Como ajudar as crianças a serem mais resilientes? A resposta está no cérebro

Agosto 29, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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© CarlosDavid.org iStockphoto

Entrevista de Daniel J. Siegel ao Observador de 20 de julho de 2019.

Em entrevista ao Observador, Daniel J. Siegel, coautor do livro “Crianças Sim”, explica como os pais podem ajudar os filhos a serem mais recetivos, isto é, mais curiosos e imaginativos.

Em 2015, Daniel J. Siegel, coautor do livro e bestseller do The New York Times “Disciplina sem Dramas”, explicava ao Observador como acabar com as birras dos miúdos, aliando a neurociência à educação dos mais novos. Quase quatro anos depois, volta a dar-nos uma entrevista para apresentar o novo livro que, desta vez, pretende ajudar os pais a trabalhar a capacidade inata de resiliência, autonomia e criatividade das crianças.

O psiquiatra Daniel J. Siegel e a psicoterapeuta Tina Payne juntaram-se uma vez mais e assinam em conjunto a obra “Crianças Sim”, da editora Lua de Papel. No livro explicam como as crianças podem ser recetivas (“cérebro sim”) ou reativas (“cérebro não”) a determinadas situações: “Sempre que há um conflito potencial — desligar o telemóvel, fazer os trabalhos de casa, comer os ‘verdes’, ir para a cama — muitas crianças tendem a fechar-se ou a responder negativamente. É uma canseira, para pais e filhos. E é também aquilo a que Daniel J. Siegel e Tia Payne Bryson chamam uma resposta de ‘cérebro não’”, lê-se na contracapa.

Se até aos três anos é de esperar atitudes reativas por parte das crianças, a verdade é que os autores defendem que ainda antes desta idade os pais podem começar a ensinar os filhos a ter uma postura mais aberta e curiosa. Defendem eles que quando as crianças trabalham o “cérebro sim”, estão mais abertas a arriscar e a explorar, são mais curiosas e imaginativas. Ao Observador, Daniel J. Siegel diz mesmo:

“Não conseguimos exercer a parentalidade com eficiência se o fizermos a partir do estado reativo. Este livro, “Crianças Sim”, ensina os pais a diferença entre um “cérebro não” e um “cérebro sim”.

Este livro é um complemento ao anterior, “Disciplina sem dramas”? O que é que traz de novo?
O livro “Disciplina Sem Dramas” tem por base a ideia de que as pessoas pensam que disciplina é castigo, mas no livro tentamos explicar que disciplina significa ensinar e não castigar — em causa estão discípulos ou estudantes, não prisioneiros. O livro “Crianças Sim” olha para o facto de o nosso cérebro ter dois estados: o estado reativo e o estado recetivo. No primeiro, partes do cérebro que são muito velhas e que estão relacionadas com a nossa sobrevivência são ativadas e deixam-nos prontos para lutar, fugir, congelar ou desmaiar — estas quatro fases são formas de nos adaptarmos à sobrevivência. Podemos criar isto em alguém quando essa pessoa ouve continuamente “não, não, não” de uma forma áspera. Isto cria o estado reativo. O que acontece com o estado recetivo é o contrário: quando dizemos a palavra “sim” com muita calma estamos, basicamente, levar a pessoa do estado reativo para o recetivo, em que há conexão, saber receber e aceitar… É tendo em conta este estado que devemos exercer a parentalidade. Não conseguimos exercer a parentalidade com eficiência se o fizermos a partir do estado reativo. Este livro, “Crianças Sim”, ensina os pais a diferença entre um “cérebro não” e um “cérebro sim”.

O que é um “cérebro sim” e o que é um “cérebro não”? Pode dar exemplos concretos?
Um “cérebro não” será, por exemplo, quando a criança está no parque infantil e não quer ir embora, pelo que grita e foge de nós… Isso será um estado reativo. O “cérebro sim”… imaginamos que nos sentamos com o nosso filho no parque e dizemos, ao seu nível e a olhá-lo nos olhos, “Brincar é tão divertido, é normal que não te queiras ir embora, eu também quero ficar aqui” — nesta fase ele olha para nós porque estamos a compreendê-lo e a conectar com ele. Continuamos: “Podemos ligar ao teu tio e dizer que, apesar de ele ter bilhetes para aquele filme que queremos muito ir ver, vamos ficar a brincar e ele que dê os bilhetes a outra pessoa”. Ao dizer isto estamos a explicar à criança que ela tem uma escolha — a maior parte das crianças escolheria o cinema. Esta é uma forma de comunicar com as crianças, em vez de gritar com elas ou tirá-las à força do parque.

“Agir de acordo com um ‘cérebro sim’ não é dizer sempre que sim aos seus filhos. Não se trata de ser permissivo, de desistir, de os proteger das desilusões ou de os resgatar de situações difíceis. E também não se trata de educar uma criança submissa, que obedece automaticamente aos pais sem pensar por si própria. Pelo contrário, trata-se de ajudar as crianças a perceberem quem são, quem podem vir a ser, fazendo com que sejam capazes de ultrapassar as desilusões e os fracassos e escolher uma vida plena de relacionamentos e de significado.” Pág. 19

Porque é que é tão importante que os pais estejam a par do desenvolvimento do cérebro infantil? De que maneira é que esse conhecimento pode impactar a educação das crianças?
É importante porque, em última análise, a interação que os pais têm com as crianças cria alterações na estrutura dos seus cérebros. Quando os pais sabem disto conseguem agir no sentido de contribuir para que o cérebro da criança se desenvolva num sentido produtivo.

As crianças podem ser todas divididas em “cérebro sim” e “cérebro não”?
Isto não é sobre uma criança ser melhor do que a outra, tem que ver com determinados momentos de interação. O cérebro tem um modo recetivo e reativo. Se pensarmos nisso… imaginemos que estamos a andar na praia, que tudo é bonito e, de repente, somos assaltados — vamos de um estado recetivo, em que estamos tão contentes, para o reativo, em que vamos congelar, ou lutar ou fugir… Basicamente temos estes dois estados, é extraordinário.

“As crianças que enfrentam o mundo com um ‘cérebro não’ ficam dependentes da sua sorte e dos seus sentimentos. Ficam presas às suas emoções, incapazes de as alterar, queixando-se da sua realidade em vez de encontrar formas saudáveis de lidar com ela. Ficam preocupadas, muitas vezes de forma obsessiva, por enfrentarem algo novo ou cometerem um erro, em vez de tomarem decisões com a abertura de espírito e curiosidade de um ‘cérebro sim’. A teimosia comanda o quotidiano de um ‘cérebro não’.” Página 17

O que está a dizer é que somos “cérebro sim” e “cérebro não” muitas vezes durante o dia, e que o livro sugere ferramentas para que as crianças sejam mais vezes “cérebro sim” ao invés de “cérebro não”?
Isso mesmo. O livro também oferece ferramentas para que as crianças consigam fazer essa transição entre estados. Enquanto pais não conseguimos exercer a parentalidade com um “cérebro não”. A ideia é aprender sobre estes dois estados que a maior parte das pessoas desconhece. Assim que aprendemos sobre eles ficamos numa posição de fazer alguma coisa.

O cérebro é realmente mais plástico na infância? É mesmo possível programar o cérebro?
Sim, é mais plástico na infância. A criança é mais aberta a aprender e também é mais dependente dos adultos. Nós não usamos a palavra “programar” porque em inglês vai mais no sentido de “controlo da mente”… Nós chamamos a isso aprender. Culturalmente, “programar” é como programar um robô. Olhamos para isto como uma ferramenta de aprendizagem.

Mas até que ponto não estamos a condicionar a personalidade da criança?
Nós somos capazes de melhorar a personalidade das crianças. A personalidade é uma combinação de temperamentos e de experiências.

No livro escreve que “um ‘cérebro não’ aparentemente omnipresente é típico e normal no desenvolvimento de uma criança de três anos”. Como assim?
É verdade. Vemos mais isso numa criança de três anos, que tem uma tendência para ser reativa. Não é uma coisa patológica, é mais uma questão de desenvolvimento. Durante estes primeiros anos eles estão a aprender a regular o cérebro.

Então, deveríamos ser mais compreensivos com as crianças até esta idade?
Exatamente. Não é preciso pensar nisso enquanto uma patologia, podemos antes encarar como uma oportunidade ao nível da parentalidade.

Um “cérebro sim” implica capacidade de alcançar estabilidade emocional e controlar o corpo e a mente. Isto não será pedir demais às crianças?
Não, estamos a falar de ferramentas que as ajudam. Não estamos à espera que as coisas aconteçam da noite para o dia, mas ao longo dos anos podemos ajudar as crianças a desenvolver estas competências.

“Há uma razão para o equilíbrio ser o primeiro dos quatro fundamentos de um ‘cérebro sim’. De uma forma muito real, os outros três fundamentos — resiliência, discernimento e empatia — dependem todos da capacidade que a criança tem de apresentar algum equilíbrio emocional e controlo.” Pág. 39

Como se fosse uma semente?
Isso, como uma semente que cresce. Bonita analogia.

As crianças parecem brincar cada vez menos. Isso pode refletir-se negativamente no cérebro, dado que a brincadeira permite adquirir conhecimentos a vários níveis?
Brincar é essencial para um conjunto de coisas. É essencial para o desenvolvimento dos pensamentos, para o desenvolvimento emocional e também para o desenvolvimento social. A diminuição das brincadeiras não é bom a todos os níveis, incluindo o desenvolvimento físico. Sentar as crianças à frente de ecrãs e deixá-las fazer coisas sozinhas num ecrã não é brincar. Competir numa equipa também não é o que nós queremos dizer com brincar. Brincar é uma interação espontânea e autêntica, livre de julgamentos.

Mas como é que isto afeta o desenvolvimento do cérebro dos mais novos?
Há muitos estudos que mostram que se não brincarmos podemos ter menos competências emocionais e sociais, bem como criativas.

Isso são coisas importantes que necessitamos também na nossa vida adulta…
Isso mesmo. Acho que infelizmente os ecrãs ocupam muito do nosso tempo com jogos, redes sociais, vídeos… Isso aumenta o nosso sentimento de inadequação.

Quais as principais dificuldades que um adulto com um “cérebro não” enfrenta na vida?
São pessoas que estão constantemente a entrar em lutas, estão constantemente a atacar as pessoas, criam medo nos outros. Se são pais, criam dor nos filhos…Se estão numa equipa, criam terror na equipa… Se são presidentes de um país, criam uma sensação incrível de medo.

Refere-se ao atual presidente dos Estados Unidos da América?
Não vou comentar sobre isso, mas pode deduzir o que quiser dessa afirmação. Mas isto dá para explicar muito da polarização que existe no mundo e dá para perceber que políticos estão a fazer o seu trabalho numa perspetiva de “cérebro não” e os que estão a fazê-lo com base num “cérebro sim”. Se conseguirmos perceber o ponto de vista de um “cérebro não”, conseguimos perceber o que se passa no mundo.

Parentalidade. “Quando as crianças estão agitadas ficam cegas e surdas”

Agosto 25, 2019 às 1:00 pm | Publicado em Livros | Deixe um comentário
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Entrevista do Observador a Hedvig Montgomery no dia 28 de julho de 2019.

Ana Kotowicz

Terapeuta norueguesa explica que o estado de agitação tem efeitos sobre o cérebro das crianças que ficam, literalmente, cegas e surdas. Não é teimosia — simplesmente perdem a capacidade de nos ouvir

Dizem que é a bíblia dos pais do século XXI e que é este livro — “A Magia da Parentalidade” — que vai, finalmente, transformá-los naquilo que sempre quiseram ser. Quem tem filhos sabe que essa é uma ambição comum, até porque a parentalidade é uma tarefa muito mais fácil e romântica quando as crianças não passam de pequenos seres imaginários e adoráveis. O problema é quando se tornam reais e mães e pais fazem tudo aquilo que juraram nunca fazer. A privação do sono, a que nenhum pais ou mãe escapa nos primeiros meses (ou anos) de vida do filho, ou as birras que se seguem em catadupa antes do pequeno-almoço são momentos habituais do dia a dia de uma família, mas são capazes de transformar até o pai mais zen num Bruce Banner prestes a virar Hulk.

Mas há soluções para manter as pulsações em baixa, mesmo quando o seu filho de cinco anos demora 10 minutos a calçar uma meia. Pelo menos, é isso que promete Hedvig Montgomery em “A Magia da Parentalidade”, o primeiro de uma série de livros assinados pela norueguesa. Considerada uma guru no seu país, especialista em terapia familiar, Montgomery trabalha há mais de 20 anos com pais, ajudando-os a criar filhos mais felizes e saudáveis.

Com 51 anos e três filhos — de 9, 12 e 25 anos —, a terapeuta conta ao Observador, numa conversa por email, que o seu forte como mãe é a capacidade de compreensão e que, se mudasse alguma coisa na relação com os filhos, seria o tempo que dedica ao trabalho. Não rejeita a ideia de que ser mãe ou pai é um dos trabalhos mais duros da nossa vida de adultos, mas garante que, se olharmos bem, vamos sempre encontrar pedaços de magia no meio do caos. Defende que os pais deviam conhecer melhor as fases de desenvolvimento das crianças, já que isso iria ajudá-los a saber o que esperar, tornando a parentalidade bastante mais fácil. E deixa um alerta: atenção aos momentos em que perdem a paciência, porque há linhas vermelhas que não podem nunca ser ultrapassadas.

Confessa que a maioria dos pais está cheio de conselhos inúteis e que só devemos confiar nas opiniões que fazem sentido para nós e ignorar as outras, mesmo quando chegam de conceituados especialistas. Com o tempo, promete, todos melhoramos as nossas capacidades parentais e seremos sempre mais capazes de educar o segundo ou o terceiro filho. O importante, com todos os nossos defeitos, é que as crianças percebam que são amadas e que a sua família é um sítio seguro.

Esse é, aliás, o grande truque: “As crianças aprendem quando se sentem seguras, é nesses momentos que apanham uma série de coisas complicadas.” Nos outros, na altura do caos, o melhor é reencontrar o equilíbrio e deixar as lições de vida para mais tarde. O estado de agitação tem efeitos sobre o seu cérebro, ao ponto de ficarem, de certa forma, cegas e surdas. Não é teimosia, simplesmente perdem a capacidade de nos ouvir. “O que devemos fazer é apostar mais no que elas aprendem quando podem e tentar acalmar situações que deram para o torto, muito mais do que seguir a via do castigo”, aconselha. “Os castigos nunca são úteis para a criança, por isso não há necessidade de usá-los.”

“A Magia da Parentalidade” é o nome do livro em português. Mas para muitas mães, depois de lidarem com 20 birras, ou quando estão a passar pela privação do sono, nem sempre é fácil ver onde está a magia, não concorda?
Bem sei que ser mãe ou pai é um trabalho muito duro. Mas, no meio de tudo isso que diz, de repente, olha e vê o seu lindo filho ou filha a brincar, a dizer algo fantástico ou apenas satisfeito e sente uma onda de amor. Esse momento é pura magia, e eu tento dar aos pais ferramentas para criar e reconhecer esses momentos com mais frequência.

Mas a magia existe, de facto, na sua opinião?
Sim, existe em todas as famílias. Podemos aumentar a quantidade de magia na família, mas a vida não vai ser sempre mágica. Se assim fosse, os nossos filhos não aprenderiam a lidar com a vida real ou com todas as dificuldades que têm de enfrentar. E nós nem saberíamos que existe magia. Para ver os momentos mágicos, temos também de experimentar o outro lado.

Se a parentalidade fosse fácil, não seriam precisos tantos livros sobre o tema. Ser mãe é das tarefas mais difíceis da nossa vida e no seu livro diz que todos os pais com quem falou em algum momento erraram. Não há famílias perfeitas? É importante percebermos isso?
Ser humano é difícil, criar um filho é ainda mais difícil. Quando vivemos em conjunto com alguém, essa proximidade faz com que o atrito aconteça, seja qual for o relacionamento. Mas, enquanto pais, somos responsáveis pelos nossos filhos. Nós podemos resolver os problemas, eles não. Saber que as armadilhas existem torna mais fácil sermos responsáveis e ajuda-nos a lidar com os nossos próprios erros.

Como foi consigo e com os seus três filhos — 9, 12 e 25 anos — de gerações tão diferentes? Sentiu a influência da década enquanto educadora? Há coisas que as nossas avós faziam e que nós não arriscamos repetir. Cada geração melhora o tipo de pais que tem?
Penso que cada geração comete os seus próprios erros, tem os seus ângulos mortos e tenta corrigir a educação das suas crianças. Nos anos 1950, os pais eram demasiadamente rígidos e as suas interações com as crianças eram pobres. A distância entre pais e filhos era enorme e os castigos físicos e psicológicos eram comuns. O resultado disto foram crianças inseguras com pouco contacto com os seus próprios sentimentos. Nos anos 1970, era dada mais permissão às crianças para brincarem e para serem elas mesmas, mas muitos pais esqueciam-se de tomar conta dos seus filhos da forma apropriada. Estavam ocupados a criar uma nova sociedade e a encontrar o seu próprio espaço dentro dela. O resultado? Crianças que se sentiam à parte e que tinham de lutar para criar ligações. Nos anos 1990, apercebemos-nos da importância de proteger as crianças de acidentes e começámos a tornar os parques infantis mais seguros e começámos a preocupar-nos mais. As crianças não eram autorizadas a tentar e a falhar e isto resultou em crianças com medo de cair e de falhar. As crianças superprotegidas sentem que não podem fazer nada, e isso faz com que o seu mundo se torne mais pequeno. Hoje em dia, penso que vemos pais muito ocupados que querem fazer tudo bem, então acabam a fazer muitas coisas pelos seus filhos. Não deixam que as crianças tentem por si próprias porque não há tempo para isso. Por isso, acho que os pais de hoje são fantásticos, melhores do que nunca. Mas ainda temos de procurar os nossos próprios ângulos mortos. Acredito sinceramente que todas as gerações deviam tentar fazer melhor. E não, a avó nem sempre está certa. Mas faça-lhe perguntas na mesma, ela sabe sempre algo útil sobre a vida.

E enquanto pessoas, vamos ficando melhores pais? Ou seja, somos melhores pais do segundo filho do que do primeiro? Isso faz com que as mães de famílias numerosas estejam num patamar muito diferente das mães de filhos únicos?
Penso que a maioria de nós faz as coisas mais bem feitas da segunda ou da terceira vez. Lembro-me de que quando dei à luz o meu terceiro filho, pensei: “Uau, agora é que realmente sei como fazer isso!” Os pais em geral tendem a ser muito rígidos com o primeiro filho. Só com o filho número dois, ou três, é que aprendemos a deixar-nos ir, é com eles que aprendemos que todas as fases difíceis têm fim.

Escreve no livro que aqueles pais que dizem que na sua família é tudo maravilhoso já se esqueceram dos problemas. Esqueceram-se mesmo ou estão apenas a mentir?
Um facto divertido: quando me perguntam como era o sono do meu filho mais velho em bebé, costumo responder que foi o mais fácil dos três e que dormia sem problemas. Realmente é isso que eu sinto, e é isso que penso que é verdade. Mas quando encontrei os meus diários daquela altura, caramba, ele estava sempre acordado. Hoje em dia, ele é um jovem brilhante e para mim é quase impossível pensar nele daquela maneira. Por isso, penso que não mentimos, o que acontece é que aquele facto deixou de ser importante. E agarramo-nos aos momentos felizes — e isso é uma coisa boa.

Há falta de solidariedade entre os pais? Quando se fala de educar uma criança, todos vestem a pele do crítico e avós, cunhadas e amigas, todas têm a solução perfeita para o nosso problema.
Todos nós queremos falar sobre as nossas próprias soluções brilhantes e a nossa própria criança fofa. Os outros pais não veem necessariamente a situação em que estamos. Devemos tentar tratar melhor os outros pais e os seus filhos e perceber a situação deles antes de começarmos a falar da nossa.

Os outros pais estão cheios de conselhos inúteis?
Algumas vezes, sim. Todos nós estamos. O melhor que temos a fazer é só aceitar conselhos de pais e especialistas que façam sentido para nós.

Enquanto educadores cometemos a nossa dose de erros e não é fácil lidar com isso. No livro, diz que um mau pai é aquele que, depois de castigar o filho, pensa para si próprio: “Ele mereceu.” Esta é a pior justificação que podemos encontrar para o nosso erro? As crianças nunca merecem um castigo?
As crianças merecem que as tratemos bem, que as ajudemos e que lhes demos conselhos. Os castigos nunca são úteis para a criança, por isso não há necessidade de usá-los.

Então, até que ponto é que nos podemos zangar com os nossos filhos?
Todos nós nos zangamos de tempos a tempos, é apenas humano. Mas existe uma linha de que devemos estar conscientes e que nunca devemos ultrapassar. Gritar tão alto que a criança fique com medo de nós, agarrar o seu braço com tanta força que a magoe — essa linha é quando passamos de estar zangados para estarmos a magoar o nosso filho. Aí somos uma ameaça e somos potencialmente perigosos. A criança não terá respeito, terá medo dos pais. E ter medo é um sentimento solitário.

Diz que os castigos não funcionam e que são inúteis. Certo, mas o que funciona? A lógica de recompensa/punição está ultrapassada? Castigamos de mais as crianças?
Devemos dizer às crianças o que queremos que elas façam ou não façam, e não dizer-lhes o que é incorreto. Devemos ajudá-las quando estão aflitas, não mandá-las embora. Quando as coisas estão difíceis, devemos voltar a entrar em contacto com as crianças, não afastá-las ainda mais. Se procurarmos alternativas para a punição, vai valer a pena.

O medo é o pior inimigo dos pais?
Sim, o medo torna as pessoas solitárias em qualquer idade.

Defende no livro que não se educa quando as coisas correm mal, educa-se quando correm bem. Como é que isto se faz na prática?
As crianças aprendem quando se sentem seguras, nesses momentos apanham uma série de coisas complicadas. Elas vêm o que fazes, ouvem o que dizes. Quando as crianças estão agitadas, de certa forma ficam cegas e surdas. O que devemos fazer é apostar mais no que elas aprendem quando podem e tentar acalmar situações que deram para o torto, muito mais do que seguir a via do castigo.

Somos mais exigentes com as crianças do que somos com alguns adultos?
Definitivamente. Somos mais exigentes com as crianças do que com alguns adultos e elas ainda nem sequer têm os cérebros completamente desenvolvidos.

No livro, relata um momento em que um pai lhe perguntou se tem de ser sempre o adulto a adaptar-se à criança. É isso que acontece ou é isso que sentimos?
É apenas o que sentimos, as crianças adaptam-se imenso, muito mais do que conseguimos perceber. Viver em conjunto é adaptarmo-nos uns aos outros. Como pais, somos a parte responsável em criar um lar que seja bom para toda a família. Estamos no comando e isso, por vezes, é muito difícil.

Porque é que as crianças não cooperam mais com os adultos? Seria bastante mais fácil para nós se, de tempos a tempos, elas fizessem o que nós pedimos…
As crianças cooperam quando podem. Quando não o fazem há sempre uma razão. Talvez não sejam capazes de fazer o que pedimos porque é muito difícil, talvez tenham uma ideia diferente em relação à situação e não estejam a ser capazes de nos dizer o que estão a planear, talvez tenham sentimentos muito fortes sobre o assunto e não sejam ainda capazes de lidar com eles. Ou talvez estejam apenas com fome ou com sono, que na verdade são os dois principais motivos que levam as crianças a não cooperar. Só temos de tentar perceber o que se passa. Mas, ao mesmo tempo, não podemos esquecer que elas querem cooperar, que elas querem fazer o que é certo e querem ser amadas.

Ao longo do livro fala do desenvolvimento cerebral das crianças, da inteligência, da forma como elas aprendem a lidar com as suas emoções de uma forma muito lenta, e de como em muitas das vezes em que nos desafiam, em que são teimosas, simplesmente não conseguem agir de outra forma. Os pais deviam aprender mais sobre estes aspetos do desenvolvimento infantil?
Sim, porque quando sabemos o que esperar acabamos por perceber melhor o comportamento das crianças..

Passamos 20 anos da nossa vida a educar os nossos filhos e somos testados diariamente. Quão importante é impor limites?
Estamos sempre a impor limites para manter a criança segura. Aonde ir (e não ir), quando ir para a cama, quando ir para a escola, etc. As crianças precisam disto, e precisam que os pais encontrem os limites apropriados para elas e para as suas idades — do princípio até ao fim.

Quando perdemos a paciência devemos pedir desculpa aos nossos filhos?
Sim. Pedir desculpa aos nossos filhos vai ensinar-lhes o que é errado e o que é certo, vai ensinar-lhes que são pessoas importantes para nós e vai ensinar-lhes o significado correto da palavra ‘desculpa’. E vai dar-nos a nós próprios a oportunidade de melhorar.

Escreve que vamos acabar a repetir os padrões de parentalidade que experimentámos com os nossos pais. Há alguma forma de quebrar o ciclo ou, inevitavelmente, vamos tornar-nos nas nossas mães, perpetuando os mesmos erros?
Sim, há uma maneira de nos tornarmos melhores mães — um dos passos no livro é “Melhore os seus próprios padrões”. E funciona, posso garantir-lhe que funciona, depois de trabalhar com pais há mais de 20 anos.

Há alguma forma de resumir os segredos para educar uma criança saudável e feliz?
Bom, tentar criar uma família, um lar onde todos se sintam bem. E saudar os nossos filhos com alegria todos os dias. Uma vez por dia, deixar que as crianças percebam pela forma como olhamos para elas, sorrimos para elas, que são pessoas fantásticas na nossa vida. Sentir-se bem-vindo todos os dias faz uma grande diferença.

A Maria Montessori [pedagoga italiana, 1870-1952, inventora do método Montessori] dizia que quando fazemos algo por uma criança que ela pode fazer sozinha estamos a desrespeitá-las. Concorda?
Maria Montessori era uma mulher muito sábia e está certa também nessa ideia. Temos de dar espaço e tempo às crianças para crescerem, para fazer o seu melhor. Aí, e apenas aí, elas irão revelar-se.

Que tipo de motivos levam as famílias até ao seu consultório nos dias de hoje? São as mesmas de quando começou a trabalhar?
É uma pergunta difícil. Diria que a resposta, de uma forma global, é que são os mesmos motivos. Mas eu vejo mais crianças stressadas, mais crianças com medo de não serem boas o suficiente. E são-no, absolutamente.

Que tipo de mãe é? Mudava alguma coisa?
Penso que a minha força é a minha compreensão. Põe-me numa posição de ser capaz de ajudar quando a vida está a ser difícil para os meus filhos. Para todas as crianças, a vida será difícil de tempos a tempos. O que faz a diferença é existir alguém que está lá com eles, para os compreender e lhes dar conselhos. Sou boa nessas situações. Desejava passar menos tempo a trabalhar.

“Diante de um ecrã a criança transforma-se numa espécie de porta USB ou numa impressora”

Julho 26, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista de Catherine L’Ecuyer ao Observador de 13 de julho de 2019.

Tânia Pereirinha

Ou seja, transforma-se num ser amorfo, que em vez de agir, reage — ou nem isso. Quem o diz é Catherine L’Ecuyer, doutorada em Educação e Psicologia e autora do bestseller “Educar na Curiosidade”.

Canadiana a viver em Barcelona, tem um currículo que impressiona, desde os artigos académicos mais famosos à coluna de opinião no El País, passando pelos livros feitos bestsellers internacionais ou pelo doutoramento acabado de concluir em Educação e Psicologia. Ainda assim, não é por “Educar na Curiosidade” ter sido traduzido em oito línguas, incluindo português, e ir já na 25ª edição em Espanha, que Catherine L’Ecuyer é uma sumidade na matéria.

Só por isso, seria considerada “especialista”. Sobe para o degrau acima porque, além de estudar a fundo o tema, é também mãe, de quatro filhos, de 14, 13, 11 e 8 anos. E, garante ao Observador, é uma mãe que pratica em casa aquilo que advoga na vida profissional.

Quando o assunto são as novas tecnologias é peremptória: antes dos 2 anos nenhuma criança deve ser exposta a qualquer tipo de ecrã e o uso de telemóveis deve ser atrasado ao máximo, sendo que o máximo pode muito bem ser a chegada à idade adulta.

Fácil falar, difícil fazer? Assegura que não e revela que na sua própria casa não há tablets, videojogos, ou smartphones: “Temos um telemóvel familiar — que só dá para fazer chamadas, não tem Internet –, que [os meus filhos] utilizam quando necessitam”.

Explica que não é uma questão apenas educativa, mas também pediátrica: o uso das novas tecnologias por bebés, crianças e adolescentes pode ter efeitos críticos nas diferentes fases do desenvolvimento, para além de ainda poder potenciar outro tipo de consequências. “Atrás de um ecrã as crianças e os jovens desinibem-se e dizem coisas que não diriam cara a cara, mostram partes do corpo que na vida real nunca mostrariam”, exemplifica.

Nos Estados Unidos, cientes disto mesmo, são cada vez mais os pais a atrasar deliberadamente a idade com que dão smartphones aos filhos, existindo até movimentos organizados nesse sentido, como o “Wait Until 8th” (Espera até ao 8º), uma espécie de juramento que os pais podem fazer online em nome dos filhos, numa lógica de a união faz a força — já para não dizer que também diminui a pressão social. Outros pais americanos, admitindo a sua incapacidade para educarem sem tecnologia, estão por seu turno a esgotar as agendas dos “consultores de tempo de ecrã”, os mais novos especialistas na matéria, acabados de chegar, aproveitando o nicho de mercado.

Em Portugal recentemente, para dar uma conferência sobre a forma como as novas tecnologias estão a influenciar a capacidade de atenção das crianças, Catherine L’Ecuyer respondeu às perguntas do Observador sobre o tema e deixou pistas para pais e educadores.

Acha que aquelas imagens caleidoscópicas dos canais para bebés fazem maravilhas a acalmar o seu filho de meses? Tem a certeza de que tablets e televisões são coisas completamente diferentes? Acredita que o seu filho tem uma inteligência acima da média porque nenhuma criança da mesma idade poderá algum dia ser capaz de mexer tão bem num smartphone? Esta entrevista é para si.

Falemos de tecnologia, mas vamos por idades. Basta sair para jantar para ver bebés de meses que só comem diante de um ecrã. Outros, assim que conseguem sentar-se ou até antes disso, são deixados em frente à televisão. Que efeitos pode ter a exposição precoce a este tipo de estímulos visuais no cérebro e no comportamento dos bebés?
A Academia Americana de Pediatria e a Sociedade Canadiana de Pediatria recomendam que as crianças até aos 2 anos não vejam qualquer tipo de ecrãs, devido ao risco que acarretam nesse período crítico de desenvolvimento. Não é uma recomendação educativa, mas sim pediátrica. Os estudos associam a exposição a ecrãs nessa idade com a desatenção, a impulsividade, a redução do vocabulário, o défice de aprendizagem, etc. O cérebro habitua-se a um ritmo que não existe no  mundo real, logo a criança não está adaptada à realidade, que é lenta.

O que se passa a partir dessa idade, biológica e emocionalmente, para que essa exposição passe a ser “permitida”?
Estas mesmas associações pediátricas recomendam que as crianças entre os 2 e os 5 anos vejam menos de uma hora por dia, por que nessas idades o cérebro continua a estar num período crítico de desenvolvimento. Entre os 2 e os 5 há menos riscos, mas não convém estar a criar este tipo de necessidade. Como diz a Associação Canadiana de Pediatria, “não há provas de que os ecrãs sejam benéficos”.

Mas uma televisão não é o mesmo que um tablet, pois não? Um é preferível ao outro? Quais são as diferenças de efeitos entre o uso passivo e ativo das tecnologias em cérebros tão jovens?
A investigação é cara e morosa. Por isso mesmo, tem sempre um atraso em relação às inovações tecnológicas, que rapidamente se tornam obsoletas e dão lugar a produtos diferentes a cada ano. Em 2014, Dimitri Christakis (o especialista internacional nos efeitos dos ecrãs nas crianças) publicou um artigo em que questionava a comunidade científica sobre se o tablet seria diferente da televisão, precisamente por causa da sua natureza interativa. O artigo não dava respostas, fazia perguntas. Há estudos desse ano que demonstram que o tablet não é menos prejudicial do que a televisão; até é mais viciante porque é interativo. O tipo de interação que o tablet promove não é como a interação humana, que requer um processo ativo. Diante do ecrã, a criança anda a reboque de estímulos frequentes e intermitentes. Transforma-se numa espécie de porta USB ou numa impressora. A criança ainda não desenvolveu as suas capacidades de inibição e atenção, o seu locus de controlo é externo.

O  que significa isso?
O locus de controlo é o lugar a partir do qual uma pessoa acredita que as suas ações são controladas. Se é externo, a pessoa acredita que a sua ação é condicionada pelo ambiente, pela sociedade, pelos outros. Se é interno, a pessoa sente que tem controlo (capacidade de inibir, moderar, tomar a iniciativa, planear, etc) sobre as suas ações, pelo que age em consciência e de forma responsável.

Existe a ideia de que os cérebros das crianças devem ser estimulados e “trabalhados” desde cedo, sob pena de se fechar a “janela de oportunidade”. É especialmente crítica desta teoria. Porquê?
Não é uma opinião. A ideia de que é preciso enriquecer o ambiente durante os primeiros anos de vida para não perder a oportunidade de aprendizagem é um neuromito. Um neuromito é uma má interpretação da literatura em neurociência. Há períodos críticos (janelas de oportunidade irrepetíveis) para o desenvolvimento, mas não para a aprendizagem. Mais nem sempre é sinónimo de melhor. A aprendizagem é um processo lento que deve acontecer ao ritmo da criança. Estudos sobre apego indicam que as crianças não precisam de um bombardeamento sensorial, mas sim de interação de qualidade com o seu cuidador principal.

Outro conceito que não lhe é propriamente caro é o que se refere a esta geração como “nativa digital”. Acredita que existe um “plano” por trás disto? Que as empresas tecnológicas, por um lado, constroem os produtos de forma a serem facilmente utilizados pelas crianças; e por outro plantam na mente dos pais a ideia de que a capacidade de manusear a tecnologia é não só uma prova de inteligência dos filhos mas também uma ferramenta capaz de aumentar ainda mais essa inteligência?
O nativo digital é definido como aquele que, nascendo na era digital, está habituado a receber e a processar informações de uma forma que alguém que nasceu antes dessa época (o chamado Imigrante Digital) não consegue. De acordo com essa “hipótese”, os nativos digitais terão vantagens cognitivas que afetarão positivamente a sua aprendizagem, em relação à da geração que os precede, como por exemplo no que diz respeito à multitarefa tecnológica. Apesar da popularidade desta ideia, os estudos dizem que o conceito de nativo digital é sobrevalorizado. Embora demonstrem grande familiaridade e agilidade técnica com a tecnologia, os jovens também dependem demasiado dos motores de busca e não têm competências críticas e analíticas para perceberem o valor e a originalidade da informação que existe na rede. Concluindo: os estudos dizem que a chamada “Geração do Google” não tem o nível de alfabetização digital que lhe tem sido atribuído e que ao próprio conceito falta uma base científica. A crença de que uma pessoa nascida na era tecnológica tem mais habilidades cognitivas para o uso da tecnologia é um mito. E a multitarefa tecnológica também. Se o teu filho aprende a usar um smartphone em minutos não é porque é um génio, mas porque o engenheiro que o desenhou é muito inteligente.

O que é isso da multitarefa tecnológica?
É o ato de fazer muitas coisas que requerem o processamento de informação no âmbito tecnológico ao mesmo tempo. É um mito, a neurociência garante que não podemos realizar em simultâneo várias tarefas que requeiram o processamento de informação. Quando tentamos fazê-lo, o que acontece é que desempenhamos essas tarefas em paralelo e vamos oscilando entre todas elas.

Existem ou não diferenças cerebrais entre as crianças de hoje, que têm toda a informação do mundo à distância de um clique, e os dos seus pais, que quando queriam saber alguma coisa tinham de se dedicar e procurar em livros ou enciclopédias?  
As crianças de hoje aprendem da mesma forma que as de antigamente. Há permanências antropológicas. As previsões alarmistas de que a tecnologia estaria a reestruturar os nossos cérebros (“rewiring our brains”, em inglês) também não têm fundamento científico. Ainda assim, tal como avisa o Conselho Inter-Americano para o Desenvolvimento Integral, a plasticidade tem os seus limites, pelo que a tensão a que uma pessoa está sujeita só é possível dentro de alguns limites, para além dos quais os estímulos podem provocar alterações capazes de comprometer a sua integridade e, consequentemente, a sua aprendizagem. Isto é confirmado pelas evidências que relacionam a multitarefa tecnológica com a diminuição das funções executivas (atenção, capacidade para inibir estímulos externos, etc.). E também pelas evidências que relacionam hiper-estimulação e desatenção. Nas crianças estes efeitos são mais agudos, porque estão num período crítico de desenvolvimento.

Centremo-nos nas crianças entre os 6 e os 12. Há boa e má tecnologia? Que regras ou limites aconselharia nestas idades?
A tecnologia tem de adaptar-se ao ritmo interno da criança, não pode substituir as relações interpessoais reais e não deve veicular conteúdos violentos ou inadequados. A criança tem de desenvolver os seus sentidos de intimidade, privacidade, força, moderação e relevância e a sua capacidade de inibição antes de entrar no mundo virtual. Não é possível desenvolver a noção de intimidade nas redes, por exemplo. A melhor preparação para o mundo online é o mundo offline.

Bem sei que o ideal seria que os consumos fossem sempre acompanhados ou pelo menos supervisionados pelos pais, mas com as vidas atuais isso é praticamente impossível. Que estratégias aconselha a pais e educadores?
Os ecrãs são as amas do século XXI. Temos de oferecer alternativas de qualidade aos nossos filhos: música, desporto, amizades, brincadeiras, natureza, etc. Acreditamos mesmo que estes dispositivos lhes melhoram a qualidade de vida? Nunca houve tantas adições tecnológicas, tanto consumo de pornografia na infância. Tudo na sua medida e no seu devido tempo. Quando atrasamos o uso do smartphone, damos-lhes o luxo das interações pessoais e a oportunidade de fortalecerem qualidades que mais tarde lhes permitirão utilizar estes dispositivos de forma responsável. Um smartphone é um luxo. Por que motivo havemos de lhes comprar luxos?

Caso já tenham comprado esse “luxo”, como podem os pais limitar ou supervisionar o seu uso?  
Não há problema nenhum em atrasar a idade de uso. Eles vão dizer que toda a gente tem e que vão ficar de fora de tudo. Primeiro, é preciso ajudá-los a perceber as estatísticas, nem sempre é garantido que todos têm mesmo. Depois, mesmo que muitos tenham de facto, isso não é um argumento educativo. Muitas crianças consomem pornografia e embebedam-se e isso não é uma justificação para permitir que os seus filhos o façam.

Tem quatro filhos. É essa a estratégia que usa com eles, em casa?
Não sou uma mãe perfeita, pelo que aquilo que fazemos não é “a” solução. Cada família é um mundo e cada pai e mãe é no limite responsável pelas suas decisões. Em nossa casa há uma televisão que só serve para ver filmes selecionados. Temos dois computadores que são usados em espaços de passagem, para o meu trabalho e para o do meu marido. Os nossos filhos não têm videojogos, nem tablets, e só temos um telemóvel familiar — que só dá para fazer chamadas, não tem Internet –, que utilizam quando necessitam. Mas damos-lhes mil alternativas aos ecrãs: passeios, pesca, desporto, música, viagens, natureza, conversas, leitura, etc. Não podemos proibir só por proibir. Temos de dar-lhes alternativas de qualidade.

Há cada vez mais escolas a apostar no uso das tecnologias para ensinar. Paradoxalmente, diz que Steve Jobs, tal como a maioria dos executivos de Silicon Valley, põem os filhos em escolas tradicionais. É mesmo assim? Por que acha que isto acontece?
Os CEOs das empresas tecnológicas de Silicon Valley vendem tablets às escolas públicas da zona, mas têm os filhos em colégios privados que não os utilizam. Eles sabem que não existem estudos que apoiem o uso da tecnologia em sala de aula. Aliás, sabem que o que há são estudos que dizem o contrário. O tablet é parte de uma estratégia de marketing educativo. A novidade é um conceito essencialmente comercial, não educativo.

O que dizem exatamente esses estudos que vão contra o uso de tablets na escola?
Essa pergunta é demasiado complexa para ser respondida assim. Aquilo que posso afirmar é que não existe atualmente um conjunto de estudos que apoiem o uso de tablets na sala de aula. Não há um conjunto de estudos que estabeleça um benefício entre o uso de tablets e uma melhoria no desempenho académico e nas oportunidades de emprego.

Tempos de atenção cada vez mais curtos, dificuldades de concentração, incapacidade de desenvolvimento de pensamento lógico. Diria que estas expressões descrevem de algum modo a geração adolescente atual? Que papel desempenham as novas tecnologias neste quadro?
Como diz [a romancista americana] Meg Wolitzer, esta é a geração que tem manteiga mas não tem pão. A quem falta o contexto que dá sentido às aprendizagens. O contexto não se encontra na Internet, mas no mundo real. O professor é fundamental, precisamente porque dá esse contexto, torna a aprendizagem “significativa”. Por mais sofisticados que sejam os algoritmos, a educação será sempre uma questão profundamente humana e não tecnológica.

Fala-se muito em dependência e adição às novas tecnologias. Há idades mais permeáveis a isto, no que respeita às fases de desenvolvimento cerebral ou comportamental? A que sinais de alerta devem os pais estar atentos?
Muitas dessas tecnologias estão desenhadas para criarem adição. Quem trabalha nas empresas que as fabricam admite isso mesmo. Não existem estratégias para mitigar esses efeitos em mentes imaturas. Se nos custa a nós, que somos adultos, como é que não vai custar-lhes a eles? Quando uma criança mente para poder consumir tecnologia, está viciada. Mas quando isso acontece, já é um pouco tarde para fazer marcha-atrás. Eu defendo a prevenção: atrasar a idade de uso.

“Dar um celular para uma criança de 5 anos é um crime”

Julho 18, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia e imagem do Época Negócios de 31 de agosto de 2018.

Sharon Thomas, psicóloga especializada em educação, defende que pais e escolas têm o dever de estabelecer limites aos filhos no uso da tecnologia.

Saber escolher a idade e o momento para dar um celular ao filho envolve analisar duas questões. É preciso, previamente, saber qual função o aparelho desempenhará na vida da criança. Em paralelo, exige analisar o comportamento do filho e seu entendimento sobre limitações e privações.

Este é o conselho de Sharon Thomas, psicóloga especializada em educação com formação na Georgetown University, na Universidade de Londres e no Hunter College. Nascida no Brasil, mas vivendo nos Estados Unidos desde os 11 anos, Sharon fundou em Nova York o Centro de Educação e Recursos MAIA. Seu trabalho é orientar pais, escolas e professores sobre desenvolvimento acadêmico, déficits de aprendizado e, entre outros fatores, analisar a efetividade da tecnologia dentro e fora da sala da aula.

“Hoje, o celular virou um bem que as pessoas acham que devem ter porque todo mundo tem”, afirma Sharon em entrevista à Época NEGÓCIOS. “Muitos pais me falam: ‘Minha filha tem 5 anos, a amiguinha tem um celular já e ela quer também’, mas eu acho um crime dar um celular para uma criança de 5 anos. Nesta idade, ela não desenvolveu as habilidades básicas.”

As habilidades às quais Sharon refere-se são denominadas nos Estados Unidos como function executives. “Parece papo de CEO, mas a metodologia das escolas americanas é estruturada com base em funções desenvolvidas no lobo dos cérebros e são essenciais para tudo que fazemos em nossas vidas”, afirma. Entre essas funções executivas, estão a capacidade de planejamento, estabelecimento de metas no longo prazo, iniciativa para tomada de decisões e flexibilidade comportamental.

“Nos EUA, as escolas tentam entender como a tecnologia está afetando ou beneficiando o desenvolvimento dessas funções executivas. Às vezes, uma nova tecnologia entrega um aprendizado tão rápido, que dificulta que as pessoas foquem, absorvam e se aprofundarem no conhecimento. Parece que virou tudo bullet point”, diz.

As funções executivas, segundo Sharon, demoram de 25 a 32 anos para serem desenvolvidas por completo – por esta razão, diz a especialista, “seria irrealístico esperar que crianças e jovens consigam se automonitorar e impor os limites sobre o uso da tecnologia”. No caso da criança de cinco anos, um celular não teria a função prática (“uma criança nesta idade não fica sem supervisão”) e poderia expô-la a situações inseguras (“com quem ela vai começar a conversar?”). “A idade certa para dar um celular varia de pessoa para pessoa, mas é preciso entender o motivo dele ser necessário. Eu não daria para um adolescente só ‘porque todo mundo tem’. A função dos pais também é saber dizer não”, diz.

Sharon defende que é preciso celebrar os benefícios que a tecnologia proporciona, em termos de conhecimento e comunicação, mas é preciso monitorá-la para não criar vícios, desânimo e até comprometer o desenvolvimento dos filhos. “Muitos pais me procuram dizendo que seus filhos estão desanimados e indo mal na escola. Vamos analisar a rotina deles e vemos que eles passam grande parte do dia no quarto conectados, socializando com várias pessoas e, depois de várias horas, ficam exausto e ‘sem tempo'”.

Sharon recomenda que os pais mostrem aos filhos os benefícios da internet e as limitações do mundo virtual. “A vida online só aponta para tudo que é maravilhoso em geral. E, no caso de uma adolescente que está lutando para criar uma identidade diferente das dos pais, seu uso excessivo pode se tornar uma pressão e virar até bullying”, diz.

Um outro aspecto a trabalhar nesta relação, segundo Sharon, é dar o exemplo. “Uma das coisas ruins que a tecnologia trouxe para os adultos foi esse fácil acesso a todos o tempo todo. Eles se sentem impelidos a responder rapidamente a todos. E aí ocorre que ficamos o tempo todo online. Mas precisamos criar limites para nós mesmos. Do contrário, os filhos vão falar: você não quer que eu use o iPad, mas olha você conectado o tempo todo”, diz.

Do lado das escolas, Sharon diz que as instituições possuem a responsabilidade de entender se a tecnologia levada para a sala de aula está, de fato, ajudando no desenvolvimento dos alunos. E fazer intervenções, para garantir que não está desenvolvendo um aprendizado mais profundo e eficaz. É uma missão difícil, diz, porque o que vende hoje no mundo da educação é “tecnologia” e qualquer escola nova irá ser construída em torno de alguma novidade de mercado. “Vemos muitas escolas enchendo salas de iPads e novas ferramentas tecnológicas, mas sabemos que o nosso aprendizado não depende apenas de conseguirmos uma informação. Mas, de como sabemos usar essa informação de forma relevante.”

Filhos sobrecarregados, pais stressados – e brincar é tão importante

Julho 5, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia e imagem do Notícias Magazine de 18 de junho de 2019.

Alicia Banderas, psicóloga e escritora espanhola, lembra que as brincadeiras com os filhos são um importante veículo na educação dos valores que realmente importam. Mas os pais continuam mais focados no sucesso e na competição. Para que os filhos sejam super filhos. Sejam brilhantes.

Os filhos têm de ser os melhores, os mais talentosos. Brilhantes. Todos os dias, em qualquer competição. E os dias ficam demasiado pequenos quando se encaixam atividades atrás de atividades extracurriculares. Quase não há tempo para respirar. Os pais andam stressados, os filhos com horários sobrecarregados. Os pais querem o melhor para os filhos. Os filhos ficam ansiosos para corresponder às expectativas. É uma roda-viva, uma lufa-lufa.

Alicia Banderas, numa conversa reproduzida pelo jornal espanhol El País, avisa que é preciso respeitar o ritmo de aprendizagem dos mais pequenos. “Temos crianças de dois anos em Chinês, Inglês, natação, estimulação musical”, refere. Um constante e frenético para a frente e para trás. E brincar? Brincar é essencial. Porque se aprende a brincar. E ao brincar. “O que a criança precisa? Jogo livre. Ou seja, sabemos que o conhecimento é gerado de dentro para fora.”

Olhar nos olhos dos filhos e perguntar o que querem jogar, como querem brincar. É o primeiro passo. Brincar estimula a criatividade, desenvolve o aparelho psicomotor. Aproxima pais e filhos. É também uma forma de respeitar a infância. É não deixar um brinquedo no fundo da gaveta ano após ano. Brincar é também educar. É escutar, é envolver. É interiorizar princípios. Incutir valores. Brincar torna-se, sustenta a psicóloga, uma “maneira maravilhosa de partilhar sem forçar, sem palestras.”

Há que saber equilibrar as brincadeiras com a parafernália tecnológica. Mas há situações a evitar. A Academia Americana de Pediatria desencoraja o uso de ecrãs nos dois primeiros anos de vida, uma vez que, dessa forma, as crianças são submetidas a um estímulo frenético que pode favorecer a desatenção e a dificuldade de concentração.

Há ainda outra questão. Se há o costume de “saciar o prazer através de um ecrã”, cada vez mais é necessário “um maior número de estímulos que, às vezes, podem ser prejudiciais.” E as crianças ficam expostas “a estímulos de uma forma muito prolongada e depois perderão o interesse pelas atividades da natureza, que ocorrem a um ritmo muito mais lento”.

Brincar é preciso. Brincar sem abafar o espírito criativo e inato que os mais pequenos têm dentro de si. “Brincar é o ambiente mais seguro para testar e construir o que se deseja fazer.” Uma criança criativa será capaz de pensar em soluções alternativas para os problemas. Dentro das suas próprias brincadeiras.

“Quando brincamos com os nossos filhos, somos a melhor versão de nós mesmos,” diz a psicóloga que trabalha com crianças e adolescentes em projetos de educação há mais de duas décadas. O tempo passa, há mudanças sociais e os pais continuam a dizer que querem, em primeiro lugar, que os filhos sejam felizes. Mas nota-se a vontade que os filhos sejam brilhantes, que tenham maiores habilidades, muito sucesso. Que sejam super filhos.

O cérebro não é uma esponja
E mesmo uma esponja atinge o seu limite de capacidade. O mesmo acontecerá no cérebro dos mais novos. Alicia Banderas refere que um cérebro não é propriamente uma esponja. “O que são ou o que chamo de crianças super-estimuladas? São aquelas crianças submetidas à estimulação excessiva, mesmo antes dos seus cérebros estarem preparados. E, no final, o que geramos nelas é um bloqueio e stresse nas suas aprendizagens.” Convém, então, não pensar que um cérebro consegue absorver tudo e fazer os devidos enquadramentos.

Mais uma vez, a questão das atividades extracurriculares. Dos cérebros que sugam tudo. Muitas vezes, são os pais que decidem o que os filhos devem aprender. E a desmotivação acontece. Perceber o que gostam, o que os motiva, os seus gostos, é fundamental. “Como aprendemos melhor? Através de emoções positivas: alegria, satisfação, autorrealização”. “Devemos cuidar do cérebro das crianças porque podemos magoá-lo”, avisa a psicóloga e escritora espanhola.

Os dois primeiros anos são muito importantes para as crianças, mas a adolescência é mais

Junho 25, 2019 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do i de 5 de junho de 2019.

El impacto de leer 15 minutos al día en los niños

Março 21, 2019 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Photo by Josh Applegate on Unsplash

Texto do blog El Bosque de las Fantasías de 14 de novembro de 2018.

Publicado por Jesús Falcón

Un niño de preescolar que lee solo 15 minutos al día en casa o en el colegio, escucha nada más y nada menos que una cantidad de 2 millones de palabras por año. Eso quiere decir que habrán leído un total de 900 horas cuando lleguen a sexto curso y lo más probable es que sus notas sean mejores que las de otros alumnos que no lo hayan hecho.

Pero si esto no es suficiente para motivar a tu hijo hacia el camino de la lectura, te damos otras 5 razones para conseguirlo:

Ayuda al desarrollo del lenguaje

Leer a nuestros hijos desde el momento en que nacen en voz alta, puede influir de manera muy positiva en ellos. El cerebro podrá ir haciendo conexiones entre las palabras escritas y las palabras que escucha, ampliando así su vocabulario sin que el niño/a se dé cuenta. Además, mejorará enormemente su ortografía y su manera de expresarse.

Mejora el desarrollo del cerebro

Muchos profesores y profesionales de la educación están de acuerdo en que la gente que lee es más inteligente. Un estudio realizado por la Academia Americana de Pediatría, concluye que los niños que encuentran un hueco para dedicar a la lectura, activan la parte de su cerebro encargada de comprender y relacionar conceptos para almacenarlos posteriormente en la memoria.

Ayuda a comprender un mundo fuera del nuestro

Leer ayuda a comprender a grandes pensadores de la historia, mediante reflexiones o palabras que fueron inspiradas por experiencias personales. Esto hace que los niños puedan entender el mundo de una manera distinta, ampliando su realidad y abriendo su mente para reflexionar.

Estrecha los lazos familiares y la comunicación

Todos estamos de acuerdo en que leer estrecha los lazos familiares. Podemos empezar leyendo con ellos en su habitación o en el salón, eligiendo al principio libros que tengan muchas ilustraciones ya que de esa forma les costará menos. Poco a poco podremos ir eligiendo otros materiales con menos ilustración para fomentar la imaginación de los niños.

Muchas posibilidades para elegir

No hay excusa para no leer. Siempre es recomendable hacerlo mediante libros físicos, pero podemos optar por otras opciones que están muy de moda, como los libros digitales. Además, podemos encontrar geniales apps de cuentos aptos para niños en plataformas móviles de Android o IOS. Cualquier opción es buena para empezar a fomentar el hábito de la lectura en ellos.

 

 

 

Ler às crianças ao deitar desenvolve o cérebro

Dezembro 26, 2018 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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A psicóloga clínica Clementina Pires de Almeida é especializada em bebés
Foto: FILIPA BERNARDO/GLOBAL IMAGENS

Notícia do Jornal de Notícias de 8 de dezembro de 2018.

O hábito de contar histórias aos mais novos na hora de dormir tem um grande impacto na vida futura, pois não só influencia a saúde física e mental, como a capacidade intelectual. Por essa razão, o Lidl decidiu chamar a atenção para esta temática na campanha solidária de natal que promove este ano.

A tradição dos pais contarem histórias aos filhos na hora de dormir está a perder-se. O tempo de qualidade com as crianças é cada vez menor e, na altura dos mais novos irem para a cama, tudo é muito rápido – um simples aconchego da roupa e um beijo de boa noite a serem os únicos momentos de partilha afetiva. De forma a chamar a atenção para a importância de ler aos mais novos ao deitar, o Lidl direcionou a angariação de verbas da campanha solidária de natal de 2018, que se prolonga até ao próximo dia 30, a favor da Associação Nuvem Vitória, cuja missão é contar histórias a crianças hospitalizadas na hora de dormir.

“Há alguns estudos associados a crianças com cancro que demonstram que o cortisol, a hormona do stresse, é nefasto à perceção da dor, à dificuldade do organismo em defender-se e altera negativamente a capacidade imunitária. A leitura promove também uma melhor qualidade do sono e quando as crianças estão hospitalizadas há despertares obrigatórios que acabam por atropelar as áreas mais profundas do sono, o que pode alterar a plasticidade cerebral e a capacidade do cérebro se regenerar pode ser menor e abrandar, para além do impacto na recuperação da própria doença”, explica a psicóloga clínica Clementina Pires de Almeida, a única em Portugal especializada em bebés.

O impacto na saúde física e mental dos bebés é muito mais vasto. “O número de palavras que ouvem no primeiro ano de vida está diretamente relacionado com o vocabulário que elas vão ter aos dois anos e com o sucesso académico até aos 10 anos”, assegura a especialista, explicando que “as crianças cujos pais lêem mais têm uma maior atividade geral”, sendo-lhes estimuladas as áreas do processamento da associação visual e da competência lógica.

“Por isso pedem para se ler a história várias vezes, pois à primeira não conseguem captar tudo e há pormenores aos quais precisam de prestar mais atenção e isso faz com que reconheçam padrões que existem na realidade, consigam perceber as sequências em termos da história e da realidade e possam prever os acontecimentos. Outra parte muito estimulada é a imaginação. Como fazemos sons e damos entoação, a criança está, automaticamente, a processar o que está a ouvir em formato de imagem e consegue associar as palavras à imaginação que vai criando da história. Isso ajuda na compreensão e no processamento da linguagem”, salienta a psicóloga.

Protege da doença mental

Outro benefício apontado por Clementina Pires de Almeida é a diminuição da propensão para a doença mental das crianças, ou seja, dos défices de atenção e da ansiedade, em cerca de 20 por cento. “Os cérebros ficam mais ativos com o hábito de ler e mergulhar nas histórias e isso ajuda o cérebro a proteger-se da doença mental”, anota a especialista, referindo que quando nascemos o cérebro só está desenvolvido 25 por cento, percentagem que aumenta para 70 por cento ao fim do primeiro ano e para 85 aos três.

“As crianças têm uma perceção do Mundo como se de um cientista se tratasse, estão a tomar notas de todos os eventos. No primeiro ano, os bebés fazem cerca de um milhão de sinapses [impulso nervoso de um neurónio a outro] por segundo. Cada sinapse anda a mais de 400 quilómetros por segundo, isto é, mais rápido que o 4G. E as competências a que isto se refere são brutais”, frisa.

Por tudo o descrito, a psicóloga espera que esta iniciativa do Lidl consiga chamar a atenção para o tema da leitura às crianças antes de dormir. “É um momento de contacto, porque, naquele momento de segurança, a criança pode verbalizar os medos e receios, pois sente-se segura ao colo da mãe ou do pai, e pode diminuir os despertares noturnos, com os tais sonhos maus e pesadelos”, finaliza a psicóloga.

Nuvem Vitória escreve contos

No âmbito da campanha solidária de Natal do Lidl, na revista “Notícias Magazine” de 16 a 30 deste mês, serão publicados quatro contos da autoria da Nuvem Vitória, associação premiada este ano, que receberá um euro por cada bolo-rei da marca “Favorina” vendido nas lojas da empresa alemã em Portugal. A primeira história será “O segredo da Bela Adormecida”, seguindo-se “Onde está o Pai Natal”, a 23, e, no último domingo, os contos “Bolo-Rei” e “A Cortina”.

 

 

“Binge drinking” prejudica a memória e deixa sequelas no cérebro para sempre

Outubro 24, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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thumbs.web.sapo.io

Notícia do Sapo LifeStyle de 9 de outubro de 2018.

A memória é a primeira vítima da ingestão compulsiva de grandes quantidades de álcool, o chamado binge drinking, geralmente protagonizada por adolescentes em curtos espaços de tempo, alertam investigadores chilenos que estudaram as consequências de uma prática tolerada por ser considerada um hábito ocasional.

A compulsão etílica, ou “binge drinking” em inglês, consiste em beber muito álcool em pouco tempo. E se for associada ao tabaco, ao consumo de canábis ou a narcóticos, o efeito sobre a saúde pode ter consequências ainda mais graves.

Novos estudos demonstram que embora sejam hábitos restritos, em geral, a finais de semana e festas ocasionais, essa compulsão etílica “pode gerar muitos problemas” no cérebro que se perpetuam, além de aumentar a propensão para vícios de longo prazo, declara Rodrigo Quintanilla, um dos investigadores da Universidade Autónoma do Chile que estudou as consequências dessas práticas altamente toleradas.

Embora os jovens tenham facilidade em recuperar relativamente rápido das “bebedeiras”, o consumo de álcool produz “variações e mudanças no hipocampo, que tem a ver com a memória”, explica à AFP o cientista.

É isto que o álcool em excesso provoca no cérebro 

Particularmente, “afetam o equilíbrio inflamatório e o redox glial, deteriora a plasticidade sináptica, a memória e o metabolismo periférico mediante um mecanismo dependente do sistema de melanocortinas”, um dos principais atores na consolidação dos vícios durante a adolescência e a idade adulta, segundo o estudo apresentado em revistas científicas e na Associação Americana para a Investigação do Alcoolismo.

Os jovens, recorda Quintanilla, costumam acreditar que são “invencíveis” e “não equacionam os danos em que incorrem”, mas existem “mecanismos e vias bioquímicas dentro do hipocampo que serão afetados com o tempo”.

A adolescência é um período da vida crucial para o desenvolvimento dos circuitos cerebrais responsáveis pela emoção e cognição, que supõe mudanças no volume cortical, no crescimento axonal, na expressão génica e na definição das conexões corticais mediante um processo conhecido como “poda sináptica”.

3,3 milhões de mortes por ano

Neste estudo, os investigadores também tentam descobrir o que pode levar o consumo moderado passar à ingestão descontrolada e à dependência

“Quando se torna adulto, o cérebro terá mais sensibilidade a certos estímulos stressantes ou da própria vida cotidiana”, como o stress no trabalho, ou a combinação com o consumo de outras drogas, diz Quintanilla. “São respostas que ficam em aberto porque nos dedicamos a analisar e esmiuçar uma parte do elo” no estudo com animais, que não pode ser feito com pessoas.

“Não podemos pegar em adolescentes e observar os seus cérebros”, exclama. Para prosseguir o estudo, a partir de agora deverão “levantar informações sobre o consumo de álcool e os hábitos de consumo, assim como aplicar ano a ano um teste cognitivo para saber a progressão dos danos”, acrescentou.

Com 3,3 milhões de mortes anuais, o alcoolismo é a terceira causa de morte no mundo, atrás do tabaco e da hipertensão. No caso dos jovens entre 10 e 24 anos, 7,4% das mortes e deficiências são atribuídas ao álcool.

Treine o cérebro das suas crianças para acabar com as birras

Outubro 20, 2018 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do site DN Life de 4 de outubro de 2018.

Amuos. Fúrias. Guerras para fazer os trabalhos de casa. É esta a parte mais difícil na educação de uma criança, suspiram os pais, sem saberem que as birras resultam de uma falta de integração do cérebro infantil, que não teve tempo para se desenvolver.

Texto de Ana Pago | Fotografia iStock

«Por muito brilhante que o seu miúdo em idade pré-escolar lhe pareça, ele não tem o cérebro de uma criança de 10 anos, que por sua vez não tem o cérebro de um jovem de 18», avisam Daniel J. Siegel, neuropsiquiatra, e Tina Payne Bryson, especialista em parentalidade. Juntos escreveram O Cérebro da Criança (Casa das Letras) para explicar que a maturação de um filho só termina aos 25 anos, mas até lá os pais podem ajudá-los a treinar e a integrar as diversas partes do cérebro nas interações do dia-a-dia, de modo a não serem dominados pelas emoções. Sem pressão, hã?

Ler o texto completo no link:

https://life.dn.pt/comportamento/cerebro-criancas-sem-birras/

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