Prisões não estão ajustadas às crianças que visitam os pais

Novembro 28, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.publico.pt/ de 12 de novembro de 2017.

O último Inquérito Nacional sobre Comportamentos Aditivos em Meio Prisional indica que dois em cada três reclusos têm filhos. Nem a revista, nem o espaço de visita estão ajustados e não há uma visita especial

Ana Cristina Pereira e Paulo Pimenta (Fotografia)

O olhar de Cira percorre as fotografias, pedaços de cor no armário branco, estreito. Bem gostava de passar a visita inteira com os filhos, um menino de oito anos e uma menina de quatro, ao colo ou, pelo menos, pertinho dela, mas não dá. “A minha filha não fica sentada no meu colo muito tempo. Gosta de estar a brincar com os outros meninos. O meu filho, às vezes, nem quer vir.”

Ninguém sabe quantas crianças portuguesas têm os pais encarcerados. O último Inquérito Nacional sobre Comportamentos Aditivos em Meio Prisional, conduzido em Outubro de 2014, indica que dois em cada três reclusos têm filhos. Há mais mulheres (85%) do que homens (67,8) a declará-los. Muitas são mulheres solteiras ou têm uma relação conjugal não formalizada.

Nas camaratas e celas, como a que Cira ocupa no Estabelecimento Prisional Especial Feminino de Santa Cruz do Bispo, em Matosinhos, sobressaem fotografias de sorridentes rostos infantis. Nas salas de espera e nas salas de visita, nem um livro, um brinquedo, um jogo para entreter uma criança.

Os filhos que crescem em liberdade não têm tratamento de excepção. Cada condenado pode fazer um telefonema de cinco minutos por dia e receber até três pessoas em cada uma das duas visitas semanais de uma hora no parlatório e é dentro disso que pode conviver com os eles. Abre-se uma prerrogativa pelo aniversário, altura em que pode receber seis pessoas e estar com elas duas horas.

Quando Cira foi presa, em Julho de 2015, a filha ia nos 15 meses. As cadeias centrais de mulheres estão preparadas para acolher crianças até cinco anos. A rapariga, então com 25, não quis separar a menina do menino, que já tinha seis anos. “Ele ia perguntar: ‘Porque é que ela pode ficar contigo e eu não?’”

Ficaram ambos ao cuidado da avó materna, Cristina. Viúva, estava desempregada desde que a Fábrica de Cerâmica Valadares abrira falência, em 2012. Nunca mais regressou ao mercado de trabalho. “Não estou a viver a minha vida”, lamenta. Para lá dos cuidados comuns, tem de levar a menina à terapia da fala, o menino à psicoterapia, ambos a visitar a mãe. Vale-lhe o apoio da irmã, Céu.

Quando os pais são presos, as crianças tendem a ficar com as mães, nota a socióloga Rafaela Granja, autora do livro Para cá e para lá dos muros – Negociar relações familiares durante a reclusão, que acaba de ser editado pela Afrontamento. Quando as mães são presas, amiúde há uma avó, uma tia ou uma irmã que assume esse papel. É raro as crianças ficarem com o pai ou irem para uma instituição. Dentro das prisões femininas estão à volta de 40.

A menina ainda não percebe o que é este edifício claro como uma escola, mas rodeado por um muro que termina em arame farpado. Tão-pouco o que é o Estabelecimento Prisional do Porto, onde o pai está. “A gente diz-lhe que a mãe está a trabalhar, está a ganhar tostões para a papa”, contou a tia Céu, na sala de sua casa. “Ainda agora fez anos. Comprámos uma prenda e deixámos na secretaria para fazer de conta que tinha sido a mãe dela. Ela acreditou que foi a mãe.”

O menino já tem outro entendimento sobre o que  acontece à sua volta. Quando o professor lhe perguntou pelos pais, não disse que a mãe está aqui e o pai no Estabelecimento Prisional de Paços de Ferreira. Respondeu que estavam a trabalhar. Não queria que a turma inteira soubesse. Depois, pediu à avó que fosse lá contar a verdade ao professor.

Cada criança terá a sua forma de reagir. O impacte depende da idade, da qualidade da relação, do apoio da família e da comunidade, da duração da separação, da natureza do crime. A literatura científica aponta para sentimento de perda, confusão, ansiedade. Não têm só de lidar com a ausência, também com o estigma. Algumas crianças dormem mal, têm dificuldade em se concentrar, ficam agressivas.

A avó Cristina reconhece alguns desses sintomas no menino. “Ele ficou alterado”, diz ela. “Eu tive de tomar providências. Ele faz uma medicação.” Quando o contrariam, desata a gritar: “Minha mãe! Eu quero a minha mãe!”

É um caso extremo. Primeiro, a polícia levou-lhe o pai. Depois, a avó paterna, o avô paterno, a tia-madrinha, um tio-avô, a mãe, o padrasto. Foram todos envolvidos num dos maiores processos de tráfico de droga do Grande Porto. Nos primeiros tempos, se saísse das aulas e não visse a avó Cristina punha-se a gritar. Pensava logo que também ela tinha sido levada para a prisão.

Filas, revistas, vigilância

Os cuidadores adoptam diversas estratégias para ajudar as crianças. Rafaela Granja conhece quem omita a realidade, justificando o afastamento com migração ou tratamento, quem procure camuflá-la, alegando que a prisão é o novo local de trabalho, e quem conte a verdade, atenuando questões relativas ao tipo de crime. “Conforme as crianças vão crescendo e vão ganhando uma ideia do que pode ser uma prisão, as estratégias de dissimulação vão perdendo eficácia”, esclarece.

O menino percebe que está numa prisão e não gosta de aqui vir. Tem de sair da cama cedo, de formar fila à porta, de se sujeitar à revista, de passar pelo pórtico, de se sentar num ruidoso parlatório, sob o olhar de pessoas fardadas. Amiúde, dá sinais de impaciência. “Que horas são? Falta muito? Vamos embora.”

Acontece sair do Feminino de Santa Cruz do Bispo, onde viu a avó, a mãe, a tia-madrinha, e entrar no Masculino de Santa Cruz do Bispo para ver o avô ou no de Paços de Ferreira para ver o pai. Quando não quer ir, ninguém obriga. “É nesses fins-de-semana que nos bate mais”, diz Cira. “Porque não veio? São a nossa vida, os nossos filhos.. Nós não tivemos juízo e eles é que pagam.”

As prisões não estão pensadas para receber as crianças que crescem em liberdade, critica Rafaela Granja. O processo de revista não é ajustado, o espaço de visita também não, e não há uma visita especial, apesar da evidência de que isso poderá mitigar o efeito da reclusão parental nas crianças.

“Nós nem um rebuçado podemos levar”, lamenta Cira. “Os meus filhos vão aos pais deles [que estão em prisões diferentes] e eles podem levar uma lambarice e os meus filhos já se sentem mais… Já têm mais vontade de ir, não é? Eu não posso levar nada e eles perguntam-me: Porque não me dás nada? Porque não me trazes um chocolate? Porque não me trazes um chupa?”

A este nível, cada prisão tem o seu modo de proceder. No Feminino de Santa Cruz do Bispo, as reclusas nada podem levar de dentro para fora, nem de fora para dentro. Noutras, como o contíguo Masculino de Santa Cruz do Bispo, os reclusos podem levar algo que tenham comprado lá dentro.

De vez em quando, põem-se Cira e as duas reclusas que lhe são mais próximas, a ex-cunhada dela, Patrícia, e a ex-sogra, Ana, a fantasiar. No quarto da visita íntima, onde cada uma delas recebe o respectivo companheiro, além de uma cama e de duas mesas-de-cabeceira, há um fogão, uma mesa e quatro cadeiras. “Para que é aquilo?”, questiona Patrícia. Antes queria ter três horas por mês ali, sozinha com os dois filhos, de 13 e 15 anos, do que com o companheiro, preso em Paços de Ferreira.

Os filhos de Patrícia estão ao cuidado da irmã, Andreia. O mais pequeno esforça-se para não dar dores de cabeça, receoso de ser enviado para um centro de acolhimento temporário. O mais velho perdeu interesse pela escola. “Os professores dizem que está uma criança revoltada”, conta Andreia.

Andreia não quer desculpar o sobrinho com o facto de ter a família mais chegada quase toda encarcerada, mas parece-lhe que essa é uma realidade “difícil de encarar “e que ele precisava de uma compreensão e de um apoio que não tem encontrado na escola. “Tinha tudo e ficou sem nada.”

A situação pode piorar. A Câmara do Porto emite ordem de despejo a famílias que destinam a casa a “usos ofensivos aos bons costumes, à ordem pública ou contrários à lei”. Andreia e os sobrinhos, que não foram implicados no processo, receberam ordem de despejo. “Querem que a gente pague pelo que a gente não fez”, insurge-se Andreia. Interpôs providência cautelar. A avó e a mãe de Cira também receberam ordem de despejo e também interpuseram providência cautelar.

“Nunca dei problemas”, suspira Patrícia, sentada num banco do pátio onde as mulheres costumam lavar a roupa, conversar, jogar às cartas, fumar. “Sempre trabalhei.” Teve os pais presos quando era pequena e ficou à guarda da avó. “Desde miudinha, pensava: ‘Posso passar mal, mas nunca vou vender droga.’” Um dia, estava sem trabalho, pôs-se a vender. “A gente pensa que está a fazer o melhor pelos filhos”, torna a suspirar. “Eu achava que estava a ganhar dinheiro para terem mais alguma coisa – calças, sapatilhas, férias, comida melhor – e afinal isso não era importante. O importante era estar lá eu.”

Reinventar parentalidade

 

A reclusão obriga a reinventar formas de exercer a parentalidade. Há sempre uma certa tensão, elucida Rafaela Granja. Os cuidadores precisam de autonomia para resolver aspectos quotidianos. E os pais desejam conservar um papel central nas decisões sobre educação e disciplina.

É outra dor para Patrícia. “Como eu sempre fui mãe solteira, quem decidia tudo sobre eles era eu. Passar a pasta é difícil, nunca gostei que se intrometessem e eles também não estavam habituados.” Os miúdos aprendem a jogar com a dualidade. Quando a tia decide algo que lhes desagrada, dizem-lhe logo: “Vou perguntar à minha mãe.” Andreia avisa-os: “Eu é que estou aqui, eu é que sei.” E eles vão à visita com a esperança de ouvir a mãe decidir a seu favor.

Patrícia não gosta de ralhar. “A gente só tem uma hora para falar com eles. Se a gente vai estar essa hora a mandar sermões, a criticar tudo o eles fazem, o que é que eles vão pensar?” Escreve-lhes cartas repletas de conselhos. E agarra-se o mais que pode ao trabalho na oficina de confecção.  “Quero ter um comportamento exemplar para ver se consigo ir a tempo de remediar alguma coisa.”

 

 

 

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O que precisa de saber antes de discutir com um adolescente

Novembro 15, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do http://observador.pt/ de 15 de outubro de 2017.

Ana Cristina Marques

Não são crianças nem adultos. A adolescência é um processo de afirmação que gera sucessivos conflitos entre pais e filhos. Antes da próxima discussão, eis o que precisa de saber sobre o seu filho.

“O que se passa na cabeça do meu adolescente?” não é só o título do mais recente livro da psicóloga Cristina Valente (já antes entrevistada pelo Observador), como a pergunta na ponta da língua de qualquer pai que tenha um adolescente em casa. Na obra que agora chega às livrarias, a autora tenta explicar o que pode estar por detrás de determinados comportamentos dos mais novos e como os pais podem ou devem reagir a essas situações.

A pensar nisso, perguntámos à autora o que é que os pais devem ter em mente na hora de trocar argumentos com os filhos. Ao Observador, Cristina Valente explica que o desenvolvimento neuronal interfere com decisões e atitudes dos adolescentes e explica porque é que estes precisam de estar numa constante luta com os pais. Antes de prosseguirmos, fica a nota: as dicas não servem para desculpar os comportamentos dos mais novos, mas para ajudar a explicá-los.

É tudo (ou quase tudo) uma questão de desenvolvimento neuronal

Adolescência. É esta a fase em que os futuros adultos começam a desenvolver a autoregulação, o pensamento abstrato (como noções de justiça e honestidade) e os valores em si. “Os adolescentes passam, agora, a ter uma maior consciência crítica de si próprios e também dos outros. Quando isso acontece, começam a ver incongruências no mundo dos adultos e é muitas vezes aí que começam os confrontos”, esclarece Cristina Valente. A tendência é para questionar e até negar tudo o que chegou antes deles. Diz a psicóloga e mãe de dois adolescentes que isto se deve ao amadurecimento das suas capacidades cognitivas, mas também ao processo de afirmação de identidade dos mais novos. “O adolescente gosta de poder examinar [como quem diz questionar] os sistemas de crenças com que foi educado ou aqueles que dominam a sociedade. Daí ser respondão”, assegura Valente, reforçando a ideia de que os pais devem olhar para esta situação como um aspeto positivo. É bom sinal (e natural).

Quando o adolescente começa a entrar naquela que é a idade da razão, os pais tendem a olhar para os confrontos enquanto lutas intelectuais. “Basicamente, os pais comportam-se como crianças, no sentido em que não conseguem sair do seu umbigo, não conseguem dissociar as coisas e envolvem-se emocionalmente. Na base deste comportamento está o medo”, assegura a autora do livro, para quem as respostas negativas ou não produtivas, regra geral, estão diretamente relacionadas com o sentimento de medo que gera inevitavelmente uma necessidade de controlo. Se na primeira década de vida de um filho tudo o que os pais fazem tem um resultado visível — damos de comer e ficam saciados, zangamo-nos com eles e amuam connosco, etc. –, chega a adolescência e os pais já não sabem lidar com os filhos. Os resultados “não só não são visíveis como os investimentos não são imediatos”.

Numa luta pela independência, como adiante veremos, o aumento do controlo significa quase automaticamente o piorar de uma relação entre pais e filhos. “O controlo é uma ilusão. Usamo-lo como educação, mas o que funciona mesmo é a inspiração”. Nesse sentido, o importante é evitar as perguntas de curto prazo — por exemplo: como faço com que ele me obedeça?” — e fazer as de longo prazo: “Como é que eu faço com que ele se sinta integrado cá em casa?”. “Muitas vezes, os pais reagem ao comportamento visível do filho sem descobrirem o motivo que está por trás. O mau comportamento do adolescente é sempre um pedido de ajuda.”

A luta é pela independência

O movimento de independência já começou e o que importa agora é balizá-lo. “Embora o adolescente tenha alguma racionalidade, ainda não consegue ter uma visão de longo prazo e não se apercebe das consequências de algumas ações”, assegura Cristina Valente. Dar liberdade e limites é um jogo de diplomacia, de cintura se quisermos. A negociação e a comunicação são essenciais, mesmo considerando que, segundo a opinião da autora, “comunicamos muito mal, de forma pouca eficaz”. É nesse sentido que Cristina Valente introduz algumas dicas que, por esta altura, já deveriam ser consideradas verdades universais: há uma clara diferença entre escutar (processo cognitivo) e ouvir, sendo que os pais deveriam ter em primeiro plano o cuidado de escutar sem julgamentos, tentando sempre perceber o que é que o adolescente quer.

“Muito do comportamento do adolescente é repetitivo, pelo que podemos ir treinando as nossas respostas. Escutar é a chave do sucesso. A maior parte dos adolescentes desiste de falar com os pais porque sabem que eles não os ouvem”, continua a psicóloga. Em causa está o facto de os pais quererem que os filhos se rejam pelos valores com que foram educados. Mas a noção de contrariar valores faz parte do processo de crescimento, não fosse esta a fase em que o adolescente sente necessidade de dizer ao mundo que pensa pela própria cabeça. “A forma mais fácil de o fazer é agindo exatamente ao contrário daquilo em que os pais acreditam.”

Desafiar os pais faz parte

Os adolescentes precisam da luta constante, quase diária, com os pais. Sendo a adolescência um processo de individualização, é também uma fase de grandes inseguranças e não é difícil de perceber o porquê: à falta de estatuto corporal (no sentido em que existe um crescimento físico repentino) acrescenta-se a falta de estatuto social — os adolescentes já não são crianças mas também não são adultos. “A sociedade confunde-os. Por um lado, podem matar ou ir à guerra; por outro, são tratados como crianças em muitas situações.” Desafiar os pais acaba por fazer parte da tentativa dos mais novos de encontrar referências próprias.

Existe também uma maior necessidade de emoções fortes e até de experiências radicais. De um momento para o outro já não basta ouvir música, mas sim pôr o volume no máximo; já não basta deslocar-se, é preciso ir a grandes velocidades. “O cérebro tem, nesta fase, uma capacidade de aprendizagem enorme. Praticar um desporto e ter uma experiência radical acabam por ser aprendizagens”, diz Cristina Valente, confirmando ainda que, neste período, a avaliação real de risco está muito pouco ativa. A solução passa por promover experiências intensas — mas saudáveis — para os adolescentes.

“O adulto aqui somos nós”

Já aqui escrevemos que um dos maiores “erros” dos pais é não escutar. É normal que isso suceda: quando iniciamos uma discussão temos necessidade de falar porque isso gera segurança, no sentido em que queremos aconselhar o outro o melhor possível. E se escutar é importante, o mesmo se pode dizer de aceitar o ponto de vista de um adolescente. “Em primeiro lugar é preciso entendê-los e só depois esperar que eles nos entendam. Porque o adulto aqui somos nós. É preciso que nos coloquemos no lugar dos outros e isso é coisa que os pais têm muita dificuldade em fazer.

Uma alternativa pode passar pela aplicação do método socrático (não referente ao ex-primeiro-ministro português). Ir perguntando “porquê” ao longo de uma conversa pode ajudar o adolescente a abrir-se mais e a explicar-se melhor. “Ele não sabe responder logo porque está habituado a não ser ouvido. Mas isto só funciona se estivermos genuinamente interessados no ponto de vista dele.” Sendo este um processo de aprendizagem, para miúdos e graúdos, é preciso acrescentar que os pais devem expressar emoções no decorrer de uma conversa e, ao mesmo tempo, dominar sentimentos (e isto inclui controlar os eventuais acessos de raiva).

 

Os perigos de deixar as crianças sozinhas em casa

Novembro 3, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto da http://www.sabado.pt/ de 1 de novembro de 2017.

por Ana Catarina André

Horas a mais na Internet, ansiedade e cyberbullying – os riscos de não ter um adulto por perto.

Incêndios, assaltos, mas também conversas online com desconhecidos e publicação de fotografias impróprias em redes sociais. Deixar um miúdo sozinho em casa nas férias pode ser sinal de perigo – é preciso avaliar cada caso, alertam os especialistas. “As crianças mais pequenas nunca devem ficar sozinhas, mas aos 12/13 anos já poderão estar preparadas – depende da maturidade, da responsabilidade, do tempo que se pretende que fiquem sós e dos perigos que há em casa e nas redondezas”, considera a psicóloga Vera Ramalho. E alguns destes perigos são novos. Sem adultos por perto, os mais pequenos estão mais vulneráveis à Internet e às tecnologias e podem comprometer o seu desenvolvimento saudável e socialização. Saiba mais.

Estranhos nas redes sociais

Para Joana [nome fictício] aquele era um download inofensivo. Só depois é que a adolescente de 14 anos percebeu o perigo. “Um homem de 50 anos abordou-a. Como se viam através da câmara do smartphone, pediu-lhe que se despisse. Ficou muito assustada, mas felizmente contou o que se tinha passado. Se se tratasse de uma rapariga mais vulnerável, com um contexto familiar de risco, poderia ter acedido ao pedido”, conta a psicóloga Ivone Patrão, autora do livro #Geração Cordão – A geração que não desliga!. A especialista defende que se deve fazer uma socialização digital desde muito cedo. “As tecnologias devem ser introduzidas de forma segura na vida das crianças, com regras e transparência. Deve fomentar-se que falem sobre o que fazem online para que os pais e educadores as possam ir alertando para os perigos”, refere.

Tecnologias fora de controlo

Ficar em casa pode ser um convite a usar o tablet, a televisão ou o computador sem limites. “Estar muitas horas em frente ao ecrã de um tablet ou computador não só afecta o desenvolvimento cerebral (pode tornar-se um vício), como a socialização”, explica Ivone Patrão. Até à idade adulta – explica a especialista – treina-se muito a interacção social. Se esta for exclusiva ou maioritariamente digital, essas crianças e adolescentes não estarão preparados para lidar no futuro com reuniões de trabalho ou conflitos com o namorado ou marido. “As nossas crianças não estão a desenvolver o toque e a capacidade de contacto com outros”, afirma. Mais: ao não terem limite sobre a utilização de computadores, tablets ou televisões, correm também o risco de aceder a conteúdos inadequados para a sua faixa etária, seja pornografia ou drogas. Apesar de tudo, Ivone Patrão considera que a televisão envolve menos riscos no que diz respeito à socialização e desenvolvimento. “É um meio menos interactivo do que a Internet. Quando estamos online, podemos sempre fazer mais pesquisas e receber mais input através de chats. Diante de um televisor assumimos uma posição mais receptora de informação.”

Jogos perigosos

A ausência de supervisão pode também levar os mais novos a envolverem-se em jogos como a Baleia Azul. Nos últimos dois meses, as comissões de protecção de menores registaram 34 casos com eventuais ligações ao fenómeno que incita ao suicídio e à automutilação e que se espalhou através das redes sociais. “Mesmo que a criança esteja com os pais ou outro elemento da família o risco mantém-se”, defende a psicóloga Raquel Ferreira, da clínica BRD Teen.

Fotografias ousadas nas redes sociais

Há quem aproveite para publicar ou enviar fotos a amigos e desconhecidos – em poses ousadas ou sem roupa –, sem ter noção das consequências. Um dos pacientes de Ivone Patrão contou-lhe que enviou imagens suas, “comprometedoras”, a uma rapariga que conheceu na Internet. Queria conquistá-la, mas acabou por ser vítima de cyberbullying: se ele não lhe desse dinheiro, ela enviaria as fotos à família e aos amigos. “Ele decidiu não ceder e contou tudo aos pais que valorizavam a sua iniciativa de admitir o que sucedera”, diz a psicóloga. E acrescenta: “Era um jovem de 22 anos, mas podia ter acontecido a um adolescente ou pré-adolescente”.

Ansiedade e medo

Se não tiverem sido preparados pelos pais (ver caixa) e não tiverem ainda autonomia suficiente para se sentirem bem sem a presença de um adulto, os miúdos podem sentir-se desamparados. “Se for uma criança muito protegida e insegura, será incapaz de estar sozinha e provavelmente entrará em stress”, explica Vera Ramalho, salientando a importância de os pais avaliarem a responsabilidade, a capacidade de compreensão de regras e maturidade dos filhos antes de os deixarem sem supervisão.

Posts de pais e professores

“Muitos adultos esquecem-se de que também são modelos digitais para os mais novos. Por isso, devem ter cuidado com as partilhas nas redes sociais”, alerta Ivone Patrão. Se um pai ou uma mãe publicar fotos ousadas – mesmo que sejam só de rosto – ou fizer publicações diárias sobre os locais onde está, as crianças e adolescentes quererão fazer o mesmo, diz a especialista. O mesmo acontece se perceberem que o adulto leva o telefone para o quarto e o utiliza antes de adormecer. “Estas situações geram uma certa ambivalência e perda de autoridade parental”, explica Ivone Patrão, frisando a importância de estabelecer regras de utilização dos dispositivos electrónicos.

Artigo originalmente publicao na edição 694 de 17 de Agosto de 2017.

 

 

 

 

“E se o meu filho for gay…?”

Outubro 25, 2017 às 8:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Mário Cordeiro publicado no https://ionline.sapo.pt/ de 3 de outubro de 2017.

É tempo de acabar com os preconceitos homofóbicos. A orientação do desejo sexual não é uma escolha, é uma característica determinada geneticamente.

Seria bom que, daqui a uns anos, só as crianças tivessem de fazer esta pergunta. Todavia, muitos adultos ainda andam confundidos quanto ao que é a homossexualidade, conotando-a com pedofilia, perversão, manias ou mesmo doença. Ou rindo-se, com ar superior, de quem acha que ser “hétero” (straight, que significa “direito”, como os anglo-saxónicos designam, o que só por si diz tudo) é ser superior a ser “homo”.

Primeiro que tudo, convém definir claramente o que a palavra significa: homossexualidade é a atração sexual, emocional e afetiva de pessoas de um género por pessoas do mesmo género, como parte de um continuum da expressão sexual, ou seja, a orientação do desejo sexual faz-se na direção de uma pessoa do mesmo sexo.

A orientação sexual, apesar de genética, estabelece-se (ou consolida-se) no final da adolescência, e muitos dos homens e mulheres homossexuais tiveram as suas primeiras experiências nesta idade, embora ter este tipo de relações neste grupo etário não tenha, só por si, qualquer valor preditivo (muitos heterossexuais têm experiências “homo” por uma questão das chamadas condutas de experimentação ou de ensaio).

Embora alguns relatórios tenham indicado estimativas em adultos de cerca de 4% para os homens e 2% para as mulheres, desconhece-se a taxa na adolescência e estes dados variam de região para região e de comunidade para comunidade, dependendo muito do grau de aceitação social e política que condiciona a resposta..

Sempre existiu homossexualidade na sociedade, só que, por razões que a antropologia facilmente explica, associadas ao desígnio de contribuir a todo o custo para a continuação da espécie, esta forma de orientação sexual foi quase sempre reprimida ou, pelo menos, olhada de esguelha. Para tal veio a contribuir, de forma decisiva, a posição das religiões e as condenações e culpabilizações inerentes a quem cometia esse “pecado”. Em muitos países, ser homossexual é correr o risco de pena de morte ou prisão, ou pelo menos ser-se ostracizado na sociedade.

Com o evoluir das sociedades, quando, hoje em dia, o facto de não ter filhos não lança ninguém no opróbrio, quando as liberdades, direitos e garantias individuais são promovidas, e não apenas as da comunidade como um todo, a questão da homossexualidade, tal como muitas outras, tornou-se objeto de debate e de discussão.

Se, por um lado, ainda se observam frequentemente atitudes segregacionistas e de exclusão (algumas vezes de autoexclusão), é crescente a normalidade com que, felizmente, o assunto é encarado. Não se trata de dizer, de modo paternalista, que o que cada um faz é da sua conta, mas de muito mais: o de entender que a sociedade é composta por indivíduos diferentes na cor, no tamanho, nas capacidades e também nas orientações sexuais.

Há 20 anos, a homossexualidade era definida como uma “doença mental” por academias de psiquiatria tidas como cientificamente irrepreensíveis – afinal, demonstraram que não o eram e atualmente ainda se assiste a classificações deste tipo nas mais variadas situações.

Não se escolhe ser homo, hétero ou bissexual. É-se, apenas e tão-só, e embora permaneçam desconhecidos os determinantes dessa orientação, sabe-se que são genéticos. O que entra no capítulo das opções é a forma de comportamento e os estilos de vida que as pessoas, homossexuais ou não, adotam, designadamente o tipo de experimentação sexual, mas isso é do foro íntimo de cada um desde que não colida com os direitos dos outros – e tanto se aplica aos homo como aos hétero ou bissexuais.

Por razões várias, para muitos pais é um choque ter um filho homossexual. Não temos espaço para aprofundar as razões que os assistem, mas o que importa referir é que os pais, ao saberem da homossexualidade dos filhos, devem em primeiro lugar dar todo o apoio – são os filhos, não são ET’s que apareceram de um momento para o outro – e ser empáticos com o eventual sofrimento que o filho possa estar a ter.

Quando os pais sentem que o filho tem elevadas probabilidades de não ter filhos porque não consegue estabelecer uma relação conjugal com uma pessoa do sexo oposto – pesem as alternativas todas que a realidade portuguesa agora permite – sentem que o seu próprio futuro está ameaçado, em termos conceptuais, e que todo o projeto imaginado desde a infância cai por terra… o que não é verdade, mas está na cabeça das pessoas… para lá do estigma social, da falta de hábito de receber em casa “o genro, casado com o meu filho” ou “a nora, casada com a minha filha”. Acresce que a desinformação sobre o que é a homossexualidade e a constatação bem real de que um jovem homossexual terá a vida social dificultada, apesar de todas as evoluções sociais, ainda assustam mais os pais e aumentam o “sentimento de desilusão”.

Estas angústias têm de ser compreendidas e os pais, ao saberem da homossexualidade dos filhos, devem, em primeiro lugar, dar todo o apoio – são os filhos! – e ser empáticos. Por outro lado, não devem esconder e remeter o filho para a clandestinidade, mas ajudá-lo e ajudar-se, assumindo o facto como normal e não fazendo tabu do assunto – assim, o diz-que-diz acaba e o filho tem mais hipóteses de se sentir bem e de ter um percurso de vida social normal. Finalmente, devem apoiar-se um no outro, não considerar que os outros filhos é que são bons, tentar esclarecer estes e pedir ajuda – a um médico, a um psicólogo -, se necessário, para ultrapassarem sentimentos, libertar angústias e obter esclarecimentos e informação importante.

Se, pelo contrário, os pais optarem por uma atitude “cavernícola”, quase irradiando o filho, estarão a maltratá-lo, a maltratar-se a si próprios e a agir de uma forma porventura emocional, mas muito pouco racional, inteligente, justificada e eficiente. Os nossos filhos serão sempre os nossos filhos.

É tempo de acabar com os preconceitos homofóbicos. A orientação do desejo sexual não é uma escolha, é uma característica determinada geneticamente. Todas as pessoas devem poder expressar os seus afetos, desde que dentro do que é considerado pela lei como aceitável, e homens amarem homens ou mulheres amarem mulheres é normal. O amor é sempre belo quando é genuíno e é amor. Afinal, o que interessa saber quem dorme com quem? Excluindo casos abusivos ou forçados, a cama de cada um (e quem por lá passa) só a cada um (e a quem lá passa) pertence…

Pediatra

Escreve à terça-feira 

 

 

 

1º Colóquio – Mais família, mais educação – 21 outubro em Oeiras

Outubro 17, 2017 às 4:40 pm | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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A participação é gratuita mas a inscrição é obrigatória.

Inscrições:

maisfamiliamaiseducacao@auchan.pt

210 457 599 / 210 457 149

AUDITÓRIO MUNICIPAL EUNICE MUÑOZ

Rua Mestre de Aviz – Oeiras

Tel: 214 408 411

4 atitudes que enfraquecem o vínculo emocional com seus filhos

Setembro 28, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do site http://www.psicologiasdobrasil.com.br/

Ser pai, mãe, avô, avó e, além disso, um educador eficaz, não é fácil. Cada criança vem a este mundo com necessidades próprias que devemos saber atender, com virtudes a serem potencializadas e emoções que devem ser incentivadas, orientadas e desenvolvidas.

Educar não é apenas ensinar as crianças a ler ou mostrar como podem realizar seu trabalho de pesquisa para o colégio com o computador. Ser pai ou mãe não é presentear os filhos com um telefone celular em seu aniversário, nem assegurar-nos de que colocamos o cinto de segurança neles cada vez que entram no carro. É muito mais que tudo isso.

Contudo, em algumas situações, mesmo que conheçamos a teoria não a aplicamos na prática. Além de pais e mães, também somos casal, empregados, empresários ou pessoas que querem trocar de emprego e que, possivelmente, ainda querem atingir novos objetivos profissionais. Tudo isso ocorre concomitantemente em nosso cotidiano e, sem saber como, começamos a cometer erros na educação de nossos filhos.

Se você for pai, se lembrará de quando foi filho e saberá, sem dúvida, o que você mais valorizou – e ainda valoriza! – ou do que mais sentiu falta nos seus dias de infância. Se a sua infância não foi especialmente feliz, entenderá quais aspectos romperam este vínculo emocional com os seus pais, esses erros que não devem ser repetidos sob nenhuma hipótese com seus filhos.

Falemos sobre isso.

1 – Não os escutar

As crianças falam e também perguntam muito. Pegam você de surpresa com mil questionamentos, inúmeras dúvidas e centenas de comentários nos momentos mais inoportunos. Desejam saber, experimentar, querem compartilhar e desejam compreender tudo que acontece diante delas.

Tenha bastante claro que, se você mandar que fiquem quietas, se você as obrigar a ficar em silêncio, ou se não atender suas palavras, respondendo com severidade ou de forma rude, isso fará com que, no curto prazo, a criança deixe de se dirigir a você. E o fará privilegiando seus próprios espaços de solidão, atrás de uma porta fechada que não desejará que você cruze.

2 – Castigá-los, transmitindo-lhes falta de confiança

São muitos os pais que relacionam a palavra educação com punição, com proibição, com um autoritarismo firme e rígido em que tudo se impõe e qualquer erro é castigado. Este tipo de conduta educativa resulta em uma falta de autoestima muito clara na criança, uma insegurança e, ao mesmo tempo, uma ruptura do vínculo emocional com eles.

Se castigamos não ensinamos. Se me limito apenas a dizer para a criança tudo o que ela faz de errado, jamais saberá como fazer algo bem. Não dou a ela medidas ou estratégias, limito-me a humilhá-la. E tudo isso gerará nela raiva, rancor e insegurança. Evite sempre esta atitude.

3 – Compará-los ou rotulá-los

Poucas coisas podem ser mais destrutivas do que comparar um irmão ao outro ou uma criança a outra para ridicularizá-la, para dar a entender suas escassas aptidões, suas falhas, sua pouca iniciativa. En algumas ocasiões, um erro que muitos pais cometem é falar em voz alta diante das crianças como se elas não os escutassem.

“É que o meu filho não é tão inteligente como o seu, é mais lento, o que se pode fazer”. Expressões como estas são dolorosas e geram neles um sentimento negativo que causará não apenas ódio em relação aos pais, mas um sentimento interior de inferioridade.

4 – Gritar com eles e apoiar-se mais nas ordens do que nos argumentos Não trataremos aqui de maus tratos físicos, pois acreditamos que não há pior forma de romper o vínculo emocional com uma criança do que cometer este ato imperdoável.

Mas temos de ser conscientes de que existem outros tipos de maus tratos implícitos, quase igualmente destrutivos. É o caso do abuso psicológico, esse no qual se arruína a personalidade da criança por completo, sua autoimagem e a confiança em si mesma.

Há pais e mães que não sabem dirigir-se de outra forma a seus filhos, sendo sempre através de gritos. Levantar a voz sem razão justificável provoca um estado de euforia e estresse contínuo nos filhos; eles não sabem em que se apoiar, não sabem se fizeram algo bom ou mau. Os gritos contínuos enfurecem e fazem mal, já que não há diálogos, apenas ordens e críticas.

Deve-se ter muito cuidado com estes aspectos básicos. O não escutar, o não falar e o não demonstrar abertura, compreensão ou sobrepor a sanção ao diálogo são modos de ir afastando aos poucos as crianças do nosso lado. Elas nos enxergarão como inimigos dos quais devem se defender e romperemos o vínculo emocional com eles.

Educar é uma aventura que dura a vida toda em que ninguém é um verdadeiro especialista. Contudo, basta apoiar-se nos pilares da compreensão, do carinho e em um apego saudável que proporcione a maturidade e a segurança nesta pessoa que é também parte de você.

Fonte indicada: A Mente é Maravilhosa

*O conteúdo do texto acima é de responsabilidade do autor e não necessariamente retrata a opinião da página e seus editores.

 

 

Mário Cordeiro: “O narcisismo é a grande doença social de hoje, e há muita gente que não o consegue ultrapassar”

Setembro 28, 2017 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista da http://visao.sapo.pt/ a Mário cordeiro no dia 19 de dezembro de 2016.

Teresa Campos

Entrevista publicada na VISÃO 1240 de 8 de dezembro

“Uma criança que cresça com valores e princípios, limites e amor, mesmo que a determinada altura seja chamada pelo ‘lado negro da força’, tem uma capacidade de se levantar muitíssimo maior”, diz o pediatra, em entrevista à VISÃO

Sentado num cadeirão do seu consultório, em Lisboa, o conhecido médico segura, orgulhoso, o seu mais recente livro: “Os nossos adolescentes e a droga”. É o 35º, contabilizando os que partilhou a autoria, em mais de 30 anos de dedicação às crianças e à promoção da saúde uma produção num ritmo alucinante, associada aos cinco filhos e à atividade médica. Aos 61 anos, não é a primeira vez que Mário Cordeiro escreve a pensar na segunda década de vida dos mais novos, a fase em que se desenvolvem as melhores ferramentas para enfrentar o futuro com mais segurança e resiliência. Desta vez, quis fazer uma espécie de manual para pais, com contexto, glossário e experiências contadas na primeira pessoa para esclarecer dúvidas que possam surgir sobre as diversas drogas, álcool incluído.

O objetivo, sempre, é informar. Porque mais vale prevenir do que tratar.

Já tinha escrito sobre adolescentes. O que o fez voltar ao tema?

Achei que valia a pena revisitar este tema porque deixou de se falar nele. Mas [o problema] existe. Há uns anos, verifiquei que o consumo comparado entre alunos da escola privada e da pública eram similares, o que contraria a ideia de que uns estão mais protegidos de determinadas experiências. O que faz sentido, se pensarmos bem nisso: um dealer vai investir mais junto de um público que tem mais dinheiro, certo?

A dada altura, lê-se: “Educar não é difícil, é ter momentos terríveis.” É isso que os pais de adolescentes devem esperar?

Os adolescentes trazem muitas alegrias e muitas dores de cabeça, no sentido de termos muitas dúvidas. Mas isso acontece a nós e a eles, porque o processo tem dois lados. O mais comum é, a partir de um sentimento de frustração, haver birras e não saber geri-las. E isso, claro, também acontece na adolescência. Um filho dá–nos recompensas extraordinárias, mas também imensas dores de cabeça. Além disso, idealizamos sempre os nossos filhos, e às vezes esquecemos que eles têm de fazer o percurso de vida deles.

Eles não são nossos. Podemos ser uma espécie de polícias-sinaleiros a indicar o melhor caminho, mas o automobilista é que decide se vai por ali ou não. E às vezes os filhos desiludem-nos, fazem escolhas que não faríamos e nem sempre é fácil lidar com isso. Tantas vezes oiço de alguns pais: “Mas nós demos a melhor educação, o máximo de carinho…”, quando descobrem que o filho anda a mentir ou a consumir tabaco e álcool e tem só 13 anos. Ao que respondo sempre que isso não é um passaporte para tudo. Há diferenças tremendas até entre irmãos. O melhor é dar o exemplo do que é o respeito, a ética e a disciplina, em vez de andarmos a dar sermões.

Uma criança que cresça com valores e princípios, limites e amor, mesmo que a determinada altura seja chamada pelo “lado negro da força”, tem uma capacidade de se levantar muitíssimo maior do que se não tiver azimutes nenhuns.

Isso leva-nos à ideia da criança-rei que se torna o adolescente tirano. As questões que se levantam na adolescência têm sempre a génese na infância?

O narcisismo é a grande doença social de hoje, e há muita gente que não o consegue ultrapassar. É uma fase que a criança começa aos 15 meses, quando já tem uma imensa autonomia e percebe que os outros podem ser manipulados, e passa a agir de acordo com a ideia do “quero tudo já”. Só com limites é que vai perceber que terá de trabalhar para conseguir o que quer. Há depois uma terceira fase, quando percebem que não são deuses e passam à condição humana, em que agradecem não ter tudo, para assim apreciarem melhor a conquista. A liberdade, a verdadeira liberdade, reside na escolha, em ter de escolher.

É por isso que a superproteção leva a excessos?

Claro, porque não se permitem as escolhas. Cada um precisa de saber os seus limites. Muito importante também é estar informado, porque isso pode ajudar a escolha. Reparamos hoje que há overdose de informação mas, ao mesmo tempo, falta de conhecimento. Outro problema deste viver muito fugaz é a falta de sabedoria. Porque a sabedoria exige tempo, reflexão, e esse processo é muito lento, não pode ser tudo no calor do momento. Se queremos tudo já, saber tudo já, isso muitas vezes armadilha-nos.

É isso que acontece com a superproteção: os pais tem a informação mas não têm sabedoria?

Sim. Querem respostas rápidas. Sou o maior fã da tecnologia, mas a forma como a usamos tem de ser adequada. É preciso ainda ouvir outros, porque nem sempre o que nos chega é o todo.

Ouvir relatos e experiências muitas vezes ultrapassa a pura informação. Quantas vezes em manuais se escreve “faça-se assim”, mas depois a experiência diz-nos algo mais. Veja-se os livros de dietas e afins a prometerem “seja feliz em três dias”. Dá-me vontade de rir, porque os próprios títulos matam logo o prazo.

E isso cria ansiedade, claro.

É aquilo a que chamo a “urgentificação de tudo”, e vê-se nas idas às urgências, para resolver qualquer problema. Recebo imensas mensagens e percebo que os pais estejam preocupados, mas em muitos casos é preciso saber esperar.

Hoje, sentimos que, seja o que for que queiramos saber, basta fazer clique.

Temos de aprender a abrandar. Este “quero tudo já” pode estragar tudo e não nos deixa apreciar momentos bons.

É o que, depois, na adolescência leva a uma insatisfação imensa…

É. A geração de jovens de que falo no livro nasceu e cresceu com esta ânsia de comunicação e de estar presente, que muitas vezes funde os fusíveis às pessoas, porque faz com que deixemos de saber conviver com a solidão, e isso é indispensável. A realidade ser tão voraz leva a doenças físicas, ao ataque à nossa imunidade, ao aumento do cancro, tudo também muito relacionado com o nosso modo de vida. Tornámo-nos escravos do telefone e deste modo de estarmos sempre contactáveis. Se não tivermos cuidado, deixamo-nos massacrar, e isso vai levar à falta de espaços privados, nossos. Esta invasão constante do telefone, durante as refeições e em qualquer conversa, é o exemplo maior da má educação. É uma fuga ao momento presente. É também isso que leva ao consumo de droga, que começa por não se saber encarar a realidade, não saber apreciar o que há de bom, subvalorizar o que não corre tão bem. Perante uma realidade que se acha horrível, e sem armas para dar a volta, o nosso desejo é de nos eclipsarmos. Se tivermos ao alcance uma substância, seja droga ou álcool, que nos permite fazê-lo, isso é muito tentador.

Quando é suposto falarmos com os nossos filhos sobre droga?

Não pode ser como antigamente, em que os pais sentavam os filhos e lhes diziam que precisavam de ter uma conversa. Não pode ser assim porque não surte efeito é por isso que sou contra a disciplina de Educação Sexual, porque é ridículo que se trate do assunto à terça-feira, das 11 à uma. Pode aproveitar-se um texto de Língua Portuguesa, ou a estatística, na Matemática, para falar de demografia, ou em Ciências, para falar da nossa biologia, ou em História, que é em si um repositório imenso de casos para todos os gostos. O mesmo se aplica às drogas: pode-se falar em vários momentos. Os pais têm de saber comunicar os filhos e têm de estar informados e não podem ficar-se pelo “Ele, ou ela, não fala comigo”. Tem é de ser numa linguagem que não seja desconfortável para nenhum dos dois, e tem de ser crível.

Podíamos resumir tudo a duas ideias: “Não vale a pena dizer que a droga mata” e “se experimentares é natural que gostes, mas deixa-me falar do resto.” É isso?

Não vale a pena dizer que mata porque, em si, é uma mentira, ou só é verdade a longo prazo. É como os maços de tabaco trazerem inscrito que fumar mata. A frase que mais gosto, mesmo, é “Os fumadores morrem prematuramente”, quando o que devia dizer é “Os fumadores têm maior probabilidade de morrerem prematuramente”. Aí já não há quem possa argumentar com o tio-avô que fumou cinco maços por dia e viveu até aos cem anos. Já é mesmo preciso pensar se quero aumentar a probabilidade de morrer mais cedo. É o mesmo com a droga. Por isso elenquei no livro os efeitos de cada uma e incluí depoimentos que não procuram julgar pessoas quem sou eu para julgar as pessoas? Às vezes, quem caiu naquele buraco pode ser só alguém que não encontrou na sua rede o suporte para dar a volta aos problemas e encontrar a felicidade em outro lado.

É também a forma de lhes dizer que há um dia seguinte, porque, como vivemos na tal voracidade, falamos demasiadas vezes apenas do hoje. Temos de lhes dizer que o que construímos, no amanhã, depende do que acontecer hoje. É essa pedagogia que muitas vezes falta. Quando falo com os meus filhos para cultivarem a excelência, não é pelas notas em si, mas porque ficam mais bem posicionados para, no futuro, poderem escolher à vontade o que querem.

Fala no desporto, no voluntariado, na cultura. Isso também lhes dá ferramentas para lidar com as adversidades?

Dá-lhes uma experiência de vida muito mais variada. Estas atividades, feitas com gozo, libertam endorfinas, que são as nossas morfinas. Pensar que temos essa possibilidade de nos “drogarmos” sem droga, e que a esquecemos… Quem faz desporto, ou se dedica às artes, ou outras atividades, tem uma probabilidade muito menor de cair nas drogas. E isso faz uma diferença abissal.

Que sinais de risco é que a família deve saber reconhecer para pedir ajuda?

É preciso dizer que não é por se encontrar papel de prata no quarto de um filho que se vai concluir que ele anda a queimar heroína. Se calhar, andou apenas a comer uma tablete de chocolate. Temos de ter noção de que os nossos filhos adolescentes precisam do seu espaço e de refletirem sobre a sua vida. Às vezes há pais que falam com uma ansiedade… “Ele/ela vai entrar na adolescência, não é?!”. Costumo dizer que eles não caíram na chaminé, atirados pelo Pai Natal, na véspera. Foram educados por aqueles pais, eles conhecem-nos.

Se fizeram um bom trabalho, podem aceitar esta fase com um mínimo de segurança. Há que acreditar nos filhos, permitir que tenham a sua identidade, e que não pensem exatamente como os pais pensam. Agora, quando o isolamento é exagerado, quando há uma vida seca, amarga, desistente das atividades que são boas, quando as notas caem sem razão aparente (às vezes podem só estar apaixonadíssimos!), aí os pais devem pedir ajuda. E aqui ressalvo: o álcool, e o seu consumo excessivo e prematuro, também é uma droga.

Os consumos dos adultos podem passar mensagens erradas?

Beber um copo por dia, à refeição, não é ter um comportamento de risco.

O problema é o consumo fora de horas, em excesso, e sobretudo para esconder alguma coisa. Uma coisa é beber um copo para acompanhar a refeição, outra é, sozinho, engolir uma garrafa inteira. Falar das coisas com verdade não é torná-las banal. Um pai uma vez disse-me que sentia que não tinha autoridade para falar com os filhos sobre os malefícios do tabaco porque ele também fumava.

Disse-lhe logo que não estava nada de acordo: se a verdade científica é que não faz bem à saúde, se acha que o seu filho não devia fumar, diga-lhe. Diga-lhe até porque começou, mostre-lhe até algumas das suas fraquezas. Queira ou não deixar de fumar, pode na mesma achar que aquilo é errado para o filho e que, se ele o fizer, pode dar cabo da sua saúde. Um pai tem tanta liberdade de escolher como um filho e aí está a dar-lhe armas para escolher. Isso é perfeitamente legítimo.

E isso também se aplica em relação à droga?

Um dos casos que relata no livro é de uma mulher de 50 anos que conta os seus consumos.

Sim, sem dúvida. A essa mulher, as anfetaminas não só lhe permitiam estudar horas a fio, sem dormir, como ainda a faziam emagrecer. Não é por acaso que tinham nomes como Libriu ou Valium, que fazem lembrar liberdade ou valor… Parece que sempre andámos à procura da felicidade sem esforço, não é? Mas digo também que este esforço e trabalho, que é necessário, não devem ser vistos como um calvário, como nos diz a nossa tradição galaico-cristã. Isto não é a via sacra. Trata-se de aprender a gerir a nossa liberdade de escolha. Falamos também muito de litigância (“porque tu não fizeste, não ligaste…”) mas dizemos pouco “gosto de ti”. Precisamos de fazê–lo com urgência, e sobretudo com os nossos filhos, que não são estranhos. Às vezes, o que se passa é que o filho gosta tanto dos pais que, para se diferenciar, arranja um pretexto qualquer para entrar em conflito. Os pais não podem ceder a essa pressão.

 

 

 

“Os nossos filhos podem tornar-se estranhos”

Setembro 18, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista da http://www.paisefilhos.pt/ a Gordon Neufeld no dia 31 de agosto de 2017.

 

Escrito por Elsa Páscoa

Nas últimas décadas, o papel dos adultos enquanto motores de educação e transmissão de valores tem vindo a ser substituído junto das crianças pela influência incontrolada dos seus pares. E as consequências podem ser preocupantes.

O psicólogo clínico canadiano Gordon Neufeld, em entrevista à Pais&filhos, revela de que forma os educadores podem perder o norte, em favor de terceiros. E de que modo são capazes, através de um profundo conhecimento das crianças e dos seus próprios instintos, de resistir à maré que ameaça colocá-los à margem.

A nossa sociedade permitiu o surgimento do fenómeno da orientação das crianças pelos seus pares, em detrimento da orientação da família. Os pais desistiram do seu papel?
Não acredito que os pais devam ser responsabilizados na maior parte dos casos. Penso que é a cultura instalada nas nossas sociedades que deve ser responsabilizada. O papel fundamental das estruturas culturais é o desenvolvimento e a preservação dos vínculos necessários à educação das crianças e à transmissão dos nossos valores. A cultura tem vindo a desempenhar esse papel há milhares de anos. Entretanto, surgiu a revolução industrial e o materialismo dela resultante, a revolução na escola e, hoje, a revolução digital. Estas profundas alterações tiveram reflexos nos costumes, rituais e tradições que tinham como papel manter-nos unidos. Alguns exemplos são as refeições, os passeios, os jogos as reuniões de família. Tudo isto tem vindo a ser substituído por atividades e tecnologias que favorecem a criação de vínculos das crianças umas com as outras. Assim, em vez de viverem na órbita dos adultos responsáveis por elas, muitas crianças gravitam agora em redor de outras crianças e afastam-se da órbita dos pais e dos educadores.

Sem que estes possam fazer alguma coisa?
Cabe-lhes compensar o que a atual cultura não consegue transmitir. Os vínculos não acontecem de forma espontânea. São cultivados nos momentos em que nos deliciamos na companhia uns dos outros, desfrutando a experiência de existirmos na presença dos outros. A menos que assumamos esta missão, criando as tradições que nos permitam permanecer unidos, ficaremos aquém do que desejamos.

Estão os valores, identidade e códigos de conduta das crianças irremediavelmente afastados da influência da família?
Levando em linha de conta que muitas crianças substituíram a família pelos pares e que estes apresentam diferentes valores, é um facto que os nossos filhos podem tornar-se estranhos para nós. As boas notícias são que muitas crianças ainda vivem na órbita dos seus pais, famílias e professores. A má notícia é que este estado de coisas está a mudar e é essa alteração que nos deve preocupar. O problema não é tanto saber se existe uma mistura de influências, mas sim o facto de que as crianças não conseguem ser próximas dos pais e dos pares em simultâneo. É nesse cenário que os vínculos podem entrar em polarização e, frequentemente, as crianças afastam-se da família para procurar vinculação aos seus pares.

A orientação pelos pares é sempre um fenómeno negativo?
Certamente que não. Existe um conjunto de cenários em que a orientação pelos pares pode ser positiva. Por exemplo, todos nós conhecemos casos em que uma criança ou um adolescente foi resgatado da sua família disfuncional pelos amigos. Neste caso, a orientação pelos pares é certamente uma coisa boa. O mesmo acontece quando uma criança é orientada por pares que partilham os valores da família: nestes casos serve mesmo para reforçar o sentido de pertença.

É possível os adultos perceberem quando as desejáveis amizades dos filhos se transformam na indesejável orientação pelos pares?
Habitualmente não é difícil distinguir as situações. As amizades saudáveis permitem à criança ou ao adolescente manifestar a sua personalidade de forma livre. Quando começa a substituir o seu “eu”, por influência do “outro” – a nível de preferências, atitudes, linguagem – então estamos perante orientação por pares, em vez de amizade. Um outro sinal é visível quando a criança já não consegue manifestar vínculos familiares quando está na presença dos seus pares. As ligações com outras crianças não devem ser incompatíveis com a família. As crianças que não são orientadas pelos seus pares desejam que estes e a família tenham pontos de ligação. A situação já não é muito saudável quando estar com os ‘amigos’ leva a que a criança ou o adolescente se afaste dos irmãos, dos pais e dos avós.

Pais, educadores, e até os media, tomaram já consciência de que muitas crianças e jovens estão a ser afastados das famílias?
A orientação pelos pares tem vindo a desenvolver-se. No entanto, os media parecem mais preocupados em transmitir as mensagens que o consumidor quer ouvir do que a verdade.

Como assim?
Por exemplo, os parâmetros de avaliação escolar centram-se agora nas médias obtidas, em vez de valorizar as classificações que era possível obter. Nos dias de hoje, muitos adultos viram-se para os seus próprios pares para receberem orientação de como se comportarem e até de como serem. Tradicionalmente, isso não acontecia: virávamo-nos para os mais velhos, para as tradições, para a religião e mesmo para a ciência. Atualmente, na nossa sociedade obcecada pelos pares, existe uma preocupação avassaladora para ser normal, o que basicamente significa ser igual a toda a gente. A generalização da orientação por pares está na base da cultura popular e é o motor, por exemplo, das indústrias de publicidade e de moda. Até atingiu já o campo da investigação científica. Em muitos estudos sociais e comportamentais, entende-se a norma não como o que poderia ser, ou deveria ser, mas como o que é típico. E qualquer desvio do típico é considerado fora do normal.

Qual é a maior ferramenta que os pais necessitam na educação dos seus filhos? A intuição?
Tradicionalmente, a intuição tem sido a nossa grande ferramenta enquanto pais. Enquanto as estruturas culturais permaneceram intactas e as crianças mantinham vínculos familiares fortes, era possível, na maior parte dos casos, confiar nos nossos instintos. Os nossos antepassados não precisavam de ler livros para saberem o que fazer. O problema com a intuição é de que necessita do contexto para ser utilizada. Quando a nossa cultura nos falha, ou as nossas crianças não estão fortemente vinculadas, perdemos a intuição. É precisamente isto que parece estar a acontecer aos pais um pouco por todo o mundo. A intuição esteve ao serviço de pais e educadores durante milhares de anos, mas hoje estamos a perder acesso a esta importantíssima parte de nós mesmos. O que pode trazer esperança é o facto de ser possível recuperarmos os nossos instintos enquanto educadores.

De que forma?
Através de um profundo conhecimento das nossas crianças. Se as conseguirmos conhecer e compreender de forma profunda e total, recuperamos a intuição que nos é inata. Assumir conscientemente a missão de perceber quem são e como são os nossos filhos não era uma necessidade em sociedades antigas: esse conhecimento era resultado de vínculos quase inquebráveis. Hoje necessitamos de o fazer, para compensar a falta do contexto educativo natural. É por isso que é essencial que as nossas crianças nos façam sentido.

E como é que isso é possível?
Passei toda a vida a tentar que as crianças fizessem sentido – as minhas e as dos outros. Felizmente tive cinco filhos meus e, agora, três netos com os quais pude e posso praticar. E foi assim que desvendei algumas conceções da ciência do desenvolvimento nos campos das teorias da vinculação, vulnerabilidade e maturidade. Nos últimos 40 anos, tenho tentado mover as peças do puzzle, na tentativa de criar uma teoria integrada do desenvolvimento baseado nos esquemas de vinculação, que seja relativamente livre do ‘calão’ e dos termos esotéricos que tendem a ser a grande praga das teorias psicológicas.

Como é que isso se consegue?
Uma boa teoria deve ser acessível, ecoar a intuição e explicar fenómenos que não podem ser entendidos de outra forma. Procuro ajudar outros a verem as suas crianças através destes instrumentos. O maior problema dos dias de hoje é que não estamos a fazer as perguntas certas. Em vez de nos perguntarmos ‘o que estou a ver?’, a perguntarmo-nos ‘o que devo fazer?’ Assim, em vez de discernimento, obtemos estratégias inúteis, pois a vida tende a ser muito mais complexa. Se conseguirmos perguntar ‘o que estou a ver?’, procurando ir para além dos sinais de comportamento, é possível obter progressos.

A uma certa altura das nossas vidas, todos necessitamos de orientação. A educação de uma criança começa no sentido de missão e/ou na confiança dos pais?
Há algo de errado connosco, enquanto pais, se não experimentarmos sentimentos de insegurança perante a perspetiva de criarmos uma criança. Mas se respondermos a essa insegurança procurando respostas em terceiros, acabamos por perder a intuição. Para encontrar a nossa intuição parental, ao invés de procurar as respostas, devemos assumir o papel de sermos a resposta ao nosso filho. Se assumirmos esta atitude, tudo o resto surgirá quando for necessário. O tipo de confiança de que necessitamos enquanto pais não se encontra nos livros. Provém do sentido de que a nossa missão é sermos o pai ou a mãe de que o nosso filho precisa. O sentido de missão e a confiança é tudo para os pais e educadores, mas apenas se podem descobrir. Não se podem ensinar.


O livro que escreveu chama-se “Hold on to your kids – Why parents need to matter more than peers (“Segure os seus filhos – Por que razão os pais devem ter mais importância que os pares”, em tradução livre). Como é que isso se faz?
É necessário fazer os possíveis para preservar o tipo de proximidade que os protege da necessidade de se realizarem fora da família. Os nossos filhos necessitam de nós até à altura em que são maduros o suficiente para procurarem o seu caminho. Como é que seguramos os nossos filhos? Fazendo da nossa relação mútua uma prioridade, não deixando nada ficar entre nós e criando estruturas e rituais que nutram a relação e não ‘namorando’ os nossos competidores.

Os pares e a sua influência?
Certamente. O melhor das relações entre pais e filhos é que nunca é demasiado tarde e existe sempre esperança. A partir do momento em que sabemos por onde começar, habitualmente surgem progressos.

Em Portugal, os valores das famílias encontram-se ainda muito presentes. Uma determinada cultura pode influenciar a orientação por pares?
Com toda a certeza. Apetece-me dizer que vos invejo em Portugal. Neste campo, o vosso país está em muito melhor forma que outras regiões da civilização ocidental. Mas, a menos que determinem o que é realmente importante, correm o risco de perder essa vantagem. A vossa cultura terá agora de sobreviver a uma cultura europeia que sobrepõe os valores materiais aos valores culturais e a uma revolução digital que fomenta os vínculos indesejados com os pares. Para que a vossa cultura sobreviva, os portugueses terão de perceber o que vale a pena segurar.

 

Quem é Gordon Neufeld

Reconhecido psicólogo clínico canadiano, possui longa experiência em questões de família e viu as suas teses reconhecidas internacionalmente após a publicação do livro “Hold on to your kids – Why parents need to matter more than peers”, escrito em parceria com o médico Gabor Maté. Defensor da ideia de que o papel dos pais é insubstituível, procura alertar para a importância de manter vínculos estreitos em todas as fases de crescimento e desenvolvimento das crianças e adolescentes

 

 

O pai está em vias de extinção – Eduardo Sá

Setembro 13, 2017 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Eduardo Sá publicado na http://www.paisefilhos.pt/ de 29 de agosto de 2017.

Falta pai à maioria das famílias! Não o pai machista e autoritário de antigamente. Mas um pai que precisa de se reinventar. Com a certeza de que o crescimento e a função do pai se tem apagado…

 1- Talvez como nunca, fará tanto sentido comemorarmos o Dia do Pai. Não que o pai não tenha sido, desde sempre, um “bem de primeira necessidade” para o desenvolvimento de todas as crianças. É claro que foi! Mas receio que, duma forma subtil, e desde há vários anos, o seu papel tenha vindo a tornar-se, na dinâmica das mais diversas famílias, pálido e frouxo em demasia. E que, por isso, precise de ser reinventado.

É verdade que o mundo sempre foi machista. E que ainda será. Não acho que ele tenha ganho tanto assim com isso. Mas reconheço que a biologia e uma escolaridade precária contribuíram, desde sempre, para que os homens e as mulheres tenham vivido numa divisão de papéis que muitos foram tomando como mais ou menos inquestionável. O homem, foi assumindo a força do trabalho e a reunião dos recursos indispensáveis para a sobrevivência e para a defesa da família. A mulher, a maternidade e a gestão dos filhos e da casa. Escusado será dizer que, a par desta aparente fatalidade biológica (e dos constragimentos económicos, sociais e escolares em que ela se foi ancorando), a mortalidade peri-natal ajudou, ainda mais, as mulheres a ficarem “presas” à maternidade. Até porque a discrepância entre os nados-vivos e as crianças duma família foi, desde sempre, assustadora e, monstruosamente, dolorosa.

Com a progressiva medicalização da gravidez, do parto e da saúde do bebé, e com os novos recursos médicos trazidos para o planeamento da gravidez, a maternidade, entretanto, pôde passar a ser planeada. Menos filhos passou a significar melhores pais. Mais oportunidades de planeamento familiar. E melhores condições para que a mulher transformasse a formação escolar em compromissos profissionais e em oportunidades de carreira. Mas o mundo, apesar disso, foi permanecendo machista. E matriarcal. Isto é, foi prevalecendo a tutela do homem sobre a mulher que, em função da confluência de compromissos profissionais, familiares e domésticos, passou a “acumular funções” que a foram tornando mais expedita, mais sagaz e mais preponderante na dinâmica da família.

Evidentemente que um mundo assim se transformou, profundamente, ao longo de todo o século XX. E que, a par da paridade de direitos e de responsabilidades entre o pai e a mãe, os papéis de um e de outro se foram matizando. Melhor: o papel da mãe “apurou-se” e ganhou robustez e versatilidade; e o papel do pai “maternalizou-se”. O que, assumamos, trouxe a magnífica mais-valia de uma criança passar a ter duas “mães”: a mãe, ela-própria, divina e inimitável; e o pai, participando, com “sexto sentido”, em todos os momentos do crescimento de uma criança. Com um protagonismo que se foi “democratizando”, de forma transversal, independentemente das classes sociais ou dos estatutos económicos que, dantes, se iam tornando obstáculos para tamanha revolução da parentalidade. Chegámos, pois, à formula de que mais gosto: a primeira função de um ser humano é ser mãe! Que, por outras palavras, acaba por ser um modo minimalista de afirmar que o instinto maternal não é um “equipamento de base” de todas as mulheres e um “extra” de alguns homens. Será mais “democrático”, felizmente! Com a particularidade – preciosa! – dos desempenhos parentais das mulheres e dos homens terem vindo a melhorar tanto e terem-se tornado tão mais paritários e complementares, nos últimos cinquenta anos, que os filhos têm acumulado exemplos, recursos e oportunidades para se virem a tornar melhores pais.

2 – Há, no entanto, uma constante que, curiosamente, tem vindo a acompanhar estas condições únicas de que as crianças, hoje, dispõem. O modo como parecem ter, cada vez mais, uma relação muito difícil com a autoridade. O que, à primeira vista, não seria expectável. Por maioria de razão, porque nunca houve tão bons pais, tanta escolaridade, tanto contraditório diante dos gestos educativos dos pais e tanta democracia familiar.

Aquilo a que, dantes, se foi chamando “A Lei do Pai” representava uma forma autoritária de definir e de cuidar das regras familiares que, em inúmeras circunstâncias, se acompanhava de desempenhos tirânicos por parte do pai que, para mais, não se faziam acompanhar de atitudes que ligassem com coerência o exigido e o desempenhado. E implicavam medo – muito medo, por vezes – do pai. O que fazia com que o pai, para além de omisso, no dia a dia de uma família, surgisse como um juiz temido, muitas vezes inconstante e, frequentemente, incoerente. Por vezes, alimentado (ora de forma assustada e submissa, ora dum jeito um bocadinho batoteiro) pela mãe, com a célebre insinuação: “Ai quando o pai vier!…”, que transformou muitos pais em pessoas estranhas, aparentemente distraídas, afetuosamente inábeis e, sobretudo, muito trôpegas com as palavras e com os gestos de amor.

Todavia, e apesar dos formatos mais democráticos e mais plurais das famílias, quando perguntamos a crianças de cinco, seis ou sete anos se reconhecem existir uma “função paterna” diferente da “função materna” elas não só não as confundem como, aliás, as caracterizam ao pormenor. Dir-se-á que os modelos familiares pesam nesta caracterização? É verdade que sim. Por mais que não devamos excluir um certo “inconsciente coletivo” que, casando biologia e cultura, terá ajudado a compor, ao longo dos séculos, estas funções.

Só que eu não entendo porque é que, tomando os formatos tradicionais da família, um pai (felizmente) mais maternal terá de ser menos… pai. Porque é que não pode assumir um lado de “rei leão” de forma a que “a lei familiar” não tenha de casar com o autoritarismo? Porque é que na fabulosa transformação da família que estamos a viver, a “função do pai” se encolheu, como se a maioria dos homens parecessem viver tão atormentados pelas omissões e pelos maus desempenhos dos seus próprios pais que, sempre que se trata de serem firmes e serenos, guerreiros mas sensatos, bondosos e “duros”, justos mas escutadores, ora protagonistas ora “segundas figuras”, se baralham e se “perdem”? Como se dar colo a um filho para, depois, o colocar “às cavalitas”, ou ser-se protetor mas, também, amigo da sua autonomia não fosse, facilmente, conciliável. Como se parecesse não ser fácil ser-se maternante mas, todavia, pai!

Sim: falta pai à maioria das famílias! Não o pai machista e autoritário de antigamente. Mas um pai que precisa de se reinventar. Com a certeza de que o crescimento e a função do pai se tem apagado, de tal forma que, por causa destes “pais em vias de extinção”, a Humanidade tem vindo a desencontrar-se e a confundir democracia familiar com “comissões de gestão” familiares. Falta “autoridade de pai”. O desafio será imenso para todos os homens? Não! É fascinante para todas as famílias. Que, a par do modo como o pai se maternalizou, têm de recuperar a sensatez da “função do pai”. Nem que, para tanto, a mãe tenha, ela própria, de se paternalizar.

 

 

Há entre os jovens uma “explosão de frustração”

Agosto 24, 2017 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista do https://www.publico.pt/ a Augusto Cury no dia 3 de junho de 2017.

Bárbara Wong

Augusto Cury é psiquiatra e autor de dezenas de livros. Muitos são de auto-ajuda, outros são aquilo a que o próprio chama “romance psiquiátrico”, ou seja, ao longo da trama o autor vai introduzindo informação técnica e científica, de uma forma pedagógica. Os seus livros vendem milhões e alguns já chegaram à televisão.

O brasileiro veio a Portugal para o lançamento de O Homem mais Inteligente da História (editado pela Pergaminho) em que revela como se converteu ao cristianismo ao estudar a “mente fascinante de Jesus”, mas sobretudo confessa uma enorme preocupação com a educação das novas gerações e com as doenças mentais.

Critica os pais que compram os filhos com bens materiais…

Em todo o mundo há pais que transferem dinheiro, carros, casas, mas não conseguem falar das suas lágrimas para que os filhos venham a ser capazes de chorar as deles. É preciso educação socioemocional. Os pais não se apercebem de que quando elevam o tom de voz, quando criticam ou comparam, tornam-se predadores da emoção dos seus filhos. Os pais pioram os seus filhos porque não conhecem o funcionamento da mente. O mesmo fazem os professores.

Mas também vemos pais que mostram desinteresse. Por exemplo quando um filho está a chamar a atenção e o pai dá-lhe um smartphone

Há um problema sério no mundo. Já sabemos que os ecrãs não acalmam nem aliviam a ansiedade, mas sufocam o tédio, dando a falsa noção de que as crianças e jovens estão calmos. E os pais utilizam essa ferramenta porque não conseguem brincar, dialogar, ajudar os filhos a reflectir porque eles também estão stressados. Eles também são vítimas da síndroma do pensamento acelerado. Uma criança de sete anos tem mais informação do que tinha um imperador no auge de Roma.

E isso tem consequências?

Isso gera agitação mental e sintomas como dores de cabeça, musculares, cansaço, sofrimento por antecipação, baixo limiar para a frustração, dificulta a memória. Sintomas que pais e crianças sentem. Os pais eximem-se da sua responsabilidade de criar alternativas para educar de uma maneira inteligente. Por isso é que as crianças e adolescentes estão cada vez mais agitados.

E são diagnosticados como hiperactivos?

Está a confundir-se a síndroma do pensamento acelerado com hiperactividade e há erros de diagnóstico no mundo todo. Digo isso no livro: estão a ser prescritas drogas de obediência para um problema que nós criámos.

Há um problema maior de saúde mental do que há dez ou 20 anos?

Hoje é gravíssimo! Estamos assustados porque antigamente uma pequena quantidade de pessoas poderia ter um problema de saúde mental, hoje sabemos que uma em cada duas tem ou vai desenvolver um transtorno emocional. Metade da população! Destes quantos procuram tratamento? Talvez nem 1%. Por isso, o melhor é a prevenção. É mais inteligente e democrático. Neste livro falo de ferramentas preventivas.

Tais como, por exemplo?

Costumo dizer que não devemos apenas fazer higiene oral, mas mental. Isso é prevenção. A cada 40 segundos suicida-se uma pessoa e a cada quatro segundos uma pensa em suicídio.

Falou de automutilação, de suicídio, como é que olha para o fenómeno da Baleia Azul?

Há 20 anos que estamos numa epidemia de suicídio. E é um paradoxo porque estamos perante uma poderosa indústria do lazer, capitaneada pelo cinema, o desporto, os smartphones. Mas temos a geração mais triste e com a mais baixa capacidade de contemplar o que é belo, de elaborar experiências, de fazer muito do pouco. O índice de suicídio entre os dez e os 15 anos aumentou 40%. Esse jogo é apenas a ponta do icebergue.

Quem são os jovens que pensam no suicídio? São os que estudam mas não têm perspectivas para o futuro?

No Brasil, o maior estrago da corrupção não foi nas finanças do país, mas no inconsciente colectivo de toda uma geração de jovens que viram a sua esperança ser esmagada. A falta de perspectiva, a competitividade atroz na sociedade capitalista, a dificuldade de acesso à universidade são elementos stressantes, mas não explicam a explosão de frustração. A dificuldade está em gerir as emoções. A humanidade não estava preparada para a avalanche de estímulos. Por isso, defendemos que as pessoas seleccionem a informação. Nas escolas deveriam ensiná-los a ler jornais e revistas, para que não sejam manipulados por políticos autoritários com soluções mágicas, radicais e inclusive fascistas que seduzem milhões de jovens. Estou muito preocupado com isso.

Mas há esperança!…

A esperança está na educação. Sem uma educação socioemocional e de gestão da emoção a nossa espécie é quase inviável porque os instintos de sobrevivência prevalecem sobre a cooperação, generosidade e altruísmo.

Mas neste livro [O Homem mais Inteligente da História] há uma forte crítica ao actual sistema de ensino e à forma como as crianças são educadas naquilo a que chama a “era da informação”…

Exactamente. Temos de mudar da “era da informação” para a “era do eu como gestor da mente humana”. Sem isso não vamos produzir mentes brilhantes, com consciência crítica.

O que é preciso mudar nas escolas?

Se pegarmos nos alunos do pré-escolar até ao doutoramento, verificamos que não damos ferramentas para que se tornem autores da sua própria história, para terem consciência crítica, capacidade de escolha. Não desenvolvem capacidades para colocar-se no lugar do outro, serem resilientes, tolerantes à frustração, generosos. Estes jovens estão preparados para os desafios profissionais, sociais, para as preocupações com a segurança alimentar e aquecimento global, mas não passarão de “meninos” com um diploma nas mãos. Portanto, a educação mundial tem de contemplar a gestão da emoção.

E como é que isso se faz?

No Brasil estamos a aplicar o Programa Escola da Inteligência, que é um projecto de gestão de emoção, inserido no currículo. Temos 250 mil alunos do pré-escolar ao secundário a quem, uma vez por semana, ensinamos a desenvolver capacidades para protegerem a emoção. Para isso, é preciso entregarmo-nos sem esperar nada em troca. Segundo, entender que atrás de uma pessoa que fere está uma pessoa ferida. Terceiro, não ser agiota da emoção. Os que elevam o tom de voz, apenas apontam falhas, não brincam, não transformam as crises em oportunidades de [as crianças] se reinventarem são pais e professores implacáveis.

Existem outras regras?

Sim, a quarta é a vingança que nos alivia um minuto, enquanto o perdão inteligente alivia uma vida. Vivemos numa era de autopunição e é preciso ensinar as crianças e os adolescentes a perdoarem os outros e a si mesmos. E há outras. O importante é perceber que não adianta fazermos seguros de vida se não protegermos o maior de todos os bens, que é a emoção.

 

 

 

 

 

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