Apresentação do livro “Divórcio e Parentalidade : Diferentes Olhares : Do Direito à Psicologia” – 27 fevereiro no Instituto Alemão em Lisboa

Fevereiro 22, 2018 às 9:00 am | Publicado em Livros | Deixe um comentário
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Pais que “mimam” os filhos estão a criar uma geração de adultos deslocados e incapazes de lidar com frustração

Fevereiro 15, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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À mesa do restaurante, o João faz uma fita a exigir o telemóvel da mãe para se distrair durante o almoço. A Maria atira-se para o chão da loja de brinquedos porque quer que o pai lhe compre aquela boneca, agora. E, sentado no sofá de casa, o Pedro irrita-se com os pais porque quer uma resposta urgente sobre poder ou não ir à festa dos amigos no sábado à noite. Todos eles, independentemente da idade, têm algo em comum: vão tornar-se adultos “mimados”, incapazes de lidar com as frustrações do mundo.

A culpa do destino destes três, João, Maria e Pedro, é do imediatismo que rege as relações atualmente. Temos, enquanto pais, dito muitos “sim” aos filhos quando na verdade, o ideal seria dizer mais “não sei” ou “vou pensar”. Como explica a psicóloga e educadora Rosely Sayão, essa atitude traz como maior prejuízo uma alienação em relação à realidade.

— O adulto que tem o culto do imediatismo, em vez de ser uma pessoa controlada, tem dificuldade em aceitar as situações e inserir-se no mundo.

Pressionados a responder às demandas dos filhos imediatamente, os pais acabam por soltar as respostas impensadas, e a consequência, na visão da coach de vida e carreira Ana Raia, é a criação de jovens pouco preparados para lidar com a vida.

Os pais atualmente não aguentam não ceder ao imediatismo. No passados os pais permitiam-se em deixar os filhos insatisfeitos por muito tempo. Hoje em dia, com o stress, acabam por ceder à pressão rapidamente, criando assim um dos maiores desafios na educação das crianças e jovens: o imediatismo.

Ana Raia acredita que a tecnologia contribui para o imediatismo, uma vez que, ao toque de um dedo no ecrã, a resposta para qualquer pergunta ou busca de informação podem ser obtidas em pouquíssimos segundos. Temos o mundo dentro de nossa casa, dentro da nossa carteira, dos nossos bolsos.

Não conseguimos sustentar uma dúvida por muito tempo, um incómodo, uma pulga atrás da orelha. Não sabemos lidar com um mal-estar num mundo onde a felicidade é imperativa.

E a dúvida, explica Rosely Sayão, é preciosa, assim como a espera e o pensamento porque ajudam a criança a crescer e a amadurecer. Crianças que não têm momentos de “mente vazia”, por exemplo, poderão sofrer graves consequências na vida adulta.

Alguém que está sempre entretido terá para sempre a necessidade de entretenimento constante, alerta o médico Daniel Becker, criador do projeto Pediatria Integral. Defende que, para ser criativo, o cérebro humano precisa da criatividade.

— São necessários momentos de engajamento externo e momentos  de ócio em estado de contemplação. Quando uma criança tem o seu tempo completamente controlado com atividades como escola, inglês, natação, Facebook, Instagram, WhatsApp, etc, acaba por ficar incapacitada de desenvolver processos interiores profundos e importantes.

Becker acrescenta que crianças que não interagem com os seus pares ou mesmo com adultos porque passam o dia com gadgets na mão, desenvolverão menos a inteligência emocional, a empatia e a capacidade de comunicação quando crescerem.

Se este não fosse já um bom argumento, ainda haveria a opinião de outros especialistas, que encaram o hábito dos pais entregarem telemóveis e tablets às crianças, como algo benéfico apenas para os adultos.

Na opinião de Rosely Sayão, dar um gadget à criança em momentos onde seria suposto sociabilizar com a família e os amigos, não é um carinho, mas sim, um comodismo.

— O telemóvel e o tablet nestas situações têm a função do “fica sossegado”, e nada mais.

Mas, então, o que devemos fazer quando estamos a almoçar com amigos ou em família, e os miúdos não param de chatear para irmos embora?

O pediatra Daniel Becker diz que:

“As pessoas esquecem-se que as crianças sabem conversar e que podem fazer pequenas conversas. Mesmo as mais pequenas têm esta capacidade de compreensão. Basta dizer ao filho que, nos momentos em que estiverem a conversar em família, ele não terá o tablet, mas que, quando os pais estiverem a falar só com os seus amigos, ele poderá jogar por 15 minutos. Assim, alcança-se um equilíbrio.

Soluções como esta são recursos para que os pais lidem não só com o imediatismo das crianças, mas também o deles que, de forma não intencional pode servir de exemplo negativo aos filhos, que acabam por copiar as atitudes da família.

Para o pediatra presidente do Congresso Brasileiro de Urgências e Emergências Pediátricas, Hany Simon, a ansiedade e a angústia na adolescência e na vida adulta podem ser resultados do imediatismo paterno presenciado na infância. E, como reforça Rosely Sayão, viver de forma “urgente” só traz impactos emocionais negativos nas crianças.

— Somos escravos do imediato desde que nascemos. Choramos para mostrar rapidamente que estamos vivos, somos atendidos e temos as nossas necessidades básicas saciadas. Com isto, vem também uma sensação de prazer, que vamos desejar para sempre. No entanto, não é o princípio do prazer que vai reger a nossa vida mas sim o princípio da realidade. O papel dos pais é mostrar aos filhos a realidade do mundo.

imagem@umcomo.com

Publicado em R7, adapatado por Up To Kids®

 

Trate os seus filhos com cuidado: eles são feitos de sonhos

Fevereiro 14, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto da http://www.revistapazes.com/ de 16 de março de 2017.

Por Valeria Sabater

A infância tem o seu próprio ritmo, a sua própria maneira de sentir, ver e pensar. Poucas pretensões podem ser tão erradas como tentar substituí-la pela forma como nos sentimos, vemos ou pensamos, porque as crianças nunca serão cópias dos seus pais. As crianças são filhas do mundo e são feitas de sonhos, esperanças e ilusões que se acumulam nas suas mentes livres e privilegiadas.

Há alguns meses saiu uma notícia que nos desconcerta e nos convida a refletir. No Reino Unido, muitas famílias preparam as suas crianças de 5 anos para que aos 6 possam fazer um teste, que lhes permite ter acesso às melhores escolas. Um suposto “futuro promissor” pode causar a perda da infância.

De que adianta uma criança saber os nomes das luas de Saturno, se não sabe como lidar com a sua tristeza ou raiva? Eduquemos crianças sábias nas emoções, crianças cheias de sonhos, e não de medos.

Hoje em dia, muitos pais continuam com a ideia de “acelerar” as habilidades de seus filhos, de estimulá-los cognitivamente, colocá-los para dormir ao som de Mozart enquanto ainda estão no útero. Pode ser que essa necessidade de criar filhos aptos para o mundo esteja a educar filhos aptos apenas para si mesmos. Criaturas que com apenas 5 ou 6 anos sofrem o estresse de um adulto.

Os nossos filhos e a competitividade do ambiente

Todos sabemos que nas sociedades em mudança e competitivas são necessárias pessoas capazes de se adaptarem a todas as exigências. Também não temos dúvidas de que crianças britânicas que conseguem entrar nas melhores escolas, conseguirão amanhã um bom trabalho. No entanto, também é necessário perguntar … Terá valido a pena todo o custo emocional? O perder a infância? O seguir as orientações de seus pais desde os 5 anos?

As crianças são feitas de sonhos e devem ser tratadas com cuidado. Se lhes dermos obrigações de adultos enquanto ainda são apenas crianças, arrancamos-lhes as asas, fazendo-as perderem a sua infância.

Respeitar o tempo, o afeto e os sonhos

A nossa obrigação mais importante é dar às crianças um “raio de luz”, para depois seguirmos o nosso caminho. – Maria Montessori

A curiosidade é a maior motivação do cérebro de uma criança, por conseguinte, é conveniente que os pais e educadores sejam facilitadores de aprendizagem, e não agentes de pressão. Vejamos agora abordagens interessantes sobre a parentalidade que respeita os ciclos naturais da criança e suas necessidades.

Pais sem pressa – Slow Parenting

O “Slow Parenting” (pais sem pressa) é um verdadeiro reflexo dessa corrente social e filosófica que nos convida a desacelerar, a sermos mais conscientes do que nos rodeia. Portanto, no que se refere à criança, promovemos um modelo mais simplificado, de paciência, com respeito aos ritmos da criança em cada fase de desenvolvimento.

Os eixos básicos que definem o Slow Parenting serão:
– A necessidade básica de uma criança é brincar e descobrir o mundo;
– Nós não somos “amigos” de nossos filhos, somos suas mães e pais. Nosso dever é amá-los, orientá-los, ser seu exemplo e facilitar a maturidade sem pressão;
– Lembre-se sempre de que “menos é mais”. Que a criatividade é a arma dos filhos, um lápis, papel e um campo têm mais poder do que um telefone ou um computador;
– Compartilhe tempo com seus filhos em espaços tranquilos.

Parentalidade respeitadora consciente
Embora o mais conhecido desta abordagem seja o uso de reforço positivo sobre a punição, este estilo educativo inclui muitas outras dimensões que valem a pena conhecer.

Devemos educar sem gritar.
O uso de recompensas nem sempre é apropriado: corremos o risco de nossos filhos se acostumarem a esperar sempre recompensas, sem entenderem os benefícios intrínsecos do esforço, realização pessoal.

Dizer “não” e estabelecer limites não vai gerar nenhum trauma, é necessário. O forte uso da comunicação, escuta e paciência. Uma criança que se sente cuidada e valorizada é alguém que se sente livre para manter os sonhos da infância e moldá-los até a idade adulta.

Respeitemos a sua infância, respeitemos essa etapa que oferece raízes às suas esperanças e asas às suas expectativas.

 

 

A SuperNanny mostrou aquilo que os professores há muito dizem

Fevereiro 9, 2018 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do http://www.comregras.com/ de 23 de janeiro de 2018.

Por Alexandre Henriques

Já lá vamos à forma, mas para já o conteúdo.

O programa SuperNanny expõe claramente a falência da família. Há anos que os professores se queixam da incapacidade de alguns pais em educar os seus filhos, da sua negligência, da sua cegueira em constatar o óbvio, o óbvio que são pais incompetentes,  mal preparados para a paternidade e que precisam de ajuda.

Ser pai e mãe, não é uma capacidade inata como muitos dizem, é preciso aprender a parentalidade e alguns não têm perfil para aprender, nunca tiveram e não é por serem pais que passaram a ter.

Quando assisto a pais que acusam os professores de incompetência, que os seus filhos são os titulares absolutos da verdade, quando recusam os conselhos dos professores/psicólogos, chegando ao ponto de prejudicarem o sucesso educativo dos seus filhos, estamos perante uma derrota educativa dos filhos, mas também dos pais…

A SIC tem o mérito de ter exposto o que há muito é conhecido pelos professores, mas infelizmente as suas queixas nunca foram ouvidas, verdadeiramente ouvidas. É preciso trabalhar as famílias, a indisciplina que reina nas escolas é uma manifestação evidente da dificuldade dos pais em educar os seus filhos, uma educação que se baseia em muitos direitos e poucos deveres, em poucos nãos e muitos sins, uma educação que é comprada pelos objetos e escasseia em responsabilidade e autonomia.

Faltam meios no terreno para ajudar os pais, falta uma responsabilização efetiva dos pais, falta uma educação parental a tempo e horas, antes do mal se tornar maior e impossível de alterar.

Quanto à forma que a SIC escolheu para “ajudar” os pais, bem…

Será que os responsáveis da SIC aceitariam que entrassem 5 a 10 pessoas casa adentro, filmando os seus filhos, as discussões que têm com estes, as suas lágrimas em grandes planos, expondo-os a milhões de espectadores?

Será que os responsáveis da SIC aceitariam fazê-lo gratuitamente ou vendiam esses momentos privados por cerca de 1000 €? As discussões têm preço? A privacidade tem preço? Quando valem as lágrimas de uma criança???

Que acompanhamento é que a SIC e a sua SuperNanny irá dar às crianças/jovens que foram violadas na sua privacidade, atiradas aos olhares e comentários de colegas em idade perfeita para fenómenos como o bullying, a exclusão social e afins, durante as próximas semanas/meses?

Que acompanhamento é que a SIC e a sua SuperNanny vão dar, às milhares de crianças que vão tentar reproduzir aquilo que viram na televisão, pois como apareceu na televisão é fixe, é válido, é importante?

O que a SIC fez e o que os pais que já eram incompetentes provaram mais uma vez que o são, foi vender um produto, foi ganhar dinheiro com um produto, um produto que é uma criança/jovem que não tem voto na matéria e que também ela foi comprada pelos seus 15 minutos de fama.

Os danos foram feitos, as marcas vão ficar e apesar das estratégias de sucesso que são transmitidas aos pais terem valor, nada, NADA pode ultrapassar o direito à privacidade e o dever dos pais em protegerem os seus filhos. Onde estarão as SuperNannys e os pais quando o Zé, a Maria, o Manel, gozarem com as novas “estrelas” televisivas? Onde estarão quando estes forem vítimas da inveja de terceiros, da arrogância própria de quem de repente passou a ser famoso e que por isso julga-se mais importante que os outros?

Hoje em dia os professores não podem tirar uma fotografia aos alunos…

Hoje em dia os professores não podem filmar os alunos por motivos pedagógicos (correções de gestos técnicos por exemplo), mesmo que os pais autorizem, existem orientações das “Europas” que o impedem…

Hoje em dia questionamos se as notas devem ser afixadas…

Hoje em dia não é permitido passar uma simples circular com o nome dos alunos castigados para servirem de exemplo aos restantes, tudo em nome da privacidade dos prevaricadores…

Mas em pleno horário nobre, tudo é esquecido, tudo vale e damos de caras com este belo espetáculo mediático, ignorando todos os princípios éticos e de elementar bom senso.

E para todos aqueles que apontam o dedo à exposição mediática das crianças, quantos de vós é que não publicam fotografias e vídeos dos vossos filhos, dia sim dia sim nas redes sociais?

Vivemos numa sociedade com duas faces e com muitos telhados de vidro…

Alexandre Henriques

 

O miúdo porta-se mal? Não chame a supernanny

Fevereiro 3, 2018 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Patricia Poppe (de blusa branca) convida os pais a ouvirem-se DR

Notícia do https://www.publico.pt/ de 21 de janeiro de 2018.

Não há uma receita para educar, mas há ajudas a que os pais podem recorrer. Da família à ajuda profissional. Tudo menos expor os filhos ao olhar público.

Bárbara Wong

Não é fácil educar. É raro o pai que nunca se confrontou com um dilema, com uma dúvida sobre a educação dos filhos. E agora o que vou fazer? Fiz bem? Devia ter feito de outra maneira? A culpa é minha? Se calhar tenho de pedir ajuda, mas a quem? O polémico programa televisivo Supernanny procura dar essa ajuda aos pais dos filhos mais mal comportados. O guião é simples: há uma família que precisa de ajuda e há uma psicóloga ou terapeuta familiar que tem a solução. A criança problemática deixa de o ser e os pais aprendem a gerir os problemas. Final feliz? Nem por isso. Não é na televisão nacional que se resolvem os problemas privados. Os pais têm outras alternativas.

O programa foi para o ar no último domingo e na segunda-feira de manhã já a Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Protecção das Crianças e Jovens (CNPDPCJ) criticava o conteúdo por considerar que existe um “elevado risco de o programa violar os direitos das crianças, designadamente o direito à imagem, à reserva da vida privada e à intimidade”. Também a UNICEF e o Instituto de Apoio à Criança subscreveram as críticas; e a Entidade Reguladora para a Comunicação Social e a Ordem dos Psicólogos receberam queixas. No final da semana, a família do segundo episódio pedia para que este não fosse para o ar; e a Comissão de Protecção de Crianças e Jovens de Loures exigia à SIC que retirasse as imagens da criança do primeiro episódio do ar, ao que a estação respondeu que não iria obedecer.

A SIC defende que Supernanny é um programa com “uma vertente pedagógica”, acrescentando que o objectivo “é sempre o de auxiliar pais e educadores a melhorarem a relação com os seus filhos, ajudando-os a estabelecer regras e limites e melhorando a comunicação entre todos, criando assim uma dinâmica familiar mais saudável”. Em causa está o superior interesse da criança, abalado com a exposição mediática, dizem as entidades que se mostram contra o programa e também os especialistas com quem o P2 falou para este trabalho. Portanto, é ponto assente que se os pais estiverem muito desesperados com o comportamento dos filhos, não devem recorrer a um meio onde os problemas da sua família fiquem expostos à vista de milhares de pessoas. A audiência do primeiro episódio foi de um milhão de espectadores.

Então a quem recorrer? Em primeiro lugar à família e aos amigos. Às vezes não é fácil tomar a decisão de pedir ajuda externa porque os pais têm vergonha de não serem capazes de gerir o problema sozinhos, reconhece José Morgado, especialista em Psicologia da Educação e professor e investigador no ISPA, em Lisboa. “Às vezes, os pais têm pudor em pedir ajuda porque acham que são péssimos pais. É preciso trabalhar a auto-estima dos pais”, defende.

Mas não deveria ser um problema pedir ajuda, diz por seu lado Ana Teresa Brito, da Fundação Brazelton/José Gomes Pedro. E a ajuda está em todo o lado. No médico que acompanhou o casal durante a gravidez, no pediatra da criança, no enfermeiro do posto de saúde que dá as vacinas, no educador de infância que a recebe na creche ou no pré-escolar, enumera a especialista. Há toda uma “aldeia” de profissionais que podem ajudar a família porque estabeleceram uma relação com ela, declara. “Uma aldeia cuja família respeite e confie”, acrescenta.

E se essa aldeia não funcionar? Porque o ideal é que funcione, mas pode não ser suficiente. Então há ajudas mais especializadas. José Morgado acredita que o psicólogo de educação é o profissional que pode ajudar os pais e as crianças ou adolescentes em questões de comportamento em casa ou na escola. Ao psicólogo de educação cabe “ouvir e fazer perguntas, muitas perguntas” para compreender o que se passa naquela família. “Mas quando se instala em mim a dúvida se é um problema de saúde mental, então encaminho para a pedopsiquiatria. É preciso sensibilidade no âmbito técnico, mas também ético”, defende o professor.

Pais em grupo

Muitas vezes as dúvidas dos pais só precisam de ser partilhadas, por exemplo, em grupo. Há 14 anos que a Universidade Católica Portuguesa, no Porto, tem o projecto Aprender a Educar, com sessões sobre temas de parentalidade. Para participar “basta ser pai”, informa Mariana Negrão, coordenadora do projecto, que reconhece que este chega sobretudo a pais mais informados, que vão à universidade ouvir especialistas, mas também expor as suas dúvidas. Até agora foram feitas 140 sessões para três mil participantes.

O programa tem saído de portas para a comunidade, para escolas e colégios, mas também para “contextos mais complexos” como é o dos pais com Rendimento Social de Inserção, por exemplo. Nesses casos, tratam-se questões específicas e adaptadas ao público, mas o esquema é sempre o mesmo: expõe-se o tema, ouvem-se os pais partilhar as suas dúvidas ou as suas histórias. Também José Morgado faz o mesmo, a convite de instituições de Norte a Sul do país, ilhas incluídas. “Os primeiros 20 minutos falo, depois abro espaço para debate e a coisa corre bem. No final há pais que vêm falar dos seus problemas”, resume.

O modelo de Escola de Pais de Patricia Poppe, psicóloga educacional e psicoterapeuta, é diferente. Desde 2014 que a especialista iniciou um programa para os encarregados de educação da Escola Alemã, em Lisboa, onde trabalha desde 1986. Uma vez por semana, durante 15 sessões de hora e meia, os pais reúnem-se e conversam entre si. Falam de tudo e aprendem a ouvir. Não vão ali para ouvir receitas, mas naquela partilha podem encontrar soluções para a maneira como educam, explica a psicóloga, que também faz este trabalho de grupoanálise no seu consultório privado.

Para entrar no grupo é preciso passar por uma entrevista e conhecer bem as regras: escutar os outros, respeitar a sua opinião, saber que tudo o que ali se diz é confidencial, comprometer-se a ir regularmenta e evitar encontrar-se com os outros pais fora do grupo. “São limites seguros que são criados, que permitem que se fale sobre o que se sente, sem medo, sem julgamentos”, explica Patricia Poppe.

Não há receitas

“Muitos pais querem fazer o melhor, mas não conseguem lá chegar. Por isso, [neste grupo] procuro criar um ambiente acolhedor e de segurança para que os pais possam falar abertamente e partilhar”, assim, os pais descobrem que os outros têm problemas semelhantes ou antevêem as questões com que se poderão confrontar mais tarde – porque os grupos são feitos com pais que têm filhos de diferentes idades. Esta partilha faz com que “diminua a vergonha e a culpa”. “Quando os filhos têm problemas, os pais sentem que a culpa é deles”, constata a psicóloga.

Este é um modelo em que não se privilegia a “parte cognitiva e racional”, que é o que acontece nas sessões onde um especialista fala de um tema; mas que os pais vivem porque escutam os outros. “Tudo o que se passa no grupo vai ser interiorizado e levado para casa. Esta é a grande mais-valia”, sublinha Patricia Poppe, acrescentando que “não há uma receita”. “Ninguém diz como é que os pais têm de fazer [em relação ao comportamento dos filhos], os pais descobrem sozinhos porque nada é imposto, vem do seu interior”, reforça.

 

Um conselho que Ana Teresa Brito dá aos pais é “ouvir a sua intuição”. “Acreditamos que os pais são os maiores especialistas, mesmo quando estão a falhar, porque foram eles que sonharam o seu bebé”, justifica.

Não há uma receita para educar, mas há coisas que se podem aprender, defende Mariana Negrão. Assim como há cursos de preparação para o parto também devia haver de parentalidade, considera. “Não se nasce ensinado, os pais têm de experimentar, ir aprendendo e não ter receio de expor a sua ‘incompetência'”, acrescenta.

Hoje os pais sentem a pressão para serem perfeitos, continua a professora da Católica. Mas “não precisamos de superpais”, diz José Morgado. “Se houvesse receitas, saíamos todos direitinhos, desenhados a regra e esquadro. Claro que há princípios e valores que devem ser ensinados, mas que servem para apoiar a relação da criança com o mundo. Não queremos que haja uma receita para educar porque cada criança é única e queremos que as crianças recriem o mundo!”, conclui Ana Teresa Brito.

 

 

 

 

 

Quem educa a Supernanny?

Janeiro 31, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de PedroTadeu publicado no https://www.dn.pt/ de 23 de janeiro de 2018.

Não se põe uma criança a chorar frente a um milhão de pessoas. Não se disciplina uma criança frente a um milhão de pessoas. Não se ralha a uma criança frente a um milhão de pessoas. Não se discute a educação de uma criança frente a um milhão de pessoas.

Não se discute o amor dos pais de uma criança para uma plateia de um milhão de pessoas. Não se faz de um quarto de uma criança o palco de um espetáculo ridículo para um milhão de pessoas. Não se faz de uma criança um ator amacacado da sua própria personalidade, só para conseguir entreter um milhão de pessoas.

Não se inculca, condiciona, manipula, negoceia, chantageia, castiga, premeia ou envergonha uma criança frente a um milhão de pessoas. Não se explora, para gozo de um milhão de pessoas, a imaturidade, a inocência, a infantilidade de crianças inconscientes, inconstantes, incoerentes, irresponsáveis e, por tudo isso, indefesas.

Não se faz negócio, comércio, tráfico de emoções com crianças que nunca podem estar preparadas, precisamente por serem crianças, para decidir, por si só, em consciência, se realmente é do seu interesse aceitar vender o riso ou a lágrima a um milhão de pessoas.

Não se mostra a um milhão de pessoas uma criança, aos berros, descontrolada de raiva. Não se mostra a um milhão de pessoas uma briga, estúpida, de crianças irmãs.

Não se revelam os erros de uma criança a um milhão de pessoas. Não se divulgam os erros dos pais de uma criança a um milhão de pessoas.

Uma criança numa família disfuncional não é exemplo pedagógico para um milhão de pessoas.

Uma criança com pais incompetentes, doentes, amargos, deprimidos, gananciosos, egocêntricos, incautos, distraídos, enganados, esmagados ou pouco inteligentes não pode ser usada como modelo comportamental para um milhão de pessoas.

Uma criança com dificuldades de aprendizagem, de socialização, de agressividade, de timidez, de obediência ou de afirmação não pode ser exibida a um milhão de pessoas como exemplo sintético do mal psiquiátrico ou analítico do desvio psicológico.

Uma criança com problemas pessoais ou familiares deve ser ajudada, sim, mas não deve ver o seu problema íntimo, intransmissível, único, ser transformado num anátema eternizado para o resto da vida através da exposição a um milhão de pessoas das suas dores, sejam superficiais, sejam profundas.

A alegria, a tristeza, o êxito, o fracasso, a angústia, a candura, a malícia, a perversidade, o carácter de uma criança não é assunto para ser debatido por um milhão de pessoas como quem discute o enredo de uma telenovela .

O problema da Supernanny, com o seu casaquinho vermelho, as sobrancelhas arrebitadas e os maneirismos queques, qual diabinho simpático, não são as múltiplas ideias que ela tem sobre a educação das crianças e das suas famílias. O problema da Supernanny é ela não ter recebido educação essencial para reter uma única ideia ética sobre a era mediática.

Sendo assim, usando pedagogia antiga, proponho que para educar a Supernanny a obriguem a escrever, num quadro de ardósia, um milhão de vezes, tantos quantos os espectadores do seu programa, a seguinte frase: “A intimidade de uma criança não é um espetáculo giro. A intimidade de uma criança não é um espetáculo giro. A intimidade de uma criança não é um espetáculo giro. A intimidade de uma criança não é um espetáculo giro. A intimidade de uma criança não é um espetáculo giro. A intimidade de uma criança não é um espetáculo giro…”

 

“Não há conteúdo pedagógico sério”: o que os especialistas dizem de SuperNanny

Janeiro 17, 2018 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do http://observador.pt/ de 15 de janeiro de 2018.

Ana Cristina Marques

Tânia Pereirinha

Psicólogos e pediatras condenam a exposição das crianças, mas dizem que SuperNanny faz pensar na falta de soluções para apoiar estas famílias. No estrangeiro, houve críticas graves a programas iguais.

Mãe e filha debatem-se na imposição de regras. Chegada a hora de ir dormir, a menina de sete anos faz birra porque não quer ir para a cama. A mãe vê-se forçada a impor um castigo, que passa por sentar a menina no banco durante alguns minutos. A criança esperneia-se, chora e diz repetidamente “não quero ir para o banco”. Tudo isto acontece ao som de uma pianada melancólica e com a supervisão da SuperNanny, a apresentadora do programa emitido no domingo à noite, na SIC, que já levou a Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Proteção das Crianças e Jovens (CNPDPCJ) a emitir um comunicado a alertar para o “elevado risco” de o programa “violar os direitos das crianças, designadamente o direito à sua imagem, à reserva da sua vida privada e à sua intimidade”.

Académicos, psicólogos e pediatras dividem-se. Os diferentes especialistas na área da educação, contactados pelo Observador, falam num tom depreciativo sobre a exposição desnecessária a que a criança foi sujeita, e os conselhos transmitidos por Teresa Paula Marques, a apresentadora que no programa não se assume enquanto psicóloga, geram pouco consenso.

“Ela tem de voltar a formar-se”

“A estratégia do tempo de pausa foi completamente mal utilizada”, aponta Maria Filomena Gaspar, docente na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação, da Universidade de Coimbra. “Isto é muito mau”, continua, referindo-se precisamente ao momento em que a menina de sete anos é castigada e votada a ficar sozinha, sentada num banco. “Primeiro, não se isola a criança. Segundo, não se faz a criança sentir que está de castigo. O tempo de pausa é o tempo em que a criança se pode acalmar e nunca pode ser superior a cinco minutos”, afirma a docente, que fala ainda numa atitude “completamente desrespeitadora” para com a criança.

Filomena Gaspar, que assistiu ao programa de domingo à noite, refere que Teresa Paula Marques, cuja atuação já foi alvo de queixas recebidas na Ordem dos Psicólogos, “comportou-se como uma especialista”, no sentido em que impôs a necessidade de existirem respostas certas. “Ela é que dava as respostas todas, foi isso o que me chocou mais”, diz, destacando o facto de a SuperNanny não ter tido em conta as competências da mãe.

Maria Filomena Gaspar dá ainda outro exemplo, referindo-se ao momento de confrontação entre mãe e avó, na presença da pedagoga: “Aquilo não é intervenção, não tem nada que ver com terapia familiar. Ela [Teresa Paula Marques] não trabalha nem utiliza os modelos que promovem a mudança. Estes são modelos que dão receitas fáceis e tornam as pessoas dependentes dos especialistas. Não promovem a autonomia nem o crescimento pessoal”. A docente universitária deixa claro que a experiência profissional “não é, nem nunca foi, sinal de eficácia” e atira: “Ela tem de voltar a formar-se”.

Já o pediatra Jorge Amil Dias, presidente do Colégio da Especialidade de Pediatria, acrescenta que os “princípios gerais subjacentes aos conselhos dados parecem corretos”, ainda que devam ser “enquadrados nos problemas específicos de cada família”. “Há uma simplificação e tentativa de ‘tipificação’ de comportamentos que podem ser gravemente perniciosos”, acrescenta, condenando as “receitas mágicas” que diz estarem muito provavelmente condenadas ao insucesso e que podem ainda potenciar novos conflitos. Jorge Amil Dias defende ainda que o programa parece revelar “uma aparente teatralização de uma situação familiar”.

“O programa mostra a lacuna que existe na educação parental”

Isabel Abreu Lima, docente na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto (FPCEUP) prefere sugerir que há diferentes pontos de vista em causa e começa por dizer que não vê nenhuma atuação da psicóloga que seja “passível de recriminação”, apesar de apontar o dedo à exposição da criança de sete anos. “Há aqui um intuito de mediatismo, já não sabemos bem definir o que é público do que é privado, habituados que estamos à devassa total da vida privada. Por outro lado, tenho a dizer que o que a psicóloga está a transmitir aos pais é extremamente útil. É possível que tenhamos muitos pais e mães a identificarem-se com aquela situação”, diz, chamando a atenção para as estratégias positivas apresentadas no programa, isto é, a imposição de regras, a criação de rotinas e a definição de limites.

Dito isto, a mesma docente deixa claro que não é partidária “de fazer estas intervenções sem o devido enquadramento”, admite que a aprendizagem dos conselhos dados não é assim tão direta e imediata, e assegura que não é adequado largar “estas coisas” na esfera pública sem salvaguardar que são bem entendidas. Isabel Abreu Lima fala ainda na necessidade de uma intervenção preventiva face à educação parental: “O programa mostra a lacuna que existe ao nível da formação de pais e da informação dada aos pais. Não tenho dúvidas que a maior parte dos pais precise de ajuda e que ninguém lhes esteja a dar essa mesma ajuda”.

Filipa Jardim da Silva, psicóloga clínica contactada pelo Observador, concorda e fala da probabilidade de uma “mãe profundamente vulnerável” ter recorrido ao programa enquanto solução de último recurso. “Qual é o nível de oferta deste tipo de serviços em Portugal?”, questiona, ao mesmo tempo que defende não existir lugar para uma intervenção emocional nas consultas de psicologia nos hospitais públicos. “Vale a pena pensar, antes de criticar esta mãe e esta produção, qual seria a alternativa”, diz, reconhecendo que a forma do programa “não é perfeita” e que o nível de “exposição valeria a pena ser revisto e ponderado”.

“Este tipo de programas não agoira coisas positivas e embora se diga que só participa quem quer, as pessoas e as famílias que o fazem encontram-se em situações vulneráveis”, garante Miguel Ricou, presidente da Comissão de Ética da Ordem dos Psicólogos. É também ele quem diz que “nenhum modelo na psicologia defende a exposição pública”.

Para o pediatra já citado, Jorge Amil Dias, o programa assenta na “exploração ‘modernaça’ de conflitos e ansiedades familiares”, no qual “não há conteúdo pedagógico sério”.

Afinal, quem é a SuperNanny?

Se não fosse psicóloga, diz Teresa Paula Marques num dos vídeos de apresentação do novo reality show da SIC, seria jornalista, “pois tem na comunicação uma das suas paixões”. Aos 51 anos e em SuperNanny, a psicóloga volta a aproximar os dois mundos — há anos que colabora com várias revistas e canais de televisão.

A primeira colaboração foi com a revista Teenager, onde tinha uma espécie de consultório e respondia às dúvidas dos adolescentes. Seguiram-se Bravo, Mariana, TV Mais, Caixa Activa, Ageless, Certa, Professor +, Flash, Viver com Saúde, Abarca, Correio da Manhã e Pais & Filhos. E depois programas de televisão, como Muita Lôco e Queridas Manhãs (SIC) e Rua Segura (CMTV).

Em 1996 publicou o primeiro livro: Cada jovem é um caso. Até 2011, editaria outros quatro, todos relacionados com psicologia infantil ou juvenil: Como lidar hoje com os filhosGuia prático para compreender o seu filhoNinguém me entende! e Clínica da Infância.

Em 25 anos de profissão, trabalhou “num bairro com famílias de etnia cigana”,”com pessoas seropositivas e respetivas famílias”, organizou “sessões de esclarecimento em escolas” e deu “aconselhamento a pais”.

Convidada há já dois anos para protagonizar SuperNanny, a psicóloga garantiu ao Observador, depois da polémica do primeiro episódio, que levou a queixas da Comissão de Proteção de Crianças e da Unicef Portugal, que não está no programa como tal — mas recusou revelar em que outra qualidade aparece.

Em vez disso, no texto da sua apresentação no site de SuperNanny, Teresa Paula Marques, natural do Tramagal, Abrantes, diz que gosta de ir ao cinema, de escrever e de fazer bijuteria — “Quase todos os colares que usa são feitos por si”.

Críticas das Nações Unidas e sentenças em tribunal

Um relatório do Comité dos Direitos das Crianças das Nações Unidas, tornado público em 2008, exortava o governo do Reino Unido, entre outras coisas, a tomar medidas para proteger a privacidade das crianças. Em causa estavam programas como SuperNanny, disse aos media britânicos Lucy Smith, à data membro do comité e professora de Direito na Universidade de Oslo, condenando “a invasão da privacidade das crianças” por formatos do género, que as mostraram “a comportar-se de forma terrível e as retrataram sob uma luz horrível”.

Não foi a única ocasião em que o formato recebeu um parecer negativo: um episódio do alemão “Die Super Nanny”, decidiu o Tribunal Administrativo de Hanover em 2014, após queixas de telespetadores e da Comissão de Proteção de Menores, “violou a dignidade humana”. Em causa estava um capítulo do reality show, emitido três anos antes, onde terão sido exibidas várias cenas de gritos, ameaças e agressões de uma mãe para com os filhos.

Nos Estados Unidos, onde além de SuperNanny foi exibido também o idêntico e concorrente 911 Nanny, os especialistas em psicologia infantil e pediatria criticaram abertamente os formatos, não só por as amas em questão darem conselhos “simplistas” ou até “questionáveis aos pais desesperados”, mas sobretudo pelas consequências deste tipo de exposição.

“A ausência de consentimento por parte das crianças preocupa-me. Quando crescerem estes miúdos vão ver as gravações em que aparecem a comportar-se como fedelhos e vão ficar envergonhados”, disse ao The New York Times, em 2005, Deborah Borchers, membro da Academia Americana de Pediatria.

 

 

O Big Brother da parentalidade já nasceu e tem nome: “Supernanny”

Janeiro 17, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do http://p3.publico.pt/ de 15 de janeiro de 2018.

Texto de Sara Berény

Confunde-se ter autoridade com autoritarismo, baralham-se ordens com pedidos, facilmente se passa do “à vontade” para o “à vontadinha”, tudo é “negociável”, chamam-se “birras” a marcados comportamentos de desafio e oposição.

E o Big Brother chegou à Psicologia. É o “Vale Tudo” da Psicologia Parental. Despir assim as famílias é obsceno, perigoso e humilhante, não só para os pais e filhos que se inscrevem no programa Supernanny, mas também para as ciências psicológicas.

O tema das competências parentais encontra-se na ordem do dia nos mais variados contextos: televisão, jornais, livros, blogues, escolas, workshops e formações. Pretendia-se que a família dos silêncios, do autoritarismo e da punição física fosse derrubada pela família da comunicação democrática, do equilíbrio e da ternura. Mas isso ainda não aconteceu. Efectivamente está a tornar-se difícil atingir bom senso e a harmonia nas práticas parentais. Confunde-se ter autoridade com autoritarismo, baralham-se ordens com pedidos, facilmente se passa do “à vontade” para “à vontadinha”, tudo é “negociável”, chamam-se “birras” a marcados comportamentos de desafio e oposição. É uma sensação constante da competição para se ter o título do “o melhor pai”, “a família do ano”, “o filho perfeito”, “os irmãos exemplares”.

TEMOS família, mas será que SOMOS família? Os empregos dos adultos sugam a energia da parentalidade sem darmos por isso. Durante a semana e nos fins-de-semana, as baterias esgotam-se, mas não de brincadeiras em casa ou ao ar livre, de boas conversas entre pais e filhos. Educar tornou-se numa corrida contra o tempo. Está a perder-se o tempo da infância, de crescer e desenvolver ao sabor de cada dia que passa, de acompanhar o ritmo do dia-a-dia, de saborear as rotinas. Os pais sentem-se perdidos e cansados, sedentos de ajuda e orientação. Tornaram-se a presa fácil para programas televisivos predadores.

A culpa, a vergonha, a angústia e o medo dos pais merecem maior respeito. A parentalidade é um desafio precioso, mágico, mas também íntimo. Não requer pressões, julgamentos ou grandes audiências. Construir espaços, momentos ou eventos que funcionem como escola para pais parece-me pertinente e sensato. Mas não serão locais onde se pratica psicologia pornográfica. Ensina-se a “aprender a aprender” a parentalidade. A perceber que amar não chega, que temos que ir mais além, vasculhar na infância que tivemos para melhor entendermos as expectativas e desejos que temos como pais. Reflectirmo-nos enquanto imagem interior de sentimentos, emoções e pensamentos. Sermos concretos e seguros no que queremos deste mundo. Deixarmo-nos surpreender pelos filhos, pelos seus gostos, interesses e resoluções. Encarar os “filhos multimédia” como uma realidade nem boa nem má, mas sim uma realidade que tem que ter regras para se poder usufruir dela. Abusar dos livros, das cavalitas, das canções, dos desenhos, dos jogos. Tranquilizar com os filhos num longo abraço, chorar tristeza em lágrimas ranhosas, soltar risadas de alegria olhos nos olhos, protegê-los com o medo bom do “isso não”, correr com pernas furiosas as zangas do dia. E sim, perceber que os filhos precisam que os pais mandem neles e aprender estratégias saudáveis de comunicação e de assertividade para gerir essa relação; conhecer um pouco mais da fase desenvolvimental das crianças para os pais poderem saber se o medo do escuro ou dos ladrões está ou não ajustado à idade ou se realmente as crianças “entendem” o que é a morte. Mas sem passar do 8 para o 80. A Psicologia está na moda. Por tudo e por nada é preciso ir ao psicólogo, perguntar ao pediatra, ir ver ao blogue ou ao Google como agir. Estamos a perder o instinto parental. Coisas que são “normais” e até expectáveis requerem uma resposta intuitiva, aquilo que se chamava o bom senso comum.

A parentalidade não é o “tudo ou nada”, um “ou eu, ou tu”. Não é dicotomia de extremos. Não é uma “Nanny-Psicóloga-Super” que invade as fronteiras do espaço familiar e que faz dos pais marionetas. É um percurso sistémico, de contacto directo entre os pais e os filhos, os avós, a escola, os amigos. É por excelência o papel mais importante das sociedades humanas, aquele que nunca poderá estar ameaçado ou em vias de extinção. Um programa como este apenas serve para “poluir a parentalidade”. Vamos reciclar os pais, mas humanizando a parentalidade.

 

Até que ponto os pais devem ser amigos dos filhos?

Janeiro 16, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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texto do http://observador.pt/ de 7 janeiro de 2018.

Ana Cristina Marques

Longe vai o tempo da figura parental autoritária. Pais e filhos estão cada vez mais próximos, mas nem sempre as fronteiras estão bem definidas. O que acontece quando o amigo vem primeiro do que o pai?

“Na minha opinião, ser mãe não se deve confundir com ser amiga. Enquanto mãe, é preciso criarmos regras e mostrar que estamos presentes quando elas quiserem falar de problemas.” Teresa Tavares, engenheira de produção, vive com as duas filhas adolescentes, de 13 e 14 anos, em Santa Maria da Feira. E insiste no seu ponto de vista sobre as relações entre mães e filhas: “Não nos podemos confundir com as melhores amigas”.

Cassandra*, da Figueira da Foz, tem uma opinião um pouco diferente. Diz ser amiga e mãe, uma pessoa a quem as filhas, também elas adolescentes, acabam por contar tudo. É uma questão de acompanhamento e de confiança. Já Paulo, pai de Maria, de 17 anos, confessa que lhe faz confusão “quando os pais tentam ser os melhores amigos”.

O debate sobre até que ponto os pais devem ser amigos dos filhos não é novo, mas está cada vez mais atual. Basta olhar para a geração dos avós para perceber que a relação que estes tinham com os filhos era muito diferente da que existe hoje em dia dos seus filhos com os seus netos. Nem de propósito, a historiadora Stephanie Coontz chegou a contar ao The Cut que a ideia de pais e filhos amigos é relativamente nova e surgiu no contexto de “práticas mais democráticas para educar as crianças”, no século passado. “Hoje em dia, os pais querem muito que os seus filhos sejam indivíduos”, diz. Embora tentem incutir os seus valores, existe uma diferença face ao passado, quando os pais acreditavam que o melhor (e o mais seguro) era os filhos obedecerem e seguir as suas pisadas.

Em 2015, a socióloga Sofia Aboim falava ao Observador sobre a “erosão do modelo de distanciamento geracional” — em vez do pai patriarca, associado a uma figura mais rígida de outros tempos, atualmente existe entre pais e filhos maior companheirismo, necessidade de comunicação e crescente preocupação para com o bem-estar dos mais novos. Até aqui tudo bem. O problema é quando as fronteiras se esbatem e o amigo surge primeiro do que o pai — sobretudo na adolescência.

Curiosamente, uma investigação norte-americana mostrou, em 2015, que os pais da geração Y, a também chamada geração millenial, querem ser os melhores amigos dos filhos (entre os 6 e os 12 anos, em particular). Segundo o estudo de mercado realizado pelo The Family Room LLC, feito a 1200 indivíduos, esse é o desejo de 54% de pais com idades compreendidas entre os 25 e os 35 anos; 38% dos pais da geração anterior (geração X), dos 36 aos 50 anos, consideram o mesmo.

Num ensaio de 2012, citado em maio pelo The New York Post, um professor de inglês na Universidade de Stanford perguntou aos seus estudantes quantas vezes por mês falavam com os pais. A resposta: todos os dias. Uma das estudantes, em particular, confessou que falava até sete vezes por dia com a mãe, pessoa que considerou, à data, a sua melhor amiga. Cassandra também fala durante o dia com as duas filhas adolescentes. Diz estar sempre em contacto e, se alguma coisa acontece na escola, há troca de SMS entre mãe e filhas. “Se fazem um teste, por exemplo, contam como correu.”

No mesmo artigo do The New York Post há outras duas ideias a reter: a primeira, de que o mundo já não está dividido entre adultos e crianças, mas sim entre famílias nucleares e todas as outras pessoas; a segunda, de que os filhos já não mascaram os maus comportamentos uma vez que os pais, na ânsia de serem seus amigos, são bem capazes de os tolerar. Sobre isto, a mesma Cassandra diz que, na eventualidade das filhas se portarem mal, não as vai castigar, mas conversar e tolerar. “Se as castigar, da próxima vez já não me vão dizer nada”, justifica.

“De uma forma muito direta, o papel dos pais é serem pais”, defende Filipa Jardim da Silva. Para a psicóloga clínica, os pais são seres cuidadores cujas principais funções passam por “proteger, educar e formar”. “Os amigos são escolhidos, os pais não. Os pais têm uma relação assimétrica com os filhos, que implica muito respeito.” A especialista afirma que o importante é, por isso, não perder a noção dos limites. “Vejo pais a colocarem-se ao nível dos filhos. Oiço relatos de filhos mal-educados, que empurram os pais e pais que respondem na mesma moeda”, confessa. É ao adulto, diz, a quem compete ter maturidade e contenção emocional — “É isso que nos diferencia enquanto pais”.

“Ser amigo do filho significa que ambos estão no mesmo patamar. Isso não pode acontecer”, avisa de forma ainda mais radical Rute Agulhas, psicóloga clínica e forense. A docente universitária no ISCTE-IUL, que já antes escreveu para o Observador, também diz que é fundamental existir “uma assimetria de poder”. É uma questão de autoridade, mas não de autoritarismo. Os filhos precisam obrigatoriamente de balizas — como quem diz limites –, que devem ser progressivamente flexibilizadas aquando da chegada da adolescência. Na opinião desta profissional, habituada que está a lidar com adolescentes, podem existir dois problemas associados à imposição de limites: “Ou as balizas desaparecem e os miúdos perdem-se, ou as balizas são muito rígidas e eles não têm espaço para se autonomizar. Vejo pais a tratar filhos de 15 anos como se tivessem 10”.

“Há duas funções parentais: desenvolver nos miúdos um sentimento de pertença e dotá-los da capacidade de socialização e autonomização”, sintetiza Agulhas.

Pais e amigos: há uma linha que vos separa

Teresa Tavares não tem dúvidas. Sabe que as duas filhas que tem em casa não lhe contam tudo e não parece preocupar-se com isso. Ao Observador, assegura que elas contam apenas o que acham importante, não que isso a iniba de estar atenta ao comportamento de ambas. “Há coisas que são delas e das amigas. Quando têm um problema grave pedem ajuda. Até hoje tem funcionado assim”, conta a mulher de Santa Maria da Feira que não gosta de ver filhos a tratar os pais pelo nome próprio e mães que interferem na esfera privada das filhas. No outro lado da barricada, Cassandra já deu por si a ver as conversas das filhas no Facebook. Fê-lo por receio, por instinto de proteção. “Li coisas que elas acabaram por, mais tarde, me vir contar.”

“Eu nunca tive acesso aos emails e às redes sociais da minha filha e não quero ter. Acho que ela tem direito à intimidade dela. É uma questão básica de confiança”, diz Paulo que, em entrevista ao Observador, prefere não dar o último nome. “Vejo muito aquele tipo de discurso… quase como se os filhos fossem propriedade dos pais, que acham que têm o direito a ver tudo e a controlar tudo. Acho que sou uma minoria”, atira. Curiosamente, há sensivelmente um ano o pediatra Mário Cordeiro contava ao Observador, numa longa entrevista de vida, que é “gestor dos filhos” e não “dono”.

Sobre isto, Filipa Jardim da Silva defende que os pais devem ser um modelo e que, para tal, é preciso existir alguma distância — ao Observador, a psicóloga clínica diz conhecer pais que chegam a rivalizar com os amigos dos filhos. “É preciso perceber que não é suposto o meu filho adolescente contar-me tudo. Há uma linha de privacidade que é importante que todos tenhamos. Quando vejo pais a serem os conselheiros românticos dos filhos… pode ser problemático. É preciso ter noção do diálogo e das perguntas a fazer, que serão diferentes das de uma amiga.”

Ou seja, é natural e até recomendável que os pais questionem os filhos adolescentes sobre namoros, desde que respeitem as respostas que obtêm (mesmo que não venham recheadas de detalhes interessantes). “Se o filho ou a filha disse que não quer falar sobre isso, os pais têm aí uma oportunidade de mostrar respeito pela sua privacidade e ritmo próprio”, explica Filipa Jardim da Silva. A isso Rute Agulhas acrescenta que é fundamental os pais cultivarem uma comunicação clara com os filhos desde cedo, sem tabus à mistura, e que os temas da sexualidade devem ter abordados de uma forma tranquila. “Mais do que na sexualidade, a reflexão deve ser centrada nos afetos.

O limite que separa os pais de amigos é bem capaz de ser mais visível do que inicialmente esperado e há determinados comportamentos que os pais podem adotar em determinadas situações:

  • quando vão buscar um filho a casa de amigos, os pais devem evitar ser intrusivos e optar por não conversar com os filhos sobre algo mais sensível à frente desses seus amigos; o importante é não exagerar nos contactos, mas mostrar algum interesse e curiosidade, até porque o filho pode sentir-se invadido e até ansioso;
  • na relação dos pais com os amigos dos filhos é desejável que haja respeito com limites no tipo de partilhas feitas — no fim do dia, é preciso existir o adulto e o adolescente. “Perder este limite é perder a capacidade de definir regras, de conter, de proteger”, assegura Filipa Jardim da Silva;
  • e quanto às saídas à noite? “Regra geral, os filhos não querem sair à noite com os pais, antes estar com os amigos. Os pais devem negociar estas saídas e as horas de regresso de forma gradual”, diz Agulhas. “Se for possível nas primeiras saídas, há ganhos de serem os pais a irem buscar os filhos e de medirem bem as autorizações para prenoitar em casa de amigos numa primeira fase”, acrescenta Filipa Jardim.

A ideia do respeito e contenção nas partilhas viaja nos dois sentidos: tal como se lê na página Parenting Science, há pesquisas que demonstram a existência de custos associados ao tratamento dos filhos enquanto confidentes — eles e elas podem não reagir bem a “confissões pessoais negativas”. Num estudo em particular, para o qual os investigadores entrevistaram filhas adolescentes de casais divorciados, descobriu-se que essas raparigas tinham uma maior probabilidade de sofrer de problemas psicológicos caso as mães lhes fizessem confissões detalhadas sobre as suas preocupações financeiras, problemas no trabalho ou sentimentos negativos sobre os ex-maridos.

“Há uma fronteira geracional que deve ser mantida e os pais não devem, por exemplo, fazer dos filhos confidentes dos seus problemas pessoais, conjugais ou com amigos. Os filhos precisam de pais com autoridade, que saibam exercer controlo e supervisão”, exemplifica Agulhas. Ambas as psicólogas defendem que os pais devem adequar as suas partilhas às faixas etárias de quem as ouve e que, de uma forma global, não devem falar da sua vida íntima e sexual, nem tão pouco de aspetos relativos à gestão financeira familiar.

Abandono não. É só sensação

Estava a jovem Maria no quinto ou no sexto ano quando começou a pedir ao pai que parasse o carro mais longe do recinto da escola, todas as manhãs. Paulo sentia a filha cada vez mais constrangida e assentiu com naturalidade.”Faz parte, não houve problema. Mas depois percebi que o que a envergonhava era uma coisa muito concreta: a Maria era a única menina da turma que ainda andava de cadeirinha”, recorda — Paulo fala ao telefone com o Observador mas, neste momento, conseguimos adivinhar-lhe o sorriso no rosto. A partir do momento em que deixou de haver cadeirinha, a resistência de Maria passou. Mas podia não ter passado e seria natural e normal se assim fosse.

“Por volta dos 10, 11 anos os miúdos já não querem que os pais os levem à porta da escola. Muito menos querem ‘o’ beijinho à frente das pessoas. Isso fá-los sentirem-se infantilizados”, explica Rute Agulhas. São situações como essas — que mais cedo ou mais tarde acontecem — que fazem alguns pais sentirem uma espécie de abandono. Há pais que ficam angustiados, mas, em última análise, isto mais não é do que a vontade dos filhos em mostrar autonomia. Caso os pais se sintam rejeitados, ao invés de encararem a situação como um sinal positivo, é possível que tal desencadeie nos filhos um conflito de lealdade. “Os miúdos ficam ambivalentes. Querem fazer aquilo que lhes faz sentir bem, mas não querem magoar os pais e podem entrar num processo de sofrimento. Cabe aos pais olhar para isto com naturalidade.”

Dito isto, será que há pais muito dependentes dos filhos? Rute Agulhas responde que sim e argumenta que há pessoas que se resumem à função parental, que se esquecem dos outros papéis e que, à medida que o tempo passa, antecipam o ninho vazio. O importante, esclarece, é que as famílias se adaptem à medida que os filhos vão crescendo e que as regras sejam flexibilizadas. Mais, há diferentes formas de afeto que não passam necessariamente por expressar um “gosto de ti”: ter interesse nas áreas em que os filhos se movimentam é uma delas. “A adolescência em si é um desafio para as famílias. É sempre preciso redefinir papéis e fronteiras.”

Mas, afinal, até que ponto é que os pais podem ser amigos dos filhos? Filipa Jardim da Silva não é extremista. Diz que primeiro, e acima de tudo, está o papel de pai e mãe, só depois o de amigo. “Falo de ser amigo dentro daquilo que são as funções parentais. É isso que garante aos pais um papel único na vida dos filhos. Os pais esquecem-se disso com frequência.”

Rute Agulhas concorda: “Os pais podem e devem ser amigos, mas não se podem resumir a esse papel. Os miúdos precisam de pais que, além de amigos, exerçam autoridade, definam limites”. É ela quem nos dá a derradeira metáfora: imaginemos um papagaio de papel prestes a ser lançado ao vento; ou damos corda a mais e o papagaio voa para além do nosso controlo ou não damos corda e ele pura e simplesmente cai no chão. “A maior herança que um pai pode deixar a uma criança é uma vinculação segura, que a longo prazo vai deixá-la segura e confiante de si própria. Nenhum pai vai proteger o filhos de todos os erros.” Filipa Jardim da Silva remata: “Ser mãe e pai é algo eterno e muito seguro. É uma questão de prioridades”.

* Nome fictício. Esta pessoa não quis ser identificada

 

I Jornadas sobre Parentalidade da Figueira da Foz – 2 de fevereiro

Janeiro 14, 2018 às 5:36 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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As inscrições gratuitas, obrigatórias e limitadas aos lugares disponíveis, terminam no dia 31 de janeiro

mais informações no link:

https://www.facebook.com/events/197014550848605/

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