A casa é a primeira escola e os pais são os primeiros professores

Junho 25, 2017 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do site http://uptokids.pt/ de 8 de junho de 2017.

 

A casa é a primeira escola e os pais são os primeiros professores

Esta máxima é o mote do movimento Slow Parenting, que já falamos anteriormente.

O processo de aprendizagem de uma criança durante a primeira infância, é inacreditavelmente rápido, e muitas vezes subvalorizado. A criança até aos 3 anos apresenta capacidade para pensar sobre o mundo e sobre si mesma através da interação que vai estabelecendo com as pessoas e objetos. A observação, repetição, imitação e a experimentação permitem à criança situar-se perante si própria e perante os outros.

Cada momento de cada dia é uma experiência de aprendizagem.

A “casa” representa um lugar de reunião, estável, confortável e onde há amor tornando-se num local seguro. A composição da família, o número de brinquedos, a localização ou número de quartos, não define uma casa. Tal como um jardim, uma casa deve ser assistida, apreciada, nutrida e respeitada para prosperar. É o cenário para do crescimento físico, mental, emocional e espiritual de um indivíduo, e se houver respeito e amor incondicional, esta casa será uma âncora para os filhos. A casa é a essência daquilo que queremos ser e do que queremos que os nossos filhos sejam.

A casa é a primeira sala de aula – não só no sentido académico – mas como um trampolim para o mundo.

Como nos tratamos uns aos outros, talvez seja a lição de vida mais importante que aprendemos em casa. Somos educados uns com os outros? Respeitamo-nos? Demonstramos emoções? Honramos a privacidade?  Revezamo-nos? Assumimos as tarefas domésticas?

Resumidamente: podemos contar a nossa história honestamente e sem receio de julgamentos?

Em casa, os nossos filhos aprenderão a resolver problemas, desenvolverão a leitura e até as habilidades matemáticas apenas através da experiência vivida com a família. A aprendizagem com base no amor será adquirida num ambiente calmo e estável, onde se conversa, se brinca, se lêem histórias (muitas) e se fazem vozes de personagens em família.

 “É impossível ter-se livros a mais”

Com a tendência crescente para o consumismo tecnológico, receio que muitas crianças cresçam sem a compreensão e respeito de experimentar palavras escritas. A alegria de manter um livro, virar as páginas com antecipação, procurar um marcador perfeito, e ler em voz alta é um dos maiores presentes que podes dar aos teus filhos.

É imprescindível que arranjemos tempo para ler com os nossos filhos diariamente. Que os incentivemos a ler por conta própria. Há que parar e arranjar tempo. Quando deixam de dormir a sesta, esse tempo é perfeito para ficarmos no quarto com uma pilha de livros, e que os ensinemos relaxar enquanto expandem o seu vocabulário e estimulam a imaginação.

Esta prática também os ensina a apreciar o silêncio e a sentirem-se feliz consigo próprios – outra componente tão importante.

Histórias de encantar, aventuras, poesias tontas e lengalengas irão evoluir para coleções por capítulos que ocuparão a estante conforme os nossos filhos crescem.

É mais fácil dar à criança um entretenimento visual para passar o tempo, mas queremos mesmo que o caminho seja “passar tempo”? Tentemos que os livros se tornem na melhor ferramenta para os ajudar a “passar tempo”!

Se a casa é a primeira escola, então, os pais são obviamente os primeiros professores.

As tuas amizades e a forma como comunicas influenciarão directamente a forma como o teu filho irá relacionar-se na vida. A educação, respeito, a ética, o amor-próprio, o viver em comunidade são lições de vida que aprenderá contigo. Não fiques à espera que o mundo exterior faça esse trabalho por ti. Se assumires que a escola se irá encarregar disso, então já esperaste muito tempo. Essa é a tua responsabilidade desde o primeiro dia de vida do teu filho.

Parentalidade Consciente e Slow Parenting

A parentalidade não é sobre como criar o filho perfeito e idílico. Nem deve procurar resultados, mas sim experienciar o caminho. Por mais que queiramos acreditar que com determinação e trabalho duro conseguimos controlar tudo, a vida é muito mais complexa que isso, e certamente os nossos filhos terão de lidar com imprevistos. Se tens a capacidade de te adaptar positivamente a situações adversas, também o teu filho herdará essa característica. A isso se chama resiliência.

A parentalidade consciente pressupõe que se faça pausas, que se estude a envolvente e se façam escolhas com base no que consideramos ser o melhor para os filhos, mantendo-nos íntegros e fieis aos nossos valores.

Não será fácil, nem será óbvio, mas se estiveres confiante dos teus valores, um dia que tenhas de fazer essas escolhas, instintivamente saberás qual é o melhor caminho.

Aprender a confiar nos teus instintos e libertares-te das dúvidas é o primeiro passo para a parentalidade consciente.

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5 coisas que os filhos nunca esquecerão sobre os pais

Junho 19, 2017 às 12:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Texto do site http://uptokids.pt/ de 5 de junho de 2017.

Todos os pais querem ter filhos maravilhosos. Querem que sejam afáveis enquanto crianças e quando crescerem, que se comportem como pessoas responsáveis e úteis para a sociedade. No entanto, os pais tendem a esforçar-se muito mais a pensar no futuro do que a semear bases no dia a dia. Há pais que acreditam que, enquanto crianças,  os filhos só devem obedecer e que a educação se baseia nisso.

O resultado é que temos cada vez mais crianças inconformadas e adultos infelizes. Quando não há critério para uma parentalidade consistente, lógica e estável, a probabilidade de que os filhos mostrem comportamentos rebeldes e/ou herméticos aumenta. Talvez caprichosos, talvez autoritários e, em todos os casos, instáveis. Acabam por não conseguir estabelecer um vínculo afetivo e próximo com os pais, pelo contrário, vivem em uma guerra indireta ou aberta com eles.

“O problema com a aprendizagem de ser pais é que os filhos são os professores.” -Robert Braul

Uma das partes mais importantes da nossa vida é exactamente a infância. É onde se constroem os alicerces de uma mente saudável e de um coração limpo. Desta forma, algumas atitudes dos pais deixam marcas para sempre: às vezes positivas, às vezes negativas, mas na maioria das vezes profundas. Aqui estão cinco destas condutas que os filhos dificilmente irão esquecer.

Maus-tratos

Nenhuma relação é perfeita e muito menos uma tão intensa como a entre pais e filhos. Haverá sempre momentos de contradição ou de conflito, o que é perfeitamente normal. O que muda é a maneira de superar essas dificuldades e, lamentavelmente, muitos pais assumem erroneamente que os maus-tratos são uma ferramenta da educação.

Pode ser que, com os maus-tratos, o pai ou a mãe consigam intimidar o filho para que ele faça exatamente o que ele/a quer. Mas esses maus-tratos também se irão transformar no gérmen da falta de autoestima e numa fonte de rancor. Colocam os filhos numa situação muito complexa: os filhos aprendem a vivenciar o amor e ódio em simultâneo e também aprendem a temer. O coração de um filho é muito sensível e se for ferido de forma consecutiva, com o tempo a criança terá tendência a transformar-se numa pessoa insensível.

A forma como os pais se tratam um ao outro

A relação entre o pai e a mãe é o padrão que a criança terá para formar uma atitude perante os relacionamentos amorosos. É muito provável que, quando for adulto, repita com sua parceira de forma consciente ou inconsciente o que viu em casa dos pais. Antes disso, a criança provavelmente irá repetir com as pessoas que ama.

Pense que os conflitos entre os pais geram angústia no filho. Uma das possíveis consequências será envolver-se em problemas simplesmente para atrair a atenção de um dos pais, que não lhe ligam porque estão demasiado concentrados no conflito em que estão envolvidos. Além disso, a criança irá apreciar ou não os relacionamentos amorosos com base nestes padrões adquiridos.

Os momentos em que se sentiram protegidos

Os medos das crianças são maiores e mais insidiosos do que os dos adultos. Os pequenos não conseguem distinguir bem a fronteira entre a realidade e a imaginação. Os pais são as pessoas em quem eles mais confiam para obter a sensação de segurança de que precisam para aprender e explorar o desconhecido. Assim, se são os pais os que causam este medo, a criança irá sentir-se totalmente desprotegida.

Os pais devem escutar com atenção esses medos, sem criticá-los nem minimizá-los. Devem fazer com que os filhos entendam que não estão em perigo. Isto irá aumentar o sentimento de segurança dos filhos e irá fortalecer o vínculo de amor e de respeito com os pais.

A falta de atenção

Para um filho, o amor que os pais lhes dão está intimamente relacionado à atenção que recebem deles. Para os filhos não existem expressões de afeto como trabalhar horas extras para poder lhe pagar um colégio caro. Os filhos não irão entender o amor dos pais se não passarem tempo juntos, se não estiverem presentes no seu mundo.

Os filhos nunca se esquecem da camisa verde que receberam de presente, quando tinham dito até enjoar que queriam uma roxa, ou quando prometeram algo que não cumpriram. Simplesmente, encaram isto como uma forma de abandono, como uma mensagem que diz: “não és importante o suficiente para me lembrar”. Por isso ficará uma marca de dor nos seus corações.

A valorização da família

Os filhos vão lembrar-se que o pai ou a mãe foram capazes de colocar a família como prioridade em diversas circunstâncias. As crianças precisam e gostam das celebrações, não interessa se é com mais ou menos presentes. Também é muito importante para eles que o pai e a mãe levem o Natal a sério.

Quando os pais colocam a família acima de tudo, os filhos irão aprender o valor da lealdade e do afeto. Quando forem adultos, também serão capazes de deixar de lado outros compromissos para ir ver seus pais quando precisarem dele. Vão sentir-se compensados e terão uma maior capacidade para dar e receber afeto.

Todas estas marcas deixadas durante a nossa infância acompanham-nos ao longo de toda a vida. Muitas vezes representam a diferença entre ter uma vida mentalmente saudável e uma vida cheia de conflitos. Uma criação repleta de amor e de carinho é o melhor presente que um ser humano pode dar a outro.

Publicado em A mente é maravilhosa, adaptado por Up To Kids®

 

 

 

“Não é preciso gritar para nos fazermos ouvir”

Junho 13, 2017 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do site http://www.paisefilhos.pt/ de 10 de janeiro de 2017.

Teresa Martins

“Berra-me baixo” mostra como deixar de gritar com os filhos em apenas quatro semanas. O resultado é uma relação parental fortalecida e mais harmoniosa.

É possível educar sem gritar, mesmo quando os pais andam exaustos e as crianças teimam em não cooperar. A coach parental Magda Gomes Dias propõe, no seu novo livro, um desafio a todos os pais que andam cansados de gritarias: mudar em 21 dias (para melhor) a relação com os filhos e passar a “berrar baixo”. A primeira regra é deixar de tentar e começar a fazer. É esse o compromisso que a autora e formadora na área da parentalidade positiva pede. Depois é seguir os passos de “Berra-me baixo”, sabendo que no fim a relação entre pais e filhos sairá fortalecida e muito mais harmoniosa.

Porque gritamos tanto com os nossos filhos?

Magda Gomes Dias (MGD): Por vários motivos e que diferem de pai para pai. Gritamos porque andamos sem paciência, porque nos sentimentos ameaçados e desafiados por uma resposta torta (logo nós que damos a melhor educação aos nossos filhos!), porque já pedimos 300 vezes as mesmas coisas, porque temos medo que eles descarrilem… E gritamos porque aprendemos a comunicar assim, também.

Estamos com défice de paciência e de estratégias alternativas?

MGD: Estamos pois! Andamos esgotados e queremos que tudo resulte do dia para a noite. Não resultando, gritamos para nos fazermos ouvir.

Mas dar “dois berros” por vezes funciona…
MGD: É importante dizê-lo com todas as letras: toda a gente grita. Para alguns pais a palmada na hora certa e os dois berros fazem parte de educar. Mas para um enorme número de pais, gritar é algo que não desejam fazer. Há estudos que provam que o stresse emocional provoca tudo menos coisas boas na criança. Mas o que eu vejo hoje em dia é mais do que isso. São pais que não se reveem nessa forma de educar – berrando, batendo, ameaçando ou humilhando. E querem fazer diferente só que, na ausência de modelos equilibrados, caem muitas vezes na justa oposição que é a permissividade… Mas há um caminho do meio que tem por base o respeito mútuo entre pais e filhos e que assenta na qualidade da relação criada. É quando apostam nisto que tudo o resto vem, incluindo a ausência da necessidade de dar dois berros.

Quais são as situações mais comuns que nos fazem “saltar a tampa”?

MGD: No livro escolhi 10 situações que nos fazem saltar a tampa. São os 10 “clássicos” que os pais com quem trabalho me apresentam com regularidade: quando não nos escutam; quando nos respondem torto; quando não querem cooperar; quando não param de choramingar; quando nunca estão satisfeitos; quando batem; quando temos um adolescente em casa; quando temos um marido/mulher que nos dá dores de cabeça; quando a casa está de pernas para o ar; quando os miúdos se dão mal.

O que estamos a fazer aos nossos filhos quando gritamos constantemente com eles?

MGD: Quando se berra de forma regular, estamos a criar um stresse desnecessário na vida dos nossos filhos – e na nossa. A maior parte dos pais que gritam dizem-me que os filhos não os ouvem. Por isso gritar faz com que os filhos deixem de escutar. Parece, à primeira vista, um grande paradoxo mas depois de bem analisado não é. Porque podemos ter uma de duas situações: aquela em que os miúdos dizem “oh, ela só grita, é sempre a mesma coisa” e ignoram; e a outra em que os miúdos ficam num estado de stresse tão grande que não conseguem reagir/responder. O que é péssimo e é a prova que a forma como exercemos a nossa autoridade parental é feita com base no medo. E medo não é respeito nem cooperação. Depois há também crianças que reagem de forma agressiva – e esta forma é também uma defesa e só se defende quem tem medo e se sente agredido. Além disso, gritar de forma continuada pode criar um caminho para uma autoestima muito baixa…

Qual é o primeiro passo para deixarmos de gritar? É preciso olhar para dentro?

MGD: Sim, é mesmo! Este é um livro justamente acerca dessa transformação! Primeiro, é preciso desejar mesmo criar uma relação com base no respeito mútuo. Depois, é preciso identificar os motivos que nos levam a gritar e refletir como é que eu quero fazer da próxima vez. É quando fazemos esta reflexão que estamos a praticar autorregulação. E depois lidar com a frustração de não o conseguirmos fazer sempre. O objetivo não é a perfeição, mas a melhoria continua.

Deixar de gritar é deixar de ralhar?

MGD: Esta é uma questão fundamental neste livro. De repente, o leitor mais cético pode dizer “mas então eu já não posso bater e agora já não posso gritar? O próximo passo é deixar de educar a criança?” Não é nada disto! Ralhar significa educar, orientar, acompanhar. E ralhar não tem de ser feito a gritar. Podemos fazê-lo sem levantar a voz. Afinal de contas, ralhamos com um colega ou corrigimos e chamamos à atenção? Os nossos filhos têm tanto (ou mais) valor que os nossos colegas. Se não grito com um, porque razão gritaria com o outro? Se o faço é porque não consigo ver essa igualdade enquanto pessoas.

Firmeza, mimo e paciência são os três ingredientes indispensáveis para melhorarmos a relação com os nossos filhos?
MGD: Claro que são! Todas as crianças precisam de pais firmes e justos. Pais que sabem o que estão a fazer… e a firmeza vem justamente dessa sabedoria. A paciência é uma característica que vamos perdendo quanto mais cansados estivermos – e os pais são pessoas cansadas, por natureza. Por isso é que a primeira regra da parentalidade positiva diz: pais felizes = filhos felizes. E depois o mimo… o mimo é amor. Se estraga, então é outra coisa. Mimo a mais não existe – o que existe é a falta de limites por parte do adulto.

Este exercício implica um crescimento interior dos pais…
MGD: Passamos a ter um maior conhecimento de nós, a perceber o quanto pode ser gratificante a nossa melhoria contínua e a nossa relação com os nossos filhos e isso enche a nossa vida.

Não há risco de “recaídas”?

MGD: Quando o foco é deixar de gritar, é bem possível que se tenha uma recaída. Este é um livro sobre amor e felicidade e sobre como é que podemos melhorar a nossa relação parental. O deixar de berrar vem por acréscimo. Se deixamos completamente de gritar? Isso é possível e vai depender da evolução que fizermos e da maturidade que ganharmos. Em primeiro lugar ganhamos o poder de identificar o que nos faz gritar. Por isso, vamos conseguir percecionar o momento em que o vamos fazer – é como se houvesse uma pausa entre aquilo que acontece e a nossa explosão. Se depois gritamos ou não, isso é uma decisão só nossa.

E é aí que percebemos que a forma como comunicávamos era talvez até violenta? Sentimos vergonha?

MGD: Vergonha ou culpa. Eu gostava de filmar as cenas em que gritamos com os nossos filhos. A primeira coisa que não fazemos é respeitá-los e o respeito mútuo é a base para a transformação. Se eu não vejo os meus filhos como pessoas com igual valor a mim, é difícil porque tudo o que eu vou fazer ou é autoritário ou permissivo. Depois, a forma como gritamos é de uma agressividade incrível, a começar pela nossa cara e pela violência dos nossos gestos. Está na hora de usarmos a culpa da melhor forma porque ela é benéfica se soubermos usá-la.

O que diria aos pais que dizem “hoje não se pode dar uma palmada ou um berro que os meninos ficam logo traumatizados…”
MGD: É legítimo termos receio que os nossos filhos não deem certo. E como a maior parte de nós se safou com o modelo da educação autoritária então porque é que isto não iria resultar nos filhos? O problema não é poder-se dar uma palmada ou gritar. O problema é que os pais estão na educação dos filhos como se um jogo de poder se tratasse e não é nada disso. Quando estamos numa relação mais punitiva, estamos apenas a dizer que os nossos filhos, porque são crianças, têm menos valor que nós. Que não são iguais. E são. São tão humanos e pessoas quanto eu sou e estão em crescimento. Precisam por isso de orientação.

Castigos ou consequências?

Os castigos ainda são uma fórmula recorrente para tentar incutir nas crianças que determinado comportamento não é o mais correto. Mas serão eficazes ou mesmo necessários? “O castigo tem vários objetivos e é antes de tudo a forma que a grande maior parte de nós conhece para… educar! É a forma que muitos pais e educadores têm de mostrar à criança que se prevarica, há que fazer sofrer”. E se na verdade o castigo “funciona no imediato, a médio e a longo prazo a criança vai aprender a esconder para não ser apanhada e aquilo que é mais importante – a responsabilidade – não foi conseguido”. Ou seja, o castigo é uma “excelente forma de desresponsabilizar a criança”.
As consequências, por outro lado, “têm a ver com a situação, são justas e ajudam a criança a tomar decisões e a serem responsáveis”. Por vezes, sublinha Magda Gomes Dias, “a diferença entre um castigo e uma consequência está apenas no tom e na intenção de fazer sofrer a criança”.

 

 

Oito métodos para uma internet mais segura

Junho 8, 2017 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto da http://www.paisefilhos.pt/ de 25 de maio de 2017.

Family with laptop in bed. Mother and child with computer at home

As recentes notícias sobre o jogo “Baleia Azul” – cuja consequência mais grave é poder levar os jovens participantes ao suicídio – são apenas o último “susto” que os pais de crianças e jovens têm vindo a experimentar no que diz respeito à forma como os filhos agem online. Há muito que medos relacionados com a exposição a conteúdos pornográficos, ciberbullying ou a atuação de predadores sexuais na internet fazem parte do quotidiano dos adultos. Há por isso que adotar estratégias que, ao mesmo tempo que reconhecem a omnipresença do mundo virtual na vida dos mais novos, promovem uma maior segurança.

Recentemente, a especialista britânica Katharine Hill lançou um livro com o título “Left To Their Own Devices?” (“Deixados à solta?”, em tradução livre), onde não só identifica algumas das situações a que pais, avós e adultos de referência devem estar atentos, como identifica oito métodos para promover o uso da internet de uma forma mais segura em meio familiar.

 1 – Não proibir a tecnologia

“Não é produtivo impedir as crianças de terem acesso à tecnologia. Eventualmente, haverá um amigo ou colega que tem um tablet ou um smartphone e as imagens e conteúdos vão chegar. Trata-se, antes de mais, de aprender a distinguir o certo do errado”.

 2 – Não deixar que os ecrãs dominem o quotidiano

“Enquanto pais ou avós, há que evitar que a vida seja passada à frente dos ecrãs, começando por dar o exemplo. Há que falar sobre o tempo que é gasto e que poderia ser perfeitamente utilizado para outras atividades de lazer. E, se for necessário, estabelecer regras de utilização adaptadas às diferentes idades das crianças e adolescentes”.

 3 – Criar um “acordo familiar tecnológico”

“Uma das coisas mais importantes que os pais podem fazer é usar os valores familiares no uso da tecnologia. Por exemplo, criar um ‘acordo tecnológico’ que estabeleça claramente o que as crianças estão autorizadas a fazer, o que é de evitar e o que não podem mesmo fazer e basear essas escolhas nos princípios que regem a vida da família”.

 4 – Deixar os equipamentos a carregar for a do quarto

“Uma parte importante desse ‘acordo tecnológico’ é estabelecer que os carregamentos dos aparelhos são feitos, durante a noite, fora dos quartos. Isto é o equivalente a impedir o acesso à internet durante essas horas. Mas, atenção: mais uma vez, todos os membros da família devem respeitar essas ‘horas sem net”, tanto crianças como adultos”.

 5 – Usar os sistemas de controlo parental

“No Reino Unido, a idade média em que as crianças têm acesso aos primeiros conteúdos pornográficos é aos 11 anos. Daí ser extremamente importante usar os sistemas de controlo parental nos sites e smartphones. Não se trata de impedir acesso à informação e conteúdos positivos, mas sim gerir e bloquear conteúdos impróprios”.

 6 – Estar envolvido na “vida online” dos mais novos

“No caso dos adolescentes, não há que hesitar: os adultos devem fazer parte das suas redes sociais e segui-los atentamente. Mas nunca de uma forma que pareça controladora, antes mostrando envolvimento positivo. Por exemplo, tirar uma foto de uma atividade em família e postá-la conjuntamente no Instagram”.

 7 – Estar informado e preparado para falar

“Não se pode enterrar a cabeça na areia e evitar falar de assuntos difíceis. Os pais podem pensar algo como ‘o meu filho não vê pornografia’ ou ‘nunca será uma vítima da Baleia Azul’, mas isso está longe de ser uma certeza. Daí ser importante os adultos manterem-se a par dos desenvolvimentos, bons e maus da tecnologia, para que as crianças saibam que podem falar abertamente sobre estes temas e serem compreendidas”.

8 – Limitar o uso adulto dos ecrãs

“Mais uma vez repito que é essencial ensinar pelo exemplo. Os valores transmitem-se, não se impõem. Se nos momentos em família, durante as brincadeiras ou às refeições, os adultos não largam os ecrãs, nada mais natural que as crianças e jovens façam o mesmo. Há que mostrar que o pai e a mãe sabem limitar o uso, em vez de lhes exigir que o façam apenas porque são os mais novos”.

 

 

 

6 respostas emocionalmente apropriadas para dar às crianças

Maio 31, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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texto do site http://www.psicologiasdobrasil.com.br/ de 10 de abril de 2017.

Sejam como forem as crianças, é muito importante dar-lhes respostas emocionalmente apropriadas diante dos comentários negativos que fazem sobre si mesmas. Principalmente quando falam delas mesmas na primeira pessoa, costumam deixar entrever que nível de autoconfiança percebida elas têm.

Significa dizer que não podemos achar que comentários cotidianos do tipo “não posso”, “vou fazer tudo errado”, “não tem sentido” ou “vou passar vergonha”, “não tem nada de interessante para fazer”, não têm um pano de fundo importante que pode ser reflexo de uma baixa autoestima.

Saber resolver estas situações nos ajuda a construir um afeto saudável e uma habilidade de reflexão que se torna prioritária desde a mais tenra infância. Então, considerando a importância de não negar nunca um sentimento, podemos usar uma série de respostas que as façam repensar esse tipo de afirmações tão prejudiciais. Vejamos alguns exemplos:

 

Respostas emocionalmente apropriadas para crianças

 

1. “Não consigo fazer isso”, a joia da coroa

 

Consideramos que “não consigo fazer isso” é a joia da coroa porque a grande maioria das pessoas têm isso incorporado no seu diálogo interior (às vezes até mesmo exterior) desde pequenos.

Esta é uma frase coringa que denota cansaço, falta de energia, apatia e pouca confiança em si mesmo. Costumamos responder com um “sim você pode”, às vezes acompanhado de reforços horríveis como “não diga bobagem”, ou “não seja preguiçoso”.

Como podemos ajudá-las a questionar esse pensamento e essa atitude? Em primeiro lugar, cabe destacar que muitas vezes a melhor forma de fazer isso é responder com perguntas do tipo:

O que significa “não consigo”?

Que provas você tem de que realmente não consegue?

Como você sabe que não consegue se você não tentar o bastante?

Você acha que dizer “não consigo” ajuda você ou prejudica? Não diga “não consigo”, diga “é difícil mas eu consigo”.

 

2.“Não tenho vontade, não vou fazer isso”

 

A preguiça e o desinteresse diante de certas tarefas se apresentam como a norma em determinados momentos. Pode ser desesperador, mas as crianças precisam entender que existem atividades que precisam realizar para o seu próprio bem.

A forma de permitir que se questionem é mandando-lhes a seguinte mensagem: não diga “não tenho vontade, eu não vou fazer isso”, diga “eu vou fazer isso, mesmo que eu não tenha vontade de fazê-lo agora”.

No fim das contas trata-se de propor perguntas como “O que aconteceria se todos fizéssemos somente o que temos vontade o tempo todo? Será que nunca temos que fazer nada que não temos vontade? Você já imaginou um mundo onde ninguém se esforçasse por nada? Você já imaginou se um motorista cansasse de respeitar as regras de trânsito? Ou que um médico se cansasse de curar os outros?”

Este tipo de perguntas as ajudam a refletir sobre a sua falta de vontade e as incentivam a mudar a sua atitude.

 

3.“Não quero fazer isso, sinto vergonha”

 

Rir da vergonha alheia é uma coisa bastante cruel. Longe de aliviar o assunto, o incentivamos. Se rimos diante de um sentimento que implica um certo grau de sofrimento, estamos zombando de uma nudez emocional. Precisamos transmitir uma mensagem de segurança que deixe claro que não é melhor que ninguém perceba, mas que as pessoas o ajudarão e sentirão empatia como regra comum.

 

4.“Estou cansado/ triste/ chateado”

 

Negar seus sentimentos e suas reações emocionais é um grave erro que a grande maioria de nós comete normalmente. Não é de estranhar, pois desde pequenos, diante do nosso choro, diziam pra nós “não chore, não é nada”. Existem expressões emocionais que se tornam desconfortáveis para a maioria da sociedade, mas negar isso é apagar uma parte importantíssima tanto das crianças como dos adultos.

 

5.Não rotule a criança de “desajeitado”, “burro”, “bobo”

 

Isto não ajuda em nada a desenvolver uma autoestima saudável. Quando a criança fizer alguma coisa de errado, existem muitas formas de dizer isso a ela: “não é certo você bater nos seus irmãos, você não tem que quebrar os brinquedos, você precisa se esforçar um pouco mais para estudar matemática.”

 

6.Mas também não diga que é “esperto”, “bonzinho” ou “inteligente”

 

O menino ou menina não compreenderá em que está fundamentada a sua afirmação se referindo a ele ou ela dessa forma. Em vez disso, você pode dizer: “você fez a tarefa muito bem, você recolheu tudo direito, adoro ver você pintar.” Isto é, podemos julgar seus comportamentos, mas não devemos julgar a criança.

Lembremos que se quisermos chegar a elas, nossas palavras precisam ter um tom apropriado, e nunca representar um ataque. Falar com elas com carinho e com um tom compreensivo é a base de uma boa criação e dos grandes aprendizados. Lembre-se de que é em você que eles têm a referência psicológica e buscam respostas, e assuma as rédeas da sua educação da forma mais responsável possível.

Imagem de capa: Shutterstock/Sapunkele

TEXTO ORIGINAL DE A MENTE E MARAVILHOSA

 

 

“Os pais estão a deixar-se tiranizar pelos filhos”

Abril 28, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista do http://expresso.sapo.pt/  a Sílvia Portugal no dia 15 de abril de 2017.

Carolina Reis

texto

Rui Duarte Silva

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O modelo familiar atual prefere os afetos e centra-se nas crianças e nos jovens, o que torna mais difícil impor a autoridade. Para a socióloga Sílvia Portugal, é essa a razão que justifica a desculpabilização que os pais fizeram dos incidentes durante a viagem de finalistas ao sul de Espanha .

O que nos revela a reação desculpabilizante dos pais?

Tem muito a ver como é hoje exercida a autoridade e a disciplina na família. A autoridade é uma questão central. E o que se entende que os jovens devem ser ou fazer. Os pais não querem aquilo que tiveram: a autoridade patriarcal, o poder da disciplina, as sanções físicas, que era o modelo educativo da geração dos pais destes jovens. Vêm de uma geração em que a autoridade era inquestionável e não havia espaço para liberdade. Não querem para os filhos o que eles tiveram. As mudanças foram muito rápidas e as pessoas não encontraram ainda o seu lugar de pais na família.

Que modelo de família temos hoje?

É mais democrática. Substituímos o modelo de autoridade patriarcal por um mais democrático, no qual as mulheres e as crianças ganharam voz. Hoje, as crianças são o centro. E os pais não sabem muito bem o que querem ou, pelo menos, não sabem como fazer. Não sabem como conciliar uma família onde todos têm voz e é dominada pelo afeto com uma família que integre modelos de autoridade e disciplina. Não são passados modelos muito claros do que deve e do que não deve ser. Porque olhamos de fora e é muito claro que o que aconteceu foi um ato de vandalismo. Não é desculpável e, no entanto, os pais desculpam-nas.

Ainda é possível haver autoridade?

Claro. E tem de haver. E tem de haver disciplina. E isso pode ser compatibilizado com uma família mais democrática e com uma família de afetos. As pessoas não conseguem encontrar esse modelo que concilie dois modelos que, à partida, parecem inconciliáveis. Chegamos ao caricato de vermos livros de autoajuda para pais — escritos por psicólogos — que aconselham a dizer não aos filhos. É algo que soa estranho, os pais que têm que ler estes livros passaram a infância e juventude a ouvir dizer não, e agora têm muita dificuldade em dizer não aos filhos.

Isto é reflexo da tão falada crise de valores?

Não é uma questão de crise, mas sim de mudanças. Uma série de mudanças, muito rápidas, que aconteceram na família e na sociedade como um todo. Há aqui uma mudança de valores e representações acerca do que deve ser a família. Contudo, vemos que ao longo da história a família esteve sempre em crise. Mas resiste e adapta-se.

Os pais têm menos condições para exercer a parentalidade?

Sim. A nível do emprego, da precariedade, das longas jornadas de trabalho. Isto implica muito menos tempo para a família. O trabalho tomou conta da vida das pessoas. No pouco tempo que têm evitam o conflito. E exercer autoridade implica conflito. É necessário para marcar as diferenças de papéis, para dizer que os pais são pais e não são amigos.

Já chegámos ao ponto em que os filhos mandam nos pais?

Temos uma geração de progenitores que foi tiranizada pelos seus pais e agora se deixa tiranizar pelos seus filhos. Tem de lidar com situações muito adversas, suas e dos seus filhos. Tivemos uma realidade, sobretudo depois do 25 de Abril, em que as gerações tiveram sempre uma vida melhor do que as anteriores. Ora, estes pais e estes jovens não têm esta expectativa. É a primeira vez que enfrentamos um momento em que as gerações a seguir podem ter condições de vida piores do que a anterior. E isto é muito angustiante, cria muita incerteza. E os pais tentam compensar os filhos.

Nos últimos dias, também vimos outro fenómeno. Pais a dizer que nunca tiveram comportamentos daqueles e que os seus filhos jamais o fariam. É uma hipocrisia?

É um clássico, são sempre os filhos dos outros. Isto acontece muito nos discursos sobre a família: descoincidência entre aquilo que as pessoas acham que devia ser e, na prática, fazem exatamente o contrário. Não lhe chamaria hipocrisia. Tem a ver com estas tensões que são quotidianas e estruturais.

 

 

 

 

 

Parentalidade na PHDA

Março 31, 2017 às 11:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do site http://uptokids.pt/ de 21 de março de 2017.

smallville

 

Por motivos de investigação, foi-me pedido que realizasse um levantamento da literatura científica que existia sobre a parentalidade na PHDA (perturbação da hiperatividade e défice de atenção). Muito obediente, lá fui aos motores de busca académicos mais conhecidos e comecei a ler o que já existia sobre este tema. Aos poucos fui ficando cada vez mais decepcionada: apenas informações sobre como os pais e mães não lidavam com a hiperatividade. Erros, erros e mais erros. Tudo sobre como a parentalidade era mal exercida. Tudo como estes pais colocavam ainda mais em risco crianças, que por si só, apresentam já um desafio. Procurei em diversas línguas e encontrei apenas mais do mesmo: autores de renome, de faculdades conhecidas, a apontar problemas que todos sabemos que são conhecidos. De positivo, nada.

Nada sobre como estes pais são guerreiros ao enfrentarem uma escola estandardizada não preparada para comportamentos desviantes, sobretudo quando aparentemente tudo está bem. Nada sobre como estes pais são fortes ao enfrentarem uma sociedade que ainda encara esta dificuldade como um problema menor e de educação, sem apresentar soluções viáveis. Nada sobre como estes pais são faróis, para crianças que procuram respostas, onde os pais ainda encontram dúvidas. Nada sobre como estes pais são mudança, quando discutem com médicos e questionam os caminhos que são mostrados.

Vivemos numa sociedade onde a palavra hiperatividade tem vindo a ser de mais em mais banalizada, como corrente no nosso quotidiano, mas onde ainda poucos sentem o seu peso. Vivemos numa sociedade em que a educação ainda está assente no passado, mas acontece na velocidade de um futuro. Vivemos numa sociedade em mudança, com novos desafios, mas onde ninguém guia estes pais num caminho claro e longe da culpa.

Desta forma, mesmo quem estuda estas famílias e quem deveria aproximar-se para dar a mão, aponta antes o dedo para os erros, mas sem apresentar soluções.

Porque se é verdade que quando entramos na perturbação da hiperatividade e défice de atenção, entramos também em terreno pantanoso onde ainda temos muito que cimentar, é também verdade que não é apontando dedos entre adultos que se chega a quem mais precisa: a criança.

Ana Fonseca

 

Parentalidade faz viver mais tempo

Março 28, 2017 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia da http://www.paisefilhos.pt/ de 15 de março de 2017.

O estudo citado na notícia é o seguinte:

Payback time? Influence of having children on mortality in old age

 

Um estudo desenvolvido por uma equipa de investigadores do Instituto Karolinska, na Suécia, e publicado no Journal of Epidemiology and Community Health, associa a parentalidade a uma vida mais longa. Uma conclusão que é particularmente evidente quando a idade é mais avançada, numa fase em que a saúde começa a deteriorar-se e se pode perder algumas capacidades.

O estudo – que seguiu cerca de 1,5 milhões de suecos com idades a partir dos 60 anos, nascidos entre 1911 e 1925 – concluiu que embora o risco de morte aumente com a idade para todos os adultos, os que têm pelo menos um filho parecem ter uma maior longevidade.

Contas feitas, os cientistas acreditam que os homens de 60 anos com crianças podem viver mais 20,2 anos, enquanto os que não têm crianças, podem contar viver mais 18,4 anos. Trata-se de uma diferença de quase dois anos. Já nas mulheres de 60 anos, a diferença é menor: um ano e meio. Estima-se que as mulheres de 60 anos com crianças vivam mais 24,6 anos e as que não têm crianças vivam mais 23,1 anos.

As razões desta ligação não são claras, mas os investigadores acreditam que está relacionado com a ajuda dos filhos, seja através de cuidados físicos ou de apoio emocional.

 

Sem berrar, sem rezingar e sem resmungar

Março 28, 2017 às 12:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Texto de Eduardo Sá publicado na http://www.paisefilhos.pt/ de 19 de março de 2017.

Surgem, de vez em quando, livros, programas de treino e “tendências do momento” acerca da imensa vantagem dos pais perderem alguns exageros que todos aqueles que são bondosos e dedicados sempre cometem quando gritam, desabafam ou reclamam, por exemplo. Fala-se do modo como pais que gritam fazem mal às crianças. E dá-se, ainda, a entender que os gritos e o exercício da autoridade parecem não ter muito a ver entre si, a ponto de haver quem afirme que será por isso que muitas crianças, à medida que crescem, se transformam em “pequenos ditadores”.

Ora, eu compreendo a importância duma ajuda técnica dirigida a todos os pais. Mas receio que, muitas vezes, o tom com que ela lhes é dedicada seja um bocadinho áspero (ou, mesmo, repreensivo), parecendo dar a entender que os pais devam ser bucólicos e serenos, didáticos na forma como apresentam as suas condições educativas, e negociadores (hábeis!) quando se trata de trazerem à razão os seus pequenos “príncipes”. Reconheço que, por vezes, as “pestinhas”, os acessos de “mau feito”, o acordar “mal disposto” ou o “segurem-me que eu estou em fúria” de muitas crianças (saudáveis!) parece não entrar tanto como devia nestas “fórmulas” educativas. O que faz com que muitos pais “comprem” essas “receitas de sucesso” e, quais produtos descartáveis, acabem no tradicional “eu já tentei tudo!” que, não se tratasse dos seus filhos, talvez quisesse dizer: “tirem-me daqui!” Ou que reconheçam que os seus “bijous” os “levam ao limite”. Ou que façam uso de qualquer outro desabafo que anteceda uma tremenda rendição.

Mas serão as crianças tão complexas na forma como se agitam, se irritam ou se enfurecem que mereçam programas educativos ou de treino que deem aos pais “competências” para lhes devolver a autoestima ou para os tornar “mais focados” ou “mais motivados” para a “tarefa” de educar? Eu acho que não! Talvez por tudo isso seja importante brincarmos com este lado um bocadinho alarmado com que muitos “especialistas” parecem querer colocar todos os pais num alerta do género: “elas vêm aí!”, que faz com que as crianças pareçam requerer um jeitinho quase laboratorial de lhes darmos colo, regras e autonomia ao mesmo tempo que se mantêm vivas e se vão tornando bem educadas.

Em primeiro lugar, educar sem berrar, sem rezingar e sem resmungar não é bem educar. É querer que os pais não ponham alma em tudo aquilo que dão. O que, valha a verdade, talvez pretenda transformar a paixão que colocam em cada gesto que dedicam aos filhos numa pilhéria de movimentos “robotizados” que os tornem insossos e enfadonhos. E isso é mau! Aliás, se educar sem berrar, sem rezingar e sem resmungar fosse mesmo para valer seria motivo para se dizer: “Mães de todo o universo, deem um pulo de contentamento, se fazem o favor: estão proibidas de educar!”. O que seria uma perda trágica e irreparável para todas as crianças.

O que eu não entendo mesmo é que vá surgindo a ideia de que os pais ou conversam ou gritam. Pais que conversam não gritam, claro. E pais que gritam estão muito longe de saber conversar – com persuasão e “cheias de maneiras” – com as crianças. O que não é verdade! Quem são os pais que mais gritam? Os que mais conversam! E porquê? Porque as conversas em que se dedicam a explicar, minuciosamente, boas maneiras acabam sempre por ser sentidas pelas crianças como um “desculpa qualquer coisinha”, mais ou menos medroso, o que faz com que elas os “estiquem” sempre um pouco mais, acabando esse braço de ferro numa cena “à italiana”. Como parece que não convém…

A seguir, diz-se por aí que os berros não são amigos da pedagogia. Mas é que não são mesmo! Por isso é que são bons. E porquê? Porque aquilo a que muitos chamam pedagogia parece não tolerar o erro, as asneiras e os remorsos com que todos nós vamos crescendo como pais. Aliás, qual é a principal função dos berros: educar?… Claro que não! É serem amigos do desabafo. Aliviam, portanto. E arejam a alma! Para que, depois de se reconsiderar, haja espaço para a clarividência e para a bondade.

Depois, afirma-se que quem berra, reclama e protesta dá maus exemplos. É verdade que haverá circunstâncias em que as “figuras tristes” não são um “cartão de visita” para qualquer “faça você mesmo” ao alcance de todas as crianças. Mas são um bom exemplo! Porque – imaginando eu que nada disto seja “a regra” mas que se trate de breves repentes de ebulição só ao alcance dos bons pais – as asneiras dos pais demonstram aos filhos que a sabedoria não significa prevenir os erros mas aprender com eles.

Quase a rematar, diz-se que os pais só deviam ralhar quando detetassem alguma maldade nas crianças. Ou que deviam respirar fundo… antes de abrirem a boca. E isso seria mesmo mau! Porque, a ser assim, as boas mães rebentariam quase todos os dias. E nunca chegaríamos a desabafos como “qualquer dia tiro férias de mãe e vocês vão ver!”. Que é dos patrimónios imateriais mais preciosos da Humanidade!

Finalmente, diz-se que os berros trazem (algum) medo às relações das crianças com os os seus pais. E volta a ser verdade. Porque quando os pais definem perigos e interditos, ao fazerem com que as crianças estremeçam com eles e se intimidem um bocadinho, estão a dizer-lhes, por outras palavras: “se tiver que te provocar alguma dor para te poupar dores muito maiores, eu não hesito!”. Ora, haver situações em que as crianças, quase por antecipação, conseguem (só de a imaginarem) ter medo da reação da mãe ou do pai faz com que parem, enquanto é tempo. Ou que se munam de talentos para iludir a competência que todos os pais têm para adivinhar as suas asneiras – antes, ainda, delas serem pensadas – o que, a acontecer, não é para todos! Só mesmo para os filhos de quem, de vez em quando, berra, reclama e protesta…

Para rematar, dá-se a entender que os pais, depois de berros, protestos e reclamações ficam “afanadotes”. E, seja pelo cansaço de tão pouco edificantes “perfomances”, seja pelo exagero com que elas vêm equipadas, a seguir, se tornam “algodão doce”. E dizem “sim!” a quase tudo. E é verdade. Mas dizerem “sim” a quase tudo não significa que se tenham tornado amigos da “totozice”. Mas que tenham prescindido da sua quota-parte da birra e que, em função disso, casem melhor a autoridade com a bondade.

Educar sem berrar, sem rezingar e sem resmungar não será “a Graça de Deus”. Reconheço! Por mais que ande por aí quem confunda bullying com educação. Os pequenos destemperos dos bons pais são bondade e educação. Os registos rígidos a que alguns se obrigam (talvez porque tenham medo de, ao primeiro espirro, perderem a cabeça) são mais bullying do que parece. Porque é que os pais querem muito não gritar, sempre que educam? Porque eles lá sabem do que é que são capazes quando amam. Mas não fossem eles capazes de berrar, de rezingar e de resmungar que podiam ser bons pais, até. Mas faltaria uma pitadinha de alma, um quanto-baste de paixão. E nunca seriam “Os Nossos Pais”!

 

 

V Congresso A Cores “Crescer Hoje” 20 e 21 de abril em Coimbra

Março 23, 2017 às 12:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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mais informações no link:

https://congressocrescerhoje.wixsite.com/coimbra

 

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