36ª Edição do Prémio Nacional de Literatura Juvenil Ferreira de Castro

Fevereiro 6, 2017 às 12:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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mais informações:

https://premioferreiradecastro.wordpress.com/

Melatonina para crianças – 5 coisas a saber

Janeiro 23, 2017 às 12:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Texto do site http://uptokids.pt/ de 12 de janeiro de 2017.

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A melatonina é usualmente prescrita a adolescentes e crianças com dificuldades para dormir.

«A chamada “hormona do sono”, quando ingerida em forma de suplementos, pode causar perigosos efeitos colaterais aos mais novos» –  Jornal de Pediatria e Saúde Infantil da Austrália.

A falta de sono de teu filho está a começar a reflectir-se no seu desempenho escolar. Já tentaste estabelecer uma rotina de sono consistente, sem sucesso. Tu própria já estás a enlouquecer com a privação de sono, de tal maneira que actualmente sofres de insónias. Já ouviste dizer que a administração de melatonina – uma hormona natural – pode ajudar. O teu pediatra até já te falou no assunto. Mas será realmente benéfico e poderás dar ao teu filho em segurança? A Dra. Judith Owens, diretora do Sleep Center no Boston Children’s Hospital, respondeu: “Provavelmente. Mas na verdade, ninguém sabe ao certo.”

O que é a melatonina?

A melatonina disponível nas farmácias e lojas de alimentos saudáveis é uma forma sintética de uma hormona produzida pelos nossos cérebros e que nos ajuda a dormir. A nossa própria melatonina ajuda a regular os relógios circadianos que controlam não apenas os nossos ciclos de sono / vigília, mas praticamente todas as funções do nosso corpo.

A melatonina é normalmente libertada à noite, estimulada pela ausência de luz. Na parte da manhã e durante o dia, a produção desta hormona, é em grande parte desligada.

A melatonina pode ajudar o meu filho a dormir? 

Está provado cientificamente que a melatonina pode reduzir o tempo que demoram a adormecer as crianças com sonos desregulados, incluindo crianças com TDAH, autismo e outras doenças de desenvolvimento neurológico. Mas a melatonina não as ajuda a permanecer a dormir mesmo quando administrada em suplementos de acção prolongada. São muitas as razões que podem causar problemas em adormecer às crianças: Ansiedade, sintomas de pernas inquietas ou uma hora de ir dormir descoordenada da do seu horário biológico, são apenas alguns. Antes de considerar a melatonina, peça ao seu pediatra que faça uma avaliação completa de outras possíveis causas. A maioria dos problemas de sono são facilmente resolvidos com medidas comportamentais ou outro tipo de intervenções. Caso prático: a melatonina não vai ajudar uma criança ou adolescente que esteve ligada a gadgets antes de adormecer! Esses dispositivos tecnológicos emissores de luz suprimem a melatonina.

É seguro administrar melatonina a crianças? É natural que, cada vez mais os pais revelem preocupações relativamente a este tema. Se fizermos uma pesquisa na net iremos encontrar muitas mensagens e até estudos contraditórios:

“A melatonina não deve ser administrada em crianças. É POSSÍVELMENTE inseguro. A melatonina pode interferir com o desenvolvimento durante a adolescência. ” – Medline Plus

“De acordo com mais de 24 estudos, administrar melatonina às crianças é seguro e tem sido utilizado com pouco ou nenhum efeito colateral.”  Naturalsleep.org

“Embora pareça seguro administrar doses baixas de melatonina a criança para as ajudar a dormir, é necessária a realização de mais pesquisas para se poder dar resposta às perguntas persistentes”. – livestrong.com  Nós tendemos mais pela última afirmação. Em geral, a melatonina parece ter poucos efeitos colaterais em crianças, a maioria deles de menor importância, como dores de cabeça, enurese noturna e enjoos matinais. Estes efeitos secundários são menos prejudiciais do que a privação de sono em crianças, e por vezes compensa o risco. No entanto, existem preocupações pertinentes baseadas em estudos efectuados em animais, onde se concluiu que a melatonina pode afetar as hormonas relacionados à puberdade. A verdade é que ainda não foram realizados ensaios a longo prazo em seres humanos não se podendo, assim, confirmar confirmar esta teoria.

O autor do estudo e chefe do Laboratório de Fisiologia do Ciclo Circadiano do Instituto de Pesquisa Robinson, da Universidade de Adelaide, na Austrália, David Kennaway tem desenvolvido pesquisas sobre a melatonina há mais de 40 anos e diz, na publicação, que os malefícios do uso da hormona em bebés, crianças e adolescentes irão verificar-se mais tarde:  “Os estudos experimentais realizados nos mamíferos não-humanos, destacaram maiores alterações na puberdade e na sazonalidade da fertilidade, a nível de metabolismo, controle da pressão sanguínea e função do torax. Tendo em vista que a melatonina não é resolve a questão do tempo de sono e que sabemos muito pouco ainda sobre como age no corpo, eu não acho que valha a pena colocar a saúde das crianças em risco” ­

Outro factor que tem suscitado polémica, são as concentrações reais de melatonina, que podem variar de produto para produto ou mesmo de lote para lote. Isso pode afetar tanto a segurança quanto a eficácia. Por essa razão, alguns especialistas recomendam comprar melatonina de grau farmacêutico, que poderá ser mais confiável em relação à dose. Em que casos não se deve administrar melatonina?

Como mencionado acima, as crianças perdem o sono por variadas razões. Evite a melatonina: ·         Se a insónia é situacional (decorrente da ansiedade sobre um novo ano letivo, por exemplo) ·         Se a insónia é de curto prazo (causada por uma infecção no ouvido, por exemplo) ·         Se a insónia é devido a uma causa física subjacente (como apneia do sono ou pernas inquietas) ·         Se o seu filho tem menos de 3 anos de idade. ·         A melatonina nunca deve substituir as práticas de sono saudável: uma rotina regular, apropriada para a idade e consistente na hora de dormir, sem cafeína e sem o uso de aparelhos electrónicos antes de ir para a cama.

A não esquecer:

Nunca dar melatonina por auto-recriação. Apenas com prescrição médica. A Melatonina terá menos riscos e mais benefícios nos casos em que a criança tem dificuldade em adormecer mas já dorme a noite toda, e se for administrada em combinação com intervenções comportamentais caso a caso, e práticas de sono saudável.

Fontes Thriving, estudos Laboratório de Fisiologia do Ciclo Circadiano do Instituto de Pesquisa Robinson, da Universidade de Adelaide, na Austrália, e  Jornal de Pediatria e Saúde Infantil da Austrália.

Adaptação e tradução Uptokids®

 

 

Com novo plano de vacinas, aos 12 meses bebés ficam protegidos contra 11 doenças

Janeiro 7, 2017 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista de Graça Freitas ao https://www.publico.pt/ no dia 26 de dezembro de 2016.

A vacina da meningite B, que fica cara aos pais, vai ser dada apenas aos grupos de risco

A vacina da meningite B, que fica cara aos pais, vai ser dada apenas aos grupos de risco

Já há 300 mil adolescentes vacinadas contra o vírus do papiloma humano em Portugal, calcula a subdirectora-geral da Saúde, Graça Freitas. E a nova vacina incluída no Programa Nacional de Vacinação — que arranca em Janeiro — protege contra mais de 90% dos cancros de colo do útero.

Alexandra Campos

A grande mensagem do novo Programa Nacional de Vacinação (PNV), que entra em vigor em 2 de Janeiro, é que a vacinação é para a vida.  As crianças começam a ser imunizadas contra a tosse convulsa ainda na barriga das mães. Depois, com menos picadas do que actualmente, aos seis meses já ficam protegidas contra sete doenças e, com apenas um ano, ficam livres de 11 patologias, enfatiza a subdirectora-geral da Saúde, Graça Freitas.

A médica calcula que já são 300 mil as raparigas imunizadas contra o vírus do papiloma humano e frisa que a nova vacina protege contra mais de 90% dos cancros do colo do útero. Já a vacina da meningite B, que fica cara aos pais, vai ser dada apenas aos grupos de risco, mas o alargamento a todas as crianças continua em estudo.

O novo PNV vai arrancar com algum atraso nos centros de saúde porque o concurso de uma das vacinas não está concluído, avisa Graça Freitas, que confia que tudo esteja normalizado em duas semanas.

O novo Programa Nacional de Vacinação tem muitas alterações. Uma das novidades é a vacinação universal das grávidas para a tosse convulsa. Mas, habitualmente, as grávidas são avessas a vacinar-se. Acha que vão conseguir convencê-las desta necessidade?

Estamos convencidos de que vamos ter uma boa adesão.  Em cada momento, desde 1965 (o PNV já tem 51 anos),  foi-se fazendo o melhor programa possível para a saúde pública e para a população naquele momento. Há aqui uma relação de confiança entre quem promove a vacinação e quem se vacina. Num mundo tão conturbado, é importante realçar a confiança da população.

A taxa de vacinação em Portugal é muito elevada?

Sim, é à volta de 95% ou mais. Há outros países com bons resultados, mas não há muitos que mantenham esta cadência. A grande mensagem deste PNV, em termos generalistas, é que a vacinação é para o longo da vida, não é só pediátrica. Começamos pela vacinação das grávidas contra a tosse convulsa, a primeira vacina que estamos a introduzir é in utero. Vacina-se a mãe para que possa passar a imunidade, os anticorpos que desenvolve, através da placenta, de forma a proteger o seu filho, que só se pode vacinar contra tosse convulsa aos dois meses. Aquelas primeiras semanas de vida são as de maior vulnerabilidade para a doença.

Mas este ano há um pico de casos de tosse convulsa em Portugal e as vacinas para as grávidas que se vendem nas farmácias chegaram a esgotar-se…

Sim, houve um pico de casos, mas agora abrandou. Esta doença é sazonal, há mais casos nos meses quentes mas, mesmo com os picos, os casos são poucos. O problema é que [esta patologia], nas primeiras semanas de vida pode ser grave. As grávidas devem fazer a vacina da tosse convulsa entre a 20.ª e a 36.ª semana, idealmente até à 32.ª semana. A vacina é segura, para a mãe não tem consequências, e é um acto de generosidade e de amor porque protege o filho. Esta é uma mudança crucial.

Outra novidade é que os bebés vão ser sujeitos a menos picadas?

Exactamente. Aos dois meses e aos seis meses, para manter a aceitação, para aumentar o conforto e minimizar a dor, tomamos a decisão de introduzir duas doses de vacina hexavalente (a mesma ampola contém seis vacinas).  Assim, aos dois e aos seis meses poupamos uma injecção.

Havia recomendações de especialistas, nomeadamente da Sociedade Portuguesa de Pediatria, para incluírem também outras vacinas, como a do rotavírus, da varicela e hepatite A, algumas das quais custam muito dinheiro aos pais. Por que é que isso não aconteceu?

Ponderamos sempre a inclusão em função do interesse público, do benefício para a sociedade, mais do que o benefício individual. Nenhum programa em nenhuma parte do mundo tem todas as vacinas. Portugal, por exemplo, durante anos teve a BCG quando a maior parte dos países já não tinham.

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Mas a vacinação contra o rotavírus e a varicela faz ou não faz sentido?

Do ponto de vista da saúde pública não faz sentido. A doença por rotavírus é uma gastroenterite, não é grave, basta que as crianças estejam hidratadas. Agora, do ponto de vista individual, não temos nada com isso, a decisão é dos pais e dos médicos.

Por que motivo é que a vacina da meningite B fica reservada apenas para grupos de risco?

É para grupos de risco, mas o alargamento ainda está em estudo.

É uma vacina cara para os pais…

Sim, mas temos que ter a certeza que é benéfica para todos, se vai diminuir a circulação ou não. É um processo de decisão muito complexo. Isto depende sempre da evidência científica, dos estudos.

Nos últimos anos têm-se sucedido também as falhas no fornecimento da vacina BCG. Foi por isso que decidiram deixar de a dar a todas as crianças e passaram a dar só às de grupos de risco?

Não, já estávamos a estudar esta mudança havia muitos anos. Esta é outra novidade, mas já era assim desde o ano passado. Só que agora passa a ser oficialmente assim. [No entanto], os grupos de risco, as pessoas imunodeprimidas, as que vão fazer uma viagem especial, os profissionais de alguma área que os põe em risco, podem continuar a beneficiar de vacinação gratuita.

No caso das adolescentes, o que é que muda na vacina contra o papiloma vírus humano (HPV)?

Mudámos de uma vacina que tinha quatro grupos do HPV e protegia contra 75% dos cancros do colo do útero para outra contra nove genótipos do HPV que protege contra 90% a 95% dos cancros do colo do útero. É um ganho muito grande.

Já há muitas adolescentes vacinadas em Portugal?

Há mais ou menos 300 mil adolescentes vacinadas, é a minha estimativa. É muita menina, estou muito feliz com isto.

Vários especialistas recomendam também a vacinação contra o HPV para os rapazes. Por que é que isso não avançou?

Tínhamos que ser muito ricos. Se as meninas ficarem protegidas, mais tarde, quando os rapazes tiverem relações sexuais com elas, não há transmissão. Há aqui um ganho adicional para os rapazes. Agora, voltamos à história do plano individual: se uma família quiser dar esta vacina aos rapazes, não é um erro. Mas, do ponto de vista da saúde pública, consideramos que era preferível investir o dinheiro a aumentar a abrangência para as raparigas em vez de vacinar também rapazes.

Já na idade adulta, porquê toda esta insistência com a vacinação contra o tétano?

Porque o tétano nunca se vai extinguir, a bactéria sobrevive anos no ambiente e a doença não dá imunidade, o que é uma coisa estranha. E esta é uma doença muito grave. A boa notícia é que, ao longo da vida, os reforços desta vacina vão passar a ser feitos de vinte em vinte anos, em vez de dez em dez anos. Só a partir dos 65 anos, como o sistema imunitário já não é tão bom, é que as pessoas se têm que se vacinar de dez em dez anos.

Como é que vão operacionalizar o novo programa no terreno a partir de Janeiro?

Estamos a fazer todos os esforços e vamos conseguir que isto arranque como está previsto a partir de 2 de Janeiro na maior parte dos sítios para a maior parte das vacinas.  Noutras situações poderá haver um delay de dias, durante a primeira e a segunda semanas.

O gasto com o actual PNV ascende a 30 milhões de euros. Quanto é que o novo vai custar? Vai ficar um bocadinho acima, não sei dizer porque o concurso das vacinas hexavalentes ainda não está completamente encerrado. Estas são um bocadinho mais caras, a HPV9 também é mais cara e a das grávidas representa um custo adicional. [Em contrapartida], reduzimos a BCG mas esta é uma vacina barata.  O orçamento ficará acima dos 30 milhões,  mas não sei os números exactos.

O concurso não está concluído? Então como vão avançar em Janeiro?

A vacina hexavalente é a menos problemática, porque os poucos meninos que vão fazer dois meses estes dias podem fazer a pentavalente mais um. E vamos ter a hexavalente nos primeiros dias de Janeiro. Se as crianças cumprirem o esquema, quando fazem seis meses ficam protegidas contra sete doenças. É muito importante que os pais não se atrasem. Quando fazem um ano, ficam protegidas contra 11 doenças. A grande vantagem é a de que, com um ano de idade, as pessoas já estão livres de 11 doenças, algumas delas graves.

Apesar disso, há pessoas que têm medo de se vacinar.

Sim, há movimentos de hesitação em vacinar, por isso vamos fazer uma fortíssima aposta na informação e comunicação. Queremos que os pais estejam sempre informados dos benefícios e dos raros riscos da vacinação, e também dos riscos da não vacinação.

 

Qual é a idade certa para o seu filho ter telemóvel?

Dezembro 23, 2016 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto da http://www.sabado.pt/ de 18 de dezembro de 2016.

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Rita faz 9 anos em Dezembro e já há meses que pede aos pais um smartphone. É para jogar ao CatHotel (para cuidar de animais), ao Minecraft (de aventura e construção) ou para brincar com aplicações de música. Na turma tem dois colegas que já têm telemóvel, mas vai ter de esperar até ao décimo aniversário. “É para estar mais contactável”, justifica a mãe, Paula Santos, 44 anos. Regras: não vai ter Facebook, nem Instagram, e terá um número limitado de contactos. Em Portugal, 65 por cento das crianças têm o primeiro telemóvel entre os 10 e os 12 anos, concluiu em 2015 um estudo do FAQtos, projecto do Instituto Superior Técnico e do INOV Inesc (Instituto de Novas Tecnologias). Não existe a idade ideal, sublinha o pediatra Mário Cordeiro: “Depende da maturidade, necessidade, responsabilidade.”

ENTRE OS 9 E OS 12 ANOS

Regras do jogo

Durante os três meses de Verão, Gonçalo, de 8 anos (quase 9) ficou com o smartphone antigo da mãe – mas sem cartão SIM. Utilizava-o para jogar e ver vídeos do YouTube. Logo surgiram problemas: “Criou um perfil de Facebook. Soubemos por amigos nossos”, lembra a mãe, Célia Freitas, de 45 anos. Terá sido com a ajuda do irmão mais velho, de 16 anos, que o miúdo criou a conta que os pais cancelaram: “Contei-lhe histórias de adultos que se fingem de crianças e que podem fazer-lhe mal.” Depois, eram os jogos que viciavam: “Jogava durante duas e três horas. E ficava muito chateado e agressivo se era contrariado.”

Com o recomeçar das aulas, os pais guardaram o telemóvel e a excepção é o fim-de-semana, com vigilância. “No YouTube gosta de ver vídeos do Feromonas e outros que não são apropriados.” Célia mantém-no debaixo de olho e lembra-lhe que pode ver no histórico o que ele andou a fazer.

O pediatra Mário Cordeiro aconselha que adie este tipo de prenda: “Não se pode ter tudo já e as crianças têm de aprender isso.” Mas se for uma necessidade urgente, lembre-se de “limitar o saldo e barrar a Internet, para lá de limitar os contactos”.

ENTRE OS 12 E OS 15 ANOS

Atenção à Sangrenta

Se a primária estava a uns metros de distância, agora, no ciclo, João Pedro, de 12 anos, fica a cinco quilómetros de casa. Foi o que levou a mãe, Zélia Paciência, 48 anos, a dar um telemóvel ao filho no ano passado. O rapaz não utiliza muito chats, nem navega na internet, mas os jogos (como o Minecraft) começam a causar adição. “Na noite passada fui ao quarto dele e estava escondido debaixo dos lençóis, a jogar”, conta a mãe. O telemóvel passa a ficar fora do quarto. É uma boa estratégia, reforça a psicóloga de adolescentes Bárbara Ramos Dias – assim como proibir os aparelhos às refeições. Entretanto, é importante que os pais dêem descanso aos seus smartphones e mostrem como ler, jogar às damas ou cartas pode ser igualmente divertido.

E mais: cuidado com os grupos de mensagens entre os mais novos, continua a psicóloga. Há o chamado bullying virtual, mas não só: “Anda aí o vídeo da Maria Sangrenta, em que eles têm de enviar a mensagem 20 vezes ‘se não a tua mãe morre’. Os miúdos sentem-se completamente amedrontados.”

ENTRE OS 15 E OS 18 ANOS

Diálogo aberto

Muitos adolescentes chegam ao consultório de Bárbara Ramos Dias exaustos das maratonas ao telemóvel, a enviar mensagens e postar fotografias. “Ficam até às 2h, 3h, 4h da manhã”, conta. No caso de Ana Sofia, filha mais velha de Zélia Paciência, desde os 15 anos que passa os dias nisto: “Quando falamos com ela responde, mas é sempre com os dedinhos a mexer no telemóvel.” Instagram, WhatsApp, Snapchat, Facebook – as redes sociais e os grupos de partilha – ocupam-lhes o tempo, ficando os jogos para segundo plano. Com quem conversam e que informações partilham (dados pessoais, fotos) tornam-se as grandes preocupações. Evite bisbilhotar, “não invada a privacidade deles”, aconselha Bárbara Ramos Dias. E mantenha o diálogo aberto: “Se os pais acharem importante ver o que eles dizem nos chats, peçam para eles mostrarem.” Mário Cordeiro continua: “Não é controlar, no sentido ‘pidesco’ do termo, mas gerir a autonomia e ter uma palavra no percurso de vida dos filhos. Isso não é controlar, é amar.”

Artigo originalmente publicado na edição n.º650, de 13 de Outubro de 2016.

Mário Cordeiro em entrevista: Valores e limites como arma contra “o lado negro da força”

Dezembro 23, 2016 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista de Mário Cordeiro à http://visao.sapo.pt/ de 18 de dezembro de 2016.

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“Uma criança que cresça com valores e princípios, limites e amor, mesmo que a determinada altura seja chamada pelo ‘lado negro da força’, tem uma capacidade de se levantar muitíssimo maior”, diz o pediatra, em entrevista à VISÃO

Sentado num cadeirão do seu consultório, em Lisboa, o conhecido médico segura, orgulhoso, o seu mais recente livro: “Os nossos adolescentes e a droga”. É o 35º, contabilizando os que partilhou a autoria, em mais de 30 anos de dedicação às crianças e à promoção da saúde uma produção num ritmo alucinante, associada aos cinco filhos e à atividade médica. Aos 61 anos, não é a primeira vez que Mário Cordeiro escreve a pensar na segunda década de vida dos mais novos, a fase em que se desenvolvem as melhores ferramentas para enfrentar o futuro com mais segurança e resiliência. Desta vez, quis fazer uma espécie de manual para pais, com contexto, glossário e experiências contadas na primeira pessoa para esclarecer dúvidas que possam surgir sobre as diversas drogas, álcool incluído.

O objetivo, sempre, é informar. Porque mais vale prevenir do que tratar.

Já tinha escrito sobre adolescentes. O que o fez voltar ao tema?

Achei que valia a pena revisitar este tema porque deixou de se falar nele. Mas [o problema] existe. Há uns anos, verifiquei que o consumo comparado entre alunos da escola privada e da pública eram similares, o que contraria a ideia de que uns estão mais protegidos de determinadas experiências. O que faz sentido, se pensarmos bem nisso: um dealer vai investir mais junto de um público que tem mais dinheiro, certo?

A dada altura, lê-se: “Educar não é difícil, é ter momentos terríveis.” É isso que os pais de adolescentes devem esperar?

Os adolescentes trazem muitas alegrias e muitas dores de cabeça, no sentido de termos muitas dúvidas. Mas isso acontece a nós e a eles, porque o processo tem dois lados. O mais comum é, a partir de um sentimento de frustração, haver birras e não saber geri-las. E isso, claro, também acontece na adolescência. Um filho dá–nos recompensas extraordinárias, mas também imensas dores de cabeça. Além disso, idealizamos sempre os nossos filhos, e às vezes esquecemos que eles têm de fazer o percurso de vida deles.

Eles não são nossos. Podemos ser uma espécie de polícias-sinaleiros a indicar o melhor caminho, mas o automobilista é que decide se vai por ali ou não. E às vezes os filhos desiludem-nos, fazem escolhas que não faríamos e nem sempre é fácil lidar com isso. Tantas vezes oiço de alguns pais: “Mas nós demos a melhor educação, o máximo de carinho…”, quando descobrem que o filho anda a mentir ou a consumir tabaco e álcool e tem só 13 anos. Ao que respondo sempre que isso não é um passaporte para tudo. Há diferenças tremendas até entre irmãos. O melhor é dar o exemplo do que é o respeito, a ética e a disciplina, em vez de andarmos a dar sermões.

Uma criança que cresça com valores e princípios, limites e amor, mesmo que a determinada altura seja chamada pelo “lado negro da força”, tem uma capacidade de se levantar muitíssimo maior do que se não tiver azimutes nenhuns.

Isso leva-nos à ideia da criança-rei que se torna o adolescente tirano. As questões que se levantam na adolescência têm sempre a génese na infância?

O narcisismo é a grande doença social de hoje, e há muita gente que não o consegue ultrapassar. É uma fase que a criança começa aos 15 meses, quando já tem uma imensa autonomia e percebe que os outros podem ser manipulados, e passa a agir de acordo com a ideia do “quero tudo já”. Só com limites é que vai perceber que terá de trabalhar para conseguir o que quer. Há depois uma terceira fase, quando percebem que não são deuses e passam à condição humana, em que agradecem não ter tudo, para assim apreciarem melhor a conquista. A liberdade, a verdadeira liberdade, reside na escolha, em ter de escolher.

É por isso que a superproteção leva a excessos?

Claro, porque não se permitem as escolhas. Cada um precisa de saber os seus limites. Muito importante também é estar informado, porque isso pode ajudar a escolha. Reparamos hoje que há overdose de informação mas, ao mesmo tempo, falta de conhecimento. Outro problema deste viver muito fugaz é a falta de sabedoria. Porque a sabedoria exige tempo, reflexão, e esse processo é muito lento, não pode ser tudo no calor do momento. Se queremos tudo já, saber tudo já, isso muitas vezes armadilha-nos.

É isso que acontece com a superproteção: os pais tem a informação mas não têm sabedoria?

Sim. Querem respostas rápidas. Sou o maior fã da tecnologia, mas a forma como a usamos tem de ser adequada. É preciso ainda ouvir outros, porque nem sempre o que nos chega é o todo.

Ouvir relatos e experiências muitas vezes ultrapassa a pura informação. Quantas vezes em manuais se escreve “faça-se assim”, mas depois a experiência diz-nos algo mais. Veja-se os livros de dietas e afins a prometerem “seja feliz em três dias”. Dá-me vontade de rir, porque os próprios títulos matam logo o prazo.

E isso cria ansiedade, claro.

É aquilo a que chamo a “urgentificação de tudo”, e vê-se nas idas às urgências, para resolver qualquer problema. Recebo imensas mensagens e percebo que os pais estejam preocupados, mas em muitos casos é preciso saber esperar.

Hoje, sentimos que, seja o que for que queiramos saber, basta fazer clique.

Temos de aprender a abrandar. Este “quero tudo já” pode estragar tudo e não nos deixa apreciar momentos bons.

É o que, depois, na adolescência leva a uma insatisfação imensa…

É. A geração de jovens de que falo no livro nasceu e cresceu com esta ânsia de comunicação e de estar presente, que muitas vezes funde os fusíveis às pessoas, porque faz com que deixemos de saber conviver com a solidão, e isso é indispensável. A realidade ser tão voraz leva a doenças físicas, ao ataque à nossa imunidade, ao aumento do cancro, tudo também muito relacionado com o nosso modo de vida. Tornámo-nos escravos do telefone e deste modo de estarmos sempre contactáveis. Se não tivermos cuidado, deixamo-nos massacrar, e isso vai levar à falta de espaços privados, nossos. Esta invasão constante do telefone, durante as refeições e em qualquer conversa, é o exemplo maior da má educação. É uma fuga ao momento presente. É também isso que leva ao consumo de droga, que começa por não se saber encarar a realidade, não saber apreciar o que há de bom, subvalorizar o que não corre tão bem. Perante uma realidade que se acha horrível, e sem armas para dar a volta, o nosso desejo é de nos eclipsarmos. Se tivermos ao alcance uma substância, seja droga ou álcool, que nos permite fazê-lo, isso é muito tentador.

Quando é suposto falarmos com os nossos filhos sobre droga?

Não pode ser como antigamente, em que os pais sentavam os filhos e lhes diziam que precisavam de ter uma conversa. Não pode ser assim porque não surte efeito é por isso que sou contra a disciplina de Educação Sexual, porque é ridículo que se trate do assunto à terça-feira, das 11 à uma. Pode aproveitar-se um texto de Língua Portuguesa, ou a estatística, na Matemática, para falar de demografia, ou em Ciências, para falar da nossa biologia, ou em História, que é em si um repositório imenso de casos para todos os gostos. O mesmo se aplica às drogas: pode-se falar em vários momentos. Os pais têm de saber comunicar os filhos e têm de estar informados e não podem ficar-se pelo “Ele, ou ela, não fala comigo”. Tem é de ser numa linguagem que não seja desconfortável para nenhum dos dois, e tem de ser crível.

Podíamos resumir tudo a duas ideias: “Não vale a pena dizer que a droga mata” e “se experimentares é natural que gostes, mas deixa-me falar do resto.” É isso?

Não vale a pena dizer que mata porque, em si, é uma mentira, ou só é verdade a longo prazo. É como os maços de tabaco trazerem inscrito que fumar mata. A frase que mais gosto, mesmo, é “Os fumadores morrem prematuramente”, quando o que devia dizer é “Os fumadores têm maior probabilidade de morrerem prematuramente”. Aí já não há quem possa argumentar com o tio-avô que fumou cinco maços por dia e viveu até aos cem anos. Já é mesmo preciso pensar se quero aumentar a probabilidade de morrer mais cedo. É o mesmo com a droga. Por isso elenquei no livro os efeitos de cada uma e incluí depoimentos que não procuram julgar pessoas quem sou eu para julgar as pessoas? Às vezes, quem caiu naquele buraco pode ser só alguém que não encontrou na sua rede o suporte para dar a volta aos problemas e encontrar a felicidade em outro lado.

É também a forma de lhes dizer que há um dia seguinte, porque, como vivemos na tal voracidade, falamos demasiadas vezes apenas do hoje. Temos de lhes dizer que o que construímos, no amanhã, depende do que acontecer hoje. É essa pedagogia que muitas vezes falta. Quando falo com os meus filhos para cultivarem a excelência, não é pelas notas em si, mas porque ficam mais bem posicionados para, no futuro, poderem escolher à vontade o que querem.

Fala no desporto, no voluntariado, na cultura. Isso também lhes dá ferramentas para lidar com as adversidades?

Dá-lhes uma experiência de vida muito mais variada. Estas atividades, feitas com gozo, libertam endorfinas, que são as nossas morfinas. Pensar que temos essa possibilidade de nos “drogarmos” sem droga, e que a esquecemos… Quem faz desporto, ou se dedica às artes, ou outras atividades, tem uma probabilidade muito menor de cair nas drogas. E isso faz uma diferença abissal.

Que sinais de risco é que a família deve saber reconhecer para pedir ajuda?

É preciso dizer que não é por se encontrar papel de prata no quarto de um filho que se vai concluir que ele anda a queimar heroína. Se calhar, andou apenas a comer uma tablete de chocolate. Temos de ter noção de que os nossos filhos adolescentes precisam do seu espaço e de refletirem sobre a sua vida. Às vezes há pais que falam com uma ansiedade… “Ele/ela vai entrar na adolescência, não é?!”. Costumo dizer que eles não caíram na chaminé, atirados pelo Pai Natal, na véspera. Foram educados por aqueles pais, eles conhecem-nos.

Se fizeram um bom trabalho, podem aceitar esta fase com um mínimo de segurança. Há que acreditar nos filhos, permitir que tenham a sua identidade, e que não pensem exatamente como os pais pensam. Agora, quando o isolamento é exagerado, quando há uma vida seca, amarga, desistente das atividades que são boas, quando as notas caem sem razão aparente (às vezes podem só estar apaixonadíssimos!), aí os pais devem pedir ajuda. E aqui ressalvo: o álcool, e o seu consumo excessivo e prematuro, também é uma droga.

Os consumos dos adultos podem passar mensagens erradas?

Beber um copo por dia, à refeição, não é ter um comportamento de risco.

O problema é o consumo fora de horas, em excesso, e sobretudo para esconder alguma coisa. Uma coisa é beber um copo para acompanhar a refeição, outra é, sozinho, engolir uma garrafa inteira. Falar das coisas com verdade não é torná-las banal. Um pai uma vez disse-me que sentia que não tinha autoridade para falar com os filhos sobre os malefícios do tabaco porque ele também fumava.

Disse-lhe logo que não estava nada de acordo: se a verdade científica é que não faz bem à saúde, se acha que o seu filho não devia fumar, diga-lhe. Diga-lhe até porque começou, mostre-lhe até algumas das suas fraquezas. Queira ou não deixar de fumar, pode na mesma achar que aquilo é errado para o filho e que, se ele o fizer, pode dar cabo da sua saúde. Um pai tem tanta liberdade de escolher como um filho e aí está a dar-lhe armas para escolher. Isso é perfeitamente legítimo.

E isso também se aplica em relação à droga?

Um dos casos que relata no livro é de uma mulher de 50 anos que conta os seus consumos.

Sim, sem dúvida. A essa mulher, as anfetaminas não só lhe permitiam estudar horas a fio, sem dormir, como ainda a faziam emagrecer. Não é por acaso que tinham nomes como Libriu ou Valium, que fazem lembrar liberdade ou valor… Parece que sempre andámos à procura da felicidade sem esforço, não é? Mas digo também que este esforço e trabalho, que é necessário, não devem ser vistos como um calvário, como nos diz a nossa tradição galaico-cristã. Isto não é a via sacra. Trata-se de aprender a gerir a nossa liberdade de escolha. Falamos também muito de litigância (“porque tu não fizeste, não ligaste…”) mas dizemos pouco “gosto de ti”. Precisamos de fazê–lo com urgência, e sobretudo com os nossos filhos, que não são estranhos. Às vezes, o que se passa é que o filho gosta tanto dos pais que, para se diferenciar, arranja um pretexto qualquer para entrar em conflito. Os pais não podem ceder a essa pressão.

 

 

 

Número de jovens hospitalizados por abuso de álcool não diminuiu

Dezembro 7, 2016 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.publico.pt/ de 2 de dezembro de 2016.

Às urgências hospitalares chegam “apenas os casos mais graves, a ponta do icebergue” RUI GAUDêNCIO

Às urgências hospitalares chegam “apenas os casos mais graves, a ponta do icebergue” RUI Gaudêncio

 

Recurso às urgências ocorre sobretudo à noite e aos fins-de-semana ou durante as férias escolares.

Natália Faria

Em Junho de 2008, a então ministra da Saúde, Ana Jorge, alertou para o facto de “não serem raros” os casos de crianças com sete, oito ou nove anos de idade em coma alcoólico, devido aos festejos de final de ano escolar. A afirmação gerou, na altura alguma controvérsia, com muitos pediatras a asseverarem não ter memória de episódios de urgência motivados pelo álcool envolvendo crianças tão pequenas.

Estes profissionais apontavam consumos excessivos, sim, mas aos 12, 13 ou 14 anos. Mas o certo é que, mais de oito anos volvidos, e enquanto Espanha noticia dados como os cinco mil menores que foram atendidos nas urgências em 2015 por abuso de álcool, em Portugal continuam a não estar disponíveis estatísticas que dêem a dimensão exacta do problema.

“As urgências [hospitalares] não registam as causas que levam as pessoas à urgência, mas as consequências. Alguém que caiu porque estava alcoolizado pode ficar registado como tendo sofrido um traumatismo craniano. Mas, tal como na violência doméstica, estamos a trabalhar para conseguirmos ter um registo formal destas situações de risco, sobretudo quando afectam menores, até porque resulta daí um efeito pedagógico importante”, reconhece o director do programa de Saúde Mental da Direcção-Geral de Saúde, Álvaro Carvalho.

Numa ronda feita pelo PÚBLICO por alguns dos hospitais com urgências pediátricas, os respectivos responsáveis não referem aumentos, mas também não apontam diminuições, isto é, o problema tem-se mantido estável, apesar do reforço das leis cujo objectivo é dificultar a ingestão de álcool por parte dos menores. “Este ano, até agora, tivemos 30 casos de menores alcoolizados, a maior parte em coma. Em 2015, tinham sido 40, 22 em 2014 e 42 em 2013”, contabilizou Patrícia Mação, pediatra no serviço de urgência do Hospital Universitário de Coimbra.

As festas dos alunos dos 8.º e 9.º anos

“Chegam com teor alcoólico muito elevado, ataxias, discursos incoerentes, a vomitar. Quase sempre são trazidos por colegas. São alunos dos 8º e 9 anos, começam a beber nas festas de aniversário e aos fins-de-semana e nas férias escolares”, caracteriza, por seu turno, Almerinda Pereira, directora do serviço de Pediatria do Hospital de Braga. Já no Hospital Santa Maria, em Lisboa, a coordenadora da urgência pediátrica, Gabriela Araújo e Sá contou 11 jovens internados este ano por abuso de álcool. “Foram o mesmo número que no ano anterior. E estamos a falar de quadros que implicam já alterações de consciência, porque os que chegam apenas ‘tocados’ não ficam internados”.

 

 

 

Cyberbullying está ligado ao aumento dos casos de automutilação entre jovens

Dezembro 2, 2016 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do http://www.brasilpost.com.br/ de 4 de novembro de 2016.

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The Huffington Post UK  |  De Jasmin Gray

O número de jovens internados em hospitais em consequência de automutilação subiu vertiginosamente nos últimos dez anos, revelaram novas cifras. Especialistas atribuem o fenômeno ao bullying online e nas redes sociais.

Cifras do NHS (o Serviço Nacional de Saúde britânico) indicam que o número de meninas tratadas em hospitais depois de se cortarem subiu 385%, de 600 em 2005-2006 para 2.311 em 2014-2015.

Houve um aumento grande também no número de rapazes hospitalizados depois de se mutilarem: em 2014-2015, 457 homens jovens foram tratados, contra 160 dez anos antes.

Estatísticas aos quais o jornal The Guardian teve acesso mostraram que a automutilação por enforcamento e envenenamento também vem aumentando entre os jovens.

Especialistas atribuem esse aumento preocupante à ascensão da Internet e das redes sociais nos últimos dez anos.

O número de meninas com menos de 18 anos hospitalizadas por cortar-se quadruplicou nos últimos dez anos.

Ruth Ayres, gerente de projetos do selfharmUK, disse que os jovens têm dificuldade em escapar do bullying online: “Hoje em dia, quando uma pessoa sofre bullying, isso continua quando está em casa. Muitas vezes pode lhe parecer que o sofrimento que ela está sentindo nunca acaba.

“As mídias sociais geram uma dependência enorme nos jovens. Acho que nós, adultos, precisamos começar a ajudar os jovens a navegar em segurança pela internet.”

Ayres também apontou para a presença de muitos sites que oferecem aos jovens informações sobre como se mutilarem.

Quase 14 mil mulheres jovens foram internadas em hospitais no ano passado depois de ingerir substâncias tóxicas – 4.112 mais que o número que o fez em 2005-2006, 9.741. O número de rapazes que se envenenaram não subiu.

O enforcamento como método de automutilação também se tornou mais comum, com 220 jovens com menos de 18 anos sendo tratados em hospitais entre 2014 e 2015. Em 2004-2005, 78 jovens foram hospitalizados depois de se enforcar.

O Dr. Peter Hindley, catedrático da Faculdade de Psiquiatria Infantil e Adolescente no Royal College of Psychiatrists, concordou que as mídias sociais são um dos muitos fatores que levam adolescentes e jovens a se mutilarem, dizendo ao Guardian:

“É provável que a alta seja resultante de muitos fatores, mas os mais importantes provavelmente são: disparidade crescente na era da austeridade, o impacto negativo da era digital, a sexualização crescente – isso é especialmente nítido no caso das meninas–, o impacto do abuso sexual e da exploração sexual e as pressões crescentes para alcançar sucesso.”

Na semana passada o secretário de Saúde britânico, Jeremy Hunt, criticou os serviços de saúde mental disponíveis para adolescentes e jovens, caracterizando-os como “a maior área de carência na cobertura de saúde feita pelo NHS”.

Hunt disse que muitas tragédias acontecem porque os serviços não intervêm de modo precoce, quando problemas como transtornos alimentares primeiro se manifestam.

A ONG Young Minds, que trabalha com saúde mental, informa que mais de um quarto (26%) dos jovens no Reino Unido já teve pensamentos suicidas.

Mas, segundo Ayres, ainda existem muitos lugares aos quais jovens que se automutilam podem recorrer para buscar apoio.

“Nosso site é um site em favor da recuperação de jovens, que os incentiva a formular perguntas e postar suas histórias. É um lugar seguro que jovens podem procurar quando precisam de ajuda e apoio.

“Recentemente o ChildLine lançou um serviço de aconselhamento online que pode ser acessado por jovens dia e noite, e pode ser útil para jovens que se automutilam saber que há alguém com quem podem conversar”, ela disse.

“Eu também incentivaria as famílias a procurar um bom clínico geral, alguém em quem confiam e com quem possam falar dessas coisas abertamente.”

 

 

Jovens usam bastante os media, mas faltam-lhes competências mediáticas

Novembro 30, 2016 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do http://www.educare.pt/ de 14 de novembro de 2016.

Mais informações no estudo:

Níveis de literacia mediática: Estudo exploratório com jovens do 12º ano

educare

Andreia Lobo

Os jovens estão cada vez mais “conectados” aos media. Têm acesso à televisão, ao computador com Internet, ao telemóvel ou smartphone e estão “sempre” ou “muitas vezes” online. Mas são pouco críticos quanto à informação que lhes chega através dos media.

O mais recente estudo sobre literacia mediática, organizado pela Universidade do Minho, o Gabinete para os Meios de Comunicação Social e a Rede de Bibliotecas Escolares, pode preocupar pais e professores. “Há um conjunto de competências que os jovens precisam para o seu dia a dia que não estão desenvolvidas”, explica ao EDUCARE Sara Pereira, investigadora do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade e uma das autoras do estudo. Chama-se “Competências de Literacia Mediática”, e vem ao encontro de uma diretiva da Comissão Europeia de 2012 que alerta os Estados-membros para a necessidade de avaliar os níveis de conhecimento dos media dos cidadãos.

Em Portugal, a avaliação foi feita entre jovens do 12.º ano, com idades entre os 17 e os 18 anos, a frequentarem o ensino público no ano letivo de 2013/2014. Participaram 679 estudantes, de 46 escolas em todo o território nacional. Os dados foram recolhidos através de um questionário aplicado online com perguntas sob a forma de exercícios destinados a simular a tomada de decisões, bem como a aplicação de saberes. O objetivo: identificar o acesso e os usos dos media pelos jovens, os seus conhecimentos sobre este campo, mas também as capacidades de análise, interpretação e produção mediática.

“Sempre” conectados  Seria de esperar, “os jovens inquiridos demostram ser um grupo conectado aos media”, lê-se no estudo, já que 99% têm acesso a televisão, 98% têm acesso a um computador com Internet, a telemóveis e a smartphones. Outras percentagens relativamente elevadas surgem no acesso a rádio (73%) e a consola de jogos (63%). Os números mostram uma geração que raramente está “offline”. Apenas 6% dizem usar o computador de secretária ou portátil, sem ligação à Internet. Ou seja, a esmagadora maioria acede com frequência e facilidade ao mundo virtual. E também usa bastante as redes sociais, sobretudo para se manter em contacto: 93% dos inquiridos dizem usar “sempre” ou “muitas vezes” a Internet, 75% dizem que usam as redes sociais para conversar com o amigos e família “sempre” ou “muitas vezes”.

Em casa abundam os equipamentos eletrónicos. Cada estudante tem em média acesso a três televisores e a dois aparelhos de rádio, a dois telemóveis, dois smartphones e dois portáteis com Internet. Relativamente aos serviços de televisão contratualizados pelas famílias, 83% dos inquiridos têm em casa canais pagos. Quanto à Internet, 92% tem acesso sem fios em casa.

Questionados sobre a frequência com que utilizam os media, recebem mais as respostas “sempre” ou “muitas vezes” o computador (90%), a Internet (83%), a televisão (77%) e o smartphone (63%). No extremo do uso, “raramente” ou “nunca” estão essencialmente os media tradicionais, como é o caso dos jornais (57%), das revistas (49%), da rádio (46%) e do cinema (41%). As consolas estão também em desuso, 56% dos inquiridos usam-nas raramente, ou simplesmente não usam.

Estes números trazem boas notícias. “Atendendo aos índices de acesso e de uso dos media, à agilidade e ao à-vontade com que parecem usar as tecnologias disponíveis e os softwares adjacentes, podemos inferir bons níveis de literacia funcional”, escrevem Sara Pereira, Manuel Pinto e Pedro Moura, autores do estudo.

No entanto, ter mais acesso às tecnologias ou fazer mais uso delas não é sinónimo de ter mais competências nesta matéria. Por essa razão, os jovens estão a falhar naquilo que os investigadores designam por “literacia crítica”. Dito de outro modo, os inquiridos não são capazes de fazer uma análise ou uma compreensão crítica do que veem e leem na Internet.

Mas vamos por partes. No inquérito online, os investigadores perguntaram aos alunos se estavam familiarizados com o conceito de “publirreportagem”, um texto publicitário, portanto pago por uma marca ou entidade, publicado em forma de uma reportagem nos órgãos de comunicação. A resposta foi das mais erradas entre os estudantes com melhores pontuações no questionário.

Muito difícil foi também conseguir identificar a fonte de uma notícia. Pelo contrário, os jovens conseguiram facilmente sugerir quais os meios a usar, por exemplo, para divulgar uma campanha para a associação de estudantes.

Menos conhecedores das práticas do jornalismo, mais atentos à publicidade. Haverá alguma explicação? “A familiaridade pode ser uma boa pista para ler estes resultados”, argumentam os investigadores, pois “no segundo caso há um contacto próximo com a situação apresentada”.

Reconhecer um artigo de opinião ou um motor de busca não foi problema. Pior foi o momento em que os estudantes tiveram de expor as razões para a escolha de determinadas fontes bibliográficas, em detrimento de outras: 85% dos jovens não apresentam nenhuma justificação válida.

“O envolvimento dos alunos na produção e participação através dos meios não revelou grande sofisticação ou recorrência”, lê-se no estudo. O que andam os inquiridos a fazer na Internet? Coisas simples. Por exemplo, 43% disseram aos investigadores terem partilhado ou recomendado uma marca numa rede social ou comentado uma notícia, no último ano.

Nas “lojas” virtuais surgem cada vez mais ferramentas para criar podcast e vídeos, mas apenas 8% e 19% dos jovens se dedicam a este tipo de produção. No entanto, relativamente à criação de vídeos, “a complexidade técnica da produção apurada não foi particularmente elevada”, escrevem os investigadores. Apenas 37 alunos conseguiram detalhar quatro ou mais momentos da produção.

“A Internet é sobretudo usada como meio de comunicação e de interação com os outros”, constatam os investigadores. Ouvir música, conversar com os amigos e ver videoclipes, são as atividades que 86% e 85% dos jovens realizam na Internet “sempre” ou “muitas vezes”. Com a mesma frequência, 83% dos inquiridos fazem pesquisas, 64% downloads, 52% enviam emails, 31% jogam online.

Centremo-nos agora na televisão e nos programas preferidos dos jovens. Os filmes e as séries são os géneros mais vistos, por 78% e 77% dos inquiridos. Em segundo lugar aparece a informação: 61% dos jovens referem assistir “sempre” ou “muitas vezes” a programas deste género. Do outro lado da escala, na categoria vejo “raramente” ou “nunca” surgem os programas de entretenimento, como os talk shows (54%) e os reality shows (51%). Os programas de sociedade ocupam o terceiro lugar entre os menos vistos (47%). As telenovelas são vistas com pouca frequência por 48% dos inquiridos, ainda assim, 33% dizem ver “sempre” ou “muitas vezes”. O consumo deste género de programas está muito ligado ao “hábito familiar”, nota Sara Pereira, admitindo que o abandono “talvez esteja relacionado com um maior desenvolvimento crítico de gostar deste tipo de programas”.

De modo geral, as raparigas veem mais séries e filmes, telenovelas, concursos, reality shows, programas de música, de sociedade e de moda e de culinária do que os rapazes. Já os rapazes veem mais programas de desporto, de História e ciência do que as raparigas. Quanto aos canais que veem com mais frequência, a FOX, um canal por cabo de séries, e a TVI, um canal generalista de sinal aberto, ocupam as duas primeiras posições, com 41% e 37% das audiências entre os inquiridos.

Os canais públicos RTP1 e RTP2 são opção para apenas 11% e 5% dos inquiridos. No que concerne à imprensa, nomeadamente à leitura de jornais, “sobressai de imediato o pouco interesse que este meio suscita nos jovens”, escrevem os autores do estudo. Os jornais desportivos são os mais lidos, com 19% dos inquiridos a responderem que os leem “sempre” ou “muitas vezes”. Apenas 4% dizem ler “sempre” e 10% “muitas vezes” jornais diários.

O panorama da leitura de revistas é ligeiramente melhor, embora não muito diferente: 23% dos inquiridos leem “sempre” ou “muitas vezes” revistas femininas, 22% preferem as de moda e 22% leem as de informação ou atualidade.

mas pouco literados

Há muitas definições para o conceito de “literacia mediática”, mas é precisamente o que o estudo pretende medir. A Comissão Europeia (CE), atenta ao modo como os cidadãos utilizam os ambientes digitais, define-a como “a capacidade de aceder aos media, de compreender e avaliar de modo crítico os diferentes aspetos dos media e dos seus conteúdos e de criar comunicação em diversos contextos.” O objetivo da literacia mediática “é aumentar os conhecimentos das pessoas acerca das muitas formas de mensagens dos media que encontram no seu dia a dia”, lê-se na “Recomendação sobre Literacia Mediática” publicada pela CE em 2009.

Para traçar a radiografia das competências mediáticas, os investigadores construíram uma escala de 0 a 100 pontos, em que se avaliavam a preparação e o conhecimento dos jovens ao nível do acesso, análise, compreensão, avaliação e produção de meios e conteúdos mediáticos. Assumindo a classificação de 49,50% como o patamar mínimo para a positiva, os investigadores dividiram os estudantes em três grupos: nível 1, os que ficaram abaixo da média; nível 2, os que pontuaram entre a média e a positiva; e nível 3, os que alcançaram valores positivos. Segundo a escala elaborada para avaliar os níveis de literacia mediática, 52% dos inquiridos situam-se no nível 1 (baixo), 43% no nível 2 (intermédio), e 5% no nível 3 (bom).

As conclusões foram pouco animadoras. A média de literacia mediática de todos os inquiridos não foi além dos 29,01 valores. “É um resultado que não é de todo satisfatório. Tivemos pouquíssimos alunos com média positiva”, lamenta Sara Pereira, investigadora do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade da Universidade do Minho. Dos 32 alunos com níveis positivos de literacia mediática, seis estudavam na Escola Secundária do Marco de Canaveses. Dado curioso que a equipa de investigadores gostaria de compreender melhor: “Perceber se na escola existe algum projeto ou algum tipo de clube que esteja a fazer a diferença…”

Voltando aos fracos resultados gerais, Sara Pereira esclarece que “têm a ver com a questão muito discutida de que não basta o acesso”. Entenda-se: “Os jovens usam, no seu quotidiano, de uma forma regular e frequente vários meios, mas tal não significa que tenham competências de uso, análise, compreensão e produção, que são as dimensões da literacia mediática.” Na Internet, os alunos portugueses mostram-se também mais consumidores do que produtores. O cenário inverte-se, garante a investigadora, “mas é preciso passar do acesso, para o desenvolvimento das competências que a grande maioria demonstra não ter.”

 

ICCA 2017, 1º Congresso Internacional da Criança e do Adolescente – Recepção de resumos até ao dia 15 de Novembro

Outubro 23, 2016 às 8:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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mais informações no link:

https://icca2017.eventqualia.net/pt/pt/

Daniel Sampaio: “Temos fobia e inveja dos adolescentes”

Outubro 20, 2016 às 8:00 pm | Publicado em O IAC na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista da http://activa.sapo.pt/ a Daniel Sampaio no dia 11 de outubro de 2016.

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Por Catarina Fonseca

Não precisa de apresentações: o psiquiatra mais famoso de Portugal completa agora 70 anos e recebeu-nos para uma conversa sobre adolescentes, escola, pais, e a cultura da alegria.

Geralmente, encontro-o na feira do livro de Lisboa, onde é presença assídua há muitos anos. Desde que começou a escrever, Daniel Sampaio gosta de se encontrar com o seu público: lá está todos os anos, a dar autógrafos, a comer um Magnum e a falar com os seus leitores. Agora, recebe-me no gabinete da direção do Serviço de Psiquiatria, no Hospital de Santa Maria. Está calor, e não há ar condicionado. Nem gelados. Não sei como é que se pode recuperar a alegria e a esperança sem ar condicionado nem gelados. Ele é mais resistente. “A nossa maior virtude aqui é a paciência. Principalmente com as anoréticas, é de colher de chá de arroz em colher de chá de arroz.” Os livros, esses, continuam presentes, numa pequena biblioteca. E se a paciência é uma das suas virtudes, a comunicação é outra. Talvez seja normal, depois de anos a dar aulas, entrevistas, consultas. Digo-lhe que venho à procura dele como dantes se procuravam os sábios da tribo (por acaso só me lembrei disto agora, mas teria gostado de lho dizer). Aliás, digo eu, os pais andam agora muito perdidos, e eu pego nas dores deles e venho perguntar a quem sabe mais. Ele acena. “É verdade. As pessoas não sabem onde procurar apoio. Mas eles existem.” E falamos de quê, com um homem que investigou e desenvolveu áreas tão importantes como a terapia de casal, o suicídio, a adolescência, as perturbações alimentares, e tanto mais? Começa-se por onde? Acaba-se onde? “Está a escrever para pais, não é? Quer falar de adolescentes?” Vamos a isso.

A adolescência é mesmo complicada ou isso é mito?

É mesmo complicada. Para os filhos e para os pais. Há estudos que dizem que a adolescência é o período mais difícil na vida de um pai. Porque é preciso encontrar um equilíbrio entre dar alguma liberdade e exercer algum controlo, e isso pode ser bastante difícil. Uma vez perguntei a um jovem o que era ser adolescente, e ele respondeu: ‘Pedir tudo aos pais, e ficar com o que eles quiserem dar’ (risos). E é mesmo assim.

Diz que neste momento os pais estão mais próximos dos filhos do que nunca, mas há um marcado défice de autoridade. Por outro lado, às vezes a autoridade é exercida de modo totalmente arbitrário. Para nós, educar ainda é humilhar?

Sim. O problema é que essa autoridade clássica, que é mais autoritarismo que autoridade, não funciona com os jovens de hoje, que têm muita noção dos seus direitos. Portanto, é preciso criar outro tipo de autoridade. Se um pai acompanhar o filho desde pequeno, esta autoridade será natural e reconhecida. Agora, se for um pai castrador, o filho adolescente vai dizer que não a tudo. O que geralmente acontece é que temos dois extremos: ou pais que foram muito permissivos na infância, que deram tudo e mais alguma coisa aos filhos, ou pais muito autoritários, que criaram conflitos terríveis com os filhos. E portanto, não se desenvolveu uma autoridade naturalmente baseada na relação.

Hoje a autoridade ‘autoritária’ não funciona, é isso?

Pois não, porque hoje os mais novos têm voz. E têm canais por onde se fazer ouvir. Sabem ligar para o SOS Criança, sabem discutir na net, criam blogs, fazem-se ouvir. Por exemplo, escrevi um livro em 94, ‘Inventem-se novos pais’, porque os adolescentes não tinham voz e eu quis dar-lhes essa voz. Isso não se passa hoje, o que faz com que os pais vacilem. Dantes, dizia-se ‘É assim porque o pai quer’, e pronto. Hoje isso já não é aceite.

Os pais estão muito perdidos?

Muito. Querem muito fazer as coisas bem feitas e não sabem a quem recorrer. Mas na maioria dos casos, basta recorrerem a eles próprios. Muitas vezes não é preciso um psicólogo nem um psiquiatra, o que é preciso é que aquelas pessoas se sentem e conversem umas com as outras, em família. Portanto, os técnicos deviam existir para os casos mais graves de psiquiatria. Nós aqui o que fazemos muitas vezes é promover essa comunicação familiar.

As crianças de hoje são educadas com muitos medos…

Isso é muito importante, porque não crescemos sem medos. Mas se passamos a vida a dizer-lhes ‘não podes sair, não podes ir a casa dos teus amigos, não podes andar de comboio’, não estamos a promover a autonomia. O nosso papel devia ser ajudá-los a ultrapassar esses medos, não resguardá-los. ‘Vais lá e fazes o que tens a fazer, e eu estou aqui para te ajudar no que for preciso’. Esse deve ser o papel de um pai.

Pode dar um exemplo prático?

Recebi há tempos uma adolescente já com 18 anos. Tecnicamente era uma adulta, mas na prática não tinha muita margem de manobra. Ela queria ir passar uns dias a um acampamento numa serra com uma amiga. Isto resultou num terrível conflito familiar. Então trabalhámos os medos dos pais: que ela ficasse doente, que se perdesse, que fosse assaltada. A solução foi os pais ficarem num hotel relativamente próximo. Comentário da rapariga: “Acho bem. Porque um dia posso ter fome e vou jantar com vocês.” (risos). A adolescência é isto. É ter necessidade de estar longe dos pais mas manter a proximidade. Mas temos de os deixar afastar-se.

Diz que infantilizamos os adolescentes, que lhes damos uma vida monótona e sem objetivos, onde a única coisa que têm de fazer é ouvir os professores, e depois queixamo-nos de que são apáticos ou turbulentos…

Precisamos de responsabilizar mais os jovens. Na escola ainda há muita indisciplina, e tem de se encontrar uma forma de eles participarem mais. Tomam-se medidas inúteis como as expulsões, mas nunca ninguém lhes pergunta a eles se têm alguma solução. Quando lhes pergunto como as coisas poderiam ser diferentes, eles dão respostas interessantes: podia-se trabalhar mais em grupo, o professor podia não falar tanto. Os meus netos mais velhos são agora adolescentes, mas as coisas que me contam das aulas deles são iguais ao Liceu Pedro Nunes onde andei há mais de 50 anos. Mas dantes o professor tinha uma posição social de muito prestígio, ser professor de liceu era muito respeitado. Hoje esse mundo desapareceu. Hoje os miúdos aprendem uns com os outros, aprendem na net, e portanto não se pode manter o modelo de escola do século XIX com todos sentados em cadeiras enquanto o professor fala.

Estamos perto do regresso às aulas. De que tipo de escola precisamos agora?

De uma escola que valorize e responsabilize os jovens, e que os coloque numa posição ativa em todos os momentos da aula. Mas não o fazemos.

Temos medo dos adolescentes?

Mais do que medo: temos fobia. É uma fobia muito radicada na inveja. De uma forma geral, os jovens não são perturbados. Apenas 10% o são. Os outros 90% têm apenas dúvidas e problemas. E portanto nós precisamos de uma cultura que os ouça e os valorize.

Mas para conseguirem resolver esses problemas, os adultos têm de se confrontar com essa fobia e essa inveja e isso não deve ser fácil…

E não é. A fobia manifesta-se em relação ao corpo juvenil. A saúde, a beleza, a energia, suscita-nos muita inveja. A alegria também. É importante recuar à nossa adolescência, mas percebendo que a de hoje é totalmente diferente.

De que maneira é que os seus netos adolescentes são diferentes dos seus filhos quando eram adolescentes?

A internet é a diferença principal. Foi uma revolução em termos de comunicação. Os jovens hoje estão em constante contacto uns com os outros, e sempre em rede. O que é divertido é que os pais criticam-nos mas fazem a mesma coisa.

Isso abala a autoridade dos pais?

Se esta for exercida desde a infância, não. Desde um ano, tem de dizer ao bebé o que ele pode e não pode fazer. Quando o bebé começa a explorar o mundo, não se deve afastar do caminho todos os obstáculos, tudo o que ele pode partir. Deve-se é começar a dizer não. Dá trabalho? Pois dá. Mas eles aprendem. Há famílias onde ninguém contraria o bebé, ninguém lhe diz nada. Conheci uma avó que transformou a sala numa piscina. Tirou os móveis todos da sala, pôs uma piscina de plástico lá dentro, e lá andavam os netos. Isto é o que não se deve fazer.

Quem é? Acha que ela me adota?

(risos) Acho que não é um bom sistema. A sala da avó é a sala da avó, e não deve ser transformada por causa daquela criança. Estas crianças vão chegar à adolescência com um poder enorme sobre os adultos. E depois, quando nos damos conta disso, é demasiado tarde. Com um filho, tem de indicar-lhe desde pequeno quais são os seus limites, e ao mesmo tempo guardar tempo para brincar com ele, de maneira a não haver uma imagem castradora do pai.

Assim quando eles crescem a autoridade torna-se mais fácil…

Muito mais. No exemplo clássico das saídas à noite, não se pode cair no 8 ou 80. Nem o ‘não vais a lado nenhum’ nem o ‘sai à vontade e curte a vida’. As coisas devem ser combinadas e devemos ser flexíveis com um adolescente, permitir que estejam com os amigos em certas ocasiões e connosco em outras.

Como se deve educar um adolescente?

Para a autonomia. Mas nós povos do sul temos muita dificuldade em fazer isto. O papel cultural da mãe portuguesa é muito interessante. Dantes pensava-se que os rapazes falavam mais com o pai e as raparigas com a mãe, mas hoje sabe-se que ambos falam mais com a mãe. Portanto, a mãe continua a ser o centro da família, até porque geralmente continua a ser quem está mais disponível. Mas depois querem controlar toda a vida deles.

Um dos seus lemas é ‘Trata os teus filhos como gostarias de ser tratado’. E quando isso não acontece? Como é que se sobrevive a um pai ou a uma mãe tóxicos?

É sempre possível sobreviver. Mas geralmente sobrevivemos mal. Não há é uma lei determinística. Temos sempre poder sobre a nossa vida.

Nunca é tarde para ter uma infância feliz, como dizia a Clarice Lispector?

Pois não. Não podemos ficar reféns dos nossos pais. Podemos mudar a forma como nos relacionamos com os pais e com a infância que tivemos, e a adolescência é a melhor altura para fazer isto, porque está tudo em transformação. A adolescência serve idealmente para reparar alguns aspetos da relação com os pais.

Mas para muitos filhos esta revolta sabe a traição…

Vou citá-lo: “A obediência cega aos princípios da família pode manter-se toda a vida, se a desobediência sempre foi considerada uma traição.” Mas todas as famílias têm de evoluir. Podemos manter-nos leais a valores universais: a verdade, o respeito entre gerações, a capacidade de expressar pontos de vista, a pessoa sentir-se valorizada dentro da sua família. Mas o quotidiano muda muito, não se pode viver hoje como há 20 anos.

Como era em adolescente?

Era um pouco sombrio. Era um existencialista, com 17 ou 18 anos tinha grandes preocupações sociais, lia muito Camus e Sartre, interessava-me por política. Era muito sério, não tinha aquela alegria, aquele prazer de viver que muitos adolescentes hoje têm.

Isso não é uma coisa geracional? Essa alegria?

Talvez seja. Os jovens saudáveis de hoje têm o culto da alegria. Como o futuro é muito imprevisível, eles têm de aproveitar o dia de hoje da melhor maneira possível. Nós tínhamos tudo muito certinho. Quando entrei para medicina já sabia que ia ser psiquiatra, e depois sabia que ia ter emprego. Estava tudo previsto.

Porque é que decidiu ir para psiquiatra?

Fui muito influenciado pela filosofia. Tinha uma professora fantástica, a Dra. Maria Luísa Guerra. Os bons professores continuam a ter uma influência enorme nas nossas escolhas, e foi esse o caso. Eu achava que a psiquiatria ia explicar o que era a guerra, o amor, os comportamentos, e depois, claro, percebemos que a vida é mais complicada do que pensamos aos 17 anos. Achava que a psiquiatria tinha respostas para todos os problemas.

E tem?

Há doenças graves, como a doença bipolar e a esquizofrenia, que podemos controlar mas não tratar. Hoje em dia as terapias são incrivelmente mais avançadas. E depois há uma série de situações muito fáceis de tratar, desde que reconhecidas, como a depressão. Ao contrário do que se pensa, a grande maioria das depressões cura-se e a pessoa não volta lá, se o tratamento for bem feito.

Voltando ao adolescente sério que era, a segurança deu-lhe a possibilidade de explorar o seu lado sombrio?

Claro que sim. Quando nos sentimos mais seguros, exploramos melhor o mundo e descobrimos o sentido da nossa vida.

Hoje eles exploram menos o mundo?

Exploram de outra maneira. Mais imediata. Hoje há o culto do imediatismo, tudo tem de ser já. Estamos numa sociedade sem memória. As pessoas recordam muito pouco alturas importantes da sua vida, estão demasiado obcecadas a viver o momento.

Serve para quê, a memória?

Para encontrarmos um rumo. Para perceber os lados positivos da minha vida, e descobrir o meu caminho. Sem memória, andamos de um lado para o outro sem saber quem somos.

Que tipo de geração é esta que não tem um rumo?

A resposta imediata e a ausência de reflexão vêm em grande parte das novas tecnologias . O acesso à informação é tão rápido que eles perderam o gosto pela pesquisa. Não têm concentração para isso, nem prazer nisso. Um neto meu fez um trabalho sobre a Sophia de Mello Breyner. Achou graça ao facto de ela ser mãe do Miguel Sousa Tavares mas já não quis saber do pai. E enquanto eu ia buscar a obra completa da Caminho, ele procurava o poema na internet e dizia ‘Ai não me interessa o poema todo, só tenho que citar aqui uns versos’. E estamos assim. A citar uns versos. O conhecimento é muito rápido e muito pouco aprofundado.

Que consequências é que isto tem?

Consequências importantes ao nível das pessoas em que se estão a tornar. A geração atual tem criatividade, tem iniciativa, mas corre o risco de se tornar muito superficial. Por exemplo, eles leem cada vez menos. Não têm paciência nem concentração.

Estamos em tempos difíceis: crise, terrorismo, desemprego, austeridade. Ainda é possível ser feliz?

É possível: desde que se consiga construir a nossa história de vida, o nosso projeto. E depois, pensarmos que a felicidade se conquista no dia-a-dia. Ninguém é permanentemente feliz. Mas podemos ter muitos momentos de felicidade. Temos é de lutar por ela.

A lição de Daniel

Psiquiatra, professor e escritor, completa 70 anos e afirma que vai dar o lugar aos outros: ‘Não quero ser daqueles velhos chatos que ficam para sempre’. É diretor do Serviço de Psiquiatria do Hospital de Santa Maria, cofundador do Núcleo de Estudos do Suicídio, do Núcleo de Doenças do Comportamento Alimentar e da Sociedade Portuguesa de Suicidologia. Foi um dos introdutores, em Portugal, da Terapia Familiar, a partir da Sociedade Portuguesa de Terapia Familiar. Tem-se dedicado ao estudo dos problemas dos jovens e das suas famílias, e organizou, no Hospital de Santa Maria, o atendimento de jovens com anorexia e bulimia. Divulgador na rádio e nos jornais, é ainda autor de mais de 20 livros. É pai de três filhos, João, Miguel e Daniel, e avô de sete netos.

 

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