Os grupos de pais no WhatsApp são um problema para as escolas? Depende

Dezembro 5, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , ,

Visualizar a notícia do Público de 11 de novembro de 2019 no ficheiro:

whatsapposgruposdepaissaoumproblemaparasescolasdepende

Percepção de fragilidade do bebé prematuro: Sim! Impotência dos pais: Não!

Dezembro 1, 2019 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , ,

Artigo de opinião de Cristina Matos publicado no Público de 17 de novembro de 2019.

Nem todos os bebés prematuros têm o mesmo tipo de problemas. As possibilidades de sobrevivência dependem da idade gestacional, do peso e dos problemas graves ao nascimento, como sejam: respiratórios; cardíacos; infecciosos e malformativos. De todos eles o mais importante é a idade gestacional.

O nascimento de um filho é um momento único de alegria e de esperança.

A duração de uma gravidez normal, de termo, ocorre quando o parto se dá entre as 37 e as 41 semanas mais seis dias de gestação. Porém, algumas vezes, de forma inesperada e abrupta, a gravidez acaba prematuramente e o bebé nasce antes das 37 semanas, é então designado como prematuro ou pré-termo. Nestes casos, o bebé real é frágil, imaturo, indefeso, pequenino, tão diferente do bebé que tinham imaginado durante toda a gravidez.

“Será que vai sobreviver? Em que posso ajudar o meu bebé?”

Os pais ao entrarem pela primeira vez na Unidade de Cuidados Neonatais ficam assustados por encontrar o seu filho rodeado de aparelhos e máquinas, tubos e fios.

“Posso acariciá-lo? Mexer-lhe? Pegar-lhe? Qual o meu papel enquanto mãe ou pai?”

Os profissionais de saúde, médicos e enfermeiros, que trabalham na unidade explicam o funcionamento de todo o equipamento que irá ajudar o bebé, nestes primeiros tempos de vida, incentivam e apoiam os pais a estarem presentes junto do recém-nascido e a ultrapassar as dificuldades, vivendo um dia de cada vez.

O bebé prematuro não só tem menos peso e é mais pequenino, como nasce com imaturidade dos seus órgãos e sistemas — pelo que pode ter problemas respiratórios, de controlo de temperatura, dificuldade alimentar, menor defesa às infecções. Tudo isto torna-o mais vulnerável às doenças e mais sensível aos estímulos externos, como a luz e o som.

Nem todos os bebés prematuros têm o mesmo tipo de problemas. As possibilidades de sobrevivência dependem da idade gestacional, do peso e dos problemas graves ao nascimento, como sejam: respiratórios; cardíacos; infecciosos e malformativos. De todos eles o mais importante é a idade gestacional.

A gravidade dos problemas está inversamente relacionada com a idade gestacional. Actualmente o limiar de sobrevivência são as 23/24 semanas de gestação. Os bebés prematuros vão necessitar de passar os primeiros tempos de vida internados em Unidades de Cuidados Neonatais, numa incubadora para lhes manter a temperatura, podem necessitar de um ventilador para os ajudar a respirar, serem alimentados através de um catéter, colocado numa veia que lhes leva os nutrientes necessários ou de uma sonda que lhes leva o leite até ao estômago.

Os bebés têm de ficar afastados fisicamente dos pais, quebrando-se a relação afectiva essencial no estabelecimento da relação precoce pais/filhos.

Sempre que o desejarem, desde que o estado de saúde do bebé o permitir, os pais podem tocar, acariciar, falar, fazer contacto pele a pele, trocar a fralda, colaborar na higiene, colocar bebé ao peito, embalar, cantar.

Conhece-se hoje a importância da presença e envolvência dos pais nos cuidados ao recém-nascido. Diminui o stress e insegurança dos pais, melhora a relação de afectividade com o bebé e dá maior estabilidade ao recém-nascido.

É um tempo de aprendizagem, capacitação e preparação gradual dos pais para o momento tão esperado de uma ida com segurança para casa.

A humanização das Unidades, os cuidados centrados no desenvolvimento e na família, a par da elevada tecnologia que hoje dispomos, são fundamentais para a sobrevivência com qualidade de vida dos bebés prematuros.

Fragilidade dos Prematuros: Sim!

Impotência dos Pais: Não!

Médica Pediatra responsável pela Unidade de Neonatologia do Hospital CUF Descobertas

Um quinto dos casais separa-se nos primeiros 12 meses de vida do bebé

Novembro 7, 2019 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , ,

Notícia e imagem do DN Life de 27 de outubro de 2019.

Falta de comunicação, vida sexual em declínio e parceiro pouco envolvido nos cuidados do bebé foram os principais motivos identificados num estudo recente feito no Reino Unido. Por muito desejado que um bebé seja, o nascimento de um filho coloca sempre o casal à prova. E muitos não resistem.

Joana Capucho

Quando Afonso nasceu, a relação de Carolina e Tiago já não estava bem. “Existiam alguns problemas, que tomaram proporções gigantescas com o nascimento do bebé”, recorda a mãe. Aos 23 anos, depararam-se com uma gravidez não planeada e nenhum dos dois estava “minimamente preparado emocional e psicologicamente para a chegada de um bebé” e para “todas as mudanças” que isso implicaria. “Começámos a discutir mais, a ser menos tolerantes um para outro. Eu sentia-me mais empenhada, mais madura e acabou por se abrir um fosso gigante entre nós, que nunca mais foi tapado”, conta Carolina, agora com 35 anos.

Separaram-se quando Afonso tinha apenas seis meses. Para a mãe, o maior desafio era conciliar todos os papéis: “Tinha de tomar conta do bebé, ter tempo para mim, ter tempo e disponibilidade para a relação, para as lides domésticas e ainda para trabalhar”. Tornou-se “muito difícil dar conta do recado. Algo tinha inevitavelmente de ficar para trás e no meu caso foi a relação”. Carolina diz que “um bebé exige muito dos pais”, mas “no caso da mulher ainda mais”. Por um lado, “toda a atenção é canalizada para o bebé, depois a mulher está completamente alterada emocionalmente, com comportamentos que ela própria não reconhece em si, e isso leva muitas vezes a um afastamento do casal”.

Na opinião de Carolina, “se não existir uma relação saudável baseada no respeito, compreensão, confiança plena, entreajuda e muito poder de encaixe, é muito difícil sobreviver aos primeiros meses”. Uma perceção que é confirmada pela ciência. De acordo com um estudo feito no Reino Unido, com cerca de dois mil pais, um quinto dos casais termina as relações nos primeiros 12 meses após o nascimento de um bebé.

Falta de comunicação e declínio da vida sexual

A mesma pesquisa, promovida pelo ChannelMum.com e pelo The Baby Show, refere que mais de seis em cada dez pais não estavam preparados para o impacto que a criança ia ter na relação e um terço dos casais assumiu ter problemas sérios nos meses seguintes ao nascimento de um filho. Citado pelo The Independent, o estudo refere que 30% dos participantes que terminaram as relações apontaram a “falta de comunicação” como o principal motivo e outros 30% justificaram o fim da relação com o declínio da vida sexual. Números que, de acordo com as especialistas ouvidas pelo DN, não devem andar muito longe da realidade portuguesa.

“De uma forma geral, os primeiros dois anos de vida da criança são os mais críticos e desafiantes para a conjugalidade”, diz a psicóloga Filipa Jardim da Silva, destacando que “a taxa de separações e divórcios é muito elevada” nesse período. “O nascimento de uma criança é uma mudança, e uma mudança constitui uma crise numa dinâmica familiar e conjugal”, explica.

Os primeiros dois anos de vida da criança são os mais críticos e desafiantes para a conjugalidade.

Com a chegada de um novo elemento, há um convite “à redefinição de papéis e de rotinas, levantando-se problemas que até então não existiam”. Multiplicam-se as noites sem dormir, fraldas para trocar, roupa para lavar, choro, birras. Filipa Jardim da Silva reconhece que “a privação de sono é um fator muito relevante” neste processo. Tal como “as alterações hormonais no pós-parto, que têm uma interferência muito preponderante” na relação. De acordo com o estudo britânico, o facto de o parceiro estar pouco envolvido nos cuidados do bebé também causa danos irreparáveis nas relações.

A família alargada, nomeadamente avós e tios, também “contribui para muitos atritos entre o casal“. “Os familiares próximos acabam por querer fazer parte da educação da criança, opinam e interferem”, pelo que é muito importante que o casal defina “de forma consistente o que é o espaço familiar e onde entram outros”.

Se existirem problemas de comunicação, a probabilidade de o casal se separar aumenta exponencialmente. “Ambos devem convidar-se a falar sobre o que estão a pensar, a sentir, necessidades, limites. A comunicação deve ser assertiva, objetiva e eficaz. Não deve partir do princípio que o outro sabe o que está a sentir, ou que é óbvio”. Até porque “é um período de aprendizagem, de adaptação” – é uma experiência nova para ambos.

Segundo Filipa Jardim da Silva, os problemas estão muitas vezes relacionados com a gestão de expectativas, nomeadamente quando os casais esperam que os filhos os unam ainda mais ou que ajudem a fazer as pazes em fases mais desafiantes. “Sem dúvida que um filho é um elo de ligação entre um homem e uma mulher, sem dúvida que é um legado que deixam e que pode ser fruto de um amor maior entre os dois. Mas, ao mesmo tempo, não é um salva relações, não é um elemento que garantidamente vá unir duas pessoas”. E essa responsabilidade é dada ao bebé mesmo antes de nascer. “Isso pode acontecer ou não. Mesmo que aconteça, não é de forma mágica e linear”.

Sem dúvida que um filho é um elo de ligação entre um homem e uma mulher, sem dúvida que é um legado que deixam e que pode ser fruto de um amor maior entre os dois. Mas, ao mesmo tempo, não é um salva relações, não é um elemento que garantidamente vá unir duas pessoas.

Modificação dos papéis

“Os filhos são ótimos para os casais, mas o aparecimento de um filho é um dos momentos em que o casal é posto à prova”, reconhece Catarina Mexia. Segundo a psicóloga e terapeuta familiar, “há uma necessidade de adaptação muito grande”. Numa família tradicional, é a passagem de um modelo de duas pessoas para um de três. “Por muito desejada que a criança tenha sido, obrigada a um investimento num terceiro elemento e a um desinvestimento na relação a dois”.

No caso da mulher, a modificação do papel – para mãe – “é mais evidente” e esta está “fisiologicamente mais preparada para responder às necessidades do bebé”. Por outro lado, o papel do homem na relação é posto em causa: “No primeiro ano de vida, a mulher está completamente apaixonada pelo seu bebé. O homem tem um grande competidor”. Uma realidade à qual ambos os membros do casal têm de estar atentos. Ao mesmo tempo, com o passar do tempo surgem frases como “estou cansada, vai lá tu”, que “podem ser entendidas como guerras de poder”.

Se o casal não se constitui de uma “forma boa, para estar atento às necessidades de cada elemento, para conversar de forma consistente e não de ataque”, é natural que surjam mais complicações na relação.

Os casais que já tinham dificuldades em “estabelecer um ‘nós’ consistente e rico são aqueles que vão ter mais problemas com a chegada de um bebé”. Segundo a terapeuta familiar, “são aqueles que vão à consulta e queixam-se que ele/a sai muito com os amigos, não participa nas tarefas de casa ou continua muito ligado à família”. No fundo, explica, “são aqueles que mantêm uma postura mais individualista”.

Do cansaço à diminuição das relações sexuais

A falta de tempo e disponibilidade para o sexo é um dos motivos que conduz ao término das relações. “A questão sexual põe-se porque existe o cansaço. Quando estamos cansados, o sexo entra na última das prioridades. E a isto junta-se o facto de algumas crianças terem problemas de sono, de aparecimento dos dentes e outros”, diz Catarina Mexia. Mas este não será um fator determinante. “A questão sexual costuma estar presente, mas não aparece isolada como sendo a gota de água. Muitas vezes, já existiam alterações na frequência e no desejo de um ou de outro”.

Quando estamos cansados, o sexo entra na última das prioridades. E a isto junta-se o facto de algumas crianças terem problemas de sono.

No decorrer da gravidez, diz, a mulher sofre mudanças importantes ao nível da imagem corporal, o que não está relacionado apenas com o aumento do peso. “Não é só o que vemos no espelho. É o que sentimos e o que ficou registado. A adaptação às alterações no corpo leva algum tempo. E isso pode complicar a vida sexual, porque a mulher fica menos disponível para a sexualidade”, esclarece a psicóloga. Além disso, sublinha, essa vontade “tem muito de psicológico”. “Quando há tensão constante, agudiza mais a falta de disponibilidade sexual”.

Para que a parte sexual não venha a ser um problema, Filipa Jardim da Silva diz que o “autocuidado” é essencial: “Cuidar da mulher e do homem que já existiam antes de ser pai e mãe, cuidar do sistema que se cria e da terceira entidade – o nós”. Para isso, “é fundamental que haja tempo a dois”. “E é importante que seja definido em agenda. Se ficar à espera do momento ideal, não vai acontecer”. Pode ser um dia por semana ou de 15 em 15 dias para jantar fora, estar com amigos ou para outra atividade que quebre a rotina.

Quando já existem problemas

Um quarto dos entrevistados admitiu já ter problemas antes da chegada do bebé, que pioraram nos primeiros meses após o nascimento. Quando já existem atritos ou conflitos, Filipa Jardim diz podem ocorrer vários cenários: “Ou o nascimento da criança agudiza os desencontros e conflitos e o casal fica ainda mais separado; ou o casal coloca o máximo foco no papel da parentalidade e, durante algum tempo, mais do que homem e mulher, funcionam como pai e mãe; ou passam a ter uma motivação maior para ultrapassar o que os separa e resolver as diferenças”.

Como a percentagem de relações que não resiste ao nascimento de um bebé é significativa, Filipa Jardim da Silva conta que os pediatras começam a trazer este assunto para as consultas periódicas, perguntando aos pais como estão enquanto casal, como está a comunicação”. Até porque “a consistência entre o casal vai ser fundamental para o respeito pelas regras e a estabilidade emocional da criança”.

“Estamos a criar adultos egocêntricos, centrados apenas nas suas necessidades”

Outubro 18, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , ,

Entrevista de Rute Agulhas ao Pontos SJ de 16 de março de 2018.

Rute Agulhas, psicóloga, acompanha crianças e jovens, alguns em grande sofrimento. Diz que sociedade imediatista e consumo excessivo de tecnologia estão a gerar jovens que não sabem sonhar, esperar, nem lidar com a frustração.

Escreveu recentemente uma carta aberta aos youtubers onde lhes pedia atenção àquilo que faziam. Isto porque tinham chegado ao seu consultório crianças com crises de ansiedade devido aos vídeos que viam no youtube. O que é que este fenómeno nos diz sobre as crianças e jovens de hoje?

Os youtubers são um fenómeno recente em Portugal mas com uma adesão exponencial, e entre miúdos cada vez mais novos. Muitos dizem de forma clara que quando forem grandes querem ser youtubers. Vejo miúdos de 10 anos que fazem cursos para criar e manter uma conta no youtube.

O que é que isto nos diz dos sonhos e desejos das nossas crianças e jovens?

Os youtubers são um modelo incontornável. São jovens adultos, entre os 20-25 anos, que fazem vídeos com conteúdos diversos: uns são puro entretenimento, brincadeiras, que não trazem grandes consequências para os miúdos, mas outros têm conteúdos assustadores, como a “Maria Sangrenta”, ou abordam temas que depois não são clarificados, levando os miúdos a fantasiar. Escrevi esta carta por perceber que havia miúdos com ansiedades, medos, pesadelos e até dificuldades em adormecer porque pensavam em conteúdos dos vídeos. Depois há os jogos, onde aparece a cara do youtuber a jogar e, se uns são inofensivos, outros, como o “Palhaço assassino”, têm conteúdos assustadores. Os miúdos vêem o seu modelo a expressar medo, a ficar assustado, a gritar, a arregalar os olhos. E, por norma, tendemos a mimetizar e a comportar-nos por observação dos nossos modelos. Os youtubers são modelos porque são simpáticos, geram empatia, e os miúdos identificam-se com eles, querem ser iguais a eles, vestir como eles, ter as mesmas coisas do que eles. Os seus produtos de merchandising, livros ou revistas, esgotam num instante, e as meninas pintam o cabelo e maquilham-se da mesma forma das youtubers.

A minha ideia foi levar os youtubers, que talvez façam isto sem pensar nas consequências, a refletir sobre a importância do seu papel, pois têm centenas de milhares de seguidores. Por exemplo, o Casio atingiu há dias os cincos milhões de seguidores. Os miúdos estão sempre em cima do acontecimento pois usam os telemóveis e tablets dos pais, fazem uma subscrição, e quando há um novo conteúdo são notificados. Muitos pais nem sabem. E se não estão a par de tudo, quando chegam à escola imediatamente passam a estar.

A questão central é que aos pais, educadores e família compete o dever de supervisão dos conteúdos e do tempo gasto nisto. Há miúdos que passam horas agarrados ao youtube. Mas muitos pais estão tranquilos porque os filhos estão sossegadinhos no quarto e não estão na rua… O ISCTE fez um estudo recentemente que mostrou que os pais ainda continuam a achar que os perigos estão na rua, são as drogas, os consumos, as más companhias. Não acham que as redes sociais sejam preocupantes e não supervisionam. Os miúdos, que são inteligentes, sabem fazer mais do que os pais e apagam o histórico depois de usar o tablet. Há pais que põem regras, como não levar os telemóveis para a cama. Mas a verdade é que há miúdos que esperam que os pais adormeçam e levantam-se para ir buscá-los. Outros acordam às seis da manhã ao fim de semana, e quando os pais acordam às 9 horas, já eles têm três horas de tecnologias. Na escola, se não têm telemóvel, vêem no dos amigos. Não há forma de controlamos a 100 por cento esta exposição, por isso o investimento só pode passar pela educação.

Como se consegue?

Tem que se conversar sobre o que vêem, explicar, perder tempo, estar com eles a ver. Por vezes, os miúdos estão com phones e nós nem sabemos o que estão a ouvir. Há situações em que têm mesmo de por filtros nos equipamentos. Há pais muito diferenciados que confiam plenamente que os miúdos já têm maturidade para fazer o seu filtro. Mas não têm. Tem de caber aos pais esse papel. Por outro lado, não se trata de culpabilizar os youtubers mas de ajudá-los a serem mais sensíveis ao que fazem e aos seus impactos.

Como é que eles reagiram à sua interpelação?

Reagiram bem e admitiram que nem sempre pensam nas consequência. Por vezes até alertam no final dos vídeos “atenção, não repitam isso, é uma brincadeira, não façam isso sem a presença de um adulto“. Mas estamos a falar dos últimos dez segundos do vídeo, onde a atenção da criança já se esbateu. A mensagem não passa.

No meio de tudo isto, as crianças ficam aterrorizadas, com medos. Mas porque é que continuam a ir ver, mesmo após as recomendações?

Os youtubers misturam conteúdos assustadores – que levam a medos, ansiedades e problemas do sono – com conteúdos lúdicos. Quando os miúdos começam a ver um vídeo não sabem se será assustador e é muito difícil parar a meio. Os youtubers são comunicadores natos, muito apelativos e expressivos a nível não verbal. Os miúdos também afirmam: “depois chego à escola e não tenho nada para comentar”. Ou seja, sentem-se excluídos face aos pares. Todos viram, comentaram, e eles sentem-se excluídos. E nesta idade é muito importante sentirem-se parte de um grupo. No outro dia um dizia-me: “por um lado quero ver, por outro não quero”. Ficam naquela ambivalência. E se não têm ninguém que os ajude a processar e a pensar as vantagens e desvantagens de ver, como podem lidar com o chegar à escola e os outros gozarem por não terem visto? Então optam por ser iguais aos outros, porque há este fenómeno de identificação.

O espaço de conversa entre pais e filhos é cada vez mais difícil?

Cada vez há menos tempo para isso. As pessoas não podem deixar de trabalhar mas há pequenas coisas que podem fazer a diferença, como não ter o rádio ligado quando se vai buscar as crianças à escola, não jantar com a televisão acesa, aproveitar o banho para interagir com os filhos. Sabemos que os miúdos não reagem muito quando lhes perguntamos como foi o dia. Este tipo de interrogatório é infrutífero, é de uma forma mais descontraída que as coisas vem. Os rituais familiares que facilitem a comunicação e a expressão afetiva são muito importantes. São zonas de conforto, criam previsibilidade na vida das crianças. Não se trata de criar tempo extra – os pais queixam-se muito que esse tempo extra não existe -, mas de aproveitar o tempo que têm.

Mas vemos famílias juntas no restaurante onde miúdos e pais estão agarrados ao telemóvel…

Os pais são os modelos. Se eles estão agarrados, é difícil dizer aos filhos para não estarem. Pior: os pais dão os telemóveis e os tablets aos filhos para eles se calarem. Desde pequeninos que fazem isso.

Qual o impacto disso nas crianças?

Não podemos fazer de conta que não estamos na era das tecnologias e pensar que os nossos miúdos de hoje vão crescer da forma como nós crescemos. Quando eu digo aos meus filhos que tive telemóvel aos 23 anos eles quase que desmaiam. A realidade não vai ser a mesma, é um facto. Mas é preciso um equilíbrio e isso é que muitas vezes não se consegue. Os pais delegam muito na internet: se o filho está a fazer o TPC e tem uma dúvida, respondem: “vê no Google“. É a resposta mais fácil. Os pais têm um papel pedagógico e, em vez de ir ao Google, pode ir ao dicionário ou à enciclopédia. Isso implica motivação e sensibilidade e muitas vezes os pais preferem uma solução mais tipo penso rápido do que uma solução de fundo.

Esse consumo excessivo de tecnologia não traz danos a nível da criatividade e da empatia?

O principal impacto é o imediatismo que os miúdos querem em tudo. É o aqui, o agora, e o já. A tolerância à frustração é baixíssima, não têm capacidade de adiar o presente. Os pais, como se sentem culpados pela falta de tempo para os filhos, tendem a compensá-los de outras formas, muitas vezes desajustadas, como por exemplo o materialismo, e o já, o agora. Os miúdos não têm capacidade de espera. Por definição uma criança ou adolescente é auto-centrado, pensa que o mundo gira à sua volta. Se não houver ninguém que o ajude a descentrar-se, a ver que há realidades para além deles próprios, é difícil. Estamos a criar adultos egocêntricos, centrados apenas nas suas necessidades e pouco empáticos. E isso assusta-me.

Mas vai percebendo que também há sonhos, valores e coisas positivas que movem estas crianças?

Claro. Eu vejo de tudo. Ainda no outro dia um miúdo me dizia: “no Natal não quero presentes pois para mim o mais importante é estar com a família, as pessoas de que eu gosto…” Eu até pensei que não estava a ouvir bem pois só estou habituada a ouvir um consumismo desenfreado.

O que esperam os pais dos filhos?

Bons alunos, excelentes notas. Os miúdos têm agendas assustadoras, cheias de atividades extra curriculares e os pais só esperam que eles sejam os primeiros aqui e ali. É quase uma coisa narcísica para os pais: “o meu filho foi o melhor nisto“. Mas se calhar o filho está triste, não tem amigos, está de rastos, e quase não dorme porque sai do futebol às nove da noite e entra na escola às oito da manhã. Parece que os pais não vêem isso: não há tempo para fazer nada, como se fazer nada fosse uma perda de tempo. Não fazer nada é a coisa mais importante do mundo. Para eles criarem e sonharem alguma coisa têm de ter espaço para isso, e não têm. Depois chegam as férias e os pais só querem ocupar-lhes o tempo ao máximo.

Há pouco falava da espera. Agora da gratuidade. São tudo valores que são difíceis de transmitir hoje?

Sim… Ainda vejo algumas famílias com estas preocupações. Por exemplo, de não ver televisão, de restringir o uso das tecnologias, de privilegiar o contacto com a natureza, de dar metade dos presentes de Natal a uma instituição. Há pais que fazem este esforço… Mas a falta de tempo e a necessidade que os miúdos têm de conversar é enorme. Os pais ficam muito perdidos, por vezes querem ser os melhores amigos dos filhos e os papéis confundem-se. Há pais que me dizem: “quero ser o melhor amigo dela para ela me contar tudo“. Mas ela tem que contar o que entende, porque confia no pai e vê nele um papel parental e não um amigo.

Os pais têm dificuldade em gerir este desejo de proximidade e autonomia?

Sim. E quando entram na pré adolescência, por um lado querem monitorizar – e devem – mas depois há o respeito pela privacidade. Os miúdos reagem mal quando se vai ver o telemóvel ou a conta de instagram. Pais muito controladores levam a que os miúdos criem contas paralelas nas redes sociais. E eles acham que controlam e não controlam nada. Tem de passar pelo diálogo e isso implica tempo, disponibilidade, e os pais perceberem que isso é importante. Muitas vezes, o sucesso académico, profissional  e financeiro são a única bitola para medir o sucesso. Os pais vangloriam-se muito do sucesso dos filhos, como se fosse o prolongamento do seu sucesso pessoal. Ou pelo contrário, para que eles possam ser aquilo que eles não puderam ser.

E o contrário também acontece? Os pais sentirem o falhanço dos filhos como falhanço pessoal?

Sim. Perguntam-se: “onde é que eu falhei? O que vão pensar de mim? Qual vai ser a minha representação social se o meu filho não for o melhor?” Há uma metáfora na parentalidade que diz que educar um filho é como lançar um papagaio de papel. Se damos pouca corda e puxamos muito, o papagaio cai. Mas se damos muita corda, o papagaio perde-se. Este equilíbrio, que não é fácil, é entre a autonomia e a segurança, o vínculo. Deixar voar mas perceber que há aqui segurança, um sítio onde podem sempre voltar. Este é um equilíbrio que implica ajustamentos e nem sempre os pais estão disponíveis para isso.

Porque é que há tantas falhas nas competências dos pais?

Há variadas razões. Antigamente, havia uma aldeia a cuidar de uma criança, como diz o provérbio, pois havia uma perspetiva comunitária. Hoje as pessoas estão muito sozinhas, nem o vizinho conhecem. Os miúdos muito entregues à escola, ao ATL, e num determinado estatuto económico, às empregadas. Os pais são um bocado periféricos na vida das crianças, estão tão ocupados que nem têm muita noção das coisas. Há miúdos que vivem numa “gaiola dourada”, que saem da casa para o colégio, e vice-versa, enquanto os pais estão entregues às suas vidas profissionais altamente exigentes. É oito ou 80: os pais que não supervisionam e dão a liberdade toda e depois este extremo da gaiola dourada.

Os miúdos das classes mais altas sofrem mais isso?

Diria que sim. Muitos nem têm competências básicas para andar num transporte público. Andam sempre de UBER ou no carro dos pais.

Mas que tipo de jovens são os dos nossos dias?

Correndo o risco de generalizar, diria que não têm tolerância à frustração. Não fazem planos a médio e longo prazo porque estão habituados ao aqui e agora e não sabem o que é trabalhar para uma meta, ter prazos e tarefas para cumprir até lá, algumas que duram tempo. É mais: eu quero isto agora e já. Até nas classes mais baixas: há pais sem posses e filhos com iphone. São atributos de exteriorização que os miúdos valorizam imenso.

A sociedade vive muito de estímulos e parece impossível criar uma personalidade que não seja uma manta de retalhos. Como podemos ajudar as crianças e jovens a encontrarem formas de unificação interior?

Para aceitarem e assumirem que não têm de ser iguais e fazer o que os outros fazem, tem de haver uma auto estima e segurança que a maioria deles não tem. Mesmo nos comportamentos mais desviantes, de consumos, de automutilações, percebemos que é um fenómeno de grupo. “Como estou num grupo onde estão todos a fumar um charro e eu não estou?” “Se três ou quatro se auto-mutilam porque eu não o faço também?” E experimentam e depois pensam: “até soube bem porque a tristeza que eu tinha até desapareceu por uns momentos“…É uma coisa assustadora. Muitos fazem parte de grupos na internet onde partilham os cortes, como se cosem, etc.

Mas isto está sempre associado a um sofrimento muito grande..

Sim, claro. Mas também está relacionado com processos de identificação. Sabemos que os miúdos precisam de se identificar. Mas temos que perceber como podemos contribuir para que o processo de identificação seja em torno de algo positivo, como o desporto, o acreditar em algo.

Até que ponto as tradições religiosas podem ajudar nisto?

Podem facilitar a dois níveis. Primeiro porque têm muitos rituais, de congregação: as pessoas unem-se para celebrar algo em comum. E depois algumas religiões –  e tenho miúdos de várias –  têm crenças culturais e religiosas que ajudam a lidar com determinadas circunstâncias, nomeadamente a perda, que pode não ser necessariamente a morte, mas uma perda qualquer. O facto de acreditarem em algo facilita a aceitação.

E a espiritualidade como desejo de aperfeiçoamento, de ser melhor, de ter uma ajuda externa, também é importante?

Sim, para jovens e adultos. Vejo pessoas que, em momentos difíceis, seguiram por esse caminho e afirmam que sentiram uma paz interior e adquiriam outra capacidade para olhar as coisas. Sentem-se menos sozinhas, e isso ajuda a lidar com depressões, lutos, ansiedades e divórcios. Quando os filhos saem de casa, (síndrome do ninho vazio) muitas reorientam-se e vão à procura do voluntariado, de sentirem-se bem a fazer o bem. É muito gratificante: fazer o bem pelo bem, a troco de nada, pode ser terapêutico até do ponto de vista da sintomatologia.

Também tem essa experiência com jovens?

Sim. Acompanho miúdos que, por terem problemas de comportamento e pré delinquência e, e numa perspetiva construtiva, foram encaminhados para projetos da comunidade. Ao início têm relutância, dizem que não se identificam e só vão porque são obrigados, mas depois a gratificação que tiram é grande. Recordo um que estava num projeto de sem abrigo e que dizia que não queria estar com aquelas pessoas; depois começou a contar-me histórias, quase com uma lágrima no olho, pois estava a sentir empatia, a saber pôr-se no lugar do outro. Vejo também muitos universitários pró-ativos que, apesar de estarem muito focados na universidade, querem guardar espaço para fazer voluntariado.

É uma forma de contrariar este auto-centramento?

Sim, e reconhecem que isso os ajuda a sentirem-se melhores pessoas. Esta perspetiva comunitária tem-se perdido mas tem de ser reconquistada. O poder da comunidade é muito grande. Os bairros antigamente tinham essa função e o mundo rural também. Hoje as famílias nas cidades estão dispersas e há falta de redes sociais.

Mas as crianças vivem essa ilusão com as redes sociais tecnológicas…

Sim, claro. Têm x amigos mas são virtuais, não se conhecem. E mesmo quando estão lado a lado, mandam mensagens uns aos outros. Os professores dizem que nos intervalos os miúdos estão todos lado a lado a teclar.

Isto resolve-se limitando o acesso às tecnologias até determinada idade?

Mas como se limita? Onde não há internet? E como se monitoriza?

É preciso forçar as crianças a brincarem umas com as outras?

Sim. Alguns já nem sabem fazê-lo, têm déficits de competências sociais, não sabem convidar para brincar, pedir namoro. É tudo virtual, por emojis. Os miúdos falam por mensagens muito curtas e cheias de simbolismo, pelo que a probabilidade de mal entendidos também é maior. A subjetividade da comunicação gera dificuldade na comunicação.

Isso é assim tão generalizado?

A minha amostra é enviesada porque eu vejo as famílias sempre nalgum estado de sofrimento. Mas os adolescentes, numa maneira geral, é assim que comunicam. O que é assustador. Ou os pais contrariam isto, de uma forma ativa – e isto implica chatearmo-nos com os filhos, dizer não, acabou – ou então não sei…. O problema é que temos muitos pais sozinhos, no pós divórcio, e que têm medo da rejeição e da perda dos filhos, sendo, por isso, mais permissivos. Pensam: “Se eu digo que não, ele não quer vir para a minha casa”. Entre uma coisa e outra, os miúdos esticam a corda e é uma escalada.

Falta literacia sentimental aos pais? Há dificuldade em ler o que se passa dentro de cada um e de o expressar?

Sim. Não há emoções boas e emoções más mas vemos muito nas crianças a ideia de que a tristeza, a raiva e a zanga são coisas más. São emoções como as outras, desde que devidamente enquadradas e geridas. E mais uma vez os pais são modelos: se morre alguém e os pais choram às escondidas, porque não podem mostrar aos filhos que estão tristes, que sentido isso faz? Não estamos a dotar os miúdos de competências para lidar com as emoções, sejam positivas ou negativas. Para serem modelos, os pais têm de estar confortáveis com a sua parte emocional. Ou seja, eu posso zangar-me, tenho direito, mas não tenho direito de magoar, de partir uma mesa. A legitimidade entre a emoção e a legitimidade do comportamento. Tenho de ter capacidade para comunicar. Se isto não acontece no seio mais primário que é a família, onde vai acontecer?

Falando agora das famílias que, em vez de serem porto de abrigo, são o motivo do sofrimento das crianças, devido a maus tratos ou conflitos parentais. De que forma isso agudiza o sofrimento?

Quando os maus tratos acontecem no seio da família derruba-se a crença base que qualquer ser humano precisa de ter, a de que “eu pertenço a algo“, neste caso à família, à qual posso recorrer em caso de necessidade. Se quem devia proteger não o faz, e os miúdos não encontram alternativas, é o arruinar do sentimento de segurança. Por vezes encontram alternativas na família alargada, na escola, nos amigos, e isso são fatores protetores. Mas quando não têm competências para ir à procura, para pedir ajuda, é muito pior. Não é necessariamente hipotecar o futuro mas diminui claramente a esperança no futuro. Pois se eu não tenho uma base e uma vinculação seguras, como vou explorar o mundo e arriscar o que quer que seja? Surgem as ansiedades, inseguranças, a dificuldade em confiar. Cai por terra a ideia de que há pessoas que me amam incondicionalmente e estão dispostas a tudo por mim. Dificuldade em expressar emoções, em ter relações de intimidade emocional, em confiar, são características típicas das vinculações desorganizadas, associadas aos maus tratos e abandonos, aos pais inconsistentes, à falta de previsibilidade. As crianças precisam de perceber que, aconteça o que acontecer, o pai está lá. Isso condiciona depois a forma como se vinculam aos outros adultos e traduz-se nas relações de casal muito complicadas e também no exercício da parentalidade. Quando avaliamos pais mal tratantes, abusivos, é muito importante perceber como eles próprios se vincularam e cresceram.

Os pais têm noção disso? Conhecem-se?

Muitas vezes não. E como não têm capacidade de perceber, vão replicando o modelo disfuncional. As famílias que estão disponíveis, conseguem mudar. Mas nem todas as famílias são trabalháveis.

Ao lidar com estes sofrimentos, consegue acreditar no futuro e nas crianças?

Tento agarrar-me às coisas boas, como àquela criança que disse que o mais importante era a família. Tento valorizar estas situações boas que me fazem não desistir de acreditar no ser humano. No meio de tantas experiências menos boas, aprendemos a distanciar-nos, mas há dias em que chego a casa e choro.. Trabalho há 20 anos e alegra-me perceber que hoje se reflete muito mais sobre estas coisas, por isso quero acreditar que daqui a uns anos estejamos bem melhor.

 

Rute Agulhas é Psicóloga especialista em Psicologia clínica e da Saúde, Psicoterapia e Psicologia da Justiça. Docente universitária. 

Fotografia: Nuno Pinto Fernandes

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.

Jaume Funes: “Educar um adolescente é dar-lhe autonomia e fazê-lo aprender a gerir riscos”

Outubro 9, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , ,

Jaume Funes, psicólogo espanhol especialista em adolescência e autor do livro “Ama-me quando menos mereço, porque é quando mais preciso”.

Entrevista do DN Life a Jaume Funes no dia 3 de outuubro de 2019. Foto do DN Life

Jaume Funes é psicólogo, educador e jornalista. Trabalha há mais de 40 anos com adolescentes e jovens, na área da educação. Não acredita em receitas para lidar com adolescentes, mas considera que pode ajudar pais e professores a saber como relacionar-se com eles. Nos seus 40 anos de experiência, conheceu várias gerações, de A a Z, e descobriu que, além de quilos de paciência e uma dose equilibrada de autonomia, eles precisam sobretudo de amor, mesmo que nem sob tortura o admitam.

Entrevista de Catarina Pires

Ama-me quando menos mereço, porque é quando mais preciso. Ajude-nos a decifrar este título. Porque é que um adolescente merece menos e precisa mais?

Normalmente, ter um adolescente em casa significa ter uma vida ocupada. Dito de outra forma, ele ou ela está a afirmar-se, entrando em conflito com os seus adultos, questionando as ideias destes. Acabam por ser encantadoramente insuportáveis.

No meio de toda esta batalha, podemos ter a sensação de que eles já não precisam de nós ou que é melhor deixá-los sozinhos com as suas impertinências. Mas a verdade é que eles ainda precisam de nós, só que de maneira diferente.

Precisam de beijos, mas ai de nós se nos atrevermos a pensar em dar-lhes um. Precisam saber que estamos sempre lá, mas ai de nós se tentarmos intrometer-nos na sua vida. Eles precisam de sentir a segurança de saber que os amamos, mas não demonstram que precisam de nós.

Uma das primeiras coisas que recomenda é que os pais esqueçam os manuais de autoajuda. Porquê?

A educação de um adolescente é sempre presidida por uma palavra: “DEPENDE”. Não há receitas a aplicar. Sim, existem critérios educacionais a serem aplicados, mas não consigo escrever um livro dizendo o que fazer. O livro que escrevi é sobre como fazê-lo, sobre as respostas que criam problemas, sobre quais são as características inevitáveis dos adolescentes e quais são as dificuldades.

O amor, quando falamos de adolescentes, é saber estar ao seu lado, saber acompanhar um caminho que dará muitas voltas, parará, perder-se-á e voltará a encontrar-se.

Este seu livro é um guia. Seria bom que os adolescentes viessem com um manual de instruções?

Os rapazes e as raparigas adolescentes precisam de descobrir que os seus adultos, em casa ou na escola, olham para eles de maneira positiva, que não são apenas olhos que investigam possíveis problemas.

No meio do inesperado sucesso editorial deste livro, há alguns meses, escrevi um pequeno diário adolescente, que o resume (“Fiz-te sofrer… mas amaste-me”). Nele, um filho faz a sua mãe morder o anzol no Instagram e vá lá ler um texto com sua versão da adolescência.

É um “guia” no sentido de ajudar a não nos sentirmos perdidos, a gerir as perplexidades e a saber como ser-lhes úteis, lado a lado com eles.

O amor tem um efeito protetor? Como?

Em todas as etapas da infância, todas as crianças precisam de sentir, de maneira estável e intensa, que são importantes para alguém, que alguém se preocupa com elas, e que as suas vidas estão vinculadas a outras pessoas.

Em cada etapa, a experiência de sentir-se amado assume formas diferentes. Para alguns, os abraços são essenciais; para outros, trata-se de saber que não estão sozinhos, que há adultos que respondem. O amor, quando falamos de adolescentes, é saber estar ao seu lado, saber acompanhar um caminho que dará muitas voltas, parará, perder-se-á e voltará a encontrar-se.

A adolescência é um tempo de descobertas e experiências. Como equilibrar a importância de lhes dar liberdade com o medo de que algo de mal lhes aconteça (ou com a necessidade de prevenir problemas graves)?

Quando se tem filhos adolescentes, é inevitável ficar angustiado, pensar que eles podem destruir-se. Quando se trabalha com adolescentes, também é inevitável querer evitar que tenham problemas, tentar fazer prevenção. Mas confunde-se os riscos com os problemas, queremos impedi-los de fazer coisas para impedir que imprevistos aconteçam… e não pode ser.

Ser adolescente significa explorar, descobrir, experimentar (um dia um adolescente disse-me que era “um explorador reprimido”). A educação, a atenção dos adultos, deve ser no sentido de garantir que eles aprendam a proteger-se e saibam como gerir os riscos. A nossa obrigação não é criar controlos, mas dificultar algumas experiências e, principalmente, capacitá-los para aprenderem com as suas experiências.

Se nos lembrássemos da nossa adolescência, entenderíamos melhor os seus entusiasmos e as suas angústias, seríamos capazes de contextualizar as dificuldades.

Diz que a adolescência é uma invenção social. Em que sentido?

Pelo menos no sul da Europa, a adolescência “universal e obrigatória” só começou no fim dos anos 70 do século passado. Antes, apenas os filhos e filhas das classes altas é que podiam passar um tempo da sua vida a ler poemas, a contemplar as estrelas e a viver. A adolescência dos filhos dos trabalhadores era passada como aprendizes, a varrer uma oficina, na linha de montagem de uma fábrica ou assumindo as responsabilidades do lar.

Sempre existiu puberdade, mas dispor de quatro ou cinco anos de vida para ser adolescente é uma realidade com apenas quatro décadas. Isso só acontece quando o sistema produtivo já não precisa da força de trabalho de pessoas com 14 anos. O problema é que os adultos continuam a não perceber para que serve esta nova etapa evolutiva da vida.

Para lidar com adolescentes, e educá-los, é importante lembrarmo-nos da nossa própria adolescência ou é melhor esquecê-la?

Tendemos a esquecê-la, mas seria bom lembrá-la. Eu costumo lembrar aos pais e mães que também já foram adolescentes, que também fizeram muitos cabelos brancos aos seus pais, mas que agora são mães e pais razoáveis. Convido-os a acreditar que os seus filhos podem mudar e a não perder a esperança.

Se nos lembrássemos da nossa adolescência, entenderíamos melhor os seus entusiasmos e as suas angústias, seríamos capazes de contextualizar as dificuldades.

Exigimos muito do ponto de vista do sucesso académico ou social e muito pouco naquilo que implica permitir que assumam responsabilidade nas suas decisões e na sua vida.

Trabalha há 40 anos com adolescentes. Quais são as grandes diferenças e transformações a que tem vindo a assistir?

As várias adolescências foram e são especialmente adaptadas a uma sociedade que muda rapidamente. Portanto, têm sido continuamente diferentes. O âmago do seu mundo interior, das contradições e desafios a resolver, permanece mais ou menos o mesmo, mas as suas expressões, estilos de vida, influências e pressões sociais é que têm vindo a mudar muito. Daí que os sociólogos da juventude e os media falem em gerações (já esgotaram o alfabeto, já vão agora na “geração Z”).

Comecei a trabalhar com “bandos” de jovens num mundo em que eles já não podiam ir trabalhar, como tinha acontecido com os seus pais, e acabei a dar conselhos sobre como educar entre ecrãs. Pelo meio, vivi a geração de heroína, as “tribos” urbanas, a escolaridade obrigatória, as adolescências das novas famílias… Todos os dias tenho que pensar em novas maneiras de ser útil nas suas vidas.

Exigimos de mais dos adolescentes?

Exigimos muito do ponto de vista do sucesso académico ou social e muito pouco naquilo que implica permitir que assumam responsabilidade nas suas decisões e na sua vida. Grande pressão social e pouca autonomia. Não aceitamos que o bom adolescente seja aquele que toma decisões, erra e a quem ajudamos a fazer-se responsável.

Os rapazes têm que aprender mais com as raparigas (especialmente no que respeita a emoções e afetos) e elas têm que ser um pouco mais como eles (menos responsáveis, mais autónomos, mais “loucos”)

Devemos lidar de forma diferente com rapazes e raparigas ou isso deixou de ser uma questão?

As adolescências são muito diversas, não existe apenas uma. Além disso, as adolescências masculinas e femininas, em geral, têm diferenças importantes. Costumo dizer (e trabalhar para isso) que os rapazes têm que imitar uma parte da adolescência das raparigas (especialmente o que tem a ver com emoções e afetos) e que estas têm que ser um pouco mais como eles (menos responsáveis, mais autónomos, mais “loucos”). A igualdade teórica já foi assumida, a prática da igualdade nos seus relacionamentos não.

Nesse meio tempo, mistura-se a grande questão da descoberta e prática da sexualidade adolescente com as condicionantes externas, como as séries ou a pornografia, que não vivem da mesma forma e precisam de nossa atenção educacional diferenciada.

Diz que há três grandes razões para intervir nas vidas adolescentes. Quais são?

Defendo que é uma etapa educativa em que é preciso os pais continuarem a educar, mas de forma diferente. A vida deles não será a mesma se não criarmos oportunidades educacionais (é por isso que, por exemplo, tornámos a escolaridade universal e obrigatória). Eles não evoluem automaticamente.

Precisam de fazer experiências, mas devemos garantir que haja adultos ao seu lado dispostos a ajudá-los a aprender com suas experiências. Como têm que viver num mundo complexo e em mudança, devemos cuidar para que tenham capacidade de adaptação, de resiliência, para gerir as angústias e problemas que enfrentarão pelo caminho.

Qualquer bom castigo para um adolescente é sempre uma pena pesada para os seus adultos. Podemos proibi-lo de sair de casa no fim de semana, mas teremos que ficar a vigiá-lo (com provisões de diazepan).

O que é que é “normal” esperar de um adolescente e o que pode e deve fazer soar alarmes?

No livro, sugiro uma lista do que podemos e não podemos esperar de um adolescente. Não podemos esperar, por exemplo, que deixe de nos fazer oposição (viver com adolescentes e ter conflitos é inevitável). Mas também sugiro não confundir conflitos com problemas ou não etiquetar todas as suas angústias, mal estares e dificuldades como doenças mentais. Por isso, proponho aprender a conjugar verbos como ver, observar, ouvir, perguntar…

Os castigos não funcionam na adolescência? Qual é a melhor forma de educar criaturas que estão em fase de rutura e questionamento constante?

Qualquer bom castigo para um adolescente é sempre uma pena pesada para os seus adultos. Podemos proibi-lo de sair de casa no fim de semana, mas teremos que ficar a vigiá-lo (com provisões de diazepan).

Há uma longa lista de sugestões para saber quando e como responder, para tratar de aguentar uma certa pedagogia dos pactos. É preciso responder ao seu comportamento, mas nem sempre da mesma maneira nem de imediato. Pensar castigos pressupõe ter acumulado antes algumas toneladas de paciência.

É mais importante ouvir do que falar? E quando falamos, eles, mesmo que não pareça, estão a ouvir-nos? É mais importante o que fazemos (o exemplo que damos) do que o que dizemos?

Qualquer adulto que esteja perto de um adolescente é sempre um educador. Representamos modelos de mulheres e homens, cidadãos, comportamentos aceitáveis, valores, etc. Falar significa aproveitar diferentes momentos (raramente num lugar e horário programado) em situações imprevistas. Também significa ir deixando cair opiniões, dúvidas, perguntas para que descubram como pensamos.

Às vezes, levantam dúvidas e, mesmo que não seja no momento certo, hão de ligá-las a alguma possibilidade de resposta (no momento ou mais tarde). Mas não podemos explicar sem mais as nossas experiências (batalhões de adultos) ou distribuir conselhos. Voltaríamos aos verbos a conjugar que referi acima…

A escola secundária é um verdadeiro símbolo da distância entre os adolescentes e o mundo adulto. Uma parte das dificuldades tem a ver com uma crise do ensino, com a forma como se ensina e se aprende hoje.

“Conviver com adolescentes é como estar dentro de um duche escocês”. O que quer dizer com isto?

Não há meteorologista capaz de prever os seus estados emocionais, eles vivem numa espécie de panela de pressão emocional e, além disso, passam de um estado para outro em frações de segundos. Nós, adultos, ficamos desconcertados com o exagero das suas reações e não é fácil para nós acompanhar o ritmo das suas mudanças.

Quando pensamos que está tudo bem, surge uma discussão, quando ainda não nos recuperámos de um confronto, acalmam-se e dizem-nos que “não era caso para tanto”. Passamos de um calor de 40 graus para a imersão em zero graus… e já não temos a energia e flexibilidade deles.

As escolhas que fazem e decisões que tomam nestas idades podem ser decisivas para o resto da vida. Condicionar essas escolhas é uma tentação. Até que ponto podemos deixá-los decidir sozinhos?

Apesar do nosso pânico, na adolescência tudo é provisório, embora tudo possa ter o seu impacto. Salvo algumas experiências, por que passam apenas alguns e que devemos tentar impedir, a chave é saber esperar, descobrir o momento oportuno, garantindo que tem ao seu lado outros adultos em quem confia (um bom tutor na escola, um bom explicador, um bom treinador, um bom pediatra…).

A construção da identidade é particularmente desafiante na adolescência. Hoje é ainda mais complexo? Que questões é importante ter em conta?

Ser adolescente significa sentir a necessidade (afetiva, racional) de perceber quem se é e o que quer fazer com a vida. Muitos de seus comportamentos têm subjacente esse objetivo.

No livro, insisto que educar sobre identidade tem pelo menos três dimensões. Por um lado, eles devem descobrir que têm e devem ter identidades diferentes (evite que superem as suas dificuldades identificando-se apenas com uma bandeira, uma pátria, um dogma, um grupo).

Por outro lado, insisto em educá-los para que possam mudar as suas identidades sem se sentir mal (ancorar em vários lugares seguros, não enraizar num ponto imóvel).

Finalmente, é essencial que construam identidades com os outros, decidam o que querem ser juntos, não aceitem identidades para as quais alguém tenha de lhes conceder um cartão prévio de pertença.

Como estimular uma relação saudável e equilibrada com a escola?

A escola secundária é um verdadeiro símbolo da distância entre os adolescentes e o mundo adulto. Uma parte das dificuldades tem a ver com uma crise do ensino, com a forma como se ensina e se aprende hoje na sociedade da informação (por exemplo, o papel do adulto já não é apenas transmitir, mas ajudar a integrar; não faz sentido dividir as aprendizagens por temas em vez de áreas do conhecimento).

A outra parte tem que ver com metodologias e técnicas didáticas desadequadas para a adolescência (por exemplo, ter que memorizar em vez de investigar). Os desafios são, por exemplo, estimular o desejo de saber, manter a vontade de fazer perguntas, não se contentar com qualquer resposta…

Por fim, a grande dificuldade é que o adolescente percebe que a escola não está interessada no seu mundo, que este não tem espaço na sala de aula, poucas vezes os professores se tornam próximos e cúmplices, atentos aos adolescentes que têm à frente e aos processos por que passam.

Nem a escola pode esquecer que a última coisa que eles fazem antes de entrar na sala de aula é postar uma foto no Instagram, nem os pais podem pensar que tudo se resume a controlo quando estamos num mundo em que não se pode ser adolescente sem ter um smartphone.

A sexualidade desperta nesta altura. Como devem os pais lidar com isso?

Já aflorei esta questão quando falei na diferença entre rapazes e raparigas. De qualquer forma, temos que pensar que são tempos de “primeiras vezes”, de descoberta também no território da nova sexualidade (desejos, atrações, emoções, etc., desconhecidos).

Eles devem aprender a proteger-se, a gerir riscos (é um direito deles), mas não podemos focar a sexualidade nisso. De uma maneira esquemática, temos que pensar em como levar em consideração o universo de influências externas (pornografia), em como assegurar que seguem seu próprio ritmo pessoal sem serem apressados pelos amigos ou pelo mercado, em como conseguir que não se queimem etapas que passam por desejar e sentirem-se desejados.

(Embora tenha prometido que este era o meu último livro sobre adolescência, estou a escrever agora, por causa da confusão que parece dominar-nos, uma espécie de “sequela” sobre a educação para a sexualidade em tempos de pornografia e outras questões aparentemente complexas, como os ecrãs).

O desafio é que não se perca a descoberta dos abraços e dos beijos, que experimentem uma sexualidade saudável, humanizadora e feliz.

Quais são os sinais de alerta a que os pais devem estar atentos no que respeita a saúde mental?

No livro, dediquei um capítulo aos adolescentes que sofrem e fazem sofrer, enfatizando que quando as situações são complicadas, o sistema de atenção à saúde mental geralmente é muito pouco útil e adequado aos adolescentes.

Às vezes, o problema é que não sabemos e não temos recursos para ajudá-los. Não vão, sem mais, consultar psicólogos ou psiquiatras. Além disso, ninguém no seu ambiente quotidiano (da escola aos pontos de encontro) educa as suas emoções e sentimentos.

Na maioria das vezes, encontramo-nos, como já disse, com problemas que podem tornar-se dificuldades sérias e de longo prazo se não existir acompanhamento para os resolver. Exceto em casos extremos, os “sintomas” têm que ver com a perceção de que não estão felizes, que andam perdidos sem encontrar saídas.

Deixamos para outra ocasião a questão da educação em tempos de ecrãs. Nem a escola pode esquecer que a última coisa que eles fazem antes de entrar na sala de aula é postar uma foto no Instagram, que os alunos que tem à sua frente são alunos virtuais, nem os pais podem pensar que tudo se resume a estabelecer controlo quando estamos num mundo em que não se pode ser adolescente sem ter um smartphone.

Quanto mais baixo se fala mais as crianças ouvem

Outubro 3, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: ,

Texto e imagem do site Up to Kids

A parentalidade está a evoluir a passos largos.

Há cada vez pais mais conscientes que conseguem conjugar o seu dia-a-dia e a parentalidade de uma forma absolutamente singular. Que conseguem guardar um tempo para se repensar e para equilibrar a forma como estão a educar. Apesar destas conquistas, continuamos a observar quer em contexto familiar, quer em contexto escolar, que a maioria dos adultos opta por gritar com as crianças quando quer que levem a cabo uma tarefa que não estão a executar. Ou quando simplesmente quando querem repreender. Aí, a opção mais fácil e a que muitas vezes se recorre é encher os pulmões de ar e gritar.

Por norma aquilo que os adultos pensam é que isso é inócuo para a criança. Que a vai fazer obedecer, sem consequências para ela. No entanto, e se fizermos o exercício de nos colocarmos no lugar da criança, conseguimos imaginar como esta se sente quando, lá do alto, sai um grito na sua direcção.

Mais tarde ou mais cedo todos os pais vão acabar por soltar um grito na tentativa de conter alguma atitude da criança ou de a mobilizar para alguma acção.  Até aí o problema não é de maior, desde que os pais consigam fazer um exercício de tomar consciência e tentarem controlar numa próxima oportunidade esse grito.

Gritar não é educar.

O que nos preocupa é a facilidade com que, sob o pretexto de educar, se grita. Sempre que gritamos com uma criança, não a estamos a educar ou a ensinar que fez algo errado. Estamos sim a mostrar-lhe que não somos capazes de nos controlar e conversar tranquilamente e com respeito. Mostramos-lhe que nós próprios estamos num estado de tensão que não conseguimos gerir.

Gerir emoções.

Para que as crianças aprendam a gerir e a controlar as suas emoções é fundamental que os adultos de referência também sejam capazes de o fazer.

Gritar tem consequências para a criança. Habitualmente quando um adulto grita a criança fica com medo. Muitas vezes obedece com base no medo e não no respeito. A criança acaba por não aprender o que esta incorreto, e obedece apenas por “sobrevivência”.

Quando o grito vira norma, a criança começa a perceber que só precisa de agir quando surge o grito. A criança compreende o funcionamento dos pais e de alguma forma adapta-se a ele. Só quando surge o grito lhe soam os alarmes de “agora tenho de obedecer”, acabando sempre por ‘exigir’ aos pais que gritem.

O grito consecutivo. Será que as crianças ouvem?

Quando uma criança tem na escola uma professora que grita, em casa uma família que grita, esta fica sobre um stress contínuo que não faz mais do que aumentar a sua agitação e angústia. Mesmo que a criança já se tenha adaptado aos gritos, o grito faz com que se sinta ‘pequenina’. O grito consecutivo pode gerar o medo de errar e no limite fazê-la sentir-se humilhada. A longo prazo, isto contamina o seu pleno desenvolvimento. Sempre que na ânsia de educar gritamos, embora às vezes o grito pareça funcionar, não só não educamos, como geramos confusão e angústia na criança.  Às vezes, envolta em alguma raiva, gera sentimentos de “é injusto, não cuidam de mim.

Para que os gritos deixem de ser uma constante, é fundamental mudar a perspectiva com uma atitude firme e positiva perante os erros das crianças. Não gritar não significa sermos permissivos. Significa que conversarmos e mostramos às crianças as consequências dos seus erros. Assim, para contornar o hábito do grito é importante que os pais sejam assertivos e consistentes. Quanto mais alto se fala menos as crianças são capazes de nos ouvir. A “formula” será, quanto mais baixo se fala, desde que com segurança, coerência e afeto, mais as crianças nos ouvem.

Autores: Cátia Lopo & Sara Almeida

Júlio Machado Vaz: Falar de emoções com os pais, respeitar o espaço dos filhos

Setembro 29, 2019 às 1:00 pm | Publicado em Vídeos | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , ,

Entrevista de Júlio Machado Vaz ao DN Life de 14 de agosto de 2019.

“Se os filhos não falam connosco na infância não vão começar a fazê-lo na adolescência”, diz o psiquiatra Júlio Machado Vaz. Uma entrevista sobre as palavras que sempre disse aos filhos – e a importância de respeitar o espaço deles -, as conversas que tinha com a mãe – com quem falava de tudo, até de desgostos de amor – e o que só conseguiu dizer ao pai no fim de vida – com quem teve um amor envergonhado mas que se tornou diferente quando nasceram os netos.

Visualizar o vídeo da entrevista no link:

https://life.dn.pt/julio-machado-vaz-falar-emocoes-pais-respeitar-espaco-filhos/?fbclid=IwAR2WHVXtZMZa1ji5NUFsp0KEQCiHaaV5HDVjq2w8qSDy4d6IdNca4aYJz9c

Onze frases que mostram que o seu filho está ansioso

Setembro 23, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , ,

Texto do Notícias Magazine de 30 de julho de 2019.

Texto de Ana Patrícia Cardoso

A dificuldade de comunicação entre pais e filhos é uma das origens dos problemas de comportamento de crianças e adolescentes. O que eles dizem e fazem pode revelar um acumular de stress e ansiedade cada vez mais presentes na geração da tecnologia e redes sociais. Se o seu filho disser constantemente alguma destas 11 frases, pense duas vezes antes de o reprimir e procure saber o que realmente se passa.

Quando somos crianças, temos dificuldade em expressar o que sentimos de forma coerente e racional. Muitas vezes, as chamadas “birras” dos mais novos são uma tentativa desesperada de dizer alguma coisa ou marcar uma posição.

A pressão do crescimento, do ambiente familiar, da escola, da própria perceção do mundo que ainda está em formação é, por vezes, um peso e pode transformar-se em picos de ansiedade e stress.

A maioria dos pais tende a encarar estes momentos como «dores de crescimento», mas é preciso estar atento aos sinais.

Leonor Baeta Neves, psicóloga na área de desenvolvimento infantil, garante que “depende do modo como comunica com os pais. Para mim é o ponto mais importante, saber ‘ouvir’ uma criança, dar-lhe espaço para falar e tempo para se explicar. Uma dor de cabeça, de barriga ou sem motivo óbvio é um modo de se queixar de outras coisas.”

Não desvalorize certos comportamentos dos seus filhos. Podem ser um pedido de ajuda.

Não me deixes sozinho

Segundo a psicóloga Leonor Baeta Neves, quando uma criança pede para não ficar sozinha, «pode significar medo. Mas de quê? Pergunte-lhe o que se passa ou procure perceber.»

Podemos ficar em casa?

A psicóloga explica que esta frase, dita num momento em que «seria natural sairem, deve fazer os pais pensar duas vezes no que se passa com o seu filho. Pode ser um alerta. Oiçam a criança, por favor!»

Quero ir para casa agora

Para Leonor Neves, se a criança está a pedir para sair de um determinado ambiente, não deve ser censurada. «Tentem compreender o que lhe está a causar desconforto».

O que há de errado comigo?

Se a criança está a olhar para si própria de forma negativa, «a birra que está a fazer pode ser uma chamada de atenção», diz a psicóloga. Tente perceber o motivo da pergunta e como pode ajudar.

Desculpa.

«Se a criança estiver a pedir desculpa em demasia, é de facto um sinal de alerta e expressa o desejo de que lhe prestem mais atenção», diz Leonor Baeta Neves.

Não me sinto bem.

Tenha cuidado. «Este é um indício de que alguma coisa não está bem. Mais uma vez, deve prestar atenção à origem deste sentimento. Provavelmente, não é físico».

Não gosto do meu corpo.

Leonor Neves diz que é preciso atenção quando uma criança demonstra desconforto com o seu corpo. «Não é bom sinal. A frase é ou pode ser um indicativo de algum distúrbio».

Não quero ir para a escola.

A psicóloga aconselha a «não deixar que se torne uma birra e a explicar que tem mesmo de ir. Mais tarde tente saber o que se passa na escola. Mais uma vez, converse com a criança».

Dói-me muito a cabeça.

Pode não ser birra, diz Leonor Neves. Dor de cabeça ou barriga, garganta, etc. «Há que perceber se existe qualquer coisa ‘real’, ou se é a tensão em que a criança está. A ‘dor’ pode ser psicológica de facto, mas não menos importante do que a física».

Estou cansado.

A psicóloga sugere que pode «estar cansado de estar sozinho… tem de se ter em atenção o contexto».

Pais preocupados com ideias extremistas da internet. Como proteger as crianças?

Setembro 17, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , , , , , , ,

Texto e imagem do site MAGG de 20 de agosto de 2019.

por Rafaela Simões

Os pais têm medo de que os filhos se tornem em supremacistas brancos de direita. A solução começa em casa: educar sobre a internet.

A semana passada, 13 de agosto, uma escritora, critica dos media e mãe de três filhos escreveu um tweet que se tornou viral. Joanna Schroeder mostrou preocupação com o facto de os adolescentes estarem expostos a conteúdos extremistas online e o potencial de influência que isso pode ter nos seus comportamentos. Falamos aqui de adolescentes associados a um padrão: são jovens, brancos e do sexo masculino.

Esta preocupação adensa-se com os últimos acontecimentos: a 28 de julho, um ataque de um adolescente que matou três pessoas num festival de comida, em Gilroy, na Califórnia. Apenas seis dias depois, acontece um outro episódio, classificado como um dos tiroteios em massa mais violentos dos Estados Unidos. Aconteceu a 8 de agosto no supermercado Walmart, em El Paso, no Texas, e provocou mais de 20 mortos. O jovem branco de 21 anos terá agido por ódio, já que antes de entrar no supermercado publicou na internet um manifesto anti-imigração, que entre as quatro páginas explicava o objetivo: matar o maior número de pessoas que encontrasse.

Perante esta série de acontecimentos sucessivos, os pais e professores estão mais alerta e tentam perceber o que está a acontecer com a geração do digital. Já os jovens, não sentem que este seja um problema generalizado. “Sou um adolescente branco que passa a maior parte do meu tempo aqui. No YouTube, no Twitter, nos jogos, apenas por entretenimento. Tenho ideias conservadoras porque eu penso que são lógicas e são o caminho certo. Não porque alguma figura da internet está a fazer-me uma lavagem cerebral para uma fantasia de ‘supremacia branca’”, responde um adolescente ao tweet de Schroeder que tem mais de 80 mil retweets e quase 180 mil gostos.

A mãe disse ao jornal “BBC” que a sua preocupação começou quando há cerca de um ano os seus filhos começaram a fazer perguntas que pareciam ter vindo de discursos de alta direita. Questionaram porque é que os negros podiam “copiar a cultura branca, mas os brancos não podiam copiar a cultura negra”. O alerta foi acionado aqui, e depois de pesquisar percebeu que os adolescentes partilhavam entre si conteúdos como memes machistas e racistas (que aparentemente seriam inofensivos).

Alguns especialistas referem que os algoritmos nas plataformas online podem estar a alimentar a expansão de pontos de vista extremistas e de conspirações, que afetam também os adultos, mas os jovens continuam a ser o principal foco de preocupação, pelo facto de serem mais vulneráveis e de ainda estarem a desenvolver o sentido critico. E o algoritmo é uma das razões que leva Joanna Schroeder a preocupar-se, já que assistir, por exemplo, a um vídeo com conteúdos influenciáveis pode ser o inicio do problema: “É provável que seja conteúdo cuidadosamente criado para atrair os jovens rapazes. Depois de assistir a um desses, os próximos vídeos podem ficar cada vez mais extremistas”.

Tudo começa em casa

“Devíamos estar a ensinar o pensamento crítico e a empatia. Não devíamos ensinar às crianças o que pensar, mas podemos ensiná-las a ouvir as pessoas que têm um pensamento diferente delas”, refere Tom Rademacher, professor do oitavo ano em Minnesota, nos Estados Unidos, ao jornal americano.

O caminho passa pelas escolas, mas começa em casa, onde a professora de sociologia Margaret Hagerman, passou dois anos a estudar um grupo de famílias brancas ricas e a maneira como discutiam e ensinavam sobre raça. Percebeu que os pais achavam que os seus filhos eram “daltónicos” no que toca às raças e que este mesmo assunto deixava os pais desconfortáveis quando abordado entre adultos: “Se os adultos brancos não conseguem ter conversas sobre racismo na América com outros adultos brancos, eu não percebo como é que eles pensam estar preparados para ter essas conversas com crianças”.

Mas por mais que os pais pensem que esta é uma realidade distante ou que não afeta os seus filhos, não é isso que acontece se estiverem atentos. Além dos jovens viverem rodeados de pessoas de raça branca — os vizinhos e os colegas de escola — que os induz para ideias relacionadas com supremacia branca, as conversas entre eles abordam temas como raça, racismo e desigualdade. “As crianças estão a aprender sobre raça na América através de diferentes aspetos das suas vidas quotidianas”, refere a professora.

Também a sala de aula é palco de estudo de Margaret que refere que “[os jovens brancos] estão a tentar perceber onde está a linha de pensamento. Porque é que as coisas são engraçadas e porque é que são ofensivas.” Neste limbo, os jovens acabam por se sentir “como se estivessem sob ataque” pela sociedade dominante, acrescenta.

Os pais não devem temer mensagens “anti-branco”

Os pais devem funcionar como educadores ou, mais precisamente, como explicadores críticos. Ou seja, quando uma dúvida surgir no seguimento de algo que os adolescentes viram online, a professora se sociologia sugere que os pais perguntem onde é que os jovens ouviram aquela ideia para poderem ter conhecimento do contexto e explicar de forma critica aquele meme, fotografia ou comentário que lhes pareceu inofensivo.

“Os nossos filhos precisam de saber que esperamos que eles sejam bondosos, respeitosos e honestos. Não porque pensemos que eles não são assim, mas porque sabemos que eles têm uma bondade natural dentro deles”, refere. Acrescenta que seria mais fácil implantar algumas destas ideias num ano do currículo escolar para ensinar a lidar com a radicalização na internet.

Contudo, os pais temem que a ideia acabe por passar mensagens “anti-branco”. Margaret desmistifica a ideia explicando que a sua sugestão é que “a sala de aula possa ser um local onde as crianças possam explorar sem se sentirem envergonhados. Quando aplicamos vergonha num grupo, estamos a empurrá-lo para um caminho mais negativo”, conclui.

Como sou visto pelos meus filhos?

Setembro 12, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , ,

Texto do site Sapo Lifestyle de 30 de julho de 2019.

Perceber os dois lados para um desenvolvimento familiar saudável

Como é visto pelos seus filhos? Será essa perceção a que gostaria que eles retivessem? Enquanto psicoterapeuta, muitas vezes, oiço em consulta o lado dos pais sobre como veem os filhos. Mas, depois, também oiço o lado contrário, os filhos, cuja compreensão, tantas vezes, contrasta com a opinião dos próprios pais. Pelo que observo, as duas visões são importantes para o desenvolvimento familiar saudável, estimulando a comunicação entre os seus elementos.

Grande parte das questões familiares que nos chegam a consulta envolvem dificuldades na comunicação e interação entre os seus membros, tornando-se interessante ver os dois lados de uma mesma moeda, que é o seio familiar.

No que toca às dinâmicas familiares, existe uma ampla investigação sobre a importância das mesmas para o desenvolvimento das crianças. Contudo, geralmente essas investigações centram-se no ponto de vista dos pais e no tipo de atitudes que os mesmos poderão ter no sentido do desenvolvimento e bem-estar dos seus filhos.

Mais recentemente, as pesquisas voltaram o foco para a perspetiva dos filhos, quanto aos estilos parentais adotados pelos seus pais, percebendo qual é o mais valorizado pelos filhos, bem como o mais benéfico para o seu desenvolvimento.

Os quatro estilos parentais

Vários autores da área indicaram que é importante ter em conta três aspetos principais no crescimento dos seus filhos:

  1. A socialização;
  2. As práticas parentais utilizadas para que os filhos atinjam os objetivos;
  3. O clima emocional no qual a socialização acontece entre ambos.

No relacionamento com os seus filhos, e com o objetivo de influenciar o clima emocional, cada educador pode adotar diversas atitudes e comportamentos, ou práticas parentais. Com base nisso, podemos identificar quatro estilos parentais. São eles: o permissivo, o autoritário, o autoritativo/democrático e o negligente. De modo a perceber cada um deles, iremos recorrer a duas dimensões: a responsividade (apoio prestado e sentido) e a exigência (que os pais colocam na aplicação de regras e limites).

Que estilo parental é o mais indicado?

Sabemos e compreendemos que não existe uma receita mágica para educar um filho saudavelmente. E reconhecemos que, atualmente, muitos pais deixaram de ter tempo para intervir ativamente na educação dos seus filhos, adotando, assim, um estilo mais negligente, não servindo de referência para o crescimento deles.

Tendo em conta a anterior tabela, bem como os resultados apurados em diversas investigações, podemos concluir que o estilo parental autoritativo é o mais adequado. Este estilo permite que os pais se envolvam, respondendo às necessidades da criança ou jovem (atenção, incentivo, auxílio, diálogo, diversão), bem como acompanha os comportamentos do filho (exigindo a obediência de regras, limites e cumprimento dos seus deveres), favorecendo o respeito pelos pais, mas também estimulando a autonomia e autoafirmação dos filhos.

Aqui, há a salientar que a comunicação é essencial. Só assim os pais conseguem perceber quais as perceções dos seus filhos face ao seus comportamentos e atitudes. Porque, mesmo que um pai/mãe pense que é responsivo e exigente, é importante saber qual a opinião dos seus filhos, pois pode diferir da sua.

É um desafio fácil? Não é. É uma tarefa exigente para qualquer pai/mãe, mas estará a contribuir, assim, para o crescimento emocional dos seus filhos, de modo que se tornem adultos saudáveis.

Margarida Rogeiro / Psicóloga e Psicoterapeuta

Página seguinte »


Entries e comentários feeds.