Bater nos filhos aumenta risco de doença na idade adulta

Abril 16, 2019 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do Jornal de Notícias de 28 de março de 2019.

E nunca mais ninguém chumbou

Dezembro 11, 2018 às 9:50 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de João André Costa publicado no Público de 26 de novembro de 2018.

João André Costa

É professor e criou o blogue Dar aulas em Inglaterra

Ainda bem que hoje se movem mundos e fundos para que o aluno não chumbe. Esta foi a nossa aprendizagem: acabar com o medo, o castigo e a consequência, pois só na ausência do medo pode crescer o gosto e interesse pelo saber, um dia de cada vez, um aluno de cada vez.

Quem não se lembra das reguadas? Eu lembro-me, ainda me dói a mão e ainda hoje não sei muito bem o porquê das reguadas, tantas reguadas. Talvez porque à professora, a Dona Clarisse, lhe apetecesse. Talvez porque a Dona Clarisse podia bater e exercer esse poder com a plena concordância dos pais num contexto social de consenso onde os mais fortes, os adultos, desancavam sem apelo nem agravo nos mais fracos, as crianças.

Convenhamos, fomos educados, criados e crescidos num sistema educativo baseado no castigo, nas consequências, no medo, na represália, através de castigos corporais e humilhações públicas onde os menos resilientes não tinham outra solução senão chumbar e repetir o ano.

Sim, quando um aluno não sabia o suficiente para passar de ano, o aluno tinha de repetir tudo, outra vez. Chumbar era o castigo máximo, a vergonha para os pais e para o aluno e o falatório da rua, do café, nas compras, o atestado maior de burrice numa escola onde quem não empina livros inteiros não passa. E aqui estamos nós outra vez em Setembro, como se o tempo não tivesse passado, mas passou, o corpo está maior, mais velho, e os colegas de carteira parecem umas crianças. E são.

Foi o caso do Pedro. O Pedro era, e é, um ano mais velho. Esteve na turma do meu amigo Marco, chumbou e passou para a minha turma e depois voltou a chumbar e passou para a turma da minha irmã.

O pai do Pedro bebia e batia e a mãe do Pedro estava desempregada e sujeitava-se. O Pedro de vez em quando lá levava umas lambadas de tabela e depois na escola não havia quem o aguentasse. Mas disto os professores não queriam saber. O que os professores queriam saber era se o Pedro sabia ou não. E como o Pedro tinha mais com que se preocupar, a começar desde logo pela fome de quem todas as manhãs não toma o pequeno-almoço e a certeza do almoço na escola como a única refeição do dia, o nosso amigo Pedro mandava a escola, as aulas e os professores bugiar, que é para não dizer outra coisa.

Conclusão: o Pedro chumbou uma, duas, no fim três vezes, sempre no mesmo ano, até que os pais se separaram e o Pedro foi viver com a mãe para casa dos avós. Acham que o Pedro aprendeu alguma coisa ao chumbar? Terá o Pedro memorizado tudo o que havia para aprender naqueles anos de repetente? Será que repetir a matéria uma, duas, três, mil vezes faz com que o aluno aprenda? A resposta é óbvia. Como o tempo passou, as crianças que ontem levavam reguadas e chumbavam entretanto cresceram e tomaram conta dos hospitais, das empresas, dos governos e ministérios, tomaram conta das escolas.

Por isso, a ausência de castigos corporais na escola de hoje. Ao invés movem-se mundos e fundos para que o aluno não chumbe, criando programas de apoio, falando com os pais, querendo conhecer a realidade social de cada aluno. A escola acaba por sair para a rua e estender o braço no sentido de um futuro melhor, digno, para as nossas crianças. A escola já não vive dentro de quatro paredes, está viva e desperta para a realidade em redor e a realidade não vem nos livros.

Esta foi a nossa aprendizagem: acabar com o medo, o castigo e a consequência, pois só na ausência do medo pode crescer o gosto e interesse pelo saber, um dia de cada vez, um aluno de cada vez.

Quanto à régua da Dona Clarisse, acabou por se partir em mais um ataque de fúria para grande alívio de todas as crianças, este que vos escreve incluído, e nunca mais ninguém chumbou.

 

 

 

Parlamento francês aprova lei contra palmadas às crianças

Dezembro 3, 2018 às 2:12 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 30 de novembro de 2018.

O Parlamento francês deu os primeiros passos contra a “violência educativa” na noite de quinta-feira, ao aprovar uma proposta de lei sobre o tema. Com 51 votos a favor, um contra e três abstenções, o debate controverso sobre a violência contra as crianças foi reaberto na Assembleia Nacional.

A proposta de lei, lançada pelo Movimento Democrático (MoDem, centrista, que apoia o Governo), tem apenas dois artigos, ligeiramente diferentes dos discutidos no dia 21 de Novembro, quando a medida foi apresentada pela primeira vez:

  • Os pais “não podem usar violência física ou psicológica” contra os seus filhos no exercício da sua autoridade parental;
  • O Governo deve promover uma “política de sensibilização, apoio, acompanhamento e de formação à parentalidade, destinada aos futuros pais”, diz o texto.

Contudo, esta medida não tem como objectivo a aplicação de novas sanções penais, que já existem, mas sim uma “visão pedagógica”. De acordo com dados da organização Fondation pour l’Enfance, 85% dos pais franceses batem nos seus filhos, na alçada da “violência educativa”. A proposta do MoDem pede, assim, que o Governo faça uma “análise situacional” antes de Setembro de 2019.

Não se educa através do medo”, disse a ministra da Saúde, Agnès Buzyn, que mostrou o seu apoio à proposta de lei. Para Buzyn, esta violência, “supostamente educativa”, tem “consequências desastrosas no desenvolvimento das crianças”. Ainda que caiba aos pais o papel principal na educação das crianças, “o Estado tem como missão proteger a dignidade e a integridade” das mesmas, defendeu a ministra.

Um dos votos de abstenção veio do único representante do partido Os Republicanos presente, Raphaël Schellenberger. O político de direita disse que a proposta tinha “boas intenções”, mas que não passava de “algo simbólico”, em contacto com “um dispositivo que afirma ser de supervisão”.

Nesta linha de pensamento, a deputada da União Nacional Emmanuelle Ménard, a única a votar contra a medida, sublinhou haver um risco de o Governo estar a “privar os pais das suas prerrogativas”. Para além disso, acrescentou que o texto encarava “os franceses como se fossem imbecis”.

A aprovação da proposta no Senado significa que o país se tornaria o 55º a declarar formalmente a proibição de castigos corporais e psicológicos nas crianças, segundo o previsto na Iniciativa Mundial para Pôr Ponto final aos Castigos Corporais. Em Portugal também não são permitidos.

A França foi sancionada várias vezes por não estar em conformidade com as leis internacionais. Em 2015, foi repreendida pelo Conselho da Europa, e no ano seguinte pelo Comité de Direitos das Crianças da ONU, por exemplo. Depois de várias tentativas sem sucesso, foi incluída uma medida semelhante na lei que se refere à igualdade e à cidadania, censurada em Janeiro de 2017 por não ter relação com o projecto de lei em causa.

 

 

Palmada para educar? Nunca – Notícia da Sábado com declarações de Manuel Coutinho do IAC

Novembro 13, 2018 às 1:30 pm | Publicado em O IAC na comunicação social | Deixe um comentário
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Sábado

Notícia com declarações do Dr. Manuel Coutinho (Secretário–Geral do Instituto de Apoio à Criança e Coordenador do Sector SOS-Criança do Instituto de Apoio à Criança).

Notícia e imagem da Sábado de 13 de novembro de 2018.

por Maria Espírito Santo

A Academia Americana de Pediatria reforça a recomendação: os pais não devem bater nos filhos. Especialistas portugueses concordam.

A palmada, mesmo leve e sem implicar dor física, não deve fazer parte do modelo educativo. Quem o defende é a Academia Americana de Pediatria, reconhecida associação que promove a saúde e bem-estar das crianças. “Só ensina comportamentos agressivos e torna-se ineficaz quando usada regularmente. Em substituição, use time out para crianças mais novas. Discipline crianças mais velhas ao temporariamente lhes tirar os privilégios favoritos como actividades desportivas ou brincar com amigos”, continua a academia em comunicado ao público. Em Dezembro vão publicar novas recomendações para os pais no Pediatrics, publicação oficial da academia.

O conjunto de especialistas alerta para o impacto que estas agressões têm. Além fragilizar a relação entre pais e filhos pode ter consequências a longo prazo – a criança no futuro poderá replicar essa agressividade. “A cultura da violência é uma cultura que frequentemente tem passado de pais para filhos porque os filhos imitam o comportamento dos pais”, lembra o psicólogo Manuel Coutinho à SÁBADO. O coordenador da linha SOS Criança e secretário-geral do Instituto de Apoio à Criança concorda com as indicações que chegam da associação de pediatras.

Nenhuma agressão física, mesmo a mais leve, deve ser considerada válida para educar. Para perceber o porquê, basta fazer um exercício muito simples, defende Manuel Coutinho: “Ora imagine que estamos no trabalho e o nosso chefe, para marcar uma posição, dá uma palmada leve… é que se calçarmos o sapato dos outros se calhar percebemos melhor aquilo que sentem.”

O especialista coloca o assunto em cima da mesa, diz que é preciso desconstruí-lo: “Então vamos definir: a partir de que idade podemos fazê-lo, com que força, em que local, em que parte do corpo, com que frequência? Se virarmos tudo ao contrário percebemos como é absurdo bater para educar.” E alerta para os acidentes que podem acontecer quando estas punições se banalizam: como crianças que acabam por lesões na coluna porque os pais as elevam por um braço, para dar açoites.

Isabel Pina, psicóloga, explica que podemos olhar para o tema pesando vantagens e desvantagens. As técnicas parentais mais punitivas são eficazes a curto prazo: “A criança reage à agressão e se calhar pára de fazer aquilo que não concordamos. Mas reage por medo, não compreende nada.” Logo, a longo prazo não é eficaz. Há ainda a questão da dessensibilização: “A criança começa a habituar-se, [a palmada] deixa de fazer efeito e entramos numa escalada de comportamentos punitivos. Podemos, até, cair no âmbito dos maus-tratos.”

É inevitável. Por vezes, entre esperneios, gritaria, palavras feias e lágrimas, um pai ou mãe perdem a cabeça: sai uma palmada, um puxão de orelhas ou um grito. Os momentos de muita tensão podem conduzir a comportamentos que não são adequados. Mas, em princípio (e considerando que são excepções), há sempre tempo de repensar e refazer o modelo educativo. Não vale a pena chorar sobre o leite derramado, diz Manuel Coutinho: “Se a situação já aconteceu, os pais têm de garantir que não volta a acontecer.”

Outras tácticas

Então qual é a melhor forma de lidar com birras monumentais? Há várias sugestões a seguir. Manuel Coutinho recomenda um método de distância-aproximação. “Perante a birra de uma criança primeiro é tentar não acalmá-la, ignorar ao máximo a situação. E quanto mais alto gritar ou espernear, mais ignorar – mas com vigilância. Depois é desviar o foco, pegar ao colo e dar-lhe o que todos nós precisamos, um abraço.”

Colocar no lugar do outro continua a ser a melhor estratégia:”Temos de perceber que as crianças não fazem birras para aborrecer os adultos, é para testarem os seus limites, porque estão tristes, irritadas, angustiadas. Estão a aprender a lidar com as emoções.” Faz uma pausa para concluir: “Os adultos têm de ser os contentores das angústias das crianças – e não os potenciadores.”

Pode, até, criar-se em casa um espaço da calma – com mantas e almofadas, por exemplo – para onde a criança pode ir quando se sentir frustrada ou triste, aconselha a psicóloga Isabel Pina. “Podemos dizer: ‘É o espaço para onde vais se estiveres nervoso, pensares em coisas que podias ter feito diferente. Depois, em conjunto, vamos reflectir.’”

Perante uma birra ou um comportamento errado, é importante primeiro reconhecer os sentimentos da criança: dizer algo como “Percebo que estejas triste ou zangado mas eu não vou permitir que te comportes dessa forma”, sugere a psicóloga Isabel Pina. Depois, é preciso aplicar uma consequência. Se, por exemplo, a criança parte um brinquedo de forma propositada, a consequência pode ser o brinquedo ir para o lixo (e não se reparar ou comprar outro) ou, numa criança mais velha, retirar uma quantia à sua mesada.

Não tenha receio de terminar com “O que achas?” Envolver os miúdos nas suas próprias consequências é uma boa ideia, garante a especialista, de forma a reforçar a responsabilidade. O adulto pode e deve, ainda, dar sugestões para que a criança aprenda a controlar as suas emoções: “Da próxima vez podes contar até dez, podes ir deitar-te na cama e respirar fundo até o teu coração ficar mais calmo.”

Cada caso é um caso – tal como cada criança, pai, mãe, família. Não há fórmulas universais. No final de contas é fundamental utilizar o bom senso e encontrar um equilíbrio, defende Isabel Pina. “Também não faço a apologia da permissividade. As práticas punitivas não são adequadas mas é importante que os pais afirmem a autoridade. Não podemos criar reis que acham que podem fazer aquilo que quiserem.”

 

 

Conferência Hands Up “Time for Insights into Children’s Rights” 25 setembro no Porto

Setembro 20, 2018 às 9:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Mais informações nos links:

http://www.direito.porto.ucp.pt/pt/central-eventos/conferencia-hands-time-insights-childrens-rights

https://www.facebook.com/events/287406118707013/

 

6 Razões para não bater no seu filho

Maio 14, 2018 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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imagem retirada do Psiconlinebrasil:

 

Inauguração da Exposição “Bem Me Quer” dia 21 de Abril no Porto

Abril 20, 2018 às 10:02 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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No âmbito do Projeto Hands Up, irá acontecer este mês de Abril, uma Exposição de Ilustrações dinamizada pelo GIS – APDES, alusiva ao tema da Parentalidade.

Esta iniciativa também se insere nos eventos de Abril: Mês de Prevenção de Maus Tratos na Infância.

Aqui fica o nosso convite para si e esperamos poder contar consigo na Inauguração da Exposição “Bem Me Quer”  no dia 21 de Abril pelas 16:30  na Salta Folhinhas –  Livraria Infantil no Porto.

GIS – Gabinete de Intervenção em Saúde

Health Intervention Department

gis@apdes.pt | facebook

Hands UP – Promover a eliminação de Castigos Corporais a Crianças

www.handsupchildren.org

APDES | Agência Piaget para o Desenvolvimento

Arcozelo, Vila Nova de Gaia – Portugal

+351·227·531·106/7| M. +351·962 217 751

website | facebook | linkedin | twitter | youtube

Bater: num adulto é agressão, num animal é crueldade, numa criança é educação…?

Janeiro 29, 2018 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do site http://uptokids.pt/

Ser pai e ser filho, dois desafios tão diferentes

“Aos pais se pede tanto, e se lhes dá tão pouco.” Se estas palavras da psicoterapeuta familiar Virginia Satir eram verdadeiras na década de 80, continuam tão ou mais válidas nos dias de hoje. Aos pais pede-se­ corpo e alma na educação dos filhos, mesmo quando o corpo se desdobra e dá de si e a alma, essa essência de estar vivo, é estar vivo para os filhos e pouco mais. Do lado dos filhos, um dos grandes desafios é o aprender formas saudáveis de socializar, de estar em relação com os outros, na existência de regras e limites e, em simultâneo, afeto. Uma coisa é certa: existem tantas formas de se ser mãe ou pai, quanto de se ser filho ou filha. Não existe apenas uma correta, mas existem formas de relação positivas entre pais e filhos que promovem um crescimento individual e relacional, outras não tão positivas e que acabam por trazer mais preocupações, mais dificuldades na gestão dos comportamentos e do reconhecimento da autoridade dos pais. A autoridade, aquela que se reconhece e não a que se impõe, tem sido um dos desafios com os quais muitos pais lidam, já que também eles trazem modelos das gerações anteriores, uns mais bem-sucedidos do que outros. A questão mantém­-se: é possível mostrar aos filhos os limites e regras com que se vive as relações humanas sem, no entanto, recorrer à punição física?

O que sabemos sobre os efeitos da Punição Física na criança e nos pais?

“Os meus pais também me bateram quando era pequeno, e no entanto tanto eu como os meus irmãos crescemos sem problemas nenhuns”. Este é um argumento comum que justifica, para muitos pais, bater nos filhos, com maior ou menor frequência. No entanto, bater não está associado a melhorias no comportamento ao longo do tempo. Não só coloca os pais num nível de adrenalina e stress elevado, como também transmite à criança a ideia de que o corpo não é seu, é propriedade dos pais, não podendo ser negociada a forma como querem ser tratadas. Estudos indicam que em adultos punidos fisicamente durante a infância, a probabilidade de valorizarem positivamente um comportamento violento aumenta, seja contra o filho ou contra o atual parceiro (Gershoff & Grogan-Kaylor, 2016).

“Nem doeu!” ­ Uma rápida escalada, não só de violência…mas de culpa

Um dos grandes problemas da punição corporal é a facilidade com que os limites definidos pelo próprio educador são ultrapassados, sem que este sequer se aperceba. É muito frequente, nos pais com quem se trabalham estes temas, eles próprios estarem dessensibilizados para o grau de violência que utilizam. Tal acontece porque se forma um ciclo em torno do comportamento da criança e da resposta que é dada por parte do adulto. A punição corporal leva frequentemente a que o comportamento desadequado se mantenha ou até aumente, o que resulta num aumento da frequência do castigo corporal, levando a mais situações de comportamento desadequado. Por exemplo, a mãe repreende o filho por correr na loja em que fazem compras. O filho não presta atenção e continua. A mãe, frustrada, dá uma palmada ao filho. Este não aprendeu necessariamente porque é que correr na loja é mau, apenas sabe que não gosta de levar uma palmada. O comportamento vai manter-­se, se não em loja, noutros contextos. A mãe utiliza a palmada e, vendo que o comportamento continua, pode aumentar a frequência e/ou intensidade da punição até obter os resultados desejados. O comportamento do filho, no entanto, piora. É um ciclo em que violência gera violência. Mais importante, e talvez menos abordado nestes termos, o ciclo amplia as desvantagens para pais e filhos: os pais, cada vez menos eficazes em controlar o comportamento da criança, desenvolvem com frequência sentimentos de culpa, por não se sentirem capazes de educar os filhos sem bater. Por parte da criança, com a frequência do castigo corporal, desenvolve uma imagem negativa de si enquanto filho, o “mau filho” ou “o filho desobediente”, com um impacto negativo na sua auto­estima e personalidade. No final, cada palmada ou bofetada confirma aos pais o fraco controlo e ineficácia da sua parentalidade. À criança é confirmado o fraco controlo sobre o seu próprio corpo, que pode ser invadido a qualquer altura, bem como o comportamento desadequado passa a fazer parte da imagem que têm de si mesmas.

A investigação com crianças e pais

Uma das mais importantes revisões de literatura neste campo, publicada este ano, registou dados sobre punição corporal em cerca de 160,000 crianças (Gershoff & Grogan­Kaylor, 2016). Desta revisão concluiu­-se que a punição corporal está associada a um maior risco de comportamentos agressivos e antissociais, mais problemas de saúde mental e uma relação pais-filhos mais negativa. Este é um resultado explicado, em grande parte, pelo facto de os pais serem os principais responsáveis por ensinar aos filhos formas de se relacionar com os outros (e.g., Maccoby, 1992). Talvez o resultado mais importante desta revisão tenha sido o de que, mesmo quando removidas as formas de punição mais severas e o abuso físico, deixando apenas a punição    corporal nos seus moldes mais simples (palmadas nas nádegas, por exemplo), esta se revela associada a resultados negativos para as crianças. Ou seja, mesmo formas mais simples de punição corporal como a palmada, podem ter efeitos negativos no desenvolvimento saudável da criança.

Porque é que bater persiste?

Nas palavras da Doutora Maria Amélia Azevedo, coordenadora do Laboratório de Estudos da Criança (LACRI): “Bater num adulto é agressão, num animal é crueldade, como você pode dizer que bater numa criança é educação?”.

castigo físico persiste, em parte, por ter resultados aparentemente imediatos (cessa o comportamento da criança) e por ser fácil de aplicar. No entanto, punições corporais não oferecem à criança oportunidade de refletir sobre as suas ações, nem ensinam à criança a distinção entre o certo e o errado, levando-­a a agir (ou não agir) apenas por medo da punição. A investigação demonstra que apesar de conduzir a uma obediência imediata, existe um decréscimo na obediência a longo prazo (Gershoff, 2002). Só a convivência e o tempo investido pelos pais no diálogo possibilita uma base afetiva em que os filhos reconhecem nos pais alguém que se preocupa, que ouve e, mais importante, um modelo a seguir. Isto é importante pois ao longo do desenvolvimento do seu filho, ele precisa de aprender a decidir e a regular o seu próprio comportamento.

Quais são as possíveis alternativas à punição corporal? Aqui ficam algumas sugestões para pais, mães, ou responsáveis pela educação e desenvolvimento de uma criança:

– Utilize o diálogo sempre que possível.
Falar com uma criança sobre que comportamentos são aceitáveis e quais não são tem, de longe, muitos mais benefícios do que a punição corporal. Garanta que lhe explica o porquê de um comportamento ser desadequado ou perigoso. Ao fazê-­lo está também a transmitir-­lhe uma mensagem importante: o diálogo é uma ferramenta crucial para resolução de problemas, ao contrário da violência, que cria distância entre as pessoas.

– Crie oportunidades educativas.
A existência de diálogo não invalida que se sigam outros métodos de disciplina eficazes. Se tiver de disciplinar, procure castigos não físicos e crie, se possível, oportunidades educativas (ex. dar ao seu filho tarefas domésticas extra ou colocá-­lo a arranjar algo que tenha quebrado). Talvez uma das técnicas mais utilizadas e familiar aos pais seja o retiro de benefícios (ex. não jogar durante uma semana). Não há nada de errado com esta forma de disciplina, sendo que os resultados podem ser melhores se a aplicação for ponderada e firme – se proibiu o seu filho de utilizar o computador durante uma semana, já terá pensado sobre quão adequada é a duração do castigo, sendo recomendado que o mesmo seja cumprido nos moldes por si definidos.

– Utilize consequências como uma forma eficaz de disciplina.
Tal como os adultos, as crianças aprendem com base no que experienciam. As consequências das suas decisões, quando vividas, possibilitam oportunidades de aprendizagem únicas para o desenvolvimento de responsabilidade. Tal exige que os pais permitam aos filhos experimentar as consequências naturais destas decisões (ex. Se não comes o que tens no prato, eventualmente ficarás com fome; se estragaste os teus brinquedos/computador, não poderás divertir­te com eles). Em várias ocasiões os pais protegem os filhos, no entanto algumas formas de proteção podem privá-­los de oportunidades para serem responsáveis e aprenderem que as suas ações têm consequências. Ao deixá-lo experienciar as consequências das suas ações está a dizer-­lhe que é capaz de tomar as suas próprias decisões. Não deve utilizar este método de disciplina se colocar em risco a saúde ou segurança da criança. Cabe­-lhe a si decidir que consequências naturais dos atos do seu filho serão uma boa oportunidade de aprendizagem. A chave é manter­-se calmo e não se envolver demasiado, deixe que o seu filho experiencie as consequências que decorrem naturalmente dos seus comportamentos. Por fim, seja paciente pois nem sempre os resultados são imediatos, mas quando surgem são duradouros!

imagem@psyciencia

 

Meninos com medo

Dezembro 18, 2017 às 3:04 pm | Publicado em O IAC na comunicação social | Deixe um comentário
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O texto contém declarações da Dra. Dulce Rocha, Presidente do IAC.

Texto do http://expresso.sapo.pt/ de 9 de dezembro de 2017.

Maria Antónia Palla (textos), Gonçalo Viana (ilustração)

Estas histórias nunca deveriam ter acontecido. Mas a verdade é que 
os abusos e os maus-tratos a crianças são muito mais frequentes do que 
se pensa. Para ler e, sobretudo, meditar

Àquela hora todos dormiam. Só ela continuava meio desperta, talvez porque o luar que entrava pela janela viesse direito à sua cama. Foi então que o homem apareceu. Camisa desabotoada, pernas nuas, “aquilo empinado”, uma faca na mão. Não percebeu ao que ele vinha. Mas logo ele se atirou sobre ela, tapando-lhe a boca, ameaçando, “se gritas, mato-te”.

Com a idade que tinha, ela não sabia o que se passava entre um homem e uma mulher, interrogando-se sobre os ruídos que em certas noites saiam do quarto da mãe e do padrasto. Foi o medo e a dor que a despertaram, enquanto ele a possuía, ofegante, ameaçador, sussurrando-lhe “se abres a boca, mato-te”. Até que parou e se afastou, tão silenciosamente como chegara. Ela continuou deitada, amedrontada, dorida, sangrando, sentindo um líquido morno e de cheiro enjoativo a correr-lhe entre as pernas. Já não conseguiu dormir.

Ao amanhecer, quando a casa começou a agitar-se, levantou-se e foi contar à tia o que se passara. “Isso é mentira. O teu tio é um homem bom, bom marido, bom pai, que a ti e aos teus irmãos sempre vos recebeu bem. Estás a inventar ou então sonhaste. Nem fales disto às tuas primas.” E deu o assunto por encerrado. A criança não se conformou. De seguida, foi contar à mãe que, por falta de espaço em casa, mandava alguns dos cinco filhos dormir a casa da irmã que morava ao lado.“Não quero lá voltar”, disse a criança. Mas a resposta da mãe foi “estás a mentir”. E ordenou que se calasse porque “era um assunto de família”.

A filha obedeceu. Mas o caso repetiu-se durante mais de um ano. Ana tinha apenas oito anos. Nessa altura pensou que tinha de fugir dali. Para onde, como, não sabia. Foi então que conheceu uma senhora que, a troco de pequenos serviços, lhe ofereceu cama e comida. Aceitou. A mãe nem se opôs. Era menos uma boca a sustentar. Foi esta senhora que lhe ensinou a lida da casa, a cozinhar, a fazer doces. “Eu gostava dela e ela de mim.” Era a primeira vez que isso lhe acontecia na vida. Sentir-se-ia feliz, não fosse a lembrança daquela noite terrível. O pouco dinheiro que recebia não contava.

Apesar de tudo o que lhe acontecera, e da mágoa provocada pela frieza da mãe que nem um carinho lhe dera, era uma criança alegre, bem disposta, afável, amiga de ajudar os outros. Quem a conhecia gostava logo dela. Mas o medo persistia, embora o calasse dentro de si, às vezes, entristecia-se. Tinha maus sonhos. E chorava às escondidas. Fugia dos rapazes e dos homens. Não suportava que lhe tocassem.

Ana fez-se uma rapariga bonita mas só começou a namorar aos 22 anos. Quando o rapaz emigrou para a capital, resolveu segui-lo. Em breve engravidou. E em breve foi abandonada. Temeu o futuro, por ela, pela criança. Mas quando lhe puseram o filhos nos braços, moreninho e uns olhos muito verdes, pensou: “Este é o meu príncipe, tenho muito amor e alegria para lhe dar. Vou lutar por ele. Sobretudo nunca vou dar ao meu filho aquilo porque passei — ser uma criança abusada e abandonada.”

Era preciso enfrentar as coisas boas e más que acontecem na vida. Foram necessários muitos sacrifícios. Mãe solteira e sozinha, sem apoio de família. O pai da criança deu-lhe o nome e desapareceu. Ana morou em casas com ratos e baratas, sem água canalizada. “Passei fome para lhe comprar as fraldas. Mas tinha duas mãos para trabalhar e trabalho nunca me faltou.”

As horas do dia são poucas para trabalhar, deita mão a tudo. “Basto-me a mim própria. Faço as coisas com gosto. Mas também me divirto, gosto de dar um pé de dança. Levo as minhas amigas e às vezes o meu namorado.” Hoje diz que não quer casar. Basta-lhe o filho para se sentir feliz. A vida melhorou e olhando para trás diz que a violência sofrida em criança poderá ser perdoada, mas nunca esquecida. Nestes momentos a voz enrola-se num soluço. E chora. É uma sobrevivente que corre atrás da felicidade.

Os abusos sexuais de crianças são mais frequentes do que imaginamos. São crimes silenciosos que as vítimas calam, por medo ou vergonha ou porque não sabem sequer falar. Mas as recordações ficam e doem. Até que um dia, mais tarde, procuram alguém que as saiba ouvir e em quem confiam. Raramente um médico, um psicólogo ou um psiquiatra. Por desconhecimento, preconceito, falta de dinheiro. Os mais pobres não se podem dar a esse luxo.

Mas se uma criança abusada não é tratada a tempo, corre perigo. A maioria não consegue ultrapassar sozinha os traumas do passado. É frequente tornarem-se eles próprios violentos. A delinquência ou o suicídio podem ser a única saída.

Maria José Vidigal é uma psiquiatra que se especializou na área da infância, tendo trabalhado 32 anos no Centro de Saúde Mental Infantil, fundado por João dos Santos, um médico pioneiro no sector da psiquiatria infantil. “Conheci uma adolescente de 15 anos que escrevia poesia. A mãe tinha morrido e ela vivia com o pai que a matriculou num colégio de religiosas. Conheci-a nessa altura e depois perdia-a de vista”, conta Maria José Vidigal.

Os anos passaram e voltaram a encontrar-se. Falaram dos seus percursos de vida, como é normal entre pessoas que não se veem há muito tempo. “Ela sabia que eu era psicanalista, insistiu em levar-me a casa e foi então que me contou que o pai tinha abusado dela sexualmente. Mais tarde, casou. Não foi feliz no casamento. Não conseguia dar-se bem nem com a filha nem com o marido. O pai, entretanto, morrera. Considerava que não tinha família. Perguntei-lhe se ainda escrevia poesia. E ela disse: ‘Deixei de escrever desde a morte do meu pai.’ A poesia era a maneira que encontrou para fugir da realidade.”

Durante muito tempo os maus-tratos a crianças foram um tema de que não se falava. Entretanto, criaram-se perspetivas diferentes quanto ao modo como devem ser encaradas as crianças e os jovens, alargando-se consideravelmente o conceito de maus-tratos. “Isto nasce muito”, dizia-se ainda nos anos 60, em aldeias do país. Talvez porque a mortalidade infantil fosse altíssima, a pobreza muita, a instrução pouca ou nenhuma. Uma criança era raramente desejada. O que a esperava era, trabalhar “a bem ou a mal”, desde a mais tenra idade. E quando recusava, era espancada.

Atualmente esse procedimento é um dos maus-tratos inaceitáveis. O que não quer dizer que tenha desaparecido. As famílias e a sociedade no seu conjunto ignoram ainda o que são verdadeiramente os maus-tratos. As pessoas que os praticam podem até não os considerar como tais. Mas deixam marcas naqueles que os sofrem.

A maior parte dos maus-tratos ocorre na esfera doméstica. Outros são públicos. Quase todos já presenciámos casos destes. Mas ninguém intervém. “Os pais batem e castigam os filhos e nunca se interrogam sobre se eles sabem amar e fazer a criança sentir-se amada. O único amor incondicional — o dos pais — é fundamental para as crianças. Mas há ainda quem pense que o dever dos filhos é obedecer”, diz António Mendes Pedro, psicólogo e professor universitário. Os pais justificam esse comportamento dizendo “isto é para teu bem”. Esta era a pedagogia nazi que influenciou a Europa. Em Portugal também existiu, através de Salazar e da Igreja Católica.

O que ligava os filhos aos pais era, sobretudo, o respeito. A regra era os pais falarem e as crianças obedecerem. Porém, as crianças devem ser ouvidas e respeitadas. A criança para aprender a amar tem de se sentir amada. Os avós são, neste aspeto particular, muito importantes.

Hoje em dia, os pais, demasiado ocupados com as carreiras, os encargos que têm, descontentes com a vida que levam, estão cansados, irritados, impacientes, não conseguem conversar com os filhos, limitando-se a impor a autoridade.

MESMO QUANDO O NATAL 
ESTÁ à PORTA

Era véspera de Natal. Enquanto esperava pela sua vez num restaurante, M. concentrou-se numa família de pai, mãe e quatro filhos. A mãe, com o bebé ao colo, mostrava o olhar baço de quem vive desencantada, porventura cansada das maternidades sucessivas e das monótonas exigências doméstica, partilhava com a criança mais nova uma sopa. Para os restantes filhos, que andavam pelos oito, dez, doze anos, o pai pedira para cada um deles um prato cheio de um insípido arroz branco e um “croquete”. Só o homem saboreava uma dose de abundante e saborosa comida.

A refeição decorreu em silêncio, observando a regra de “quando se come não de fala”. Ou não teriam nada para dizer! Aliás, não parecia que tivessem o hábito de o fazer. Até que o mais velhinho ousou perguntar: “Pai, posso comer mais um croquete?” A resposta veio rápida e seca “já comeste um”. Ponto final.

A criança não saciara o apetite. Obviamente, ficou com fome. Terá este pai, em algum momento, tomado consciência da violência que praticara e da humilhação a que sujeitara o filho, afirmando a sua autoridade tirânica? Mas a criança certamente não esquecerá aquele Natal.

NÃO FAÇAS AOS FILHOS 
O MESMO QUE O TEU PAI FEZ

Segundo Maria José Vidigal, “é comum as pessoas que foram agredidas em criança, física ou psicologicamente, tornarem-se agressoras. Não por vingança, mas por identificação Ou então superprotetoras, por oposição ao que sofreram. Daí a necessidade de acompanhamento dessas situações, de forma a evitar que não passem para as gerações seguintes”.

Felizmente, há pessoas que, mesmo sem grande instrução, por inteligência e carácter, tratam os filhos de modo bem diferente daquele que ensombrou a própria infância. Mas nunca deixam de sofrer. É o caso de J.,um bom homem e um bom cidadão. Durante 12 anos foi presidente de uma Junta de Freguesia, realizando uma série de obras fundamentais numa terra a que faltava tudo menos o bom ar. Trabalhou gratuitamente, durante esse tempo, roubando à família e à profissão muitas horas em prol da comunidade onde nasceu e cresceu. Quando abandonou o cargo, deixou feito o que era essencial: saneamento básico, eletrificação, água canalizada, serviço de limpeza pública, caminhos rurais abertos, ruas e estradas alcatroadas, um centro cultural. Até uma placa para colocar a propaganda eleitoral deixou. A comunidade não lhe agradeceu como devia. Talvez porque o cargo passou a ser remunerado. Mas não é isso que justifica a mágoa que o atormenta desde os tempos de criança.

Foi construtor civil, subiu na vida, é certo. Mas apesar da sua afabilidade, é um homem revoltado. Aos 11 anos, o pai pô-lo a trabalhar na construção civil, como aprendiz de pedreiro, retirando-o dos estudos que gostava de ter continuado, obrigando-o a uma profissão que não escolheu mas que cumpriu com inteligência, competência e honestidade. Até casar entregava ao pai o salário que ganhava. Só a um mês do casamento ficou com o dinheiro para si.

Teve dois filhos. E a sua principal preocupação foi educá-los, não se poupando a sacrifícios para que ambos chegassem à Universidade e se formassem. Hoje são jovens bem-sucedidos. Como ele poderia ter sido, não fosse o despotismo do pai. E a mágoa aumenta quando pensa que a idade não permite voltar atrás.

O QUE SÃO, AFINAL, 
os MAUS-TRATOS?

Para António Coimbra de Matos, um dos mais conceituados psiquiatras e psicanalistas portugueses, com uma longa experiência no diagnóstico e tratamento de crianças e jovens, “bater, berrar demais, impedir a educação dos filhos, ameaçar, castigar privando-os de comida, fechar num quarto às escuras, abusar sexualmente e outras ofensas são maus-tratos físicos que não contribuem para o desenvolvimento normal da criança”.

Dulce Rocha, procuradora da República, coordenadora da Comissão Nacional dos Direitos da Criança, de 1996 a 1999, atualmente é presidente da Associação de Proteção às Crianças. Da sua experiência retira um longo historial de crianças maltratadas por inimagináveis atos de violência praticados por seres humanos. “Um homem relativamente jovem tinha dois filhos, um menino e uma menina. Uma vez, mandou os filhos, uma criança de quatro e cinco anos, comprar cigarros. O menino não trouxe a marca que ele tinha pedido, porque se esqueceu qual era ou simplesmente porque o vendedor lhe entregou um pacote de outra marca. O garoto ainda não sabia ler. Ao chegar a casa, o pai, em fúria, regou o filho com álcool e deitou-lhe fogo. A criança sofreu horrores com os tratamentos que faziam no hospital, tanto que até pediu que lhe cortassem as mãos. Recuperou mas não regressou a casa.” Ele e a irmã foram retirados ao pai e acabaram por ser adotados.

Segundo Dulce Rocha, o conceito de maus-tratos tem evoluído. Apesar de os maus-tratos físicos continuarem a ocorrer, presta-se mais atenção aos que passavam mais despercebidos, os maus-tratos emocionais. Para Coimbra de Matos ralhar com uma criança porque se sujou ou roeu as unhas ou se considera que foi malcriada,chamar-lhe “burra” ou preguiçosa porque não teve bom rendimento escolar, mostrar preferência por outro filho, são formas de maus-tratos. Sobretudo quando praticados em público. São humilhantes. “Muitas vezes os pais, sem ouvirem o filho justificar-se e dizer a razão por que fez algo de que os pais não gostaram, porque não percebeu as regras ou não concorda com elas, preferem culpabilizá-lo. E os filhos assumem a culpa.” Ouve-se com muita frequência as crianças dizerem: “Eu quis explicar mas eles não me ouvem.”

O MENINO NÃO TEM QUERER

“O menino ou a menina não têm querer”, dizia-se antigamente e há ainda quem o repita. As crianças não podiam exprimir um sentimento e menos ainda uma opinião. É um modelo que prevalece. E que Coimbra de Matos contesta. “Educar não é domesticar.”

As reguadas e os puxões de orelhas atualmente são proibidos nas escolas. Porém, muitos professores por falta de preparação técnica e pedagógica ou até de bom senso, perante um aluno com dificuldades de aprendizagem, nomeadamente da leitura ou da matemática, ostracizam-no, proferindo a sentença bárbara “nem vale a pena perguntar-te, tu não sabes”.

Segundo Mendes Pedro, “é uma humilhação para a criança que vai ficar sujeita à troça e às agressões dos colegas e acaba por desistir de aprender. Foge da escola. Fecha-se em si. Deprime-se. Frequentemente adota comportamentos desviantes.” Os pais ralham, dão-lhe tareias. “Vais aprender a bem ou a mal.” Retiram-lhe o telemóvel, a bicicleta, não o deixam brincar com outras crianças. Aos adolescentes, impedem-nos de sair de casa, encontrar-se com amigos ameaçam-no: “Se não deres para o estudo, vais trabalhar.” Trabalhos pesados ou vexatórios que não os prepararão para uma vida. A fuga ou a delinquência são a única saída.

Por vezes, a dificuldade de aprendizagem resulta somente de uma dislexia ou de outro problema psicológico que deve ser identificados e tratados. De nada serve o prolongamento do tempo escolar ou os castigos em casa.

Mas onde estão os psiquiatras, os pedopsiquiatras, os psicólogos e outros técnicos que poderiam resolver este e outros problemas que não têm que ver com a inteligência ou a falta de vontade do aluno? A criança pode ainda revelar patologias graves que carecem de ser identificadas se não pelos pais, pelas escolas. Daí a necessidade de uma sensibilização dos professores para estas matérias e técnicos que identifiquem e providenciem o tratamento adequado para estes casos.

O acompanhamento dos alunos pelos mesmos professores, ao longo dos ciclos, é fundamental. Permitir-lhes-ia conhecer os alunos e despertar nestes a confiança necessária ao conhecimento destas situações. Porem, nada resultará se a família — a existir — não for tratada.

Segundos os técnicos habilitados, é frequente que a criança vítima de indiferença, abandono, ambiente familiar violento, disputas constantes, violência doméstica adoeça. O abuso de álcool e drogas por parte de um ou dos dois membros da casal é outro fator de perturbação dos filhos.

A inexistência de um espaço próprio onde possa estudar ou ler sossegado e o som demasiado alto da rádio ou da televisão afetam a capacidade de concentração da criança e do jovem e, naturalmente, o aproveitamento escolar, comprometendo o seu futuro. As famílias numerosas — quando não existem condições que assegurem o bem-estar da criança ou do jovem — agravam ainda mais a situação, sobretudo quando os irmãos mais velhos ficam encarregados de cuidar dos mais pequenos e de realizar tarefas domésticas. Há meninas que, em vez de brincarem com bonecas, desempenham o papel de mães. É uma violência. “Toda a patologia mental é consequência de um mau ambiente familiar”, afirma Coimbra de Matos. Exceto as psicoses de patologia por doença.

Por vezes a culpa não é dos pais. Uma mãe deprimida não está alerta aos sinais dados pela criança. Está exausta, sobrecarregada por duplas e triplas tarefas, por má relação com o marido, obrigada a gerir orçamentos familiares demasiado curtos. Por outro lado, o pai, por ter sido despedido ou temer vir a ser, por ter ciúmes da mulher, por ter relações sexuais insatisfatórias, por não ver como há de melhorar a vida também está descontente. É por estas e outras razões que ambos descarregam nos filhos a sua insatisfação, infligindo-lhes maus-tratos. Um deles é o abandono. Físico ou emocional. Ou ambos.

Os casos extremos de abandono verificam-se com recém-nascidos e crianças de pouca idade deitadas para caixotes do lixo, deixadas em lugares ermos, expostas ao frio, à fome ou ao ataque de animais, afogadas no mar, rios, poços, lançadas de andares altos, empurradas pelas escadas, com lesões graves em várias partes do corpo, destinadas a uma morte certa, que às vezes, por sorte, não ocorre. São maus-tratos de que tomamos geralmente conhecimento pela comunicação social. E que podem ocorrer ao nosso lado.

Em Portugal existe uma grande complacência em relação a estes casos. Se sobrevivem, a entrega precipitada destas crianças à família biológica constitui um risco. Não raro o crime tentado é consumado, dando origem à morte da criança.

A retirada de crianças à família que as recolheu e criou com todo o carinho e a sua entrega ao pai ou à mãe biológicos que as abandonaram, constitui uma crueldade que os órgãos judiciários se deviam abster de praticar, antes de uma avaliação sem preconceitos.

São as mães que, na maioria dos casos, são identificadas, julgadas e sofrem longas penas. Os pais não devem também ser responsabilizados? Aos casos apontados, haverá ainda a acrescentar o das crianças vendidas a redes criminosas que as destinam à escravatura sexual, à prostituição, à venda de órgãos. Todas sujeitas a destinos que não escolheram ou a que foram atraídas. O uso precoce das novas tecnologias é também arma de crimes para atrair os mais inocentes. Nunca mais saberemos deles. Não voltarão para contar.

UMA PALMADA NUNCA 
É EDUCATIVA

Vão longe os tempos em que os adultos, a começar pelos pais, pensavam e diziam: uma criança “não tem querer”. A esta ideia Coimbra de Matos contrapõe: “Nas Faculdades de Psicologia dizia-se que o principal dever de uma criança é obedecer, portar-se bem. Estes eram os valores transmitidos pela sociedade e pela escola.” E acrescenta: “A criança é particularmente sensível à injustiça contra ela ou contra um irmão que é mais irrequieto ou pior aluno. E procura defendê-lo.

Essa criança mostra-se mais insubmissa, mais radical. E isso é bom. Considero que o principal dever da criança é desobedecer aos pais. É assim que se faz gente, que consegue ter uma opinião.”

Para António Mendes Pedro, quando os pais batem nos filhos justificam dizendo “é para teu bem”. Por seu lado, Coimbra de Matos considera que “dar uma palmada nunca é educativo. Salazar achava que educava pela submissão e governou essencialmente através do medo. Há pais que passam a vida a ameaçar. No caso das crianças, elas revoltam-se e os pais consideram que é elas são malcriadas”.

Outra forma comum de maus-tratos é a indiferença. Há pais que ligam pouco aos filhos. A maior parte das vezes isso resulta da falta de tempo que têm para lhes dar. A indiferença pode assumir vários aspetos. Não alimentar bem a criança, não a agasalhar convenientemente, não tratar da criança doente ou só tardiamente fazê-lo.

Há crianças que são mandadas para a escola com febres altas porque os pais não podem faltar aos empregos. Há bebés que choram porque são levados para sítios barulhentos, abafados que mal as deixam respirar. Para os mais pequenos as férias são muitas vezes um terror, porque suportam mal o calor da praia, a mudança de ambiente, a alteração dos horários, a menor atenção dos pais. Reagem chorando ou fazendo birras. Incomodam toda a gente. Quando os pais dão por isso, castigam-nas.

Em contraposição, há pais que se preocupam demasiado com os filhos, como se estes fossem os instrumentos compensatórios das suas frustrações ou um capital para o futuro. Há casos destes que podem traduzir-se em maus-tratos psicológicos, mais difíceis de diagnosticar. Da sua longa experiência, Maria José Vidigal retira o caso de um casal que lhe apareceu na consulta em pânico porque o filho, aos sete anos, não tinha conseguido aprender a ler. “Expliquei-lhes que Graciliano Ramos, o grande escritor brasileiro, só começara a ler aos nove anos e chegou por isso a ser considerado burro.” A aprendizagem da leitura ou da escrita depende do grau de maturidade da criança, o que pode ocorrer só aos dez anos. A partir daí é preciso averiguar, analisando não só a criança mas também a família.”

Maria José Vidigal recorda um outro caso. “Um dia apareceu-me um casal com uma criança de sete a oito anos. Tinham vivido fora de Portugal e pediam a minha ajuda para encontrarem uma escola para crianças sobredotadas. O pai pareceu-me uma pessoa extremamente rígida. A mãe não parava de fumar. Durante a consulta, não disse uma palavra. A criança também não abriu a boca. Foi o pai que falou o tempo todo, explicando-me que o filho era uma criança superiormente inteligente e não podia, por isso, frequentar uma escola qualquer. Queria que lhe indicasse uma.

Disse-lhe que em Portugal havia boas escolas mas não existiam escolas para crianças sobredotadas, e que estas frequentavam as escolas normais. A família tinha vivido num local perto de uma praia e o homem vangloriava-se de nunca ter tomado banho do mar. Pensei que o mesmo acontecera com o resto da família. Era visível que o pai exercia um grande controlo sobre toda aquela família que não dava mostras de algum prazer.”

A pedopsiquiatra pediu para ficar sozinha com o miúdo. Era uma criança muito contida que mostrava muita inibição. Tentou conversar com o garoto. Não foi possível. A tudo que lhe perguntava respondia-lhe com sim ou não. Parecia um autómato. Foi então que lhe propôs que desenhasse (uma que técnica muita utilizada no Centro de Saúde Mental Infantil). Ele recusou. “Era um primeiro contacto, mas não o achei tão inteligente como o pai dizia. Fiquei na dúvida se se tratava de uma depressão grave ou uma psicose.”

Maria José Vidigal disse aos pais que a criança precisava de apoio psicológico. E propôs a realização de mais entrevistas com o objetivo de o conhecer melhor. Desapareceram. A ideia que lhe deixaram é que se tratava de uma família doente. E que a criança sofria com a ansiedade do pai, preocupado com o sucesso do filho.

O CHEFE DE FAMÍLIA 
JÁ NÃO EXISTE

Ao longo da sua vida Dulce Rocha tem-se empenhado na defesa dos Direitos da Criança. Uma causa que surge em 1924 por iniciativa de um pediatra, C. Henry Kempe, transformada em Convenção dos Direitos da Criança na Década das Mulheres, e aprovada pela ONU em 1989.

Os princípios básicos dessa Convenção foram consagrados, em Portugal, no Código Civil, na revisão de 1977, por efeito das alterações nele introduzidas pelo Dec. Lei nº 496/77 de 25 de novembro.

Pela primeira vez, afirmam-se por lei os deveres dos pais, nomeadamente o de velar pela segurança, saúde ou sustento dos filhos e respeitar os seus direitos. Estes, “de acordo com a sua maturidade, deverão ser ouvidos pelos pais” nos assuntos familiares importantes “e respeitada a sua autonomia na organização da sua vida”.

Dulce Rocha considera, no entanto, que ainda hoje “há muita contemporização com os maus-tratos. Começa-se por não se acreditar na criança, diz-se que está a mentir, que são fantasias. E muitos casos são ignorados”. A procuradora sublinha a importância de se denunciarem os casos à Polícia e ao serviço SOS — Criança, para efeito das denúncias anónimas ou pela própria criança vítima de maus-tratos.

“Há situações muito graves. A criança não é alimentada, há falta de asseio, vestuário inadequado à época, um ambiente em que há falta de dignidade, aí temos de a defender. Tentamos sempre recuperá-la para a família, sobretudo quando há uma relação muito forte com a mãe. Mas estas têm muito medo dos maridos. Só retiramos uma criança à família quando não há mais nada a fazer. Resta a adoção ou a institucionalização. Sabendo-se que uma criança institucionalizada nunca é verdadeiramente feliz.”

A autora lança dia 5 o livro “Só Acontece aos Outros — Histórias de Violência“, da Sibila Publicações

 

 

 

 

Las nalgadas durante la infancia incrementaría el riesgo de depresión e intentos suicidas

Novembro 21, 2017 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do site https://www.psyciencia.com de 7 de novembro de 2017.

Por David Aparicio

A principios del año escribí un extenso artículo que presentaba la evidencia de cientos de investigaciones sobre los efectos de las nalgadas en la salud física y mental de los niños. Las investigaciones no han cesado y datos más recientes nos alertan de repercusiones más severas como depresión, intentos suicidio, abuso del alcohol y drogas.

El estudio publicado en Child Abuse & Neglect y dirigido por Melissa T. Merrick y los ya conocidos expertos en el tema del castigo físico, Elizabeth Gershoff y Andrew Grogan-Kaylor, llevaron un análisis que evaluó el efecto de las Experiencias Infantiles Adversas (ACE, por sus siglas en inglés) que sufrieron 7645 personas de diferentes razas antes de los 18 años de edad.

Experiencias Infantiles Adversas y el efecto de las nalgadas

Las ACE incluyen por lo general una lista de 10 experiencias: abuso sexual, emocional, físico, negligencia (física y emocional), problemas en el hogar (madre tratada violentamente, familiares con trastornos mentales, familiares en prisión, con problemas de abuso de sustancia y padres separados o divorciados). Sin embargo, en esta investigación se decidió añadir las nalgadas1 en la lista de ACE para a explorar sus efectos en conjunto y por separado.

Como era de esperarse, los análisis indicaron que una relación directa y creciente entre los ACE y los problemas de salud mental como el consumo de drogas y alcohol, intentos de suicidio y depresión. Así se encontró que las personas que habían sufrido de seis o más ACE durante su infancia tenían 2.73 más riesgo de sufrir de depresión durante su vida adulta; 24.36 de intentar suicidio, 3.73 de riesgo de abuso de sustancias y 2.84 de tener problemas de alcohol. Al analizar los ACE de manera independiente se encontró que las nalgadas durante la infancia también relacionaba con los problemas de alcohol, drogas, intentos de suicidio y depresión.

La investigación también evaluó los efectos combinados entre varios ACE y en esta etapa se encontró  las nalgadas no se relacionaban significativamente con el intento de suicidio y depresión. Los autores argumentan que probablemente se deba a que las nalgadas están fuertemente relacionadas con otras formas de maltrato físico infantil (cachetadas, correazos, etc.) que se relacionan también con problemas de salud.

Hace poco en Francia aceptó como legal el uso de nalgadas, bajo la premisa de que los padres están en una relación jerárquica que les atribuye el derecho de usar el castigo físico como método correctivo. Ningún gobierno puede legalizar la violencia como medio “correctivo” cuando las leyes internacionales lo prohiben y hay tanta evidencia de los efectos que puede provocar. No estamos hablando solo de efectos imperceptibles, estamos hablando de problemas de salud mental y físicos que causan la muerte de millones de personas y representan miles de millones de dólares en gastos de salud.

Fuente: Psypost

Notas al pie de página:

Para evitar confusiones o malas interpretaciones los autores fueron cuidadosos a la hora de definir qué son las nalgadas: (uso de fuerza física, con la mano abierta, para provocar dolor, pero sin lesiones con el fin de corregir o controlar la conducta de los niños.

 

 

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