O que transforma um jovem num assassino?

Junho 9, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social, Livros | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.publico.pt/ de 29 de maio de 2017.

Reuters/© Nacho Doce / Reuters

Investigação de sociólogo brasileiro afasta problemas familiares, consumo de drogas e pobreza como causas principais para a adesão de jovens a grupos criminosos violentos.

Nem famílias desestruturadas, nem a pobreza, nem o consumo de drogas. O factor mais vezes identificado no percurso de vida de um jovem autor de crimes extremamente violentos, e que mais frequentemente o distingue de outros adolescentes de origens humildes, é o abandono escolar.

Esta principal conclusão de um estudo inédito de quatro anos do sociólogo brasileiro Marcos Rolim, que abrangeu 111 jovens rapazes com idades entre os 12 e os 19 anos, e que visou identificar o que leva algumas pessoas a cometerem crimes de extraordinária violência, ferindo ou matando alguém mesmo sem provocação ou reacção da vítima.

De acordo com a BBC Brasil, que cita a investigação A formação dos jovens violentos – Estudo sobre a etiologia da violência extrema, os 111 jovens cujos percursos foram analisados correspondiam a cinco grupos de indivíduos. O primeiro era constituído por rapazes que cumpriram pena por crimes violentos num estabelecimento prisional juvenil, a Fundação de Atendimento Socioeducativo do Rio Grande do Sul (FASE). Após entrevistar estes jovens, Rolim pediu a cada um que indicasse um amigo de infância sem ligação ao mundo do crime, formando um segundo grupo de análise.

O terceiro grupo era composto por jovens a cumprir pena por homicídio na Prisão Central de Porto Alegre, e um quarto era formado por reclusos do mesmo estabelecimento, mas condenados pelo crime de receptação.

O último grupo de análise era constituído por jovens sem cadastro que estudavam numa escola da periferia pobre de Porto Alegre.

Em entrevista ao jornal online brasileiro Sul21, Rolim afirma que em todos os grupos existia um denominador comum: “pobreza, a perda de familiares e famílias desestruturadas”. Ou seja, nenhum destes factores parecia pesar na evolução de um percurso pessoal para uma vida de crime especialmente violento.

No entanto, Rolim identificou um padrão: os jovens autores de crimes violentos tendiam a abandonar a escola mais frequentemente os adolescentes de outros grupos analisados. Aliado a este factor, foi identificada ainda a aproximação destes jovens que abandonavam a escola a grupos violentos onde eram incitados a cometer crimes graves e ensinados a utilizar armas. Ou seja, a experiência de socialização da escola era substituída pela frequência de uma verdadeira escola de crime violento.

O abandono escolar ocorre por norma entre os 11 e os 12 anos de idade. Os jovens analisados referem como motivos o facto de sentirem “burros” ou de considerarem as aulas algo “chato”.

Em sentido inverso, os elementos do segundo grupo, os amigos dos reclusos do centro juvenil, tinham percursos escolares normais e não enveredavam por uma vida de crime violento, apesar de partilharem as mesmas origens económicas e familiares dos amigos detidos.

Escolas divorciadas das comunidades

Rolim conclui que se “os jovens de classes populares apostarem na sua formação por mais tempo, isso irá reduzir a mão-de-obra para o crime”.

No entanto, o sociólogo ressalva que há jovens que querem sair do mundo do crime, mas que “têm medo” medo de represálias por parte dos bandos que integram – em muitos casos, o castigo é a morte.

Apesar de Rolim não ter focado a sua pesquisa no abandono escolar, o sociólogo afirma que a incapacidade de os professores lidarem com jovens de certos perfis pode ser um dos principais factores da desistência dos alunos: “Um jovem que nunca abriu um livro, que tem pais analfabetos, vai ter uma preparação diferente que os restantes jovens, e grande parte dos professores não está preparado para lidar com estas situações”.

À BBC Brasil, o investigador afirma que outra causa potencial do fenómeno é a falta de ligação entre as escolas e as comunidades mais pobres e violentas. A educação oferecida nesses estabelecimentos, “a mesma de há 50 anos”, é para o sociólogo um factor determinante para o abandono escolar.

De acordo com o relatório regional de Desenvolvimento Humano de 2013-2014, elaborado no âmbito do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), 63,5% da população prisional brasileira terá tido acesso a armas antes de atingir os 18 anos. O mesmo relatório mostra que a maior taxa de abandono se regista no período entre o 5.º e o 9.º ano de escolaridade.

 

 

Sessão de apresentação do livro “Acolhimento Juvenil no Mundo”, Palácio Nacional de Mafra, 9 de Junho

Junho 5, 2017 às 9:00 am | Publicado em Divulgação, Livros | Deixe um comentário
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A Dra. Manuela Eanes, Presidente honorária do Instituto de Apoio à Criança escreveu o prefácio do livro.

mais informações:

http://www.paje.pt/

http://www.sitiodolivro.pt/

Interesse Superior da Criança

Junho 3, 2017 às 5:03 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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descarregar o documento no link:

http://www.dgpj.mj.pt/sections/DestBanner/direito-da-crianca-a-ser/downloadFile/file/Int_Sup_Crianca_NET.pdf?nocache=1496313608.87

 

A escola que nunca desiste dos seus alunos deu um livro

Maio 19, 2017 às 12:00 pm | Publicado em Livros | Deixe um comentário
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Texto do http://www.noticiasmagazine.pt/ de 8 de maio de 2017.

 

A Escola da Ponte, à qual muitos chamam a escola mais democrática do país, fez 40 anos. O romancista e ex-jornalista Paulo M. Morais foi espreitar o que por lá se faz de tão extraordinário e a experiência deu um livro: «Voltemos à Escola», da Contraponto.

 Texto de Sara Dias Oliveira

O modelo é conhecido. Não há salas de aula, há espaços de aprendizagem. Não há filas de carteiras, há mesas redondas. Não há aulas, há tempos. Não há disciplinas, há valências. Não há professores, há orientadores educativos. Não há diretor, há gestor.

A Escola da Ponte nasceu na aldeia de Vila das Aves, em Santo Tirso, em 1976, há 40 anos – a NM entrevistou José Pacheco, fundador da escola, em março passado [leia aqui a entrevista]. Paulo M. Morais, romancista e ex-jornalista, resolveu escrever um livro sobre este projeto peculiar e que já motivou mais de 40 trabalhos de investigação.

Paulo M. Morais quis perceber como a Escola da Ponte ensina de forma diferente há 40 anos, como esta escola mexe com a ordem estabelecida. Levava imensas perguntas na cabeça quando chegou à Ponte. Os alunos fazem o que querem? Aprendem alguma coisa? Porque só existe uma escola assim em Portugal? O modelo é replicável? Há estudos sobre os resultados desta escola? Isto resulta? Pediu autorização para entrar, teve permissão, andou à vontade, conheceu a dona Helena da reprografia, o senhor Serafim, o funcionário que faz o que for necessário, alunos e professores.

No primeiro dia, chegou atrasado à escola que entretanto se mudou para a vila de São Tomé de Negrelos, também em Santo Tirso, que o GPS não deteta, com estrada de empedrado, estreita, quase sem espaço para dois carros se cruzarem – mas onde só no ano letivo passado estiveram mais de 1200 visitantes, quase metade do Brasil. Entrou, viu na janela do átrio da escola os direitos e os deveres dos visitantes afixados e foi percebendo de que cepa é feita esta escola que esticou do 1.º ciclo até ao 9.º ano de escolaridade. Na hora da despedida, custou-lhe dizer adeus.

«Visitar uma escola na Finlândia é ir ao encontro de uma realidade que tem por detrás o apoio dos responsáveis políticos educativos. Visitar a Escola da Ponte é ir ao encontro de um pontinho minúsculo do mapa de Portugal. É ir à aldeia gaulesa dos livros de Astérix, um último reduto que resiste teimosamente às sucessivas cargas do império escolar», conta.

Esta escola é um exemplo de resiliência. Paulo M. Morais leu livros, entrevistou José Pacheco, falou com alunos, ex-alunos, professores, funcionários. Trocou impressões com gente que decidiu estudar o que acontece na Ponte. «A história da Escola Ponte é uma história de pessoas apaixonadas. É uma história de resistência, como tantos já disseram, mas principalmente de paixão pelas crianças, pela educação, pelo futuro. É uma escola que requer uma entrega própria dos apaixonados; que demanda um compromisso próximo da fé», escreve o ex-jornalista que fez crítica de cinema, viajou pelo mundo com uma mochila às costas, foi pai de uma menina e plantou um pessegueiro – e, neste momento, traduz romances e livros de não ficção e tem vários livros publicados, entre eles Revolução Paraíso e O Último Poeta.

Paulo M. Morais quis saber o que pensa quem ali passa ou passou o tempo. Hélder, aluno de 14 anos, fala com conhecimento de causa. «O efeito que a escola teve em mim foi aprender a estudar e saber assumir os erros». Catarina, de 13 anos, também escreveu o que pensa num papelinho. «Deu-me mais responsabilidade, autonomia e mais sentido na vida, ao longo do meu futuro. Também me fez estudar ao meu ritmo e conseguir seguir a minha vida com maior responsabilidade». Adelina Monteiro, 12 anos de professora, 11 dos quais na Ponte, conta como é ensinar nesta escola. «A Escola da Ponte é crescimento em comunidade, num exercício pleno de cidadania interventiva, crítica, implicada, responsável. A Escola da Ponte é afeto, é conhecimento, é uma ponte para a transformação social.»

Na Escola da Ponte, cada aluno é único e irrepetível. Ali vive uma comunidade educativa que pratica a escola de uma outra maneira. Igual a tantas outras espalhadas pelo país, mas que segue um caminho diferente. «Dentro das suas idiossincrasias, a Escola da Ponte é igual a qualquer outra escola. Há os alunos compenetrados, os problemáticos, os preocupados, os engraçados, os perturbadores, os carismáticos, os tímidos; há todo o tipo de alunos que se encontram noutras escolas. Mas o milagre da Ponte, como diz o senhor Serafim, talvez passe por nunca se desistir de nenhum deles», escreve o autor do livro.

Cada aluno programa o seu trabalho. Às quartas-feiras, os alunos reúnem-se em redor do seu tutor e preenchem um plano de quinzena. O tutor é quem acompanha de forma individual e permanente o percurso curricular de cada aluno. A base programática é igual à das outras escolas, a abordagem é diferente. Há seis dimensões: linguística, lógico-matemática, naturalista, identitária, artística, pessoal e social.

Acredita-se que as necessidades individuais devem ser atendidas singularmente, que cada aluno deve fazer a apropriação individual e subjetiva do currículo, tutelada e avaliada pelos orientadores educativos. E o projeto educativo coloca como um dos objetivos formar «pessoas e cidadãos cada vez mais cultos, autónomos, responsáveis, solidários, e democraticamente comprometidos na construção de um destino coletivo e de um projeto de sociedade que potenciem a afirmação das mais nobres e elevadas qualidades de cada ser humano.»

«Na Escola da Ponte, também há conflitos, problemas, alunos difíceis, queixas, discussões, amuos. E, como resposta, há paciência e também disciplina. Uma espécie de caos organizado», diz Paulo M. Morais.

Os alunos debatem e decidem tudo o que se passa na escola. Decidem quando estão preparados para serem avaliados. O autor do livro assistiu à eleição da Assembleia da Escola da Ponte, à apresentação dos candidatos e propostas, aos debates, aos votos na urna.

Cada criança define o respetivo plano de aprendizagem, de acordo com conceitos de autonomia, solidariedade e responsabilidade. «Na mesma sala, no mesmo núcleo, há alunos que aprendem diferentes coisas. Aqueles alunos, de certa forma, estão a aprender sozinhos, no seu ritmo próprio, com a sua própria lógica. Aqueles alunos estão a escolher, a optar, a decidir pelas suas próprias cabeças», adianta.

Paulo M. Morais assistiu também a um tempo de ginásio de alunos com necessidades educativas especiais, que obedece a um esquema próprio. As crianças ajudam na tarefa de ir buscar os aparelhos ao armazém. «Cada um tem tarefas específicas. Um miúdo atira uma bola de andebol ao cesto de basquete. Recebe incentivos quando encesta; não desiste quando falha. O rapazinho do trampolim continua a dar pulos; mas agora, de mãos dadas ao professor, sobe cada vez mais alto. Depois, as mãos largam-se para treinar a capacidade de ele dar uns passinhos e uns saltinhos autonomamente. Do outro lado da cortina de lona, rapazes e raparigas jogam ao ‘mata’», conta.

Na avaliação externa de 2013, feita pela Inspeção Geral da Educação e Ciência, a Escola da Ponte tirou muito bom em todos os itens. A equipa ministerial destacou «o excelente clima e ambiente educativos», «o trabalho colaborativo entre os alunos» e «a participação ímpar dos pais e encarregados de educação e dos alunos na vida do projeto.»

Esta escola não tem campainhas, as portas das salas estão abertas, o barulho nos corredores diminui à medida que os alunos entram nas salas. Tem alunos como noutras escolas, com os mesmos gostos, que têm telemóveis, andam à volta de tablets, fazem barulho no recreio. E, por vezes, a continuidade do projeto treme. «Não é nenhuma bandeira do ensino português. Bem pelo contrário. Todos os anos paira uma nuvem de dúvida sobre se o projeto Fazer a Ponte terá as condições para prosseguir nos moldes em que foi pensado. E, consoante o Governo e o ministro da Educação em funções, a relação e posição sobre a Ponte pode mudar drasticamente. É viver com o credo na boca. E, ainda assim, continuar a trabalhar como não houvesse uma nuvem negra que paira permanentemente sobre o telhado da escola.»

António Sampaio da Nóvoa assina o prefácio do livro. «É possível replicar esta experiência noutros lugares? Não. Mas é possível aprendermos com ela, mobilizarmos a mesma energia, fazer o mesmo trabalho de reflexão e de diálogo que os nossos colegas da Ponte têm feito desde 1976. Nem modas, nem imitações. Cada escola é uma escola. Irrepetível», escreve.

Voltemos à Escola chega às livrarias a 12 de maio. É apresentado no dia seguinte, a 13, na Biblioteca Municipal Almeida Garrett, no Porto, às 17h30, no âmbito do ciclo literário Porto de Encontro, com a participação de professores da Escola da Ponte. A 15 de maio, Alexandre Quintanilha e Rui Vieira Nery apresentam a obra, editada pela Contraponto, na FNAC Chiado, em Lisboa, às 18h30.

 

Sessão de lançamento do livro #GeraçãoCordão : a geração que não desliga! – 28 de março em Lisboa

Março 26, 2017 às 5:53 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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https://www.pactor.pt/pt/

 

Livro “Histórias Simples de Pessoas Simples”, escrito e ilustrado por jovens autores do CECD Mira Sintra

Janeiro 28, 2017 às 1:00 pm | Publicado em Livros | Deixe um comentário
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mais informações no link:

http://www.cecdmirasintra.org/index.php/109-ate-ao-limite-do-sonho

Entrega do donativo resultante do lançamento do livro “Erro Crasso” ao IAC-Fórum Construir Juntos

Dezembro 2, 2016 às 1:46 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Decorreu nas instalações do Instituto de Apoio à Criança a entrega do donativo resultante do lançamento do livro “Erro Crasso” (da autora Alexandra Batalha) pelo Presidente d’APP António Martins de Oliveira e pela escritora.

O lançamento deste livro (decorrido na Casa da Mutualidade no dia 7 de abril de 2016) teve assim uma vertente solidária, procurando ajudar o IAC e todo o trabalho desenvolvido pela mesma no apoio à infância.

Apresentação do livro “A análise do bem-estar das crianças e jovens e os direitos da criança” 21 de novembro em Lisboa

Novembro 18, 2016 às 1:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança, Livros | Deixe um comentário
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Entrada livre, sujeita a confirmação prévia para:

EAPN Portugal:

fatima.veiga@eapn.pt

Tel. 225420803

 mais informações:

http://www.eapn.pt/eventos/1037/apresentacao-do-livro-a-analise-do-bem-estar-das-criancas-e-jovens-e-os-direitos-da-crianca

Livro “Os Mochinhos da Sabedoria a trabalhar a Atenção” – estimulação cognitiva para crianças da creche e do pré-escolar (2 aos 6 anos de idade)

Novembro 9, 2016 às 6:00 am | Publicado em Livros, Recursos educativos | Deixe um comentário
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mais informações:

https://www.facebook.com/SandraCostaeEquipa/

https://www.chiadoeditora.com/livraria/os-mochinhos-da-sabedoria-a-treinar-a-atencao

“A humilhação atua por acumulação: quanto maior e mais duradoura, mais paralisante se torna”

Outubro 21, 2016 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do http://expresso.sapo.pt/ de 20 de outubro de 2016.

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Luciana Leiderfarb

O bullying não aumenta porque sim. E a forma de o erradicar envolve toda a comunidade. Compreender e tipificar o fenómeno é um primeiro passo para o combater. O segundo é quebrar o ciclo de silêncio entre os agressores, as vítimas e os seus pares.

Sónia Seixas é psicóloga educacional e investigadora com doutoramento feito na área do bullying. Dos vários livros que publicou sobre o tema destacam-se “Plano Bullying”, em coautoria com o também psicólogo Luís Fernandes; e “Cyberbullying: um guia para pais e educadores”, com Luís Fernandes e Tito de Morais, e prefácio do psiquiatra Daniel Sampaio. A sua abordagem é prática, de intervenção concreta num tecido escolar nem sempre sensibilizado para o fenómeno.

Também professora na Escola Superior de Educação de Santarém, conversou com o Expresso na véspera do Dia Mundial de Combate ao Bullying. Falou de isolamento, de vulnerabilidade, de relações de poder entre pares. Do papel do adulto na solução de um problema cuja escalada não acontece porque sim. De uma criminalização com a que concorda só em parte, apostando acima da tudo na prevenção. Da importância de saber ler marcas e sinais. E confessou-se cada vez mais assustada com o ‘derivado tecnológico’ do bullying, o cyberbullying, em que o perpetrador não se vê e a vítima o é 24 horas por dia.

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Como distinguir o bullying de outro tipo de agressão que possa ocorrer em contexto escolar?

O bullying é sempre um comportamento intencional, cujo objetivo é causar dano físico ou psicológico. Não acontece sem querer. Distingue-se de outros comportamentos agressivos por ser repetido — é um padrão sistemático de intensidade variável — e por implicar desigualdade de poder entre os envolvidos, no sentido em que um domina e o outro se sente submetido e intimidado. Esta disparidade pode ser física — um ser maior ou mais forte do que o outro — ou decorrer de questões de personalidade, como a assertividade, a inibição ou a timidez. Pode também haver disparidade numérica, quando o agressor está protegido por um grupo de pares que o incentiva.

Em que idade o bullying é mais frequente?

Os números são mais elevados a partir dos 13 anos, no 8º e 9º ano de escolaridade. É a idade da entrada na adolescência, em que aumenta a necessidade de afirmação e integração no grupo de pares, e em que podem ser utilizadas estratégias menos amadurecidas de interação com o outro. Nesta fase, os comportamentos de bullying tendem a atingir um pico de incidência, esbatendo-se com a aquisição de maturidade. Quando não diminuem têm em geral configurações mais gravosas.

Qual a importância da intervenção do adulto?

Na minha opinião, o bullying não se resolve sem o adulto, que é importante sobretudo para chegar aos chamados observadores — crianças que observam e são testemunhas do conflito. Estes miúdos precisam de ser sensibilizados, esclarecidos e capacitados para eles próprios poderem intervir. Sendo o bullying um comportamento que tende a ocorrer fora do olhar do adulto, é fundamental que os pares não envolvidos — que são a maioria — tenham consciência da sua posição, da sua vantagem numérica e do poder que adquirem se se tornarem ativos na defesa das vítimas. O adulto pode ajudar na corresponsabilização dos alunos observadores e tornar-se mais presente na supervisão do espaço escolar — aliás, esta é uma das medidas mais eficazes no combate ao bullying. Mas o trabalho começa em casa: é preciso que os pais deixem de dizer aos filhos “não te metas” e os ensinem a agir grupalmente contra uma situação personalizada de agressão.

A que sinais dos filhos devem os pais estar atentos?

Depende da fase de desenvolvimento em que a criança está, porque existem sinais que são típicos do seu amadurecimento psicológico. Há ‘sintomas’ da adolescência que coincidem com os decorrentes de casos de bullying. Os pais têm de ter alguma sensibilidade para perceber se os sinais dos filhos são próprios da idade, se respondem a questões internas do desenvolvimento da criança, ou se o sofrimento está relacionado com fatores externos. Por outro lado, nem sempre os sinais em casa são iguais aos visíveis na escola. Ali, situações como o isolamento no recreio ou o facto de se ser a última escolha nas atividades de grupo dão uma indicação do nível de integração de uma criança e da sua vulnerabilidade. Outro sinal é, por exemplo, aparecer material danificado, extraviado, escondido, sempre do mesmo aluno. Em casa, uma criança que esteve ótima durante o fim de semana e tem dores de barriga ou de cabeça na segunda de manhã desperta alguma atenção, assim como aquela que passa a pedir aos pais para a levarem e a irem buscar à escola quando isto antes não fazia parte da rotina. As marcas físicas, como nódoas negras e ferimentos, são mais difíceis de descobrir do que se pensa, porque muitas vezes ocorrem numa altura em que os pais já não se ocupam da higiene dos filhos — e estes são exímios a esconder-se. Alterações de humor, maior tristeza, abatimento e irritabilidade podem também indicar que se passa alguma coisa na escola.

Fala dos sinais das vítimas. E os dos agressores?

É mais difícil tipificá-los e mostram-se mais na escola do que em casa. Porém, os pais podem supor que o seu filho possa ser agressor na escola se ele em casa manifestar um perfil de prepotência, de necessidade de dominar (os outros e as situações), de dificuldade em sujeitar-se a figuras de autoridade, de mau perder e de problemas para lidar com a frustração. Muito provavelmente, se esse comportamento for visível e preponderante em casa, também o será na escola e com os pares.

Que tipo de feridas psicológicas podem decorrer do bullying?

Depende da severidade e do prolongamento no tempo da agressão — quanto mais severa e mais prolongada, maior a probabilidade de existirem consequências a longo prazo. Depressão, grandes níveis de ansiedade, de medo e de tristeza são frequentes nas vítimas. Depois, a fraca autoestima que decorre da impotência na resolução do problema pelos próprios meios e da humilhação constante. A humilhação atua por acumulação: quanto maior e mais duradoura, mais paralisante se torna. Por isso, se as primeiras respostas dos miúdos vitimizados forem respostas de assertividade, de confiança ou de humor, os agressores desistem e procuram outro alvo. Nesses casos, em geral, a tentativa de bullying não prospera.

Quais os fatores de risco das potenciais vítimas?

O isolamento pode ser um fator de risco, sendo as redes de amizade um fator protetor. Há aspetos pessoais, ligados a um temperamento mais submisso ou mais inseguro. Os agressores em geral são exímios na leitura dos outros e escolhem os que sentem que são mais frágeis.

É coautora do livro “Cyberbullying — Guia para Pais e Educadores”. Este tem sido um assunto cada vez mais estudado, por ser cada vez mais frequente. Como se lida com ele?

O telemóvel é cada vez mais uma ferramenta que dá segurança aos pais, pois permite exercer maior controlo e proteção sobre os filhos. Mas para os miúdos significa coisas completamente diferentes. O que é preciso — porque não há volta a dar quanto à sua utilização — é educá-los. No outro dia estava num encontro sobre este tema e alguém disse que dar um telemóvel a uma criança como quem lhe dá um jogo de Monopólio é o mesmo que deixá-la à noite e sozinha num parque infantil. Não é exagero: os telemóveis têm dispositivos móveis e têm internet, que é uma espécie de descampado sem regras. Os pais às vezes não dominam essa tecnologia tão bem como os filhos. Dar um telemóvel para eles usarem como se dá outro objeto qualquer é deixá-los no escuro, entregues ao perigo.

Quer dizer que o domínio da tecnologia não significa literacia tecnológica?

Exato. Há dias deparei-me com um rapaz que pensava que, por apagar um SMS já enviado do seu próprio telemóvel, também o apagaria do telemóvel recetor. Os miúdos não têm consciência da persistência e da replicabilidade dos conteúdos. Não sabem que enviarem um SMS ou uma fotografia é um ato que, depois de clicar e partilhar, não tem retorno. Criam perfis falsos dos colegas no Facebook ou no Instagram sem qualquer noção das consequências e, a meu ver, têm acesso a essas tecnologias demasiado cedo. O acesso é muitas vezes anterior à educação, à consciencialização para os perigos e para o respeito pela imagem e pela privacidade do outro. Ora, se os ensinarmos, é como se estivéssemos no parque infantil com eles. E esse ensino, essa educação, os pais muitas vezes não estão preparados para a dar.

Assusta-a esta realidade?

O cyberbullying assusta-me mais do que o bullying. É muito mais difícil de tipificar e de controlar. Já não é possível falar em observadores, porque os papéis são muito mais complexos. Tudo pode acontecer e tudo lá fica. O cyberbullying acarreta muito mais sofrimento para as vítimas, nem que seja pelo facto de estarem expostas 24 horas, enquanto na escola só o estão durante o horário escolar.

Fala-se recorrentemente da criminalização do bullying. Concorda?

Tem de ser ponderado o grau de brutalidade da agressão e a idade dos envolvidos. Aliás, a proposta de lei, que existiu e entretanto prescreveu, fixava o limite mínimo de 16 anos. Mas eu concordo acima de tudo com a prevenção, porque estamos a falar de crianças. Se o seu processo de desenvolvimento não foi devidamente acautelado, não as podemos depois criminalizar. A criança não pode ser responsabilizada isoladamente, pois ela está a crescer, precisa de ser amparada, orientada e supervisionada. E não me parece coerente nem justo que crianças sem orientação nem supervisão cheguem aos 16 anos e sejam sujeitas a um processo crime, sem que se assuma a corresponsabilidade dos pais ou dos adultos educadores. Porém, quando não há sinais de negligência e há uma pessoa que em consciência elaborou e levou a cabo um plano contra alguém, isso é diferente. É sempre necessário avaliar o trajeto da criança.

Qual a importância de existir um Plano Nacional de Luta contra o Bullying?

É fundamental. Um plano nacional de sensibilização pode prevenir, até, a necessidade de haver uma proposta de lei que criminalize o bullying. Qualquer ação que seja estendida às escolas do território nacional e que comece o mais cedo possível, de forma a prevenir possíveis evoluções e de tornar a comunidade escolar mais proativa e interventiva, fará com certeza diminuir os níveis de incidência deste fenómeno. Considero que é uma aposta de saúde mental.

 

 

 

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