Afogamento em idade pediátrica: verão após verão a tragédia repete-se

Setembro 18, 2019 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do site Educare de 16 de agosto de 2019.

Estamos no verão! A pior época do ano no que respeita aos afogamentos.

Afogamento, segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde), define-se por um processo que condiciona insuficiência respiratória em resultado da imersão (pelo menos da face e da abertura da via aérea) ou submersão (todo o corpo) em água/outro líquido, independentemente da sobrevida ou não. Desde o nascimento que o contacto com água torna-se rotineiro e, para a maioria das crianças a água é uma diversão atrativa. Contudo, esta interação acarreta risco e a vulnerabilidade das crianças varia de acordo com a idade, género e estádio de desenvolvimento.

O afogamento é um acontecimento trágico, muito rápido (segundos são suficientes), silencioso (a criança não faz barulho e não pede ajuda) e que pode ocorrer em pequenas quantidades de água (menos de um palmo de água).

Apesar das campanhas anuais de prevenção da morbi-mortalidade por afogamento, as situações fatais ou com consequências devastadoras permanecem.

Em Portugal, o afogamento é a segunda causa de morte acidental nas crianças (depois dos acidentes de viação) e a grande maioria poderia ser prevenida. De acordo com o último relatório da Associação para a Promoção e Segurança Infantil (APSI), nos últimos 16 anos ocorreram 247 afogamentos com desfecho fatal e 586 internamentos na sequência de afogamento e, desde há 7 anos que estes números têm vindo a diminuir. Nas crianças hospitalizadas, o prognóstico é geralmente reservado, e as que sobrevivem podem apresentar sequelas neurológicas permanentes. No entanto, estes números não devem subestimar este problema de saúde pública. A maioria das crianças e jovens com necessidade de internamento ocorre dos 0 aos 4 anos e a maioria das mortes por afogamento dos 15 aos 19 anos. O género masculino associa-se à maioria dos afogamentos (66%). Quanto aos locais, as piscinas são os planos de água com maior registo de afogamentos, sobretudo na primeira década de vida, seguido das praias e dos rios/ribeiras/lagoas com crianças e jovens mais velhos. Em todos os meses do ano há registo de afogamento, no entanto Junho, Julho e Agosto são os meses onde se verificam mais casos.

É importante conhecer os riscos:
– Vulnerabilidade da idade;
– Género (sobretudo masculino);
– Acessibilidade a planos de água (piscina, praia, rios/ribeiras/lagoas e poços) e ausência de barreiras físicas que impossibilitem o acesso livre à água ou dispositivos de flutuação adequados (braçadeiras e/ou coletes salva-vidas essenciais em ambientes aquáticos). De alertar que as boias e os colchões são falsamente seguros, uma vez que facilmente são deslocados quer pelo vento quer pela ondulação.
– Ausência ou inadequada vigilância (mesmo na banheira): devendo evitar-se qualquer elemento distrativo como exemplo o uso do telemóvel;
– Consumo de álcool e drogas e exposição simultânea a banhos;
– Incumprimento das regras de segurança do local;
– Patologias de base como por exemplo epilepsia.

É fundamental criar ambientes seguros, minimizando os acidentes:

1.  Vigilância ativa: o cuidador deve vigiar as crianças na água ou na sua proximidade, sem distrações (como por exemplo o telemóvel) e de forma atenta e permanente para que possa intervir de imediato sempre que necessário. Com ressalva de que o cuidador deverá saber nadar de forma a evitar colocar a sua vida e das crianças em risco.
2.  Nas férias, vigilância redobrada, com reconhecimento do local e dos planos de água.
3.  Quando em ambiente de festa, com muita gente, estabelecer um sistema rotativo de vigilância, havendo sempre um adulto responsável pelo ambiente aquático.
4.  Esvaziar baldes, alguidares e banheiras, logo após a sua utilização. Não deixar a criança sozinha no banho, sem supervisão e esconder a tampa da banheira para evitar que a criança a encha sozinha.
5.  Colocar barreiras físicas que impossibilitem o acesso à água (piscinas, poços, fossas e tanques). O uso de barreiras não deve substituir a supervisão do cuidador. Outros sistemas de proteção para a piscina existentes no mercado não mostraram benefício. Não deixar brinquedos atrativos perto e/ou na piscina.
6.  Optar por praias e piscinas vigiadas, localizar o nadador salvador e cumprir as regras de segurança e sinalização do local.
7.  Equipamento de flutuação (braçadeiras/coletes salva-vidas ajustados ao corpo) devem ser sempre colocados nas crianças junto aos ambientes aquáticos. No entanto, esta medida não substitui as supramencionadas.
8.  Formação em suporte básico de vida, sobretudo para quem tem piscina no domicílio.
9.  Iniciar aulas de natação e promover comportamentos seguros o mais precocemente possível.
10.  Fortalecer a consciencialização pública e advertir para a vulnerabilidade das crianças.
11.  Alertar para os riscos de mergulhar em zonas com profundidade da água desconhecida ou onde existam rochas submersas ou desníveis.
12.  Incentivar as crianças a permanecerem perto das margens e a nunca entrarem na água sem vigilância.

Prevenir o afogamento está nas nossas mãos!

Ana Ribeiro, com a colaboração de Clara Machado, Pediatra do Serviço de Pediatria do Hospital de Braga.

Os cuidados a ter com os bebés antes de os levar para a praia

Agosto 21, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto e imagem do site Sapo Lifestyle

Cerca de 22% das crianças com menos de 24 meses tem uma pele muito sensível, apresentando mesmo 8% uma pele atópica. Para proteger os mais pequenos nos meses de maior calor, siga os conselhos do dermatologista David Serra.

Suave, macia, delicada mas… frágil! A estrutura da pele do bebé é muito semelhante à de um adulto, mas a camada córnea é mais fina e as células da epiderme são menos aderentes entre elas. A pele do bebé tem também menos gordura. Por isso, a diminuição de produção de sebo limita a resistência contra o quente ou frio. Mas as diferenças não se ficam por aqui. A pele do bebé tem uma capacidade muito elevada de absorção.

O peso da área da superfície da pele é três a cinco vezes maior em recém-nascidos do que em adultos. Esta diferença significativa implica que o organismo de um recém-nascido absorva concentrações muito mais elevadas do que um produto para adultos para a mesma zona de aplicação. Qualquer produto que entre em contacto com a pele do recém-nascido será, assim, facilmente absorvido, o que não é benéfico.

Desta forma, o risco de toxicidade nesta fase da vida da criança, é elevado e requer o máximo de cuidado na escolha de um cuidado adaptado.

O pH da pele do bebé é diferente do pH da pele do adulto.

Os recém-nascidos têm um pH próximo de 7, neutro, enquanto o pH do adulto é ácido (oscila entre 5,5 e 6,5) proporcionando uma boa proteção da pele contra as bactérias. Esta é a razão pela qual a pele do bebé fica sujeita a infeções, e é mais frágil e delicada.

A pele do bebé é mais suscetível a alergias do que a pele dos adultos. A epiderme do recém-nascido absorve substâncias com mais facilidade. Por isso, os produtos que utilizar, nesta ou em qualquer outra altura do ano, devem ser hipoalergénicos e adaptados à pele sensível do bebé, como recomendam os especialistas. No mercado, são muitas as marcas que investiram em fórmulas que garantem essa segurança.

Guia prático para proteger a pele dos mais pequenos na praia

Para preparar a pele para a praia, David Serra, dermatologista, sugere quais os hábitos que os pais devem abraçar para protegerem a pele dos seus filhos e ainda identifica o tipo de produtos de proteção solar que é mais indicado para a pele infantil. Até aos 12 meses, “é desaconselhada a exposição solar direta prolongada”, começa por referir o especialista. Entre as 11h00 e as 16h00, os mais pequenos não devem apanhar sol.

Esse cuidado deve ser mantido, sempre, “com crianças de pele muito clara, cabelos louros, ruivos ou castanhos-claros, olhos azuis ou verdes e com história familiar de cancro de pele ou com pais com muitos sinais”, acrescenta o especialista. Até aos dois anos, “o protetor solar deve conter apenas filtros físicos”, sublinha ainda David Serra. Filtros que não reagem quimicamente com a pele para proteger a criança.

Antes, formam uma barreira que reflete tanto as radiações UVA, como as UVB, protegendo a pele da criança. No momento de sair de casa, há uma lista de objetos fundamentais a não esquecer antes de ir para a praia, que deve conferir. Deve incluir, além do chapéu, óculos de sol e um guarda-sol. “O vestuário é a forma mais eficaz de proteger a pele do sol”, justifica o dermatologista David Serra

“O protetor solar deve ser aplicado antes de sair de casa e renovado regularmente, em função da atividade da criança e se toma banho. A aplicação deve ser uniforme e abranger toda a pele exposta”, recomenda ainda o especialista. No momento de escolher, prefira leites ou loções aos protetores em spray, visto que “obrigam à utilização de maior quantidade de produto e hidratam mais”, refere ainda.

Escolha sempre produtos com fator de proteção “SPF 50+ e o símbolo UVA também deve estar presente”, aconselha David Serra. Depois de saírem da praia ou se os seus filhos estiveram a chapinhar numa piscina com água salgada, lave sempre a pele com água doce. “A exposição ao sol deve ser gradual e não súbita. Deve ser de pouco tempo nos primeiros dias de exposição”, alerta ainda o dermatologista.

Texto: Filipa Basílio da Silva

Banco de leite humano ajuda a salvar bebés prematuros

Agosto 16, 2019 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do DN Life de 9 de julho de 2019.

Numa altura em que há cada vez prematuros a nascer de grávidas tardias, o leite materno permite evitar infeções, futuras complicações no desenvolvimento, até mortes. E aqui entra o único Banco de Leite Humano do país, a ajudar as mães a alimentarem os seus bebés desde 2009.

Texto de Ana Pago

Israel Macedo, pediatra e neonatologista, sabe bem os cuidados que inspiram bebés nascidos antes do tempo. Alguns pesam menos do que um pacote de arroz, com órgãos tão imaturos que quase os perdemos com um sopro. Muitos irão ter tubos e sensores nos corpos minúsculos até alcançarem o vigor de um bebé maior – os pais ficam perfeitamente aterrados, mas o importante é sobreviver. E aqui o leite materno tem um papel imperativo, que justifica a existência de um Banco de Leite Humano na Maternidade Alfredo da Costa (MAC) desde 2009. É o único no país até à data.

Há cada vez mais prematuros a nascer em Portugal, fruto de melhorias na saúde e de um aumento da idade materna. E é nos muito pré-termo que se regista quase 60% da mortalidade neonatal e maior perigo de complicações posteriores ao nível do desenvolvimento”, explica o médico especialista em prematuros da MAC, Lisboa, e coordenador do Banco de Leite Humano que cocriou, ciente das prioridades: os bébés evoluem melhor com leite fortificado da mãe e logo a seguir com leite doado (se a primeira opção for insuficiente).

“Mesmo nesses casos, o ideal é combinar o leite doado com leite materno sem cair na asneira de achar que o das dadoras substitui o da própria mãe, do melhor para proteger um bebé tão vulnerável de uma série de infeções no imediato e a longo prazo”, sublinha Israel Macedo. Por isso insiste tanto em dizer a estas mães fragilizadas, que veem os seus filhos de um palmo a ser ventilados na incubadora, que devem tentar amamentá-los mesmo que se sintam fracas e tenham pouco leite.

“É tudo ouro. Qualquer bocadinho de colostro já vai ter um papel anti-inflamatório e estimular o crescimento do tubo digestivo”, reitera o médico, que se por um lado não se impressiona com o aparato tecnológico em torno dos prematuros, por outro assusta-se de morte com o risco de infeções fatais em bebés tão pequenos. “Com o Banco de Leite Humano a ajudar estas mães a amamentar, o número de enterocolites caiu drasticamente para um a dois casos por ano, quando antes surgiam em 12% dos bebés com menos de 28 semanas.”

Isto quando a enterocolite é a emergência gastrointestinal mais recorrente e perigosa nos recém-nascidos, em especial os de muito baixo peso ou que ficam internados nos cuidados intensivos: a superfície interna do intestino inflama-se e sofre lesões que conduzem a uma proliferação bacteriana anormal, podendo redundar em peritonites, perfuração intestinal e até infeção generalizada e morte nos quadros mais graves, agravadas pelos leites de fórmula que alteram o microbioma.

“Aqui, se 50% do leite for da mãe, complementado com leite de banco, a proteção é idêntica à que o bebé teria se só bebesse leite materno, já que os micro-organismos e toda a parte enzimática que existem no leite cru estão lá presentes”, sustenta Israel Macedo, acrescentando de caminho outra mais-valia inegável: “Ao fazermos a alimentação exclusiva com leite materno ou de dadora até às 32-34 semanas, assistimos habitualmente a um retirar de cateteres mais rápido, o que só por si também reduz o risco de infeções hospitalares”, diz.

De resto, bebés prematuros são todos os que nascem com menos de 37 semanas, sem exceção, embora haja uns casos mais alarmantes do que outros – em particular os nascidos antes das 32 semanas e a pesar menos de um quilo e meio (pouco mais que as embalagens de leite ou farinha que compramos no supermercado). A idade gestacional em que 50% sobrevive está atualmente nas 24 a 25 semanas, algo que seria impensável há uns 30 anos.

“Aquilo que pensámos foi que, face à população crescente de grávidas tardias e prematuros em Portugal, não fazia sentido não ter esta opção para oferecer quando não existe leite materno em quantidade suficiente”, conta Israel Macedo, que em 2007 começou a matutar num banco nosso ao assistir a um congresso sobre o tema em que participaram João Aprigio, coordenador da Rede Brasileira e do Programa Iberoamericano de Bancos de Leite Humano, alguns colegas espanhóis e brasileiros com essa experiência e Jorge Branco, então presidente da MAC (que na altura estava a aderir à iniciativa Hospitais Amigos dos Bebés, promovendo o aleitamento materno).

Em 2008, à boleia de umas remodelações na ala pediátrica da MAC, fizeram-se as obras a contar com o Banco de Leite Humano, que já ajudou a alimentar mais de mil bebés. “Em 2009, quando entrou em funcionamento, houve pelo menos 70 mulheres a doarem-nos o seu leite, o que permitiu alimentar uma média de 20 bebés prematuros por mês”, revela o neonatologista, lembrado de cada momento. De 2010 a 2011 recolheram cerca de 600 litros de leite humano, sem imaginar a carência que estava para chegar.

Em 2012, com a crise a restringir o que se pagava à empresa que recolhe e faz o transporte refrigerado de casa das dadoras para o Banco, a MAC passou de uma média de 30 mulheres para dez (e depois para cinco), com o leite a baixar dos 15 para os oito litros por semana num ápice. Somente em 2018 voltaram a uns generosos 360 litros de leite entre 46 dadoras (algumas tinham muito para dar) e estimam atingir entre 400 e 500 litros em 2019.

Além dos bebés internados no serviço de neonatologia da MAC, o Banco alimenta ainda prematuros nos hospitais Fernando Fonseca (o Amadora-Sintra), Dona Estefânia, Santa Marta e pontualmente no de Cascais e Beatriz Ângelo (Loures). Estão igualmente a dar-se passos sólidos para que o fornecimento seja alargado aos hospitais de Santa Maria, Garcia de Orta e São Francisco Xavier.

“O processo é muito simples: mal os hospitais com prematuros preveem iniciar a alimentação dos seus bebés, mandam-nos um e-mail com aquilo de que precisam e o estafeta leva diariamente o leite que descongelamos para os nossos”, esclarece o coordenador. Quando as quantidades são maiores, passam a fornecer o leite para a semana e fazem, eles próprios, uma a duas pasteurizações semanais em que tratam nove litros de leite cru, que é descongelado e submetido a temperaturas de mais de 60 graus para matar quaisquer vírus e bactérias. “No final, uma técnica de patologia clínica analisa tudo, faz a rotulagem e informatiza os resultados”, diz.

Antes desta fase, cada dadora recebe frascos esterilizados, etiquetas e uma bomba para extrair o leite em casa, onde pode conservá-lo por alguns dias a 25 graus negativos antes de ser recolhido e levado para o Banco de Leite Humano. Requisitos cruciais a cumprir: não pode fumar, beber álcool, ter doenças crónicas ou tatuagens há menos de três meses, estar infetada com algo que possa ser transmitido ao leite ou tomar medicação regularmente. Além disso tem de estar a amamentar em exclusivo o seu próprio bebé, nascido há pelo menos quatro meses.

“Temos uma enfermeira na MAC que faz a triagem telefónica, mais três médicos responsáveis pelas entrevistas pessoais detalhadas”, enumera Israel Macedo. Para a recolha contam ainda com três pessoas do Banco do Bebé – uma organização sem fins lucrativos que presta apoio domiciliário – e com uma equipa de dois médicos e duas enfermeiras da Unidade de Saúde Familiar Conde Oeiras, que desde 2017 já angariou mais de 120 litros de leite para o Banco, fazendo todo o acompanhamento das mães ainda desde as consultas pré-parto.

“No meio disto, é uma pena que o Porto não tenha conseguido fazer o Banco de Leite Humano que esperava abrir no final de 2018”, lamenta o pediatra, que acompanhou de perto as movimentações dos hospitais de São João, Santo António e Maternidade Júlio Dinis nesse sentido – sem efeito. “Não sei em que pé estão as coisas ou que dali vai sair, mas a quantidade de partos e de prematuros justifica plenamente um segundo Banco que sirva a zona norte e centro, onde se inserem os hospitais de Coimbra.”

Há dadoras que lhes ligam, a quererem entregar o seu leite, e nem eles têm capacidade para ir fazer recolhas lá acima nem a hipótese de mandarem leite materno de Lisboa para norte. “Numa fase a seguir a essa teria de se pensar também numa pequena unidade em Faro, que é outra zona do país onde nascem bastantes prematuros”, acrescenta Israel Macedo, esperançado num desfecho positivo. Gota a gota…

Laura Sanches: “Os bebés sofrem de stress como nós”

Agosto 14, 2019 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia e imagem do DN Life de 17 de junho de 2019.

Todos os pais amam os filhos, mas e o resto? Como se educa uma criança segura? De onde vêm as birras? Qual a importância do colo? A psicóloga clínica Laura Sanches explica isto e muito mais em Amar Não Basta (embora ajude bastante). Um livro para pais que desejam saber o que sentem os seus bebés.

Entrevista de Ana Pago | Fotografia de Reinaldo Rodrigues/Global Imagens

Diz que os bebés sofrem de stress como nós. A que se deve esta reação inesperada neles – e forte ao ponto de muitas vezes se tornar um stress tóxico?
O stress surge da ativação do nosso sistema de alarme e os bebés já nascem com o seu a funcionar perfeitamente – aliás, no último trimestre da gravidez já o têm desenvolvido e a operar em sintonia com as emoções da mãe. A partir daí, se são expostos a situações que os fazem sentir-se inseguros e os levam a ativar esse sistema de alarme antes de os pais conseguirem reconhecer e responder aos sinais que eles dão, os bebés ficam sob stress.

Mas não pode ser um stress positivo, se o bebé não se sentir ameaçado e inseguro o tempo todo?
Sim, há pequenos momentos que podem ser úteis para reforçar a confiança nos pais e até aperfeiçoar a resposta aos estímulos. Está provado que aquilo que vivemos nos primeiros anos, e como vivemos, pode ter um impacto permanente na vida adulta por definir a forma como o nosso organismo fica programado para lidar com todos os desafios que irá encontrar. O stress tóxico só surge se o sistema de alarme dos bebés for demasiado solicitado, o que no caso deles é desencadeado – tal como em todos nós, de resto – pelo sentimento de que a ligação com as pessoas importantes da sua vida está a ser ameaçada. As crianças nascem com o instinto de se ligarem a pelo menos uma figura de referência.

A mãe?
Por norma é a mãe. Foi ela quem esteve grávida durante nove meses, com o bebé a vivenciar e a ser afetado por todas as suas emoções dentro do útero. É ela quem passa mais tempo com o bebé após o parto. Então ele nasce com o instinto ativo de procurar o conforto da mãe – e quanto mais pequenino maior é a necessidade de contacto físico – para se sentir seguro com o seu cheiro, o batimento cardíaco, o calor do corpo dela quando lhe pega. Esta programação existe naturalmente. Claro que se por algum motivo a mãe desaparecer, o pai pode tomar esse lugar e preencher o vazio na perfeição.

“No extremo da privação de uma figura de referência temos a morte.”

Pai ou mãe, que efeitos tem a privação dessa figura de referência?
Efeitos devastadores como os documentados na Roménia, em que as políticas de fomento à natalidade impostas pelo líder comunista Nicolae Ceauşescu, a par de uma enorme pobreza no país, resultaram em dezenas de milhar de crianças abandonadas e institucionalizadas durante o período ditatorial. Em 1990, após a queda do regime, o que se viu foi que mesmo nas raras instituições onde não faltava comida, higiene e cuidados de saúde, a taxa de mortalidade era muito superior à expectável porque se negava às crianças a possibilidade de criarem um vínculo forte e seguro com um adulto (os cuidadores estavam sempre a rodar para evitar laços que dificultassem a adoção). Isso significa que, no extremo da privação, temos a morte.

E nos casos menos extremos?
Verificou-se que as crianças tinham atrasos cognitivos, emocionais e que todo o seu desenvolvimento era afetado a ponto de até a estatura ser inferior à que seria normal para a idade. O organismo estava submetido a uma carga tão tóxica de stress que era como se já nem lhes sobrasse energia para crescerem. E não era apenas o corpo que não crescia: o cérebro apresentava várias regiões com um tamanho inferior ao que seria esperado. Essa figura de referência é fundamental para o bem-estar e desenvolvimento infantil, é o que nos ensina a amar. Por oposição, a primeira grande causa de stress para bebés e crianças é a impossibilidade de estabelecerem esse vínculo, ou dificuldades persistentes que surjam sempre que tentam fazê-lo.

Ainda assim, muitos pais receiam que abraçar e pegar nos seus bebés nos primeiros meses os encha de manhas. O colo nunca é demais?
Nunca. A maternidade não é lá muito racional, sobretudo nos primeiros meses, e se a mãe não tiver consciência de que a necessidade de sentir o bebé junto de si é tão grande como a do bebé em estar junto dela, o mais certo é ignorar os instintos e deixar de lhe pegar sempre que tem vontade ou o filho chora. Sim, é um facto: bebés que nunca têm colo ou são deixados a chorar para dormirem no quarto sozinhos deixam de pedir a mãe. O que não vemos acontecer dentro deles, na sua forma de se relacionarem com o mundo, é que mesmo não chorando continuam em tensão, inseguros, apenas silenciaram as emoções. E este sentimento é tão forte que pode comprometer o próprio instinto do apego, além da capacidade de virem a confiar em si mesmos e nos outros.

Também a amamentação é uma facilitadora desse vínculo. Todas as mães deviam amamentar os seus bebés, incluindo as que não desejam fazê-lo?
Tem de se ver sempre caso a caso, não é algo que se possa forçar. Se por um lado o bebé merece que pelo menos tentem, dados os inúmeros benefícios ao nível do crescimento e saúde, por outro o facto de a mulher estar em sofrimento a dar mama, com uma postura rígida, não será bom para nenhum dos dois. Ter um filho a alimentar-se de nós é um ato de grande vulnerabilidade para a mãe, que desperta nelas emoções intensas. É natural sentir medos antigos ou feridas mal curadas virem ao de cima. No caso de não querer fazê-lo, o importante é reconhecer que essa ferida existe e trabalhar para tentar resolvê-la.

“Nas culturas que vivem de forma tradicional é comum amamentar-se até aos 5, 6 anos e está tudo certo.”

E dar de mamar até quando? Alguns médicos defendem que após os 12 meses induz comportamentos regressivos…
Até a mãe e a criança quererem e estarem ambas confortáveis com isso. Ainda hoje, nas culturas que vivem de forma tradicional, é comum amamentar-se até aos 5, 6 anos e está tudo certo, não tem que acabar à força por imposições externas ou teorias mal fundamentadas. A própria Organização Mundial de Saúde recomenda que se amamente no mínimo durante dois anos mas só nos países subdesenvolvidos, e eu pergunto que sentido é que isso faz? Não é por não termos escassez de alimentos e haver água potável para as fórmulas que o leite materno deve ser desprezado. Pode não ser essencial do ponto de vista alimentar, mas faz bem à mesma. Além de que do ponto de vista psicológico estaremos a negar a uma criança algo de que ela ainda precisa.

Mesmo assumindo que possa ser uma ligeira regressão ela vir procurar a mãe e sentir-se um bocadinho bebé?
Mesmo assim. Seria uma regressão ao serviço do crescimento, que se faz por janelas temporais e nunca em linha reta. Às vezes é necessário andar um pouco para trás na altura certa para não termos de o fazer mais tarde, regra geral de maneira muito menos adaptativa. Se a criança procura a mãe para mamar porque isso lhe traz algum conforto, e se essa segurança lhe vai permitir continuar a crescer depois com maior confiança, então não é mau que aconteça. Ver indecência nisso deve-se unicamente aos preconceitos que nos condicionam, não a evidências científicas. Já para não falar que todas as crianças – e repito: todas – largam a mama de forma natural quando se sentem preparadas

Outra questão fraturante para a maioria dos pais é a de levarem os filhos para a cama deles, por julgarem que estão a criar miúdos mimados e adultos dependentes. Porquê tantos fantasmas nas nossas camas?
De novo por culpa de preconceitos, inseguranças pessoais e teorias psicanalíticas antiquadas que defendiam uma excessiva sexualização da infância. Não tem nada de mal. Nenhuma razão para haver culpa ou vergonha, como vejo tantas vezes. Até aos 12 anos, pelo menos, é natural que uma criança ainda precise dessa presença e não é negando-a à força que os pais vão conseguir que se torne autónoma, pelo contrário. A mim parece-me mais prejudicial recusar o contacto agora, com medo de que no futuro não estejam lá para lho darem, do que simplesmente conceder-lhe o que ela procura no presente, sem receios, até um dia deixar de ser necessário.

E a noite é uma altura de muitos medos…
Exacerba muito as nossas angústias, sim. As crianças também sentem isso. Se quando mais precisam de nós lhes dizemos sistematicamente que não podem estar connosco, elas nunca vão sentir que os pais as compreendem, acolhem as suas inseguranças e as aceitam como são, o que gera ainda mais inseguranças. Do que ouço dos meus pacientes chega a haver noites em que ninguém dorme lá em casa, com os filhos a irem para a cama dos pais e os pais a recambiarem-nos para a cama deles, quando a questão se resolvia facilmente se os deixassem ficar. Até porque na grande maioria dos casos esses pais também gostam de dormir com os filhos, não são só os miúdos. Acabavam por descansar melhor todos juntos, sem qualquer prejuízo para o desenvolvimento infantil.

“Os pais fazem muitas birras, na verdade. Por vezes são mais crianças do que os miúdos que têm em casa.”

Seja como for, o que se pode fazer com bebés que acordam muito?
Não podemos ensiná-los a dormir, apenas criar condições que facilitem o sono. Isso passa por estabelecer rotinas tranquilas ao final do dia, respeitar os primeiros sinais de sono da criança (mesmo que os pais cheguem tarde a casa e lhes apeteça brincar), evitar sons demasiado altos, luzes fortes e o brilho de ecrãs, que afetam a produção de melatonina. O problema não está em os bebés acordarem várias vezes à noite, mas no modo exigente como organizamos a vida e esperamos que eles se adaptem. Em última análise, crianças agitadas tendem a dormir pior porque ainda não controlam as emoções fortes que sentem e ficam ansiosas. Cabe aos pais dar-lhes tempo para aprenderem essas estratégias de regulação e perceberem do que realmente precisam para descansar. O choro e as birras que eventualmente façam são só uma resposta ao stress que não sabem verbalizar.

Os pais também têm direito a fazer birras?
Os pais fazem muitas birras, na verdade. Por vezes são mais crianças do que os miúdos que têm em casa – já tive vários a dizerem-me isso em momentos de reflexão nas consultas –, embora saiba que nem sempre é pacífico lidar com os sentimentos fortíssimos que os nossos filhos despertam em nós. Ser adulto não significa ser maduro. Muitas vezes o nosso próprio desenvolvimento não foi o melhor: o cérebro não apurou tudo o que devia para nos ajudar a controlar os impulsos, ou talvez tenhamos crescido com a imagem errada de que éramos um pouco defeituosos, o que agora nos leva a reagir de formas desadequadas. Então é bom ter esta noção de que ainda temos muito a aprender para educarmos os nossos filhos.

A AUTORA

Laura Sanches licenciou-se em psicologia clínica em 2002, pela Universidade Lusófona, e em 2004 concluiu o mestrado em Consciousness and Transpersonal Psychology da Universidade John Moores, em Liverpool. Paralelamente à psicologia clínica, entre 2001 e 2014 deu aulas de yoga, que integra nas consultas juntamente com o mindfulness, técnicas de relaxamento e gestão de stress. Desde 2012 que se centra nas áreas da parentalidade positiva e aconselhamento parental (com foco nas implicações da teoria do apego no desenvolvimento infantil). Trabalha no Espaço Vida, em Lisboa, onde dá consultas, workshops e cursos. É autora do blogue Parentalidade com Apego e coautora do PsiYoga. Escreveu ainda os livros Mindfulness Yoga – Atenção Plena para Lidar com os Desafios (ed. Mahatma), Mindfulness para Pais (ed. Manuscrito) e o muito recente Amar Não Basta (ed. Matéria-Prima).

Vai visitar um recém-nascido? Conheça as regras

Agosto 8, 2019 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto e imagem do DN Life de 7 de julho de 2019.

Não fazer visitas antes de o bebé completar 28 dias, nunca dar beijos e evitar os palpites. Esta são algumas das regras mais importantes para garantir a segurança do recém-nascido. Pediatras dizem que 90% das pessoas falham quando visitam bebés.

Texto de Joana Capucho

Aparecem sem um telefonema prévio a perguntar se a visita é oportuna. Levam crianças para ver o recém-nascido. Tocam-lhe nas mãos. Dão-lhe beijos. E, para piorar, ainda soltam um “se calhar está com fome” quando a criança chora. “Noventa por cento das pessoas cometem erros quando visitam um bebé”, diz a pediatra Paula Vara Luiz. “As pessoas não têm noção do que é um recém-nascido” e, por vezes, “os pais ficam numa posição em que não se querem afirmar para não parecerem mal-educados”.

Quem acompanha a gravidez geralmente tem muita vontade de estar presente nos primeiros dias de vida do bebé, mas, apesar de as intenções serem as melhores, os erros são frequentes. Há um conjunto de regras básicas a ter em conta, que, se não forem cumpridas, colocam em causa a saúde e a segurança do recém-nascido. “Estes comportamentos errados podem gerar infeções no período neonatal que carecem de internamento. E o internamento é a situação mais violenta em pediatria”, diz a pediatra.

“Após o nascimento de um bebé as famílias precisam de tranquilidade. Por isso, sugere a pediatra Graça Gonçalves, “as visitas são bem-vindas se forem levar comida, lavar a roupa ou limpar a casa. Não devem ir para dizer coisas ou estar com o bebé”.

Dependendo do local da infeção, a criança pode ficar com sequelas. “Podem ser necessárias terapias invasivas, como a ventilação mecânica”. Em última instância, “uma simples constipação no adulto pode mesmo causar a morte de um bebé”. Por isso, falámos com duas pediatras para elaborar uma lista de regras importantes a ter em conta quando pensar visitar um recém-nascido.

Visitas proibidas até completar 28 dias. “Um recém-nascido não recebe visitas nos primeiros 28 dias de vida”, diz Paula Vara Luiz. Só devem ser permitidas visitas dos familiares mais próximos ou amigos muito chegados. Uma opinião partilhada pela pediatra Graça Gonçalves: “No início da vida é muito mau haver visitas a recém-nascidos”. Até aos 28 dias, sublinha, “escusam de aparecer”.

Para evitar surpresas desagradáveis, a consultora internacional de lactação sugere que o pai envie uma mensagem quando o bebé nascer, a dizer “nasceu, pesa x e pode receber visitas em casa dentro de x tempo”. Nem pensar aparecer na maternidade. “É absurdo encher o quarto de visitas. No privado, as mães recebem visitas de manhã à noite. Ficam muito cansadas”, refere Graça Gonçalves.

Após o nascimento de um bebé as famílias precisam de tranquilidade. Por isso, sugere a pediatra, “as visitas são bem-vindas se forem levar comida, lavar a roupa ou limpar a casa. Não devem ir para dizer coisas ou estar com o bebé”. E convém que sejam rápidas.

Telefonar antes de aparecer. Nunca apareça sem avisar. Se quiser fazer uma visita, confirme com os pais qual a melhor altura. E, se possível, volte a perguntar quando estiver próximo da hora agendada. “Nos primeiros trinta dias a mãe está à beira de um ataque de nervos, exausta. As visitas são de uma agressividade, de uma violência enormes. As mães têm de ser sempre avisadas, mesmo depois do primeiro mês”, refere Paula Vara Luiz.

Nunca levar crianças. À exceção do agregado familiar, as crianças não devem estar com os recém-nascidos. “Tanto metem a mão no rabo, como no nariz e depois na chupeta. E espirram para cima do bebé”, exemplifica Paula Luiz. Teoricamente, podem estar na presença dos bebés a partir do primeiro mês, mas com muitos cuidados. Nos primeiros meses de vida, não devem manipular o bebé.

Se estiver doente, não vá. Mesmo que seja familiar próximo ou amigo chegado, nunca deverá visitar o recém-nascido se estiver doente. Enquanto um adulto reage com ranho a uma constipação, o bebé pode desenvolver uma bronquiolite, com necessidade de internamento.

“Só deve estar ao colo da mãe, do pai e um pouco dos avós. As outras pessoas não devem mexer no bebé, porque albergam microrganismos que podem não lhes fazer mal mas que não são benéficos para o bebé. Este só deve receber e contactar com os microrganismos dos pais.”

Não mexer no bebé. “Só deve estar ao colo da mãe, do pai e um pouco dos avós. As outras pessoas não devem mexer no bebé”, aconselha Graça Gonçalves. E explica porquê: “As pessoas albergam milhentos microrganismos que podem não lhes fazer mal, mas que não são benéficos para o bebé. Este só deve receber e contactar com os microrganismos dos pais”.

Pode ver o bebé e conversar com os pais, mas não precisa de lhe pegar ao colo. “A não ser que a mãe peça. Deve oferecer os préstimos, mas sem impor”, indica a pediatra.

Lavar sempre as mãos. Assim que chegar a casa da família, deve lavar de imediato as mãos. “Os avós gostam muito de pegar nos bebés, mas devem fazê-lo durante pouco tempo e sempre com as mãos lavadas”, diz Paula Vara Luiz. Por pouco tempo entenda-se “10 a 15 minutos no máximo”. De seguida, o bebé deve voltar para o seu ambiente.

Esqueça os beijos. As duas pediatras são unânimes: não se deve dar beijos aos bebés. “Os pais dão. Eles estão habituados ao cheiro e às bactérias dos pais, mas os estranhos não devem dar beijos ao bebé. Os outros familiares devem dar na cabeça e nas zonas onde tem cabelo”, sugere Paula Vara Luiz. Graça Gonçalves diz, ainda, que “é absurdo” beijar as mãos dos bebés. “É dos piores sítios. Se fizeram muita questão, devem dar nos pés”.

Não dê palpites. Faça elogios. O cansaço, a ansiedade e as hormonas deixam as mães extremamente vulneráveis no período pós-parto. “Têm umas hormonas muito especiais nesta fase da vida, através das quais fazem a vinculação à criança e a amamentação. Estas dão-lhes uma sensibilidade ao que é dito e feito muito maior do que o habitual”, diz a consultora internacional de lactação da clínica Amamentos. Por isso, é importante que as visitas não deem palpites ou sugestões, porque um simples “se calhar está com fome” pode ter um efeito muito negativo sobre a mãe, que coloca em causa se o seu leite é bom ou se está a falhar. “Coisas que parecem inocentes, aos ouvidos da mãe naquela altura são tudo menos inocentes”. O melhor mesmo, diz Graça Gonçalves, é dar elogios. “Isso enche o ego das mães”.

Como evitar o divórcio nos primeiros meses de vida de um bebé

Agosto 7, 2019 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do Observador de 21 de julho de 2019.

Tânia Pereirinha

Noites sem dormir, roupas para lavar, fraldas para trocar e um ser indefeso que chora, geme e grita várias horas por dia. A grande dúvida é: por que motivo ninguém diz que é tão difícil ter um bebé?

No dia em que completaram o primeiro ano de casados, no final de junho, Filipa Silva e o marido tiveram um serão diferente. Não foram para fora, não passaram a noite num hotel, nem sequer saíram para ir a um restaurante. Pegaram no telefone e encomendaram sushi do centro comercial mais próximo para o jantar. Quando a encomenda chegou, comeram juntos, no apartamento onde vivem, na Amadora, enquanto na cadeirinha de bebé a filha de ambos, de apenas 10 meses, roía um pedaço de pão. Às 21h, mãe e filha estavam deitadas, como de costume. “Sucesso: não tive de fazer o jantar… Luz de velas? Romance? O que é isso? Nós somos dois conhecidos que vivem debaixo do mesmo teto”, desabafa Filipa, 29 anos, ao Observador.

Desde que a licença de maternidade de 5 meses chegou ao fim, pelo menos durante a semana, Filipa e o marido coincidem na cama durante umas horas, mas não adormecem nem acordam juntos. Tudo porque, como não conseguiram arranjar creche para a bebé, ela teve de se despedir do emprego que tinha como assistente administrativa numa sociedade de advogados, das 9h às 18h, e de arranjar outro trabalho, com um horário menos “normal”, que lhe permite ter a bebé durante menos horas por dia numa ama.

Ainda tentou tirar partido da legislação que protege os pais de crianças até aos três anos e prevê o regime de teletrabalho, mas como não conseguiu, não teve outra opção: “Pedi para trabalhar remotamente em casa, algo que já tinha feito durante a baixa e em vários outros episódios, a minha função era compatível, desde que ajustada. «Estamos a contratar pessoas novas, não podemos abrir esse precedente», foi um dos argumentos da diretora dos Recursos Humanos. Agora sou técnica informática, trabalho das 6 da manhã às 15h, porque é a única forma de ganhar dinheiro e ter tempo para ter uma vida em família”.

Quando utiliza a palavra “família”, Filipa Silva está a pensar sobretudo na filha. E no marido também, mas mais enquanto pai da bebé. Desde o nascimento, em agosto de 2019, que a vida de casal praticamente deixou de existir. Primeiro foram as sequelas da cesariana, difíceis e traumatizantes. Depois o processo de amamentação, que correu tão mal que quase a fez entrar em depressão. A seguir tudo o resto: o choro, as cólicas, as noites sem dormir, o cansaço, a culpa, a frustração e as consequentes zangas. “Nós não discutíamos e agora discutimos. O meu marido acha sempre que o estou a condenar quando faço uma sugestão ou lhe pergunto qualquer coisa. Ele nunca me subia o tom de voz, acha que se passam coisas na minha cabeça que não passam”, revela.

“Todo o meu tempo é para a casa e para a bebé. Quando a miúda adormece, que é o tempo que temos enquanto casal, estamos estoirados. O sexo é à pressa, não vá ela acordar. Não há tempo sequer para ser sexy”, admite Filipa.

Não é que o marido, nove anos mais velho, também ele técnico informático, não reparta com ela as tarefas e responsabilidades inerentes à bebé — “É um ótimo pai: alimenta, prepara comida, dá banho, veste, muda mil fraldas” –, o que está a falhar é mesmo a sua prestação como companheiro e amante, diz. “Enquanto marido tem muito a melhorar; isto é uma viagem a dois. Sinto falta do romance, do tempo a dois sem interrupção, de ir dançar, de sair… Nós durante a semana nem sequer adormecemos juntos. Não o vejo a deitar, nem ele me vê acordar, não temos estas pequenas coisas, podermos aconchegar-nos no corpo da pessoa que amamos… Parecemos duas pessoas que partilham casa”.

Por muito que não apareça nos prospetos de boas-vindas ao maravilhoso novo mundo da paternidade, é uma realidade incontornável: os primeiros meses de vida dos bebés — ou os primeiros anos, vá — são uma prova de fogo para a vida em casal.

E isto é válido para todos, sejam casais recentes ou duradouros, se bem que com intensidades também distintas, garante ao Observador a psicóloga clínica Catarina Mexia, especialista em terapia de casal: “A par da infidelidade e do desemprego, o nascimento de um filho, sobretudo se for o primeiro, é uma das situações que mais impacto tem na vida de casal”.

A probabilidade de a coisa correr mal (leia-se de terminar em separação ou divórcio) será inversamente proporcional ao nível de solidez e estrutura do casal, bem como às capacidades de flexibilização e adaptabilidade de marido e mulher, explica a especialista. E tem aumentado nos últimos anos: “Tradicionalmente, quando as relações se construíam ao  longo de anos de namoro, havia uma ligação que se estruturava no convívio a dois. Quando aparecia uma criança e essa construção de relação tinha acontecido de forma saudável e tendo em conta as necessidades de cada um, era sempre um terceiro elemento que vinha «intrometer-se» na relação, sim, mas as coisas ajustavam-se sem dificuldades de maior. Quando nasce um bebé há claramente um desvio no foco. E não há volta a dar, por muito que digamos que o pai também participa, há uma grande diferença, até a nível fisiológico, por isso é a mãe quem passa a concentrar todas as atenções no bebé. Se o casal não estiver bem alicerçado, se não conseguir entender este desvio, que é natural e deve ter uma duração limitada, pode ter dissabores fortes. Vai sempre existir alguém que sente que perdeu alguma coisa — o homem –, e alguém que pensa que está a dar tudo e a receber pouco — a mulher.”

Para evitar que isto aconteça, defende Catarina Mexia, será essencial “manter o foco”: “Costumo dizer aos meus casais que se aquilo que os fez estarem juntos não foi o desejo ou o projeto de terem filhos, mas o facto de gostarem um do outro, é nisso que têm de se focar. O que faz sentido é pensarem em cada um individualmente, depois como casal e só então como pais de uma criança. Claro que, numa primeira fase, os bebés precisam muito dos pais — e depois também; haverá sempre uma grande complexidade neste processo –, mas o importante é não perder o foco. E o foco, o objetivo, aquilo que os faz estarem juntos, é levarem a relação a bom porto. Tendo uma criança para educar, dar carinho e fazer crescer pelo caminho, claro”.

67% dos casais admitiram ser “muito infelizes” na relação durante os três primeiros anos de vida dos filhos. Foi deste número que John e Julie Gottman, especialistas em relacionamentos e divórcios, fundadores do instituto em Seattle com o seu nome, partiram em 2013 para uma série de 16 estudos que lhes permitiram concluir uma série de coisas no mínimo perturbadoras.

Depois do nascimento do bebé, a frequência e intensidade das discussões aumenta significativamente; apesar de se fartarem de trabalhar, em casa e fora dela, nem mãe nem pai sentem o seu esforço reconhecido pelo outro; o desejo sexual das mulheres tende a diminuir, sobretudo durante o período de amamentação, o que por sua vez faz com que a frequência com que o casal tem sexo também caia significativamente; as mães canalizam todas as suas energias para a relação com o bebé e, emocionalmente, têm pouco a oferecer aos maridos ou parceiros.

Assustador? Há mais: vários estudos estabelecem correlações negativas entre a satisfação matrimonial e a existência de filhos; outros garantem que, no caso das gravidezes não planeadas, o panorama tem tendência a ficar ainda mais negro.

“Da minha «estatística» em consulta de psicologia infantil, os pais de primeira viagem têm uma enorme probabilidade de rutura nos primeiros 3 ou 4 anos de vida do primeiro filho. Gerir uma empresa é bem mais difícil do que sonhar ter um negócio, não sei se me faço entender”, diz a psicóloga e terapeuta Ana Durão, especialista em aconselhamento de crianças e adolescentes. “Tenho muitos casais que chegam às consultas exaustos, com dificuldades para tomar conta dos filhos, de os educar e cuidar. São casais discordantes, fragilizados com as suas próprias inseguranças individuais e da relação. Ainda a semana passada tive em consulta um casal que discutia entre si, cada palavra dita por um era corrigida pelo outro. Na verdade precisam de um espaço para cada um, um espaço para o casal ser um casal e um espaço para serem pais. Precisam de saber desempenhar os vários papéis.”

Filipa Silva, que até é filha de pais divorciados — que nunca estavam “em sintonia” —, conhece as estatísticas, teme que a realidade a leve pelo mesmo caminho e questiona as convenções sociais, que fazem com que o nascimento de um novo bebé seja sempre recebido com alegria, nunca com alegria e preocupação, como se o processo de gerar, ter e educar um filho não fosse um dos trabalhos mais difíceis de todos. “Toda a gente doura a pílula. Ninguém fala do sacrifício pessoal que é necessário. E isto é tão pior numa sociedade como a portuguesa, em que a família é vista como algo culturalmente importante, mas depois há muito pouco suporte para uma vida em família. Espera-se que a mulher deixe a casa para trabalhar. Mas com estas novas responsabilidades para a mulher, cada vez mais acumula deveres. E os direitos? E a vida conjugal?”

Porque as experiências de terceiros, sejam eles conhecidos ou não, são quase tão essenciais para perceber, enquadrar e perspetivar as nossas próprias vivências quanto os conselhos de quem estuda sobre o assunto, falámos com outros quatro pais e mães recentes sobre o impacto que a chegada dos filhos teve ou está a ter nas suas vidas conjugais. Ouvimos histórias de praticamente todas as cores — só dourado é que não.

“Ter um bebé não mata completamente o romantismo. Mas também acho que é porque temos uma bebé que colabora e dorme”

Talvez não seja a prova que faltava para determinar que as mulheres são de Vénus e os homens de Marte, mas mostra bem quão diferentes são as mentes de um homem e de uma mulher, neste caso casados há cerca de dois anos, pais de uma bebé de seis meses e meio. Teresa Sotomaior Estrela, 34 anos, e José Marçal, 39, falaram com o Observador em separado, no mesmo dia, com cerca de duas horas de diferença. Questionados sobre de que forma o nascimento de Pilar lhes afetou a vida conjugal, responderam de maneiras diferentes.

Para ela, a maior dificuldade dos primeiros meses de maternidade tem sido, além do cansaço e da desorganização, a falta de iniciativa do marido: “Sinto que ele ainda está noutro planeta. Ele tenta, mas… o que sinto é que tenho de estar sempre a dizer-lhe ‘faz isto, faz aquilo’, não tem iniciativa, não decide nada. Já me cansa estar sempre a dizer tudo, parece que fiquei com dois filhos. Considero-o uma pessoa inteligente e capaz, mas agora não percebo”.

Para ele, o pior é mesmo a falta de tempo: “Não é que não estivesse à espera, mas o primeiro grande impacto é a falta de tempo para nós, como casal. E para mim também, e para cada um de nós, nas atividades que tínhamos sozinhos. Desde que a Pilar nasceu, por exemplo, corri duas vezes. O cansaço e ter necessidade de dormir e não poder fazê-lo também vêm a seguir. Há muitas tarefas novas, tratar da roupa, alimentar a bebé, acordar a meio da noite… Este cansaço leva a algumas irritações entre nós, mas acho que já estamos a conseguir equilibrar mais as coisas”.

“Tenho menos paciência, tolero menos quando não há iniciativa para fazer certas coisas. Mas ele pede-me desculpa, prefere que lhe diga em vez de ficar a remoer. Acho que o segredo é esse: conversar, relevar e, se calhar, antes de dizer alguma coisa assim pior, ir dormir um bocadinho. Além disso, eu também consigo pedir desculpa, dizer que exagerei. Ter um bebé não mata completamente o romantismo. Mas também acho que é porque temos uma bebé que colabora e dorme”, tinha dito Teresa uma ou duas horas antes.

Foi exatamente uma semana depois de ter constituído uma empresa de mobiliário infantil, com a irmã, que mora em Bruxelas, que Teresa descobriu que estava grávida. Não é que não tencionassem ser pais, só não pensaram que ia acontecer tão depressa. Com José, engenheiro eletrotécnico, também a trabalhar por conta própria e, ainda para mais, a fazer um doutoramento, o processo revelou-se especialmente complicado. “Dei à luz em dezembro, num dia em que tinha uma entrega de peças no Porto. Estava na maternidade a mandar mensagens para a cliente e para o fornecedor. Foi aí que me dei conta de como é bom trabalhar por conta de outrem.”

O facto de as ajudas familiares disponíveis não serem muitas e estarem limitadas aos avós paternos de Pilar (os maternos vivem longe, no norte do país) não só não ajuda como até provoca novos focos de tensão entre o casal. De acordo com Catarina Mexia, esta é uma das questões para que os casais devem estar particularmente alerta quando nasce um bebé: as relações com as famílias de origem. “Quando nos constituímos como família temos de criar fronteiras permeáveis mas bem marcadas face ao resto da família. Ora, quando nasce um bebé, é quase como se houvesse um ataque às muralhas. Porque as heranças culturais e familiares são fortes e podem nem sequer ser consentâneas no casal, de forma a evitar zangas é essencial conversar e negociar novas regras para esta fase”, aconselha.

José e Teresa não o fizeram, mas ambos reconhecem que a situação tem potencial para causar problemas. “Nos primeiros meses custa e nunca deixámos a Pilar”, diz ele. “Depois também são os meus pais, se calhar é mais fácil para mim do que para a Teresa aceitar que ela fique lá… Às vezes esta questão também leva a algumas discussões. É preciso estabelecer fronteiras, cada um tem as suas teorias, os avós fazem comentários, há pequenas coisas que podem até não ser críticas, mas são percebidas como se fossem, e depois, com o cansaço, isto ganha outras proporções… É uma coisa que estamos a tentar estabilizar, mas penso que, de vez em quando, vai ter de acontecer, vamos ter de deixar a bebé com eles. Como nas amizades, as relações também se constroem através de experiências. Viajar, estar com amigos, ir àquele evento — tudo isso faz parte da vida, de uma vida saudável. Se for só rotina não é vida”, explica.

Teresa, que já antes tinha recordado as viagens que fizeram juntos a São Tomé e Príncipe, aos Estados Unidos e ao Vietname, é da mesma opinião. Mas tem noção de que, com Pilar, dificilmente as coisas voltarão a ser o que eram. Pelo menos para já: “Gostamos de fazer viagens grandes, sem guias nem grandes planos, mas acho que tão cedo não fazemos mais nenhuma. No Vietname dormi num sítio por dois euros e meio onde até ratazanas apareceram, acho que não ia com a minha bebé para lado nenhum com estas condições. Além disso, com ela, a questão monetária também mudou. E isso foi outra dificuldade grande: repartir o orçamento. Todas as finanças andam à volta da bebé. Não discutimos sobre o assunto, acho que nos limitamos a ficar tristes”.

Para já, têm assuntos mais urgentes a resolver. O primeiro é conseguir os melhores cuidados médicos para Pilar que, depois de um primeiro rastreio auditivo inconclusivo — “Provavelmente é líquido nos ouvidos”, foi a informação que lhes deram –, foi diagnosticada com deficiência auditiva. Tinha apenas dois meses: “Ela ouve, mas só a partir dos 50 decibéis, é como se tivesse sempre os dedos nos ouvidos. A nossa cadela ladra e ela não acorda, por exemplo. Vai ter de usar aparelhos auditivos para sempre. Todos os estudos dizem que, se as crianças com este tipo de deficiência tiverem acesso a estes aparelhos até aos 6 meses, antes da aquisição da fala, não têm problema nenhum. Estávamos a ser seguidos na Estefânia e a médica disse-nos logo para esquecermos, que com os rendimentos que temos íamos ficar um ano ou dois à espera, por isso tivemos de comprar o aparelho sem comparticipação”, explica Teresa.

Para além de lhes ter roubado ainda mais tempo de sono, para pesquisas na Internet e preocupações, o problema da bebé, que desde os 5 meses já utiliza o aparelho e ri muito mais com as brincadeiras dos pais, levou-os a criar um grupo no Facebook para reunirem outras famílias nas mesmas circunstâncias e tentarem formar uma associação. O que por sua vez fez com que ficassem ainda com menos tempo. “Ainda não conseguimos reorganizar-nos, sinto que andamos sempre atrás do relógio. E andamos muito cansados, mas disso todos os pais se queixam. Para os pais contemporâneos, que antes de terem filhos gostavam de ir beber um copo ao fim do dia, ir a exposições, sair da cidade ao fim de semana, é ainda mais difícil. Na minha licença de maternidade senti que estava numa prisão, que estava a ficar maluca, sem ver pessoas. Agora que estou a trabalhar a tempo inteiro não melhorou muito, ao fim de semana sinto que sou doméstica. Temos uma senhora uma vez por semana, de manhã, e para duas pessoas dava perfeitamente, mas com a Pilar é impossível. Por isso, aos sábados e domingos tenho de lavar a roupa da bebé, passar a roupa da bebé, fazer sopinhas, fazer frutinhas… e pensar que ainda tinha a loucura de fazer as minhas próprias papas! Isso é para gente que não trabalha, quem trabalha compra papas de supermercado”.

Uma das causas mais comuns das discussões entre casais heterossexuais é a divisão das tarefas domésticas. Teresa e José não são exceção. Ela garante que é quem faz mais em casa e acusa-o de não ter iniciativa: “Ele pode ver uma montanha de roupa, mas nunca vai pensar que ela deve ir para dentro de uma máquina. E desde que a Pilar nasceu só preparou uma sopinha, diz que eu faço melhor…”. Ele diz que está a tentar ajudar mais: “A roupa para lavar e passar é interminável e mesmo ao fim de semana há sempre tarefas para fazer. Sinto que é mais difícil arrumar a casa e manter as coisas. Há tarefas que nós dividimos e há coisas, como cuidar da roupa, que sempre foram mais da Teresa. Tento ajudar mais, cozinhar um pouco mais do que fazia antes, mas, de vez em quando, discutimos por causa disso. Antes não discutíamos muito, agora, de vez em quando, há coisas chatas que não conseguimos resolver, mas acho que já está melhor, vamos falando… São coisas que só depois de discutirmos é que resolvemos”.

Catarina Mexia, apesar de reconhecer que é sobre elas que cai a maior parte do trabalho doméstico, diz que muitas mulheres também não estão totalmente isentas de culpa neste processo. “As mulheres têm de mudar, de ser capazes de delegar. Uma das velhas guerras é a dos homens que são constantemente corridos dos feudos femininos por não saberem fazer à maneira delas ou no tempo delas. O que é mais importante? Que as coisas sejam feitas ou que sejam feitas «assim»? Se as pessoas falassem mais daquilo que precisam e menos do que é socialmente aceite chegavam a sítios muito mais interessantes.”

Quando param para pesar os prós e os contras, Teresa e  José são unânimes: não obstante alguma irritação ocasional e o cansaço omnipresente, está longe de ser tudo mau. “Não posso dizer que estamos sempre chateados, temos momentos bastante bons, quando a bebé dorme e estamos descansados, quando ao fim de semana vamos todos ao jardim ou ao café…”, enumera  ela.

De acordo com Catarina Mexia, o segredo é mesmo este: tirar prazer das coisas mais simples e aproveitar cada momento, preferencialmente a dois: “ Tempo de casal não precisa de ser um fim de semana não sei onde nem um jantar num restaurante caríssimo. Podem simplesmente por uma música — a mesma que ouviam na altura em que tiravam partido da presença um do outro e ficavam horas a conversar –, desligar os telemóveis e retirarem-se do mundo, da família e do trabalho. Foquem-se apenas naquilo que vos dá prazer e conversem, inventem, estejam juntos. Façam o que fariam se quisessem conquistar o outro, por exemplo.”

Ainda assim, tanto Teresa como José admitem que o tempo não chega para tudo e, para já, a sexual é uma das partes da vida de casal que está mais ou menos em espera. “É menor a quantidade de vezes que acontece e o fator surpresa não é uma coisa que se consiga tão facilmente, mas faz parte, ainda só passaram seis meses, não considero que seja um problema grande”, desvaloriza José. “Todos os dias tentamos ver uma série a seguir ao jantar — que é sempre mais tarde do que queremos. Se calhar estarmos aquele bocadinho juntos no sofá já significa muita coisa.”

“Quando a E. finalmente nasceu, acho que percebemos que até ali tínhamos vivido em piloto automático, que tínhamos deixado de ter um futuro”

Ao contrário do que acontece com um quinto dos casais portugueses em idade reprodutiva, Bruno Ferreira, 38 anos, e N. não tinham qualquer problema de infertilidade, bem pelo contrário. Mas isso só fez com que o caminho que percorreram até ao nascimento de E., há 3 anos, ainda fosse mais difícil e tortuoso: por três vezes, N. engravidou e, por três vezes, abortou, ao fim de apenas algumas semanas de gestação.

“Perdemos três bebés. À primeira, toda a gente nos dizia que era normal. E à segunda também, nós é que achámos que não podia ser e começámos a fazer exames. Foi assim que soubemos que a N. tem um problema — chama-se síndrome antifosfolípidico, SAF — que lhe estava a provocar tromboses nos vasos finos. Geralmente por volta da quarta ou da quinta semana, a placenta tinha uma trombose e parava de crescer. Os bebés continuavam a crescer normalmente, até que deixavam de ter espaço e rebentavam com a placenta… Quando descobrimos isto, o médico que nos seguia começou a delinear um plano de tratamento, mas a N. engravidou antes de poder começar a fazer o tratamento e, quando o fez, já foi tarde demais. A N. sempre se recriminou por ter perdido o terceiro bebé. Esse foi um dos nossos problemas”, conta Bruno Ferreira ao Observador.

Não foi o único. Antes de começarem a tentar ser pais, Bruno e N. estiveram juntos durante dois felizes anos, findos os quais iniciaram uma jornada de quase três anos de dor, ao longo da qual, além de três bebés por nascer, perderam ainda quatro avós, dois cada um, de quem eram particularmente próximos. Depois, E. nasceu e foi a felicidade suprema — a que se seguiu a dura realidade.

Até fazer um ano, a bebé acordou religiosamente de duas em duas horas. N., que passou os nove meses de gestação de baixa e depois gozou oito meses de licença de maternidade, passava 24 horas sobre 24 horas com ela. Raramente saía de casa e, se saía, era para fazer compras, nunca para se distrair.  “Foi super complicado e muito cansativo, sobretudo para a N. À noite, eu ferrava — e ferrava mesmo –, admito que não lhe dava muita ajuda, e o cansaço foi-se acumulando. Discutíamos muito e eu levava um bocado por tabela com as crises de mau feitio, sobretudo por causa do tempo que eu passava fora de casa.”

Apesar de avisar que com o passar do tempo as coisas não se tornam mais fáceis — “Aliás, só têm tendência a piorar: são mais as noites sem dormir, aumenta o stress, há mais decisões difíceis para tomar” –, Catarina Mexia garante que há formas de atenuar a árdua tarefa de tratar de um bebé e manter o casamento à tona. “Só é necessária alguma curiosidade, humor e capacidade de invenção. Acham que vão estar juntos à noite no sofá a conversar ou ver uma série? Esqueçam, alguém vai adormecer, por isso mais vale ficarem à conversa logo que chegam a casa.”

Neste caso, Bruno até insistia para que N. saísse com as amigas e se distraísse, mas ela não queria. Durante os meses de licença de maternidade, o universo dela, como acontece invariavelmente a quase todas as mães, era o da bebé. Avisa a terapeuta, não é expectável que alguém que passa os dias entre fraldas, bolsados e biberões tenha respostas muito excitantes a dar a um “como é que correu o dia?”. O que não justifica de todo que o membro de casal que mantém uma vida lá fora deixe de perguntar: “Mostrem interesse no dia do outro, mesmo que isso signifique apenas ouvir mais uma história de fraldas. No momento em que estão de licença em casa com um bebé, é normal que as mulheres só tenham isso para dar. Se não mostrarem interesse por isso, então os maridos não mostram interesse pelas mulheres”.

Mais ou menos na altura em que a filha nasceu, Bruno, que na altura trabalhava numa multinacional como engenheiro de redes de comunicação, criou com um grupo de amigos uma marca de cerveja artesanal, que lhe passou a ocupar parte dos fins de tarde. “Passou a ser o principal motivo das nossas discussões, a nossa maior divergência. Eu passava lá umas duas ou três horas por dia e, quando chegava, dava banho à miúda, vestia-lhe o pijama, dava-lhe o biberão para adormecer e depois ainda começávamos a fazer o jantar juntos — a Bimby fazia o resto. Mas, para a N., todo o tempo que eu passava fora de casa, desde as 7h até às 20h, era tempo que eu dedicava à cerveja. No fundo, ela nunca encaixou que eu basicamente tinha era dois trabalhos. Diz que durante 8 meses viveu sozinha nesta casa. Não concordo, se calhar estive fora durante 30 ou 40% desse tempo. Quando a E. tinha 5 meses, passámos três semanas e meia em Nova Iorque e, quando voltámos, andámos a viajar pelo país. Aproveitámos o meu mês de licença mais três semanas de férias para estarmos juntos e passearmos, o calendário dela não bate certo com o meu”, recorda.

Não é por acaso que em tempo de férias tudo parece mais fácil: para além de passearmos, termos experiências novas e estarmos livres de horários e obrigações, em férias estamos também longe de casa e por isso não temos de cozinhar, pôr a roupa a lavar, limpar o pó ou sequer levar o lixo, o que necessariamente faz com que sobre mais tempo para namorar e estar em casal. É por isso que, mais do que como garante de equidade e respeito entre as duas partes que o compõem, a divisão de tarefas deve ser vista como uma forma de possibilitar e facilitar a existência do casal, defende a terapeuta Catarina Mexia. “A divisão de tarefas não tem só um lado prático. É reconhecer que se o tempo que o casal tem em casa depois do trabalho é curto e há coisas para fazer, se as fizerem juntos, vão poder despachar-se e parar para estarem um com o outro mais rapidamente. Dividir as tarefas é criar condições para que o casal possa acontecer.”

Depois das férias e do regresso de N. ao trabalho, as coisas realmente melhoraram — tanto que, quando E. tinha um ano e meio, decidiram casar e batizar a bebé. Até que pioraram outra vez.

Foi antes do verão passado: Bruno Ferreira percebeu que estava a fazer o mesmo que aquele colega que sempre tinha criticado — que se deixava ficar no trabalho até tarde, só para não ter de ir para casa discutir com a mulher — e que o problema era mesmo grave. “Foi o meu wake up call. Nesse dia, fui para casa e disse-lhe que, a continuar assim, não íamos acabar bem, que tínhamos de dar a volta à nossa relação e que ela tinha de procurar a ajuda de um psicólogo. Depois de muito me dizer que não queria, finalmente foi: meteram-na logo de baixa, estava no limiar de um burn out.”

Bruno não estaria muito melhor: até tinham passado a discutir menos, mas, de cada vez que o faziam, sentia-se tonto e deixava de conseguir respirar. “Comecei a ter ataques de pânico. Pedi-lhe que acalmasse e realmente ela acalmou. Estivémos de férias em Espanha, corremos o país todo os três e as coisas começaram a melhorar. Depois chegou outubro e eu, que já tinha começado a diminuir a minha atividade na cerveja, porque tinha noção de que me estava a dar cabo da vida, tive mesmo de ir fazer um evento. Desde julho que não fazia nenhum, os meus sócios não podiam, era a minha vez. Foram quatro dias. Os problemas voltaram todos. Foi aí que tomei a decisão e disse «já chega, acabou».”

Ao todo, Bruno e N. estiveram juntos quase oito anos. “Engrenámos na nossa relação com um certo objetivo e, durante o tempo em que tentámos atingi-lo, não olhámos para o passado e não resolvemos uma série de coisas que nos aconteceram pelo caminho, como a morte dos bebés. Quando a E. finalmente nasceu, quando alcançámos o nosso objetivo, acho que percebemos que até ali tínhamos vivido em piloto automático, que tínhamos deixado de ter um futuro”, analisa Bruno, nove meses depois da separação. “A nossa relação como casal foi completamente arruinada com a E.. Desde que ela nasceu perdemos toda a intimidade. A bebé estava sempre lá, no meio da nossa cama, entre nós. Tentei criar uma família, não ser como os meus pais, que são separados, mas acabei assim”, lamenta.

Catarina Mexia diz que situações como esta são mais comuns do que à partida se pensa e compara até o processo de distanciamento por que passaram Bruno e N. com o que ocorre com aqueles casais que todos julgam perfeitos mas que quando os filhos saem de casa se separam — justamente porque também eles se focaram ao longo de anos noutra coisa que não a própria relação.

“Muitas vezes quando existem dificuldades para engravidar, as pessoas ficam de tal forma focadas em ultrapassar esse obstáculo que não falam sobre as suas tristezas nem estão despertas para a tristeza do outro. Quando a criança nasce é como se fossem um balão a esvaziar, o objetivo está cumprido mas emocionalmente eles já não estão lá“, explica. “No caso dos pais exemplares e super focados nos filhos que se separam quando eles vão para a universidade o processo é o mesmo. O que é que sobra quando os filhos saem? Eles os dois. Que são estranhos. Não investiram na relação, não faziam nada juntos, só conversavam sobre o objetivo que tinham em comum.”

Agora que se separou, Bruno fica com a filha semana sim, semana não. Já acorda à noite, basta ouvi-la mexer-se — na cama e no quarto dela. Reconhece que podia ter estado mais presente, ter ajudado mais, mas também que entre ambos existem demasiadas diferenças, algumas irreconciliáveis. A forma de educar E. será uma delas: “Ela sempre foi muito condescendente com a miúda. Dá-lhe mais liberdade do que acho que devíamos dar e esse foi outro problema: nunca chegámos a acordo em relação à educação da E.. A N. nunca conseguiu perder o sentimento de que ela é muito especial. E, como eu lhe dizia, é. Mas é para nós e para a nossa família, para o resto do mundo ela é uma criança normal e, como tal, é assim que tem de ser educada”.

No final, diz que não mudaria “rigorosamente nada”. Nem o casamento, de que nunca foi apologista, e que aconteceu já o processo que os levaria à separação estava em curso: “Ela e a família recriminaram-me muito por isso, perguntaram-me porque é que casei para me separar um ano a seguir. Casei porque, para mim, fazia sentido. Tive muitas relações antes e nunca me fez sentido casar. A única pessoa com quem fez sentido foi com a N.”.

“Os homens continuam a viver as vidas deles de forma normal. Nós acordamos a pensar no que há para fazer e deitamo-nos a pensar no que não foi feito”

Quando soube que estava grávida, Magda Santos, 29 anos, teve medo de contar a novidade ao namorado, J., de 37. Viviam juntos em Matosinhos há cerca de um ano, ela digital marketeer numa empresa de turismo de luxo, ele guia turístico em bicicleta, mas ter um bebé não lhes fazia parte dos planos. Foi lavada em lágrimas, “no maior pânico”, que Magda anunciou que C., hoje com um ano e quatro meses, estava a caminho. J. surpreendeu-a, ficou contente, disse-lhe que ia correr tudo bem. Meia hora depois, encontrou-o na sala, em silêncio, de olhos fitos na parede vazia. Recorda-se do que ele lhe disse na altura, confessa ao Observador, como uma espécie de premonição: “A nossa vida acabou”.

Durante a gravidez, não houve problemas de maior — “Fui apaparicada, tratou-me muito bem” –, mas, a partir do momento em que C. nasceu, as coisas mudaram. A bebé ainda chorava todo o dia e toda a noite quando, aos três meses, o pai começou a passar temporadas de duas semanas seguidas fora de casa. “Era a época alta do turismo, durante sete meses foi assim. Não tenho suporte familiar, foi muito difícil”, recorda Magda, que ficou sozinha a tratar da filha.

No caso terá sido absolutamente necessário, por questões financeiras, mas talvez devesse ter sido mais bem conversado. De acordo com a psicóloga Catarina Mexia, um erro frequentemente cometido pelos pais e mães recentes é o de julgar que tudo pode continuar igual depois de nascer um bebé: “Ouço muitas vezes em consulta pessoas que dizem que não vão abdicar do seu sucesso profissional por causa dos filhos. Ou que querem continuar a sair à noite como antes, com os amigos. São pessoas que não compreendem o alcance da decisão que tomaram“.

Na verdade, não é por nascer um bebé que aquela promoção tem de ser recusada ou que nunca mais se poderá sair para dançar e beber um copo, decisões como essas passam é a ter de estar sujeitas a uma maior negociação (e alternância) entre o casal. “Quando nasce um filho cada um dos elementos do casal tem de se colocar em segundo plano. Ou pelo menos de reavaliar as suas prioridades, ajustar hábitos de vida e responsabilidades profissionais”, diz a especialista. “Dou o exemplo de um casal de amigos: na altura em que lhes nasceu o segundo filho, ele, que é médico, começou a fazer a especialidade, e ela abrandou. Depois, quando nasceu ao terceiro, fizeram ao contrário: ela teve a oportunidade de fazer o doutoramento e ele ficou mais dedicado à família.”

No caso de Magda e do namorado não aconteceu bem assim: quando regressava a casa, J. não compensava propriamente o tempo perdido. “Ele tem uma filha de 13 anos, tendo experiência com uma criança achei que fosse mais fácil ajudar com esta, mas parece que voltou à estaca zero. Ele é muito querido, é muito fofinho e, vendo de fora, realmente é um bom pai. Mas quando vamos ao fundo da questão, ser um bom pai não é só dar miminhos — ninguém come miminhos.”

Problema: ao nascimento da bebé, esse momento de stress para a vida em casal, juntou-se, entretanto, outro fator de desestabilização. J. passou a trabalhar apenas de forma esporádica, aos fins de semana, pelo que o de Magda se tornou o único salário fixo da família. “Sou eu que tenho de me lembrar se há uma creche para pagar, sou eu que tenho de saber se vai acabar o leite ou não, se as roupas servem, se há fraldas — e também sou eu quem tem de comprar e de pagar estas coisas todas; todas as responsabilidades com a criança recaem sobre mim. Se ele está em casa, eu espero que faça tudo aquilo que uma dona de casa faria — que arrume, que vá às compras, que vá buscar a bebé… Ele cozinha, mas, tirando isso, não faz nada. Acho que, na cabeça dele, isto ainda são tarefas de mulher”, enumera.

Os dados são de um estudo feito e divulgado este ano em Portugal: as mulheres com filhos menores e que vivem maritalmente são as que têm mais dificuldade em conciliar vida familiar, pessoal e profissional, passando em média 7 horas e 18 minutos por dia a trabalhar fora de casa e outras 6 horas e 12 minutos dentro dela. Um absurdo? Sim, mas apenas porque os homens não estão a fazer a parte deles, garante o estudo, que estima que faltam ainda cinco gerações até a divisão de tarefas ser igualitária em Portugal, e diz também Catarina Mexia. “O «problema» não foi a entrada da mulher no mundo do trabalho — isso já aconteceu há muitos anos –, o «problema» foi o acesso da mulher à carreira. Hoje as mulheres têm teoricamente as mesmas possibilidades de ascensão de carreira, pelo que têm de trabalhar o mesmo ou ainda mais do que os homens. Isso, infelizmente, continua a jogar ainda muito contra elas, a evolução social é sempre mais lenta do que a realidade das pessoas. Chegar a casa e ter de fazer o trabalho doméstico depois de um dia inteiro a trabalhar é muito pesado. E se há muitos homens que até já reconhecem esta situação, do ponto de vista prático o modelo de família ainda é muito o tradicional, o modelo do «eu ajudo a minha mulher». Não tem de ajudar nada, é uma parceria, o que tem de existir é uma divisão de tarefas.”

Inevitavelmente, as discussões entre Magda e J. começaram a acontecer dia sim, dia sim. A relação do casal caiu para mínimos inauditos: “No final do dia, quando estamos juntos, um quer dormir, outro ver uma série, outro olhar para o telemóvel. Acho que somos companheiros de casa — e daqueles que se dão mal. Tudo incomoda: a loiça que está mal lavada, a roupa que está espalhada… Entretanto, há uns meses que já nem dormimos juntos: ele passou a ir dormir para o quarto ao lado. Incomoda-me e tento falar sobre isso, mas ele diz sempre que eu estou a exagerar. Diz que está calor e que o quarto está abafado e que não há espaço para todos…”

Tendo em conta o cenário, o sexo já nem sequer é assunto. Se, num primeiro momento, foi Magda quem se retraiu — “Fiz episiotomia [corte feito na zona do períneo para ampliar o canal de parto] e tinha muitas dores, até aos nove meses dela foi muito difícil. Por isso e porque me fazia alguma confusão ser mãe e um ser sexual ao mesmo tempo” –, com a passagem do tempo e com o aumento do mal-estar entre o casal, também J. acabou por, aparentemente, se desinteressar — “Quando, finalmente, me passou, ficou ele hesitante. E não melhorou, até ao dia de hoje não melhorou. Ele diz que não é nada, que está indisposto… Sempre gostei muito de sexo com o meu namorado, era espetacular, mas até a esse nível o nascimento da nossa bebé nos afastou”.

Conversar. Por mais simplista que possa parecer, esse é um dos conselhos que a psicóloga Catarina Mexia dá a casais nestas circunstâncias — ou aos que queiram evitar chegar a tanto:  “É muito importante conversar com o coração, dizermos aquilo que queremos ou esperamos em vez de ficarmos zangados porque o outro não viu ou não se apercebeu. E mostrar apreciação pelo outro, não no sentido de gratidão, mas no de identificarmos as pequenas coisas que gostámos que ele tivesse feito”. Outro “clássico” que jamais deve ser esquecido: o beijo de despedida. “Mesmo quando há problemas e discussões, devia ser obrigatório. Não significa que já está tudo bem, o que estou a dizer ao outro é que, mesmo quando não está tudo bem e as coisas precisam de ser faladas e resolvidas, o que sinto por ti é suficiente para que eu não queira dormir ou sair sem te mostrar a importância que tens para mim e sem te garantir que esta relação é para continuar”, explica a especialista.

Há uns meses, pouco depois do primeiro aniversário de C., a situação tornou-se de tal forma insustentável que Magda e J. se separaram. Durante um mês, ficou completamente sozinha com a bebé: “Perdi a pouca ajuda que ele me dá, faz o jantar, às vezes dá o jantar à bebé, põe a bebé a dormir, mas, apesar de estar sobrecarregada, tinha paz de espírito. E não estava a remoer porque tinha estado a trabalhar e ainda tinha de ir arrumar ou tratar da casa, quando ele tinha passado o dia inteiro sem fazer nada”. Depois, fizeram as pazes e J. voltou para casa. Mas os problemas mantêm-se.

Queixa-se da pressão social, que continua a colocar todo o peso da organização familiar sobre as mulheres: “Os homens continuam a viver as vidas deles de forma normal. Nós acordamos a pensar no que há para fazer e deitamo-nos a pensar no que não foi feito. Tenho a sensação de que é geral, as minhas colegas de trabalho queixam-se do mesmo”.

Questionada sobre como vê o futuro da relação, hesita, diz que tem esperança, que a filha sentiu muito a ausência do pai e que talvez a solução passe por irem morar para o estrangeiro. “Se ganhássemos um bocadinho mais, podia ser que as coisas melhorassem. Mas também já pus a hipótese de que se ele é preguiçoso cá, vai ser preguiçoso lá fora também. A nossa vida nunca foi perfeita. Mas já foi muito melhor. Havia entusiasmo, viajávamos muito. Fui um bocadinho naïf, ele já tinha uma filha de 13 anos e a responsabilidade não estava lá na mesma. Contava a mim mesma a mentira de que era uma questão de maturidade. Acho que, no fundo, o que não existe é um investimento dele na família.”

Alerta da OMS. Alimentos para bebés têm excesso de açúcar

Agosto 6, 2019 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia e imagem do Sapo Lifestyle de 15 de julho de 2019.

A Organização Mundial de Saúde detetou em quatro cidades europeias que pelo menos um em cada três alimentos infantis tem níveis de açúcar excessivos e são comercializados de forma incorreta como adequados para bebés com menos de seis meses.

Nos estudos, a Organização Mundial de Saúde (OMS) recolheu dados sobre 7.995 alimentos ou bebidas comercializadas para bebés e crianças pequenas de 561 lojas em quatro cidades europeias da Região Europeia da organização – Viena (Áustria), Sofia (Bulgária), Budapeste (Hungria) e Haifa (Israel).

Em todas as quatro cidades, entre 28% e 60% dos produtos era comercializada como sendo adequada para bebés com menos de seis meses de idade e em três das cidades metade ou mais dos produtos forneciam mais de 30% das calorias através dos açúcares.

Em cerca de um terço dos produtos, o açúcar, sumo de frutas concentrado ou outros agentes edulcorantes faziam parte da lista de ingredientes. “Esses aromas e açúcares adicionados podem afetar o desenvolvimento das preferências de sabor das crianças aumentando o gosto por alimentos mais doces”, indica a OMS.

Apesar de alimentos como frutas e vegetais, que naturalmente contêm açúcares, serem apropriados para bebés e crianças pequenas, “o nível muito alto de açúcares livres em produtos comerciais como o puré também é motivo de preocupação”, frisa a organização.

As recomendações da OMS indicam que as crianças devem ser amamentadas exclusivamente nos primeiros seis meses de vida e que os alimentos complementares não devem ser anunciados como para bebés com menos de seis meses de idade, mas estes dois estudos mostram que as empresas não as seguem.

Embora seja permitido pela legislação da União Europeia, a OMS diz que este comportamento das empresas “não presta homenagem ao Código Internacional de Comercialização de Substitutos do Leite Materno” nem ao guia da organização.

“Ambos afirmam explicitamente que os alimentos complementares comerciais não devem ser comercializados como adequados para crianças com menos de 6 meses de idade”, sublinha a OMS, num comunicado sobre o estudo, hoje apresentado em Bruxelas.

Este trabalho foi realizado entre novembro de 2017 e janeiro de 2018.

“Os alimentos para bebés e crianças pequenas devem atender a várias recomendações estabelecidas de nutrição e composição. No entanto, há preocupações de que muitos produtos ainda possam ser muito ricos em açúcares”, diz João Breda, chefe do Escritório Europeu de Prevenção e Controle de Doenças Não Transmissíveis da OMS.

Para ajudar os países a avançar com recomendações nutricionais, a OMS propõe a proibição de açúcares adicionados, incluindo o concentrado sumo de fruta, em todos os alimentos para bebés, a limitação do teor total de açúcar dos snacks salgados a valores inferiores a 15% da energia e do uso de puré de fruta a 5% do peso total do alimento.

Propõe igualmente uma melhoria da rotulagem no que se refere aos produtos de açúcar e aos teores totais de frutas, assim como a redução do teor máximo permitido de sódio para 50mg/100Kcal e 50mg/100gr na maioria dos produtos.

A OMS defende ainda que as bebidas de frutas e sucos, as alternativas de leite / leite de vaca adoçadas e os salgadinhos doces não devem ser comercializados como adequados para bebés e crianças de até aos três anos de idade (36 meses).

6 em cada 10 bebés nasceram fora do casamento em 2018

Julho 25, 2019 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do Facebook da Fundação Francisco Manuel dos Santos

  • Cada vez mais bebés são filhos de pais não casados: em 2018 foram 56% do total de nascimentos.
  • É na região do Algarve que nascem mais bebés fora do casamento e na região do Norte que nascem menos.
  • Mourão (94%), Gavião (92%), Alcoutim (91%), Pampilhosa da Serra (87%) e Lajes das Flores (86%) no topo.
  • Aguiar da Beira (23%), Corvo (25%), Arouca (32%), Baião (33%) e Marco de Canaveses (33%) no fundo da tabela.
  • A cidade de Lisboa (54%) está abaixo da média e a do Porto (56%) em linha com a média.

Mais informações no link:

http://nasceremportugal.ffms.pt/#cada-vez-menos

Os primeiros 1000 dias de vida

Julho 8, 2019 às 5:00 pm | Publicado em Vídeos | Deixe um comentário
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Em Lisboa, há um laboratório a estudar o desenvolvimento da fala de bebés com trissomia 21

Junho 21, 2019 às 8:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 23 de maio de 2019.

O projecto Horizonte 21 pretende encontrar elementos cruciais nas perturbações da fala nos bebés com trissomia 21 e contribuir assim para o acompanhamento clínico destas crianças ao nível da linguagem.

Teresa Sofia Serafim

No Laboratório do Bebé de Lisboa (Lisbon Baby Lab), 42 bebés com trissomia 21 entre os cinco e os 30 meses estão a ser estudados. Neste laboratório da Universidade de Lisboa quer saber-se quais são os sinais precoces no desenvolvimento da linguagem destes bebés. Até agora, percebeu-se que as suas competências para segmentar as palavras se desenvolvem mais tarde do que nos bebés sem perturbações no neurodesenvolvimento.

“Surpreendentemente, os défices linguísticos na síndrome de Down [trissomia 21] estão entre os menos estudados, em particular no que respeita ao desenvolvimento inicial da linguagem e comunicação, isto é, as capacidades de percepção e linguagem”, diz ao PÚBLICO Sónia Frota, directora do Laboratório do Bebé de Lisboa.

Desta forma, em Abril de 2016 iniciou-se o projecto Horizonte 21 para colmatar essa falha. Ao fazer um estudo longitudinal em bebés com trissomia 21, o grande objectivo deste trabalho é obter dados sobre a percepção da linguagem nestas crianças. Espera-se assim conseguir elementos crucias para a compreensão das perturbações da linguagem e de como estão relacionadas com as capacidades cognitivas. No final, pretende-se ainda que este estudo tenha implicações nos planos de intervenção e acompanhamento clínico destes bebés ao nível da linguagem e comunicação.

E como se chegará até aí? Ao longo do estudo, os bebés com trissomia 21 realizam as mesmas experiências que foram usadas para analisar o desenvolvimento de bebés sem risco de perturbações de linguagem e comunicação. “Essas tarefas visam estudar as competências dos bebés para a percepção de melodias e outras características prosódicas [melodia e ritmo] da linguagem determinantes para a comunicação, para a segmentação de palavras no contínuo da fala ou para a aprendizagem de palavras”, especifica Sónia Frota, que falou deste projecto nas 2.ª Jornadas do Centro de Estudos do Bebé e da Criança do Hospital Dona Estefânia esta semana em Lisboa.

Por exemplo, uma das tarefas da aprendizagem de palavras é observar a distribuição do olhar do bebé por uma imagem durante a exposição a estímulos sonoros. Essa observação é feita através de eye-tracking, aparelho de registo do movimento de olhos.

Até agora, já se obtiveram dois tipos de resultados. Primeiro, percebeu-se que as competências para segmentar palavras (sequências de sons que os bebés captam como sendo palavras) no contínuo da fala desenvolvem-se mais tardiamente nos bebés com trissomia 21. “No segundo ano de vida, os bebés com síndrome de Down começam a mostrar competências de segmentar palavras semelhantes às verificadas a partir dos cinco ou seis meses nos bebés de desenvolvimento típico”, indica a cientista.

Depois, os bebés com trissomia 21 também seguem um padrão diferente a segmentar palavras daquele que se registou em bebés sem perturbações no neurodesenvolvimento. Este padrão diverge de outros bebés porque “não têm facilidade em reconhecer as palavras em posições proeminentes do enunciado, que são posições mais salientes e perceptíveis”, esclarece Sónia Frota, acrescentando que vai apresentar este estudo recente na Conferência do Desenvolvimento Inicial de Bebés e Crianças, em Lancaster, no Reino Unido, em Agosto.

Sugere-se assim que os bebés com melhor desempenho em tarefas de segmentação de palavras têm também um melhor desenvolvimento da linguagem, particularmente a nível expressivo. “Estes resultados levantam a hipótese de intervenções vocacionadas para promover a percepção e segmentação da palavra no contínuo da fala poderem contribuir para favorecer o desenvolvimento da linguagem e da comunicação em crianças com síndrome de Down”, diz ainda a investigadora.

Este projecto termina em Dezembro de 2019, mas ainda se pretende descrever e compreender como se processa o desenvolvimento inicial da linguagem na síndrome de Down e estabelecer quais são os marcadores precoces de desenvolvimento da linguagem na trissomia 21. Isto é: quais são os sinais indicadores no primeiro e no segundo ano de vida no desenvolvimento futuro da linguagem?

Em Novembro, antes de o projecto terminar, o Laboratório do Bebé de Lisboa organizará um workshop internacional sobre o desenvolvimento da linguagem em perturbações do desenvolvimento, o “NeuroD-Well – Linguagem Precoce nas Perturbações do Neurodesenvolvimento”. Numa das sessões serão apresentados alguns resultados do Horizonte 21.

 

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