O telemóvel é hoje uma extensão do nosso corpo, particularmente do nosso cérebro. É absolutamente privado. Perde-se a relação de confiança quando os pais começam a espreitar o telemóvel dos filhos – Daniel Sampaio

Abril 21, 2018 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Diana Tinoco

Entrevista da Visão a Daniel Sampaio no dia 5 de abril de 2018.

Texto CLARA SOARES, Fotografia Diana Tinoco

O telemóvel é hoje uma extensão do nosso corpo, particularmente do nosso cérebro. É absolutamente privado. Perde-se a relação de confiança quando os pais começam a espreitar o telemóvel dos filhos

Daniel Sampaio recebe-nos com um sorriso aberto, em sua casa, na capital. Na sala ao lado, dois dos seus sete netos estão na companhia da avó. Maria José Ferreira foi sua colega de curso, na Faculdade de Medicina de Lisboa, e com ela viria a casar-se no ano em que concluiu a licenciatura. Aos 72 anos, e a menos de dois de celebrar as bodas de ouro, o professor jubilado mantém contacto regular com a comunidade educativa da escola secundária que tem o seu nome, na Sobreda da Caparica, em Almada, e permanece fiel ao nível de atividade que lhe conhecem colegas, alunos, pacientes e leitores. Do Telemóvel para o Mundo (Caminho, 216 págs., €15,50) é o seu novo livro, que será apresentado no próximo dia 11 de abril, ao final da tarde, na Fundação Medeiros Ferreira. O autor lança o desafio a adolescentes e pais da sociedade em rede: a internet pode separar gerações mas também aproximá-las mais do que nunca. Lembra-se do seu primeiro smartphone com teclas, no início da década, quando surgiram no mercado – “os adolescentes não gostam, que são ostelemóveis dos bisavós!” e acredita que vivemos um momento decisivo e especial, para o qual devemos estar preparados. Quanto mais cedo o fizermos, melhor.

Desde que se jubilou, como passou a ocupar o seu tempo livre?

A seguir à minha jubilação, em setembro de 2016, e da última lição em outubro desse ano, houve um vazio. Foram 40 anos de vida profissional muito ativa, e nos primeiros meses senti falta da faculdade e do hospital. O trabalho de consultório aumentou e tem sido gratificante. Pertenci a dois grupos de trabalho no Ministério da Saúde, tenho lido bastante e levei um ano a escrever este livro, que envolveu pesquisa, entrevistas a jovens e referência a casos clínicos.

Continua a manter o consultório e a trabalhar fora de casa?

Sou contra os consultórios em casa! A casa é um sítio privado e deve-se separar muito bem a vida profissional da privada. Continuo a dar consultas na sede da Sociedade Portuguesa de Terapia Familiar (SPTF), duas vezes por semana.

A terapia familiar funciona em Portugal?

É gratificante ter mais de mil sócios e três delegações. A SPTF está muito ativa, porque soubemos organizarnos e dar espaço para que as novas famílias aparecessem: casais separados, divórcios litigiosos, guardas parentais, famílias monoparentais, outras com crianças adotadas… O mérito da SPTF, criada em 1979, foi ter-se modernizado, estando a formar pessoas das comissões de proteção de crianças e jovens.

Como era o adolescente Daniel, em relação aos pais, aos avós…?

Eu lia muito e era um pouco sombrio e muito sério. Tive alguma militância associativa na comissão próassociação dos liceus, que era uma estrutura ilegal. Acompanhei a crise académica e depois entrei na faculdade, nos anos 1960. Eu fui mais comprometido do que os adolescentes de hoje, que me parecem mais alegres.

Pergunta ao homem que lançou o Núcleo dos Estudos do Suicídio (NES): os miúdos estão bem?

A maioria está. Quando se criou o NES (em 1987), não existiam ainda os comportamentos autolesivos ou de automutilação. Nas nossas escolas falta a capacidade para dar resposta a essas situações, porque a saúde escolar está muito pobre. Embora não sendo a maioria, há jovens com problemas significativos de saúde mental e poucos pedopsiquiatras e psicólogos nos serviços públicos.

Quais as conclusões do grupo de trabalho sobre a integração dos psicólogos no Serviço Nacional de Saúde (SNS), coordenado por si?

Os grupos de trabalho fazem as suas recomendações, vamos ver se são cumpridas ou não. Foi proposto um programa nacional para o tratamento da ansiedade e da depressão, e recomendada maior contratação de psicólogos para os centros de saúde, evitando encher os serviços de psiquiatria com casos de doença mental grave, particularmente a esquizofrenia e a doença bipolar. E foi ainda recomendada a criação de estágios de psicologia no SNS, com uma parte do ordenado a ser suportada pelo Instituto de Emprego e Formação Profissional.

Porque admite ter “errado o alvo” quando escreveu o livro Inventem-se Novos Pais?

Nos anos 80, à luz da psiquiatria e da psicologia, não podia haver uma adolescência normal sem crise, depressão e conflito. No século XXI, verificou-se que isso era uma ideia errada. Os adolescentes normais não têm grande mal-estar. Há adolescentes problemáticos que exigem uma abordagem especializada, mas a maioria ultrapassa esta fase, com alguma turbulência, porém sem dificuldades de maior. No novo livro corrigi algumas coisas que disse antes, como a de que ser adolescente implicava sempre sofrimento.

O mal-estar de que fala será mais dos pais dos adolescentes do que dos próprios?

É uma época muito difícil para os pais. Nunca como agora os pais estiveram tão próximos dos filhos do ponto de vista do afeto, mas têm falta de autoridade: é o caso do pai-camarada, que gosta muito do filho e está sempre com ele.

Como exercer a autoridade com os nativos digitais?

Quando a internet se generalizou nos telemóveis, introduziu uma dimensão conflitual nas famílias. Isso nota-se nas consultas, nas escolas e na relação entre pais e filhos. Para que a internet seja um ponto de encontro, e não de conflito, devemos habituar as crianças desde cedo a lidar com as tecnologias. Na adolescência já é tarde, porque, como sabem mais do que os pais e avós, os filhos têm formas mais diversas e sofisticadas de escapar ao controlo deles.

No livro apresenta casos que mostram como tudo pode correr mal…

São casos reais, mas modificados, para manter a confidencialidade. Admira-me haver pedidos de consulta centrados no conflito em torno do uso da internet. Nessas famílias perdeu-se a oportunidade de encontrar um caminho de proximidade. Se a internet for um ponto de conflito, vai cavar-se um fosso intergeracional enorme, porque os mais novos não vão prescindir de usar o telemóvel.

Ou da “Galáxia internet”, como refere por diversas vezes.

É um termo do sociólogo espanhol Manuel Castells. Com este livro, quero mostrar que a internet é uma oportunidade para novas comunicações na família, que são agora em rede: dos irmãos, dos amigos, dos filhos, dos pais – apontam o dedo aos filhos, mas eles mesmos passam muitas horas no Facebook. De tão centradas no conflito à volta do uso do telemóvel, muitas famílias não se aperceberam do que já mudou na área da comunicação.

Há uma idade certa para se dar o telemóvel ou o tablet aos filhos?

Cedo, cinco ou seis anos, para interiorizarem a regra. Um adolescente deve saber que há horas em que não é suposto utilizar ecrãs. Ter a noção de que não deve estar com o telemóvel às refeições nem levá-lo para a cama, na hora de ir dormir.

Se os pais consultarem os emails de trabalho ou o Facebook à refeição, ou quando vão deitar-se, perdem a legitimidade para se fazerem respeitar nesse campo.

Exatamente. Há períodos decisivos na vida da família para comunicar em presença, sem ecrãs: acordar e ir para a escola ou para o trabalho; chegar a casa e organizar os trabalhos de casa, banhos, jantar; e hora de deitar. Esta disciplina passa por pais e filhos.

Fala em parentalidade construtiva. Pode explicar melhor o conceito?

Não se pode ter autoridade sem envolvimento afetivo com um filho adolescente. Este envolvimento é construído na infância, e sem ele surge o conflito, potenciado pela internet, quando deveria ser o contrário. Pais ou mães distantes não conseguem fazer como noutros tempos, impor- -se através da educação pelo medo, até porque a criança tem hoje a possibilidade de fazer ouvir a sua voz e não acata o autoritarismo. Os pais só não devem transigir quando estão em jogo questões de saúde ou de segurança.

Fazem sentido os livros com estratégias para os pais, na área das tecnologias ou outras?

Tudo o que seja ajudar os pais a refletir, idealmente com outros pais, é positivo, pois eles têm muitas dúvidas, mas não há serviços nem locais onde possam ser auxiliados. Os livros não devem ser muito diretivos e no meu eu criei as secções “perguntas e respostas” e “para pensar”. Há coisas que já se sabem: organizar a hora do deitar, o uso da internet, abrir a casa aos amigos dos adolescentes.

Como a questão do namorado ou da namorada, se podem ou não dormir lá em casa…

De uma forma geral, as mães estão mais próximas dos filhos. A mãe continua a ser, na sociedade portuguesa, uma figura muito importante a nível emocional. Se falarmos com os nossos jovens sem entrar na intimidade deles, percebemos que há relações ocasionais. Quando for um namoro responsável e com envolvimento, “à séria” como eles dizem, os pais devem apoiá-los.

Aí entram as questões da sexualidade e da inexistência da educação sexual nas escolas.

Sempre lutei por isso, conseguiu-se alguma coisa, mas continuo a defender a sua importância, porque cada vez mais encontro jovens com muitas dúvidas e muita ignorância sobre o tema. A internet pode ter um perigo importante, que é a pornografia no telemóvel, vista sobretudo pelos rapazes. Se aos 12 e 13 anos passarem o tempo a ver pornografia, com a exploração do corpo da mulher e as proezas atléticas sexuais, que pouco ou nada têm que ver com o que se passa na vida real, podem começar a ter dificuldades na relação sexual com os parceiros, porque idealizam uma determinada situação. A educação sexual deveria ter isto em conta, bem como o que se passa nas escolas, a difusão de imagens íntimas a seguir a uma zanga entre namorados (porn revenge). A educação para os média no campo da sexualidade também é fundamental. A internet é uma fonte de informação que é preciso contextualizar em pequenos grupos de rapazes e de raparigas, para falarem do que estão a sentir nas suas interações. Há muito a fazer.

Espreitar o telemóvel dos filhos é próprio de “sem-abrigo digitais”?

Sou completamente contra os filtros parentais. E também que os adultos vejam o telemóvel dos pais. O telemóvel é hoje uma extensão do nosso corpo, particularmente do nosso cérebro. É uma coisa absolutamente privada. Perde-se a relação de confiança quando os pais começam a espreitar o telemóvel dos filhos. Ficam prisioneiros disso e com uma angústia acerca do que devem e não devem fazer. Ter um telemóvel por volta dos dez anos implica que a criança saiba, aos oito, como vai usá-lo devidamente quando o receber, à entrada do 5.º ano de escolaridade. Ou seja, precisa de saber que, quando entra na internet, não pode divulgar o nome completo e outros dados pessoais.

Como se desenvolve essa capacidade para aconselhar os filhos numa área em que nem sempre os adultos se orientam?

Basta, por exemplo, que os pais verbalizem os medos que têm sobre o uso que os filhos podem dar ao equipamento. Ou de como possam proceder face a condutas menos próprias (ciberbullying e afins).

Manifestou-se a favor do uso medicinal da canábis, embora condene o uso recreativo. Que argumentos o levam a ter essa posição?

Há já muitas evidências acerca dos derivados da canábis, que são úteis, do ponto de vista médico, em situações ligadas à quimioterapia, à dor e a certos casos de epilepsia na criança. Deve ter um uso farmacêutico controlado e não haver um autocultivo. Em relação ao uso recreativo, sou contra. São drogas muito perigosas porque impedem o progresso da adolescência normal, que envolve tarefas como modificar a relação com os pais, com os companheiros, a vida amorosa e sexual e a concentração nos estudos. É muito curioso: os jovens são muito hábeis. Em vez de usarem a palavra “erva” ou “haxixe”, dizem aos pais “eu fumo pólen”. Trata-se da mesma coisa, razão pela qual dedico uma parte do livro às drogas.

Contudo, e isso é do conhecimento de muitos adolescentes, muitos pais consumiram derivados de canábis na juventude.

O grande problema hoje é o fácil acesso e a ideia romântica de que não faz mal. Não subscrevo a teoria de que estas drogas conduzem ao consumo de outras, essa situação não se coloca nos adolescentes. Porém, sabemos hoje que o cérebro está em formação até por volta dos 23 anos e que o uso de drogas pode eventualmente comprometer as sinapses. Falta mais investigação sobre isso. Enquanto psiquiatra, tenho conhecimento de casos de esquizofrenia precipitados pelo uso recreativo em quem tem predisposição para a doença.

Sugere aos pais que relativizem certos comportamentos agressivos dos filhos, fruto da imaturidade do cérebro. É mesmo assim?

Digo isso com algumas reservas! Se der um murro num colega, temos de responsabilizá-lo! Falei disso porque se sabe que o cérebro ainda não está suficientemente formado para exercer plenamente a capacidade de abstração e de autocrítica.

Como se exerce a autoridade sem dramas nas famílias recompostas?

No regime clássico – ou seja, os filhos ficam com a mãe e veem o pai de 15 em 15 dias –, a consequência é o afastamento do pai. Tenho evoluído bastante acerca da guarda partilhada, que deve tentar-se sempre que possível, por ser a forma mais parecida com a da família nuclear. Se houver um mínimo de entendimento entre adultos, as crianças e os jovens adaptam-se. Defendo que, em cada casa, devem estar definidos papéis e regras. Se a mãe vive com o padrasto, ambos devem definir como atuar, e isso não quer dizer que em casa do pai tenha de ser igual.

Na prática, vale o princípio “em cada casa as regras são as de quem lá vive”?

A autoridade do padrasto e a da madrasta são muito difíceis de gerir, porque rapidamente os adolescentes dizem “não és o meu pai” ou “não és a minha mãe”; eles utilizam esse argumento como arma. Zangam-se com a mãe e dizem “vou viver para casa do pai”. Ou estão em casa do pai e telefonam à mãe a dizer “vem-me buscar”. Sou contra isso: permitir que a criança ou o adolescente utilize as regras da outra casa na casa onde está não resulta.

Voltamos à questão de quem tem condições para ser apresentado em casa, mas desta vez dirigida aos adultos…

A apresentação de um novo companheiro, ou de uma nova companheira, aos filhos deve ser muito prudente, e o relacionamento ser minimamente sério e ter pernas para andar, tanto quanto se consegue saber. E sem que os jovens sejam surpreendidos por alguém a dormir lá em casa.

Que gostaria de dizer aos seus leitores enquanto cidadão digital?

Estou apaixonado pelo momento atual. A internet é um ponto de encontro maravilhoso, de partilha e de comunicação. Com as devidas regras, podemos aproximar as gerações em vez de separá-las.

csoares@visao.pt

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Pode uma relação sobreviver a um filho com necessidades especiais?

Abril 20, 2018 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do site https://magg.pt/ de 4 de abril de 2018.

Há casos em que o nascimento de uma criança, que deveria estar recheado de felicidade, vem acompanhado de algo mais. Uma doença não detetada em nenhuma fase da gravidez, complicações no parto que deixam graves sequelas nas crianças. E há outros em que o diagnóstico de uma patologia chega meses ou anos depois do parto. Seja como for, a pergunta impõe-se: o que sucede a um casal quando é confrontado com algo tão difícil como lidar com as necessidades especiais de um filho, com uma doença grave e degenerativa? Sobrevive, fortalece-se, ou pelo contrário, fica mais frágil e acaba?

“Temos de perceber que se trata de uma situação dificílima”, diz à MAGG Ana Paula Silva, psicóloga clínica e da saúde. “É um projeto de vida que é dramaticamente interrompido.” 

Por isso, “as separações são muito comuns quando falamos de pais que são confrontados com o nascimento de uma criança com deficiências graves e necessidades especiais”, revela Ivone Silva, diretora-geral da Associação Portuguesa de Paralisia Cerebral.

Como explica a dirigente da APCL, estas são situações que absorvem muito os pais. “Uma criança com deficiência exige muito das famílias. Há uma procura incessante de respostas que possam curar o seu filho, uma solução para o cenário que se impôs perante aqueles pais. Há tristeza, há um desgaste incrível neste processo e isso acaba por ser fatal para muitas relações.

Cláudia Mendes, funcionária pública de 50 anos, é mãe de Matilde, uma menina de 11 anos diagnosticada em 2009 com Síndrome de Pitt-Hopkins, uma doença rara, com graves implicações a nível psico-motor.

“A Matilde nasceu em 2006 e desde cedo que eu percebi que algo se passava. Em comparação com outros meninos da idade dela, notava que ela não fazia nada do que as outras crianças faziam, como sentar-se ou fazer contacto visual, por exemplo”, conta Cláudia à MAGG.

“O meu ex-companheiro teve muitas reticências em aceitar que a filha tinha uma deficiência. Confesso que existem alturas em que acho a postura dele pouco realista.”

Cláudia expressou as suas preocupações a vários pediatras, sendo que a resposta era sempre a mesma. Ouvia que era uma mãe ansiosa, que cada criança tinha o seu timming. E Cláudia esperava, mas mesmo considerando que Matilde tinha um ritmo mais lento, continuava sem se desenvolver. Consultou vários especialistas até que, em 2009 (cerca de três anos depois do nascimento da filha), encontrou um pediatra que percebeu que algo se passava.

“Logo de início, mesmo ainda antes de o diagnóstico ser confirmado, o médico explicou-nos que existia um grande atraso a nível psico-motor. E que seria imperativo estimulá-la o mais possível enquanto era nova, de forma a que ela conseguisse atingir o máximo das suas capacidades.”

A primeira fase após o diagnóstico foi de desespero, recorda Cláudia. O pai de Matilde, havia partilhado da opinião dos médicos, que se tratava apenas de um timming diferente de desenvolvimento. “O meu ex-companheiro teve muitas reticências em aceitar que a filha tinha uma deficiência. Confesso que existem alturas em que acho a postura dele pouco realista. Claro que a esperança é sempre a última a morrer, queremos sempre pensar positivo mas há que encarar a realidade.”

A super-proteção dos filhos isola os pais

A Matilde tem uma incapacidade de 96 por cento. Não fala, não come com garfo, ainda usa fralda e, acima de tudo, tem de ser sempre acompanhada.

“Deixei de me focar numa relação e passei a focar-me exclusivamente na Matilde.”

“Apesar de todos os esforços e trabalho que a Matilde tem realizado, sendo que fez francos progressos, terá sempre uma grave lacuna a nível das simples atividades da vida diária. Tem o tempo dela, o ritmo dela”, explica Cláudia, que refere que a filha não lava os dentes ou as mãos sem ajuda.

Devido a esta situação, que obriga a que a filha esteja sempre acompanhada, Cláudia confessa que o seu relacionamento começou a sofrer.

“Deixei de me focar numa relação e passei a focar-me exclusivamente na Matilde. Assumi um papel de cuidadora e de mãe super-protetora. A Matilde está totalmente desprotegida e precisa da mãe para tudo.”

Esta situação de super-proteção é bastante comum nos pais de crianças com necessidades especiais, apesar de ser também o primeiro passo para o isolamento dos adultos e, consequentemente, também para o afastamento do casal.

“Existe uma tendência para os pais de crianças com deficiências se fecharem neles próprios e na sua existência. Isolam-se dos amigos, da família, o seu único propósito passa por viver para o filho. Arranjam terapeutas para os filhos, escolas especais, o que for preciso, mas esquecem-se deles”, salienta Ana Paula Silva.

“As mães são a parte do casal que se fecha mais, passando a ter como único objetivo cuidar do filho. Muitas delas, dependendo do nível de dependência das crianças, acabam mesmo por desistir da carreira profissional para ficar em casa.”

Afastam-se das suas necessidades, do que precisam e, na opinião da psicóloga, acabam por ser as mulheres a isolarem-se mais. “Sem dúvida que as mães são a parte do casal que se fecha mais, passando a ter como único objetivo cuidar do filho. Muitas delas, dependendo do nível de dependência das crianças, acabam mesmo por desistir da carreira profissional para ficar em casa a cuidar destas. Não digo que isto não possa acontecer também com os pais mas, em 33 anos de carreia, só vi mães a assumirem o papel de cuidadora principal”, afirma a especialista.

Esquecem-se que são mulheres, em alguns casos também mães de outras crianças e, acima de tudo, que são companheiras. Como explica Ana Paula Silva, os maridos e companheiros podem sentir-se de parte, dado que a parceira, que também lhes dava atenção, agora vive apenas e só para a criança. E é natural que os problemas comecem a surgir.

“Tínhamos muitas desavenças, por vezes as vozes elevavam-se e a Matilde sentia esse ambiente pesado, ficava incomodada”, conta Cláudia Mendes. “Eu precisava de ter uma vida calma, a minha filha precisava de um ambiente tranquilo. Cheguei a uma altura que me preferia calar ou fingir que não se tinha passado nada para evitar discussões com o meu companheiro. Não queria mais distúrbios do que aqueles que toda a situação da Matilde, só por si, já causavam. E chegou o dia que a situação se tornou incomportável e cada um seguiu a sua vida.”

O desgaste é a principal causa de separação

A experiência da maternidade e da paternidade não é fácil, mesmo quando tudo corre bem e nasce uma criança saudável. A privação de sono dos pais, o choro de um recém-nascido, a inexperiência de um casal quando se trata do primeiro filho — todos estes fatores levam, por vezes, a discussões e problemas num casal.

“É natural que as prioridades sejam outras mas, quando deixa de haver vida a dois, é mais que natural que a relação fique desgastada.”

“Quando nasce uma criança com necessidades especiais, tudo isto é ainda mais difícil”, afirma Patrícia Poppe, psicoterapeuta. “São situações que causam muita dor e impotência. Para além da dor, a perceção de que tudo o que podem fazer para ajudar o seu filho não vai ser suficiente é muito complicado para os pais.”

Um filho com necessidades especiais exige mais. Mais tempo, mais atenção, mais paciência. “Quando existe uma pressão acrescida, fruto desta situação, é comum surgir um desgaste na relação. As mulheres ficam muito envolvidas, os homens sentem-se de parte e ambos se isolam, acham que conseguem com tudo e não entendem que pedir ajuda, seja profissional ou a amigos e família, é o primeiro passo para se manterem sãos e também para manter um relacionamento”, explica Ana Paula Silva.

A falta de vida social, principalmente no contexto de casal, é um fator que abala muitos relacionamentos. “É natural que as prioridades sejam outras mas, quando deixa de haver vida a dois, é mais que natural que a relação fique desgastada”, refere Ivone Silva, que acrescenta que é possível contrariar esta situação se os pais, por vezes, deixarem os avós tomar conta dos filhos para que estes possam ter momentos a dois.

Outra estratégia para manter saudável uma relação é o diálogo aberto e sem medos. “O casal deve apoiar-se, escutar-se e falar abertamente. Quando isso não acontece, quando não se verbaliza algo com medo da reação do outro, é muito complicado”, diz Patrícia Poppe.

A união faz a força

Andreia Paes de Vasconcellos, blogger e autora do livro “Tomás — Maternidade, Trissomia e Amor: a história de um bebé especial”, tinha 30 anos quando engravidou pela primeira vez. Depois de uma gravidez perfeita, sem quaisquer problemas ou indícios suspeitos, Andreia deu à luz a um rapaz às 37 semanas, num parto normal, rápido e sem complicações.

“Quando o Tomás nasceu, percebi logo que se passava algo que não era normal”, conta Andreia à MAGG. “Mas não queria acreditar, só pensava que os recém-nascidos eram feios e que nada se podia passar. Tinha feito os exames pré-natais todos e nunca havia sido detetada nenhuma anormalidade nas ecografias.”

Andreia tentou guardar o sentimento para si e, enquanto esperavam o regresso da médica com notícias, não partilhou nada com o marido, Bernardo, que sem Andreia saber, estava a fazer exatamente o mesmo — não tocou no assunto para poupar a mulher do sofrimento.

“Quando eu disse que não trocava o Tomás por nada, mas trocava a doença por tudo, o Bernardo disse-me que queria o Tomás assim, mesmo com trissomia, pois isso fazia parte dele.”

“Quando a médica regressou de observar o Tomás na sala de pediatria, já veio com o discurso da Trissomia 21, apesar de o diagnóstico ainda não estar confirmado. Foi uma noite terrível, chorei imenso. Mas apoiamo-nos sempre um ao outro, nunca atribuímos culpas e confesso que não falámos muito sobre o tema até confirmarmos o diagnóstico.”

Nos 15 dias a seguir ao nascimento de Tomás, a relação com o marido foi testada ao limite, lembra Andreia. Na noite anterior a receberem a confirmação do diagnóstico de Trissomia 21, o ambiente estava pesado. A poucas horas de terem uma resposta, o casal estava ansioso e nervoso. E foi nesse momento que Bernardo disse algo que ofereceu segurança e consolo a Andreia.

“Eu ainda tinha esperança noutro cenário, mas o meu marido estava mais mentalizado. E mesmo quando eu disse que não trocava o Tomás por nada, mas trocava a doença por tudo, o Bernardo disse-me que queria o Tomás assim, mesmo com trissomia, pois isso fazia parte dele. Na altura não fez muito sentido para mim, mas deu-me força e fez-me perceber que, independentemente do diagnóstico, tudo ia ficar bem.”

O casal uniu-se, apoiou-se mutuamente e Andreia afirma que a relação dos dois nunca se abalou devido à doença do filho. Não perderam tempo com energias negativas e pensaram sempre no futuro.

“Regra geral, estamos sempre bem em família. Caminhamos lado a lado, ele agarrou-se a mim, eu a ele, e depois de passarmos por uma situação destas, estamos muito mais fortes. Nunca rejeitámos o Tomás, e acredito que quando isso acontece, é difícil uma relação sobreviver. Mas no nosso caso, venha o que vier, já nada nos abala”, afirma Andreia.

A especialista Ana Paula Silva concorda: “Quando os casais se se conseguem unir e gerir este turbilhão de emoções, é possível superar e lutar juntos, mesmo numa situação complicadíssima como o nascimento de uma criança que exige outro tipo de cuidados. E insisto que o apoio psicológico é muito importante. Neste tipo de casos, mesmo que os pais ainda se considerem capazes de suportar esta realidade sem ajuda, este deve ser um objetivo a médio prazo, procurar apoio profissional”.

 

 

 

Inauguração da Exposição “Bem Me Quer” dia 21 de Abril no Porto

Abril 20, 2018 às 10:02 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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No âmbito do Projeto Hands Up, irá acontecer este mês de Abril, uma Exposição de Ilustrações dinamizada pelo GIS – APDES, alusiva ao tema da Parentalidade.

Esta iniciativa também se insere nos eventos de Abril: Mês de Prevenção de Maus Tratos na Infância.

Aqui fica o nosso convite para si e esperamos poder contar consigo na Inauguração da Exposição “Bem Me Quer”  no dia 21 de Abril pelas 16:30  na Salta Folhinhas –  Livraria Infantil no Porto.

GIS – Gabinete de Intervenção em Saúde

Health Intervention Department

gis@apdes.pt | facebook

Hands UP – Promover a eliminação de Castigos Corporais a Crianças

www.handsupchildren.org

APDES | Agência Piaget para o Desenvolvimento

Arcozelo, Vila Nova de Gaia – Portugal

+351·227·531·106/7| M. +351·962 217 751

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O pai contemporâneo, uma figura ainda em construção

Abril 17, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.publico.pt/ de 18 de março de 2018.

ANA CRISTINA PEREIRA

“As grandes transformações sociais decorrem muito das necessidades”, salienta Albino Lima, professor da Faculdade de Psicologia e Educação da Universidade do Porto.

A igualdade em matéria de responsabilidades parentais ainda é mais uma esperança do que uma realidade na sociedade portuguesa. A figura contemporânea de pai está ainda a construir-se.

O conceito de paternidade é alvo de debate e de estudo, pelo menos, desde o século XIX. O pai tradicional assumia as funções de ganha-pão. Cabia-lhe também desempenhar o papel de autoridade e disciplina. A mudança para um pai mais sensível, mais presente, mais compreensivo, mais responsável pelos cuidados diários, começou a acontecer na segunda metade do século XX.

“As grandes transformações sociais decorrem muito das necessidades”, salienta Albino Lima, professor da Faculdade de Psicologia e Educação da Universidade do Porto. “A entrada das mulheres no mercado de trabalho, a diminuição do número de filhos, o maior investimento nos filhos, o aumento exponencial do número de divórcios, as políticas de apoio à família, tudo isto faz com que a gestão da casa e dos filhos seja mais discutida e que o pai comece a participar mais.”

Os padrões de continuidade coexistem com os traços de mudança. Nos padrões de continuidade, Sónia Vladimira Correia, professora da Faculdade de Ciências Sociais, Educação e Administração da Universidade Lusófona, em Lisboa, destaca “a persistência do papel de ‘mãe ideal’, o recurso à figura feminina como ‘a peça central’ nos cuidados às crianças (‘a’ mãe, ‘as’ avós, ‘as’ tias, ‘as’ babysitters, ‘as’ educadoras, ‘as’ professoras…), a naturalização da competência feminina para os cuidados às crianças (‘instinto maternal’, ‘apelo biológico para a maternidade’) e, finalmente, a atribuição ao pai do papel secundário nos cuidados aos filhos”.

Nos traços de mudança, aquela mesma investigadora aponta “o divórcio e a separação, a definição de mulher desligada da experiência da maternidade”, mas também “a atribuição de importância ao papel do pai na vida dos filhos (presença nos cuidados, criação de espaços de proximidade afectiva, organização de momentos de lazer, etc)”, a emergência da “paternidade cuidadora e interventiva como parte integrante da identidade do homem”, e, por fim, “a negociação e partilha nos cuidados à criança”.

Não há uma definição única do que é ser pai hoje em Portugal. “Vão confluindo não um papel, mas diferentes papéis de pai”, torna Albino Lima. “Este pai está a tentar posicionar-se perante si próprio (enquanto pai o que é esperado que eu faça?) dentro de um determinado contexto sociocultural.”

Nos vários estudos que tem feito, aquele investigador nota que o pai continua a desempenhar um papel relevante na dimensão autoridade/disciplina, sobretudo no que diz respeito aos rapazes. Assume, porém, cada vez mais responsabilidades nos cuidados básicos, nas actividades do dia-a-dia, no apoio emocional, que tradicionalmente competem às mães.

Parece-lhe fundamental ter em conta que as relações são dinâmicas. Um dos seus estudos, que envolveu a participação de 346 crianças entre os oito e os dez anos, indica que “quando mais um pai assume responsabilidades – e as mães o permitem, porque muitas acham que este é um espaço muito delas – mais os filhos ficam satisfeitos”. Até porque quanto mais interage, mais competente se sente para o fazer. E quanto mais seguro, mais satisfeito.

Os pais têm tendência a seguir o modelo dos seus pais. Por outras palavras: os homens perspectivam-se como pais em função das experiências positivas ou negativas que tiveram enquanto filhos. Num estudo que envolveu 189 pais, Albino Lima viu a mudança a acontecer: “Muitos novos pais queriam repetir o modelo, mas muitos outros queriam fazer diferente, estar presentes, ter um papel activo”.

Fazer diferente, avisa, não quer dizer abandonar os tais modelos. Fazer diferente – pai e mãe ou mãe e mãe ou pai e pai ou mãe só ou pai só – é encontrar um novo equilíbrio entre o apoio e o desafio.

Pais e mães desempenham papéis complementares. “As mães tendem a ser mais apoiantes, os pais mais desafiantes”, diz. “Se pensarmos no que é o desenvolvimento humano, tem de haver um equilíbrio entre o apoio e o desafio. Se os pais forem demasiado apoiantes, não há desafio, não há desenvolvimento. Se o desafio não tiver suporte, apoio, também não há desenvolvimento.”

 

 

Workshop “O Impacto da Violência Doméstica nas Crianças e Jovens”, 18 de abril de 2018 auditório da União de Freguesias Laranjeiro/Feijó

Abril 8, 2018 às 7:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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mais informações:

Os pais não são donos dos filhos. Ou são?

Abril 5, 2018 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de https://www.publico.pt/ de 21 de março de 2018.

Os direitos dos pais, representantes legais ou quem tem a guarda de facto da criança, não são ilimitados.

Recentemente, a propósito de um caso mediático, um jornal publicou uma frase que eu disse em sede de julgamento: “Os pais não são donos dos filhos.” Qual não foi o meu espanto quando percebi que esta afirmação suscitou reacções muito diversas, desde o acordo de pessoas que a subscrevem, até pessoas que discordaram totalmente, alegando que sim, os pais são donos dos filhos, e que têm de o ser sob pena de os filhos poderem “mandar” nos pais. Face a isto, penso que é preciso clarificar algumas questões.

A parentalidade é uma tarefa de desenvolvimento do ciclo de vida familiar, talvez uma das mais desafiantes, que coloca os pais/cuidadores perante diversas questões, sentimentos ambivalentes e indecisões. Nem tudo é preto ou branco, as crianças não vêm, de facto, com manual de instruções, e cada uma tem as suas especificidades. Sabemos também que as crianças crescem de uma forma mais saudável com pais sensíveis e responsivos, capazes de identificar e satisfazer as suas necessidades (desde as de natureza mais físico-biológica, até às emocionais, cognitivas e sociais). Por outras palavras, as crianças precisam de pais atentos e centrados nas suas necessidades, ao invés de pais centrados em si próprios.

Mas esta dimensão tão importante da parentalidade, que podemos chamar de sensibilidade parental, deve equilibrar-se com outra igualmente importante, onde surge a supervisão, o controlo e a monitorização. O que implica saber definir regras e limites, adequá-las à criança (à sua idade e nível de desenvolvimento), ao contexto e, ainda, saber reagir adequadamente face ao seu cumprimento ou incumprimento.

É desejável um equilíbrio entre estes dois eixos da parentalidade, proporcionando uma parentalidade que favoreça o desenvolvimento harmonioso da criança. Ora, isto nada tem a ver com os filhos serem, ou não, propriedade dos pais. Estamos a falar de crianças, de seres humanos, e não de um carro ou uma casa.

Debrucemo-nos sobre o argumento de que as crianças podem mandar nos pais. Aqui estamos, muito provavelmente, a falar de pais com dificuldade em exercer limites e controlo, acreditando que um “não” pode traumatizar a criança e que todas as suas vontades devem ser satisfeitas. Estas crianças crescem, frequentemente, com maior imaturidade e dificuldade em regular as suas emoções e comportamentos. Empoderadas, autocentradas, com baixa tolerância à frustração e dificuldade em negociar. Que adultos serão amanhã?

Não. Dizer “não” não traumatiza as crianças. Não podemos confundir a responsabilidade parental em exercer controlo, de forma adequada e equilibrada com afecto e sensibilidade, com a ideia totalmente absurda de se ser dono da criança. As crianças têm direitos, consagrados internacionalmente e ratificados por Portugal, que têm de ser respeitados.

Não são direitos que “devem” ser respeitados, mas sim direitos que “têm” de ser respeitados. E entre esses direitos surge o direito à identidade e individualidade, o direito à dignidade e à privacidade. Direitos que se encontram plasmados nos chamados direitos da personalidade, criados após 1948, com a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Para além destes, ainda a Convenção sobre os Direitos da Criança (adoptada pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 20 de Novembro de 1989 e ratificada por Portugal em 21 de Setembro de 1990), que assenta em quatro grandes pilares: a não discriminação, o superior interesse da criança, a sobrevivência e desenvolvimento e o direito em exprimir a sua opinião. Ora, em que medida estes direitos podem alguma vez dar espaço para que alguém (pais ou quem quer que seja) se pronuncie como “dono” da criança?

As crianças não são bens. Não são património. Não são coisas nem objectos. Os direitos dos pais, representantes legais ou quem tem a guarda de facto da criança, não são ilimitados. Há limites.

Vários exemplos ajudam-nos a perceber que o papel dos pais não é gerirem “uma propriedade — filho”. Recordo um menino em quem os pais projectavam os seus sonhos e, por isso, teria de ser músico. Obrigado a estudar e praticar horas a fio. Sem que ninguém lhe tenha alguma vez perguntado se ele gostava de música e se era aquele o caminho que queria seguir.

Não, os pais não são donos dos filhos. Crianças expostas perante toda a sociedade, em momentos de desregulação emocional e comportamental, com uma total invasão da sua intimidade e privacidade, seja na Internet ou na televisão.

Por isso, repito, os pais não são donos dos filhos. São quem deve amar, cuidar, educar, ensinar, orientar, balizar e conter. Criar sentimentos de pertença, de um “nós” familiar, que gere sentimentos de segurança e protecção, ao mesmo tempo que dão espaço para explorar o mundo, crescer e socializar. Um equilíbrio nem sempre fácil de ser conseguido, é certo. Mas possível.

Psicóloga especialista em Psicologia Clínica e da Saúde, Psicoterapia e Psicologia da Justiça; docente e investigadora no ISCTE-IUL.

 

 

Há cada vez mais homens a cuidar sozinhos dos filhos

Abril 3, 2018 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Mariana tem 16 anos e vive há cinco com Pedro, o pai Fotografia de Miguel Manso

Notícia do https://www.publico.pt/ de 18 de março de 2018.

ANA CRISTINA PEREIRA

Sentem as mesmas dificuldades que as mulheres na conciliação da vida laboral com a vida familiar e pessoal, mas são encarados como pessoas especiais. “Era como se valorizassem mais o facto de eu ter a dupla jornada de trabalho que quase toda a mulher tem”, diz um deles.

 A primeira vez que Mariana Faria de Oliveira se viu com o período, deu um grito. O pai já lhe tinha falado naquilo, mas ela não estava à espera daquela mistura de sangue, muco e secreções vaginais. “Assustei-me. O meu pai explicou-me o que se estava a passar, disse-me que era normal, que eu não ia morrer.”

Encontra no pai o suporte financeiro, mas também afectivo e emocional. É com ele que fala sobre conquistas e derrotas, amores e desamores, anseios e receios. E depara-se com espanto sempre que alguém descobre que vive com ele. Tem 16 anos. Percebe a reacção. “Quando os pais se separam, os filhos vão viver com as mães ou ficam uma semana com um e uma semana com outro”.

Ainda que com oscilações, está a aumentar desde a década de 80 o número de famílias monoparentais, isto é, constituídas por um pai ou uma mãe e os filhos. As masculinas seguem a tendência, mas permanecem muito abaixo das femininas, o que quer dizer que ainda não mudou o regime padrão de residência (com a mãe) e de contacto (com o pai). Em 2017, havia 387.320 famílias monoparentais femininas e 52467 monoparentais masculinas.

Que homens são estes que assumem a 100% os cuidados parentais? Os últimos censos “sugerem que a monoparentalidade no masculino tende a ser mais frequente quando os filhos já são mais velhos e numa fase mais tardia do percurso de vida”, explica Sónia Vladimira Correia, docente da Faculdade de Ciências Sociais, Educação e Administração da Universidade Lusófona. Analisando o estado civil, nota que “é menor o peso relativo dos homens que entram na monoparentalidade por via de nascimentos fora da conjugalidade ou por via da ruptura de uniões de facto, sendo maior o peso relativo dos homens que entram na monoparentalidade pela viuvez”.

O processo de Mariana foi tranquilo. O actor Pedro Oliveira estava a pensar propor à ex-mulher ficar com a guarda e ela antecipou-se. “Ela tinha um trabalho instável. Mudava de casa muitas vezes. Eu moro na casa onde a Mariana sempre viveu, em Paço de Arcos. Ela podia ter um quarto, estar perto da escola, ter mais estabilidade”, conta.

Mariana não tem grandes memórias dessa mudança. “Perguntaram-me se queria viver com o meu pai. Eu disse que sim. Passado pouco tempo, estava a viver com o meu pai. Não me fez confusão. Não era muito bom viver com a minha mãe e o com o meu irmão. Era muita pressão para a minha mãe.”

Por trás dos pais sós estará uma variedade de situações: num extremo, o reconhecimento de que um pai pode cuidar tão bem de um filho ou de uma filha como uma mãe (e aí sobressairá a guarda conjunta e a residência alternada); no outro, mães consideradas inaptas para a função.

Quando o engenheiro informático José Soares se separou, sugeriu a guarda partilhada da filha de três anos. Parecia-lhe natural que continuassem ambos a ter total responsabilidade pelos cuidados a prestar e pela educação a dar. Ficou admirado quando ouviu a juíza dizer: “Não, os filhos têm de ficar com as mães.”

De repente, a ex-mulher afundou-se no consumo abusivo de drogas. “A situação estava muito deteriorada. Já não havia electricidade dentro de casa…” A Comissão de Protecção de Crianças e Jovens acabou por remeter o caso para o Tribunal de Família e Menores, que decretou uma medida de emergência. José foi buscar a filha à creche. Quando a ex-mulher lá chegou já não a encontrou.

A menina, de quatro anos, perguntava-lhe pela mãe. Queria saber porque já não morava com ela. José dizia-lhe: “Tu estás só comigo porque a tua mãe está doente, ela vai ficar boa.” Não lhe parecia correcto dizer-lhe mais do que isso. “Os detalhes vão vindo com a idade, com naturalidade.”

Os pais sós têm as mesmas dificuldades que as mães sós em conciliar a vida profissional com a vida familiar e pessoal. O maior ou menor esforço depende da rede de apoio (formal e informal) e dos recursos económicos que têm (o que permitir ampliar essa rede), como sublinha Sónia Vladimira Correia.

José não podia partilhar qualquer responsabilidade com a ex-mulher. Naquela fase, os contactos desta com a filha estavam reduzidos ao mínimo e só podiam ocorrer com a supervisão dos avós maternos. Os pais dele não lhe podiam valer (moram no Brasil), tão-pouco a irmã (que morava em Inglaterra). Teve de fazer uma gestão muitíssimo apertada do tempo e dos horários.

Mora em Matosinhos. “Tinha de começar o dia uma hora e meia ou duas horas mais cedo e de terminar o dia duas horas mais tarde”, recorda. Despertava às 5h ou 5h30. Cuidava de si. Despertava a filha, vestia-a, dava-lhe o pequeno-almoço. Saiam às 7h. “Às 8h tinha de estar na Maia à espera que a que a creche abrisse, porque tinha de voltar para Matosinhos para começar a trabalhar às 9h.” O corre-corre repetia-se ao final do dia. “Saía do trabalho às 18h em ponto. Tinha de estar na Maia antes das 19h, porque a creche fechava. Chegava a casa às 20h.”

Naquela estafa, faltava tempo para brincar. “No início, deixava a minha filha a ver desenhos animados enquanto preparava o jantar.” “Era pesado. Nem sei como conseguia”, diz. Tudo melhorou no momento em que conseguiu encontrar uma vaga num colégio privado perto de casa.

Pedro Oliveira também tem uma vida profissional muito preenchida. Além de actor, dirige uma cooperativa, colabora com uma associação. Quando se separou, Mariana tinha nove anos. Ia nos 11 quando veio viver com ele. “Tenho muito que fazer, mas conseguia gerir. Quando não conseguia, tinha o apoio do meu pai. Havia muitas noites em que o meu pai ficava com a Mariana.”

Sempre se sentiu visto como “um homem especial” por estar a criar a filha sozinho. E, num mundo em permanente mudança, sempre foi assaltado pelos receios próprios da condição de pai. Conseguiria ter uma criança a cargo sem receber apoio financeiro do outro progenitor? Estaria a educá-la bem?

José Soares também sempre se sentiu valorizado. “As pessoas elogiavam, mostravam empatia, tinham curiosidade em saber como eu fazia”, recorda. “Deve ser o tal machismo enraizado. Era como se o meu trabalho fosse uma coisa fora do normal. Era como se valorizassem mais o facto de eu ter a dupla jornada de trabalho que quase toda a mulher tem.”

A filha está muito mais autónoma. Já completou 12 anos. No princípio deste ano, a guarda tornou-se partilhada e a residência alternada. A mãe está recuperada. E o pai tem vida própria. Há dois anos, começou a viver com uma pessoa do mesmo sexo.

O pai sozinho tem de falar de tudo, incluindo sentimentos. Tem é de adequar as palavras à idade. Antes de assumir em público uma relação com outro homem, José falou com a filha: “Tenho uma coisa para te contar. Lembras-te daquele livro Ser diferente é bom, da Sónia Pessoa? É o caso do teu pai.” A menina também lhe quis contar que gosta de um menino lá da escola. “Eu achei tanta graça nela.” Parece-lhe que está a lidar bem com o assunto. “Ela também acaba por servir de exemplo na escola, na sociedade. Pode ajudar a perceber que o importante é as pessoas serem felizes.”

 

 

A vida sob a perspectiva “mágica e única” de uma criança com autismo

Abril 3, 2018 às 9:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Kate Miller-Wilson

Texto do http://p3.publico.pt/ de 14 de maio de 2017.

Eian é uma criança de dez anos e tem uma perspectiva do mundo “mágica e única”, descreveu a mãe ao Huffington Post. O filho mais velho da fotógrafa Kate Miller-Wilson tem aquilo que é denominado de “autismo altamente funcional” e as suas fotografias retratam a experiência de “amar alguém com autismo”. A norte-americana, residente no estado do Minnesota, considera este conjunto de fotografias um escape criativo e emocional do seu quotidiano na companhia de Eian. “Quando nos focalizamos apenas nos desafios desta condição, não conseguimos ver a beleza; por outro lado, quando nos centramos apenas nas dádivas, deixamos de conseguir compreender os progressos e conquistas feitas por indivíduos com autismo, pelos seus pais e cuidadores”, explicou. O seu trabalho fotográfico é de natureza emocional, “pretende estabelecer uma relação com o espectador e oferecer um vislumbre sobre todas matizes que compõem o quotidiano de alguém no espectro [autista]”. Miller-Wilson sente dificuldade em estabelecer contacto visual com o filho enquanto o fotografa. Para ultrapassar o problema, a fotógrafa cria barreiras visuais entre os dois: vidro, gelo, são alguns exemplos. “Existe um ditado dentro da comunidade autista: ‘se conheceste uma pessoa com autismo, conheceste apenas uma pessoa com autismo’.” Ser pai ou mãe de uma criança com autismo pode ser um verdadeiro desafio. “É normal estar preocupado, zangado ou frustrado ou desesperadamente cansado”, comenta. “[Os pais] não têm de ser santos. Estes sentimentos tornam a experiência [de educar estas crianças] mais real e permitem-nos apreciar os momentos de felicidade que surgem.” Eian gosta de números e sente-se feliz com a exposição que as fotografias da mãe têm obtido online. Kate, por sua vez, espera que no futuro estes retratos sejam por ele interpretados como cartas de amor.

 

Quando as crianças e jovens acreditam mais nos youtubers do que nos pais

Abril 1, 2018 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia da https://www.tsf.pt/ de 14 de março de 2018.

No TSF-Pais e Filhos de hoje, conversamos com Filipe Custódio, especialista em cibersegurança, sobre a influência dos youtubers nas crianças e como lidar com a situação.

Seguem-nos com toda a atenção, são ídolos para eles porque por alguma razão conseguiram captar-lhes a atenção, mas muitas vezes o que preconizam vai contra os princípios que os pais defendem e há ideias perigosas.

Filipe Custódio, especialista em cibersegurança, alerta para esta realidade. “Atenção que por vezes há outros educadores que estão em nossa casa, nos telemóveis deles que dizem exatamente o contrário do que nós estamos a dizer”, conta. Perante isto, este especialista em cibersegurança defende que só há uma solução: “o debate franco e aberto com os nossos filhos”.

Para Filipe Custódio não basta dizer que o que determinado youtuber está a dizer é mentira, é preciso argumentar e mostrar outras outras fontes. Por outro lado, Filipe Custódio defende que os pais não devem condicionar a ideias políticas dos filhos ainda que essas ideias possam não ser iguais às dos pais. “Expô-los a várias realidades, é o máximo que podemos fazer”, defende.

ouvir as declarações de Filipe Custódio no link:

https://www.tsf.pt/sociedade/interior/quando-as-criancas-e-jovens-acreditam-mais-nos-youtubers-do-que-nos-pais-9183207.html

 

“Todas as crianças do mundo merecem avós portugueses”. Esta é a conclusão do homem que estuda felicidade

Março 22, 2018 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Responsável por colocar o Hygge nas bocas do mundo, Meik Wiking está de volta à escrita com ‘O Livro do Lykke’. Mais do que uma reflexão sobre a vida e a felicidade, esta obra debruça-se sobre os seis elementos da felicidade humana e de que forma é que a podemos alcançar através de dicas práticas. O escritor dinamarquês esteve em Lisboa para a apresentação do livro e esteve à conversa com o SAPO Lifestyle.

‘O Livro do Hygge’ focou-se no Hygge que, para além de ser uma parte importante da identidade cultural da Dinamarca, é descrito como o segredo dinamarquês da felicidade. O novo livro explora o conceito Lykke – que em português quer dizer felicidade – e revela os segredos das pessoas mais felizes do mundo. O que o motivou a escrever ‘O Livro do Lykke’?

O segundo livro fala sobre aquilo que eu faço enquanto Presidente do Happiness Institute Research e qual o meu objetivo de vida: tentar perceber o que leva à felicidade. Há cinco anos fundei este think tank porque tinha curiosidade sobre determinadas questões. “Por que é que algumas pessoas são mais felizes do que outras?”, “Como podemos melhorar a nossa qualidade de vida?”, “Por que é que a Escandinávia tem uma boa posição no ranking da felicidade?” Toda a pesquisa que fiz nessa área está neste livro. Tentei torná-lo acessível e apresentar os dados que analisámos às pessoas.

No livro afirma que é muito mais fácil para as pessoas focarem-se nas coisas negativas do que na beleza e no bem do mundo em que vivemos. Não considera que isso é uma consequência da forma como os meios de comunicação retratam o mundo que nos rodeia?

Sim, é exatamente isso. Nós vemos morte, terrorismo e desemprego nas notícias porque é assim que os meios de comunicação social funcionam. Somos expostos a conflitos diários mas se olharmos para os dados de como o mundo está a evoluir constatamos o seguinte: existem retrocessos mas, de uma forma geral, o mundo é muito melhor hoje em dia do que há 50 anos. Há mais igualdade entre géneros, menos mortalidade infantil, mais esperança média de vida e menos pessoas a viver em pobreza. Há muitas coisas boas a acontecerem mas temos tendência a focar-nos nas coisas negativas.

O Meik Wiking afirma que Portugal tem os pais mais felizes do mundo. Como é que chegou a essa conclusão?

Ter filhos é ótimo para a dimensão da felicidade que está relacionada com o nosso propósito de vida. Quando as pessoas têm filhos sentem que estes dão propósito, direção e significado à vida. Mas quando se analisam os níveis de satisfação de forma imparcial, vemos diferentes resultados dependendo dos pais. Nos Estados Unidos 12% dos pais são menos felizes do que aqueles que não têm filhos. No Reino Unido são 8% menos felizes. Do outro lado do espectro temos Portugal. Aqui, os pais são mais felizes do que as pessoas que não têm filhos. Uma das explicações centra-se no facto de os progenitores serem melhores a incorporar a geração dos avós no crescimento dos filhos. Todas as crianças merecem avós portugueses e políticas escandinavas favoráveis à família. [Risos]

Comparativamente com a Dinamarca, Portugal ainda tem um longo caminho a percorrer quando o assunto é felicidade. Que aspetos é que podemos melhorar de forma a subirmos no ranking dos países mais felizes do mundo?

Portugal é um país curioso porque ocupa a 89ª posição no Relatório Mundial da Felicidade. Há lugar para melhorias e acho que a questão da empregabilidade é um importante fator em Portugal. Mas acho que todos os países, incluindo a Dinamarca, podem ter um melhor desempenho nos seis fatores analisados no livro: convívio, dinheiro, saúde, liberdade, confiança e bondade.

O ser humano move-se em torno de um objetivo comum: ser feliz. Por que razão é que muitas pessoas acham que a fama e a fortuna são imprescindíveis para atingir a felicidade?

Nós procuramos a felicidade porque é bom [Risos]. Uma das razões pelas quais buscamos fortuna é porque entendemos que o dinheiro é importante para a felicidade. É verdade que para fugir à pobreza e à miséria é necessário dinheiro e muitos de nós pensamos que essa dependência se mantém ao longo da nossa vida. Nós não entendemos algo a que os economistas chamam de Lei da Utilidade Marginal Decrescente: quanto mais temos de uma coisa menos prazer retiramos dela. Quando comemos uma fatia de bolo sabe-nos bem, mas à quinta fatia isso já não acontece. E o mesmo se passa com o dinheiro. O facto de ganhamos mais ao final do mês não vai impactar a nossa satisfação com a vida, o nosso propósito ou as emoções que sentimos diariamente. Outra razão prende-se com o facto de o dinheiro ser fácil de comparar, deixando que isso pese demasiado na nossa vida. O terceiro fator pelo qual buscamos dinheiro mais do que devemos tem que ver com o facto de sermos seres sociais: estamos sempre a fazer comparações e queremos sempre o que os outros têm e mais.

Outro dos temas abordados no livro prende-se com o uso excessivo das redes sociais e na forma como os dispositivos eletrónicos afetam a felicidade, a satisfação com a vida e as relações sociais. De que forma é que podemos contornar este problema?

Diariamente somos confrontados com imagens editadas de vidas perfeitas. Mas a verdade é que as imagens que postamos no Instagram são highlights da nossa vida e não a nossa vida real. Talvez seja necessária mais transparência e abertura quando se fala em redes sociais pois ninguém tem uma vida perfeita e isenta de problemas. Temos de aprender a usar esta nova tecnologia de forma mais benéfica. É difícil porque estamos a falar de gratificação instantânea e a vida, de certa forma, é uma luta constante entre objetivos a longo prazo e gratificação instantânea. Gostava muito que as escolas, as famílias e as comunidades tentassem encontrar soluções para afastar as pessoas dos telefones. Há um colégio interno dinamarquês que tira os aparelhos aos estudantes que só os podem utilizar durante uma hora por dia. Ao fim de seis meses, os alunos votaram se o colégio deveria implementar este método ou se os telefones deveriam ser devolvidos. A conclusão foi que 80% optou pela permanência deste sistema porque criaram uma comunidade com as pessoas que estavam à sua volta. E acho que este caso é uma ótima inspiração para as famílias e as comunidades se juntarem durante algumas horas. Acho que este é o caminho a seguir.

Um dos estudos apresentados refere que as pessoas que trabalham por conta própria são mais felizes do que aquelas que trabalham por conta de outrem. Que conselho daria a quem não se sente realizado profissionalmente mas tem medo de arriscar?

Acho que é uma decisão difícil de tomar. Não sei se tenho um conselho para dar mas posso usar a minha história como exemplo. Durante sete anos trabalhei como diretor de um think tank direcionado para a economia sustentável. Ganhava bem mas não era apaixonado por aquilo que fazia. E para além disso senti que a minha aprendizagem tinha estagnado. Em 2012 comecei a ver o que estava a acontecer com os estudos globais sobre a felicidade, diferentes governos começaram a medir a qualidade de vida e percebi que queria trabalhar nessa área. Queria perceber como podíamos medi-la, porque é que havia pessoas mais felizes que outras e por que razão a Dinamarca se destacava no Relatório Mundial da Felicidade. Achei que alguém deveria criar um think tank sobre a felicidade e foi aí que pensei: “Eu deveria fazer isso.” Foi um risco muito grande porque não sabia se podia viver disso. Isto foi depois da recessão económica e na altura em que um amigo meu morreu com cancro, aos 49 anos. No momento eu tinha 34 e apercebi-me de que faltavam 15 anos até completar 49. Foi aí que pensei “O que é que eu vou fazer durante este tempo que me resta? Vou ficar neste emprego que não me preenche ou vou criar o think tank que, apesar de ser uma ideia louca, pode ser muito divertido”? No meu caso, a coragem para mudar a minha vida partiu da ideia de que o tempo é limitado e que temos de saber aproveitá-lo da melhor forma. Se as pessoas souberem de outro caminho, que as fará mais felizes, é uma boa direção.

No livro ressalva a importância do convívio e das relações pessoais, afirmando que “quantas mais pessoas tivermos com quem possamos falar de assuntos particulares, mais felizes seremos.” A felicidade humana é determinada pela existência de um parceiro ou pelo casamento?

Se formos dividir as pessoas que estão casadas/numa relação e as pessoas que são solteiras concluímos que as pessoas que são casadas são, em média, mais felizes. Mas isso nem sempre quer dizer que o casamento nos proporcione mais felicidade. Claro que há sempre uma causa e efeito mas quando observamos as pessoas vemos o seguinte: as pessoas mais felizes, otimistas e positivas têm mais facilidade em atrair um parceiro mas também é possível aumentar a felicidade através do casamento. Em muitos países, isto afeta mais os homens do que as mulheres porque os homens buscam o companheirismo e a partilha no casamento enquanto as mulheres conseguem isso sem um homem ao seu lado. E no caso do casamento vemos que as pessoas que sentem que o seu parceiro é o seu melhor amigo são ainda mais felizes. Mas será que podemos ser felizes sem o casamento? Claro que sim, mas acho que todos precisamos de ter alguém que nos apoie, que nos compreenda e que nos oiça. E por vezes isso vem na forma de um marido ou de outra coisa.

Aceitar que todos temos bons e maus dias é fundamental para sermos pessoas mais felizes?

Sim e isso é uma coisa que eu e os meus colegas salientamos nas nossas apresentações porque as pessoas acham que nós, pesquisadores da felicidade, estamos sempre felizes. E isso nem sempre é assim. Nós também temos preocupações, ficamos frustrados, stressados, cansados, furiosos, tristes e isso faz parte da vida. Acho que é importante que as pessoas reconheçam isso e que percebam que não existe um nível constante elevado de felicidade.

O que mais o surpreendeu durante o processo de pesquisa para escrever “O Livro do Lykke”?

Ao longo destes cinco anos uma das maiores surpresas foi o elemento genético. Nos Estados Unidos gémeos idênticos foram adotados por dois casais e a partir desses estudos conseguimos ver que os gémeos idênticos, com materiais genéticos idênticos, tem níveis de felicidade muito parecidos. Existe uma dimensão genética semelhante quando olhamos para o campo da saúde mental, como é o caso da depressão, esquizofrenia e ansiedade. Outra coisa que me surpreendeu foi ter consciência de que acima de tudo somos humanos e conseguimos ver nos dados que a mesma coisa que leva à felicidade em Lisboa é igual em Calcutá e em Tóquio. E chegar a essa conclusão é algo maravilhoso especialmente nesta altura.

A felicidade total existe ou é um mito?

Talvez exista num momento específico mas é algo bastante difícil de manter por um longo período de tempo. Na Dinamarca temos uma expressão que diz o seguinte: “Não devemos deixar que a perfeição seja inimiga das coisas boas”. E acho que isso é uma boa filosofia de vida. Vão existir sempre coisas melhores mas não devemos deixar que nada roube o nosso prazer momentâneo. É uma estratégia que devemos adotar em vez de almejar algo impossível.

O que pretende que as pessoas retirem deste livro?

Gostava que as pessoas percebessem o que leva à felicidade. Este livro explica que a Dinamarca não tem o monopólio da felicidade e que podemos encontrá-la em outras partes do mundo. É um menu com dicas e ideias que as pessoas podem implementar na sua vida. Se o leitor implementar uma dessas dicas na sua vida já ficava feliz.

 

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