Na nova sala de aulas todos ensinam, todos aprendem

Abril 25, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do http://expresso.sapo.pt/ de 15 de abril de 2017.

Bernardo Mendonça

Isabel Leiria

As escolas do futuro já estão aí. O professor perde protagonismo, as carteiras não estão alinhadas, os alunos vão juntos à procura do conhecimento. Tablets e smartphones entram nas salas de aulas e aprender não se faz apenas dentro de quatro paredes.

Se as máquinas estão a roubar o emprego aos homens, então o melhor é parecermo-nos cada vez menos com elas. Em muitas circunstâncias, elas farão o trabalho melhor, mais rápido e com menos custos. Temos de saber dominá-las e usá-las em nosso proveito. Mas é preciso algo mais. Criatividade, pensamento crítico, competências sociais são argumentos cada vez mais valiosos no mundo do trabalho. E, se assim é, que sentido faz as escolas continuarem a ensinar alunos como se fossem máquinas de armazenar e debitar conhecimentos?

Justifica-se continuar a pedir a crianças e adolescentes que fiquem sentados numa sala de aulas, de forma passiva, enquanto o professor os inunda com saber enciclopédico debitado e factos a que podem aceder rapidamente em qualquer site ou vídeo na internet? Justifica-se que os alunos não possam falar uns com os outros para debater matérias?

“Enquanto adultos, somos bem-sucedidos através da colaboração com outros. Então porque é que se considera que uma ajuda entre colegas num teste ou exame é batota?”, interroga George Monbiot, colunista no “The Guardian”, num artigo recente intitulado “Na idade dos robôs, as escolas estão a formar as crianças para se tornarem redundantes”.

Monbiot pode estar a simplificar, a ser demagógico, a olhar apenas para a realidade que conhece. Mas um pouco por todo o mundo, governantes, professores, especialistas, investigadores estão a fazer a mesma pergunta. Num mundo em acelerada mutação, como deve a escola formar jovens que são diferentes das gerações anteriores e de quem se exigirá também algo de diferente? “Nos últimos anos, apareceu a realidade aumentada, as impressoras 3D, a biogenética, há carros elétricos e sem condutor. Mas continuamos a ensinar ciência da mesma forma”, diz Andreas Schleicher, responsável pelos testes PISA (Programme for International Student Assessment), a maior avaliação internacional educativa, realizada pela OCDE, em 88 países e regiões.

Por cá, a inquietação não é diferente. Será injusto dizer que nada mudou, que as escolas continuam a funcionar como no século XIX, quando pelas suas portas entram hordas de crianças nascidas no século XXI, que não sabem o que é um mundo sem internet e sem telemóveis.

A verdade é que, num modelo que permanece muito formatado e limitado pelas regras, despachos e circulares emanados da 5 de Outubro, há escolas e professores que põem em prática outras abordagens. Umas começaram há mais de duas décadas, outras dão os primeiros passos.

O Ministério da Educação promete agora dar mais liberdade às escolas para abordarem o currículo de outras formas, sem arriscarem uma inspeção de cada vez que fugirem à norma. Flexibilização, competências além de conhecimento, trabalhos de projeto que obriguem os alunos a irem eles próprios à procura da informação, atividades que juntem várias disciplinas são as orientações em cima da mesa. Porque na vida real é assim que se trabalha.

A simples desconstrução de uma sala de aulas tradicional pode ser o primeiro passo para algo novo. E tudo pode começar por uma cadeira. Ponham-lhe umas rodas, juntem-lhe uma minimesa e coloquem apenas 15 numa sala que acolhe turmas com 26 alunos. “Não havendo lugar para todos, o professor automaticamente vai ter de pensar a aula de maneira diferente”, exemplifica Luís Fernandes, diretor do Agrupamento das Escolas do Freixo, no concelho de Ponte de Lima.

O Espaço de Aprendizagem Personalizada é a mais recente novidade numa escola pública que se habituou a ganhar prémios pelos projetos inovadores que põe em prática e dinheiro para equipar a escola e ultrapassar a limitação das verbas transferidas pelo Estado. Este ano foi distinguida pela quarta vez consecutiva com o selo da Microsoft de ShowCase School, pelo uso inovador da tecnologia na educação.

UMA SALA À MEDIDA

Lá fora, veem-se vinhas e a serra. Dentro da sala, há um quadro e uma mesa interativos do mais moderno que existe no mercado, uma smart TV, tablets. As cadeiras azuis, verdes e vermelhas estão espalhadas aleatoriamente pelo espaço. O conceito de desarrumação não existe ali. Os alunos tanto tocam no ecrã do tablet como folheiam os velhos manuais escolares. Uma bancada amarela e outra azul, também com rodas, podem ser deslocadas para improvisar um auditório. Há carteiras altas para se trabalhar em pé. E uma prancha que parece um skate basculante a fazer de estrado, onde o professor dá a aula ou o aluno apresenta um trabalho. Ao lado fica a sala para gravação de vídeos. O espaço adapta-se à medida de cada aula.

Em Portugal, há pelo menos 23 salas assim — o Ministério chama-lhes Ambientes Educativos Inovadores —, número que duplicará até ao final do ano. Inspiradas na Future Classroom Lab, projeto europeu nascido em Bruxelas, têm como objetivo desafiar os professores a repensar o papel da pedagogia e da tecnologia nas salas de aulas. São todas diferentes entre si, mas com algo em comum: o centro da atividade é o aluno em interação com outros colegas e professores. Não é um espaço para ouvir matéria, mas para pôr os miúdos a investigar, interagir, criar, desenvolver, partilhar e apresentar.

Dada a proximidade do teste, a aula é de revisão da matéria de Físico-Química do 8º ano. Ouve-se uma música tipo concurso e um relógio a fazer a contagem decrescente de cada vez que é lançada uma pergunta no quadro interativo. O que mede um sonar? Os alunos tocam no ecrã do tablet para escolher uma de quatro opções possíveis. O tempo acaba. No quadro aparece o número de respostas certas e erradas. Logo de seguida, o nome das equipas que lideram o quiz. Os Blood Dragons do Miguel e do Luís dominam.

Surgem dúvidas quando à morfologia do ouvido. Há demasiadas respostas erradas. O professor, João Cunha, pede aos alunos que se virem para a televisão no canto oposto da sala. As cadeiras rodopiam em silêncio graças às tais rodinhas. A imagem de um modelo 3D de um ouvido surge no ecrã. Com os dedos, João Cunha roda-o 360 graus, amplia até se ver perfeitamente os ossos constituintes do ouvido interno, médio e externo. Mas também podia mostrar uma secção de um folículo capilar, a coluna vertebral ou um embrião com seis semanas.

“As empresas pedem cada vez mais soft skills (competências além do conhecimento técnico). Como é que um aluno pode ser criativo, por exemplo, se estiver sentado numa sala apenas a ouvir a matéria que tem de saber para o exame? Com estas novas abordagens, eles ganham uma facilidade em mostrar o que fazem e a comunicar que será sem dúvida uma mais-valia para eles”, argumenta João Cunha. Além do que ajuda a resolver um outro problema sentido por muitos professores. “Hoje em dia, é complicadíssimo dar uma aula de 90 minutos. Ao fim de 20, os miúdos desligam. Mesmo que estejam ali calados a olhar para nós.”

O DESAFIO DE CRIAR UM EBOOK

Na biblioteca da Escola Básica e Secundária Gama Barros, no Cacém, estão mais de vinte miúdos do 5º ano mergulhados no mundo das fadas e dos elfos. Na verdade, parecem estar mesmo no fundo do mar, pelas imagens de peixes e algas coloridas que decoram as paredes. Divididos em pares, com iPads na mão, têm a desafiante tarefa de criar um ebook a partir de livros desse universo de fantasia. O desafio desta aula de Português é escreverem no iPad, pelas suas próprias palavras, resumos da história que cada livro conta, atribuindo-lhe um título, pesquisando imagens na internet para a ilustrar e respondendo a questões de uma ficha.

Cada aluno conversa com o parceiro do lado, em voz baixa, ajudando-se entre si, empenhados em chegar a bom porto. Os dois professores respondem às dúvidas de alguns. No final, cada dupla grava uma leitura em áudio do texto que acabam de escrever, com a ajuda da professora bibliotecária Filomena Lima, organizadora e mentora desta atividade. “Gana” e “Varinha” revelaram-se palavras difíceis para Rita, de 11 anos. “Nunca tínhamos ouvido a nossa voz gravada. Queremos repetir a leitura para a melhorar”, diz Yara, de 10. Na mesa ao lado, Ângelo, de 11 anos, está ansioso por ler a sua parte. “Este exercício puxa mais por nós, pela nossa autonomia. E é mais divertido”, explica.

“Nestes grupos de trabalho, há sempre um mais ágil do que o outro, e isso puxa por ambos”, defende Filomena Lima. Há cinco anos que este projeto é desenvolvido por ela na biblioteca da escola. Foi com a verba ganha no projeto Ideias com Mérito que Filomena conseguiu adquirir os iPads. Começou por dinamizar uma atividade com o guloso nome “Tablets de Chocolate”, em que dava a trabalhar textos ligados à temática do chocolate, como “Chocolate à Chuva”, de Alice Vieira, ou “Como Água para Chocolate”, de Laura Esquível, e os alunos tinham de pesquisar os temas através dos iPads. O projeto visa a promoção da literacia digital, a leitura e a motivação no contexto escolar. Mas não é fundamentalista. A professora acredita que é preciso que os alunos mantenham “o contacto com os livros em suporte papel”, ao mesmo tempo que vão desenvolvendo essa literacia digital.

“Isto dá um entusiasmo extra à turma, com resultados bastante positivos. Mas as escolas não têm qualquer capacidade financeira para adquirir estes equipamentos tecnológicos. Devia depender de uma política nacional que ainda não existe.” O que existe são projetos a que cada escola está livre de se candidatar, dependendo das ideias e motivação dos diretores e professores, lembra Filomena Lima. “Querer ensinar de forma diferente, com recurso às novas tecnologias, dá um trabalhão, exige mais de nós. O que me move a mim e a muitos professores que o fazem é um espírito de missão, o gosto por ensinar, de fazer melhor, de ver que com este projeto conseguimos motivar e obter resultados.”

O que é também claro para ela é que a sala de aulas tem de ser reinventada. “Estamos a ir ao encontro das capacidades e autonomia de cada um, dando-lhes para a mão os aparelhos que alguns já usam para jogar. Mas aqui usam-nos para aprender. Os miúdos estão diferentes. Não dá para usar métodos de há 10 ou 20 anos.” À saída, alguns comentam entre si que o exercício foi giro. “O mais complicado foi interpretar o texto e fazer o resumo.” Mas a dois tudo se torna mais fácil.

Não raras vezes, as crianças com mais dificuldades surpreendem quando são convidadas a trabalhar de forma menos tradicional e com recurso a outras plataformas, considera João Henriques, professor de Inglês no Colégio dos Plátanos (Sintra). Foi o que aconteceu com uma das suas alunas mais tímidas, de quem pouco tinha ouvido a voz. Desafiada a apresentar-se, em inglês, através de um vídeo caseiro, Catarina, aluna do 8º ano, deu a conhecer mais dela em dois minutos do que no resto do ano letivo.

“Há o mito de que se algo é divertido não dá trabalho, de que se é motivador não exige esforço”, critica João Couvaneiro, assessor no gabinete do secretário de Estado da Educação e que este ano integrou a short list dos 50 candidatos a ‘melhor professor do mundo’, atribuído pela Varkey Foundation — uma espécie de Nobel da Educação, que vale ao vencedor um milhão de dólares. School in a Box é o nome do projeto em que está envolvido e que pretende fazer chegar a tecnologia a regiões remotas de Moçambique como forma de melhorar a educação. Na caixa seguem iPads e painéis solares.

Não é que a tecnologia em si seja a solução, salvaguarda. Mas pode ser uma ajuda preciosa como “transformadora das práticas pedagógicas”. “A tecnologia não vem substituir nada. Vem acrescentar coisas. Com os tablets e dispositivos móveis, o processo de ensino não fica amarrado a uma sala específica. Permite levá-lo para fora das quatro paredes. E motivar os alunos”. O que é meio caminhado andado para que eles aprendam de forma efetiva e mais sólida. “Porque é que as crianças sabem os nomes dos dinossauros, que são complicadíssimos? É porque estão motivados para 
o saber.”

Durante dois anos, os alunos do Agrupamento do Freixo também saíram da sua escola e foram à descoberta de percursos pedestres possíveis de fazer ali à volta e com interesse histórico e cultural. Sinalizaram-nos, tiraram fotografias, estudaram o património, escreveram os textos e juntaram tudo numa aplicação para telemóveis chamada Trilhandando, feita com a ajuda de uma empresa de software local. E, claro, receberam mais um prémio.

O FIM DA SALA AUTOCARRO

A questão já não é saber se as tecnologias devem ou não entrar nas salas de aulas. É perceber de que forma podem trazer valor acrescentado. E é aí que tem de entrar o professor como orientador, argumenta Teresa Salema, mentora do CoderDojo, movimento internacional que promove a aprendizagem da programação junto dos jovens, usando a tecnologia de forma gratuita e segura.

“Quando temos o Estado a exigir que todos os cidadãos entreguem os seus impostos online e quase um terço dos portugueses tem iliteracia digital, estamos perante um problema. A educação já não pode excluir a tecnologia, e a sala de aulas não pode estar fechada num quadro, numa sebenta e num professor, no velho modelo do autocarro” — professor ao volante, alunos sentados nos bancos de trás. “A sala de aulas deve estar centrada no aluno, respeitando as suas capacidades, ritmos e limitações de cada um, e aberta ao mundo da internet, dotando os alunos de ferramentas digitais, essenciais no mundo em que vivemos”, defende.

É este apport tecnológico que faz com que muitas ideias, algumas com mais de um século, voltem agora a ser discutidas “com entusiasmo”, nota João Couvaneiro. Será relativamente consensual que há muito que a educação deixou de ter apenas a ver com os chamados três ‘r’— reading, writing, aryhtmetics (em português, ler, escrever e contar). A trilogia deu lugar à teoria dos quatro ‘c’ da aprendizagem — comunicação, colaboração, criatividade e pensamento crítico integram agora a cartilha.

Claro que sempre se ensinou nas escolas a comunicar. Mas, num mundo onde a comunicação, social mas também profissional, passou a fazer-se através do Skype, do Twitter, do LinkedIn, do e-mail, do Messenger e do WhatsApp, a escola deve limitar-se a ensinar como se escreve uma carta com o remetente colocado no sítio certo? Fazer trabalhos de grupo é outra das mais clássicas tarefas escolares. Só que as potencialidades são outras, já não limitadas nem no tempo nem no espaço.

“A reprodução do conteúdo disciplinar, algo em que os alunos portugueses são bastante bons, está a tornar-se menos importante. As coisas que são fáceis de ensinar e testar são também as que são fáceis de digitalizar e automatizar. No passado recebia-se a sabedoria dos professores. O futuro passa por cada um gerar o conhecimento. O passado era hierárquico, o futuro é colaborativo. O passado dividia as matérias por disciplinas e os alunos pelas suas expectativas. O futuro tem de integrar ambos. Precisamos de educar os jovens a criar o futuro e não apenas a aprender o passado”, defendia Andreas Schleicher, em entrevista recente ao Expresso.


Foi precisamente isso que observámos numa aula de Português de uma turma do 7º ano, na Escola Carlos Gargaté, na Charneca da Caparica (Almada). Os alunos formam grupos, podem usar o smartphone e o tablet para tirar dúvidas, acedem a um blogue onde estão as indicações para as tarefas da aula e é-lhes entregue uma ficha para preencherem. Desta forma, o professor é mais um orientador, mas são os alunos que se organizam para obter as melhores respostas. “Eu tento que eles sejam autónomos e que resolvam sozinhos os problemas, sob a minha supervisão. Na última aula dei-lhes 15 ferramentas digitais para trabalharem a biografia da escritora Alice Vieira: desde mapas a editores de vídeo, desenhos animados, jogos. Tudo isso é válido para contar a biografia da autora, e eles trabalham de forma mais motivada o conhecimento”, descreve Teresa Pombo.

A professora de Português é adepta do cruzamento de saberes e de disciplinas. Quando dá “Os Lusíadas”, usa o Google Earth para mostrar aos alunos onde decorre cada canto narrado por Camões. Como a passagem pelo Congo: “Por onde o Zaire passa, claro e longo/ Rio pelos antigos nunca visto.”

Por vezes, divide as suas aulas com o colega de Inglês ou com o de Matemática. “Para mim, é o que faz sentido, e não passar a matéria aos alunos de forma compartimentada. No primeiro caso foi uma aula bilingue, em que lhes apresentámos uma banda desenhada em inglês sobre a história de uma criança privilegiada e outra desfavorecida. Os alunos interpretaram o texto em inglês e depois discutiram o tema oralmente em português. Com o professor de Matemática celebrámos o dia do ‘pi’ e criámos frases coerentes com aqueles números.”

Na aula a que assistimos, Teresa repete inúmeras vezes a pergunta: “Mas vocês não leram o que está à vossa frente? Basta lerem. Não vou desistir do blogue e das instruções e matéria que lá coloco, vocês é que vão ter de mudar de atitude.” E depois comenta connosco que este é um dos principais males desta nova geração. Têm dificuldade na leitura e interpretação de textos, por estarem mais treinados para o clique e para o estímulo rápido e imediato.

A aula termina com um flashmob, com alguns alunos a irem ao quadro para gritarem o poema ‘Urgentemente’, de Eugénio de Andrade, que apresentariam horas mais tarde, com bandeiras e palavras de ordem, num pavilhão para todos os alunos da escola. “É urgente o amor”, escreveu Eugénio. É urgente a mudança, dizem os professores.

“Se eu fosse uma professora tradicional já tinha perdido dois dos meus alunos que têm défice de atenção. E, na verdade, perderia mais. Se a minha aula fosse só debitar, quem iria ouvir-me? Sou da opinião de que as tecnologias podem devolver algum encanto e motivação aos professores. E isso passa para os alunos. Mas a sensação que eu tenho é que a maioria dos professores ainda não está sensibilizada para estas novas formas de passar o saber. Seja através dos jogos ou das ferramentas digitais.”

APRENDER ATRAVÉS DA PESQUISA

No Colégio Luso-Internacional do Porto (CLIP), que segue o currículo britânico, há muito que os alunos se habituaram a trabalhar de forma transdisciplinar. Tal como está a ser feito para o ensino público, também lá se definiram 21 competências para o século XXI que os alunos devem adquirir ao longo da escolaridade e que os professores devem trabalhar nas disciplinas tradicionais, mas não só.

Desde o pré-escolar até ao equivalente ao 9º ano, os alunos passam por uma unidade curricular que integra conteúdos programáticos de todas as cadeiras e que utiliza o método de Concept Based Learning. Ou seja, parte-se de um conceito e de um tema e a partir daí trabalham-se várias áreas, explica Isabel Morgado, um dos elementos da direção do CLIP. A unidade dura duas a três semanas e foi este ano letivo dedicada à liberdade e aos direitos das crianças.

Mas o expoente máximo desta articulação de saberes acontece nas aulas de Learning Through Research (Aprender Através da Pesquisa) e que integra o currículo do 6º, 7º e 8º , com uma carga de sete horas por semana. Os alunos são divididos em grupos de quatro, misturando turmas diferentes, mais novos e mais velhos, fortes, médios e com mais dificuldades. Quando se inicia um novo tema, que tem sempre associado uma disciplina base, mudam as equipas. A ideia é que todos aprendam com todos e trabalhem em conjunto.

Na sala, há um barulho e uma confusão controlados. Se as vozes sobem de mais, Andrea Reis, professora de História e uma das responsáveis por esta cadeira, bate três palmas secas. De imediato, todos os alunos imitam o gesto, e o silêncio instala-se. O tema chama-se “Lei e Criminalidade” e tem a disciplina de Inglês como base. Já criaram uma personagem, uma arma, um crime, um local (real e que os leva, por exemplo, a usar o Google Maps e a identificar uma rua) e um motivo. Já escreveram o guião e o storyboard e estão agora a decorar as falas para a representação à turma.

Na unidade anterior tiveram de estudar as matérias-primas de um país em desenvolvimento e pensar num produto final, passando por todo o processo, desde a extração dos produtos, circuito de distribuição, logística, até à venda, incluindo o custo por unidade e o marketing. No final, venderam-se no colégio velas de café, chocolates, sabonetes de mel. “São eles que têm de fazer toda a pesquisa. O professor é um facilitador, ajuda a tomar decisões”, afirma Andrea Reis.

Os temas escolhidos estão alinhados com a disciplina de Global Perspectives que terão no secundário e que desde há dois anos passou a ser obrigatória no 11º e 12º para obterem o diploma final que é reconhecido internacionalmente. Tal como o nome indica, a ideia não é trabalhar uma área isoladamente, mas analisar e refletir sobre um problema global, desde a energia ao emprego ou às mudanças demográficas.

Um mantra para limpar energias

Passam poucos minutos das 11h da manhã. Na sala de aulas da turma do 1º ano da Escola Básica Louro Artur (do Agrupamento Carlos Gargaté), os rapazes chegam do recreio agarrados às cadernetas de cromos e algumas meninas vêm acompanhadas de bonecas. A professora Ana Paula Figueiredo pede com voz serena que as crianças façam o mantra para ‘limparem’ as energias da rua. E, como num filme, toda a turma de pequenotes sobe para cima das mesas, de forma ordeira e em silêncio, sentando-se de pernas cruzadas. A professora põe a tocar uma música de relaxamento, e os meninos, como numa coreografia bem ensaiada, cerram os olhos e erguem o braço direito por cima da cabeça, enquanto o braço esquerdo faz um movimento circular no peito. Cinco minutos disto. A meio chega uma aluna atrasada, que arruma a sua carteira, sobe à mesa e junta-se ao mantra, sem precisar de qualquer instrução. Parece ficção ou impossível, mas acontece todos os dias naquela turma.

“Assim fazemos o trabalho melhor e concentramo-nos mais”, explica-nos uma menina. “E a mim tira-me as dores de barriga”, acrescenta outra. Logo depois a professora começa a aula e pede a quatro alunos para irem ao quadro para formarem com o corpo a palavra ‘cão’. Uma delas faz com o corpo o til. Outros formam a palavra ‘caramelo’. Tanto os que estão sentados como os que formam a palavra estão atentos e divertidos com a tarefa. Ainda vemos as crianças a mimetizarem uma canção num vídeo com linguagem gestual. Isto porque naquela aula aprende-se o alfabeto de três formas: a clássica, em braille tátil e visual e em língua gestual portuguesa.

Ana Figueiredo recorda que foi depois de tomar contacto com as “Ekui Cards”, 26 cartas do alfabeto que incluem o braille, a dactilologia (alfabeto da língua gestual portuguesa) e o fonético, que adaptou a sua aula. “Este ano tive liberdade total. E posso dizer que com este método tenho obtido resultados muito positivos na aprendizagem da leitura e escrita destas crianças. As aulas são lúdicas e apelativas, porque interagimos brincando com as letras, sílabas e palavras. As crianças manifestam alegria e vontade de descobrir novas palavras dramatizando para os colegas.”

Como complemento, Ana Figueiredo introduziu o relaxamento orientado com músicas e respiração adequada, conseguindo desta forma que as crianças se acalmem depois do recreio e recuperem a sua concentração para as tarefas da aula.

A professora, que na escola anterior não teve o mesmo apoio, é agora uma referência na nova escola. E os pais agradecem. “De manhã utilizo mandalas e imagens de Miró para eles colorirem que os ajuda a descontrair. Valorizo os manuais como um complemento de consolidação. No entanto, num 1º ano, acho que há uma dependência exagerada, o que condiciona os professores a abrir a sua mente para novas estratégias mais inclusivas para todas as crianças.”

Nesta mesma escola assistimos a outra atividade singular. Conhecemos o professor Pardal de carne e osso. Na verdade, este professor primário chama-se Horácio, tem 60 anos e 37 de profissão. Há um ano as lágrimas corriam-lhe pelo rosto e estava a perder o gosto pelas aulas e pelos alunos. “Estava desmotivado. Estar mais de 30 anos a dar aulas deixa-nos saturados.”

Foi a direção da escola que o ouviu e apostou nele para um novo desafio. Deixaria de dar aulas a uma só turma e passaria a fazer o que sempre gostou de fazer, passar conhecimento científico de turma em turma. E é um gosto vê-lo de bata branca entre um monte de geringonças a explicar a magia do ar e as suas propriedades. “Se mergulharmos este recipiente fundo na água com um algodão na base, porque é que o algodão continua seco? É por causa do ar, pois é.” O ar é de todos, e o que este professor gostaria é que o bichinho pela ciência ficasse em todos aqueles alunos.

Em Portugal, decorria a década de 70 e uma escola pública começava a experimentar uma forma diferente de se organizar, de ensinar e de trabalhar com os alunos, na altura apenas da primária. Conhecida como Escola da Ponte, em Vila das Aves/São Tomé de Negrelos (Santo Tirso), foi buscar inspiração ao Movimento da Escola Moderna e durante anos tentou convencer o Ministério da razão de ser de alargar o seu projeto a todo o ensino básico, sem turmas, sem anos de escolaridade (os alunos estão integrados em três núcleos — iniciação, consolidação e aprofundamento — e podem transitar de um para o outro em qualquer momento do ano) e onde os alunos assumem um papel central na vida da escola.

São eles que definem com os professores os planos de aprendizagem, os momentos e a forma de avaliação, sendo que o trabalho é feito essencialmente em grupo, com três ou quatro colegas. São também eles que, em assembleia de escola, definem direitos e deveres e gerem conflitos entre colegas. Têm tarefas atribuídas, como a organização de eventos, cuidar do jardim, a produção do jornal ou guiar as visitas à escola. Objetivo: promover a autonomia e a consciência cívica dos alunos, explicam os elementos da direção.

Em 2005, já com autorização de funcionamento até ao 3º ciclo do ensino básico, a Escola da Ponte assinou o primeiro contrato de autonomia com o Ministério da Educação, ou seja, a diferença passou a ser reconhecida oficialmente. Hoje são cerca de 300 as escolas e agrupamentos que também têm um contrato de autonomia com o Ministério. Mas os constrangimentos continuam a ser muitos, lamentam os diretores.

E os resultados de tudo isto? Sem surpresas, os alunos são os primeiros a dizer que preferem trabalhar assim. Significa que vão passar todos a ter boas notas? Não há ilusões. “É difícil estabelecer um nexo de causalidade entre os projetos que desenvolvemos e esta nova forma de trabalhar e os resultados académicos. Mas o que sabemos é que os alunos estão a desenvolver competências que lhes vão ser úteis quando forem para o mercado de trabalho e que estão a aprender coisas que não vão esquecer. Isto para nós também é sucesso académico”, resume Luís Fernandes.

 

 

 

 

A contra-cultura escolar

Abril 21, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do blog http://kyrieeleison-jcm.blogspot.pt/ de 9 de abril de 2017.

Juan Botas – School (1989)

O lamentável acontecimento ocorrido com finalistas do ensino secundário português num hotel em Espanha (ver aqui) é apenas o sintoma de um problema que é continuamente ocultado pelos responsáveis políticos da educação. E esse problema está, apesar da melhoria dos resultados obtidos por Portugal nos estudos internacionais sobre a educação, a afectar de forma sistemática o desempenho escolar dos alunos e, de forma indirecta, as expectativas legítimas de desenvolvimento que Portugal poderia ter. Esse problema está ligado à cultura escolar que muitos alunos, muitos mais do que deveria ser admissível, ostentam.

Essa cultura escolar é caracterizada pelo desprezo do saber – todas as áreas de estudo são consideradas uma grande seca – e, ao mesmo tempo, pelo desdém pelo esforço e pela superação de obstáculos. Chamemos-lhe uma contra-cultura escolar. O resultado destas atitudes é a indisciplina – geralmente, de baixa intensidade mas que boicota sistematicamente as aulas – e aprendizagens, quando existem, muito deficientes. A escola não é vista como lugar onde se aprende, mas onde se vai para conviver com os amigos, arranjar uns namorados ou namoradas, suportar uns professores menos simpáticos e triturar aqueles que não têm uma capacidade hiperbólica – repito, hiperbólica – para impor a autoridade.

Dito de outra maneira, para tentar ser o mais claro possível: o problema não está nos alunos que têm dificuldades em aprender. Está numa massa informe e de grandes dimensões que não quer aprender, isto é, que não quer adequar o seu comportamento às exigências que qualquer aprendizagem exige, sejam aprendizagens feitas por métodos mais tradicionais ou mais inovadores. Tentemos de novo ser claros: o problema principal não está nos métodos usados pelos professores. Está na atitude e na cultura dos alunos ou, melhor, na sua contra-cultura.

Os resultados são aprendizagens que não são feitas, comportamentos como os de Espanha ou a pandemia das praxes académicas daqueles que chegam ao ensino superior, onde o ídolo cultural da massa estudantil é Quim Barreiros (só isto diz muito sobre o problema). A consequência é tornar as escolas portuguesas num lugar estranho onde os professores querem ajudar milhares e milhares de alunos que não querem ser ajudados, que desprezam a escola e tudo o que ela implica. As escolas inventam e reinventam continuamente mil processos para auxiliar alunos que, pura e simplesmente, esperam que os professores os aprovem sem que eles tenham que fazer mais do que existir.

Esta contra-cultura do aluno português não é partilhada, felizmente, por todos. Há muitos alunos com uma atitude adequada e que se esforçam para superar as dificuldades e alcançar objectivos exigentes. Sejamos, porém e mais uma vez, claros: estes são uma minoria. Esta cultura adversa à aprendizagem, esta contra-cultura, tem dois suportes que a alimentam e protegem. Em primeiro lugar, as famílias. Muitas famílias ou não são capazes de educar os seus filhos ou não sabem quem têm em casa e fazem dos professores o bode expiatória dos insucessos dos rebentos. Em segundo lugar, o Ministério da Educação. Este e todos os outros que o antecederam. O Ministério da Educação é especialista em inventar reformas e contra-reformas, em tornar o trabalho de escolas e professores insuportável e, fundamentalmente, em desviar a atenção do problema central.

Para o Ministério da Educação – seja ele de que cor política for – o problema nunca é dos alunos, nem da cultura que trazem de casa e da rua ou do papel dos pais no sistema educativo. Para qualquer Ministério da Educação, os alunos querem aprender, os pais são muito empenhados, só que os professores são uns incompetentes e não ensinam. Logo, a única coisa a fazer é mais uma reforma do ensino, que massacre os professores, traga uns jogos florais para as escolas e, se for possível, dê mais poder aos pais dentro do sistema. Os responsáveis políticos nunca perceberam uma coisa. Para haver uma reforma do ensino é necessário que haja ensino, que os alunos estejam dispostos a aprender, que não tenham por objectivo boicotar as aulas ou, pura e simplesmente, deixar passar o tempo até que os professores, em desespero de causa, se sintam coagidos a passá-los. O problema está onde os políticos não querem mexer, na contra-cultura escolar que se instalou entre uma massa enorme de alunos portugueses.

Publicada por Jorge Carreira Maia

 

Tráfico de Seres Humanos : relatório sobre 2016

Abril 20, 2017 às 6:00 am | Publicado em Relatório | Deixe um comentário
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relatório  sinalizações relativa a menores pág. 35, lenocínio e pornografia de menores pág. 47-49.

infografia

 

 

 

 

Portugal pioneiro a receber menores sem família à margem do programa europeu

Abril 17, 2017 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia da http://www.tsf.pt/ de 3 de abril de 2017.

Bárbara Baldaia

São crianças e jovens que fugiram de cenários de guerra e que perderam a família, chegando à Europa completamente sozinhos. Não cumprem os requisitos do Plano Europeu e não têm para onde ir.

Portugal é o primeiro país da Europa a aliar-se a uma ONG grega para receber refugiados menores de idade não acompanhados que não são abrangidos pelo programa oficial europeu.

Portugal, através da CNIS, a Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade, acolheu já cinco jovens afegãos que estavam em campos de refugiados sem qualquer familiar e que, por causa da nacionalidade, não eram abrangidos pelo programa da UE de recolocação.

Ana Rodrigues, do gabinete de apoio técnico da CNIS, conta que foi no terreno que deu conta desta lacuna no plano traçado pelos líderes europeus.

Na Grécia, juntamente com a organização METAdrasi, ela percebeu que a maioria dos menores não acompanhados não tinha resposta no plano de acolhimento existente.

Como se trata de um programa de acolhimento autónomo, ele não tem financiamento público. O dinheiro para ajudar estes menores não acompanhados foi conseguido através de uma campanha de recolha de fundos que a ONG METAdrasi levou a cabo na Grécia.

Por este acolhimento não se enquadrar no programa europeu de recolocação de refugiados, houve a intermediação de autoridades judiciárias dos dois países para autorizar a saída e entrada destes menores, que ficam sob a responsabilidade do Estado português.

Ana Rodrigues, da CNIS, em entrevista a Bárbara Baldaia no link:

http://www.tsf.pt/sociedade/interior/portugal-pioneiro-a-receber-menores-sem-familia-fora-do-programa-europeu-5767898.html

 

 

Together in the EU – Promoting the participation of migrants and their descendants – novo relatório da FRA – European Union Agency for Fundamental Rights

Abril 13, 2017 às 6:00 am | Publicado em Relatório | Deixe um comentário
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descarregar o relatório no link:

http://fra.europa.eu/en/publication/2017/migrant-participation

relatório Portugal:

http://fra.europa.eu/sites/default/files/fra_uploads/social-inclusion-and-migrant-participation-society_pt.pdf

 

 

 

São crianças, vieram do Afeganistão e o seu projecto de vida passa por Portugal

Abril 6, 2017 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.publico.pt/ de 25 de março de 2017.

Cinco crianças e jovens entre os 14 e os 18 anos chegaram na quinta-feira a Portugal. São rapazes que estavam sozinhos na Grécia. Nos últimos dias jogaram à bola e dormiram “muito bem” numa cama a sério.

Ana Dias Cordeiro

Vieram como refugiados do Afeganistão. Três estavam havia “muitos meses, um ano”, num campo perto de Atenas, e dois viviam numa residência de acolhimento para refugiados, conta Lora Pappa, fundadora da ONG grega METAdrasi — Acção para a Migração e o Desenvolvimento, que os acompanhou na viagem de avião a partir da Grécia. Chegaram a Portugal na quinta-feira. São meninos sem ninguém. Rapazes que podem ou não ser órfãos, que talvez tenham um pai ou uma mãe ainda vivos, mas não o sabem, porque se perderam deles no Afeganistão ou na travessia entre a Turquia e a Grécia, fugindo de situações de conflito e de perseguições.

Dois dos cinco rapazes são irmãos. Um com 14 anos é o mais novo do grupo, o outro com 18 anos é o mais velho. Quando saíram do Afeganistão eram muito mais novos. Por serem nacionais daquele país, não estavam abrangidos pelo programa de recolocação de refugiados da União Europeia (UE).

Correram riscos na travessia de barco entre a Turquia e a Grécia, muitos sozinhos. E viveram em campos de refugiados ou residências, sem perspectivas de lá saírem. Agora Portugal assume a sua protecção.

“Os campos não são lugares para crianças desacompanhadas”, disse Lora Pappa, cuja ONG, criada em 2010, garante apoio a 700 menores refugiados que chegaram sozinhos à Grécia. “A situação é muito má. Temos de passar esta mensagem aos outros países, aos outros governos”, de que é urgente tirá-los dos campos. “Não há perspectivas” nem para terem um projecto de vida na Grécia nem para regressarem aos seus países, porque estão sozinhos, acrescenta, insistindo que Portugal é “um exemplo excelente” do que deve ser feito nesta situação, ao criar as condições para os receber.

Para sair, as crianças necessitaram da autorização de um procurador da Grécia, país que era responsável pela sua protecção. Um procurador português autorizou a sua entrada. E ficam agora sob a guarda do Estado português.

Formalmente são requerentes de asilo, com financiamento garantido pela METAdrasi que lhes permite ter a mesma subvenção que um refugiado adulto através do programa de recolocação da UE.

Os cinco estão acolhidos num lar de infância e juventude ligada à Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade (CNIS) na zona da Grande Lisboa. A instituição vai, para cada um deles, “definir um projecto educativo”, que pode ser no ensino regular ou profissional, explicou Ana Maria Rodrigues da CNIS. Começam em breve com uma formação de português intensivo. E haverá ocupação de tempos livres. “Hoje [ontem] de manhã já estavam a jogar à bola. Conhecem o Cristiano Ronaldo”, acrescenta Ana Rodrigues.

“Demos esperança a estes meninos”, continua Lora Pappa. Pelo seu trabalho de apoiar a integração de centenas de refugiados na Grécia (crianças ou adultos) ou a sua ida para países europeus onde têm familiares, Lora Pappa venceu o Prémio Norte-Sul 2015 do Conselho da Europa.

“Coisas que nunca dirão a ninguém”

Sobre estes jovens que chegaram a Portugal, sem família em qualquer país europeu, diz: “Damos-lhes um pouco e eles dão-nos imenso. No Afeganistão, na Turquia, durante a travessia de barco ou nos campos na Grécia, eles passaram por coisas que nunca dirão a ninguém.”

Um novo futuro começa agora, para eles. É o que se pretende. Do campo de refugiados foram para o avião e do avião foram para uma casa. Pela primeira vez, em muitos meses, quase um ano, dormiram numa cama. “Dormiram muito bem, e muito tempo”, conta Lora Pappa, sorrindo.

Até meados de Outubro, havia cerca de 2500 crianças e jovens não acompanhados na Grécia, que chegaram sozinhos ou trazidos por um adulto que “dizia ser tio deles, mas não era”, conta Lora Pappa.

Portugal foi o primeiro país a garantir em parceria com o Governo grego a vinda de crianças refugiadas não acompanhadas que estavam excluídas de se candidatar ao programa de recolocação da UE.

 

 

 

 

Crise: Nascem mais bebés com baixo peso

Abril 5, 2017 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia da http://www.tsf.pt/ de 24 de março de 2017.

O estudo mencionado na notícia é o seguinte:

Impact of the global financial crisis on low birth weight in Portugal: a time-trend analysis

Nuno Guedes

Estudo inédito no mundo analisou crise e peso à data do nascimento em Portugal. Investigadores dizem que relação é evidente e afetou filhos de imigrantes.

Há muitos estudos sobre os efeitos das crises económicas, mas nunca nenhum tinha avaliado o impacto sobre o baixo peso dos bebés. Um grupo de cinco investigadores do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto avaliou dados oficiais dos 2 milhões de nascimentos registados em Portugal entre 1995 e 2014 e concluiu que a crise fez aumentar os casos de bebés nascidos com baixo peso.

Contudo, ao analisarem de forma mais detalhada os dados, perceberam que esse aumento, fruto da crise, atingiu apenas as famílias de imigrantes, que apesar de representarem 4% das mulheres a viverem em Portugal, têm cerca de 10% dos bebés nascidos em território nacional, travando a crise demográfica que o país tem vivido.

Um dos autores do estudo explica que a medicina já provou que as crianças que nascem com menos de 2,5 quilos têm uma desvantagem relevante na sua saúde futura, com maior probabilidade de doenças crónicas ao longo da vida.

Razões que levam Henrique Barros, também presidente do instituto, a dizer à TSF que os resultados a que chegaram são muito importantes para a saúde pública. O investigador afirma que os impactos das crises económicas já foram muito estudados, mas nunca no mundo se fez uma análise aos bebés com baixo peso.

Há vários anos que Portugal tem cada vez mais bebés que nascem com o que está definido como pouco peso, em resultado, por exemplo, de mães cada vez mais velhas e do tabaco.

Henrique Barros sublinha, contudo, que os dados que recolheram revelam que essa tendência acelerou nos anos depois da crise financeira de 2007-2008 e de forma muito mais acentuada nas mães imigrantes, algo que segundo o investigador reforça a conclusão a que chegaram sobre o impacto evidente da crise.

Entre 2006 e 2014, a prevalência de nascimentos em Portugal com baixo peso passou de cerca de 6% para 7%, mas os investigadores dizem que a tendência de subida já vinha dos anos antes da crise.
Nas mulheres imigrantes essa tendência é mais notória, não apenas porque subiu 1,5 pontos percentuais, mas também porque na década anterior a tendência era de descida.

Perante estes resultados, o estudo publicado na revista científica BMJ Global Health propõe que o governo reforce as políticas sociais para as grávidas estrangeiras, trabalhadoras, ou noutras situações vulneráveis, mantendo a igualdade, efetiva, na saúde durante a gestação.

Para avaliar a forma como de facto são acompanhadas as grávidas imigrantes em Portugal, o Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto lança esta semana um projeto que pretende estudar 3 mil grávidas em maternidades ou hospitais de todo o país, numa investigação financiada pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT).

 Declarações à TSF de Henrique Barros no link:

http://www.tsf.pt/sociedade/saude/interior/crise-aumenta-bebes-nascidos-com-baixo-peso-5746297.html?utm_campaign=Echobox&utm_content=TSF&utm_medium=Social&utm_source=Facebook#link_time=1490339598

 

 

Apresentação e debate do estudo “A Praxe como fenómeno social” 16 de março, Vila Real, 23 de março, Évora – 28 de março, Leiria , 3 de abril, Lisboa

Março 14, 2017 às 12:00 pm | Publicado em Relatório | Deixe um comentário
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Texto da DGES de 3 de março de 2017.

A DGES promoveu a realização de um estudo sobre o fenómeno social conhecido como “praxe” no ensino superior.

O estudo foi realizado por uma equipa de investigadores do Centro de Investigação e Estudos Sociais do ISCTE-IUL (CIES), do Instituto de Sociologia da Universidade do Porto (ISUP) e do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra (CES), sob coordenação de João Teixeira Lopes (ISUP) e João Sebastião (CIES).

Estão já confirmadas as seguintes sessões de debate e auscultação pública:

6 de março, 11h30, Braga – Universidade do Minho (Anfiteatro B1, Complexo II, Campus de Gualtar);

16 de março, Vila Real – UTAD;

23 de março, Évora – Universidade de Évora;

28 de março, Leiria – (Instituto Politécnico de Leiria);

3 de abril, Lisboa – ISCTE-IUL.

Convida-se toda a sociedade a participar.

O estudo “A Praxe como fenómeno social” pode ser visualizado aqui.

Teresa Bombas: “Ainda é um indicador de pobreza do país”

Março 9, 2017 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista de Teresa Bombas ao http://www.dn.pt/ no dia 6 de março de 2017.

Teresa Bombas é especialista em ginecologia e obstetrícia

Teresa Bombas é especialista em ginecologia e obstetrícia

Diz que é preciso assumir que a gravidez na adolescência é um indicador de pobreza. Para minimizar ainda mais o problema, é necessário melhorar as condições de vida das famílias.

Teresa Bombas, presidente da Sociedade Portuguesa da Contraceção, considera que a nova geração tem mais informação e mais expectativas, ou, pelo menos, expectativas que não passam por ter filhos em idade precoce.

Como vê a descida do número de mães adolescentes em Portugal nos últimos anos?

Este é um indicador favorável da evolução do país. A gravidez na adolescência, e mais especificamente o número de adolescentes que são mães, é um dos indicadores de pobreza de um país. Basta olhar para o resto do mundo. O diminuir deste número é o resultado de várias condições: a natalidade baixou globalmente, a literacia aumentou, o número de anos da escolaridade obrigatória também, há acesso a uma educação e informação diferentes. Houve um aumento da riqueza das famílias, o que, de alguma maneira, permite que os filhos tenham expectativas diferentes dos pais. Obviamente, houve também maior divulgação e acessibilidade à contraceção.

Um dado positivo é que esta quebra não foi acompanhada de um aumento da interrupção voluntária da gravidez nestas faixas etárias…

O início da atividade sexual acontece em idades mais jovens, o número de gravidezes e partos em adolescentes baixa sem que tenha aumentado o número de interrupções neste grupo etário. Também sabemos que passaram a usar mais contraceção. Digamos que, globalmente, a nova geração está mais bem informada e parece tender a ter mais expectativas ou expectativas individuais diferentes que não passam por serem pais em idades em que ainda devem ser filhos.

Apesar desta quebra, continuamos a ter uma média de seis adolescentes mães por dia. O que está a falhar?

Continuamos a ter um problema social grave. Continua a haver gravidez na adolescência em grupos sociais carenciados, maioritariamente onde a gravidez na adolescência não é um novo acontecimento, mas sim um acontecimento de repetição. O que falha: melhorar as condições de vida da população. Há menos gravidez na adolescência, mas continuam a verificar-se situações sociais muito graves e estas, infelizmente, não diminuíram. É nas famílias mais carenciadas que este acontecimento se continua a verificar. O número de adolescentes institucionalizadas com filhos proporcionalmente não diminui, o número de famílias a receber rendimento de inserção social também não, o número de jovens com situações sob orientação da proteção de menores também não diminui proporcionalmente.

O que é que é preciso fazer para evitar a gravidez na adolescência?

Melhorar a vida da população. É preciso investir na melhoria da exclusão social e assumir definitivamente que este é um indicador de pobreza. Se uma jovem de 15 ou 16 anos, sabendo que existe contraceção, sabendo que se engravidar pode interromper a gravidez e decide (consciente ou inconscientemente) engravidar e continuar a gravidez, assumindo este como o único projeto de vida que tem, alguma coisa está a correr mal… No rendimento da família, que não consegue ter padrões de identificação que permitam aos seus filhos “sonhar diferente” para si.

Como é que isso se altera?

É preciso continuar a trabalhar educação sexual e tornar a contraceção acessível para todos. Temos de melhorar o nível de educação e sobretudo o rendimento das famílias. Não vou dizer que são só os com mais dificuldade e menos literacia que são pais na adolescência, mas sobretudo estes e ainda são muitos…

 

 

Mães antes do tempo. Seis adolescentes dão à luz todos os dias em Portugal

Março 9, 2017 às 12:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do http://www.dn.pt/ 6 de março de 2017.

Belany tem 16 anos e um filho de um ano. Vive na casa da Associação de Humanidades, em Lisboa, mas diz que sempre teve o apoio da família   |  Pedro Rocha / Global Imagens

Belany tem 16 anos e um filho de um ano. Vive na casa da Associação de Humanidades, em Lisboa, mas diz que sempre teve o apoio da família
| Pedro Rocha / Global Imagens

O número está a descer, mas, em 2015, ainda houve 2295 nascimentos de mães entre os 11 e os 19 anos. Em 1980, eram quase 18 mil

“Quando descobri que estava grávida de dois meses tinha 16 anos. Falaram-me no aborto, mas isso nunca foi uma hipótese. Tive medo, claro, porque não sabia o que era ser mãe. Mas, por outro lado, também fiquei contente.” Susana, de 18 anos, vive desde novembro de 2015 numa instituição que apoia mães adolescentes, na Maia. Depois do choque inicial, a mãe “acabou por aceitar a gravidez”, mas “não tinha condições” para a criar, nem à neta. “Não havia outra hipótese a não ser uma instituição.” Belany tem hoje 16 anos, um filho de 1 ano e uma história idêntica. Vive na casa de acolhimento para adolescentes da Associação Humanidades, em Lisboa. Chegou ali aos 15 anos, no início da gravidez, mas já vinha de uma outra instituição para jovens, onde viveu durante algum tempo. A família, apesar de não ter meios para a receber, sempre a apoiou, “não é uma família ausente”. Tanto que agora já vai a casa passar alguns fins de semana. O bebé de Belany nasceu prematuramente, não foi fácil. Agora, está ótimo, a crescer normalmente, e ela voltou à escola, para completar a escolaridade obrigatória, que tinha interrompido.

Em Portugal, uma média de seis adolescentes dão à luz todos os dias. Segundo dados de 2015, os últimos disponíveis, nasceram 2295 bebés de mães entre os 11 e os 19 anos. De acordo com o Instituto Nacional de Estatística (INE), este número foi o mais baixo de sempre, desde o final da década dos anos de 1970. No início desta década, a média de adolescentes que davam à luz atingia as dez por dia. Em 2011, por exemplo, nasceram 3663 bebés na faixa etária mais jovem. Para Duarte Vilar, diretor executivo da Associação para o Planeamento da Família, a diminuição da maternidade na adolescência não pode ser analisada sem se ter em conta que “Portugal tem hoje menos adolescentes do que tinha”. Mas essa não é a única explicação: “O acesso à informação é mais fácil e existe uma generalização da educação para a saúde nas escolas”, afirma, destacando que tivemos “anos de crise, e há mais preocupação em não engravidar. Os adolescentes acabam por se informar mais”.

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Elsa Mota, psicóloga da Divisão de Saúde Sexual Reprodutiva, Infantil e Juvenil da Direção-Geral da Saúde, confirma que esta diminuição está relacionada “com estratégias múltiplas da saúde e educação, como a disponibilização de métodos contracetivos no Serviço Nacional de Saúde, contraceção de emergência e com o acesso a consultas de planeamento familiar”. Os números de gravidezes precoces, que coincidem quase sempre com o número de nascimentos, a não ser que haja um caso raro de gravidez gemelar, baixaram. Isto sem que tivesse aumentado o número de interrupções voluntárias da gravidez (IVG). Ainda de acordo com os dados do INE, em 2011 houve 2274 IVG em jovens entre os 15 e os 19 anos (11,1% do total em todas as mulheres). Em 2015, as IVG baixaram para os 1708 (10,38%). Na década de 1980, Portugal era dos países da Europa com uma das taxas mais elevadas de mães adolescentes (ver texto ao lado ). Os números provam: em 1980, houve 17 973 mães adolescentes que deram à luz. Duarte Vilar reconhece que os números “são hoje menos preocupantes”, mas “uma mãe adolescente deve ser sempre um motivo de preocupação”. Ainda há muitas situações em que “a maternidade na adolescência gera pobreza e abandono, até porque muitas jovens já são originárias de famílias carenciadas e vulneráveis”. A psicóloga Elsa Mota diz: “Só em determinados meios é que uma gravidez aos 16 anos é bem enquadrada, a maioria dos pais não aceita. É mais um bebé para eles.”

Escolas e pais alinhados

Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos de Escolas Públicas, diz que “as escolas estão muito sensibilizadas para fazer que a gravidez na adolescência diminua”, tanto pela ação de “psicólogos como nas aulas de educação para a cidadania, onde professores, médicos e enfermeiros fazem um trabalho notável”. Na opinião deste dirigente de escolas, “os pais também têm hoje um diálogo mais aberto e franco sobre esta temática com os filhos”. Mas seria importante, sugere, que “os professores das diferentes disciplinas tivessem formação” para abordar os mesmos assuntos nas aulas. Dados do estudo Health Behaviour in School-Aged Children revelam que, na generalidade, os adolescentes de 15 anos que já tiveram relações sexuais são cada vez menos – passaram de 18,2% para 16,1% entre 2006 e 2014 -, mas os que são sexualmente ativos usam menos o preservativo (25% não usaram, em 2014), quando, em 2010, só 10% diziam não o fazer.

A socióloga Margarida Gaspar de Matos, coordenadora nacional do estudo, diz que “o uso do preservativo baixou, o que é um risco para as infeções sexualmente transmissíveis”. No entanto, sublinha, houve alterações que têm resultado na diminuição da gravidez na adolescência, como o uso de outros meios de contraceção, a pílula, disponibilizada nas consultas de planeamento nos centros de saúde.

Uma gravidez precoce tem riscos biológicos, mas um impacto social mais alargado. “Os jovens “saltam passos” numa trajetória de desenvolvimento pessoal e social, com prejuízo da sua escolarização, do seu convívio entre pares e da vivência da sua própria adolescência”, alerta a socióloga. Carla, 19 anos, entrou na Associação Humanidades, em Lisboa, aos 15 e recorda que quando ficou grávida achou que “nunca mais acabaria os estudos”. Estava sozinha, sem o apoio do pai do bebé ou da família. “Ouvi comentários negativos, olhavam para mim de lado.” Enquanto viveu na instituição conseguiu acabar o 12.º ano. Renata Cortiço, responsável pela residência que acolhe estas mães, não nota diminuição na maternidade entre as jovens, porque os seis quartos da unidade estão sempre cheios. Ali vão parar casos referenciados pelo tribunal ou pelas comissões de Proteção de Crianças e Jovens em Risco. “Muitas vezes, as coisas já não estavam a correr bem na vida destas jovens antes da gravidez. Normalmente, já havia o abandono escolar.” E, em algumas situações, “há quem já esteja a viver em instituições, devido a casos de abuso sexual, violência ou de maus–tratos dentro da família”.

 

 

 

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