Kay Mellish: “É uma perda de tempo passar 12 horas a fazer um trabalho de oito” parentalidade e natalidade na Dinamarca

Junho 12, 2018 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista e foto do Observador a Kay Xander Mellish no dia 2 de junho de 2018.

Rita Porto

Sair cedo do trabalho para ir buscar os filhos, longas licenças de parentalidade, apoios à fertilidade. As políticas de natalidade e parentalidade explicadas por quem as vive na Dinamarca.

Marcar uma reunião na Dinamarca ou com alguma empresa sediada no país depois das três da tarde é impensável. Até pode tentar, mas não terá grande sucesso. Aliás, a probabilidade de encontrar quem quer que seja num escritório depois das 17 horas é praticamente nula. Por uma simples razão: a essa hora, os dinamarqueses, tanto as mulheres como os homens, já saíram para ir buscar os seus filhos.

O relato é de Kay Xander Mellish, uma norte-americana que trocou os Estados Unidos pela Dinamarca há 18 anos. O pretexto para mudar de continente foi um emprego, mas o motivo que a levou a ficar foi outro: “Acabei por ficar porque é um ótimo sítio para criar filhos. Não há competição, não há notas“.

Formada em Jornalismo e em História de Arte pela Universidade de Nova Iorque, a norte-americana fez trabalhos para órgãos de comunicação como o Wall Street Journal, The Guardian e The South China Morning Post. Na Dinamarca trabalhou em vários sítios até que decidiu criar a sua própria empresa, através da qual ajuda empresas dinamarquesas a melhorarem o seu inglês. É também autora de livros como “How to Live in Denmark” (“Como viver na Dinamarca”) — também um site e podcast — e “How to Work in Denmark” (“Como trabalhar na Dinamarca”), que servem de guia para os estrangeiros que querem mudar-se para o país.

Graças a esses trabalhos, tem viajado pelo mundo a dar palestras sobre a vida dinamarquesa. E foi também isso que a trouxe a Portugal para participar como uma das oradoras da conferência “Natalidade: Como fazer crescer Portugal?”. O Observador falou com a norte-americana para conhecer melhor o que se passa neste país do norte da Europa, em que as crianças são uma prioridade — para os pais, mas também para o Governo.

Como é criar um filho na Dinamarca? Quais são as principais diferenças em relação a Portugal?
Pelo que percebi, só de falar com portugueses, a grande diferença são as horas de trabalho. Em Portugal, geralmente, trabalha-se das nove da manhã às nove da noite e talvez não se seja assim tão produtivo. Convenhamos, não se consegue ser muito produtivo durante 12 horas.

Quantas horas se trabalha na Dinamarca?
Na Dinamarca, o dia de trabalho são sete horas e meia e as pessoas cumprem à risca. Se começam a trabalhar às 8h00, saem às 15h30 e é considerado normal um trabalhador, tanto do sexo masculino como do sexo feminino, dizer: “Tenho de me ir embora, tenho de ir buscar os meus filhos”. Portanto, quando aconselho os estrangeiros que vêm fazer negócios na Dinamarca, digo-lhes para não marcarem reuniões para depois das três da tarde, porque as pessoas não vão poder estar presentes, têm de ir buscar os filhos. E se forem a um escritório às 17h00, não está lá ninguém, as pessoas foram para casa. Algumas pessoas podem ligar-se a partir de casa, à noite, e trabalhar. Não é que não trabalhem, mas o trabalho deles é muito focado num curto período de tempo. Por exemplo, as horas de almoço são de meia hora. 30 minutos e é na cantina do escritório. Não se vai à rua para almoçar com um amigo ou algo do género, isso não se faz. Há estas sete horas e meia em que se está concentrado e isso permite que as pessoas tenham mais tempo para a família.

“97% das crianças vão para as creches do Estado, incluindo as crianças da família real”

Além da flexibilidade nos horários, a Dinamarca tem outras políticas que promovem a parentalidade. Todas as pessoas com filhos recebem um subsídio do Estado todos os meses até o filho atingir a maioridade e, caso a criança esteja doente, podem ficar mais do que um dia em casa com o filho. O Governo organizou também um sistema, apelidado de “grupo de mães”, em que se juntam entre quatro a seis jovens mulheres para se apoiarem mutuamente.

Kay Xander Mellish destaca ainda os jardins de infância públicos, locais onde as crianças aprendem a brincar em vez de serem inseridas desde cedo num “local académico”. Na Dinamarca, há mesmo um tipo específico de jardins de infância, em que as crianças passam o dia na floresta.

Que género de políticas é que há na Dinamarca que promovem a natalidade e a parentalidade?
Uma delas já falámos: as horas de trabalho. Outra das coisas que as pessoas podem fazer na Dinamarca, além de saírem a horas, é poder tirar o dia se o filho estiver doente e ficar com a criança em casa. Há quem consiga tirar cinco dias, mas normalmente tira-se apenas um ou dois dias. Há também o sistema de jardins de infância do Governo.

Como funciona?
Começa quando a criança tem cerca de 12 meses e continua até ela ir para a escola. E não são locais académicos, em que as crianças têm de aprender as letras do alfabeto. São sítios designados de “free play” [com maior liberdade], em que se aprende a conviver com as outras pessoas. Portanto, se for um homem ou uma mulher com um emprego, deixa a criança por volta das 7h00/7h30 no jardim de infância, vai trabalhar às 8h00. Por volta das 15h30/16h00, regressa para ir buscar a criança e como tem mais tempo livre, é mais provável que consigam cozinhar uma refeição do zero juntos. Se está em casa por volta das 16h00 e janta às 18h00, talvez tenha tempo para fazer uma sopa. A pessoa não está tão stressada e a correr de um lado para o outro. E todos frequentam estas creches: 97% das crianças vão para as creches do Estado, incluindo as crianças da família real dinamarquesa. Não pôr a criança no jardim de infância é considerada uma má decisão dos pais.

Em Portugal, ainda é frequente as crianças ficarem com os avós…
As únicas pessoas que fazem isso são geralmente imigrantes e a avó quer ter alguma coisa para fazer, então não põem a criança no jardim de infância. Mas tem havido problemas graves com isso porque depois as crianças não aprendem bem a língua dinamarquesa e quando começam a escola, estão muito atrasadas. É por isso que estão a pensar tornar obrigatório pôr as crianças no jardim de infância. Esta é uma política do Governo que eu acho que funciona muito bem. E eles têm um ótimo tipo de jardins de infância chamado ‘forest kindergarten’ [jardim de infância na floresta, numa tradução livre]. É muito popular para os rapazes, mas também para as raparigas. Os pais deixam as crianças no jardim de infância, elas entram num autocarro e são levadas para passarem o dia na floresta. Todo o dia, faça chuva ou faça sol. As crianças aprendem imenso sobre a natureza, as coisas boas e as coisas más — não romantizam a natureza. É perfeito para os rapazes porque eles têm imensa energia e podem correr de um lado para o outro, mas algumas raparigas também iriam gostar.

As crianças acabam por não ficar fechadas numa sala de aula…
Exato, isso não acontece durante muito tempo. As crianças nem sequer têm notas até terem 13 ou 14 anos.

Isto foi sempre assim ou foram políticas introduzidas recentemente?
O Estado social dinamarquês surgiu depois da II Guerra Mundial: como precisavam das mulheres a trabalhar, era preciso alguém para tomar contas das crianças. Foi assim que surgiu o sistema das creches. As pessoas são muito independentes na Dinamarca, os avós têm as suas próprias vidas, não ficam a tomar conta dos netos. Podem ir buscá-los de vez em quando. Ou seja, a ideia era o Estado intervir e ajudar. As pessoas confiam muito no Estado, pagam impostos muito altos, mas estão dispostos a isso porque vêem o retorno. Nos Estados Unidos, por exemplo, também se pagam impostos altos, mas nem sempre se vê o retorno. Aqui vê-se porque há um nível muito baixo de corrupção. Vê-se que grande maioria do dinheiro é gasto em hospitais, em assistência infantil e as pessoas estão dispostas a investir nisso.

Fertilidade: o apoio do Estado e o benefício dos dadores anónimos

O Governo dinamarquês também promove a natalidade através de apoios à fertilidade. Aliás, um em cada 12 nascimentos no país resulta de tratamentos de fertilidade, sendo que a maioria se realiza através de apoio estatal. Todos têm acesso a estes apoios e existe um programa específico para as mulheres solteiras e para as mulheres homossexuais engravidarem com dadores de esperma — há muitas mulheres de outros países que vão de propósito à Dinamarca para fazerem estes tratamentos. Na Dinamarca, os dadores são anónimos e o Governo ainda dá uma bolsa isenta de impostos em troca da doação de esperma.

A Dinamarca também tem apoios no que toca à fertilidade.
Sim, é verdade. O Governo dá apoio se se tratar de uma mulher solteira e quiser ter um bebé sozinha. Ou se for um casal de lésbicas a querer ter um filho. Acho que isso não acontece tanto com os casais gays. No caso de um casal heterossexual que está a ter dificuldades em engravidar, o serviço de saúde paga a fertilização in vitro e a inseminação artificial. Há muitos dadores de esperma em Dinamarca, [o país] é dos maiores exportadores de esperma. Uma das razões é o facto de o dador poder ser anónimo.

O anonimato não é um problema?
Não, de todo. Claro que há sempre algumas pessoas que dizem coisas, mas há milhares e milhares de dadores na Dinamarca. É uma ótima forma de os jovens ganharem dinheiro, são 100 euros por sessão. Por quanto tempo? 15 minutos? É capaz de fazer mil euros por mês, portanto é algo muito popular. Como é anónimo, arranja-se uma amostra de jovens de “alta qualidade”: estudantes de medicina, direito, carpinteiros, homens inteligentes. Quando não é anónimo, muitas vezes os dadores são homens que chegam aos 42 anos e que estão deprimidos por não terem uma mulher. É uma “qualidade” diferente.

O Governo dinamarquês promove muito a natalidade com todas estas políticas. É um fenómeno cultural ou há alguns governos que investem mais nestas políticas?
Acho que é cultural, a Dinamarca é um país “child friendly” [é um bom país para as crianças]. Uma coisas que disse na minha apresentação é que é possível levar uma criança a um bom restaurante. Desde que ela esteja bem comportada, é bem-vinda. Na Alemanha, por exemplo, já torcem o nariz. As pessoas gostam genuinamente de crianças, portanto sentem-se mais à vontade para levar uma criança para esse tipo de ambientes. E isto não é uma questão religiosa, as pessoas não estão a ter mais filhos por acharem que têm de o fazer por uma questão religiosa, como dizem que pode estar a acontecer em Israel, mas as igrejas têm-se envolvido nesta questão: têm aulas de música para bebés, por exemplo. Como os pais estão um ano sem trabalhar, têm muito tempo livre e não querem ficar parados durante todo aquele tempo. Por isso, há uma série de aulas para bebés [independentes da igreja] de música, de natação, sessões de cinema para os bebés — são muito populares e acontecem normalmente por volta das dez da manhã. 

Licenças até cerca de um ano

O envolvimento dos homens dinamarqueses na vida doméstica vai muito além do tempo da licença de paternidade. Segundo dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) — que mostram as horas que os homens e as mulheres dos países da OCDE, da China, da Índia e da África do Sul dedicam ao trabalho não pago (tarefas domésticas, compras, cuidar de adultos e crianças, voluntariado, entre outros)  –, a Dinamarca é o país onde os homens mais horas fazem neste tipo de trabalho — três horas e seis minutos –, sendo que as mulheres passam quatro horas e dois minutos do seu dia a fazer este género de tarefas. Já Portugal é o segundo país da OCDE onde as mulheres fazem mais horas de trabalho não pago, cinco horas e 28 minutos, enquanto os homens fazem apenas uma hora e 36 minutos.

Como funcionam as licenças na Dinamarca?
Quando se tem um filho na Dinamarca, a mulher tem quatro semanas de licença antes do nascimento e outras 14 semanas depois do nascimento. Os homens são obrigados a tirar duas semanas depois do nascimento do filho — é obrigatório — e depois os pais têm 32 semanas que podem dividir entre eles, mas as mulheres normalmente tiram mais tempo: a mulher talvez tire nove meses e o pai três. 

E recebem o salário a 100%? Não têm cortes?
Depende do sítio onde se trabalha. Se for uma empresa prestigiada, fazem essa oferta para ficar com os melhores trabalhadores. 

As empresas, mesmo assim, preferem contratar homens em vez de mulheres?
Tecnicamente não lhes é permitido fazer isso, mas com o sistema que está implementado — com a assistência à infância do Governo a partir dos 12 meses –, mesmo que a mulher decida ter um filho, ao fim de um ano ela está de volta. Portanto, se for alguém com um potencial a longo prazo para a empresa, seria escolhida de qualquer maneira. Na verdade, nunca se sabe quando alguém vai decidir ter filhos.

Então não é um problema?
Claro que as pessoas pensam nisso, mas sabendo que os homens também tiram licenças… Por norma, homens com um maior grau de diferenciação tiram pelo menos dois ou três meses e é visto como a coisa certa a fazerSe disser que não vai tirar tempo nenhum para estar com o filho, as pessoas ficariam a pensar mal dele. E não quero estar a estereotipar os homens portugueses e os homens dinamarqueses, mas os dinamarqueses foram considerados pela OCDE como os homens que mais trabalhos domésticos fazem em casa. Na Dinamarca, é considerado muito “macho” lavar a loiça e os homens gabam-se do tempo que passam com os filhos: empurrar o carrinho do bebé ou usar marsúpios.

Ou seja, não existe uma diferença de género…
Não, de todo. É uma coisa de “macho” andar com o filho. É como se dissessem: “Olhem o que eu fiz, eu consigo fazer isto”. E é considerado “fixe” exibir o tempo que se passa com os filhos.

Este papel ativo dos homens em casa na Dinamarca é algo recente?
É algo dos anos 70, com o movimento de libertação das mulheres. Mais: outra grande diferença que imagino que exista entre Portugal e Dinamarca são os salários. Na Dinamarca, os salários são tão elevados que as pessoas não têm ajuda doméstica. São poucas as pessoas que têm uma empregada ou uma cozinheira. Ou seja, para alguma coisa ficar feita, têm de ser as duas pessoas a fazê-la. E também o facto de as crianças passarem mais tempo com os pais faz com que, quando chegam aos 9 ou 10 anos, já cozinhem refeições.

Porque cozinharam com os pais…
Exatamente. E as crianças assumem maiores responsabilidades. Quando se passa mais tempo com os filhos, é possível mostrar-lhes como ser responsável. É assim que se faz. Eu diria que, na Dinamarca, toda a família faz a sua parte nas lides domésticas, porque é demasiado caro contratar alguém para o fazer. 

“É perda de tempo passar 12 horas a fazer um trabalho de oito horas”

Segundo dados do Eurostat, a Dinamarca é o único país da União Europeia onde, em 2017, os funcionários trabalharam menos de 38 horas por semana (37.8), sendo que as mulheres trabalharam 37.1 horas e os homens 38.3. Em Portugal, trabalhou-se por semana 41 horas: os homens fizeram 41.8 horas por semana e as mulheres 40.1. A média da UE é de 40.3 horas.

Apesar do pouco contacto que teve com a realidade portuguesa, Kay Xander Mellish não tem dúvidas do que mudaria: o excesso de horas laborais. Para a norte-americana, não faz sentido estar tantas horas no trabalho, quando é possível fazer-se o mesmo em menos horas.

Não sei se é a primeira vez que vem a Portugal…
É a segunda, mas a última vez que cá estive foi há muito tempo.

Qual foi a sua primeira impressão de Portugal? Ficou com alguma ideia de como seria a questão da natalidade ou de criar filhos cá?
Não, conheci apenas a parte turística, mas graças à conferência, percebi que Portugal está a passar por um desafio. Sei que muitos países do sul da Europa estão a passar por isso. Disseram que em Itália isso acontece porque o homem não faz a sua parte das lides domésticas, então uma mulher questiona-se como vai ter filhos quando tem um emprego a tempo inteiro e ainda cuida da casa e de um marido. Por isso é que acho que é tão importante que os homens não só façam a sua parte como o façam de boa vontade e não encarem isso como uma obrigação de ajudar a mulher.

Se pudesse mudar alguma coisa em Portugal, o que seria?
Diminuir as horas de trabalho. Menos horas de trabalho e mais concentradas. É uma perda de tempo passar 12 horas a fazer um trabalho de oito horas. Faça as oito horas de trabalho, passe as outras quatro a fazer outra coisa. Essas quatro horas podem ser passadas com a sua família.

 

 

 

 

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Workshop “Quem Quer Ser Um super Pai. 1º Ciclo e agora?” 14 junho em Braga

Junho 11, 2018 às 4:42 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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mais informações no link:

https://www.facebook.com/events/2302729453287480/?notif_t=plan_user_associated&notif_id=1528709023211192

Calendário dos Afetos

Maio 18, 2018 às 12:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Os filhos não são nossos

Maio 17, 2018 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto de opinião de Alexandra Duarte publicado no i de 7 de maio de 2018.

Os filhos levam-nos à exaustão! Abençoados os pais que nunca gritaram, nunca se lembraram de dar uma palmada, nunca se sentiram desesperados de cansaço. Ou têm uma paciência de Jó, ou o tempo que passam com os seus filhos não é o suficiente para serem sujeitos a esta prova, ou então alcançaram este estado perfeito que muitos de nós ambicionamos.

Não tarda chegam as férias grandes e encerra-se mais um ano letivo que marcou os nossos filhos, que crescem todos os dias até alcançarem a tão desejada idade da maioridade. Para uns terá sido um ano vitorioso, com conquistas pessoais e escolares que os definirão enquanto adultos daqui a uns anos, e às quais nós assistimos com orgulho, ou até fomos diligentemente responsáveis por essas provas superadas. Porque esse é o nosso dever enquanto pais ou cuidadores: ensiná-los a crescer com amor e responsabilidade, mesmo quando a tarefa nos parece árdua e custa como se tivéssemos facas debaixo dos pés enquanto caminhamos ao lado destes seres tão frágeis, mas com uma vontade própria que se agiganta perante nós quando menos esperamos.

Apesar do que as crianças pensam, nem sempre temos a certeza das decisões que tomamos e, não são raras as vezes, em que, à noite, nos deitamos dominados pelas dúvidas que nos desassossegam e tiram horas de sono. Questionamo-nos, vezes sem conta, se estamos a fazer tudo bem, ainda que após algum tempo e consumição aceitemos que não há fórmulas para o crescimento, nem sequer uma equação universal para a felicidade, tal como Mo Gadwat (ex-executivo da Google X) reconheceu na sua recente publicação.

Às vezes cedemos, e desviamo-nos do caminho que tínhamos pensado para nós e para eles, seja porque estamos cansados, ou porque nos rendemos após tanta teimosia, ou simplesmente porque há momentos em que se abate sobre nós um nevoeiro que nos impede de ver mais além, e deixa-nos desorientados. Ser pai ou mãe é viver estas angústias e dúvidas, com a certeza de que o sentimento que nos une será o suficiente para retomarmos o caminho em dias solarengos, e que, um dia, seremos compreendidos, porque já dizia o ditado: “Filho és, pai serás!”.

Não é fácil nos dias de hoje ser pai ou mãe, mas também não o era nas gerações anteriores; as dificuldades é que são outras. Temos problemas com a autoridade que exercemos sobre eles por não sabermos muito bem quais os limites socialmente permitidos, já que a qualquer instante podemos ser avaliados e julgados por quem se encontra ao nosso lado. Essa pressão permanente que paira sobre nós condiciona o nosso comportamento e até a relação que estabelecemos com os nossos filhos. Se falamos um pouco mais alto, somos logo olhadas de soslaio (propositadamente no feminino porque ainda continua a ser uma característica mais predominante entre as mães do que nos pais), se nos lembramos de principiar o gesto de levantar a mão, corremos o sério risco de sermos vaiados ou telefonarem para a proteção de menores, tudo serve para julgar. É tão fácil julgar… Não estou a defender este tipo de comportamentos ou de respostas para situações mais críticas com os filhos, mas também não me imagino a julgar alguém que o faça, tendo eu só presenciado aquele instante.

Os filhos levam-nos à exaustão! Abençoados os pais que nunca gritaram, nunca se lembraram de dar uma palmada, nunca se sentiram desesperados de cansaço. Ou têm uma paciência de Jó, ou o tempo que passam com os seus filhos não é o suficiente para serem sujeitos a esta prova, ou então alcançaram este estado perfeito que muitos de nós ambicionamos.

Com o tempo deixou de ser politicamente correto dizer que os filhos são nossos. Implicava, sub-repticiamente, uma mensagem que transmitia um poder abusivo dos pais sobre os filhos, como a querer dizer que nos filhos mandam os pais e mais ninguém. Hoje ninguém se atreve a responder dizendo que o filho é seu e que faz o que quer. Até podem ter deixado de ser nossos, no sentido de propriedade e exclusividade dos pais, já que nos dias que correm são resultado de um cruzamento de influências que vão desde a instituição escolar, aos amigos, passando pelas relações virtuais que vão somando. Mas não sendo nossos, são parte de nós.

Os filhos são parte de nós. São a extensão do nosso amor, da força que nos empurra todos os dias, são a dor pejada de lágrimas que nos trespassa quando sofrem, são a dúvida e a certeza na nossa finitude enquanto protetores, desde que nascem até ao dia em que partimos.

Quem melhor que os pais para amparar no crescimento, limitar os caminhos perigosos, orientá-los nas suas escolhas, incentivá-los nas derrotas, ensinar a não desistir na adversidade, contrariar nos erros, dizer que não quando nos custa?

Cada um de nós faz o melhor que sabe, que sente, impelido por um amor incomparável que não tem medida e, por vezes, até chega a ser incompreensível para os que estão à volta. Mas são os nossos filhos. São nossos. E nós é que sabemos!

Escreve quinzenalmente às segundas-feiras

Como lidar com a fase da adolescência rebelde do meu filho?

Maio 7, 2018 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto e imagem publicados no Facebook do UDIJ no dia 17 de abril de 2018.

O tempo é um grande aliado neste processo. Devemos ter presente que os nossos filhos ao crescer, passam por várias fases e uma delas, provavelmente a mais difícil, é a adolescência.
Este é um tempo de plantar e saber esperar pelos frutos mais tarde. Agora é normal que as suas orientações já não sejam cumpridas como gostaria, agora pode até sentir que nada do que lhe diz ele cumpre ou aceita, sem pelo menos reclamar.
É uma altura de muitas mudanças, em que os nossos filhos começam a querer afirmar-se, a ter controlo da sua vida, a considerar que é altura de serem eles a comandar e por isso, sempre que são colocados numa situação em que têm que cumprir “ordens”, regras estabelecidas, elas são questionadas. Nesta altura, gritar, dar grandes sermões ou até mesmo ameaçar castigar, já não são de grande valia.

Deixe passar a fase de fúria do seu filho e depois converse com ele, oriente, seja firme na sua posição de pai e transmita-lhe segurança, autoridade (não autoritarismo). Pode parecer que ele não ouviu, que não quer saber, mesmo porque ainda é muito imaturo, mas a informação chega. Um dia, esta fase termina e tudo o que lhe foi transmitindo com amor e firmeza vai dar os seus frutos. É altura de treinar muito a sua paciência e saber esperar, nunca desistido. O seu filho, mesmo reclamando, espera de si orientação, regras, segurança, liderança, e claro, muito amor.

Relativizar:

Não esteja constantemente a repreender o seu filho por tudo o que ele faz. Sempre que o criticar, lembre-se que ele vai sentir que está errado, que nunca acerta ou que nunca o satisfaz.

É preciso encontrar uma medida onde o seu filho sinta que a chamada de atenção ao comportamento rebelde dele não muda em nada o amor que sente por ele e que aconteça o que acontecer, irá continuar a acreditar que ele pode fazer melhor do que fez hoje.
É muito importante que saiba separar a pessoa dos atos. Condene o comportamento indesejado, mas jamais misture esse comportamento ao que o seu filho é. Não lhe diga que ele é uma desilusão para si, liga-lhe antes que ficou triste ou chateado com determinado comportamento. Não lhe diga que ele deixou de ser o filho amoroso que era em pequeno, diga antes que ele deverá esforçar-se para ser mais amoroso com os pais, que o seu esforço em ser mau não resulta, porque o conhecem bem e sabem que ele é muito melhor pessoa do que quer mostrar, (acompanhe com um sorriso)

Não comparar:

Quando estiver a repreender o seu filho, nunca o compare com o irmão, primo ou amigo que tenha um comportamento exemplar. Ao contrário do que possa pensar, em vez de o encorajar a melhorar terá o efeito oposto. Ele sentir-se-á diminuído, humilhado e estará a desencoraja-lo a fazer melhor, criando entre vós uma distância cada vez maior.

Nunca lhe dizer que ele será mal sucedido a vida toda:

Por mais que a situação hoje seja complicada e a convivência difícil, esforce-se por ser positivo. Nunca ameace o seu filho, dizendo que caso ele não faça isto ou aquilo, ele nunca será alguém na vida.
Não é a ameaça de fracasso que vai estimular o seu filho adolescente, que já está numa fase difícil. Ele não está preocupado em antecipar problemas futuros, ele está focado no presente e não vai entender que os pais só querem protegê-lo do fracasso, vai sim interpretar as suas palavras como uma falta de confiança nele.
Dirija os seus esforços em estratégias para que ele melhore. Foque-se em que seja traçado um objectivo de cada vez, passo a passo. Priorize com ele o que precisa ser melhorado. Pode ser uma nota ou um comportamento. Se sentir dificuldade em fazer isto, procure ajuda profissional (para lidar com as questões emocionais, relação familiar, para um reforço escolar, etc.). Pode e deve sempre ir tentando construir com eles pequenos objectivos, para que ele sinta o gosto de ter vitórias naquilo que gosta de fazer.

Negociar:

Estabelecer regras e limites é fundamental, mas igualmente importante, especialmente nesta fase é negociar.
Se considera e informa o seu filho que ele deve desligar o computador em determinado horário, ou que quando sai com os amigos deverá chegar até uma hora estabelecida e ele não cumpre, o melhor é não reagir impulsivamente na hora. Espere o dia seguinte para ter uma conversa. Estarão ambos menos reativos e a probabilidade de haver mudanças de comportamento a médio prazo é maior. Demonstre firmeza, mas deixe o seu filho falar. Diga-lhe em que é que ele errou, transmita-lhe as consequências do seu ato, e termine dizendo que sabe que a partir dali ele saberá cumprir cada vez melhor e quanto mais ele cumprir, maior liberdade vai adquirindo porque demonstrando responsabilidade, poderá sempre ser beneficiado.

Porque é que o meu filho fora de casa tem um excelente comportamento com outras pessoas?

Muitos pais surpreendem-se pelo facto dos filhos serem amáveis e gentis fora de casa. Como se explica isto?
Para muitos adolescentes o amor do pai e da mãe é sempre acompanhado de exigências e de pontos de vista sufocantes, como se sentissem que o nível de amor dos pais dependesse de contrapartidas.

É frequente em consulta, ter à minha frente um adolescente sensível, colaborante, amável, cheio de ideias e projetos, enquanto os pais o descrevem como desmotivado, arrogante e rebelde. Isto é normal e não deve assustar os pais, nem fazê-los sentir-se incapazes ou menos amados pelos filhos.

Os avós, os tios, pais de amigos, professores ou pessoas próximas, podem ser grandes aliados para um desfecho positivo desta crise. Infelizmente, muitos pais vêem isso como uma competição, ou ameaça (não me obedece mas obedece aos outro), e acabam não usando a seu favor a abertura a terceiros.
É altura de ultrapassar as suas inseguranças e pedir ajuda a terceiros, eles poderão ajudar muito e aliviar a tensão familiar.

Tentar perceber o que está por detrás da rebeldia:

O comportamento do seu filho vem com mensagens subliminares e quase nunca é o que os pais pensam ser. Para o entender, fale menos e escute mais.
Se um pai desde a infância, passa mais tempo a dar ordens, a ralhar, sem dar espaço à conversa tranquila e interessada com o seu filho, está a perder a oportunidade de conhecer melhor, de perceber as mudanças que vão surgindo.
Nenhum comportamento começa do nada, sem motivos. O despertar de determinado comportamento na adolescência vem da própria transição, mas também carrega as inseguranças e pensamentos do jovem.

Demonstrar ao seu filho que o ama tal como ele é:

O adolescente rebelde sofre, e muito. Ele não acorda a planear como infernizar a vida dos pais por prazer, ele sofre internamente com exigências que não consegue cumprir, não consegue às vezes entender.

É natural os pais idealizarem um futuro para os filhos, segundo as suas crenças e experiências, contudo o percurso dos filhos será único, só deles. A forma como aprendem e crescem, é uma experiência deles e é aqui que geralmente se geram conflitos e mal entendidos. Os jovens acusam os pais de serem os responsáveis por não atingirem os seus sonhos e os pais acusam os filhos de não se terem tornado como eles deveriam ser. Claro que estão todos a dar o seu melhor, a dificuldade é que cada parte julga a outra sem se ouvirem realmente.

Na verdade os pais de adolescentes precisam aceitar duas perdas: A perda da sua criança, do seu bebé que cresceu, e a perda da ilusão de um adolescente ideal segundo a sua crença. Um jovem seguro, equilibrado, com objetivos claros de vida.
Aceitar o filho real, da forma que é, com seus defeitos e qualidades, é o primeiro passo para atenuar a rebeldia.

Fácil? Não, mas quando ele for adulto os frutos virão e serão tão mais doces quanto o amor, firmeza, segurança e aceitação oferecer ao seu filho enquanto cresce.

Autor: Sílvia Henriques, Assistente Social e Terapeuta Familiar – UDIJ

 

“Temos de olhar para os bebés como seres muito competentes”

Maio 6, 2018 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Åsmund Gimre on Unsplash

Texto do https://www.dn.pt/ de 15 de abril de 2018.

Joana Capucho

Clementina Almeida, psicóloga clínica com especialidade em bebés, diz que os pais precisam de muita informação para saberem lidar melhor com o desenvolvimento dos filhos

Se uma criança for forçada a deixar de usar fraldas sem estar preparada para o fazer, o processo pode arrastar-se durante meses ou até anos. “Muitas vezes os infantários decidem fazer o desfralde, mas as crianças não estão prontas. Se respeitarmos o seu desenvolvimento, as coisas vão acontecer naturalmente”, diz Clementina Almeida, psicóloga especialista em bebés, autora do livro Luca, o hipopótamo que não queria deixar as fraldas.

Depois da publicação de um livro sobre os medos e outro acerca das birras, a psicóloga lançou recentemente dois novos títulos: Pipo, o urso que não queria ficar sozinho e Luca, o hipopótamo que não queria deixar as fraldas. O objetivo é ajudar os mais pequenos – e os adultos – a gerirem duas situações que provocam grandes emoções: as perdas e o desfralde. “Os pais precisam de muita informação para saberem lidar melhor com o desenvolvimento dos filhos”, diz ao DN. Por isso, organiza os livros “ao contrário do que é habitual”: “Com base na ciência, ponho um animal a fazer o que é suposto as crianças fazerem, para que se identifiquem, entendam as suas emoções e se acalmem. E no final tenho algumas estratégias genéricas para os pais.” Assim como explicações para que percebam o porquê de determinados comportamentos.

No que diz respeito ao desfralde, Clementina Almeida diz que os pais devem estar atentos aos sinais, nomeadamente às competências físicas (ser capaz de ficar sentado algum tempo, ter controlo muscular da bexiga e intestino), cognitivas (saberem quando precisam de ir à casa de banho) e emocionais (estarem prontas para abandonar a fralda). E dá algumas dicas para que o processo ocorra de forma tranquila, como “não ter pressa, dar o exemplo, ler histórias, criar rotina e contar com os “acidentes””.

David Miranda utilizou algumas destas estratégias com a filha, Benedita, de 3 anos. “Hoje em dia existe muita imposição, nomeadamente nas escolas, mas nós temos uma abordagem muito liberal. E procurámos um infantário que também a tivesse”, afirma o autor do blogue Duas para um. Recorda-se que o desfralde terá acontecido “aos dois anos, dois anos e meio”, de forma natural. “Fomos conversando, lendo histórias. Foi a Benedita que disse que queria deixar a fralda, como a personagem da história. Primeiro durante o dia, depois à noite. Houve deslizes, raros, o que comprova que foi no momento certo”, refere.

Se o desfralde for mal conduzido, Clementina Almeida, fundadora do espaço ForBabies, diz que pode dar origem a retenção de urina ou fezes, atrasar o processo, levar a situações de vergonha ou “até provocar situações de obstipação”.

A importância do luto

Pipo é um urso que não queria ficar sozinho. Com a ajuda dos pais, aprendeu a lidar com a tristeza e o medo de estar separado daqueles de quem mais gosta, recorrendo a “um tesouro invisível cheio de joias – pedacinhos de quem se ama”. É com esta história que Clementina espera ajudar crianças que são obrigadas a lidar com a morte de alguém próximo, de um animal de estimação ou com a separação. Foi a mais difícil de escrever, assume, já que não é fácil falar de perdas.

“Temos de olhar para os bebés como seres altamente competentes. Não podemos pensar que não sentem ou não veem. Nestas situações, são muitas vezes deixados de parte”, indica a psicóloga, destacando que “o desaparecimento de alguém pode gerar angústia”. A criança pode, inclusive, pensar que, a qualquer momento, os pais podem desaparecer. “Temos de deixar que se despeça do que perdeu. Permitir que faça o luto, o que pode ser feito com um desenho para enviar para a “estrelinha” ou uma carta a dizer que gosta da pessoa.”

O nível de desenvolvimento da criança ditará a forma como vai entender a perda ou a separação. “Deve usar-se a imaginação para explicar a situação. Fazê-lo à medida das suas capacidades de entendimento. Se ela resolver ir brincar a meio da conversa, é normal.” É a forma de lidar com a dor. “Dê-lhe tempo.” E em caso de morte, “nunca exponha a criança a um funeral”.

Quando o casal se divorcia, Clementina Almeida diz que “o ideal é que ambos expliquem que o pai e a mãe gostam muito da criança, mas deixaram de gostar um do outro. Devem dar a segurança que, nos momentos mais importantes, vão estar os dois.” Segundo a psicóloga, entre os vários modelos de guarda partilhada há casos em que a criança passa uma semana com cada um, semanas divididas pelos dois e até situações em que é mantida a casa do casal, e pai e mãe saem alternadamente. Uma situação que não será viável para a maioria das famílias, mas “que preserva tudo”.

Da coleção de Clementina Almeida fazem parte os livros Duda, o leão que tinha medo e Tita, a zebra que não queria ter riscas. Tudo começou com Olívia, a ovelha que não queria dormir. David Miranda diz que foi um dos primeiros livros que leu à filha, e ajudou a criar “um momento zen” antes de ir para a cama. Olha para “os livros como um guião para ajudar a resolver os problemas das crianças”.

 

 

Como traduzir um bebé?

Maio 1, 2018 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Snews

Entrevista do https://www.educare.pt a Clementina Almeida.

Explica que o cérebro dos bebés nasce imaturo. Para o entenderem os pais devem perceber mais sobre o desenvolvimento infantil. Assim, vão poder lidar melhor com birras, medos e outras situações. Clementina Almeida, psicóloga especializada em bebés, em entrevista ao EDUCARE.PT.

Andreia Lobo

Chamam-lhe “tradutora de bebés”. Clementina Almeida é psicóloga clínica com especialidade em bebés. Fundou o BabyLab, da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra, onde é investigadora e dirige a ForBabies, no Porto, uma clínica especializada no atendimento de bebés dos zero aos 36 meses.

Empenhada em passar aos pais informação baseada em “evidência científica”, Clementina Almeida escreveu o livro “Socorro! O meu bebé não dorme”, editado pela Porto Editora. Estreou-se, depois, na literatura para a infância, com uma coleção de histórias “com psicologia” para crianças e pais. Quatro personagens ajudam os mais pequenos a identificar-se com a problemática com a situação que vivem e a entender o que  sentem: “Luca, o hipopótamo que não queria deixar as fraldas”, “Pipo, o urso que não queria ficar sozinho”, “Duda, o leão que tinha medo” e “Tita, a zebra que não queria ter riscas”.

Por detrás de cada livro permanece sempre a preocupação de explicar aos mais crescidos os motivos de alguns dos comportamentos das crianças. Por isso, a psicóloga e escritora admite, com graça, que “escreve ao contrário”. Primeiro, investiga sobre o que a ciência diz a propósito do tema que pretende explorar. Depois, cria uma história que a criança possa entender. No final do livro, volta à ciência e explica aos pais, de forma simples, tudo o que precisam de saber. O EDUCARE.PT conversou com Clementina Almeida sobre desenvolvimento infantil, sobre birras e medos e como entender melhor o que as crianças nos dizem.

EDUCARE.PT (E): Dos zero aos três é a idade em que o cérebro atinge 85% do seu desenvolvimento. Como se explica este desenvolvimento num período tão curto?


Clementina Almeida (CA):
 Ao contrário da maior parte dos órgãos, que quando o bebé nasce já têm a maturidade suficiente, o cérebro nasce completamente imaturo. Se o cérebro crescesse aquilo de que nós precisávamos para que se tornasse maturo era impossível as mulheres darem à luz. Isto tem a ver com a nossa evolução como espécie, o facto de deixarmos de andar em quatro patas e passarmos a andar em duas, as ancas tiveram de estreitar para podermos correr e fugir dos predadores. E, portanto, a natureza arranjou um compromisso que é os bebés nascem ao fim de nove meses, mas com o cérebro ainda imaturo.

O bebé nasce totalmente dependente das relações que vai ter com o seu meio ambiente, das relações próximas com a mãe e com o pai, ou seja, com os cuidadores, mas também das experiências sensoriais que vai ter no primeiro ano de vida. Imagine-se o cérebro como uma pirâmide, em que a parte de baixo são as vias sensoriais mais básicas, como o cheiro, o toque, o ouvir – daí ser tão importante lermos e falarmos para os bebés. Com base nessas partes sensoriais vão edificar-se as estruturas mais complexas em termos cognitivos e emocionais.

No fundo, os primeiros três anos vão determinar as nossas competências em termos de aprendizagens futuras e a nossa saúde. Se tivermos boas fundações, tudo corre bem. Se tivermos experiências adversas de infância, como viver numa família economicamente desfavorecida, ter de lidar com psicopatologia materna, viver em pobreza ou mau ambiente familiar… Tudo tem um impacto tremendo no desenvolvimento cerebral nestes três anos. Quando somos bebés fazemos 700 a mil sinapses por segundo, é um verdadeiro fogo de artifício, nunca mais na vida teremos este tipo de desenvolvimento.

E: Que implicações isto tem?


CA:
 Se pensarmos que todas as sociedades gastam imenso dinheiro em termos de saúde pública, é certo que gastaríamos muito menos se investíssemos na primeira infância. Alguns prémios Nobel da economia dizem que por cada dólar investido na primeira infância temos um retorno de sete a nove dólares. Mas ainda estamos culturalmente muito habituados a achar que os bebés comem, dormem e mais nada. Falar para o bebé para quê, se ele não responde? Graças à evolução das neurociências conseguimos, hoje, perceber o que se passa dentro do cérebro do bebé. E sabemos que se passa muita coisa. Por isso, os primeiros anos não podem ser deixados ao acaso, de forma nenhuma.

E: Tão-pouco se podem deixar ao “acaso” os cuidados nos berçários e nas creches?


CA:
 Sim, por exemplo. Mas em Portugal não temos berçários de qualidade. Desde logo, porque um dos critérios para ter qualidade é o ratio de adulto por bebé. No primeiro ano de idade sabemos que o ideal será o ratio de um para um, porque o bebé precisa de um cuidador que responda de imediato às suas necessidades. Se nos berçários temos oito bebés para dois cuidadores, é óbvio que se um começa a chorar e os outros sete se seguem alguém vai ficar com as suas necessidade inatendidas. E este choro inatendido – quando é repetitivo e não há nada que o acalme – é, muitas vezes, classificado como stress tóxico na primeira infância.

Tóxico porque efetivamente acaba por afetar o desenvolvimento cerebral que se está a dar naquele momento. Que é precisamente o oposto do que se deseja. O stress vai libertar alguns químicos, nomeadamente o cortisol que tem um efeito cáustico no desenvolvimento dos bebés. Por bebé entende-se a idade dos menos nove meses até aos três anos e, depois, os de três estão a deixar de ser bebés, mas ainda são pequeninos. Um bebé que tem sistematicamente estas necessidades inatendidas, fica com o cérebro literalmente menor e com áreas – chamadas de buracos negros – que não se desenvolvem como deveriam.

E: Com tudo o que disse, o que deveria mudar na forma como a sociedade olha para estas idades?


CA:
 Há muito saber deste que ainda está na ciência. Ou seja, que ainda não está acessível aos pais. Os jornalistas têm um papel fundamental de transmitir esta informação. Quanto mais os pais souberem sobre o desenvolvimento, mais vão fazer pelos seus filhos. Portanto, o primeiro passo é possibilitar aos pais o acesso à informação de que os primeiros anos de vida da criança são demasiado importantes para serem deixados aos acaso. Depois, em termos de políticas de prevenção temos tendência para atuar quando já existe a doença ou o sintoma já apareceu. Fazemos pouco em termos preventivos. Em termos políticos, a prevenção é algo cujos resultados só se vêm daqui a vinte ou trinta anos. Não costuma ser uma prioridade em Portugal trabalhar com vista à prevenção.

E: Dê-me exemplos de coisas simples que os pais podem fazer para aproveitarem ao máximo o potencial destes três anos?


CA:
 A coisa mais simples que podem fazer é falar para o bebé. Sabemos que existem bebés que ouvem cerca de 600 palavras por dia enquanto outros ouvem 1500. Aos três anos, por exemplo, dá uma diferença de 30 milhões de palavras. Não seria importante se não estivesse relacionado com o desenvolvimento da linguagem aos dois anos e, inclusive, depois com o sucesso académico até aos 10 anos. Falar não custa dinheiro.

Podemos falar com o bebé sobre tudo, ler, cantar, ou seja, usar muitas e muitas palavras, porque estamos a fazer estimulação sensorial auditiva que é muito importante. Também é importante expor o bebé a outras experiências sensoriais: tocar em tecidos, expo-lo a cheiros, do café, do chocolate, da canela… O trabalho na ForBabies começa pelo programa BabySense em que os bebés recebem uma hora de estimulação sensorial adaptada à idade e ao desenvolvimento. Os pais recebem orientações para fazer o programa em casa, o que inclui fazer tintas e plasticina caseiras que são coisas divertidas que os bebés adoram. E, acima de tudo, ajudamos estes pais a perceberem o quão importante este tipo de experiências é para o desenvolvimento cerebral do bebé.

E: Sente que os pais precisam de formação para a parentalidade?


CA:
 Precisam de conhecimento. Mas muita coisa é instintiva. Costumo dizer que os mais especialistas em bebés são os pais, porque os conhecem e percebem todas as suas nuances e diferenças. Todas as famílias são diferentes e eu valorizo muito a criatividade familiar. Por isso também sou avessa àqueles cursos de parentalidade. A maior parte deles ensinam uma determinada abordagem e a mim isso soa-me mal. Parece que pretendem que todos os pais façam daquela maneira para que todos filhos sejam daquela maneira. O que corta muito esta criatividade. Nos EUA e em Inglaterra existem movimentos a favor de ensinar os pais acerca do desenvolvimento. A ideia é não que precisamos de ensinar os pais a serem pais, porque já sabemos que eles vão fazer o melhor que podem. Se eu souber que o meu bebé está a fazer uma birra porque está numa fase de desenvolvimento, que a birra tem estas fases e a seguir posso atuar desta maneira, que ele me está a transmitir um pedido de ajuda e, não propriamente, um confronto comigo, se calhar, consigo perceber de que forma o posso ajudar.

Há determinadas estratégias em cursos de parentalidade que põem os pais a pensar: “Isso é muito giro, mas venha cá a casa quando ele está a espernear.” Noto muito isso na consulta de psicologia pediátrica de rotina que avalia as crianças pequenas para além dos percentis. Os pais procuram muito esta consulta como orientação e dizem-me que a partir do momento em que perceberam o que se estava a passar a situação melhorou logo.

E: A dificuldade é mesmo entender o que está por detrás do comportamento dos bebés.


CA: 
Sim, porque é preciso perceber de desenvolvimento e isso falha. Depois, se a estratégia é dar mais ou menos beijinhos, se é conversar lá fora ou lá dentro, isso depende da criatividade de cada pai e mãe e não devemos cortar isso.

E: A pensar no que é comum a muitas crianças – birras, medos, perdas e dificuldades no desfralde – escreveu uma coleção de livros infantis que servem também de apoio aos pais…
CA: Com mais ou menos exuberância, todas as crianças acabam por passar por uma ou outra destas fases. A ideia dos livros é a criança identificar-se com o animal que protagoniza a história – o leão que tem medo, a zebra que não quer ter riscas – e que representa um momento comum na infância dos zero aos três. No final do livro tento espalhar conhecimento. Explico, por exemplo, aos pais o que são os medos característicos de cada fase e as estratégias genéricas que podem utilizar. Os livros não são apenas “historinhas”, são ferramentas para os pais.

No caso das fraldas, muitas crianças têm dificuldades porque no infantário de repente toda a gente vai desfraldar e não se tem consideração o nível de desenvolvimento cognitivo e emocional de cada criança. O desfralde é uma fase do desenvolvimento, fazê-lo antecipadamente é como ter a criança sem caminhar e querer ensiná-la a correr. Largar as fraldas é um marco, é deixar de estar a brincar e fazer a coisa quando lhe apetece, é ter consciência do funcionamento da sua bexiga, do seu intestino. As crianças têm de ser capazes, em termos motores, de se sentarem durante algum tempo. Tudo isto são metas que vão conquistando e quando se conquistam o desfralde é natural.

E: As birras são também outro desafio para os pais…


CA: 
As birras são outro marco natural do desenvolvimento da criança. Mas acontecem, na maior parte das vezes, porque nós pais fazemos com que elas surjam. Os adultos controlam tudo na vida da criança: a que horas sai de casa, para onde vai, o que vai comer, o que vai vestir, a que horas se deita. Chega uma altura em que a criança começa a ter a sua autonomia e quer controlar qualquer coisa, quer decidir coisas no mundo dela. Uma forma de evitar as birras é dar à criança poder de decisão ao longo do dia. Não é deixá-la fazer tudo o que quer, mas dentro do que eu preciso que ela faça deixá-la decidir alguma coisa. Por exemplo, preciso que ela se vista. Posso dar a escolher: queres esta camisola ou esta? Não é abrir o armário e perguntar: qual é que queres? Isso seria demasiado para uma criança de dois anos. Mas se der à criança possibilidades de escolha, a parte psíquica que precisa de escolher e de sentir que controlou qualquer coisa ali à volta vai-se desenvolvendo saudavelmente. A criança fica mais segura e, ao mesmo tempo, o adulto está a fazer as coisas que quer. Se disser apenas “vamos vestir isto”, a possibilidade que a criança tem de escolher é dizer “não”, porque não lhe foi dada outra hipótese. Portanto, há formas de prevenir e de lidar com a birra quando ela aparece.

E: Muito frequentes são as birras no supermercado. Há alguma explicação?


CA: 
É preciso perceber que os supermercados, os shoppings, são locais de muita estimulação e, portanto, podem rapidamente provocar uma birra porque os bebés não têm ainda capacidade para regular todo aquele estímulo. Muitas vezes os pais pegam na criança que sai da creche onde está completamente contida –  porque também não tem grandes hipóteses de escolha e as coisas estão muito determinadas –  metem-na no carro e a caminho de casa passam pelo supermercado. É como pegar num barril de pólvora e andar a ver se aquilo explode. Se calhar era melhor depois da creche fazer a criança correr para aliviar aquela “panela de pressão” ou fazer ao contrário, ir primeiro ao supermercado e depois ir buscar a criança. Não devemos deixar de os expor às situações, mas é preciso perceber quando os estamos a expor. Há momentos que servem mesmo de gatilho.

E: No final de cada um dos seus livros escreve: “Respire fundo e lembre-se que o adulto é você”. Os pais esquecem-se disto?


CA: 
As crianças precisam imenso da ajuda dos pais para se regularem emocionalmente. Não têm sequer alguns dos neurotransmissores que os adultos têm e a nós, muitas vezes, salta-nos a tampa, a eles que não os têm mais facilmente isso acontece. Se a criança tem dificuldade em lidar com a birra e ainda levar por cima com agressividade ou berros dos adultos vai ter grande dificuldade em lidar com aquilo de forma saudável. A ciência mostra que 80% do que somos é relação e 20% é genética. Vem alguma coisa determinada, mas depois se aquele gene dispara, ou se me torno mais desta forma ou de outra, é pela relação que estabeleço todos os dias.

 

9 mentiras que os pais têm de parar já de contar às crianças

Abril 30, 2018 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do https://www.noticiasmagazine.pt/ 11 de abril de 2018.

 

«NÃO VAI DOER NADA»

Qualquer pai gostaria de livrar um filho de todo o sofrimento, mas certas dores fazem parte e as mentiras que lhes contamos só as torna piores. Se ele gritar ao ter de levar uma vacina, por exemplo, tranquilize-o dizendo que é uma picada pequenina e passa num instante, em vez de lhe prometer que não vai doer nada. Afinal, basta-lhe levar a primeira para saber que o enganou e perder a confiança em si.

«ÉS MESMO UM ARTISTA»

Claro que é legítimo dizer isto à criança, desde que seja verdade e não esteja a elogiá-la em vão apenas para ficar contente. A ser esse o caso, pode acontecer que acabe por magoá-la sem intenção se ela perceber (e acredite: miúdos são ótimos a ler a linguagem corporal dos adultos) que os pais não estão a ser sinceros. O resultado não é bom, seja um desenho ou um boneco de plasticina? Releve os aspetos em que se destaca, como a originalidade, a iniciativa ou a escolha de cores.

«NÃO SEI O QUE ACONTECEU À TUA PINTURA»

Esta é outra frase que pode dizer ao seu filho se não souber, de facto, onde foi parar a tão procurada folha, mas nunca se tiverem sido os pais a dar-lhe sumiço enquanto dormia a sesta. É um facto que não pode guardar todos os desenhos que ele faz. Porém, para evitar enganos, designe uma gaveta ou caixa para o efeito e explique-lhe que naquele lugar das pinturas especiais só cabem os trabalhos mais mágicos. Depois dê-lhe a responsabilidade de decidir quais quer guardar.

«O PAI NATAL ESTÁ A VER-TE»

Embora a fantasia do Pai Natal possa ser mantida até depois dos 5-6 anos em nome da imaginação, sem prejuízo para o desenvolvimento infantil, não é boa ideia (também em nome da imaginação) servir-se do velhinho de barbas para ameaçar o seu filho de que ficará sem presentes se não se portar bem. Castigos devem ser justos, proporcionais à falta e dados na hora, como consequência de algo a corrigir. Imputar as culpas ao Pai Natal não só não é justo, como um dia a criança irá cobrar a mentira aos pais

«OLHA QUE ME VOU EMBORA»

Às vezes é só o que apetece: a criança está à mesa há horas e não dá sinais de ir comer a sopa tão cedo? «Olha que me vou deitar e ficas às escuras.» Queremos sair de casa, já sem tempo para nada, e ela descalça os sapatos e faz-se de morta? «Levanta-te do chão ou deixo-te sozinha.» Claro que a política de instilar medo nunca foi boa conselheira, pelo que é preferível dizer-lhe que se não entrar já no elevador deixa de haver tempo para irem comer o tal gelado mais tarde.

«NUNCA VOU DEIXAR QUE TE MAGOES»

Oposta à política do medo, a política da superproteção também não resulta pelo facto de não estar ao nosso alcance protegê-los de tudo o tempo todo. Nunca lhes diga «nunca vou». De novo, o melhor é agarrar-se à verdade para os fazer sentirem-se seguros sem, no entanto, deixar de lhes explicar – sempre com palavras tranquilizadoras para não gerar uma ansiedade acrescida – que existem perigos reais aos quais têm de estar atentos, como falar com estranhos ou largarem a mão dos pais num centro comercial.

«O PARQUE INFANTIL ESTÁ FECHADO»

E quem diz o parque diz a piscina ou qualquer outro lugar onde prometeu que levava o seu filho antes de chegar à conclusão que afinal não dá mesmo jeito nenhum. Seja qual for o cenário, não lhe minta. Ensine-lhe que nem sempre as coisas correm como nós queremos, por muito que nos custe, e que certos compromissos como ir às compras ou visitar os avós têm prioridade, sob pena de ficarmos com a despensa vazia ou magoarmos alguém querido. Ele acabará por perceber.

«NÃO TEMOS DINHEIRO PARA ISSO»

Desferir sem rodeios esta frase se a criança lhe pede um bolo ou um brinquedo pode assustá-la, já para não mencionar o facto de estar a faltar à verdade. Explique-lhe antes que não podemos ter tudo o que nos apetece porque o dinheiro não estica. Que ir à Disneyland, mudar de casa, de carro ou passar umas férias divertidas em família exige alguns sacrifícios, mas vai valer a pena. Sobretudo, envolva-a na questão das poupanças familiares (sem forçar nada) para que se sinta integrada.

«DÁ-ME SÓ UM MINUTO»

Somos ótimos a despachar as crianças com esta frase, mas não a use se souber que vai levar mais do que um minuto a poder ir brincar com elas, passear ou dar-lhes a atenção de que precisam. Conta demorar ainda uns dez minutos a terminar o bolo para pô-lo no forno? Ou um bom quarto de hora a preencher o IRS e a limpar o quarto? Pois diga-lhes isso: que vai só despachar aquela tarefa urgente e depois fica livre. Ser franco e pedir-lhes ajuda também as ajuda a entender o mundo à sua volta.

 

Há demasiados alunos órfãos de pais vivos

Abril 27, 2018 às 2:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Alexandre Henriques publicado no https://www.publico.pt/ de 26 de março de 2018.

Não é admissível que os pais não compareçam quando a escola os chama duas, três, cinco vezes… não é admissível que mintam nas justificações de faltas que entregam.

Professor: Estou?

Encarregado de Educação: Sim…

Professor: Boa tarde, fala o professor Alexandre Henriques, é possível falarmos um bocadinho sobre o seu filho? É que ele tem tido uns problemas disciplinares e tem faltado a algumas aulas…

Encarregado de Educação: Mas o professor não sabe que eu estou no meu local de trabalho? Acha pertinente incomodar-me no meu local de trabalho?

Professor: Eu estou a ligar para o número que a senhora deixou na escola e deve calcular que é impossível eu saber quando a senhora está disponível ou não…

Como devem imaginar, a conversa “azedou” um bocadinho e aquilo que tinha demorado três ou quatro minutos demorou mais de cinco sem nunca falarmos sobre o motivo do telefonema. A partir desse momento, todas as comunicações passaram a ser via postal, perdendo-se algo fundamental para o sucesso do aluno: a ligação entre o director de turma e o encarregado de educação.

O que me aconteceu é apenas um exemplo das mais incríveis situações que possam imaginar, desde os pais dizerem que não sabem o que fazer aos filhos, que só esperam que eles façam 18 anos, a não atenderem o telefone, tudo acontece na comunicação com alguns pais.

Não é por isso de estranhar que os professores apontem o dedo aos encarregados de educação, num inquérito realizado e que foi divulgado no PÚBLICO – cerca de 80% dos 2348 inquiridos refere como principal causa para a redução da indisciplina escolar uma maior responsabilização dos encarregados de educação.

Não vamos ignorar o que acontece frequentemente, as relações entre professores e pais são muitas vezes difíceis e demasiadas vezes inexistentes. Nas escolas, sempre que se fala em indisciplina, aponta-se o dedo aos pais e os pais, sempre que surge um problema, apontam o dedo à escola. Esta costuma ser a norma, esquecendo, as partes equacionadas até agora, que o principal visado também tem uma palavra a dizer, aliás, a última e principal palavra. Todos nós conhecemos casos de crianças/jovens de sucesso que tiveram infâncias difíceis, chamo-lhes os heróis silenciosos, pois é isso que eles são, pequenos grandes heróis, que apesar de toda a adversidade, conseguiram atingir o impensável. Não é fácil ter sucesso quando não se quer voltar para casa, não é fácil ter sucesso quando a escola é um local inóspito, de incompreensão e onde o ensino está formatado para as massas e não para o indivíduo.

É verdade que cada vez mais existem órfãos de pais vivos, os professores conhecem bem os casos de negligência e abandono parental, conhecem bem a desculpabilização excessiva em que o filho nunca é responsável e é sempre a vítima. Não é admissível que os pais não compareçam quando a escola os chama duas, três, cinco vezes… não é admissível que mintam nas justificações de faltas que entregam aos directores de turma, não é admissível que apontem o dedo sem se olharem ao espelho.

A escola, os professores, também precisa de melhorar algumas abordagens. O professor não pode ser apenas o mensageiro da desgraça, o professor também deve contactar os pais para elogiar a evolução, a mudança de atitude. Já sei que os professores vão dizer que não têm tempo e infelizmente é a mais pura das verdades, mas, para certos casos, mais vale “perder” cinco minutos e recuperar a confiança da família na escola, recuperando, ao mesmo tempo, a própria relação familiar. Sim, o professor também tem esse poder…

Lembro-me de uma colega que partilhou comigo a experiência dos seus alunos terem feito uma apresentação numa reunião com os pais. Em situações normais, tal seria restrito à turma, era a sua avaliação… mas, por que não com os pais? Que melhor forma de verem o trabalho que os seus filhos fazem e ligarem-se à escola através de algo positivo.

Existem excelentes pais e os professores reconhecem isso, provavelmente os pais que lerem estas linhas fazem parte desse grupo e não devem, por isso, sentir como suas as acusações que aqui são feitas. Faço um mea culpa e digo que a escola devia apoiar mais os seus filhos, pois a verdade é que a escola não gasta um terço da sua energia em tornar um aluno mediano num bom aluno ou um bom aluno num aluno excelente. O foco está sempre no pior e não é justo, não é justo para os bons alunos, não é justo para os bons pais.

Para os casos problemáticos é preciso uma maior responsabilização dos encarregados de educação, o desafio está no aluno, mas o desafio maior está na família, está na própria sociedade. Os pais precisam de assumir na plenitude o título que carregam – são encarregados de educação, é essa a sua prioridade, é essa a sua função!

Quanto aos professores, compreendo a frustração e revolta de se sentirem com o “menino nas mãos”, de se sentirem impotentes por verem, do outro lado, o que nunca devia acontecer. Cabe-lhes manter a perseverança e acreditar que é possível mudar erros passados, estabelecer pontes que potenciem o sucesso dos seus alunos e continuarem a ser aquilo que hoje são, muito mais do que professores…

Professor, pai e autor do Blogue ComRegras

 

O telemóvel é hoje uma extensão do nosso corpo, particularmente do nosso cérebro. É absolutamente privado. Perde-se a relação de confiança quando os pais começam a espreitar o telemóvel dos filhos – Daniel Sampaio

Abril 21, 2018 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Diana Tinoco

Entrevista da Visão a Daniel Sampaio no dia 5 de abril de 2018.

Texto CLARA SOARES, Fotografia Diana Tinoco

O telemóvel é hoje uma extensão do nosso corpo, particularmente do nosso cérebro. É absolutamente privado. Perde-se a relação de confiança quando os pais começam a espreitar o telemóvel dos filhos

Daniel Sampaio recebe-nos com um sorriso aberto, em sua casa, na capital. Na sala ao lado, dois dos seus sete netos estão na companhia da avó. Maria José Ferreira foi sua colega de curso, na Faculdade de Medicina de Lisboa, e com ela viria a casar-se no ano em que concluiu a licenciatura. Aos 72 anos, e a menos de dois de celebrar as bodas de ouro, o professor jubilado mantém contacto regular com a comunidade educativa da escola secundária que tem o seu nome, na Sobreda da Caparica, em Almada, e permanece fiel ao nível de atividade que lhe conhecem colegas, alunos, pacientes e leitores. Do Telemóvel para o Mundo (Caminho, 216 págs., €15,50) é o seu novo livro, que será apresentado no próximo dia 11 de abril, ao final da tarde, na Fundação Medeiros Ferreira. O autor lança o desafio a adolescentes e pais da sociedade em rede: a internet pode separar gerações mas também aproximá-las mais do que nunca. Lembra-se do seu primeiro smartphone com teclas, no início da década, quando surgiram no mercado – “os adolescentes não gostam, que são ostelemóveis dos bisavós!” e acredita que vivemos um momento decisivo e especial, para o qual devemos estar preparados. Quanto mais cedo o fizermos, melhor.

Desde que se jubilou, como passou a ocupar o seu tempo livre?

A seguir à minha jubilação, em setembro de 2016, e da última lição em outubro desse ano, houve um vazio. Foram 40 anos de vida profissional muito ativa, e nos primeiros meses senti falta da faculdade e do hospital. O trabalho de consultório aumentou e tem sido gratificante. Pertenci a dois grupos de trabalho no Ministério da Saúde, tenho lido bastante e levei um ano a escrever este livro, que envolveu pesquisa, entrevistas a jovens e referência a casos clínicos.

Continua a manter o consultório e a trabalhar fora de casa?

Sou contra os consultórios em casa! A casa é um sítio privado e deve-se separar muito bem a vida profissional da privada. Continuo a dar consultas na sede da Sociedade Portuguesa de Terapia Familiar (SPTF), duas vezes por semana.

A terapia familiar funciona em Portugal?

É gratificante ter mais de mil sócios e três delegações. A SPTF está muito ativa, porque soubemos organizarnos e dar espaço para que as novas famílias aparecessem: casais separados, divórcios litigiosos, guardas parentais, famílias monoparentais, outras com crianças adotadas… O mérito da SPTF, criada em 1979, foi ter-se modernizado, estando a formar pessoas das comissões de proteção de crianças e jovens.

Como era o adolescente Daniel, em relação aos pais, aos avós…?

Eu lia muito e era um pouco sombrio e muito sério. Tive alguma militância associativa na comissão próassociação dos liceus, que era uma estrutura ilegal. Acompanhei a crise académica e depois entrei na faculdade, nos anos 1960. Eu fui mais comprometido do que os adolescentes de hoje, que me parecem mais alegres.

Pergunta ao homem que lançou o Núcleo dos Estudos do Suicídio (NES): os miúdos estão bem?

A maioria está. Quando se criou o NES (em 1987), não existiam ainda os comportamentos autolesivos ou de automutilação. Nas nossas escolas falta a capacidade para dar resposta a essas situações, porque a saúde escolar está muito pobre. Embora não sendo a maioria, há jovens com problemas significativos de saúde mental e poucos pedopsiquiatras e psicólogos nos serviços públicos.

Quais as conclusões do grupo de trabalho sobre a integração dos psicólogos no Serviço Nacional de Saúde (SNS), coordenado por si?

Os grupos de trabalho fazem as suas recomendações, vamos ver se são cumpridas ou não. Foi proposto um programa nacional para o tratamento da ansiedade e da depressão, e recomendada maior contratação de psicólogos para os centros de saúde, evitando encher os serviços de psiquiatria com casos de doença mental grave, particularmente a esquizofrenia e a doença bipolar. E foi ainda recomendada a criação de estágios de psicologia no SNS, com uma parte do ordenado a ser suportada pelo Instituto de Emprego e Formação Profissional.

Porque admite ter “errado o alvo” quando escreveu o livro Inventem-se Novos Pais?

Nos anos 80, à luz da psiquiatria e da psicologia, não podia haver uma adolescência normal sem crise, depressão e conflito. No século XXI, verificou-se que isso era uma ideia errada. Os adolescentes normais não têm grande mal-estar. Há adolescentes problemáticos que exigem uma abordagem especializada, mas a maioria ultrapassa esta fase, com alguma turbulência, porém sem dificuldades de maior. No novo livro corrigi algumas coisas que disse antes, como a de que ser adolescente implicava sempre sofrimento.

O mal-estar de que fala será mais dos pais dos adolescentes do que dos próprios?

É uma época muito difícil para os pais. Nunca como agora os pais estiveram tão próximos dos filhos do ponto de vista do afeto, mas têm falta de autoridade: é o caso do pai-camarada, que gosta muito do filho e está sempre com ele.

Como exercer a autoridade com os nativos digitais?

Quando a internet se generalizou nos telemóveis, introduziu uma dimensão conflitual nas famílias. Isso nota-se nas consultas, nas escolas e na relação entre pais e filhos. Para que a internet seja um ponto de encontro, e não de conflito, devemos habituar as crianças desde cedo a lidar com as tecnologias. Na adolescência já é tarde, porque, como sabem mais do que os pais e avós, os filhos têm formas mais diversas e sofisticadas de escapar ao controlo deles.

No livro apresenta casos que mostram como tudo pode correr mal…

São casos reais, mas modificados, para manter a confidencialidade. Admira-me haver pedidos de consulta centrados no conflito em torno do uso da internet. Nessas famílias perdeu-se a oportunidade de encontrar um caminho de proximidade. Se a internet for um ponto de conflito, vai cavar-se um fosso intergeracional enorme, porque os mais novos não vão prescindir de usar o telemóvel.

Ou da “Galáxia internet”, como refere por diversas vezes.

É um termo do sociólogo espanhol Manuel Castells. Com este livro, quero mostrar que a internet é uma oportunidade para novas comunicações na família, que são agora em rede: dos irmãos, dos amigos, dos filhos, dos pais – apontam o dedo aos filhos, mas eles mesmos passam muitas horas no Facebook. De tão centradas no conflito à volta do uso do telemóvel, muitas famílias não se aperceberam do que já mudou na área da comunicação.

Há uma idade certa para se dar o telemóvel ou o tablet aos filhos?

Cedo, cinco ou seis anos, para interiorizarem a regra. Um adolescente deve saber que há horas em que não é suposto utilizar ecrãs. Ter a noção de que não deve estar com o telemóvel às refeições nem levá-lo para a cama, na hora de ir dormir.

Se os pais consultarem os emails de trabalho ou o Facebook à refeição, ou quando vão deitar-se, perdem a legitimidade para se fazerem respeitar nesse campo.

Exatamente. Há períodos decisivos na vida da família para comunicar em presença, sem ecrãs: acordar e ir para a escola ou para o trabalho; chegar a casa e organizar os trabalhos de casa, banhos, jantar; e hora de deitar. Esta disciplina passa por pais e filhos.

Fala em parentalidade construtiva. Pode explicar melhor o conceito?

Não se pode ter autoridade sem envolvimento afetivo com um filho adolescente. Este envolvimento é construído na infância, e sem ele surge o conflito, potenciado pela internet, quando deveria ser o contrário. Pais ou mães distantes não conseguem fazer como noutros tempos, impor- -se através da educação pelo medo, até porque a criança tem hoje a possibilidade de fazer ouvir a sua voz e não acata o autoritarismo. Os pais só não devem transigir quando estão em jogo questões de saúde ou de segurança.

Fazem sentido os livros com estratégias para os pais, na área das tecnologias ou outras?

Tudo o que seja ajudar os pais a refletir, idealmente com outros pais, é positivo, pois eles têm muitas dúvidas, mas não há serviços nem locais onde possam ser auxiliados. Os livros não devem ser muito diretivos e no meu eu criei as secções “perguntas e respostas” e “para pensar”. Há coisas que já se sabem: organizar a hora do deitar, o uso da internet, abrir a casa aos amigos dos adolescentes.

Como a questão do namorado ou da namorada, se podem ou não dormir lá em casa…

De uma forma geral, as mães estão mais próximas dos filhos. A mãe continua a ser, na sociedade portuguesa, uma figura muito importante a nível emocional. Se falarmos com os nossos jovens sem entrar na intimidade deles, percebemos que há relações ocasionais. Quando for um namoro responsável e com envolvimento, “à séria” como eles dizem, os pais devem apoiá-los.

Aí entram as questões da sexualidade e da inexistência da educação sexual nas escolas.

Sempre lutei por isso, conseguiu-se alguma coisa, mas continuo a defender a sua importância, porque cada vez mais encontro jovens com muitas dúvidas e muita ignorância sobre o tema. A internet pode ter um perigo importante, que é a pornografia no telemóvel, vista sobretudo pelos rapazes. Se aos 12 e 13 anos passarem o tempo a ver pornografia, com a exploração do corpo da mulher e as proezas atléticas sexuais, que pouco ou nada têm que ver com o que se passa na vida real, podem começar a ter dificuldades na relação sexual com os parceiros, porque idealizam uma determinada situação. A educação sexual deveria ter isto em conta, bem como o que se passa nas escolas, a difusão de imagens íntimas a seguir a uma zanga entre namorados (porn revenge). A educação para os média no campo da sexualidade também é fundamental. A internet é uma fonte de informação que é preciso contextualizar em pequenos grupos de rapazes e de raparigas, para falarem do que estão a sentir nas suas interações. Há muito a fazer.

Espreitar o telemóvel dos filhos é próprio de “sem-abrigo digitais”?

Sou completamente contra os filtros parentais. E também que os adultos vejam o telemóvel dos pais. O telemóvel é hoje uma extensão do nosso corpo, particularmente do nosso cérebro. É uma coisa absolutamente privada. Perde-se a relação de confiança quando os pais começam a espreitar o telemóvel dos filhos. Ficam prisioneiros disso e com uma angústia acerca do que devem e não devem fazer. Ter um telemóvel por volta dos dez anos implica que a criança saiba, aos oito, como vai usá-lo devidamente quando o receber, à entrada do 5.º ano de escolaridade. Ou seja, precisa de saber que, quando entra na internet, não pode divulgar o nome completo e outros dados pessoais.

Como se desenvolve essa capacidade para aconselhar os filhos numa área em que nem sempre os adultos se orientam?

Basta, por exemplo, que os pais verbalizem os medos que têm sobre o uso que os filhos podem dar ao equipamento. Ou de como possam proceder face a condutas menos próprias (ciberbullying e afins).

Manifestou-se a favor do uso medicinal da canábis, embora condene o uso recreativo. Que argumentos o levam a ter essa posição?

Há já muitas evidências acerca dos derivados da canábis, que são úteis, do ponto de vista médico, em situações ligadas à quimioterapia, à dor e a certos casos de epilepsia na criança. Deve ter um uso farmacêutico controlado e não haver um autocultivo. Em relação ao uso recreativo, sou contra. São drogas muito perigosas porque impedem o progresso da adolescência normal, que envolve tarefas como modificar a relação com os pais, com os companheiros, a vida amorosa e sexual e a concentração nos estudos. É muito curioso: os jovens são muito hábeis. Em vez de usarem a palavra “erva” ou “haxixe”, dizem aos pais “eu fumo pólen”. Trata-se da mesma coisa, razão pela qual dedico uma parte do livro às drogas.

Contudo, e isso é do conhecimento de muitos adolescentes, muitos pais consumiram derivados de canábis na juventude.

O grande problema hoje é o fácil acesso e a ideia romântica de que não faz mal. Não subscrevo a teoria de que estas drogas conduzem ao consumo de outras, essa situação não se coloca nos adolescentes. Porém, sabemos hoje que o cérebro está em formação até por volta dos 23 anos e que o uso de drogas pode eventualmente comprometer as sinapses. Falta mais investigação sobre isso. Enquanto psiquiatra, tenho conhecimento de casos de esquizofrenia precipitados pelo uso recreativo em quem tem predisposição para a doença.

Sugere aos pais que relativizem certos comportamentos agressivos dos filhos, fruto da imaturidade do cérebro. É mesmo assim?

Digo isso com algumas reservas! Se der um murro num colega, temos de responsabilizá-lo! Falei disso porque se sabe que o cérebro ainda não está suficientemente formado para exercer plenamente a capacidade de abstração e de autocrítica.

Como se exerce a autoridade sem dramas nas famílias recompostas?

No regime clássico – ou seja, os filhos ficam com a mãe e veem o pai de 15 em 15 dias –, a consequência é o afastamento do pai. Tenho evoluído bastante acerca da guarda partilhada, que deve tentar-se sempre que possível, por ser a forma mais parecida com a da família nuclear. Se houver um mínimo de entendimento entre adultos, as crianças e os jovens adaptam-se. Defendo que, em cada casa, devem estar definidos papéis e regras. Se a mãe vive com o padrasto, ambos devem definir como atuar, e isso não quer dizer que em casa do pai tenha de ser igual.

Na prática, vale o princípio “em cada casa as regras são as de quem lá vive”?

A autoridade do padrasto e a da madrasta são muito difíceis de gerir, porque rapidamente os adolescentes dizem “não és o meu pai” ou “não és a minha mãe”; eles utilizam esse argumento como arma. Zangam-se com a mãe e dizem “vou viver para casa do pai”. Ou estão em casa do pai e telefonam à mãe a dizer “vem-me buscar”. Sou contra isso: permitir que a criança ou o adolescente utilize as regras da outra casa na casa onde está não resulta.

Voltamos à questão de quem tem condições para ser apresentado em casa, mas desta vez dirigida aos adultos…

A apresentação de um novo companheiro, ou de uma nova companheira, aos filhos deve ser muito prudente, e o relacionamento ser minimamente sério e ter pernas para andar, tanto quanto se consegue saber. E sem que os jovens sejam surpreendidos por alguém a dormir lá em casa.

Que gostaria de dizer aos seus leitores enquanto cidadão digital?

Estou apaixonado pelo momento atual. A internet é um ponto de encontro maravilhoso, de partilha e de comunicação. Com as devidas regras, podemos aproximar as gerações em vez de separá-las.

csoares@visao.pt

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