2018 teve o nível mais alto de crianças mortas ou mutiladas em conflitos armados

Julho 31, 2019 às 8:00 pm | Publicado em Relatório | Deixe um comentário
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Notícia da ONU News de 30 de julho de 2019.

De acordo com último Relatório Anual do Secretário-Geral sobre Crianças e Conflitos Armados, foram verificadas mais de 24 mil violações cometidas contra crianças nos 20 países que constam na agenda de Crianças e Conflitos Armados.

O contínuo combate entre as partes em conflito, novas dinâmicas de conflito e táticas operacionais, combinadas com a desconsideração generalizada do direito internacional tiveram um efeito arrasador sobre as crianças em 2018.

O ano foi marcado pelos níveis mais altos de crianças mortas ou mutiladas em conflitos armados desde que as Nações Unidas começaram a monitorar e denunciar essa violação grave.

Relatório

De acordo com o último Relatório Anual do Secretário-Geral sobre Crianças e Conflitos Armados divulgado nesta terça-feira, foram verificadas mais de 24 mil violações cometidas contra crianças, ocorridas entre os meses de janeiro e dezembro.

Outros milhares de casos teriam ficado pendentes de verificação devido a recursos e restrições de acesso.

Guterres

Em nota emitida pelo seu porta-voz, o secretário-geral disse estar “desanimado com o nível crescente de graves violações cometidas contra crianças”. De acordo com o relatório, no período verificado, meninas e meninos sofreram o impacto de novas e prolongadas crises e suportaram violações como assassinato e mutilação, recrutamento e uso por forças armadas e grupos armados, sequestro, violência sexual, ataques a escolas e hospitais e a negação de acesso humanitário.

António Guterres afirmou estar “particularmente chocado com o número de crianças mortas ou mutiladas no ano passado nas 20 situações de países que constam na agenda de Crianças e Conflitos Armados”. Mais de 12 mil meninos e meninas teriam sido atingidos, um nível sem precedentes.

Em nota, a representante especial do secretário-geral para crianças e conflitos Armados, Virginia Gamba, disse que “é extremamente triste que as crianças continuem sendo afetadas de maneira desproporcional pelos conflitos armados, e é horrível vê-las mortas e mutiladas como resultado das hostilidades.” Para Gamba, “é imperativo que todas as partes em conflito priorizem a proteção das crianças” e isso “não pode esperar”.

Violência Sexual

O relatório indica ainda que incidentes de violência sexual contra meninos e meninas continuam sendo prevalentes, com 933 casos. Fora isso, violações ainda estão sendo subnotificadas devido à falta de acesso, estigma e medo de represálias.

O maior número destes tipos de casos teria sido verificado na Somália e na República Democrática do Congo.

No Afeganistão, 3.062 crianças foram vítimas de conflito, o maior número já verificado. Elas representaram 28% do total de vítimas civis no país.

Na Síria, os ataques aéreos, bombas de barril e armas de fragmentação resultaram na morte de 1.854 crianças, e no Iêmen, 1.689 crianças sofreram o impacto dos combates no terreno e outras ofensivas.

Recrutamento

O estudo indica que cerca de 13,6 mil crianças se beneficiaram de programas de liberação e reintegração. No entanto, as crianças continuaram a ser forçadas a participar ativamente das hostilidades, incluindo na realização de atentados suicidas contra civis. Outras foram usadas ​​em posições de apoio, como por exemplo, escravos sexuais ou escudos humanos.

A Somália também continuou sendo o país com o maior número de crianças recrutadas e utilizadas, com 2,3 mil casos verificados. O país é seguido pela Nigéria e pela Síria.

República Centro-Africana, na Colômbia, na Líbia, no Mali, na Nigéria, na Somália, no Sudão e no Iêmen.

No ano de 2018 também foram verificados o rapto de 2.493 crianças. Os números mais altos ocorreram na Somália, com 1.609 casos, na República Democrática do Congo, com 367 e na Nigéria, com 180.  O relatório aponta ainda um aumento nos incidentes de raptos no Sudão do Sul, na Síria, na República Centro-Africana, no Sudão e nas Filipinas.

Proteção das Crianças

O secretário-geral fez um apelo para que “todas as partes em conflito fortaleçam o seu envolvimento com as Nações Unidas” e relembrou a responsabilidade delas na proteção das crianças.

Guterres destacou que “as partes devem garantir o cumprimento de suas obrigações conforme o direito internacional, incluindo o respeito especial e a proteção concedida às crianças afetadas por conflitos armados pela lei Internacional Humanitária”. O chefe da ONU lembrou que na “condução das hostilidades, as partes em conflito devem abster-se de dirigir ataques contra civis, incluindo crianças e alvos civis.”

O secretário-geral reiterou ainda que “a paz continua a ser a melhor proteção para as crianças afetadas por conflitos armados e pediu a todas as partes e àqueles que podem influenciá-las a trabalhar em prol de acordos políticos e soluções para resolver os conflitos existentes.”

O relatório citado na notícia é o seguinte:

Children and armed conflict Report of the Secretary-General 20 June 2019

O baloiço rosa que une as crianças separadas pelo muro entre EUA e México

Julho 31, 2019 às 2:24 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Ronald Rael

Notícia da Sábado de 30 de julho de 2019.

Dois professores sonharam com o projeto durante uma década.

Baloiços e escorregas foram instalados na fronteira dos Estados Unidos com o México para as crianças e adultos brincarem. Este é um projeto de dois professores que se tornou real esta segunda-feira.

Segundo avança o site Huffington Post, o objetivo é as crianças de ambos os lados da fronteira poderem brincar juntas.

Um dos professores que criou o projeto, Ronald Rael, escreveu nas redes sociais que esta é “uma das experiências mais incríveis da carreira”, divulgando um vídeo que mostra várias pessoas a aderir à iniciativa.

“O muro tornou-se algo fortíssimo para as relações EUA-México e crianças e adultos foram ligados desta forma em ambos os lados”, expliou Ronald Rael, de acordo com a mesma fonte.

Recorde-se que, no mês passado, uma foto de um pai e uma filha, mortos, revelou a realidade muitas vezes fatal dos migrantes que fugiram da América do Sul em busca de uma vida melhor nos Estados Unidos.

https://www.instagram.com/p/B0fY2R6hfKr/?utm_source=ig_embed

Mais informações nas notícias:

Borderwall as Architecture Becomes Reality

These Seesaws Were Built Across The U.S.-Mexico Border To Let Children Play Together

Relação considera “incompreensível” desvalorização do testemunho das crianças

Julho 31, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do i de 16 de julho de 2019.

“Todos os dias, milhares de crianças de crianças vão para a escola medicadas simplesmente para ficarem sentadas”

Julho 31, 2019 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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i

Entrevista de Cristina Camões ao i de 16 de julho de 2019.

O que é a psicoterapia? Qual é o potencial? A psicóloga clínica e psicoterapeuta Cristina Camões tem um novo livro em que desmonta os mitos em torno do consultório. “Um psicólogo não dá conselhos”, diz.

TEXTO | MARTA F. REIS

Cristina Camões, psicóloga clínica e psicoterapeuta, acaba de publicar Psicoterapia – Um caminho para a Felicidade, em que pretende desmontar os mitos e o estigma em torno do consultório do psicólogo. Defende que há uma ideia errada sobre o que é a felicidade, que não aceita que podem existir momentos maus e que o importante é reconhecê-los e lidar com eles. Uma ideia que se incute desde criança em frases como “não chores que é feio”. Em entrevista ao i, por escrito, fala sobre os objetivos da psicoterapia e os sinais de alerta numa sociedade que toma cada vez mais comprimidos e em que a saúde mental não tem sido prioridade.

Chamou ao seu livro publicado em maio Psicoterapia – Um Caminho para a Felicidade. É sempre assim?

Poderá ser sempre se o paciente levar o processo até ao fim. Mas convém entender melhor o que é a felicidade. A sociedade costuma pensar que a felicidade é algo que se atingirá um dia e que a partir daí será permanente. Nada mais errado: somos humanos e a vida não é retilínea. Quase todos os autores são unânimes em afirmar que a felicidade não é contínua, mas antes constituída por momentos. Hoje posso estar a sentir-me feliz porque atingi um objetivo muito importante, mas amanhã poderei estar triste, pois estou doente. Por outro lado, a felicidade não advém de fatores externos, mas internos. Aqui estaremos desde logo a entender o porquê de a maioria das pessoas não se sentirem felizes. Por um lado, acham que a felicidade é algo utópico e, por outro, procuram no sítio errado. Se observarmos a sociedade, esta está cada vez mais desligada de si, do sentir e da autoconsciência. Daí o aumento vertiginoso nos últimos anos dos índices de depressão e das taxas de suicídio.

Propõe-se lançar os leitores numa viagem aos bastidores do consultório. 

Pretendo com este livro acabar com os equívocos relativamente a fazer um processo psicoterapêutico. Chegam-me pacientes que já tinham tentado fazer psicoterapia, mas que foram sujeitos a situações éticas e profissionais graves que em nada dignificam esta profissão. Torna-se condição essencial que toda a gente saiba de facto o que pode esperar de um especialista desta área e, por outro lado, que saiba reclamar o seu direito a um atendimento clínico de qualidade e alicerçado em profissionalismo.

Quais são as questões mais comuns em consulta e que a preocupam mais?

Atualmente, as problemáticas mais frequentes são a depressão clínica e a perturbação de ansiedade grave, com ou sem ataques de pânico. O que mais me preocupa é o facto de estas patologias aparecerem em idades cada vez mais precoces. Imagine o que seria se sentisse que quer adormecer e nunca mais acordar; que deseja ser colhida por um carro para não ter de ser você mesma a acabar com a vida; que falta aos exames de faculdade porque prefere não os fazer perante a hipótese de tirar má nota; que há muito deixou de sair, pois sente que não tem nada de interessante para dizer; que sente que toda a gente é feliz e você nunca conseguirá sê-lo; ou que ontem esteve pendurada na ponte a decidir se devia saltar e deu-se uma última oportunidade, vir hoje à consulta. São estes os pensamentos e sentimentos que escuto diariamente e refletem o que se passa na mente daqueles que sobrevivem com uma depressão ou perturbação de ansiedade.

Quer também com este livro desmistificar o papel do psicólogo na sociedade e da própria psicologia. O que costuma ouvir?

É importante desmistificar o papel do psicólogo na sociedade, mas mais ainda desmistificar a saúde mental. Foram-se criando alguns mitos acerca das consultas de psicoterapia. Um deles é acharem que o psicólogo irá dar conselhos, opiniões e caminhos a seguir. O psicólogo não dá conselhos, exceto se forem recomendações clínicas, de acordo com o quadro clínico. Não emite opiniões nem diz o caminho a seguir. Se assim fosse, o paciente não precisava de um especialista em saúde mental, bastaria falar com a família e amigos. A arte da verdadeira psicoterapia consiste na capacidade do psicólogo conseguir introduzir técnicas do modelo teórico que utiliza, ativando áreas cerebrais e elicitando mudanças bioquímicas que, consequentemente, levarão a mudanças comportamentais, emocionais, relacionais e estruturais no cérebro do paciente.

Porque sentiu necessidade de escrever sobre esta disciplina?

Fala-se muito de psicoterapia e quase nunca se sabe o que se diz. O meu livro não foi escrito para académicos, mas para o público em geral. A responsabilidade desta disciplina ser menos compreendida não é da sociedade, mas sim daqueles que falam daquilo que não sabem. Tenho a certeza de que, se a sociedade soubesse de facto o que é a psicoterapia e soubesse o que poderia ganhar com ela, os consultórios dos psicólogos ficariam cheios. Os filhos já não desenvolvem uma anorexia nervosa, a mãe aprenderia a ser mãe, o pai aprenderia a ser pai, as profissões eram escolhidas de acordo com o que a pessoa sente e não com o que os outros querem, as urgências dos hospitais deixavam de ser entupidas com casos de perturbações do foro psicológico, reduzindo a despesa pública drasticamente na área da saúde. Os suicídios diminuíam, os profissionais das diversas áreas eram melhores, ninguém aceitaria ficar numa relação tóxica ou de violência – a lista é infinita. Importa salientar que se trata é de um caminho a dois em que o psicólogo irá, além de tratar as patologias, ajudar o paciente a encontrar o seu sentido de vida.

Não haverá sempre recaídas, momentos de descompensação?

Os resultados são eficazes quando a psicoterapia é feita por um psicólogo especialista e se o doente não desistir do processo. Tem de ser o psicólogo a dar alta clínica. Por outro lado, como neuropsicóloga posso afirmar que, depois de ativar áreas cerebrais, o cérebro não perde as capacidades ganhas, só se existir algo externo, por exemplo um AVC ou um tumor cerebral. Todo o trabalho é alicerçado em modelos cientificamente validados, por isso afirmamos que a psicologia é uma ciência. De acordo com o modelo teórico em que me especializei, é uma condição obrigatória fazer um exame psicológico ou neuropsicológico. O psicológo não é mágico e, embora seja formado para diagnosticar, o olho clínico poderá errar. Não deve intervir sem antes avaliar cientificamente a condição psicológica do paciente. A escolha dos testes poderá variar de acordo com a idade e o quadro clínico apresentado. Depois darão origem a um relatório em que é explicado o caso clínico e o que se passa com o paciente, tal como um médico não pode operar um doente sem solicitar exames. Só depois, tendo em conta o quadro clínico apresentado, é que o psicólogo escolhe o tipo de técnicas a utilizar. São esses passos que explico no livro. Se, dentro do consultório, o paciente tivesse elétrodos ligados ao seu cérebro representado num computador (como acontece nos laboratórios de neurociências), poderíamos verificar que a ativação cerebral varia de acordo com as técnicas utilizadas.

Nos últimos anos, procurar ajuda profissional e fazer terapia passou a ter maior visibilidade. Há menos estigma ou ainda existe caminho a percorrer? 

Infelizmente, ainda se pensa que consultar um psicólogo é para “malucos”. Costumo dizer que nós tratamos pessoas que não são doentes mentais mas têm uma doença do foro psicológico, que sofreram traumas, violência ou outras situações que os impediram de crescer de forma emocionalmente equilibrada. Muitos pacientes escondem das suas famílias que fazem psicoterapia. No entanto, os média têm ajudado a desmistificar esta questão com séries televisivas. Várias figuras públicas revelam que recorreram a um psicoterapeuta e acho muito bem que o façam. Os atores, apresentadores e artistas em geral estão sujeitos a uma exposição mediática e nem sempre é fácil lidar com as consequências que daí advêm. Fazer psicoterapia deveria ser entendido como algo natural e um motivo de orgulho. Quem passa por um processo destes não se vê apenas livre da depressão ou da ansiedade, sofre um profundo caminho de crescimento e de autoconsciência que, de outra forma, seria impossível de atingir.

Defende que as pessoas ficam diferentes depois de passarem por processos psicoterapêuticos. Que transformações a têm impressionado mais? 

A pessoa que nos chega à consulta deixa de existir após o processo psicoterapêutico. Já imaginou se, a dada altura da sua vida, começasse a dizer não a quase toda a gente, a ter coragem de dizer às pessoas chatas que são chatas, a assumir os seus sentimentos verdadeiramente, a recusar sair com quem não deseja? No processo psicoterapêutico, o paciente passa por transformações que vão resultar na construção de uma nova identidade, forte, assertiva e emocional, ainda que por vezes pareça egoísta aos olhos dos outros. Mas essa é a verdadeira pessoa, aquela que deveria ter sido sempre.

A quem se destina a psicoterapia? Deve ser encarada como tratamento ou como um “cuidado de higiene mental”, portanto para todos, como defendem alguns autores?

A psicoterapia não se destina apenas àqueles que têm uma doença do foro psicológico. Poderá ser feita por qualquer pessoa. Aliás, para nos ser atribuído o título de especialista avançado em psicoterapia pelo colégio da Ordem dos Psicólogos é obrigatório o próprio psicólogo passar por um processo demorado de psicoterapia que a ordem designa como “desenvolvimento pessoal”. Nos casos em que não existe uma patologia há um caminho de crescimento magnífico que trará consequências positivas em todos os papéis que desempenha: profissional, académico, amoroso, relacional, familiar, entre outros.

A partir de que idade se pode fazer psicoterapia?

Pode ser feita em qualquer idade. Nas crianças dos 0 aos 12/13 anos (depende da maturidade da criança) chama-se ludoterapia e, a partir daí, é psicoterapia. Há psicólogos que se especializam apenas em psicoterapia infantil e outros em adultos.

Por vezes existe a ideia de que mergulhar nas emoções abre quase uma caixa de Pandora. Todos temos traumas? Não há o risco de destapar problemas que não eram relevantes?

Vivemos numa sociedade que educa as suas crianças castrando a sua capacidade de sentir o mundo. Frequentemente, ouvimos os pais dizerem às crianças “não chores que é feio”, “não penses nisso, desvaloriza”, “se te portares mal, não gosto de ti”. Fico perplexa pois, à medida que cresce e fica impregnada com este afastamento emocional de si própria e do mundo real, a criança vê-se mergulhada numa racionalidade extrema que a leva a desenvolver uma neurose. Tendo em conta o que acabei de dizer, tudo o que é dito em consulta é importante. Em cada momento, o cérebro vai descarregando as memórias passadas que escondem medos, inseguranças, sentimentos de inutilidade e desvalorização, tristeza e fobias. Vamos juntos ao fundo da caixa de Pandora. Isto irá permitir ao paciente sentir revolta, desilusão e frustração, que lhe permitirão, finalmente, reclamar para si o direito de se sentir triste, desiludido com as pessoas que julgava serem boas para si e desempenhar apenas e só o seu papel.

Como vê o interesse crescente em torno da descoberta da espiritualidade, a popularidade, por exemplo, da meditação mindfulness, e toda uma indústria em torno da autoajuda? 

É intrínseca a necessidade do ser humano de ter um sentido para a sua vida e, por outro lado, de sentir felicidade. No entanto, essa busca é tão interna e individual como subjetiva. A capacidade de evocar experiências espirituais pode estar relacionada ou não com o contexto religioso. O ser humano precisa de algo que lhe dê a capacidade de acreditar em algo. Este facto veio trazer para a sociedade novas formas de levar este caminho às pessoas, através da autoajuda, da literatura descartável ou milagreira. Na prática clínica diária verifico que o processo psicoterapêutico abre espaço mental no paciente para dar sentido à sua vida e, consequentemente, desenvolver a sua inteligência espiritual. Tal como advoga Damásio, desde que a pessoa esteja equilibrada, a felicidade poderá ocorrer através do desporto, da pintura, da música, da leitura, entre outras atividades. Cada um irá descobrir o que faz sentido para si. O importante é que entendam que, se a pessoa estiver com uma doença do foro psicológico, terá de ser tratada por um especialista da área da psicologia clínica. Os casos clínicos não se tratam com literatura de autoajuda nem com mindfulness.

Mas sente que o psicólogo tem perdido o lugar que tinha, protagonismo?

O psicólogo clínico é, antes do mais, um profissional da área da saúde. Seria muito importante que a sociedade deixasse de brincar com coisas sérias. Reitero as palavras do prof. Quintino Aires no prefácio do meu livro: “As ofertas multiplicam-se, especialmente em workshops e cursos breves que são a nova banha da cobra do séc. xxi”. Costumo dizer que a meditação e as frases de autoajuda descartáveis podem ter algum impacto naqueles que não têm nenhuma doença do foro psicológico. Aliás, nenhum doente com depressão ou ansiedade consegue fazer meditação, porque o seu cérebro está desequilibrado quimicamente e é invadido por milhares de pensamentos que o impedem de relaxar. Sinceramente, o que mais me preocupa são aqueles que, sem qualquer licenciatura em Psicologia Clínica ou Psiquiatria, se intitulam psicoterapeutas. Posso dizer-lhe que temos observado, mesmo nos média, pessoas que falam de casos clínicos na televisão, e se formos ao site da Ordem dos Psicólogos verificamos que os seus nomes não existem enquanto membros efetivos da ordem.

O último estudo feito em Portugal estimou que um terço da população tenha algum problema do foro mental. O país tem um elevado consumo de ansiolíticos e antidepressivos. Há um recurso excessivo a medicação?

A situação é altamente preocupante, não só em Portugal mas um pouco por todo o mundo. A toma de medicação psiquiátrica está a alastrar drasticamente e, na maioria dos casos, as receitas são passadas por médicos de clínica geral. Todos os dias, milhares de crianças vão para a escola medicadas psiquiatricamente simplesmente para ficarem sentadas e não perturbarem as aulas. Os estudos comprovam que é na infância que o cérebro da criança vai desenvolver-se e sofrer ativações neurológicas extraordinárias, não só ao nível cognitivo como relacional, do pensamento e emocional. O que acontecerá se o seu cérebro estiver “adormecido” nestes momentos de desenvolvimento? Estará disponível para aprender ou para se relacionar com o grupo de pares? Chegam-me casos de crianças que vão para a escola completamente dopadas, com suores frios, tremuras, dores físicas, como consequência dos efeitos secundários da medicação. Existem outros estudos que alertam para o facto de existir uma probabilidade maior de uma criança medicada na infância vir a ser um consumidor de drogas na adolescência ou na vida adulta.

Recebe muitos casos em que a medicação foi usada demasiado tempo sem acompanhamento psicológico?

Um caso muito grave que me apareceu foi um jovem de 19 anos que chegou à consulta a tomar 12 comprimidos por dia fixos e dois em SOS. Só ao fim de dois anos foi possível começar a fazer o desmame da medicação. Por outro lado, é muito fácil para os pais aceitar que o filho “resolverá” os seus problemas tomando comprimidos, demitindo-se da sua responsabilidade enquanto pais. A medicação não trata as causas da doença, mascara apenas os sintomas, porque a pessoa deixa de pensar, deixa de ter espírito crítico, vê as suas capacidades cognitivas diminuir (memória, atenção e concentração), o seu discurso fica confuso e incoerente – no fundo, afasta-se do mundo real. A psicoterapia, obviamente feita por um especialista, trata porque vai remover as causas. Costumo dizer que não somos mágicos para alterar o passado, mas vamos conseguir fazer com que esse passado deixe de interferir com o presente.

Quanto custa o acompanhamento por um psicoterapeuta? Está ainda longe de ser algo a que a maioria da população possa ter acesso?

A Ordem dos Psicólogos não estabelece um valor de honorário mínimo nem máximo. Por outro lado, o custo e o tempo de tratamento dependem de cada quadro clínico, por isso não poderei dar uma resposta objetiva. Infelizmente, os ministérios da Saúde não têm investido nesta área, levando a uma quase inexistência de psicólogos clínicos no Sistema Nacional de Saúde, e o caso ainda é mais grave quando falamos da existência de psicólogos especialistas. Qualquer valor que um paciente gaste num tratamento psicoterapêutico é mínimo relativamente à sua cura e à sua oportunidade de ser feliz. Quanto vale a vida de um jovem ou um adulto que comete suicídio e que, se fizesse este tratamento, nunca o faria? A sociedade tem de mudar as suas prioridades.

Que mensagem gostava de transmitir com este livro?

O primeiro objetivo deste livro é desmistificar a saúde mental e que todos aqueles que sofrem com doenças do foro psicológico possam encontrar a cura se consultarem um psicólogo especialista em psicoterapia; por outro lado, mostrar que no cérebro do ser humano existem todas as características e oportunidades para a cura, basta que para isso tenha a coragem de fazer esta viagem para dentro de si; mostrar também que a depressão e a ansiedade não se curam com medicação, pois esta não vai tratar as causas da doença, mas sim camuflar os sintomas, transformando a pessoa num ser dopado e alheio ao mundo.

Na visão do psicoterapeuta, a medicação nunca é necessária?

Nada disso. Há situações em que pode ser necessária, uma depressão clínica muito grave. É importante distinguir duas coisas. Por um lado, há as doenças mentais, doenças que geralmente não têm cura, por exemplo uma esquizofrenia, uma doença bipolar, uma criança autista; ou doenças do foro neurológico, como demências. Aí, obviamente que é necessária medicação. Ninguém imagina que uma pessoa com esquizofrenia não faça medicação, senão vai ter delírios, pode cometer suicídio ou até um homicídio. Nesta vertente é obrigatório ter medicação e são casos que são tratados na área da psiquiatria. Poderão beneficiar da psicoterapia não no sentido de tratar, pois são doenças que não têm cura, mas para diminuir a sintomatologia e para ajudar os doentes a lidarem com as consequências da doença e ajudarem até a família a lidar com o doente, a permitir uma vida o mais equilibrada possível. Do outro lado temos então as doenças do foro psicológico, em que se incluem a depressão, a ansiedade, uma anorexia nervosa, uma bulimia. Quando falamos de perturbações do foro psicológico, se a pessoa fizer psicoterapia não vai precisar de medicação. Mas se chegar medicada ao consultório, não vai deixar logo a medicação. Existe risco clínico. Só o médico é que pode fazer o desmame, em parceria com o psicólogo. A pessoa só poderá deixar a medicação de forma progressiva.

Por vezes ouve-se pessoas a quem os médicos prescrevem antidepressivos ou ansiolíticos mas dizem que não os vão tomar.

Não aconselho ninguém a fazer isso. Se o médico entendeu prescrever a medicação, o doente deve fazê-la. Nos EUA e mesmo em Portugal há alguns psiquiatras que se especializam em psicoterapia, mas não é muito frequente; o mais habitual é o médico usar a abordagem farmacológica. Quando digo que não trata é porque um medicamento, seja antidepressivo, ansiolítico ou antipsicótico, vai atuar ao nível das células nervosas bloqueando a passagem de informação. É quase como fazer um penso a áreas cerebrais. A pessoa fica mais calma, mas não fica tão capaz para lidar com o dia-a-dia. A crianças, não existindo doença mental, não aconselho de todo; devem procurar acompanhamento especializado. Mas é preciso sublinhar que há casos de depressão clínica em que é preferível usar medicação inicialmente e só depois, ao longo do processo psicoterapêutico, iniciar o desmame.

Há perguntas que sejam mais reveladoras nas sessões de psicoterapia? 

Não. Excetuando as questões do foro emocional “o que sentiste quando soubeste que o teu pai morreu?”, “o que sentiste quando estavas prestes a tomar aquela embalagem de comprimidos?”, “o que sentiste quando ele disse que já não te amava?”, o psicoterapeuta abstém-se quase sempre de transformar a consulta num interrogatório. A arte do verdadeiro psicoterapeuta é conseguir, com as técnicas científicas que são introduzidas na conversa psicoterapêutica, ativar áreas cerebrais e produzir neuroquimicamente neurotransmissores que levarão a um alívio progressivo dos sintomas, por exemplo, tristeza, desvalorização, sentimentos de inutilidade, baixa autoestima, pensamentos de acabar com a vida. Por isso posso afirmar que as doenças do foro psicológico têm cura com psicoterapia.

Redes de tráfico usam cada vez mais menores como escudos

Julho 30, 2019 às 8:00 pm | Publicado em Vídeos | Deixe um comentário
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Notícia da RTP Notícias de 11 de julho de 2019.

As redes de tráfico humano estão a usar cada vez mais menores como “escudos” para trânsito ilegal de fronteiras, a par de outros abusos que é urgente contrariar. Destaque de uma entrevista da Chefe-Executiva cessante da ONG, “Save The Children International”, Helle Schmidt, ao programa de Relações Internacionais da RTP3, “Olhar o Mundo”.

Questionada se a União Europeia deve aperfeiçoar e reforçar os mecanismos e recursos de combate a este abuso de crianças, a antiga primeira-ministra da Dinamarca – foi, de 2011 a 2015, a primeira mulher a desempenhar essas funções- foi peremptória: “Concerteza. Em absoluto! Tenho visto crianças serem exploradas de tantas formas que nem imagina. (..) Elas são o nosso futuro e já conheci tantas crianças a quem lhes roubaram o futuro. Roubam-nos o nosso futuro se formos refugiados, se não tivermos acesso à educação, se vivermos de uma forma insegura ou se formos alvos de abusos ou de violência. E há demasiadas crianças a viverem assim”.

Confrontada com o facto de as redes de tráfico humano usarem cada vez mais o duplo expediente de pedido de asilo e uso de crianças indocumentadas (sem prova de laços de família ou autorização de viagem com o adulto em trânsito) como escudo no desembarque, Schmidt reafirmou a urgência de não facilitação desse abuso.

“É claro que temos de ser uma União Europeia que protege as crianças e tenta desenvolver o seu futuro. (…) Estou chocada com a forma como o mundo trata as crianças, por isso, tudo o que pudermos fazer, passo-a-passo, para combater esse problema, temos de o fazer”, afirmou.

Após três anos na liderança da maior ONG à escala mundial dedicada à defesa das crianças em situação de fragilidade, Helle Schmidt afastou-se do cargo este mês e, aos 52 anos, abre agora a porta a um cargo de liderança da nova estrutura da União Europeia.

Casada com o deputado trabalhista britânico, Stephen Kinnock (filho do antigo lider trabalhista Neil Kinnock), Helle Schmidt estreou-se como eurodeputada antes de ser eleita para o parlamento do seu próprio país e é Mestre em Estudos Europeus, pelo College Of Europe, em Bruges, Bélgica (1993).

Helle Schmidt foi entrevistada à margem da reunião anual do Conselho Europeu de Relações Externas (ECFR.EU), realizado este ano na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.

Um trabalho que vai ser emitido e analisado este sábado, a partir das 14h20, no programa “Olhar o Mundo” da RTP3.

Visualizar o vídeo da notícia com a entrevista no link:

https://www.rtp.pt/noticias/mundo/redes-de-trafico-humano-estao-a-usar-cada-vez-mais-menores-como-escudos_v1159790?fbclid=IwAR2ZWOrVAMnG_tvLjuvIsNkdd168Ou4OcLjauw_bUM_2VKKQ4Z8wmdAYZPU

Proporção de vítimas infantis de tráfico de pessoas mais do que dobrou em 12 anos

Julho 30, 2019 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia da ONU News de 30 de julho de 2019.

O Dia Mundial de Combate ao Tráfico de Pessoas é marcado em 30 de julho. Segundo o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime, Unodc, cerca de 72% das vítimas são mulheres e meninas e o porcentual de vítimas infantis mais do que dobrou de 2004 a 2016, chegando a perto de 30%.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, disse esta terça-feira que “o tráfico de pessoas é um crime hediondo que afeta todas as regiões do mundo.”

O Dia Mundial de Combate ao Tráfico de Pessoas é marcado em 30 de julho. Segundo o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime, Unodc, cerca de 72% das vítimas são mulheres e meninas e o porcentual de vítimas infantis mais do que dobrou de 2004 a 2016, chegando a perto de 30%.

Vítimas

Em mensagem sobre o dia, Guterres disse que “as vítimas mais comuns são traficadas para exploração sexual” e também “para trabalhos forçados, recrutamento como crianças-soldados e outras formas de exploração e abuso.”

Segundo o chefe da ONU, “os traficantes e grupos terroristas atacam os mais vulneráveis, desde pessoas em situação de pobreza até aqueles que estão em guerra ou que enfrentam discriminação.”

Guterres lembrou que Nadia Murad, a primeira vítima de tráfico a servir como embaixadora da Boa Vontade das Nações Unidas, recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 2018 pelas ações realizadas para deter o tráfico e a violência sexual em conflitos.

Migrantes

O secretário-geral afirmou que “conflito armado, deslocamento, mudança climática, desastres naturais e pobreza exacerbam as vulnerabilidades e o desespero que permitem que o tráfico floresça.”

Sobre os migrantes, disse que “estão sendo visados” e que “milhares de pessoas morrem no mar, em desertos e em centros de detenção, nas mãos de traficantes e contrabandistas que operam seus monstruosos e impiedosos tráficos.”

Guterres destacou, no entanto, “a indiferença cotidiana ao abuso e à exploração” que existe à nossa volta. Segundo ele, “da construção à produção de alimentos e bens de consumo, inúmeras empresas e empresas se beneficiam da miséria.”

Progresso

O chefe da ONU citou progressos, como a Convenção de Palermo e o Protocolo para Prevenir, Suprimir e Punir o Tráfico de Pessoas, Especialmente Mulheres e Crianças.

Ele disse que “a maioria dos países tem as leis necessárias em vigor e alguns países realizaram recentemente suas primeiras condenações”, mas que “é preciso fazer mais para levar as redes de tráfico à justiça e, acima de tudo, garantir que as vítimas sejam identificadas e tenham acesso à proteção e aos serviços de que precisam.”

ODSs

Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável incluem metas para prevenir o abuso e a exploração, eliminar todas as formas de violência contra mulheres e meninas e para erradicar o trabalho forçado e o trabalho infantil.

Neste Dia Mundial, Guterres pediu que a comunidade internacional “reafirme o compromisso de impedir que os criminosos explorem implacavelmente as pessoas em busca de lucro e ajudem as vítimas a reconstruírem suas vidas.”

Apelo

Entre 2003 e 2016, foram identificadas 225 mil vítimas de tráfico. Em mensagem sobre o dia, o diretor executivo do Unodc disse que existem “muitas, muitas mais vítimas que precisam da nossa ajuda.”

Em anos recentes, a proporção de pessoas que é traficada dentro do seu país aumentou para 58% do total de vítimas. É por isso que o Unodc dedica o Dia Mundial este ano a um apelo para mais ação dos governos.

Yuri Fedotov diz que “combater este flagelo significa construir uma sociedade que não deixa ninguém para traz.” O diretor executivo pede “aos governos que aumentem as suas respostas e deem as vítimas o apoio e justiça que merecem.”

30 de julho – Dia Mundial Contra o Tráfico de Seres Humanos

Julho 30, 2019 às 10:20 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Mais informações no link:

https://www.unodc.org/unodc/ru/human-trafficking/what-is-human-trafficking.html?ref=menuside

Educar sem violência

Julho 30, 2019 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Eva-Delgado Martins publicado no Público de 14 de julho de 2019.

Quando os pais deixam de bater em casa, os filhos deixam de bater na escola. O apoio à mudança de práticas parentais educativas violentas, ensinando os valores da não-violência possibilitará que os filhos se tornem adultos saudáveis.

Se a violência entre adultos não é um comportamento aceitável na sociedade em que vivemos, não é possível admiti-la nas relações entre pais e filhos. No entanto, a avaliar pela nossa experiência, a maioria esmagadora das famílias portuguesas considera que, “quando é necessário”, o castigo físico é uma forma legítima de educar. Muitos pais continuam a acreditar que, tanto o castigo físico (“umas palmadas”), como a agressão verbal (gritos, insultos e humilhações) devem fazer parte da educação dos seus filhos. Esta é uma crença de que esses recursos agressivos são relevantes para mostrar a sua autoridade como pais.

Ao usar a violência física ou psicológica, ensinamos aos nossos filhos que a humilhação e a prepotência são meios para se alcançar o que quer que seja. Sem se aperceberem, através deste modelo de comportamento violento, os pais transmitem aos filhos o sentimento de uma baixa auto-estima, prejudicando sua saúde física e emocional, o seu desenvolvimento cognitivo e o relacionamento que estabelecem com outras pessoas.

A punição física pode desenvolver nas crianças dúvidas sobre a constância do amor dos pais, o sentimento de não serem amadas e de se atribuírem a si próprias a responsabilidade dessa rejeição — “os meus pais não gostam de mim porque eu não presto”. Os pais pensam que a punição física é uma solução rápida do problema, mas o castigo corporal faz com que a criança julgue que o amor parental lhe vai ser retirado. Os castigos “não corporais” e o diálogo são sempre melhores do que o uso da punição física.

Segundo os dados do relatório Um Rosto Familiar: A Violência na Vida de Crianças e Adolescentes, da UNICEF, de 2017: “(…) cerca de 300 milhões (três em quatro) de crianças na faixa etária de dois a quatro anos, sofrem, regularmente, disciplina violenta por parte dos seus cuidadores; 250 milhões (cerca de seis em cada dez) são punidas com castigos físicos.” (p.19).

Pelo artigo 152.º do Código Penal, revisto em 2007 — “Quem de modo reiterado ou não infligir maus tratos físicos ou psíquicos, incluindo castigos corporais, privações de liberdade e ofensas sexuais” —, a lei proíbe que os pais batam nos filhos.

De acordo com o Relatório Nacional sobre a Implementação da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável (Portugal, 2017), “sublinha-se o objectivo estratégico de prevenir e actuar nas diferentes formas de violência contra as crianças, que contempla objectivos operacionais e indicadores na área da prevenção, segurança e adequado acompanhamento das crianças vítimas de violência” (p. 80).

É fundamental procurar soluções para uma transformação construtiva de comportamentos e atitudes neste tipo de dinâmica familiar violenta para com os filhos, com o objectivo de proporcionar aos pais uma prática educativa mais saudável para o bem-estar físico, social, emocional, cognitivo e comportamental dos filhos, procurando formas que eliminem o seu sofrimento e assegurem a protecção imediata da criança, vítima de violência por um ou por ambos os pais.

Crianças educadas com práticas educativas parentais coercivas resultam em jovens e adultos que utilizam práticas similares, uma vez que a falta de modelos positivos leva à aceitação da punição imposta pelos pais como um procedimento educativo normal (Weber; Wiezzer; Brandenburg, 2004). As crianças e os adolescentes tendem a seguir os modelos de educação dos seus pais e, dessa forma, a reproduzir a violência na relação com os outros na família e em demais contextos, como a escola. Em todo o mundo, metade dos alunos com idades entre os 13 e os 15 anos — cerca de 150 milhões de jovens — relata ter passado por violência entre pares na escola ou nas imediações desta (Relatório Unicef, 2018).

Ao contrário, quando os pais deixam de bater em casa, os filhos deixam de bater na escola. O apoio à mudança de práticas parentais educativas violentas, ensinando os valores da não-violência possibilitará que os filhos se tornem adultos saudáveis e que não repetem a punição física com seus próprios filhos.

É a desproporção física entre pais e filhos e o livre-arbítrio do poder parental que facilita o uso da violência, uma vez que dificilmente os filhos retaliarão ou poderão argumentar ao mesmo nível dos pais. O descontrolo dos pais e a consequente dor sentida pelos filhos podem fazer perigar o clima afectivo no seio da família, sobretudo se existir repetição da punição. O cansaço e as preocupações do dia-a-dia levam muitos pais a descontrolar-se e a sujeitar os filhos a agressões físicas ou psicológicas, com um sofrimento inevitável para ambas as partes.

Bater faz com que o comportamento da criança mude por medo e não por interiorizar as regras que queremos transmitir-lhe. Os pais que batem podem ser adultos muitas vezes inseguros, frequentemente insatisfeitos consigo próprios, com dificuldade em relacionar-se com os outros e que exprimem essas frustrações através da violência física. Em princípio, um adulto tem mais experiência, melhor controlo emocional e mais argumentos para explicar e convencer do que uma criança, pelo que não deve precisar de recorrer à agressão física.

Psicóloga e terapeuta familiar

2021 declarado Ano Internacional para a Eliminação do Trabalho Infantil

Julho 29, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia da ONU News de 26 de julho de 2019.

Assembleia Geral da ONU pediu que a comunidade internacional intensifique esforços para erradicar trabalho forçado e trabalho infantil; em 2016, 152 milhões de crianças com idades entre 5 e 17 anos eram vítimas do trabalho infantil.

A Assembleia Geral das Nações Unidas adotou por unanimidade uma resolução declarando 2021 como o Ano Internacional para a Eliminação do Trabalho Infantil e pediu que a Organização Internacional do Trabalho, OIT, assuma a liderança em sua implementação.

Dados da OIT indicam que em 2016, 152 milhões de crianças com idades entre 5 e 17 anos estavam envolvidas em trabalho infantil, e quase metade delas, 73 milhões, em trabalho infantil perigoso.

Resolução

A resolução destaca os compromissos dos Estados-membros de “tomar medidas imediatas e efetivas para erradicar o trabalho forçado, acabar com a escravidão moderna e tráfico de pessoas e assegurar a proibição e eliminação das piores formas de trabalho infantil, incluindo o recrutamento e uso de crianças-soldados.”

A meta de acabar com o trabalho infantil em todas as suas formas até 2025 também é enfatizada na resolução.

A Assembleia Geral reconheceu a importância da Convenção sobre os Direitos da Criança, da Convenção sobre a Idade Mínima da OIT de 1973 e da Convenção sobre as Piores Formas de Trabalho Infantil de 1999, que está próxima da ratificação universal pelos 187 Estados-membros da OIT.

Agenda 2030

Também foi reconhecida a importância de “parcerias globais revitalizadas para garantir a implementação da Agenda 2030 do Desenvolvimento Sustentável, incluindo a implementação das metas e objetivos relacionados à eliminação do trabalho infantil”.

A Argentina assumiu um papel de liderança na defesa desse compromisso global, como um seguimento da IV Conferência Global sobre a Erradicação do Trabalho Infantil, realizada em novembro de 2017 em Buenos Aires.

O representante da Argentina na ONU, Martin Garcia Moritán, disse que a expectativa é de que “este seja mais um passo para redobrar esforços e progresso para avançar dia após dia em direção a um mundo no qual nenhuma criança seja submetida a trabalho infantil ou exploração e um mundo onde o trabalho decente para todos seja uma realidade.”

OIT

A OIT tem trabalhado para a abolição do trabalho infantil ao longo dos seus 100 anos de história, e uma das primeiras Convenções que adotou foi sobre a Idade Mínima na Indústria.

De acordo com a agência, progressos substanciais foram alcançados nos últimos anos, em grande parte devido à intensa defesa e mobilização nacional apoiada por ações legislativas e práticas. Entre 2000 e 2016, houve uma redução de 38% no trabalho infantil globalmente.

O chefe do Departamento de Princípios Fundamentais e Direitos no Trabalho da OIT, Beate Andrees, destacou que “a luta contra o trabalho infantil ganhou um impulso extraordinário nas últimas duas décadas.” Ele destacou que, no entanto, “é óbvio que precisamos ampliar ainda mais a ação, e a decisão da Assembleia Geral de declarar 2021 o Ano Internacional para a Eliminação do Trabalho Infantil será uma grande ajuda para concentrar a atenção nos milhões de meninas e meninos que ainda trabalham nos campos, minas e fábricas.”

Estimativas da OIT mostram que em 2016:

  • O trabalho infantil perigoso foi mais prevalente entre as crianças de 15 a 17 anos. No entanto, até um quarto de todo o trabalho infantil perigoso, 19 milhões, foi realizado por crianças menores de 12 anos;
  • Quase metade, 48%, das vítimas de trabalho infantil tinham entre 5 e 11 anos de idade; 28% tinham entre 12 e 14 anos; e 24% tinham entre 15 e 17 anos;
  • O trabalho infantil concentra-se principalmente na agricultura, com 71% dos casos. Outros 17% das ocorrências estão nos serviços e 12% no setor industrial, incluindo mineração;

 

mais informações nos links:

https://www.ilo.org/global/about-the-ilo/newsroom/news/WCMS_713925/lang–en/index.htm

https://www.un.org/en/ga/73/resolutions.shtml

As férias dos filhos de pais divorciados

Julho 29, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Rute Agulhas publicado no Público de 25 de junho de 2019.

O que fazer quando, por alguma razão, a criança está longe de um progenitor mais tempo do que aquele que é capaz de compreender? Existem algumas formas de tentar minimizar o potencial impacto negativo que este distanciamento poderá ter na criança.

As férias escolares chegaram e, como em todos os anos por esta altura, temos um calvário que se repete. O calvário das férias dos filhos de pais separados.

A separação ou divórcio parental é (ou deveria ser) apenas entre os elementos do casal, e não entre pais e filhos. Entre pais e filhos não há divórcio. Assim, e partindo sempre do pressuposto que as crianças têm o direito a conviver regularmente com ambos os pais, os períodos de férias tendem a ser (e bem) igualmente repartidos com cada um deles. Mas atenção, porque nesta distribuição do tempo durante as férias e, particularmente agora, nas férias de Verão (mais extensas), há uma variável chave que deve ser tida em conta: a idade da criança.

Os períodos de tempo que a criança deverá passar com cada um dos pais devem ter em conta a sua idade e nível de desenvolvimento, e não apenas aquilo que dá mais jeito aos pais.

As crianças a partir dos dois ou três anos de idade têm uma noção de tempo que, na maioria das situações, não vai além do “hoje” e do “amanhã”. À medida que crescem, até aos cinco ou seis anos de idade, a sua noção de tempo aumenta um pouco mais, conseguindo já entender o que significa “hoje”, “amanhã”, “ontem” e “depois de amanhã”. Ainda recentemente uma criança de cinco anos me dizia que algo iria acontecer “duas vezes amanhã”, o que traduz bem a sua dificuldade em situar-se no tempo.

É a partir da idade escolar, de uma forma geral, que as crianças começam a interiorizar os conceitos de semana, fim-de-semana e mês. A escola e todas as rotinas a ela associadas ajudam as crianças neste tipo de aquisições.

Quando pensamos na divisão do tempo de férias de Verão com os pais, a noção de tempo daquela criança em concreto deve ser tida em conta. Ainda que estejamos a falar de um período que apenas acontece uma vez no ano, a regra base é simples: a criança não deve passar períodos de tempo que sejam muito mais longos do que aqueles que é capaz de compreender.

O que significa isto?

As crianças até aos três anos devem passar períodos de tempo mais curtos, que lhes permitam não estar mais do que três ou quatro dias seguidos sem estar com o outro progenitor.

As crianças em idade pré-escolar, com maior capacidade para lidar com as separações, já conseguem lidar com intervalos de tempo de cerca de uma semana, sem que a distância face ao outro progenitor seja geradora de stresse.

É a partir da idade escolar, de uma forma geral, que as crianças evidenciam um desenvolvimento cognitivo e emocional que lhes permite tolerar períodos de tempo mais longos, como uma quinzena.

E o que dizer dos adolescentes? Aqui, a nossa preocupação não se relaciona tanto com aspectos do seu desenvolvimento, mas sim com a necessidade, legítima, que sentem em estar com os amigos. Assim, será legítimo também ouvir o adolescente e tentar perceber de que forma a interacção com os seus pares poderá ser integrada nos períodos de férias escolares. Lembre-se que, para um adolescente, passar as férias todas com os pais e sem acesso aos amigos equivale a uma espécie de tortura.

E o que fazer quando, por alguma razão, esta regra não pode ser cumprida e a criança está longe de um progenitor mais tempo do que aquele que é capaz de compreender? Existem algumas formas de tentar minimizar o potencial impacto negativo que este distanciamento poderá ter na criança.

Uma imagem vale mais do que mil palavras

O Francisco tem um ano e meio de idade e nas férias irá estar uma semana com cada progenitor. Diariamente, faz uma videochamada com o progenitor que está longe. Mesmo que ainda não saiba falar muito bem, ouve a voz e vê a imagem, e a interacção é seguramente mais rica.

Torre de legos

A Inês tem três anos e vai estar uma semana com cada um dos pais. Como não tem ainda uma noção de tempo que lhe permita compreender o que isso significa, os pais arranjaram um jogo. No início de cada semana tem sete peças de lego espalhadas. Todas as noites, quando se deita, coloca uma peça em cima da outra. À medida que os dias vão passando, vai construindo uma torre. Ela sabe que quando a torre estiver completa será o dia de mudar para a casa do outro progenitor.

Um dia de convívio durante as férias

A Sara tem quatro anos de idade e tem o seu tempo de férias dividido por quinzenas. A meio de cada quinzena de férias com a mãe ela passa um dia inteiro com o pai. E vice-versa.

Caixa do tesouro

O Martim tem seis anos e tem o seu tempo dividido por quinzenas. Apesar de já ir para a escola este ano, ainda não consegue perceber muito bem o que são duas semanas seguidas. Então cada progenitor tem consigo uma caixa especial, que decorou previamente com ele, onde colocam pequenos objectos simbólicos durante o tempo em que estão longe. Uma flor de um jardim, uma concha da praia, um papel rabiscado com um desenho. Quando se reencontram, abrem juntos esta caixa e exploram cada objecto. Qual a mensagem que é transmitida? “Penso em ti mesmo quando estou longe de ti, nas mais pequenas coisas do dia-a-dia.”

Vamos tentar?

 

Psicóloga especialista em Psicologia Clínica e da Saúde, Psicoterapia e Psicologia da Justiça; docente e investigadora no ISCTE-IUL

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