O maior dos perigos da adolescência são os pais – Eduardo Sá

Setembro 26, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Redd Angelo Unsplash

Texto de Eduardo Sá publicado no site Eduardo Sá

Perante tantos e tão complexos desafios os pais são absolutamente imprescindíveis

É verdade que o início da adolescência se dá com o início das transformações psicológicas de adaptação à puberdade. E que, em função dela, um corpo que cresce “aos solavancos” e as transformações neutro-endócrinas que a acompanham “desengonçam” os adolescentes, “desarticulam-nos” e introduzem velocidades de crescimento diversas, entre si, que comprometem, em muitas circunstâncias, a sua relação com o grupo de pares e com a família.

É verdade que, logo a seguir, no salto entre os 12 e os 14 anos de idade, a emergência da sexualidade traz à cabeça dos adolescentes tantos sobressaltos e tanto mal-estar que se fecham muito mais sobre si, se tornam muito tensos em relação ao toque, parecem muito pouco simpáticos e ainda menos empáticos: quase como se fossem  “bichos do mato” ou vivessem n’ “a idade do armário”. Alguns, passam a falar em murmúrios e em “grunhidos”. O seu humor sofre oscilações diárias dignas duma “montanha russa”. Talvez por tudo isso, os grupos de pares dão-lhes o suporte que a família, em muitos momentos, regateia. A ligação entre identidade de género, identidade propriamente dita e identidade sexual começa a desenhar-se. E a sua vulnerabilidade, a este nível (e não só), aumenta, de forma vertiginosa, com toda a informação que lhes chegam via online.

É verdade, ainda, que, tal como os seus pais, os adolescentes portugueses gostam de ir para a escola, sobretudo, por causa do recreio. Colaboram, cada vez mais, em contexto escolar, uns com os outros. São quem mais valoriza o trabalho de equipa. São os alunos mais ansiosos entre os alunos dos países da OCDE, face à avaliação. E são os que mais abandonam a escola sem concluir o ensino secundário. E vivem-na como se ela lhes permitisse, sobretudo, downloads. Mais do que, propriamente, os levasse a pensar e a criar.

É verdade que, apesar de tudo isso, os adolescentes portugueses convivem entre si, eles socializam, hoje, sobretudo, online. A um ritmo diário quase absurdo – durante a manhã, no decurso das aulas, às refeições (!) e ao longo da noite – e diante da passividade gritante das famílias. E que circulam por sites, jogos online e redes sociais que – por mais que merecessem o controle, sensato e transparente, dos seus pais – aumentam, de forma exponencial, o contraditório da sua sabedoria, a forma como são manipulados em função dos dados que deixam, como rasto, nas redes e os perigos a que estão expostos.

É verdade que os adolescentes trocam 30 000 sms por ano (não contando com as caixas de conversação online). Gastam 8 dias por ano falando ao telefone, não contando que metade deles tem televisão no quarto.  Que 1/4 dos adolescentes passa mais de 6 horas por dia ligado à internet. Que focam, arrastam ou clicam no telemóvel quase 3 000 vezes por dia. E, mesmo se estiver desligado, têm, na sua presença, uma “atenção parcial” e, por isso mesmo, ficam menos inteligentes. E, se o seu comportamento for idêntico ao dos pais, fazem mais de 3 publicações por dia nas redes sociais; em 90% delas, com conteúdos de natureza pessoal. Sem se darem conta que, com 150 likes, um computador será capaz de os “conhecer” melhor que um membro da sua família.

É verdade, ainda, que a escola está, perversamente, virada, quase em exclusivo para promover a entrada no ensino superior. E que, entre mesadas, propinas, livros, dinheiro de bolso e todas as outras despesas relativas à vida de um filho, qualquer adolescente universitário tem um vencimento mensal muito claramente superior ao ordenado mínimo nacional. E que, talvez por causa de tudo isso, há em Portugal 176 mil jovens com menos de 30 anos que não trabalham, não estudam nem estão em formação.

É verdade, finalmente, que, se se tomar a autonomia de um adolescente em relação à sua família – em termos físicos, psíquicos e financeiros – a maioria dos adolescentes se torna autónoma pelos 30 anos. O que, se, por um lado, releva os aspectos acolhedores dos pais como talvez ele não existisse, de forma transversal, há uma geração atrás, por outro, os transforma numa espécie de “banco popular” e de “prestadores de serviços” que quase eterniza a adolescência.

É verdade, concluindo, que, diante de tantos e tão diversificados desafios, o maior dos perigos dos adolescentes são os pais. Quando se transformam nos melhores amigos dos filhos e se inabilitam para ser pais. Quando convivem e condescendem com comportamentos com que não concordam. Quando não repreendem nem reprimem as atitudes de altivez e de arrogância e as desconsiderações com que eles escondem as suas fragilidades. Quando não definem regras de utilização inequívocas para os telemóveis, para as redes sociais e para o jogo. Quando pactuam com a sua relação com o álcool como se fosse uma atitude de iniciação para a vida adulta sem consequências (quando mais de metade dos adolescentes que o experimentam se tornam consumidores frequentes ou de grandes quantidades e revelam, em função disso, diminuições claras dos seus córtexes frontal e temporal). Quando, à boleia do discurso populista entre drogas pesadas e drogas leves, omite opiniões firmes e regras claras sobre o consumo destas últimas, por mais que aplauda os comportamentos de saúde que os adolescentes têm, cada vez mais, com o tabaco. Quando deixam de ser “a referência” de Lei, de boa educação e de tenacidade e bom senso de que os adolescentes precisam. Quando os protegem demais e os autonomizam de menos. E, por último, quando imaginam que, num mundo em mudança, o seu papel em relação aos filhos será secundário. Quando é, mais do que nunca, imprescindível, insubstituível e indispensável. Por muito, muito tempo!

 

Lançamento do livro de Vânia Beliz “Chamar as coisas pelos nomes : como e quando falar sobre sexualidade” 19 setembro FNAC Chiado 19.00 horas

Setembro 18, 2018 às 12:00 pm | Publicado em Divulgação, Livros | Deixe um comentário
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CHAMAR AS COISAS PELOS NOMES: Como e quando falar sobre sexualidade.

Editora Arena

Convido-vos a conhecer o meu novo livro dirigido às famílias, aos educadores e às educadoras. “Chamar as coisas pelos nomes” é o meu desafio de oferecer, a quem educa, estratégias simples para que se possam abordar com crianças e com jovens alguns dos temas mais importantes da sexualidade. O prefácio de Jorge Ascensão, Presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais, é o ponto de partida do reconhecimento da importância desta temática na educação para a saúde.

Porque falar de sexualidade ultrapassa, em muito, a temática do sexo, convido-vos a descobrir como podemos promover a saúde e o bem-estar das nossas crianças desde o nascimento. Educamos para a sexualidade desde que nascemos, e a forma como nos comportamos e como educamos meninos e meninas é um ponto de partida importante para o sucesso das nossas relações. A forma como viveremos a nossa intimidade e como construiremos a nossa felicidade depende sempre da forma como integramos a nossa identidade, de como lidamos com o nosso corpo e as suas transformações, e de como vivemos os primeiros relacionamentos… Será que sente ter competências para abordar todos estes temas importantes?

E as questões da identidade: quem sou e como sou? a puberdade e a adolescência? Bem, “Chamar as coisas pelos nomes” poderá ser, assim, uma ferramenta que considero importante para todos e para todas que se preocupam com a felicidade dos seus filhos e das suas filhas, e que querem responder eficazmente a todas as perguntas e desafios que surgirem.

De forma objetiva e sem medo, chamemos as coisas pelos nomes!

O meu obrigada

Vânia Beliz 

 

Tabagismo: o vício que continua a iniciar-se na adolescência

Setembro 14, 2018 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de Alexandra Pedro para o DNLife, em 24 de agosto de 2018.

 

Um novo estudo europeu indica que existe um aumento do número de fumadores que começa antes dos 16 anos.

Um relatório da Direção-Geral de Saúde (DGS), realizado em 2017, indicara que mais de 11 800 pessoas morreram em Portugal por doenças atribuíveis ao tabaco, sendo que 9263 eram homens e 2581 eram mulheres. O mesmo estudo, com dados dos IV Inquérito Nacional ao Consumo de Substâncias Psicoativas (2016/2017), mostrava que a idade média para o início do consumo se situava nos 16 anos.

Agora, um estudo europeu publicado esta semana revela que a tendência do começo em idade jovem está longe de ser erradicada. A pesquisa indica que, nas últimas décadas, a iniciação ao tabagismo na adolescência ainda é bastante frequente. Um dos números crescentes é o das raparigas que começam a fumar antes dos 16 anos.

«A iniciação ao tabagismo ainda é inaceitavelmente alta entre os adolescentes europeus, e as taxas crescentes entre aqueles com 15 anos ou menos merecem atenção», alerta uma das conclusões da investigação, publicada no site Plos One.

Outra sublinha que reduzir a iniciação em adolescentes é fundamental, «uma vez que os jovens são particularmente vulneráveis à dependência da nicotina e aos efeitos adversos do tabaco».

Alessandro Marcon, um dos principais autores do estudo, diz ao El País que este trabalho quis estudar «os últimos 40 anos da história do tabaco» (entre 1970 e 2009), dividindo a Europa em quatro áreas: sul (Itália, Espanha e Portugal), leste (Estónia, Polónia e a Macedónia), oeste (Bélgica, França, Alemanha, Holanda e Suíça) e norte (Reino Unido, Dinamarca, Finlândia, Suécia, Noruega e Islândia).

O objetivo das pessoas que desenvolveram a pesquisa passou, essencialmente, por avaliar as idades em que se inicia o consumo de tabaco, de forma a «desenvolver melhores estratégias de prevenção».

No estudo pode ver-se que, ao longo das décadas em análise, existem menos pessoas a iniciar o vício, embora as que começam o façam mais cedo. Depois de 1990 verifica-se um aumento acentuado da iniciação do tabagismo no início da adolescência (11-15 anos).

 

 

Grandes diferenças de consumo na Europa

Portugal, Itália e Espanha (o grupo do sul) apresentaram resultados bastante díspares em relação ao resto da Europa: não só aumentaram a tendência de iniciação entre os 11 e os 15 anos, em ambos os sexos, como também estagnaram em relação aos que começam o consumo de tabaco a partir dessa idade (16 aos 20 anos).

No gráfico apresentado (ver em baixo), conclui-se que esta é uma realidade bem diferente da dos países do norte da Europa, que conseguiram reduzir os seus índices de iniciação tanto no sexo masculino como no feminino.

 

Deixar de fumar: um passo crescente em Portugal

De acordo com a Direção-Geral de Saúde, em 2016 registou-se «um aumento da acessibilidade às consultas de cessão tabágica», resultando em cerca de 31 800 consultas de apoio intensivo em centros de saúde e unidades hospitalares do Serviço Nacional de Saúde. A comparticipação de medicamentos para ajudar a deixar de fumar também aumentou no ano anterior.

E sim, é necessário muito esforço e autodisciplina a quem está a pensar deixar de fumar, pelo que a Direção-Geral de Saúde reuniu algumas rotinas que podem facilitar a tarefa.

Veja quais são na fotogaleria.

“Os jovens não têm noção de mortalidade. Ninguém pensa que vai morrer aos 13 ou 14 anos”

Julho 11, 2018 às 6:00 am | Publicado em Livros | Deixe um comentário
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Consumir drogas e perder a virgindade aos 12 anos é uma realidade em Portugal. Quem é o afirma é Francisco Salgueiro, que traça um retrato da adolescência em pleno século XXI. O escritor, autor de vários livros dedicados ao tema, lançou em junho “Sexo, Drogas e Selfies”, e revelou ao Expresso uma realidade que leva muitos jovens a arriscarem a vida para serem populares no grupo de amigos.

Francisco Salgueiro é autor de vários livros sobre um dos períodos mais complexos e exigentes na vida de pais e filhos: a adolescência. Em 2010 publicou o primeiro livro dedicado ao tema “O Fim da Inocência – Diário Secreto de Uma Adolescente Portuguesa” e três anos mais tarde repetia a dose com o 2.º volume – “O Fim da Inocência – Diário Secreto de Um Adolescente Português”. Este mês lançou “SDS – Sexo, Drogas e Selfies”. Uma visão crua sobre uma realidade que muitos pais continuam a ignorar.

O que é que o levou a escrever um terceiro livro sobre os adolescentes portugueses?
Os pais ainda não acreditam que esta é uma realidade e que acontece aos seus filhos. Continuo a ter muitos pais que me dizem: “também na nossa altura uns fumavam erva, outros cheiravam cocaína e apanhávamos bebedeiras de coma alcoólico”. Não percebem que há muito mais a acontecer. As crianças estão a começar cada vez mais cedo nas drogas, álcool e sexo. Há um mundo diferente que os pais têm de perceber. Os mais novos, de 12 anos, tentam imitar os mais velhos, de 14 e 15 anos.

Este livro é um alerta para os pais?
Sim. Quis passar a mensagem de que na realidade destes jovens não há afetos genuínos, há pessoas descartáveis, pessoas utilizadas pelos seus corpos, relacionamentos de amizade que não o são. Estes miúdos não estão atentos ao que se passa à volta deles e gostam em massa dos mesmos temas sem sequer os discutirem.

Como é que surgiu a necessidade de partilhar estas mensagens?
Sou uma esponja de inspiração, tudo aquilo que posso absorver à minha volta vou absorvendo e há uma altura em que tenho necessidade de partilhar o que andei a recolher. O SDS junta centenas de histórias desde o “Fim da Inocência”. Nos dois primeiros livros, as histórias que contava passavam-se aos 14 anos e os editores da Leya diziam “como é que é possível ser tão cedo? Se calhar temos que indicar outra idade”. Eu dizia-lhes que não, que tínhamos de ser sinceros. Ficaram boquiabertos com as histórias que conto neste livro e que envolvem jovens de 12 anos.

Qual a principal diferença entre este livro e os anteriores?
É a idade, tudo se inicia mais cedo. As selfies, por exemplo, vieram tornar as relações descartáveis. Ter uma conversa pouco importa se tirarmos uma selfie e parecermos muito contentes. Há uma falta de auto-estima muito grande e o ‘fear of missing out’ – o medo de perder alguma coisa. Os jovens vivem na era dos ‘likes’, precisam de fazer algo para serem validados, para terem aprovação social. Os pais não estão lá a dizer “não precisas da aprovação social porque eu estou aqui, eu valido-te, eu gosto de ti”.

Este livro retrata a sociedade ou apenas um estereótipo?
Não posso generalizar que todas as pessoas sejam assim. Mas dei muitas palestras de norte a sul do país e percebi que esta realidade existe de facto, porque há uma coisa comum a todos estes jovens: a internet.

A internet é o pólo agregador dos comportamentos de risco atuais. É lá que os miúdos vêem pornografia desde muito cedo, os ‘youtubers’, que podem comprar droga, é lá que tudo se passa…

Os jovens têm consciência do que estão a fazer?
Muitos miúdos afirmam ter tomado “um comprimido qualquer” que lhes ofereceram e eu pergunto-lhes: “então mas o que é que continha o comprimido? Perguntaram? Fizeram um teste? (existem muitas carrinhas que fazem esse tipo de testes)”. Respondem-me: “não me interessa, era uma coisa qualquer e eu tomei porque achei graça”. Existe a cultura do YOLO – you only live once (só vives uma vez). Não há noção de mortalidade, ninguém pensa que vai morrer aos 13 ou 14 anos. Portanto, é um comprimido que pode ter sido feito numa garagem na China e que ninguém faz a mínima ideia do que contém, e para os miúdos é totalmente indiferente tomar este ou outro qualquer.

São os protagonistas das suas histórias que o procuram?
No primeiro livro, foi a Inês que veio ter comigo e que se expôs, contando-me uma série de histórias, nas quais não acreditei desde logo. Encontrei-me com ela, mais tarde, e com o seu grupo de amigos no Bairro Alto e apercebi-me que o que ela contara não era assim tão descabido. Assisti a algumas das histórias relatadas, e se eu que saio à noite não conhecia aquela realidade, como é que os pais haveriam de conhecer? No “Sexo, Drogas e Selfies (SDS)” peguei em histórias de várias pessoas. De repente passei a ser o repositório das histórias que todas as raparigas me queriam escrever e contar porque não têm coragem para falar com os pais.

Há pais que o abordam ou pedem para falar consigo?
Há casos em que vieram falar comigo para me contar uma história que aconteceu, mas geralmente são poucos. Muitos dizem-me que têm medo de ler os meus livros e são eles quem mais precisa de os ler. Alguns acham que por os filhos não saírem à noite estão protegidos mas na verdade não estão. Basta terem um computador em casa, com ligação à internet, e fecharem-se no quarto.

Antigamente era preciso ir para a rua, agora bastam estes comportamentos dentro de casa. Os próprios pais cometem erros nas redes sociais, pelo que tem de haver um crescimento coletivo. Não se pode recorrer ao argumento “eu sou mais velho, sei mais coisas que tu”, até porque provavelmente isso não é verdade, os miúdos sabem muito mais das redes sociais.

Como é que um escritor se transforma (quase) num psicólogo de adolescentes?
Não é fácil. Tento não o ser. Há dois tipos de emails que eu recebo: o mail de exposição, de quem quer falar, desabafar, sem procurar mais. Depois há outras pessoas que querem procurar e precisam, porque não sabem o que fazer à sua vida. Eu não sou psicólogo, mas como já me cruzei com muitas destas histórias procuro dar-lhes força, agir com bom-senso, tentando alertar para os comportamentos de risco.

Como foi sair à noite com estes miúdos e perceber o que se passava?
Depois de terem tomado comprimidos, aconteceu estarem ao telemóvel comigo e dizerem-me “vou-me atirar da janela abaixo, porque é lindo, vou voar”. Como na história do comboio (partilhada no SDS), em que tirar uma selfie para se ser popular é uma prioridade, mesmo quando se está completamente bêbedo (ou quando se ingeriu qualquer coisa), colocando a vida em risco. Os jovens não ganham consciência, procuram cada vez mais imitar os mais velhos. O pensamento é este: “Se os mais velhos cheiram cocaína, eu com 13 anos também quero experimentar, se não lhes acontece nada de especial, porque é que me há-de acontecer a mim?”

A história em que me inspirei para a parte final do livro chocou-me muito, foi-me contada pela irmã da pessoa que passou pelo problema. Foi a que mais me chocou até hoje. Estamos a chegar ao limite, para lá daquilo não há mais nada.

O que falta na relação entre pais e filhos?
Muitas vezes os pais chegam cansados do trabalho e a última coisa que lhes apetece é dar atenção aos filhos e falar com eles. O “Fim da Inocência” trouxe à tona o interesse da comunicação social por estes temas que surgem muitas vezes nas primeiras páginas. Não há desculpa para que os pais não estejam alerta.

Como é que os pais conseguem falar com os filhos sem estes acharem as conversas uma “seca”?
Este tipo de livros e artigos da Comunicação Social podem ser tema de conversa. Tem de haver um espaço dinâmico e de troca de ideias, e não de moralismos. É a pior coisa. Os jovens falam muito comigo porque não sou moralista e tenho um espírito muito aberto. Se um filho diz aos pais “já experimentei”, não o podem colocar de castigo, e têm de desconstruir o problema para que o filho não volte a consumir. Se os pais optam por colocar os filhos de castigo, eles voltam a repetir, porque o fruto proibido é o mais apetecido.

 

Entrevista publicada no jornal Expresso em 2 de julho de 2018

Como lidar com a fase da adolescência rebelde do meu filho?

Maio 7, 2018 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto e imagem publicados no Facebook do UDIJ no dia 17 de abril de 2018.

O tempo é um grande aliado neste processo. Devemos ter presente que os nossos filhos ao crescer, passam por várias fases e uma delas, provavelmente a mais difícil, é a adolescência.
Este é um tempo de plantar e saber esperar pelos frutos mais tarde. Agora é normal que as suas orientações já não sejam cumpridas como gostaria, agora pode até sentir que nada do que lhe diz ele cumpre ou aceita, sem pelo menos reclamar.
É uma altura de muitas mudanças, em que os nossos filhos começam a querer afirmar-se, a ter controlo da sua vida, a considerar que é altura de serem eles a comandar e por isso, sempre que são colocados numa situação em que têm que cumprir “ordens”, regras estabelecidas, elas são questionadas. Nesta altura, gritar, dar grandes sermões ou até mesmo ameaçar castigar, já não são de grande valia.

Deixe passar a fase de fúria do seu filho e depois converse com ele, oriente, seja firme na sua posição de pai e transmita-lhe segurança, autoridade (não autoritarismo). Pode parecer que ele não ouviu, que não quer saber, mesmo porque ainda é muito imaturo, mas a informação chega. Um dia, esta fase termina e tudo o que lhe foi transmitindo com amor e firmeza vai dar os seus frutos. É altura de treinar muito a sua paciência e saber esperar, nunca desistido. O seu filho, mesmo reclamando, espera de si orientação, regras, segurança, liderança, e claro, muito amor.

Relativizar:

Não esteja constantemente a repreender o seu filho por tudo o que ele faz. Sempre que o criticar, lembre-se que ele vai sentir que está errado, que nunca acerta ou que nunca o satisfaz.

É preciso encontrar uma medida onde o seu filho sinta que a chamada de atenção ao comportamento rebelde dele não muda em nada o amor que sente por ele e que aconteça o que acontecer, irá continuar a acreditar que ele pode fazer melhor do que fez hoje.
É muito importante que saiba separar a pessoa dos atos. Condene o comportamento indesejado, mas jamais misture esse comportamento ao que o seu filho é. Não lhe diga que ele é uma desilusão para si, liga-lhe antes que ficou triste ou chateado com determinado comportamento. Não lhe diga que ele deixou de ser o filho amoroso que era em pequeno, diga antes que ele deverá esforçar-se para ser mais amoroso com os pais, que o seu esforço em ser mau não resulta, porque o conhecem bem e sabem que ele é muito melhor pessoa do que quer mostrar, (acompanhe com um sorriso)

Não comparar:

Quando estiver a repreender o seu filho, nunca o compare com o irmão, primo ou amigo que tenha um comportamento exemplar. Ao contrário do que possa pensar, em vez de o encorajar a melhorar terá o efeito oposto. Ele sentir-se-á diminuído, humilhado e estará a desencoraja-lo a fazer melhor, criando entre vós uma distância cada vez maior.

Nunca lhe dizer que ele será mal sucedido a vida toda:

Por mais que a situação hoje seja complicada e a convivência difícil, esforce-se por ser positivo. Nunca ameace o seu filho, dizendo que caso ele não faça isto ou aquilo, ele nunca será alguém na vida.
Não é a ameaça de fracasso que vai estimular o seu filho adolescente, que já está numa fase difícil. Ele não está preocupado em antecipar problemas futuros, ele está focado no presente e não vai entender que os pais só querem protegê-lo do fracasso, vai sim interpretar as suas palavras como uma falta de confiança nele.
Dirija os seus esforços em estratégias para que ele melhore. Foque-se em que seja traçado um objectivo de cada vez, passo a passo. Priorize com ele o que precisa ser melhorado. Pode ser uma nota ou um comportamento. Se sentir dificuldade em fazer isto, procure ajuda profissional (para lidar com as questões emocionais, relação familiar, para um reforço escolar, etc.). Pode e deve sempre ir tentando construir com eles pequenos objectivos, para que ele sinta o gosto de ter vitórias naquilo que gosta de fazer.

Negociar:

Estabelecer regras e limites é fundamental, mas igualmente importante, especialmente nesta fase é negociar.
Se considera e informa o seu filho que ele deve desligar o computador em determinado horário, ou que quando sai com os amigos deverá chegar até uma hora estabelecida e ele não cumpre, o melhor é não reagir impulsivamente na hora. Espere o dia seguinte para ter uma conversa. Estarão ambos menos reativos e a probabilidade de haver mudanças de comportamento a médio prazo é maior. Demonstre firmeza, mas deixe o seu filho falar. Diga-lhe em que é que ele errou, transmita-lhe as consequências do seu ato, e termine dizendo que sabe que a partir dali ele saberá cumprir cada vez melhor e quanto mais ele cumprir, maior liberdade vai adquirindo porque demonstrando responsabilidade, poderá sempre ser beneficiado.

Porque é que o meu filho fora de casa tem um excelente comportamento com outras pessoas?

Muitos pais surpreendem-se pelo facto dos filhos serem amáveis e gentis fora de casa. Como se explica isto?
Para muitos adolescentes o amor do pai e da mãe é sempre acompanhado de exigências e de pontos de vista sufocantes, como se sentissem que o nível de amor dos pais dependesse de contrapartidas.

É frequente em consulta, ter à minha frente um adolescente sensível, colaborante, amável, cheio de ideias e projetos, enquanto os pais o descrevem como desmotivado, arrogante e rebelde. Isto é normal e não deve assustar os pais, nem fazê-los sentir-se incapazes ou menos amados pelos filhos.

Os avós, os tios, pais de amigos, professores ou pessoas próximas, podem ser grandes aliados para um desfecho positivo desta crise. Infelizmente, muitos pais vêem isso como uma competição, ou ameaça (não me obedece mas obedece aos outro), e acabam não usando a seu favor a abertura a terceiros.
É altura de ultrapassar as suas inseguranças e pedir ajuda a terceiros, eles poderão ajudar muito e aliviar a tensão familiar.

Tentar perceber o que está por detrás da rebeldia:

O comportamento do seu filho vem com mensagens subliminares e quase nunca é o que os pais pensam ser. Para o entender, fale menos e escute mais.
Se um pai desde a infância, passa mais tempo a dar ordens, a ralhar, sem dar espaço à conversa tranquila e interessada com o seu filho, está a perder a oportunidade de conhecer melhor, de perceber as mudanças que vão surgindo.
Nenhum comportamento começa do nada, sem motivos. O despertar de determinado comportamento na adolescência vem da própria transição, mas também carrega as inseguranças e pensamentos do jovem.

Demonstrar ao seu filho que o ama tal como ele é:

O adolescente rebelde sofre, e muito. Ele não acorda a planear como infernizar a vida dos pais por prazer, ele sofre internamente com exigências que não consegue cumprir, não consegue às vezes entender.

É natural os pais idealizarem um futuro para os filhos, segundo as suas crenças e experiências, contudo o percurso dos filhos será único, só deles. A forma como aprendem e crescem, é uma experiência deles e é aqui que geralmente se geram conflitos e mal entendidos. Os jovens acusam os pais de serem os responsáveis por não atingirem os seus sonhos e os pais acusam os filhos de não se terem tornado como eles deveriam ser. Claro que estão todos a dar o seu melhor, a dificuldade é que cada parte julga a outra sem se ouvirem realmente.

Na verdade os pais de adolescentes precisam aceitar duas perdas: A perda da sua criança, do seu bebé que cresceu, e a perda da ilusão de um adolescente ideal segundo a sua crença. Um jovem seguro, equilibrado, com objetivos claros de vida.
Aceitar o filho real, da forma que é, com seus defeitos e qualidades, é o primeiro passo para atenuar a rebeldia.

Fácil? Não, mas quando ele for adulto os frutos virão e serão tão mais doces quanto o amor, firmeza, segurança e aceitação oferecer ao seu filho enquanto cresce.

Autor: Sílvia Henriques, Assistente Social e Terapeuta Familiar – UDIJ

 

Encontro ART “Adolescência – Respostas em Comunidade Terapêutica” 8 maio no Porto

Abril 27, 2018 às 9:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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mais informações:

http://art.pt/site/encontro/

 

A adolescência pode ir até aos 24 anos? Os cientistas dizem que sim

Março 24, 2018 às 1:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Maria Gralheiro

texto do http://observador.pt/ de 5 de março de 2018.

Rita Porto

Marcar o início e o fim da adolescência tem sido um desafio, mas há quem aponte para uma fase que vai dos 10 aos 24 anos. Alimentação, desenvolvimento cerebral e mudanças sociais são as causas.

“Não consigo imaginar um período do desenvolvimento mais desafiante. Sempre que dou uma palestra e pergunto ao público se alguém quer voltar a passar pela adolescência, ninguém quer.”

J. Casey, neurocientista da Universidade de Yale (“Self, Drugs and Self-Control”, Revista Nature)

É a época do crescimento em altura, mas também do aparecimento das borbulhas. Das emoções assolapadas e das desilusões desmedidas. Dos BFF (Best Friends Forever, ou Melhores Amigos Para Sempre) e da zanga constante com os pais. É o tempo do só se vive uma vez e da constante procura de respostas. Da vontade de explorar o mundo, tendo como pano de fundo a insegurança e as dúvidas.

A adolescência está a anos luz de ser uma época fácil na vida dos seres humanos, mas todos, feliz ou infelizmente, passam por ela. É inevitável, mas não dura para sempre. Eventualmente chega ao fim. É capaz é de demorar mais tempo do que o desejado. 14 anos parece-lhe muito? Não é o que pensam os investigadores australianos que defendem que a adolescência é um período compreendido entre os 10 e os 24 anos.

Há várias décadas que se tenta balizar esta fase marcada pelo fim da infância e pela entrada na vida adulta, mas não tem sido tarefa fácil. Este foi o tema de um dos artigos publicado numa edição da revista Nature totalmente dedicada à complexidade da adolescência.

“É muito difícil delimitar-se algo que, no fundo, é uma transformação. Pôr limites é tornar redutora a complexidade humana e a complexidade do desenvolvimento”, diz a psicóloga Patrícia Câmara ao Observador. “Pode servir como baliza para a organização do pensamento, mas não para limitá-lo.”

Definir uma idade para quê?

A verdade é que impôr uma idade-limite na adolescência não é uma ciência exata. Para Bernardo Barahona, psiquiatra e investigador na área da neuropsiquiatria na Fundação Champalimaud, a definição dos limites de idade “depende do objetivo da definição”. Pode ter-se em conta a “maturação do aparelho reprodutor” e o fim desta maturação. Ou usar “um critério baseado em fenómenos fisiológicos” e de “maturação do sistema nervoso central”, que tem por base os desenvolvimentos a nível cerebral.

Pode ainda definir-se do ponto de vista social: um “período” em que se permite ao adolescente ter “comportamentos diferentes”, mas em que também “se exige mais” do jovem até se chegar a um ponto de “total autonomia” em que ele “sai de casa para construir a sua própria família”. A adolescência é também um período da vida em que há “uma janela de oportunidade para aparecerem problemas de saúde mental” como a ansiedade e a depressão.

Stanley Hall, psicólogo norte-americano e autor da obra “Adolescence: Its Psychology and Its Relation to Physiology, Anthropology, Sociology, Sex, Crime, Religion, and Education”, definiu, em 1904, que a adolescência começava aos 14 anos e terminava aos 24. Uma época de turbulência por culpa dos “mass media” e das “atividades imorais” como a dança e o alcoolismo. Mais tarde, no início dos anos 70, um detalhado estudo elaborado pelo pediatra James Tanner sobre o desenvolvimento físico das crianças até à idade adulta definiu que a puberdade começava aos 11 anospara as raparigas, nos rapazes cerca de seis meses mais tarde, e terminava para ambos os sexos pelos 15 anos.

A Organização Mundial da Saúde (OMS), por sua vez, considerou que a adolescência começava aos 10 e terminava aos 19 anos. Já no mês passado, foi publicado na revista Lancet Child & Adolescent um estudo de uma equipa de investigadores da Austrália que considera que, tendo em conta o desenvolvimento dos adolescentes nos dias que correm, esta fase deve ser considerada dos 10 anos aos 24 anos.

Alimentação influencia início da puberdade

De acordo com o artigo da Nature, os dados mais recentes dão conta de que o início da puberdade — que define a entrada na adolescência — se regista mais cedo, em particular em países como os Estados Unidos e a China. E aquilo que se definia como a entrada na idade adulta — e o fim da adolescência — é feito já na casa dos 20, devido às recentes descobertas ligadas ao desenvolvimento cerebral e às mudanças a nível social.

O facto de a puberdade começar cada vez mais cedo — em particular nas raparigas — está, em alguns países, ligado ao excesso de peso e à obesidade nas crianças. Quando Tanner fez o seu estudo numa casa de acolhimento de crianças em Londres, entre 1949 e 1971, a alimentação era escassa e à base de batata e pouca carne. O próprio investigador considerou que uma melhoria na nutrição podia levar a um aparecimento mais precoce da menstruação, por exemplo.

Sara Monteiro, especialista em psicologia clínica e da saúde e em psicologia da educação, sublinha ao Observador o “papel importante da nutrição” e do “acesso à alimentação” na “forma como o corpo se desenvolve” na fase inicial da adolescência.

O que acontece é que tem havido um decréscimo na idade em que a puberdade se inicia. Há meninas com 8, 9 e 10 anos que estão de forma notória na puberdade, com o desenvolvimento mamário e a menstruação em alguns casos”, afirma a investigadora do CINTESIS – Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde.

O pediatra Frank Biro, especialista em medicina da adolescência no Cincinnati Children’s Hospital (EUA), faz a mesma análise, mas deixa uma pergunta: “Será que elas já são adolescentes?”. Vários estudos demonstram que algumas jovens que entraram mais cedo na puberdade apresentam comportamentos de risco típicos dos adolescentes. Revelaram também, através de exames feitos aos cérebros dos jovens, que o desenvolvimento das amígdalas cerebelosas, zona do cérebro ligada ao processamento das emoções, é influenciado tanto pela idade como pelo início da puberdade, lê-se no artigo da Nature.

A psicóloga Patrícia Câmara propõe um olhar mais social para o início mais precoce da adolescência. “Parece-me que existe maior quantidade de informação e acesso a conteúdos que habitualmente não estavam acessíveis tão cedo — pelo menos não para a maioria dos miúdos — o que acelera, talvez, o início desta etapa de transição entre a infância e a vida adulta. Por outro lado, isso permite que a transição seja menos abrupta, que a entrada na adolescência seja mais progressiva e menos assustadora.”

Fim da adolescência: uma construção social?

Determinar o fim da adolescência, que é marcado pela entrada na idade adulta, é mais complexo, já que não há indicadores físicos como há para o início da adolescência. “Não temos uma definição física equivalente para o fim da adolescência. Não há uma definição clara, porque combina fatores de desenvolvimento físico e social”, refere John Coleman, psicólogo na Universidade de Oxford (Reino Unido), à Nature.

Sarah-Jayne Blakemore, neurocientista da University College London, vai mais longe, ao considerar que o fim da adolescência não passa de uma construção social, variável de cultura para cultura.

A verdade é que, atualmente, a entrada na vida adulta faz-se cada vez mais tarde devido a “alterações demográficas”: “Os marcadores sociais típicos da entrada na vida adulta não existem atualmente”, defende a psicóloga Sara Monteiro, sublinhando que o timing do casamento e da parentalidade se alterou, houve um alargamento da escolaridade obrigatória (além de os jovens ficarem a estudar até mais tarde), e há uma maior dificuldade no acesso ao mercado de trabalho e no acesso à habitação própria.

“Há algumas décadas, as pessoas tinham logo emprego quando terminavam os cursos — e as que não estudavam, também tinham os seus empregos. A partir daí, passavam para desafios como casamento e filhos. A vida de quase todos nós acontecia desta forma e hoje em dia não acontece. Existe uma enorme variabilidade demográfica”, afirma a docente da Universidade de Aveiro.

Atualmente, continua a investigadora do CINTESIS, as pessoas “com 30 e 40 anos não têm empregos estáveis”, não casaram ou não têm relacionamentos amorosos duradouros e “muito menos” têm filhos. “Mesmo as mulheres que quisessem ser mães aos 22 anos, não podem fazê-lo nas mesmas condições que as mães e as avós fizeram. Não têm estabilidade profissional, autonomia habitacional. Até podem ter estabilidade afetiva, mas têm uma maior dificuldade na estabilidade económica.”

Patrícia Câmara destaca ainda o facto de as pessoas, hoje em dia, viverem mais anos, o que permite aos adolescentes “consolidarem” questões identitárias, financeiras e profissionais. “O aumento da longevidade permite o prolongamento das etapas de vida. Não sei se é a barreira final da adolescência que se estendeu, se é a possibilidade de se adquirir mais ferramentas de vida ‘com as costas aquecidas’ que se expandiu.”

Ainda assim, acrescenta a especialista, pode servir para “perpetuar uma situação de autocentração e de dependência [dos pais]”, isto é, de o adolescente perpetuar de forma indefinida o salto para a vida adulta. “Aí estaremos a falar de uma adolescência ou início de vida adulta não com ‘as costas aquecidas’, mas sim ‘com as costas quentes’, o que é bem diferente e tem mais a ver com a dinâmica que se estabelece do que com as alterações do ‘novo mundo’”.

O apuramento da “máquina”

O avanço da ciência permitiu perceber que o cérebro continua a desenvolver-se até mais tarde do que se imaginava. Bernardo Barahona explica que a maturação do cérebro começa a partir dos 10/11 anos, altura em que se dá início a um processo através do qual “as ligações entre os neurónios vão sendo purificadas”, isto é, “são reforçadas as relevantes e aquelas associadas à aprendizagem, e são eliminadas as redundantes”.

A máquina vai ficando mais afinada de maneira a produzir sinais de informação mais limpos de ruído. Isto decorre durante a adolescência e fica concluído na idade adulta”, diz o psiquiatra.

“O desenvolvimento do cérebro vai dos 12/13 anos até aos 25/26 anos nas mulheres e 28/30 anos nos homens, mas não podemos considerar a adolescência esse período todo”, defende Teresa Summavielle, neurocientista e investigadora no Instituto de Investigação e Inovação em Saúde da Universidade do Porto.

Para a neurocientista, a adolescência é a fase do desenvolvimento “em que há um desequilíbrio entre a maturação da parte racional [do cérebro] e a parte emocional”. O cortex pré-frontal, responsável pelo controlo dos impulsos, pelo controlo das emoções, pela capacidade de planear e pelo adiamento da gratificação, é a última fase do cérebro a ganhar maturidade.

“O lado emocional amadurece mais rapidamente que o racional e isso provoca, num período entre os 16 e os 18 anos, um desequilíbrio em que o comportamento é mais emocional do que racional. Por volta dos 19/20 anos, deve estar terminado e entramos no jovem adulto. Não quer dizer que o cérebro não continue a maturar até mais tarde, mas já não há este desequilíbrio”, adianta Teresa Summavielle.

“O adolescente acaba por ser adolescente biologicamente até mais tarde do que os 17, 18 anos”, acrescenta a psicóloga Sara Monteiro, professora auxiliar convidada da Universidade de Aveiro.

Sim, eles correm riscos. E ainda bem

Bernardo Barahona, docente na Nova Medical School, explica ainda que é o facto de a parte racional do cérebro amadurecer mais lentamente — atingindo um ponto de maturação já depois do 20 anos — do que a que está ligada às emoções que leva os adolescentes a ter comportamentos de maior risco.

Os circuitos neurais e a ligação às emoções amadurecem primeiro. Há um súbito desenvolvimento das emoções e da preocupação com as próprias emoções e com as dos outros. A zanga, o amor, a raiva são mais intensos, a autoestima é muito mais frágil, o impulso de prazer é muito mais difícil de controlar. O adolescente quer a coisa agora, não há travão.”

“Acaba por provocar uma dificuldade na avaliação do risco e como fazem essa avaliação menos cuidada, têm mais problemas”, acrescenta Teresa Summavielle.

Um artigo da Nature, intitulado “Sexo, Drogas e Auto-Controlo”, refere precisamente que os neurocientistas compararam o cérebro de um adolescente ao de um carro com um excelente acelerador, mas com travões defeituosos.

É um facto que os adolescentes correm mais riscos que os adultos. A mortalidade nos jovens entre os 15 e os 19 anos é 35% superior àqueles que têm entre 10 e 14 anos. A maior causa de morte nos adolescentes são os acidentes de viação, mas a automutilação e outras formas de violência também se destacam no ranking.

A influência dos pares no comportamento de risco é igualmente destacada neste artigo. Um estudo de 2009 pôs adolescentes a jogar um jogo, em que lhes era dito que tinham de conduzir um carro que tinha de passar por 20 semáforos em apenas seis minutos. Quando jogavam sozinhos, corriam os mesmo riscos que um adulto — passar um sinal vermelho, por exemplo, arriscando-se a chocar contra um outro carro. Contudo, quando eram informados de que os amigos estavam a assistir, corriam muitos mais riscos. E quando lhes era dito que estavam a ser observados pela mãe tinham o comportamento inverso: arriscavam menos.

Estes dois factores de influência no comportamento dos adolescentes ativaram também áreas distintas no cérebro: quando lhes era dito que estavam os amigos a assistir, a área do cérebro ligada à recompensa era ativada, enquanto que a presença da mãe ativava a área do cortex pré-frontal (ligada ao controlo).

Mas nem todos se comportam desta maneira, sublinha Teresa Summavielle. “Os adolescentes correm mais riscos quando sabem que os amigos estão a ver, e alguns adolescentes, sobretudos os mais provocativos, escolhem fazer aquilo que vai contra o que os pais desejam, mas não todos.”

Estudar o funcionamento do cérebro de um adolescente, e de que forma isso influencia o seu comportamento de risco, pode ajudar na criação de normas e leis relacionadas com a condução nos jovens e as punições aplicadas àqueles que praticam crimes violentos — isso já está a acontecer nos Estados Unidos, com os investigadores a partilharem informações com o sistema de Justiça.

Para Teresa Summavielle, uma vez que é “claro que o período de reformatação cerebral se prolonga até bastante mais tarde que os 18 anos”, isto deveria ser tido em conta “nas políticas de apoio à adolescência”. “Continuamos a ter os adolescentes que estão ao cuidado do Estado a serem ‘expulsos’ do sistema quando completam 18 anos, o que é claramente demasiado cedo.

A Nova Zelândia, por exemplo, fez uma revisão na política de proteção das crianças no ano passado. Relatórios davam conta de que os adolescentes não estavam a lidar bem com o facto de deixarem de se tornar independentes a partir dos 18 anos, por isso o governo neo-zelandês decidiu prolongar o apoio estatal entre os 18 e os 25 anos.

Este desenvolvimento mais tardio do cortex pré-frontal também influencia a forma como “valorizam a recompensa” e o que estão “dispostos a fazer” para obtê-la, explica a neurocientista. “Aquilo que para um adulto não é atrativo, para eles é muito atrativo. O risco que estão dispostos a correr para ter determinada recompensa é muito mais elevado do que um adulto.” A forma como lidam com a decepção também é muito própria desta idade. “Quando têm expectativa de determinada recompensa, a decepção é muito mais intensa do que nos adultos. Têm reações mais violentas, menos pensadas. É uma coisa que se vê muito na sala de aula.”

A falta de noção dos riscos leva também os adolescentes a terem comportamentos que podem pôr em causa a sua saúde na vida adulta, como o consumo de álcool, tabaco, drogas e até um estilo de vida mais sedentário. Mas nem todos os riscos são negativos: os adolescentes consideram que defender um amigo ou convidar alguém para sair é um risco, mas positivo — um risco social. Aliás, o artigo refere que aquilo que, a nível cerebral, estimula o jovem a correr riscos mais negativos para a sua saúde também os impulsiona para os riscos positivos.

Ainda assim, os especialistas sublinham a importância destes comportamentos para o desenvolvimento dos adolescentes. “Eu não diria que queremos que as pessoas deixem de correr riscos. Muitos deles fazem com que eles se tornem adultos em situações seguras”, considera B. J. Casey, neurocientista da Universidade de Yale.  Teresa Summavielle faz a mesma ressalva. “Os adolescentes que não correm riscos provavelmente não vão ser adultos saudáveis. O importante está mesmo nas ferramentas de que estão munidos para poder fazer uma correcta avaliação do risco. Esse é um dos papéis dos adultos, dar-lhes essas ferramentas.”

“Terreno fértil” para conceitos como igualdade de género

A adolescência, em particular entre os 10 e os 14 anos, é também a altura ideal para começar a introduzir conceitos e normas ligados à igualdade de género, graças às várias mudanças pelas quais o cérebro passa durante esta fase da vida. Um outro artigo publicado pela Natureexplica que entre os 9 e os 12 anos, os jovens começam a ter um pensamento mais abstrato, algo que não acontecia quando eram crianças — o pensamento era mais concreto — além de se dar início ao desenvolvimento do cortex pré-frontal.

“É nesta idade que começa a reformatação na forma como os neurónios comunicam uns com os outros”, explica Teresa Summavielle, tal como já tinha dito Bernardo Barahona: fazem-se muitas ligações entre os neurónios, sendo que algumas são reforçadas e outras eliminadas.

Durante a adolescência, assiste-se a um fortalecimento do raciocínio e a um desenvolvimento da criatividade. Os jovens começam a pensar sozinhos e a ter opiniões e crenças próprias. É esse pensamento crítico que se forma nesta fase da vida que permite ao jovem pôr em causa normas de género desiguais, refere o artigo da Nature, que destaca a importância de os adolescentes participarem em discussões sobre a temática da igualdade de género.

Para Teresa Summavielle, os 12 anos são “seguramente” uma boa idade para “‘semear’ valores que permitam um desenvolvimento mais equilibrado, como os que estão associados à interiorização da igualdade entre géneros”. “Aos 10 anos depende muito de criança para criança”, afirma a investigadora do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde da Universidade do Porto.

Este tipo de conceitos implicam um arcabouço intelectual que não existe numa criança de sete anos, por exemplo. Eles têm dificuldade em entender coisas abstratas, precisam de referências claras e um bocadinho estereotipadas”, afirma o psiquiatra Bernardo Barahona. “Só na entrada da adolescência é que há maturidade para entender. Além de que é uma fase que se caracteriza por uma enorme curiosidade, pelo pôr em causa as coisas. É um terreno fértil para mudar mentalidades.”

Patrícia Câmara, contudo, não acredita que “haja uma idade propícia para se falar sobre estes temas”. “Efectivamente a plasticidade neuronal da adolescência e as novas competências psiconeuroimunológicas da pré-puberdade e puberdade facilitam a desconstrução de conceitos e viabilizam a discussão reflexiva dos papéis de género. Faz sentido conversar de um ponto de vista crítico que permite pôr em causa estas temáticas, mas não poria a tónica nesta idade. A possibilidade está lá desde sempre, há um processamento inconsciente das coisas”, afirma a psicóloga.

A promoção da igualdade de género, contudo, deve ser promovida desde a infância. O que deve ocorrer na adolescência é uma intensificação destas ideias. A verdade é que esta diferenciação entre o género masculino e feminino começa desde cedo e não tem um fundamento apenas biológico. Prova disso são as causas de mortalidade infantil. Se, em 2016, as causas mais comuns para as crianças entre os cinco e os nove anos eram as mesmas — infeções respiratórias e doenças diarreicas –, isso começa a mudar a partir do início da adolescência. As causas de morte nas raparigas mantêm-se entre os 10 e os 14 anos, mas nos rapazes elas passam a ser acidentes de viação e afogamento. Ainda na adolescência, entre os 15 e os 19 anos, as patologias associadas à maternidade e o auto-flagelo passam as ser as maiores causas de morte nas raparigas e nos rapazes são, mais uma vez, os acidentes na estrada e a violência interpessoal.

A psicóloga Sara Monteiro também sublinha que “todos os estudos” indicam que a prevenção de comportamentos de risco em relação, por exemplo, ao álcool e à violência no namoro “deve ser feito muito precocemente”, mas antes da adolescência é “difícil” porque “não têm esses conceitos”. Ainda assim,  a professora da Universidade de Aveiro acredita que isto pode ser feito “de forma indireta”. “Ainda hoje há muito a separação de brincadeira: são os meninos que brincam com bolas e as meninas com bonecas”.

Este trabalho na forma como se vê o género pode ser feito através da “formação parental” e ao nível das escolas e da comunicação social. “Estas questões de género são promovidas de forma muito subtil e, por vezes, são difíceis de alterar porque estão enraizadas nos pais, nos professores e na forma como atuam”, refere Sara Monteiro. “Para promover essa mudança, a intervenção terá de ser feita em vários níveis e em simultâneo. Queremos atuar nestes pré-adolescentes que ainda estão permeáveis à aprendizagem, que ainda não têm ideias pré-formadas.”

A formação dos pais é particularmente importante nesta questão, uma vez que transmitem estas ideias de género, seja através de uma comunicação explícita, seja através de comportamentos que os próprios pais adotam em casa, lê-se no artigo da Nature. “Se uma criança crescer num ambiente em que não há co-responsabilização das tarefas domésticas, na responsabilidade dos filhos e assistir a isto todos os dias, continua a haver uma perpetuação neste papel de género”, defende a psicóloga.

Os pares, por sua vez, também desempenham um papel essencial, já que é através destes relacionamentos que os adolescentes moldam a forma como vêem o mundo e reconhecem, não só os seus papéis enquanto rapaz e rapariga, mas também as expectativas da sociedade em relação a eles. A relação entre pares tem um lado negativo e positivo: pode exercer alguma pressão social, mas é também fonte de apoio social e emocional.

No que toca aos média e às escolas, ambos por norma dão mais destaque aos homens e tendem a caracterizá-los como mais prestigiados do que as mulheres, que costumam ficar relegadas para papéis secundários, dependentes dos homens e ligadas a tarefas domésticas. “Há uma sexualização do corpo feminino constante e de forma muito notória, o que contribui para que as crianças e as meninas cresçam muito julgadas pelas questões de aparência física, o que é uma questão fundamental quando se fala na questão de género.”

“A igualdade de género (respeito pela diferença entre aquilo que ainda é atribuído aos géneros), no fundo, a possibilidade de não se coarctar uma parte da experiência da vida apenas pela atribuição biológica do sexo, está na verdadeira paridade, na igualdade de possibilidades e não na anulação das diferenças individuais. O terreno biológico não deve ser impeditivo do acesso a qualquer tipo de desempenho”, conclui Patrícia Câmara.

ilustração de Maria Gralheiro.

 

 

 

O maior dos perigos da adolescência são os pais – Eduardo Sá

Março 21, 2018 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto de Eduardo Sá publicado no site  https://www.eduardosa.com

Perante tantos e tão complexos desafios os pais são absolutamente imprescindíveis

É verdade que o início da adolescência se dá com o início das transformações psicológicas de adaptação à puberdade. E que, em função dela, um corpo que cresce “aos solavancos” e as transformações neutro-endócrinas que a acompanham “desengonçam” os adolescentes, “desarticulam-nos” e introduzem velocidades de crescimento diversas, entre si, que comprometem, em muitas circunstâncias, a sua relação com o grupo de pares e com a família.
É verdade que, logo a seguir, no salto entre os 12 e os 14 anos de idade, a emergência da sexualidade traz à cabeça dos adolescentes tantos sobressaltos e tanto mal-estar que se fecham muito mais sobre si, se tornam muito tensos em relação ao toque, parecem muito pouco simpáticos e ainda menos empáticos: quase como se fossem  “bichos do mato” ou vivessem n’ “a idade do armário”. Alguns, passam a falar em murmúrios e em “grunhidos”. O seu humor sofre oscilações diárias dignas duma “montanha russa”. Talvez por tudo isso, os grupos de pares dão-lhes o suporte que a família, em muitos momentos, regateia. A ligação entre identidade de género, identidade propriamente dita e identidade sexual começa a desenhar-se. E a sua vulnerabilidade, a este nível (e não só), aumenta, de forma vertiginosa, com toda a informação que lhes chegam via online.

É verdade, ainda, que, tal como os seus pais, os adolescentes portugueses gostam de ir para a escola, sobretudo, por causa do recreio. Colaboram, cada vez mais, em contexto escolar, uns com os outros. São quem mais valoriza o trabalho de equipa. São os alunos mais ansiosos entre os alunos dos países da OCDE, face à avaliação. E são os que mais abandonam a escola sem concluir o ensino secundário. E vivem-na como se ela lhes permitisse, sobretudo, downloads. Mais do que, propriamente, os levasse a pensar e a criar.

É verdade que, apesar de tudo isso, os adolescentes portugueses convivem entre si, eles socializam, hoje, sobretudo, online. A um ritmo diário quase absurdo – durante a manhã, no decurso das aulas, às refeições (!) e ao longo da noite – e diante da passividade gritante das famílias. E que circulam por sites, jogos online e redes sociais que – por mais que merecessem o controle, sensato e transparente, dos seus pais – aumentam, de forma exponencial, o contraditório da sua sabedoria, a forma como são manipulados em função dos dados que deixam, como rasto, nas redes e os perigos a que estão expostos.

É verdade que os adolescentes trocam 30 000 sms por ano (não contando com as caixas de conversação online). Gastam 8 dias por ano falando ao telefone, não contando que metade deles tem televisão no quarto.  Que 1/4 dos adolescentes passa mais de 6 horas por dia ligado à internet. Que focam, arrastam ou clicam no telemóvel quase 3 000 vezes por dia. E, mesmo se estiver desligado, têm, na sua presença, uma “atenção parcial” e, por isso mesmo, ficam menos inteligentes. E, se o seu comportamento for idêntico ao dos pais, fazem mais de 3 publicações por dia nas redes sociais; em 90% delas, com conteúdos de natureza pessoal. Sem se darem conta que, com 150 likes, um computador será capaz de os “conhecer” melhor que um membro da sua família.

É verdade, ainda, que a escola está, perversamente, virada, quase em exclusivo para promover a entrada no ensino superior. E que, entre mesadas, propinas, livros, dinheiro de bolso e todas as outras despesas relativas à vida de um filho, qualquer adolescente universitário tem um vencimento mensal muito claramente superior ao ordenado mínimo nacional. E que, talvez por causa de tudo isso, há em Portugal 176 mil jovens com menos de 30 anos que não trabalham, não estudam nem estão em formação.

É verdade, finalmente, que, se se tomar a autonomia de um adolescente em relação à sua família – em termos físicos, psíquicos e financeiros – a maioria dos adolescentes se torna autónoma pelos 30 anos. O que, se, por um lado, releva os aspectos acolhedores dos pais como talvez ele não existisse, de forma transversal, há uma geração atrás, por outro, os transforma numa espécie de “banco popular” e de “prestadores de serviços” que quase eterniza a adolescência.

É verdade, concluindo, que, diante de tantos e tão diversificados desafios, o maior dos perigos dos adolescentes são os pais. Quando se transformam nos melhores amigos dos filhos e se inabilitam para ser pais. Quando convivem e condescendem com comportamentos com que não concordam. Quando não repreendem nem reprimem as atitudes de altivez e de arrogância e as desconsiderações com que eles escondem as suas fragilidades. Quando não definem regras de utilização inequívocas para os telemóveis, para as redes sociais e para o jogo. Quando pactuam com a sua relação com o álcool como se fosse uma atitude de iniciação para a vida adulta sem consequências (quando mais de metade dos adolescentes que o experimentam se tornam consumidores frequentes ou de grandes quantidades e revelam, em função disso, diminuições claras dos seus córtexes frontal e temporal). Quando, à boleia do discurso populista entre drogas pesadas e drogas leves, omite opiniões firmes e regras claras sobre o consumo destas últimas, por mais que aplauda os comportamentos de saúde que os adolescentes têm, cada vez mais, com o tabaco. Quando deixam de ser “a referência” de Lei, de boa educação e de tenacidade e bom senso de que os adolescentes precisam. Quando os protegem demais e os autonomizam de menos. E, por último, quando imaginam que, num mundo em mudança, o seu papel em relação aos filhos será secundário. Quando é, mais do que nunca, imprescindível, insubstituível e indispensável. Por muito, muito tempo!

 

Até quando dura a adolescência? Aos 24, dizem cientistas

Fevereiro 18, 2018 às 1:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.dn.pt/ de 19 de janeiro de 2018.

Apesar de a puberdade acontecer cada vez mais cedo, o início da vida adulta está a ser cada vez mais adiado

“Um miúdo de 25 anos”. “Um jovem de 35”. Expressões como estas ouvem-se frequentemente e dão conta da ideia generalizada de que o início da vida adulta acontece cada vez mais tarde. Mas agora um grupo de cientistas defende que a idade que define o início e o fim da adolescência deve ser alterada de forma a abranger as pessoas entre os 10 e os 24 anos.

Num texto publicado na revista The Lancet, estes investigadores consideram que definir um adolescente como uma pessoa que tem uma idade situada entre os 10 e os 24 (e não entre os 10 e os 18, como se considera atualmente) corresponde mais ao crescimento dos indivíduos e ao entendimento generalizado acerca desta fase da vida e iria permitir uma aplicação da lei de forma mais adequada.

A puberdade começa cada vez mais cedo, graças às melhorias registadas ao nível da alimentação, saúde e condições de vida, mas os indivíduos iniciam uma vida adulta cada vez mais tarde. Analistas alertam para o perigo de infantilizar os jovens, mas o assumir de responsabilidades profissionais ou familiares (casamento e paternidade) acontece numa fase mais adiantada da vida.

Segundo dados da Pordata, as mulheres em Portugal casam-se agora (2016), em média, aos 31 anos, e os homens aos 32,8. Em 1961, eles casavam-se aos 26,9 e elas aos 24,8. Também a idade para ter o primeiro filho foi adiada: passou dos 27,1 em 1990, para os 31,9 em 2016.

Além destes factores socias, os cientistas apontam razões biológicas para o adiamento oficail do início da vida adulta: o corpo, mais precisamente o cérebro, continua a desenvolver-se para lá dos 20 anos, a trabalhjar de forma mais rápida e eficiente.

 

 

A geração Y

Fevereiro 16, 2018 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do http://p3.publico.pt/ de 30 de janeiro de 2018.

Iludem-nos dizendo que os “millennials” não têm os sonhos que os seus pais tiveram quando, na realidade, não têm como comportar esses mesmos sonhos

Texto de Mafalda G. Moutinho

Chamam-lhes millennials, geração Y, também já os apelidaram de geração à rasca, ainda que pudessem ser a geração dos desenrascados: são a geração dos runners, nascidos entre 1980 e 2000, esses impulsionadores da Economia da Partilha, por obrigação, diga-se.

Eles são esta geração, cujas borbulhas, segundo recentes estudos, permanecem até aos 24 anos de idade, arrastando a adolescência para desculpar a edificação de uma vida adulta que é cada vez mais tardia. São esta geração, muitas vezes sem carro nem casa própria, que dizem que preferem ver o seu dinheiro gasto em experiências e viagens, numa altura em que o dia de amanhã é tão incerto como o hoje.

Iludem-nos dizendo que os millennials não têm os sonhos que os seus pais tiveram quando, na realidade, não têm como comportar esses mesmos sonhos. São adultos depois dos 30, numa época em que ainda são jovens, mas deixam de ser tão jovens como foram os seus pais, e são biologicamente maduros, pensando na idade ideal reprodutiva. No fundo deixam de ser tão jovens assim quando tentam iniciar as suas vidas adultas.

O custo de vida tornou-se insuportável para os mais jovens, bem como a oferta de emprego. No entanto, outros estudos recentes referem que não teremos mão-de-obra suficiente, apropriadamente qualificada para todas as necessidades do país. Bom aqui o problema não vem de hoje. Os mais antigos e experientes provavelmente recordam as escolas industriais, repletas de cursos profissionais com créditos seguramente ao nível universitário dos nossos dias, que formavam profissionais e pessoas para aquela que é a verdadeira realidade laboral. Hoje educamos estes nossos adolescentes até aos 24 anos para frequentarem uma universidade, mesmo que o seu curso tenha uma empregabilidade reduzida.

O contexto universitário também merece reflexão. Por estes dias perguntavam-me como estava a educação em Portugal — por momentos veio-me à cabeça pensar nos próximos anos e se, efectivamente, estamos a ensinar para aquilo que serão os empregos ou se preferimos o trabalho do futuro. Claramente que a resposta é não, até porque o nosso mundo parece querer substituir-nos a todos por tecnologia quando esta deve servir para nos servirmos dela, ou seja, facilitar e melhorar as capacidades, bem como a nossa qualidade de vida. Não queremos trabalhar menos ou ver os empregos desaparecer, queremos trabalhar melhor. Não queremos algoritmos para tudo e mais alguma coisa como se as nossas vidas se medissem por padrões e amostras eliminando a unicidade e a imprevisibilidade que faz da vida uma passagem desafiante, bonita e mentalmente duradoura.

Os runners são jovens que tiveram e têm que aprender a correr contra o tempo, porque estarão sempre a viver num tempo que já não é o seu, já passou com alguns anos de distância. Os runners são jovens desenrascados e é nessa medida que muitos exploram o empreendedorismo porque as oportunidades do mundo real já não são as do passado. Já no mundo dos sonhos e das ideias as hipóteses são infindáveis e em muitos casos dão certo. Os runners gostam de percorrer maratonas, porque o tempo em que correm não é o seu. Qualquer Iron Man é um desafio fácil para os desafios que cada um dos filhos dos dias de hoje tem de enfrentar. Voltemos a ser adolescentes na altura certa antes que substituam as nossas corridas por corridas de robots.

 

 

 

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