Lançamento do livro “Pais Sem Pressa” de Pedro Strecht, 15 outubro em Lisboa

Outubro 14, 2018 às 1:00 pm | Publicado em Divulgação, Livros | Deixe um comentário
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Pré-Publicação: Pais Sem Pressa, de Pedro Strecht

Outubro 11, 2018 às 6:00 am | Publicado em Livros | Deixe um comentário
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Notícia do DN Life de 10 de outubro de 2018.

O novo livro do pedopsiquiatra Pedro Strecht, Pais Sem Pressa [ed. Contraponto], chega às livrarias no dia 12 de outubro. Uma reflexão sobre o que andamos a fazer com o nosso tempo e a necessidade de o dedicar mais à relação entre pais e filhos. Em exclusivo, a DN Life antecipa o terceiro capítulo do livro.

  1. TEMPO LIVRE

Escola, trabalho e lazer

Muitos sociólogos de renome mundial, como Zygmunt Bauman ou Byung-Chul Han, parecem unânimes em declarar os indivíduos deste início de século como pertencendo a uma nova espécie, posterior ao Homo sapiens sapiens: aquele que vive de e para o trabalho, consumindo aí toda a sua verdadeira energia psíquica, de forma até superior à despendida em relações afetivas reforçando o conceito de «Homo laborans».

Na perspetiva de Han, esta é a base daquela que o pensador também denomina «sociedade do cansaço», em que desde os mais jovens até aos adultos existe uma constância na queixa física e psicológica da exaustão, situação paradoxal perante a melhoria efetiva das condições de vida em geral.

O sentimento de literalmente viver como Atlas, carregando o peso do Mundo aos ombros, é sentido perante a exigência da dinâmica do dia-a-dia, em que o indivíduo se torna agressor e vítima da sua própria exigência e expectativa, soando apenas raras vozes dissonantes.

Por mim, fazia já ao contrário: punha o fim de semana de trabalho e durante os cinco dias da semana descansava. Ficávamos todos mais felizes. (J., 12 anos)

No entanto, talvez como nunca anteriormente, para homens e mulheres das sociedades mais evoluídas, o trabalho surge valorizado na vertente económica e de ascensão social tornando-se o objetivo central da vida, aparecendo de forma fundida com esta: a vida «é» o trabalho!

Aliás, quando chega a casa e calha em eu o ver, o meu pai só tem um tema de conversa para mim: escola, escola e mais escola. Diz que a escola é o meu trabalho! (J., 12 anos)

É provável que seja por isso que os indicadores mundiais de bem-estar das populações incluam sistematicamente palavras ou conceitos fundamentais da área da gestão ou da economia, como produto interno bruto, rendimento per capita, salário mínimo nacional, entre outros.

Estes dados quase sempre omitem outros que expressam um olhar psicossocial mais profundo, nos quais se poderia verificar que, apesar de tudo, o Homem enquanto ser capaz de sentir, pensar, ou sonhar, tem lugar central: alfabetização, cultura, saúde, justiça, proteção social e ainda, entre tantos, qualidade de habitação, horários de trabalho, possibilidade de tempo livre e de descanso.

Em sociedades munidas, em estreita dependência, de movimentos de globalização ditados em função de critérios economicistas, a vida comum gira em torno da expansão (maximização) da capacidade de trabalho individual ou de grupo, cada vez mais tomando conta da vida muito para além do tempo real dedicado à profissão.

Neste campo, as novas tecnologias tornaram-se uma balança que pede um equilíbrio difícil entre os benefícios inegáveis (e inesperados) que têm vindo a oferecer e a dependência (quase ditatorial) gerada pela dificuldade de permanecer… desligado delas.

Até quando vamos 15 dias de férias para o Algarve, está sempre ao telemóvel… diz que está a responder a coisas de trabalho. E à noite põe-se no computador. Nem sei como a minha mãe o aguenta. (J., 12 anos)

O próprio ritmo de trabalho decorre de forma extremamente veloz e em registo plurifuncional: a organização em ação e reação continuadas. Perante a velocidade impressa na tarefa, qualquer objetivo pode ser sempre revisto pelo próprio ou por outrem num brevíssimo espaço de tempo, num funcionamento em que, quanto mais se age e responde, mais desafios (horizontes) vão surgindo, numa espiral contínua, que muitos sentem como desgastante e, sobretudo, infindável.

«Não ter fim» ou «não sentir chão» surgem como sensações repetidas numa vida laboral em perfeita «queda livre», que produz um nível de tensão e ansiedade exagerados que, a breve trecho, terá consequências físicas e psíquicas já bem conhecidas. Por exemplo, a segregação de substâncias ditas «ativadoras» ou «de stresse» determina a estimulação repetida de algumas áreas cerebrais, provocando cansaço, alterações alimentares e de sono, irritabilidade, perturbação de ansiedade com ataques de pânico e sintomas depressivos com expressão somática (dores de cabeça, tonturas, entre outros), que se tornam a principal causa de morbilidade em muitos pais, jovens e famílias.

A grande revolução das últimas décadas centra-se claramente no ponto em que os múltiplos compromissos profissionais e pessoais da maioria dos indivíduos os acelera a tal ponto na dinâmica espaco-tempo que, verdadeiramente, este último se torna praticamente ausente: «não há/tenho tempo para nada», num espaço que é sempre demasiado (pré)ocupado.

Mais que um mero jogo de palavras, a ocupação do tempo tende a ser feita de forma prévia; na prática, as «agendas» dos pais, tal como em boa parte as dos próprios filhos, tendem a um preenchimento antecipado, por vezes sufocante, capaz de potenciar situações de ansiedade e/ou pânico apenas perante a mera perspetiva do dia de amanhã.

Embora uma pré-ocupação pudesse, na prática, contribuir para uma eventual organização de tarefas e atividades que proporcionassem ao Homem uma maior noção de liberdade individual e social, na maior parte das vezes ela acaba por ter o efeito oposto, quase perverso e doentio: uma autêntica prisão emocional que encarcera na rotina a longo prazo, tornando a vida monótona e desprovida de surpresa, emoção e impacto, num fenómeno emocional de apatia e «não inscrição», tal como o designou o filósofo José Gil.

Aliás, a robotização da atividade humana, agora tão falada a propósito da inteligência artificial, implica com facilidade o esvaziamento de qualquer intensidade afetiva. O plano diário segue à risca o que racionalmente «deve ser» porque simplesmente é o expectável ou o exigido.

Tenho as minhas dinâmicas todas registadas aqui no iPhone. Espere um pouco, para lhe responder melhor, deixe-me aqui ver as minhas notas e também todas as questões que lhe queria perguntar… Sabe que eu sou um homem da engenharia e da matemática, esta parte psicológica é sempre complicada para mim… (Pai de J., 12 anos)

A dinâmica relacional de muitos casais e adultos acaba por experimentar o mesmo tipo de dificuldade. Na verdade, o padrão atual relacional passa pela atividade laboral mútua, tanto do homem como da mulher, num plano cada vez mais equitativo e para ambos exigente e sobrepreenchido. Quando a própria vida do casal aparece seriamente comprometida pela falta de tempo a dois, é de assumir como fácil consequência um distanciamento físico e emocional progressivo, um maior desgaste da relação, uma oportunidade de espaço para a chegada de «terceiras» pessoas e, em caso último, a diluição da própria relação com separação e divórcio.

Já não tinha mulher, ela era apenas a mãe dos meus quatro filhos. (N., 43 anos, ex-marido de P.)

A partir de determinada altura, para ele só existia o trabalho ou, quando não, só parecia ter o desejo de fugir de casa, não estar com ninguém, não aturar os filhos. (P., 42 anos, ex-mulher de N.)

Do ponto de vista das crianças e adolescentes, algo de muito semelhante acontece, mesmo ainda antes da entrada no tempo formal de escolaridade, por altura dos 6 anos. Tendencialmente, a maior percentagem das crianças portuguesas conhece a primeira colocação extrafamiliar após o tempo de licença de maternidade ou paternidade, ou seja, ainda no segundo semestre de vida. Começa cedo a pré-ocupação dos mais pequenos, que, com frequência, podem desde bebés passar uma média de 10 horas por dia afastados de casa e dos seus adultos de referência.

Depois, segue-se a procura por parte dos pais de um trajeto pré-escolar e escolar dos filhos, onde as palavras de maior presença no seu discurso são cada vez mais familiares de rigor, exigência, disciplina, excelência, desempenho de topo!

Mesmo que o tempo respeitante ao jardim-de-infância, entre os 3 e os 6 anos, devesse ser essencialmente lúdico, centrado na evolução da relação social da criança, da descoberta de si através do outro, da importância do desenvolvimento de capacidades cognitivas e emocionais, são cada vez mais as crianças que acabam por ser sujeitas a uma precoce pré-escolarização concreta no mundo das aprendizagens formais.

Por exemplo, muitos pais valorizam jardins-de-infância que preenchem mais tempo diário com ofertas complementares variadas, embora quase todas de carácter dito pedagógico e, de preferência múltiplas, como inglês, informática ou música, em desprimor de outras mais lúdicas. É o início precoce do que está contido em palavras muito anteriores de Heidegger no conceito de «desassossego distraído».

E, mesmo quando algumas destas últimas são escolhidas pelos adultos, têm implícito o objetivo de desenvolver capacidades de desempenho em diversas áreas: escolhe-se o judo ou o karaté, porque favorecem a concentração e a atenção, o ballet já que implica regras, ordem e método. Quase nunca o que é simplesmente lúdico é objeto de primeira escolha, cada vez menos esta ou aquela criança pratica dança ou joga futebol por ser a sua atividade favorita.

Nas últimas décadas, neurologistas, sociólogos, pedopsiquiatras e especialistas de áreas afins vêm insistindo na necessidade premente de desenvolver a arte da desligação, ou seja, a utilidade de criar e valorizar espaços de descontinuidade, quebra e interrupção. Num ensaio recente sobre o dom da demora, O Aroma do Tempo, Byung-Chul Han escreve: «Suspender o movimento para refletir é um ato de coragem… A crise temporal advém da eliminação da capacidade de contemplar.»

O preenchimento excessivo do espaço psíquico por um verdadeiro lixo» emocional «pré-ocupa» a mente de forma a não permitir a existência do florescimento de outras áreas psíquicas: é como uma sementeira de monocultura, sendo que esta abafa a possibilidade de pausa psíquica, de descanso ou desenvolvimento de outras áreas pessoais e sociais que só podem existir a partir de um ponto prévio de maior vazio e espaço interior.

Pausa em tempo de pressa. Ou da necessidade oposta de procura de «pontos de fuga», como descreveu James Garbarino, pedopsiquiatra norte-americano. Tal como na conceção de um espaço abstrato, o ponto de fuga permite a noção e a necessidade de perspetiva: ver «para além de» algo ou alguém. Faz falta esta noção de distanciamento que produz profundidade reflexiva e, em tantos casos, de capacidade criativa.

A capacidade criativa não implica somente a noção de um ato artístico; neste ponto de vista, aplica-se ainda ao desenvolvimento de diversas possibilidades de resolver problemas, encontrar soluções para dificuldades diárias ou simplesmente situar o indivíduo para além de um momento concreto.

Sei que sou bom a jogar futebol. Gosto de estar ali, inventar jogadas, marcar golos, conviver com os meus amigos da equipa, que são diferentes dos da escola. Treino quatro vezes por semana, entre as 19h30 e as 21h00, mas, se me perguntarem se me canso, digo que não. É o melhor tempo da minha semana. É quando eu descontraio e já não penso em mais nada, nem em problemas. (V., 15 anos)

Muitas vezes, este ponto de fuga pode ser ainda utilizado para conseguir alcançar uma outra visão de si próprio, quer dizer, uma melhor capacidade de também olhar e envolver outros.
Permite-se assim a necessidade precoce de desenvolver uma atitude de altruísmo, inclusivamente de cada qual para consigo próprio: o conceito de autotolerância, pautado por adequação de expectativas e um equilíbrio melhor entre exigência pessoal e integração da falha ou da dificuldade.

Tal como se reforça a importância de procurar verdadeiros pontos de interesse emocional, obrigatoriamente diferentes da rotina, distantes ou mesmo em rotura com a atividade profissional ou prioritária. Algo que contenha muito mais do que uma simples compensação económica ou de ascensão social, e reforce verdadeiramente cada criança e adolescente, por vezes até revelando facetas que a própria escola não valoriza: desporto, música, artes plásticas, dança e teatro são exemplos recorrentes.

A presença de um ponto de fuga afetivo representa a possibilidade de olhar para diante, num movimento simultâneo de projeção e libertação perante o peso monótono do «aqui e agora»: o reencontro com o que pode sempre parecer de maior significado pessoal.

Emocionalmente, é cada vez mais complicado ter a perspetiva de horizonte (no espaço e no tempo), de quebra de limitação circunstancial que o quotidiano impõe. O conceito de fuga não pressupõe também a construção de um referencial, de um «porto de abrigo», expressão utilizada também por Garbarino.

É curioso verificar que todos aqueles que conseguem regularmente abdicar de algumas horas em prol destas atividades consideram este «gasto» como um verdadeiro «ganho» do seu próprio tempo. E usam frases tão significativas como algumas que surgem até em contexto clínico: «um balão de oxigénio», «a minha fonte de energia» ou «uma verdadeira pílula mágica».

Encontrar um ponto de fuga é, com frequência, poder estar ligado a atividades de fortalecimento de mecanismos de identidade e pertença, que com facilidade atuam como saudáveis válvulas de descompressão sobre múltiplas tensões acumuladas ao longo dos dias ou das semanas.

A existência de tempo de lazer correspondeu a uma longa evolução social e humana que levou séculos a ser reconhecida, não como um luxo, mas sim como um saudável direito de quem trabalha (ou estuda). Contudo, numerosos avanços registados no século XX, como o direito a dias férias, um máximo de horas de trabalho semanal, subsídios de Natal, idade de reforma ou outros, tiveram breves décadas de existência folgada para atualmente serem cada vez mais postas em causa perante cenários de precariedade ou outros exclusivamente centrados em cenários ligados aos conceitos de produção e consumo.

Curiosamente, o mesmo foi acontecendo na dimensão infantojuvenil, sendo unânime a ideia de que as crianças e os adolescentes de agora descansam e brincam muito menos do que os seus próprios pais durante o mesmo tempo de crescimento. Têm ainda uma sobrecarga desproporcionada de algumas disciplinas, consideradas fundamentais, em desprimor de outras, facilmente secundarizadas.

Alunos portugueses têm das mais pesadas cargas horárias em 1.º ciclo (…). Nos quatro primeiros anos de escolaridade somam um total de 3744 horas (…). Ainda no que diz respeito aos alunos até final do 9.º ano, Portugal apresenta dentro da União Europeia o primeiro lugar no tempo dedicado à disciplina da Matemática, que ocupa em média 20,4 por cento da totalidade dos currículos. (Maria Isabel Festas, no livro Os Tempos na Escola)

Só que nem sempre foi assim. Na verdade, muitos adultos podem ainda recordar o início de anos letivos apenas no mês de outubro, as aulas teóricas de 50 minutos seguidas de intervalos de 10 e até de 15 minutos, e ainda longos momentos de férias habitualmente gastos em proximidade com a família alargada e sem grande necessidade de programação prévia.

Hoje, perante a falta de tempo ditada por compromissos profissionais, muitos pais começam a incluir na escolha de um estabelecimento de ensino a possibilidade concreta de este se encontrar aberto durante os 12 meses do ano, mesmo que em atividades não-letivas. As pausas correspondentes a férias de Natal, Páscoa ou de verão acabam por ser vividas com algum temor por parte de muitas famílias que declaram não ter onde deixar os filhos.

A corrida à garantia máxima de um eventual sucesso escolar, mais tarde universitário e depois profissional, começa bem cedo. Nesse modelo, é fácil compreender novamente que para a sociedade em geral «tempo é (nada mais do que…) dinheiro». Assim, qualquer pausa soa a desinteresse, laxismo ou até luxo e esbanjamento.

Por outro lado, sabe-se que durante os longos anos de desenvolvimento maturativo (mais de duas décadas) o cérebro necessita de uma estimulação e funcionamento multimodal que vai bem para além de provas continuadas de memorização, retenção e repetição de informação que a escola acaba por pedir quase em exclusividade.

Na minha escola dizem-nos que há mais coisas que contam para a nota, mas não vale a pena iludirem-nos. Então agora no secundário, toda a gente sabe que no final do período a classificação é apenas a soma dos testes a dividir por dois. (H., 16 anos)

É ainda reconhecida a necessidade que o cérebro tem de desligar, isto é, de manter apenas o seu funcionamento basal, longe de outro tipo de exigências e respostas. Começando pelo aspeto mais vulgar, o caso do sono. O sono é, por natureza, a atividade reparadora de todo o funcionamento fisiológico do corpo e da mente. De 16 a 18 horas de sono que um recém-nascido pode cumprir, às oito horas consideradas mínimas ou adequadas na idade adulta, vai uma longa margem de evolução e de variabilidade própria de cada ser humano. Porém, as queixas de sono, nomeadamente as de insónia inicial, são comuns em todas as faixas etárias e têm cada vez mais um início em idades precoces. Parece que o ser humano tem hoje uma dificuldade em, simplesmente, fechar os olhos entregando-se ao chamamento do descanso. Deixar obsessivamente de pensar ou agir, quase sempre antecipando e tentando manter sob controlo o seu próprio funcionamento (e o dos outros) e entregar-se com segurança e tranquilidade ao desconhecido que a noite simboliza.

Talvez porque, para muitos, o descanso soe agora a um universo totalmente desconhecido onde o que acontece (incluindo a saudável atividade de sonho) é incontrolável e… incontornável. Habituado a contornar dificuldades, nem que seja negando-as, uma vez que lidar com a frustração, a barreira ou o limite parece algo extremamente difícil e gerador de tensão, e ainda vendo inscrito na sua matriz estrutural o desejo omnipotente de controlo, o homem comum vê no sono um inimigo temível, ao invés de um bem-vindo companheiro da paz e da tranquilidade.

O horror ao vazio e ao significado do escuro da noite faz com que esta tenda a ocorrer cada vez mais em estado de vigília (por exemplo, a diversão noturna dura até ao amanhecer), ou a ser controlada através de psicofármacos, como os indutores de sono. Falta de sono, excesso de trabalho e pouca disponibilidade para a escuta de si próprio, muito menos do outro, são fatores apontados como frequentes para causas e consequências de insatisfação pessoal e familiar. De novo, reintroduzir um novo paradigma que facilite o reequilíbrio escola-trabalho versus lazer parece ser uma tarefa de máxima urgência.

É fácil fazer a leitura de dados estatísticos que mostram o que se passa em sociedades em que os índices de satisfação e qualidade de vida global são bastantes positivos. É o caso dos países nórdicos, onde este balanço é feito de forma assumidamente cultural: são também locais onde as crianças passam um menor número de horas diárias na escola e as percentagens de sucesso e desempenho escolar são realmente gratificantes.

Mesmo sobre as crianças e adolescentes é necessário retomar a noção de desenvolvimento e proporcionalidade em temas como responsabilidade, desempenho e, claro, lazer. O que se pode ou deve exigir a uma criança de 6 ou 10 anos (1.º ano ou 5.º ano de escolaridade) tem de ser diferente daquilo que é expectável para 15 ou 18 anos (9.º ano ou universidade).

Imprimir um ritmo desadequado na infância e juventude, sobretudo no que toca às questões da escola (como equivalência de trabalho) e da própria perspetiva futura profissional, é, mais do que tudo, trazer para o presente pré-ocupações sem sentido e uma fonte segura de angústia desnecessária.

Desse modo, nunca o tempo realmente livre que é preciso dar a crianças e adolescentes pareceu tão estranho de aceitar e de implementar de forma convicta por parte dos adultos que os acompanham.

O tempo livre, com pontos de fuga ou em porto de abrigo, constitui um imenso reservatório de bem-estar físico e emocional. A atividade lúdica, mesmo que simplesmente traduzida pelo brincar, parece também ameaçada: isto é, ou é seguido um guião ou um certo objetivo antecipadamente definido, ou com frequência muitos rapazes e raparigas desorganizam-se com facilidade perante o confronto com um espaço vazio ou com uma folha em branco.

E agora o que é para fazer? Se não me der uma ideia, não sei o que desenhar… e posso sair dos riscos? (T., 6 anos)

Também o que Donald Winnicott designou como a saudável «capacidade de estar só» se tornou tarefa complexa para as crianças. Perante a eventualidade de uma organização individual autónoma, algo que corresponde à presença da imaginação e da criatividade, bem como à capacidade de imaginar, propor e desenvolver atividades, muitos dos mais novos recorrem de forma imediata à presença ou monitorização imprescindível do adulto.

Não são raros os pais que afirmam a dificuldade que sentem em que os filhos brinquem sozinhos, nem que seja por curtos períodos de tempo. O mesmo acontecendo na escola, sobretudo nos primeiros anos de escolaridade, em que muitos professores reportam a necessidade da proximidade física e relacional (dependência) dos alunos para que estes consigam iniciar ou manter uma tarefa sem desistir ou dispersar.

Outro dos sentimentos presente neste novo Homo laborans diz respeito à exigência que cada qual coloca em si mesmo, num verdadeiro mecanismo de coação interna. Associado a este fator, em que cada qual se torna carrasco de si mesmo, surge o peso avassalador de um sentimento de culpa: dentro de uma certa cultura judaico-cristã, parece pecado ter tempo livre, louvar o descanso ou a fuga tanto quando se preza o trabalho, a responsabilidade, o ganho económico.

Só que ser capaz de dar este passo de mudança de paradigma implica um longo trabalho emocional e uma capacidade de reflexão e ação em consonância com esse mesmo movimento. Por isso, parece urgente reformular paradigmas de vida diária, integrando-os progressivamente no tempo de existir.

Saber parar é, sem dúvida, saber pensar. Ou, pelo menos, criar mais espaço para a atividade crítica e criativa tão necessária ao balanço emocional do ser humano de hoje.

Dar espaço ao silêncio. Viver a imensidão de uma folha em branco.

 

 

Afinal, não há “orfanatos” cheios de crianças para adotar em Portugal

Julho 31, 2018 às 8:00 pm | Publicado em Livros | Deixe um comentário
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Notícia e imagem do Observador de 19 de julho de 2018.

É um dos mitos que o livro “Adotar em Portugal — um guia para futuros pais” procura desmontar: afinal, o número de crianças para adoção é muito inferior ao número de candidatos a pais.

O livro nasce de uma experiência pessoal: Ana Kotowicz, jornalista do Observador, é mãe de duas crianças, adotadas no ano passado. Em “Adotar em Portugal — um guia para futuros pais”, a autora procura traçar um caminho pelas várias fases do processo, entre regras, burocracias, dúvidas e, às vezes, mitos. Como o mito dos orfanatos cheios de crianças à espera de serem adotadas, desmontado no capítulo “As crianças institucionalizadas”. É um excerto dessa parte que aqui publicamos. O livro já está à venda e é apresentado esta quinta-feira, em Lisboa.

“No nosso imaginário coletivo, as crianças à espera de serem adotadas são órfãs. Foi isso que vimos durante muitos anos em filmes e livros, seja em ‘Annie’ ou ‘Oliver Twist’. E isto não podia hoje estar mais longe da verdade.

Esqueça a ideia de orfanato. Para começar, a esmagadora maioria das crianças que se encontram em instituições têm pais biológicos vivos mas, por um motivo ou por outro, foram retiradas à sua família pelo Estado. Quem são estas crianças que estão longe das suas famílias e entregues à guarda do Estado?

Todos os anos, desde 2004, o Instituto da Segurança Social publica o relatório CASA – Caraterização Anual da Situação de Acolhimento das Crianças e Jovens, com a caraterização destes menores. Em 2016, último ano de que se conhecem dados, havia pouco mais de oito mil crianças institucionalizadas (99 eram órfãs). Nota importante: estar institucionalizado não é sinónimo de estar à espera de ser adotado. Pelo contrário, deste total só 830 crianças esperavam por uma nova família. E quem são essas oito mil crianças?

“São sobretudo crianças a partir dos 12 e até aos 18 anos, com maior incidência dos 13 aos 15. É o que predomina no sistema. Ou seja, mais de metade delas estão fora do jogo, estão fora das condições legais para serem adotadas (menores de 15). Algumas estão na fronteira, com 12/14 anos, mas sabemos que é muito difícil serem adotadas. E este é o nosso sistema nacional de acolhimento. É o grosso da coluna”, explica-nos uma fonte que pede o anonimato e que há dezenas de anos trabalha no mundo da adoção. “O que se passa com as restantes? Temos uma predominância de crianças cujo projeto de vida é o regresso à família.”

Portanto, a maioria das crianças institucionalizadas são maiores de 12 anos, idade que poucos candidatos a adotantes procuram, e entre as mais pequenas o projeto de vida de grande parte delas passa por reencaminhá-las para a sua família de origem, seja a nuclear ou a alargada.

Se há um regresso, quer dizer que houve uma saída. Vamos então perceber o caminho que uma criança faz desde que é retirada aos pais biológicos.

Normalmente, a criança que chega a uma instituição para ser acolhida já estava sinalizada como menor em risco e teve outras medidas de proteção antes de ali chegar. Há motivos para suspeitar de negligência e risco de vida para a criança e a Segurança Social acompanha a situação de perto. Se, em algum momento, os alarmes soam e a criança é retirada aos pais, ela não é simplesmente colocada numa lista de menores em situação de adotabilidade.

A primeira prioridade do Estado é manter a criança junto da família biológica. Se os pais não estão capazes de cuidar dela, procura-se uma alternativa na família alargada: avós ou tios que possam fazê-lo, enquanto se ajuda os pais a ter condições para receberem os seus filhos de volta.

Se não existe esse familiar, então os menores ficam temporariamente à guarda do Estado, mas sempre na perspetiva de voltarem a ser integrados na família biológica. “A instituição é o fim da linha, a lei assim o determina e a prática também. Há um conjunto de outras medidas que não passam pela institucionalização: apoio junto de pais, familiares, pessoas idóneas. Estas medidas em meio natural de vida predominam no nosso sistema.”

No Reino Unido, por exemplo, é o contrário. Enquanto que em Portugal 85 a 90% das medidas são em meio natural de vida – e apenas o resto em acolhimento –, no sistema britânico vê-se o oposto e a esmagadora maioria das medidas aplicadas passam pela institucionalização das crianças. “Em Portugal leva-se muito a sério a preservação familiar e a responsabilidade parental, dois princípios da lei de proteção de menores.”

Diz-nos o CASA que em 2016, 4276 crianças tiveram alguma medida aplicada em meio natural de vida antes do primeiro acolhimento. Por isso, explica-nos a mesma fonte, isto faz com que as crianças cheguem mais tardiamente ao sistema de acolhimento – porque se tenta a manutenção na família. E tenta-se demais? “Tenta-se o suficiente que cada situação exige tendo sempre em conta o princípio que nos norteia, que é o superior interesse da criança. É o princípio mais elementar de todos, e o superior interesse da criança não deve permitir que o interesse do adulto se sobreponha.”

E apesar de admitir que poderá haver algumas situações em que se poderia ter desbloqueado a criança para adoção mais cedo, também diz que há situações que surpreendem pela positiva: recuperação de laços, um familiar afastado que aparece e que não sabia que a criança estava a viver aquela situação. E integrar a criança na família alargada é sempre preferível a encaminhá-la para a adoção. “O regresso à família é sempre o primeiro objetivo. A criança tem direito à família, seja biológica ou adotiva, mas a sua é a que vem em primeiro lugar.” E é só nesse momento, quando todas as hipóteses de regresso à família biológica estão esgotadas, que se avança para uma das restantes duas hipóteses: preparar o jovem para seguir um caminho independente (depois da maioridade) ou encaminhá-lo para a adoção se for menor de 15 anos. Se for esse o caso, o processo vai agora ser decidido nos tribunais.

É feita nova investigação para que o juiz possa decidir que encaminhar o menor para a adoção é no seu melhor interesse. Se isso acontecer, a guarda é retirada aos pais – que também são ouvidos durante o processo de instrução, bem como membros da família alargada – de forma definitiva e a criança ficará a aguardar por uma nova família. A partir deste momento, a família biológica perde quaisquer direitos sobre o menor e todas as ligações são cortadas de forma irreversível. Em alguns casos, poderá manter-se o vínculo com irmãos.

Mesmo que a criança permaneça numa instituição, a família biológica perde o direito de visitá-la. E estes menores, os que não esperam o regresso à família ou que não vão ser autonomizados, fazem parte “do quadradinho dos 10%”, as cerca de 800 crianças que todos os anos esperam ser integradas numa nova família.
Uma assistente social, que prefere o anonimato como acontece com a maioria das técnicas que entrevistei para este livro, contou-me uma dessas histórias dramáticas. No dia em que o tribunal decretou a medida de adotabilidade para um menor que estava à guarda da instituição onde ela trabalhava, era também o dia de anos da criança. Quando chegou a comunicação, a família biológica estava já dentro da instituição com um bolo de aniversário para fazer a festa.

Dizem as regras que a partir daquele momento o contacto entre menor e a família cessa de imediato. Mas o que aconteceu é que ninguém da equipa da instituição conseguiu enviar aqueles pais para trás. Fecharam os olhos, comemorou-se o aniversário e foi o último contacto que a criança teve com aquela família.

Voltando aos números, das 8175 crianças institucionalizadas em Portugal (69% tem mais de 12 anos de idade), mais de metade são rapazes e 47% são raparigas. A fase correspondente à infância e pré-adolescência (0 aos 11 anos) apresenta um peso de 30,5%, (2499), segundo os dados do CASA.

O relatório analisa ainda as caraterísticas especiais de cada uma destas crianças, como problemas de comportamento, toxicodependência, problemas de saúde mental, debilidade mental, deficiência mental e deficiência física. Os problemas comportamentais são os mais manifestados e foram identificados em mais de duas mil crianças (2227) que se encontravam, na sua maioria, no fim da puberdade/adolescência. Mas, como o relatório ressalva, as causas que originam estas dificuldades emocionais, apesar de geradas muito cedo na vida, normalmente só se manifestam mais tarde e de forma evidente a partir dos 12 anos.

Quer isto dizer que muitas das crianças que não têm problemas de comportamento poderão vir a manifestá-los mais tarde. Destaque ainda para o número de menores acompanhados em pedopsiquiatria ou psicoterapia e que beneficiam de acompanhamento de saúde mental regular: 3892 situações. Há ainda 1609 crianças a quem foi prescrita medicação, o que corresponde a 20% das crianças em situação de acolhimento.

Estas situações são muitas vezes despoletadas pelos contextos familiares em que os menores viviam antes da institucionalização e que deixam marcas profundas. As situações de perigo, ou seja, os motivos que levaram à abertura de processos de proteção e ao acolhimento das crianças também estão analisados no CASA. E porque uma criança pode estar sujeita a mais do que um perigo, foram detetadas 18 895 situações de risco para as 8175 crianças.

A negligência sobressai nesta análise, representando 72% das situações de perigo. Com um número bastante menor, seguem-se as situações de maus-tratos psicológicos (8,5%), os maus-tratos físicos (3,4%) e os abusos sexuais (2,8%). Importante referir que há várias formas de negligência e aquela fatia dos 72% está partida em fatiazinhas mais pequenas: falta de supervisão e acompanhamento familiar, ou seja, a criança foi deixada só, entregue a si própria ou com irmãos menores, por largos períodos de tempo (59%); exposição a modelos parentais desviantes (32%) em que o adulto potencia na criança padrões de condutas desviantes ou antissociais; e a negligência quer dos cuidados de educação (31,6%) quer dos cuidados de saúde (29,1%).

Os maus-tratos psicológicos também têm subcategorias: violência doméstica, exercício abusivo da autoridade, ignorar de forma passiva, provação social, corrupção, depreciação ou humilhação, ameaça, rejeição ativa.
Há ainda uma outra categoria, mais vaga, os outros perigos (13%), onde encontramos 832 crianças com comportamentos desviantes, algo que o CASA considera ser uma subcategoria “já que é sabido que na génese dos comportamentos desviantes apresentados pelas crianças encontram-se os demais fatores de perigo”, como a negligência ou os maus-tratos. Estas crianças, uma vez integradas numa nova família, precisam de quem seja capaz de perceber a raiz dos seus problemas e ajudar os menores a entender, transformar e alterar esses comportamentos.”

 

 

Crianças e Famílias num Portugal em Mudança – livro de Mário Cordeiro

Julho 26, 2018 às 8:00 pm | Publicado em Livros | Deixe um comentário
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Neste livro traça-se um perfil da situação de saúde e de bem-estar da criança em Portugal, focando especialmente o grupo etário dos 0-9 anos. Com base em diversos indicadores existentes, e na sua evolução, avaliam-se as necessidades de saúde e de bem-estar, bem como as causas de mortalidade, doença e o sucesso das estratégias preventivas, depois de definida a população infantil em termos demográficos e sociais.

Mais informações sobre o livro no link:

https://www.ffms.pt/publicacoes/detalhe/1081/criancas-e-familias-num-portugal-em-mudanca

 

Lançamento do livro “Adotar em Portugal, um guia para futuros pais” 19 julho em Lisboa

Julho 18, 2018 às 8:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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“Os jovens não têm noção de mortalidade. Ninguém pensa que vai morrer aos 13 ou 14 anos”

Julho 11, 2018 às 6:00 am | Publicado em Livros | Deixe um comentário
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Consumir drogas e perder a virgindade aos 12 anos é uma realidade em Portugal. Quem é o afirma é Francisco Salgueiro, que traça um retrato da adolescência em pleno século XXI. O escritor, autor de vários livros dedicados ao tema, lançou em junho “Sexo, Drogas e Selfies”, e revelou ao Expresso uma realidade que leva muitos jovens a arriscarem a vida para serem populares no grupo de amigos.

Francisco Salgueiro é autor de vários livros sobre um dos períodos mais complexos e exigentes na vida de pais e filhos: a adolescência. Em 2010 publicou o primeiro livro dedicado ao tema “O Fim da Inocência – Diário Secreto de Uma Adolescente Portuguesa” e três anos mais tarde repetia a dose com o 2.º volume – “O Fim da Inocência – Diário Secreto de Um Adolescente Português”. Este mês lançou “SDS – Sexo, Drogas e Selfies”. Uma visão crua sobre uma realidade que muitos pais continuam a ignorar.

O que é que o levou a escrever um terceiro livro sobre os adolescentes portugueses?
Os pais ainda não acreditam que esta é uma realidade e que acontece aos seus filhos. Continuo a ter muitos pais que me dizem: “também na nossa altura uns fumavam erva, outros cheiravam cocaína e apanhávamos bebedeiras de coma alcoólico”. Não percebem que há muito mais a acontecer. As crianças estão a começar cada vez mais cedo nas drogas, álcool e sexo. Há um mundo diferente que os pais têm de perceber. Os mais novos, de 12 anos, tentam imitar os mais velhos, de 14 e 15 anos.

Este livro é um alerta para os pais?
Sim. Quis passar a mensagem de que na realidade destes jovens não há afetos genuínos, há pessoas descartáveis, pessoas utilizadas pelos seus corpos, relacionamentos de amizade que não o são. Estes miúdos não estão atentos ao que se passa à volta deles e gostam em massa dos mesmos temas sem sequer os discutirem.

Como é que surgiu a necessidade de partilhar estas mensagens?
Sou uma esponja de inspiração, tudo aquilo que posso absorver à minha volta vou absorvendo e há uma altura em que tenho necessidade de partilhar o que andei a recolher. O SDS junta centenas de histórias desde o “Fim da Inocência”. Nos dois primeiros livros, as histórias que contava passavam-se aos 14 anos e os editores da Leya diziam “como é que é possível ser tão cedo? Se calhar temos que indicar outra idade”. Eu dizia-lhes que não, que tínhamos de ser sinceros. Ficaram boquiabertos com as histórias que conto neste livro e que envolvem jovens de 12 anos.

Qual a principal diferença entre este livro e os anteriores?
É a idade, tudo se inicia mais cedo. As selfies, por exemplo, vieram tornar as relações descartáveis. Ter uma conversa pouco importa se tirarmos uma selfie e parecermos muito contentes. Há uma falta de auto-estima muito grande e o ‘fear of missing out’ – o medo de perder alguma coisa. Os jovens vivem na era dos ‘likes’, precisam de fazer algo para serem validados, para terem aprovação social. Os pais não estão lá a dizer “não precisas da aprovação social porque eu estou aqui, eu valido-te, eu gosto de ti”.

Este livro retrata a sociedade ou apenas um estereótipo?
Não posso generalizar que todas as pessoas sejam assim. Mas dei muitas palestras de norte a sul do país e percebi que esta realidade existe de facto, porque há uma coisa comum a todos estes jovens: a internet.

A internet é o pólo agregador dos comportamentos de risco atuais. É lá que os miúdos vêem pornografia desde muito cedo, os ‘youtubers’, que podem comprar droga, é lá que tudo se passa…

Os jovens têm consciência do que estão a fazer?
Muitos miúdos afirmam ter tomado “um comprimido qualquer” que lhes ofereceram e eu pergunto-lhes: “então mas o que é que continha o comprimido? Perguntaram? Fizeram um teste? (existem muitas carrinhas que fazem esse tipo de testes)”. Respondem-me: “não me interessa, era uma coisa qualquer e eu tomei porque achei graça”. Existe a cultura do YOLO – you only live once (só vives uma vez). Não há noção de mortalidade, ninguém pensa que vai morrer aos 13 ou 14 anos. Portanto, é um comprimido que pode ter sido feito numa garagem na China e que ninguém faz a mínima ideia do que contém, e para os miúdos é totalmente indiferente tomar este ou outro qualquer.

São os protagonistas das suas histórias que o procuram?
No primeiro livro, foi a Inês que veio ter comigo e que se expôs, contando-me uma série de histórias, nas quais não acreditei desde logo. Encontrei-me com ela, mais tarde, e com o seu grupo de amigos no Bairro Alto e apercebi-me que o que ela contara não era assim tão descabido. Assisti a algumas das histórias relatadas, e se eu que saio à noite não conhecia aquela realidade, como é que os pais haveriam de conhecer? No “Sexo, Drogas e Selfies (SDS)” peguei em histórias de várias pessoas. De repente passei a ser o repositório das histórias que todas as raparigas me queriam escrever e contar porque não têm coragem para falar com os pais.

Há pais que o abordam ou pedem para falar consigo?
Há casos em que vieram falar comigo para me contar uma história que aconteceu, mas geralmente são poucos. Muitos dizem-me que têm medo de ler os meus livros e são eles quem mais precisa de os ler. Alguns acham que por os filhos não saírem à noite estão protegidos mas na verdade não estão. Basta terem um computador em casa, com ligação à internet, e fecharem-se no quarto.

Antigamente era preciso ir para a rua, agora bastam estes comportamentos dentro de casa. Os próprios pais cometem erros nas redes sociais, pelo que tem de haver um crescimento coletivo. Não se pode recorrer ao argumento “eu sou mais velho, sei mais coisas que tu”, até porque provavelmente isso não é verdade, os miúdos sabem muito mais das redes sociais.

Como é que um escritor se transforma (quase) num psicólogo de adolescentes?
Não é fácil. Tento não o ser. Há dois tipos de emails que eu recebo: o mail de exposição, de quem quer falar, desabafar, sem procurar mais. Depois há outras pessoas que querem procurar e precisam, porque não sabem o que fazer à sua vida. Eu não sou psicólogo, mas como já me cruzei com muitas destas histórias procuro dar-lhes força, agir com bom-senso, tentando alertar para os comportamentos de risco.

Como foi sair à noite com estes miúdos e perceber o que se passava?
Depois de terem tomado comprimidos, aconteceu estarem ao telemóvel comigo e dizerem-me “vou-me atirar da janela abaixo, porque é lindo, vou voar”. Como na história do comboio (partilhada no SDS), em que tirar uma selfie para se ser popular é uma prioridade, mesmo quando se está completamente bêbedo (ou quando se ingeriu qualquer coisa), colocando a vida em risco. Os jovens não ganham consciência, procuram cada vez mais imitar os mais velhos. O pensamento é este: “Se os mais velhos cheiram cocaína, eu com 13 anos também quero experimentar, se não lhes acontece nada de especial, porque é que me há-de acontecer a mim?”

A história em que me inspirei para a parte final do livro chocou-me muito, foi-me contada pela irmã da pessoa que passou pelo problema. Foi a que mais me chocou até hoje. Estamos a chegar ao limite, para lá daquilo não há mais nada.

O que falta na relação entre pais e filhos?
Muitas vezes os pais chegam cansados do trabalho e a última coisa que lhes apetece é dar atenção aos filhos e falar com eles. O “Fim da Inocência” trouxe à tona o interesse da comunicação social por estes temas que surgem muitas vezes nas primeiras páginas. Não há desculpa para que os pais não estejam alerta.

Como é que os pais conseguem falar com os filhos sem estes acharem as conversas uma “seca”?
Este tipo de livros e artigos da Comunicação Social podem ser tema de conversa. Tem de haver um espaço dinâmico e de troca de ideias, e não de moralismos. É a pior coisa. Os jovens falam muito comigo porque não sou moralista e tenho um espírito muito aberto. Se um filho diz aos pais “já experimentei”, não o podem colocar de castigo, e têm de desconstruir o problema para que o filho não volte a consumir. Se os pais optam por colocar os filhos de castigo, eles voltam a repetir, porque o fruto proibido é o mais apetecido.

 

Entrevista publicada no jornal Expresso em 2 de julho de 2018

Encontro: Pensar o Acolhimento Residencial de Crianças e Jovens, 26 junho na Fundação Calouste Gulbenkian

Junho 22, 2018 às 9:00 am | Publicado em Divulgação, Livros | Deixe um comentário
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Lançamento do livro e jogo pedagógico “Somos uma Família” de Rute Agulhas e Alexandra Anciães, 10 junho na Feira do Livro

Junho 9, 2018 às 3:13 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Apresentação da 5ª edição do livro de João dos Santos “A Casa da Praia: O PSICANALISTA NA ESCOLA” 29 maio em Lisboa

Maio 22, 2018 às 9:00 am | Publicado em Livros | Deixe um comentário
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A história do rock ilustrada para miúdos e graúdos

Maio 21, 2018 às 12:00 pm | Publicado em Livros | Deixe um comentário
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Chuck Berry ©Joana R.

Notícia do P3 de 8 de maio de 2018.

Estabelecer uma ponte entre a cultura dos pais e a linguagem dos filhos é o ponto de partida de A História do Rock (para pais fanáticos e filhos com punkada). O livro de Rita Nabais, com ilustrações de Joana Raimundo, dá a conhecer aos mais novos as principais figuras do rock através de pequenas biografias e curiosidades de artistas que fizeram parte da banda sonora da adolescência dos pais de hoje, outrora jovens amantes de música.

Para Nuno Valente, das Edições Escafandro, a publicação deste livro teve a intenção de criar um lugar na memória das crianças para os ícones da geração dos pais, “numa altura em que o rock está a ser ultrapassado por outros géneros junto das novas gerações” — como o rap e o pop. O editor conta que o feedback não podia ser mais positivo. “Há pais que todas as noites lêem um artista diferente aos filhos, enquanto os adormecem a mostrar as músicas e os vídeos”, exemplifica o editor ao P3.

Esta nova enciclopédia do rock tem 147 entradas com ilustração e texto, que vão desde Bill Haley & His Comets e Little Richard — pioneiros do estilo musical —, até a nomes mais recentes, como The National ou Vampire Weekend, passando por Elvis Presley e Nirvana. Para além dos desenhos dos músicos, o livro conta ainda com as sugestões musicais de várias pessoas da área, como Miguel Ângelo (Delfins) e Fernando Ribeiro (Moonspell), resultando numa playlist com mais de 500 artistas dos últimos 70 anos.

 

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