Brincar ao ar livre: “Há uma excessiva protecção das crianças que, no fundo, as limita”

Junho 12, 2019 às 12:00 pm | Publicado em Campanhas em Defesa dos Direitos da Criabnça, Relatório | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 28 de maio de 2019.

De acordo com o relatório Playtime Matters, publicado pela organização Semble, 61% dos professores à escala mundial considera que brincar ao ar livre está relacionado com o bem-estar das crianças.

Teresa David

Subir e descer árvores, jogar à apanhada ou construir abrigos – há inúmeras brincadeiras que se podem fazer ao livre, mas poucas crianças o fazem. De acordo com o relatório Playtime Matterspublicado pela Semble, a uma escala global, 40% dos professores do 1.º ciclo do ensino básico afirmam que as crianças nas suas turmas têm menos de 30 minutos de recreio ao ar livre num dia normal de escola e 61% dos inquiridos considera que brincar ao ar livre tem uma relação directa com o bem-estar das crianças.

“O défice de atenção e a hiperactividade são doenças que estão a ser muito faladas e debatidas e há um número elevado de crianças que estão na escola e que estão sob o efeito de medicamentos”, diz Mónica Franco, uma das fundadoras do Movimento Bloom, uma associação ambiental sem fins lucrativos, que tem como objectivo ligar as crianças e as famílias à natureza. Segundo a mesma, “o ar livre tem essa capacidade de trabalhar com as crianças sem que elas estejam sob o efeito de nada”.

Há um ano, o Movimento Bloom criou a Escola da Floresta Bloom – um projecto que disponibiliza actividades para escolas e famílias e que pretende (re)ligar as crianças à natureza. De acordo com Mónica Franco, os professores que levam os seus alunos à Escola da Floresta, em Sintra, “ficam estupefactos com as diferenças que tem o facto de lhes ser dada a oportunidade de estar determinado tempo ao ar livre”, diz. “São crianças que depois têm um comportamento melhor e que melhora na sala de aula”, garante.

Estar na natureza e brincar de forma não estruturada, isto é, quando se permite que a criança descubra os objectos e o mundo à sua volta de forma livre, “é uma oportunidade de testarem os seus limites, de resolverem os seus problemas, os seus conflitos, de ultrapassarem as suas limitações e, portanto, contribui para aquilo que são chamadas as soft skills”, explica Mónica Franco. Esta forma de brincar pode também ajudar as crianças “na aprendizagem e a consolidar conhecimentos” já que tem benefícios para a “concentração, fomenta a sua criatividade, imaginação, para além de ser mais divertido”, conclui a representante da associação.

De acordo com o mesmo relatório, 80% dos professores questionados consideram que as crianças da sua escola deviam ter mais tempo para brincar ao ar livre. Apesar de as escolas permitirem os intervalos, “nem em todas as escolas esse intervalo é livre”, afirma a responsável. “As crianças, muitas vezes, não podem usufruir do recreio porque há falta de pessoal e não podem ir até determinadas zonas da escola, não podem subir às arvores. Há uma excessiva protecção das crianças que, no fundo, as limita” esclarece.

Não só os professores estão a impor mais restrições às crianças, mas também os pais. “Hoje em dia há um pavor: não se vê crianças a brincar na rua e mais, não se vê crianças a ser autónomas e a ir de bicicleta ou ir a pé para a escola ou apanhar um autocarro”, constata Mónica Franco que associa este factor à consequente perda de capacidades motoras.

Na opinião de Mónica Franco, os smartphones e outros gadgets electrónicos “limitam muito a criatividade” e retiram tempo à brincadeira, mas é também a intensidade com a que as crianças vivem nos dias de hoje que faz com que sobre pouco tempo para a brincadeira – “Os miúdos saem da escola, têm explicações, têm ATL, têm actividades depois da escola e acabam por chegar a casa com a vida tão estruturada que não há tempo para brincar”, disse.

A Associação Movimento Bloom, com o apoio da Associação Nacional de Professores, organiza em Portugal a campanha internacional “Dia de Aulas ao Ar Livre”, que considera que o tempo dedicado no exterior dentro do horário escolar é das iniciativas mais importantes para combater a crescente crise de problemas relacionados com a saúde mental das crianças e dos jovens. A campanha “tem como objectivo que as crianças tenham pelo menos 60 minutos diários de brincadeira não estruturada ao ar livre. Há muitas que não têm”, remata.

 

 

“A nossa sociedade está amordaçada com pais que vivem o tempo a trabalhar”

Maio 28, 2019 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança, O IAC na comunicação social | Deixe um comentário
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© Dreamstime

Notícia do i de 2 de maio de 2019.

Marta F. Reis

Carlos Neto, professor da Faculdade de Motricidade Humana, está preocupado com os hábitos de brincadeira das crianças portuguesas. Diz que são precisas medidas públicas que reforcem a autonomia dos mais novos e considera que “foi um crime ter-se posto um campo de futebol em cada escola do 1.º ciclo”.

Sem muita surpresa, mas com preocupação. Foi assim que Carlos Neto, professor da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa, viu os resultados do inquérito feito a 1466 famílias sobre o padrão de brincadeira das crianças portuguesas. O académico tem defendido a necessidade de aumentar a literacia física e motora dos mais novos. Perante os dados do estudo, insiste que esta é uma reflexão que está, em grande medida, por fazer no país. “É urgente dar mais mobilidade às crianças, viverem mais a cidade, terem mais autonomia e independência. Não o fazendo, estamos a criar condições para que haja mais obesidade, mais depressão, mais défice de atenção e hiperatividade. É uma questão crucial para a saúde mental e física da população no futuro”.

Neto foi um dos participantes na conferência onde, na última terça-feira, foram apresentados os resultados do relatório Portugal a brincar, que revela que os pais sentem que as crianças brincam pouco, a maioria do tempo lúdico está restrito ao espaço das escolas, é pouco o tempo para brincadeiras em casa e os jogos e atividades na rua passaram a ser algo residual. O estudo, uma iniciativa da Escola Superior de Educação de Coimbra e do Instituto de Apoio à Criança, passará a ser repetido a cada dois anos.

Para o investigador, um dos primeiros dados que chamam a atenção no relatório prende-se com a forma como os próprios pais valorizam os aspetos mais lúdicos da brincadeira e até de desenvolvimento afetivo e emocional, mas dão pouco relevo à componente física da brincadeira.

No estudo, o facto de a brincadeira “promover o desenvolvimento afetivo e emocional da criança” foi o benefício mais vezes elencado, tendo sido expresso por 31,3% dos inquiridos. Outros 19,6% salientaram que brincar “estimula a imaginação e criatividade da criança”, 16% que a brincadeira “desenvolve as competências cognitivas” e 15,8% que é um caminho para adquirir novos conhecimentos. Só 9,4% consideram que a criança “precisar de se divertir” é uma das mais–valias da brincadeira, sendo ainda menos (6%) os que destacam o papel no desenvolvimento físico e motor, na socialização (1,8%) ou no desenvolvimento de habilidades úteis na criança para a sua futura vida profissional (0,8%).

“Os pais dão sobretudo importância aos aspetos cognitivos e deixam para último os que estão relacionados com a atividade física”, diz Carlos Neto, que considera que este é um reflexo de uma cultura de “medo dos riscos, sobreproteção das crianças e desvalorização da literacia física” que importa contrariar.

O investigador sublinha que esta não é já uma preocupação apenas dos académicos. Na semana passada, a Organização Mundial da Saúde (OMS) emitiu novas orientações sobre atividade física e sono para crianças até aos cinco anos de idade. O painel de peritos respondeu ao apelo da comissão para a erradicação da obesidade infantil da OMS, que pedia orientações mais claras num momento em que estatísticas internacionais sugerem que 23% dos adultos e 80% dos adolescentes não são suficientemente ativos.

As orientações, que se dividem por várias faixas etárias (ver caixa), incluem, para as crianças entre os três e quatro anos, pelo menos três horas diárias de atividade física de qualquer intensidade, dos quais pelo menos 60 minutos de atividade moderada a vigorosa espalhados ao longo dia, a par de 10 a 13 horas de sono. Não devem estar “presas” (em carrinhos, por exemplo) mais de uma hora por dia ou permanecer sentadas por longos períodos. O tempo de ecrã “sedentário” deve ser no máximo de uma hora por dia. “Quanto menos, melhor”, lê-se no comunicado da OMS. “O que temos mesmo de fazer é trazer de volta o brincar às crianças”, disse Juana Willumsen. “É fazer a mudança do tempo de sedentarismo para o tempo de brincadeira e, ao mesmo tempo, proteger o sono”.

Na hora de apontar os entraves, Carlos Neto acredita que o inquérito reflete o principal: o tempo disponível foi o principal fator apontado pelos pais para a limitação das atividades lúdicas das crianças, que gostariam que fossem mais presentes no quotidiano. Durante a semana, o mais comum é conseguirem brincar com os filhos, no máximo, uma hora por dia. “A sociedade portuguesa está completamente amordaçada em pais que vivem o tempo a trabalhar e as crianças são vítimas disso, acabando por ficar sujeitas a atividades completamente padronizadas”.

Uma escola centrada no cérebro e não no corpo O inquérito conclui que é na escola que a maioria das crianças (53,8%) mais brincam, por ser também o local onde passam mais tempo. Para Carlos Neto, reconhecer esta tendência devia obrigar a repensar a organização do tempo escolar. “Hoje, o centro da escola é o cérebro, e não o corpo”, resume o investigador, que tem estado a trabalhar com algumas autarquias, entre elas Cascais, na requalificação dos espaços lúdicos dos recreios das escolas básicas, por exemplo para criar maior contacto com a natureza. O investigador refere as últimas conclusões sobre os recreios “futebolocêntricos” – um estudo que analisou a realidade na Áustria e um projeto de arquitetas espanholas que concluíram que os pátios organizados em campos de jogos empurraram as raparigas para atividades sedentárias na periferia – para alertar para a realidade nas escolas portuguesas. “Foi um crime, depois de 2004, ter-se posto um campo de futebol em cada escola do 1.o ciclo”, diz Carlos Neto, que considera que o impacto das iniciativas promovidas por autarquias na senda do Euro 2004 contribuirá para mudanças na qualidade dos recreios, que por cá estão ainda por estudar. “Discriminaram as crianças sem ter em conta as diferenças de género. No momento em que se instala um campo de futebol e de jogos está-se a pôr na escola um estereótipo adulto, com balizas e cestos que acabam por limitar as atividades livres das crianças. Discriminam-se as raparigas, as que jogam são ‘marias-rapazes’, os rapazes que não jogam não têm jeito. Há guerras intestinas pela vez de jogar”, diz o investigador. Substituir os campos de jogos de asfalto e relva sintética por espaços mais desafiantes, com estímulos naturais e diferentes atividades, será um desafio nos próximos anos, conclui.

Orientações da OMS

Até um ano de idade

  • Ter vários momentos de atividade física por dia, em particular em brincadeiras ativas no chão. Para as crianças que ainda não têm mobilidade, pelo menos 30 minutos de barriga para baixo espalhados ao longo do dia.
  • Não estar preso mais de uma hora por dia. O tempo de ecrã não é aconselhado.
  • Sono: 14h a 17h dos zero aos três meses, 12h a 16h dos quatro aos 11 meses, incluindo sestas.

1 a 2 anos

  • 180 minutos de vários tipos de atividade física ao longo do dia.
  • O tempo de ecrã não deve ultrapassar uma hora, mas só a partir dos dois anos.
  • Sono: 11 a 14 horas, incluindo sesta.

3 a 4 anos

  • 180 minutos de vários tipos de atividade física ao longo do dia, incluindo 60 minutos de atividade moderada a vigorosa. Sono: 10h a 13h.

 

 

 

A importância de brincar na terra, segundo Kate

Maio 22, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Lusa / Kensington Palace Handout

Notícia do Público de 21 de maio de 2019.

A duquesa de Cambridge desenhou um jardim e divulgou fotografias dos filhos a brincar.

Kate projectou um jardim com dois paisagistas para o evento Chelsea Flower e divulgou fotografias dos filhos a brincar na terra. Co-criado com Andree Davies e Adam White, o “Back to Nature Garden” da duquesa de Cambridge inclui um balouço de corda, uma casa na árvore e um riacho com cascatas.

Segundo o Palácio de Kensington, Kate é uma grande defensora dos benefícios mentais e físicos que a natureza e o ar livre exercem sobre as crianças e os adultos. “É um espaço natural, um espaço realmente empolgante para crianças e adultos compartilharem e explorarem”, declarou durante a abertura do jardim, na segunda-feira. “Sinto que a natureza tem enormes benefícios no bem-estar físico e mental, especialmente para as crianças”, reforçou.

Num vídeo publicado na sua conta no Instagram, os três filhos do casal, George, Charlotte e Louis, podem ser vistos a brincando na corda, na casa de madeira, e descalços num riacho. O mais pequeno, Louis, que comemorou seu primeiro aniversário no mês passado, pode ser visto a andar pela primeira vez, acenando com um pau.

“Acredito que passar o tempo ao ar livre, quando somos mais pequenos, pode desempenhar um papel importante no estabelecimento das bases para que as crianças se tornem adultos saudáveis e felizes”, acrescentou ainda a duquesa.

O Chelsea Flower Show, que abre ao público esta terça-feira e encerra no sábado, é o evento de maior prestígio no calendário de jardinagem da Grã-Bretanha.

 

 

Falta tempo às crianças para brincar e brincam pouco com os pais

Maio 11, 2019 às 1:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Foto: Ashton Bingham/Unsplash

Notícia da Rádio Renascença de 30 de abril de 2019.

Marta Grosso

A maior parte dos mais novos brinca na escola e só 2% brincam na rua, revela estudo do Instituto Politécnico de Coimbra. Académicos mostram-se preocupados com tempo dedicado às atividades motoras na infância.

A maioria dos pais acredita que brincar é importante para as crianças, mas dedica pouco tempo a essa atividade e condiciona o tempo de brincadeira dos seus filhos.

De acordo com um estudo elaborado pela Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Coimbra, em parceria com o Instituto da Criança e a publicação “Estrelas e Ouriços”, mais de metade dos pais inquiridos (69,7%) considera que o tempo é o principal ingrediente para que a brincadeira possa acontecer.

Mas, quando se lhes pergunta porque é que brincar é importante, é fraca a percentagem que aponta a diversão, o desenvolvimento motor e físico, a socialização ou o desenvolvimento de “habilidades úteis para a sua futura vida profissional”.

“Brincar é uma atividade muito séria do ponto de vista do desenvolvimento humano e especificamente do desenvolvimento infantil” e este “estudo reflete como nós condicionamos o tempo e o espaço em que as crianças brincam”, afirma à Renascença o professor Rui Mendes, porta-voz e coordenador do estudo, “o primeiro realizado em Portugal com uma amostra significativa”.

“O que constatamos é que a maior parte das crianças brinca, fundamentalmente, na escola, brincam muito pouco com os seus próprios pais e brincam muito pouco com os seus avós”. A maioria dos pais diz que o tempo é fundamental para as crianças brincarem. E é o que elas não têm. Nem os pais.

“Se fizermos as contas, uma criança de 8 anos que tenha sete horas de escola, uma higiene de dormida adequada, que é de oito horas, já lhe resta muito pouco tempo. Se este tempo tiver o jantar com os pais, se lhe acrescentar uma atividade de educação religiosa ou motora, como nadar, ou aprender uma língua ou estudar música, a criança fica com pouco tempo livre. Deste tempo que tem, se não for convidada a vir para a rua, estamos confrontados com uma situação em que o número de pessoas que visita museus é menor e mais gente a considerar que a visita aos centros comerciais ao fim-de-semana faz parte da rotina familiar”, realça Rui Mendes.

E, mesmo na escola, onde as crianças passam, no mínimo, seis horas, “o tempo que ela tem livre é reduzido, porque um intervalo de meia hora é para as crianças lancharem, fazerem as suas necessidades básicas, restando-lhes qualquer coisa como 10 ou 15 minutos para brincar”.

Subir às árvores “passou a ser quase uma atividade radical”

O estudo reflete como os adultos condicionam o tempo e o espaço em que as crianças brincam.

A maior parte dos pais, quando estão num parque infantil a acompanhar os seus filhos, “não consegue estar calada, porque quer condicionar o tipo de brincadeira que a criança faz”, afirma o coordenador do estudo.

A preocupação em possibilitar que as crianças brinquem mais tempo na rua, em contacto com os elementos naturais, tem vindo a crescer, uma vez que estas brincadeiras já não fazem parte do quotidiano, comparativamente com o que acontecia no passado.

E os pais parecem estar cada vez mais conscientes desta mudança: 41,2% afirmam que gostariam de mudar esta realidade.

Há hoje vários estudos que indicam que muitas crianças têm um “nível de iliteracia em relação a certas atividades motoras muito simples”, refere Rui Mendes.

“Não deixa de ser complicado termos crianças com 10 anos que não sabem andar de bicicleta ou com 9 anos com dificuldade em apertar os atacadores ou que têm 10 anos e têm dificuldade em descer uma árvore que tem um metro de altura. Ou seja, aquilo que era algo perfeitamente básico do ponto de vista motor, passou a ser quase uma atividade radical”, sublinha.

Já em 2013, as Nações Unidas alertavam para o facto de o valor do brincar no bem-estar, saúde e desenvolvimento da criança ser subestimado e desvalorizado – uma opinião também manifestada pelo Conselho da Europa e a própria National Geographic, que insiste no lema de que brincar é coisa séria.

Por outro lado, é dada primazia ao desporto e a atividades estruturadas que muitas vezes são impostas às crianças nos seus tempos livres, a que se junta a pressão para o sucesso académico, que leva as crianças a passarem pouco espaço para brincar em casa com os pais e outros pares – e assim comprometendo oportunidades para desenvolver a criatividade, a exploração e as competências sociais.

Por tudo isto isso, Rui Mendes deixa um conselho às famílias: criem “estratégias para aumentar as rotinas de brincadeira familiar” e “oportunidades para que as crianças possam aprender, no seu tempo e no seu espaço, sem interferência adulta significativa relevante”.

O estudo chama-se “Portugal a Brincar” e é apresentado nesta terça-feira pelo seu porta-voz e coordenador em Cascais.

Segundo os dados apurados, só 2% das crianças brincam na rua, mais de metade das crianças dedica uma hora a brincar com tecnologias, enquanto 1% dedicam três horas a esta forma de lazer.

 

 

Escola é onde as crianças mais brincam Rua é o sítio onde menos brincam – Entrevista de Ana Lourenço do IAC na TVI

Maio 2, 2019 às 12:00 pm | Publicado em O IAC na comunicação social, Vídeos | Deixe um comentário
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A Drª Ana Lourenço do Sector da Actividade Lúdica do Instituto de Apoio à Criança, foi entrevistada hoje na TVI – Diário da Manhã.

E se lhe disserem que os recreios mais amigos da criança são aqueles menos protegidos?

Abril 7, 2019 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto e imagens da Visão 21 de fevereiro de 2019.

Soa a provocação, mas acumulam-se as evidências científicas a favor desta tese.

Os pediatras e outros especialistas da infância falam dos riscos dos pais-helicóptero; os arquitetos paisagistas apontam os perigos dos recreios pouco desafiadores e, por incrível que possa parecer, não só há uma ligação direta entre as duas ideias como nada disto augura algo de bom para os mais novos.

A tese de que falamos, e que anda a correr mundo num vídeo agora divulgado pela Vox, subscreve que a forma como os atuais espaços infantis são desenhados não deixa os mais novos correr riscos. E que os efeitos disso são miúdos menos ativos, menos criativos e com menos autoestima. Além disso, não aprendem a proteger-se.

“Os recreios deviam ser espaços desafiantes para as crianças” e “isso só se consegue quando as brincadeiras não são algo organizado” nem sequer são ideias assim tão recentes. Afinal, foi basicamente disso que se ocupou Marjory Allen, conhecida defensora dos direitos e do bem-estar das crianças, num trabalho em muito alimentado pelas suas recordações de infância, cheias de momentos de grande liberdade.

Nascida no final do século XIX, em Kent, zona a sul de Londres conhecida pela sua beleza exuberante, Marjory haveria de estudar horticultura, tornando-se arquiteta paisagista. Durante a Segunda Guerra, acabaria por se envolver com as crianças deslocadas e órfãs, colaborando com várias instituições. Foi por essa altura que conheceu um espaço em Copenhaga, na Dinamarca, que inspiraria para sempre o seu pensamento.

Era um recreio fora do comum, já que ali as crianças brincavam com peças soltas, como paus, pedras, caixas e cordas. Chamavam-lhe os recreios do lixo, mas a verdade é que permitia aos mais novos criar e construir o que a imaginação lhes ditasse.

“Fiquei completamente empolgada com a minha visita àquele parque. Estava a olhar para algo completamente novo e cheio de possibilidades”, haveria de escrever a arquiteta inglesa, descrevendo que as crianças não só cavavam como construíam casas, mexendo na areia e na água, enfim, no que encontravam…

Isso foi o que, de volta a casa, a levou a criar a campanha “recreios de aventura”, nos locais que tinham sido bombardeados pela guerra. E, pelo caminho, alinhavou um manifesto em nome dos miúdos que viviam em apartamentos tão altos que não tinham onde brincar.

Avanço ou retrocesso?

Cinquenta anos depois, os avisos de pediatras e outros especialistas em desenvolvimento motor vão muito ao encontro às suas preocupações – e insistem que está na hora de decidir se os parques infantis, como existem hoje, devem responder às preocupações dos adultos ou aos desejos das crianças.

Os efeitos de ter pais demasiado controladores há algum tempo que foram sinalizados: dificuldades em controlar emoções e impulsos na pré-adolescência e ainda mais problemas na escola. “Temos pais com muita informação, mas pouca sabedoria”, apontava também há tempos, à VISÃO o conhecido pediatra Mário Cordeiro. Carlos Neto, investigador da Faculdade de Motricidade Humana, há muito que fala de estarmos a criar uma sociedade de cativeiro, dando asas ao apelo “deixem-nos andar ao ar livre”. E mexer na terra, subir às árvores, chapinhar nas poças, sublinhando que a brincar na rua também se ganha imunidade, destreza física e respeito pelo ambiente.

Ou como também já disse, várias vezes, José Morgado, professor do departamento de psicologia da educação do ISPA, “educar é ajudar alguém a tomar conta de si próprio e isso aprende-se fazendo. Se as crianças nunca fazem….” Ou como também gostava muito de dizer a arquiteta paisagista britânica, num tom provocador q.b., “é melhor ter um miúdo com uma perna partida do que com um espírito débil e submisso.”

E tudo isto se aplica também aos nossos parques infantis, como salientou há par de anos um investigador da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) “O jardim-escola já não é jardim e os recreios foram transformados em pátios inertes e asséticos, qual presídio”, sublinhava Frederico Meireles, professor de arquitetura paisagista na UTAD.

O pior? “Os ambientes de brincadeira e de estudo estão mais próximos e contidos do que nunca e isso faz com que a variedade de estímulos no ambiente natural esteja a ser substituída por outros, de natureza digital”, remata o professor da UTAD.

Como quem diz: Ai não querem os miúdos agarrados ao telemóvel? Então, deixem-nos andar ao ar livre à vontade!

 

 

II Colóquio Brincar e modos de ser Criança – 25 maio, Coimbra

Abril 4, 2019 às 8:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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O Instituto de Apoio à Criança (IAC) tem por objetivo principal contribuir para o desenvolvimento integral da Criança, na Defesa e Promoção dos seus Direitos, sendo a criança encarada na sua globalidade como sujeito de direitos na família, na escola, na saúde, na segurança social e justiça.

É convicção do IAC que a promoção do “Direito de Brincar” consagrado no artigo 31º da Convenção sobre os Direitos da Criança, conduz a um crescimento equilibrado e feliz, já que através do Brincar a Criança atribui significados, comunica, compreende os outros, aprende a respeitar regras, inventa, constrói vezes sem fim, numa reconstrução permanente.

Neste sentido, o IAC-FCJ divulga o II Colóquio Brincar e os modos de ser Criança, a decorrer no dia 25 de maio, na Escola Superior de Educação, em Coimbra.

Este evento tem como principal objetivo refletir sobre o BRINCAR como direito das crianças, como expressão do seu modo de ser e estar, e como estratégia cientificamente fundamentada de educação e de integração social. Iremos procurar despertar o interesse de todos os participantes para a importância da atividade lúdica, dando ao mesmo tempo a conhecer investigações e iniciativas já realizadas, na medida em que elas possam ser inspiradoras para novas ações, por ventura da iniciativa dos próprios formandos.

Programa II Colóquio Brincar e modos de ser Criança 2019

Inscrições através do link: https://goo.gl/forms/mBXIo0X5bCkgVnGv1

Leve as crianças à rua: elas têm de brincar no exterior, sujar as mãos, cair no parque de diversões, correr, pular, nadar…

Abril 1, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Vida Extra de 5 de fevereiro de 2019.

Estudos e mais estudos fazem o mesmo alerta mas são poucos os que lhes prestam atenção. Só depois de explorarem bem e com frequência o exterior é que devem pegar na consola, no tablet ou noutro dispositivo digital para distração. Está provado que a falta de interatividade com a realidade e com pessoas de carne e osso atrasa a mente e enfraquece o corpo

Vera Lúcia Arreigoso

Foi com manifesta surpresa que fiquei a saber que as provas de aferição que o Ministério da Educação faz às crianças não são apenas para avaliar o conhecimento. Incluem também a desenvoltura da motricidade. Mas haverá alguma criança que não saiba correr, saltar à corda, dar uma cambalhota ou equilibrar-se num banco? Pois, há e não são poucas. Como é que isto aconteceu?

Quando eu era criança, não só fazíamos toda a ginástica que agora parece difícil, como até ‘íamos aos céus’ a saltar ao elástico, dominávamos o equilíbrio com um amigo nas costas no jogo do alho, coordenávamos pés e mãos nas descidas velozes com o carrinho de rolamentos ou com destreza colocávamos os berlindes nas covas…e tudo mudou. São cada vez mais os pais que não levam os filhos à rua, preferindo o ambiente controlado da casa onde vivem. Fazem mal e a Ciência vem sucessivamente a provar porquê: menor exposição ao exterior, menor desenvolvimento, menor capacidade de reação do sistema imunitário.

O mais recente estudo sobre o tema, no caso dedicado à exposição aos ecrãs e publicado na revista JAMA Pediatrics, afirma que há uma relação direta entre problemas de desenvolvimento e o uso frequente de dispositivos digitais em crianças dos dois aos cinco anos, pois quando estão em frente ao ecrã, dificilmente estão a falar, a andar ou a brincar. Atividades que servem para desenvolver as habilidades básicas. Os investigadores não avançam tempos de exposição bons ou maus mas garantem que são as interações com os outros, desde logo com os cuidadores, que fazem o aperfeiçoamento físico e cognitivo.

Outro trabalho, do Instituto Nacional de Saúde dos EUA com adolescentes já nascidos com a Internet por perto, mostrou mesmo alterações morfológicas. Rapazes e raparigas, que passam várias horas com a atenção focada no tablet ou no smartphone, apresentam alterações na espessura da membrana que envolve o cérebro. Os cientistas desconhecem quais serão as consequências desta alteração, no entanto, não duvidam de que terá algum efeito.

E análises mais antigas acrescentam ainda outro malefício ao estar muito tempo em casa: a falta de estímulo do sistema imunitário. Sem a exposição ao meio envolvente – e aqui inclui-se também o contacto frequente com outras crianças – nos primeiros anos de vida, a resposta imunitária fica enfraquecida e anos mais tarde, na vida adulta, poderá traduzir-se numa saúde menos robusta, por exemplo com o desenvolvimento de doenças autoimunes.

Sabido tudo isto, e tantas vezes repetido, que parte é que ainda não foi entendida? A roupa suja lava-se, os resfriados passam, as feridas curam-se, os sapatos rotos substituem-se, mas a infância não volta. Nunca mais.

 

 

Entrevista. “As crianças precisam de ficar de cabeça para baixo e andar à roda para terem equilíbrio”

Março 30, 2019 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista de Angela J. Hanscom ao Observador de 16 de março de 2019.

Ana Kotowicz

Terapeuta ocupacional, autora do livro “Descalços e Felizes”, Angela J. Hanscom explica que nenhuma criança terá um desenvolvimento saudável se não puder andar à roda ou rebolar na relva livremente.

Acontece todos os dias em qualquer parque infantil: as crianças correm para os pequenos carrosséis de ferro e giram, giram, giram, sem parar. Cá fora, os adultos contorcem-se com o estômago às voltas e começam os avisos. “Pára de girar, vais ficar maldisposta, vais acabar a vomitar.” Só que não: as crianças nunca vomitam, nem nunca ficam agoniadas.

O que a maioria dos pais não sabe é que girar é fundamental para os miúdos crescerem saudáveis. Palavra da terapeuta ocupacional Angela J. Hanscom, em entrevista ao Observador. Isso e rebolar na relva, ficar de cabeça para baixo e mexer-se em todos os sentidos sem restrições, por muito que isso deixe os adultos maldispostos. Quando o fazem, o líquido do ouvido interno está a andar de um lado para o outro, como é suposto, e só assim a criança vai ganhar sentido de equilíbrio — desenvolvendo o chamado sistema vestibular, explica a norte-americana.

Se este não estiver saudável, os miúdos vão cair mais, tropeçar com frequência, ter muito mais acidentes, e terão grandes dificuldades em concentrar-se na sala de aulas. “Uma criança irrequieta é sinal de que tem falta de movimento livre”, argumenta a fundadora do TimberNook, uma espécie de campo de férias onde “não são as crianças que aprendem o que podem fazer pelo ambiente, é antes o ambiente que ajuda as crianças a desenvolverem-se”.

No TimberNook, que começou nos EUA e que já tem campos em diversos países, a brincadeira na natureza é vista como uma forma de “medicina preventiva”, ficando as crianças mais capazes de serem bem sucedidas (na escola e na vida) se passarem tempo suficiente ao ar livre, brincando sem restrições e correndo riscos aceitáveis.

Riscos que nem todos os pais estão disponíveis para correr. E é por isso mesmo que Angela J. Hanscom diz que “o medo dos adultos é o maior entrave para que as crianças passem todo o tempo que precisam a brincar ao ar livre”. Nos Estados Unidos, por exemplo, os pequenos carrosséis começaram a desaparecer dos parques infantis por serem considerados pouco seguros. “É importante encararmos cada um desses medos e encontrar uma forma de lhes dar a volta. Se as crianças tiverem mais oportunidade de brincar ao ar livre, acredito que muitos dos problemas a que estamos a assistir irão dissipar-se.”

Os problemas de que fala Angela J. Hanscom estão descritos no seu livro “Descalços e Felizes” (ed. Livros Horizonte), uma espécie de guia que nos explica porquê e para que é que devemos levar os miúdos para a rua. Nos Estados Unidos, as crianças passam, em média, 9 horas sentadas por dia, estão mais fracas do que nas gerações anteriores, têm maior dificuldade em controlar as emoções e passam a vida a ter pequenos acidentes porque não têm sentido de equilíbrio e não reconhecem a própria força. Tudo, acredita a terapeuta ocupacional, porque têm falta de movimento. “Eles precisam de horas a escavar a terra, a rebolar por ribanceiras abaixo, a construir fortes com os amigos e a brincar na lama, de forma a integrar todos os sentidos e a desenvolver mentes e corpos mais fortes.”

A falta de movimento livre e sem restrições tem mais um senão: porque o sistema vestibular alimenta o límbico, responsável pelas nossas emoções, uma criança que tenha falta de movimento vai chorar por tudo e por nada e vai frustar-se com muita facilidade. “Os pais têm de deixar os filhos estar de cabeça para baixo, girar, rebolar e rodopiar com frequência”, defende a terapeuta. Até porque, “para andarem seguras na rua, é preciso que as crianças tenham liberdade total, com frequência, para se mexerem sem restrições.”

No livro, fala várias vezes sobre sistema vestibular e nem todos os pais saberão o que é. Como é que se explica aos adultos que é importante deixar as crianças estar de cabeça para baixo, para pôr este sistema a funcionar?
O problema é que estamos a restringir as crianças mais do que nunca. Aqui na América, os estudos mostram-nos que, por dia, os miúdos passam, em média, 9 horas sentados. Para organizar os sentidos, as crianças precisam de mexer o corpo de formas tão variadas que farão engasgar qualquer adulto — ficar de cabeça para baixo, andar à roda, dar cambalhotas, etc. E têm de fazê-lo com frequência para desenvolver a consciência corporal, para melhorar o foco e a atenção e para serem capazes de regular as suas emoções de forma conveniente. Também precisam de um certo tipo de “trabalho pesado” que só se consegue na natureza — cavar, subir às árvores e carregar pedras pesadas. Isto ajuda as crianças a desenvolverem os sentidos nas articulações e nos músculos, o que vai fazer com que sejam capazes de regular a força que têm em diversas situações, seja ao usar um lápis para escrever ou, por exemplo, quando estão a brincar com outras crianças.

Quais são os riscos de não desenvolver um bom sentido de equilíbrio? No livro levanta muito esta questão e de como as crianças de agora estão mais fracas e menos coordenadas do que as das gerações anteriores.
Quando uma criança não tem sentido de equilíbrio, tem dificuldade em saber onde é que o seu corpo se encontra no espaço. Isto faz com que haja maior probabilidade de se magoar e de ter acidentes. Para um miúdo poder navegar em segurança em diferentes ambientes, para as crianças andarem seguras na rua, é preciso que tenham liberdade total, com frequência, para se mexerem sem restrições. Para além disso, muito movimento ajuda-os a ter mais atenção na sala de aula. Esta é uma das razões por que os miúdos ficam irrequietos: estão a balançar-se para a frente e para trás para ligarem o cérebro. O que estão a fazer é a tentar ligar o sistema ativador reticular [a formação reticular é uma parte do tronco cerebral que distingue os estímulos relevantes dos irrelevantes e a sua principal função é ativar o córtex cerebral].

Ou seja, os miúdos de hoje estão a passar demasiado tempo sentados?
Sem dúvida. Passam demasiado tempo numa posição vertical. E eles precisam de se mexer em diferentes direções para que o fluido do ouvido interno ande para a frente e para trás, só assim conseguem desenvolver um forte sentido de equilíbrio (o sistema vestibular). Este sentido é a chave de todos os outros sentidos. Se estiver enfraquecido, pode afetar a integração de todos os outros sentidos.

Para além dos problemas físicos, a falta de movimento leva-nos a ver com maior frequência crianças que choram facilmente e que ficam frustradas por tudo e por nada?
Claro. O sistema vestibular também alimenta o sistema límbico [responsável pelas emoções e comportamentos sociais]. Os professores deparam-se cada vez mais com crianças que têm problemas de autoregulação, os miúdos choram sem se saber bem porquê e ficam frustrados muito, muito facilmente. Repito: eles precisam de muito movimento, que é a base de uma regulação emocional saudável.

A verdade é que, enquanto mães e pais, se tivermos um filho a balançar-se à mesa do jantar, o mais provável é pedirmos que pare com isso. E, nas salas de aulas, os professores também não lidam bem com miúdos irrequietos. O que devíamos, então, fazer?
Se as crianças estão irrequietas é um ótimo indicador de que precisam de se mexer mais. O que devíamos fazer, e isto é muito importante, é dar-lhes mais oportunidades para brincarem em grande escala ao ar livre. É nesses momentos que eles conseguem, de facto, mexer-se livremente e com frequência.

Devíamos repensar o tipo de modelo de escola que temos, os tempos de recreio, as horas que as crianças passam sentadas?
Sim, devíamos repensar tudo isso. É fundamental, como já disse, dar-lhes mais oportunidades de brincadeiras ao ar livre porque é nesses momentos que os sentidos estão todos ligados, a trabalhar juntos, e é aí que as crianças aprendem através de experiências práticas, porque estão a pôr as mãos nas coisas, a desafiar a mente, o corpo e os sentidos. Os miúdos não foram feitos para estarem sentados horas a fio, ou para apenas fazerem tarefas com papel e lápis — essas desafiam-nos muito pouco e têm até pouco sentido para os miúdos. Eles precisam de experiências de aprendizagem maiores, melhores e mais ricas.

Já percebemos que ver crianças irrequietas, que tropeçam muito e que não param de se mexer são sinais de alerta. O que podemos fazer?
Volto a repetir: precisam de oportunidades para se mexer. E é isso que os pais têm de fazer: dar-lhes oportunidade de estarem de cabeça para baixo, de andar à roda, de girar, de rebolar, de rodopiar…

De que é que uma criança precisa para desenvolver uma mente sã em corpo são?
Precisa de muito tempo e espaço para brincar com outras crianças ao ar livre, em atividades que as desafiem e as inspirem. Também precisam de adultos bem-intencionados, capazes de dar um passo atrás e capacitar as crianças para desenvolverem os seus próprios planos, ideias e esquemas de brincadeira. Esta é a única maneira de as crianças conseguirem aprender a pensar e a brincar de forma mais avançada.

Então, o movimento é apenas uma peça do puzzle?
Claro, eles precisam de ar livre, boa nutrição, muitas horas de sono e adultos que os amem.

Mas porquê a brincadeira ao ar livre? Não podemos substituí-la pela prática de desporto, por exemplo?
A brincadeira ao ar livre é semelhante ao cross training [treino funcional que combina vários exercícios para trabalhar diferentes partes do corpo]. Desafia as crianças de uma forma que um exercício concebido por um adulto bem-intencionado nunca conseguirá desafiar. Por exemplo: de cada vez que uma criança se pendura numa árvore, usando diferentes membros do seu corpo, está a estimular diferentes músculos e a desenvolver uma musculatura mais arredondada. Por outro lado, brincar ao ar livre inspira a criatividade e a imaginação, algo que não acontece quando se está simplesmente a repetir exercícios físicos.

Uma das coisas que os miúdos adoram nos parques infantis é andar nos pequenos carrosséis de metal. Quando vemos isto, normalmente há sempre um pai a dizer: pára com isso, vais ficar enjoado. Mas andar à roda é extremamente importante, correto?
Sim, andar à roda ajuda as crianças a saber onde é que está o corpo delas no espaço. O movimento do carrossel é um pouco diferente. Cria uma força centrífuga no ouvido interno que ajuda a desenvolver a atenção sustentada e o “grounding”. É muito terapêutico para as crianças. [Atenção sustentada é, segundo a psicologia, um dos quatro tipos de atenção e caracteriza-se por sermos capazes de nos focar numa atividade contínua e repetitiva. O grounding não tem um termo equivalente em português, mas significa estar com os pés assentes na terra, em contacto com a realidade e com a própria existência.]

Também defende que as brincadeiras ao ar livre não podem passar só por idas a parques infantis. Têm de ser na natureza, de pés descalços na terra?
Brincar na natureza é o que enriquece a experiência sensorial das crianças. Por exemplo, o simples facto de estarem a ouvir o chilrear de um pássaro ajuda-as a saberem orientar o seu corpo de acordo com o sítio de onde vem aquele som — e isto é o básico dos básicos para se ter uma boa consciência corporal.

Ainda assim, e apesar das vantagens que aponta, alguns pais terão sempre algum receio e estarão preocupados com questões de segurança, evitando deixar os filhos andar livremente na natureza. Que conselho daria aos adultos?
O medo dos adultos é, de longe, a maior barreira para deixarmos as nossas crianças brincar todo o tempo que precisam ao ar livre e na natureza. Não devemos deixar os nossos medos interferirem numa coisa que é um direito humano básico e que é também uma necessidade dos miúdos. É importante encararmos cada um desses medos e encontrarmos uma forma de lhes dar a volta. Se as crianças tiverem mais oportunidade de brincar ao ar livre, acredito que muitos dos problemas a que estamos a assistir irão dissipar-se. Eles precisam de horas a escavar a terra, a rebolar por ribanceiras abaixo, a construir fortes com os amigos e a brincar na lama de forma a integrar todos os sentidos e a desenvolver mentes e corpos mais fortes.

Alguma hipótese de a TimberNook chegar a Portugal?
Adorava levar a TimberNook a todos os cantos do mundo.

 

 

10 Motivos para brincar à Macaca

Março 11, 2019 às 12:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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