Pais pagam a explicadores para ensinarem os filhos a jogar “Fortnite”

Agosto 17, 2018 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia da SIC Notícias de 3 de agosto de 2018.

Mais de 125 milhões de pessoas jogam diariamente Fortnite, a sensação virtual que está a conquistar cada vez mais crianças. Como acontece com uma disciplina escolar, há agora ‘explicadores’ que ajudam a passar, neste caso, de nível. E são cada vez mais os pais que contratam os seus serviços.

Para os pais, o sucesso dos filhos num videojogo parece nunca ter sido tão importante como agora. Isto porque vencer no Fortnite não só é sinónimo de inclusão social, como pode também resultar numa generosa bolsa para o ensino superior.

Um dos clubes de eSports (competição de videojogos) de uma faculdade norte-americana anunciou um prémio de um milhão de dólares (cerca de 862 mil euros) em bolsas de estudo. Também a Epic Games, detentora do jogo virtual, anunciou o financiamento de prémios no valor de 100 milhões de dólares (cerca de 86 milhões de euros) para as competições de Fortnite.

Razões que parecem suficientes para contratar aulas que podem custar mais de 20 dólares (cerca de 17 euros) por hora, conta o pai de um jogador de 12 anos ao The Wall Street Journal. Lições que fizeram diferença entre o filho raramente ganhar e passar agora a ganhar frequentemente.

Uma moda que está a ganhar cada vez mais adeptos, até pela pressão social que os jovens sentem por não jogarem um dos jogos mais populares da atualidade.

Fortnite foi lançado a 25 de julho do ano passado e a sua versão para telemóvel já ultrapassou o tão conhecido ‘Candy Crush Saga’.

 

 

Nem permissividade, nem autoritarismo ensine-os a lidar com as consequências dos seus atos

Agosto 7, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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thumbs.web.sapo.io

Texto do site Sapolifestyle de 25 de julho de 2018.

Educar as crianças com base na autoridade deixou de funcionar. Mas o estilo permissivo que se generalizou também não surte bons efeitos. O que fazer, então? Pô-los a aprender com os seus próprios erros.

As livrarias estão cheias de manuais para educar os filhos, mas os filhos não param de arranjar formas de surpreender os pais – nem sempre pela positiva. A democratização da parentalidade, com base no princípio da cooperação (em vez de obediência), tem os seus efeitos positivos, mas deixa frequentemente nas mãos das crianças um poder que é dos adultos.

No livro The Collapse of Parenting (O Colapso da Parentalidade), o psicólogo e especialista em relações familiares, Leonard Sax, deixa um conselho liminar: “Comande, não pergunte, não negoceie”.

O médico norte-americano disse à CNN que, sem quererem, muitos pais estão a contribuir para um leque variado de problemas das novas gerações, nomeadamente, a obesidade e as doenças mentais

Leonard Sax admite que a educação autoritária, que tão bem funcionou no passado, já não é eficaz para os jovens de hoje. Mas isso não quer dizer que a obediência deva ser completamente substituída pela autogestão dos miúdos. Sax defende a premissa “ensinar as crianças através das consequências dos seus atos”. E alerta: “Mais rigidez quer dizer mais autoridade dos pais, mas isso também pode desencadear mais insanidade. Será assim tão mau permitir que a vida, e todos os seus imprevistos e circunstâncias, ocasionalmente atrapalhem as regras?”

Já Katherine Lewis, autora do livro The Good News About Bad Behavior (Boas Notícias Sobre o Mau Comportamento) defende que a velha ideia de que “quem manda sou eu, pura e simplesmente deixou de funcionar”.

Lewis tenta responder àquilo que considera ser “uma crise de autorregulação entre os miúdos” e acredita que esse fenómeno vai fazer com que quase metade das crianças venha a sofrer de problemas de humor, distúrbios emocionais ou algum tipo de dependência aos 18 anos.

Para Lewis, há quatro razões básicas para esta crise. A saber: a ascensão das redes sociais e da cultura tecnológica (que, garante, só faz o indivíduo “olhar para fora”), o declínio do tempo de vida em família, o desenraizamento social e uma educação pouco eficaz. “As crianças de hoje tendem a vaguear por aí sem grandes preocupações; são ensinadas a concentrar-se mais nas conquistas individuais do que no apoio à família, amigos e conhecidos”, disse a autora ao site da CNN.

Relativamente à responsabilidade dos pais, Lewis reforça que não os está a culpar, e pede que encarem a disciplina de outra forma. Primeiro, defende, é preciso “separar a nossa função de pais da ideia pré-estabelecida de que, como adultos, sabemos sempre o que é melhor”. E prossegue: “Embora essa abordagem autoritária tenha funcionado no passado, é ineficaz para a geração atual de jovens, mais familiarizada com a colaboração”, defende. “O volante já não está nãos mãos do pai e da mãe. Há hoje uma forte ideia de igualdade e eles sabem bem disso”.

Katherine Lewis explicou que, embora a educação autoritária ajude as crianças a serem melhores na escola e a evitarem alguns problemas, pode deixar cicatrizes emocionais. Razão pela qual, acredita, “muitos pais na década de 1980, criados por mães e pais autoritários, preferiram adotar uma abordagem oposta e seguir um estilo mais permissivo.”

O problema, sugere, é que fomos para o extremo oposto. “É daí que vem o culto da autoestima e da gratificação”, diz.

O que fazer? Renunciar à lei do medo que vigorava no passado e ajudar os miúdos a se auto-regularem. Não há receitas mágicas, é certo, mas existe uma regra permanente: “A única constante é encontrar uma forma de os consciencializar das consequências do que fazem, ao invés de avançar para a punição”, diz Lewis. “O castigo é algo imposto por alguém mais poderoso a outro, sem poder. As consequências ensinam-nos a aprender com os erros. São uma lição de vida”.

 

 

Como lidar com os amores de verão do meu filho?

Agosto 6, 2018 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do Diário de Notícias de 22 de julho de 2018.

Que preocupações trazem as redes sociais? Qual a idade ideal para ir de férias sozinho? Estas e outras questões respondidas pela terapeuta familiar Catarina Mexia.

Texto de Alexandra Pedro | Fotografia Shutterstock

Férias + adolescentes = paixões. Esta é uma equação quase sempre difícil de resolver para os pais. Os chamados «amores de verão», a que os familiares não costumam dar grande importância, podem significar muito para os adolescentes.

Para os jovens, esta será uma fase natural, mas estarão os pais preparados? Num mundo dominado pelas redes sociais (e pelos riscos que daí advêm), existem preocupações acrescidas e novas estratégias a adotar?

A psicóloga Catarina Mexia ajuda-nos a perceber o que significam realmente estas paixões de verão e como devem os pais lidar com elas. Esclarecemos ainda algumas dúvidas sobre a autonomia e a responsabilidade que devem ser atribuídas aos seus filhos.

Sabe, por exemplo, qual a idade ideal para os deixar ir de férias sozinhos?

Porque está o verão tão associado às paixões?
É uma realidade que acontece com todos os seres humanos. A maior disponibilidade – estarmos mais expostos, mais despidos -, bem como o facto de o nosso corpo libertar mais feromonas levam a que isso aconteça. Portanto, também os jovens estão mais suscetíveis a receber esse tipo de mensagens e passam pela fase de descoberta do outro e de si próprios.

De que forma é que os pais devem interferir nestas relações?
Em primeiro lugar, não sei se os pais devem interferir. Acho que os pais devem ter uma posição atenta e mostrar-se disponíveis. Mas, claro, tudo isto depende das idades de que estamos a falar. Os jovens desenvolvem-se muito mais cedo hoje e os desafios são muito diferentes em comparação ao que eram há uns anos.

Porquê?
O maior exemplo é que muitos namoros começam agora pelas redes sociais. Como me dizia um jovem de 16 anos há uns dias: «já ninguém pede o número de telefone, pede-se o insta». Portanto, hoje em dia, estes primeiros relacionamentos são guiados por um anonimato muito grande, vindo das redes sociais, e nos quais os pais nem sequer têm muita fé. As redes sociais servem quase como um cartão-de-visita e muitas vezes os jovens envolvem-se em relações que envolvem muitos riscos. Eles [os adolescentes] aceitam níveis de violência que eram intoleráveis.

Isso não será fácil de os pais compreenderem.
Os pais têm de perceber que tudo isto faz parte do crescimento e do ganho da autonomia destes jovens e das aprendizagens. Mas devem mostrar-se curiosos, não cuscos, e disponíveis para ser o conforto dessa relação.

Mesmo que os jovens queiram esconder a parte «amorosa» das suas vidas?
Não disse que seria uma tarefa fácil. É um equilíbrio muito difícil. Muitas vezes os pais querem deixá-los voar mas, ao mesmo tempo, temem não os manter em segurança.

Daí a importância do diálogo aberto entre pais e filhos?
Há temas que são praticamente obrigatórios: como a segurança na sexualidade, por exemplo. São conversas que os pais não podem deixar de ter com os seus filhos e é muito importante a forma como as têm. Apesar de serem informativas, podem também ser um momento e uma oportunidade de os seus filhos perceberem que, mesmo que as coisas não lhes corram bem, há ali alguém que os vai ouvir. Com quem podem conferir ideias e desabafar, até.

«Por vezes é importante colocarmo-nos, como pais, no lugar dos nossos filhos e recordarmos quando tínhamos a idade deles»

Estas paixões de verão podem trazer também as primeiras desilusões. Como devem os pais reagir a esses desgostos?
Nesses momentos, em que os jovens por vezes deprimem de forma séria, o truque é, mais uma vez, estar atento. Não devem desvalorizar aquele sofrimento de maneira nenhuma, porque eles estão a sofrer verdadeiramente. Às vezes é importante colocarmo-nos, como pais, no lugar dos nossos filhos e recordarmos que na idade deles também iríamos dar demasiada importância àquele momento. Há que valorizar o sofrimento, colocá-lo em contexto e ajudá-los a encontrar uma forma diferente de ver as coisas. Ou seja, ajudar os filhos a ver além daquela pessoa ou daquele acontecimento. E procurar valorizar outras amizades, outros convívios e outras atividades.

Em relação à sexualidade, deve ser um tema abordado por iniciativa dos pais ou estes devem esperar que o filho/a os procure para abordar o tema?
Na minha opinião, a responsabilidade é sempre dos pais. Quer no caso das raparigas, quer no caso dos rapazes. Se é a mãe ou o pai a fazê-lo, considero que isso terá a ver com a dinâmica da família. Não existe uma regra. Quanto ao momento certo, se existir uma relação próxima, os familiares vão perceber quando for a altura.

«É preciso ter noção dos riscos e das consequências das redes sociais»

Com a chegada das redes sociais, esta tornou-se uma questão ainda mais difícil?
Sim, porque agora também estamos a falar de segurança. É preciso ter noção dos riscos e das consequências. Estou a lembrar-me de um caso de um jovem homossexual, que trocou umas fotografias com um homem via Facebook e a mãe só soube quando as coisas correram mal. Está é uma situação limite mas é demonstrativa de como as redes sociais permitem esconder identidades que podem levar a situações extremas. Possivelmente, sem a possibilidade de anonimato e de criar perfis falsos, os pais deste jovem iriam perceber tudo mais facilmente.

Qual a idade ideal para deixar os jovens irem de férias sem os pais?
A idade não é um fator decisivo, mas sim o nível de maturidade. Há jovens de 16 anos completamente responsáveis e totalmente autónomos, enquanto há outros que não vão sozinhos para lado nenhum. Mas diria que os 16 anos são um marco.

 

 

 

 

 

 

Entrevista ao pediatra Mário Cordeiro: “Os pais têm que deixar de ter tanto medo de tudo”

Agosto 4, 2018 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista da Conti outra a Mário Cordeiro. Imagem da Conti outra

Por Catarina Fonseca

É um dos mais respeitados pediatras portugueses e afirma que, embora sejamos melhores pais agora, ainda há muito para melhorar. Aqui falamos de culpa, TPCs e stresse, mas também de fins de semana e da mudança.

Somos melhores pais agora?

Somos melhores pessoas, em geral. Tenho fé na humanidade. Acredito que a maioria das pessoas tem coisas muito boas para dar, e a evolução em relação ao bem-estar, aos direitos humanos, às desigualdades, tem evoluído muito. Não é preciso recuarmos séculos. Em 1900 a média de vida em Portugal era de 40 anos. Havia bolo nos dias de festa e no resto do tempo era pão seco.

Vivemos no terror de sermos maus pais, mas nunca se falou tanto em parentalidade nem as pessoas se preocuparam tanto com isso…

Sim, às vezes até demais… (risos) Andamos demasiado preocupados com a nossa ‘performance’ enquanto pais e pelo caminho perdemos espontaneidade, naturalidade e bom senso, que são qualidades muitíssimo importantes. A naturalidade significa não andarmos sempre a pensar no que estamos a fazer ou no que o médico manda.
Quando as pessoas me dizem ‘Eu sigo-o’ dá-me sempre vontade de dizer ‘Não faça isso, que eu não sou um pregador evangélico!’. A espontaneidade é deixar as coisas correr e não ter obrigação de sermos pais ou mães iguais todos os dias. O bom senso é aquilo que nos rege sem regras nem obrigações.

Por que é que temos tanto medo de sermos maus pais?

Porque somos inseguros e estamos sempre preocupados com aquilo que os outros acham de nós. E muitas vezes essa censura social não existe. Às vezes pensamos ‘os outros vão achar que…’ e os outros não acham nada. São mecanismos projetivos: pomos na cabeça dos outros o que se passa na nossa. Outra das razões é por que a ciência nos ensinou que o que nós somos hoje radica na infância. Dantes, antes dos 18 anos a criança andava às ordens dos outros e não havia a noção de uma criança triste ou deprimida. Se estava triste era porque não tinha nada que fazer. Hoje sabemos que as crianças têm emoções e sentimentos, e que o ser humano se constrói desde que nasce.
E nós temos medo de os estragar para sempre e que a culpa seja nossa…
Sim, sim. Às vezes isso para nós, portugueses, também é um sentimento de autoflagelação e culpa, são muitos anos de moral judaico-cristã.

Para que serve a culpa?

Serve para nos redimir de algumas ações. Se eu der uma bofetada ao meu filho e achar que fui injusto, pergunto-me se, de cada vez que olhar para ele, não vou sentir-me mal. A necessidade de reparação é muito importante. É fundamental, quando se é injusto, perceber por que é que exageramos. Nós ainda temos muito a ideia de poder para com as crianças. Como não podemos bater no chefe, ralhamos ao filho. Quando uma pessoa sente que foi injustiçada, arranja um bode expiatório. E não podendo bater no S. Pedro, no governo ou no chefe, mantemos uma raiva latente que nos faz ter de mandar em alguém. E esses poderzinhos são aplicados em quem é mais frágil e mais desprotegido.

Confundimos poder com autoridade?

E autoridade com autoritarismo. Numa família, há um triângulo pai-mãe-filho, em que o filho ocupa o vértice inferior. E qualquer inversão deste esquema dá asneira. Agora, o ter de haver esta hierarquia não quer dizer que a amizade e a compreensão não dominem. Mas há de facto uma autoridade, que não se baseia no autoritarismo. Pais e filhos devem ser educados, saber argumentar, saber escutar e chegar a um consenso. Mas se não se conseguir um consenso, quem tem a última palavra são os pais.

Dê-me um exemplo de um bom castigo e de um mau castigo…

Um bom castigo é justo, equilibrado, e visa o comportamento e não a pessoa. O mau castigo é o contrário disto: pretende valorizar o castigador em vez de ensinar o castigado, e acima de tudo humilha a pessoa em vez de corrigir o comportamento. Por isso é que eu insisto muito que, antes de um castigo, devemos sempre dizer à criança ‘Eu amo-te muito’. Porque assim lhe dizemos duas coisas: não está aqui em causa o meu amor por ti e faço isto porque te amo. Ou seja, temos de passar à criança que o amor por ela nunca está em causa, apesar de eu poder estar zangado naquela altura. Porque a criança é literal, acha que vai ser deitada fora, como acontece quando não queremos qualquer coisa. O castigo deve ser acima de tudo pedagógico. Deve explicar-se o que a criança fez mal, não descarregar a nossa fúria.

Como dantes se davam reguadas na escola, na esperança de que por milagre a criança de repente ‘se lembrasse’ do que não sabia…

(risos) Totalmente. É um exemplo de um castigo absurdo. Felizmente que isso já passou. Mas repare que o que se passa com as crianças passa-se com qualquer um de nós. Se o seu chefe lhe disser ‘Olhe, ó Catarina, neste seu artigo há aqui umas coisas que gostaria que abordasse com mais pormenor, veja lá se eu não tenho razão, você faz isso tão bem”, você vai-se embora toda motivada para emendar o artigo. Agora se eu lhe disser ‘Este seu texto está uma verdadeira porcaria, você acha que eu vou publicar essa porcaria?’, isso só vai gerar ressentimento.

Mas já estamos a educar melhor, não?

Sem dúvida. Houve uma mudança geracional muito grande e muitíssimo repentina, que apanhou a era da internet e a evolução da ciência. As mudanças de paradigma nestes 20 anos foram uma explosão brutal, e é normal que por vezes se ande um bocado confuso com tudo o que nos chega.

O que é que estamos a fazer mal e a fazer bem?

De bem, aprendemos a valorizar as crianças, a estimular a autonomia, o esforço, o rigor (isto quando os miúdos não são abebezados). O que se faz de mau corresponde a um grande paradoxo na nossa sociedade: por um lado, infantiliza-se muito as crianças, por outro, dá-se-lhes um estatuto de ‘crescido’ e de opinativo que não condiz. Mas o pior, para mim, é o stresse diário em que mergulhamos os nossos filhos.

As crianças estão a ter cada vez mais uma vida muito parecida com a nossa, não é? Chama-lhe ‘vida mais-do-mesmo’: levanta, vai à escola, volta, banho, tpcs, cama…

Há duas coisas terríveis: eles trabalham demais na escola e submetemo-los a deslocações enormes. Um estudo provou que se uma pessoa for a caminhar o cérebro vai registando e descodificando as imagens à sua volta. Mas se for à velocidade de um automóvel, as imagens passam tão depressa que fazem o mesmo efeito de uma lâmpada a piscar, e essas imagens são lixo que ocupa o cérebro. A criança quando chega à escola já vai cheia de informação que não é nada. Tudo o que tem na cabeça são vertigens sem sentido, e este ‘lixo informativo’ é altamente stressante e tóxico porque o cérebro tem de se esforçar para perceber onde é que o vai ‘arrumar’… É por isso que muitas crianças chegam estoiradas ao meio da manhã. E depois os pais queixam-se de que elas estão desatentas. Elas não estão desatentas. Elas estão entupidas de informação inútil.

Como se quebra o ciclo do cansaço?

Além de se tentar que as crianças durmam mais e melhor (já agora, repare que investimos balúrdios num carro e ninguém investe num bom colchão) temos de perceber que nós não podemos ter tudo. Estamos habituados a ter o mundo na ponta dos dedos, e o acesso à informação imediata dá-nos uma sensação de omnipotência, de que podemos saber tudo e dominar tudo e ter tudo. Mas não podemos. Portanto, há que fazer concessões e escolhas.

E o que é que podemos fazer?

Por exemplo, podemos organizar-nos num estilo de vida em que as crianças possam ir para a escola de transportes. A partir dos 11, 12 anos podem perfeitamente andar de transportes. Nós é que somos bombardeados todos os dias por medos absurdos. Claro que o ideal é irem a pé para escola. Uma cidade é para se observar, para fruir. Os meus filhos sempre foram a pé. Mas eu dizia-lhes: ‘Se alguma vez vos apanhar a atravessar fora da passadeira, acaba-se logo isto.’ Não há autonomia sem responsabilidade.

O que acha da quantidade de TPCs que muitas crianças levam para casa?

Acho um perfeito disparate. Aceito alguns trabalhos, mas esta história de mais do mesmo é um atestado de menoridade à escola, que não soube ensinar-lhes o que eles precisavam de saber durante o tempo de aulas. Os pais devem proteger as crianças, e se necessário escrever ao professor: ‘O Manel hoje não teve tempo de fazer os TPCs’.

Mas os pais têm medo de que as crianças fiquem para trás…

Ai mas têm de deixar de ter tanto medo de tudo. Temos de ter uma voz mais ativa na educação das crianças. E são esses medos, mais do que o desinteresse, que desapoiam a criança. Devíamos ter associações de pais mais participativas.

Fazia os TPCs com os seus filhos?

Não os fazia com eles, mas sempre estive disponível para fazer revisões ou para tirar dúvidas. Eles sempre andaram e andam numa escola pública, e só tinham trabalhos aos fins de semana, o que eu apoiava. O que eu fazia era revisões antes dos testes. Mas fazer os TPCs com eles, nem pensar. As crianças têm de ser responsáveis pelo que têm de fazer, e os pais têm de estar disponíveis para uma dúvida ou outra, ou por exemplo para ensinar a investigar no Google.

Muitas pessoas querem filhos-troféu?

Querem um filho como um processo narcísico. Em vez de ‘que lindo filho que eu tenho’, pensam ‘que lindo pai que eu sou, que tenho um filho tão lindo’ (risos). Há pessoas que planeiam um filho como parte das ‘coisas’ que querem: uma casa, uma carreira, um carro, um emprego, um filho. Ora isto são domínios completamente diferentes em termos de realização. Um filho não é um bem, como um frigorífico, um filho dá trabalho, e as pessoas têm de se capacitar disso. Temos é de arranjar um equilíbrio entre as ‘peças’ do puzzle da nossa vida. Tanto é mau aquelas pessoas que acham que podem continuar a fazer tudo o que faziam quando não tinham um bebé, como as que se me vêm queixar: ‘Nunca mais fui ao cinema desde que o João nasceu.’ Isso é ser um bom pai ou mãe? Não, não é.

E depois o casamento ressente-se?

Claro. Porque deixamos de ser o Zé e a Maria e passamos a ser o pai e a mãe do João. E a relação conjugal não é a relação parental. Na relação conjugal, os filhos não devem entrar. Mas quando o INE nos diz que mais de metade das mães só terão um filho, as mães agarram-se àquele ser e infantilizam-no para lá do natural.

Por que é que gostamos tanto de manter os filhos bebés?

Porque as mães são o pólo regressivo e os pais o pólo de crescimento. Quando trabalhamos, por exemplo, estamos numa postura de crescimento. Em casa, estamos em ‘regressão’, relaxamos. As mães representam a segurança e proteção, os pais, o desenvolvimento e a progressão, o que não significa que muitas vezes as mães não façam de pais e vice-versa. Por isso, quando um filho cresce, dirige-se para o pai. E a mãe sente isso como uma traição. ‘Olha aquele agora só quer o pai’. Antigamente, quando a criança se dirigia para o pai, a mãe já tinha outro bebé na barriga. Hoje, isso deixa um grande vazio na mãe. E num país com uma das mais baixas taxa de natalidade do mundo, isto é dramático.

E depois culpabilizamo-nos por passarmos pouco tempo com eles…

E comparamo-nos com uma utopia que nunca existiu. Dizemos que as nossas mães passavam mais tempo em casa, mas as portuguesas sempre trabalharam imenso. Elas trabalhavam, tinham vida social, tinham hobbies, só que era tudo feito de modo contínuo. Um bocadinho com os filhos, depois apanhar couves, depois ir à loja, eram ‘bocadinhos’, o que dava uma sensação de continuidade. Não se vivia em ‘blocos’ de 8 horas. Mas a vida mudou radicalmente em pouquíssimo tempo. Tudo estava próximo, mesmo dentro das cidades a vida organizava-se em ‘aldeias’. Hoje isso perdeu-se.

O que podemos fazer?

Aproveitar as férias e os fins de semana para sair do esquema quotidiano, por exemplo. Deixar esse exibicionismo dos automóveis e das roupas e preocuparmo-nos mais com o que é verdadeiramente importante, porque não é isso que nos faz felizes. Mesmo as crianças já valorizam muito as coisas não pelo seu valor em si, mas pelo que custaram. Isto é espantoso! É mesmo isto que queremos passar-lhes? A cultura das marcas? Podíamos conversar mais com eles, discutir ideias e valores, coisa que não estão nada habituados a fazer.

Eles hoje é mais ecrãs?

Eles e nós. A ideia da tecnologia é poupar-nos esforços e libertar-nos. Mas não nos devia libertar para mais do mesmo! Devíamos usar esse tempo que ganhámos para qualquer coisa mais humana, ir passear, conversar, ir a uma esplanada, estar olhos nos olhos. Ou seja, devíamos pensar de vez em quando no que é que queremos da vida e no que pretendemos dos próximos anos. E o que é que podemos fazer para lá chegar. De certeza que haverá uma ou mais coisas que podemos mudar. E ter essa coragem de mudar. Temos muito medo da mudança. Às vezes vejo pais aflitíssimos porque a Rita vai mudar de escola e vai ter professores novos e colegas novos e ai ai ai. Mas qual é o problema? Mudar é saudável, cria-nos aptidões novas. Traz pessoas novas às nossas vidas, em vez de passarmos anos a fio no mesmo sítio, todos iguais uns aos outros e a debitar as mesmas banalidades. Isto é um desperdício da condição humana.

Fonte: ACTIVA

 

Educação. Devem os pais ser os melhores amigos dos filhos?

Julho 19, 2018 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do MAGG de 10 de julho de 2018.

por Catarina da Eira Ballestero

Ou deverão os pais assumir-se como educadores e figuras de autoridade, estabelecendo barreiras bem definidas? Uma psicóloga responde.

Corria o ano de 2004 quando a comédia “Giras e Terríveis” estreou. O filme, protagonizado por Lindsay Lohan e Rachel McAdams, parecia, à primeira vista, ser apenas mais um blockbuster de verão dirigido ao público juvenil — afinal, o argumento centrava-se num liceu e na chegada de uma nova aluna ao ambiente, por vezes cruel, do ensino secundário.

No entanto, para além de se ter tornado num filme referência para as vítimas de bullying, a comédia também abordou outro tema importante: a necessidade de muitos pais quererem ser os melhores amigos dos filhos, de forma a ficarem mais próximos. Numa cena de “Giras e Terríveis”, a personagem de Mrs.George (interpretada por Amy Poehler), mãe da vilã Regina, cai no ridículo ao usar calão, fatos de treino iguais aos das adolescentes e ainda oferecer álcool às menores numa tentativa destas a acharem a mãe mais porreira e jovem de sempre.

Esta é uma dúvida que assombra muitos pais: será a relação com os filhos melhor se adultos e jovens forem os melhores amigos ou deverão os pais assumir-se como educadores e figuras de autoridade, estabelecendo barreiras bem definidas?

Segundo Beatriz Matoso, psicóloga clínica e psicoterapeuta, o papel fundamental dos pais é o de protetores. “Os pais devem procurar compreender os filhos, ajudando-os no seu processo de autonomia e realização pessoal, de acordo com a fase da vida em que se encontram, oferecendo-se como um possível modelo de identificação”, conta à MAGG.

Os filhos não têm de contar tudo aos pais — e não há mal nenhum nisso

De acordo com a especialista, existem várias razões que podem levar os pais a quererem que os filhos os identifiquem como amigos. “A confirmação do desejo que têm de ser bons pais é um dos motivos, mas também é possível que os pais queiram conhecer mais detalhes da vida dos filhos, na perspetiva de melhor os poderem acompanhar ou mais facilmente os controlar.”

“É benéfico que os pais compreendam que não podem substituir os amigos dos filhos.”

Tal como explica a psicóloga, apesar de uma aproximação entre pais e filhos ser essencial, de forma a que estes se conheçam e se compreendam mutuamente, bem como também útil para quebrar barreiras de comunicação, há que entender que as crianças e jovens também têm de ter outros amigos, sendo estes figuras de confiança com quem se possam identificar e partilhar sentimentos e informações — e os pais têm de aceitar que outros jovens, pares dos seus filhos, possam ser os melhores amigos destes.

“É benéfico que os pais compreendam que não podem substituir os amigos que os filhos têm o direito de eleger. Todo o ser humano tem direito a fazer as suas escolhas, ainda que posteriormente possa vir a reconhecer que não foram as melhores”, conta Beatriz Matoso, que acrescenta que é natural que os filhos não contem tudo aos pais e “procurem entre os amigos da sua faixa etária, alguém que os compreenda e aceite com as suas qualidades e dificuldades”.

Hoje em dia, as relações entre pais e filhos são mais descontraídas e muitas barreiras caíram por terra. Afinal, de acordo com a psicoterapeuta, mesmo para desempenhar o seu papel fundamental de educadores, os pais precisam de ter uma boa relação com os seus filhos.

No entanto, é preciso saber que “não há pais perfeitos, assim como não há filhos perfeitos. Os pais devem colocar-se no seu papel de pais e educadores para poderem proteger e orientar os filhos no seu processo de crescimento. Na medida em que há uma diferença de gerações e experiências de vida em contextos socioculturais, com características distintas, é natural que pais e filhos tenham pontos de vista diferentes”, explica Beatriz Matoso.

A especialista acrescenta que o confronto entre modos diferentes de pensar pode ser enriquecedor. Porém, é possível que também possa originar conflitos, principalmente “quando não há suficiente flexibilidade e respeito pelo pensar do interlocutor. Para os evitar, é natural que os filhos não contem tudo aos pais e procurem entre os amigos, como colegas de escola por exemplo, esse apoio fundamental”.

São os pais divorciados mais tentados a quererem ser vistos como amigos?

Um divórcio tem consequências nos filhos. Por mais que a separação dos pais tenha sido tranquila e o relacionamento entre ambos seja saudável, as crianças e jovens têm sempre de se adaptar a uma nova realidade, que dita que o tempo será agora dividido entre a casa da mãe e do pai.

Assim sendo, serão os pais divorciados mais propensos a quererem ser vistos como o pai “fixe” e amigo? De acordo com Beatriz Matoso, psicóloga clínica, a resposta é sim. “Os pais divorciados que querem manter um vínculo com os filhos, sentem uma necessidade mais premente de se aproximarem destes e de que os filhos os sintam como amigos.”

Segundo a psicóloga, isto não tem sempre origem no desejo de vivenciar trocas afetivas e pode ter outras causas, inconscientes até.

“Há casos em que pode predominar a culpabilidade pela dissolução do núcleo da família original e pelo esforço exigido aos filhos de se adaptarem a novas famílias, constituídas depois do divórcio. Noutras situações, podemos estar a falar de uma rivalidade em relação ao ex-cônjuge e o desejo de se afirmar socialmente como mais competente enquanto pai ou mãe”, explica Beatriz Matoso à MAGG, que relata que os filhos podem ser utilizados, perversamente, como instrumento de ataque ao ex-companheiro, “em vez de serem amados e respeitados como têm direito”.

Para a especialista, é fundamental que qualquer um dos pais não diga mal do outro aos filhos. “Quando há decisões a tomar sobre a vida destes, deve existir disponibilidade para se ouvirem e colaborarem mutuamente. Os filhos não têm culpa do conflito entre os pais”, conclui Beatriz Matoso.

 

 

É mais fácil ser pai na Islândia?

Julho 16, 2018 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Seathor, pai islandês ©Callie Lipkin

Texto do Público de 9 de julho de 2018.

A fotógrafa norte-americana Callie Lipkin sente-se 100% segura ao afirmar que “a Islândia é líder mundial no que concerne à qualidade da política de licença parental”. Mãe e pai têm direito a três meses de licença. Durante esse período, auferem 80% do vencimento e dispõem ainda de mais três meses de licença que podem ser distribuídos entre os progenitores, à medida das suas necessidades. “Estudos revelam que os pais que estão mais envolvidos no cuidado dos filhos desenvolvem, estatisticamente, uma parceria parental mais igualitária”, explicou ao P3, em entrevista. Callie também é mãe, motivo por que se interessou pelo tema. “Enquanto mãe, observar a forma como outras culturas abordam a educação das crianças ajuda-me a colocar a minha própria experiência em perspectiva.”

Ser pai na Islândia é mais fácil do que noutros países, diz a fotógrafa. No campo das vantagens, os pais referem o ambiente extremamente seguro que se vive na ilha. “Os índices de violência e crime são extremamente baixos, em comparação com os de outros países. Os pais afirmam que não existem más escolas no país e que podem escolher livremente a escola que os filhos frequentam, independentemente da região onde residem.” Mas também existem aspectos menos positivos. “As principais desvantagens prendem-se com o facto de a Islândia ser uma ilha isolada e pequena, onde o custo de vida é bastante elevado”, refere Callie. A localização geográfica da ilha também não é amiga dos pais islandeses, que se queixam da dificuldade em convencer os seus filhos a ir para a cama enquanto ainda há luz natural no exterior. “Apesar de tudo, as vantagens parecem suplantar os inconvenientes”, conclui.

Callie Lipkin (@clipkin, no Instagram) encontrou inspiração para o desenvolvimento do projecto Icelandic Dad Time após uma viagem à China, onde fez um trabalho fotográfico com o mesmo tema. A partir dos Estados Unidos, com recurso às redes sociais, a fotógrafa encontrou os pais islandeses que seriam retratados. Contactou-os e, com base em pequenas entrevistas, seleccionou os melhores casos. Meses mais tarde, quando Callie aterrou em Reiquejavique, já todas as sessões fotográficas estavam agendadas. O processo foi célere e eficaz.

“Este é o segundo capítulo internacional do projecto Dad Time”, explica. O primeiro foi desenvolvido na China e pode ser visto no seu site. “Adoro examinar como a cultura dos países influencia os diferentes estilos de educação que são implementados. A educação é uma construção social e não existe, nesta matéria, certo ou errado.

 

 

As crianças precisam da autoridade dos pais – Eduardo Sá

Julho 9, 2018 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Photo by Allen Taylor on Unsplash

Texto de Eduardo Sá publicado no site https://www.eduardosa.com

Há uma linha que separa a autoridade do autoritarismo. A autoridade é um exercício de bondade; o autoritarismo aquilo que se reclama quando os bons exemplos não coincidem com tudo o que se exige. Porque é que as crianças precisam da autoridade dos pais? Porque se as rotinas dão um perímetro mais ou menos familiar a tudo aquilo que desconhecem, a autoridade dá-lhes “um norte”. Um conjunto de nãos que, todos juntos, lhes trazem as regras que, em conjunto com as rotinas, orientam e estruturam as crianças, mesmo quando elas estão longe dos pais. As rotinas e as regras funcionam como um  “estabilizador de humor” que, quando não são demasiado opressivas, se adequam aos ritmos dos filhos e aquilo que se espera delas em termos sociais, fazendo uma ponte entre o dentro e o fora das crianças e o dentro e fora da família.

As crianças precisam de regras, portanto. As regras, se forem claro para elas, consolidam-se em função da autoridade que as crianças reconhecem aos pais. E a autoridade resulta da coerência dos nãos que elas têm por parte dos pais. Ora, é aqui que, grande parte das vezes, tudo se complica. Os pais entendem que explicar, negociar ou justificar as regras os torna mais democráticos e que isso ajudará a que as crianças, percebendo melhor aquilo lhes é pedido, acatem, de forma muito mais fácil, aquilo que eles esperam do seu comportamento. O resultado é, todavia, completamente ao contrário daquilo que os pais mais desejam. As crianças, sempre que sentem este “furor dialogante” dos pais, interpretam-no como um sinal de insegurança; de quem está a exercer a autoridade numa atmosfera de “desculpa qualquer coisinha”. E as consequências não são, seguramente, as melhores. Ficam mais assustadas, porque lhes falta “o norte”. Ficam muito mais agitadas, porque nem sempre aquilo que os pais esperam delas fica muito claro. E ficam muitíssimo mais desafiadoras, porque lidam com eles como se lhes estivessem sempre a dizer: “ainda está para nascer quem terá mão em mim!…”. Como se isso, só por si, não chegasse, à medida os pais vão saltitando entre os avisos, as ameaças, as explicações, a forma como “falam ao coração” e os desabafos com que capitulam diante de tudo isto, ao mesmo tempo que e os momentos se zangam, com clareza,  há muitas outras vezes em que “varrem para debaixo do tapete” uma asneira, duas asneiras, muitas asneiras… que não são “taxadas”, devidamente, pela sua autoridade. O que faz com que, à sétima ou à oitava asneira, os pais se zangam com “juros, sobretaxas e coimas adicionais” o que os leva a que, inevitavelmente, nunca sejam justos (porque a sua zanga acumulada faz com que sejam desproporcionados em relação a essa “oitava” asneira), para além de serem imensamente confusos (porque deixaram passar asneiras, talvez, mais graves do que essa “oitava” que os filhos terão feito, e acabam a zangar-se diante de uma outra que justificaria muito menos zanga da sua parte. Tudo isto quando, no entretanto, explicaram, justificaram e negociaram as regras, “mil vezes”. E depois de terem ameacado e avisado os seus filhos outras tantas “mil”.

Quando me falam do seu desespero e me dizem: “Eu já tentei tudo”, eu sorrio. Sobretudo porque não duvido que o “tudo” de que me falam é, inequivocamente, verdade. E , sempre que reajo e, tentando ser levemente provocatório, lhes digo que – regra geral – os nãos não se explicam, eles ficam um bocadinho atónitos e respondem: “Já percebi! Ou é assim, ou não é!”, rematando, de seguida: “Devo ser, portanto, autoritário!”. Mas, mal eu aceno com a cabeça, concordando como o “Ou é assim…” enquanto lhes garanto que isso não é ser autoritário, eles ficam confusos. Por mais que lhes garanta que as explicações são mais ruído do que uma mais-valia. Porque as crianças já têm nos exemplos dos pais a razão de ser das suas exigências. Por mais que lhes recorde que as crianças reconheçam aos pais a sua autoridade, baseadas no pressuposto que eles nunca lhes exigirão nada que não sirva para as proteger. E que, aquilo em que falham, é o no modo como, nem sempre, são coerentes nos nãos que impõem aos seus filhos, no tom com que se zangam (que faz com que muitos nãos se transformem em nins) e nas consequências que retiram dos nãos (que, ora tão depressa se transformam em castigos em formatos XXL, ora se resumem a um breve sermão). Às vezes, o embaraço dos pais é tão grande, que me perguntam, então, como é que se devem zangar, depois de avisarem os filhos duma forma um bocadinho “seca” (só duas vezes!!). Habitualmente, eu proponho: “E que tal… passar-se?…”, as mães – sobretudo elas – entram em “modo de alarme”. “Tem noção daquilo que eu sou capaz quando me passo?…”- perguntam-me elas. E eu digo: “Acredite que tenho. À “oitava” asneira ninguém se passa em “português suave””.

Moral da história: o “Ou é assim ou não é” dos pais da actualidade não tem nada a ver com os pais de antigamente. É bondoso, é democrático, traz regras e rotinas e faz os filhos crescer. Eu compreendo que os pais da actualidade tenham passado por muitos em que, à conta do “Ou é assim ou não é” de antigamente, se tenham sentido vítimas do autoritarismo. Mas sempre que ficam presos a isso, na ânsia de serem muito melhores pais, estragam os filhos. Porque não há como eles crescerem sem regras claras. E elas precisam de ser uma espécie de “piloto automático de nãos” com que as crianças façam uma triagem entre o bem e o mal, entre o medo e a coragem, entre o desconhecido e a curiosidade e, já agora, entre o passado e o futuro.

 

 

De onde vem a ideia de que as meninas são mais próximas dos pais e os rapazes das mães

Julho 8, 2018 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do site MAGG de 13 de abril de 2018.

por Catarina da Eira Ballestero

Duas mães concordam com esta ideia, mas os especialistas acreditam que a aproximação com os pais depende da relação que têm com os filhos.

A ideia de que as filhas são mais ligadas aos pais, enquanto os rapazes têm uma melhor relação com as mães, é antiga e tem origem na teoria clássica freudiana. Hoje em dia, quase ninguém parece ter dúvidas disso.

“Esta foi uma teoria que revolucionou o modo de conhecer a sexualidade”, afirma à MAGG Beatriz Matoso, psicóloga clínica e psicanalista. “Efetivamente, o conceito de ‘complexo de Édipo’, que explica como as meninas são mais atraídas pelo pai e os meninos pela mãe, veio demonstrar que a sexualidade não tinha início na puberdade mas sim numa fase mais precoce do desenvolvimento.”

“O meu filho é completamente obcecado por mim”

Joana Pratas é consultora de comunicação, tem 36 anos e é mãe de duas crianças: Maria Teresa, de cinco anos, e António Maria, de três. “A minha filha é mais neutra em relação aos pais, embora tenha uma forte ligação com o avô materno. Já o meu filho é completamente obcecado por mim”, confessa à MAGG.

Embora o filho mais novo de Joana e do marido, João, recorra ao pai para brincadeiras e atividades relacionados com o exterior, o pequeno António Maria tem uma ligação muitíssimo forte com a mãe — tanto que já causa algum desconforto à filha do casal.

Estávamos a tentar perceber como gerir esta situação quando a minha filha me diz ‘Mãe, o mano está sempre colado a ti. Se vou para o teu colo, começa a chorar e vais logo ter com ele’.”

“Lembro-me de uma semana em que eles ficaram os dois doentes, o António primeiro e a Teresinha a seguir. Ele já estava a recuperar e tive de pedir ao meu marido para arranjar atividades para fazer com o António, dado que estava a chover e as brincadeiras habituais fora de casa não eram possíveis. Estávamos a tentar perceber como gerir esta situação quando a minha filha me diz: ‘Mãe, o mano está sempre colado a ti. Se vou para o teu colo, começa a chorar e vais logo ter com ele’.”

Joana conta que esta frase da filha foi um alerta e que, desde então, tem feito um esforço para ser mais neutra e equilibrar-se entre os dois filhos. “Ele também é mais novo, precisa mais de mim e é muito mais mimoso que a irmã. Mas é tudo comigo. Sou eu que adormeço, que dou banho, que dou de comer. Recusa-se mesmo a que seja o pai a realizar essas tarefas”, explica a consultora de comunicação.

A exigência constante da presença da mãe é desgastante e suga a energia de Joana, que admite que há alturas em que chega a ter guerrilhas tontas com o filho para que este permita que seja o pai a dar-lhe de comer, por exemplo — o que é raro acontecer. Mas a mãe de António e Maria Teresa, apesar do cansaço, confessa que não preferia outra situação.

“É desgastante sim, mas cada vez mais quero ter isto. O tempo passa muito depressa, tudo isto é demasiado rápido. É verdade que às vezes sinto que o meu filho me suga toda a atenção, mas prefiro assim. Até porque quando tiverem 10 anos já não vão querer dormir na cama dos pais.”

O que leva uma criança a aproximar-se do pai ou da mãe é a qualidade da relação

Beatriz Matoso acredita que o conceito dos filhos se ligarem mais aos pais consoante o género sexual está ultrapassado e evoluiu bastante da teoria original de Freud.

“O conceito de parentalidade tem cada vez mais importância para compreendermos as relações entre pais e filhos”, afirma a especialista, que acrescenta que este é um processo evolutivo de realização humana, que se inicia no desejo de ter um filho e se constrói pela experiência de “serem pais”.

O que leva uma criança a aproximar-se mais de um ou outro progenitor é a qualidade de relação, isto é, a capacidade de compreender e procurar satisfazer as necessidades dos filhos, de acordo com a sua fase de crescimento.”

“Esta experiência consiste em ir ao encontro da satisfação das necessidades físicas e emocionais do filho, de acordo com o seu grau de crescimento e a fase de vida em que se encontra.”

Se os pais são capazes de descodificar as necessidades do bebé e de as satisfazer de uma forma adequada, a criança sente-se satisfeita e segura, reforça a psicóloga clínica, que acredita que “o que leva uma criança a aproximar-se mais de um ou outro progenitor é a qualidade de relação, isto é, a capacidade de compreender e procurar satisfazer as necessidades dos filhos, de acordo com a sua fase de crescimento. ”

As mães são para as regras, os pais para as brincadeiras

Carolina, de 30 anos, é jornalista e mãe de Clara, de apenas um ano. E apesar da tenra idade da filha, é notória uma clara aproximação ao pai.

“Sempre ouvi dizer que as meninas eram mais apegadas aos pais e, no nosso caso, isso tem-se verificado. A Clara é completamente pai. Mas acho que também tem muito a ver com o tempo que passam juntos, que acaba por ser superior ao meu”, salienta a jornalista.

Devido aos horários do casal, é o companheiro de Carolina que acorda a bebé de um ano e a leva para casa dos pais antes de ir trabalhar, rotina que repete por volta das 18h30, quando apanha Clara e a leva de regresso para casa, lhe dá banho, brinca e, na grande maioria das vezes, dá jantar durante a semana.

“Num dia bom, consigo chegar a casa por volta das 19h30, ainda ajudo no banho ou dou a comida. Mas na grande maioria das vezes, quando chego já tudo isso está feito. A Clara tem horários que devem ser cumpridos, caso contrário fica completamente desrregulada e birrenta. E também já chegou a acontecer chegar a casa e ela já estar a dormir.”

Para além de ser menos presente durante a semana, Carolina acaba por ter uma postura mais rígida com a filha do que o companheiro.

Os pais são mais direcionados para as brincadeiras, enquanto as mães não são tão liberais.”

“Não sou nada dura, não se é dura com uma criança de um ano. Mas ela está numa fase em que adora explorar, que já começa a tentar ficar de pé, a abrir gavetas. E claro que se pode magoar e eu digo não, ela fica magoada e faz birra. Já o pai é mais desligado dessas coisas e, apesar de ter mil cuidados, é mais permissivo, deixa-a mexer em coisas que pode estragar, como os comandos da TV, por exemplo. Mas é um bocadinho frustrante, já passo imenso tempo sem ela e, quando estou, parece que é para lhe ralhar.”

Margarida Alegria, psicóloga clínica, também concorda com a ideia de que as mães, muitas vezes, são vistas como a figura que impõe as regras. “Os pais são mais direcionados para as brincadeiras, enquanto as mães não são tão liberais e costumam apertar mais com as rotinas e regras. No entanto, tem a ver muito com cada caso”, conclui a especialista.

 

Carlos Neto. “Não se pode aprisionar as crianças em férias. É preciso libertá-las para que possam viver tudo”

Julho 3, 2018 às 6:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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© Bruno Gonçalves

Entrevista do i a Carlos Neto no dia 23 de junho de 2018.

Marta F. Reis

Começaram as férias grandes para quem não tem exames. Para o especialista em desenvolvimento infantil, são uma oportunidade para fazer reset a uma cultura de superproteção. E para os pais abrandarem

“Não podemos aprisionar as crianças e os adolescentes em casa em tempo de férias”. O conselho é de Carlos Neto, professor na Faculdade de Motricidade Humana que há mais de 30 anos se dedica à área da educação física e motora e ao papel do jogo no desenvolvimento das crianças. Com mais um período de férias grandes à porta, o investigador acredita que tentar cultivar um pouco mais de autonomia e liberdade na relação com os mais novos será benéfico para eles mas também para os pais. O objetivo é que as férias sejam um momento de prazer e descoberta e não uma “batalha campal”, a realidade de muitas famílias, lamenta. As dicas são práticas: mais contacto com a natureza e deixá-los experimentar e até fazer coisas um pouco mais arriscadas do que o costume, seja trepar às árvores, andar de skate, correr na praia com um papagaio… ou porque não acampar todos juntos este ano? A saúde física e mental de todos agradece.

É há muito tempo uma pessoa preocupada com o espaço que as crianças não têm para brincar ao longo do ano e o impacto que isso tem no seu desenvolvimento motor e psicológico. Este tempo das férias grandes pode ser usado pelos pais para as estimular?

De facto os pais deveriam encontrar soluções para reinventar o tempo de férias para os filhos. Não pode continuar a acontecer as férias serem um tormento quer para os filhos quer para os pais, que é o que muitas vezes acontece. Muitas vezes os pais até têm quase medo que chegue este tempo – durante o ano as crianças passam muito tempo nas escolas, os pais no trabalho e passam muito pouco tempo juntos e depois, quando chegam as férias, é um verdadeiro drama. Há soluções como pôr as crianças em colónias de férias que de certa forma os liberta de estarem com os filhos, mas fazer só isso por sistema não é bom.

E nem todas as famílias têm posses para isso.

Claro que isto dependerá sempre do nível sociocultural e há muitos tipos de famílias e de crianças, por isso as oportunidades serão sempre diferentes. O ponto de partida é que as crianças que agora terminam o ano escolar têm a expectativa que o tempo de férias seja agradável, prazeroso e que seja diferente do ano escolar. Sobretudo que consigam finalmente ter um tempo sem regras muito rígidas e usufruir da possibilidade de fazer coisas novas.

Tem a perceção de que hoje os miúdos chegam ao fim do ano letivo mais sedentos de férias?

Não tenho dúvidas disso. Há 30 ou 40 anos, e falo até da minha geração, temos boas memórias das férias mas o período escolar não tinha nada a ver: havia liberdade, andávamos na rua. Isto hoje não acontece, o que faz com que as crianças tenham uma expectativa maior de que o período de férias seja diferente, desafiante, misterioso. Mas também que traga um contacto mais afetivo e emocional com os pais, que haja uma vinculação afetiva emocional maior. E por isso era bom que os pais pudessem partir para férias com essa consciência e tentar corresponder a essas expectativas.

Pais cada vez mais absorvidos pelo trabalho.

Esse é o grande problema, a falta de harmonização entre o tempo passado no trabalho e em família. As férias devem ser uma oportunidade para tentar dar um pouco mais de qualidade a esta relação.

Mas há um desfasamento prático: as férias escolares duram dois meses e meio e o período normal de férias por ano de um trabalhador são 22 dias úteis.

Claro, pressupõe uma organização diferente das famílias e certamente que haverá muitas coisas em jogo até de natureza política mas, antes de irmos aí, penso que importa perceber também que é preciso respeitar a necessidade que as crianças têm de ter um tempo de intervalo da rotina para brincarem mais livremente. Diria que deve haver quatro ou cinco preocupações dos pais em tempo de férias: proporcionar situações de liberdade que sejam uma alternativa ao tempo organizado. O segundo conselho que daria aos pais é tentarem proporcionar tempos mais ativos, de relação com a natureza, e por outro lado que não seja algo muito previsível e estruturado. Os pais tentarem levar as crianças a sítios novos, conhecer o interior do país. Por exemplo acampar: o contacto com a natureza é essencial.

O campismo no passado era um clássico do verão de muitas famílias.

Sim, se calhar hoje nem tanto mas é uma forma de as crianças estarem fora do seu contexto habitual e da identidade do espaço onde vivem e basta isso para se libertarem. Também diria que há necessidade de haver atividades desafiantes e isto tanto pode ser ir a um parque aquático, uma ida à serra. Ser mais desafiante significa permitir às crianças correrem mais riscos.

Fala-se por vezes dos “pais-helicóptero”, que tentam controlar e gerir todas as experiências para que as crianças não tenham de enfrentar obstáculos. Um estudo publicado há dias concluía que este estilo de parentalidade acabava por ter um impacto negativo no rendimento escolar e nas relações sociais. É contrariar essa tendência?

Sim e isso de certa forma implica que os pais consigam reconhecer que os filhos podem ter mais autonomia do que aquela que eles pensam que têm.

Os pais tendem a menosprezar as capacidades dos filhos?

Penso que tendem a ter uma perceção diferente e o desafio está em perceber como é que as férias podem ajudar a desconstruir os medos que os pais têm em relação aos filhos. Estou a falar sobretudo nas idades mais baixas, dos 3 aos 5 e dos 5 aos oito.

Que medos são mais comuns?

Coisas tão simples como deixá-los nadar, subir às árvores, trepar.

Há pais com medo que os filhos subam às árvores?

É uma força de expressão mas é um bom exemplo daquilo que é necessário para as crianças melhorarem a sua literacia motora e as férias devem ser uma oportunidade para que isso aconteça, promovendo jogos e brincadeiras ativas. Isto pode acontecer dentro de casa mas devem poder ter uma atividade física mais intensa e ao ar livre e com a participação dos próprios pais, porque isso é importante. Neste sentido, os filhos deviam ajudar os pais a libertarem-se do peso que foi o ano de trabalho. A sociedade portuguesa anda a viver muito à pressa, há uma excitação no quotidiano que está a criar gravíssimos problemas de saúde mental e física nos adultos e nas crianças.

A neurologista Teresa Paiva, especialista em problemas de sono, já tem alertado, por exemplo, para a tendência de ter debates e programas televisivos muito acesos noite dentro, como se o dia não acabasse. É um sintoma dessa excitação?

Sim, é um bombardeamento completo e, no geral, temos uma organização do tempo cada vez mais stressante. E, portanto, o tempo de férias é uma oportunidade para proporcionar novas atividades aos mais novos mas também deve ser uma oportunidade para as pessoas aprenderem a viver mais devagar, a aproveitar o silêncio do corpo, fazerem mais reflexão e contemplação do que é a família. Este conceito de aprender a viver mais devagar é dar mais tempo para a interiorização de cada um e de consciência do que é a vinculação afetiva entre filhos e pais.

É investigador no campo do desenvolvimento infantil, sobretudo motor. Recentemente os resultados nacionais das provas de aferição revelaram que as crianças de sete anos têm dificuldades em saltar à corda e dar cambalhotas. Quão preocupantes são estes indicadores?

São preocupantes mas não podemos dramatizar. Quer o saltar à corda quer a cambalhota [provas em que muitos alunos falharam] são duas habilidades motoras complexas que só atingem o seu nível maduro por volta dos oito/nove anos. Creio que não devemos ter uma visão sensacionalista sobre os resultados porque uma criança de sete anos não terá ainda as condições para ter um êxito absoluto nestas atividades, sobretudo quando se pede algo muito estandardizado como acontece nessas provas. Disto isto, os indicadores de fundo dados pelas provas de aferição é que podem ser considerados mais preocupantes: temos um sedentarismo implantado nas nossas crianças, principalmente nas primeiras idades. Digo-o há mais de 20 anos: temos tido um progressivo declínio do jogo e da atividade física.

Em Portugal em particular?

É um problema dos países mais desenvolvidos. E, ao mesmo tempo, o que vimos nas últimas décadas foi um aumento das desordens do foro mental: ansiedade, depressão, hiperatividade, défice de atenção e até da taxa de suicídio na passagem da adolescência para a idade adulta. Estas transições de ciclo de vida são sempre difíceis, mas a cultura do tudo dado e tudo pronto na hora para as crianças não favorece a sua capacidade de adaptação motora, cognitiva, social e emocional.

Acaba por ser um ciclo vicioso.

Sim. Temos uma superproteção patológica que não cria condições para que as crianças possam ter uma capacidade criativa e de adaptação, que leva os pais a protegerem-nas mais. E isso é o grande problema da sociedade atual em relação às culturas de infância. Só há uma solução: no período escolar e sobretudo nos períodos de férias, proporcionarem-lhes atividades para que essas competências motoras, sociais e emocionais possam ser valorizadas. É dar mais tempo de informalidade e imprevisibilidade e deixar que as crianças possam encontrar o seu caminho. Deixe-me usar este termo: é deixar as crianças fazerem coisas ‘malucas’, deixar os miúdos ter o skate, os patins, a bola, o papagaio, e deixá-los enriquecer o seu vocabulário motor e social à vontade.

Em Portugal há uma percentagem elevada de criança em risco de pobreza e exclusão social, mais de um quarto. Estão particularmente vulneráveis?

Sim, mas às vezes as crianças que vivem em meios empobrecidos têm mais oportunidades de brincar de forma livre do que as que vivem em meios socioeconómicas mais elevados mas estão sujeitos a uma superproteção inaceitável. E aos medos dos pais. Temos de desconstruir os medos dos pais, é algo absolutamente urgente na sociedade portuguesa, as famílias andam cheias de medos e isso leva a que as crianças não tenham autonomia, mobilidade e, por fim, participação.

Como é que os pais devem gerir as tecnologias nesta altura do ano? Mais liberdade também pode significar mais tempo para usar tablets e afins…

Penso que deve haver um decréscimo durante o tempo de férias de tudo o que sejam equipamentos digitais, telemóveis, tablets, televisão. Não diria impor: se dizemos que é um tempo de liberdade, não podemos impor, mas podemos negociar. Vamos negociar com os filhos reduzir o tempo dedicado a estes aparelhos, passar de ter o tempo todo ativo na ponta dos dedos para o tempo ativo nos pés.

Mas há algum limite adequado?

Diria que até aos cinco, seis anos não devem usar mas a partir dos sete já todos os miúdos têm telemóvel. A questão dos limites tem sobretudo a ver com o exemplo dos pais.

Se passarem os tempos livres agarrados aos telemóveis, os miúdos vão copiar.

Sim. É toda a gente perceber que as férias saudáveis incluem menos tempo só agarrado aos equipamentos digitais. Não quer dizer que não se usem: um GPS pode ajudar a criar um desafio na natureza.

Há professores que partilham que, por vezes, há pais que não querem que a escola feche num feriado ou numa ponte, insistem em ter onde deixar as crianças mesmo que até estejam de folga.

Sim, querem ter os filhos ocupados.

Imagina que, continuando assim, vamos chegar a uma altura em que se tornará incontornável reduzir a duração das férias grandes?

Penso que tudo vai depender da evolução da lei laboral. Hoje existe uma assimetria muito grande entre os países do norte da Europa e os do sul em relação à organização do tempo de trabalho e já seria tempo de Portugal alinhar pelas políticas públicas que dão valor à qualidade de tempo familiar, sobretudo às famílias que têm filhos. Não iria por mais tempo de férias, o que é preciso mudar é o tempo que os pais têm disponível para os filhos e isso passa sobretudo por uma flexibilização dos horários de trabalho, poder sair-se às 16h, 16h30. Nos países do norte da Europa os pais saem do trabalho para ir buscar os miúdos à escola com toda a naturalidade. Aqui agora até se está a pensar na escola a tempo inteiro para o 2.º ciclo, o que para mim é um escândalo. Ter crianças dos 10 aos 12 anos na escola todo o dia não faz sentido.

O que diz é que mesmo estando a trabalhar, se os pais saíssem mais cedo podiam dar outro acompanhamento aos filhos no período de férias.

Sim, mesmo que pudesse haver mais ou menos dias de férias, seriam um fardo menor. Tenho a sensação de que hoje em dia as crianças chegam ao fim de férias com uma certa frustração: não fizeram o que estava nas suas expectativas. E era bom que quando chegassem ao novo período escolar em setembro pudessem ir com a sensação de que viveram um período de férias de forma tão intensa que então vale a pena voltar à escola para aprender. Isso não acontece na maior parte dos casos. As férias devem ser uma oportunidade para os pais conhecerem melhor os seus filhos, aprender a controlar o medo, incentivando as brincadeiras mais arriscadas fora de casa, percursos de autonomia fora de casa, não têm de os acompanhar sempre, mas estar presentes. Não estou a dizer coisas extraordinárias, às vezes é simplesmente passear. Há crianças que nunca saíram de casa à noite com os pais para dar uma volta, descobrir a cidade, a aldeia, a vila. Deve ser um tempo também para os pais gostarem mais de serem pais.

Essas experiências de brincadeira e autonomia vão refletir-se mais tarde no desempenho escolar?

E não só. Hoje não há dúvidas sobre isto: quase todos os indivíduos que tiveram sucesso, foram felizes e empreendedores, tiveram infâncias felizes.

Há aquela ideia de que, por vezes, depois das férias até há mais separações: as pessoas não estão habituadas a tanto tempo juntos.

Não tenho dúvidas: há pais e crianças que vêm das férias completamente exaustos e temos de conseguir inverter isto. Mas isso tem a ver com os pais não estarem habituados por um lado mas também não conseguirem perceber que as férias podem ser tempo de liberdade, de autonomia, de descoberta.

E os primeiros excessos? Nas festas da aldeia, por exemplo, começa-se a beber muito cedo, aos 13, 14 anos

É uma outra realidade, mas hoje muitas dessas diferenças que existiam entre a infância no meio rural e no meio urbano estão esbatidas. Hoje os jovens fazem exatamente a mesma coisa e até há estudos que indicam que as crianças de meios rurais têm maior exposição à televisão do que nos meios urbanos.

Os namoros de verão são outro clássico. É outro campo em que os pais não devem coartar demasiado a liberdade dos jovens?

Deve haver com certeza responsabilidade e regras, mas deve haver oportunidade para isso. Costuma-se dizer que a adolescência é a idade esquecida. Hoje temos políticas para a infância, até para os idosos mas não há nada para os adolescentes, que é uma fase central no desenvolvimento. Os adolescentes precisam de experimentar desafios que não são só físicos mas também de natureza emocional. Ninguém esquece os seus amores de verão e os pais também não os devem esquecer e é natural dar mais liberdade aos adolescentes nas ferias. Deve haver algum controlo mas nada de muito sofrido ou patológico: não se pode aprisionar as crianças e os adolescentes em férias, é preciso libertá-los para que possam viver tudo, inclusive o seu corpo.

Os mais cautelosos argumentarão que o mundo mudou nas últimas décadas, que está mais perigoso.

Sim, mas por vezes há uma perceção errada dessa mudança. Portugal é um dos países mais seguros do mundo. Basta ver o turismo que temos, a forma como o país é amado por quem chega cá. Muitas vezes há uma perceção errónea na cultura portuguesa e nas famílias no geral de que somos um país com problemas de segurança quando, pelo contrario, somos um dos países mais seguros.

Não há mais perversidade?

São os tais medos que se instalaram na cabeça dos pais e, seja como for, as crianças e os jovens têm de saber como reagir às situações.

Que conselhos práticos se pode dar às famílias que agora começam a estruturar as férias? Faz sentido planear as semanas para incluir diferentes atividades, fazer um programa do verão em família?

Acho que pode ser interessante, mas com uma condição: com a participação dos filhos. Deixar que os filhos sugiram as atividades que querem fazer, dar-lhes ouvidos. É uma excelente ideia. Era o que se devia fazer mais nas escolas e não se faz, porque os professores impõem quase tudo. Temos de passar de uma cultura de imposição para uma cultura de participação. Mas, essencialmente, é tentar fazer tudo para inverter os indicadores que mais nos preocupam: cada vez há mais obesidade, mais diabetes. Temos de dedicar mais tempo ao exercício físico, comer melhor, guardar tempo para o descanso.

Guarda boas memórias das suas férias grandes?

Sim, ainda hoje. Acabávamos a escola e havia um período em que os pais ainda estavam a trabalhar, por isso passávamos a maior parte tempo na rua.

Em Lisboa?

Cresci em Leiria, uma cidade maravilhosa, com castelo, rio, tudo o que precisávamos. Mal acabava a escola era uma libertação enorme. Depois vinha a altura de ir para a praia, conhecer novos amigos. Andávamos 15 dias a um mês na praia, com dias muito intensos. Nadávamos, jogávamos à bola. Jogar à bola na praia ou mesmo andar é um desafio fabuloso em termos de educação motora, é um desafio em termos de equilíbrio e adaptação e isto para as crianças pequenas é um estímulo muito bom. Isto além do iodo e do próprio contacto com a água do mar, que é revigorante e ao mesmo tempo uma forma de acalmar. Precisamos urgentemente de estratégias para que os corpos acalmem. Mas as minhas memórias são isto: a liberdade que tínhamos, a autonomia e alegria. A melhor recordação que tenho era não gostar que chegasse a noite porque sabíamos que íamos ter de ir dormir. E ter de ir dormir era improdutivo.

Mas adormecia num instante, não?

[Risos] Verdade, quanto mais cansados melhor é para adormecer. Mas a sensação de que ir dormir é uma chatice, uma perda de tempo, significa que tivemos um dia feliz. E é uma sensação que acho que hoje as crianças não têm. Às vezes veem-se famílias em férias que mais parece uma batalha campal. Torna-se cansativo porque já ninguém está adaptado a ninguém e ao mesmo tempo há cada vez mais uma cultura egocêntrica que faz com que os pais já não tenham o hábito de estar com os filhos a tempo pleno. Costuma-se dizer que cada um de nós tem uma criança dentro de si. Não iria tão longe, mas certamente cada um de nós tem memórias da sua infância. Era preciso retomá-las para descobrir a forma como devemos passar as férias com os filhos.

 

 

 

Geração Inabilitada

Julho 2, 2018 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto e imagem publicados no site Up to Kids

 A crença de que a felicidade é um direito tem tornado inabilitada a geração mais preparada

Ao conviver com os mais jovens, com aqueles que se tornaram adultos há pouco e com aqueles que estão no caminho para tornar-se adultos, percebo que estamos diante da geração mais preparada – e, ao mesmo tempo, a mais inabilitada.

Preparada do ponto de vista das habilidades, inabilitada porque não sabe lidar com frustrações. Preparada porque é capaz de usar as ferramentas da tecnologia, inabilitada porque despreza o esforço. Preparada porque conhece o mundo em viagens protegidas, inabilitada porque desconhece a fragilidade da matéria da vida. E por tudo isso sofre, sofre muito, porque foi ensinada a acreditar que nasceu com o património da felicidade. E não foi ensinada a criar a partir da dor.

Há uma geração de classe média que estudou em bons colégios, é fluente em línguas, viajou para o exterior e teve acesso à cultura e à tecnologia. Uma geração que teve muito mais do que os seus pais. Ao mesmo tempo, cresceu com a ilusão de que a vida é fácil. Ou que já nascem prontos – só falta apenas que o mundo reconheça a sua genialidade.

Tenho-me deparado com jovens que esperam ter no mercado de trabalho uma continuação das suas casas – onde o chefe seria um pai ou uma mãe complacente, que tudo concede. Foram ensinados a pensar que merecem, seja lá o que for que queiram. E quando isso não acontece – porque obviamente não acontece – sentem-se traídos, revoltam-se com a “injustiça” e uma boa parte embirra e desiste.

Como esses estreantes na vida adulta foram crianças e adolescentes que alcançaram tudo, sem ter de lutar por quase nada de relevante, desconhecem que a vida é baseada na construção – e que para conquistar um espaço no mundo é preciso virar muitos frangos. Com ética e honestidade – e não às cotoveladas ou aos gritos. Como os seus pais não conseguiram dizer, é o mundo que lhes anuncia uma nova e não lá muito animadora: viver é para os insistentes.

Porque razão grande parte dessa nova geração é assim? Penso que este é uma questão importante para quem está a educar uma criança ou um adolescente nos dias de hoje. Esta época tem sido marcada pela ilusão de que a felicidade é uma espécie de direito. E tenho testemunhado a angústia de muitos pais para garantir que os filhos sejam “felizes”. Pais que fazem malabarismos para dar tudo aos filhos e protegê-los de tudo e de todos – sem esperar qualquer responsabilização nem reciprocidade.

É como se os filhos nascessem e imediatamente os pais se tornassem devedores. Para estes, frustrar os filhos é sinónimo de fracasso pessoal. Mas é possível uma vida sem frustrações? Não é importante que os filhos compreendam como parte do processo educativo duas premissas básicas do viver, a frustração e o esforço? Ou a falta e a busca, duas faces do mesmo movimento? Existe alguém que viva sem se confrontar dia após dia com os limites tanto da sua condição humana como das suas capacidades individuais?

A nossa classe média parece desprezar o esforço. Prefere a genialidade. O valor está no dom, naquilo que já nasce pronto. Dizer que “o fulano é esforçado” é quase uma ofensa. Ter de trabalhar para conquistar algo parece já vir assinalado com o carimbo de perdedor. Bom, bom é aquele que não estudou, passou a noite nos copos e passou nas específicas para entrar em Medicina. Este atesta a excelência dos genes dos seus pais. Esforçar-se é, no máximo, coisa para os filhos da classe C, que ainda precisam assegurar o seu lugar no país.

Da mesma forma que supostamente seria possível construir um lugar sem esforços, existe a crença não menos fantasiosa de que é possível viver sem sofrer. De que as dores inerentes a toda vida são uma anomalia e, como percebo em muitos jovens, uma espécie de traição ao futuro que deveria estar garantido. Pais e filhos têm pago caro pela crença de que a felicidade é um direito. E a frustração um fracasso. Talvez aí esteja uma pista para compreender a geração do “eu mereço”.

Basta andar por este mundo para testemunhar a cara de espanto e de mágoa de alguns jovens ao descobrir que a vida não é como os pais lhes tinham prometido. Expressão que logo muda para o amuo. E o pior é que sofrem terrivelmente. Porque possuem muitas habilidades e ferramentas, mas não estão minimamente preparados para lidar com a dor e as decepções. Nem imaginam que viver é também ter de aceitar limitações – e que ninguém, por mais brilhante que seja, consegue tudo o que quer.

A questão, como poderia formular o filósofo Garrincha, é: “Estes pais e estes filhos combinaram com a vida que seria fácil”? É no passar dos dias que a conta não fecha e o projeto construído sobre fumo desaparece deixando nada para trás. Ninguém descobre que viver é complicado quando cresce ou deveria crescer – este momento é apenas quando a condição humana, frágil e falha, começa a explicitar-se no confronto com os muros da realidade. Desde sempre sofremos. E mais vamos sofrer se não temos espaço nem sequer para falar da tristeza e da confusão.

Parece-me que é isto que tem acontecido em muitas famílias por aí: se a felicidade é um imperativo, o item principal do pacote completo que os pais supostamente teriam de garantir aos filhos para serem considerados bem sucedidos, como falar de dor, de medo e da sensação de se sentir desencaixado? Não há espaço para nada que seja da vida, que pertença aos espasmos de crescer duvidando do seu lugar no mundo, porque isso seria um reconhecimento da falência do projeto familiar construído sobre a ilusão da felicidade e da completude.

Quando o que não pode ser dito se torna um sintoma – já que ninguém está disposto a ouvir, porque ouvir significaria rever escolhas e reconhecer equívocos – o mais fácil é calar. E não é por acaso se cala com medicamentos e cada vez mais cedo o desconforto de crianças que não se comportam segundo o manual. Assim, a família pode manter o quotidiano sem que ninguém precise olhar a sério para ninguém dentro de casa.

Se os filhos têm direito de ser felizes simplesmente porque existem – e aos pais caberia garantir esse direito – que tipo de relação pais e filhos podem ter? Como seria possível estabelecer um vínculo genuíno se o sofrimento, o medo e as dúvidas estão previamente fora dele? Se a relação está construída sobre uma ilusão, só é possível fingir.

Aos filhos cabe fingir felicidade – e, como não conseguem, passam a exigir cada vez mais de tudo, especialmente coisas materiais, já que estas são as mais fáceis de alcançar – e aos pais cabe fingir ter a possibilidade de garantir a felicidade, o que sabem intimamente que é uma mentira porque a sentem na própria pele dia após dia. É pelos objetos de consumo que a novela familiar tem se desenrolado, onde os pais fazem de conta que dão o que ninguém pode dar, e os filhos simulam receber o que só eles podem alcançar. E por isso, é preciso criar uma nova demanda para manter o jogo a funcionar.

O resultado disso é pais e filhos angustiados, que vão conviver uma vida inteira, mas não se conhecem. E, portanto, estão a perder uma grande chance. Todos sofrem muito neste teatro de desencontros anunciados. E mais sofrem porque precisam fingir que existe uma vida em que se pode tudo. E acreditar que se pode tudo é o atalho mais rápido para alcançar não a frustração que move, mas aquela que paralisa.

Quando converso com estes jovens no parapeito da vida adulta, com as suas imensas possibilidades e riscos tão grandiosos quanto, percebo que precisam muito de realidade. Com tudo o que a realidade é. Sim, assumir a narrativa da própria vida é para quem tem coragem. Não é complicado porque você vai ter competidores com habilidades iguais ou superiores à sua, mas porque se tornar aquilo que se é, buscar a própria voz, é escolher um percurso pontilhado de desvios e sem nenhuma certeza de chegada. É viver com dúvidas e ter de responder pelas próprias escolhas. Mas é nesse movimento que um jovem se transforma em adulto.

Seria muito bom que os pais de hoje entendessem que tão importante quanto uma boa escola ou um curso de línguas ou um Ipad, dizer de vez em quando: “Organiza-te, dá a volta e resolve, meu filho. Poderás contar sempre comigo, mas essa batalha é tua”. Assim como sentar para jantar e falar da vida como ela é: “Olha, o meu dia foi difícil” ou “Estou com dúvidas, estou com medo, estou confuso” ou “Não sei o que fazer, mas estou a tentar descobrir”. Porque fingir que está tudo bem e que tudo pode significar dizer ao seu filho que você não confia nele nem o respeita, já que o trata como um imbecil, incapaz de compreender a matéria da existência. É tão mau quanto ligar a TV em volume alto o suficiente para que nada que ameace o frágil equilíbrio doméstico possa ser dito.

Agora, se os pais transmitiram que a felicidade é um direito e seu filho merece tudo simplesmente por existir, paciência. De nada vai adiantar choramingar ou amuar ao descobrir que vai ter de conquistar o seu espaço no mundo sem qualquer garantia. O melhor a fazer é ter a coragem de escolher. Seja a escolha de lutar pelo seu desejo – ou para descobri-lo –, seja a de abrir mão dele. E não culpar ninguém porque eventualmente não resultou, porque com certeza vai dar errado muitas vezes. Ou transferir para o outro a responsabilidade pela sua desistência.

Crescer é compreender que o facto da vida ser insuficiente não a torna menor. Sim, a vida é insuficiente. Mas é o que temos. E é melhor não perder tempo a sentir-se injustiçado porque um dia a vida acaba.

Por Eliane Brum, publicado na Revista Época, por Clínica Alamendas
Adaptado por Up To Kids®

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