O cérebro adolescente

Junho 24, 2017 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto da http://revistaneuroeducacao.com.br/ de 25 de setembro de 2015.

Muitas vezes eles pensam e sentem como os adultos. Mas não raro se comportam como crianças. A explicação é neurobiológica: algumas regiões cerebrais responsáveis pela autorregulação amadurecem mais tardiamente. Estudos com as modernas tecnologias de imageamento trazem uma melhor compreensão das intensas transformações que ocorrem nessa etapa da vida

por Gilberto Stam

Desejara que não houvesse idade entre 16 e 23 anos, ou que a mocidade dormisse todo esse tempo.” Na peça Conto de inverno, escrita entre 1610 e 1611 por William Shakespeare, o personagem denomina os jovens de “cérebros ferventes”. Sua reação à rebeldia típica dessa fase da vida revela que nada mudou ao longo do tempo. Os adultos, em geral, sentem muita dificuldade de compreender o comportamento dos adolescentes.

Em tempos modernos, a mesma atitude tem sua melhor tradução em uma expressão bem conhecida de todos nós: “são os hormônios!”, um bode expiatório invisível que explicaria o comportamento dos jovens. Essa afirmação, na verdade, indica pouco conhecimento sobre o assunto. “Existe apenas um hormônio importante na adolescência, o sexual, e por si só ele não explica outros comportamentos típicos da faixa etária, como a sociabilidade e a propensão ao risco”, diz a neurocientista Suzana Herculano-Houzel, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, autora do livro O cérebro em transformação (Objetiva). “Quem comanda as mudanças da adolescência, inclusive a produção do hormônio sexual, é o cérebro”, explica.

É evidente que um adolescente tem o cérebro imaturo, já que, por definição, ele ainda não é um adulto. Mas o corpo desenvolvido, já parecido com o do adulto, acaba gerando nos mais velhos a expectativa de um comportamento mais maduro, o que se torna fonte permanente de frustração. Um dos motivos desse tipo de engano está em informações científicas incorretas. Há duas décadas, a teoria predominante era que o cérebro atingia sua maturidade máxima no final da infância. Mais recentemente, constatou-se que o adolescente, na verdade, não está totalmente maduro fisicamente – inclusive no que diz respeito ao cérebro. “A maturação do cérebro humano segue pela adolescência e pode continuar até a idade adulta”, diz a neurocientista Sarah-Jayne Blakemore, da Universidade de Londres. “Dez anos atrás, sabíamos pouco sobre o cérebro adolescente. Avançamos muito graças às novas tecnologias de imagem, feitas por ressonância magnética”, diz.

Imagens que dizem muito

Um grande projeto nessa área de pesquisa é conduzido pelo Instituto Nacional de Saúde Mental dos Estados Unidos, que conta com cerca de 8 mil imagens de 2 mil pessoas – entre crianças, adolescentes e adultos –, oferecendo uma nova perspectiva sobre o desenvolvimento do cérebro. Uma das mudanças mais visíveis nessas sequências de imagens ocorre na chamada massa cinzenta, a região mais exterior do órgão, que é constituída pelos corpos celulares dos neurônios. Ao contrário do que se possa imaginar, a massa cinzenta diminui ao longo da adolescência.

Essa diminuição, no entanto, não representa uma perda de neurônios, cujo número, em geral, pouco muda. Ela ocorre devido a uma grande perda de sinapses (conexões entre os neurônios mediadas por substâncias químicas chamadas de neurotransmissores). As sinapses começam a aumentar durante a gestação e atingem o pico aos 6 meses de vida do bebê. Na adolescência, o quadro muda. “No começo dessa fase, há um grande número de sinapses, mas, quando se inicia a transição para a fase adulta, ocorre uma morte programada de sinapses, que refina as conexões”, diz a neuropsicóloga Cláudia Berlim de Mello, do Centro Paulista de Neuropsicologia. “Essa perda de algumas sinapses – e consolidação de outras – acontece de acordo com o uso”, explica. Ou seja, sinapses usadas com frequência são reforçadas, enquanto as que deixam de ser usadas são perdidas, de modo que as opções feitas nessa fase da vida ajudarão a formar o cérebro do adulto.

Paralelamente, ocorre outra mudança importante na chamada matéria branca, constituída por axônios (parte do neurônio responsável por conduzir os impulsos elétricos que partem do corpo celular). Ao longo do desenvolvimento, os axônios são cobertos por uma camada de mielina, que forma uma espécie de capa. A mielina é um isolante e aumenta a velocidade de transmissão do sinal entre as células. Assim, enquanto a matéria cinza diminui devido ao corte das sinapses, a branca aumenta por causa do aumento na mielina. Entre a perda e o refinamento das sinapses, a massa total do cérebro permanece relativamente constante, mas o funcionamento vai se aprimorando graças às mudanças estruturais e químicas. Além de ajudar a entender o adolescente, essas descobertas podem levar muitos adultos a questionar própria maturidade cerebral. Isso porque o corte de sinapses pode avançar até os 30 anos, e o aumento na massa branca, até os 40.

EMBATES COM A FAMÍLIA

Há outro dado nesse complexo processo: a maturação do cérebro não se dá de maneira homogênea, mas em ritmos diferentes em cada região. As novas tecnologias de imagem mostram que a última parte do cérebro a amadurecer – o córtex pré-frontal – é justamente a região onde se processam comportamentos tipicamente de adultos, como capacidade de planejamento, concentração, inibição de impulsos e empatia. Ao mesmo tempo que o corte do excesso de sinapses aperfeiçoa o funcionamento dessa importante área, as novas e melhoradas fibras com mielina permitem que diferentes partes dentro do pré-frontal se comuniquem melhor. “Essa integração resulta em um aperfeiçoamento da linguagem e da coordenação motora, por exemplo”, diz Herculano–Houzel. “Não por acaso, pacientes adultos que sofreram lesões no córtex apresentam comportamentos típicos de adolescentes”, completa.

Com o amadurecimento do córtex pré-frontal, o adolescente vai se aproximando do mundo adulto, embora de maneira não muito suave. “Nessa fase, começam a se desenvolver o comportamento autorreflexivo, a autorregulação e o raciocínio, levando a uma maior consciência crítica de si e dos outros”, diz Berlim de Mello. “Por isso, eles tendem a ver incongruências no mundo dos adultos. Ao contrário da criança, que tende a ser alegre, o adolescente é mais irritadiço e nega ou questiona o que vem antes dele.” Como o cérebro ainda está se consolidando, as oscilações de humor são comuns, assim como o comportamento reativo. “Eles começam a olhar o mundo de forma mais profunda, mas o lado emocional não está totalmente amadurecido. Daí surgem embates com os adultos e com a família”, explica a neuropsicóloga. “Além disso, eles são mais impulsivos, reativos e intensos. Percebem as incongruências, mas não sabem como lidar com elas.”

Se, por um lado, a maturidade emocional do adolescente oscila, é nessa fase também que ele passa a possuir ferramentas que o preparam para a vida adulta. Surge a capacidade de tomar decisões, julgar e planejar. No córtex pré-frontal, uma região chamada córtex orbitofrontal (localizada atrás dos olhos) é a última a amadurecer e promove as capacidades de usar emoções para nortear decisões e de criar empatia pelos outros – características fundamentais da vida adulta.

Insaciáveis

Outra mudança fundamental ocorre no sistema de recompensa, “conjunto de estruturas no cérebro responsáveis por premiar com prazer ou bem-estar comportamentos que acabaram de se mostrar úteis ou interessantes”, conforme Herculano-Houzel define em seu livro. Isso significa que o adolescente precisa de muito mais para sentir prazer. É algo difícil de visualizar porque ocorre em nível bioquímico – no cérebro, o prazer é proporcionado pela molécula dopamina, que é um neurotransmissor. Os adolescentes possuem um terço dos receptores para dopamina. Por isso, precisam de experiências mais intensas, que estimulam mais a liberação da substância, para sentir prazer. Essa mudança, por si só, é a principal responsável pela maioria dos comportamentos típicos do adolescente, como a busca de novidades, os excessos (como ouvir música alta) e o comportamento de risco, que também gera euforia e produção de dopamina. Sem falar na nova e mais importante descoberta: o sexo, cujo prazer só é possível porque o sistema de recompensa se torna sensível aos hormônios que promovem o prazer sexual. E tudo isso não é ruim, pois a procura pelo prazer é o que move o adolescente a descobrir coisas novas e a buscar independência.

Riscos possíveis

As coisas podem se complicar, porém, quando o comportamento de risco e a sociabilidade nascente se combinam. “Na adolescência, a causa principal de morte são os acidentes que, em geral, são causados por comportamento de risco”, diz Blakemore. “Um dos motivos principais do comportamento de risco é a influência do meio social. Os adolescentes são levados a impressionar os amigos, em busca de aprovação, enquanto também vão se tornando mais independentes dos pais.”

O encontro de um cérebro em formação com o comportamento de risco, como consumo de álcool e de drogas, é o ponto de maior vulnerabilidade. Afinal, a especialização das sinapses ocorre tanto para bons quanto para maus hábitos. O risco de dependência é maior porque o jovem está numa fase de experimentação. Dependências adquiridas podem permanecer durante a vida adulta. As descobertas sobre esse período da vida ajudam a lançar um olhar novo sobre o adolescente e a reconhecê-lo como alguém que não está pronto e que, por isso, precisa ser acolhido e orientado. Elas ajudam a pintar com detalhes um quadro que já havia sido delineado pela psicologia, mostrando que a adolescência é uma fase característica e que, também no cérebro, os adolescentes apresentam suas peculiaridades – que precisam ser respeitadas.

 

Muitos adolescentes não conseguem entender o dinheiro”, diz a OCDE

Junho 15, 2017 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança, Relatório | Deixe um comentário
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Notícia do http://www.educare.pt/ de 31 de maio de 2017.

O documento citado na notícia é o seguinte:

PISA 2015 Results (Volume IV): Students’ Financial Literacy

Estudo da OCDE sobre literacia financeira revela dados preocupantes sobre falta de conhecimentos nos jovens para lidar com problemas relacionados com o dinheiro no dia a dia.

Andreia Lobo

Muitos adolescentes são consumidores financeiros. Têm contas bancárias e cartões de débito. No entanto, cerca de um em cada quatro jovens não é capaz de tomar decisões simples, como quanto dinheiro gastar no seu dia a dia. A conclusão é de um novo relatório da série PISA 2015. Desta vez, foram testados os conhecimentos de literacia financeira de cerca de 48 mil estudantes de 15 anos de 25 países e regiões da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE).

É a segunda vez que o PISA é usado para avaliar a capacidade dos alunos para lidar com situações da vida real que envolvem resolver problemas e tomar decisões financeiras. Como, por exemplo, lidar com dinheiro e finanças pessoais, contas bancárias, cartões de débito ou entender as taxas de juros relativas a um empréstimo ou um plano de pagamento móvel.

Os primeiros resultados divulgados mostram o desempenho dos jovens da Austrália, Bélgica (Comunidade Flamenga), Brasil, Canadá (Colúmbia Britânica, Manitoba, Nova Brunswick, Terra Nova e Labrador, Nova Escócia, Ontário e Prince Edward Island), Chile, China (Pequim, Xangai, Jiangsu e Guangdong), Itália, Lituânia, Holanda, Peru, Polónia, Federação Russa, República Eslovaca, Espanha e Estados Unidos.

Durante a apresentação do relatório, em Paris, o secretário-geral da OCDE, Angel Gurría, lembrou porque considera a literacia financeira “uma competência vital essencial”: “O conhecimento financeiro estabelece as bases para muitas decisões importantes que todos os cidadãos enfrentam ao longo de suas vidas, seja ao avaliar um contrato de trabalho, comprar a primeira casa ou muito mais tarde, ao gerir a poupança para a reforma.”

Mas o que o PISA descobriu está longe de ser o cenário ideal. Apenas um em cada dez consegue entender questões complexas, como os impostos sobre os rendimentos. E muitos estudantes – pelo menos um em cada cinco – não alcançaram um nível básico de proficiência, mesmo em países e economias da OCDE de alto e médio desempenho.

Assim, enquanto quase 60% desses alunos possuem uma conta bancária e mais de 60% ganham dinheiro com algum tipo de atividade laboral, muitos não conseguem reconhecer o valor de um orçamento simples, e muito menos entender um extrato bancário ou um recibo de pagamento.

Gurría considerou as descobertas “chocantes” e “preocupantes: “Os jovens enfrentam escolhas financeiras mais desafiadoras e perspetivas económicas e de emprego mais incertas, no entanto, muitas vezes não possuem a educação para tomar decisões informadas sobre questões que afetam seu bem-estar financeiro”, sublinhou.

China lidera em matéria de finanças

Entre os países e regiões cujos dados foram apresentados – Portugal integrará um segundo grupo de países – a China (regiões de Beijing, Xangai, Jiangsu e Guangdong) apresentou a maior pontuação média. Em segundo lugar surge a comunidade flamenga da Bélgica, seguida pelas províncias canadianas participantes (Colúmbia Britânica, Manitoba, New Brunswick, Newfoundland e Labrador, Nova Escócia, Ontário e Prince Edward Island), a Federação Russa, os Países Baixos e a Austrália.

Os peritos da OCDE defendem que os alunos com bons resultados nos testes de literacia financeira provavelmente terão um bom desempenho na avaliação de leitura e matemática do PISA. Os que tiverem piores desempenhos vão fracassar nas restantes áreas avaliadas. No entanto, em média, em 10 países e economias participantes da OCDE, cerca de 38% da pontuação obtida nos testes de literacia financeira reflete fatores que não são abrangidos pelas avaliações de leitura e matemática do PISA e, portanto, são únicos nas competências financeiras.

A diferença de género na literacia financeira é muito menor do que em leitura ou matemática, mostra o relatório. Apenas na Itália, os rapazes são melhores do que as raparigas. Elas pontuam melhor do que eles na Austrália, Lituânia, República Eslovaca e Espanha.

Os resultados também mostram algumas estatísticas alarmantes em matéria de inclusão. Os alunos desfavorecidos obtêm 89 pontos menos do que os estudantes favorecidos – o equivalente a mais de um nível de proficiência PISA em alfabetização financeira.

Os estudantes nativos também apresentaram melhores resultados do que os estudantes imigrantes, com igual estatuto económico, particularmente na comunidade flamenga da Bélgica, Itália, Holanda e Espanha. Assim, os alunos imigrantes obtêm, em média, menos 26 pontos em literacia financeira, do que os estudantes nativos com o mesmo nível socioeconómico.

A forte relação entre o nível socioeconómico e o desempenho revela que o apoio parental não é suficiente, diz a OCDE, alertando que “as instituições educacionais desempenham um papel importante para garantir condições equitativas”.

Outros dados do relatório ditam que em média, 64% dos alunos dos países e economias parceiras da OCDE que integraram o estudo ganham dinheiro com alguma atividade formal ou informal, como trabalhar fora do horário escolar ou ter empregos ocasionais informais. Cerca de 59% dos alunos recebem mesada ou dinheiro de bolso.

A pesquisa também revelou que, em média, 56% dos alunos possuem uma conta bancária, mas quase dois em cada três estudantes não têm capacidade para gerir uma conta e não conseguem interpretar um extrato bancário.

Em média, em 10 países e economias participantes da OCDE, 22% dos estudantes – ou mais de 1,2 milhões de estudantes de 15 anos – pontuam abaixo do nível básico de proficiência em literacia financeira (Nível 2). Dito de outro modo, os alunos cujos conhecimentos estão neste nível podem, “na melhor das hipóteses”, diz a OCDE, “reconhecer a diferença entre necessidades e desejos, tomar decisões simples sobre gastos diários e reconhecer a finalidade de documentos financeiros diários, como uma fatura”.

No extremo, cerca de 12% dos alunos obtêm no nível 5 – o nível mais alto de proficiência. As suas competências permitem tomar decisões financeiras complexas que serão relevantes para o seu futuro. Conseguem descrever os resultados potenciais das decisões financeiras e mostrar uma compreensão mais ampla do cenário financeiro, como entender a cobrança dos impostos sobre os rendimentos.

Experiência com dinheiro

Não é de estranhar que a maioria dos jovens de 15 anos teve já alguma experiência realcionada com o dinheiro. Mais de 80% dos estudantes em nove de 13 países e economias com dados disponíveis recebem dinheiro sob a forma de presentes. Cerca de 64% dos alunos, em média, nos países e economias da OCDE ganham dinheiro com alguma atividade de trabalho formal ou informal, como trabalhar fora do horário escolar, trabalhar numa empresa familiar ou ter empregos ocasionais informais. Cerca de 59% dos alunos recebem dinheiro de uma mesada ou dinheiro de bolso.

Os dados do PISA 2015 mostram que 56% dos alunos participantes possuem uma conta bancária. No entanto, esta média mascara diferenças significativas entre os países, alerta a OCDE, dando exemplos. Na Austrália, na comunidade flamenga da Bélgica, nas províncias canadianas participantes e na Holanda, mais de 70% dos estudantes de 15 anos possuem uma conta bancária.

Mas no Chile, Itália, Lituânia, Polónia e Federação Russa, são menos de 40% os alunos detentores de conta. Menos de 5% dos alunos em cada país e economia parceira responderam que não sabem o que é uma conta bancária. Não é de estranhar que os peritos da OCDE afimem que “a experiência com produtos financeiros básicos está relacionada com o desempenho dos alunos em literacia financeira”. Na Austrália, na Comunidade flamenga da Bélgica, nas províncias canadianas participantes, na Itália, nos Países Baixos, na Espanha e nos Estados Unidos, os alunos que têm uma conta bancária conseguem mais de 20 pontos nos testes financeiros que os colegas que não têm, tendo ambos o mesmo nível socioeconómico.

A diferença nos índices de literacia financeira associada à abertura de uma conta bancária, depois de contabilizar o estatuto socioeconómico, é maior (72 pontos) na Holanda. Mas os resultados do PISA também mostram que, em média, nos países e economias da OCDE, quase dois em cada três dos estudantes que têm uma conta bancária não têm capacidade para gerir essa conta e não podem interpretar um extrato bancário, ou seja, obtêm uma pontuação abaixo do nível 4.

A OCDE relembra a importância dos pais para ajudar os filhos a adquirirem e desenvolverem os valores, atitudes, hábitos, conhecimentos e comportamentos que contribuam para a sua independência e bem-estar financeiro.

Discutir questões de dinheiro com os pais, pelo menos às vezes, está associado a maior literacia financeira do que nunca discutir o assunto. Isto verifica-se em 10 de 13 países e economias com dados disponíveis. Do mesmo modo, a literacia financeira, por sua vez, está associada ao comportamento orientado para a poupança individual dos alunos e às suas aspirações para o futuro.

Por exemplo, em média, em todos os países da OCDE, os alunos que pontuam no nível 4 ou 5 em literacia financeira estão mais predispostos (têm três vezes mais probalidade) para poupar dinheiro para comprar um produto para o qual ainda não têm dinheiro suficiente, do que os alunos com a mesma capacidade ao nível da matemática e da leitura mas que pontuam em literacia financeira abaixo do nível 1.

Ou seja, os alunos de nível 4 ou 5 relatam mais do que os de nível 1 que preferem poupar e adiar a compra, até reunir o montante, a comprar o produto “de qualquer maneira”, seja pedindo dinheiro emprestado a amigos ou à família.

Um outro indicador mostra ainda que a probabilidade de os alunos com melhores resultados em literacia financeira completarem o Ensino Superior é duas vezes superior à dos alunos com piores resultados, ainda que os resultados a matemática e a leitura sejam semelhantes nos dois grupos.

As conclusões presentes neste relatório mostram aos responsáveis políticos dos países e economias da OCDE, segundo Gurría, como “se torna ainda mais importante intensificarmos os nossos esforços globais para ajudar a melhorar a habilidade vital essencial da alfabetização financeira”.

O secretário-geral da OCDE recorda ainda as conclusões do relatório (Garantir a Educação Financeira e a Proteção ao Consumidor para Todos na Era Digital), para concluir que “a alfabetização financeira é também fundamental para a gestão das oportunidades e dos riscos de uma digitalização rápida que colocou os serviços financeiros, literalmente, ao nosso alcance

 

 

 

“O problema são as mini-baleias azuis. E são milhões e milhões”

Junho 13, 2017 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista do https://www.noticiasaominuto.com/ a Daniel Cotrim no dia 22 de maio de 2017.

POR Goreti Pera

Daniel Cotrim, psicólogo clínico na Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV), considera que “qualquer adolescente pode entrar” num jogo como a Baleia Azul, movido pelo “desafio, aventura e risco”. Há, por isso, um papel importante que deve ser assumido pelos pais e uma preocupação acrescida que vai além do fenómeno atual: “O problema são as baleias azuis mais pequeninas, mais insidiosas, que se baseiam nas grandes”, alerta, em entrevista ao Notícias ao Minuto.

Surgiu numa rede social russa e proliferou pelo mundo. O jogo Baleia Azul, que convida os jogadores a cumprir 50 desafios que culminam no suicídio, fez até ao momento cerca de uma centena de vítimas mortais, uma delas em Portugal.

Há também relatos de várias vítimas e a preocupação pelos contornos de que o jogo se revestiu é assumida pelas autoridades de diversos países.

O Notícias ao Minuto conversou com Daniel Cotrim, psicólogo-clínico, sobre o que pode motivar um adolescente a ligar-se ao ‘jogo da morte’ e sobre os sinais a que os países e a comunidade escolar devem estar atentos.

O que leva um adolescente a jogar um jogo como a Baleia Azul?

Quando se fala de adolescentes, temos de ter em conta os sentimentos de descoberta, a ideia de revolta, de desafio. Juntamente com isto há sentimentos de alguma vulnerabilidade, de fragilidade e isolamento social, que é também provocado pela vivência do próprio adolescente em relação ao resto do mundo. O que faz um adolescente ir para um jogo destes é o facto de, apesar de ser perverso e nefasto, pegar pelo lado do desafio, aventura e risco, características associadas à adolescência. O mais perverso neste jogo é ter como destinatários os jovens que se encontram mais fragilizados e sozinhos, que podem ter problemas emocionais e que estão mais disponíveis para corresponder a este tipo de solicitações.

Os adolescentes, ainda que vivam numa fase conturbada da vida, têm noção dos limites? Quando entram neste jogo, saberão que culmina no suicídio…

Temos que pensar que os adolescentes querem o desfio, mesmo quando o desafio pede coisas estranhas e horríveis e que podem culminar no suicídio. O que o adolescente pensa sempre é que não vai fazer isso, que é mais forte e é capaz de não chegar a esse ponto, que vai dizer que ‘não’ quando não quiser mais. “Se pedirem para me matar, eu não me mato”, pensará.

A grande questão é que quem está do outro lado [o administrador do jogo] é uma pessoa altamente manipuladora e que consegue ter acesso a um conjunto de dados pessoais que o jovem disponibilizou na rede (por exemplo, dados de acesso à sua conta no Facebook, onde tem os amigos, a escola, os hobbies…). Essa pessoa – perversa e com alguma pensamento psicopático – consegue perceber qual é o perfil do jovem jogador e a partir daí começa a ameaça: “Se não fizeres isto, eu vou à tua casa, vou matar a tua namorada…”. O medo pode, por isso, levar o jovem a sentir-se coagido a continuar a jogar, mesmo quando quer sair.

Tem mais probabilidade de entrar num jogo como a Baleia Azul um adolescente instável e sem uma retaguarda familiar consistente ou qualquer adolescente pode entrar, sendo que a instabilidade surge depois, devido à manipulação?

Acho que qualquer jovem pode entrar, pelas características da própria adolescência. Esse é o mito que nós associamos a estas coisas. É claro que um jovem mais vulnerável e emocionalmente fragilizado é menos capaz de rejeitar os desafios, de ver um filme de terror às 4h30 da manhã, de ir para a linha do comboio ou de deixar de falar com a família. Mas não podemos esquecer que existe alguém do outro lado a manipular as emoções das pessoas.

Um jovem que nunca tenha tido tendências depressivas ou suicidas consegue acabar com a vida fruto desta manipulação?

Acho que sim, acho que é claramente possível pelo conjunto de pressão que lhe é exercida. Há relato de centenas de mortes no mundo inteiro. À partida, 90% dos jovens não tem tendências depressivas, mas se esta pressão é exercida de forma muito forte e manipuladora, com acesso real à vida privada, pode levar um jovem ou adulto a cometer o suicídio. É aqui que entra o papel da família. Compete aos pais controlar os acessos dos filhos à internet e perceber que páginas visitam. Não é fazê-lo às escondidas (isso é desrespeitar o adolescente), mas fazê-lo na presença dele. O ideal é fazê-lo de uma forma benéfica, levando o adolescente a perceber que é normal a família estar preocupada e que está lá a servir-lhe de retaguarda caso haja alguma coisa que ele não entenda.

Os jovens têm sempre muitas coisas para dizer aos pais. A grande questão é que muitas vezes os pais não têm disponibilidade e não querem ouvir o que o jovem tem para lhes dizer, porque acham que a sua missão é só alimentar e vestir. Os pais não têm de esperar que o filho lhes conte os seus segredos, mas têm de lhe dizer que, aconteça o que acontecer, estarão sempre ali e nunca o abandonarão. Assim, quando acontecer uma crise, o filho saberá que os pais estão ao seu lado.

O facto de o jovem saber que os seus acessos à internet são controlados pelos pais pode levá-lo a esconder o que lhes convier, apagando parte do histórico de navegação, por exemplo?

Depende, porque há uma diferença entre controlar e ser autoritário. Se eu for autoritário no meu controlo, se vir às escondidas e não respeitar, o adolescente vai apagar de certeza absoluta. Porém, se o meu controlo for exercido de uma forma afetiva, se for algo partilhado entre os dois, isso já não vai acontecer. A grande questão é que, no que diz respeito à internet e às redes sociais, os pais não se querem chatear, não se querem envolver. E não é por não saberem, porque eles próprios às vezes têm redes sociais. Há uma cultura de há uns anos para cá de permissividade, em que se deixa fazer tudo. Os pais não gostam de se zangar nem de dizer não. E nós temos de pensar de forma contrária: temos de nos zangar quando é momento para nos zangarmos e temos de sermos capazes de dizer não.

Qual será o perfil do criador de um jogo deste tipo e que motivações terá?

Diria que deve ser um individuo altamente perverso e manipulador, com traços muito grandes de psicopatia e sociopatia. Será definitivamente mais velho do que os adolescentes, porque um adolescente por si só não teria a capacidade para montar toda esta máquina. Quanto às motivações, creio que é ver até que ponto tem poder para ver o outro autodestruir-se. Infelizmente, há muitas pessoas assim. Há aqueles que matam 10 ou 20 pessoas e há outros que se escondem e que tentam manipular as pessoas ao ponto de estas tirarem a própria vida.

Quais são os sinais de alerta a que os familiares devem estar atentos?

Sempre que os pais percebam que há uma mudança de comportamento drástica nos seus filhos (ter sentimentos de ansiedade ou medo muito vivos, ter pesadelos contínuos ou não conseguir dormir), que estão muito cansados, que escondem o telemóvel, que ficam assustados quando se aproximam do seu computador ou que usam mangas compridas no tempo quente, deverão estar alerta e falar abertamente com os filhos. Devem mostrar-lhes que podem e devem confiar nos pais. Se algum destes sinais estiver manifestamente associado à Baleia Azul, o primeiro conselho é não castigar, não ralhar, não culpar. O segundo é denunciar o caso o mais depressa possível às autoridades, procurar um profissional da saúde mental (como o psicólogo) e não tratar o filho como um doente mental, porque não é um doente mental, é vítima de um crime grave.

As escolas têm também um papel importante na deteção de casos e na prevenção?

Têm sim, sobretudo na prevenção dos casos. Era importante nas escolas falar-se sobre segurança na internet, haver ações de sensibilização dadas por exemplo pela polícia, não numa abordagem policial mas educacional. A escola também é importante para detetar sinais. Se o professor perceber que um aluno começou a usar mangas compridas em pleno junho e que não quer fazer ginástica para não se despir, tem que falar com os pais ou com a Comissão de Proteção de Crianças e Jovens.

Deve falar-se com os jovens sobre suicídio? O tema é, de certa forma, um tabu.Deve falar-se claramente sobre suicídio, até porque os jovens falam disso entre si, muitas vezes de forma muito pouco esclarecida. É normal um pensamento sobre suicídio surgir. É importante haver psicólogos nas escolas preparados para lidar com estas questões (e não é ter dois psicólogos para cinco mil alunos). A sensação que tenho é que está a haver alguma alteração em certos conteúdos letivos e uma resolução nos conteúdos mais ligados às questões humanas.

Como é que vê o papel a comunicação social perante esta situação?

Vejo bem no sentido em que espoletou a atenção para um assunto que de outra maneira ninguém teria conhecido. Mas, por outro lado, é preciso ter cuidado na informação que se passa para ser uma influenciadora de bons comportamentos nas famílias. Tentar perceber como é que as famílias devem reagir é um bom papel da comunicação, mas quando são dadas continuamente notícias de mais vítimas não se presta um bom serviço ao país. Além disso, identificar as vítimas (nome, morada) é errado, as pessoas têm direito à sua privacidade.

De que forma os pais devem reagir perante as notícias que têm vindo a ser difundidas?

O papel dos pais, nesta situação, é explicar os filhos quais são os efeitos destas coisas e explicar que nós próprios não entendemos como é que elas surgem. E há que ter em conta que o problema não são estes grandes fenómenos que aparecem e depois acabam, o problema são as baleias azuis mais pequeninas, mais insidiosas, que se baseiam nas grandes. Vou dar como exemplo um grupo de amigos em que todos têm WhatsApp e que podem começar a fazer este tipo de desafios: “Escreve na tua mão a palavra XPTO. Se não escreveres e mandares fotografia para o grupo, vamos dizer na escola que és um cobarde”. Por isso, o pior de tudo não é a Baleia Azul em si, são as mini-baleias azuis que podem advir daqui. E são milhões e milhões.

És Adolescente? Tens dúvidas? Consulta GRATUITA do Adolescente na APAMCM em Lisboa

Junho 9, 2017 às 6:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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https://www.facebook.com/APAMCM/

 

Oito métodos para uma internet mais segura

Junho 8, 2017 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto da http://www.paisefilhos.pt/ de 25 de maio de 2017.

Family with laptop in bed. Mother and child with computer at home

As recentes notícias sobre o jogo “Baleia Azul” – cuja consequência mais grave é poder levar os jovens participantes ao suicídio – são apenas o último “susto” que os pais de crianças e jovens têm vindo a experimentar no que diz respeito à forma como os filhos agem online. Há muito que medos relacionados com a exposição a conteúdos pornográficos, ciberbullying ou a atuação de predadores sexuais na internet fazem parte do quotidiano dos adultos. Há por isso que adotar estratégias que, ao mesmo tempo que reconhecem a omnipresença do mundo virtual na vida dos mais novos, promovem uma maior segurança.

Recentemente, a especialista britânica Katharine Hill lançou um livro com o título “Left To Their Own Devices?” (“Deixados à solta?”, em tradução livre), onde não só identifica algumas das situações a que pais, avós e adultos de referência devem estar atentos, como identifica oito métodos para promover o uso da internet de uma forma mais segura em meio familiar.

 1 – Não proibir a tecnologia

“Não é produtivo impedir as crianças de terem acesso à tecnologia. Eventualmente, haverá um amigo ou colega que tem um tablet ou um smartphone e as imagens e conteúdos vão chegar. Trata-se, antes de mais, de aprender a distinguir o certo do errado”.

 2 – Não deixar que os ecrãs dominem o quotidiano

“Enquanto pais ou avós, há que evitar que a vida seja passada à frente dos ecrãs, começando por dar o exemplo. Há que falar sobre o tempo que é gasto e que poderia ser perfeitamente utilizado para outras atividades de lazer. E, se for necessário, estabelecer regras de utilização adaptadas às diferentes idades das crianças e adolescentes”.

 3 – Criar um “acordo familiar tecnológico”

“Uma das coisas mais importantes que os pais podem fazer é usar os valores familiares no uso da tecnologia. Por exemplo, criar um ‘acordo tecnológico’ que estabeleça claramente o que as crianças estão autorizadas a fazer, o que é de evitar e o que não podem mesmo fazer e basear essas escolhas nos princípios que regem a vida da família”.

 4 – Deixar os equipamentos a carregar for a do quarto

“Uma parte importante desse ‘acordo tecnológico’ é estabelecer que os carregamentos dos aparelhos são feitos, durante a noite, fora dos quartos. Isto é o equivalente a impedir o acesso à internet durante essas horas. Mas, atenção: mais uma vez, todos os membros da família devem respeitar essas ‘horas sem net”, tanto crianças como adultos”.

 5 – Usar os sistemas de controlo parental

“No Reino Unido, a idade média em que as crianças têm acesso aos primeiros conteúdos pornográficos é aos 11 anos. Daí ser extremamente importante usar os sistemas de controlo parental nos sites e smartphones. Não se trata de impedir acesso à informação e conteúdos positivos, mas sim gerir e bloquear conteúdos impróprios”.

 6 – Estar envolvido na “vida online” dos mais novos

“No caso dos adolescentes, não há que hesitar: os adultos devem fazer parte das suas redes sociais e segui-los atentamente. Mas nunca de uma forma que pareça controladora, antes mostrando envolvimento positivo. Por exemplo, tirar uma foto de uma atividade em família e postá-la conjuntamente no Instagram”.

 7 – Estar informado e preparado para falar

“Não se pode enterrar a cabeça na areia e evitar falar de assuntos difíceis. Os pais podem pensar algo como ‘o meu filho não vê pornografia’ ou ‘nunca será uma vítima da Baleia Azul’, mas isso está longe de ser uma certeza. Daí ser importante os adultos manterem-se a par dos desenvolvimentos, bons e maus da tecnologia, para que as crianças saibam que podem falar abertamente sobre estes temas e serem compreendidas”.

8 – Limitar o uso adulto dos ecrãs

“Mais uma vez repito que é essencial ensinar pelo exemplo. Os valores transmitem-se, não se impõem. Se nos momentos em família, durante as brincadeiras ou às refeições, os adultos não largam os ecrãs, nada mais natural que as crianças e jovens façam o mesmo. Há que mostrar que o pai e a mãe sabem limitar o uso, em vez de lhes exigir que o façam apenas porque são os mais novos”.

 

 

 

Jovens consomem muitas bebidas energéticas, apesar dos efeitos adversos

Junho 7, 2017 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.publico.pt/ de 5 de junho de 2017.

O estudo citado na notícia é o seguinte:

Bebidas Energéticas: Qual a Realidade na Adolescência? / Liliana Branco… [et al].- Acta Pediátrica Portuguesa, v. 48, n. 2 (2017), p. 109-117

A obtenção de mais energia e de diversão por toda a noite foram os principais objectivos mencionados para o consumo de bebidas energéticas.

Lusa

Um estudo que envolveu centenas de adolescentes portugueses detectou uma elevada ingestão de bebidas energéticas, isolada ou associada ao álcool, apesar de este consumo não ser recomendado para esta idade devido aos seus potenciais efeitos adversos.

Publicado na edição de Abril/Junho da Acta Pediátrica Portuguesa, a revista oficial da Sociedade Portuguesa de Pediatria (SPP), o estudo Bebidas Energéticas: Qual a realidade na adolescência? foi elaborado por pediatras do Hospital da Senhora da Oliveira (Guimarães) e do Centro Hospitalar de São João (Porto).

Com base em respostas de 704 adolescentes, com idades compreendidas entre os 14 e os 19 anos, o estudo apurou que 76% já tinham experimentado bebidas energéticas, tendo a primeira ingestão ocorrido entre os 12 e os 15 anos em 85% dos casos.

Estas bebidas pertencem a um grupo de bebidas não alcoólicas com um elevado teor de cafeína e às quais são adicionadas outras substâncias, nomeadamente hidratos de carbono (glucoronolactona, dextrose, sacarose), aminoácidos (taurina), vitaminas (B riboflavina, piridoxina, L-carnitina) e extractos de plantas (ginseng, guaraná).

Entre os vários efeitos adversos destas bebidas estão a taquicardia, agitação, cefaleia, insónia, desidratação, tonturas, ansiedade, irritabilidade, tremores, aumento da tensão arterial e distúrbios gastrointestinais.

Alerta da OMS

Com o aumento da dose, os sintomas podem ter maior gravidade: convulsões, hemorragias, arritmias ou alucinações, “podendo mesmo levar à morte”, lê-se no artigo que cita vários artigos científicos já publicados sobre esta matéria. A crescente popularidade destas bebidas entre os adolescentes levou mesmo algumas organizações, como a Organização Mundial da Saúde (OMS) a alertar para os seus efeitos prejudiciais e a recomendar que estas não sejam consumidas por crianças e adolescentes.

Em Portugal, existem poucos estudos relativos a esta temática que evidenciem a verdadeira realidade do consumo de bebidas energéticas na população dos adolescentes, pelo que este trabalho pretende caracterizar o seu padrão de consumo.

As respostas obtidas neste inquérito permitiram apurar que 63% dos adolescentes inquiridos ingeriram pelo menos uma bebida energética no último ano e que 74% as ingeriram durante as noites de fim-de-semana, com um consumo foi mais elevado por parte do género masculino.

A obtenção de mais energia (44%) e de diversão por toda a noite (34%) foram os principais objectivos mencionados para o consumo de bebidas energéticas, os quais mudam consoante o género. Os rapazes pretendem obter mais energia e melhorar o desempenho físico e as raparigas são movidas pela curiosidade.

A maioria (53%) não referiu qualquer efeito após o consumo de bebidas energéticas e, dos que referiram efeitos, os mais frequentes foram a obtenção de mais energia (21%) e o aumento da concentração (9%) no género masculino e a sensação de alegria (11%) no género feminino. Nenhum adolescente teve necessidade de recorrer a cuidados médicos. Em 59% dos consumidores foi observado o consumo associado de bebidas energéticas com álcool. A maioria (85%) associou esta bebida a vodka.

“Os objectivos predominantes para este tipo de consumo foram melhorar o sabor das bebidas alcoólicas (76%) e prolongar a diversão (37%), não se tendo verificado diferenças entre os géneros em nenhum dos objectivos”, lê-se no artigo.

Os autores do estudo apontam o grande marketing imposto pelas diversas empresas em áreas atractivas para os adolescentes, que tem como principal público-alvo os jovens do género masculino como “uma das prováveis razões para esta maior ingestão” de bebidas energéticas. Por outro lado, prosseguem, “a falta de regulamentação relativamente à comercialização das bebidas energéticas torna-as de fácil acesso, sem restrições legais à sua venda, tal como foi observado neste estudo, em que a maioria dos consumidores referiu já ter alguma vez comprado uma bebida energética”.

Perante “a elevada ingestão de bebidas energéticas detectada nos adolescentes deste estudo”, os autores consideram essencial “aumentar a consciencialização das crianças, adolescentes, encarregados de educação, professores e sociedade no geral para este tipo de consumo e os seus riscos”.

 

 

 

O que precisam as raparigas de saber para crescerem seguras e independentes

Maio 19, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do http://lifestyle.publico.pt/ de 10 de maio de 2017.

Steve Biddulph é um psicólogo australiano que escreve sobre as diferenças entre rapazes e raparigas.

Como é que os pais podem garantir que as suas filhas se tornam mulheres fortes, independentes e confiantes? O australiano Steve Biddulph, perito em educação e psicólogo infantil, escreveu o livro 10 Things Girls Need Most to Grow up Strong and Free (“As 10 coisas de que as raparigas mais precisam para crescerem fortes e livres”). De acordo com este australiano, estas dez coisas são: um início de vida seguro e com amor, tempo para ser criança, competências para as amizades, o respeito e amor de um pai, uma faísca, tias, uma sexualidade feliz e saudável, coragem, feminismo e espírito.

Quando estava a decidir quais eram os dez componentes, Biddulph reflectiu sobre os aspectos que, segundo os estudos, reforçam o desenvolvimento das raparigas e falou com mulheres sobre aquilo que sentiam que tinha prejudicado a sua infância e o seu desenvolvimento.

Biddulph aconselha os pais a livrarem-se das “pressões mediáticas loucas sobre a aparência” e a não transmitirem nenhum dos seus problemas e inseguranças com o corpo em frente às filhas. Do mesmo modo, enfatiza a importância de ter modelos femininos fortes, incluindo tias, tal como a necessidade de falar sobre sexo de forma positiva, ao mesmo tempo que se enfatiza que a rapariga, e mais ninguém, é dona do seu corpo.

No livro, Biddulph explica que muitos dos problemas individuais das raparigas e das mulheres não são de todo individuais. Muitas vezes, eles resultam das forças, pressões, desigualdades, estigmas e abusos que afectam as mulheres ao longo dos anos. É por isso que o feminismo é apresentado como um dos dez componentes para educar uma rapariga forte. “O feminismo é importante porque muitas vezes uma rapariga individualiza,” explica o psicólogo ao jornal britânico The Independent.  “Descobrir que esta luta decorre há mais de um século em todas as partes do mundo e que não é só ela melhora a saúde mental, porque nos deixa zangados em vez de assustados ou inseguros. Sentimo-nos parte de algo maior.”

Antes deste livro, o australiano já tinha escrito outros dois, um sobre cada género, porque defende que não é igual educar um rapaz e uma rapariga. Assim, os seus bestsellers anteriores chamam-se Educar Rapazes e Educar Raparigas. Mas, um dia, Biddulph espera que as diferenças desapareçam.

Alguns dos conteúdos deste novo livro podem aplicar-se aos rapazes, mas, salvaguarda o especialista, são elas que têm maior propensão para sofrer de ansiedade, depressão e distúrbios alimentares. “Os rapazes têm mais probabilidade, em termos estatísticos, de morrer, de ser violentos ou de acabar na prisão”, acrescenta.

“A pressa é inimiga do amor”

“Desde bebés, as pessoas não têm tempo para estar em paz e estar perto da família”, explica o autor. “Não protegemos nem tomamos conta dos jovens pais, de forma a que eles consigam ser pais. Os governos neoconservadores querem que toda a gente faça parte do mercado de trabalho e fazem-nos sentir que ser pai é uma actividade inferior… eu defendo que ‘a pressa é inimiga do amor’ e que o nosso reflexo para estar ocupado se descontrolou. Somos um animal de manada e é difícil remar contra a maré, mas as pessoas começam a fazer essa escolha. Quando as pessoas estão ocupadas, as ligações enfraquecem, as crianças não nos contam os seus problemas, as mães e os pais começam a ficar tensos e infelizes devido à falta de paz e de intimidade e as crianças são geridas e tratadas como uma manada, em vez de serem realmente cuidadas e acarinhadas. Acontece o mesmo na escola, quando os professores em todo o mundo me dizem que não têm tempo para se preocupar.”

O resultado é que as crianças crescem no meio do stress e com inúmeras pressões, como ser o melhor na escola. Segundo o especialista, no Reino Unido, uma em cada cinco crianças foram diagnosticadas com ansiedade; e uma em cada três automutila-se.

 

 

 

Eduardo Sá: “As crianças saudáveis também ficam tristes”

Maio 18, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista do http://observador.pt/ a Eduardo Sá no dia 10 de maio de 2017.

Eduardo Sá respondeu às perguntas mais complicadas. Desmistificou a Baleia Azul, criticou a forma como a escola está organizada e pediu aos pais mão dura quando ela é necessária. Leia a entrevista.

 Eduardo Sá, psicólogo, professor, 55 anos, cinco filhos. Esteve na redação do Observador esta manhã numa entrevista coletiva, transmitida em direto, e onde também houve lugar às perguntas dos leitores. Foi esclarecedor, foi provocador, foi polémico. E falou de muita coisa. Desde a Baleia Azul, passando pelas vacinas, educação e dando dicas e truques sobre a difícil temática: como conseguir lidar com os adolescentes?

 Fala muito de pais e filhos. De certeza que há imensos pais e mães pelo país inteiro que costumam lê-lo e ouvi-lo e aposto que eles têm uma pergunta sempre atrás da orelha: “Será que ele consegue ser o pai que diz que nós devemos ser?”
Eu costumo dizer que os bons pais, e sublinhe-se bons, têm três qualidades ou três defeitos consoante a perspetiva que queiram colocar. Têm, invariavelmente, coração grande. Têm a cabeça quente, o que significa que as boas pessoas têm obrigatoriamente mau feitio e falam de mais. E, portanto, numa circunstância dessas, mal seria que eu achasse que deveria ser bacteorologicamente puro. Aliás, eu devo dizer que era engraçadíssimo que, um dia, um jornal como este fizesse uma campanha para transformar o lado esganiçado das mães em património da humanidade, porque eu acho lindíssimo, acho do mais bonito e comovente que existe, quando uma mãe faz aquelas reações acaloradas, fúria de mãe, que culmina sempre com duas pérolas: “Qualquer dia vou-me embora desta casa e vocês vão ver” ou “Não fales assim que sou tua mãe”, que faz com que os filhos fiquem estranhamente tranquilos, porque os filhos balizam-se pelos mesmos indicadores que os pais em relação a eles. Quando um filho sente que uma mãe está estranhamente calada é porque está doente e quando assume aquela postura acalorada que só as mães com um coração muito grandes são capazes de ter, começam: “Pronto, ela está no seu melhor”. Eu penso que os pais por dentro não são diferentes.

Portanto, também se irrita, lá em casa?
Mal seria se não o fizesse.

Tem um bebé de 17 meses… Tem uma diferença muito grande para os outros quatro, não é? Como é que é ter agora um bebé em casa? Vai ser um pai completamente diferente? Pensou muito sobre o assunto?
Não. Eu acho, aliás, que devia ser proibido pensarmos demais quando somos pais. Mas vou ser diferente. Tenho a ideia que num primeiro filho nós somos sempre piores pais. E isto vale para todos, acho eu.

É bastante provável, sim…
Portanto, os nossos primeiros filhos deviam ser sempre considerados crianças em perigoso porque nós, às vezes, lemos demais, às vezes queremos que eles se comportem de acordo com um conjunto de regras que depois têm muito a ver com a nossa história. Nós queremos sempre que um primeiro filho cicatrize muitas experiências da nossa vida. E, portanto, temos um bocadinho a ideia de que, num primeiro filho, acima de tudo, queremos ser melhores do que os pais que nós tivemos, queremos, de preferência não repetir os erros que eles foram repetindo, por mais que nós imaginássemos que eles estavam distraídos e, por ventura, até nem estariam. Queremos que eles peguem os sonhos que nós deixámos mais ou menos pelo caminho. E isto, num primeiro filho, é uma coisa terrível. Qual é a vantagem de um primeiro filho? O álbum do bebé tem as fotografias todas.

Verdade.
E, portanto, à medida que nós vamos sendo pais, vamo-nos reconciliando com o equipamento base com que todos nós lidamos e que muitas vezes desprezamos. Nós temos um sexto sentido absolutamente magnífico. As mães, não é publicidade enganosa, passam a vida a dizer que têm um dedo que adivinha. Só as mães é que descobrem os pacotes de leite debaixo das almofadas do sofá. E, portanto, este lado, que eu acho que é muito bonito, só se vai desenvolvendo à medida que vamos deixando de querer ser bons pais. E eu acho que às vezes, esta exigência de sermos bons pais estraga toda esta capacidade que nós temos para sermos pais, só pais.

Há uma questão preocupante, que temos visto nas últimas semanas, que é a da Baleia Azul. Acha que todas as crianças ou jovens estão sujeitos ao mesmo risco ou só aqueles que são mais problemáticos, à partida é que estão mais expostos?
Tenho medo de algum discurso público sobre os adolescentes, porque tenho medo que, às vezes, seja um bocadinho invejoso. É inacreditável que quando nós falamos dos adolescentes, falamos de riscos, de perigos, e, invariavelmente, esquecemo-nos das mais-valias incalculáveis que eles têm. E, portanto, é muito importante que nós possamos deixar claro para os pais que não há como um adolescente passar a ser um adolescente auto-mutilado, à conta de um jogo. Não vale a pena. Mas isto deve colocar-nos com uma discussão dura em cima da mesa, isto é, continuo a achar que devia ser proibido os pais terem programas espiões dentro dos computadores dos filhos. É batota. Mas acho que os pais são a verdadeira entidade reguladora da vida dos filhos e, portanto, não consigo compreender porque é que os pais se encolhem quando se trata de saber quais são os sites pelos quais os filhos andam a passear, quais são os amigos virtuais que têm, quais são os jogos por onde passam, etc. Não me choca que os pais façam isso na presença dos filhos, fazendo o uso da sua autoridade que é calma, uma autoridade que advém da sabedoria e da bondade dos próprios pais. E, portanto, tenho medo que se tenha falado tudo isto com tanto bruaá, que eu acho inquietante, mas às vezes não consigo perceber outras inquietações que deviam ser igualmente importantes. Há muitos mais adolescentes que entram nas redes sociais e que, de repente, de fotografia em fotografia, estão a tirar a roupa para alguém que está do outro lado. E, quando a determinada altura decidem parar, são advertidos, são ameaçados e as represálias em relação aos seus próprios pais são mais que muitas. Em termos de dimensão, é incomparavelmente superior em relação àquilo que se passa com a Baleia Azul e é uma rede que, de uma forma incompreensível para mim, tem merecido um silêncio que não consigo entender.

Mas, nesse caso, a polícia até já fez um vídeo para avisar os jovens e os pais. O que eu lhe queria perguntar era se está toda a gente sujeita ao mesmo risco?
Não, como é evidente. Não, por favor.

Ou até um jovem que parece mais equilibrado…
Quando vê aqueles filmes de época, em plena segunda guerra, vê o modo como muitas pessoas que estavam sob tortura induziam uma dor aguda de forma a calarem uma dor que, obviamente, a tortura infligia. Portanto, vamos ser claros: a esmagadora maioria dos jovens é incomparavelmente saudável e, comparados com os pais, seguramente mais saudáveis, por uma razão simples: porque os pais têm feito até um bom trabalho. Não vale a pena, no entanto, nós termos a ideia de que todos os adolescentes são saudáveis. Há adolescentes que são de facto muito doentes e que, às vezes, quando entram nesta vertigem, claro que estão à procura de uma dor, mutilam-se para sossegar, como é evidente, e silenciar, quando mais não seja, transitoriamente, uma dor que é muito mais intensa e muito mais regular na vida deles.

E o facto de isto se ter tornado uma onde louca nos meios de comunicação social…
Devia ser proibido.

Acha que isto leva a que haja mais curiosidade ainda e que possa levar a mais casos?
A prova de que talvez a comunicação social não esteja tão sintonizada com os adolescentes são as manchetes sobre manchetes que isto tem dado. A comunicação social, curiosamente, tem uma atitude, uma discrição exemplar em relação aos números de suicídios que vão acontecendo, porque a própria comunicação social tem a noção de que às vezes desencadeia um efeito dominó, que é francamente prejudicial, sobretudo naqueles adultos ou naqueles adolescentes que estão naquele registo quase impulsivo: “Faço ou não faço?”. É evidente que tudo isto fez com que muitos adolescentes, que nem sequer sabiam da existência do Baleia Azul, tenham lá ido ver. Não acho que isto seja razoável ou, pelo menos, é escorregadio. Mas sejamos razoáveis. Tomando em consideração o modo autogestacionário como muitos adolescentes circulam na internet, a percentagem de adolescentes que resvalam para o perigo é absolutamente mínima, tomada em consideração a distração dos pais em relação a isso.

ler o resto da entrevista no link:

http://observador.pt/especiais/eduardo-sa-as-criancas-saudaveis-tambem-ficam-tristes-a-tristeza-e-o-melhor-ansiolitico-do-mundo/

 

Portugal é um dos cinco países com mais adolescentes obesos

Maio 17, 2017 às 1:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança, Relatório | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.publico.pt/ de 17 de maio de 2017.

Relatório da OMS analisa 27 países e regiões. É apresentado nesta quarta-feira no Porto. Mostra que entre 2002 e 2014 o país estagnou no combate a esta doença. Consumo de vegetais é insuficiente e o de fruta é positivo, mas caiu muito nos últimos 12 anos.

Romana Borja-Santos

A luta contra a obesidade em Portugal não está a ter resultados significativos entre os mais novos. Em 2002 os dados não eram animadores e 12 anos depois o cenário continuava bastante preocupante: os adolescentes portugueses estão entre os mais obesos da Europa. Só a Grécia, a Macedónia, a Eslovénia e a Croácia apresentam valores mais negativos, revela um relatório da Organização Mundial de Saúde (OMS), que será apresentado nesta quarta-feira no Congresso Europeu de Obesidade, no Porto, e que compara 27 países e regiões.

O documento Adolescent obesity and related behaviours: trends and inequalities in the WHO European Region, 2002-2014, aponta para que a prevalência da obesidade em Portugal, nos adolescentes aos 11, aos 13 e aos 15 anos, seja de 5%. Este número representa uma subida de 0,3 pontos percentuais desde 2002, quando o objectivo era travar esta doença. O valor mais elevado na região europeia é registado na Grécia, com 6,5% de adolescentes obesos. No caso de Portugal, a contribuir para este resultado estão sobretudo os rapazes, com 6,9%. Já as raparigas registam um valor de 3%.

“Os níveis de obesidade nos adolescentes são preocupantes, associados a uma má alimentação, pouca actividade física e comportamentos sedentários”, sintetiza ao PÚBLICO a investigadora Margarida Gaspar de Matos, que coordena a parte portuguesa do trabalho da OMS.

A psicóloga da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa lembra que “a obesidade está associada a problemas de saúde no futuro”, dando como exemplo a diabetes, mas também problemas cardiovasculares, respiratórios ou até de sono e mentais. “Quanto mais cedo a obesidade se instala mais difícil é combatê-la e mais se acumulam os efeitos prejudiciais para a saúde física, mental e social”, reitera.

“É necessária uma acção política ambiciosa para atingir o Objectivo de Desenvolvimento Sustentável de travar o aumento da obesidade infantil. Os governos devem direccionar esforços e quebrar este ciclo prejudicial da infância para a adolescência e para o futuro”, reforça a directora regional da OMS para a Europa, Zsuzsanna Jakab, em comunicado.

Também João Breda, coordenador do Programa de Nutrição, Actividade Física e Obesidade da OMS/Europa realça que “a maioria dos jovens não superará a obesidade: cerca de quatro em cada cinco adolescentes que se tornam obesos continuarão a ter problemas de peso na idade adulta”.

Menos fruta

O trabalho da OMS olha também para outros indicadores que podem ajudar a explicar estes resultados, como alguns hábitos alimentares, mas também comportamentos sedentários e pouca actividade física regular. Por exemplo: Portugal não chega a ser dos países onde os adolescentes comem mais fruta diariamente, mas não está longe. O país com melhores resultados é a Bélgica (zona francesa), onde 49,1% dos adolescentes comem fruta todos os dias. Nos portugueses o valor é de 40,9%, mas há uma nuance: o país está entre aqueles onde o consumo de fruta mais caiu entre 2002 e 2014, com uma descida de 6,8 pontos percentuais neste período.

Concretamente sobre a fruta, Margarida Gaspar de Matos lembra que o relatório da OMS não apresenta explicações para estas mudanças, mas a investigadora avança com alguns argumentos. Com a crise económica, diz, comer fruta ficou mais “caro do que um hambúrguer” e são reportados mais casos de crianças que se deitam sem comer por dificuldades económicas em casa. Ainda assim, a psicóloga diz que as escolas têm conseguido ter alguns programas de distribuição de fruta que talvez tenham travado uma descida ainda maior.

A OMS analisa, no documento, a relação entre a obesidade e o contexto socioeconómico em que os adolescentes vivem, percebendo-se que a má alimentação anda de mãos dadas com as dificuldades financeiras. No caso de Portugal, o relatório apenas consegue estabelecer uma relação entre o excesso de peso e o baixo estatuto socioeconómico nos rapazes de 11 anos. Ainda assim, Margarida Gaspar de Matos salienta que é precisamente nesta idade que o país tem o maior pico de obesidade nos adolescentes.

Poucos vegetais

Ainda nos hábitos alimentares, quanto aos vegetais, só 28% dos adolescentes portugueses comem estes produtos diariamente. Os valores mais elevados encontram-se na Bélgica e Ucrânia, onde ultrapassam os 50%. Mesmo assim o valor subiu dois pontos percentuais em Portugal desde 2002. O que é positivo.

Outra boa notícia é que nestes 12 anos registou-se uma queda significativa em Portugal no consumo de produtos como refrigerantes e doces, tanto em rapazes como em raparigas e em todas as faixas etárias.

Margarida Gaspar de Matos lembra que já outro estudo da OMS, Health Behaviour in School-aged Children, publicado no ano passado, e que serve de ponto de partida à avaliação que será divulgada nesta quarta-feira, indicava que os jovens portugueses teciam críticas à qualidade da alimentação das cantinas escolares. A psicóloga sublinha: uma alimentação saudável não implica servir refeições com pouco sabor.

De resto, ainda de acordo com o estudo, os hábitos alimentares e a actividade física vão piorando com a idade, mas é entre os rapazes de 11 anos que se verifica uma maior prevalência de obesidade. Factores relacionados com o crescimento contribuirão também para esse facto, diz.

Entre os 11 e os 15 anos aumentam também alguns comportamentos sedentários, como utilizar a televisão ou o computador mais de duas horas por dia, ainda que se tenha registado uma queda nos últimos anos. O relatório não explica, mas a psicóloga lembra que estes hábitos podem estar a ser substituídos por outros, como o uso de tablets e smartphones– até porque nem por isso a actividade física tem aumentado entre os adolescentes portugueses. Aliás, as raparigas até estão mais sedentárias.

Os dados da OMS levam Margarida Gaspar de Matos a deixar algumas recomendações ao Governo. Mais do que políticas novas, a investigadora apela à continuidade nas medidas e pede uma avaliação dos resultados do que já foi feito – criticando, no entanto, opções como as tomadas pelo então ministro da Educação, Nuno Crato, que desvalorizaram a importância de disciplinas como a Educação Física.

descarregar o documento citado na notícia em baixo:

Adolescent obesity and related behaviours: trends and inequalities in the WHO European Region, 2002–2014

E depois dos ecrãs: que vida pode sobrar?

Maio 11, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do https://www.publico.pt/ de 1 de maio de 2017.

Estamos rodeados de ecrãs e a vida parece caber em meia dúzia de polegadas. Nos transportes públicos, nos restaurantes, em casa. Há quem pense que a utilização febril dos dispositivos conduz afinal a uma nova forma de ignorância.

Inês Chaíça

“Nada é mais significativo e deprimente do que ver numa entrada de uma escola, ou num restaurante popular, ou na rua, pessoas que estão juntas, mas que quase não se falam, e estão atentas ao telemóvel, mandando mensagens, enviando fotografias, vendo a sua página de Facebook, centenas de vezes por dia”, escreveu o colunista José Pacheco Pereira na sua última crónica de 2016 para o PÚBLICO. Nela, define um novo tipo de ignorância: aquele que não está apenas relacionado com a falta de conhecimento pura e dura, mas com a falta de interesse pelo que nos rodeia – e que estaria, em grande parte, relacionada com os dispositivos electrónicos e as redes sociais.

Fala também da falta de capacidade de questionar o mundo e de distinguir a informação certa da falsa. E, pior: porque a informação não-verificada se propaga de forma tão rápida nas redes sociais, Pacheco Pereira define-as como “viveiros de populismos”. Será apenas isso?

Miguel C. Tavares e José Alberto Gomes estiveram em Hong Kong e as imagens que trouxeram parecem ilustrar a crónica de Pacheco Pereira (ainda que não estejam directamente relacionadas). Em cinco minutos, a curta-metragem In Between mostra uma sociedade alheada do que se passa à sua volta e presa aos ecrãs.

Miguel Tavares, formado em arquitectura mas que hoje em dia é realizador freelancer, explicou ao PÚBLICO que não foi para Hong Kong com uma ideia pré-definida – passou lá um mês a misturar-se com a população e com a cidade e a perceber como funcionam as dinâmicas de comunicação. “A ideia surgiu lá, não foi algo pensado”, explica. “É um tema que também me interessa e é bastante actual e pertinente: essa alienação, o facto de cada pessoa viver no seu mundo”. E trouxe para Portugal imagens de pessoas nas suas deslocações quotidianas, mas que não conseguem desligar-se: os olhos estão presos ao ecrã do smartphone e os auriculares não saem dos ouvidos.

Conta que sentiu mais isso em Hong Kong do que em Portugal, “pela própria dinâmica da cidade” e “pelas distâncias que as pessoas percorrem de transportes”, que acabam por atirá-las para o refúgio do telemóvel e das redes sociais. “Em Portugal não há nada parecido”, considera. Talvez nas grandes metrópoles europeias, mas ainda assim com algumas reservas.

As reacções que teve enquanto filmava são sintomáticas dessa diferença entre as sociedades ocidentais e orientais: “Era impossível tentar fazer o mesmo em Portugal. Eles têm um à-vontade muito grande com as fotografias e com as câmaras”. No entanto, salienta uma certa falta de abertura em relação ao outro, uma certa reserva e uma vontade de manter as distâncias – salvaguardando que o choque de culturas pode ser a causa disso.

Miguel C. Tavares já não é novato nas andanças dos festivais de cinema. Com a curta-metragem Sizígia, realizada pelo colectivo Ruptura Silenciosa, do qual fez parte, esteve no Festival Internacional de Cine de Mar del Plata, na Argentina, no Festival Court c’est Court, em Cabrières d’ Avignon, França, e no Indie Lisboa, todos em 2013. A curta-metragem ??? IN BETWEEN ???, filmada em 2016, ainda não se estreou em nenhuma plataforma e é mostrada publicamente agora pela primeira vez.

A “linha da vida” que é o smartphone

Estamos cada vez mais ligados e já quase não sobram dúvidas: o smartphone passou a ser o veículo principal da navegação na Internet a nível global – e os jovens são os seus principais utilizadores. “No Brasil, em três anos, passou-se de 30% de jovens que acediam à Internet pelo smartphone para 85%”, explica Cristina Ponte, investigadora e professora na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (FCSH-UNL) que se especializou nas questões que envolvem crianças e jovens e os media. “Num estudo com 44 jovens universitários angolanos, verificou-se que menos de 10 têm um computador e uma ligação à Internet a partir de casa, por isso é o smartphone que os liga ao mundo”. Em Portugal, ainda há uma grande tradição na utilização do computador porque “os jovens cresceram com os programas do e-escolas e e-escolinhas, que lhes deram acesso a computadores portáteis”, explica a investigadora.

Mas a tendência para a crescente utilização do smartphone é real e começa a ter consequências. Pacheco Pereira, por exemplo, alerta para a alienação quase total dos jovens: “Não há maior punição para um adolescente do que se lhe tirar o telemóvel, e alguns dos conflitos mais graves que ocorrem hoje nas escolas estão ligados ao telemóvel que funciona como uma linha de vida”, escreveu.

Cristina Ponte, professora universitária, confirma que os jovens confiam cada vez mais no smartphone. “Por exemplo, os meus alunos dizem-me muitas vezes que deram uma vista de olhos no texto que mandei para ler no telemóvel, mas isso não dá para nada”. A investigadora diz que há coisas que têm de levar o seu tempo – e ler é uma delas. “Concordo com Pacheco Pereira quando ele diz que o tempo da leitura não é o tempo da imagem em movimento – sobretudo se estas imagens durarem apenas 60 segundos e forem mudas. Há um tempo que pede para ser vivido de forma mais lenta”.

No entanto, salienta que a sensibilidade para os perigos da Internet e dos ecrãs é fruto da cultura familiar e dos processos prévios – e não apenas do facto de se ser jovem, como parece sugerir Pacheco Pereira na passagem citada acima. O espírito crítico nasce de um “ambiente estimulante” criado em casa, diz a investigadora, de jovens que foram incentivados, desde cedo a exprimirem as suas opiniões. “Não podemos ver os jovens e a tecnologia e ignorar os ambientes familiares em que viveram, a educação que tiveram, o facto de terem crescido em condições de liberdade e de acesso a um conjunto diversificado de literatura, cinema, teatro…”, explica a investigadora, acrescentando que todas as pessoas têm recursos diferentes, o que justifica o facto de a tecnologia não actuar em todas as pessoas da mesma forma. Por isso, defende, é perigoso generalizar, como fez Pacheco Pereira.

Activismo político e as redes sociais

“Há jovens que têm a capacidade de ter um espírito crítico e tiram partido das redes sociais, normalmente com um sentido mais activista”, adianta a mesma investigadora. O que explica, em parte, os movimentos activistas (de jovens e não só) nascidos nas redes sociais. Cristina Ponte considera que os telemóveis e as redes sociais facilitam a organização e mobilização em torno de uma causa. Isso ganha mais expressão no caso dos jovens porque “estão sempre na vanguarda das tecnologias, são capazes de se mobilizar e fazer curto-circuito à informação mainstream”.

Ao mesmo tempo, assiste-se a um tempo em que os jovens não parecem ter outra alternativa às redes sociais. Cristina Ponte salienta que na actualidade há alguns espaços que lhes são interditos, e que os obrigam a procurar outras formas de estarem em contacto uns com os outros. A rua, por exemplo, tornou-se num espaço quase proibido e os adolescentes são vistos como arruaceiros se andarem em grupo.

Já Tiago Lapa, investigador do Centro de Estudos de Sociologia do ISCTE-IUL e professor na mesma universidade, salienta o carácter mais tradicional das manifestações de interesses políticos que começam nas redes sociais e que passam para a rua. “Quem usa as redes sociais quer transmitir uma mensagem”, sintetiza. “Os movimentos sociais organizam-se a partir das redes sociais – o que provoca uma certa globalização desses movimentos – mas há que perceber que um dos objectivos dessas mobilizações é, precisamente, aparecer na televisão”, acrescenta o investigador.

Exemplo disso foi a manifestação de 12 de Março de 2011, que ficou conhecida como manifestação da “gração à rasca. Tiago Lapa diz que as redes sociais foram peças centrais nessa manifestação, mas que se “não tivesse sido televisionada, não teria o impacto que teve na percepção das pessoas”.

Já António Guerreiro, ensaísta, crítico literário e cronista, tem uma visão mais céptica sobre a possibilidade de as redes sociais se constituírem como a voz de um movimento político. Conta ao PÚBLICO que, até hoje, “não há uma comunidade política ou um sujeito social constituídos através das redes sociais”. O que não quer dizer, explica, que as redes sociais não produzam efeitos, mas são “de outra ordem”. “As redes sociais são um bom exemplo de um mecanismo hipertélico, algo que vai para além dos seus próprios fins e se anula por isso”, considera.

“Quem não está na rede é como se não existisse”

Se não foi fotografado, comentado ou gravado no Facebook, no YouTube, no Twitter ou no Instagram é porque não aconteceu: é esta a lógica que parece reger a comunicação nas redes sociais. E, segundo Cristina Ponte, é importante pensar nos tipos de vigilância que instaura. Por um lado, a vigilância positiva, o facto de “podermos tirar uma fotografia a algo que achemos injusto”, como descreve a investigadora, e partilhá-lo numa questão de segundos. Por outro, instaura “um tipo de vigilância e controlo, tidos quase como naturais, e que colocam muitas questões de privacidade e reserva”. E, de facto, o que está na Internet não sai da Internet – para o bem e para o mal. O direito ao esquecimento impõe-se como um novo debate político, cujas bases só agora foram lançadas. “É uma batalha política pura que poderá ganhar algum relevo nos próximos anos”, avalia Tiago Lapa.

Parecemos cada vez mais alheados do mundo – mas saltamos de aplicação em aplicação e sabemos exactamente o que cada um dos nossos amigos está a fazer. Como Pacheco Pereira coloca a questão: “quem envia um ping espera um pong”, escreveu o colunista da sua primeira crónica deste ano no PÚBLICO, em que voltou ao tema. “É uma pressão para estarmos constantemente ligados e a responder num tempo vertiginoso”, confirma Cristina Ponte. “[Os novos meios] são quase totalitários. Quem não está na rede é como se não existisse”, afirma a investigadora da FCSH.

Em Portugal são cada vez menos os casos de pessoas que optam por não pertencer ao universo das redes sociais. O número de utilizadores continua a aumentar e isso tem a ver com a “nossa cultura latina”, de querer saber sempre o que os outros estão a fazer. “A cuscar”, como resume a professora.

“A sociedade da transparência, ditada pelos media sociais, retira a distância mas ao fazer isso retira a possibilidade da descoberta e da curiosidade”, explica Tiago Lapa. Dá a falsa impressão de que é possível conhecer e saber tudo sobre uma pessoa, apenas através daquilo que ela escolhe publicar na Internet. “Essa transparência é enganadora e extremamente redutora”, adverte o investigador do CIES, até porque a personagem online é construída e “aquela pessoa tem outra vida, outras máscaras e outros sentimentos, é apenas uma versão de si mesma”.

Contudo, não se trata, necessariamente, de “sociedades sem relações humanas de vizinhança, de companhia e amizade, sem interacções de grupo, sem movimentos colectivos de interesse comum” como avalia Pacheco Pereira. Cristina Ponte afirma, que, pelo menos no caso dos adolescentes, estas dinâmicas sociais não são novas. “É o que faz com que o jovem se sinta integrado”, especialmente no caso das raparigas. Antigamente “eram as cartas, depois as cassetes, os telefones, todo um conjunto de recursos tecnológicos que eram dados aos adolescentes” e que, na essência, não são diferentes dos media sociais.

Alienação e a (aparente) ascensão dos populismos 

Quando se tira o holofote dos jovens e adolescentes e se passa para os adultos, o cenário não sofre grandes alterações. Pacheco Pereira escreve que “não é por acaso que o grande reservatório do populismo político e social nas sociedades ocidentais são as redes sociais, que, não sendo a causa do populismo, são um seu grande factor de crescimento e consolidação”. Será que há necessariamente uma relação entre as duas coisas?

A opinião de Tiago Lapa não é totalmente contrária. Explica que o problema não é exclusivo das redes, mas de um conjunto de condições políticas especiais que “tornam esses discursos atractivos”. As pessoas transmitem as suas opiniões sobre um determinado assunto “utilizando uma ferramenta que têm à mão, que são as redes”. Mas ressalva que tem mais a ver “com os mensageiros do que com os meios” – portanto isto podia acontecer na Internet, na rua ou nas páginas de um jornal. De acordo com o professor do ISCTE, as redes sociais suprimem algumas necessidades de sociabilidade mas “ainda são um meio que temos de aprender a utilizar”. O que falta, muitas vezes, é uma abordagem crítica sobre o que se lê – uma certa desconfiança em relação à fidedignidade e credibilidade das pesquisas online. E para generalizar esse espírito crítico há que aumentar a literacia da população: fazer com que saibam descodificar mensagens e perceber o objectivo do emissor quando escreve e publica nas redes sociais.

Não se trata de uma época com falta de informação. Trata-se, antes, de um contexto em que há “várias informações contraditórias disponíveis” – há demasiada informação e não se sabe em quem acreditar. Em paralelo, houve a deterioração de “um conjunto de autoridades, sendo o jornalista uma delas”. Também neste ponto, Tiago Lapa e Pacheco Pereira estão de acordo.

Discordam apenas na definição de “nova ignorância”. Pacheco Pereira define “este novo tipo de ignorância” como um “ataque ao saber, ao conhecimento certificado, em nome de um igualitarismo da ignorância”. Tiago Lapa tem algumas reservas. A existência de várias fontes de informação não é necessariamente negativa: “Permitem canais alternativos para obter informação fora dos canais mainstream”, diz Tiago Lapa, o que é positivo porque cada pessoa pode fazer a sua dieta informativa própria.

O investigador, por outro lado, não concorda que os ecrãs e as redes sociais por si sejam um meio de alienação, como sugere Pacheco Pereira. A discussão, aliás, já é antiga. “É uma associação muito antiga e que já vem com o cinema, com a televisão, com os grandes meios de comunicação e que agora é associado à Internet”, explica Tiago Lapa. Essa teoria baseia-se num conjunto de pressupostos, como a falta de pensamento crítico e passividade dos consumidores de conteúdos. “Sim, qualquer meio tem potencial de alienação”, admite o professor, “mas há que perceber para que grupo e em que condições”.

António Guerreiro, por sua vez, coloca a questão da alienação noutra perspectiva: “o mundo que nos rodeia não é o das tecnologias, da realidade virtual, das imagens sem referente? Se estamos atentos a esse mundo, estamos atentos ao real porque não existe outro”. Não se trata necessariamente de alienação. Na perspectiva do ensaísta aceitar que existe alienação “seria aceitar uma velha concepção de que estamos mergulhados na ‘ideologia’”, que precisa de ser afastada, “como um véu”, para aceder à verdade.

Para além dos ecrãs, o que existe?

Nem a Organização Mundial de Saúde nem o manual da Associação Americana de Psicologia definem a dependência da Internet como uma doença mental. No entanto, há programas de tratamento para a dependência da Internet, que a equiparam a adições a substâncias como a droga ou o álcool. Daniel Sampaio, psiquiatra responsável pelo Núcleo de Utilização Problemática da Internet do Hospital de Santa Maria, explica ao PÚBLICO que “as pessoas que têm dependências da Internet, do ponto de vista do cérebro, não são muito diferentes das que são dependentes das drogas ou do álcool”: “Tem a ver com a diminuição da ansiedade”, explica.

O que distingue a utilização normal da utilização abusiva da Internet é o prejuízo da vida pessoal e social. Faltar à escola, ao trabalho, às refeições e aos convívios com amigos seriam sinais de uma utilização abusiva. O simples facto de estar sempre ligado não faz com que alguém seja viciado na Internet – acontece apenas a partir do momento em que se deixar de lado as actividades do quotidiano. Na categoria dos casos pouco problemáticos estão as “pessoas sozinhas”, mas com “óptimas relações em presença”, que desenvolvem com recurso a vários dispositivos, descreve Daniel Sampaio.

“O grande problema das pessoas dependentes da Internet é que muitas vezes têm patologias associadas, sintomas de outras doenças mentais, particularmente sintomas depressivos ou ansiosos”, afirma o psiquiatra. O tratamento é psicológico e psiquiátrico e consiste em tratar as perturbações associadas, fazendo, ao mesmo tempo, uma desabituação à Internet – mas nunca cortando abruptamente o seu uso.

Os casos de pessoas que apresentam sintomas de dependência relançam o debate sobre o progresso. Este debate é antigo, e no entender de Tiago Lapa, está resolvido. O progresso técnico nem sempre anda de mãos dadas com o progresso social e isso é óbvio em muitas esferas da vida quotidiana. “Não é por termos melhores aparelhos que vivemos melhor”, resume.

A questão do trabalho é sintomática de uma utilização da Internet que nem sempre se traduz numa melhoria das condições de vida, que é, por sua vez, um debate político. Algumas profissões tornaram-se obsoletas e a intensificação do trabalho é uma realidade. O direito a desligar, que deu origem a uma nova lei em França e que tem passado, também, para as agendas políticas de outros países europeus, é exemplo disso. Para Cristina Ponte, a questão é simples: trata-se de bom senso da parte de quem manda um e-mail ou tenta telefonar fora do expediente. “Esta discussão é importante para nos fazer pensar que temos que ter respeito pelo outro e pelo seu tempo de descanso”, considera. Resume a questão de maneira peremptória: “Podem mandar e-mail, mas não fiquem à espera que responda”.

No entanto, evidencia que “na maior parte do tempo, as pessoas estão ligadas, não por causa do trabalho, mas porque há um certo horror ao ‘não fazer nada’”. E isso reflecte-se na maneira como os pais educam os filhos: “Há pais que acham que o tempo dos ecrãs deve ser útil, por isso, os filhos devem estar a fazer alguma coisa educativa”, resume a investigadora. E isso nem sempre é o melhor do ponto de vista pedagógico.

Esta nova sociabilidade “faz parte de sociedades em que deixou de haver silêncio, tempo para pensar, curiosidade de olhar para fora, gosto por actividades lentas como ler, ou ver com olhos de ver”, escreve Pacheco Pereira. As questões avolumam-se – a Internet mudou assim tanto o nosso quotidiano? Constitui um tipo de progresso? É uma nova forma de expressão política? A comunidade cientifica ainda não chegou a um consenso mas estas questões – que começam a ser agora discutidas no âmbito político – tornam-se cada vez mais relevantes.

Texto editado por Sérgio B. Gomes e Hugo Daniel Sousa

 

 

 

 

 

 

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