“Crianças que brincam mais no recreio também aprendem mais na sala de aula” entrevista a Carlos Neto

Julho 18, 2017 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia da http://www.tvi24.iol.pt/ de 5 de julho de 2017.

Patrícia Pires

Esta é uma excelente notícia por parte do Ministério da Éducação”. É desta forma que Carlos Neto, investigador Faculdade de Motricidade Humana, reage à notícia de que os alunos do 1.º Ciclo vão ter menos duas horas e meia de aulas por semana, ou seja, mais tempo para brincar no recreio.

Este investigador, que há muito defende a importância de brincar para as crianças, considera que este tempo pode permitir “mais atividade física e socialização, num recreio mais desafiante, mas também para terem mais prazer de estar na escola”. Até porque, lembrou durante a entrevista que deu na TVI24, “no 1º ciclo os currículos são extensos e intensos e as crianças estão muitas horas nas salas de aulas”.

Apesar desta novidade implicar uma “reorganização do horário diário”, Carlos Neto acredita que “isso não é uma dificuldade na maior parte dos casos”.

Mas o investigador lembra agora que “é preciso saber como se vai usar esse tempo”. “Um recreio tem de ser desafiante, as crianças têm de ter coisas interessantes para fazer”.

E há coisas essenciais. Apostar no que elas gostam:

“O jogo social, a atividade física, o jogo do faz de conta”. Ou seja, “necessitamos de ter recreios com mais qualidade de estimulação.”

E é por isso que Carlos Neto defende “um modelo de requalificação de espaços de recreio” e, na sua opinião, a tarefa “podia ficar a cargo das Câmaras Municipais”.

Dar tempo para brincar, mas “um tempo de qualidade, que tenha materiais, que tenha espaços adequados, que tenha risco, autonomia suficiente… para que elas possam fazer brincadeiras que tenham a ver com o seu nível de desenvolvimento”.

E para que não fiquem dúvidas quanto ao real valor da brincadeira, Carlos Neto ressalva:

“As crianças que mais brincam no recreio e que mais socialização fazem, também aprendem mais na sala de aula. Ou seja, este tempo maior no recreio pode ter uma contribuição fundamental nas aprendizagens escolares.”

O investigador vai longe e diz que “a dicotomia sala de aula/recreio devia acabar. As escolas deviam assumir que o recreio faz parte da sala de aulas e do processo de aprendizagem”.

Mas não só. O brincar é ainda mais e pode determinar como seremos no futuro. Carlos Neto lembra que “nos últimos 20 anos desapareceram dos recreios quatro ações fundamentais para o desenvolvimento das crianças: pendurar, balançar o corpo, trepar e saltar”.

“Tiraram as árvores – normalizaram os espaços -, tiraram o material solto, não há hortas, não há areia, não há terra”, explica o investigador. “Falta o risco”, lamenta. Em seguida, lembra que este tempo extra pode ter mais aspetos positivos como, por exemplo, “combater o sedentarismo e uma certa iliteracia físico-motora”.

Considerando que estamos numa época de férias escolares, que nem sempre coincidem com as férias familiares, Carlos Neto defende que esta é “uma boa altura para fazer experiencias diferentes, coisas malucas, pouco habituais. Por exemplo, andar de bicicleta, subir montanhas, nadar no rio, ir para a praia”.

Ou seja, coisas diferentes da rotina habitual e como “o tempo de férias ficam para sempre na memória”, o investigador diz que é preciso ter isso em mente quando se escolhem Atividades de Tempos Livres para ocupar os mais novos ou colónias de férias. “O contato com a natureza é essencial”.

visualizar a entrevista a Carlos Neto no link:

http://www.tvi24.iol.pt/sociedade/escola/criancas-que-brincam-mais-no-recreio-tambem-aprendem-mais-na-sala-de-aula

 

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Sedentarismo infantil = Ausência do Brincar (alfabetização motora) – Palestra de Carlos Neto no Teatro Miguel Franco em Leiria (8 de junho)

Junho 6, 2017 às 4:47 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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mais informações:

http://www.cm-leiria.pt/frontoffice/pages/617?news_id=2762

Desporto sem bullying : comportamentos de bullying : guidelines para pais

Maio 6, 2017 às 6:00 am | Publicado em Recursos educativos, Site ou blogue recomendado | Deixe um comentário
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O “Desporto sem Bullying” é um projeto de investigação-ação que sensibiliza as comunidades educativa e desportiva sobre bullying na formação desportiva, promovendo a intervenção direta através de 3 estratégias fundamentais – criação de ferramentas (guidelines e manuais),  formação de treinadores e intervenção especializada nos clubes (com acções de consultoria ou desenvolvimento e implementação de planos Anti-Bullying).

descarregar o guia no link:

http://www.desportosembullying.pt/files/uploads/2017/04/guidelines-bullying-pais.pdf

mais informações:

http://www.desportosembullying.pt/

Uma entrevista para pais, dirigentes e treinadores. “Os atletas brincaram muito na rua e foram felizes, não se fabricaram em laboratório”

Março 13, 2017 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista de Carlos Neto ao http://tribunaexpresso.pt/ de 1 de março de 2017.

marcos-borga

Carlos Neto é professor e investigador da Faculdade de Motricidade Humana e não há ninguém melhor para explicar como a formação desportiva em crianças e jovens deve ser feita. É que a atual, em Portugal, não está adequada às necessidades dos mais novos, explica à Tribuna Expresso, ressalvando também que é urgente formar… os pais

Mariana Cabral

[começa a falar antes da pergunta] Bem, gostava de começar por dizer que, em pleno século XXI, o fenómeno desportivo é um fenómeno social de grande envergadura em termos mundiais, o que significa que nunca o desporto teve tanto impacto na sociedade como nos dias de hoje. Quer de um ponto de vista económico, porque é de facto uma economia gigantesca, como social, porque motiva todas as idades e credos, e ultrapassa fronteiras em todos os espaços geográficos e culturas diferenciadas. De facto tornou-se um fenómeno nunca visto na vida do homem. Significa que tem impacto ao longo da idade, desde as crianças até aos idosos, quer quanto a praticantes, quer quanto a espetadores, quer quanto aos que são agentes relacionados com o desporto, sejam treinadores, dirigentes ou formadores. É um fenómeno de facto fantástico. Hoje em dia temos imensas crianças e jovens a fazer atividade desportiva organizada e estruturada, o que significa que há uma expectativa muito forte destas crianças poderem atingir sucesso.

Tem tudo a ver com o mediatismo do desporto?

Também. É evidente que nas últimas décadas os orgãos de comunicação social são responsáveis por tornar o fenómeno desportivo altamente mediático e altamente participativo em todo o mundo e em todas as culturas. O que significa que de um ponto vista sociológico, de um ponto de vista cultural, de um ponto de vista político, a prática desportiva em crianças e jovens e adultos tornou-se de facto viral. É algo que faz parte da vida, não só em termos de objetivos de saúde, em termos de objetivos pedagógicos, mas também do ponto de vista que é o treino de alto rendimento, o espectáculo desportivo, com todos os seus ingredientes de natureza emocional, de natureza psicológica, de natureza económica, de natureza antropológica. Diria que a prática desportiva faz parte do quotidiano dos portugueses e praticamente de todas as sociedades. O que é interessante aqui analisar é a questão de como a formação desportiva em crianças e jovens deve ser feita.

Pelos clubes ou pelos pais?

Necessariamente a questão da família, a questão do clube, do local onde pratica, que também pode ser na escola. Os pais têm um papel absolutamente fundamental na capacidade de guiar os seus próprios filhos nessa prática desportiva. Nos últimos anos têm vindo a ser feitos alguns estudos no sentido de demonstrar como o comportamento parental é uma variável muito importante neste processo. É claro que podemos discutir esta questão do ponto de vista das perceções que os adultos têm do que deve ser a vida dos filhos. Normalmente os pais têm uma tendência quase patológica de querer colocar nos filhos as frustrações do seu próprio processo de desenvolvimento desportivo e querem que os filhos sejam campeões a qualquer preço, e muitas vezes esquecem-se que eles são seres humanos em crescimento, que necessitam de aprender coisas fundamentais da vida, que necessitam de um acompanhamento escolar como deve ser… E tudo isso está integrado. Significa que há aqui perceções, crenças, valores e imaginários que é preciso compreender, quer do ponto de vista das crianças e jovens, quer do ponto de vista dos pais, quer do ponto de vista dos treinadores. Esta trilogia pais-treinadores-crianças… é absolutamente importante falar nisto hoje em dia. Há um assunto que considero da maior importância, que é, como é que se dá valorização à formação desportiva dos jovens do ponto de vista de criação de valores, de cidadania.

É preciso mais desportivismo e menos competitividade?

O desporto é uma atividade absolutamente fascinante para tornar as pessoas mais cidadãs, com mais humanismo, com mais socialização e com mais capacidade crítica e mais capacidade de perceber o mundo que as envolve. Portanto há aqui constragimentos sociais e políticos que muitas vezes são centrados numa preocupação excessiva de querer uma competitividade fora das características de desenvolvimento da criança e do jovem e por outro lado um sucesso muito rápido e a qualquer preço. Os campeões não se fazem à pressa. Tem que ser respeito o seu processo de desenvolvimento e têm que ser respeitadas as motivações intrínsecas das crianças. E há aqui algumas regras que são absolutamente fundamentais: é preciso ter tempo para crescer. Ainda recentemente, a Telma Monteiro, uma grande atleta olímpica portuguesa, dizia, porque começou a atividade desportiva de judo muito tarde, “deixem as crianças brincar”, e depois então fazer a atividade desportiva. E, de facto, é preciso que as crianças primeiro tenham uma vivência variada do seu próprio corpo, que tenham uma exploração diversa de vários tipos de atividades, que possam construir uma cultura motora básica e fundamental, que seja essencial depois para uma capacidade adaptativa a habilidades e atividades mais específicas mais tarde. Claro que isto varia muito de modalidade para modalidade desportiva, não podemos comparar a aprendizagem na ginástica aos jogos coletivos, são duas dinâmicas distintas. Mas é preciso que as crianças construam primeiro a sua própria identidade, brinquem muito na infância, consigam correr riscos, consigam fazer uma diversidade de atividades, de modo a ganharem essa cultura motora básica, que é o pré requisito para terem sucesso mais tarde, do ponto de vista de atletas.

Puxando o exemplo do futebol, atualmente fala-se muito da necessidade do futebol de rua no desenvolvimento de talentos, mas hoje em dia já não temos futebol na rua, praticamente. Como é que pomos uma criança na rua, a brincar, a subir às árvores?

Vivemos num tempo de grande sedentarismo e as crianças sofrem por isso. É um tempo de analfabetismo motor, porque elas não têm de facto uma literacia corporal adequada, porque o tempo de brincar na rua desapareceu, está em vias de extinção. As crianças hoje não têm tempo para brincar, explorar com os amigos a rua, não jogam à bola – porque uma coisa é jogar futebol, outra coisa é jogar à bola. É preciso dizer que há declínio enorme nas últimas décadas do ponto de vista de tempo e espaço para brincar. Para ter uma ideia, 70% das crianças em Portugal brincam menos de uma hora por dia. As crianças hoje têm menos tempo para brincar do que os prisioneiros nas prisões, que têm mais tempo de ócio fora das celas. Tempo, na infância, passou a ser um treino muito organizado, muito estruturado, muito limitado. Temos currículos escolares muito extensos e intensos, e a criança passa muito tempo sentada e quieta, sem mexer o corpo. É uma criança sedentária por princípio, devido ao facto de se terem criado agendas muito organizadas.

Mas a educação física na escola não tem sido permanentemente desvalorizada? Sim, de facto tem sido completamente desvalorizada. Mas penso que há, no entanto, boas notícias, deste ministério atual e deste governo atual, porque vai ser implementada a educação física no 1º ciclo com um professor coadjuvante que ajuda o professor titular e isso é uma boa medida. Está a ser feita neste momento uma reflexão sobre os objetivos da educação em Portugal e há 30 dias para discussão pública. É uma boa oportunidade. Também foi feita uma revisão das recomendações para o ensino pré-escolar que considero absolutamente fundamental: a motricidade, o movimento, o jogo, são coisas fundamentais nessas idades porque é aí que tudo começa, isto é, a atividade física começa mais cedo do que as pessoas julgam. Não se fazem campeões a partir dos 12, 13, 14 anos. Começa antes, mas é preciso perceber qual é a conceção que se deve trabalhar nas primeiras idades.

Não se deve trabalhar em especificidade, portanto. Primeiro deve haver uma diversidade de atividades, numa atitude lúdica, e mais tarde é que vem a especialização. Porque, repare, a criança tem direitos no desporto. A criança tem direito de expressar, em primeiro lugar, a sua individualidade. Isto é, o pai não pode impor. Quem decide? Esta é a pergunta. Os pais ou as crianças? O pai não pode impor a modalidade desportiva que o filho deve praticar, em função de alguma frustração ancestral. Não pode ser feito dessa forma. Depois as crianças devem ser tratadas como crianças e não como atletas. Deve ser respeitado o seu processo de desenvolvimento. Também devem participar de forma independente, isto é, quando fazem desporto deve ser respeitado o seu nível de habilidade e, obviamente, devem competir com os seus opositores mas em função de valores, daquilo a que se chama o fair play. Tem de haver fair play na formação desportiva, para não acontecer depois aquelas coisas desgraçadas e lamentáveis que acontecem no desporto dos adultos, ao mais alto nível. A criança deve poder decidir quais são as atividades que quer fazer. Conheço imensos jovens que começaram a fazer ginástica, depois foram para o atletismo, depois natação, depois ténis… e se calhar acabaram por ser grandes atletas no futebol, por exemplo.

Quem é muito bom numa modalidade normalmente também tem aptidão para outras modalidades. Exatamente. Há uma cultura motora eclética, uma cultura de rua intensa e uma apropriação de habilidades muito diversificada. Os atletas de alto nível brincaram muito na rua e foram felizes, não se fabricaram em laboratório. Há aqui muitas variáveis em jogo que têm a ver com o local onde vivem, onde crescem, a identidade do lugar… Os estudos biográficos demonstram que o sucesso desportivo ao mais alto nível está diretamente ligado à qualidade de vida que tiveram na infância e à estimulação diversificada que tiveram do ponto de vista motor e do ponto de vista social. Isso é perfeitamente claro. Há crianças que são talentosas e em termos dos clubes não se pode impor desde muito cedo uma prática muito especializada sem explorar primeiro as tendências que essa criança pode apresentar. E isto não é só no desporto, também é nas áreas artísticas.

Mas, às vezes, quando os treinos são mais lúdicos dão a sensação de desorganização e há pais que depois reclamam. Preferem ver filas e obediência.

Uma das maiores prioridades que deve haver é discutir este tema, que recentemente foi promovido pela Panathlon clube, em conjunto com o Comité Olímpico: o papel dos pais no desporto. De facto, é preciso fazer formação parental. É urgente que os clubes façam escolas de formação de pais. Os pais têm de perceber que os seus filhos não podem ter um sucesso a qualquer preço. Têm de respeitar os níveis de envolvimento, têm de respeitar os treinadores e as perspetivas de aprendizagem que eles têm. Os pais têm de compreender bem primeiro que tem de haver uma educação motora básica, um saber inicial fundamental no qual se suporta uma especialização, mais tarde. É um processo progressivo que tem de respeitar várias fases de desenvolvimento. A especialização desportiva deve obedecer a níveis de desenvolvimento e de aprendizagem, a etapas de ensino no processo desportivo. Por isso, as crianças devem ter uma aprendizagem muito lúdica numa primeira fase e depois então quando consolidam essas habilidades motoras específicas é que podem treinar num sentido mais exaustivo. Aliás, há um estudo que foi recentemente publicado pela academia americana de pediatria, em que é demontrado efetivamente que os benefícios de uma criança praticar desporto são enormes, quer do ponto de vista da capacidade de liderança, do prazer que têm em fazer desporto, da autoestima, da autoconfiança, da autoregulação, do sentido de equipa, da capacidade de aprendizagem de capacidades motoras mais complexas e da socialização em pares, que é uma questão fundamental nos tempos de hoje, as crianças têm de ter amigos. Mas também é verdade que se sabe que cerca de 70% destas crianças não chegam ao mais alto nível. Quer dizer que há aqui um fenómeno no meio que é preciso que os pais tenham consciência e a sociedade em geral tenha consciência, é que dos milhares de crianças que fazem prática desportiva organizada durante anos nem todos têm sucesso, nem todos podem chegar ao topo. Quer dizer que pelo caminho perdem-se imensos e esse é um fenómeno que devia ser mais estudado em Portugal e que não está efetivamente bem consciencializado, quer por treinadores, quer por pais, quer por dirigentes, quer por políticos, que é o abandono desportivo. Há muito abandono desportivo em Portugal, provocado por métodos de treino que não estão adequados, que desmotivam as crianças, e por pressões que muitas vezes existem de pais e treinadores para que as crianças tenham sucesso, e não têm.

Neste caso o sucesso entendido apenas e só como a vitória, correto?

Exatamente. Por outro lado, também se sabe que só 30% dos desportistas, uma percentagem muito baixa em Portugal, conseguem continuar os seus estudos nas escolas. O que significa que tem de haver aqui uma preocupação de haver coerência entre o processo desportivo e a escola, porque é fundamental que o cidadão tenha uma formação mínima. E muitas vezes sacrifica-se a formação escolar pela formação desportiva. Isto tem de ser bem pensado em Portugal. As crianças não podem ser vítimas de uma expetativa social e familiar de querer o sucesso a qualquer preço, fazendo disto um negócio em que todos tenham de ser Cristianos ou Messis.

Os piores pais são esses, que querem que os filhos, ainda crianças, sejam jogadores à força toda?

Exato. Como já disse, é preciso fazer a formação dos pais e a primeira mensagem que temos de transmitir é que é importante que a criança tenha uma formação escolar, que o sucesso desportivo não pode ser a qualquer preço, que tem de haver uma variedade de atividades físicas e desportivas numa primeira fase antes da especialização… É preciso que eles compreendam isso. Se você for ver aí, não só no futebol, mas noutras modalidades, quando os pais estão a observar treinos é inaceitável o que se passa, diria mesmo que é uma vergonha. É um atentado à dignidade social e cívica das crianças. Os nomes que os pais chamam, as ofensas que fazem aos treinadores, aos árbitros, aos próprios filhos… Isto não é aceitável em lado nenhum. Quer dizer que tem de haver uma dignificação no que é a formação desportiva, porque não se pode confundir o que é o desporto de alto nível com o que é o desporto de formação. E infelizmente em Portugal tem-se discutido muito pouco, tirando as universidades, que fazem investigação, o que é a formação desportiva de jovens. E não é só no futebol, é em todas as modalidades. Hoje em dia, em todo o mundo, estão em debate duas questões essenciais na formação desportiva: a seleção de talentos e a questão da especialização. Quanto à seleção de talentos, isso já está muito discutido e sabemos que é um fenómeno multifatorial, mas quanto à especialização tem de se saber de uma forma clara, de um ponto de vista cientifíco, que é necessária uma formação motora global, primeiro, e só depois a formação específica. Diria que há quatro fases na formação desportiva: a estimulação motora, que é brincar e adquirir um repertório motor genérico; uma fase em que se associam vários tipos de habilidades e a criança começa a ter uma capacidade de organizar tarefas motoras mais complexas; depois então uma escolha de atividades desportivas até chegar à fase de transição para uma especialização motora, que implica muito trabalho, persistência e resiliência. É preciso muitas horas de prática. Repare, para se ter sucesso desportivo não basta fazer meditação, não é?

É preciso treinar.

É preciso trabalho, muitas horas de prática. E essas horas de prática roubam muito tempo a outras coisas fundamentais na vida. Há muitos atletas que perderam a sua infância e a sua adolescência, e é preciso medir bem isto na balança do que se quer na vida. Os atletas que conseguem sucesso são verdadeiros heróis, porque muitas vezes investiram toda a sua infância e adolescência num objetivo, que é ganhar uma medalha. Mas há estudos muito críticos sobre isso. Uma medalha não vale a vida de uma criança, não é? Mas, enfim, o que interessa aqui é focar esta triangulação pais-jovem-escola. A política desportiva de formação tem de ter em atenção que as crianças e jovens têm direito ao seu desenvolvimento normal, como qualquer cidadão praticante de desporto, e que há que haver um balanço entre a prática desportiva e o tempo escolar.

Há tempo para tudo?

Em Portugal há muitas famílias que vivem um verdadeiro inferno a gerir a vida dos filhos entre o tempo escolar e o tempo de prática desportiva nos clubes, e é preciso suavizar isto. Diria, por exemplo, que é preciso não atirar as culpas todas para cima dos pais, porque de facto a forma como em Portugal se gere o tempo de vida é algo que é inconsistente do ponto de vista dos modelos de qualidade de vida das famílias que existem na comunidade europeia. Porque nós temos pais cansados, que trabalham demasiadas horas e que têm pouco tempo para os filhos. Há uma falta de harmonização entre o tempo de trabalho, o tempo passado na escola e o tempo passado na família, para além do tempo passado no clube. No meu prédio vejo crianças a chegarem a casa às onze da noite, vestidas a rigor dos treinos, e os pais completamente exaustos, e se calhar ainda vão fazer os trabalhos de casa e no outro dia às 7h da manhã já estão a sair de casa. Portanto isto atingiu uma dimensão patológica. É preciso suavizar isto e fazer uma prática desportiva humanista, com uma perspetiva de poder respeitar os direitos da criança no desporto mas também o direito à vida, ao prazer, a ter sucesso escolar. Veja-se o que acontece nas camadas jovens, nos infantis, nos iniciados, nos benjamins, com aquelas classificações todas que existem, em que as crianças já fazem uma competição como se fossem adultos. Acho inaceitável ver crianças a aprenderem a ser guarda-redes com quatro anos de idade, por exemplo. Isto é um disparate conceptual. Os modelos que existem de formação desportiva nos clubes têm de ser repensados. Têm de haver formação especializada para os dirigentes, para os pais, mas também para os treinadores, porque tem de ser perceber o que é uma criança e um jovem em desenvolvimento. Nós precisamos, com as federações, com as associações, com as próprias instituições do Estado – estou a falar do Instituto do Desporto…

Os cursos de treinador em Portugal foram remodelados há pouco tempo.

Sim, já houve coisas interessantes que foram feitas, mas ainda falta fazer muitas coisas. Porque depois temos no desporto um ciclo de influências muito complexo que vai desde a perspetiva dos media até à perspetiva do país em relação ao número de medalhas, ao número de atletas, ao sucesso. Mas nós não podemos ter medalhas fruto do acaso, como tem sido até aqui. Isto tem de ser visto como um sistema que tem de ser bem pensado, sob um ponto de vista de formação de base, de formação intermédia e de formação especializada. E depois há os pais que, como já disse, têm de ter formação.

Um “mau” pai será aquele que pergunta ao filho “ganhaste?” e um “bom” será o que pergunta “gostaste do jogo?”

Sim. Nós temos normalmente quatro tipos de comportamento parental. Temos os pais desinteressados, que têm algumas vantagens – eu sou desse tempo, o meu pai não sabia bem qual era a minha vida desportiva na escola e no clube -, depois temos os pais mal formados, que têm uma visão errónea do desporto e às vezes comportam-se de forma inaceitável de um ponto de vista verbal, não verbal, de pressão sobre as crianças, os treinadores e os árbitros. Depois temos os pais excitados, que se colocam excessivamente na vivência do desporto dos próprios filhos. E depois temos os pais fanáticos, aqueles que querem o sucesso a qualquer preço. Temos vários comportamentos. Há pais que são excessivamente críticos, muito exaltados, aquilo que chamamos de treinadores de bancada. Outros são super protetores e hoje o maior drama da sociedade é a super proteção. Esta super proteção não dá autonomia às crianças e aos jovens. São muito controlados. Isto acontece na escola e no clube. Nós temos hoje muitas crianças que até têm alguma aptidão motora mas depois são demasiadamente frágeis do ponto de vista emocional e cognitivo, porque são super protegidas. Os pais levam-nas aos treinos, vão lá buscá-las, observam tudo o que se passa, perguntam tudo o que acontece… A criança é uma vítima, de algum modo, e não tem autonomia. Para se ter sucesso desportivo é preciso ter-se autonomia, capacidade crítica, capacidade criativa e inovadora. Para se ser campeão tem de se ser também, de algum modo, caótico. Quero crianças e jovens ativos, impertinentes, que façam perguntas, que tenham motivação, que tenham objetivos. Quero crianças selvagens no desporto, porque são essas crianças selvagens que vão ser os verdadeiros campeões do futuro. Não podem ser totós. Nós hoje temos crianças que são rejeitadas pelo próprio sistema desportivo, porque não têm jeito, porque são gordinhas, etc. E isso é muito mau, porque é o reflexo de uma contradição que está a acontecer no desporto e na escola em Portugal, que é por um lado haver uma super proteção dos pais e ao mesmo tempo quererem que eles sejam génios. Esta super proteção é uma das maiores pragas que temos hoje na formação de crianças e jovens no mundo escolar e desportivo.

Quando os pais não os podem levar de carro, há jovens que dizem que não podem ir ao treino.

Que vão a pé. Neste momento o sucesso comanda o processo – e não pode ser. Tem de se respeitar outras coisas, como já disse. Uma formação correta e bem fundamentada do ponto de vista pedagógico, científico e técnico, daí ter de haver formação de treinadores, havendo também formação sistemática nas federações, associações e clubes, com estratégias bem delineadas do que deve ser o perfil de formação em todos os escalões e em todas as fases de desenvolvimento da criança. Ter muito atenção ao abandono desportivo, estudar as razões do abandono, se as crianças quiserem desistir têm esse direito, mas não se podem expulsar a qualquer preço as crianças que não têm jeito. A questão que se coloca da dispensa deixa algumas crianças traumatizadas para toda a vida pelo facto de terem criado uma expectativa que depois não se realiza e ninguém se preocupa com isso, só se preocupam em formar os talentos. Então e aqueles que desistem? É preciso repartir o tempo passado no clube e o tempo passado na família, porque as crianças têm direito a estar com os pais e a ter tempo livre. Em Portugal não houve coragem política até agora de fazer esta harmonização do tempo. Porque se você for a qualquer país nórdico vê que às 16h30 sai toda a gente e vão todos buscar os filhos à escola, todos têm tempo. Aqui, um indivíduo que trabalhe mais do que 12 horas se calhar é considerado um indivíduo altamente competente – e é tudo ao contrário. Não estão a ser respeitados os tempos de sono e de lazer, e está a sacrificar o tempo em benefício do trabalho. E quem paga isto são as crianças e os jovens, porque os pais não têm tempo para eles e eles não têm tempo para brincar. Nós fizemos aqui um estudo recente na FMH sobre a formação desportiva e o bullying, a violentação que acontece entre pares no clube. É uma amostra gigantesca de todas as partes do país, do sexo masculino, em várias modalidades, e verificámos que no contexto desportivo há de facto bullying e isso é muito preocupante. Isto acontece principalmente no balneário, onde não está ninguém e aí os treinadores e pais não têm acesso. Encontrámos 11,5% de agressores e 10% de vítimas, o que é elevadíssimo. E essas crianças dificilmente comunicam o bullying aos adultos. Estas crianças que sofrem bullying no clube mais cedo ou mais tarde abandonam. Fizemos também uma retrospetiva com atletas de alto nível para identificarem situações de bullying no seu processo desportivo. Temos neste momento um projeto com o IPDJ que é o cartão vermelho ao bullying e estamos a criar um projeto dirigido à formação desportiva com linhas condutoras para os treinadores, pais e dirigentes.

Se os clubes identificarem que a criança não está a ter sucesso escolar devem falar com os pais e castigá-la no âmbito desportivo?

Não tem de haver castigos. Acho que tem de haver coerência e diálogo entre os treinadores e os pais, na regulação e no acompanhamento que as crianças devem ter no ponto de vista do treino e no ponto de vista da escola. Não estou a falar das academias onde as crianças já ficam a dormir, com uma grande estrutura que dá apoio. Estou a falar de uma forma mais genérica. Os estudos internacionais mais recentes têm vindo a demonstrar que a tendência é desvalorizar a escola a favor do sucesso desportivo. E nós temos de resolver este assunto, porque a criança tem direito de ser um cidadão bem formado e não se pode dimunuir a a importância da sua formação escolar. Tal como comecei a dizer-lhe no início, o desporto é um fenómeno de grande envergadura atualmente, mas tem depois aspetos muito negativos.

Como por exemplo?

Não lhe posso contar casos concretos que conheço, mas há pais que sacrificaram toda a sua vida para que os filhos tivessem êxito. Mudaram de residência, mudaram de país, endividaram a sua própria vida e depois acabou tudo mal. Há também a situação absolutamente chocante de africanos que vêm para a Europa para fazer desporto de alto nível e que ficam abandonados nas ruas, esquecidos, porque não tiveram êxito. É uma verdadeira vergonha europeia. Até com crianças de sete, oito, nove anos já se fazem contratos porque se pensa que vão ser grandes talentos. E isso acontece um pouco por todo o mundo. O fenómeno tem um lado sagrado, mas também tem um lado perverso. Por exemplo, qual é o nível de participação das crianças na sua formação desportiva? É tudo imposto. Tal e qual como nas escolas, onde têm de estar sentadas, quietas e a ouvir professores cansados, velhos e chatos. O que é que elas gostariam de fazer no treino? Algumas vez os treinadores ouvem as crianças? Os pais ouvem os próprios filhos? A formação de crianças e jovens em Portugal é de uma visão autocrática e isto é mau, porque as crianças do século XXI mereciam outro respeito e um processo mais democrático. Haveria mais participação, um melhor ambiente, mais entreajuda… como acontece nos países que já o fazem de forma mais adequada, como o Canadá e alguns países nórdicos. As crianças não são atletas em miniatura. Eu posso fazer um campeão à martelada. Se repetir exaustivamente, eu chego lá. Só que ele não vai ser criativo, não se vai adaptar, vai morrer cedo. Se eu fizer um atleta inteligente, dinâmico, com capacidade adaptativa, esse é que vai ser um bom atleta, e quero na formação um modelo que forme estes atletas. O Cristiano Ronaldo é um caso exemplar. Vem de uma família pobre, vivenciou muito a sua infância na rua, foi para um clube, teve a sorte de ter uma boa condução no desporto, tem uma boa capacidade pessoal de trabalho parar ter sucesso. Não há milagres no desporto, é preciso muito trabalho. E para uma criança ter muita resiliência é preciso ter uma grande capacidade de autoregulação emocional, autoconfiança e autoestima. Hoje há muitos fatores a jogar contra as crianças, como já dissemos. Elas não têm tempo para ser selvagens. Para se ser um atleta de alto nível tem de se ser selvagem no decorrer da infância e da adolescência. Isto é um bocadinho agressivo, sei que é perigoso o que estou a dizer, mas eu não quero crianças totós no desporto. Quero crianças com uma grande vivência física e emocional, que sejam impertinentes e resolvam problemas. Crianças com energia. Não quero crianças obedientes. É como os meus alunos. Em 40 anos de aulas aprendi isso. Aquela criança que está quieta e em silêncio, à espera que eu a comande… isso não tem sentido. E no desporto começa a passar-se isso.

Mas é muito isso que se valoriza hoje em dia, a obediência e a quietude.

Está a acontecer uma espécie de fabricação de campeões em laboratório, o que é uma ilusão. Tem de haver um trabalho correto ao nível do clube, da escola, do desporto escolar, da educação física… Porque o trabalho no clube e no desporto escolar é para os que têm mais jeito, mas a educação física é para todos. Mas em todos estes casos há que respeitar as tais etapas de desenvolvimento das crianças e dar-lhes autonomia e liberdade de participação. Creio que o desporto em Portugal tem de ser repensado nesta perspetiva, tal e qual como a escola tem de ser repensada e até os clubes – ou seja, todos os locais onde se pratique desporto organizado e intencional. Não é só a escola que precisa de reforma, é necessária também uma reforma na formação desportiva em Portugal. Digo isto com toda a convicção. Dou aulas aqui na universidade e vejo como é que os meus alunos vêm dos clubes. Na formação desportiva o objetivo não é focarmo-nos no produto, marca, resultado, medalha. Temos de nos centrar na qualidade do processo de treino e de formação. Se não o que acontece é que as crianças sofrem e desistem, porque temos um modelo centrado na cabeça dos adultos, centrado em atingir o sucesso a qualquer preço. Mas, como disse, não se fazem campeões à pressa. Qual é a criança que não gosta de brincar? Qual é a criança que não gosta de explorar a sua envolvente? Qual é a criança que não gosta de ter amigos? Qual é a criança que não gosta de ter autonomia? Qual é a criança que não gosta de sair de lá feliz? Qual é a criança que não gosta de correr riscos? É que às vezes nos clubes está tudo sistematizado, tudo organizadinho, e não há nenhum risco a correr. Assim não se faz formação. Como é que vamos resolver isto? Tem de haver uma grande intervenção por parte da tutela, com políticas desportivas bem sistematizadas, no sentido de produzir documentos e informação. Temos de repensar a formação desportiva em Portugal e eu sei que o que estou a dizer vai ser muito criticado e vou levar muita pancada, mas eu digo: a formação desportiva em Portugal precisa de ser remodelada. Ainda ninguém em Portugal pensou como se faz a formação de pais. Os clubes devem ter regulamentos em relação aos comportamentos dos atletas mas também em relação aos pais. Há clubes no estrangeiro em que se os pais têm um comportamento inapropriado, a criança é expulsa do clube. Tal e qual como precisamos de uma reforma do sistema educativo para uma visão mais humanista, nós precisamos de uma revisão do sistema de formação desportiva numa perspetiva mais respeitadora dos direitos das crianças e dos jovens. Esta agora foi bem dita, não foi? [risos]

 

 

 

Investigador defende mais tempo em família do que na escola

Março 12, 2017 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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notícia do http://lifestyle.sapo.pt/ de 19 de fevereiro de 2017.

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O investigador Carlos Neto defendeu esta sexta-feira que as crianças já passam muito tempo na escola e que o importante é discutir um novo modelo de trabalho dos pais.

“As crianças já passam muito tempo na escola, ao contrário do que acontece noutros países europeus”, disse à agência o especialista, para quem o importante é discutir um novo modelo de organização social do tempo de trabalho dos pais, que reforce o tempo passado em família.

Para o catedrático da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa, os pais precisam de ter mais tempo para os filhos e as crianças precisam de mais espaço para brincar e estar em contacto com a natureza.

A posição surge a propósito da intenção do governo, inscrita na proposta de Orçamento do Estado, de alargar “a escola a tempo inteiro” a todo o ensino básico, ou seja, até ao 9.º ano.

“Os currículos hoje estão a ser demasiado rigorosos quanto ao número de horas exigidas pelo sistema de educação”, afirmou, defendendo que sobra “muito pouco tempo para criar um equilíbrio” entre o que é espontâneo e o que é organizado.

“Em muitos países onde estes estudos existem, os horários de trabalho têm mais alguma flexibilidade. Por exemplo, pode-se começar a trabalhar mais cedo e sair mais cedo, os pais às 16:00 saem e vão buscar os filhos à escola e têm mais tempo em família”, indicou.

O que está em causa, sublinhou, é “uma repartição do tempo entre a família e a escola”, é a criança ter mais espaço natural com os amigos, “poder correr mais riscos, ter mais autonomia, mais capacidade adaptativa”.

Segundo Carlos Neto, as crianças estão hoje sujeitas a um nível excessivo de “sedentarismo, analfabetismo físico e superproteção”.

As atividades extracurriculares, frisou, “não compensam o facto de não se subir a uma árvore ou a um muro, de andar de bicicleta ou de patins”.

Cair, escorregar, equilibrar-se, são atividades que “devem fazer parte da adaptação ao mundo”, sustentou: “As crianças têm hoje super agendas, é preciso suavizar isso”.

Neste sentido, o catedrático defende uma discussão em torno de uma nova organização social do tempo, que contemple o tempo escolar, laboral e familiar. “É preciso audácia política para fazer isto”.

A experiência de 40 anos de trabalho com crianças levou-o a concluir que o tempo de recreio é fundamental para a saúde mental e física da criança.

“As crianças e os jovens não têm margem para a descoberta livre, com experiências audazes, correndo riscos em função de situações imprevisíveis, por forma a ampliarem competências motoras, sociais e emocionais imprescindíveis à sobrevivência no futuro”, lamentou.

De acordo com Carlos Neto, existe um ambiente “excessivamente institucionalizado e um tempo disposto com atividades muito padronizadas”, que contraria a natureza ativa e as necessidades humanas de brincar e socializar livremente.

“As vivências de um corpo em ação permanente são fundamentais para uma infância feliz e empreendedora no futuro e, por isso, se não existirem têm repercussões colossais na construção do ser humano”, alertou o investigador.

artigo do parceiro: Nuno Noronha

 

 

 

“É inacreditável que hoje se passeiam mais os cães do que as crianças”

Setembro 28, 2016 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista do http://www.dn.pt/ a Carlos Neto no dia 26 de setembro de 2016.

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Carlos Neto é professor e investigador da Faculdade de Motricidade Humana de Lisboa | António Pedro Santos / Global Imagens

Ana Bela Ferreira

Há mais de 40 anos que o investigador Carlos Neto trabalha com crianças e está preocupado com o sedentarismo. “Há pais que já não têm prazer em brincar com os filhos”

A falta de autonomia das crianças é culpa das famílias ou das escolas que também as ocupam demasiado tempo?

Eu diria que temos de encontrar um conjunto de fatores para explicar o fenómeno, porque não se pode pôr culpas a ninguém em particular. Veja-se a cidade de Lisboa e o inferno que é às seis da tarde e às oito da manhã e a maneira como as famílias têm de se encarregar de distribuir a vida dos filhos no tempo escolar e para além da escola. Por outro lado, não há uma política habitacional pensada do ponto de vista de criar uma mobilidade saudável no crescimento e no desenvolvimento dos jovens. Só dessa maneira é que se pode compreender o que é que está a acontecer com o baixo índice de mobilidade que temos em Portugal. Os estudos que fizemos em 16 países demonstram que ficámos em 14.º lugar. Muito abaixo dos países escandinavos, onde essa mobilidade é muito elevada, onde têm uma autonomia muito grande e vivem a natureza e o território da cidade de forma plena. Em Portugal, e nos países do Mediterrâneo, a situação é muito complexa, porque há perigos diversos e depois há medos que se instalaram na cabeça dos pais.

Mas esses perigos não existem também nos países nórdicos?

Eles têm uma filosofia de organização do tempo e do espaço completamente diferente. Significa que os nossos jovens e crianças têm muita dificuldade em ter essa autonomia desde muito cedo, porque encontram diversos constrangimentos. Desde o trânsito, o fenómeno da urbanização, a maneira como o tempo escolar e o tempo de trabalho dos pais está organizado. Por outro lado, ganhou-se um medo enorme de as crianças andarem autónomas na rua. A rua desapareceu, está em extinção como local de jogo, de brincadeira, de encontro de amigos. O problema da socialização é uma das questões mais importantes que se colocam hoje na nossa juventude e nas culturas de infância. Temos aqui um problema muito sério que só pode ser resolvido com medidas corajosas e arrojadas do ponto de vista político.

Isso significa facilitar os transportes, criar espaços verdes?

Espaços verdes, política habitacional mais adequada à política educativa e também à gestão do tempo de trabalho dos pais. Está tudo demasiadamente formatado e as crianças e jovens precisam que isso seja desconstruído para a vivência do corpo em situações mais espontâneas e mais naturais, do espaço construído e do espaço natural da cidade. Quando falamos em índice de mobilidade baixa, isso significa que temos de atuar em várias frentes para tornar mais sustentável uma vida feliz e com sucesso das crianças e jovens porque elas merecem. E acima de tudo uma perspetiva de não repressão do corpo em movimento porque o sedentarismo não é só físico, é também mental, social e emocional. A investigação científica tem demonstrado claramente que quem mais faz atividade física, mais brinca na infância, mais tem relação com os amigos, são crianças que normalmente têm mais sucesso no futuro, mais rendimento escolar e obviamente têm um índice de felicidade e de empatia muito maior.

Mas hoje as crianças quase só se relacionam com as outras em atividades organizadas.

Praticamente está tudo organizado quer do ponto de vista das atividades no meio escolar quer nas atividade extraescolares. Se isto ainda não bastasse têm depois uma cultura de ecrã muito agressiva. É muito natural ver crianças à volta de uma mesa de café e não se falam, estão todas a olhar para o iPhone. O corpo em movimento é fundamental para todo o desenvolvimento, não só emocional, também cognitivo, social e emocional. A escola tem de urgentemente mudar o modelo de funcionamento, quer na organização curricular quer na forma como as crianças são mais ou menos participativas. Temos de dar uma espécie de um trambolhão na sala de aula, no sentido de tornar as aulas mais ativas por parte das crianças.

Falta uma política de brincadeira?

Há alguns sinais interessantes do Ministério da Educação de tentar que a vida na escola não seja uma coisa tão formal e tão séria, isto é, de ter tempos mais disponíveis para expressão dramática, educação física, música, dança ou um conjunto de atividades que consigam que o corpo disponibilize maior capacidade expressiva, de empatia, de modo a tornar os cidadãos mais cultos, com maior capacidade de ética e de cidadania e portanto não estar apenas centrado nos rankings. Está provado cientificamente que crianças com maior nível de atividade física e relacional no recreio aprendem mais na sala de aula. Portanto, não podemos querer crianças sedentárias ou a ouvir um conhecimento que muitas vezes não lhes interessa. O ensino não pode ser isto no século XXI.

A gestão do tempo da família também tem de mudar?

Temos de dar um ar fresco a este país, este país não pode estar com esta depressão enorme em que temos pais e professores esgotados, porque as crianças reparam em tudo. Há pais que já não têm prazer em brincar com os filhos, e há professores que já não têm capacidade de perceber a importância dessa atividade espontânea do que é correr atrás de uma bola, subir a uma árvore, fazer um jogo de grupo no recreio ou pura e simplesmente subir o muro e tentar descobrir o que está do lado de lá. Ou ter locais secretos. Como é que nós promovemos a saúde pública e mental numa perspetiva de maior cidadania, de maior empreendedorismo e de maior grau de felicidade? É isso que está em causa quando falamos em promover o corpo em movimento. Nunca foi tão importante o papel dos pais e da família na educação dos filhos no que diz respeito à implementação deste tipo de atividades. Sair com as crianças para a rua e brincar, desfrutar a natureza. Os pais têm de ter mais tempo disponível para fazer este tipo de atividades. É inacreditável que hoje se passeiem mais os cães do que as crianças. Inacreditavelmente faz-se hoje um esforço inadmissível de tornar os robôs mais humanos e ao mesmo tempo estamos a robotizar o comportamento humano.

 

Conversa “Libertem as Crianças” disponível na íntegra

Agosto 3, 2016 às 8:00 pm | Publicado em Vídeos | Deixe um comentário
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texto e vídeo do http://observador.pt/ de 12 de julho de 2016.

A Conversa do Observador “Libertem as Crianças” aconteceu no passado dia 5 de julho, no Jardim da Estrela. Foram quase duas horas de conversa que pode ver aqui na íntegra.

observador

 

 

Crianças presas em espaços fechados não aprendem nem crescem

Julho 7, 2016 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo do Observador publicado no dia 21 de junho de 2016.

getty images  iStockphoto

OBS Lab

Quanto mais protegemos as crianças mais as aprisionamos. De tal maneira que muitas acabam por passar menos tempo ao ar livre do que os detidos em estabelecimentos prisionais. A mudança é urgente.

E se lhe dissessem que 70% das crianças portuguesas passam menos tempo ao ar livre por dia do que os 60 minutos recomendados para os detidos em prisões? Provavelmente não acreditaria, mas é verdade. A conclusão é de um estudo levado a cabo pela marca Skip no nosso país e vem reforçar as convicções de vários especialistas, segundo os quais é necessário fazer algo para mudar a situação com urgência. Preocupada com o desenvolvimento infantil a marca publicou nas últimas semanas um vídeo online que alerta justamente para esta questão.

Uma das vozes que mais se tem feito ouvir nesta matéria é a de Carlos Neto, professor catedrático e investigador da Faculdade de Motricidade Humana (FMH). Nas suas palavras, esta tendência de manter as crianças em espaços fechados “retira-lhes a possibilidade de poderem viver uma infância feliz, por não experienciarem situações corporais que são próprias da idade e fundamentais na formação da sua personalidade e identidade”.

O Professor revela que “são crianças muito protegidas e aprisionadas corporalmente quanto a possibilidades de confronto com o espaço físico exterior”, lembrando ainda que esta não é uma situação exclusiva de Portugal: “Verifica-se de forma generalizada por todo o mundo e tem vindo a assumir dimensões muito preocupantes na perspetiva dos direitos e da saúde das crianças.”

Pandemia do controlo

Mas como é que se chegou a este ponto? Carlos Neto não hesita em apontar o dedo àquilo que designa por “pandemia do controlo adulto das experiências de movimento na infância” ou “terrorismo do não”. As consequências são as que se adivinham e o professor, a trabalhar com crianças há mais de quatro décadas, enumera-as: “Promove uma pobreza de cultura motora, criando condições para que se instale uma iliteracia física, prejudicial ao desenvolvimento de estilos de vida saudável nestas idades e ao longo da vida.”

alteraçõesEmbora admita a importância do estabelecimento de regras na educação dos mais novos, realça que “os pais atuais têm uma preocupação excessiva, e por vezes obsessiva, em não permitir que os filhos corram riscos em situações de movimento ou de atividade física”. O problema é que, ao impedirem o confronto com o risco físico, estão a “contribuir para um aumento do sedentarismo e analfabetismo motor na infância”. Sublinha ainda que “aprender a mover o corpo em liberdade e sem constrangimentos é uma necessidade crucial para o desenvolvimento motor, cognitivo, emocional e social da criança”.

Desaparecimento da rua

Questionado sobre o contexto que levou pais e educadores a aprisionarem as suas próprias crianças, o professor elenca diversos motivos. Entre eles, o “desaparecimento da rua enquanto local de jogo”, muito por via da crescente urbanização das cidades, aumento do tráfego automóvel e ausência de políticas públicas dirigidas ao bem-estar na infância. Ao mesmo tempo, assiste-se ao “excessivo alarmismo dos órgãos de comunicação social sobre os perigos a que as crianças estão sujeitas”, levando à redução da permissão dada pelos pais para que se desloquem sozinhas.

O que os pais não sabem – ou facilmente esquecem – é que esta via da proteção excessiva está longe de ser benéfica para os filhos: “Brincar é ganhar confiança em si próprio e é também o melhor caminho para evitar o acidente, ou seja, quanto mais risco mais segurança.”

Ainda assim, o fundador e antigo presidente da Sociedade Internacional para Estudos da Criança não tem dúvidas em afirmar que “hoje temos melhores pais, melhores famílias, melhores crianças e melhor sociedade do que há anos atrás. O que está em causa é o aparecimento de novos problemas associados à educação das crianças do nosso tempo que podem estar a colocar em perigo a sua identidade, autonomia e necessidades básicas de desenvolvimento biológico e cultural”, alerta.

Mudanças precisam-se

Para inverter a situação são necessárias mudanças urgentes. Entre elas, Carlos Neto destaca “mais políticas públicas dirigidas à infância” e também “mais coragem política” na adoção de modelos que permitam conciliar melhor o trabalho dos pais com a escola e a família.

Na sua perspetiva, “a angústia da gestão do tempo dos filhos instalou-se na vida quotidiana dos pais, tornando-se um dos fenómenos mais intrigantes do nosso século”. Como resultado, os mais novos estão a ser vítimas daquilo que designa como um “inconsistente modelo de organização da vida social”. Pais cansados e em stress por excesso de horas de trabalho, por um lado, e crianças com agendas excessivas de tempo escolar e extraescolar, por outro, não permitem pensar na existência de tempo disponível para uma relação equilibrada e saudável do tempo para brincar entre pais e filhos”, afirma. E acrescenta mesmo que “de forma paradoxal, no nosso tempo passeiam-se mais os cães do que as crianças”.

Defende que “as cidades devem ser amigas das crianças e desenvolver projetos adequados às suas necessidades de desenvolvimento”. Para tal, considera que é necessária uma “nova cultura governamental das cidades e do seu planeamento”, contribuindo para a qualidade de vida das populações. Algo que já está “em grande desenvolvimento em muitas cidades do mundo”, nomeadamente nos países escandinavos, sublinha.

5Mais presos, menos atentos

Comparar o tempo de recreio dos detidos em estabelecimentos prisionais com o tempo de recreio escolar é, para Carlos Neto, uma “forma inteligente de demonstrar o que está a acontecer na infância atual”. Apoiado em diversos estudos sobre o assunto, lembra que está demonstrado que “crianças ativas no recreio são aquelas que aprendem melhor dentro da sala de aula”, revelando mais capacidade de atenção e concentração. Por esse motivo, entende que “necessitamos de valorizar o tempo de intervalo escolar no projeto educativo das escolas públicas e privadas” e os “recreios devem ser estruturados de forma a ser aliciantes para as crianças”.

Lamenta que o tempo de recreio escolar seja uma espécie de “terra de ninguém”, acabando por ser “pouco valorizado pelos adultos”. “É caso para dizer que as crianças aprendem muito no recreio e deveriam brincar mais dentro da sala de aula”, sintetiza, explicando que “cerca de 90% dos reclusos presos por homicídio foram privados de brincadeira na sua infância”.

Este artigo foi desenvolvido ao abrigo da parceria entre o Observador e a SKIP.

 

 

Conversas “Libertem as crianças” no Jardim da Estrela dia 5 de julho

Julho 2, 2016 às 6:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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conversas

mais informações:

http://observador.pt/eventos/conversas-observador-libertem-as-criancas/

 

Crianças ativas no recreio aprendem mais

Março 17, 2016 às 2:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Em entrevista exclusiva à Gazeta do Povo, o professor Carlos Neto fala sobre como o recreio pode ser um meio para melhorar os resultados dos alunos.

A importância de uma boa experiência no intervalo das aulas – seja em escolas públicas ou privadas – ainda é subestimada, diz o professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa, o português Carlos Neto. Nesse caso, a realidade portuguesa equivale à brasileira, onde o recreio, espremido em parcos 20 minutos, serviria apenas a interesses disciplinares ou de horários de professores, sem dar conta da necessidade da criança de realizar jogos físicos e de socializar. “O intervalo torna-se uma terra de ninguém, algo pouco valorizado por adultos por ser visto como atividade improdutiva”, diz.
Em entrevista exclusiva à Gazeta do Povo, o professor fala sobre como deveriam ser os recreios e como as aulas podem ser mais estimulantes e atingir melhores resultados.

GP: Como os alunos enxergam hoje o recreio?
Carlos Neto: Para muitos ele é o último reduto de brincadeiras livres. Porém, ele deveria ser valorizado e estruturado de forma a ser envolvente quer quanto às qualidades de estimulação dos espaços físicos (superfícies, espaços naturais, equipamentos lúdicos, brinquedos) quer quanto ao seu tempo de duração.

GP: Qual a importância desse intervalo para as crianças?
Carlos Neto: Crianças ativas no recreio aprendem melhor em sala de aula. Quem apresenta um jogo de atividade física moderada e mais socialização no intervalo têm mais capacidade de atenção e concentração nas aprendizagens escolares consideradas úteis. Muitos estudos demonstram uma forte relação entre atividade física e lúdica e rendimento escolar. Crianças fisicamente ativas têm cérebros mais ativos e aprendem com mais sucesso as linguagens abstratas. Isso implica revisão e mudança no modelo organizativo do cotidiano da vida das crianças em sala.

GP: E como ele deveria ser?
Carlos Neto: Deveria ser desafiante, permitindo brincadeiras livres sem supervisão exagerada dos adultos (proibição da margem de risco e de atividades de exploração dos espaços existentes), permitindo que as crianças realizem atividades próprias da idade: jogos de corrida, luta e perseguição, ações de trepar, de equilíbrio e vertigem, jogos com bola, jogos tradicionais e simbólicos e de dramatização, e relação com elementos naturais (água, areia, terra, plantas). Estas atividades deveriam enquadrar-se de forma coerente com o projeto educativo da escola.

GP: A agenda das crianças está cheia?
Carlos Neto: As crianças têm hoje uma agenda completamente estruturada em atividades organizadas e na maior parte com caraterísticas sedentárias. Os currículos escolares são cada vez mais extensos e intensos e as crianças passam a maior parte do tempo sentadas. Muitas ficam até 8 horas por dia na escola e ainda frequentam escolas paralelas com atividades extracurriculares. O tempo cotidiano de vida infantil é, deste modo, todo organizado, estruturado e formatado. Este é um problema sério para o normal desenvolvimento das crianças do nosso tempo.

GP: Porque isto ocorre?
Carlos Neto: Os pais são obrigados a “depositar” os filhos na escola durante muitas horas por dia para que esse tempo seja compatível com os seus horários de trabalho. São urgentes políticas públicas e harmonização entre o tempo de trabalho, o tempo escolar e o tempo em família. Muitos países do centro e norte da Europa elaboraram mudanças políticas para fornecer mais qualidade de vida às famílias e mais tempo para os pais brincarem com os seus filhos.

GP: Como seria a aula “ideal” para crianças ativas?
Carlos Neto: Diversas escolas de todo o mundo tentam mudar o paradigma clássico de pedagogia para modelos mais dinâmicos de ensino-aprendizagem, que permitam que as crianças sejam mais ativas dentro de sala. Muitas evidências científicas demonstram que a alternância regular entre estar sentado e ativo melhora a capacidade de aprendizagem e rendimento escolar.

GP: Como isso se daria na prática?
Carlos Neto: A valorização do corpo em movimento dentro da sala de aula passa pela introdução de pausas para atividades de escuta (meditação e respiração) e exercícios de mobilização do corpo (jogo de atividade física). Elas não precisam estar sempre sentadas (inativas) durante a aula e mudar mesas e cadeiras pode fazer com que os saberes possam ser trabalhados e assimilados com mais prazer, mais motivação intrínseca e mais participação em grupo.

GP: Quais os benefícios de aprender com o corpo em ação na sala de aula?
Carlos Neto: Isso permite encontrar várias soluções pedagógicas que serão muito mais gratificantes na infância e permitirão mais sucesso acadêmico. Será necessária uma redefinição dos modelos de uma pedagogia ativa e centrada nas necessidades das crianças e uma nova postura dos professores quanto à definição do projeto educativo da sua escola.

Crianças ativas no recreio aprendem melhor em sala de aula. Quem apresenta um jogo de atividade física moderada e mais socialização no intervalo têm mais capacidade de atenção e concentração nas aprendizagens escolares consideradas úteis.
O recreio deveria ser desafiante, permitindo brincadeiras livres sem supervisão exagerada dos adultos (proibição da margem de risco e de atividades de exploração dos espaços existentes), permitindo que as crianças realizem atividades próprias da idade: jogos de corrida, luta e perseguição, ações de trepar, de equilíbrio e vertigem, jogos com bola, jogos tradicionais e simbólicos e de dramatização, e relação com elementos naturais (água, areia, terra, plantas).
A valorização do corpo em movimento dentro da sala de aula passa pela introdução de pausas para atividades de escuta (meditação e respiração) e exercícios de mobilização do corpo (jogo de atividade física). Elas não precisam estar sempre sentadas.

Gazeta do Povo, 19 de Fevereiro de 2016

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