Laura Sanches: “Os bebés sofrem de stress como nós”

Agosto 14, 2019 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia e imagem do DN Life de 17 de junho de 2019.

Todos os pais amam os filhos, mas e o resto? Como se educa uma criança segura? De onde vêm as birras? Qual a importância do colo? A psicóloga clínica Laura Sanches explica isto e muito mais em Amar Não Basta (embora ajude bastante). Um livro para pais que desejam saber o que sentem os seus bebés.

Entrevista de Ana Pago | Fotografia de Reinaldo Rodrigues/Global Imagens

Diz que os bebés sofrem de stress como nós. A que se deve esta reação inesperada neles – e forte ao ponto de muitas vezes se tornar um stress tóxico?
O stress surge da ativação do nosso sistema de alarme e os bebés já nascem com o seu a funcionar perfeitamente – aliás, no último trimestre da gravidez já o têm desenvolvido e a operar em sintonia com as emoções da mãe. A partir daí, se são expostos a situações que os fazem sentir-se inseguros e os levam a ativar esse sistema de alarme antes de os pais conseguirem reconhecer e responder aos sinais que eles dão, os bebés ficam sob stress.

Mas não pode ser um stress positivo, se o bebé não se sentir ameaçado e inseguro o tempo todo?
Sim, há pequenos momentos que podem ser úteis para reforçar a confiança nos pais e até aperfeiçoar a resposta aos estímulos. Está provado que aquilo que vivemos nos primeiros anos, e como vivemos, pode ter um impacto permanente na vida adulta por definir a forma como o nosso organismo fica programado para lidar com todos os desafios que irá encontrar. O stress tóxico só surge se o sistema de alarme dos bebés for demasiado solicitado, o que no caso deles é desencadeado – tal como em todos nós, de resto – pelo sentimento de que a ligação com as pessoas importantes da sua vida está a ser ameaçada. As crianças nascem com o instinto de se ligarem a pelo menos uma figura de referência.

A mãe?
Por norma é a mãe. Foi ela quem esteve grávida durante nove meses, com o bebé a vivenciar e a ser afetado por todas as suas emoções dentro do útero. É ela quem passa mais tempo com o bebé após o parto. Então ele nasce com o instinto ativo de procurar o conforto da mãe – e quanto mais pequenino maior é a necessidade de contacto físico – para se sentir seguro com o seu cheiro, o batimento cardíaco, o calor do corpo dela quando lhe pega. Esta programação existe naturalmente. Claro que se por algum motivo a mãe desaparecer, o pai pode tomar esse lugar e preencher o vazio na perfeição.

“No extremo da privação de uma figura de referência temos a morte.”

Pai ou mãe, que efeitos tem a privação dessa figura de referência?
Efeitos devastadores como os documentados na Roménia, em que as políticas de fomento à natalidade impostas pelo líder comunista Nicolae Ceauşescu, a par de uma enorme pobreza no país, resultaram em dezenas de milhar de crianças abandonadas e institucionalizadas durante o período ditatorial. Em 1990, após a queda do regime, o que se viu foi que mesmo nas raras instituições onde não faltava comida, higiene e cuidados de saúde, a taxa de mortalidade era muito superior à expectável porque se negava às crianças a possibilidade de criarem um vínculo forte e seguro com um adulto (os cuidadores estavam sempre a rodar para evitar laços que dificultassem a adoção). Isso significa que, no extremo da privação, temos a morte.

E nos casos menos extremos?
Verificou-se que as crianças tinham atrasos cognitivos, emocionais e que todo o seu desenvolvimento era afetado a ponto de até a estatura ser inferior à que seria normal para a idade. O organismo estava submetido a uma carga tão tóxica de stress que era como se já nem lhes sobrasse energia para crescerem. E não era apenas o corpo que não crescia: o cérebro apresentava várias regiões com um tamanho inferior ao que seria esperado. Essa figura de referência é fundamental para o bem-estar e desenvolvimento infantil, é o que nos ensina a amar. Por oposição, a primeira grande causa de stress para bebés e crianças é a impossibilidade de estabelecerem esse vínculo, ou dificuldades persistentes que surjam sempre que tentam fazê-lo.

Ainda assim, muitos pais receiam que abraçar e pegar nos seus bebés nos primeiros meses os encha de manhas. O colo nunca é demais?
Nunca. A maternidade não é lá muito racional, sobretudo nos primeiros meses, e se a mãe não tiver consciência de que a necessidade de sentir o bebé junto de si é tão grande como a do bebé em estar junto dela, o mais certo é ignorar os instintos e deixar de lhe pegar sempre que tem vontade ou o filho chora. Sim, é um facto: bebés que nunca têm colo ou são deixados a chorar para dormirem no quarto sozinhos deixam de pedir a mãe. O que não vemos acontecer dentro deles, na sua forma de se relacionarem com o mundo, é que mesmo não chorando continuam em tensão, inseguros, apenas silenciaram as emoções. E este sentimento é tão forte que pode comprometer o próprio instinto do apego, além da capacidade de virem a confiar em si mesmos e nos outros.

Também a amamentação é uma facilitadora desse vínculo. Todas as mães deviam amamentar os seus bebés, incluindo as que não desejam fazê-lo?
Tem de se ver sempre caso a caso, não é algo que se possa forçar. Se por um lado o bebé merece que pelo menos tentem, dados os inúmeros benefícios ao nível do crescimento e saúde, por outro o facto de a mulher estar em sofrimento a dar mama, com uma postura rígida, não será bom para nenhum dos dois. Ter um filho a alimentar-se de nós é um ato de grande vulnerabilidade para a mãe, que desperta nelas emoções intensas. É natural sentir medos antigos ou feridas mal curadas virem ao de cima. No caso de não querer fazê-lo, o importante é reconhecer que essa ferida existe e trabalhar para tentar resolvê-la.

“Nas culturas que vivem de forma tradicional é comum amamentar-se até aos 5, 6 anos e está tudo certo.”

E dar de mamar até quando? Alguns médicos defendem que após os 12 meses induz comportamentos regressivos…
Até a mãe e a criança quererem e estarem ambas confortáveis com isso. Ainda hoje, nas culturas que vivem de forma tradicional, é comum amamentar-se até aos 5, 6 anos e está tudo certo, não tem que acabar à força por imposições externas ou teorias mal fundamentadas. A própria Organização Mundial de Saúde recomenda que se amamente no mínimo durante dois anos mas só nos países subdesenvolvidos, e eu pergunto que sentido é que isso faz? Não é por não termos escassez de alimentos e haver água potável para as fórmulas que o leite materno deve ser desprezado. Pode não ser essencial do ponto de vista alimentar, mas faz bem à mesma. Além de que do ponto de vista psicológico estaremos a negar a uma criança algo de que ela ainda precisa.

Mesmo assumindo que possa ser uma ligeira regressão ela vir procurar a mãe e sentir-se um bocadinho bebé?
Mesmo assim. Seria uma regressão ao serviço do crescimento, que se faz por janelas temporais e nunca em linha reta. Às vezes é necessário andar um pouco para trás na altura certa para não termos de o fazer mais tarde, regra geral de maneira muito menos adaptativa. Se a criança procura a mãe para mamar porque isso lhe traz algum conforto, e se essa segurança lhe vai permitir continuar a crescer depois com maior confiança, então não é mau que aconteça. Ver indecência nisso deve-se unicamente aos preconceitos que nos condicionam, não a evidências científicas. Já para não falar que todas as crianças – e repito: todas – largam a mama de forma natural quando se sentem preparadas

Outra questão fraturante para a maioria dos pais é a de levarem os filhos para a cama deles, por julgarem que estão a criar miúdos mimados e adultos dependentes. Porquê tantos fantasmas nas nossas camas?
De novo por culpa de preconceitos, inseguranças pessoais e teorias psicanalíticas antiquadas que defendiam uma excessiva sexualização da infância. Não tem nada de mal. Nenhuma razão para haver culpa ou vergonha, como vejo tantas vezes. Até aos 12 anos, pelo menos, é natural que uma criança ainda precise dessa presença e não é negando-a à força que os pais vão conseguir que se torne autónoma, pelo contrário. A mim parece-me mais prejudicial recusar o contacto agora, com medo de que no futuro não estejam lá para lho darem, do que simplesmente conceder-lhe o que ela procura no presente, sem receios, até um dia deixar de ser necessário.

E a noite é uma altura de muitos medos…
Exacerba muito as nossas angústias, sim. As crianças também sentem isso. Se quando mais precisam de nós lhes dizemos sistematicamente que não podem estar connosco, elas nunca vão sentir que os pais as compreendem, acolhem as suas inseguranças e as aceitam como são, o que gera ainda mais inseguranças. Do que ouço dos meus pacientes chega a haver noites em que ninguém dorme lá em casa, com os filhos a irem para a cama dos pais e os pais a recambiarem-nos para a cama deles, quando a questão se resolvia facilmente se os deixassem ficar. Até porque na grande maioria dos casos esses pais também gostam de dormir com os filhos, não são só os miúdos. Acabavam por descansar melhor todos juntos, sem qualquer prejuízo para o desenvolvimento infantil.

“Os pais fazem muitas birras, na verdade. Por vezes são mais crianças do que os miúdos que têm em casa.”

Seja como for, o que se pode fazer com bebés que acordam muito?
Não podemos ensiná-los a dormir, apenas criar condições que facilitem o sono. Isso passa por estabelecer rotinas tranquilas ao final do dia, respeitar os primeiros sinais de sono da criança (mesmo que os pais cheguem tarde a casa e lhes apeteça brincar), evitar sons demasiado altos, luzes fortes e o brilho de ecrãs, que afetam a produção de melatonina. O problema não está em os bebés acordarem várias vezes à noite, mas no modo exigente como organizamos a vida e esperamos que eles se adaptem. Em última análise, crianças agitadas tendem a dormir pior porque ainda não controlam as emoções fortes que sentem e ficam ansiosas. Cabe aos pais dar-lhes tempo para aprenderem essas estratégias de regulação e perceberem do que realmente precisam para descansar. O choro e as birras que eventualmente façam são só uma resposta ao stress que não sabem verbalizar.

Os pais também têm direito a fazer birras?
Os pais fazem muitas birras, na verdade. Por vezes são mais crianças do que os miúdos que têm em casa – já tive vários a dizerem-me isso em momentos de reflexão nas consultas –, embora saiba que nem sempre é pacífico lidar com os sentimentos fortíssimos que os nossos filhos despertam em nós. Ser adulto não significa ser maduro. Muitas vezes o nosso próprio desenvolvimento não foi o melhor: o cérebro não apurou tudo o que devia para nos ajudar a controlar os impulsos, ou talvez tenhamos crescido com a imagem errada de que éramos um pouco defeituosos, o que agora nos leva a reagir de formas desadequadas. Então é bom ter esta noção de que ainda temos muito a aprender para educarmos os nossos filhos.

A AUTORA

Laura Sanches licenciou-se em psicologia clínica em 2002, pela Universidade Lusófona, e em 2004 concluiu o mestrado em Consciousness and Transpersonal Psychology da Universidade John Moores, em Liverpool. Paralelamente à psicologia clínica, entre 2001 e 2014 deu aulas de yoga, que integra nas consultas juntamente com o mindfulness, técnicas de relaxamento e gestão de stress. Desde 2012 que se centra nas áreas da parentalidade positiva e aconselhamento parental (com foco nas implicações da teoria do apego no desenvolvimento infantil). Trabalha no Espaço Vida, em Lisboa, onde dá consultas, workshops e cursos. É autora do blogue Parentalidade com Apego e coautora do PsiYoga. Escreveu ainda os livros Mindfulness Yoga – Atenção Plena para Lidar com os Desafios (ed. Mahatma), Mindfulness para Pais (ed. Manuscrito) e o muito recente Amar Não Basta (ed. Matéria-Prima).

É um “pai curling”? Se for, faz parte da “pandemia da parentalidade tóxica”

Agosto 12, 2019 às 12:30 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Observador de 24 de julho de 2019.

Edgar Caetano

Conhece o “curling”, o desporto em que alguém lança uma pedra e a equipa usa vassouras para, freneticamente, limpar o caminho? Um especialista em educação diz que há pais que educam os filhos assim.

Conhece o desporto olímpico “curling“, aquele onde alguém lança uma pedra e a restante equipa usa vassouras, freneticamente, para limpar o caminho que a pedra vai seguir, até ao alvo, para que nada interfira com a direção do granito? Um especialista em educação, o australiano John Marsden, diz que há pais que educam os filhos assim — e isso está a originar uma “pandemia” de “parentalidade tóxica”, com pais que protegem os filhos em demasia, mesmo quando eles fazem coisas erradas.

John Marsden, que além da experiência como diretor e fundador de várias escolas escreveu bestsellers sobre educação, diz em entrevista ao The Guardian que está cada vez mais preocupado com o que considera ser um “problema generalizado”. Fala-se de pais que, como no curling, tentam de forma obsessiva eliminar todos os obstáculos do caminho dos filhos, privando-os de experiências de aprendizagem e desenvolvimento que seriam naturais (e recomendáveis), desde logo quando cometem erros e precisam de aprender com eles.

Pais excessivamente protetores, pais que não concebem a ideia de os filhos fazerem alguma coisa de mal, que atuam como advogados de defesa mesmo quando é claro que os filhos não agiram bem em alguma situação. Estes são pais que estão a originar uma “pandemia” que tem, na sua base, ideias “erradas” sobre a forma como os filhos devem ser incentivados a trilhar os seus próprios caminhos, aprendendo com os sucessos e com os insucessos.

“Estou a falar, sobretudo, da classe média”, diz John Marsden. “Não estou a defender que estes pais tenham intenção de, deliberadamente, agir de forma destrutiva em relação aos filhos. Mas o seu senso comum e os seus instintos parecem estar a ser perturbados por outras considerações”, diz o especialista, clarificando que está a falar sobre “danos emocionais” que advêm de uma “ansiedade [por parte dos pais, na educação dos filhos] que, muitas vezes, se assemelha a pânico”.

Uma das consequências disso — e John Marsden sabe do que fala porque está na direção de duas escolas — é que está a tornar-se cada vez mais difícil gerir uma escola, não só pela dificuldade em lidar com crianças com saúde emocional questionável mas, também, com pais que assumem sempre uma posição de defesa inabalável dos filhos. Uma coisa está ligada à outra, diz o autor da série de livros bestseller “Tomorrow, When The World Began”.

John Marsden tem um novo livro, The Art of Growing Up, onde defende que muita gente está a “falhar”, enquanto pai e mãe, porque num mundo onde — reconhece — há cada vez mais perigos, o enfoque excessivo nesses perigos está a contribuir para que, paradoxalmente, as crianças e os jovens se tornem menos equipados para reagir a esses perigos.

A geração de filhos que se sentem trocados pelo telemóvel

Agosto 12, 2019 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Texto e imagem do site Up to Kids

Telemóvel: Quando os pais o colocam à frente dos filhos

Só um segundo, filho! A mãe está só a acabar esta story e já falo contigo!”

Esta frase, que podia ser tirada de um cartoon, serve perfeitamente como alegoria a uma questão extremamente contemporânea que tem vindo a contaminar as relações entre pais e filhos. Cerca de 42% das crianças com idades entre 8 e 13 anos sentem-se trocadas pelo telemóvel dos pais. Esta é uma constatação do estudo Digital Diaries, realizado em junho por uma das maiores empresas globais de tecnologia de segurança.

Ficou surpreendido com os dados? Então leia o resto, porque não melhora.

O que diz o estudo?

Para este estudo a AVG entrevistou 6.117 pessoas de países como Austrália, Brasil, República Checa, França, Alemanha, Nova Zelândia, Reino Unido e Estados Unidos. Ou seja, o estudo reflete a realidade de pais e filhos de diferentes nacionalidades e culturas. Isto reforça o argumento de que o problema não é apenas reflexo do comportamento de um grupo específico de pessoas..

O estudo concluiu ainda que 54% das crianças reclamaram da frequência com que os seus pais olham para o telemóvel, especialmente enquanto conversam com elas.  Outra conclusão relevante: o sentimento de desprezo (32%) pela falta de concentração no diálogo, segundo informações do R7.

“Os meus pais estão sempre no telemóvel. Odeio o telefone e queria que nunca tivesse sido inventado”. Esta foi a declaração de uma criança após responder à simples pergunta da professora americana, Jen Adams: “Que invenção gostavas que nunca tivesse sido criada?”.

“Se eu tivesse que dizer qual a invenção que não gosto, diria que não gosto do telemóvel. Porque os meus pais estão sempre agarrados a ele. O telemóvel às vezes é um hábito muito mau. Eu odeio o telemóvel da minha mãe e gostava que não existisse. Essa é a invenção que eu não gosto”, respondeu um aluno do 2º ano de um colégio no estado de Louisiana, segundo a Crescer.

As idades e o desenvolvimento da criança

Donald W. Winnicott e Henri Paul H. Wallon, dois dos principais teóricos da aprendizagem, apontaram a relação mãe-bebé como um fator-chave para o sucesso do bom desenvolvimento cognitivo e emocional das crianças nos seus primeiros meses e anos de vida. O período que vai dos 0 aos 5 anos, para teóricos como Sigmund Freud, M. Klein, Lev Vygotsky, Jean Piaget, constitui uma fase crucial para esse desenvolvimento.

Não se trata apenas do desenvolvimento motor e cognitivo mas também do desenvolvimento emocional. Quanto mais segura afetivamente a criança se sente, melhor se torna a sua capacidade de superar adversidades e de encarar a vida. Para se desenvolver a criança absorve as referências que a rodeiam. Os pais são a sua maior referência. É com base no comportamento dos pais que a criança constrói a sua ideia de mundo, especialmente de relacionamentos.

A autoimagem da criança, isto é, a forma como se vê, também é reflexo da forma como os seus pais a tratam e se tratam mutuamente.

A falta de segurança e de referências na vida das crianças na geração atual tem produzido uma geração emocionalmente vulnerável, carente, insegura e ansiosa.

Crianças de 7, 10, 11 anos (período compatível com a evolução da internet) estão, cada vez mais, a apresentar problemas de ordem afetiva associados à falta de atenção dos pais. Isto afeta também a (falta de) disciplina.

Esta é a geração que nos últimos anos tem apresentado maiores índices de psicopatologias, suicídio, automutilação, depressão e “rebeldias”. Não é só a falta de referência dos pais, mas a substituição dela por outra qualquer, literalmente, já que diante da ausência da família, a criança procura encontrar-se no que o mundo lhe oferece de forma fácil e rápida.

E qual seria a solução?

É preciso que os pais e mães dediquem parte das suas vidas ao momento mais crucial da vida dos filhos. Falamos do período em que a personalidade se forma e as primeiras habilidades sociais se desenvolvem. Esta fase vai dos 0 aos 5 anos, sendo esse um período crítico, mas que se consolida até os 10/12 anos.

A partir da adolescência, já no início da puberdade (11/12 em diante), a lógica começa a inverter-se. Os filhos querem tornar-se mais independentes dos pais. É nessa fase que começam a “trocar” os pais pelos amigos. Isso é natural e necessário. É uma preparação para o mundo e algo contrário a isso não é um bom sinal.

Será nessa fase da adolescência que os seus filhos colocarão à prova toda a herança recebida durante a infância. Os que tiverem tido referências de segurança dificilmente deixarão para trás os conselhos dos pais. Aliás, antes pelo contrário, vão utilizá-los ao longo da vida. O bom vínculo parental construído até os primeiros 10/12 anos de relação servirá de âncora para toda a juventude.

Resumindo, vale a pena investir na atenção ao seu filho sem a presença da tecnologia. Até porque podemos estar no Facebook enquanto a criança dorme ou está distraída a ver bonecos animados. Porque ninguém é de ferro, certo?

Redação CONTI outra. Com informações do texto de Will R. Filho, em Opinião Crítica, adaptado por Up To Kids®

mais informações na notícia:

Kids Competing with Mobile Phones for Parents’ Attention

Sabemos onde andam os nossos filhos?

Agosto 10, 2019 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto de opinião de Rute Agulhas publicado no DN Life de 28 de julho de 2019.

Esta semana os adultos passaram a conhecer a chamada “Team Strada”. Sim, os adultos, porque as crianças e jovens portugueses há muito que conhecem este adulto que terá 36 anos, angariador de miúdos que desejam ser youtubers (nome chique) e influencers. Que é como quem diz, alguém famoso que ganha dinheiro a fazer vídeos parvos e tem uma legião de seguidores.

Que os miúdos de hoje já não aspiram a serem astronautas, pilotos de automóveis ou futebolistas, isso já sabíamos. Vários estudos recentes têm comprovado isso mesmo. À célebre pergunta “o que queres ser quando fores grande?”, cerca de metade das crianças a partir da idade escolar responde youtuber. E é vê-los chatearem os pais para tirarem cursos de youtuber (sim, existem), gastarem rios de dinheiro em câmaras de filmar, luzes e todo um conjunto de parafernálias necessárias para conseguirem um vídeo perfeito.

Após diversas queixas, a Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Protecção de Crianças e Jovens (CNPDPCJ) expôs a situação ao Ministério Público, pedindo uma investigação para aquilo que considera poder configurar uma situação de perigo para as crianças e jovens envolvidos. Ao vermos os vídeos em questão, deparamo-nos com um tipo de proximidade física aparentemente muito intrusiva, com toques e comportamentos que parecem exceder aquilo que será adequado. É bem-vinda esta investigação.

No entanto, esta polémica deve fazer-nos reflectir a outro nível.

Em primeiro lugar, onde estão os pais ou cuidadores destas crianças e jovens que se deixam enredar nestes meandros, sedentos de fama? Ao ponto de poderem fazer qualquer coisa, aceitar qualquer coisa, calar qualquer coisa? Ou querem os pais, mais ainda do que os filhos, esta mesma fama fácil a troco do que tiver de ser?

Em segundo lugar, sabemos a influência gigante que os youtubers têm nas crianças e jovens. E sabemos nós, pai e cuidadores, a que vídeos assistem os nossos filhos? Que influencers influenciam a sua vida? Que comportamentos tentam eles imitar? Que fotos postam eles, na ânsia de receberem mais likes? Que conversas têm nos milhentos grupos de WhatsApp a que pertencem? Quais os conteúdos dos seus jogos preferidos?

Pois é. Às vezes pensamos que sabemos, mas não sabemos. Os maiores perigos há muito que deixaram de ser as más companhias e as drogas na rua. O maior perigo pode estar mesmo aí ao seu lado, aqui ao meu lado, em nossa casa. Debaixo dos nossos olhos. E este perigo é maior ainda porque é silencioso e não incomoda muito. Os miúdos até estão sossegados e entretidos entre quatro paredes, e acreditamos (ou queremos acreditar) que isso é o bastante para os proteger. Mas não é.

Numa era digital, as competências parentais têm de ser transpostas para o mundo online. O que equivale a dizer que é necessário comunicar abertamente com os filhos e conhecer as actividades digitais em que eles se envolvem, protegendo-os dos perigos que a Internet pode representar.

Dá trabalho? Dá.

Eles refilam porque detestam sentir-se controlados? Refilam.

Mas a supervisão é o único caminho seguro.

 

[Entretanto, o YouTube terá encerrado o canal do Team Strada, depois da abertura de um inquérito por parte do Ministério Público, na sequência das queixas que chegaram à CNPDPCJ.]

Superproteger as crianças é desprotegê-las | Eva Millet

Agosto 7, 2019 às 12:00 pm | Publicado em Site ou blogue recomendado, Vídeos | Deixe um comentário
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Post do blogue RBE de 21 de julho de 2019.

Eva Millet · Jornalista e escritora

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Eva Millet

Jornalista e escritora especializada em educação e crianças, Eva Millet alerta para os efeitos sobre crianças e jovens da “hiperpaternidade“, modelo que surgiu nos Estados Unidos com a primeira geração “milenarista” e que já chegou a Espanha. Esse novo fenómeno vai “da superproteção ao controlo excessivo, tanto em casa como na sala de aula”, recusa os professores e invade o espaço das crianças na escola.

Millet investigou essa mudança na educação por meio de entrevistas com psicólogos, pedagogos, educadores, pais e professores, a quem dá voz em seus livros “Hiperpaternidad” e “Hiperniños”. A autora destaca que esse sistema de “criação monstruosamente intensiva” está a criar uma geração de jovens ansiosos, impacientes e dependentes, com medos e baixa tolerância à frustração, o que também se reflete na sua aprendizagem e desempenho académico.

Millet propõe que “as mães tigres, os pais bulldozer ou helicóptero” deem lugar a um modelo que lhes permita relaxar, confiar no senso comum e nas crianças, e não apostar apenas no acumular de experiências e conhecimentos, e optem por uma ” educação de caráter “que reforce a sua empatia, resistência, valores e tolerância à frustração.

Referência“Sobreproteger a los niños es desprotegerlos”. (2019). BBVA Aprendemos juntos. Retrieved 21 July 2019, from https://aprendemosjuntos.elpais.com/especial/ensenar-a-los-ninos-a-tolerar-la-frustracion-eva-millet/

Marcelo promulga diploma que reforça regras de proteção à parentalidade

Julho 26, 2019 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Diário de Notícias de 23 de julho de 2019.

Novas regras que dão aos pais uma licença de parentalidade de 20 dias úteis, seguidos ou intercalados, foram aceites pelo Presidente da República.

O Presidente da República promulgou esta terça-feira o diploma que reforça a proteção na parentalidade e estabelece novas regras para as licenças neste âmbito.

Em maio a Assembleia da República aprovou por unanimidade as novas regras vertidas num texto final que juntou contributos de vários partidos e do parlamento regional madeirense.

No texto final, consagra-se a obrigatoriedade de os pais gozarem de uma licença de 20 dias úteis, seguidos ou intercalados, nas seis semanas seguintes ao nascimento, cinco dos quais imediatamente a seguir.

O pai tem direito a mais cinco dias úteis desde que os goze em simultâneo com a licença inicial da mãe.

Para proteger os direitos das mulheres que trabalham e engravidam, os patrões ficam obrigados a comunicar à entidade que promove a igualdade de oportunidades no trabalho sempre que não renovem os contratos de trabalhadoras que estejam grávidas, depois de darem à luz, enquanto amamentem ou estejam a gozar licença parental.

Fica ainda estabelecido que ninguém pode ser discriminado por exercer os seus direitos de parentalidade, seja na progressão na carreira seja na atribuição de prémios de assiduidade e produtividade.

No caso de crianças nascidas prematuramente (até 33 semanas) ou que precisem de cuidados neonatais em internamento, ambos os progenitores têm direito a prolongar a licença durante todo o internamento e até 30 dias após a alta, pagos a 100 por cento.

As licenças para cuidar de filhos com cancro, doença crónica ou deficiência são estabelecidas em seis meses, prorrogáveis até quatro anos, pagas a 65%.

Para os trabalhadores das regiões autónomas, ficaram salvaguardadas as deslocações para ilhas fora da residência para partos ou acompanhamento médico, que não contam para a contagem dos períodos da licença de parentalidade.

No documento estabelece-se que as referências a “pai” e “mãe” se aplicam aos titulares dos direitos de parentalidade, mesmo tratando-se de casais do mesmo sexo.

A família como ninho mas também como rampa de lançamento

Julho 12, 2019 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Daniel Sousa publicado no Público de 10 de fevereiro de 2019. Imagem do Público.

Os filhos não são dos pais. Crescem para poder voar. Pode ser-se pai ou mãe toda a vida, mas há funções parentais com tempos determinados.

Muito se tem discutido sobre o declínio do papel da família. Será ainda a estrutura social que sustenta o desenvolvimento pessoal e social de indivíduos e sociedades? Também se tem assistido a uma transformação da família tradicional, que passou a coexistir com enquadramentos familiares outros, por exemplo, as famílias monoparentais, de casais homossexuais ou as famílias reconstruídas. Contudo, a família como estrutura social parece manter ainda alguns traços essenciais, tornando-a fundamental para que, desde tenra idade, possamos crescer, desenvolver, construir uma identidade.

A família, não obstante as suas variantes, é um espaço fundamental para o crescimento dos indivíduos. É o ninho. Dá protecção, acolhimento e, sobretudo, um ambiente afectivo propício e essencial ao desenvolvimento humano. É difícil crescer saudavelmente sem amor. O ninho constitui a base, o chão seguro, a confiança, a segurança. Mas é também entre muros que aprendemos a aceitar os limites, que vamos estabelecendo os valores e a moral, onde construímos a nossa ética. É também através dos mais próximos — pais, cuidadores — que vamos estabelecendo duas das funções mais importantes: aprender a ver o mundo e desenvolver um olhar sobre nós mesmos.

É através do olhar do outro mais próximo que começo a desvelar o modo de estar no mundo, e não menos importante, a ver-me, a desenvolver um sentimento de mim mesmo. O mesmo é dizer, construir-me como pessoa. Nas primeiras fases, no essencial existe uma relação mais hierárquica entre pais e filhos, com os primeiros a exercem um papel de maior referência, estabelecendo regras e valores, sem estes deixarem de ser aconchegados pelo afecto. Na adolescência, as articulações mudam, com dinâmicas muito desafiantes, tanto para jovens como para educadores. A entrada na vida adulta tece outros obstáculos. Em todas as fases, sabe-se que é necessário realizar ajustamentos. De parte a parte. Expresso em cliché: é um processo. Ajustes comportamentais, emocionais, das funções e papéis de cada membro da família.

Repleto de questões e incógnitas, o caminho do desenvolvimento pessoal poderá ser percorrido mais tranquilamente pelos pais, se for aceite que a perfeição parental é uma idealização. Os jovens, por sua vez, adiam a entrada definitiva no mundo do adulto. Apesar dos rituais de preparação, é por vezes uma porta difícil de trespassar, sobretudo, aceitando todas as suas consequências. Medos, receios, angústias, expectativas claras e outras mais implícitas adiam a passagem para uma outra fase da vida. Este momento tem naturalmente de ser preparado. Serão fundamentais as aprendizagens realizadas em estádios anteriores, para o jovem adulto se sentir confiante a avançar por novos caminhos.

Este momento de vida crucial é muitas vezes posto em causa pelos próprios pais. Na entrada da “adultice” dos seus filhos, os pais não são capazes de aceitar, compreender ou lidar com este novo momento. Os pais não realizam os ajustamentos necessários à fase de vida dos seus filhos e acabam por os acorrentar emocionalmente. Querem manter um registo de ninho quando este já se transformou ou deveria verdadeiramente ser uma rampa de lançamento.

Os filhos não são dos pais. Crescem para poder voar. Pode ser-se pai ou mãe toda a vida, mas há funções parentais com tempos determinados. Portugal está repleto de jovens adultos, ou homens e mulheres nas faixas etárias dos 30 ou 40, com vida estabelecida a nível familiar, profissional, social, que vivem numa prisão emocional. Estes filhos adultos não se sentem verdadeiramente livres. Não sentem legitimidade na sua liberdade psicológica. Sentem-se em falta. Por não serem tão presentes, por não estarem e agirem, como lhes fazem sentir que deveriam ser, estar e fazer. Uma dependência emocional dos pais, não dos filhos. Por razões várias, que passam por questões culturais ou aspectos de personalidade, pais ou elementos de uma família original promovem e mantêm uma dinâmica relacional que fomenta a culpa e a tristeza dos filhos adultos.

Limites não respeitados, exigências que alimentam o sentimento de estar em falta, ingerência nos assuntos de uma nova família constituída por um filho ou filha, expressões de sofrimento dos pais como se este fosse causado pelos filhos ou mesmo um silêncio ensurdecedor são exemplos que se constituem como correntes de ferro e que impedem uma verdadeira autonomia. O cordão umbilical psicológico não foi ainda cortado. Por parte dos pais. Mesmo em períodos muito adiantados do desenvolvimento pessoal dos seus filhos. E pode mesmo não existir a vontade de alguma vez o cortar. Se assim for, será então mais um desafio, ainda que por vezes sentido como enorme, para os filhos adultos ultrapassarem. Mais um obstáculo a transpor. Não depende no essencial de distâncias físicas, mas de capacidades emocionais que legitimem essa liberdade individual. E não depende de juízos de valor sobre os pais. Estes estão a lidar com a vida, com os momentos desta, consigo próprios, como conseguem.

Mais importante do que juízos é a capacidade de compreensão, um trabalho interior que diminui culpabilidades, um crescimento que assume as consequências de ser adulto e de estabelecer o seu espaço pessoal. Talvez caiba assim a estes adultos exercer a capacidade de mudança psicológica, que lhes permita viver em plenitude a sua autonomia, individualidade, identidade.

Docente e director da Clínica de Psicologia do ISPA

Filhos sobrecarregados, pais stressados – e brincar é tão importante

Julho 5, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia e imagem do Notícias Magazine de 18 de junho de 2019.

Alicia Banderas, psicóloga e escritora espanhola, lembra que as brincadeiras com os filhos são um importante veículo na educação dos valores que realmente importam. Mas os pais continuam mais focados no sucesso e na competição. Para que os filhos sejam super filhos. Sejam brilhantes.

Os filhos têm de ser os melhores, os mais talentosos. Brilhantes. Todos os dias, em qualquer competição. E os dias ficam demasiado pequenos quando se encaixam atividades atrás de atividades extracurriculares. Quase não há tempo para respirar. Os pais andam stressados, os filhos com horários sobrecarregados. Os pais querem o melhor para os filhos. Os filhos ficam ansiosos para corresponder às expectativas. É uma roda-viva, uma lufa-lufa.

Alicia Banderas, numa conversa reproduzida pelo jornal espanhol El País, avisa que é preciso respeitar o ritmo de aprendizagem dos mais pequenos. “Temos crianças de dois anos em Chinês, Inglês, natação, estimulação musical”, refere. Um constante e frenético para a frente e para trás. E brincar? Brincar é essencial. Porque se aprende a brincar. E ao brincar. “O que a criança precisa? Jogo livre. Ou seja, sabemos que o conhecimento é gerado de dentro para fora.”

Olhar nos olhos dos filhos e perguntar o que querem jogar, como querem brincar. É o primeiro passo. Brincar estimula a criatividade, desenvolve o aparelho psicomotor. Aproxima pais e filhos. É também uma forma de respeitar a infância. É não deixar um brinquedo no fundo da gaveta ano após ano. Brincar é também educar. É escutar, é envolver. É interiorizar princípios. Incutir valores. Brincar torna-se, sustenta a psicóloga, uma “maneira maravilhosa de partilhar sem forçar, sem palestras.”

Há que saber equilibrar as brincadeiras com a parafernália tecnológica. Mas há situações a evitar. A Academia Americana de Pediatria desencoraja o uso de ecrãs nos dois primeiros anos de vida, uma vez que, dessa forma, as crianças são submetidas a um estímulo frenético que pode favorecer a desatenção e a dificuldade de concentração.

Há ainda outra questão. Se há o costume de “saciar o prazer através de um ecrã”, cada vez mais é necessário “um maior número de estímulos que, às vezes, podem ser prejudiciais.” E as crianças ficam expostas “a estímulos de uma forma muito prolongada e depois perderão o interesse pelas atividades da natureza, que ocorrem a um ritmo muito mais lento”.

Brincar é preciso. Brincar sem abafar o espírito criativo e inato que os mais pequenos têm dentro de si. “Brincar é o ambiente mais seguro para testar e construir o que se deseja fazer.” Uma criança criativa será capaz de pensar em soluções alternativas para os problemas. Dentro das suas próprias brincadeiras.

“Quando brincamos com os nossos filhos, somos a melhor versão de nós mesmos,” diz a psicóloga que trabalha com crianças e adolescentes em projetos de educação há mais de duas décadas. O tempo passa, há mudanças sociais e os pais continuam a dizer que querem, em primeiro lugar, que os filhos sejam felizes. Mas nota-se a vontade que os filhos sejam brilhantes, que tenham maiores habilidades, muito sucesso. Que sejam super filhos.

O cérebro não é uma esponja
E mesmo uma esponja atinge o seu limite de capacidade. O mesmo acontecerá no cérebro dos mais novos. Alicia Banderas refere que um cérebro não é propriamente uma esponja. “O que são ou o que chamo de crianças super-estimuladas? São aquelas crianças submetidas à estimulação excessiva, mesmo antes dos seus cérebros estarem preparados. E, no final, o que geramos nelas é um bloqueio e stresse nas suas aprendizagens.” Convém, então, não pensar que um cérebro consegue absorver tudo e fazer os devidos enquadramentos.

Mais uma vez, a questão das atividades extracurriculares. Dos cérebros que sugam tudo. Muitas vezes, são os pais que decidem o que os filhos devem aprender. E a desmotivação acontece. Perceber o que gostam, o que os motiva, os seus gostos, é fundamental. “Como aprendemos melhor? Através de emoções positivas: alegria, satisfação, autorrealização”. “Devemos cuidar do cérebro das crianças porque podemos magoá-lo”, avisa a psicóloga e escritora espanhola.

Decreto-lei que permite pais acompanharem filhos no primeiro dia de escola já foi publicado

Julho 3, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 1 de julho de 2019.

A medida visa “promover um maior equilíbrio entre a vida profissional, pessoal e familiar” e vai dar aos funcionários públicos responsáveis pela educação de menor de 12 anos o direito a faltar justificadamente com vista ao seu acompanhamento no primeiro dia do ano lectivo, até três horas por cada menor.

Lusa

Os funcionários públicos vão poder faltar até durante três horas para acompanhar os filhos com idades até aos 12 anos no primeiro dia de escola, segundo o decreto-lei publicado nesta segunda-feira em Diário da República. Este decreto-lei, promulgado a 19 de Junho, entra em vigor a 1 de Agosto.

A medida, integrada no “Programa 3 em linha – Programa para a conciliação da vida profissional, pessoal e familiar” visa “promover um maior equilíbrio entre a vida profissional, pessoal e familiar”.

O programa tem por objectivo “melhorar o índice de bem-estar, no indicador ‘balanço vida-trabalho’”, sendo que conciliar melhor a vida profissional, pessoal e familiar favorece a diminuição do absentismo, o aumento da produtividade e a retenção de talento, contribuindo, também, para a sustentabilidade demográfica”, é referido no decreto-lei.

Por isso, o trabalhador da administração pública responsável pela educação de menor de 12 anos tem direito a faltar justificadamente com vista ao seu acompanhamento no primeiro dia do ano lectivo, até três horas por cada menor.

“A falta prevista no número anterior não determina a perda de qualquer direito do trabalhador e é considerada, para todos os efeitos, prestação efectiva de trabalho”, é referido.

No entanto, devem ser criadas condições para “o exercício efectivo do direito e de modo a salvaguardar o interesse público, evitando prejuízo grave para o funcionamento do órgão ou serviço”.

Portanto, a entidade patronal deve tomar as medidas de gestão com a antecedência necessária para promover a utilização deste mecanismo de conciliação.

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, promulgou a 19 de Junho, o “diploma do Governo que permite aos trabalhadores da Administração Pública faltarem justificadamente para acompanhamento de menor, até 12 anos, no primeiro dia do ano lectivo”.

Na altura, Marcelo Rebelo de Sousa louvou a medida do Governo, mas defendeu um regime idêntico para trabalhadores do sector privado e social, por forma a “evitar uma divisão no sector do trabalho em Portugal”.

O decreto-lei mencionado na notícia é o seguinte:

Decreto-Lei n.º 85/2019

“Poderíamos prevenir doenças se durante a infância tivéssemos tempo com os nossos pais”

Junho 19, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Expresso de 27 de março de 2019.

Marta Gonçalves

Conte o tempo que passa todos os dias com o seu filho. Conte os minutos em que está com ele e não está a despachá-lo para ir para a escola, a dar-lhe o jantar ou a prepará-lo para a cama. Conte quando está mesmo com ele. Quanto tempo tempo brinca diariamente com o seu filho?

Estar não é estar presente. Estar presente é muito mais do que estar apenas ali. Estar com um filho é ter tempo para brincar. E é também a importância destas horas que estão na base da Greenspan Floortime, uma abordagem desenvolvida no final dos anos 70 do século passado pelo psicólogo infantil norte-americano Stanley Greenspan.

Este modelo tem sido aplicado em crianças com perturbação do espectro do autismo. Falámos com Jake Greenspan que é, além de filho do fundador da abordagem, um dos responsáveis pelo centro de desenvolvimento Greenspan Floortime, em Washington, nos EUA. Esta quinta-feira, está em Coimbra para um workshop.

Qual é a génese desta abordagem?
O meu pai foi um dos primeiros médicos a defender que logo no nascimento as crianças têm emoções. E que são também estas primeiras experiências emocionais que influenciam a forma como estamos no mundo: aquilo que nos assusta e o que nos entusiasma, o que gostamos e o que detestamos. Até essa altura – estávamos no final da década de 70 – acreditava-se que só por volta dos três ou quatro anos é que as nossas emoções e traumas se desenvolviam. Na realidade, lembramo-nos de todas as experiências anteriores, que ficam gravadas ao nível neurológico. É mais ou menos assim que começa a desenvolver a sua teoria: a Greenspan Floortime. Acreditava que passamos por seis fases desenvolvimento e que as emoções são a força propulsora da vida. Por exemplo, não desenvolvemos a linguagem e o pensamento apenas por uma razão cronológica, mas sim porque as nossas experiências emocionais nos levam a explorar e a aprender, tal como também nos podem reprimir. Defendia que ao controlarmos o ambiente a que a criança é exposta e ensinando os pais a interagirem com os filhos de uma forma mais carinhosa e positiva se pode “religar” o cérebro. Quando há uma predisposição para um atraso na fala ou um défice social, isso pode significar que aquela parte do cérebro não está a funcionar tão bem como as restantes e, aumentando a quantidade de experiências emocionais significativas, pode “religar-se” essa parte do cérebro. E é a isso que chamamos a Floortime: em que os pais, filhos e terapeutas passam mais tempo no chão a conhecerem-se e em que os adultos ouvem mais vezes as crianças.

Porque são tão importantes as emoções?
Sabemos que o cérebro organiza as informações principalmente de duas formas. Por exemplo, quando olhamos para uma cor e vemos que é azul, essa é a primeira forma. Depois, sendo consciente ou não, fazemos logo a distinção se gostamos ou dessa cor. Essa é uma distinção emocional e a segunda forma. Todos guardamos um ficheiro emocional associado a cada experiência. É por isso que aquilo que gostamos procuramos fazer mais vezes, enquanto tentamos evitar o que não gostamos – sobretudo as crianças. Se passarmos um bom bocado a conversar, jogar ou a olhar para alguém vamos querer voltar a fazê-lo. No entanto, se for uma má experiência, não queremos repetir. As emoções são uma das partes mais importantes da forma como o cérebro funciona.

E de que forma a Greenspan Floortime é útil para uma criança com perturbação do espectro do autismo?
Isso depende de cada criança. Diria que a abordagem é tão boa quanto o tempo que lhe dedicarmos e nos EUA temos muitas famílias que, em casa, não dedicam o suficiente, acabando por desistir. Por outro lado, as famílias que seguem o programa tal como se fosse um plano de medicação têm resultados. Algumas crianças – e não estou de todo a dizer que isto é uma cura para o autismo – foram tiradas da categoria da perturbação do espectro do autismo. Ou seja, inicialmente, foram avaliadas por um médico que diagnosticou a perturbação do espectro do autismo e agora, depois da nossa abordagem, foram reavaliadas e já não se enquadram nos critérios. Claro que não tenho a certeza de que o diagnóstico foi desde logo bem feito, mas o que é certo é que já não apresentam os sintomas que apresentavam. Outras crianças têm tido progressos mais pequenos, depende sempre da capacidade de cumprimento do plano e do perfil biológico de cada criança.

Na prática, o que é que é feito?
Existe um laço biológico entre pais e filhos, essa relação deve ser parte do programa. Alguns estudos defendem que o cérebro da criança fica mais ativo com a voz dos pais do que com a voz de um estranho. As partes do cérebro que estão mais ativas são os centros emocionais, comunicacionais e sociais. E, por definição, o autismo é um atraso ou uma dificuldade em comunicar e relacionar-se com os outros, ou seja, no desenvolvimento das capacidades socioemocionais. Portanto, quem melhor que os pais para estimular essas partes do cérebro? Ao mesmo tempo, os pais não podem fazer tudo sozinhos e também precisam de orientação. O ideal é ter o acompanhamento de pelo menos um profissional que entenda a abordagem.

Que tipo de exercícios fazem?
Não há exercícios específicos. A ideia do Floortime é que devemos seguir as crianças para ativarmos o seu cérebro, a criança tem de ser um participante ativo e a única forma de garantir que participa é fazendo as coisas que ela quer fazer: se gosta de camiões, usamos camiões; se gosta de correr, corremos com ela; se gosta de andar as voltas, ajudamos a dar voltas. É baseado nos interesses de cada um, não nas idades.

Qual o tempo necessário até se verem resultados?
O único estudo alguma vez feito sobre a quantidade de tempo a que a criança deve estar exposta a esta abordagem concluiu que para conseguir uma mudança neurológica significativa, o mínimo de tempo são 20 horas por semana, ou seja, uma média de três ou quatro horas diárias.

Quais as melhorias ou mudanças registadas?
Cada uma das crianças com que lidamos torna-se mais ligada, feliz e em sintonia com as pessoas que se preocupam com ela. Torna-se mais amável e ama mais. Basicamente, constroem-se relações. Depois, melhora a sua comunicação e não estamos, necessariamente, a falar da linguagem. A forma como todas as crianças comunicam antes de desenvolverem a linguagem é com o corpo: sorriem, choram, apontam, acenam, puxam, empurram… E, na maioria das crianças com autismo, ninguém retrocede para trabalhar com elas primeiro a linguagem corporal e só depois a linguagem.

Acredita que esta abordagem deve ser combinada com outras terapias?
Não, mas apenas porque o que queremos realmente é que esta abordagem seja usada pelo terapeuta da fala, pelo terapeuta ocupacional, pelo professor de educação especial… todos devem usar a abordagem. Não é combinada com nada, é usada dentro de cada uma dessas sessões.

Pelo menos em Portugal, a Greenspan Floortime não é uma abordagem amplamente conhecida. Como espera que isto seja recebido?
O melhor que guardo da experiência no estrangeiro é a dinâmica familiar que não há nos EUA. É muito mais próxima e as famílias gostam de estar mais tempo juntas. Isso é fundamental para desenvolver esta abordagem com sucesso. Infelizmente, nos EUA é o contrário e estamos a ir contra a norma cultural ao dizermos aos pais para passarem tempo com os filhos. Aqui, os pais já passam tempo com os filhos, estamos apenas a ensinar estratégias para conseguir extrair resultados disso. Sei que em Portugal ainda não é uma abordagem muito difundida, embora creio que existem duas ou três clínicas que a aplicam.

Posso concluir da nossa conversa que, independentemente de as crianças terem ou não uma perturbação do espectro do autismo, acredita que é essencial os pais terem tempo para brincar com os filhos?
Correto. Estudos recentes defendem os benefícios de cada um dos pais estar pelo menos 30 minutos diários com os filhos. E a nossa abordagem defende o mesmo, apenas dez vezes mais tempo que esse [risos]. Cada criança precisa do tempo e da atenção dos pais e os 30 minutos por dia são o mínimo dos mínimos. Sinceramente, acho que poderíamos prevenir determinadas doenças no futuro se durante a nossa infância tivéssemos tempo com os nossos pais. Funciona assim como uma espécie de medicamento em antecipação. Talvez não resultasse em algumas crianças, mas pelo menos estaríamos a começar a intervenção mais cedo. Este é o nosso objetivo: que as todas as famílias percebam a importância de brincar com as crianças. E, se existir um factor biológico que provoque algum tipo de atraso no desenvolvimento, então intensificamos consoante a necessidade de cada uma delas.

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