UNICEF declara janeiro “mês sangrento” ao registar 83 crianças mortas em conflitos

Fevereiro 23, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , , ,

Notícia do http://observador.pt/ de 5 de fevereiro de 2018.

A ” violência no Iraque, Líbia, Síria, no Estado da Palestina e no Iémen” teve consequências “devastadoras” as crianças. Mas há mais locais onde a vida destas está em perigo constante.

Pelo menos 83 crianças, a grande maioria sírias, morreram durante o “mês sangrento” de janeiro em conflitos e ataques registados em países do Médio Oriente e do norte de África, divulgou esta segunda-feira a UNICEF.

“A intensificação da violência no Iraque, Líbia, Síria, no Estado da Palestina e no Iémen” teve consequências “devastadoras” para a vida das crianças, disse o diretor regional da UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância) para o Médio Oriente e do norte de África, Geert Cappelaere, citado num comunicado.

“Só no mês de janeiro, pelo menos 83 crianças foram mortas (…) em conflitos em curso, em ataques suicidas ou morreram de frio ao fugir de zonas de guerra”, sublinhou o representante. Geert Cappelaere realçou que as crianças estão a pagar “o preço mais alto” por guerras pelas quais não são responsáveis.

“São crianças, crianças!”, frisou o diretor regional da UNICEF, na mesma nota informativa. Na Síria, país que enfrenta desde março de 2011 um conflito civil, “59 crianças foram mortas nas últimas quatro semanas”, segundo a agência das Nações Unidas.

No conflito no Iémen, já classificado como uma das piores crises humanitárias dos últimos anos, 16 crianças perderam a vida “em ataques em todo o país”. Em Benghazi, no leste da Líbia, “três crianças foram mortas num ataque suicida e outras três quando brincavam perto de engenhos explosivos”, segundo a UNICEF.

Uma mina tirou também a vida a uma criança na cidade velha de Mossul, antigo bastião do grupo extremista Estado Islâmico (EI) no norte do Iraque, enquanto um menor foi baleado numa localidade perto de Ramallah, na Cisjordânia ocupada por Israel.

No Líbano, “16 refugiados sírios, incluindo quatro crianças, que fugiram da Síria morreram de frio durante uma tempestade severa”, referiu a UNICEF.

“Não são centenas, nem milhares, mas milhões de crianças no Médio Oriente e no norte de África a quem roubaram a infância, que foram mutiladas, traumatizadas, presas, impedidas de ir à escola (…) e privadas do direito mais básico, de brincar”, sublinhou o comunicado.

Para Geert Cappelaere, “podem ter silenciado as crianças, mas as suas vozes vão continuar a ser ouvidas!”, concuindo que “A sua mensagem é a nossa: a proteção das crianças é prioritária em todas as circunstâncias, faz parte das leis da guerra”. Em dezembro passado, a UNICEF qualificou 2017 como um “ano pesadelo”, denunciando na altura que os conflitos armados tinham afetado de maneira desmedida as crianças.

Em 2017, as crianças em zonas de conflito foram vítimas de ataques “a uma escala chocante”, fruto de um “desprezo generalizado e flagrante das normais internacionais que protegem os mais vulneráveis”, afirmou na altura a organização no seu relatório anual, que apontava as situações na República Centro Africana, Nigéria, Birmânia, Sudão do Sul, Ucrânia, Iémen ou Síria.

No ano passado, segundo os números da UNICEF, cinco mil crianças foram mortas ou feridas no Iémen, 700 foram mortas no Afeganistão, centenas usadas como escudos humanos na Síria e no Iraque, 135 usadas como bombistas suicidas na Nigéria, 19 mil recrutadas pelo exército e grupos armados no Sudão do Sul.

O mesmo relatório indicou que na Europa, no leste da Ucrânia, mais de 200 mil crianças vivem sob a ameaça constante das minas antipessoal e de artefactos que não explodiram que apanham para brincar ou pisam, morrendo ou sofrendo mutilações.

mais informações na notícia:

Conflicts in the Middle East and North Africa take a brutal toll on children – UNICEF

Anúncios

Bater: num adulto é agressão, num animal é crueldade, numa criança é educação…?

Janeiro 29, 2018 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , ,

Texto do site http://uptokids.pt/

Ser pai e ser filho, dois desafios tão diferentes

“Aos pais se pede tanto, e se lhes dá tão pouco.” Se estas palavras da psicoterapeuta familiar Virginia Satir eram verdadeiras na década de 80, continuam tão ou mais válidas nos dias de hoje. Aos pais pede-se­ corpo e alma na educação dos filhos, mesmo quando o corpo se desdobra e dá de si e a alma, essa essência de estar vivo, é estar vivo para os filhos e pouco mais. Do lado dos filhos, um dos grandes desafios é o aprender formas saudáveis de socializar, de estar em relação com os outros, na existência de regras e limites e, em simultâneo, afeto. Uma coisa é certa: existem tantas formas de se ser mãe ou pai, quanto de se ser filho ou filha. Não existe apenas uma correta, mas existem formas de relação positivas entre pais e filhos que promovem um crescimento individual e relacional, outras não tão positivas e que acabam por trazer mais preocupações, mais dificuldades na gestão dos comportamentos e do reconhecimento da autoridade dos pais. A autoridade, aquela que se reconhece e não a que se impõe, tem sido um dos desafios com os quais muitos pais lidam, já que também eles trazem modelos das gerações anteriores, uns mais bem-sucedidos do que outros. A questão mantém­-se: é possível mostrar aos filhos os limites e regras com que se vive as relações humanas sem, no entanto, recorrer à punição física?

O que sabemos sobre os efeitos da Punição Física na criança e nos pais?

“Os meus pais também me bateram quando era pequeno, e no entanto tanto eu como os meus irmãos crescemos sem problemas nenhuns”. Este é um argumento comum que justifica, para muitos pais, bater nos filhos, com maior ou menor frequência. No entanto, bater não está associado a melhorias no comportamento ao longo do tempo. Não só coloca os pais num nível de adrenalina e stress elevado, como também transmite à criança a ideia de que o corpo não é seu, é propriedade dos pais, não podendo ser negociada a forma como querem ser tratadas. Estudos indicam que em adultos punidos fisicamente durante a infância, a probabilidade de valorizarem positivamente um comportamento violento aumenta, seja contra o filho ou contra o atual parceiro (Gershoff & Grogan-Kaylor, 2016).

“Nem doeu!” ­ Uma rápida escalada, não só de violência…mas de culpa

Um dos grandes problemas da punição corporal é a facilidade com que os limites definidos pelo próprio educador são ultrapassados, sem que este sequer se aperceba. É muito frequente, nos pais com quem se trabalham estes temas, eles próprios estarem dessensibilizados para o grau de violência que utilizam. Tal acontece porque se forma um ciclo em torno do comportamento da criança e da resposta que é dada por parte do adulto. A punição corporal leva frequentemente a que o comportamento desadequado se mantenha ou até aumente, o que resulta num aumento da frequência do castigo corporal, levando a mais situações de comportamento desadequado. Por exemplo, a mãe repreende o filho por correr na loja em que fazem compras. O filho não presta atenção e continua. A mãe, frustrada, dá uma palmada ao filho. Este não aprendeu necessariamente porque é que correr na loja é mau, apenas sabe que não gosta de levar uma palmada. O comportamento vai manter-­se, se não em loja, noutros contextos. A mãe utiliza a palmada e, vendo que o comportamento continua, pode aumentar a frequência e/ou intensidade da punição até obter os resultados desejados. O comportamento do filho, no entanto, piora. É um ciclo em que violência gera violência. Mais importante, e talvez menos abordado nestes termos, o ciclo amplia as desvantagens para pais e filhos: os pais, cada vez menos eficazes em controlar o comportamento da criança, desenvolvem com frequência sentimentos de culpa, por não se sentirem capazes de educar os filhos sem bater. Por parte da criança, com a frequência do castigo corporal, desenvolve uma imagem negativa de si enquanto filho, o “mau filho” ou “o filho desobediente”, com um impacto negativo na sua auto­estima e personalidade. No final, cada palmada ou bofetada confirma aos pais o fraco controlo e ineficácia da sua parentalidade. À criança é confirmado o fraco controlo sobre o seu próprio corpo, que pode ser invadido a qualquer altura, bem como o comportamento desadequado passa a fazer parte da imagem que têm de si mesmas.

A investigação com crianças e pais

Uma das mais importantes revisões de literatura neste campo, publicada este ano, registou dados sobre punição corporal em cerca de 160,000 crianças (Gershoff & Grogan­Kaylor, 2016). Desta revisão concluiu­-se que a punição corporal está associada a um maior risco de comportamentos agressivos e antissociais, mais problemas de saúde mental e uma relação pais-filhos mais negativa. Este é um resultado explicado, em grande parte, pelo facto de os pais serem os principais responsáveis por ensinar aos filhos formas de se relacionar com os outros (e.g., Maccoby, 1992). Talvez o resultado mais importante desta revisão tenha sido o de que, mesmo quando removidas as formas de punição mais severas e o abuso físico, deixando apenas a punição    corporal nos seus moldes mais simples (palmadas nas nádegas, por exemplo), esta se revela associada a resultados negativos para as crianças. Ou seja, mesmo formas mais simples de punição corporal como a palmada, podem ter efeitos negativos no desenvolvimento saudável da criança.

Porque é que bater persiste?

Nas palavras da Doutora Maria Amélia Azevedo, coordenadora do Laboratório de Estudos da Criança (LACRI): “Bater num adulto é agressão, num animal é crueldade, como você pode dizer que bater numa criança é educação?”.

castigo físico persiste, em parte, por ter resultados aparentemente imediatos (cessa o comportamento da criança) e por ser fácil de aplicar. No entanto, punições corporais não oferecem à criança oportunidade de refletir sobre as suas ações, nem ensinam à criança a distinção entre o certo e o errado, levando-­a a agir (ou não agir) apenas por medo da punição. A investigação demonstra que apesar de conduzir a uma obediência imediata, existe um decréscimo na obediência a longo prazo (Gershoff, 2002). Só a convivência e o tempo investido pelos pais no diálogo possibilita uma base afetiva em que os filhos reconhecem nos pais alguém que se preocupa, que ouve e, mais importante, um modelo a seguir. Isto é importante pois ao longo do desenvolvimento do seu filho, ele precisa de aprender a decidir e a regular o seu próprio comportamento.

Quais são as possíveis alternativas à punição corporal? Aqui ficam algumas sugestões para pais, mães, ou responsáveis pela educação e desenvolvimento de uma criança:

– Utilize o diálogo sempre que possível.
Falar com uma criança sobre que comportamentos são aceitáveis e quais não são tem, de longe, muitos mais benefícios do que a punição corporal. Garanta que lhe explica o porquê de um comportamento ser desadequado ou perigoso. Ao fazê-­lo está também a transmitir-­lhe uma mensagem importante: o diálogo é uma ferramenta crucial para resolução de problemas, ao contrário da violência, que cria distância entre as pessoas.

– Crie oportunidades educativas.
A existência de diálogo não invalida que se sigam outros métodos de disciplina eficazes. Se tiver de disciplinar, procure castigos não físicos e crie, se possível, oportunidades educativas (ex. dar ao seu filho tarefas domésticas extra ou colocá-­lo a arranjar algo que tenha quebrado). Talvez uma das técnicas mais utilizadas e familiar aos pais seja o retiro de benefícios (ex. não jogar durante uma semana). Não há nada de errado com esta forma de disciplina, sendo que os resultados podem ser melhores se a aplicação for ponderada e firme – se proibiu o seu filho de utilizar o computador durante uma semana, já terá pensado sobre quão adequada é a duração do castigo, sendo recomendado que o mesmo seja cumprido nos moldes por si definidos.

– Utilize consequências como uma forma eficaz de disciplina.
Tal como os adultos, as crianças aprendem com base no que experienciam. As consequências das suas decisões, quando vividas, possibilitam oportunidades de aprendizagem únicas para o desenvolvimento de responsabilidade. Tal exige que os pais permitam aos filhos experimentar as consequências naturais destas decisões (ex. Se não comes o que tens no prato, eventualmente ficarás com fome; se estragaste os teus brinquedos/computador, não poderás divertir­te com eles). Em várias ocasiões os pais protegem os filhos, no entanto algumas formas de proteção podem privá-­los de oportunidades para serem responsáveis e aprenderem que as suas ações têm consequências. Ao deixá-lo experienciar as consequências das suas ações está a dizer-­lhe que é capaz de tomar as suas próprias decisões. Não deve utilizar este método de disciplina se colocar em risco a saúde ou segurança da criança. Cabe­-lhe a si decidir que consequências naturais dos atos do seu filho serão uma boa oportunidade de aprendizagem. A chave é manter­-se calmo e não se envolver demasiado, deixe que o seu filho experiencie as consequências que decorrem naturalmente dos seus comportamentos. Por fim, seja paciente pois nem sempre os resultados são imediatos, mas quando surgem são duradouros!

imagem@psyciencia

 

Imagens que nenhuma criança deve desenhar

Janeiro 5, 2018 às 8:00 pm | Publicado em Vídeos | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , ,

This animation is based on real life drawings by children in UNICEF-supported Child Friendly Spaces in emergencies across the world.

Número de crianças afectadas por conflitos atingiu “níveis chocantes”

Dezembro 28, 2017 às 1:59 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , ,

Notícia do https://www.publico.pt/ de 28 de dezembro de 2017.

Organização expõe violência e sofrimento a que crianças de todo o mundo foram sujeitas em 2017.

O número de crianças afectadas por conflitos atingiu “níveis chocantes” em 2017. A informação não surpreende, mas é confirmada pela UNICEF esta esta quinta-feira. Usadas como escudos humanos, mortas, mutiladas, violadas, abusadas, forçadas a casar, raptadas, recrutadas para combate e escravizadas, as crianças são vítimas de uma violência extrema, sem que as leis internacionais designadas para as proteger consigam evitar estes abusos. Além disso, as crianças estão expostas a doenças infecciosas e a riscos diversos para a integridade física e moral, com falta de comida, água potável e cuidados de saúde.

O Fundo das Nações Unidas para a Infância, órgão que tem como objectivo promover a defesa dos direitos das crianças, detalha os abusos registados nas principais zonas de conflito armados em 2017.

Só no Afeganistão foram mortas cerca de 700 crianças nos primeiros nove meses do ano. Na República Centro-Africana, depois de meses de confrontos, “um dramático aumento de violência” conduziu à morte, violência sexual e recrutamento militar de crianças.

Na República Democrática do Congo, a violência levou à fuga de mais de 850 mil crianças e mais de 200 centros de saúde e 400 escolas foram atacados. UEstima-se que 350.000 crianças sofram de má nutrição aguda severa. Na Nigéria e nos Camarões, o grupo terrorista Boko Haram forçou pelo menos 135 crianças a serem bombistas-suicidas, quase cinco vezes mais do que em 2016.

No Iraque e na Síria, as crianças foram usadas como escudos humanos, em zonas sob cerco, vivendo na primeira linha de bombardeios e violência.

O documento destaca ainda sofrimento das crianças da minoria muçulmana rohingya, em fuga da Birmânia e que tentam sobreviver às condições desumanas a que estão sujeitas no Bangladesh, onde se refugiaram, escapando à “limpeza étnica” posta em marcha na Birmânia.

No Sudão do Sul, onde o conflito e uma economia em colapso levaram a uma crise de fome generalizada, mais de 19 mil crianças foram “recrutadas” por forças e grupos armados. Também no Sudão do Sul mais de 2300 crianças foram mortas ou feridas desde que o conflito rebentou em Dezembro de 2013.

Na Somália, até Outubro foram relatados 1740 casos de recrutamento de crianças para combater.  No Iémen, cerca de mil dias de guerra mataram pelo menos cinco mil crianças. Só aqui, mais de 11 milhões de crianças precisam de ajuda humanitária. Dos 1,8 milhões de crianças que sofrem de desnutrição, 385 mil estão gravemente desnutridas e correm risco de morte, se não forem tratadas com urgência.

O medo da morte faz também parte do quotidiano de mais de 200 mil crianças no Leste da Ucrânia, onde vivem sob constante ameaça de minas e outros restos explosivos de guerra.

“As crianças estão a ser atacadas e expostas a ataques e a uma violência brutal nas suas casas, escolas e recreios. Estes ataques continuam ano após ano. Tal brutalidade não pode ser o novo normal”, resume o director do Programa de Emergência da UNICEF, Manuel Fontaine.

Em alguns contextos, sublinha o relatório, as crianças raptadas por grupos extremistas que se conseguem libertar acabam por ser sujeitas a novos abusos por parte das forças de segurança.

A organização internacional apela “a todas as partes do conflito” para que cumpram as suas obrigações de acordo com a lei internacional  e protejam as infra-estruturas onde estão civis, nomeadamente escolas e hospitais e pede aos países mais poderosos que “concentrem a sua influencia para proteger as crianças” que sofrem directa e indirectamente com os conflitos.

 

O “murro no estômago” de ver a realidade das crianças palestinianas

Dezembro 26, 2017 às 12:00 pm | Publicado em Relatório, Vídeos | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , , , , , ,

Texto do http://p3.publico.pt/ de 14 de dezembro de 2017.

Desde 2000, estima-se que dez mil crianças palestinianas tenham sido detidas pelo exército israelita. A cada 12 horas, uma será detida, interrogada, processada e/ou presa. Os factos, apresentados num relatório de 2013 da UNICEF, são dolorosos. Mas o “murro no estômago”, como lhe chama Farah Nabulsi, aumenta se vislumbrarmos a realidade retratada na sua mais recente curta-metragem. É realidade ficcionada, mas realidade. E isso dói. Today they took my son (Hoje levaram o meu filho) mostra o “cruel, desumano e degradante tratamento e punição de crianças palestinianas por parte do sistema de detenção do exército israelita, [que] parece estar difundido e institucionalizado”, como refere o mesmo relatório da UNICEF. As crianças são detidas, geralmente, entre a meia-noite e as 5h. Soldados armados atam-lhes as suas mãos, tapam-lhes os olhos. Os meninos são vítimas de abusos físicos e verbais durante a detenção e o interrogatório. Não têm acesso a água, comida, casa de banho ou cuidados médicos. São coagidos a confessar coisas que não fizeram e ficam sem acesso às suas famílias e advogados. A realizadora Farah Nabulsi — filha de pais palestinianos que foram viver para o Reino Unido em 1970 — procura com o seu trabalho chamar a atenção para esta realidade. Por isso fez esta curta-metragem, integrada no projecto Oceans of Injustice, que procura mostrar a luta palestiniana por “liberdade, justiça e equidade”. Antes já tinha divulgado uma outra curta com o mesmo nome do projecto. Se não for o bastante ver estas imagens, Farah Nabulsi deixa uma sugestão: “Imaginem que isto acontecia com uma criança que amam.”

O relatório citado no texto é o seguinte:

Children in israeli Military Detention : Observations and Recommendations

Meninos com medo

Dezembro 18, 2017 às 3:04 pm | Publicado em O IAC na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , ,

O texto contém declarações da Dra. Dulce Rocha, Presidente do IAC.

Texto do http://expresso.sapo.pt/ de 9 de dezembro de 2017.

Maria Antónia Palla (textos), Gonçalo Viana (ilustração)

Estas histórias nunca deveriam ter acontecido. Mas a verdade é que 
os abusos e os maus-tratos a crianças são muito mais frequentes do que 
se pensa. Para ler e, sobretudo, meditar

Àquela hora todos dormiam. Só ela continuava meio desperta, talvez porque o luar que entrava pela janela viesse direito à sua cama. Foi então que o homem apareceu. Camisa desabotoada, pernas nuas, “aquilo empinado”, uma faca na mão. Não percebeu ao que ele vinha. Mas logo ele se atirou sobre ela, tapando-lhe a boca, ameaçando, “se gritas, mato-te”.

Com a idade que tinha, ela não sabia o que se passava entre um homem e uma mulher, interrogando-se sobre os ruídos que em certas noites saiam do quarto da mãe e do padrasto. Foi o medo e a dor que a despertaram, enquanto ele a possuía, ofegante, ameaçador, sussurrando-lhe “se abres a boca, mato-te”. Até que parou e se afastou, tão silenciosamente como chegara. Ela continuou deitada, amedrontada, dorida, sangrando, sentindo um líquido morno e de cheiro enjoativo a correr-lhe entre as pernas. Já não conseguiu dormir.

Ao amanhecer, quando a casa começou a agitar-se, levantou-se e foi contar à tia o que se passara. “Isso é mentira. O teu tio é um homem bom, bom marido, bom pai, que a ti e aos teus irmãos sempre vos recebeu bem. Estás a inventar ou então sonhaste. Nem fales disto às tuas primas.” E deu o assunto por encerrado. A criança não se conformou. De seguida, foi contar à mãe que, por falta de espaço em casa, mandava alguns dos cinco filhos dormir a casa da irmã que morava ao lado.“Não quero lá voltar”, disse a criança. Mas a resposta da mãe foi “estás a mentir”. E ordenou que se calasse porque “era um assunto de família”.

A filha obedeceu. Mas o caso repetiu-se durante mais de um ano. Ana tinha apenas oito anos. Nessa altura pensou que tinha de fugir dali. Para onde, como, não sabia. Foi então que conheceu uma senhora que, a troco de pequenos serviços, lhe ofereceu cama e comida. Aceitou. A mãe nem se opôs. Era menos uma boca a sustentar. Foi esta senhora que lhe ensinou a lida da casa, a cozinhar, a fazer doces. “Eu gostava dela e ela de mim.” Era a primeira vez que isso lhe acontecia na vida. Sentir-se-ia feliz, não fosse a lembrança daquela noite terrível. O pouco dinheiro que recebia não contava.

Apesar de tudo o que lhe acontecera, e da mágoa provocada pela frieza da mãe que nem um carinho lhe dera, era uma criança alegre, bem disposta, afável, amiga de ajudar os outros. Quem a conhecia gostava logo dela. Mas o medo persistia, embora o calasse dentro de si, às vezes, entristecia-se. Tinha maus sonhos. E chorava às escondidas. Fugia dos rapazes e dos homens. Não suportava que lhe tocassem.

Ana fez-se uma rapariga bonita mas só começou a namorar aos 22 anos. Quando o rapaz emigrou para a capital, resolveu segui-lo. Em breve engravidou. E em breve foi abandonada. Temeu o futuro, por ela, pela criança. Mas quando lhe puseram o filhos nos braços, moreninho e uns olhos muito verdes, pensou: “Este é o meu príncipe, tenho muito amor e alegria para lhe dar. Vou lutar por ele. Sobretudo nunca vou dar ao meu filho aquilo porque passei — ser uma criança abusada e abandonada.”

Era preciso enfrentar as coisas boas e más que acontecem na vida. Foram necessários muitos sacrifícios. Mãe solteira e sozinha, sem apoio de família. O pai da criança deu-lhe o nome e desapareceu. Ana morou em casas com ratos e baratas, sem água canalizada. “Passei fome para lhe comprar as fraldas. Mas tinha duas mãos para trabalhar e trabalho nunca me faltou.”

As horas do dia são poucas para trabalhar, deita mão a tudo. “Basto-me a mim própria. Faço as coisas com gosto. Mas também me divirto, gosto de dar um pé de dança. Levo as minhas amigas e às vezes o meu namorado.” Hoje diz que não quer casar. Basta-lhe o filho para se sentir feliz. A vida melhorou e olhando para trás diz que a violência sofrida em criança poderá ser perdoada, mas nunca esquecida. Nestes momentos a voz enrola-se num soluço. E chora. É uma sobrevivente que corre atrás da felicidade.

Os abusos sexuais de crianças são mais frequentes do que imaginamos. São crimes silenciosos que as vítimas calam, por medo ou vergonha ou porque não sabem sequer falar. Mas as recordações ficam e doem. Até que um dia, mais tarde, procuram alguém que as saiba ouvir e em quem confiam. Raramente um médico, um psicólogo ou um psiquiatra. Por desconhecimento, preconceito, falta de dinheiro. Os mais pobres não se podem dar a esse luxo.

Mas se uma criança abusada não é tratada a tempo, corre perigo. A maioria não consegue ultrapassar sozinha os traumas do passado. É frequente tornarem-se eles próprios violentos. A delinquência ou o suicídio podem ser a única saída.

Maria José Vidigal é uma psiquiatra que se especializou na área da infância, tendo trabalhado 32 anos no Centro de Saúde Mental Infantil, fundado por João dos Santos, um médico pioneiro no sector da psiquiatria infantil. “Conheci uma adolescente de 15 anos que escrevia poesia. A mãe tinha morrido e ela vivia com o pai que a matriculou num colégio de religiosas. Conheci-a nessa altura e depois perdia-a de vista”, conta Maria José Vidigal.

Os anos passaram e voltaram a encontrar-se. Falaram dos seus percursos de vida, como é normal entre pessoas que não se veem há muito tempo. “Ela sabia que eu era psicanalista, insistiu em levar-me a casa e foi então que me contou que o pai tinha abusado dela sexualmente. Mais tarde, casou. Não foi feliz no casamento. Não conseguia dar-se bem nem com a filha nem com o marido. O pai, entretanto, morrera. Considerava que não tinha família. Perguntei-lhe se ainda escrevia poesia. E ela disse: ‘Deixei de escrever desde a morte do meu pai.’ A poesia era a maneira que encontrou para fugir da realidade.”

Durante muito tempo os maus-tratos a crianças foram um tema de que não se falava. Entretanto, criaram-se perspetivas diferentes quanto ao modo como devem ser encaradas as crianças e os jovens, alargando-se consideravelmente o conceito de maus-tratos. “Isto nasce muito”, dizia-se ainda nos anos 60, em aldeias do país. Talvez porque a mortalidade infantil fosse altíssima, a pobreza muita, a instrução pouca ou nenhuma. Uma criança era raramente desejada. O que a esperava era, trabalhar “a bem ou a mal”, desde a mais tenra idade. E quando recusava, era espancada.

Atualmente esse procedimento é um dos maus-tratos inaceitáveis. O que não quer dizer que tenha desaparecido. As famílias e a sociedade no seu conjunto ignoram ainda o que são verdadeiramente os maus-tratos. As pessoas que os praticam podem até não os considerar como tais. Mas deixam marcas naqueles que os sofrem.

A maior parte dos maus-tratos ocorre na esfera doméstica. Outros são públicos. Quase todos já presenciámos casos destes. Mas ninguém intervém. “Os pais batem e castigam os filhos e nunca se interrogam sobre se eles sabem amar e fazer a criança sentir-se amada. O único amor incondicional — o dos pais — é fundamental para as crianças. Mas há ainda quem pense que o dever dos filhos é obedecer”, diz António Mendes Pedro, psicólogo e professor universitário. Os pais justificam esse comportamento dizendo “isto é para teu bem”. Esta era a pedagogia nazi que influenciou a Europa. Em Portugal também existiu, através de Salazar e da Igreja Católica.

O que ligava os filhos aos pais era, sobretudo, o respeito. A regra era os pais falarem e as crianças obedecerem. Porém, as crianças devem ser ouvidas e respeitadas. A criança para aprender a amar tem de se sentir amada. Os avós são, neste aspeto particular, muito importantes.

Hoje em dia, os pais, demasiado ocupados com as carreiras, os encargos que têm, descontentes com a vida que levam, estão cansados, irritados, impacientes, não conseguem conversar com os filhos, limitando-se a impor a autoridade.

MESMO QUANDO O NATAL 
ESTÁ à PORTA

Era véspera de Natal. Enquanto esperava pela sua vez num restaurante, M. concentrou-se numa família de pai, mãe e quatro filhos. A mãe, com o bebé ao colo, mostrava o olhar baço de quem vive desencantada, porventura cansada das maternidades sucessivas e das monótonas exigências doméstica, partilhava com a criança mais nova uma sopa. Para os restantes filhos, que andavam pelos oito, dez, doze anos, o pai pedira para cada um deles um prato cheio de um insípido arroz branco e um “croquete”. Só o homem saboreava uma dose de abundante e saborosa comida.

A refeição decorreu em silêncio, observando a regra de “quando se come não de fala”. Ou não teriam nada para dizer! Aliás, não parecia que tivessem o hábito de o fazer. Até que o mais velhinho ousou perguntar: “Pai, posso comer mais um croquete?” A resposta veio rápida e seca “já comeste um”. Ponto final.

A criança não saciara o apetite. Obviamente, ficou com fome. Terá este pai, em algum momento, tomado consciência da violência que praticara e da humilhação a que sujeitara o filho, afirmando a sua autoridade tirânica? Mas a criança certamente não esquecerá aquele Natal.

NÃO FAÇAS AOS FILHOS 
O MESMO QUE O TEU PAI FEZ

Segundo Maria José Vidigal, “é comum as pessoas que foram agredidas em criança, física ou psicologicamente, tornarem-se agressoras. Não por vingança, mas por identificação Ou então superprotetoras, por oposição ao que sofreram. Daí a necessidade de acompanhamento dessas situações, de forma a evitar que não passem para as gerações seguintes”.

Felizmente, há pessoas que, mesmo sem grande instrução, por inteligência e carácter, tratam os filhos de modo bem diferente daquele que ensombrou a própria infância. Mas nunca deixam de sofrer. É o caso de J.,um bom homem e um bom cidadão. Durante 12 anos foi presidente de uma Junta de Freguesia, realizando uma série de obras fundamentais numa terra a que faltava tudo menos o bom ar. Trabalhou gratuitamente, durante esse tempo, roubando à família e à profissão muitas horas em prol da comunidade onde nasceu e cresceu. Quando abandonou o cargo, deixou feito o que era essencial: saneamento básico, eletrificação, água canalizada, serviço de limpeza pública, caminhos rurais abertos, ruas e estradas alcatroadas, um centro cultural. Até uma placa para colocar a propaganda eleitoral deixou. A comunidade não lhe agradeceu como devia. Talvez porque o cargo passou a ser remunerado. Mas não é isso que justifica a mágoa que o atormenta desde os tempos de criança.

Foi construtor civil, subiu na vida, é certo. Mas apesar da sua afabilidade, é um homem revoltado. Aos 11 anos, o pai pô-lo a trabalhar na construção civil, como aprendiz de pedreiro, retirando-o dos estudos que gostava de ter continuado, obrigando-o a uma profissão que não escolheu mas que cumpriu com inteligência, competência e honestidade. Até casar entregava ao pai o salário que ganhava. Só a um mês do casamento ficou com o dinheiro para si.

Teve dois filhos. E a sua principal preocupação foi educá-los, não se poupando a sacrifícios para que ambos chegassem à Universidade e se formassem. Hoje são jovens bem-sucedidos. Como ele poderia ter sido, não fosse o despotismo do pai. E a mágoa aumenta quando pensa que a idade não permite voltar atrás.

O QUE SÃO, AFINAL, 
os MAUS-TRATOS?

Para António Coimbra de Matos, um dos mais conceituados psiquiatras e psicanalistas portugueses, com uma longa experiência no diagnóstico e tratamento de crianças e jovens, “bater, berrar demais, impedir a educação dos filhos, ameaçar, castigar privando-os de comida, fechar num quarto às escuras, abusar sexualmente e outras ofensas são maus-tratos físicos que não contribuem para o desenvolvimento normal da criança”.

Dulce Rocha, procuradora da República, coordenadora da Comissão Nacional dos Direitos da Criança, de 1996 a 1999, atualmente é presidente da Associação de Proteção às Crianças. Da sua experiência retira um longo historial de crianças maltratadas por inimagináveis atos de violência praticados por seres humanos. “Um homem relativamente jovem tinha dois filhos, um menino e uma menina. Uma vez, mandou os filhos, uma criança de quatro e cinco anos, comprar cigarros. O menino não trouxe a marca que ele tinha pedido, porque se esqueceu qual era ou simplesmente porque o vendedor lhe entregou um pacote de outra marca. O garoto ainda não sabia ler. Ao chegar a casa, o pai, em fúria, regou o filho com álcool e deitou-lhe fogo. A criança sofreu horrores com os tratamentos que faziam no hospital, tanto que até pediu que lhe cortassem as mãos. Recuperou mas não regressou a casa.” Ele e a irmã foram retirados ao pai e acabaram por ser adotados.

Segundo Dulce Rocha, o conceito de maus-tratos tem evoluído. Apesar de os maus-tratos físicos continuarem a ocorrer, presta-se mais atenção aos que passavam mais despercebidos, os maus-tratos emocionais. Para Coimbra de Matos ralhar com uma criança porque se sujou ou roeu as unhas ou se considera que foi malcriada,chamar-lhe “burra” ou preguiçosa porque não teve bom rendimento escolar, mostrar preferência por outro filho, são formas de maus-tratos. Sobretudo quando praticados em público. São humilhantes. “Muitas vezes os pais, sem ouvirem o filho justificar-se e dizer a razão por que fez algo de que os pais não gostaram, porque não percebeu as regras ou não concorda com elas, preferem culpabilizá-lo. E os filhos assumem a culpa.” Ouve-se com muita frequência as crianças dizerem: “Eu quis explicar mas eles não me ouvem.”

O MENINO NÃO TEM QUERER

“O menino ou a menina não têm querer”, dizia-se antigamente e há ainda quem o repita. As crianças não podiam exprimir um sentimento e menos ainda uma opinião. É um modelo que prevalece. E que Coimbra de Matos contesta. “Educar não é domesticar.”

As reguadas e os puxões de orelhas atualmente são proibidos nas escolas. Porém, muitos professores por falta de preparação técnica e pedagógica ou até de bom senso, perante um aluno com dificuldades de aprendizagem, nomeadamente da leitura ou da matemática, ostracizam-no, proferindo a sentença bárbara “nem vale a pena perguntar-te, tu não sabes”.

Segundo Mendes Pedro, “é uma humilhação para a criança que vai ficar sujeita à troça e às agressões dos colegas e acaba por desistir de aprender. Foge da escola. Fecha-se em si. Deprime-se. Frequentemente adota comportamentos desviantes.” Os pais ralham, dão-lhe tareias. “Vais aprender a bem ou a mal.” Retiram-lhe o telemóvel, a bicicleta, não o deixam brincar com outras crianças. Aos adolescentes, impedem-nos de sair de casa, encontrar-se com amigos ameaçam-no: “Se não deres para o estudo, vais trabalhar.” Trabalhos pesados ou vexatórios que não os prepararão para uma vida. A fuga ou a delinquência são a única saída.

Por vezes, a dificuldade de aprendizagem resulta somente de uma dislexia ou de outro problema psicológico que deve ser identificados e tratados. De nada serve o prolongamento do tempo escolar ou os castigos em casa.

Mas onde estão os psiquiatras, os pedopsiquiatras, os psicólogos e outros técnicos que poderiam resolver este e outros problemas que não têm que ver com a inteligência ou a falta de vontade do aluno? A criança pode ainda revelar patologias graves que carecem de ser identificadas se não pelos pais, pelas escolas. Daí a necessidade de uma sensibilização dos professores para estas matérias e técnicos que identifiquem e providenciem o tratamento adequado para estes casos.

O acompanhamento dos alunos pelos mesmos professores, ao longo dos ciclos, é fundamental. Permitir-lhes-ia conhecer os alunos e despertar nestes a confiança necessária ao conhecimento destas situações. Porem, nada resultará se a família — a existir — não for tratada.

Segundos os técnicos habilitados, é frequente que a criança vítima de indiferença, abandono, ambiente familiar violento, disputas constantes, violência doméstica adoeça. O abuso de álcool e drogas por parte de um ou dos dois membros da casal é outro fator de perturbação dos filhos.

A inexistência de um espaço próprio onde possa estudar ou ler sossegado e o som demasiado alto da rádio ou da televisão afetam a capacidade de concentração da criança e do jovem e, naturalmente, o aproveitamento escolar, comprometendo o seu futuro. As famílias numerosas — quando não existem condições que assegurem o bem-estar da criança ou do jovem — agravam ainda mais a situação, sobretudo quando os irmãos mais velhos ficam encarregados de cuidar dos mais pequenos e de realizar tarefas domésticas. Há meninas que, em vez de brincarem com bonecas, desempenham o papel de mães. É uma violência. “Toda a patologia mental é consequência de um mau ambiente familiar”, afirma Coimbra de Matos. Exceto as psicoses de patologia por doença.

Por vezes a culpa não é dos pais. Uma mãe deprimida não está alerta aos sinais dados pela criança. Está exausta, sobrecarregada por duplas e triplas tarefas, por má relação com o marido, obrigada a gerir orçamentos familiares demasiado curtos. Por outro lado, o pai, por ter sido despedido ou temer vir a ser, por ter ciúmes da mulher, por ter relações sexuais insatisfatórias, por não ver como há de melhorar a vida também está descontente. É por estas e outras razões que ambos descarregam nos filhos a sua insatisfação, infligindo-lhes maus-tratos. Um deles é o abandono. Físico ou emocional. Ou ambos.

Os casos extremos de abandono verificam-se com recém-nascidos e crianças de pouca idade deitadas para caixotes do lixo, deixadas em lugares ermos, expostas ao frio, à fome ou ao ataque de animais, afogadas no mar, rios, poços, lançadas de andares altos, empurradas pelas escadas, com lesões graves em várias partes do corpo, destinadas a uma morte certa, que às vezes, por sorte, não ocorre. São maus-tratos de que tomamos geralmente conhecimento pela comunicação social. E que podem ocorrer ao nosso lado.

Em Portugal existe uma grande complacência em relação a estes casos. Se sobrevivem, a entrega precipitada destas crianças à família biológica constitui um risco. Não raro o crime tentado é consumado, dando origem à morte da criança.

A retirada de crianças à família que as recolheu e criou com todo o carinho e a sua entrega ao pai ou à mãe biológicos que as abandonaram, constitui uma crueldade que os órgãos judiciários se deviam abster de praticar, antes de uma avaliação sem preconceitos.

São as mães que, na maioria dos casos, são identificadas, julgadas e sofrem longas penas. Os pais não devem também ser responsabilizados? Aos casos apontados, haverá ainda a acrescentar o das crianças vendidas a redes criminosas que as destinam à escravatura sexual, à prostituição, à venda de órgãos. Todas sujeitas a destinos que não escolheram ou a que foram atraídas. O uso precoce das novas tecnologias é também arma de crimes para atrair os mais inocentes. Nunca mais saberemos deles. Não voltarão para contar.

UMA PALMADA NUNCA 
É EDUCATIVA

Vão longe os tempos em que os adultos, a começar pelos pais, pensavam e diziam: uma criança “não tem querer”. A esta ideia Coimbra de Matos contrapõe: “Nas Faculdades de Psicologia dizia-se que o principal dever de uma criança é obedecer, portar-se bem. Estes eram os valores transmitidos pela sociedade e pela escola.” E acrescenta: “A criança é particularmente sensível à injustiça contra ela ou contra um irmão que é mais irrequieto ou pior aluno. E procura defendê-lo.

Essa criança mostra-se mais insubmissa, mais radical. E isso é bom. Considero que o principal dever da criança é desobedecer aos pais. É assim que se faz gente, que consegue ter uma opinião.”

Para António Mendes Pedro, quando os pais batem nos filhos justificam dizendo “é para teu bem”. Por seu lado, Coimbra de Matos considera que “dar uma palmada nunca é educativo. Salazar achava que educava pela submissão e governou essencialmente através do medo. Há pais que passam a vida a ameaçar. No caso das crianças, elas revoltam-se e os pais consideram que é elas são malcriadas”.

Outra forma comum de maus-tratos é a indiferença. Há pais que ligam pouco aos filhos. A maior parte das vezes isso resulta da falta de tempo que têm para lhes dar. A indiferença pode assumir vários aspetos. Não alimentar bem a criança, não a agasalhar convenientemente, não tratar da criança doente ou só tardiamente fazê-lo.

Há crianças que são mandadas para a escola com febres altas porque os pais não podem faltar aos empregos. Há bebés que choram porque são levados para sítios barulhentos, abafados que mal as deixam respirar. Para os mais pequenos as férias são muitas vezes um terror, porque suportam mal o calor da praia, a mudança de ambiente, a alteração dos horários, a menor atenção dos pais. Reagem chorando ou fazendo birras. Incomodam toda a gente. Quando os pais dão por isso, castigam-nas.

Em contraposição, há pais que se preocupam demasiado com os filhos, como se estes fossem os instrumentos compensatórios das suas frustrações ou um capital para o futuro. Há casos destes que podem traduzir-se em maus-tratos psicológicos, mais difíceis de diagnosticar. Da sua longa experiência, Maria José Vidigal retira o caso de um casal que lhe apareceu na consulta em pânico porque o filho, aos sete anos, não tinha conseguido aprender a ler. “Expliquei-lhes que Graciliano Ramos, o grande escritor brasileiro, só começara a ler aos nove anos e chegou por isso a ser considerado burro.” A aprendizagem da leitura ou da escrita depende do grau de maturidade da criança, o que pode ocorrer só aos dez anos. A partir daí é preciso averiguar, analisando não só a criança mas também a família.”

Maria José Vidigal recorda um outro caso. “Um dia apareceu-me um casal com uma criança de sete a oito anos. Tinham vivido fora de Portugal e pediam a minha ajuda para encontrarem uma escola para crianças sobredotadas. O pai pareceu-me uma pessoa extremamente rígida. A mãe não parava de fumar. Durante a consulta, não disse uma palavra. A criança também não abriu a boca. Foi o pai que falou o tempo todo, explicando-me que o filho era uma criança superiormente inteligente e não podia, por isso, frequentar uma escola qualquer. Queria que lhe indicasse uma.

Disse-lhe que em Portugal havia boas escolas mas não existiam escolas para crianças sobredotadas, e que estas frequentavam as escolas normais. A família tinha vivido num local perto de uma praia e o homem vangloriava-se de nunca ter tomado banho do mar. Pensei que o mesmo acontecera com o resto da família. Era visível que o pai exercia um grande controlo sobre toda aquela família que não dava mostras de algum prazer.”

A pedopsiquiatra pediu para ficar sozinha com o miúdo. Era uma criança muito contida que mostrava muita inibição. Tentou conversar com o garoto. Não foi possível. A tudo que lhe perguntava respondia-lhe com sim ou não. Parecia um autómato. Foi então que lhe propôs que desenhasse (uma que técnica muita utilizada no Centro de Saúde Mental Infantil). Ele recusou. “Era um primeiro contacto, mas não o achei tão inteligente como o pai dizia. Fiquei na dúvida se se tratava de uma depressão grave ou uma psicose.”

Maria José Vidigal disse aos pais que a criança precisava de apoio psicológico. E propôs a realização de mais entrevistas com o objetivo de o conhecer melhor. Desapareceram. A ideia que lhe deixaram é que se tratava de uma família doente. E que a criança sofria com a ansiedade do pai, preocupado com o sucesso do filho.

O CHEFE DE FAMÍLIA 
JÁ NÃO EXISTE

Ao longo da sua vida Dulce Rocha tem-se empenhado na defesa dos Direitos da Criança. Uma causa que surge em 1924 por iniciativa de um pediatra, C. Henry Kempe, transformada em Convenção dos Direitos da Criança na Década das Mulheres, e aprovada pela ONU em 1989.

Os princípios básicos dessa Convenção foram consagrados, em Portugal, no Código Civil, na revisão de 1977, por efeito das alterações nele introduzidas pelo Dec. Lei nº 496/77 de 25 de novembro.

Pela primeira vez, afirmam-se por lei os deveres dos pais, nomeadamente o de velar pela segurança, saúde ou sustento dos filhos e respeitar os seus direitos. Estes, “de acordo com a sua maturidade, deverão ser ouvidos pelos pais” nos assuntos familiares importantes “e respeitada a sua autonomia na organização da sua vida”.

Dulce Rocha considera, no entanto, que ainda hoje “há muita contemporização com os maus-tratos. Começa-se por não se acreditar na criança, diz-se que está a mentir, que são fantasias. E muitos casos são ignorados”. A procuradora sublinha a importância de se denunciarem os casos à Polícia e ao serviço SOS — Criança, para efeito das denúncias anónimas ou pela própria criança vítima de maus-tratos.

“Há situações muito graves. A criança não é alimentada, há falta de asseio, vestuário inadequado à época, um ambiente em que há falta de dignidade, aí temos de a defender. Tentamos sempre recuperá-la para a família, sobretudo quando há uma relação muito forte com a mãe. Mas estas têm muito medo dos maridos. Só retiramos uma criança à família quando não há mais nada a fazer. Resta a adoção ou a institucionalização. Sabendo-se que uma criança institucionalizada nunca é verdadeiramente feliz.”

A autora lança dia 5 o livro “Só Acontece aos Outros — Histórias de Violência“, da Sibila Publicações

 

 

 

 

Portugal submete ao Conselho da Europa Relatório sobre a Convenção de Istambul

Dezembro 11, 2017 às 8:00 pm | Publicado em Relatório | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , , , , , , ,

Notícia do https://www.cig.gov.pt/ de 12 de setembro de 2017.

Portugal submeteu junto do Conselho da Europa o seu relatório nacional sobre a prevenção e o combate à violência contra as mulheres e a violência doméstica, ao abrigo da Convenção de Istambul.

A Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género (CIG) e a Comissão Nacional de Direitos Humanos (CNDH), presidida pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros, foram responsáveis pela elaboração deste relatório que contou com os contributos de todas as entidades nacionais com competências relacionadas com a implementação desta Convenção, tais como, os Ministérios da Administração Interna, Justiça, Saúde, Educação , Trabalho e Segurança Social e, ainda, o Provedor de Justiça, a Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) e a Fundação Calouste Gulbenkian.

O relatório foi enviado para o GREVIO – Group of Experts on Action against Violence against Women and Domestic Violence – a 8 de setembro de 2017. Este Grupo irá analisar o relatório e debatê-lo junto da delegação de representantes nacionais na sua 13ª reunião, que terá lugar de 19 a 23 de fevereiro de 2018, em Estrasburgo.

O GREVIO poderá realizar uma visita a Portugal, na primavera de 2018, para avaliar a situação no terreno e respetivo elaboração de relatório de avaliação no decorrer do próximo ano.

Para mais informações consulte o Report submitted by Portugal »

 

Portugal teve mais relatos de casos de ‘bullying’ do que os EUA

Novembro 2, 2017 às 7:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança, Relatório | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , , , , , ,

Notícia do http://24.sapo.pt/ de 1 de novembro de 2017.

Portugal é o 15.ª país com mais relatos de ‘bullying’ na Europa e na América do Norte, ficando à frente dos Estados Unidos, segundo um estudo divulgado hoje pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).

O documento “Um Rosto Familiar: A violência nas vidas de crianças e adolescentes” usou dados oficiais de 2015 para mostrar que, no que se refere ao ‘bullying’, entre 31% e 40% dos adolescentes portugueses com idades entre os 11 os 15 anos disseram terem sido intimidados na escola uma vez em menos de dois meses.

O ‘bullying’ são atos de violência física ou psicológica intencionais e repetidos praticados por um jovem ou grupos de jovens sobre outro.

O país teve mais queixas do que os Estados Unidos, onde aconteceram três quartos dos tiroteios em escolas registados no mundo nos últimos 25 anos.

Portugal também é mencionado numa análise sobre a percentagem de mulheres com idade entre os 18 os 29 anos que sofreram pelo menos um episódio de violência sexual perpetrado por um adulto antes dos 15 anos na Europa.

Neste caso, o país apareceu como um dos que menos registou este tipo de queixa, ficando em 23.º lugar entre os 28 países pesquisados, à frente apenas da República Checa, Grécia, Polónia, Croácia e Roménia.

Este estudo da Unicef apresentou uma análise detalhada sobre as mais diversas formas de violência sofridas por raparigas e rapazes em todas as regiões do mundo, como a violência disciplinar, violência doméstica na primeira infância, violência na escola – incluindo ‘bullying’, violência sexual e mortes violentas de crianças e adolescentes.

A Unicef chamou principalmente a atenção para o facto de a cada sete minutos, em algum local do mundo, uma criança ou um adolescente, entre os 10 e os 19 anos, é morto, seja vítima de homicídio ou de alguma forma de conflito armado ou violência coletiva.

“Somente em 2015, a violência vitimou mais de 82 mil rapazes e raparigas nessa faixa etária”, diz o relatório.

Quase metade de todos os homicídios de adolescentes ocorrem na América Latina e Caraíbas, embora vivam na região um pouco menos do que 10% da população mundial nesta faixa etária.

Para fazer esta análise sobre as mortes de adolescentes, a Unicef recolheu dados de mortalidade oficiais fornecidos por 183 países filiados à Organização Mundial da Saúde (OMS) com populações acima de 90 mil pessoas em 2015.

o relatório citado na notícia é o seguinte:

A Familiar Face: Violence in the lives of children and adolescents

Pais portugueses entre os mais violentos

Outubro 17, 2017 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , ,

Notícia do https://www.swissinfo.ch/por/ de 10 de outubro de 2017.

Um em cada cinco jovens na Suíça sofre graves castigos corporais nas mãos de seus pais, revelou um estudo realizado pela Universidade de Zurique.

A cifra de 20% é superior aos 13% revelados por um estudo similar realizado na Alemanha, disse o pesquisador Dirk Baier da Escola de Trabalho Social da Universidade de Ciências Aplicadas de Zurique (ZHAW). O castigo corporal “severo” foi definido no estudo suíço como socos, pontapés, espancamento ou objetos jogados em cima do jovem.

Dois jovens em cinco foram vítimas de formas “mais suaves” de castigo corporal, como tapas ou empurrões.

Os números na verdade foram retirados dos resultados provisórios de um estudo em andamento sobre o terrorismo, que pesquisou 10 mil jovens de 17 anos na Suíça e incluiu questões sobre sua educação, disse Baier para swissinfo.ch.

Imigrantes

Comparando os resultados, ficou claro que, entre os suíços, o nível de violência era similar ao da Alemanha, disse Baier. A diferença vem dos grupos de imigrantes.

“Existem alguns grupos na Suíça, onde até 40% dos jovens sofrem castigos físicos graves por parte dos pais”, conta. O estudo revela que isso afeta principalmente as famílias dos Bálcãs, seguido de Portugal (37%).

A situação financeira da família também desempenha um papel: a taxa de violência entre os pais desempregados ou que vivem da ajuda social é duas vezes maior em relação aos outros.

Além disso, em algumas culturas, o castigo corporal pode ser percebido como uma parte normal da educação infantil. Isso também costumava ser a atitude na Suíça. O estresse devido ao status de imigrante também pode desempenhar um papel no altos níveis de violência familiar.

swissinfo.ch/fh

 mais informações nas notícias:

Un jeune sur cinq est victime de violences graves à la maison

Schockierende Zahlen: So brutal sind Schweizer Eltern bei der Erziehung

 

Três quartos das crianças e jovens enfrentam abusos, exploração e tráfico nas rotas migratórias do Mediterrâneo – UNICEF, OIM

Setembro 21, 2017 às 8:00 pm | Publicado em Relatório | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , , , ,

COMUNICADO DE IMPRENSA CONJUNTO de 12 de setembro de 2017.

Três quartos das crianças e jovens enfrentam abusos, exploração e tráfico nas rotas migratórias do Mediterrâneo – UNICEF, OIM

As crianças da África subsariana são mais visadas do que qualquer outro grupo, o que resulta de discriminação e racismo

Novo relatório apela à Europa para que crie “percursos seguros e regulares” para a migração

NOVA IORQUE/BRUXELAS, 12 de Setembro de 2017 – As crianças e os jovens migrantes e refugiados que tentam chegar à Europa enfrentam níveis chocantes de violação de direitos humanos patentes nos relatos de uma percentagem impressionante de 77% dos que viajam pela rota do Mediterrâneo Central, que dão conta de experiências pessoais de abuso, exploração e práticas que por vezes chegam a tráfico humano – afirmaram hoje a UNICEF e a OIM, a Agência das Nações Unidas para as Migrações, num novo relatório.

Harrowing Journeys (Jornadas Angustiantes) revela que, embora todos os migrantes e refugiados estejam em elevado risco, as crianças e os jovens em movimento têm muito mais probabilidades de serem vítimas de exploração e tráfico do que os adultos com idade igual ou superior a 25 anos: quase o dobro de probabilidade na rota do Mediterrâneo Oriental e 13 por cento mais na do Mediterrâneo Central.

Aimamo, um adolescente de 16 anos não acompanhado, da Gâmbia, entrevistado num abrigo em Itália descreveu ter sido obrigado pelos traficantes a meses de trabalho físico esgotante quando chegou à Líbia. “Se tentas fugir, disparam sobre ti. Se paras de trabalhar, espancam-te. Éramos verdadeiros escravos. No final do dia, trancavam-nos sem que pudéssemos sair.”

O relatório baseia-se nos testemunhos de cerca de 22.000 migrantes e refugiados, incluindo cerca de 11.000 crianças e jovens, entrevistados pela OIM.

“A dura realidade é que actualmente é prática comum as crianças que se deslocam pelo Mediterrâneo serem abusadas, traficadas, espancadas e discriminadas”, afirmou Afshan Khan, Directora Regional da UNICEF e Coordenadora Especial para a Crise de Refugiados e Migrantes na Europa. “Os líderes da UE devem pôr em prática soluções duradouras que incluam vias de migração seguras e legais, a criação de corredores de protecção e alternativas à detenção das crianças migrantes”.

“Para as pessoas que deixam os seus países para escapar à violência, à instabilidade ou à pobreza, os factores que as levam a migrar são muito duros e embarcam em jornadas perigosas sabendo que podem ser obrigadas a pagar com a sua dignidade, bem-estar ou até mesmo com a própria vida”, disse Eugenio Ambrosi, Director Regional da OIM para a UE, Noruega e Suíça.

“Sem o estabelecimento de vias migratórias mais regulares, outras medidas serão relativamente ineficazes. É também essencial reforçar uma abordagem às migrações com base nos direitos humanos, melhorando os mecanismos para identificar e proteger os mais vulneráveis ao longo do processo de migração, independentemente do seu estatuto legal.”

O relatório mostra ainda que, embora todas as crianças em movimento corram um risco elevado, as que são originárias da África subsariana têm muito mais probabilidade de serem vítimas de exploração e tráfico do que as provenientes de outras partes do mundo: 65% comparativamente a 15% na rota do Mediterrâneo Oriental, e 83% comparativamente a 56% na rota do Mediterrâneo Central. O racismo é provavelmente um dos principais factores que estão na origem desta disparidade.

Concluiu-se ainda que as crianças e os jovens que viajam sozinhos ou por longos períodos, assim como os que têm níveis de educação mais baixos, são também altamente vulneráveis à exploração de traficantes e grupos criminosos no decurso das suas jornadas. De acordo com o relatório, a rota do Mediterrâneo Central é particularmente perigosa, dado que a maioria dos migrantes e refugiados passa através da Líbia, que continua dominada pela anarquia, por milícias e criminalidade. Em média, os jovens pagam 1.000 a 5.000 USD pela viagem e muitas vezes chegam à Europa endividados, o que os expõe a novos riscos.

O relatório apela a todas as partes interessadas – países de origem, trânsito e destino, à União Africana, à União Europeia, organizações internacionais e nacionais com o apoio da comunidade de doadores – que dêem prioridade a uma série de medidas.

Estas incluem o estabelecimento de vias seguras e regulares para as crianças em movimento; o reforço dos serviços para proteger as crianças migrantes e refugiadas, seja em países de origem, trânsito ou destino; a criação de alternativas à detenção de crianças em movimento; um trabalho entre os vários países para combater o tráfico e a exploração; e o combate à xenofobia, ao racismo e à discriminação contra todos os migrantes e refugiados.

Nota:

A UNICEF continua a apelar aos governos para que adoptem os seis pontos da sua Agenda para a Acção, a fim de proteger as crianças refugiadas e migrantes e assegurar o seu bem-estar.

  1. Protejam as crianças refugiadas e migrantes da exploração e da violência, em especial as crianças não acompanhadas;
  2. Acabem com a detenção de crianças requerentes do estatuto de refugiada ou migrante;
  3. Mantenham as famílias juntas como a melhor forma de protege crianças e de lhes atribuir um estatuto legal;
  4. Mantenham a aprendizagem de todas as crianças refugiadas e migrantes lhes garantam acesso a serviços de saúde e outros de qualidade;
  5. Pressionem para que sejam tomadas medidas para combater as causas subjacentes aos movimentos de refugiados e migrantes em larga escala;
  6. Promovam medidas para combater a xenofobia, a discriminação e a marginalização em países de trânsito ou de destino.

descarregar o relatório no link:

https://www.unicef.org/publications/index_100621.html

Página seguinte »


Entries e comentários feeds.