Crianças de hoje são pequenos adultos antes do tempo. Os avisos dos especialistas

Março 26, 2020 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do Sapolifestyle de 3 de março de 2020.

A infância dos nossos dias vive-se de forma muito mais acelerada do que antes. Cabe aos progenitores travar essa tendência. “Há muita informação danosa que lhes chega e os pais têm de estar atentos”, adverte a psicóloga Cristina Valente.

As crianças de hoje têm cada vez menos tempo para viver a sua infância. Entre as mil e uma atividades em que estão inscritas e as horas que perdem a saltar de uma para a outra, o tempo que passam agarradas à tecnologia, a roupa que os faz parecer adultos antes do tempo e o contacto precoce com a sexualidade, esquecem-se de ser crianças, alertam os analistas. Cristina Valente, psicóloga e especialista em aconselhamento parental, não podia estar mais de acordo.

“Se, em algumas áreas, os pais têm tendência para infantilizar os filhos durante muito tempo, como é o caso da alimentação, em que há miúdos com três anos que nunca comeram sopa sem ser passada, noutras adultizam-nos excessivamente”, critica. E a culpa deste desequilíbrio é a existência de “um desalinhamento entre as nossas expetativas enquanto pais e a capacidade dos bebés ou crianças responderem com os recursos internos que têm em cada etapa”, sublinha.

“Isto acontece porque ainda há atualmente uma ignorância muito grande em relação às etapas de desenvolvimento infantil e adolescente e quais os desafios de cada uma, bem como das potencialidades e fragilidades de cada ser humano”, explica ainda a psicóloga. Mas será esta tendência incutida apenas pelos pais? “Não, eu diria pelos pais, pelas escolas, pelos media, pela internet, pela sociedade inteira… Mas parte desse processo é inconsciente”, refere, contudo.

Claro que os pais podem fazer toda a diferença. “Tirando a escola, que é obrigatória, tudo o resto é da responsabilidade dos pais”, realça a especialista. “Os miúdos vêm televisão em casa, têm acesso a telemóveis em casa, jogam videojogos em casa e têm de ser acompanhados pelos progenitores nessas atividades”, realça a psicóloga. Esqueça aquela ideia pré-concebida de que as crianças se sentem excluídas se não tiverem acesso ao que os colegas têm. Isso é um mito!

“Os pais têm de ter autoridade para lhes dizer que não e explicar porquê”, recorda a especialista em aconselhamento parental portuguesa, que revela um episódio da sua experiência. “O meu filho, aos 11 anos, queria ter Facebook e o primeiro argumento que me apresentou foi que todos os seus colegas já tinham. Mas isso não me demoveu! Expliquei-lhe que se o fizesse estava a infringir uma lei e, na altura, eu fui perentória no não”, acrescenta ainda Cristina Valente.

“Se eu tivesse cedido, corria o risco de ele, antes dos 18 anos, me dizer que queria conduzir um carro e, se eu lhe falasse nos limites da legislação, ele não teria problemas em lembrar-me que já tínhamos infringido uma lei anteriormente”, argumenta a especialista em aconselhamento parental portuguesa. “Os miúdos são autênticos polícias do nosso comportamento”, alerta. “Temos de estar sempre seguros do que estamos a dizer”, acrescenta ainda Cristina Valente.

As consequências nefastas da falta de tempo dos pais

A fase inicial da infância é decisiva. “É nos primeiros sete anos de vida que os adultos que rodeiam a criança, como é o caso dos pais, dos avós e dos professores, conseguem descarregar programas mentais nos mais pequenos”. Utilizando a linguagem de programação, “a criança nasce com o disco rígido limpinho e, depois, vai absorvendo tudo o que a rodeia e há muita informação danosa que lhes chega e os pais têm de estar atentos”, compara Cristina Valente.

Mas é aí que entra a tão falada falta de tempo, um dos maiores dramas sociais dos tempos atuais. “Uma relação entre pais e filhos só cresce se houver disponibilidade e a vida da maior parte dos pais no século XXI é de total escravatura do tempo e do trabalho. Essa ausência é colmatada, preenchendo os mais pequenos com atividades. Por um lado, para os distrair, e, por outro, para os armadilhar com todas as ferramentas externas para que consigam singrar, segundo os pais, num mundo extremamente competitivo. Por isso, acham que se os filhos forem aprender mandarim e tecnologias da informação aos três anos, se tiverem um telemóvel aos cinco e se conseguirem fazer três desportos ao mesmo tempo, vão ser adultos de sucesso”, relata ainda a psicóloga.

Tudo isto leva obrigatoriamente a criança a adultizar-se e a crescer rápido, o mesmo acontece quando são instigadas a ser as melhores em tudo. “Hoje em dia, as crianças não podem ter preferências e têm de ser boas a todas as disciplinas e isso leva a uma baixa autoestima, porque a criança não se sente valorizada por ser quem é, mas pelas notas que tem”, refere a especialista em aconselhamento parental. Mas este não é o único senão do crescimento demasiado rápido.

Cristina Valente aponta a privação de sono atual como uma das mais relevantes, também já criticada por uma das mais reputadas neurologistas nacionais, Teresa Paiva. “As crianças não têm tempo para dormir suficiente, o que tem consequências nefastas a nível do sistema imunológico, influencia o desempenho escolar e estimula problemas comportamentais, sintomas de hiperatividade e défice de atenção e aumenta a obesidade infantil”, adverte ainda.

O vestuário de adulto que muitas crianças já usam

A roupa é outro fator que tende a adultizar as crianças. Há pais e filhos que se vestem da mesma maneira e há já marcas que fazem linhas duplas. Cristina Valente vê isto como “uma ferida narcísica dos pais”. Nota-se, na sua opinião, “uma vontade inconsciente de adultizarem os filhos e de se infantilizarem a eles próprios. Na verdade, querem parecer amigos dos filhos em vez de pais”, acrescenta. Se olharmos só para as meninas, há ainda outra tendência que se destaca.

O uso de roupas sexualizadas é uma realidade atual. “A autoimagem das meninas é incutida desde cedo por séries da Disney para adolescentes que as crianças de cinco e seis anos também veem”, condena. Este aspeto remete para o sexo precoce. “As crianças despertam para a sexualidade muito antes de estarem preparadas. É por isso que vemos miúdas de 13 anos a saírem à noite de minissaia e maquilhadas e miúdos de 15 anos a levarem as namoradas para casa”, refere. Mais uma vez, têm de ser os pais a desconstruir imagens perversas associadas à sexualidade, que lhes é mostrada como uma coisa física e violenta.

Cristina Valente alerta ainda para o facto do contacto com realidades para as quais ainda não estão preparadas também estar a afetar muitas crianças. “Aos seis, sete anos, é comum uma criança já ter contactado com imagens de pornografia na internet sem querer. Como não podemos controlar tudo, temos de prepará-los para isso e de conversar desde sempre sobre este tema. É importante, por exemplo, sublinhar que a sexualidade implica amor e respeito”, afirma.

Conselhos para pais conscientes

As recomendações que Cristina Valente, psicóloga, gosta de fazer aos que a procuram:

– Aprenda a confiar na sabedoria inata das crianças.

– Lide com a sua própria ansiedade de forma a não criar ansiedade nos mais pequenos.

– Fazer meditação, várias vezes por dia, é algo que muda a nossa vida. Para meditar, apenas tem de estar imobilizado e concentrado apenas na respiração.

– Saber quais são os desafios e as fragilidades de cada fase de desenvolvimento e respeitar o ritmo das crianças é outra das recomendações.

– Ame incondicionalmente os seus filhos e não deixe que este amor dependa daquilo que as suas crianças lhe dão.

– Criar um clima de literacia de emoções em casa é outra das estratégias. Se as emoções são aquilo que nos mantém vivos, temos de saber lidar com elas de forma natural, tal como respiramos, comemos ou bebemos água.

– Pense nos valores que quer transmitir aos seus filho e aja de forma a ser congruente com eles. Tenha noção que somente cerca de 7% do que comunicamos é processado via verbal.

Pais em guerra, quem precisa de psicólogo não é o vosso filho!

Março 3, 2020 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Rute Agulhas publicado no DN Life de 23 de feverero de 2020.

Muitos pais entendem que os filhos precisam de apoio psicológico e, bem, procuram ajuda nesse sentido. E, com elevada frequência, chegam até nós crianças com sintomatologia diversa. Alterações nos padrões de sono ou de alimentação, medos, isolamento, ansiedade, regressão no desenvolvimento, dificuldades de atenção e concentração… e muitos outros indicadores de que algo não está bem. Inicia-se então um processo de avaliação que deve envolver a criança e os seus adultos significativos, permitindo compreender o seu modo de funcionamento nos vários contextos de vida, como a família e a escola, por exemplo.

Assim, não raras vezes, deparamo-nos com crianças que evidenciam um conjunto de sinais e sintomas que mais não são do que um reflexo da disfuncionalidade do seu meio envolvente.

Sabemos que as crianças são muito permeáveis ao seu ambiente e a tudo aquilo que se passa em seu redor. E reagem, de formas diversas, quando os contextos à sua volta apresentam algum tipo de perturbação. Assim, não raras vezes, deparamo-nos com crianças que evidenciam um conjunto de sinais e sintomas que mais não são do que um reflexo da disfuncionalidade do seu meio envolvente. E, muito frequentemente, um reflexo do conflito parental.

Os pais em guerra ficam cegos e surdos, mas não mudos. Centrados em si mesmos e no conflito, disparam em todas as direcções sem dó nem piedade, totalmente indiferentes ao impacto negativo que tal comportamento tem nos filhos. Ignoram os diversos sinais de alerta das crianças, permitindo que estes evoluam num processo de escalada que tende a agravar-se e a rigidificar-se. E usam as crianças como armas e escudos, coisificando quem deveria ser, acima de tudo, protegido e amado.

Para estes pais em guerra que procuram o psicólogo com a ânsia de um diagnóstico para a criança – e, já agora, que permita culpar o outro – é preciso dizer de forma clara que o problema não está centrado na criança. De nada adianta levarem a criança ao psicólogo para que seja “tratada”, quando o problema não é a criança. Não, o problema são eles, os pais. Os que gritam, insultam, batem e denigrem o outro progenitor perante a criança. Os que elaboram esquemas maquiavélicos para prejudicar o outro progenitor, impedem convívios e fazem a criança sentir-se rejeitada e abandonada. Os que dizem amar a criança e querer protegê-la e acabam, afinal, por ser os principais agentes maltratantes.

Sabemos que o divórcio é uma crise gigantesca e que nem todos os pais possuem os recursos (internos e externos) necessários para lidar com a mesma. Pois bem, peçam ajuda. Se possível, ainda na fase pré-divórcio para que, em conjunto, possa pensar-se na melhor forma de gerir esta alteração na estrutura familiar. A comunicação à criança, a definição dos contactos, a reorganização da vida quotidiana, dos papeis e dos limites. Peçam ajuda para resolver as divergências e os conflitos, procurando soluções que beneficiem, acima de tudo, a criança. Peçam também ajuda individual para cada um dos pais, se preciso for. Porque pedir ajuda não é sinal de fraqueza ou de doença mental, mas antes um sinal de que se coloca o bem estar de todos no centro da equação e pretende avançar-se de uma forma reparadora e constructiva.

Dez coisas que pode dizer às crianças em vez de “pára de chorar”

Março 2, 2020 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do Notícias Magazine de 5 de dezembro de 2019.

“Não chores”, “Isso não é nada”, “Não sejas mariquinhas”, “Tu vê lá se queres chorar com razão.” Frases que até podem fazer as crianças engolir as lágrimas no momento, mas também lhes dão a ideia de que os seus sentimentos não são importantes. E nós, pais, não queremos de modo nenhum que deixem de confiar em nós.

CONTA-ME O QUE ACONTECEU

 Dê espaço à criança para explicar o que lhe aconteceu, com empatia e sem a julgar, permitindo-lhe extravasar a avalancha de emoções que a perturba. Os miúdos são como nós, qual é o espanto? Sentem-se seguros quando são tratados com compreensão e respeito ao exprimirem o que lhes vai na alma.

ESTOU A OUVIR-TE

 E isto significa saber escutar, de facto, o que quer que seja que o seu filho tenha para lhe dizer aqui, agora. Miúdos com pais incapazes de ouvirem com seriedade as pequenas coisas tornam-se, por sua vez, adultos incapazes de contarem aos pais as grandes coisas das suas vidas. Já para não falar no facto de as pequenas coisas, para uma criança, nunca serem irrisórias.

AMO-TE

Não é só dizer ao seu filho que gosta dele, como se gosta de gelado ou de bolo de chocolate. É dizer-lhe que o ama, com todas as letras, e mostrar-lhe na prática que o reconhece, confia nele e vai sempre ampará-lo e amá-lo independentemente das escolhas que fizer. Não há choro que resista ao amor.

PREFERES FICAR SOZINHO/A?

 E depois acrescentar as palavras mágicas: “Quero que saibas que estou aqui para ti. E vou ficar por perto para que possas chamar-me se precisares de mim.” Se a criança mostrar não querer a sua presença, é importante respeitar. Isto sem nunca dar a entender que se está a afastar por desaprovar o comportamento dela ou como castigo.

 EU PERCEBO

 Até pode parecer que o melhor é tentar resolver de imediato o problema ou a frustração por que a criança está a passar, contudo nem sempre é disso que ela precisa verdadeiramente: apenas sentir que o pai ou a mãe a compreendem, sem fazerem com que se sinta desadequada nem lhe dizerem que nada daquilo faz sentido.

ESTOU AQUI CONTIGO

 Mais uma vez, há certos momentos em que isto é tudo o que um filho necessita de saber: que os pais estão lá para ele, ligados às suas dores, a fazerem-no sentir que o amam e não vão a lado nenhum, aconteça o que acontecer. Muitas das vezes nem sequer têm de dizer ou fazer nada: só ficarem ali ao lado dele.

VI QUE FICASTE TRISTE

 “Ou assustado/a, ou furioso/a. E não faz mal, às vezes eu também fico assim.” Saber que os pais sentem o mesmo que elas deixa as crianças aliviadas: afinal é normal, que alívio. O facto de depois lhes darem aquela atenção amorosa não só as ajuda a libertarem-se da mágoa como reforça os laços familiares.

POSSO FAZER ALGUMA COISA?

 Como pais, é esta a melhor maneira de criarmos um filho para a empatia: sermos os primeiros a saber pôr-nos no lugar dele e mostrar-lhe que reconhecemos o seu sofrimento (emocional ou físico), respeitamos a pessoa que é e nos interessamos genuinamente pela sua vida.

QUERES UM ABRAÇO?

 É capaz de ser o antídoto mais poderoso para momentos de descontrolo emocional, em que a criança já está para lá de toda a lógica: um abraço apertado sossega, ameniza choros e birras, promove o desenvolvimento cognitivo e imunológico, fortalece o vínculo entre pais e filhos. Se os quer ter perto do coração, é abraçá-los.

SEI QUE ISSO É DIFÍCIL

 “A sério que sim, meu amor. Mas eu vou ajudar-te.” Muitas vezes, é quase só disto que o seu filho precisa: saber que reconhece os seus sentimentos e lhes dá importância, sejam eles quais forem. No fundo, saber que se importa com ele e o aceita exatamente como é

Por que têm os filhos de mentir?

Fevereiro 28, 2020 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Eva Delgado-Martins publicado no Público de 9 de fevereiro de 2020.

Os pais não gostam que os filhos mintam, o que está certo, mas devem lembrar-se que isso é uma defesa para a qual podem existir muitas razões.

As mentiras em excesso devem ser interpretadas como uma fuga de uma criança ou adolescente à resolução do problema com que é confrontado, nomeadamente quando sente que tem que agradar a adultos que têm expectativas demasiado altas sobre si e que a ameaçam com castigos severos no seu incumprimento.

Recebemos muitas vezes pedidos de ajuda dos pais, na tentativa de resolução de crises de desencontros na comunicação com os seus filhos. Isto sucede frequentemente em reação a situações de crise familiar, quando se tornam mais rígidas as regras do funcionamento do dia-a-dia, o que, quase sempre, leva também a tornar mais rígidos os comportamentos daqueles que afinal o pretendiam era a compreensão e disponibilidade dos pais.

Por exemplo, muitos pais concentram-se nos insucessos académicos em certas áreas, ignorando os sucessos noutras, ou em atividades extracurriculares, preocupando-se apenas com os atos e atitudes indesejáveis, e ignorando os comportamentos positivos.

Frequentemente, perante a mentira dos filhos, os pais, referem que “já tentei todos os castigos, tirei-lhe o telemóvel, proibi-o de jogar PlayStation, de usar o computador, de sair com os amigos, de ir aos treinos de futebol que ele adora, proibi… e ele, não deixa de mentir”.

Para possibilitar uma educação e relações familiares de sucesso, tem que se ter em atenção a forma como se realiza a comunicação entre pais e filhos, porque é que esta contribui para a construção de relações de confiança mútua.

Em vez de apontar ou atribuir culpas aos filhos, os pais devem fomentar estratégias preventivas e remediativas da mentira, promovendo um diálogo baseado numa comunicação constante e sincera, para que, nos momentos de crise, os filhos confiem neles e escolham partilhar a verdade. Se os pais conversarem sobre a honestidade e elogiarem os filhos por dizerem a verdade, especialmente quando a tentação de mentir é grande, torna-se muito mais fácil para os filhos serem verdadeiros e concentrarem-se em encontrar soluções objetivas para os seus problemas. Se os pais aceitarem os sentimentos que os filhos têm medo de revelar, eles considerá-los-ão como aliados e sentir-se-ão mais compreendidos e à vontade para contar a verdade.

Para isso é preciso promover a participação ativa das crianças e adolescentes, dando voz às suas opiniões e encorajá-los a exprimirem-nas e a proporem alternativas às nossas decisões. É necessário ouvir os pontos de vista dos filhos e dos pais e negociar, para encontrar soluções de compromisso. Se se sentirem escutadas e participarem na tomada de decisões, as crianças e jovens sentirão que são respeitadas e mostrar-se-ão, igualmente, mais respeitadoras connosco.

Os pais não gostam que os filhos mintam, o que está certo, mas devem lembrar-se que isso é uma defesa para a qual podem existir muitas razões.

Às vezes, os filhos mentem porque acham natural, por verem os seus pais mentir. O exemplo dos comportamentos dos pais vale mais do que qualquer coisa que digam. Cada mentira que os pais contam e, muitas vezes, incutem os seus filhos a contar, fica como modelo aceitável. (e.g. alguns pais pedem aos filhos para atenderem a porta ou o telefone e mentirem dizendo que não estão em casa, ou pedem que eles mintam sobre um qualquer fato que presenciaram).

Os filhos mentem por medo das consequências das suas ações, consoante o castigo ou a consequência a que serão sujeitos, para não ter que as enfrentar e escapar à responsabilidade de ter transgredido. Mentem, ou escolhem o silêncio (omitir) porque, em situações semelhantes anteriores, os pais reagiram mal, responderam de uma forma crítica e exagerada.

Mentem também para satisfazer as expectativas dos pais, professores ou amigos, para se sentirem aceites (e.g., é frequente os pais esperarem que os filhos tenham boas notas, o que os estimula a mentir quando isso não acontece). Podem mentir por insegurança ou baixa de autoestima, para serem o centro das atenções, se integrarem no grupo de pares, (e.g. dizendo que têm muitos de amigos nas redes sociais, que fizeram uma viagem inacreditável, ou que são amigos de pessoas famosas) exagerando as suas condições de relação com os amigos (até para os proteger) e da vida familiar. Mentem porque querem evitar ter que se envolver em atividades que não gostam de realizar.

No estabelecimento dos limites e das regras em relação às mentiras, os pais devem ter uma atitude firme, consistente e coerente, numa relação de diálogo. Por vezes, pensa-se que quem mais influencia as crianças e os jovens são os amigos, os professores, a Internet e as redes sociais, mas a grande influência e modelo vem dos pais.

Muitas vezes, os pais dizem que não tem tempo para os filhos. No entanto, o problema não é o tempo, mas a qualidade do tempo que têm, dos momentos que passam juntos com os seus filhos, no dia-a-dia. É preciso que cultivem uma relação de proximidade, se preocupem em conhecer os filhos, os seus amigos, e os acompanhem nas suas rotinas.

Psicóloga e terapeuta familiar

Partilhar ou não partilhar: o que fazer com as fotos dos nossos filhos?

Fevereiro 27, 2020 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do Notícias Magazine de 20 de fevereiro de 2020.

Alguns pais não se importam de partilhar fotos dos filhos. Outros não mostram a identidade dos descendentes nas redes sociais. Três famílias, três experiências.

Sofia Filipe

Há quatro meses, Filipa Salvaterra vivia os últimos dias da segunda gravidez. A 23 de outubro, véspera do nascimento de Duarte, assinalou o quinto aniversário de Maria partilhando com 295 amigos do Facebook uma fotografia do bolo e uma dedicatória à filha. A mensagem sobre a nova fase, “com o mano”, estava nas entrelinhas e só era entendida por familiares e amigos que privam com a engenheira química, de 37 anos, no Centro Nacional de Embalagem. “É uma questão de privacidade.” Moradora no Montijo, Filipa justifica assim o facto de não publicar nenhuma fotografia dos filhos nas redes sociais nem de avançar pormenores da vida privada.

O marido, Pedro Cruz, um ano mais novo, pensa da mesma forma. “É mais seguro. Também não indicamos locais nem moradas. É a nossa vida pessoal e ninguém tem de saber o que fazemos ou onde estamos”, declara o engenheiro de manutenção na Hovione, Loures. “Dos 571 amigos que tenho no Facebook, só devo falar com cerca de dez. Muitos andaram comigo na escola, outros são da mesma terra ou foram colegas. Não há grandes ligações com a maioria.”

Mostrar ou não mostrar os filhos nas redes sociais? Eis uma questão pouco dada a unanimidade. O poder de decisão, esse, nem sempre pertence aos pais. Em 2015, durante um processo de regulação de responsabilidades parentais, o Tribunal de Setúbal proibiu os pais de uma criança de 12 anos de partilharem fotografias da filha nas redes sociais. A mãe recorreu para a Relação e o Tribunal da Relação de Évora manteve a decisão. Vem referido no acórdão que, “na verdade, os filhos não são coisas ou objetos pertencentes aos pais e de que estes podem dispor a seu belo prazer. São pessoas e consequentemente titulares de direitos”.

Se existe o direito à imagem das crianças, por que motivo é atropelado com a constante divulgação nas redes sociais? “Orgulho e vontade de mostrar ao mundo a felicidade. Também algum exibicionismo, necessidade de reconhecimento e afirmação social”, responde Tito de Morais, fundador de MiúdosSegurosNa.Net, um projeto que ajuda famílias, escolas e comunidades a promover a segurança online. Ao ato de partilhar excessivamente fotografias e informações acerca dos filhos, sem consentimento, dá-se o nome de sharenting. O especialista compreende que os pais o façam, mas aconselha a evitar. “A necessidade de afirmação social dos pais não se pode sobrepor à segurança e proteção da privacidade dos filhos.”

Para a psicóloga especialista em adolescentes Bárbara Ramos Dias, “todas as pessoas têm direito à privacidade. Os filhos ainda mais. São crianças inocentes”. Sensibiliza para os riscos associados à partilha de fotografias a mostrar a cara, de dados pessoais ou de localização geográfica nas redes sociais e dá como exemplo situações de rapto.

“A necessidade de afirmação social dos pais não se pode sobrepor à segurança e proteção da privacidade dos filhos”
Tito de Morais
Fundador de MiúdosSegurosNa.Net

Filipa e Pedro têm consciência dos perigos associados à exposição de crianças na Internet, destacando o uso de fotos manipuladas em sites de pedofilia. O fundador de MiúdosSegurosNa.Net explica que “a manipulação digital das fotos através de montagens e a criação de deep fakes elevam a fasquia ao nível da sofisticação”. Por seu turno, defende que “basta mudar o contexto em que as imagens aparecem para adquirirem logo outro significado”.

A última fotografia partilhada pelos pais de Ódin, seis anos, e Aron, quatro, retrata uma brincadeira com água num campo. Estão de costas e afastados da objetiva. Para Carla Santos e Duarte Cera, ambos de 35 anos, partilhar momentos em que os filhos estão de costas, tapar-lhes o rosto, editar as fotografias ou usar imagens de baixa resolução são algumas estratégias para não exporem os descendentes nas redes sociais. Além disso, fazem a publicação depois da atividade em família e não referem local nem horário. Este casal de Cascais acredita que “existe o risco de serem identificadas rotinas da família e assim dar azo a situações perigosas”.

Carla é doula e usa o Facebook (conta pessoal com 791 amigos e página profissional com 465 seguidores) e o Instagram (conta pessoal com 200 seguidores e a profissional com 707). Duarte concilia a atividade de leitor de contador das águas com a de baterista dos Invoke e utiliza as redes sociais Facebook (790 amigos) e Instagram (185 seguidores). “O acesso às fotos é reservado a listas definidas por nós, por questões de segurança”, afirma Carla.

Em tempos, colocou uma fotografia sua, grávida, como foto de perfil, e recebeu “uma mensagem de um desconhecido a questionar se o bebé já tinha nascido, porque gostava muito de ver uma imagem. Foi assustador”. Duarte faz referência ao impacto negativo mencionando que “a imagem fica para sempre online, pode ser usada no futuro como ferramenta de bullying, por colegas ou pessoas das relações profissionais”. Carla sublinha: “É a privacidade dos nossos filhos, que não têm noção do que é a exposição. Quando tiverem, será algo unicamente gerido por eles. Não vamos interferir”.

Na net como no parque ou nos transportes públicos

Como a partir de uma certa idade os filhos ganham o sentido de individualização, os pais devem perguntar-lhes se podem fazer determinada publicação, segundo Bárbara Ramos Dias. “Há miúdos que não gostam de se expor. Deve-se respeitar a opinião e a vontade.” Exemplo: na pré-adolescência e adolescência, sobretudo as raparigas, têm preocupação com a imagem. “Consideram que estão gordas, feias ou com borbulhas. Não gostam quando os pais põem online fotos que não lhes agradam.” É uma fase da vida com inseguranças e fragilidades que a exposição “pode aumentar”. Dados do EU Kids Online Portugal, de 2018, mostram que 28% dos participantes, entre os nove e os 17 anos, indicaram que os pais publicaram textos, vídeos ou imagens sobre eles sem lhes perguntarem. Dos inquiridos, 14% pediram aos pais para retirar conteúdos, dos quais um quinto são raparigas entre os 13 e os 17 anos; e 13% disseram ter ficado incomodados com a partilha sem consentimento.

“Todas as pessoas têm direito à privacidade. Os filhos ainda mais. São crianças inocentes”
Bárbara Ramos Dias
Psicóloga especialista em adolescentes

Experiências que não foram vividas pelos irmãos Matilde e Samuel, de 13 e 11 anos, de Caneças. Os pais têm sempre o cuidado de perguntar se concordam com determinada publicação em que são visados. “São pessoas independentes. Não é por sermos pais que temos o direito de usar a imagem deles sem a sua autorização”, diz Miguel Campos, de 46 anos, motorista. “Desde que têm idade para manifestar opinião que lhes pergunto se posso publicar as fotos em que aparecem”, corrobora Sílvia Campos, 42 anos. Pelas respostas que recebe dos filhos, a angariadora imobiliária nota que estão mais interessados em perceber se “estão mais ou menos bonitos”.

Miguel usa o WhatsApp e o Facebook (452 amigos). Sílvia é mais ativa: 3 446 amigos nesta rede social, 777 seguidores no Instagram e 256 contactos no WhatsApp. Esta mãe nunca se coibiu de mostrar a cara dos filhos, com publicações esporádicas. É o orgulho que sente nos filhos que a motiva a partilhar o bom aproveitamento escolar, uma atividade especial, vivências durante as férias, momentos engraçados com familiares e amigos ou uma comemoração festiva. Com reservas. Usa definições de privacidade, as fotos de férias só são publicadas posteriormente e, por norma, não dá referências geográficas. Sílvia tem consciência de perigos mas ressalva que estes não existem apenas na Internet. “Também lhes podem tirar fotos na escola, no parque, na praia, nos restaurantes, nos transportes públicos”, enumera, referindo que é apologista das conversas educativas. “Alerto para os perigos, tiro dúvidas e estou atenta. Como pais, temos de os proteger e assegurar que as publicações não sejam prejudiciais no futuro. Não considero nenhuma das opções [mostrar ou não mostrar a cara dos filhos] certa ou errada. Sentirmo-nos bem e fazer com que os nossos filhos também se sintam bem deve ser a regra.”

Maria e Duarte são menores e não têm a noção dessa dinâmica. Os pais Filipa e Pedro decidiram salvaguardar os filhos para precaver eventuais problemas no futuro não mostrando nada. “São menores e um dia podem não querer ou não gostar de ter fotos deles online”, comenta a mãe, lembrando que as fotografias digitais estão guardadas no computador e/ou na nuvem. “Qualquer pessoa pode aceder. Se forem colocadas no Facebook, é abrir ainda mais a vida privada ao mundo.”

A mãe de Ódin e Aron acredita que “explorar a vida e a imagem de uma criança tira autenticidade às relações e às vivências”. “A mensagem que transmite não me deixa muito segura. Somos valorizados por seguidores/gostos/reações? Somos o que acham de nós? A opinião dos outros pesa assim tanto? Tenho receio da superficialidade.”

Cuidados a ter nas redes sociais

Tito de Morais, fundador de MiúdosSegurosNa.Net, aconselha a evitar:
• Partilhas públicas. Mesmo não mostrando a cara da criança, inadvertidamente podem ser revelados outros aspetos.
• Fotos que mostrem o corpo despido da criança. Há quem olhe para esse tipo de fotos como objeto de desejo sexual.
• Fotos potencialmente embaraçosas, tais como mudança da fralda, na sanita ou no banho. Na adolescência, envergonham com facilidade.
• Localizar a criança em sítios que frequenta (escola, ATL, etc.).
• Fotos com amigos, sobretudo se não tiverem autorização por escrito dos respetivos pais (ambos, pois no caso de pais divorciados pode haver opiniões discordantes).

Um terço dos pais interpreta mal o peso dos filhos

Fevereiro 18, 2020 às 12:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia da TSF de 17 de fevereiro de 2020.

Estudo da Universidade de Coimbra avalia se a perceção que os pais têm sobre o peso dos filhos é influenciada por características socioeconómicas.

Cerca de um terço dos pais interpretam mal o peso dos seus filhos, de acordo com um estudo desenvolvido na Universidade de Coimbra (UC) e já publicado no American Journal of Human Biology.

De acordo com a investigação, conduzida por Daniela Rodrigues, Aristides Machado-Rodrigues e Cristina Padez, da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), “32,9% dos pais interpretam mal o peso dos seus filhos (30,6% subestimam e 2,3% sobrestimam)”, afirma a UC, numa nota enviada hoje à agência Lusa.

O estudo visou essencialmente “analisar a concordância entre o estatuto nutricional das crianças e a perceção que os pais têm do peso delas”, e “observar se a subestimação do peso estava de algum modo associada ao risco da criança ter excesso de peso/obesidade”.

Envolvendo 793 pais e respetivos filhos (com idades compreendidas entre seis e os dez anos), a pesquisa pretendeu ainda “avaliar se a perceção que os pais têm sobre o peso dos seus filhos era influenciada por características das crianças e socioeconómicas”, refere a UC.

“Verificámos que mais de 30% dos pais não identificou corretamente o estatuto nutricional dos filhos, sendo que a maior parte subestimou”, sublinha, citada pela UC, Daniela Rodrigues, primeira autora do artigo científico e investigadora do Centro de Investigação em Antropologia e Saúde da FCTUC.

“A subestimação foi substancialmente maior consoante o peso dos filhos, ou seja, vários pais com filhos com excesso de peso classificaram o peso dos filhos como normal e, principalmente, pais com crianças obesas reportaram que as crianças tinham apenas um pouco de peso acima do recomendado”, explicita Daniela Rodrigues.

É nas classes sociais mais baixas que os pais mais subestimam o peso das suas crianças, especialmente das meninas: “Ter pais com menor estatuto socioeconómico e mães com excesso de peso aumenta a probabilidade de subestimar o peso dos filhos, principalmente entre as raparigas”, nota a investigadora.

Sobre a subestimação do peso, se esta estava, de algum modo, associada ao risco da criança ter excesso de peso/obesidade, os investigadores verificaram que “pais que subestimam o peso dos filhos têm 10 a 20 vezes mais probabilidade de terem filhos com excesso de peso ou obesidade, o que tem sido associado a um conjunto de problemas de saúde física e mental, não só na infância, mas que permanecem na idade adulta”.

Ponderando as conclusões do estudo, que foi financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia, Daniela Rodrigues defende que “é urgente ajudar os pais a identificar corretamente o excesso de peso e a obesidade” dos filhos para que possam “recorrer à ajuda dos profissionais de saúde” para melhorarem a qualidade de vida da criança.

“O primeiro passo para alterar comportamentos de risco associados à obesidade (dietas ricas em gorduras saturadas e açucares, inatividade física, comportamentos sedentários, etc.) é perceber a necessidade de alterar esses mesmos comportamentos, identificando corretamente o estatuto nutricional da criança”, acrescenta.

No artigo, os investigadores apresentam ainda algumas explicações para os resultados do estudo. “Os pais podem não saber identificar o que é excesso de peso ou obesidade, principalmente porque os media tendem a apresentar a obesidade no seu extremo”.

Por outro lado, “numa altura em que a prevalência de excesso de peso e obesidade afeta cerca de um terço das crianças, os pais podem ‘normalizar’ o excesso de peso, porque é o formato que mais encontram nas crianças que os rodeiam”, afirma ainda Daniela Rodrigues.

“Acreditamos ainda que a maior parte dos pais prefere não identificar a criança como tendo peso acima do recomendado por uma questão de enviesamento social, evitando os estereótipos associados ao excesso de peso e obesidade”, conclui.

Mais informações na notícia da Universidade de Coimbra:

Estudo conclui que um em cada três pais interpreta mal o peso dos seus filhos

Dia da Internet Mais Segura : Como proteger os mais jovens de um mundo que os adultos não conhecem?

Fevereiro 18, 2020 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 11 de fevereiro de 2020.

A Internet veio para revolucionar o mundo e, desde o fim do século passado, instalou-se nas vidas de todos, crianças e jovens incluídos — como proteger os mais novos dos perigos?

Carla B. Ribeiro

Não deixamos os nossos filhos de 12 anos sair à rua à noite, mas, a maioria das vezes, ficamos despreocupados quando os mesmos se fecham no quarto com um smartphone na mão. É essa “falsa sensação de segurança” que constitui um dos maiores entraves na luta por tornar o mundo virtual um espaço seguro para os mais novos, explica ao PÚBLICO o especialista em cibersegurança Bruno Castro.

Ou seja, segundo este profissional, o estar ligado à Internet pode revelar-se ainda mais perigoso do que atravessar a rua sozinho em tenra idade — isto porque, na rua, a criança, de forma natural, tem tendência a autoproteger-se e a prestar atenção aos perigos, enquanto no conforto do lar poderá baixar a guarda e tornar-se mais receptivo aos diferentes perigos. Isto, num mundo onde “tudo é mais viral, onde não há portas, nem fronteiras”.

Segundo Bruno Castro, cuja carreira passou por integrar comunidades, nacionais e internacionais, de Segurança Informática e também pela gestão de projectos de segurança na Internet junta da NATO, “o mundo mudou” e, mais importante, “continua a mudar todos os dias”. Por isso, por mais que se conheça o mundo virtual, “o que se diz hoje, amanhã pode não se aplicar”. Esta volatilidade torna mais difícil proteger os mais novos, sobretudo quando os adultos parecem desconhecer o mundo por onde aqueles navegam. “O fosso geracional é evidente.”

“A criança hoje tem acesso às tecnologias, é mais permeável à aprendizagem e tem acesso a sites, apps, pessoas que não conhece”, relata. Neste mundo, conta, os perigos para os mais novos vão desde o ciberbullying até à facilitação de um encontro com um agressor sexual. No entanto, a protecção não é fácil e passa por conhecer bem o mundo — os sites, as redes, as apps — por onde estes se movem.

“Não existem ferramentas ideais para proteger as crianças”, considera. Mas falar muito com os mais jovens sobre a forma mais correcta de viver o mundo virtual — “é importante explicar a toda a gente que no ciberespaço não há limites de espaço, mas também não há limites de tempo” — e conhecer esse mundo pode ajudar. No entanto, considera, não vem mal ao mundo controlar o computador e verificar o histórico de forma regular.

Uma solução fácil, deixa a dica, passa por colocar o computador numa zona comum da casa ou mesmo limitar o uso da Internet a uma área familiar.

Telemóveis à mesa? O alerta “oportuno” do Papa

Fevereiro 17, 2020 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Snews

Notícia e imagem do Educare de 5 de fevereiro de 2020.

Sara R. Oliveira

O mundo já não vive sem tecnologia e os dispositivos móveis fazem parte do cérebro dos nativos digitais. Há, porém, momentos de convívio que não merecem ser perturbados. As refeições em família são tempos de comunicação por excelência. O que fazer? Como usar esse objeto que tanto aproxima como afasta?

No último domingo de 2019, dia da Sagrada Família, o Papa Francisco saiu ligeiramente do seu discurso durante a habitual missa no Vaticano, em Roma, Itália, para lançar uma pergunta incómoda na era da globalização e do mundo tecnológico e digital. “Na tua família, sabes comunicar ou és como aqueles jovens que estão à mesa com o telemóvel, a conversar no chat?”, perguntou para avisar que a comunicação em família é fundamental e não pode ser negligenciada. Este alerta do Papa volta a centrar as atenções num tema pertinente e atual. Os telemóveis não devem fazer parte das refeições. “Devemos reanimar a comunicação na família”, pediu.

“Do Telemóvel para o Mundo. Pais e Adolescentes no Tempo da Internet” é o título do mais recente livro de Daniel Sampaio, psiquiatra e professor catedrático. “O apelo do Papa é oportuno, mas não se deve criticar o uso dos telemóveis, que são muito importantes para comunicar com o mundo”, refere ao EDUCARE.PT. E, como sustenta no seu livro, “ninguém deve ter telemóveis à mesa (filhos e pais)”. “Os telemóveis devem ser desligados antes da hora de dormir”, acrescenta.

Nesse livro, Daniel Sampaio recupera a expressão “galáxia internet”, termo do sociólogo espanhol Manuel Castells, para sublinhar e reafirmar que hoje é impossível viver sem internet e que o número de utilizadores aumenta todos os dias. “Os jovens são os habitantes mais ativos desta nova galáxia e por vezes até a glorificam em excesso. A realidade é que os adolescentes não são capazes de viver sem internet e é bom que pais e professores se convençam disso”.

O telemóvel já faz parte do cérebro e do corpo dos jovens. Não há volta a dar, não adianta afirmar o contrário. Esta é uma das mensagens principais do livro de Daniel Sampaio que explica que a constatação não tem necessariamente de ser uma coisa má. Esse objeto permite contactar muita gente, marcar uma viagem, um jantar, um encontro, uma festa. Um pequeno objeto que cabe na palma de uma mão e que é uma porta aberta para o mundo. Não há distâncias, não há barreiras. “Tudo isto deve ser aproveitado. Estamos num mundo novo e é fundamental que pais e filhos se encontrem nesse mundo e que o telemóvel não seja apenas um motivo de conflito”, escreve Daniel Sampaio.

Tito de Morais, fundador do projeto MiudosSegurosNa.Net, que ajuda famílias, escolas e comunidade a promover a segurança online, considera a declaração do Papa sobre os telemóveis “extremamente oportuna”. “A utilização de dispositivos móveis durante as horas das refeições está a destruir a comunicação familiar e o próprio tempo de refeição”, refere ao EDUCARE.PT. E, a propósito, lembra um episódio contado por uma amiga pediatra que ao explicar a uma mãe que às refeições não deveria haver intromissão de aparelhos tecnológicos, essa mãe perguntou o que era isso de refeições, contando que, em sua casa, cada um se servia do tacho na cozinha. Ela ia para a sala ver televisão enquanto comia e o filho para o quarto comer enquanto jogava.

Entrar num restaurante fundamenta a preocupação do Papa, segundo Tito de Morais. “Rara será a mesa com crianças em que estas não estejam hipnotizadas pelo telemóvel ou pelo tablet. Os pais estarão também provavelmente grudados à televisão”. O problema é os pais não terem noção de que se estão a retirar de um tempo único, cada vez mais raro, de convívio e diálogo com os filhos. “Quando se aperceberem do erro que cometeram e procurarem repor esse tempo, já irão tarde demais e dificilmente o conseguirão fazer, por duas razões: o tempo que se perdeu, está perdido, não volta para trás, e já desenvolveram nos filhos, ao longo de anos, um hábito e uma rotina e, como sabemos, hábitos e comportamentos são das coisas mais difíceis de alterar”.

Nem smartphones, tablets ou televisões ligadas nos momentos das refeições. Esses momentos devem ser espaços de interação pessoal, para falar, ouvir, conversar. Tito de Morais refere que o papel da escola e dos educadores deve centrar-se na educação parental, “mostrando, com exemplos, a importância da preservação do tempo da refeição como um tempo de diálogo familiar e dos benefícios que daí se tiram ao nível do acompanhamento parental da vida dos nossos filhos”. “Pais, famílias, escolas, professores e educadores devem promover o ensino da gestão do tempo e das prioridades como uma competência essencial para os dias de hoje e para o futuro”, defende o autor do MiudosSegurosNa.Net.

“Os filhos perdem-se em casa”
Os telemóveis e as novas tecnologias constituem um enorme desafio para as comunidades e um constrangimento para as famílias em todo o mundo. São realidades demasiado evidentes. Para Luís Fernandes, psicólogo, mestre em Observação e Análise da Relação Educativa, o alerta do Papa Francisco “faz todo o sentido” e, vindo de quem vem, alcança mais gente, em diversos contextos, e fá-lo com um grande impacto social. Em seu entender, é preciso analisar vários fatores e olhar para o mundo digital como um aliado, não como um inimigo.

A geração “always on”, sempre ligada, vive agarrada à tecnologia. Os nativos digitais não conhecem outro mundo, e os seus pais, mais velhos, tiveram de entrar nessa realidade, sentem também que têm e devem estar sempre ligados, onde estiverem, a que horas for, seja por motivos pessoais, seja por razões profissionais. “Damos a tecnologia muito cedo aos miúdos e isso acaba por afetar a comunicação”, comenta. E, muitas vezes, os telemóveis nas mãos dos mais novos tornam-se momentos de descanso para os mais velhos.

“Os filhos perdem-se em casa pelas navegações que fazem”, refere Luís Fernandes. A frase exemplifica o que acontece quando se vive constantemente ligado às novas tecnologias e o tempo de brincar na rua já se encontra em vias de extinção. “Na adolescência, os jovens afastam-se um bocadinho, não comunicam tanto com os pais, e as novas tecnologias amplificam a falta de comunicação”, comenta o psicólogo. É preciso impor algumas restrições e se não há telemóveis à mesa, não há para todos, filhos e pais, pais e filhos. “Os miúdos não podem ver isso como algo injusto, eles não podem, mas os pais podem. Tem de ser algo negociado. Para todas as partes, os mesmos deveres”. Há famílias que, sobretudo ao fim de semana, estabelecem um horário sem telemóveis para passear, fazer jogos, brincar. Pais e filhos, juntos, sem toques e interferências por perto.

A tecnologia também mudou a forma de ensinar, a forma de preparar e dar aulas. Há novas ferramentas que prendem a atenção dos alunos. “Temos de ver como usar essas ferramentas a nosso favor e isso passa muito por dialogar e envolver esses dispositivos na aprendizagem”, refere. Dar aulas de outras maneiras, explorar abordagens mais atrativas. “Não faz sentido querer que a tecnologia não faça parte da vida dos nativos digitais”, avisa Luís Fernandes. O melhor caminho é limitar e consciencializar os mais novos. Proibir não ajuda, nem resulta.

“Desencontros comunicacionais”
Sónia Seixas, psicóloga e professora universitária, licenciada em Antropologia Social e em Psicologia Educacional, doutorada em Psicologia Pedagógica, abre e fecha parênteses antes de abordar diretamente o assunto. O facto de alguém de uma geração anterior comentar ou avaliar comportamentos da geração seguinte, mais nova, nomeadamente quanto à introdução de elementos de inovação que interferem na vivência quotidiana das duas gerações (a anterior e a seguinte), é complexo, difícil, e possivelmente tendencioso. É com esta ressalva que fala do assunto e comenta a declaração do Papa Francisco, sobretudo enquanto mãe e membro de uma sociedade em acelerada transformação.

“É inevitável que esta nova geração se habitue, desde cedo, a contactar, interagir e comunicar à distância, através dos ecrãs, utilizando habilmente todos os dispositivos e aplicações que se encontram disponíveis e acessíveis à sua exploração e utilização”, afirma. Mas, sublinha, estas novas maneiras de comunicação “não se substituem às formas presenciais de interação que a geração dos seus pais avós não só prefere, como utiliza de sobremaneira”. Por causa destas preferências que não coincidem instalam-se, por vezes, “desencontros comunicacionais” que, em seu entender, “não deveriam ser obrigatoriamente entendidos nem como opostos nem como obstáculos”, apesar da tecnologia sempre presente, desde o acordar ao deitar, poder dificultar a partilha de alguns momentos em família, como a refeição quando é feita em conjunto.

“Nos dias de hoje, em que vivemos o nosso dia a dia de forma acelerada, apressados para conseguirmos responder simultaneamente a todas as demandas profissionais, pessoais e familiares, torna-se difícil garantir momentos em família, onde a comunicação tenha um espaço devidamente assegurado. É por isso fundamental criar oportunidades em que todos os elementos da família possam comunicar presencialmente, olharem-se nos olhos, ler e interpretar emoções e estados de espírito através da linguagem não verbal (corporal e facial), escutar, expressar-se verbalmente, sem a mediação de ecrãs”, refere Sónia Seixas.

A utilização das tecnologias é muito atrativa e isso é inquestionável. Há, no entanto, outros fatores a ter em consideração. “Em momentos que temos a família reunida, nomeadamente à volta da mesa de refeição, deveríamos encontrar mecanismos para que a familiaridade, a intimidade, a cumplicidade, a partilha, o auto e hetero conhecimento, se pudessem desenvolver e aprofundar”. Pais e filhos distantes, por momentos, dos alertas de mensagens, do email, daquela necessidade de consultar, de mil informações que passam pelo ecrã.

A família em primeiro lugar. “Havendo um papel a atribuir, seria à família e não à escola, uma vez que esses momentos familiares, a serem ‘regulamentados’ ou negociados, devem sê-lo nesse contexto, com esses interlocutores e tendo como referência a sua própria rotina e dinâmica relacional”. Em seu entender, não é que a comunicação necessite de ser “reestabelecida ou retomada” na família, mas antes que “tenha de haver um esforço consciente e voluntário, para que se mantenha nos termos daquilo que possamos considerar como menos digital e mais presencial, menos online e mais offline”.

Trabalho por turnos: casais contam como se guarda tempo para os filhos

Fevereiro 7, 2020 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do Notícias Magazine de 28 de junho de 2020.

Vivem momentos únicos quando apenas um dos pais está presente, são poucas as vezes que estão todos reunidos, passam dias sem ver um dos progenitores, dão uma notícia por mensagem e recebem um aconchego num telefonema. Vivências de uma realidade com rotinas muito próprias e organizadas ao pormenor.

Sofia Filipe

Liliana Morais tem 35 anos e é enfermeira no Hospital de Chaves. Situada nessa cidade transmontana, a creche de Carolina, de dois anos, abre as portas às oito da manhã. A hora a que Liliana já tem de estar no Bloco Operatório. Deixa a filha em casa dos pais do marido, Tiago Morais, três anos mais novo. A pré-escola do filho mais velho, Afonso, de cinco anos, permite entrar mais cedo, mas há um acréscimo na mensalidade. Fica também em casa dos avós. “Os meus sogros levam os miúdos às diferentes escolas.”

Se o turno desta mãe terminar às 15.15 horas, vai buscar o primogénito às 16 e a mais nova meia hora depois. Se for às 17, vão os avós ou o pai, que também é enfermeiro, mas no Serviço de Urgência Geral do Hospital de Vila Real. “Certos dias, somos quatro pessoas a levar e buscar os meninos”, comenta Liliana. A organização familiar é alterada se estiver no turno da tarde (15 às 22.15) ou no da noite (22 às 8.15).

Tiago tem os mesmos horários e a planificação é feita a cada mês. Segundo dados do Instituto Nacional de Estatística, no final de setembro de 2019 eram 835 mil as pessoas a trabalhar por turnos em Portugal. Mais de 423 mil mulheres tinham horários variáveis, contra 409 mil homens. No entanto, a população masculina ganhava à feminina, uma vez que há 226 mil homens a trabalhar mais serões, noites, sábados e domingos do que as mulheres.

Este casal de Chaves faz séries de turnos. Ou seja, num dia estão de tarde; no noutro, de manhã ou de tarde. Um horário que faz com que não vejam os filhos praticamente dois dias. “De manhã estão na escola. Saio de casa às 14 horas e regresso pelas 23.30, quando já estão a dormir. No dia seguinte, saio pelas 6.50. Ainda estão a dormir. Quando regresso, pelas 16.30, estou pouco tempo com eles, porque volto a sair às 20.50 para iniciar o turno da noite”, exemplifica Tiago.

Das datas especiais, refere o Natal como das mais difíceis. “Ter a família sentada à mesa, chegar aquela hora e ter de sair. Fica sempre um gosto amargo. Por muito que expliquemos, os nossos filhos ainda não conseguem perceber por que razão o pai não pode estar ali para abrir os presentes com eles.” No dia a dia, “é duro” quando Afonso lhe diz ao telefone que tem saudades.

“O trabalho por turnos gera inseguranças e frustrações que muitas vezes se refletem no bem-estar e na própria relação do casal” Marta Marques
Psicóloga educacional”

Para a família Morais, conseguir desfrutar de tempo de qualidade em conjunto “é uma tarefa árdua”. Requer, por exemplo, uma organização pormenorizada, de forma a conseguirem gozar algumas folgas no mesmo dia. Em novembro, coincidiram apenas dois dias. À logística familiar acresce uma profissão “desgastante, física e psicologicamente”. “É muito difícil sair da porta do hospital e esquecer tudo o que vimos e fizemos lá dentro. Quando folgamos, a energia está muito próxima do zero. O esforço é levantar a cabeça e aproveitar os momentos que não acontecem com muita frequência”, diz Liliana. Apesar de sentirem que deveriam estar mais presentes, têm noção de que conseguem “dar o apoio necessário aos filhos”.

Mara Granadas, 34 anos, e Nuno Rafael, de 43, não identificam qualquer vantagem numa vida por turnos. “Só desvantagens.” Moram na Quinta do Anjo, em Palmela, e em 15 minutos chegam ao Parque Industrial da Autoeuropa, onde trabalham como operadores de linha, mas em fábricas diferentes. Ela na Faurecia, desde 2013, e ele na Benteler, desde 2011. Mara está a fazer dois turnos (7 às 15.30 e 15.30 à meia-noite). Em fevereiro, passa a cumprir também o terceiro (meia-noite às 7), que já é feito pelo companheiro de há 13 anos. “Estaremos em turnos diferentes. Vai facilitar a vida com a nossa filha, mas sairemos prejudicados enquanto casal. Apenas vamos estar juntos nas férias de verão e no Natal”, desabafa esta mãe, ela própria “filha dos turnos”.

Francisca tem dez anos e dificilmente terá irmãos. “Sentimos que deveríamos estar mais presentes no crescimento. Por isso, não queremos mais filhos”, assume Mara, que gostaria de ter presenciado certos momentos. “O primeiro dente que caiu ou a primeira leitura podiam ser hoje memórias.” Prefere o turno da manhã, pois, dessa forma, consegue estar com a filha em casa ao fim do dia. “Como uma família normal.” Já Nuno dá preferência ao turno da noite. “Descanso muito pouco, mas consigo levar e buscar a Francisca à escola e participar em atividades extracurriculares, como atletismo, explicação e aulas de canto.”

Quando cumprem o turno da tarde, só veem a menina cerca de uma hora por dia, antes de a deixarem na escola. Ao regressarem da jornada, já dorme. Uma semana por mês estão no mesmo horário e recorrem aos avós. Se estes não puderem, porque ainda trabalham, têm de “pedir a amigos e vizinhos”. Nas férias, a Francisca tem de ir para um ATL. “O nosso subsídio de férias é para comportar essa despesa”, realça a operadora de linha, classificando a época de testes escolares como a mais complicada. “Pede apoio e dificilmente alguém está com disponibilidade para a ajudar a estudar. Nem sempre é fácil explicar a uma criança que temos mesmo de trabalhar por turnos e que não podemos estar com ela sempre que precisa.”

A presença regular e emocionalmente significativa das figuras parentais é fundamental para o processo de desenvolvimento dos mais novos, frisa Marta Marques, psicóloga educacional e investigadora do projeto IDEA (Investigação de Dificuldades para a Evolução na Aprendizagem) na Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa. “O trabalho por turnos é muitas vezes acrescido de maior stresse, com noites pouco regeneradoras do funcionamento emocional e sintomas de burnout. Estas situações podem levar os pais a sentir que estão sozinhos na prestação de cuidados à criança e poderá fazer crescer a perceção de não corresponderem de forma adequada às necessidades, gerando inseguranças e frustrações que muitas vezes se refletem no bem-estar e na própria relação do casal”, sustenta.

“[filhos de casais que trabalham por turnos] Tornam-se mais desatentos e, por vezes, menos interessados em aprender novos conteúdos”
Maria João Senos Educadora de infância

Na opinião de Maria João Senos, educadora de infância na Santa Casa da Misericórdia de Ílhavo, a presença menos frequente dos progenitores em simultâneo poderá afetar os filhos em idade pré-escolar. “Pode não ser logo evidente, mas no decorrer do dia a dia vamos notando algumas alterações, principalmente no comportamento.” Mais tarde, sublinha, surgem outras consequências. “Tornam-se mais desatentos e, por vezes, menos interessados em aprender novos conteúdos”, observa, destacando que, em idade escolar, “o ambiente familiar tem de ser bom e estável para não haver implicações negativas”.

“Só queria estar presente para a abraçar”

Para Marisa Matias, professora auxiliar e investigadora na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto, a consequência mais óbvia da dessincronização entre o horário de trabalho e os tempos sociais “é a não participação nas atividades rotineiras da família e o menor envolvimento nas tarefas domésticas e de cuidado aos filhos”. Segundo a docente, as famílias cujos pais trabalham por turnos procuram criar rotinas diferentes das habitualmente adotadas pelos casais com empregos tradicionais. “Não podem jantar, mas, por exemplo, tomam o pequeno-almoço juntos.”

A proximidade emocional é fundamental para o sucesso das relações familiares. No entanto, Marisa Matias lembra que isso não acontece por acaso. Requer “tempo passado em conjunto, disponibilidade e investimento afetivo”. E é essa proximidade que Susanna Lee Carvalho e Carlos Rafael tentam manter, mesmo quando o cansaço dá cartas ou perante sintomas de burnout. Susanna e Carlos são técnicos de tráfego de assistência em escala na placa no Aeroporto de Lisboa há mais de duas décadas.

Desde que, há 11 anos, nasceu Amy, não se cruzam no local de trabalho. “Se nos colocarem no mesmo horário, pedimos para mudar. Dentro das possibilidades operacionais, a gestão do planeamento é flexível”, esclarece Susanna, de 43 anos, que há quatro anos voltou a ser mãe, de Scarlett. “Está sempre um de nós em casa para levar as meninas às respetivas escolas ou para as receber”, completa Carlos, 46 anos.

A “maior alegria” desta família de Cascais é quando estão os quatro juntos. Não deixam as filhas nos avós maternos para uma “escapadela a dois”, preferem declinar convites para casamentos ou batizados se apenas um estiver disponível e optam por ter uma vida social “menos agitada”. “Normalmente, temos um fim de semana juntos de seis em seis semanas”, aponta a mãe de Amy e Scarlett. Carlos explica que mesmo alguns desses fins de semana em família são de horário reduzido.

“Se sair à meia-noite de uma sexta-feira e na segunda entrar às quatro da manhã…” Quanto a férias, embora não seja na época que preferem, podem tirar 15 dias no mesmo período do ano, devido ao acordo de empresa referente a casais. Os turnos de Carlos abrangem as 24 horas, os de Susanna nunca ultrapassam a uma da manhã, mas podem começar às quatro da madrugada. Nesses dias, acorda às 2.50 horas. “É o meu horário preferido, pois permite-me ter mais tempo para as meninas e realizar diversas tarefas.”

Quando as filhas eram pequenas, Susanna e Carlos optaram por não usufruir da creche do Aeroporto de Lisboa. “As meninas teriam de fazer turnos, interromper o sono. Se a nós custa, imagino a elas.” Trabalhar com horários complexos acaba por deixar marcas. Como daquela vez em que estava num turno noturno e a filha mais velha lhe telefonou. “A Amy teve uma desavença com uma amiga e ligou-me a desabafar. Eu só queria estar presente para a abraçar. As minhas filhas são filhas dos turnos e aprenderam cedo que há beijinhos dados num telefonema.”

“Os momentos em que um abraço é substituído por palavras confortantes podem ter implicações se a família representar isso como um problema”, defende Marta Marques. “As crianças não nascem com uma ideia pré-formatada de família. Adquirem-na pela forma como os adultos a ajudam a viver”, assinala a psicóloga educacional, que considera importante transmitir segurança e tranquilidade. “A ausência física não representa abandono. E se a criança se sentir segura vai viver com maior tranquilidade essa saudade.”

Estranhava ver pai e mãe presentes em simultâneo

Tal como as irmãs Amy e Scarlett, também Beatriz Leal, de 11 anos, (con)vive bem com os horários atípicos dos pais e, inclusivamente, quando era mais nova chegou a estranhar ter os dois presentes em simultâneo. Ana Torrão, 43 anos, e João Leal, 46, são funcionários da Tabaqueira há 18 e 20 anos, respetivamente. Ambos trabalharam quatro anos num regime de turnos específico. Eram quatro dias seguidos com 12 horas de trabalho e outros tantos de folga. Ou seja, foram quatro anos desencontrados.

Quando muito, cruzavam-se na cancela da fábrica quando um saía e o outro entrava. Atualmente, a técnica de qualidade só faz dois horários (7 às 15.30 e 15.30 à meia-noite). O técnico de manutenção ainda cumpre o turno da meia-noite às sete da manhã. Os horários mudam semanalmente, mas, para garantirem o apoio à filha, Ana Torrão faz duas semanas de manhã e uma de tarde. “As chefias são flexíveis. É menor e, assim, não fica sozinha”, afirma Ana.

Residem na Malveira, no concelho de Mafra, e não contam com o apoio dos avós maternos, porque vivem no Cartaxo, nem dos paternos, que estão em Benavente. “Um dia, tive de deixar um trabalho a meio para dar assistência à Beatriz”, lembra João. O casal usufruiu das vantagens de ter a menina na creche da Tabaqueira e a mãe recorda como lhe custou o primeiro dia. “Se eu fazia 12 horas de trabalho, a Beatriz tinha de lá estar todo esse tempo.”

De acordo com o Relatório da Carta Social 2018 do Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, no ano letivo de 2018/19, o Instituto de Segurança Social assegurou o financiamento da comparticipação complementar a 1 186 creches pela prática de horário de funcionamento superior a 11 horas diárias. “O período de permanência numa creche ou jardim de infância deveria ser o menor possível. Hoje em dia, é quase impossível e é muito triste”, lamenta Maria João Senos, que recebe algumas crianças às 7.30 horas e, por vezes, só saem às 19.30 horas.

Voltando ao casal que trabalha na Tabaqueira, atualmente, quem está no turno da manhã deixa a Beatriz na escola, perto do trabalho, às 7 horas. O cônjuge vai buscar a menina às 17 horas. “É difícil termos disponibilidade para dar apoio nos estudos, daí a importância do ATL. Tem tido boas notas”, salienta João Leal. Para estes pais, a filha está em primeiro lugar e por ela vencem a saturação psicológica, a falta de paciência e o cansaço físico inerentes ao trabalho por turnos. Dos direitos, não abdicam. Ana recorda que “bateu o pé” quando a chefia não pretendia facilitar horários durante a gravidez e ao regressar da licença de maternidade. “Não sofri represálias. Mas algumas pessoas têm medo. Se existem leis que protegem os trabalhadores, são para ser usadas.”

Diane Cristóvão Augusto, advogada-estagiária, lembra que o Código do Trabalho prevê matéria dedicada à parentalidade. “Estas normas são uma projeção do princípio da proteção do trabalhador, sendo cada vez mais alvo de atenção e de alterações.” No entanto, não há nenhuma norma que regule os profissionais que trabalham por turnos. São de aplicação geral. O direito ao trabalho flexível previsto no artigo 56.º do Código do Trabalho, por exemplo, é aplicado a todos os trabalhadores com filhos menores de 12 anos. “É intenção do legislador harmonizar o direito do trabalhador à conciliação da atividade profissional com a vida familiar”, diz a jurista. “Uma pessoa que concilie as duas áreas é mais realizada, mais produtiva, com ganhos para todos. Pessoas felizes garantem melhores resultados.”

Carla Mota vive na Costa da Caparica, tem 36 anos, é mãe de Ethan Gabriel Gonçalves, de três, e conhece o direito ao horário flexível. “Ainda não precisei. Se houver necessidade, não hesito em solicitar”, assume esta funcionária da Europ Assistance na área da assistência em viagem. Na empresa, o plano de turnos é feito mês a mês. De momento, apresenta-se ao trabalho às oito ou às dez da manhã, mas tem outros horários possíveis, como o das 18 às duas da madrugada. É casada com Byron Gonçalves, de 34 anos, cujos turnos cobrem as 24 horas. É técnico de telecomunicações e manutenção de redes na Oni há dez anos e também costuma estar de prevenção, que implica deslocação ao local de trabalho, se for necessário.

Trabalham em Lisboa. Saem, por isso, de casa com alguma antecedência. Se acontecer estarem no mesmo horário, recorrem aos avós paternos ou maternos, que moram a poucos quilómetros. “Se não tivéssemos esta rede de apoio, seria muito complicado. Quando entro às oito da manhã, levanto-me às cinco da madrugada. Para o Ethan não acordar a essa hora, por norma, dorme em casa da mãe do Byron”, explica Carla, que já esteve uma semana sem ver o marido, devido aos horários opostos. Quando estão juntos, tentam ter “tempo de qualidade, com muitas atividades”. Quando o pai está a fazer madrugadas, preparam um pequeno vídeo e enviam. “Assim, a noite não custa tanto a passar.”

Para Marisa Matias, uma vantagem do trabalho por turnos reside “na compensação financeira que certos horários atípicos acarretam”. Carla e Byron confirmam. “O meu subsídio de turno não compensa tanto como o do meu marido”, comenta Carla, que deseja um dia poder trabalhar a partir de casa, para estar mais tempo com Ethan. Todavia, o trabalho em horário atípico “associa-se a maior stresse, problemas com o sono, conflitos conjugais e menos tempo para o casal”, frisa a investigadora. Ana Torrão e João Leal não escondem que “o casamento esteve ameaçado”. “Estávamos habituados a estar quase sempre sozinhos”, diz Ana. “Tivemos de reaprender a viver juntos”, completa João. Conseguiram ultrapassar essa fase e assistem, juntos, ao crescimento da Beatriz.

No próximo ano letivo, Francisca vai para o Ensino Preparatório. Na perspetiva de Mara Granadas e Nuno Rafael, a conjugação de todos os horários “não será fácil, mas não vale a pena sofrer por antecipação”. Susanna Lee Carvalho e Carlos Rafael não se imaginam a trabalhar com horários fixos. “Não temos de pedir para faltar porque vamos a uma consulta médica e podemos tratar de assuntos pessoais”. Também Liliana e Tiago Morais preferem manter os turnos. Em termos profissionais, “é menos rotineiro”. Nas questões familiares, existe “a grande vantagem” de poderem estar presentes na vida dos filhos “em diferentes alturas do dia e nos dias úteis”.

Para a psicóloga educacional Marta Marques, os filhos de pais trabalhadores por turnos podem criar representações da rotina familiar diferentes. Mas essas vivências não têm que representar um problema, “se os pais mantiverem uma comunicação e colaboração positiva e se a criança sentir uma vinculação de segurança”. A educadora de infância Maria João Senos sublinha a importância de um bom ambiente familiar. “Se todos se compreenderem e conseguirem conversar, sem telemóveis, será um bom caminho.”

Doze maneiras de ser um pai melhor (e mais feliz) este ano

Janeiro 20, 2020 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do Público de 14 de janeiro de 2020.

Um conselho para cada mês do ano, baseados Em pais felizes, por Braden Bell, professor e autor de livros e artigos sobre parentalidade.

Braden Bel

Enquanto professor, ao longo dos anos, já tive a oportunidade de observar e aprender através de muitos pais. Já fiquei impressionado várias vezes pelo quão felizes, positivos e responsáveis alguns deles são, mesmo em alturas difíceis. Mas também há os que se preocupam e muitas vezes não parecem gostar de ser pais – os que me deixaram com a impressão de que mal aguentam.

Já estive dos dois lados, e suspeito que a maioria de nós oscila entre esses extremos. Aqui ficam algumas estratégias para uma existência parental mais fácil e responsável, baseada em ver pais felizes.

1. Seja pai a partir da sensatez, não do medo

A expressão é de Tim Elmore [especialista nas novas gerações de crianças e jovens], que nota que uma grande parte do comportamento parental está subjugado pelo medo. Enquanto pais, talvez temamos outras pessoas, a nossa própria inexperiência e imperfeições, ou toda uma quantidade de coisas terríveis que se possam abater sobre as nossas crianças.

Por isso, Elmore sugere substituir conscientemente o medo pela sensatez. Fala sobre isso no contexto de darmos o exemplo aos nossos filhos, mas acho o processo útil também para nós próprios. Não podemos simplesmente deixar de lado o medo ou a culpa, mas podemos resistir-lhes. Já percebi que agir sobre sentimentos como os do medo ou da culpa aumenta o seu peso. Já resistir-lhes minimiza-os.

2. Encontre um mentor

Procure orientação de alguém que o possa ajudar a determinar que batalhas precisam de ser travadas e quando pode sossegar um pouco. Ter um mentor também lhe permite beneficiar com os erros e as lições árduas de outrem. Pode encontrar mentores no seu bairro, no trabalho, na escola ou na comunidade religiosa.

Contudo, tenha em mente que poderá ser alguém mais velho e com uma visão do mundo diferente da sua, já que, por norma, quem tem mais experiência tem mais anos de vida. Tudo bem. Não tem de fazer tudo o que essa pessoa sugira. Mesmo que discorde do seu mentor, ele pode sempre dar-lhe conselhos úteis.

3. Confie em si mesmo

Nos dias que correm, temos acesso rápido a quantidades enormes de informação de especialistas, o que pode ser benéfico, mas também paralisante. Receio que crie uma expectativa de que todos os problemas têm uma resposta “certa”, claramente definida, sabida por alguém. Mas até os especialistas se debatem com os seus filhos. Ser pai não é uma ciência exacta, é mais um processo de usar estratégias específicas em alturas específicas para obter resultados específicos.

Em vez de seguir uma receita, os pais bem-sucedidos cativam os seus filhos com base na sua experiência, juízo e valores. Os pais estão dispostos a ir contra o que todos fazem e enfrentar batalhas difíceis. Dizem “não” quando é preciso. Quando cometem erros, tentam outra abordagem. E, se falhar algures, aproveitam a oportunidade para dar o exemplo aos seus filhos sobre como corrigir os seus erros.

4. Não seja intriguista

Quer seja a falar de outro pai, de um professor ou de um colega do seu filho, ser intriguista tem um efeito negativo em quem ouve ou quem lê, seja numa conversa ao vivo, por telefone ou via mensagem de texto.

A intriga gera um ambiente que não dá lugar à mudança ou ao crescimento – incluindo o nosso próprio. A intriga também nos habitua a procurar o pior e a focar a nossa atenção no que não podemos controlar (as escolhas dos outros), em vez de naquilo que podemos controlar (as nossas escolhas). A intriga gera ansiedade.

5. Tente um jejum das redes sociais

Já ouvimos falar sobre o bem-estar que encontramos quando nos livramos de tralha. Há uns anos, tentei livrar-me consideravelmente das minhas redes sociais. E mudou a minha vida. Também melhorou muito as minhas relações familiares. Esse jejum deu-me a clareza para ver como poderia alinhar melhor o uso das redes sociais com as minhas prioridades e valores.

6. Deixe o seu filho viver as consequências

É libertador quando deixamos de tentar gerir e mitigar as consequências das acções dos nossos filhos e, em seu lugar, nos focamos em prepará-los para a vida através de desafios, assim como ajudá-los a aprender com a experiência. Ajuda-nos a focarmo-nos no que podemos controlar e dá ferramentas aos nossos filhos, porque o fracasso, a dificuldade e os obstáculos são o que cria e afina as capacidades e habilidades de que precisam para serem bem-sucedidos como adultos.

7. Há vida para lá do horário do seu filho

Vivemos numa época de oportunidades sem precedentes para as crianças. Mas o bom em excesso pode ser um problema e estar demasiado ocupado pode ter consequências negativas nas famílias.

Há uns anos, por nos sentirmos muito sobrecarregados e stressados, eu e a minha mulher reduzimos as actividades extracurriculares do nosso filho a uma por período lectivo. Fez uma enorme diferença na vida familiar. Não proponho essa solução para toda a gente, mas é refrescante fazer escolhas sobre o que queremos fazer, em vez de fazer aquilo que um horário dita.

Quanto tempo não estruturado e não orientado por adultos tem o seu filho? Participa numa actividade por ser divertida ou porque está a tentar construir um currículo para o seu filho, prepará-lo para obter uma bolsa ou ajudá-lo a atingir outros objectivos futuros? Algo disto irá importar daqui a 20 anos?

8. Faça algo que aprecie

Encontrar coisas pequenas para fazer pode ter um grande impacto na vida familiar. Uma vez ouvi uma autora premiada discutir como utilizava a hora do banho da filha para ter uns minutos de escrita. Às vezes só conseguia escrever uma frase. Mais tarde apercebeu-se que foi assim que aprendeu a escrever uma frase única, perfeita.

Ouvir audiolivros, desfrutar da sua bebida preferida, ver um programa ou ouvir um podcast enquanto prepara refeições – há muitas maneiras de cuidar de si próprio.

9. Ligue-se

É fácil, na pressão de tudo o que temos para fazer, perder de vista o que precisamos para nos ligarmos aos nossos filhos, mas construir esses relacionamentos pode ajudar a prevenir ou mitigar um sem número de problemas sérios. Devemos procurar relacionarmo-nos com os outros pais. Tenho visto problemas aparentemente enormes, quase intratáveis, resolvidos muito rapidamente quando os pais pegam no telefone e falam uns com os outros. Organize um encontro com os outros pais ou junte-se a uma associação da comunidade, grupo religioso ou um clube de lazer para pais.

10. Crie memórias

Memórias de família são uma moeda que trocamos com os nossos filhos, algo que não se desvanece ou desaparece. Podem trazer gargalhadas e alegria, aproximando-nos. O meu maior teste agora, para ver se algo vale o nosso tempo, esforço e dinheiro, é perguntar se é uma coisa que nos vai dar memórias. Se a resposta for sim, vou quase sempre fazê-lo, não importa o custo.

11. Faça algo à antiga

Muito daquilo de que nos afastámos progressivamente tem um impacto positivo no nosso coração: escrever à mão um cartão de agradecimento, ler um livro em papel, aperaltar-me, usar o serviço numa refeição, dar um jantar de festa, fazer um bolo, danças de salão ou jardinagem. Tendemos a focarmo-nos no nosso estilo de vida e conveniências modernas, mas os nossos antepassados viveram centenas de anos sem nenhum dos recursos que temos. O que para eles mais importava, as suas ideias, costumes e tradições podem não se alinhar na perfeição com o que mais valorizamos nos dias de hoje, mas ainda nos podem ensinar algo.

12. Aja em vez de se preocupar

Canalize o seu medo, preocupações ou revolta para a acção. A história frequentemente avança com pequenas reviravoltas e com as acções de gente comum na altura certa. No mínimo, pelo menos estará a fazer algo. E isso pode ajudar a trazer paz e felicidade.

Braden Bell é professor, escritor e realizador de Nashville, Tennessee. Autor de sete livros, tem um blogue e escreve uma newsletter com reflexões sobre ser pai de adolescentes. Está no Twitter em @bradenbellcom.

Exclusivo PÚBLICO/The Washington Post

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