“Nunca pensei que ia ter uma mãe assim”

Abril 15, 2017 às 5:17 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícias do https://www.publico.ptde 4 de abril de 2017.

Ana Henriques

Noutro caso, uma economista desempregada chamava “burra, porca e puta” à filha, que pontapeava. Tribunal de primeira instância ilibou-a e a Relação condenou-a depois.

O que dissipou todas as dúvidas aos juízes do Tribunal da Relação de Lisboa, noutro caso de maus tratos que também chegou à justiça como o de Mónica, foi o choro quase ininterrupto da criança, enquanto dizia: “Nunca pensei que ia ter uma mãe assim.”

Os pontapés e os insultos faziam parte da forma habitual de esta progenitora, economista de profissão mas sem emprego, se relacionar com a filha. A menina ainda nem quatro anos tinha quando começaram os maus tratos. E apesar de a vizinhança ter garantido em tribunal nunca ter ouvido nada, tanto o pai como a empregada doméstica asseguram ter presenciado muito daquilo de que se queixava a criança, hoje com 12 anos e a morar com o progenitor.

Chamava-lhe “porca, estafermo, nojenta, cabra”, contou a menor quando prestou ao tribunal declarações para memória futura. E “puta” também, pelo menos duas vezes. Num depoimento que demorou meia hora, passada quase sempre a chorar, a menor, na altura com nove anos, relatou como tinha sido pontapeada ou agredida de outras formas por “coisas insignificantes”, “por tudo e por nada”. Por vezes batia-lhe na nuca, na cabeça, nas costas, na cara, e desferia-lhe palmadas no rabo, descreveu. Até num corredor de hotel a mãe lhe chegou a dar pontapés. Noutra vez ameaçou esmagar-lhe a cabeça contra a parede. E interná-la num colégio. O pai da criança também levava por tabela: segundo a menina, a mulher ameaçava bater-lhe e pô-lo fora de casa.

Acabou de facto por se ir embora, mas pelo seu próprio pé, e levando consigo as duas filhas do casal, esta e outra mais pequena. Tinham passado seis anos desde que haviam começado os maus tratos, dos quais o progenitor acabou por dar conta à Comissão de Protecção de Crianças e Jovens. As crianças, porém, nunca foram ouvidas pela comissão, perante a qual a mãe reconheceu que gritava com a menina e por vezes a insultava. Negou as agressões e o processo aqui aberto acabou por ser arquivado.

Mãe diz que sofreu muito

Durante o seu julgamento por violência doméstica contra a filha, a agressora remeteu-se ao silêncio sobre as acusações de que era alvo, só tendo falado no final para dizer que, apesar de não o demonstrar, a situação lhe havia causado muito sofrimento.

Numa fase anterior do processo a economista assegurou, por escrito, que jamais tinha insultado, ofendido ou agredido física ou verbalmente as filhas, e que as imputações que lhe eram feitas de violência doméstica mais não eram do que uma tentativa do pai para ficar com a guarda das crianças em caso de divórcio. A ter chamado porca à menor, acrescentava, tê-lo-ia feito, entre outros motivos, por ela ainda usar fraldas aos nove anos de idade. A tê-la apodado de cabra, teria sido por a menina gostar de dar saltos no sofá, alegou.

Quando a ilibou, no Verão passado, o tribunal de Cascais fê-lo por não ter ficado provado, no entendimento dos juízes, em que circunstâncias ocorreram os factos. “Não é possível concluir que a arguida tenha excedido, o poder dever de correção/educação”, pode ler-se na sentença de primeira instância. “Por outro lado, o meio empregue no contacto físico também não permite concluir, por si só, pela inaceitabilidade da sua conduta à luz da consciência ético-social”, acrescentam os magistrados, segundo os quais não havia provas de que a progenitora tivesse humilhado e maltratado física e psiquicamente a menor.

A arguida colocou em risco, de modo relevante, a saúde física e psíquica da sua filha menor – tornando-a vítima de um tratamento incompatível com a sua dignidade enquanto ser humano, conduzindo necessariamente à sua ‘degradação’ enquanto pessoa.”

Tribunal da Relação de Lisboa

Entendimento diferente da questão tiveram, porém, os juízes do Tribunal da Relação de Lisboa, para o qual o pai das menores recorreu. Apesar da posição sustentada pelo Ministério Público na primeira instância, que pugnou também pela absolvição, os desembargadores da Relação concluíram recentemente que o Tribunal de Cascais se enganou: “De forma consciente e reiterada, a arguida colocou em risco, de modo relevante, a saúde física e psíquica da sua filha menor – tornando-a vítima de um tratamento incompatível com a sua dignidade enquanto ser humano, conduzindo necessariamente à sua ‘degradação’ enquanto pessoa.” Para isso contribuíram sobretudo as declarações para memória futura da vítima: “São de facto impressionantes, quer pela autenticidade quer ainda pelo facto de ressaltar o sofrimento ao descrever o comportamento da sua mãe para consigo e dizer ‘Nunca pensei que ia ter uma mãe assim’”.

A economista desempregada foi condenada a uma pena suspensa de dois anos de prisão e ainda a pagar à menor cinco mil euros de indemnização por danos morais pedidos pelo progenitor. Um montante que os juízes da Relação consideram ser baixo: “A quantia pedida pode considerar-se meramente simbólica, já que a reiteração da conduta da arguida durante largo período justificaria uma indemnização mais elevada. Não podemos olvidar que a ofendida neste caso é uma menor que, pela sua idade e ascendente que sobre ela tinha a sua mãe, estava numa situação particularmente indefesa.”

 

 

 

 

Cinco anos de prisão: uma pena exemplar para casal que maltratava menina

Abril 15, 2017 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.publico.pt de 4 de abril de 2017.

Ilustração de Sibila Lind

Só quando Mónica foi para a escola é que se percebeu que era vítima de maus tratos. Em 2016, o Instituto de Medicina Legal detectou, nas perícias que fez a menores, indícios de maus tratos perpretados por pais e mães em 416 casos.

Ana Henriques

Entrar para a escola mudou a vida a Mónica, uma menina de seis anos demasiado magra, demasiado macilenta, demasiado apática para a idade. Logo no primeiro dia de aulas uma professora do bairro social Padre Cruz, em Lisboa, estranhou o apetite fora do comum da criança, que até a sopa repetiu. Mas foi só ao terceiro dia que uma funcionária lhe perguntou por que lhe custava a andar, depois de reparar que mal conseguia pôr os pés no chão. “Ó pá caí sem querer, não tenho nada”, ouviu à laia de resposta.

Só quando lhe levantou a cara deu com as mazelas: nódoas negras na testa, as costas todas vermelhas, “com sangue espalhado”, peladas na cabeça escondidas pela forma como estava penteada. “Ó pá caí, já te disse, estúpida”, repetiu-lhe a criança, cada vez mais agressiva, até agarrar nos objectos que tinha à mão e atirar tudo ao chão. Apesar do calor daquele dia de Setembro de 2015 estava de leggings, camisola de manga curta e dois casacos abotoados, que não deixava tirar.

Quando os polícias da Escola Segura levaram Mónica (nome fictício) para o hospital os exames médicos revelaram um filme de terror que durava há quase quatro anos. Tinha equimoses por todo o corpo, de vários tons e texturas, consoante a altura em que haviam sido feitas. E se algumas eram de quedas que tinha dado, outras indiciavam agressões. Como se tivessem batido com ela contra uma parede, observou uma técnica do gabinete de apoio ao aluno e à família daquela escola. Também tinha cortes nos pés. Apresentava um atraso global no desenvolvimento e a sua magreza excessiva e olhos encovados denunciavam as privações a que havia estado sujeita.

Havia de se descobrir que o cenário era ainda pior do que se podia imaginar. Enquanto morou com a mãe, na altura com 28 anos, e com o seu companheiro de 27, operário da recolha do lixo, Mónica vivia por norma enclausurada de castigo no quarto, divisão onde as persianas estavam sempre corridas por se terem estragado, com uma televisão que não funcionava e sem um único brinquedo. Os insultos eram uma constante. A mãe chamava-lhe “mijona, cagona e porca”, e mandava-a para o quarto por não controlar os esfíncteres, ou por não querer comer. Não a deixava conviver com outras crianças.

No ano passado o Instituto Nacional de Medicina Legal e Ciências Forenses detectou, nas perícias que fez a menores, indícios de maus tratos perpetrados por pais e mães em 416 casos, 56,3% dos quais sobre raparigas. O maior número de ocorrências registou-se em vítimas entre os 14 e os 17 anos.

Condenados a cinco anos

No Natal de 2014, Mónica ficou naquela divisão uma semana inteira. Não foi sequer autorizada a descer à sala para abrir as prendas. O casal tinha tido uma filha, mais nova, cujo quarto enchera de brinquedos. A 28 de Dezembro permitiram que Mónica interrompesse o castigo para cantar os parabéns à meia-irmã, que fazia anos nesse dia, mas mandaram-na regressar ao quarto às escuras, sem lhe darem sequer uma fatia do bolo de anos.

A menina havia de contar mais tarde a uma educadora social que chegava a ir para as escadas espreitar para ver se a mãe e o padrasto também batiam à meia-irmã. A vizinhança chegou a perguntar por que não vinha Mónica à rua. O cantoneiro respondia o mesmo que aos seus pais, avós emprestados da menina: que não era pai dela, quem mandava era a mãe.

Porém, a falta de parentesco não lhe serviu de nada há cerca de um mês, quando foi condenado no Campus da Justiça, em Lisboa, a cinco anos de prisão efectiva por violência doméstica, uma pena igual à aplicada à mãe de Mónica, e a máxima permitida para punir este crime. Foi um julgamento emotivo: sentado no banco dos réus o padrasto chorou em todas as sessões, admitindo culpas, enquanto a progenitora se mantinha impassível e em silêncio.

A juíza explicou como, ao privarem Mónica de contactar com terceiros, nomeadamente familiares e outras crianças, bem como de alimentos e luz solar, os arguidos tinham sujeitado um ser inocente e desprotegido a um tratamento cruel e desumano. “Impediram-na de se desenvolver física e psicologicamente, visando criar permanente medo e um clima de terror”, descreve a sentença, que obriga os arguidos a indemnizarem a criança em dez mil euros e a pagar o seu tratamento hospitalar.

Padrasto consumia álcool e drogas

Nem a desculpa do padrasto de que não andava bem, devido ao consumo de álcool e estupefacientes, convenceu a magistrada, que o acusou de ter agido com crueldade. Ficou provado em tribunal que lhe partiu uma colher de pau no corpo à pancada, e que a companheira reagiu a isso dizendo que ia buscar outra. “Não conheço nenhum outro caso em que tenha sido aplicada a pena máxima por maus tratos a crianças que configurem violência doméstica”, diz o procurador Noberto Martins, com vasta experiência quer em casos envolvendo família e menores quer na área do crime, que considera os cinco anos de cadeia um castigo “que não podia ser mais exemplar”. “Os julgadores têm de levar em linha de conta não apenas as consequências do acto criminoso e o grau de culpa” de quem o praticou, explica, “como também a necessidade de dissuadir a prática de futuros crimes”. Esta pena “é um sinal dado à comunidade de que este tipo de crimes não são toleráveis”, observa.

Em Outubro de 2015 as duas irmãs foram internadas num centro de acolhimento temporário da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, local de onde saíram apenas há três meses, para irem morar, pelo menos durante meio ano, com os avós emprestados de Mónica, que são avós biológicos da meia-irmã. Por agora, entendeu-se que a criança estaria melhor com eles do que com o pai biológico, que mora ao pé do casal reformado, também no bairro Padre Cruz.

Violência continuada, pior até aos seis anos

Inscrita no 2.º ano de escolaridade mas ainda a recuperar matéria do 1.º, hoje Mónica é outra, asseguram os avós emprestados, enquanto mostram com orgulho fotos da menina no telemóvel. “Deixou de arrancar o cabelo e em três meses aumentou cinco quilos. Ontem ao jantar comeu oito salsichas”, contabiliza satisfeito o carteiro reformado. Sabiam dos castigos que a isolavam do resto do mundo e chegaram a queixar-se mais de uma vez às autoridades, mas nem um nem outro querem crer que o filho participou activamente nas atrocidades de que ouviram falar. Acham a pena de cinco anos de cadeia, da qual o casal entretanto recorreu, pesada demais. “Ele é culpado porque consentiu, foi cúmplice da companheira”, aponta a avó, que se recorda de a progenitora poupar na água que dava à criança para ela não fazer chichi. “Se ninguém tivesse feito nada a menina morria”, admite.

A menor continua hoje a ser seguida por uma psicóloga. “Sofreu muito. Aquilo que sabemos e aquilo que não sabemos”, diz a idosa, com a voz sumida. “Às vezes pergunta-me: ‘Ó avó, achas que sou bonita?”.

Embora as queixas de violência sobre crianças e jovens sejam mais frequentes na faixa etária entre os 11 e os 17 anos, quando se fala de maus tratos continuados isso muda: segundo um estudo da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima relativo aos anos de 2013-2015, que indica os progenitores como os principais agressores dos menores, a duração da vitimação continuada é maior entre os dois e os seis anos. Cerca de 25% das vítimas nessa faixa etária sofreram maus tratos de forma continuada, sobretudo psíquicos, mas nalguns casos também físicos.

 

 

V Jornadas Contra a Violência – 5 de maio em Santarém

Abril 4, 2017 às 6:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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mais informações:

http://apav.pt/jornadassantarem/index.php

Moçambique: meninos a quem a rua roubou a infância

Março 15, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do http://p3.publico.pt/ de 28 de fevereiro de 2017.

p3mariomacilau19

Ana Marques Maia

À semelhança das crianças que fotografou para o projecto “Growing in Darkness“, Mário Macilau foi um menino de rua em Maputo. Entre 2012 e o presente ano, o fotógrafo frequentou o espaço privado destas crianças, visitou as pontes e os prédios abandonados onde vivem e dormem. “São lugares muito escuros, húmidos e perigosos”, descreve, em entrevista ao P3. “Não existe água nem electricidade, nem qualquer tipo de comodidade ou apoio doméstico. São lugares eternamente provisórios.” Em Moçambique, as dificuldades económicas conduzem as famílias ao abandono das crianças ou à sua exploração como fonte de rendimento, o que leva à multiplicação de situações de exploração laboral, abandono escolar, desalojamento e, em consequência, a uma maior incidência de crimes e consumo de droga entre a população infantil. (A UNICEF faz um retrato da situação moçambicana num relatório que divulgou em 2014 no seu sítio oficial, que pode ser lido aqui.) “As crianças de rua estão frequentemente sujeitas a abusos, negligência, exploração ou, em casos extremos, a trabalho em fábricas e em mercados formais e informais”, explicou o fotógrafo moçambicano. “São lugares muito escuros, húmidos e perigosos. Não existe água nem electricidade, nem qualquer tipo de comodidade ou apoio doméstico. São lugares eternamente provisórios.” A entrevista com o fotógrafo pode ser lida integralmente aqui.

visualizar as fotos no link:

http://p3.publico.pt/cultura/exposicoes/23021/mocambique-meninos-quem-rua-roubou-infancia

Duas em cada três crianças sírias viram morrer um familiar ou um conhecido

Março 13, 2017 às 2:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do http://observador.pt/ de 7 de março de 2017.

LUSA

Duas em cada três crianças sírias presenciaram a morte violenta de um familiar ou de uma pessoa conhecida, revelou um estudo sobre os graves efeitos psicológicos provocados pela guerra na Síria.

Duas em cada três crianças sírias presenciaram a morte violenta de um familiar ou de uma pessoa conhecida, revelou um estudo divulgado, esta terça-feira, sobre os graves efeitos psicológicos provocados pela guerra na Síria.

O estudo, da responsabilidade da organização não-governamental Save the Children, ouviu o testemunho de mais de 450 crianças e adultos em sete das 14 regiões da Síria entre dezembro de 2016 e fevereiro de 2017.

O documento revelou dados qualificados como chocantes pelo diretor para a Cooperação Internacional e Ajuda Humanitária da Save the Children, David del Campo, e pelo psiquiatra sírio Nabil Sayed Ahmad, que divulgaram, esta terça-feira, o estudo na cidade espanhola de Sevilha.

Segundo David del Campo, o estudo revelou que duas em cada três crianças sírias presenciaram a morte violenta de um familiar ou de uma pessoa que conheciam, mas também mostrou que 84% dos adultos inquiridos e quase todas as crianças ouvidas descreveram os bombardeamentos contínuos e o fogo de artilharia como uma “banda sonora diária“.

Metade dos seis milhões de crianças sírias nunca ou raramente se sentem seguras na escola e muitas abandonaram as salas de aula. Cerca de 40% dos menores entrevistados confessaram que não se sentem seguros para brincar ao ar livre.

Os mesmos dados indicaram que cerca de 78% dos inquiridos afirmaram que sentem, quase de forma permanente, pena e uma tristeza extrema. Quase todos os adultos ouvidos (89%) indicaram que as crianças sírias estão mais nervosas e temerosas à medida que a guerra, que afeta aquele país há seis anos, persiste.

O psiquiatra sírio Nabil Sayed Ahmad destacou que o medo da guerra está a provocar casos de incontinência urinária entre as crianças, incluindo naquelas que têm mais de 14 anos. O especialista advertiu que este stress “tóxico” que está a afetar as crianças sírias pode ter efeitos irreversíveis.

Insónias, perda da fala, reações bruscas face a qualquer ruído inesperado ou irritabilidade e mau humor são outros dos efeitos identificados nas crianças sírias. Às vezes, e em casos de crianças sírias que chegam à Europa, estes sinais comportamentais são muitas vezes confundidos com uma falsa agressividade.

Não podemos parar uma guerra que pensávamos que iria durar, no máximo, um ano, uma vez que isso está nas mãos das grandes potências que estão a desenhar um novo mapa político da zona, mas podemos fazer alguma coisa (…) pelos refugiados, especialmente pelas crianças”, referiu o psiquiatra sírio.

A organização Save the Children apelou às fações envolvidas no conflito sírio para não usarem armas explosivas contra civis, nem para atacarem locais como escolas ou hospitais, porque estas situações são os principias motores da angústia e do medo das crianças sírias.

A entidade também pediu o fim “imediato” do cerco a cidades e defendeu o acesso das organizações não-governamentais humanitárias às zonas mais vulneráveis do país. A guerra na Síria já fez mais de 310.000 mortos e milhões de deslocados e refugiados.

O estudo citado na notícia é o seguinte:

Invisible wounds : impact of six years of war on the mental health of Syria’s children

 

Rota da Líbia é um inferno de violência para as crianças migrantes

Março 4, 2017 às 9:00 am | Publicado em Relatório | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.publico.pt/ de 28 de fevereiro de 2017.

Descarregar o relatório citado na notícia e documentos multimédia no link:

https://www.unicef.org/media/media_94941.html

Mamahba, um rapaz guineense de 17 anos, coberto com um cobertor térmico depois de uma operação de salvamento no Mediterrâneo, perto da costa líbia, no início de Fevereiro Reuters/GIORGOS MOUTAFIS

Mamahba, um rapaz guineense de 17 anos, coberto com um cobertor térmico depois de uma operação de salvamento no Mediterrâneo, perto da costa líbia, no início de Fevereiro Reuters/GIORGOS MOUTAFIS

Muitas são espancadas e violadas ao longo da viagem em busca de refúgio na Europa. Nos centros de detenção, a violência continua, alerta a UNICEF.

Kamis tem nove anos. Partiu com a sua mãe da Nigéria, atravessou o deserto de carro e foi resgatada no mar quando o bote em que seguia estava à deriva antes de ser confinada a um centro de detenção na cidade líbia de Sabratha, onde não havia praticamente água. “Eles costumavam bater-nos todos os dias. Batiam nos bebés, nas crianças e nos adultos”, contou Kamis. “Aquele lugar era muito triste. Não há lá nada.” Aza, a mãe, pagou 1400 dólares pela sua viagem e a dos filhos. Garante que desconhecia os riscos envolvidos, mas que voltar para trás não era uma opção. Enquanto esperavam no bote só pensava: “Fiz tudo isto pelos meus filhos e pelo seu futuro, não quero perdê-los. […] Se for eu, não faz mal [morrer], mas eles não.”

As denúncias das organizações são uma constante e o trabalho dos técnicos e voluntários no terreno incansável, mas os resultados continuam a ser diminutos. Para os milhares de crianças que atravessam o Mediterrâneo central todos os anos – em 2016 foram 26 mil, o dobro do ano anterior e nove em cada dez sem a companhia de um adulto – a viagem do país onde nasceram em direcção à Europa está carregada de perigos. E não é só no mar.

O mais recente relatório da Unicef, o Fundo das Nações Unidas para a Infância, divulgado esta terça-feira, concentra-se sobretudo nas dificuldades e privações que as crianças enfrentam em terra, em particular na Líbia, menos documentadas pelas agências, jornais e televisões internacionais.

O documento – A Deadly Journey for Children: The Central Mediterranean Migrantion Route – dá conta, por vezes em detalhes perturbadores, de histórias de violência, escravatura e abusos sexuais de que são alvo estas crianças extremamente vulneráveis que procuram chegar a Itália. Histórias que, na maioria das vezes, não denunciam por medo serem presas ou deportadas.

Por trás deste receio está também o facto de muitos dos agressores usarem uniforme. A avaliar pelos testemunhos das 122 mulheres e crianças ouvidas (82 mulheres e 40 menores), as fronteiras são particularmente perigosas. “A violência sexual está espalhada e é sistemática em zonas de cruzamento e em checkpoints”, garante o relatório.

Epicentro da violência

Pela sua posição geográfica – tem uma ampla costa mediterrânica e faz fronteira com a Tunísia, a Argélia, o Níger, o Chade, o Sudão e o Egipto – a Líbia tem servido de destino a muitos dos que procuram desesperadamente chegar à Europa e, por isso, tem vindo a transformar-se no epicentro desta violência extrema.

“Quase metade das mulheres e crianças entrevistadas [ao longo da preparação do relatório] foi vítima de abuso sexual durante a migração”, lê-se no documento. “E com frequência mais do que uma vez em mais do que um local.” Aproximadamente um terço admitiu ter sido alvo de algum tipo de violência na Líbia.

“Muitas destas crianças foram brutalizadas, violadas e mortas nesta rota”, disse à televisão pública britânica Justin Forsyth, vice-director executivo da Unicef, que neste novo relatório mapeia 34 centros de detenção na Líbia, três deles no interior do país, em zonas de deserto, a maioria geridos pelas entidades governamentais encarregues do combate às migrações ilegais. Nestes locais que podem chegar a ter sete mil pessoas a falta de água, de comida e de cuidados médicos é permanente, embora a situação seja ainda mais grave nos centros entregues a grupos armados e cujo número se desconhece.

Nestes centros entregues às milícias, os abusos são ainda mais recorrentes e o acesso que a eles têm a Unicef e outras organizações de auxílio aos migrantes e refugiados é muitíssimo mais diminuto.

Em 2016, mais de 180 mil pessoas passaram da Líbia para Itália, entre elas quase 26 mil crianças, a maioria a viajar sozinha. E a tendência é para que este número cresça, explica o vice-director executivo à BBC, porque a situação em países como a Eritreia, a Nigéria e a Gâmbia está a piorar.

Issaa, 14 anos, é dos que tentaram a sua sorte sem que um adulto o acompanhasse. “O meu pai juntou dinheiro para a minha viagem, desejou-me boa sorte e depois deixou-me ir”, disse aos técnicos encarregues do inquérito da Unicef. Isto aconteceu há dois anos e meio e este rapaz do Níger está hoje num centro líbio. Tudo o que Issaa quer é “atravessar o mar” e procurar trabalho para poder ajudar os cinco irmãos que ficaram em casa.

Nas mãos dos traficantes

Grande parte desta violência começa nos traficantes a quem os migrantes pagam para poder atravessar o deserto ou cruzar o Mediterrâneo. O negócio está entregue a criminosos que muitas vezes obrigam mulheres e crianças a prostituírem-se para pagarem as suas dívidas. Muitas das mulheres que chegam à Europa para entrar em redes de exploração sexual passam pela Líbia, diz o relatório. A situação instável em que o país vive torna muito difícil controlar este sistema que perpetua vários tipos de abuso e que parece estar completamente fora de controlo.

A Unicef está agora a pressionar todos os países, sobretudo a Líbia e os vizinhos, para que criem corredores de segurança para estas crianças em marcha, para que combatam o tráfico de seres humanos e para que promovam o registo de nascimentos nos seus países e a reunificação das famílias de migrantes e refugiados. Na agenda para a acção deste fundo das Nações Unidas está ainda a garantia de condições de acesso à educação e à saúde, o combate à xenofobia e à descriminação em países de trânsito ou de destino e, objectivo maior, a adopção de medidas capazes de minimizar as causas subjacentes aos movimentos de pessoas em larga escala.

“Quer sejam migrantes ou refugiados, vamos tratá-los como crianças”, pediu Forsyth em declarações à BBC.

Os números causam impacto. Em 2016, pelo menos 4579 pessoas perderam a vida entre a Líbia e Itália, na mais mortífera das rotas marítimas que ligam África à Europa. Mais de 700 eram crianças, lê-se no comunicado que a organização das Nações Unidas fez chegar às redacções.

“O percurso do Norte de África para a Europa através do Mediterrâneo central é uma das mais perigosas rotas migratórias para as crianças e as mulheres”, diz Afshan Khan, directora regional da Unicef e coordenadora especial para os refugiados e para a resposta à crise na Europa. “A rota é maioritariamente controlada por contrabandistas, traficantes e outros indivíduos que procuram aproveitar-se das crianças e mulheres desesperadas que apenas buscam refúgio ou uma vida melhor.”

De acordo com este que é o mais recente relatório da Unicef, três quartos dos entrevistados com menos de 18 anos (o que inclui até crianças com cinco anos, como Victor, que acabou por reencontrar a mãe que já julgava perdida) admitiram ter sido alvo de algum tipo de violência, assédio ou agressão por parte de adultos.

O documento mostra ainda que os migrantes da África subsariana têm tendência a ser mais mal tratados do que aqueles que são do Egipto ou do Médio Oriente. Will é um desses migrantes. Depois de perder os pais num naufrágio, o rapaz de oito anos nascido no Níger está hoje detido na Líbia: “Nós queríamos ir para Itália. Estávamos num barco. Passado um bocado o barco começou a meter água e pouco depois afundou”, recorda. “Houve um rapaz que sobreviveu e eu agarrei-me a ele durante horas. Ele salvou-me. Mas o meu pai e a minha mãe morreram. Nunca mais os vi.”

O que acontecerá a Will, Victor e Issaa? O que acontecerá às suas famílias? Kamis, a menina de nove anos com que começa este artigo, quer ser médica. Antes de saírem de casa a mãe disse-lhe: “Não te preocupes, quando chegarmos a Itália serás médica.” Aza ainda não pôde cumprir a promessa de Europa que fez à filha. Estão as duas num centro de detenção na Líbia.

 

 

 

Ucrânia: Um milhão de crianças precisa de ajuda urgente

Fevereiro 21, 2017 às 2:30 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia da http://www.tsf.pt/ de 20 de fevereiro de 2017.

alexander-ermochenko

LUSA/TSF

A UNICEF acusa o mundo de ter esquecido a guerra que há três anos devasta o leste da Ucrânia. O conflito está a deixar pelo menos um milhão de crianças em situação de emergência humanitária, estatística que representa o dobro dos números do ano passado.

Em comunicado, a UNICEF alerta que a situação se agravou devido aos confrontos constantes e à degradação rápida das condições de vida no leste do país. As crianças vivem sob ameaça permanente, as escolas estão destruídas, tiveram de abandonar as casas, não têm acesso a bens essenciais como água e aquecimento e estão permanentemente expostas a minas e outros engenhos explosivos. Pelo menos 12 mil vivem em localidades que são bombardeadas uma vez por mês.

A UNICEF quer que seja respeitada pelo menos a legislação humanitária internacional, incluindo o acesso a apoio humanitário sem restrições. A agência lançou um apelo para que se recolham pelo menos 30 milhões de euros para prestar apoio na saúde, nutrição, educação, água potável e saneamento, mas só conseguiu reunir cerca de 10% da quantia.

mais informações no comunicado de imprensa da Unicef:

O número de crianças ucranianas que precisam de ajuda quase duplicou relativamente ao ano passado

 

Educar sem magoar

Fevereiro 3, 2017 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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texto do http://www.noticiasmagazine.pt/ de 23 de janeiro de 2017.

A criança precisa de pais que sabem o que fazem. Não é por gritar mais alto que o seu filho vai fazer o que lhe pede – atitude gera atitude. Defina regras familiares e aplique-as, sem confundir firmeza com autoritarismo, humilhação ou agressividade.

A criança precisa de pais que sabem o que fazem. Não é por gritar mais alto que o seu filho vai fazer o que lhe pede – atitude gera atitude. Defina regras familiares e aplique-as, sem confundir firmeza com autoritarismo, humilhação ou agressividade.

 

Por: Ana Pago Ilustração: Filipa Viana/Who

Crianças: bater ou não bater? Para muitos, uma palmada pode ser pedagógica, para outros é inaceitável. A discussão sobre os limites da autoridade parental está acesa.

EM TODO O MUNDO, 80% DOS PAIS BATEM NOS FILHOS, GARANTE A UNICEF, EMBORA 49 PAÍSES PROÍBAM O CASTIGO CORPORAL SOBRE CRIANÇAS. EM PORTUGAL, É ILEGAL DESDE 2007. PARA MUITOS, UMA PALMADA NO RABO FAZ MILAGRES, MOSTRA QUEM MANDA. PARA OUTROS, UMA SÓ JÁ É DE MAIS. A DISCUSSÃO SOBRE OS LIMITES DA AUTORIDADE PARENTAL É ANTIGA, MAS CONTINUA ACESA.

O AMOR DE ISABEL SANTOS pelo único filho deixa-a perplexa. Só desejava tê-lo sempre sob a asa. Vê-lo crescer feliz até se fazer um bom homem, o melhor dos pais quando chegar a vez dele. Se possível, com menos dúvidas do que ela. «Uma coisa que me pesa na alma foi ter usado piripíri há uns dois anos, tinha o Filipe 4, para acabar com aquela mania de ele dizer asneiras», conta, pesarosa. Começou de repente e era em todo o lado. Pai e mãe tentaram tudo: ignorar, dialogar, explicar, castigar, suplicar. Perceber de onde vinham os palavrões e a razão de dize-los (nunca souberam). Um dia, o desespero falou. «Chamou-me pe-u-te-a e pus-lhe uma gota de picante na língua. Chorámos os dois! Senti-me um monstro ao magoar a pessoa que mais amo no mundo.» Certo é que resolveu quando tudo o resto falhou e uma pergunta ficou-lhe desde então: será a autoridade parental uma forma de bullying?

«Define-se bullying como a prática continuada de uma agressão física, verbal e/ou escrita que tenha como objetivo rebaixar o outro. Se há casos destes nas relações familiares? Claro que há», alerta Magda Gomes Dias, formadora nas áreas comportamentais e comunicacionais, conhecida entre os pais pelo blogue Mum’s the boss e o site Parentalidade Positiva. Existem educadores que humilham os miúdos por acharem que eles mudam assim, e aí o objetivo final não é a criança sentir-se aviltada, mas mal ao ponto de querer modificar-se – por exemplo, dizer a uma gordinha «Tu já te viste bem? Tens de emagrecer, se não o fizeres vais ser a gorda da sala». Acontece que esta forma de comunicar com os filhos, e que muitas vezes tem a tal intenção positiva de provocar mudança pela dor, fica marcada na memória da criança, garante.

Ficou na de Patrícia Ribeiro, que aos 37 anos continua a ouvir a voz do pai a chamar-lhe desajeitada. «Fui sempre boa aluna, responsável, educada, mas isso era dado adquirido e, portanto, não elogiado. Por outro lado, repisava o facto de eu ser tímida e trapalhona como se quisesse arrancar essa parte de mim à força», recorda com amargura. Se partia algo (e acontece-lhe muito, parece sina), ouvia um «És mesmo desastrada, não fazes nada de jeito». Se se refugiava no quarto a ler, lá vinha a ripada: «Não vais a lado nenhum a ser bicho-do-mato.» Eram umas atrás das outras, atrás das outras. «Aquelas palavras feriam-me tanto como as tareias que nunca apanhei. Adoro o meu pai, a sério que sim. Teve uma infância difícil, sei que só quer o meu bem.» Apesar disso, desconfia que as crises de angústia e falta de autoestima vêm todas dali.

«A criança acredita no que lhe diz o adulto, que supostamente é aquele que zela pela sua segurança. Acredita porque ele é mais poderoso, maior, sabe mais, conhece-a bem. E se diz que ela é tudo aquilo… se calhar até é», traduz Magda Gomes Dias. Ao mesmo tempo, percebe que muitos pais não sabem fazer diferente nem se dão conta do impacto negativo destes métodos, supondo ser isso que vai tornar os filhos mais fortes. «Se o castigo funciona? Claro que funciona. Se a palmada funciona? Então não? E os berros? Parece que sim. Porém, a médio prazo, não resultam, e aqui está o problema.» É tudo uma questão de comunicação e vínculo familiar. «Com a palmada e o castigo agimos em cima da situação mas, ora bolas, nós somos os pais! Precisamos de orientar, liderar, acompanhar. Se a criança fez mal, vamos mostrar-lhe como se faz de outra maneira.»

EDUCAR DÁ MESMO MUITO TRABALHO, acentua o neuropsicólogo Luís Maia, autor do livro Educar Sem Bater. «É o maior desafio na vida de um pai: como levar uma criança desde o berço à idade adulta, promovendo a sua adequação? Como ajudá-la a ser feliz e solidária? Não é de certeza com palmadinhas, insultos e castigos.» Melhor seria se os pais adotassem um estilo relacional em que o despotismo fosse substituído por respeito. «Não aceitamos que ninguém nos trate de modo autoritário, mas depois esquecemos que as crianças também não aceitam a autoridade por si só. Tornamo-nos tiranos a exigir submissão», diz, sublinhando que é muito mais eficaz ser-se assertivo, sem esperar que o funcionamento familiar entre em colapso, do que passivo ou agressivo.

Maria Silva, de 60 anos, concorda com esta postura positiva. Sempre procurou alternativas a bater na filha Alexandra, hoje com 34 e mãe de dois filhos. Nunca achou que um abanão pudesse mais que o diálogo, ou que humilhar a criança a chamasse à razão. Ainda assim, admite ter aplicado «duas ou três palmetas» em desespero de causa. «Não me orgulho, mas houve alturas em que ela nem me ouvia, tal era a birra. Bati-lhe quando já nada surtia efeito e eu estava passada.» Lembra-se como se fosse hoje de uma dessas zangas, teria Alexa uns 4 ou 5 anos: Maria foi buscá-la a casa da tia que cuidava dela após a escola e a filha teimou em levar a boneca da prima sem deixar a sua. «Disse-lhe que tinha de emprestar também, não podia ser egoísta, e ela atirou-se para o chão a espernear, aos berros. Parecia um touro enraivecido.»

Esgotada a diplomacia, de cabeça perdida, a mãe deu-lhe duas palmadas no rabo, tirou-lhe ambas as bonecas e enfiou-a no elevador. «Nunca mais fez outra cena daquelas. Mais tarde abraçámo-nos, pedimos desculpas. Mas na hora saltou-me a tampa.» Alexandra ri-se a ouvir a mãe contar a história: «Lembro-me muito vagamente, para ver como fiquei traumatizada.» Ela própria distribuiu algumas palmadas pelos filhos de 11 e 5 anos, das que não pesam mas indicam estarem a passar dos limites. «Ao mais velho já não bato, prefiro negociar com as coisas de que gosta consoante a gravidade das faltas. A ela dei-lhe uma nalgada o mês passado. Apanhei-a a mergulhar do móvel da sala para o sofá, depois de a avisar não sei quantas vezes que era perigoso. Reagi por medo.»

Segundo o pediatra Mário Cordeiro, «tudo o que seja exagero e culpabilize pais que estão a tentar educar é absurdo». Se uma criança de 3 anos fica possessa, a atirar comida ao chão ou a usar toda a sua força para não ir para a cadeira do carro, duvida que falinhas mansas resultem. Uma coisa é a teoria, outra a prática, e o ótimo é inimigo do bom, diz. «Um enxota-moscas na mão ou na fralda, apenas para limitar aquela mão teimosa que parece surda a outros argumentos, não me parece nada de especial.» Muito diferente de humilhar, em que não se entende a visão da criança ou o exercício de poder perverso. «Tudo o que seja desproporcional, cause dor e seja na cara – bofetadas e puxões de cabelo ou orelhas – é altamente violento porque mexe com a identidade (o rosto), é sádico e dói, no corpo e na alma. É disso que os adultos se lembram como castigos traumáticos, tal como fechar num quarto escuro. São maus-tratos.»

A terapeuta infantil brasileira Denise Dias não só é a favor da palmada pedagógica, caso as demais abordagens falhem, como em 2011 escreveu o livro Tapa na Bunda (Editora Matrix), explicando como impor regras e estabelecer um relacionamento sadio com as crianças em tempos politicamente corretos. «Algumas testam incansavelmente os pais. Quando já as chamámos à atenção, já as pusemos de castigo e mesmo assim continuam, estão a pedir uma palmada como limite.» A polémica estalou, como sempre que se fala deste assunto, porém Denise não desarma: «Um tapinha na bunda não dói tanto como um tapa na cara que os pais podem levar do filho quando este for adolescente.» O próprio Papa Francisco declarou em 2015, na audiência geral no Vaticano sobre o papel do pai na família, que uma palmada de vez em quando não faz mal, desde que nunca no rosto para não humilhar.

«QUEIXAMO-NOS DOS NOSSOS FILHOS, mas fomos criados com base numa disciplina agressiva (física e não só) e agora, como pais, confundimos autoritarismo com respeito», discorda o psicoterapeuta Luís Maia. Castigar mostra à criança o que não pode fazer, não o que pode e como deve fazê-lo. Daí preferir a noção de consequência: se um filho nosso não estudou nesse dia, janta, vai para o quarto sem telemóvel, e no dia seguinte ajudamo-lo a fazer melhor. «Tem de ser imediata e justa, para ele entender que o responsabilizamos por aquela conduta e não por todas as frustrações acumuladas.» Como clínico, constata que na maioria dos casos de pais que se apresentam como agressores, denunciados às Comissões de Proteção de Crianças e Jovens (CPCJ) ou diretamente às autoridades policiais e judiciais, estes «começaram com comportamentos “mais aceitáveis” – pequenas bofetadas, puxões de orelhas, etc. – que acabaram em fortes castigos físicos».

E quando os pais reagem em resposta a comportamentos de loucura dos filhos? «Deixaram de poder intervir na sua própria casa, mesmo se em legítima defesa?», questiona uma tia indignada, a pedir anonimato por aguardar que o irmão seja julgado por violência doméstica. A história, dramática, conta-se em poucas linhas: um pai deu um empurrão / ameaçou o filho de 14 anos / arremessou-lhe um objeto no calor do momento, nas circunstâncias em que ele deu socos à mãe / apertou o pescoço à irmã / correu atrás do pai com uma faca. O jovem pediu ao pai ténis de marca, telemóveis, que o deixasse ter uma mota – coisas que o pai recusou. E então o filho avisou-o de que se não fizesse o que ele queria, iria queixar-se de maus-tratos à psicóloga da escola para ele ser preso. Meu dito, meu feito.

«Aos miúdos é-lhes dada a possibilidade de se defenderem, acho ótimo. A lei está a ser cumprida e eu não sou contra a lei. Mas e quem ajuda estes pais?», clama a tia, cansada das mentiras com que o sobrinho manipula o quadro a seu favor, distorcendo os factos. «O meu irmão nunca fez queixa à polícia da violência do filho, por ser filho. Às tantas reagiu por defesa, não como ataque, e tomam-no por agressor.» A tia tem consciência da falta de meios das CPCJ, que dificultam o acompanhamento integrado de cada processo (só em 2015 foram 73 355). O próprio Armando Leandro, presidente da Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Proteção das Crianças e Jovens, aponta a «manifesta dificuldade em levar a bom termo as suas responsabilidades». Seja como for, há que contextualizar caso a caso, em vez de meter todas as denúncias no mesmo saco. «Se fosse com um filho meu, era eu quem lhe batia», acrescenta a tia. «Que me prendessem à vontade, desde que ele percebesse que não ia repetir.»

ÀS VEZES TEMOS A SENSAÇÃO de que apenas a palmada resolve o problema no imediato, mas nunca é solução, avisa Luís Maia. Mesmo os educadores que as levaram, e até consideram que mereceram, devem admitir outras formas de ensinar à luz do que demonstram estudos recentes – há vários a relacionar a punição corporal e psicológica com falhas no desenvolvimento intelectual, atitudes irascíveis, aceitação da violência como forma de lidar com os outros, falta de autoconfiança e de amor-próprio, insegurança. «Porque é que não se dá uma “boa palmada” de vez em quando a um idoso que está ao nosso cuidado e parece fazer de propósito ao sujar a casa de banho?», questiona o neuropsicólogo. «Ou a esposa não a dá ao marido para aprender a respeitar os compromissos maritais? Isso é violência doméstica! É crime, inaceitável.»

Dados da UNICEF revelam que 80 por cento dos pais batem nos filhos em todo o mundo, embora 49 países proíbam já o castigo corporal sobre crianças. Em Portugal, a prática é ilegal desde 2007 e punida pelo art.º 152 do Código Penal. Em França, pelo contrário, aceita-se o corretivo pedagógico (estaladas incluídas), apesar de em 2015 o Conselho da Europa a ter pressionado no sentido de criar uma lei que proteja os menores da punição física. «Em princípio, um adulto tem mais experiência, melhor controlo emocional e mais argumentos para explicar e convencer do que uma criança, pelo que não deve precisar de recorrer à agressão», sublinha a psicóloga educacional Eva Delgado-Martins, especialista em infância e resolução de conflitos. «Se a violência entre adultos não é aceitável na sociedade em que vivemos, não parece razoável admiti-la nas relações com os nossos filhos.»

Os pais devem sancionar só em último caso, se o diálogo foi tentado sem sucesso, e mostrar que o fazem com mágoa porque a criança não lhes deu alternativa. Tão ou mais importante que negociar são ainda os comportamentos espontâneos no dia-a-dia. «Muitas vezes eles nem se apercebem, mas funcionam como modelos para os filhos conforme são, ou não, coerentes com o que ensinam», salienta a psicóloga, para quem educar é um ato de amor firme. Mesmo aborrecidos, diz, os pais devem controlar a sua agressividade. «Devem traçar limites e enunciar regras. Dizer não é fundamental.»

Magda Gomes Dias concorda que a falta de princípios magoa tanto como a punição: «Uma criança a quem deixam fazer tudo não se sente amada. Cresce sem se saber orientar no mundo. Torna-se incapaz de olhar para o outro, e isso é uma tragédia tão grande como tudo o resto.» Já Abraham Lincoln, presidente dos EUA e humanista, dizia que a mão que embala o berço é a mão que governa o mundo. E essa é a nossa mão.

 

LEITURAS OBRIGATÓRIAS

Berra-me Baixo

Magda Gomes Dias

Manuscrito Editora

2016

Crianças Felizes

Magda Gomes Dias

A Esfera dos Livros.

2015

Family Coaching

Sandra Belo e Ângela Coelho

Texto Editora

2016

Pais à Maneira Dinamarquesa

Jessica Joelle Alexander e Iben Sandahl

Arena

2016

Disciplina sem Dramas

Daniel J. Siegel e Tina Payne Bryson

Lua de Papel

2015

Pais Conscientes – Educar para Crescer

Shefali Tsabary

Pergaminho

2015

Educar com Amor

Mário Cordeiro

A Esfera dos Livros

2014

E Tudo Começa no Berço!

Luís Maia

Pactor Editora

2012

Educar sem Bater

Luís Maia

Pactor Editora

2011

Conversas com Pais

Eva Delgado-Martins

Editorial Caminho

2013

Educar sem Gritar

Guillermo Ballenato

A Esfera dos Livros

2009

O Pequeno Ditador

Javier Urra

A Esfera dos Livros

2007

 

 

 

 

Vídeo da Unicef chama a atenção para o pesadelo que uma em cada quatro crianças está a viver

Dezembro 21, 2016 às 8:00 pm | Publicado em Vídeos | Deixe um comentário
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texto da http://sicnoticias.sapo.pt/de 15 de dezembro de 2016.

O vídeo tornou-se viral, nas redes sociais, e ilustra o pesadelo em que vivem 500 milhões de crianças. São crianças de Alepo (Síria), Mossul (Iraque), Iémen, Sudão do Sul, Nigéria (nordeste), Haiti. A maioria (393 milhões) é da Africa Subsariana. Todos os dias enfrentam os horrores da guerra, de conflitos e catástrofes. “Uma em cada quatro crianças estão a viver um pesadelo” é o nome da campanha.

Segundo a Unicef:
– Na Síria mais de 500 mil crianças vivem sem acesso a ajuda humanitária;
– No nordeste da Nigéria há 1,8 milhões de deslocados, 1 milhão são crianças;
– No Afeganistão metade das crianças em idade escolar não frequenta a escola;
– Conflito no Iémen afeta perto de 10 milhões de crianças;
– No Sul do Sudão 59% das crianças em idade primária estão fora da escola e 1 em cada 3 escolas está fechada em áreas afetadas por conflitos;
– No Haiti, dois meses depois do furação Matthew, mais de 90 mil crianças com menos de 5 anos continuam a precisar de assistência.

 

Mais de 530 milhões de crianças vivem em países afetados por conflitos ou catástrofes

Dezembro 18, 2016 às 1:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia da http://sicnoticias.sapo.pt/ de 9 de dezembro de 2016.

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Crianças vítimas dos bombardeamentos na cidade síria de Alepo. © Abdalrhman Ismail / Reuters

Cerca de 535 milhões de crianças, quase uma em cada quatro, vivem em países afetados por conflitos ou catástrofes muitas vezes sem acesso a cuidados médicos, educação de qualidade, nutrição e proteção adequada, divulgou hoje a UNICEF.

Na África Subsaariana vivem perto de três quartos, 393 milhões, do total de crianças que vivem em países afetados por situações de emergência, a que se segue o Médio Oriente e o norte de África, onde residem 12% destas crianças, indicou o Fundo das Nações Unidas para a Infância.

Os novos dados serão divulgados no domingo pela UNICEF, data em que a organização assinala 70 anos de trabalho sem interrupção nos lugares mais difíceis do mundo para levar ajuda vital, apoio a longo prazo e esperança às crianças cujas vidas e futuros são ameaçados por conflitos, situações de emergência, pela pobreza, pelas desigualdades e pela discriminação.

O documento, “For Every Child, Hope — UNICEF@70: 1946-2016”, faz ainda uma retrospetiva do trabalho da organização.

Segundo o organismo da ONU, o impacto dos conflitos, das catástrofes naturais e das alterações climáticas estão a obrigar as crianças a abandonar as suas casas, a encurralá-las por detrás de linhas de confrontos e em risco de doenças, violência e exploração.

Perto de 50 milhões de crianças foram deslocadas, das quais mais de metade foram forçadas a abandonar as suas casas devido a conflitos.

Com a escalada da violência na Síria, o número de crianças que permanece em zonas sob cerco duplicou em menos de um ano, referiu a organização.

De acordo com a UNICEF, cerca de 500.000 crianças vivem atualmente em 16 zonas sob cerco no país, praticamente sem acesso a ajuda humanitária sustentada e serviços básicos.

No nordeste da Nigéria, perto de 1,8 milhões de pessoas estão deslocadas, das quais quase um milhão são crianças e no Afeganistão, cerca de metade das crianças em idade escolar primária não têm acesso à educação.

No Iémen, quase 10 milhões de crianças vivem em zonas afetadas pelo conflito e no Sudão do Sul, 59% das crianças em idade escolar primária estão fora da escola e uma em cada três escolas em zonas de conflito estão encerradas.

Mais de dois meses depois de o furação Matthew ter atingido o Haiti, mais de 90.000 crianças menores de cinco anos continuam a precisar de assistência.

As situações de emergência que as crianças mais vulneráveis enfrentam atualmente ameaçam comprometer os muitos progressos alcançados nas últimas décadas.

Desde 1990, o número de crianças que morrem antes dos cinco anos diminuiu para metade e centenas de milhões de crianças foram retiradas da pobreza.

As taxas de crianças em idade escolar primária sem acesso à educação diminuíram mais de 40% entre 1990 e 2014.

Em 2015, no mundo, a entidade e os seus parceiros trataram 2,9 milhões de crianças com subnutrição aguda grave.

Lusa

 Descarregar For Every Child, Hope: UNICEF @ 70, 1946–2016 , no link:

https://www.unicef.org/publications/index_93308.html

 

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