O treino do sono em bebés e crianças ou a panaceia dos tempos modernos: o que precisa de saber?

Junho 17, 2020 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de Joana Martins publicado no Sapo Lifestyle de 15 de junho de 2020.

A maioria dos métodos de treino de sono assenta na extinção súbita ou gradual do efeito do choro e nenhum método deveria ser utilizado antes dos 4 a 6 meses de idade.

Neste artigo a pediatra Joana Martins explica que o problema do sono dos bebés e crianças tem um limiar muito variável e dependente de cada contexto familiar.

Quem assiste às preocupações das famílias atuais, percebe que existe uma preocupação crescente com o sono. E se há tema controverso, é este. Mas quando é que começam habitualmente as preocupações com o sono dos bebés? Sabemos que os bebés pequeninos, pela necessidade de se alimentarem em ritmo contínuo, independentemente de ser dia ou noite, têm um sono entrecortado. Claro que desencadeiam uma forte privação de sono nos pais, no entanto, tudo isto é percecionado com uma certa naturalidade.

No entanto, a partir das 8 semanas de vida começa a expectativa de que os bebés durmam toda a noite seguida. O impacto desta expectativa parece aumentar à medida que o bebé cresce, atingindo o seu apogeu em torno dos 6 meses de idade. É justamente o momento de transição para o sono autónomo num quarto independente dos pais. A maioria dos livros de puericultura e saúde infantil salienta a importância do condicionamento da aprendizagem, de se ser firme durante esta etapa.

Os pediatras, neste momento, têm igualmente a sua palavra, ao sugerir que uma falência de transição nesta etapa desencadeará uma hecatombe aos 9 meses de idade. Os livros sobre métodos de treino de sono existem, proliferam como cogumelos e têm um incrível sucesso. Na mesma medida, a existência crescente de terapeutas do sono (cujas credenciais são difíceis, se não impossíveis, de validar) sublinha exatamente esta necessidade: queremos os nossos bebés a adormecer autonomamente, no seu quarto e queremos que este comportamento seja adquirido rápida e eficazmente, idealmente em torno dos 6 meses de idade. Para que fique claro, não sou apologista dos métodos de treino do sono. Cada vez mais a Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda plasticidade na idade de saída do quarto dos pais, estendendo esta recomendação até aos 12 meses de idade. Por isso, não há formalmente pressa nenhuma em pôr uma criança a dormir sozinha e mal, quando dorme acompanhada e bem.

A maioria dos métodos de treino de sono assenta na extinção súbita ou gradual do efeito do choro e nenhum método deveria ser utilizado antes dos 4 a 6 meses de idade. O que devemos compreender é que as crianças choram porque procuram efetivamente uma resposta. Esta resposta poderá ser manipulativa, exigente e difícil para os pais. Claro que compreendemos isto. Mas será que os pais estarão preparados para deixar chorar? Estarão preparados para o peso desta decisão?

Lá porque a criança é pequena e não tem memória para o evento, não quer dizer que o treino de sono não deixe a sua marca. E sobretudo, tenhamos algum bom senso, ninguém, nem mesmo um adulto, deveria adormecer a chorar (esta frase é de uma autora que admiro muito, Constança Cordeiro Ferreira).

Há muita coisa que se pode e deve tentar fazer para ajudar uma criança e a sua família a procurar as suas soluções, sem necessariamente passar pelo condicionamento. Há rotinas de família que podem e devem ajustar-se, há estratégias para impedir que os pais tenham que tomar decisões drásticas às 3 da madrugada. Se ainda assim estiver disposto a iniciar um processo de treino formal do sono, gostaria de explicar os diferentes grupos de métodos existentes, qual o seu fundamento e o que é que, na prática, acontece.

Vamos deixar chorar?

Se o método contempla apenas e só deixar a criança no berço e sair do quarto, deixando-a chorar pelo tempo necessário para que ela se acalme sozinha e adormeça, então estamos a falar de um método de condicionamento por extinção. A criança não tornará a chorar porque desistiu na vinda de alguém. Este método de condicionamento por extinção não é recomendado. Nunca.

Se o método permite ir periodicamente junto da criança para confirmar se está tudo bem e tentar acalmá-la pela presença do adulto, sendo que os intervalos entre as visitas e os tempos das visitas vão sendo respetivamente maiores e mais pequenos, falamos de um método de extinção gradual, que caracteriza os métodos de Ferber e Estivill.

Os relatos de utilização dos métodos de extinção gradual apontam para cerca de dois ou três dias até a criança se habituar a adormecer sozinha e deixar de chorar, no entanto, o que vem descrito do ponto de vista da eficácia destes métodos é que levam entre 3 a 4 semanas até ter resultados.

O método da cadeira ou “camping out” é outra possibilidade: o bebé é colocado no berço e o cuidador fica na proximidade, presencialmente, sentado numa cadeira. Quando o bebé chora, pode consolá-lo com a voz, com uma cantiga, até com o toque, mas não deve retirá-lo do berço. À medida que o tempo passa, a criança acaba por se habituar à presença simples do cuidador, tornando possível o afastamento progressivo da cadeira onde o cuidador se encontra, até conseguir sair do quarto. Este método é considerado bastante difícil, já que o cuidador tem que presenciar o choro da criança, o tempo todo, sem ser possível recuar. Porque cada vez que ceder ao choro da criança, só vai reforçar a ansiedade de separação.

Quer os métodos de extinção gradual, quer o método da cadeira, são frequentemente citados e estudados de forma a perceber se terão, ou não, algum impacto no desenvolvimento da criança no futuro.

Os estudos realizados (que são poucos e com metodologias pouco sérias) parecem não mostrar nenhuma alteração cognitiva, emocional ou de vinculação passados seis anos da ocorrência do treino do sono (levantando a questão: e depois dos seis anos?).

O maior benefício destas abordagens parece ser a melhoria imediata do bem-estar dos cuidadores, com redução da privação de sono e melhoria dos sintomas depressivos. Este efeito benéfico nos cuidadores parece manter-se até dois anos depois da ocorrência do treino de sono (o que permite ter uma ideia do peso da privação de sono na função familiar). A Academia Americana de Pediatria não emitiu nenhum parecer desfavorável à utilização destes métodos para o treino de sono dos bebés.

Tendo em conta o atual conhecimento científico sobre o assunto, o problema do sono dos bebés e crianças tem um limiar muito variável e dependente de cada contexto familiar. Não podemos ignorar nem a pressão social para ter as crianças a dormirem sozinhas no quarto, nem o impacto da privação de sono nos pais e como tal, a ansiedade que este assunto desencadeia. Talvez a forma mais ponderada seja desaconselhar formalmente o treino de sono abaixo dos 4-6 meses de idade, tentar implementar no seio familiar as medidas comportamentais de reajustamento de rotinas e reservar a utilização de um método formal de treino de sono após discussão com o médico assistente.

Um artigo da médica Joana Martins, pediatra na Unidade de Cuidados Intensivos de Pediatria no Hospital D. Estefânia, Centro Hospitalar Universitário Lisboa Central.

Unicef: guia para grávidas e recém-nascidos em época de covid-19

Maio 23, 2020 às 2:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia da ONU News de 15 de maio de 2020.

Medo, ansiedade e incertezas são alguns dos efeitos psicológicos da pandemia experimentados por muitas grávidas; Unicef perguntou à presidente da Confederação Internacional de Parteiras, Franka Cadée, o que pode ser feito para proteger os bebês e as mães.

É seguro continuar os exames de pré-natal em meio ao risco da pandemia?

Muitas grávidas estão com receio de comparecer às consultas enquanto cumprem as medidas de isolamento social. Existem muitas adaptações a essa nova realidade. Várias parteiras passaram a atender por telefone. De forma que o tempo do exame sobre o desenvolvimento do bebê é curto.  Por isso, muitas mulheres não estão indo a todas as consultas e têm menos contato com o agente de saúde para evitar o risco de contaminação. E essas mudanças também devem atender aos pacientes, individualmente, e com base em suas respectivas condições de saúde. Por exemplo: gravidezes de alto risco e de baixo risco. As mães devem procurar as opções de agentes de saúde em suas comunidades, pois os profissionais que já cuidam das grávidas conhecem a realidade delas melhor que ninguém. Sejam parteiras ou obstetras. É importante continuar recebendo apoio profissional mesmo após o nascimento do bebê como imunizações de rotina logo procure conselhos de um agente de saúde para saber como realizar essas consultas.

Se eu tiver sido contaminada com covid-19, eu posso passar o vírus para o bebê? 

Não sabemos se a doença pode ser transmitida durante a gravidez. Até o momento, o vírus não foi encontrado em fluídos vaginais ou no leite materno, mas as informações e os detalhes sobre o novo coronavírus continuam surgindo. Até agora, o covid-19 não foi detectado no líquido amniótico ou na placenta.
O melhor a fazer é tomar todas as precauções para evitar contrair essa doença. Mas se você está grávida ou acaba de dar à luz uma criança e foi infectada, procure um médico rapidamente e siga as instruções.

Eu estava planejando um parto no hospital ou numa clínica. Ainda é uma boa ideia? 

É melhor perguntar a sua parteira ou a seu médico qual seria a opção mais segura e que precauções devem ser tomadas. Isso difere de caso a caso. Depende da mulher, da situação e do sistema de saúde. A gente espera que a maioria das instalações de saúde possa manter os pacientes com covid-19 bem distante dos demais pacientes, mas em alguns casos, isso não é possível. Em algumas nações de renda alta,
como a Holanda, de onde venho, temos um sistema que integra o parto em casa ao sistema de saúde. Assim o parto caseiro é seguro. E mais mulheres estão optando por isso. E alguns hotéis estão sendo usados na Holanda por parteiras para o nascimento evitando que as grávidas se contaminem. Mas essa não é a realidade da maioria dos países.

Parceiros ou familiares podem acompanhar o parto?

As políticas variam de país para país. O ideal é que a mulher tenha alguém com ela garantido todas as precauções como uso de máscara cirúrgica, higiene das mãos etc. O que se nota em alguns países é uma proibição de acompanhantes e isso me preocupa. Compreendo que a redução no número de pessoas com a grávida, mas é preciso assegurar que ela tenha alguém: uma pessoa da família, parceiro, alguém próximo, e precisamos deixar o bebê com a mãe após o parto. Precisamos ter compaixão e entender cada situação. E o agente de saúde, paciente e familiares estão fazendo o que podem para usar o bom senso e para ouvir. É muito importante atuar em comunidade nessa hora.

Estou me sentindo incrivelmente ansiosa sobre o parto. Como devo lidar com isso?

Planejar o parto ajuda muito a diminuir ansiedade por oferecer um sentido de controle da situação, mas é preciso também reconhecer que no quadro atual, é difícil prever dependendo de onde se vive. É bom saber para quem telefonar quando os sinais de parto começarem. Quem dará o apoio na sala de parto e onde? Que restrições existem no local de nascimento etc. Para relaxar, as grávidas devem fazer exercícios como alongamento, respiração e ligarem para as parteiras caso necessário. Alimentar-se bem, ingerirem líquidos e viverem a gravidez de forma feliz.

Que perguntas devo fazer aos profissionais de saúde?

É importante ter uma relação de confiança com eles e fazer as perguntas livremente. Quando a relação é boa, eles respondem tudo a contento e de forma aberta. Você tem direito a todas essas informações porque é o seu corpo e o seu bebê que estão em jogo. As parteiras estão lidando com um aumento de demandas sobre os serviços assim como médicos e enfermeiros e por isso devem levar mais tempo para responder. É possível estabelecer um sistema sobre como e quando se comunicar com seu agente de saúde. Por exemplo: organize suas consultas e como marcar uma emergência. Também é útil conversar com os seguros de saúde e provedores para obter uma cópia dos seus exames e prontuários e do pré-natal em caso de interrupções dos serviços. É importante perguntar tudo que você queira e precise saber antes do parto.

Estou sob risco de contrair o novo coronavírus? Como separar as pessoas que tiveram a doença das que não tiveram? Existe equipamento de proteção? Eu posso ter parto normal? 

Alguns hospitais devem dar alta às novas mães mais rapidamente que antes por causa do risco. Mas isso difere de contexto para contexto. Por isso, a importância de pedir conselho aos obstetras e às parteiras.

Após o parto, como poderei proteger meu bebê? 

É simples:  fique somente em família e recuse visitas. E se tiver outras crianças, se assegure que elas estão isoladas, sem contato com outras fora da casa. Sua família deve lavar as mãos e se cuidar bem para evitar a pandemia. E ainda que seja um momento difícil, tente ver o lado positivo de usar esse momento para se aproximar como família. Aproveite a tranquilidade, estabeleça intimidade com o recém-nascido. Este é um tempo especial. Desfrute-o.

Estou esperando um bebê. O que devo fazer para me proteger da covid-19? 

Pelas pesquisas que temos, as grávidas não têm maior risco de contrair a doença que outro grupo qualquer. Mas devido a mudanças em seus corpos e no sistema de imunidade, nos últimos meses da gestação, as grávidas ficam mais expostas a problemas respiratórios como infecções. E por isso, é importante tomar precauções. Eu sei que pode ser bem duro para as gestantes que têm que cuidar de si e do bebê. E muitas vezes de outros filhos também. O distanciamento social é vital para se proteger.

Confira algumas dicas: 

  • Evite contato com qualquer pessoa com sintomas de covid-19.
  • Não use o transporte público, se possível.
  • Trabalhe de casa.
  • Evite multidões grandes ou pequenas em lugares públicos ou privados.
  • Não participe de reuniões em família ou com amigos nesse momento.
  • Contate seu agente de saúde por telefone.
  • Lave as mãos com água e sabão, limpe regularmente e desinfete frequentemente as superfícies em casa, monitore todos os sinais de sintomas da pandemia e procure cuidados e atendimento.

Posso amamentar meu bebê?

Sim. É perfeitamente seguro pelo que sabemos até agora. E é o melhor que a mãe pode fazer pelo filho. Até o momento não foi notificada nenhuma transmissão do vírus pelo leite materno. Mas se houver suspeita de que foi contaminada, procure um médico e siga as recomendações. E ao amamentar, use máscara e lave suas mãos antes e depois do contato com a criança. Se tiver muito doente para amamentar, retire o leite com equipamentos e alimente o bebê utilizando um copo ou uma colher limpos.

O que devo fazer se vivo num lugar com muita gente? 

Muitas mulheres vivem desta maneira o que dificulta o distanciamento físico. Nesse caso, eu pediria à comunidade que tome conta dessas grávidas. As pessoas devem manter distância das gestantes para protegê-las. E alguns toaletes e banheiros devem ser reservados a elas. E todos devem lavar bem as mãos. Uma medida que ajuda muito. Vamos apoiar as grávidas que estão dando à luz nosso futuro.

Máscaras: Saiba como ajudar as crianças a ultrapassar o medo

Maio 11, 2020 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do site Kids Marketeer de 23 de abril de 2020.

Para muitas crianças, ver os pais a usarem máscaras de protecção respiratória pode ser assustador, desconcertante ou mesmo motivo para tristeza. Uma das razões para tal acontecer é a capacidade limitada das crianças de reconhecer e ler rostos.

Kang Lee, professor de psicologia aplicada e desenvolvimento humano da Universidade de Toronto, especialista no desenvolvimento de habilidades de reconhecimento facial em crianças, explica melhor esta razão: “Se um adulto usar uma máscara, eu consigo reconhecê-lo pela estrutura do seu rosto, ainda que metade da cara esteja tapada”.

O mesmo não se passa com as crianças. Kang Lee esclarece que as crianças até aos seis anos concentram-se nas características individuais, em vez de reconhecerem a pessoa como um todo. “Por exemplo, prestam atenção ao formato dos olhos ou ao tamanho do nariz.

Vários estudos realizados constataram já que as crianças podem, inclusive, ter dificuldade em reconhecer rostos familiares que estejam parcialmente escondidos, exactamente por alguns recursos de informação (tamanho do nariz, formato da boca) não estarem visíveis e a criança não conseguir ler os sinais emocionais. Esta situação pode revelar-se assustadora ou desconcertante para os mais pequenos.

Para que o seu filho não fique assustado com a máscara, os especialistas aconselham que quando os pais colocarem máscaras, expliquem às crianças a razão de o estarem a fazer. Devem dizer que o estão a fazer para ajudar e proteger as outras pessoas. Transmitir a mensagem de que o uso de máscara é um acto de responsabilidade social e que é tão importante como lavar as mãos. Em alternativa, pode ser explicado às crianças que as máscaras transformam as pessoas em super-heróis porque protegem todas as pessoas dos germes, reforçando a ideia de que a máscara é como a capa dos heróis.

Outro conselho é que o tecido da máscara tenha desenhos divertidos ou a família em casa faça uma máscara para a criança consciencializar-se de que este é um objecto normal. Os pais podem também optar por fazer jogos de interpretação de expressões para retirar o medo; ou seja, toda a família coloca máscaras e depois tentam ler os rostos uns dos outros, através do olhar, para identificar as expressões/emoções que estão a transmitir – se estão a sorrir, por exemplo. Este tipo de actividade retira o factor assustador e insere a máscara como um objecto normal.

Os especialistas aconselham também que os pais estimulem os mais novos a colocarem todas as dúvidas que tiverem sobre o assunto e que a família dialogue, de forma tranquila, sobre todas as experiências e emoções que está a experienciar.

Chupeta, chuchar no dedo, biberão: os maus hábitos orais na infância têm consequências

Fevereiro 21, 2020 às 11:25 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do Público de 17 de fevereiro de 2020.

É preciso “impor limites” a hábitos como chuchar no dedo, morder um objecto, utilizar a chupeta ou o biberão de forma frequente.

A Sociedade Portuguesa da Terapia da Fala alertou este domingo para as consequências que podem provocar os maus hábitos orais na infância, a propósito do Dia Mundial da Motricidade Orofacial, que se assinala na segunda-feira.

A coordenadora do departamento de Motricidade Orofacial da Sociedade Portuguesa da Terapia da Fala, Débora Franco, alertou que os maus hábitos orais na primeira infância contribuem para alterações às estruturas orofaciais, prejudicando funções como o respirar, deglutir e falar.

Chuchar no dedo, morder um objecto, utilizar a chupeta ou o biberão de forma frequente e por um período prolongado de tempo são hábitos “que dão uma sensação de prazer”, mas a sua persistência começa a “trazer alterações às estruturas orofaciais”, traduzindo-se, entre outras situações, na dificuldade em respirar, posicionamento inadequado da língua, deglutição atípica ou alterações na fala como o sigmatismo, conhecido como ‘sopinha de massa’.

“Este é um campo da terapia da fala inovador, que trata as questões orais, faciais e cervicais”, cujas estruturas “são indispensáveis para o funcionamento da fala, respiração, da mastigação, sucção e deglutição”.

“Impor limites”

Débora Franco, que também é professora na Escola Superior de Saúde do Politécnico de Leiria, acrescentou que é habitual dentistas, otorrinolaringologistas ou pediatras encaminharem as crianças para a terapia da fala, quando se deparam com estes problemas já enraizados.

Por isso, defende a aposta na prevenção: “Temos de alertar os pais para algumas medidas. Se retirarmos o hábito mais cedo, evitam-se muitos destes problemas. Recomendamos retirar o biberão por volta dos 18 meses e a chupeta aos dois anos.”

A docente sugere aos pais que não deixem as crianças “ser donas daquele objecto”.

“Não é preciso uma atitude radical e dizer que não se dá chupeta ou biberão, mas a criança não o pode usar quando quer. É importante impor limites e, sobretudo, não prolongar esses hábitos, por muito que custe à criança e aos pais”.

As alterações orofaciais podem, inclusive, prejudicar o rendimento escolar. “Como não respiram pelo nariz, cansam-se muito mais, o sono é mais leve, acordam várias vezes durante a noite e ficam mais agitados e com dificuldades de concentração”.

Quando há alterações estruturais, a solução pode passar por intervenções cirúrgicas, como a “remoção das amígdalas ou dos adenóides e muita terapia da fala”.

Além disso, os hábitos parafuncionais começam a modificar a estrutura orofacial podendo modificar a arcada dentária e a face e a musculatura das bochechas e dos lábios ficar flácida, assim como a língua.

“Verifica-se a deglutição atípica, com a língua muito para a frente e a mastigação ineficiente. Estas pessoas cansam-se muito ao mastigar, porque têm flacidez muscular e optam por comer alimentos menos sólidos, como hambúrgueres e massas”.

Estes problemas orofaciais podem também ser provocados por hábitos nocivos que resultam da ansiedade e ‘stress’, como roer as unhas, morder frequentemente o lábio ou ranger os dentes (bruxismo).

“Quando isto acontece, é importante identificar a fonte de stress e transferir este comportamento para outros, como manipular bolas antistress para acalmar”, aconselhou Débora Franco.

Sabia que, num choque a 50 km/h, o seu filho pesa uma tonelada?

Fevereiro 3, 2020 às 12:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Texto do Facebook da GNR:

Sabia que, num choque a 50 km/h, o seu filho pesa 1 tonelada?

Os acidentes são a maior causa de morte de crianças e jovens em Portugal. A maior parte das consequências podem ser evitadas, usando o correto Sistema de Retenção para Crianças (SRC).

As crianças não são adultos em miniatura e têm caraterísticas específicas, que as tornam mais vulneráveis num acidente de automóvel! O tamanho e peso da cabeça, combinados com um pescoço ainda frágil e a coluna que, durante os primeiros anos de vida, ainda está em processo de ossificação, torna-as muito mais frágeis que os adultos.

Por esse motivo, é recomendado que instale a “cadeirinha” em sentido contrario à marcha do veículo, em idades até aos 3 ou 4 anos.

Privação do sono: Socorro, o meu filho não me deixa dormir, o que fazer?

Fevereiro 3, 2020 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do Público de 24 de janeiro de 2020.

A chegada de um bebé é um momento de alegria na família, mas também de mudanças nas rotinas, incluindo a do sono.

Diana Vilas Boas

Exaustos. Desorganizados. Irritados. Frustrados. Desesperados. Perdidos. Assim são os pais quando privados do sono. A chegada de um bebé é um momento de alegria na família, mas também de mudanças nas rotinas, incluindo a do sono. Os bebés choram, têm o sono desregulado e, por consequência, os pais tentam acalmá-los, adormecê-los e também descansar. A privação do sono tem consequências? Sim, “pode desencadear depressões, divórcios, desemprego e, em alguns casos, pais arrependidos de serem pais”, enumera Carolina Vale Quaresma, coach familiar. A neurologista Teresa Paiva desdramatiza e declara que se não estiver doente, o bebé dorme bem. O problema pode estar nos pais, alerta.

É preciso educar os bebés para dormir? ​Teresa Paiva, neurologista e especialista do sono, defende que o acto de dormir não precisa de ser educado. “O grande problema é quando o bebé acorda e choraminga e os pais vão logo a correr, seja para lhe dar de mamar, dar a chupeta ou o levar para a cama deles e o bebé habitua-se”, diz, criticando também a ideia que todos os bebés têm, por natureza, problemas para adormecer.

Constança Cordeiro Ferreira, terapeuta no Centro do Bebé, em Lisboa, considera que na maior parte dos casos não existem problemas com o sono dos mais pequenos. O problema é que os pais estão exaustos. “É muito importante haver um trabalho de adaptabilidade com os pais para a realidade de que vão ter de mudar alguns hábitos, para garantirmos que não vão estar privados de sono. O sono tem de ser uma prioridade para todos”, defende.

Hábitos como adormecer o filho ao colo, embalado ou na “maminha” levam à criação de uma dependência que, mais cedo ou mais tarde, é difícil de combater. Por isso, é importante habituar a criança a adormecer sem ajudas externas, aconselha Carolina Vale Quaresma. Para Constança Cordeiro Ferreira não há problema que a criança adormeça a mamar. “O leite materno tem componentes como triptofano, melatonina, endorfinas e uma composição variável consoante o dia e a noite, que vai favorecer o sono, ao contrário do que é muitas vezes dito aos pais”, justifica. “O silêncio da casa e o sono dos pais criam a atmosfera para [o bebé] dormir”, recomenda, por seu lado, Marina Fuertes, docente na Escola Superior de Educação de Lisboa (ESEL). Além de se habituar a estar na cama, a calma e o silêncio também ajudam a criança a regular as suas emoções, acrescenta.

Pais sobrevivem

“Educar o sono” pressupõe que a maneira de adormecer ou de dormir está errada e que é necessário corrigi-la, começa por dizer Constança Cordeiro Ferreira. O que acontece é que essa é uma ideia errada, continua. “Parte do problema vem daí [desse pressuposto]. Um bebé nos primeiros meses procura as condições óptimas para descansar e os pais têm a cabeça cheia de medos, que lhes foram colocados, e, logo aí, têm medo de dar a mama, dar colo ou conforto”, aponta. Além disso, as mães mudam de hábitos, as “mulheres têm dificuldade em quererem arranjar-se, em estar com os amigos, em viver. E tudo se resume a isso: com a privação de sono os pais nem sempre vivem, sobrevivem ao dia-a-dia”, nota Carolina Vale Quaresma.

“Muitas vezes, os bebés não ficam tão mal como os pais. A privação de sono tem um impacto enorme nos adultos, mais ainda nos pais”, avisa Constança Cordeiro Ferreira. E não descansar pode levar a algumas complicações de saúde, alerta Teresa Paiva: os pais podem vir a ter problemas de saúde mental como depressão, ansiedade, dores de cabeça e insónias crónicas; mas também doenças físicas, como as cardíacas, cardiovasculares ou aumento de peso. Quanto aos filhos, dormir pouco ou com muitas pausas pelo meio pode afectar a memória, baixar a imunidade às bactérias e a regulação do apetite, tal como a capacidade dos bebés em gerir emoções, refere Carolina Vale Quaresma, acrescentando que, a longo prazo, as crianças podem vir a ter dificuldades de aprendizagem, falta de concentração e agitação elevada.

A agitação e o choro constante, a dependência da criança para ser alimentada e os “cuidados frequentes” são os grandes causadores da privação do sono dos pais. Então, como conseguir que toda a família descanse? De acordo com Carolina Vale Quaresma, para o bebé não sentir que estão “com truques para o enganar”, deve ir acordado para o berço e ter noção do que está a acontecer. “Nada melhor para um bebé ser seguro que sentir que pode confiar na mãe no pai”, defende.

Para Marina Fuertes não se deve forçar a criança a dormir, com o risco de criar tensão, tensão que levará o bebé a resistir ao sono por o considerar algo “indesejável”, ficando assim mais rabugento e, consequentemente, com mais dificuldade para adormecer. Não interromper o descanso do bebé para o alimentar, ou simplesmente por medo de ele não dormir quando os pais desejam, são actos importantes que ajudam o bebé a desenvolver a “aprendizagem biológica do dormir”, fundamentaCriar uma rotina de sono, juntamente com uma rotina para alimentação e banhos, ajudará o bebé a “antecipar a hora do sono”, aconselha.

Dormir pouco ou muito?

Segundo Carolina Vale Quaresma, os bebés não dormem tempo suficiente. Por exemplo, até aos 6 meses de idade deveriam dormir cerca de 12 horas nocturnas e 4 horas diurnas. Constança Cordeiro Ferreira diz que existem fases em que o descanso infantil poderá ser mais afectado como, por exemplo, quando os bebés começam a gatinhar, iniciam a alimentação complementar ou quando a mãe ou o pai regressam ao trabalho. “Os pais devem saber isto e não ficarem aflitos”, lembra.

Com o intuito de ter uma “boa noite de sono” e também de evitar o uso de tecnologia, tablets ou smartphones, para adormecer, a professora Marina Fuertes aconselha a criar o “momento da leitura” após o primeiro ano de vida do bebé, inicialmente com livros apenas com imagens, depois com pequenas histórias e, após os 3 anos, uma história real ou imaginada pelos pais. A escolha não deve recair sobre histórias “com monstros ou excesso de estímulos”, pois podem despertar a criança.

Os bebés devem dormir na cama dos pais? A opinião de uma médica

Janeiro 27, 2020 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto de Carolina Prelhaz publicado no Sapolifestyle

A partilha da cama com os bebés não é tão rara quanto se pode pensar. Um artigo da médica Carolina Prelhaz, especialista em Pediatria na Clínica de Santo António.

O mais consensual e mais recomendado continua a ser que o local mais seguro para o bebé dormir é a sua própria cama, numa superfície plana e estável, sem almofadas ou protecções laterais almofadadas, bonecos ou panos, com mantas e lençóis não ultrapassando a zona abaixo dos ombros e sempre de barriga para cima.

A cama do bebé deve estar no quarto dos pais durante, pelo menos, os 6 primeiros meses de vida e idealmente durante o primeiro ano, como forma de prevenir a morte súbita do recém-nascido e lactente. O quarto não deve estar demasiado quente (temperatura ideal ronda os 20ºC) e o bebé não deve usar demasiada roupa.

A partilha da cama tem sido associada a um aumento do risco de morte súbita. No entanto, muitos dos estudos que nos dão estes dados não são claros quanto a outros possíveis factores de risco para a segurança do bebé.

A partilha de cama dos bebés com os pais é, para além de uma questão cultural, uma forma de aumentar o tempo de descanso dos bebés e dos pais e de melhorar a amamentação e, apesar de não ser muitas vezes assumido pelas famílias em consulta, a maioria dos pais acaba por levar os bebés para a sua própria cama. Cada vez mais estudos parecem concluir que a partilha da cama, desde que cumpridas algumas regras de segurança, não parece associar-se só por si a um aumento do risco de morte súbita dos bebés nem a um aumento do risco de morte por acidente.

Estudos feitos em laboratórios de sono mostram ainda que, quando um bebé dorme junto da mãe, há uma coordenação da respiração de ambos e isto parece até ser protector. A partilha da cama feita de forma segura permite amamentar durante a noite, evitando o perigo de levar para cadeiras ou sofás uma mãe exausta que pode adormecer e deixar cair o seu bebé ou sufoca-lo acidentalmente.

Dito isto, a partilha da cama deve sempre ser discutida em consulta com o Pediatra como um tema presente na vida das famílias e os pais devem conhecer a forma mais segura de partilhar a cama com os seus bebés: a cama deve ter uma barreira que previna a queda do bebé, o bebé deve dormir entre a mãe e essa barreira e não entre a mãe e o pai, a mãe não deve usar almofada ou manta, evitando superfícies que possam tapar a cara do bebé e levar à sufocação, e o bebé deve sempre ser colocado a dormir de barriga para cima, tal como no seu berço.

A partilha parece ser mais segura em mães que amamentam do que naquelas que alimentam os bebés com leite de fórmula. O quarto deve sempre ser bem arejado. Ter atenção ao facto que, ao dormirem junto das mães, os bebés podem também ficar mais quentes, pelo que a roupa do bebé deve ser ajustada de acordo.

Pais fumadores, sob o efeito de drogas, álcool ou medicação, mães obesas e mães exaustas que possam não acordar com os sinais dados pelo bebé ou estar menos atentas à presença do corpo do bebé junto ao seu não devem partilhar a cama. Bebés prematuros devem sempre dormir na sua própria cama, havendo a opção de um berço que fique colado à cama dos pais.

Falar sobre este tema abertamente com um profissional de saúde, para conhecer riscos e benefícios de qualquer prática, é essencial ao esclarecimento adequado das famílias para que possam, em segurança e consciência, decidir aquilo que mais se adequa à sua vida familiar.

Um artigo da médica Carolina Prelhaz, especialista em Pediatria na Clínica de Santo António.

“Os maiores inimigos do sono da criança são a ausência de rotina e a instabilidade nas regras”

Janeiro 22, 2020 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do DN Life de 15 de janeiro de 2020.

Por Catarina Pires

Dormir bem é fundamental para todos, mas sobretudo para crianças e adolescentes, que estão em pleno desenvolvimento. É nas idades mais precoces que o sono pode e deve ser educado. A pediatra Nádia Pereira, do Centro da Criança e do Adolescente do Hospital CUF Descobertas, que integra a equipa multidisciplinar da consulta do sono pediátrica, explica o que é importante para uma correta “higiene de sono”.

Texto de Catarina Pires

Qual a prevalência de perturbações de sono das crianças e adolescentes e quais os distúrbios mais comuns?

Dados recentes de publicações internacionais apontam para uma prevalência significativa de perturbações do sono na infância, nalgumas séries atingindo os 50% na idade pré-escolar e 40% na adolescência.

De acordo com o grupo etário o tipo de perturbação de sono varia. Na idade pré-escolar e escolar a insónia de causa comportamental assume maior relevância. São as crianças que os pais referem que nunca conseguiram adormecer sozinhas, resistem a dormir, e mantêm vários despertares noturnos necessitando dos pais para readormecer.

Na adolescência, são mais comuns as perturbações do ritmo circadiano, nomeadamente a perturbação por atraso de fase, em que o adolescente parece que só tem sono por volta das 3 – 4h da madrugada e, se for possível, dorme até às 12 – 13h, acordando bem-disposto e descansado. Nessa impossibilidade, pelo cumprimento dos horários escolares, são comuns os sintomas de privação de sono.

Algumas mudanças simples na rotina familiar podem trazer de volta as noites bem dormidas.

Os pais devem estar preparados para noites mal dormidas nos primeiros meses do bebé, porque faz parte da tarefa de ser pai e mãe?

Nos primeiros meses de vida, o bebé ainda não tem um ritmo de sono-vigília bem estabelecido, necessita ser alimentado frequentemente, mesmo no período noturno, o que vai dificultar o descanso dos pais.

Com o crescimento, essencialmente a partir dos 6 meses de vida, o bebé tem a capacidade de estabelecer um ritmo de sono-vigília mais semelhante ao do adulto, fazendo um período mais longo de sono noturno, e sestas diurnas de menor duração.

No entanto, muitas vezes, apesar de terem as ferramentas biológicas para fazerem um período mais longo de sono noturno, as crianças mantêm dificuldade em adormecer associada ou não a despertares noturnos frequentes, o que condiciona uma má qualidade de sono dos pais, que aceitam este facto como parte da normalidade.

Mas não precisa de ser assim! Algumas mudanças simples na rotina familiar podem trazer de volta as noites bem dormidas.

O que significa higiene de sono e o que fazer para uma correta higiene de sono?

Entendemos com higiene do sono um conjunto de medidas que quando aplicadas facilitam um sono de qualidade. Destaco como medidas de higiene do sono:

  • Manter horários regulares de refeições e sestas durante o dia
  • Não efectuar atividades físicas estimulantes nas 2 horas que antecedem o sono
  • Não usar ecrãs cerca de 2 horas antes de ir para a cama.
  • Evitar refeições pesadas ao jantar
  • Criar um ritual no período prévio ao deitar, que deverá repetir-se diariamente
  • Repetir horários de forma diária e consistente no adormecer e acordar
  • Adaptar o ambiente do quarto: conforto, luz, temperatura, etc.
  • Ensinar a criança a ser autónoma no momento de adormecer: usar elementos de conforto externos (chucha, fralda, boneco, etc.), independentes dos pais.
  • Não associar os momentos de alimentação com o sono, incentivando que a criança não adormeça a comer.

Há crianças com um número de horas de sono diárias inferior ao recomendado que não apresentam sintomas de privação e outras que necessitam mais horas de sono para se sentirem descansadas.

Quantas horas por dia (noite) deve uma criança dormir e que benefícios tem uma boa higiene de sono para a saúde física e desenvolvimento?

Recentemente a Academia Americana de Medicina do Sono publicou uma recomendação relativamente ao número de horas de sono na população pediátrica.

Grupo Etário | Horas de sono por dia
4-12 meses 12-16h (inclui sestas)
1-2 anos 11-14h (inclui sestas)
3-5 anos 10-13h (inclui sestas)
6-12 anos 9-12h
13-18 anos 8-10h

Estas variam naturalmente com a idade da criança e devemos ter em atenção que poderá haver alguma variabilidade interindividual. Apesar da recomendação, existem crianças com um número de horas de sono diárias inferior ao recomendado que não apresentam quaisquer sintomas de privação, e outras que necessitam mais horas de sono para se sentirem descansadas.

O sono reparador é essencial para uma vida saudável. Não se pode viver sem dormir, sendo que o sono não é de todo um processo passivo, constituindo um momento de reorganização de funções e de recuperação física e psíquica. Nas crianças, o sono desempenha um papel fundamental no desenvolvimento cerebral, na aprendizagem e consolidação da memória, tendo também um papel significativo no crescimento corporal.

Existem diversas perturbações de sono que justificam uma avaliação médica. Quando surgem sinais de privação de sono nas crianças ou nos cuidadores, é importante obter aconselhamento médico.

E que problemas trazem as insónias infantis?

Na criança, dependendo do seu grupo etário e grau de desenvolvimento as consequências de sono insuficiente vão ser distintas:

no lactente e criança em idade pré-escolar: irritabilidade, choro frequente, maior dependência do cuidador

na criança em idade escolar: sonolência diurna, cansaço, dificuldade de concentração e problemas na aprendizagem

no adolescente: sonolência diurna, diminuição da capacidade de atenção e concentração, baixa do rendimento escolar, problemas de auto-estima.

Quando é que há razão para preocupação e recurso a aconselhamento médico?

Existem diversas perturbações de sono que justificam uma avaliação médica. Dentro das insónias comportamentais, quando surgem sinais de privação de sono nas crianças ou nos cuidadores, é importante obter aconselhamento médico.

Importa desmistificar que só se recorre ao médico quando há doença e que o não dormir faz parte dos primeiros anos de vida. Dormir é fundamental, pais e crianças necessitam de dormir, e quando isso não acontece uma avaliação em Consulta de Sono pode ajudar.

Outras perturbações de sono mais frequentemente avaliadas em Consulta de Sono são as parassónias (terrores noturnos, sonambulismo…), o síndrome de apneia obstrutiva do sono e as perturbações do ritmo circadiano.

Porque é que há bebés que dormem a noite toda e outros que estão sempre a acordar?

De facto, não se sabe bem porquê, mas existem bebés que dormem toda a noite sem qualquer ajuda e outros que repetidamente solicitam os pais para conseguir adormecer.

Sabemos no entanto, que os bebés em que desde cedo é estimulada a autonomia no momento do adormecer, dormem melhor em idades mais precoces.

E sabemos também que os bebés que necessitam dos pais para adormecer, seja no colo, enquanto mamam ou bebem biberão, têm maior probabilidade de despertar várias vezes durante a noite para pedir ajuda para readormecer.

O método de chorar até adormecer, que tem como objetivo que a criança adquira a capacidade de adormecer sozinha, apresenta bons resultados, mas pode ser causador de grande ansiedade familiar.

Mas não é normal que as crianças acordem durante a noite?

Como já referido é normal que até aos 6 meses os bebés possam necessitar de ser alimentados no período noturno, por razões nutricionais e de imaturidade dos ciclos de sono.

A partir dos 6 meses a maioria das crianças tem as ferramentas biológicas para dormir por um maior período noturno. O que não significa que seja “anormal” se mantiverem alguns despertares noturnos. Mas se estes forem muitos frequentes e com interferência na vida familiar seria útil uma avaliação médica.

O método, defendido por alguns, de deixar chorar até adormecer, é uma tortura para os pais e para as crianças. Tem algum mérito?

Existem diversos métodos de “sleep training” aplicáveis as insónias comportamentais e que devem ser adequados ao grupo etário e ao contexto familiar. Todos estes métodos se baseiam no princípio da autonomia no momento do adormecer.

O método de chorar até adormecer, é um método de extinção simples, e que tem como objetivo que a criança adquira a capacidade de adormecer sozinha, sem ajuda dos pais. Quando aplicado apresenta bons resultados, mas pode ser causador de grande ansiedade familiar.

Não se poderá dizer que é prejudicial os pais adormecerem os seus filhos, mas é um hábito que mantido ao longo do tempo, aumenta a probabilidade de uma perturbação de sono.

Até que idade as crianças devem fazer a sesta?

A sesta é um assunto que tem levantado algumas questões, essencialmente porque o fazer ou não a sesta é atualmente decidido pelas regras dos estabelecimentos de ensino que a criança frequenta.

O princípio será sempre que a sesta complete a necessidade de horas de sono diárias. Mais uma vez aqui a questão deverá ser analisada com família e com cada criança individualmente.

Regra geral até aos 3 – 4 anos a criança ainda deverá apresentar um ciclo de sono bifásico, com um maior período de sono noturno, e um período curto de sono diurno. A partir dos 4 – 5 anos, algumas crianças começam a dar alguns sinais que não precisam de fazer a sesta. Por exemplo pode ser muito difícil adormecer na sesta, ou se quando faz sesta não tem sono para adormecer à hora habitual, ou consegue, não fazendo sesta, ficar desperta para as atividades habituais. Nesta altura pode ser ponderado suspender a sesta.

A decisão neste grupo etário dos 4 – 5 anos, de fazer ou não sesta, deve ser tomada entra família e estabelecimento de ensino, de acordo com as necessidades da criança.

A partir dos 6 anos, com a entrada no ensino básico, a sesta é naturalmente eliminada.

É prejudicial os pais adormecerem as suas crianças nos primeiros anos de vida?

Não se poderá dizer que é prejudicial os pais adormecerem os seus filhos, mas é um hábito que mantido ao longo do tempo, aumenta a probabilidade de uma perturbação de sono no futuro, nomeadamente de insónia comportamental.

Quais são os maiores inimigos do sono para uma criança?

Diria que os maiores inimigos do sono para uma criança será a ausência de rotina e a instabilidade nas regras.

A necessidade de horas de sono vai diminuindo com a idade? Qual diferença entre uma criança e um adolescente?

No primeiro ano de vida o desenvolvimento cerebral e as imensas aquisições cognitivas e motoras, exigem que o número de horas de sono diárias seja maior do que na criança em idade escolar ou adolescente.

As recomendações em relação ao número de horas de sono diárias variam com a idade, mas a título de exemplo um bebé pode precisar de 14 a 15h de sono diárias, uma criança de 5 anos será normal dormir 10 a 12h e um adolescente a partir dos 13 anos deverá dormir pelo menos 8h por dia.

Mais importante que o horário em si, é a regularidade do mesmo. O nosso sono é melhor se dormimos e acordamos a mesma hora.

Dormir de mais também pode ter consequências negativas ou dormir nunca é de mais?

Biologicamente o nosso corpo está preparado para dormir o número de horas que necessita. A questão que se põe atualmente é que geralmente dormimos menos do que precisamos e tentamos compensar esporadicamente quando podemos. Mas esta não é uma compensação real. A regularidade nos horários é fundamental para um sono de qualidade.

Importa só a quantidade de horas de sono ou também são importantes a hora a que se deita e acorda?

Mais importante que o horário em si, é a regularidade do mesmo. O nosso sono é melhor se dormimos e acordamos a mesma hora. No caso dos adolescentes, que biologicamente têm sono mais tarde e dormiriam também até mais tarde, há uma colisão entre o horário que lhes seria natural dormir e a atividade escolar. Neste caso, a regularidade dos horários é ainda mais importante, para permitir um bom desempenho escolar.

Em Portugal, um em cada dez bebés nasce de mãe estrangeira

Dezembro 23, 2019 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Sapo24 de 18 de dezembro de 2019.

O números são base de dados Pordata, divulgados por ocasião do Dia Internacional das Migrações, que hoje se assinala.

De acordo com os dados divulgados hoje, quase 480 mil estrangeiros viviam legalmente em Portugal em 2018 e cerca de um em cada quatro é brasileiro, totalizando 104.504, seguidos dos cabo-verdianos (34.444), romenos (30.908) e ucranianos (29.197).

Os dados mostram igualmente que cerca de um em cada dez bebés nascidos em Portugal foram de mães de nacionalidade estrangeira.

Dos 87.020 bebés nascidos no ano passado, 9.389 era de nacionalidade estrangeira.

Em 2018, entraram em Portugal, com a intenção de permanecer no país, cerca de 43 mil pessoas, mais 13 mil que em 2008, e mais de metade eram mulheres.

Os nepaleses a viver em Portugal aumentaram 21 vezes entre 2008 e 2018, embora não ultrapassem os 11.487, enquanto os imigrantes franceses cresceram quatro vezes, passando de 4.576 para os 19.771 em 10 anos.

A Pordata realça que também quase que duplicaram os indianos, espanhóis, chineses e britânicos a viver no país. Em 2018 viviam em Portugal 26.445 britânicos, 24.856 chineses, 14.066 espanhóis e 11.340 indianos.

A maioria da população estrangeira vive na área metropolitana de Lisboa (50%) e Algarve (16%), concentrando o município de Lisboa cerca de 16% do total dos imigrantes legais.

Entre os dez municípios com maior proporção de estrangeiros no total da sua população residente, oito deles são algarvios, indicam os dados, frisando a Pordata que, pelo menos um em cada quatro residentes são estrangeiros nos municípios de Vila do Bispo, Albufeira, Lagos e Odemira.

De acordo com a base de dados gerida pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2,5% da população empregada em Portugal é estrangeira e, comparativamente com os portugueses, os imigrantes são mais vulneráveis ao desemprego, com uma taxa de quase 12%, enquanto entre os cidadãos nacionais a taxa de desemprego é de 7%.

Portugal faz parte dos dez países da União Europeia em que a percentagem da população estrangeira no total da população residente é inferior a 5%.

Desde 2009 que mais de um terço dos imigrantes tem naturalidade portuguesa.

Segundo as estatísticas, nos últimos 10 anos a nacionalidade portuguesa foi concedida, em média, a cerca de 22 mil cidadãos estrangeiros por ano, tendo sido o valor mais baixo atribuído em 2017, a 18 mil cidadãos, e o mais alto, em 2016, a 25 mil.

Em 2018, um terço dos cidadãos que adquiriram nacionalidade portuguesa eram brasileiros, seguindo-se os cabo-verdianos e os ucranianos.

Desde 1961 que Portugal teve três períodos distintos com saldos migratórios negativos, designadamente de 1961 a 1973, de 1982 a 1992 e, mais recentemente, entre 2011 e 2016.

Os dados indicam que a população de Portugal está a diminuir desde 2010, tendo o país perdido quase 300 mil pessoas.

No entanto, e apesar do saldo ser positivo nos últimos dois anos, os saldos migratórios não foram suficientemente elevados para compensar os saldos naturais negativos.

As estatísticas dão ainda conta que, em 2018, as remessas dos imigrantes para o exterior chegaram aos 533 milhões de euros em 2018 e quase metade foi para o Brasil (48%), seguido da China (10%) e França (5%).

Percepção de fragilidade do bebé prematuro: Sim! Impotência dos pais: Não!

Dezembro 1, 2019 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Cristina Matos publicado no Público de 17 de novembro de 2019.

Nem todos os bebés prematuros têm o mesmo tipo de problemas. As possibilidades de sobrevivência dependem da idade gestacional, do peso e dos problemas graves ao nascimento, como sejam: respiratórios; cardíacos; infecciosos e malformativos. De todos eles o mais importante é a idade gestacional.

O nascimento de um filho é um momento único de alegria e de esperança.

A duração de uma gravidez normal, de termo, ocorre quando o parto se dá entre as 37 e as 41 semanas mais seis dias de gestação. Porém, algumas vezes, de forma inesperada e abrupta, a gravidez acaba prematuramente e o bebé nasce antes das 37 semanas, é então designado como prematuro ou pré-termo. Nestes casos, o bebé real é frágil, imaturo, indefeso, pequenino, tão diferente do bebé que tinham imaginado durante toda a gravidez.

“Será que vai sobreviver? Em que posso ajudar o meu bebé?”

Os pais ao entrarem pela primeira vez na Unidade de Cuidados Neonatais ficam assustados por encontrar o seu filho rodeado de aparelhos e máquinas, tubos e fios.

“Posso acariciá-lo? Mexer-lhe? Pegar-lhe? Qual o meu papel enquanto mãe ou pai?”

Os profissionais de saúde, médicos e enfermeiros, que trabalham na unidade explicam o funcionamento de todo o equipamento que irá ajudar o bebé, nestes primeiros tempos de vida, incentivam e apoiam os pais a estarem presentes junto do recém-nascido e a ultrapassar as dificuldades, vivendo um dia de cada vez.

O bebé prematuro não só tem menos peso e é mais pequenino, como nasce com imaturidade dos seus órgãos e sistemas — pelo que pode ter problemas respiratórios, de controlo de temperatura, dificuldade alimentar, menor defesa às infecções. Tudo isto torna-o mais vulnerável às doenças e mais sensível aos estímulos externos, como a luz e o som.

Nem todos os bebés prematuros têm o mesmo tipo de problemas. As possibilidades de sobrevivência dependem da idade gestacional, do peso e dos problemas graves ao nascimento, como sejam: respiratórios; cardíacos; infecciosos e malformativos. De todos eles o mais importante é a idade gestacional.

A gravidade dos problemas está inversamente relacionada com a idade gestacional. Actualmente o limiar de sobrevivência são as 23/24 semanas de gestação. Os bebés prematuros vão necessitar de passar os primeiros tempos de vida internados em Unidades de Cuidados Neonatais, numa incubadora para lhes manter a temperatura, podem necessitar de um ventilador para os ajudar a respirar, serem alimentados através de um catéter, colocado numa veia que lhes leva os nutrientes necessários ou de uma sonda que lhes leva o leite até ao estômago.

Os bebés têm de ficar afastados fisicamente dos pais, quebrando-se a relação afectiva essencial no estabelecimento da relação precoce pais/filhos.

Sempre que o desejarem, desde que o estado de saúde do bebé o permitir, os pais podem tocar, acariciar, falar, fazer contacto pele a pele, trocar a fralda, colaborar na higiene, colocar bebé ao peito, embalar, cantar.

Conhece-se hoje a importância da presença e envolvência dos pais nos cuidados ao recém-nascido. Diminui o stress e insegurança dos pais, melhora a relação de afectividade com o bebé e dá maior estabilidade ao recém-nascido.

É um tempo de aprendizagem, capacitação e preparação gradual dos pais para o momento tão esperado de uma ida com segurança para casa.

A humanização das Unidades, os cuidados centrados no desenvolvimento e na família, a par da elevada tecnologia que hoje dispomos, são fundamentais para a sobrevivência com qualidade de vida dos bebés prematuros.

Fragilidade dos Prematuros: Sim!

Impotência dos Pais: Não!

Médica Pediatra responsável pela Unidade de Neonatologia do Hospital CUF Descobertas

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