). Trata-se de formas de movimento com um nível próprio de organização e que permitam graus de complexidade progressiva das estruturas motoras.

Passar do jogo ao desporto, implica perceber o desenvolvimento lúdico, motor, percetivo, cognitivo, emocional e social da criança ao longo do tempo (life spain). A formação desportiva deverá seguir uma orientação desenvolvimentista (respeito pelo crescimento e evolução motora infantil) e não por uma orientação desportivista (imposição de modelos adultos no trabalho desportivo com crianças e jovens).

A motricidade, o movimento, a atividade física e o jogo, são formas de ação fundamentais nas primeiras idades, porque é aí que tudo começa, isto é, a formação desportiva começa mais cedo do que as pessoas julgam. Não se fazem campeões a partir dos 12, 13, 14 anos. Começa antes, mas é preciso perceber qual é a conceção pedagógica, técnica e científica que se deve trabalhar na formação desportiva nas primeiras idades.

 

 

As bebedeiras instantâneas dos miúdos

Abril 15, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Maria João Gala

Reportagem do Notícias Magazine de 6 de março de 2019.

Os miúdos portugueses bebem menos do que a média dos miúdos europeus – é uma boa notícia. Outra: o consumo de álcool entre menores tem vindo a diminuir paulatinamente há 12 anos. Mas há dois problemas: a iniciação nas bebidas alcoólicas fortes aos 13 anos é mais acentuada entre os portugueses e os casos das bebedeiras episódicas extremas, o célebre “binge drinking” em que bebem compulsivamente, estão a aumentar – e aqui há um número grave: em 2017, o INEM atendeu no país 1 270 menores em coma alcoólico, ou seja mais do que três por dia, todos os dias. Como bebem eles?

Texto de José Miguel Gaspar | Fotos de Maria João Gala/GI

As duas irmãs loiras começaram a beber juntas há cinco ou seis anos e continuam a beber juntas agora. São de Aveiro, são ambas bonitas, têm hoje 17 e 18 anos, a mais nova é mesmo muito bonita, tem a cara da supermodelo inglesa Rosie Huntington-Whiteley, que já foi a Splendid Angharad, uma personagem incontaminada de “Mad Max – Estrada da Fúria” (2015) em que a Imperatriz Furiosa conduzia com determinação de ferro e um só braço uma caravana motorizada de mulheres pelo apocalipse adentro em direção ao nascer do sol e à libertação do tirano Immortan Joe.

Foi no ano da estreia desse filme de George Miller, tinha a rapariga mais nova 14 anos e a irmã 15, que aconteceu o episódio da bebedeira no mar que só não acabou em desgraça porque não calhou, ainda hoje a mais velha recorda a tremer, olha, já estou toda arrepiada, diz ela a arregaçar um braço e a parar para o olhar.

Foi num dia de verão normal, tinham ido de férias com os pais para o Algarve e passavam grande parte do dia, e depois as noites também, horas seguidas sem os ver, casa, praia, piscina, às horas que cada um quisesse.

Nesse dia que acordou com algum tédio, começaram a beber as duas à tarde, o céu estava nublado, não havia grande coisa que fazer, o bar da casa estava bem nutrido. Começaram com vinho branco, depois passaram às cervejas, depois safaris-cola, variaram as bebidas sem beber muito só de uma para depois ninguém notar, havia de tudo na casa de férias, até copos pequeninos e tequila.

Os pais não estavam, tinham ido a uma expedição com outros pais, elas não, a música crepitava alta na sala branca de estar e elas riram-se que se fartaram, acabaram a tarde aos shots e a desfilar da sala para a varanda, a fazer poses, a voltear, a imitar as passarelas com os páreos a esvoaçar, a língua de fora, desfeitas no sofá a rir muito, a música muito alta, a barriga a doer de tanto rir.

Não se lembram quanto isto durou, nem quanto entornaram, mas adormeceram e quando acordaram já era noite e tinham as barrigas a roncar. McDonalds para as duas, batatas a dobrar, colas XL – McDonalds é o melhor cura ressacas, a nossa mãe também diz, dizem elas -, comem em casa, comem depressa, depois arranjam-se e vão sair.

Cruzam-se logo com um grupo de quatro miúdos ingleses que conheceram vagamente na piscina no dia anterior, eles eram mais velhos, 16 ou 17 anos, não tinham 18, nenhum, já traziam bebidas na mão, vinham tocados, e um deles uma mochila carregada a tilintar. Bebem na rua, a luz da lua abriu, a noite está quente, passeiam, correm, fingem que fogem, voltam a rir, gozam uns com os outros, os rapazes tinham as caras incendiadas do sol, riem agora todos muito, já estão na praia, vamos lá abaixo ver o luar.

Corre tudo lindamente, a noite rodava, o álcool rodava, o céu todo a estrelar, amanhã vai estar um rico dia de praia, e estão todos sentados em roda na areia a jogar ao penálti com copinhos de vodka preta e o absinto que saiu da mochila a tilintar.

E caiu de chapa na água, a cara para baixo e ficou ali

Eu lembro-me de estar muito bem, mesmo bem, diz a rapariga muito bonita de 17 anos que na altura tinha 14, lembro-me de estar maluca, eu sou tímida, estava alegre, solta, ria-me com tudo e com nada, maluca, e disse que queria ir ao mar. Não sei o que eles disseram, estávamos bêbados, todos bêbados, os ingleses estavam sempre a dizer penálti! e quando alguém diz penálti todos têm de beber o que tiverem no copo de uma vez, e eu levantei-me, ninguém me impediu, e fui.

Não me lembro de caminhar, não me lembro de chegar à água, lembro-me só que a água me dava pelos tornozelos e era quente, quentinha, e depois lembro-me, mas aqui lembro-me muito mal, de cair de chapa na água.

E ela ficou assim, diz agora a abrir muito os olhos a irmã que tem 18 anos e na altura tinha 15, caída de cara para baixo na água, não se mexia ou parecia que não se mexia, eu só via o vestido branco dela a ondular no mar. Também eu agora não me lembro bem, não sei se passou um minuto ou se passaram dez, mas lembro-me de repente de saltar na areia, parece que me passou logo a bebedeira, e já estou de pé na água com ela, já estou a levantá-la pelos braços, ela toda molhada, a virá-la, a tirar-lhe o cabelo da cara, a chamar por ela mas ela não respondia, pesava muito, caía, abria e fechava logo os olhos, não dizia nada, nada de nada.

Devo ter entrado em choque térmico e fiquei inconsciente, diz a primeira virada para a segunda ligeiramente envergonhada enquanto desenha círculos invisíveis no tampo da mesa do café onde as duas se vieram sentar. Não conseguia falar, não conseguia andar, eles disseram-me depois que tiveram que me arrastar até casa, a minha irmã e os ingleses, arrastaram-me mesmo, eu não mexia as pernas nem os pés, fui a arrastar como se estivesse desmaiada, e conseguiram subir comigo e deitar-me na cama sem que os pais, eles já tinham chegado e já se tinham deitado, dessem por nada, eram férias, deviam ser umas duas da manhã.

No dia a seguir quando acordei, continua ela a contar, tinha os lençóis pretos, todos pretos. Acordei bué de tarde, toda baralhada, só fazia perguntas à minha irmã, estava à toa, mas o que é que aconteceu? Vomitei-me toda, não me lembro, os lençóis ficaram assim por causa da vodka que era preta. E depois passei o dia a vomitar, inclusive no almoço de família, levantei-me duas vezes para ir à casa de banho gregar, disse aos pais que tinha comido fritos, eles dizem que os fritos fazem mal, os pais nunca souberam, ainda hoje não sabem que aquilo aconteceu.

Beberam dentro da sala de aula aos 14 anos

E ela e a irmã acendem mais um cigarro – não é bem acender, é mais dar um clique, ambas fumam dos cigarros curtos Oikos ou Heets que se enfiam numa maquineta que parece uma lapiseira gorda mas é só uma boquilha gorda -, há mais miúdos ali na mesa do café, uma outra rapariga loira de 17, outra de 18, morena, também muito bonita, parece uma jovem Jaclyn Smith dos “Anjos de Charlie”, os anjos originais de 1976 onde também estava a áurea Farrah Fawcet – a Farrah já morreu, ninguém se lembra porque ela morreu no mesmo dia do Michael Jackson -, na mesa também estão rapazes, um de 19 e outro de 20, e eles e elas, todos, também estão a fumar.

Também começaram a beber com 12, com 13 ou com 14, que são as idades com que dizem ter começado a sair livremente à noite. E a outra rapariga loira que é mais tímida e pareceria a Farrah se não tivesse o cabelo todo entrançado até à nuca a apertar, conta que ela e a morena uma vez, tinham 14 anos, andavam no 9.º ano, e a meio da tarde de uma segunda-feira resolveram comprar uma garrafa de vodka num minimercado, aqui compras na boa, a mulher da caixa nem olhou para mim, e desafiaram-se a beber, com mais quatro rapazes, dentro da aula de matemática. Foi na boa, a prof nem topou, diz a menina loira a cintilar orgulho ou pundonor ou um inchaço excêntrico desconjuntado do ego.

A prof de matemática não topou, mas a professora da aula a seguir, a de educação física, topou-os a todos à légua. Foram os rapazes que deram barraca, dizem elas, entraram no ginásio todos a abrir, a abandalhar, nós só nos ríamos, ela parou logo a aula, separou-nos dos outros e fomos ao diretor de turma. Tivemos que dizer tudo o que se passou e tivemos depois que escrever tudo e entregar uma folha cheia. E chamaram os nossos pais.

Dos rapazes não sei, dela, e aponta para a morena parecida com a Jaclyn, não a encontraram, a mãe dela não veio, e a minha deu-me um sermão, que seja a última vez, estás a ouvir?! Mas acho que ela não se chateou muito, diz a miúda, tanto foi que nem tocou mais no assunto no dia a seguir. Mas nesse ano eu chumbei, confessa ela a baixar os olhos, mas não foi do álcool, eu não queria nem gostava de estudar, também não preciso de estudar muito para passar, quero ir para a universidade, claro, a não ser que me saia o Euromilhões.

E a outra menina loira, a mais bonita de todas que parece a Splendid Angharad do “Mad Max”, a que esteve para se afogar com água pelos tornozelos, sente vontade de dizer: eu sou boa aluna, aliás sou a melhor aluna, tirei sempre as melhores notas da turma. E com isso clica mais um cigarro.

Há três crianças em coma alcoólico todos os dias

É impossível não termos visto as manchetes, em 2017 o Instituto Nacional de Emergência Médica atendeu 1 270 menores em coma alcoólico nos vários hospitais do país, são mais do que três por cada dia, são 3,4 casos registados em cada um dos dias do ano, “e isso é apenas a ponta do iceberg”, sublinhou na altura a secretária de Estado Adjunta e da Administração Interna, Isabel Oneto, enquanto a tutela lançava mais uma campanha de sensibilização que expunha os riscos das crianças enfrentarem consequências mais sérias do que uma ressaca.

Há miúdos muito novos que bebem muito, mesmo muito, o fenómeno “binge” veio como uma moda, ficou e ainda não passou, “binge drinking” é uma nova forma social de beber em grupo, muito popular entre os menores, é o epíteto moderno da bebedeira instantânea, bebe-se pesada e compulsivamente num período muito curto de tempo, como por exemplo engolir em cinco minutos cinco ou seis ou dez shots de vodka – há vodkas com 40% e há vodkas com 80% de álcool, como a Devil Springs de New Jersey, ou de 95%, como a Everclear, a mais forte do mundo, diz o Guinness, uma vodka sem odor, sem aroma, sem cor, o “intoxicante invisível”.

E entre o primeiro e o último shot não se sentiu nada, só um leve ardor interior, mas depois há uma súbita deflagração etílica, uma coisa de movimento vulcânico, e quando a bebedeira chega ferra imediatamente como um arpão, é uma moda perigosa o “binge”, é uma forma suicida de beber, diz Luís Almeida Santos, o diretor da Urgência Pediátrica do Hospital de S. João, no Porto.

O médico, que nunca mais esqueceu os quatro miúdos de 11 e 13 anos que atendeu na Urgência num domingo há muito tempo às oito da manhã – estiveram a vazar dezenas de fundos de garrafa do vidrão atrás de uma discoteca que havia no Shopping Dallas e a média alcoólica deles era superior a três gramas de álcool por litro de sangue, coma alcoólico, portanto, em crianças de 11 e 13 anos -, está agora a compilar e destrinçar os episódios brutos atendidos na Urgência de S. João em 2018. Foram 74 mil casos, falta separar os que são de menores de idade e, dentro desses, os que são episódios alcoólicos. Não espero uma diminuição, diz o especialista, e não me espantaria que houvesse um aumento.

Mas Luís Almeida Santos já desenredou os 348 mil episódios brutos atendidos na Urgência do hospital central do Porto que ocorreram entre 2014 e 2017. Entre esses todos, apontou 407 casos com menores em coma ou à beira desse estado patológico em que há perda de consciência, ausência ou redução das reações a estímulos e alteração nociva de funções vitais. E desdobrou os casos pelos quatro anos em que aconteceram. Sem surpresa, sublinhou o arco crescente: 90 casos em 2014, 95 em 2015, 112 em 2016 e 109 em 2017.

Aos 13 anos, um em cada três já começou a beber

Os consumos entre os jovens têm vindo a diminuir, tanto em Portugal como na Europa, é o que nos dizem os estudos da Organização Mundial de Saúde do ano passado com inquéritos feitos entre 2002 e 2014 a adolescentes de 15 anos. Nessa dúzia de anos, o consumo regular ao longo da semana desceu para metade, com 16% registados em 2002 e 8% registados em 2014.

A média europeia era de 28% em 2002 e desceu para 13% em 2014. Os nossos miúdos estão melhor do que os espanhóis (21% e 9% nos anos respetivos), do que os franceses (15% para 10%), do que os ingleses (47% para 9%, é uma das mais abruptas descidas na UE) e sobretudo muito melhor do que os miúdos gregos de 15 anos, que em 2002 registavam 30% de bebedores e em 2014 ainda têm 23% que admitem beber álcool ao longo da semana.

Mas os estudos do SICAD (Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências) e os exames do ESPAD (European School Survey Project on Alcohol and Other Drugs) feitos por diversos especialistas em 35 países europeus não são sossegadores. Ambos centraram-se em miúdos de 13 anos e no ano de 2015.

No primeiro estudo, só com portugueses, 31% admitia já ter experimentado álcool, sendo essa a substância mais consumida pelos adolescentes nas escolas públicas – é um número gravoso, praticamente um em cada três. No segundo, 47% dos miúdos europeus de 13 anos admitia já ter experimentado álcool – e um em cada 12 estudantes relatou já ter tido um episódio comatoso com essa tenra idade.

Evidentemente preocupado, muito preocupado, tanto como médico como cidadão, até porque não sabemos bem da realidade total, que há de ser pior do que a dos números das Urgências, diz o pediatra Luís Almeida Santos, tudo isto é altamente alarmante, muito preocupante.

Os números são uma avalancha e João Goulão, diretor do SICAD, concorda. Cita: em 2015, 48% dos menores de idade admitia já ter experimentado beber pela modalidade “binge” e em 2016 e 2017 esse número subiu e chegou aos 50%. É grave, gravíssimo, continua a aumentar. E há mais números que atestam uma evolução paulatina e lenta mas segura: em 2015, 83% de jovens com 18 anos admitia ter consumido álcool nos últimos 12 anos. Em 2016, o valor subiu para 84% e em 2017 para 85%.

A lei existe, mas a lei é contornada

A lei portuguesa que proíbe os menores de beber é recente e entrou em vigor em duas fases, ambas sob a regência do XIX Governo Constitucional liderado por Pedro Passos Coelho e pelo PSD/CDS-PP. A primeira foi adotada em 2013 e trancava a porta das bebidas alcoólicas aos menores, mas deixava duas janelas abertas. Dizia a lei que até aos 16 anos todo o álcool estava proibido, mas a partir dos 16, a idade com que se pode entrar numa discoteca, os menores podiam comprar dois tipos de bebidas: cerveja e vinho.

Na altura, a exceção foi enquadrada pelos nossos brandos costumes culturais – “Beber vinho é dar de comer a um milhão de portugueses”, dizia o marketing oficial dos tempos de Salazar – e pelo poder de lóbi das cervejeiras, que conseguiram impor junto do Governo a sua exceção. Seguiram-se dois anos de debate de uma lei pouco eficaz, discutiu-se por que é que havia um álcool bom e um álcool mau e dois anos depois concluiu-se que não, todo o álcool é nocivo. E a lei de 2015 proibiu tudo, cerveja, vinho, licores, aguardentes, brancas e espirituosas, tudo trancado em proibição até aos 18 anos e à maioridade. Fim de discussão.

Fim de discussão? João Goulão, que há duas décadas dirige o SICAD, diz: há ainda muita complacência social relativamente ao álcool entre menores, há adultos que passam álcool a crianças, facilitam, fecham os olhos, recalcam erros e valores culturais. E diz mais: em Portugal, o álcool é extremamente acessível, todas as casas têm álcool e os preços na rua descem cada vez mais; hoje é muito mais barato beber do que era há dez anos; há discotecas e bares em que o álcool custa tanto como a água! É preciso, evidentemente, mudar isto, e condicionar mais a oferta, conclui Goulão. Mas os miúdos riem-se da lei, sabem da lei e riem-se.

ASAE só identifica 12 menores por mês a beber

Os dados oficiais da Autoridade para a Segurança Alimentar e Económica (ASAE) estão cheios de icebergs de que só vemos a ponta. A lei de 2015 que proíbe a venda e consumo de álcool aos menores de 18 anos fará este ano quatro anos, mas a ASAE só consegue identificar, em média, 12 jovens por mês a beber em locais públicos. Em 2017, o número de menores identificados aumentou superficialmente quando comparado com o ano anterior: 108 em 2016, 133 em 2017.

O aumento está longe de representar a realidade, as violações são flagrantes, diz a associação sindical que representa a ASAE, admitindo ser muito difícil fiscalizar por exemplo em discotecas quando a idade para entrar é de 16 anos mas a idade para beber é de 18. E o sindicato sublinha que tem menos de 200 inspetores para ir à rua em todo o país e que aos fins de semana e à noite ainda tem menos operacionais a trabalhar.

Porto, Lisboa, Aveiro, só não vê quem não quer reparar

Os miúdos riem-se. São 11 da noite, eles são seis, dois rapazes, o resto raparigas, três delas falam brasileiro, o mais velho tem 19, o mais novo 16, estão juntinhos todos sentados numa ponta da escadaria do Palácio da Justiça, na Baixa do Porto, que fica nas costas do jardim de plátanos e grandes sombras da Cordoaria, onde tombam também os homens estatuificados de Juan Muñoz, “13 Que Riem Uns dos Outros”.

O que ali se vê e que se estende aos cafés do canto depois de se passar a colossal estátua esverdeada que segura a balança e a espada pousada, e ao Campo dos Mártires da Pátria, do outro lado do jardim onde há sempre juventude aos magotes e fumo azulado de haxixe no ar, não é diferente do que todos veem, mas muitas vezes sem ver realmente, isto é sem reparar, não é diferente do que se vê ao fim de semana em Lisboa, no Largo de Santos, nas ruas junto à cerca das mimosas do Jardim Nuno Álvares ou no Largo Vitorino Damásio ou, mais à frente, no Cais do Sodré, ou mais acima no Bairro Alto.

Como não é diferente daquilo que se avista nas ruas de luz branda amarela e calçada branca da Praça do Peixe em Aveiro ou na zona Red que fica encostada à Antiga Fábrica Jerónimo Pereira Campos com a sua enorme fachada de tijoleira de cor vulcânica com parques vermelhos abertos no miolo dos prédios de classe média. O que se vê em todos eles, à vista desarmada, é o mesmo: a maioria são maiores de idade, mas há sempre dezenas, centenas, de menores a passar, a parar, com copos e garrafas na mão, a continuar a beber.

Eu estou beeeem, diz o rapaz a cair nas escadas de cu

Eles empinam na pedra da escadaria do Palácio da Justiça as garrafas que saíram do saco largo de supermercado, duas de vodka Eristoff branca, duas de vodka Misss preta, duas de plástico de litro e meio de sumo sem marca cor de laranja luzente, e riem-se. Foi o mais velho que comprou, zero stress, diz ele, ou vão ao supermercado ou às lojas dos indianos ou trazem de casa, quem quer beber bebe sempre, não há cá stress, repete ele a rir.

Jantaram cada um em sua casa e só depois vieram para cá, só agora, 23 horas, uns vieram de Matosinhos, outros são do Porto, começaram a beber, mas o mais novo, o de 16, que já chegou todo quente e tem a cara e os olhos pretos parados de um Anthony Perkins imberbe, está claramente embriagado, espalma-se pelas escadas, retorcido, e é o centro das atenções. Vai beber o quinto shot, ou o 15.º, diz ele, não sei bem, os outros repetem o seu nome, repetem-no animadamente em crescendo, ele bebe de um só trago, levanta-se ou tenta levantar-se para fazer aquilo que parecia que seria uma vénia, mas cambaleia e cai de cu.

Eu estou bem, eu estou bem, diz ele a afastar desajeitadamente os braços das raparigas que o iam segurar, estou beeeem, deita a língua de fora e a língua é negra, toda negra da vodka pastosa Misss que parece mercúrio e sabe a amora traçada com álcool etílico. Estás bem, estás, diz o amigo mais velho a estender-lhe um chocolate para ele repor os níveis de açúcar, enquanto uma das miúdas brasileiras, elas as quatro trazem saias curtinhas, a que fala com sotaque do Porto também, unhas coloridas, afiadas e compridas, e começa a dar-lhe um sermão que ele não vai ouvir.

Logo a seguir há uma rodada para todos, roda a garrafa da Misss pastosa a tingir os copinhos plásticos brancos e uma das raparigas que está a segurar o copo com a mão esquerda diz de repente: direita é penálti, direita é penálti! E todos eles emborcam a vodka viscosa de supetão enquanto ela bebe a bebida aos golinhos engasgada a rir.

É meia-noite, passam no sopé das escadas e do granito do Palácio dois miúdos de skate a zarpar, do outro lado há um grupo ruidoso que está a brindar e a prolongar muito alto um bramido de éééééé, ouvem-se dois cavaquinhos a desafinar e o rapaz mais velho do primeiro grupo diz para o mais novo que está a cair de bêbado, é pá, tu bêbado és muito chato!

Depois alça-lhe um braço pelo pescoço, os dois descem as escadas da Justiça a bambolear, mais o mais novo do que o mais velho, anda, vamos mijar. E atravessam a estrada sem olhar, sobem o pequeno morro muito verde do jardim da Cordoaria, põem-se ao lado de uma das esculturas dos homens que tombam a rir uns dos outros do madrileno Muñoz, e acenam vigorosamente do outro lado para o grupo de cá, os dentes tingidos a sorrir pretidão.

 

 

 

“Eu sei onde estás e quero explicações” — para alguns jovens, a violência no namoro é vivida online

Abril 6, 2019 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 25 de março de 2019.

Nuno Rafael Gomes (texto) e Miguel Cabral (ilustração)

Os jovens denunciam mais, mas ainda lhes é difícil sair de relações abusivas. Quando os telemóveis e as redes sociais entram nas relações, descodificam-se as desconfianças através de partilhas de passwords. É preciso “falar destes assuntos na escola”, avisam especialistas.

Bárbara (nome fictício) chegou a Portugal há pouco mais de meio ano. Saiu do Brasil para estudar e trabalhar no Porto, onde o seu namorado de há quatro anos — também ele brasileiro — se tinha estabelecido “poucos meses antes” da sua chegada. Ela tem 23 anos; ele, 40. Descreve-o como “uma pessoa descontrolada”. Já Maria terminou uma relação depois de o então namorado lhe esconder o telemóvel “para ler as mensagens”. “Também queria controlar o que eu vestia e isolou-me dos meus amigos.” Para Carla (nome fictício), alguns dias do Verão de 2017 foram “bastante complicados”. Depois de “acabar” com o namorado, recebeu a mensagem: “Não te esqueças que sei onde trabalhas.” Deixou de colocar a localização nos seus posts.

Estes são apenas três casos que reflectem algumas conclusões apontadas por dois estudos apresentados em Fevereiro: o da associação Plano i, Violência no Namoro em Contexto Universitário: Crenças e Práticas, e o da União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR), Violência no Namoro 2019. Há um aumento na taxa de violência psicológica entre os jovens, que cada vez mais adoptam “crenças conservadoras”. Também há uma maior sensibilização para o tema. A ameaça via telemóvel (com mensagens como “eu sei onde estás e quero explicações”) ou nas redes sociais preocupa não só as duas organizações, como também a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV).

Mas vamos por partes. Para Bárbara, “a violência verbal sempre existiu”. “Já existiu violência física e ele já me prendeu num ‘mata-leão’ [golpe de estrangulamento das artes marciais japonesas] até eu desmaiar”, conta. Isso foi no Brasil. Numa viagem a Paris, agrediu-a na rua. “Chutou-me e eu estava jogada no chão. Ninguém fez nada.” Prefere o anonimato porque tem medo que se descubra. Ainda vivem juntos. “Não tenho para onde ir. Não tenho como pagar renda sozinha, tenho de pagar propinas também.” Para Bárbara, a solução seria “morar noutra cidade ou arranjar um emprego longe” para fugir ao companheiro “controlador” que não gosta que ela tenha “uma educação, uma profissão, amigos”. “A situação está mais tranquila porque estou poucas vezes em casa, por causa do trabalho e da faculdade”, acrescenta. Ainda assim, já foi ameaçada pelo companheiro por recusar ter relações sexuais.

Situações como a de Bárbara não são desconhecidas de organizações portuguesas que lidam com a violência doméstica — e não só. “Estes processos são difíceis e não são imediatos, mas têm solução”, garante Daniel Cotrim. O assessor técnico da direcção da APAV, responsável pelas áreas da violência doméstica e de género e da igualdade, ressalva que é importante dizer que não se consegue interromper “o ciclo da violência” rapidamente.

“O essencial é pedir ajuda à APAV no sentido de podermos informar e apoiar as vítimas”, sublinha. O número de denúncias por jovens vítimas de violência no namoro “tem aumentado”. Não quer dizer “que tenha havido um aumento generalizado de situações ou que há um fenómeno”. Mas “as pessoas estão mais informadas e sensibilizadas, tendo um maior conhecimento sobre isto”.

Opinião semelhante tem Mafalda Ferreira, criminóloga e coordenadora executiva do programa UNi+, da associação Plano i, vocacionado para a prevenção da violência no namoro em contexto universitário: “Até os casos recentes podem dar a sensação de que há mais casos; o que se passa é que o problema é mais visível.” E o mesmo observa a ILGA — Intervenção Lésbica, Gay, Bissexual, Trans e Intersexo: “Em termos proporcionais, é igual. Tem mais que ver com quem denuncia”, adianta Sara Malcato, coordenadora de serviços e psicóloga clínica da associação.

“Desligava a Internet só para não falar com ele”

Dos 2683 universitários auscultados na investigação da Plano i, mais de metade confessaram ter sofrido “pelo menos um acto de violência no namoro”: 54,5% das mulheres e 55,3% dos homens inquiridos disseram ter sido vítimas de algum tipo de violência — e 34,5% assumiram ter praticado pelo menos um acto de violência.

No estudo da UMAR deste ano lê-se que a “principal forma de violência no namoro” é a psicológica. Em quase cinco mil inquiridos, 34% apontam esta como a tipologia de violência mais presente nas suas relações — e isto representa um aumento de 19% face aos dados de 2018. No mesmo estudo lê-se que “58% dos jovens que namoram ou namoraram dizem já ter sofrido uma qualquer forma de violência por parte do companheiro e 67% acham isso natural”.

“Há formas de violência que são mais facilmente identificáveis do que outras. A violência verbal e emocional que é perpetrada online tende a ser minimizada e até desconhecida”, conta Mafalda Ferreira. Foi o que aconteceu com Carla, estudante de 21 anos de Viana do Castelo, numa relação que manteve durante quase dois anos. Conheceu o ex-namorado “no ano de caloira”, aos 18 anos. “Cheguei ao Porto e não conhecia ninguém do curso. Ele é de lá e também do meu curso. Foi um dos primeiros amigos que tive e fez-me sentir acolhida”, recorda. Rapidamente começaram a namorar. “Nos primeiros meses fui muito feliz. Depois, começou a ficar estranho.” Se Carla não lhe respondesse às mensagens, “é porque estava com outros”. E mais mensagens (e desconfianças) chegavam.

“Às vezes desligava a Internet só para não falar com ele. No dia a seguir, as minhas amigas lá lhe diziam que não lhe respondia porque tinha adormecido”, explica. “Ou então deixava de ‘postar’ fotos com a minha localização no Instagram para não receber perguntas dele.” Recebia-o em casa e discutiam, deixou de estar tanto com os amigos e, a certa altura, começou a acreditar no que ele lhe ia dizendo: “Ninguém gosta de ti para além de mim.” Quando Carla tentou acabar a relação, sentiu-se emocionalmente chantageada e repensou a decisão: “Dizia-me que, se acabasse com ele, desistia da universidade.” Mais tarde, terminaria “de vez”. “Aí ele disse: ‘Não te esqueças que eu sei onde trabalhas. Um dia apareço lá.’” Nunca apareceu no bar onde trabalha no Verão, “felizmente”. Mas Carla ainda receia represálias, daí não assumir a sua identidade real.

No caso de Maria Figueiredo, copywriter de 26 anos de Vila Nova de Gaia, o telemóvel também teve o seu peso no controlo por parte do ex-namorado. “Tinha 18 anos na altura. Lembro-me que acabei a relação depois do Paredes de Coura de 2012.” Durante o festival, o então namorado roubou-lhe o telemóvel “para ver as mensagens”. Foi a gota de água.

Mas havia muito que sentia que tudo o que fazia era “diminuído” e “desvalorizado”. Sentia-se “quase perseguida”. E chegou a dar-lhe a “password do Facebook”. “Insistiu que devia ter e eu dei”, conta.

Mafalda Ferreira, da Plano i, adverte: “A partilha das passwords, que surge como algo romantizado, não passa de uma prova de desconfiança.” O entendimento deste pedido como “acto de amor” dificulta, na sua opinião, “o facto de a vítima reconhecer a sua relação como violenta”. Daniel Cotrim acredita que há soluções — para adolescentes e pré-adolescentes. “É importante falar destes assuntos nas escolas sem os culpabilizar”, defende, apontando ainda que, “nos casais em que isto acontece, este controlo e falta de privacidade são vistos quase como naturais”.

Falando pela associação, realça: “A APAV defende que se deve reduzir [nas horas de ensino de] Matemática e Português para trabalhar a questão da igualdade de género, cidadania e inteligência emocional.” Isto porque os adolescentes “estão na fase de identificação de grupos de pares e há o medo de ficarem sozinhos”; assim, “estes rapazes e raparigas demoram muito tempo a denunciar porque não querem sair daquele grupo”. Quanto às redes sociais e aos telemóveis, Mafalda Ferreira esclarece que, de acordo com o estudo, “neste tipo de violência” é comum haver ao mesmo tempo “duas vítimas e dois agressores”: cada elemento do casal pode assumir ambos os papéis em momentos diferentes.

O problema da “masculinidade tóxica”

No estudo da Plano i, há percentagens significativas que apontam para crenças “bastante conservadoras”. “As respostas que obtivemos reflectem o que a pessoa pensa, sofre ou pratica, analisamos crenças e práticas”, começa por explicar Mafalda Ferreira. “Assim, 12,7% das mulheres e 27,9% dos homens concordam que algumas situações são provocadas pelas mulheres.” Mas há mais: a mesma percentagem de inquiridos acredita que “meninos e meninas devem ser educados de forma diferente” ou que “homens e mulheres devem ter deveres e direitos diferentes”. Muitas vezes, tanto o agressor como a vítima concordam com estas ideias. Daniel Cotrim corrobora: “Há uma herança transgeracional. Os pais já viviam questões de violência, por exemplo.”

A coordenadora executiva do UNi+ e o assessor técnico da APAV indicam que, quando o rapaz é o agressor, as tipologias dominantes de violência são “a sexual e a física”. No caso das raparigas, “é mais psicológica e verbal”. “Para os rapazes, não é normal serem vítimas de raparigas. Tem a ver com as raízes das questões da masculinidade”, diz Daniel Cotrim.

Os rapazes têm dificuldade em assumir que são vítimas de violência no namoro — sejam eles hetero ou homossexuais. “Por um lado, tem que ver com a dita masculinidade, de existir um papel de género que levanta sentimentos de vergonha”, explica o psicólogo e técnico da APAV. “Depois, há a questão dos pares. O pânico de o grupo saber.” Para além disso, de acordo com um estudo de 2017 da Universidade do Minho, a maioria dos homens vítimas de violência doméstica acha que é inútil apresentar queixa. “Ainda há um pensamento associado à forma com que as instituições como a polícia, os tribunais e organizações como a APAV os vão ver”, explica. “É preciso dizer que as organizações estão preparadas para trabalhar com eles”, ressalva.

A questão da “masculinidade tóxica” também se observa quando se fala de violência no namoro em relações homossexuais, principalmente “em casais de homens”, afirma Sara Malcato. “A comunidade não está fechada numa redoma. Também há pessoas LGBTI transfóbicas e homofóbicas.” Isso tem que ver “com um grande dilema entre aquilo que a pessoa crê e o que sente”. E “há um aumento crescente” de crenças mais conservadoras devido “à própria internalização da homofobia”.

Em 2018, segundo dados enviados pela ILGA ao P3, foram atendidas 409 pessoas no serviço de apoio à vítima da associação — o grupo dos “homens cis gay” (pessoas cujo género é o mesmo que o designado no nascimento que têm sexo com outros homens) foi o que mais recorreu a esta ajuda (75 utentes). A maior parte das queixas refere-se a casos de violência familiar, mas 38 pessoas queixaram-se de terem sido vítimas de assédio ou de violência na intimidade.

Daniel Cotrim diz que não existem muitas campanhas em redor da violência em casais LGBTI. Contudo, há casos a chegar à APAV. Apesar de “não existirem grandes diferenças em relação à violência heteronormativa”, há situações concretas e específicas: “A questão da ameaça de outing”, de expor a orientação sexual ainda não publicamente assumida de alguém, é uma delas.

Maria diz faltarem “campanhas com maior impacto”, mas ressalva: “Já se faz alguma coisa.” Exemplo disso é a campanha #NamorarMemeASério, lançada pela secretaria de Estado para a Cidadania e a Igualdade que contou com a participação de algumas figuras públicas. Ou então a revista GQ que na capa da edição de Março ordenou: “Se agride uma mulher, não compre a GQ.” Já no Porto foi aprovado recentemente, tal como já existe noutros locais, o Plano Municipal de Prevenção e Combate à Violência Doméstica e de Género

“A violência isola” — e “com mais prevalência nos casais do mesmo sexo”, realça Sara Malcato. A rejeição pode vir “dos pais, da família e dos amigos”. Quando não isola, esconde-se atrás de publicações nas redes sociais, seja qual for a orientação sexual. “Para os meus amigos, estava tudo bem”, diz Carla. Hoje, tem uma “relação saudável” com um rapaz que lhe dá espaço. “Agora falo disto tranquilamente. Na altura, foi muito complicado. Só a minha mãe sabia de tudo”, recorda.

Do caso de Bárbara, pouca gente sabe: “Contei a uma colega e à minha psicóloga.” Continua a publicar piadas e selfies no Instagram — para quem a vê pelas redes sociais está tudo bem. Não apresentou queixa, tal como as restantes entrevistadas. “Pensei sempre: ‘Logo, logo me livro dessa situação.’”. Às vítimas de violência no namoro e/ou doméstica, aconselha o “amor-próprio” que tem vindo a reconquistar. E a procurarem ajuda — mas Bárbara ainda não o fez.

 

 

Como ajudar os filhos quando a ansiedade leva a melhor

Abril 1, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto e imagem da Visão de 9 de março de 2019.

Teresa Campos

Os mais novos estão mais ansiosos? Especialistas dizem que é um mito, mas avisam que há mais pressão em cima das crianças.

Richard A. Friedman chama-lhe o grande mito da ansiedade adolescente. Provocador q.b., o psiquiatra, que assina regularmente no reconhecido diário norte-americano The New York Times, deixou um aviso aos pais, num dos seus artigos recentes. “Relaxe: a era digital não está a rebentar com o cérebro do seu filho.

“Segundo Friedman, não são os gadgets que os estão a tornar ansiosos e incapazes de se concentrarem. “As coisas não estão assim tão mal: apesar das notícias em contrário, não há, nos adolescentes, evidências científicas de uma epidemia de perturbações de ansiedade.

“O mais certo, insiste, é que todas estas histórias estão a contribuir para alimentar esse mito. Há ainda quem argumente que se as crianças são ansiosas é porque existe muita competição para conseguirem as melhores notas e um bom emprego.

Mas essa, afirma Friedman, é uma ansiedade saudável – e não deve ser tratada como uma desordem mental. “Os pais são tão protetores em relação aos filhos que não os deixam falhar, alimentando a ansiedade deles se algo correr mal.

Esquecem-se de que assim as crianças nunca aprendem a resolver as suas questões”, diz, sublinhando que o advento da nova tecnologia provoca sempre pânico – “quem não se lembra dos inúmeros avisos em relação ao abuso da televisão e dos danos que este causaria no cérebro? E não há registo disso”.

Margarida Gaspar de Matos, psicóloga clínica e professora da Universidade de Lisboa diz que também não lhe “parece que os adolescentes estejam mais ansiosos”. “Há é mais atenção em relação aos seus direitos e necessidades – e isso traz para a ribalta a sua saúde mental e o seu bem-estar.” A especialista recorda, aliás, que, até há bem poucos anos, a saúde mental era um tema-tabu nas escolas e nas famílias – o que só mudou no período da recessão, sobretudo entre 2010 e 2014.

Teresa Goldschmidt, pedopsiquiatra, presidente da Associação Portuguesa de Psiquiatria da Infância e da Adolescência, explica, por seu lado, que nem o argumento de que os jovens andam mais medicados pode significar um aumento do problema.

“O facto de a medicação psicotrópica estar a ser mais usada não quer dizer que a situação a nível da saúde mental dos jovens esteja pior”, afirma. A médica diz que não há um aumento da prevalência, mas uma subida da pressão social para o sucesso individual, o que poderá levar a uma sobrevalorização do desempenho, colocando os adolescentes sob maior pressão.

Além de ser preciso rever o peso que se atribui aos resultados escolares, os pais devem perceber que as crianças têm de conviver: “É a multiplicidade das experiências relacionais que permite, por vezes, ultrapassar dificuldades transitórias.”

O que os pais devem fazer

Quatro conselhos da pedopsiquiatra Teresa Goldschmidt

► Incentivar os filhos a estarem com amigos
► Dar-lhes espaço para falar de inquietações
► Apoiá-los na forma de lidarem com os insucessos
► Não evitar as situações que desencadeiam ansiedade, mas sim apoiá-los na forma de as enfrentar

 

 

 

Sozinhos entre milhares de “amigos”. Estudo associa redes sociais a solidão nos jovens

Março 29, 2019 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 13 de março de 2019.

Investigação em Portugal indica que passar muito tempo online faz os jovens sentirem-se sozinhos, mesmo quando não deixam de falar com os amigos frente a frente. É a natureza da comunicação online que provoca a solidão? Investigadores dizem que há uma conexão.

Karla Pequenino

Num mundo em que é cada vez mais normal usar o Facebook, o Twitter, o Instagram, ou o YouTube para comunicar com outras pessoas – a qualquer hora, em qualquer lugar –, são vários os trabalhos que começam a encontrar uma relação entre usar Internet e sentir mais solidão. Particularmente, nos jovens.

Um estudo do Instituto Universitário de Ciências Psicológicas, Sociais e da Vida (ISPA), em Lisboa, mostra que os jovens portugueses que passam muito tempo nas redes sociais se sentem mais sozinhos. É uma conclusão comum na área da solidão digital: em 2016, um inquérito a utilizadores portugueses do Facebook, feito na Universidade Lusófona do Porto, mostrou que quem passa mais tempo na rede social se sente mais só. Em 2017, outro estudo, desta vez focado nos EUA, mostrou que passar mais de duas horas por dia em redes como Facebook, Snapchat e Twitter duplicava a probabilidade de alguém se sentir isolado.

Só que os investigadores do ISPA descobriram que o sentimento de solidão entre os jovens portugueses mantém-se, mesmo quando o tempo que passam online não interfere com o tempo que passam a falar com amigos fora da Internet, frente a frente. Em causa pode estar a falta de riqueza sensorial das conversas online.

“O nosso estudo sustenta que há qualquer coisa na comunicação online que causa a solidão, que é a forma como a comunicação acontece online que cria esse sentimento”, resume ao PÚBLICO o investigador do ISPA Rui Costa. “Nas raparigas, em particular, o sentimento de solidão não se explicava por passarem menos tempo com os amigos. Foi uma das questões que nos chamou a atenção.”

As conclusões foram publicadas na revista académica International Journal of Psychiatry in Clinical Practice. O estudo, em que foram inquiridos 548 jovens em Portugal (dos 16 aos 26 anos) entre 2015 e 2016, mostra que as redes sociais eram de longe a actividade preferida dos jovens quando estão na Internet. Os participantes foram avaliados quanto à percepção de solidão, ao ambiente familiar, e se têm um “uso problemático da Internet”. Foi questionado o grau de identificação com afirmações como “A interacção social online é mais confortável do que frente-a-frente”, e “Faltei a compromissos sociais devido ao meu uso da Internet”.

Inicialmente, o objectivo do estudo era avaliar a relação entre o uso problemático, ou vício, da Internet e o grau de interacção social. “A Internet começa a ser um problema quando há problemas de privação”, explica Costa. “Quando não dormimos, quando deixamos de fazer o trabalho, ou quando usamos o telemóvel para resolver problemas como a ansiedade ou a depressão. Se nos sentimos ansiosos e agarramos o telemóvel, estamos a ignorar o problema subjacente.”

No caso dos rapazes que participaram, como já se tem visto noutros estudos sobre o tema, um uso problemático da Internet estava associado a menos tempo para os amigos ou parceiros fora da Internet. Mas com as raparigas, embora o tempo online interferisse com algumas relações familiares, não interferia com o tempo que passavam a falar com os amigos em pessoa. Só que, mesmo assim, elas reportavam sentimentos de solidão.

“E mesmo com os rapazes, que passavam menos tempo com os amigos, não havia uma conexão directa ao maior sentimento de solidão”, diz Costa. “E isto foi muito interessante. Até agora pensava-se que a Internet levava as pessoas a passar menos tempo a falar com amigos e que isso levava à solidão. Mas agora podemos ver que é a própria Internet que causa a solidão.”

Hormonas, evolução, ou facilidade em apagar amigos?

Para os investigadores do ISPA, o motivo pode estar associado à evolução da espécie humana, durante a qual a vida em sociedade foi necessária para a sobrevivência. Como tal, os mecanismos cerebrais aprenderam a reconhecer a satisfação em interacções sociais apenas quando há informação sensorial suficiente a acompanhar.

“A hipótese que colocamos agora é que a comunicação online não tem a mesma riqueza sensorial que a comunicação offline”, explica Rui Costa. “Quando falamos da Internet, não há informação a nível do olfacto, por exemplo, e a forma das pessoas falam é diferente.”

É uma opinião partilhada pela psicóloga clínica Raquel Carvalho, que trabalha com adolescentes e crianças na Oficina da Psicologia, em Lisboa. Diz que é comum os jovens que acompanha (especialmente, a partir dos 13 anos) falarem em sentimentos de solidão, mesmo que não seja o motivo principal que os leva às consultas. Um dos motivos é que é nesta idade que se começam a afastar da família e a “tentar criar vínculos afectivos com os pares”.

“Nota-se que com o mundo digital os jovens se refugiam muito na tecnologia e, por isso, as interacções com os pares são mais pobres. É com relacionamentos cara a cara que se desenvolvem capacidades como a empatia e a cooperação”, diz Raquel Carvalho. “Depois ao nível das neurociências há hormonas que são produzidas como resposta à sensação de toque. É o caso da oxitocina.”

Conhecida como a “hormona do amor” ou a “hormona do abraço”, nos humanos a oxitocina é libertada durante o toque com outros humanos. No cérebro, o neurotransmissor está relacionado com fenómenos como a criação de laços afectivos, empatia, desenvolvimento de confiança com outras pessoas, e diminuição da agressividade.

“O refúgio na Internet da adolescência pode ser visto como normal, porque actualmente é uma forma de se criarem ligações aos pares”, ressalva Raquel Carvalho. “Mas é preciso garantir que não se estão a substituir encontros reais.”

O aumento da solidão entre os jovens é uma realidade observada também no Observatório da Solidão, do Instituto Superior de Ciências Empresariais e do Turismo (ISCET), no Porto. “A solidão digital é um facto”, diz ao PÚBLICO o coordenador do observatório, o investigador Adalberto Dias de Carvalho. “Muitas vezes tem-se a percepção de que a solidão surge principalmente na população mais idosa. Não é bem assim. As vivências de solidão surgem com mais frequência nos jovens. A diferença é que os mais jovens têm mais facilidade em sair do estado de solidão.”

Adalberto Dias diz que as redes sociais são vistas como um “veículo para superar a solidão”, tanto pelos mais jovens como por outras faixas etárias. Mas – tal como a psicóloga Raquel Carvalho o estudo do ISPA notam – “as relações mediadas pelas redes sociais têm uma natureza diferente”.

Um dos problemas refere Adalberto Dias, é que “as redes sociais criam um estado ilusório de conexão” que se nota, por exemplo, com a facilidade com que se elimina um amigo. “Na Internet basta carregar num botão e uma relação desaparece. A gestão de conflitos é diferente das relações interpessoais”, nota o investigador.

Travar o aumento da solidão

Para a psicóloga Raquel Carvalho é importante travar comportamentos que podem levar à solidão digital cedo. “É cada vez mais normal ver bebés agarrados aos tablets. Nos adolescentes são as redes sociais e também os jogos online. É bom começar a introduzir limites nos mais novos. A propor alternativas ao tempo online, por exemplo, com outros colegas, frente a frente.”

Os efeitos negativos da solidão na saúde estão bem documentados. Um estudo da Universidade de Harvard ao longo de 75 anos mostrou que a sensação pode ser tóxica: quanto mais isoladas as pessoas estão, mais rapidamente se deteriora a sua saúde física e mental.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) nota que boas redes de suporte social são um factor determinante para o bem-estar. Em Janeiro, o Reino Unido nomeou um ministro para a Solidão (o primeiro do mundo), que é um problema que afecta mais de nove milhões de britânicos. O objectivo é impedir a proliferação de um fenómeno que pode dar azo a demência, ansiedade, e aumentar a mortalidade precoce.

Em 2019, os mais jovens são entre aqueles que mais sozinhos se sentem em todo o mundo: numa investigação da estação britânica BBC sobre a solidão – em que foram inquiridas 55 mil pessoas em todo o mundo – 40% dos jovens entre os 16 e os 24 anos admitiram sentirem-se frequentemente sozinhos. A percentagem foi superior à de outras faixas etárias. Além disso, os inquiridos que mais reportaram sentimentos de solidão eram aqueles que tinham mais “amigos online” no Facebook.

A equipa do ISPA quer continuar a estudar o fenómeno da solidão digital em Portugal. “No futuro, queremos analisar o uso problemático do smartphone com o phubbing”, avança Costa. A expressão phubbing (uma amálgama das palavras inglesas phone e snubbing) designa o acto de ignorar alguém, numa ocasião social, ao olhar para o telemóvel em vez de prestar atenção a essa pessoa.

Um estudo recente das universidades de Oxford e Warwick, no Reino Unido, revelou que embora as crianças e jovens passem 30 minutos a mais em casa com os pais do que em 2000, esse tempo não é dedicado a mais interacções familiares. Os dispositivos móveis, como consolas portáteis e tablets, são particularmente usados nestes períodos.

“Queremos perceber o impacto que há nos sentimentos de solidão em Portugal quando se utiliza o telemóvel quando se está com os amigos ou com a família”, diz Rui Costa.

“Qualquer pessoa pode encontrar benefícios em usar redes sociais”, observa a psicóloga Raquel Carvalho. “Só que têm de manter relações reais. Não se podem limitar às relações virtuais. A tecnologia tem de ser um complemento, caso contrário há riscos de – nos jovens, em particular – não se desenvolverem competências fundamentais.”

 

Publicidade está a promover produtos perigosos para as crianças

Março 28, 2019 às 8:00 pm | Publicado em Relatório | Deixe um comentário
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Notícia do Lifestyle Sapo  de 14 de março de 2019.

Jovens e crianças estão cada vez mais expostos a produtos nefastos para a saúde através das redes sociais devido à falta de regulamentação da publicidade digital, alerta hoje um relatório da divisão europeia da Organização Mundial de Saúde (OMS).

Apesar das políticas e compromissos existentes para limitar a promoção de produtos nocivos à saúde junto de menores, como bebidas com alto teor de gordura, açúcar e sal, bebidas alcoólicas ou tabaco, incluindo novos produtos como cigarros eletrónicos, a OMS Europa considera existirem provas de que as crianças continuam expostas a este tipo de produtos através dos canais digitais.

O documento, intitulado “Supervisão e restrição do marketing digital de produtos nocivos para crianças”, defende uma maior monitorização da publicidade digital deste tipo de produtos pelos países, mas também pelos pais das crianças.

Os autores do relatório acreditam que o controlo da publicidade digital de alimentos nocivos dirigida a crianças e jovens pode ser fundamental para reduzir o impacto negativo de problemas de saúde como doenças cardíacas, cancro, obesidade e doenças respiratórias crónicas, que representam 86% das mortes e 77% dos encargos com cuidados de saúda na Europa.

O relatório é o resultado de uma reunião com especialistas feita em junho em Moscovo, sendo o português João Breda o coordenador da direção para a prevenção e controlo de doenças crónicas não transmissíveis da OMS da Europa, que abrange 53 países, incluindo Portugal.

A reunião quis discutir os desafios da publicidade digital de produtos nocivos para a saúde tendo presente que as crianças passam cada vez mais tempo na Internet, nomeadamente em plataformas e redes sociais como Instagram, Facebook, YouTube ou Snapchat, e que a exposição à publicidade digital aumentou.

Algumas organizações, como agências de publicidade, estão a usar técnicas sofisticadas, aproveitando que o uso crescente de telemóveis e redes sociais permitem a transmissão de mensagens personalizadas e direcionadas e “cada vez mais persuasivas”, referem os autores.

Os especialistas concluíram também que “as estratégias de regulação e auto regulação que existam para a televisão e outros meios de comunicação social tradicionais estão obsoletas”, afirmou Breda à Lusa, após a apresentação do estudo em Londres.

Uma consequência foi o desenvolvimento de uma ferramenta chamada CLICK para monitorizar a exposição das crianças à publicidade digital, que será testada inicialmente por alguns países, e cujos resultados deverão ser divulgados no final do ano.

“É necessária uma atitude mais musculada por partes das entidades públicas, mas os países não podem trabalhar sozinhos, por isso queremos desenvolver ferramentas e estratégias comuns”, afirmou João Breda.

O relatório citado na notícia “Monitoring and restricting the digital marketing of unhealthy products to children and adolescents” pode ser descarregado no link:

http://www.euro.who.int/en/health-topics/disease-prevention/nutrition/news/news/2019/3/new-who-study-shows-more-action-needed-to-monitor-and-limit-digital-marketing-of-unhealthy-products-to-children

 

Os ecrãs impedem os jovens de desenvolver empatia. E as sociedades tornam-se “brutais”

Março 26, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 2 de fevereiro de 2019.

A resiliência constrói-se. Num ambiente de segurança, o cérebro de alguém que sofreu um trauma regenera-se “muito mais rapidamente do que imaginamos”. Mas, atenção, avisa o psiquiatra Boris Cyrulnik, uma criança que cresce a olhar para ecrãs não consegue desenvolver empatia.

Alexandra Prado Coelho

A nossa capacidade de resistência à adversidade – a chamada resiliência – não está inscrita nos genes. Não nascemos com uma determinada predisposição, antes somos moldados pelo ambiente desde o útero materno e pela vida fora, e é isso que nos torna mais ou menos resilientes.

O defensor desta ideia, o neuropsiquiatra francês Boris Cyrulnik – que esteve em Portugal esta semana para fazer uma conferência na Noite das Ideias, iniciativa da Embaixada de França e do Instituto Francês, dia 31 de Janeiro, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa – sabe do que fala. Ele próprio é um exemplo de resiliência e tornou-a o tema principal das suas pesquisas e do seu trabalho de toda a vida.

Hoje com 81 anos, este sobrevivente do Holocausto tem trabalhado com pessoas, sobretudo crianças e jovens, que passaram por situações traumáticas. “A resiliência”, diz, “é uma construção constante, é um fenómeno de desenvolvimento e nós desenvolvemo-nos o tempo todo, a nível biológico, psicológico, afectivo, social.” E acrescenta, com um sorriso de garoto: “Só paramos de nos desenvolver aos 120 anos. Depois disso, é possível, mas é difícil.”

Muito do processo de regeneração de um cérebro que sofreu um trauma passa pela segurança mas também pela empatia com os outros. Ora, actualmente, com a presença constante da tecnologia nas nossas vidas, é precisamente a capacidade de criação de empatia que começa a estar em risco. E que consequências isso tem para uma sociedade?

“Uma pessoa nunca pode ser reduzida ao seu trauma”

Antes de entrarmos por aí, vamos começar por perceber o que pode afectar, positiva e negativamente, o nosso cérebro desde o início da vida. O poder dos genes, ou seja, o determinismo genético, tem o seu momento alto “no encontro do espermatozóide com o óvulo”, depois disso é o meio que começa a agir sobre o jovem feto. “Há meios que orientam [a criança] para a aquisição de factores de protecção e outros para a aquisição de factores de vulnerabilidade. Se a mãe está stressada, segrega substâncias que passam no líquido amniótico e o bebé adquire esses factores de vulnerabilidade. Se a mãe se sente segura e feliz, o bebé desenvolve-se bem e tem factores de protecção.”

A forma como, por exemplo, essas substâncias segregadas pela mãe alteram o cérebro do bebé pode ser observada em exames neurológicos. As crianças afectadas pelo stress materno “nascem com uma alteração dos dois lóbulos pré-frontais e do sistema límbico e a amígdala do cérebro reage muito fortemente”. Isto significa que “chegam ao mundo com uma alteração cognitiva pela situação de precariedade social da mãe”.

Um ambiente onde a criança se sinta protegida é, por isso, essencial. A boa notícia é que “o cérebro regenera muito rapidamente”. Mesmo um trauma profundo pode curar-se “muito mais facilmente do que imaginamos”. A consciência disso deve-se, em grande parte, ao trabalho que Cyrulnik desenvolveu. “Antes dizíamos sobre estas crianças, é genético, não vale a pena preocupar-nos com elas. E não nos ocupávamos. Hoje rodeamo-las de segurança e a resiliência regressa. Em 48 horas começam a segregar hormonas de crescimento e hormonas sexuais, sejam masculinas ou femininas. Mas se não os rodearmos de segurança passam a vida toda em sofrimento.”

Boris Cyrulnik tinha sete anos quando perdeu os pais, levados pelos nazis para Auschwitz, onde morreram. Antes de ser detida, a mãe confiou o rapaz a uma família, que acabou por o entregar também aos alemães. Conseguiu escapar, escondendo-se numa sinagoga, da qual acabou por conseguir fugir, tendo trabalhado numa quinta para conseguir sobreviver até ao final da guerra. Só aos dez anos é que foi entregue a uma família que o criou.

Depois disso, as tentativas que fez para falar da sua situação depararam com um muro de indiferença. Os franceses não queriam ouvir, da boca de uma das vítimas, a história de como tinham abandonado e condenado à morte crianças judias. Num país também ele profundamente traumatizado, Boris Cyrulnik percebeu que não valia a pena insistir em contar a sua história. Mas foi também esta experiência que o fez perceber que queria ser psiquiatra.

A ideia de que uma criança, por maior que seja o trauma que sofreu, não pode ser ajudada a ultrapassá-lo é o que mais o indigna – e, trabalhando com órfãos na Roménia, vítimas de genocídio no Ruanda, ou crianças-soldado na Colômbia, foi reforçando essa convicção. “Uma pessoa nunca pode ser reduzida ao seu trauma”, costuma dizer.

Há, contudo, outros factores que devem ser tidos em conta – a diferença entre rapazes e raparigas, por exemplo, que se nota logo no desenvolvimento nos primeiros anos de vida. “As raparigas começam a falar cerca de cinco meses antes dos rapazes. Porquê, não sei. Mas é um factor de protecção, porque quando estão infelizes podem dizê-lo, podem pedir ajuda, enquanto os rapazes não sabem dizê-lo e passam à acção mais rapidamente.” Passagem à acção que vão manter como característica de comportamento ao longo da vida.

Quando chegam à adolescência, “as raparigas, que têm uma biologia mais estável, têm um avanço neuropsicológico de cerca de dois anos relativamente aos rapazes”. Não só falam melhor, como são “mais estáveis emocionalmente” e já terminaram a sua “fadiga de crescimento”.

Nas décadas seguintes, nota-se que as raparigas e as mulheres “aprendem os rituais de interacção melhor que os rapazes” e continuam a “dominar a palavra” – se isso ainda não parece ser evidente no espaço público, onde a visibilidade das mulheres continua a ser menor, Boris Cyrulnik acha que é apenas uma questão de tempo: “Há aí [nessa invisibilidade] um grande determinismo social. Mas penso que isso vai desaparecer em dez anos”.

O domínio masculino no espaço público está ligado à força física e à violência. “A violência foi um factor adaptativo em todas as culturas. Muitos sociólogos dizem que é pela violência que a sociedade se constitui. Se os homens não fossem violentos, a espécie humana teria desaparecido”.

Na sua infância e juventude, durante a II Guerra Mundial, “o trabalho era uma forma de violência, 15 horas por dia, seis dias por semana”. Recorda as vidas duríssimas dos mineiros em França ou dos operários dos estaleiros navais. “Era um trabalho de uma violência extrema, os operários tinham as costas feridas pelos pedaços de carvão que lhes caiam em cima, as mulheres tinham que os lavar para evitar as infecções e para que eles pudessem ir trabalhar no dia seguinte, senão, não haveria dinheiro nem comida.”

A força e a violência eram, portanto, essenciais e isso fazia com que os homens fossem “vistos como heróis”, sendo, por isso mesmo, “sacrificados na mina ou na guerra”. Esta violência adaptativa não faz sentido nas actuais sociedades ocidentais como a europeia, por exemplo, mas continua a fazer sentido em países em guerra. A diferença é clara: “A violência é destruição num contexto de paz mas é construção social num contexto de guerra”. Daí que no Médio Oriente “um rapaz que não é violento, é desprezado, pela mãe, a mulher, os outros rapazes”.

“No mundo actual [ocidental], o sector terciário desenvolveu-se, a escola também, as mulheres têm desempenhos iguais ou superiores aos homens e a violência já não tem valor de construção da sociedade, é apenas destruição”, explica. “Mas isso só acontece desde os anos 60 do século XX. Eu nasci em 1937, faço parte de uma geração na qual apenas 3% das crianças estudavam. Os outros iam trabalhar, com 12, 13 anos, os rapazes para a mina, as raparigas para casa, e a maternidade acontecia aos 16, 17 anos. Hoje isso é impensável.”

E, no entanto, mesmo que desadaptada ao contexto actual, a violência contínua de certa forma inscrita na nossa “memória transgeracional” – pronta a renascer assim que for necessária. “Acontece nas sociedades que se afundam, por exemplo, o Brasil, a Venezuela, que estavam numa curva ascendente e a violência era muito combatida, sobretudo pelas mulheres, porque se manifestava apenas na destruição do casal, da família, da sociedade.” Quando a crise económica faz afundar o país, “a violência reaparece e torna-se um valor adaptativo e nesse contexto um homem que não é violento é imediatamente eliminado”.

Ao longo da sua carreira, Cyrulnik viu muitas situações nas quais esses instrumentos de adaptação da espécie humana vinham ao de cima, tanto a violência como, por outro lado, a solidariedade. E percebeu que são valorizados de forma diferente conforme o contexto. No entanto, nota, a solidariedade que surge nessas circunstâncias é geralmente “de clã, de grupos com as mesmas crenças religiosas, a mesma cultura, a mesma cor de pele, o mesmo nível social”.

Quanto à violência, “nas guerras decoramos os psicopatas quando matam um adversário, e em alturas de paz colocamo-los na prisão – eles são sempre psicopatas, é o meio que valoriza, ou não, a passagem ao acto”.

Esta presença da violência, que “atravessa todas as culturas”, ajuda a perceber também a vitimização da mulher. “Elas sofreram, foram massacradas, porque são menos dotadas para a violência”. Por outro lado, quando a situação piora e a violência se torna novamente adaptativa, “as mulheres valorizam os homens violentos e querem estabelecer laços com eles”. O que acontece hoje, em contextos de paz, é que “as mulheres, que foram de facto vítimas, e algumas ainda são, servem-se da noção de vítima para tomar o poder e legitimar a própria violência, que não é física, mas verbal”.

O bebé “precisa do cheiro” da mãe

Está também a surgir nas nossas sociedades outro fenómeno que preocupa o psicanalista: a dificuldade de desenvolver empatia, que afecta sobretudo os mais jovens. A empatia é algo que implica interacção humana, sublinha. E quando grande parte da relação com o mundo é feita não através de outros seres humanos mas sim de ecrãs de televisões, computadores ou telemóveis, é muito mais difícil aprender a empatia.

E, no entanto, esta é algo que um bebé recém-nascido adquire com uma surpreendente facilidade. “Os bebés compreendem imediatamente a menor variação da mímica facial da mãe, desde muito pequenos. Somos uns virtuosos, únicos entre as espécies vivas a lidar com a mímica facial.” Daí que seja difícil criar um robot que possa realmente substituir uma pessoa.

Mas, relativamente à tecnologia, Cyrunik não tem uma posição redutora. “Tinha um amigo com uma clínica de hemodiálise e duas ou três vezes por semana as pessoas dormiam na clínica e criavam laços com a máquina, queriam sempre a mesma porque já conhecia as reacções deles. Como na psicanálise, havia uma relação transferencial.”

Por outro lado, “quando as crianças são criadas com ecrãs, são privadas da interacção, das palavras, do piscar de olhos, dos sorrisos; com um ecrã não há rituais de interacção”. Isso faz com que “tenham um atraso no desenvolvimento da linguagem quase como uma criança autista, não sabem descodificar as interacções, se alguém lhes sorri não compreendem, não aprendem os pequenos gestos que nos permitem viver juntos, socializam mal, tornam-se impulsivos”. Um bebé, frisa Cyrulnik, “precisa do cheiro, do calor dos braços da mãe”.

Se um bebé “é isolado antes de adquirir a palavra, o que acontece até aos 21 meses, há uma atrofia dos lóbulos pré-frontais e dos anéis límbicos”. São crianças que crescem “com um cérebro moldado pelo fracasso social e cultural” e “não conseguem controlar as suas emoções”.

Por isso, a ligação que muitos jovens (e não só) estabelecem hoje com esses ecrãs omnipresentes preocupa-o. “Já há consequências. Os jovens que passam mais de três horas por dia em frente a ecrãs mexem-se menos, encontram-se menos com os outros, têm mais depressões e, sobretudo, param o desenvolvimento da empatia – a aptidão a descentrarem-se de si próprios para conseguir a representação do mundo mental dos outros”.

A ausência de empatia manifesta-se, diz Cyrulnik, na forma como muitas pessoas “não estão atentas aos outros”. “No metro de Paris, por exemplo, isso é flagrante. Estão no meio da porta e não se mexem quando os outros querem entrar ou sair. Estão centrados neles mesmos porque a escola centrou-os sobre eles mesmos, os ecrãs também e aprenderam mal os rituais de interacção”.

O exemplo do metro pode ser menor, mas Cyrulnik confirmou esta constatação noutras situações mais graves. Recorda um rapaz que, no hospital e quando uma pessoa da família acabara de morrer e os outros familiares choravam, ria a olhar para alguma coisa no telemóvel. Ou outro que assaltara uma senhora que caíra acabando por morrer em consequência de uma pancada na cabeça e que respondia apenas que “se ela tivesse largado a mala, não teria morrido”.

“Sociedades brutais”

Uma sociedade com menores níveis de empatia é necessariamente mais perigosa, conclui. “Os psicopatas podem matar, roubar, violar, sem culpabilidade”. Por isso defende a necessidade de se desenvolver uma “pedagogia da empatia”, que deve começar nas escolas, para explicar que “não nos podemos permitir tudo”. Tal como é preciso perceber que “se um rapaz tem um desejo sexual não pode permitir-se tudo”, também uma rapariga que não esteja interessada nele “não pode permitir-se tudo, não pode humilhá-lo”.

Conseguirmos colocar-nos no lugar do outro – é isso a empatia e também, segundo Cyrulnik, a base da moralidade – ajuda a perceber que nem tudo é possível. “Temos, como sociedade, que ter uma maior consciência disso”. Em França, após a I Guerra Mundial havia um enorme número de órfãos e “praticamente todos conseguiram rapidamente uma família de acolhimento”. Hoje, nessa mesma França, em paz, “passam 16 meses entre o alerta de que uma criança está em risco e o momento em que vai encontrar uma família, e são 16 meses em que a criança é infeliz”. A ausência de empatia, avisa, “faz sociedades brutais”.

 

 

 

Os nossos adolescentes precisam de psicólogos? Sim, mas há “muito poucos” perto deles

Março 25, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia da TSF de 21 de fevereiro de 2019.

Joana Carvalho Reis com Sara Beatriz Monteiro

Depois de 40 anos a trabalhar com adolescentes e famílias, Daniel Sampaio insiste que a saúde mental deve ser uma prioridade nacional e que os adolescentes devem ser acompanhados nas escolas e nos centros de saúde.

O psiquiatra Daniel Sampaio defende que é urgente olhar para a saúde mental como uma prioridade. Depois de 40 anos a trabalhar com adolescentes e famílias, o especialista conclui que existem muitos profissionais competentes no setor, mas que os serviços na área da psicologia e da psiquiatria são insuficientes.

“Precisamos que os centros de saúde tenham médicos de família, psicólogos e enfermeiros que se dediquem mais à saúde mental, Nós temos muito poucos psicólogos nos centros de saúde e muito poucos enfermeiros. O médico de família não pode fazer tudo. E precisamos nas escolas também de psicólogos que trabalhem lado a lado com os professores para detetar precocemente os problemas de saúde mental dos jovens, as carências dos jovens. A pedopsiquiatria precisa de ser reforçada e a psiquiatria e a psicologia da adolescência também. Tem que ser uma prioridade a nível nacional e infelizmente não tem sido.”

Daniel Sampaio é o convidado da conferência “Parentalidade e Psicopatologia na Era da Internet”, um espaço onde vai ter oportunidade de mostrar a importância de os pais e os professores lidarem com os desafios e com as vantagens das novas formas de comunicação.

Na visão do especialista, os pais e os professores devem estar atentos ao comportamento dos jovens, utilizando a internet para estabelecerem uma comunicação mais eficiente.

“Estamos a dar atenção, mas muitas vezes de uma forma negativa, porque pais e professores estão a criticar o uso da internet pelos jovens em vez de aproveitarem esta oportunidade. Nas escolas há uma má política em relação à utilização do telemóvel, muitas vezes não há regras definidas. Umas escolas proíbem completamente, até no pátio, outras proíbem na sala de aula, outras permitem na sala de aula. Tudo isso gera ruído, gera confusão na comunicação.”

Nesse sentido, Daniel Sampaio defende que “é preciso ajudar, desde a infância, as crianças a estarem na internet com muita precaução e, sobretudo, com regras.”

 

 

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