Portugal submete ao Conselho da Europa Relatório sobre a Convenção de Istambul

Dezembro 11, 2017 às 8:00 pm | Publicado em Relatório | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.cig.gov.pt/ de 12 de setembro de 2017.

Portugal submeteu junto do Conselho da Europa o seu relatório nacional sobre a prevenção e o combate à violência contra as mulheres e a violência doméstica, ao abrigo da Convenção de Istambul.

A Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género (CIG) e a Comissão Nacional de Direitos Humanos (CNDH), presidida pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros, foram responsáveis pela elaboração deste relatório que contou com os contributos de todas as entidades nacionais com competências relacionadas com a implementação desta Convenção, tais como, os Ministérios da Administração Interna, Justiça, Saúde, Educação , Trabalho e Segurança Social e, ainda, o Provedor de Justiça, a Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) e a Fundação Calouste Gulbenkian.

O relatório foi enviado para o GREVIO – Group of Experts on Action against Violence against Women and Domestic Violence – a 8 de setembro de 2017. Este Grupo irá analisar o relatório e debatê-lo junto da delegação de representantes nacionais na sua 13ª reunião, que terá lugar de 19 a 23 de fevereiro de 2018, em Estrasburgo.

O GREVIO poderá realizar uma visita a Portugal, na primavera de 2018, para avaliar a situação no terreno e respetivo elaboração de relatório de avaliação no decorrer do próximo ano.

Para mais informações consulte o Report submitted by Portugal »

 

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Mais 170 crianças sinalizadas por consumo de álcool

Dezembro 5, 2017 às 9:00 am | Publicado em Relatório | Deixe um comentário
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Notícia do Jornal de Notícias de 26 de novembro de 2017.

O relatório citado na notícia é o seguinte:

Relatório de Avaliação da Atividade das CPCJ – 2016

Lista de condenados por pedofilia tem dois anos e nunca foi consultada por polícias

Novembro 23, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.publico.pt/ de 22 de novembro de 2017.

A base de dados foi criada para uso das polícias, para a prevenção de crimes, mas também para magistrados, para fins de investigação criminal. Só estes a têm usado. E mesmo assim, cada vez menos: 39 vezes no último ano.

Ana Dias Cordeiro

Nenhum elemento da PSP, da GNR ou da PJ consultou o registo criminal com a lista dos nomes dos condenados por crimes contra a autodeterminação sexual e a liberdade sexual de menor, especialmente criada para uso dos órgãos de investigação criminal.

Dois anos passados sobre a entrada em vigor desta base de dados, a 22 de Novembro de 2015, houve 150 consultas no primeiro ano (até 22 de Novembro de 2016) e apenas 39 no segundo (entre Novembro de 2016 e Novembro de 2017). Todos os pedidos de acesso foram feitos por juízes ou procuradores para fins de investigação, já numa fase em que não é possível prevenir, mas quando já há crime ou suspeita de crime.

A lista tem actualmente 5033 nomes de condenados, ou seja, menos do que do há um ano, quando eram 5739, de acordo com dados do Ministério da Justiça (MJ).

O número de registos em determinada data não corresponde à soma dos registos que vão sendo criados até então, explica o gabinete de imprensa do ministério.

A oscilação que se verifica nos números ao longo deste período “deve-se ao facto de haver registos que vão sendo cancelados, como decorre dos prazos previstos na lei e de acordo com as penas aplicadas”.

Quem tiver sido condenado até um ano de prisão fica cinco anos na lista. Se a pena tiver sido superior a dez anos, o condenado fica 20 anos na lista. O registo, quando foi criado, abrangeu também as condenações anteriores à sua entrada em vigor, em Novembro de 2015, “o que significa que, desde o primeiro dia, há registos a atingirem o fim do prazo, sendo retirados”, acrescenta o MJ.

A mesma fonte informa ainda que “desde o seu início e até à presente data, foram emitidos 189 certificados deste registo, todos a pedido de autoridades judiciárias — 151 certificados negativos e 38 certificados positivos”. Ou seja, em 151 das consultas, o nome pesquisado não constava da lista.

A Guarda Nacional Republicana (GNR) confirmou que “na sua área de responsabilidade, não tem registo de pedidos de acesso à base de dados em referência”.

Da Direcção Nacional da Polícia de Segurança Pública, a mesma informação: “Nenhum elemento da PSP consultou a base de dados.”

Fontes judiciais e policiais contactadas optam por não assumir uma posição oficial, mas questionam a utilidade e visibilidade da lista criada para prevenir este tipo de crimes, no âmbito da Lei 103/2015, quando Paula Teixeira da Cruz era ministra da Justiça.

Diz a lei que a lista pode ser consultada por magistrados judiciais e do Ministério Público, “para fins de investigação criminal, de instrução de processos criminais, de execução de penas e de decisão sobre adopção, tutela, acolhimento familiar, apadrinhamento civil, entrega, guarda ou confiança de menores ou regulação do exercício das responsabilidades parentais”. Pode também ser consultada pela Direcção-Geral da Reinserção e Serviços Prisionais (DGRSP) e pelas 309 Comissões de Protecção de Crianças e Jovens “no âmbito da prossecução dos seus fins”.

Em 2015, a ministra Paula Teixeira da Cruz invocou a elevada taxa de reincidência nos crimes de pedofilia para justificar a criação da base de dados. A Comissão Nacional de Protecção de Dados apontou, na altura, várias inconstitucionalidades à proposta e a lei foi aprovada em Conselho de Ministros depois de ser retirada a possibilidade — prevista na versão inicial — de os pais terem acesso à lista ou poderem saber, junto das autoridades policiais, se determinado indivíduo foi ou não condenado por pedofilia.

A lei acabou por ser aprovada apenas com os votos da maioria PSD/CDS.

Em 2015, de acordo com os dados oficiais da DGRSP, a taxa de reincidência dos agressores sexuais de menores era de 18%. Porém, face à disparidade existente entre o número de queixas de abusos contra menores que são feitas todos anos e o número muito inferior de casos que chegam a tribunal (e taxa de processos arquivados é muito elevada), sabe-se que a taxa oficial de reincidência fica aquém da realidade.

 

 

 

 

 

 

Número de alunos com maus resultados está a descer em Portugal. Na UE a situação está a piorar

Novembro 23, 2017 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.publico.pt/ de 9 de novembro de 2017.

Comissão Europeia alerta que a UE se está a afastar do que foi estabelecido como meta para 2020 no que toca à redução dos fracos desempenhos na literacia em leitura, matemática e ciências.

Clara Viana

Portugal está em contraciclo com a União Europeia (UE) no que respeita à evolução da percentagem de alunos com 15 anos que têm fracos desempenhos em leitura, matemática e ciência, segundo mostram os dados coligidos para a edição de 2017 do Monitor da Educação e Formação, divulgado nesta quinta-feira pela Comissão Europeia (CE).

Com base nos resultados das edições de 2012 e 2015 dos testes PISA (Programme for International Student Assessment), realizados de três em três anos pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico, o relatório da CE mostra que a percentagem de alunos com fracos resultados decresceu em Portugal, sendo que na média da UE se registou um acréscimo.

Na literacia em leitura, 17,2% dos alunos portugueses mostraram em 2015 que não possuem os conhecimentos básicos neste domínio, contra uma média de 19,7% na União Europeia. Em 2012, os valores registados foram respectivamente de 18,8% e 17,8%. Na literacia em matemática, Portugal desceu neste indicador de 24,9% para 23,8%, enquanto a média da UE subiu de 22,1% para 22,2%.

Já em ciências, a evolução portuguesa foi de 19% para 17,4%, enquanto na UE se registou uma subida de quatro pontos percentuais no contingente de alunos com fracos desempenhos, que passou de 16,6% para 20,6%.

Este resultado na literacia em ciências é destacado pela CE. “Um dos objectivos da União Europeia para 2020 é reduzir para 15% a percentagem de estudantes de 15 anos que obtêm resultados negativos em leitura, matemática e ciências. Não só a UE está longe de alcançar esta meta, como ainda se afastou mais dela, em particular nas ciências”, frisa-se no comunicado divulgado a propósito da nova edição do Monitor da Educação e Formação.

Desafio: ter 40% da população com ensino superior

Quanto às outras principais metas para 2020, a Comissão Europeia alerta que Portugal está ainda longe de conseguir ter 40% da população entre os 30 e os 34 anos com o ensino superior completo. Vai constituir um “desafio” alcançar este objectivo no prazo que resta, afirma. Em 2016 esta percentagem era em Portugal de 34,6%, enquanto na UE já estava nos 39,1%.

Sobre a situação em Portugal, a CE indica a propósito que existem “várias medidas a ser aplicadas para ajudar a agilizar a rede de oferta do ensino superior”. Nos documentos já divulgados não se especifica quais são. No anterior Governo PSD/CDS foram criados os chamados cursos técnicos superiores profissionais, com o objectivo precisamente de alcançar a meta para 2020. No ano lectivo passado estes cursos de dois anos, leccionados apenas nos institutos politécnicos, já eram frequentados por quase 12 mil alunos. O actual Governo pretende que dentro de três anos existam 20 mil alunos formados por ano nestes cursos.

No Monitor da Educação e Formação destaca-se também que Portugal tem feito progressos na redução da taxa de abandono escolar precoce, que dá conta da percentagem de jovens entre os 18 e os 24 anos que abandonaram os estudos sem concluírem o ensino secundário. A meta para 2020 é de reduzir esta proporção para 10% ou menos, mas em 2016 Portugal estava ainda nos 14% (três anos antes esta percentagem era de 18,9%), enquanto a média na UE era de 10,7%.

Desigualdades persistentes

Segundo a CE, os dados agora coligidos confirmam que “o nível de escolaridade atingido pelos estudantes depende, em grande medida, das suas origens socioeconómicas”. E aponta as pessoas nascidas fora da União Europeia como sendo “particularmente vulneráveis”. “Em 2016, 33,9% das pessoas entre os 30 e os 34 anos residentes na UE, mas nascidas em países terceiros, eram pouco qualificadas (concluíram o 3.º ciclo do ensino básico ou menos) em comparação com apenas 14,8% dos seus pares nascidos na UE.”

“É demasiado frequente os nossos sistemas de ensino perpetuarem as desigualdades”, alertou o comissário europeu responsável pela Educação, Tibor Navracsics, acrescentando que  isto acontece “quando não se adequam às pessoas dos meios socioeconómicos mais desfavorecidos e quando o estatuto social dos pais determina os resultados escolares, mantendo a pobreza e as oportunidades reduzidas no mercado de trabalho de uma geração para a seguinte”.

 

 

 

Portugal é dos países onde nascem mais bebés com baixo peso

Novembro 22, 2017 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.dn.pt/ de 11 de novembro de 2017.

Em 15 anos, número de crianças que nasceram com menos de 2,5 quilos disparou 59%

Portugal está na quinta posição dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) onde nascem mais bebés com menos de 2,5 quilos, avança hoje o Público, que cita o relatório Health at a Glance 2017. Só a Indonésia, Colômbia, Japão e Grécia têm mais crianças a nascer nesse limiar de peso.

Em Portugal, esses nascimentos representam 8,9% do total. Entre 1990 e 2015 o aumento destes casos foi de 59%. Na OCDE, os nascimentos com menos de 2,5 quilos representam 6,5% do total e registaram um aumento de 15%, segundo os dados citados pelo jornal.

O aumento do número de partos prematuros e a idade avançada das mães são fatores que ajudam a explicar estes dados.

O documento citado na notícia é o seguinte:

Health at a Glance 2017

 

 

As crianças portuguesas são felizes, mas só as mais pequenas

Novembro 15, 2017 às 1:30 pm | Publicado em Relatório | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.publico.pt/ de 8 de novembro de 2017.

Inquérito a 1131 pais revela que oito em cada dez preocupa-se com a felicidade futura dos filhos.

Bárbara Wong

As crianças portuguesas são felizes mas, à medida que vão crescendo, a percentagem de infelicidade aumenta, revela um inquérito promovido pela Imaginarium sobre “A felicidade e a infância”, conhecido nesta quarta-feira, em Lisboa. Também a Ikea lançou o seu “Play Report 2017” para o qual entrevistou mais de 350 crianças e adultos na Alemanha, China e EUA para compreender o papel da brincadeira na vida das pessoas.

Segundo o inquérito levado a cabo pela Imaginarium a 1131 pais, oito em cada dez preocupam-se com a felicidade futura dos filhos. Aliás, mostram-se mesmo “muito preocupados” e a maioria acredita que os filhos são “felizes” (20,2%) ou “muito felizes” (51,6%), há mesmo um quinto que diz que o seu filho “é a criança mais feliz do mundo”, apenas 8,8% diz que é “normal, às vezes feliz e outras não” e só 0,1% confessa que o filho é “muito triste”.

Contudo, os níveis de felicidade das crianças varia conforme a idade e os dados mostram que à medida que crescem vão tornando-se mais infelizes. As faixas etárias analisadas foram dos 0 aos 2, dos 3 aos 4, dos 5 aos 6 e dos 7 aos 8 anos. São estes últimos que são mais infelizes (15,2%) – a percentagem de infelicidade vai decrescendo com a idade situando-se nos 6,4% nas crianças entre os 0 e os 2 anos.

Para Rui Lima, pedagogo e convidado pela Imaginarium para comentar o estudo, é imposta uma “crescente pressão” às crianças, quer pelos pais quer pelos professores, onde “o desempenho académico, a competição entre pares e a necessidade de alcançar a perfeição em todas as actividades realizadas são uma constante”, logo, têm um “impacto negativo na felicidade das crianças”, defende num comunicado enviado às redacções.

E o que faz os meninos portugueses infelizes? Não passar tempo suficiente com os pais (26,3%), não ter tempo suficiente para brincar (21,3%) ou ficar de castigo (16,4%), respondem os pais inquiridos. As crianças serão mais felizes se se desenvolverem num ambiente escolar e familiar em que se sintam valorizadas e queridas (45,2%), se passarem mais tempo em família (34,8%) e se os pais as deixarem “explorar o mundo através da brincadeira (17%), respondem ainda os pais.

Falta mais tempo para a família

Praticamente todos os pais (99,8%) respondem que a felicidade dos filhos passa pelo tempo de qualidade partilhado em família, mas pouco mais de metade (51%) sente que passa pouco tempo de qualidade com os filhos e seis em cada dez pais acreditam que os filhos sentem a sua falta. Aliás, a maioria (89,8%) reconhece que tem dificuldade em conciliar a vida profissional com a pessoal e acredita que um horário laboral mais flexível lhes permitiria aumentar o tempo de qualidade e brincar com os filhos.

Quando questionados sobre como contribuem para a felicidade dos filhos, os pais respondem que é ouvindo-os e fazendo-os sentir-se queridos (33,4%) e passando mais tempo com eles (28,1%). Para 14,3% a felicidade passa por elogios e incentivos para que os filhos façam as coisas bem.

Durante a semana, o tempo mais feliz que pais e filhos compartilham é o de antes de ir deitar e, ao fim-de-semana, são os passeios que fazem as delicias dos mais novos. Este inquérito, que a Imaginarium defende representar o todo nacional, conclui que as crianças portuguesas são “extremamente familiares” porque gostam de fazer planos com os pais e passar tempo com os mesmos.

A Imaginarium pergunta ainda aos pais que tipo de brinquedo faz os filhos mais felizes e as bicicletas e veiculos com rodas (38%) surgem à cabeça, seguido da música, arte e trabalhos manuais (35,2%), os jogos de construção e lógica (30,8%) e as cozinhas e profissões (30,6%). Os ecrãs, televisões, Ipad, vídeojogos e telemóveis (19,4%) surgem na oitava posição.

“Os brinquedos devem apelar ao desenvolvimento de diferentes competências, tanto ao nível físico como intelectual. Desenvolvendo essas competências, a criança será capaz de relacionar-se melhor consigo mesma, com os outros e com o mundo. Daí a importância de brinquedos que estimulem os sentidos nos primeiros anos de vida”, defende Rui Lima no comunicado.

Também a marca sueca Ikea fez o seu terceiro relatório – depois de 2010 e 2015 – sobre o brincar com o objectivo de perceber melhor o papel desta actividade no desenvolvimento das crinças e na vida em casa. Para isso, entrevistou mais de 350 pessoas na Alemanha (Berlim), China (Pequim) e Nova Jérsia (EUA), entre os 2 e os 90 anos, e propõe cinco definições para brincar: “brincar para reparar”, ou seja, para recuperar do stress do dia-a-dia e as sugestões passam por actividades que promovam o bem-estar das pessoas como o ioga ou o tai-chi, mas também a jardinagem ou um passeio.

“Brincar para conectar” é a segunda definição. Num tempo em que o trabalho interfere por vezes na vida pessoal, o brincar proporciona a possibilidade de abrandar e de as pessoas se aproximarem da família ou dos amigos. As sugestões passam por ir a um bar fazer karaoke ou fazer jogos tradicionais como os de tabuleiro ou as cartas, o que permite que as pessoas estejam ligadas sem ser pela tecnologia, propõe o relatório.

As pessoas precisam de momentos de libertar, por isso, “brincar para libertar” é a terceira conclusão da marca, que sugere uma ida ao teatro ou a um parque temático. “Brincar para explorar” é a quarta proposta, explorar mundos reais ou imaginários, viajar ou brincar ao “faz-de-conta”. Por fim, “brincar para expressar” que aposta na criatividade e nas artes, da pintura à música.

“Brincar começará a aparecer, cada vez mais, em todos os aspectos das nossas vidas. Desde o local de trabalho ao ginásio, as pessoas irão procurar brincar em espaços e momentos onde tradicionalmente não o fariam”, conclui o comunicado da Ikea.

Ikea Play Report 2017

 

“Há jovens que já bebem uma garrafa de destilados por dia”

Novembro 13, 2017 às 2:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista do http://expresso.sapo.pt/ a Francisco Henriques de 11 de novembro de 2017.

Joana Pereira Bastos

Texto

Marcos Borga

Fotos

A Unidade de Alcoologia de Lisboa, o primeiro centro de tratamento do alcoolismo a abrir em Portugal, completa 50 anos na próxima semana. E, ao contrário do que acontece com a toxicodependência, o problema não está a diminuir. O consumo está a aumentar entre as mulheres e há uma perigosa mudança de padrão entre os jovens, alerta Francisco Henriques, diretor da consulta.

O que mudou na relação dos portugueses com o álcool nestes 50 anos?
Nessa época, muitos começavam a beber ainda em criança. Isso melhorou. Há uma maior consciencialização, e a idade média de início do consumo está agora nos 16 anos.

Ainda assim, o consumo está a aumentar.
É verdade, sobretudo entre as mulheres, o que é preocupante, já que o risco de ficarem dependentes é maior. O seu metabolismo é mais vulnerável.

A toxicodependência está a baixar. Por que razão não acontece o mesmo com o álcool?
Há uma mudança de padrão. As pessoas estão a deixar de usar tanto as drogas ilícitas e voltam-se mais para o álcool. É mais barato e mais bem aceite.

O número de portugueses em tratamento por dependência do álcool é o mais elevado de sempre. Como se explica?
Estamos a detetar o problema mais cedo. Mas, embora haja muita gente em tratamento, há um número muito elevado que nunca chega a tratar-se, porque não tem consciência do problema. A dependência começa muito devagarinho.

Como?
Com a experimentação na adolescência, as pessoas descobrem que ficam mais bem-dispostas ou sentem-se mais tranquilas com álcool, e a tendência é repetir. Há pessoas que têm uma espécie de marcador que as faz parar, sem esforço, ao fim de um ou dois copos, porque não lhes apetece mais ou não ficam tão bem-dispostas. Essas não vão ter um problema de dependência. Quem o pode ter são as pessoas que não têm esse travão biológico e vão aumentando a tolerância. Ao fim de um tempo, um copo já não faz efeito, são precisos dois, e a tolerância vai subindo até haver consequências.

Estima-se que 300 mil portugueses têm consumos de risco. Em que é que isso se traduz?
A Organização Mundial da Saúde estabelece como limite uma unidade de álcool por dia no caso das mulheres e duas no caso dos homens. Nesse sentido, se uma mulher bebe, em média, três ou quatro copos, já está numa situação de abuso, o mesmo acontecendo no caso dos homens com cinco ou seis.

Tanto faz ser cerveja ou uísque, por exemplo?
Sim. A cerveja tem 4,5 graus de álcool, mas são 33 centilitros, enquanto o uísque tem 40 ou 45 graus, mas são quatro centilitros. Ou seja, o uísque é dez vezes mais forte, mas uma garrafa de cerveja tem dez vezes mais volume, portanto equivalem-se. Mas as pessoas acham que só bebem vinho bom ou só bebem cerveja, e por isso está tudo bem. Não está.

O que mudou no padrão de consumo dos jovens?
Durante muitos anos, o álcool era a forma de afirmação dos rapazes quando começavam a conviver com os homens, no café ou na taberna. Beber intensivamente nas discotecas é agora a nova forma de iniciação. É o chamado binge drinking, que passa por uma intoxicação alcoólica aguda e muito rápida.

É um padrão mais perigoso?
Penso que sim. Beber ao longo do dia, ao almoço e ao jantar, é um padrão do Sul da Europa. Mas estamos a desenvolver cada vez mais um padrão de consumo intensivo, concentrado à noite ou ao fim de semana. Durante a semana, portam-se bem, mas embriagam-se à sexta e ao sábado. Como só bebem ao fim de semana, acham que não têm nenhum problema.

E têm?
Podem ter. A questão não tem que ver com o calendário dos consumos. Tem que ver com o facto de, quando começa a beber, a pessoa não conseguir parar. E de beber apesar das consequências. Apesar de a mulher pedir para não beber, de os filhos se queixarem, de no trabalho se começar a notar, etc.

O alcoolismo pode aumentar?
É possível que haja um agravamento dos consumos. Há uma parte da população que pode desenvolver um grave problema de dependência numa idade precoce, jovens que aos 20 e poucos anos têm um consumo médio de uma garrafa de destilados por dia. Já temos casos na unidade.

 

 

 

Adolescentes alcoólicos

Novembro 6, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Reportagem do http://expresso.sapo.pt/ de 15 de outubro de 2017.

Catarina Guerreiro

À noite, na zona de Santos, em Lisboa, as ruas enchem-se de adolescentes e copos. Cerveja, vinho, sangria e misturas. Alguns acabam alcoolizados no hospital. É assim de norte a sul do país: todos os meses há miúdos a chegarem às urgências com intoxicações ou comas alcoólicos. Os mais novos não têm ainda 13 anos

No passeio, puseram-se os dez numa roda. Cada um pegou no pequeno copo com líquido escuro, ergueram-nos ao centro, brindaram à mais nova de entre eles e beberam a mistura num gole. Era o ritual de um grupo de primos e aquele estava a ser o batismo de J., de 14 anos. Dentro do copo havia C 24, uma mistura de vodca preto e limoncello. Sempre que um deles completa 14 anos é assim: reúnem-se num bar e iniciam-no no mundo dos shots — dose de bebida alcoólica que se consome num só gole. Eram 00h28 da madrugada do último sábado quando J. engoliu em menos de um segundo o seu primeiro shot. Gritaram o nome dela e incentivaram-na. “Bebe, bebe…”

Estavam no Largo de Santos, em Lisboa, onde à noite se juntam muitos adolescentes. A uns metros de distância, a praceta na Avenida D. Carlos I estava cada vez mais cheia e animada com miúdos, de idades entre os 13 e os 17 anos. Desde as 22h30 que começaram a chegar. Na mão tinham copos de cerveja (uns mais pequenos, outros de meio litro) que compravam nos bares do lado oposto da rua. Alguns seguravam garrafas de vinho e outros ainda garrafas de vidro de um litro de cerveja — “litrosas”, como lhes chamam. Apareceram três miúdas com uma garrafa de plástico, de rótulo cor de laranja e imagens de fruta. “É sangria de vodca branco”, desvendaram. E continuaram: “Comprámos no indiano a caminho daqui.” A maioria tinha 15 e 16 anos e, por isso, estão totalmente proibidos de comprar álcool pela lei. Mas conseguem sempre: ou não lhes pedem identificação ou tratam de contornar o problema. “Arranjamos forma. Nem que seja pedir a um maior de idade que o faça.”

Um grupo de seis rapazes divertia-se a meter-se com as raparigas. Um deles exibia, orgulhoso, o charuto que trouxera de casa. Outro corria sorridente enquanto ia buscar mais uma cerveja a um dos bares, onde a afluência era tanta que parecia difícil chegar ao balcão. Mas conseguiu. E saiu de lá com a sua quinta cerveja. “Já estou a ficar acelerado”, avisava. Uns estavam mais calmos, outros não escondiam que gostam de beber sem limites. “Outro dia, bebi sozinho quase uma garrafa de whisky. Apanhei uma bebedeira e quando cheguei a casa vomitei imenso”, contava um dos miúdos, com ar de ‘menino bem’. Os adolescentes estavam em grupos, espalhados pela praceta. Ouviam-se gargalhadas, gritos. “Vou buscar um vodca”, anunciava alto uma miúda que não parecia ter mais de 15 anos. O amigo, ao lado, com um jarro de vidro de sangria na mão, começava a dar sinais do que já bebera. Cambaleava e, ao tentar pegar no telemóvel de uma amiga, deixou-o cair ao chão. Já passava da meia-noite e meia. O espaço, com bancos de madeira corridos e umas mesas de madeira com cadeiras, estava cada vez mais concorrido. Parecia o recreio de uma escola secundária. Mas em vez de ser de dia, era de noite; e em vez de livros, traziam nas mãos copos com bebidas alcoólicas. Alguns fumavam. Ali não havia restrições. “Às vezes, há uns que abusam muito e acabam a noite no chão”, descrevia A, de 16 anos, que, apontando para a berma da estrada, onde alguns se encontravam sentados, explicava: “Já vi aqui alguns em coma alcoólico.”

O número de adolescentes com excesso de consumo de álcool que dão entrada no Hospital Dona Estefânia, para onde são enviadas as crianças apanhadas naquela zona, confirmam o cenário: todos os meses entram pela porta da urgência pediátrica, pelo menos, cinco adolescentes com intoxicações alcoólicas agudas e alguns em coma alcoólico. Em 2016, o hospital registou 65 casos, e nos dois anos anteriores mais 132 (60 em 2015 e 72 em 2014). A maioria tinha 15 anos, mas dois deles eram crianças de 11 anos. E 39% tinham mais de 2 gramas de álcool por litro de sangue (g/l). O caso mais grave foi o de um adolescente que registou 3,84 g/l e que esteve em coma alcoólico. Há situações ocasionais, mas outras são mais preocupantes e têm de ser seguidas de perto, explica a pedopsiquiatra Neide Urbano, do Hospital Dona Estefânia, a médica que fez o levantamento sobre as ocorrências com esta substância, tema a que se tem dedicado. “O álcool atinge o sistema nervoso central e, em miúdos vulneráveis do ponto de vista da saúde mental, potencia comportamentos como a agressividade, a automutilação, a depressão e às vezes é o gatilho para quem tem tendências suicidas”, garante a médica.

Doze anos, 1,56 gramas de álcool

O fenómeno repete-se por todo o país. Na urgência pediátrica do Hospital de São João, no Porto, entre 2011 e 2015 deram entrada 346 adolescentes com álcool a mais. “E 8% tinham antecedentes de consumo”, nota o diretor da urgência, Luís Almeida Santos, para quem a situação “é muito preocupante”. “Estamos a falar de crianças bêbadas”, alerta, explicando que nesta análise verificou-se que os adolescentes de 12 anos que deram entrada na urgência tinham em média 1,56 g/l de álcool no sangue. Já a média dos de 13 anos foi de 1,46 g/l; a dos miúdos com 14 anos situou-se em 1,79 g/l; a dos de 15 ficou pelos 1,64 g/l; a dos 16 anos atingiu os 1,65 g/l; e a dos de 17 anos posicionou-se nos 1,68 g/l. Valores muito elevados, avisam os médicos. Basta ver que os condutores com menos de três anos de carta são multados quando têm mais de 0,2 g/l e todos os outros a partir de 0,50 g/l. E quem revelar 1,2 g/l é acusado de um crime.

“Houve miúdos que chegaram com taxas entre os 0,5 e os 3,8 g/l de álcool”, recorda o diretor da urgência, acrescentando que 40% foram situações com alguma ou muita gravidade, “com alterações do estado de consciência e sujeitos a exame neurológico”. Almeida Santos está agora a analisar os processos clínicos do ano passado para concluir as estatísticas de 2016. Mas o fenómeno não parece estar a diminuir. Aliás, 2015 foi o ano em que o São João registou mais casos: 87 num ano. Ou seja, todos os meses, sete ou mais adolescentes deram entrada alcoolizados.

O mesmo se passa no Centro Hospitalar Vila Nova de Gaia/Espinho, onde em 2016 apareceram “20 adolescentes com alteração do estado de consciência”, refere Hugo Tavares, de 40 anos, pediatra e responsável pela consulta do adolescente, para onde são encaminhados os miúdos que surgem nas urgências com excesso de álcool. Para medir a gravidade da situação e o estado de coma, os médicos usam uma escala chamada de Glasgow: através da observação das capacidades ocular, verbal e motora são atribuídos pontos. Quinze é considerado normal; a partir de 11 começa o estado de coma superficial, 8 significa que se perdeu reflexos vitais — como o de se impedir que o vómito vá para os pulmões; e com valor de 3 significa uma coma profundo.

Hugo Tavares concluiu um trabalho sobre os episódios que chegaram à urgência entre 2008 e 2016, para apresentar no Congresso Nacional de Pediatria, que se realiza no final deste mês. A maioria surgiu nas urgências à noite, ao fim de semana, ou em épocas de festivais e festas populares. A média de taxa de alcoolemia foi de 1,584 g/l. Mas um rapaz chegou com 2,74 g/l. Entre os embriagados havia uma criança de nove anos. As cenas vividas nas urgências revelam os perigos em que os adolescentes se colocam. Ao Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia, chegou um miúdo, transportado pela polícia, que estava embriagado a dormir na estrada, “como se estivesse em casa”, e deu entrada uma rapariga que bebeu álcool a mais e foi tomar banho ao mar. “Podia ter morrido afogada”, nota Hugo Tavares, garantindo que muitos jovens estão a aderir ao binge drinking: “Ingerem grande quantidade de álcool de forma súbita. Três, cinco, até sete bebidas de uma só vez.” Uma tendência que, assegura, tem um enorme “impacto, porque leva a consumo de grande quantidade de álcool antes de terem tempo de começar a sentir os efeitos do álcool”.

Foi provavelmente o que aconteceu a T., um rapaz de 16 anos que entrou em coma alcoólico. Estava com amigos numa feira em Santarém quando, a meio da noite, caiu e acabou internado no hospital. Bebeu sete cervejas e depois “empurrou tudo com 12 shots de absinto” e bebeu-os em pouco mais de 10 minutos. Não tardou até estar dentro de uma ambulância. Lembra-se de começar a ver tudo à roda, de ter momentos em que via tudo preto, de vomitar e de se sentir estranho. Mas a partir daí não se lembra de mais nada. Caiu, fez um traumatismo craniano e desmaiou. Foi levado para o Hospital de Santarém, onde os pais o foram buscar mais tarde. Ficou de castigo, apanhou um susto, mas não o suficiente para deixar de beber. Mas, para muitos, garante Hugo Tavares, passar por uma intoxicação destas é uma lição. O problema, diz, é que se cria uma falta de confiança entre os pais e filhos que às vezes é difícil recuperar. “Por isso estas consultas de adolescentes são importantes, pois também ajudam os pais.”

Naquela madrugada de sábado em Santos, no centro de Lisboa, ninguém parece preocupado com os riscos do que está a fazer. “Nós controlamos bem a bebida”, diz M., de 15 anos, enquanto dá mais um golo na sua garrafa de plástico cheia de sangria. Nas escolas é raro ouvirem falar dos perigos do álcool, contam.

Nas mãos da polícia

“É um grave problema de saúde pública. Mas a forma como estamos a passar a informação não dá. Assim não vamos lá”, diz Rui Tato Marinho, hepatologista e autor de vários estudos sobre os perigos do álcool para a saúde. “O consumo excessivo está ligado a mais de 100 doenças”, garante, dando o exemplo de cirroses alcoólicas, cancros, infertilidade. “E há riscos de morte súbita — que já vi acontecer no Hospital de Santa Maria — e de asfixia pelo vómito”, avisa, aproveitando para recordar um estudo da Universidade de Boston, onde se conclui que quem começa a beber com menos de 14 anos tem cerca de 50% de probabilidade de ficar dependente mais tarde. “A única hipótese é restringir mais o consumo”, defende Tato Marinho, notando que a. lei não está a ser eficaz.

É também essa ineficácia que a subcomissária da 1ª Divisão da PSP, Aurora Dantier, de 52 anos, admite testemunhar nas operações que faz durante a noite no Bairro Alto e em Santos, exatamente nos bares ao pé da Praceta D. Carlos I. Por estas zonas encontra regularmente cenas degradantes: menores a caírem de bêbados e a vomitarem, alguns em coma alcoólico; taxistas que não sabem o que fazer a adolescentes embriagadas que não conseguem explicar onde vivem. E, por vezes, chegou a ficar estupefacta quando lhe apareceram pais, a quem ela telefonou para irem buscar os filhos, completamente embriagados. “Não se mudam mentalidades com decretos”, diz Aurora Dantier. A subcomissária costuma fazer operações de vigilância de menores que estão na noite sem supervisão de adultos e é acompanhada por técnicas da comissão de proteção de menores, que com ela integram o projeto Sem Rótulos, para ajudar a prevenir situações de maior perigo. É comum a subcomissária entrar num bar e fazer na rua um perímetro de segurança. “Só deixo os adolescentes irem embora quando um adulto o for buscar.” Além disso, notifica por escrito os pais de todos os menores que forem encontrados a beber, como manda o artigo 7º da Lei 50/2013, que define a venda e o consumo de bebidas alcoólicas. Na última operação que liderou, estavam 20 ou 30 miúdos nessa situação.

P. de 16 anos, já esteve algumas vezes no sítio errado à hora errada e apanhou as operações da subcomissária. “Fazem uma espécie de quadrado e ficamos ali retidos até os nossos pais nos irem buscar.” Na madrugada do último sábado não houve ações policiais em Santos. Por isso, à medida que as horas corriam, o som das garrafas de vidro partidas no chão aumentava. Já passava da uma da manhã e se alguns ainda se comportavam, outros já davam sinais claros do que tinham bebido. E atravessavam a estrada a correr, a rir e a gritar, sem olhar para carros que passavam e sem noção de que podiam ser atropelados. É essa falta de avaliação do risco, dizem os especialistas, um dos perigos do excesso de consumo. “Com o álcool, eles têm comportamentos de risco no sexo, na condução, na agressividade”, nota Helena Fonseca, pediatra, responsável pela consulta do adolescente no Hospital de Santa Maria e professora da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa. “O álcool é o inimigo número 1”, avisa.

Ao Hospital de Viseu, por exemplo, já chegou um rapaz de 17 anos em estado grave por causa de um acidente de mota, resultado do seu estado de embriaguez. E outro entrou, numa madrugada, nas urgências a convulsionar. “Temos de estar muito atentos porque nestes casos há risco de hipoglicemia”, descreve Alzira Ferrão, de 58 anos, diretora do serviço de pediatria do Hospital de Viseu, onde aparecem também casos de adolescentes muito novos. Não há muito tempo, um casal foi ao hospital com o filho de 10 anos a cambalear. Estava de férias e teve acesso a bebidas alcoólicas através de amigos. O consumo que é feito pelos adolescentes preocupa-a e o hospital tem protocolos com as escolas da zona, onde a sua equipa costuma ir uma vez por semana falar com os alunos. Além disso, fazem sessões de formação nos estabelecimentos de ensino e no próprio hospital, para professores, pais e estudantes. “Tentamos mostrar-lhes que o álcool é tóxico e afeta as células.” Por isso, num dos filmes passam a imagem “de um neurónio a ser regado com gotas de álcool e a atrofiar”.

Da sua experiência, consegue perceber que grande parte dos casos são ocasionais e ficam internados menos de 24 horas, mas outros são mais complexos. “Já me disseram que bebem para esquecer.” Alzira Ferrão quer fazer um levantamento dos casos que entraram nos últimos anos nas urgências para comparar a situação com a que está descrita no último estudo feito no hospital de Viseu, que avaliou 74 casos entre 2006 e 2010. A taxa média de álcool foi de 1,78 g/l e 51% tinham consumido shots. Houve registo de escoriações, traumatismos e casos mais problemáticos, como uma fratura do osso frontal, que pode deixar sequelas. Não é assim tão raro, ocorrem acidentes graves.

No Centro Hospitalar de Setúbal, o pediatra José Freixo não esquece o que sucedeu a um rapaz de 16 anos que apareceu alcoolizado e com ataques epiléticos, e que teve de ser operado ao cérebro. O médico dá consultas de adolescentes no hospital, mas lamenta que metade não apareça. São reencaminhados pelos médicos que os atendem na urgência. Joana Cachão, de 29 anos, é interna na especialidade de pediatria neste hospital e já teve nas mãos algumas situações. “Em regra, são intoxicações leves e fazemos hidratação e aquecimento”, explica. Há uns tempos, ela e outras médicas fizeram um estudo sobre o tema: analisaram os processos clínicos dos 99 adolescentes que chegaram com excesso de álcool, entre julho de 2011 e julho de 2015. Desde então, já atendeu alguns.

O último foi um rapaz de 16 anos que apareceu embriagado e a vomitar sem parar. Ficou a descansar e a avó foi buscá-lo perto das seis da manhã. Sabia que o neto tinha ido sair e beber uns copos, mas nunca pensou que acabasse assim. Foi também com surpresa que os pais de uma estudante chegaram recentemente ao Hospital de Santa Maria, em Lisboa, para irem buscar a filha, que ali estava deitada numa cama com intoxicação alcoólica, fruto das festejos das praxes. Tinha bebido sangria a mais. “Tu?”, perguntaram, incrédulos, os pais quando chegaram ao pé dela, na enfermaria da urgência pediátrica. Foram ajudados pelo psicólogo que todos os dias passa pelas salas da urgência e que, entre outros casos, auxilia pais e crianças a lidar com os problemas que resultam destas situações. “Os miúdos acham que desiludiram os pais”, explica Gabriela Araújo e Sá, diretora da urgência pediátrica do Hospital de Santa Maria, onde todos os meses chega um adolescente com intoxicação alcoólica aguda.

Para estes casos, o serviço tem um protocolo de atuação estabelecido, refere, por seu lado, Celeste Barreto, diretora do Serviço de Pediatria, que define os exames a pedir, os passos a seguir e os sinais a observar. Um adolescente que apresente 0,5 a 1 g/l tem alterações da coordenação e desinibição; entre 1 e 1,50 revela desequilíbrio, entre 1,5 e 2, mostra letargia e dificuldade em estar sentado, com 3 entra em coma e com 4 a 7 corre risco de depressão respiratória. Uma atuação que segue as regras impostas em julho passado por uma orientação que a Direção-Geral de Saúde enviou para os hospitais, onde explica que estas intoxicações são um grave problema de saúde e impõe normas de procedimento.

“Sabe a álcool etílico”

Alheios a todas estas regras, naquela noite os miúdos continuavam a divertir-se em Santos. Entravam e saíam dos bares. São 1h20 quando J, de 14 anos, e os primos que a batizaram continuam no ritual. Entraram noutro bar e beberam todos um shot, desta vez cor-de-rosa. Entretanto, em grupos, dezenas de adolescentes dirigiam-se para a zona das discotecas na Avenida 24 de Julho. “Eh pá, o meu pai disse-me para eu não beber”, comenta uma adolescente com os amigos, enquanto dá um gole no copo que tem na mão. Não seguiu o pedido do pai: está embriagada e deita-se no chão da avenida. A um canto, um pouco atrás, uma outra adolescente, de 16 anos, vomita para poder continuar a noite, enquanto uma amiga aguarda pacientemente ao seu lado. Sentados no chão e num círculo, vários miúdos jogam à roleta com a garrafa e vão dando beijos uns aos outros. Num bar ali perto nota-se uma correria de entra e sai. “Vai lá buscar sete shots para nós”, pede uma miúda ao rapaz do grupo. Bebem cada um o seu, num gole. “Eh pá, isto sabe mesmo a álcool etílico.”

É natural, explica Luís Patrício, psiquiatra. “O álcool das bebidas é igual ao da farmácia, etanol, que é um químico neurotóxico”, explica o médico que se tem dedicado ao projeto ‘Mala da Prevenção’, através do qual tenta alertar para a grave realidade do consumo de álcool por menores. Em vídeos que costuma divulgar, tenta passar uma simples mensagem: “Até 0,5 g/l vem a euforia; com 0,5 a um grama chegam as perdas de memória, de atenção e de juízo; entre 1 e os 3 g/l começa a diminuição da marcha, da visão, da fala; com 3 a 5 g/l vem a falta de reflexos; e com mais de 5 g/l vem a morte”.

Os miúdos não fazem ideia, garante. Alguns são até novos demais. R está com amigos numa fila para a discoteca, mas nenhum, admitem tem 16 anos, a idade permitida para entrar. “Temos bilhete de identidade falsos”, acabam por confessar. Na realidade têm 14 anos, desvenda R, enquanto aponta para um outro grupo: “Aqueles ali são de 2004.” Ou seja, têm 13 anos. Segundo um estudo de 2015, do Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD), coordenado por Fernanda Feijão, o álcool continua a ser a substância mais consumida pelos adolescentes das escolas públicas. E 31% dos alunos com 13 anos já experimentaram álcool, especialmente cervejas e misturas. Num inquérito de 2015, feito em 35 países europeus por um grupo de trabalho de especialistas (Espad — The European School Survey Project on Alcohol and Other Drugs), 47% admitiram que consumiram álcool aos 13 anos e um em cada 12 estudantes europeus contou que teve uma intoxicação alcoólica com essa idade.

Começam a beber para serem aceites pelos amigos, funcionando muitas vezes como uma espécie de ritual, acredita Teresa Goldschmidt, pedopsiquiatra do Santa Maria, notando que em muitas famílias é aceite com naturalidade que os adolescentes bebam álcool. Nem todos os casos acontecem de noite, alguns dão-se no horário da escola. No Hospital Beatriz Ângelo, em Loures, Sofia Costa Lima, diretora da urgência pediátrica, conta que já aparecerem miúdas embriagadas à tarde. E, em Gaia, o pediatra António Vinhas lembra-se do caso de uma adolescente que foi de visita escolar ao parque biológico e acabou a ser levada para o hospital por uma professora, com álcool a mais.

Com o andar da noite, na Avenida 24 de Julho sente-se por vezes o cheiro a haxixe, que vem dos charros que os miúdos acendem e partilham. Pelo meio, fazem diretos para o Instagram, tiram selfies. A noite corre. Eram 3h17 quando o funcionário de um dos bares mais concorridos junto à Praceta D. Carlos I varria o chão, cheio de copos de plástico consumidos daquela noite. S. tem 31 anos e passou por um grave problema de álcool. Teve de se submeter a um tratamento e hoje diz que se sente bem e consegue beber com moderação. Mas viveu momentos complicados quando foi ao médico com uma depressão e descobriu que tinha problemas com o álcool. Ao olhar para trás, recorda-se bem como tudo começou. “Tinha 15 anos e comecei a beber shots.”

 

 

Menos 100 mil alunos nas escolas em 10 anos

Novembro 6, 2017 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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texto do https://www.educare.pt/ de 23 de outubro de 2017.

Menos alunos, menos escolas, menos professores, menos abandono. Mais sucesso escolar e mais computadores nas salas de aula. Numa década, entre 2006 e 2016, muita coisa mudou no ensino e registou-se uma redução de 99 425 alunos, segundo uma publicação da Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência.

Sara R. Oliveira

Se há menos alunos, há menos escolas abertas, menos professores a ensinar, menos abandono escolar nas estatísticas nacionais. Entre os anos letivos de 2006-2007 e 2015-2016, numa década as escolas receberam menos 99 425 alunos, uma descida de, em média, quase 10 mil alunos por ano. As escolas perderam 22 419 professores, apenas os docentes de Educação Especial e formadores das escolas profissionais aumentaram ligeiramente. Os edifícios escolares do sistema público em funcionamento reduziram-se a cerca de metade, de 10 071 em 2006 para 5781 em 2016. No ensino privado, aconteceu o contrário, abriram mais 130 escolas em 10 anos, num número que já ronda os 2 600 estabelecimentos.

Há vários retratos descritos em muitos números reunidos na publicação Regiões em Números 2015/2016 da Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC). Os números revelam também algumas exceções. Na Área Metropolitana de Lisboa e no Algarve registou-se um aumento de estudantes na última década, de 24 183 em Lisboa e de 1308 no Algarve. Mas apenas nessas regiões.

Nas creches e escolas do Ensino Básico há menos 132 478 crianças e os dados mais recentes indicam um total de 1 201 356 alunos em todo o país nestes níveis de ensino. Só o Ensino Secundário escapa a esta descida, com um aumento de 33 053 alunos nesses dez anos, mais precisamente de 336 929 em 2005-2006 para 369 982 em 2015-2016. Neste ano letivo, o 1.º Ciclo é o que tem mais alunos, seguindo-se o Ensino Secundário, o 3.º Ciclo, o Pré-escolar e, em último, o 2.º Ciclo, com 217 423 alunos.

No ano letivo de 2015-2016 havia, em todo o país, 1 571 338 alunos e 145 658 educadores de infância e professores. Numa década, o sistema ficou com menos 22 419 docentes e educadores. Nas escolas profissionais houve um aumento de 6987 formadores em 2005-2006 para 7214 em 2015-2016. Na Educação Especial houve igualmente uma subida de 3887 para 6473 profissionais nesse período de tempo. Nesses dez anos, as quebras são significativas para os restantes níveis de ensino.

No 3.º Ciclo e Secundário, que têm mais docentes, a queda foi de 82 415 professores em 2006 para 69 286 em 2016, ou seja, menos 13 129. No 1.º Ciclo, menos 5170 professores de 31 371 para 26 201, no 2.º Ciclo menos 8835 de 30 597 para 21 762. E no Pré-escolar, menos 1985 educadores de 16 707 para 14 722.

Embora com algumas oscilações, as escolas, ao longo da última década, foram tendo menos professores. No 1.º Ciclo, o número atingiu os 32 286 docentes em 2007-2008, descendo para os 25 471 em 2014-2015 e aumentando para os 26 201 no ano letivo seguinte. No 2.º Ciclo, o número mais alto, de 33 131 professores, foi registado em 2009-2010, e desde então foi sempre a descer até aos 21 762 de 2015-2016. No 3.º Ciclo e Secundário, o ano letivo de 2008-2009 foi o que teve mais docentes nas escolas, 85 863, diminuindo a partir daí até aos 69 286 em 2015-2016. No Pré-escolar, a redução foi igualmente sentida com algumas oscilações, mas a partir de 2011-2012 foi sempre a descer.

As descidas continuam, mas há casos em que é por bons motivos. As taxas de retenção e desistência em todos os níveis de ensino desceram. Há dez anos, um em cada quatro alunos do Ensino Secundário acabava por chumbar ou desistir da escola, agora são 15,5%. No Ensino Básico, as taxas de retenção e desistência também desceram e passaram de 10% para 6,4%. A taxa real de escolarização do Ensino Secundário tem vindo a aumentar, de 60,5% em 2006 para 76% em 2016.

Há números que diminuem e que mostram as repercussões de uma taxa de natalidade baixa, há outros que aumentam, como é o caso do número de computadores nas escolas, fruto da evolução dos tempos. As novas tecnologias não passam ao lado do ensino. Há mais computadores com acesso à Internet nas salas de aula.

Há dez anos um computador tinha de ser partilhado por 11,7 alunos e agora existe um computador com net para cada quatro estudantes. É no Secundário que esta disponibilidade é maior, um computador com net para 3,2 alunos, seguindo-se o 3.º Ciclo com um rácio de 3,5, o 2.º Ciclo com 3,6 e, por último, o 1.º Ciclo com 6,6. Quanto mais sobem no nível de ensino, mais computadores com net têm à disposição.

mais informações no link:

Regiões em Números 2015/2016

 

Educação para todos? Há atualmente 264 milhões de crianças e jovens fora da escola

Outubro 26, 2017 às 2:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança, Relatório | Deixe um comentário
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Notícia do http://24.sapo.pt/ de 24 de outubro de 2017.

Menos de 20% dos países do mundo garantem legalmente 12 anos de educação gratuita e obrigatória, segundo um relatório da UNESCO hoje divulgado, sendo este o período de escolaridade vigente em Portugal.

De acordo com a agência das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), há atualmente 264 milhões de crianças e jovens fora da escola e 100 milhões de jovens que não sabem ler.

Portugal, tal como outros países, surge no relatório associado a indicadores do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA), em cuja última edição (2015) os alunos portugueses surgiram com melhores resultados nas três áreas avaliadas (matemática, leitura e ciências), ficando pela primeira vez acima da média da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Económico (OCDE).

No relatório agora divulgado, refere-se um aumento do ensino vocacional no sul da Europa desde 2000, que em Itália foi de 15 pontos percentuais e em Portugal de 11 pontos.

O relatório de Monitorização Global da Educação de 2017 – 2018 da UNESCO destaca a responsabilidade dos governos em fornecer educação universal de qualidade e enfatiza que a responsabilização é indispensável para alcançar esse objetivo.

No documento refere-se que Portugal criou a Agência de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior (A3es) e instou as instituições a adotarem sistemas internos de garantia de qualidade, com o apoio da agência, que também faz auditorias.

Quanto aos indicadores relacionados com violência na escola e as suas várias formas, as taxas em que estudantes de 15 anos relataram algum tipo de ‘bullying’ variam entre cerca de 10% na Holanda, Portugal e República da Coreia e 25% na República Dominicana, Hong Kong, China, Letónia e Tunísia.

A UNESCO alerta que problemas educacionais sistémicos podem ter efeitos colaterais negativos, além de ampliarem a desigualdade e prejudicarem a aprendizagem.

No trabalho, defende-se que culpar os professores por absentismo e por resultados insatisfatórios em testes é, de uma forma geral, injusto e não construtivo.

O relatório é lançado hoje em Maputo na presença de vários ministros da Educação de países africanos.

A edição deste ano tem como tema “Responsabilização na educação: cumprir os nossos compromissos”.

mais informações na notícia da Unesco:

Don’t just blame the teacher when the system is at fault, says UNESCO

 

 

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