A importância das rotinas na promoção de um sono saudável

Outubro 21, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , ,

Texto e imagem do site Up to Kids

By Ser Mais®

Tem insónias? Dificuldade em adormecer? Não consegue dormir horas suficientes? Pois bem, tudo isto são sinais que poderá não ter um sono saudável.

Enquanto adultos sabemos bem as dificuldades que podemos ter devido à privação de uma noite de sono bem dormida. Contudo, quando falamos de crianças, é tudo ainda mais preocupante.

Assim, de forma a garantir que o seu filho tem um sono saudável, nada mais importante que caucionar que ele tem rotinas diárias. Continue a ler que vamos explicar-lhe melhor como tudo funciona.

Sono saudável: O que é e como promover?

Um sono saudável é tão somente o conjunto de diversos pontos, nomeadamente:

  • Duração adequada
  • Boa qualidade
  • Regularidade dos hábitos de sono

Os mesmos, são por norma facilitados devido a uma rotina, que engloba aquilo que chamamos de higiene do sono.

Ou seja, um conjunto de hábitos que têm como principal intuito a promoção de um padrão de sono saudável (resumidamente o muito comum: lavar os dentes, xixi e cama).

E porque é que esta rotina de higiene é tão importante? Porque a mesma vai preparar os jovens para a noite que se avizinha.

E, contrariamente ao que possa pensar, ter bons hábitos de sono na infância é a base para a obtenção de um sono de qualidade na idade adulta.

Claro que a partir de determinada idade torna-se mais complicada a regulação dos sonos e da rotina noturna. Principalmente devido a jogos de computador (como o Fortnite) ou smartphones.

Mas, de forma a protelar ao máximo essa quebra na rotina, existem alguns conselhos que pode ter em mente:

  • Promover um horário de sono regular (com a mesma hora de ir para a cama e acordar diariamente)
  • Estabelecer rotinas de higiene antes de ele se deitar (ou seja, criar uma sequência de ações)
  • Criar um ambiente adequado ao sono
  • O quarto não deve ser utilizado para ver televisão, jogar ou comer
  • Desligar os equipamentos eletrónicos pelo menos uma hora antes de ir para a cama, e nunca os levar para o quarto
  • Promover atividades extracurriculares (preferencialmente aquelas que imputam esforço físico)
  • Fazer refeições ligeiras de noite, mas nunca deixar o seu filho ir para a cama com fome
  • Não ingerir líquidos em excesso antes de ir para a cama
  • Evitar alimentos ou bebidas estimulantes nas horas que antecedem a ida para a cama

1 – Especificidades a considerar em crianças

A par dos conselhos que lhe demos anteriormente, existem algumas especificidades que deve adotar. Ao falarmos de crianças, deve considerar que:

  • É de extrema importância estar com os pais no final do dia e terem uma rotina acompanhada antes de se deitarem
  • A criança deve ser deitada ainda acordada (ou seja, não deve esperar que adormeça no sofá para a colocar na cama)
  • Deve ser estimulada a dormir na sua própria cama (e não na cama dos pais)
  • A sesta deve ser facilitada (principalmente para crianças até aos 6 anos)

Estes são 4 pontos importantes que deve ter em conta quando quer promover um sono saudável em crianças pequenas.

2 – Especificidades de adolescentes

Quando falamos de adolescentes, bem sabemos que nem sempre é simples fazê-los seguir as regras (principalmente em determinadas idades).

No entanto, tentar promover ao máximo um sono saudável nesta idade é também muito importante.

Assim, a par das dicas que lhe demos anteriormente, facilitamos-lhe mais três:

  • Todo o material eletrónico deve ser mantido ao máximo fora do quarto
  • Evitar e controlar ao máximo a ingestão de álcool e tabaco não só por questões associadas ao sono em si, mas essencialmente devido a problemas de saúde que daí possam surgir
  • O horário de sono dos adolescentes pode ser variável e deve sempre acompanhar o seu horário escolar. Contudo, as horas de sono corrido devem ser mantidas (idealmente entre 8 a 10 horas para adolescentes dos 14 aos 17 anos)

Como vê, uma rotina diária é essencial para que crianças e adolescentes tenham um sono saudável. Acredite que ao facilitar isso ao seu filho, irá estar a promover uma rotina de sono muito mais benéfica no futuro.

As Crianças e o uso da Internet, Redes Sociais, Videojogos, Smartphones, Tablets, etc no Reino Unido

Outubro 8, 2019 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , , , , , , , ,

Imagem retirada daqui

Congresso (In)Dependências: Prevenir e intervir nas adições com e sem substância – 11 outubro em Leiria

Setembro 27, 2019 às 6:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , , , , ,

mais informações nos links:

http://congresso2019.psivalor.pt/?fbclid=IwAR2kKwuxLIJbxnzQ9KyuZ_fhWxJJ7YA-_ca9sSG6sJcCy7Pclu5lgZggVy4#hipercontainer

https://www.facebook.com/events/2286651014703563/

Jovens viciados em jogos de computador são cada vez mais novos

Setembro 14, 2019 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , ,

Notícia da RTP Notícias de 19 de agosto de 2019.

Há cada vez mais jovens dependentes de jogos de computador. Para muitos o problema já só se resolve com o internamento.

É um tratamento quase inexistente nos hospitais públicos portugueses. E no sector privado um tratamento destes pode custar três mil euros por mês.

Em Portugal, na área da saúde mental, não há estudos epidemiológicos. Não há números sobre este assunto que seriam fundamentais para organizar uma estratégia de prevenção.

Visualizar a reportagem no link:

https://www.rtp.pt/noticias/pais/jovens-viciados-em-jogos-de-computador-sao-cada-vez-mais-novos_v1167363

Agarrados ao YouTube

Setembro 9, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , , , , , , , ,

Gonçalo Delgado

Notícia do Notícias Magazine de 14 de agosto de 2019.

Estudos, psicólogos e pais constatam tendência crescente. Influenciadores seduzem com o discurso simples, muitas vezes “proibido”, e com a ilusão da fama e de uma vida faustosa. Mas o que tem de divertido e didático também pode ter de pernicioso – e o caso da “Team Strada” é só o mais recente exemplo disso. Um manual de instruções para lidar com o projeto de estrela que tem lá em casa.

Por Ana Tulha

Beijos na boca a menores, toques ostensivos no peito e nas pernas de jovens raparigas e até uma entrada repentina e prolongada pela casa de banho onde uma adolescente clama por privacidade. Tudo registado em vídeo e amplamente exposto na Internet. Estas e outras imagens arrastaram, no final da semana passada, o canal do YouTube “Team Strada” (gerido por Hugo Strada, youtuber de 36 anos) para o olho do furacão.

Depois de várias denúncias no Twitter e de uma queixa do grupo VOST Portugal – Voluntários Digitais para Situações de Emergência – à Comissão Nacional de Proteção de Crianças e Jovens, foi o próprio YouTube a fechar o canal “Team Strada”. O caso está agora nas mãos do Ministério Público, a quem competirá decidir da legalidade das práticas seguidas pelo projeto. Mas a polémica teve já o condão de despertar a atenção e a preocupação de muitos pais em relação a esta rede social.

Afinal, o que andam os nossos filhos a ver e que impacto é que isso pode ter na postura e no desenvolvimento deles? Há riscos? O que fazer quando não largam os tablets (ou os computadores ou os telemóveis) para não perderem pitada dos conteúdos divulgados pelos youtubers que gostavam de ser? Estas e outras questões andam, por estes dias, na mente de muitos pais, zelosos pelo bem-estar e são crescimento dos filhos.

E essa necessidade de saber mais só pode ser uma boa notícia. É Tito de Morais, responsável pela associação “Miúdos Seguros Na .Net”, quem o garante: “Isto serve-nos de alerta, porque andávamos todos distraídos. Para mim, o interessante [neste caso] é o alerta que fica sobre a forma como este tipo de youtubers e personalidades podem fazer grooming [aliciamento] sexual através da Internet. A ideia de que uma figura externa poder ser aquela que vai realizar os nossos sonhos é perigosa, pelo ascendente que exerce. Os miúdos têm de ter noção de que aquilo que mais desejam pode ser a maior vulnerabilidade.”

O totó, o gay, a jovem abonada

Com conta aberta desde abril de 2018, o projeto “Team Strada” foi criado por Hugo Strada, youtuber de 36 anos (também autointitulado gestor de artistas e produtor de eventos), com o objetivo de juntar jovens youtubers e criar conteúdo colaborativo. O projeto incluía uma casa partilhada, cenário de muitos dos vídeos divulgados no canal que, antes de ser encerrado, andava já perto dos 200 mil seguidores. Entre o conteúdo dos vídeos, havia partidas, desafios e atividades radicais.

E à boleia da fama cibernética, a “Team Strada” tinha já dado o salto para outros palcos, com a participação em vários eventos públicos e até parcerias com artistas e marcas. João Leal, professor de 38 anos, natural de Montemor-o-Velho, pai de duas crianças, de 11 e 6 anos, esteve recentemente num desses eventos, que decorreu no princípio de julho, na Figueira da Foz.

“Arrastado” pela filha mais velha, seguidora do grupo, João assegura ter saído de lá profundamente dececionado – e preocupado – com o que tinha acabado de ver. “Foi um espetáculo deprimente. Andavam para lá aos saltos, a tentar cantar em play-back algumas covers, e notava-se que muitos deles não estavam no seu estado normal. Pelos movimentos que faziam, pelas caras com que estavam, dava todo o ar de estarem alcoolizados ou sob o efeito de estupefacientes”, relata à Notícias Magazine, dando conta de um grupo pensado na fidelização de um público o mais abrangente possível.

“Era evidente que havia ali vários miúdos, de todos os estratos e grupos sociais. Desde o betinho ao miúdo que é mais totó, passando pelo gay, pela menina afro, pela miúda com um peito enorme, exposto de forma quase gratuita. Percebia-se que aquela organização foi pensada para que houvesse o máximo de população possível a segui-los.” João lamenta ainda que, além de apelarem aos fãs para lhes levarem uma variedade de produtos (“Coca-Colas, bolachas e outras coisas”), os elementos da “Team Strada” tenham decidido à última que não iam ficar para autógrafos, desiludindo os fãs presentes. “Tudo aquilo levou-me logo a alertar a minha filha para os comportamentos daquele grupo”, recorda João.

Pouco tempo depois, estalava a polémica: primeiro foi o humorista Pedro Teixeira da Mota a partilhar no Twitter o vídeo de um excerto da participação do grupo no programa Curto Circuito de 22 de julho, em que é possível ver Hugo Strada a beijar na boca um dos elementos do grupo (menor de idade), depois foi o youtuber João Sousa a publicar, também no Twitter, uma compilação de imagens duvidosas dos vídeos da “Team Strada” – entre as quais, as tais cenas envolvendo toques ostensivos e entradas inapropriadas em casas de banho ocupadas.

Pelo meio, até ex-elementos do grupo recorreram às redes para lançar queixas e acusações. Daí até o caso ganhar dimensão generalizada, com intervenções do Ministério Público e do próprio YouTube, foi um pequeno passo. A tudo isto, Hugo Strada respondeu com uma curta mensagem divulgada no Instagram, em que garante estar a ser alvo de comentários difamatórios e de manipulação de imagens, prometendo “encaminhar o assunto para que sejam tomadas medidas legais para repor a verdade”. A NM tentou, através do contacto telefónico que está disponível na página da “Team Strada” no Facebook, obter mais algum comentário ao caso, mas não recebeu qualquer resposta.

O sonho de ser famoso

Entretanto, as reações, dos psicólogos aos académicos, multiplicaram-se. “Acho que [o que se vê nos vídeos] é perigoso e faz com que as pessoas fiquem desconfiadas de todos os conteúdos”, admite Bárbara Romão, especialista em pedopsiquiatria desde 2008 e coordenadora de um estudo sobre o uso das redes sociais pela comunidade juvenil em São Miguel, nos Açores.

Entre as conclusões do estudo, baseado numa amostra de 547 estudantes, destaque para o facto de 51% dos inquiridos ter começado a utilizar a Internet a partir dos três anos de idade e de o YouTube ser já a rede social mais utilizada pelos jovens ouvidos neste inquérito – no seguimento de outros estudos internacionais recentes, que também têm apontado essa tendência. Habituada a ter no consultório muitas crianças e jovens que não passam sem esta rede social, Bárbara Romão, também ela mãe de um jovem de 12 anos, ajuda a explicar o fascínio exercido pelos youtubers junto dos seguidores, sobretudo entre os mais novos.

“O facto de estes youtubers serem, regra geral, jovens adultos que por um lado têm uma vida aparentemente independente, sem adultos a controlar, e por outro já aparentam ter uma vida que muitos desejam, até exibindo casas com boas condições, é algo que atrai muito os jovens”, justifica a pedopsiquiatra, que arrisca traçar um perfil-tipo dos youtubers mais conhecidos: “São carismáticos, bons comunicadores, têm o poder de conseguir que as pessoas lhes prestem atenção e utilizam muito o humor.” Como? Através de vídeos que vão desde os relatos do quotidiano às paródias, passando por críticas e dicas das mais diversas áreas.

Tito de Morais acrescenta outras explicações para o encantamento. “O facto de comungarem do mesmo tipo de interesses também é relevante. Até porque muitas vezes estes youtubers também são gamers, que jogam os mesmos jogos que eles. E depois também é o efeito manada. O desejo de pertença a um grupo que partilha do mesmo tipo de interesses faz com que os miúdos não se sintam excluídos.” E ainda há o chamariz de parte destes influenciadores exibirem vidas faustosas, que despertam em muitas crianças e jovens o sonho de se tornarem, eles próprios, youtubers.

Tito de Morais, habituado a receber contactos das mais variadas proveniências, através da página “Miúdos Seguros Na .Net”, conta que, recentemente, teve duas professoras do primeiro ciclo a partilharem a estupefação por perguntarem aos alunos o que queriam ser e três em cada quatro responderem que querem ser youtubers. E um estudo recente da Harris Poll, a mais antiga empresa de estudos de mercado dos Estados Unidos, aponta no mesmo sentido. De um inquérito preenchido por pais e crianças entre os oito e os 12 anos, dos EUA, China e Reino Unido, resultou que 29% destes jovens sonhavam, antes de mais nada, ser youtubers.

Os riscos começam aí, na ilusão de que esse “estatuto” garante uma vida desafogada – e de que é fácil chegar lá. “Há dez anos, para se ser famoso, regra geral, tinha de se passar pela televisão. Hoje em dia não. Está-se a criar o mito da fama. Há a sensação de que ao ser youtuber se pode conseguir ter uma boa vida, que dificilmente se consegue com um part-time, por exemplo. E isto do querer ser famoso pode tornar-se uma grande vulnerabilidade, possivelmente aproveitada por pessoas com más intenções”, alerta Ana Jorge, professora de Comunicação na Universidade Católica de Lisboa e autora de uma tese de doutoramento relacionada com a cultura das celebridades e os adolescentes.

A investigadora ajuda a compreender os primórdios do fenómeno. “Inicialmente, o YouTube surgiu muito como um repositório de vídeos, que já tinham circulado noutros meios. Aos poucos, foi-se tornando mais um lugar propício para alojar este lado dos produtores de conteúdo original, até pela possibilidade de monetização.” É neste contexto que, no início da década, surgem em Portugal os primeiros vloggers – bloggers que produzem conteúdos vídeo. De vloggers passaram a youtubers (e a influenciadores), associaram-se a populares campanhas de telemóveis e até se juntaram em mansões luxuosas. Tudo sementes de um fenómeno de popularidade hoje incontestável, capaz de fazer sonhar os mais jovens com o estrelato.

Sónia Sousa, mãe do youtuber João Sousa, de 18 anos (e de uma menina de nove anos que já é vidrada no YouTube), reconhece que as coisas nem sempre são assim tão simples. “Confesso que no início achei mais piada do que o que acho agora. Quando eles começam, há menos responsabilidade. Não há agentes, não há nada. É só uma distração. Depois, quando são agenciados, têm de cumprir contratos, torna-se quase uma profissão”, admite.

Sónia conta que com 10, 11 anos, o filho (que tem um canal no YouTube desde os oito) andava convencido que ia ganhar muito dinheiro à conta desta rede social, mas que agora, também com a ajuda dos pais, que sempre lhe tentaram incutir isso, “já tem outra consciência”, tanto que está a pensar avançar para uma licenciatura na área da Comunicação Social. Ainda em relação ao YouTube, o melhor para Sónia Sousa, 45 anos, é mesmo “ver o carinho dos miúdos – e mesmo dos adultos – pelo filho”.

Tomar banho para quê?

Para os mais novos, os influenciadores depressa se tornam “role-models”. Nalguns casos, a influência exercida pelos youtubers junto dos seguidores é de tal ordem que estes chegam a imitar posturas, comportamentos e expressões dos ídolos. Por vezes, até a própria língua. Quem acompanha de perto o fenómeno garante que há cada vez mais crianças e adolescentes a falarem frequentemente com sotaque brasileiro, por influência dos youtubers daquele país (bem mais populares e numerosos do que os portugueses).

“Já tive uma menina numa consulta que simplesmente se recusava a falar português sem sotaque brasileiro”, partilha a pedopsiquiatra Bárbara Romão. A replicação de comportamentos, que dependerá sempre da idade e da personalidade do jovem em causa, pode ser tanto mais preocupante quanto mais duvidosas forem a postura e a mensagem passadas por estes influenciadores. Luísa Agante, investigadora na área do marketing infantil e autora da página Agante & Kids, aponta um exemplo concreto.

“A quantidade de tempo que os miúdos passam no YouTube e a quantidade de coisas a que têm acesso é enorme e condiciona-os completamente. Por exemplo, há um youtuber brasileiro, o Lucas Neto, que costuma dizer: ‘Eu quero ser rico e ter uma casa de oiro.’ Os miúdos replicam isso. Há uns tempos, fez um vídeo em que dizia que só precisava de tomar banho uma vez por semana.

Entre os youtubers portugueses também já houve polémicas deste género. Wuant, por exemplo, foi alvo de duras críticas quando, num vídeo intitulado “soluções para os problemas”, aconselhou os jovens a mandarem as mães “para o cara…” quando os acordassem para ir para a escola. De resto, nos vídeos partilhados por este youtuber, é comum ouvirem-se palavrões aqui e ali. O registo não agrada aos pais, mas, por vezes, funciona como chamariz para os mais novos.

“Eu costumo ir às escolas fazer ações de sensibilização e já tive miúdos que me estão a falar dos youtubers que veem e depois acrescentam: ‘Mas não vá ver, que ele diz muitas asneiras.’ Ou: ‘Mas não vai contar nada disto ao meu pai, pois não?’ É uma espécie de segredo que fica entre a criança e o youtuber”, frisa Tito de Morais.

Os riscos não se esgotam na replicação de postura e palavreado menos corretos. “O maior perigo é o isolamento que se cria. O YouTube pode tornar-se algo aditivo, viciante. E há outras coisas associadas a isso. Com a exposição a um ecrã que, por vezes, em termos de conhecimento é muito pobre, os jovens acabam por perder espírito crítico e a possibilidade de ver coisas construtivas. Pode haver também um bloqueio da criatividade e um baixo tempo de permanência em tarefa. Aborrecem-se facilmente. Além de que é um elemento perturbador das dinâmicas familiares. Às vezes, só o facto de terem de ir para a mesa é uma seca porque têm de desligar as máquinas. Então, vão aborrecidos e mortinhos para voltar para o computador”, destaca a pedopsiquiatra Bárbara Romão, que refere ainda uma “crise de autoridade dos pais, que têm dificuldade em traçar limites e acham que tudo tem de ser decidido pelos filhos”.

O que fazer. E as boas notícias

Um sinal dos tempos? “O principal risco é olhar para isto como algo inócuo. Na verdade, tem tudo a ver com o tipo de vida que temos. Numa altura em que vivemos com muita pressa e com muito stress, quando os pais chegam a casa é confortável ter os miúdos distraídos com o YouTube. E, depois, os vídeos têm que ser todos tão estimulantes que acho que os nossos filhos estão a perder a capacidade de ficarem aborrecidos”, acrescenta Luís Pereira, que estuda a área da literacia digital.

O investigador, que pertence ao departamento de desenvolvimento académico da Coventry University, no Reino Unido, deixa por isso um alerta: “É importante que os pais percebam quanto tempo os filhos passam a ver estes programas. E que deem uma vista de olhos no histórico, para perceber, por exemplo, se andam a ver algum vídeo que não deviam. Há que impor limites, em termos de tempos e o dos vídeos que são vistos. E há que promover uma certa diversidade de conteúdos.”

Acompanhar é, por isso, a regra de ouro. Saber de que vídeos os filhos gostam, que canais seguem, quem são os ídolos. Sob pena de se criar uma barreira intransponível entre pais e filhos. No caso dos mais novos, cingir o acesso ao “YouTube Kids”, com conteúdos muito mais restritos, ou mesmo recorrer a software de controlo parental (ver caixa) são também soluções a ter em conta.

A investigadora Luísa Agante chama ainda a atenção para a necessidade de haver outros intervenientes no processo: “É preciso muita intermediação parental, mas professores e educadores também deviam intervir mais neste processo. Para isso, é preciso instruí-los para falarem sobre estes temas.”

Até porque também há que ter em conta o elevado potencial didático e construtivo do YouTube. “É uma fonte de conhecimento como nunca existiu na vida. Pode ser uma atividade altamente enriquecedora”, enfatiza o investigador Luís Pereira. Tito de Morais acrescenta que “uma criança que comece a produzir os seus vídeos vai ganhar conhecimentos de edição e desenvolver a criatividade, ao pensar conteúdos”.

“É preciso transformar isso num projeto familiar, para que se possa tornar educativo e para que permita desenvolver interesses pela música ou pelo desporto, por exemplo.” SirKazzio, youtuber português com mais de cinco milhões de subscritores, garante que tenta “ao máximo passar uma imagem alegre, divertida, mas respeitosa”, tentando também fazer ver aos mais jovens que, além dos vídeos, “há mais coisas que os podem entreter, como os livros ou a música”.

“Embora nem todos o façam, acho que a maioria dos youtubers tenta fazer entender às crianças que primeiro devem estudar, que não devem ser agressivos, que não devem tentar imitar alguns vídeos, entre muitas outras coisas.” Sobre o caso “Team Strada”, não teceu comentários.

A esse propósito, Ana Jorge, investigadora na Universidade Católica de Lisboa, deixa uma questão, que vai além dos utilizadores: “Como é que estes conteúdos circulam tanto tempo sem que ninguém se aperceba? As pessoas que veem este tipo de coisas devem denunciar. E o YouTube deve verificar, até porque é quem mais beneficia economicamente”.

Quando os pais contratam professores particulares de Fortnite: uns sonham com milhões, outros querem fugir do embaraço na escola

Setembro 2, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , ,

Notícia e imagem do Expresso de 9 de agosto de 2019.

O preço das aulas particulares podem oscilar entre 10 e 25 euros por hora. “Existe uma grande pressão para não só jogar como para ser realmente bom. Não fazem ideia do duro que foi para eles na escola”

A vida de Jordan desenrola-se no quarto da sua casa em Sudbury, Massachusetts. É ali que passa oito, 10 (e às vezes 14) horas do dia. Recebe a sabedoria da escola longe da escola: as lições chegam-lhe via Internet, depois de o pai retirá-lo do liceu. Querem ambos que ele seja um dos grandes no gaming. Na verdade, conta esta reportagem do “Boston Globe”, já é. Começou a jogar numa consola com três anos. Aos sete, era craque no “Halo”. Aos 12, ganhou o primeiro torneio de gaming, metendo no bolso quase 1800 euros (em acessórios para jogar). O pai de Jordan, antes de as coisas começarem a traduzir-se em dinheiro, investiu 27 mil euros em tecnologia de ponta para Jordan brilhar. As férias e jogatanas de ténis ficaram suspensas. O foco é treinar e ser um dos melhores no jogo Fortnite. Perante as vozes que censuram este jeito de viver, o pai diz que se fosse outra área, como piano ou representação, as reações seriam diferentes.

A cenourinha, que é como quem diz o objetivo, passa por viver numa casa com uma equipa, onde comem, dormem e treinam juntos. Não seria “Eight days a week”, como cantavam os Beatles, mas quase. “Eu só quero fazer dinheiro suficiente para não ter de trabalhar durante a minha vida”, disse àquele jornal norte-americano. Até julho, o rapaz de 16 anos somou, pelo menos, 99 mil euros. Jordan Herzog, conhecido por “Crimz”, qualificou-se para o Campeonato do Mundo de Fortnite, que, somente pela participação, lhe valeu quase 45 mil euros.

Esta história demonstra uma franja do impacto que tem tido pelo mundo fora. De acordo com o site “Portugal Gamers”, todos os meses este jogo angaria qualquer coisa como 268 milhões de euros nas compras e vendas de itens e skins. O fenómeno atrai também ações ilicitas, como o Expresso contou neste artigo de dezembro: na altura, a BBC denunciava que existem hackers que roubam contas privadas e que as vendem, variando o valor consoante a qualidade ou raridade da personagem ou acessórios.

E, agora, conhece-se ainda outra variante: pais que contratam professores de Fortnite para os filhos, uma realidade que está em crescendo nos Estados Unidos, até porque há universidades daquele país que têm desenvolvido as suas equipas de eSports, como acontece com os atletas de basquetebol ou outros desportos, culminando assim em bolsas e ajudas no ensino superior.

Esta história, publicada esta sexta-feira no “El Mundo”, revela que os professores/treinadores/explicadores deste jogo são tão fáceis de encontrar como os que ensinam disciplinas tradicionais. Há sites especializados na temática e os professores são avaliados pelos alunos – a informação é pública. Aquele periódico espanhol dá conta de uma página na Internet em que há 100 pessoas disponíveis para o trabalho. O custo oscila entre 10 e 25 euros por hora.

O “Wall Street Journal”, a base da história publicada pelo “El Mundo”, tentou descobrir por que razão os pais escolhem pagar a alguém para afinar a capacidade para jogar do filho… e o entretenimento tem pouco a ver com esta conversa. As conclusões, à boleia das explicações dos pais, falam em pressão social e aspirações económicas. Não é diferente do que se vê em equipas de desporto na infância e adolescência, por exemplo. A forma como se é visto por outros (até longe do gaming, na escola também), o estatuto entre pares. Mais: teme-se que a falta de perícia no Fortnite conduza a casos de bullying ou brincadeiras de mau gosto.

“Existe uma grande pressão para não só jogar como para ser realmente bom. Não fazem ideia do duro que foi para eles na escola”, desabafou uma mãe àquele jornal norte-americano.

O Fortine é um jogo de guerra online em que o objetivo da personagem controlada pelo jogador é ser o último a cair. No fundo, é correr pela sobrevivência, escapar ao destino fatal, eliminar zombies, encontrar armas e construir fortes para proteger preciosidades. É assim que ganha forma uma das sensações do mundo dos videojogos na atualidade. Espalhados pelo mundo, estão mais de 200 milhões de jogadores.

Seis sintomas que ajudam a detetar o vício dos videojogos

Junho 17, 2019 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , , , , , , , , , ,

Notícia da Exame Informática de 28 de maio de 2019.

Francisco Garcia

Um problema que só recentemente foi considerado doença e que tem vindo a tornar-se cada vez mais comum na nossa sociedade, que é cada vez mais dependente das novas tecnologias.

Este sábado, a Organização Mundial de Saúde (OMS) passou a considerar o comportamento obsessivo para com os videojogos uma doença mental. Conheça aqui alguns dos sintomas que, segundo a American Addiction Centers, são comuns em pessoas que sofrem deste distúrbio:

Estilo de vida sedentário – Passar horas em frente a um ecrã pode ter efeitos perigosos no corpo e mente de um jovem. Este cenário pode agravar-se quando a pessoa em causa não pratica desporto, podendo aumentar desmedidamente o peso e acentuar uma má postura, ou em casos mais graves, desenvolver doenças como Diabetes tipo 2.

Ausência de interação social – Embora nalguns videojogos os jogadores interajam uns com os outros, os jogos não devem substituir outras formas de socialização (não virtuais) na vida das crianças. A aprendizagem de ferramentas de comunicação em contextos reais é fundamental no desenvolvimento dos mais jovens e não deve ser substituída por experiências de gaming.

Problemas de concentração – A ação e movimentos rápidos nalguns videojogos é considerada, por alguns especialistas na área, como uma das causas para falta de concentração nalguns jogadores. Associam ainda o tempo investido em videojogos à falta de interesse na leitura, que requer uma atenção prolongada.

Evitar tarefas associadas ao desenvolvimento – Este sintoma pode surgir na adolescência, quando os jovens utilizam os videojogos como um escape para os problemas da sua vida, evitando situações que os obriguem a crescer emocionalmente.

Comportamentos violentos – Algumas crianças e adolescentes que passam muito tempo a jogar videojogos de combate ou violentos, podem estar mais propensos a apresentar alguns sinais de agressividade do que outros que não jogam. A American Addiction Centers aconselha os pais a terem um mecanismo de vigilância semelhante ao que usam para impedir as crianças de ver filmes violentos.

Convulsões e lesões de stress – De acordo com um artigo publicado no British Medical Journal, os videojogos podem aumentar os riscos em jogadores com epilepsia, devido à intensidade das luzes, cores e gráficos. Um comportamento compulsivo com videojogos pode ainda levar a pequenas lesões relacionadas com o stress, nomeadamente nas mãos e pulsos.

 

 

 

Investigadores criam teste psicológico para avaliar transtorno do videojogo

Junho 11, 2019 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , , ,

Unsplash

Notícia e imagem do Público de 28 de maio de 2019.

Teste foi testado numa amostra de 550 estudantes do Reino Unido e da China e teve resultados “muito satisfatórios”.

Investigadores desenvolveram o primeiro teste psicológico mundial para avaliar o transtorno do videojogo e a severidade dos seus sintomas, através de critérios clínicos estabelecidos pela Organização Mundial de Saúde (OMS).

O teste é um instrumento psicométrico que foi testado numa amostra de 550 estudantes do Reino Unido e da China e que apresentou resultados “muito satisfatórios”, disse à agência Lusa o investigador e psicólogo português Halley Pontes, da Universidade da Tasmânia (Austrália).

“O que se verificou é que através de um conjunto simples de quatro perguntas podemos proceder a um diagnóstico e avaliar a severidade dos sintomas” dos jogadores, adiantou Halley Pontes, que liderou a equipa de investigadores que criou esta ferramenta e desenvolveu o estudo com a amostra de estudantes, a publicar no International Journal of Mental Health and Addictions.

Halley Pontes explicou que o “trabalho resulta do consenso a que Organização Mundial da Saúde chegou no passado fim-de-semana sobre o estatuto oficial do transtorno do videojogo” como uma perturbação psiquiátrica relacionada com “o uso excessivo e patológico dos videojogos”. De acordo com a definição da OMS, este padrão de comportamento deve ter sido evidente por um período mínimo de 12 meses e ter resultado num comprometimento significativo na vida familiar, do trabalho e da educação.

Questionários online a decorrer

Para a realização do estudo, foram criadas duas plataformas online, uma na Alemanha e outra no Reino Unido que permitem às pessoas que joguem activamente no computador, telemóvel ou consola responder a algumas questões e de imediato receber uma resposta sobre “o modo como se envolvem com os videojogos”, se é um envolvimento patológico ou normal.

O questionário online é baseado em critérios da OMS e regista as actividades de jogo dos últimos 12 meses numa escala de um (nunca joga) a cinco (muito frequentemente). As conclusões principais do estudo indicam que “o novo enquadramento clínico da OMS que define o transtorno dos videojogos é robusto e pode ser verificado em termos empíricos com os dados recolhidos”, sublinhou Halley Pontes.

Os dados revelam que, em média, os alunos inquiridos jogam 12 horas por semana, gastando quase metade deste tempo (46%) aos fins-de-semana sozinhos na frente de um computador ou com outros dispositivos móveis. Houve ainda 36 participantes (6,4%) que relataram grandes problemas no dia-a-dia devido ao seu comportamento. Halley Pontes explicou que o transtorno de videojogos é “uma incapacidade” de os jogadores controlarem o seu comportamento obsessivo, que é reflectido também no “aumento exponencial da prioridade que a pessoa dá ao jogo ao ponto de abafar outros interesses e actividades diárias” e continuar a jogar mesmo sabendo que “existem áreas da sua vida que estão a ser afectadas negativamente”.

O próximo passo dos investigadores das universidades da Tasmânia, de Birkbeck (Londres), de Pequim e de Ulm (Alemanha) é a realização do “maior estudo” sobre o transtorno do jogo, tendo para isso criado uma parceria com a empresa de eSports ESL, com laços estreitos com a comunidade de jogos, “um público potencialmente em risco”.

O novo estudo visa compreender de que forma o jogo está a tornar-se um problema de saúde e quais factores que contribuem para isso, incluindo variáveis sociodemográficas, de personalidade e motivações. Para Halley Pontes, a decisão da OMS vai “ajudar estas pessoas que sofrem a encontrarem validação para o seu sofrimento psicológico e, potencialmente, servirá também para desenvolver políticas que as ajudem a obter tratamento no sistema nacional de saúde”.

 

 

Portugal a Brincar : Relatório do brincar de crianças portuguesas até aos 10 anos – 2018

Maio 30, 2019 às 8:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , , , , , , , , , , , ,

Descarregar o relatório no link:

https://estrelaseouricos.sapo.pt/backoffice/files/file_20677_1_1556883880.pdf

Reportagem sobre a 1ª Conferência Estrelas & Ouriços : As crianças portuguesas brincam pouco

Maio 30, 2019 às 8:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , , , , , , , , , , , ,

Notícia e imagem do site Estrelas & Ouriços

O encontro estava marcado para as 9.30h, em Cascais, para debater um tema essencial e transversal ao desenvolvimento – como brincam hoje as crianças portuguesas e em que adultos se tornarão amanhã. O painel de oradores foi de luxo, pelo domínio do tema, pela entrega e pelo sentimento comum da urgência de brincar por uma sociedade mais bem sucedida. As conclusões são preocupantes: as crianças brincam em média (apenas) 2 a 3 horas por dia, a maior parte do tempo na escola, pouco ao ar livre e ainda menos com os pais.

“Esta primeira conferência da Estrelas & Ouriços é uma homenagem a todas as crianças”. Assim abriu o evento – que reuniu pais, professores, profissionais de serviços educativos, psicólogos e especialistas das diferentes áreas ligadas ao universo da família e da criança – na Casa das Histórias Paula Rego, em Cascais, pelo diretor-geral executivo da revista, Francisco Camacho. Estava dado o pontapé de saída para um “jogo” cheio de lances fortes e de propostas com potencial vencedor.

Foi o caso de Frederico Manuel Pinho de Almeida – vereador da Câmara Municipal de Cascais com os pelouros da Habitação e Desenvolvimento Social, Promoção de Saúde e Educação – que, depois de se congratular com o facto de a conferência ter aberto o Mês do Brincar em Cascais, partilhou as práticas que a Câmara Municipal de Cascais tem vindo a implementar neste âmbito, nomeadamente o Programa “Crescer a Tempo Inteiro” bem como o alargamento da rede de Ludobibliotecas e Ludotecas (16 e 5 equipamentos respetivamente).

Da prática ao estudo, Rui Mendes, coordenador do “Portugal a Brincar: Relatório do brincar de crianças portuguesas até aos 10 anos – 2018” apresentou este estudo que serviu de ponto de partida para a conferência. O professor da Escola Superior de Educação de Coimbra partilhou o palco com Ana Lourenço, psicóloga do setor de atividade lúdica do Instituto de Apoio à Criança, Madalena Nunes Diogo, diretora geral da Estrelas & Ouriços e Dulce Garcia – a jornalista, autora, editora e mãe brindou o público com uma moderação de debates que oscilou entre provocações saudáveis e interpelações pertinentes para passar a palavra aos oradores.

Brincar: quando, onde, com quem?

Quanto tempo brincam as crianças portuguesas? Onde brincam? Com quem brincam? Como brincam as crianças na Escola? Qual o papel dos brinquedos? Brincar e as tecnologias. Brincadeiras e jogos tradicionais. Estas são as bases do referido estudo – realizado numa parceria entre a Escola Superior de Educação de Coimbra, o Instituto de Apoio à Criança e a Estrelas & Ouriços – que procura não só dar a conhecer quais as tendências relacionadas com o brincar em Portugal, mas também sensibilizar a população para a importância do brincar e da promoção de hábitos de brincar.

Já em 2011 o Parlamento Europeu havia proposto algumas estratégias para que o brincar seja mais valorizado e para que, tanto as crianças como os adultos, possam usufruir ao máximo dos seus benefícios. Assim, esta organização sugere que se promova não só a consciência sobre a importância do brincar, mas que haja também uma mudança de atitudes face a esta atividade. Propõe-se a melhoria nos tempos e espaços que possam promover a brincadeira e a criação de condições para que as crianças arrisquem de forma segura e desenvolvam a sua resiliência.

Com base em inquéritos a cerca de 1.500 pessoas, com 39 anos de média de idades e maioritariamente do sexo feminino (92,6%), o estudo retirou algumas conclusões preocupantes, duas das quais: as crianças brincam pouco – a média é de 2 a 3 horas (25%) por dia – nomeadamente ao ar livre, em contacto com a Natureza, concentrando-se o maior tempo de brincadeira na escola.

Foi neste ponto que Ana Lourenço, do Instituto de Apoio à Criança reforçou a necessidade que sente de voltar ao brincar da infância dos que hoje são pais – o sucesso para uma criança é estar com o outro, brincando. E assim se trabalha a empatia, tão cara à nossa Sociedade.

“A brincadeira não é só necessária como vital”, lembrou Madalena Nunes Diogo, referindo a forma como os parceiros têm acompanhando esta necessidade, indo ao encontro das famílias, com atividades tão diversas que vão da robótica à pintura, e que respeitam disponibilidades físicas, mentais e económicas destas mesmas famílias, a quem a Estrelas & Ouriços há 10 anos serve e facilita a vida, divulgando diferentes tipologias de atividades.

Aquando da reestruturação da revista, em outubro de 2019, a Estrelas & Ouriços teve inclusive a preocupação de dar mais visibilidade à sua secção “Parques e Ar Livre”, depois de auscultar os pareceres, os gostos e as necessidades do público para quem trabalha.

Dos grandes aos pequenos oradores, Beatriz, de 9 anos, João, de 7, e Madalena, de 6, foram unânimes a responder à questão da preferência de brincar ao ar livre. Brincar às escondidas, jogar à bola e brincar com bonecas foram algumas das brincadeiras apontadas pelas crianças presentes na sala.

Famílias, escolas e cidades portuguesas pouco ativas

Carlos Neto foi das primeiras vozes a chamar a atenção dos portugueses para a extrema importância do brincar e para os seus efeitos benéficos no desenvolvimento das crianças. Professor Catedrático na Faculdade de Motricidade Humana (FMH) da Universidade de Lisboa, continua, algumas décadas depois desses primeiros alertas, a ser a figura de referência em Portugal quando se fala de brincar.

Foi da sua boca que ouvimos que tanto as famílias como as escolas e as cidades portuguesas não são ativas, o que contribui diretamente para que as crianças sejam pouco ativas e mais destinadas ao insucesso.

A maioria dos pais, segundo o especialista, não valoriza a parte física do brincar, referindo mesmo que “para os pais, o que entra na escola é só a cabeça e não o corpo todo”. São estes mesmos pais que trabalham demasiadas horas e que não têm tempo para os filhos, embora o desejem – 37 minutos é o tempo diário que lhes sobra; são estes pais que têm medo que as crianças se confrontem com o risco; pais cansados, que dificilmente conseguirão educar crianças saudáveis e felizes, “situação deveras preocupante”.

O que fazer? Apelar ao papel do Estado central e do Estado local para que possa dar maior liberdade aos pais, fomentar uma relação de maior amor entre pais e filhos, fomentar a importância de brincar na rua (nos países nórdicos, independentemente do clima, as crianças brincam 7 a 8 horas lá fora) e evitar “encharcar” as crianças de brinquedos, nomeadamente para colmatar a falta de tempo com presentes.

Em suma, para Carlos Neto, brincar mais significa desenvolver no futuro: maior sentido crítico e uma maior capacidade de resolver problemas, de trabalhar em equipa e de comunicar; melhores competências espirituais e melhores dinâmicas de agir.

É preciso, na opinião do professor e investigador: viver mais devagar, ter tempo para não fazer nada, trabalhar a introspeção, a consciência de si próprio e da Natureza, a dinâmica de superação de forma a que a saúde mental dos adultos possa passar para as crianças a quem deve ser dado todo o tempo e espaço para brincar, “dinâmica biológica” que estamos a encaminhar para uma crise.

Quando a tecnologia se senta à mesa

A abrir a segunda mesa redonda, Rosário Carmona e Costa não perdeu tempo a detetar sintomas e doenças associadas. “Quando os miúdos começam a falhar nas competências humanas, percebemos que podem estar demasiado ligados”, defendeu a psicóloga clínica.

Com alguma tensão (saudável) com a oradora anterior, Jorge Vieira, da Nintendo, afiançou que “antes de falar das novas tecnologias, é preciso falar do nosso papel enquanto pais”. O também pai relembrou a importância que pode ter em matéria de diversão, a família jogar em conjunto.

Onde também se pretende que a família se junte é na cozinha, como sugeriu Ana Leonor Perdigão, responsável pela Unidade de Nutrition, Health and Wellness da Nestlé Portugal. Associar emoções positivas aos alimentos é fundamental, mas também perceber de onde vêm e confecioná-lo. Esta é uma forma de as crianças se familiarizarem com os alimentos ainda antes de lhes chegarem ao prato.

“As crianças que são envolvidas na confeção dos alimentos são mais disponíveis para comer e experimentar coisas diferentes”, defende a nutricionista. Levá-las ao supermercado – onde acontecem “explosões de sabores e aromas” – pode ser também uma hipótese de criar um momento lúdico, ao mesmo tempo que se vai ao encontro da logística lá de casa.

Dicas muito interessantes a reter sem o mínimo objetivo de causar angústia nos pais. Foi Domingos Amaral quem trouxe a palavra para cima da mesa para referir que, hoje em dia, e é algo que observa no exercício do seu cargo de presidente da direção da Escola Avé Maria, os pais vivem cada vez mais angustiados com o que de mal possa acontecer aos seus filhos. Mas o que fazer? «Deixá-los brincar. A vida é risco, não há outra maneira de o fazer!».

Depois de um momento de intervenções do público, Lina Varela – da Direção-Geral da Educação fechou a 1ª Conferência Estrelas & Ouriços afirmando que “deve haver complementaridade entre brincar e aprender”.

E assim soou a despedida da Estrelas & Ouriços: “Brinquem sempre!”.

Obs.: A 1ª Conferência Estrelas & Ouriços contou com o apoio de vários parceiros – Maria do Mar, Nesquik, MEO, Associação Mutualista Montepio, RTP, Antena 1 e Casa das Histórias Paula Rego.

 

Página seguinte »


Entries e comentários feeds.