Higiene oral dos miúdos. “Há muitos pais que dão Panrico aos filhos e não sabem o quão mal isso faz aos seus dentes”

Julho 12, 2018 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Blaise vonlanthen unsplash

Texto do site MAGG de 5 de julho de 2018.

Os bebés também devem lavar a boca, a quantidade de pasta deve ser adequada e a alimentação é muito importante. Uma higienista oral explica.

Lavar os dentes a um bebé ou criança pode ser um verdadeiro pesadelo para os pais. É um hábito que nem sempre é fácil de incutir, mas que é essencial para a saúde oral dos miúdos. Mesmo antes de terem dentes.

“As pessoas quando pensam em dentes, pensam em problemas e tratamentos e esquecem-se da prevenção. Essa sim é a mais importante”, explica à MAGG Rita Branco, higienista oral e delegada de propaganda médica nos Laboratórios Pierre Fabre. “Prevenir é a solução para que não haja a necessidade de ter algo para tratar.  E é isto que os pediatras precisam transmitir aos pais.”

E são também os pediatras que têm o papel de informar os pais sobre quais os hábitos de higiene oral adequados a cada bebé ou criança.

Os primeiros dentes aparecem habitualmente depois dos primeiros seis meses de vida do bebé, mas a higienização da boca deve ser feita desde sempre. “A partir do momento em que há fatores externos à boca, é conveniente higienizar as gengivas, pois estas estão constantemente em contacto com o leite, leite com papa ou sopas”, explica.

Quando o bebé é ainda muito pequeno, e não tem dentes, a limpeza deve ser feita apenas com uma compressa húmida, sem recorrer a uma escova, de cada vez que o bebé come. Isto pode durar até no máximo aos dois anos, segundo Rita Branco, apesar de haver várias escovas de dentes no mercado adequadas a bebés a partir dos seis meses.

Além desta, há outras dicas que a higienista oral considera importantes para que seja feita uma correta higiene oral nos bebés e crianças.

  • A escovagem deve ser feita pelo menos duas vezes por dia, de manhã e à noite. Idealmente deveria ser feita de cada vez que a criança come, mas como nem sempre é possível, principalmente se a criança estiver na escola, essas duas vezes devem ser garantidas;
  • A pasta de dentes só deve ser introduzida quando já existem dentes, e com a quantidade de flúor adequada a cada idade. A quantidade de dentífrico usada também é muito importante. Não deve ultrapassar o tamanho da unha do dedo mindinho do bebé/criança, pois só dessa forma se controla melhor para que não haja ingestão do dentífrico;
  • A escova tem que ter um tamanho adequado ao tamanho da boca e dos dentes, ou seja, no momento da compra da escova, deve ter atenção à Indicação da idade e à “cabeça” da escova;
  • A escova de dentes deve ser trocada a cada três meses, por causa da acumulação de placa bacteriana e pela deterioração dos pelos da escova;
  • Ir ao dentista pelo menos duas vezes por ano, para criar um hábito na criança e evitar que se crie o mito de que só se vai ao dentista para tratar um problema e que “o dentista dói”;
  • Lavar os dentes em família. Se tornar este momento divertido e mostrar que também o faz, será mais fácil incutir a vontade e hábito na criança;
  • Não deixar as crianças escovarem os dentes sozinhas, pelo menos até aos seis ou sete anos de idade, pois dificilmente os dentes ficarão bem limpos. Deve haver sempre uma supervisão dos pais.

“Há muitos pais que dão Panrico aos filhos e não sabem o quão mal isso faz aos seus dentes”

A estas dicas há que juntar outro elemento importante: a alimentação. É do senso comum que o açúcar faz mal aos dentes, no entanto, muitas vezes não sabemos a quantidade de açúcar que determinados alimentos têm e damos constantemente às crianças.

“Os refrigerantes são obviamente maus para os dentes, mas não são os únicos. Há muitos pais que dão Panrico aos filhos e não sabem o quão mal isso faz aos seus dentes. E até os alimentos considerados mais saudáveis e que estão tanto na moda como os cereais, as granolas, não se devem dar sem que seja feita uma escovagem logo a seguir. São pegajosos e colam-se aos dentes”, explica a higienista oral.

Outra situação comum ligada ainda ao açúcar, e à importância de lavar os dentes pelo menos de manhã e à noite, é quando os pais têm que dar um xarope aos filhos, que é habitualmente altamente açucarado. Regra geral fazem-no antes de se deitarem ou a meio da noite, e depois não lhes lavam os dentes.

“A criança dorme com a boca fechada, há menos produção de saliva e as bactérias estão mais ativas. O açúcar fica a trabalhar nos dentes a noite toda, o que é bastante prejudicial. Quando isto acontece, é ainda mais importante lavar os dentes logo de manhã.”

A sociedade atual em que vivemos tem em parte alguma culpa da falta de higiene oral das crianças, pois segundo Rita Branco, os pais não têm tempo, nem paciência para estar atentos e dedicarem uma parte do seu dia a isto.

 

 

 

 

 

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A solução para as cólicas pode estar no mimo. “A noção de que os recém-nascidos ganham habituação ao colo é um mito”

Julho 3, 2018 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do site MAGG de 12 de abril de 2018.

As cólicas são um dos dramas de quem acabou de ter um bebé. Pediatras explicam o que são, como se podem atenuar e dão conselhos úteis.

São uma das maiores inimigas dos novos pais. As cólicas dos bebés, que geralmente surgem ao final do dia, provocam desconforto à criança, fazendo-a chorar durante longos períodos, o que lhe gera um elevado grau de irritação, que não ajuda a que se acalme. Mas afinal, o que são as cólicas e o que é que as causa?

“Na verdade, não se sabe muito bem o que as causa”, diz à MAGG Hugo Rodrigues, pediatra, que acrescenta que se calcula que estas “estejam relacionadas com alguma imaturidade do intestino e acumulação de gases”.

A definição médica das cólicas baseia-se na chamada “regra dos 3”, como explica o pediatra — se os bebés choram mais de três horas por dia, mais de três dias por semana e mais de três semanas por mês.

“Na prática, consideramos que um bebé tem cólicas quando tem episódios de choro que não têm causa evidente e se fora desses episódios, a criança estiver bem”, afirma o especialista.

No entanto, existem outras teorias, e uma das mais consistentes assenta na premissa de que as cólicas dos recém-nascidos são apenas mais uma etapa do desenvolvimento cerebral do bebé.

As cólicas são tão comuns como gatinhar ou sentar

O pediatra Miguel Fragata Correia acredita que as cólicas são uma etapa do desenvolvimento das crianças, tão comum como aprender a gatinhar.

“O cérebro dos recém-nascidos, ainda muito imaturo, tem uma perceção alterada dos estímulos dos intestinos e reage aos mesmos com um choro excessivo.”

“O bebé passa por um desenvolvimento cerebral e as cólicas são o reflexo disso mesmo. O cérebro dos recém-nascidos, ainda muito imaturo, tem uma perceção alterada dos estímulos dos intestinos e reage aos mesmos com um choro excessivo.”

O especialista afirma que as cólicas permanecem um mistério, dado que todos os estudos feitos no sentido de perceber a razão das mesmas se revelaram inconsistentes.

“Existe uma associação geral com os gases, e que é de facto um contributo (dado que quanto mais gás temos nos intestinos, maior é o desconforto), mas não é a razão principal”, refere o pediatra.

A obstipação das crianças também costuma ser um fator apontado por muitos pais como a causa mas, mais uma vez, o especialista desmente. “Se esse fosse o caso, não teríamos bebés que fazem cocó três e quatro vezes por dia e sofrem imenso com as cólicas.”

“Acredito que não fazem mal ao bebé, só à família”

Apesar do enorme desconforto que causa nas crianças, Miguel Fragata Correia acredita que as cólicas não são prejudiciais para a saúde. “Acredito que as cólicas não fazem mal

ao bebé, só à família. São um período muito complicado, de extremo cansaço, muito stressante e os pais passam muitas horas sem dormir”, salienta o pediatra.

Débora Grilo Esteves, produtora, tem 30 anos e é mãe de duas crianças: Frederica, de dois anos, e Lopo, com apenas 10 semanas. “A Frederica nunca sofreu com cólicas por isso não fazia ideia do que me esperava. Nos primeiros dias o Lopo era um anjinho, dormia dia e noite e só acordava para mamar”, conta Débora.

Mas não demorou muito para o cenário se alterar. Com cerca de duas semanas, o filho de Débora e do companheiro de quase dez anos, Sebastião, começou a sofrer muito com cólicas. “Por volta das 19 horas começava a ficar irrequieto. De repente acordava a chorar, aos gritos mesmo, muito encarnado e não acalmava com nada. Tentava dar mama, colo, mimos — mas nada funcionava. E ficava assim horas e horas.”

As cólicas do filho mais novo foram complicadas de decifrar para Débora, e a produtora chegou a pensar se Lopo teria fome. ”Estás num tal estado de desespero que pensas em tudo e equacionei que o meu leite não fosse suficiente para o alimentar. Mas percebi numa consulta que estava a aumentar bem de peso e acabei por descartar essa hipótese.”

A produtora concorda que a fase das cólicas, que ainda atravessa no presente, é um período muito duro, principalmente para os pais, privados de sono e exaustos ao limite.

“Já ouvi várias vezes que é uma fase, que geralmente termina por volta dos três, quatro meses e estou aqui em countdown.”

“Já ouvi várias vezes que é uma fase, que geralmente termina por volta dos três, quatro meses e estou aqui em countdown. São semanas muito complicadas. Quando a Frederica nasceu, aproveitava os momentos em que ela dormia para descansar mas agora a realidade é outra.”

Com uma criança de dois anos e um bebé de dez semanas em casa, Débora confessa que a gestão do tempo é desafiante e que o apoio do companheiro é crucial — assim como os momentos a dois para respirar.

“Os meus filhos não gostam de dormir ao mesmo tempo. Quando consigo adormecer o Lopo, a Frederica acorda e está super ativa, o que é completamente normal para a idade dela. Quer brincar, ver filmes, o que for. Mas o meu tempo de descanso desaparece. Acabámos por nos organizar por turnos: de noite eu fico responsável pelo bebé, de manhã o Sebastião cuida da nossa filha para eu dormir mais, por exemplo.”

O cansaço e a noites sem dormir também podem causar danos no casal, como explica o pediatra Miguel Fragata Correia, que considera que alguns pais até “podem ter de fazer terapia de casal. É um facto, as cólicas de uma criança podem alterar a dinâmica familiar.”

No caso de Débora e do companheiro, a exaustão também gera conflitos, apesar de o casal conseguir reconhecer facilmente a razão porque está a discutir.

“Estamos tão exaustos que começamos a discutir por tudo e por nada. Mas pouco depois conseguimos parar um bocadinho e perceber que o cansaço é o culpado de todas essas brigas. E tentamos também ter espaço para nós. De vez em quando recorremos aos avós ou às nossas irmãs e arranjamos forma de ir jantar com amigos ou a dois. É importante ter três horas para estarmos um com o outro, sem falar nem pensar em bebés.”

Há uma luz ao fundo do túnel: as cólicas, como qualquer fase, também passam

Patrícia Ferreira Ramos, blogger e assessora de imprensa, tem 35 anos e é mãe de dois filhos. Mas foi com a filha mais velha, de quatro anos, que passou pelo pesadelo das cólicas.

“A Leonor teve imensas até aos dois meses. Usámos todas as gotas e mais algumas, como o Aero-Om, e até pedimos a uma amiga da Irlanda para nos trazer umas especiais que não se vendiam em Portugal”, conta Patrícia.

A filha não dormia, os pais também não — e não sabiam mais o que fazer. Chegaram a ir ao hospital e passavam noites com a bebé ao colo e a fazer muitas massagens.

“Os nossos esforços aliviavam-na um pouco mas, de repente, as cólicas desapareceram por completo com cerca de dois meses.”

Os pediatras concordam: as cólicas têm uma linha de tempo. “Geralmente, começam por volta das três semanas, têm o seu pico nas seis, oito semanas, e terminam aos três ou quatro meses”, explica Miguel Fragata Correia, que acrescenta que ”são uma fase que todos os bebés passam, apenas existem uns que se manifestam mais que outros. E nunca vi casos de cólicas que não passassem, há que explicar isso aos pais.”

Enquanto não se atinge a marca dos quatro meses, que geralmente representa o fim desta saga, há que não desesperar — e existem técnicas para tentar acalmar o seu bebé.

A noção de que os recém-nascidos ganham habituação ao colo é um mito.”

“O mais importante é o contacto físico com os pais, porque tranquiliza os bebés”, afirma o pediatra Hugo Rodrigues. “Para além disso, devem sempre tentar-se as massagens ou dobrar as pernas do bebé sobre a barriga, para ver se ajuda.”

Miguel Fragata Correia é um apologista do colo para acalmar os bebés e vai mais longe — há que abandonar a ideia de que este pode ser prejudicial.

“A noção de que os recém-nascidos ganham habituação ao colo é um mito e, até aos cinco meses, nenhuma criança ganha manhas. Há sim que acalmar o bebé com colo, é mais fácil e as crianças respondem melhor. Se colocarmos um recém-nascido sozinho num berço, este não vai ter capacidade para se acalmar.”

O especialista acrescenta que, apesar de não existirem fórmulas precisas e cada criança ser diferente, as técnicas que acalmam mais os bebés são aquelas que recriam o ambiente do útero.

“Um ambiente calmo, quente, em que a mãe encoste o bebé a si fazendo um contacto pele a pele e embrulhado numa manta podem ser ferramentas úteis, bem como as massagens na barriga a cada muda da fralda”, afirma Miguel Fragata Correia, que acredita que há que “acalmar os bebés para acalmar os pais.”

Hugo Rodrigues conclui: ”Por fim, e se mesmo assim não se conseguir resolver a situação, existem alguns medicamentos no mercado com uma eficácia considerável. Faz sentido que os pais tentem testá-los para atenuar o desconforto do seu filho, desde que sempre aconselhados pelo médico pediatra.”

 

O leite de fórmula causa mais cólicas que o materno?

Existem vários mitos à volta do tema das cólicas, sendo a alimentação um dos mais recorrentes. Afinal, existe alguma validade na ideia de que os bebés alimentados a leite artificial sofrem mais de cólicas do que os bebés amamentados?

O pediatra Miguel Fragata Correia garante que não existe verdade nessa ideia. “Se assim fosse, todos os bebés alimentados a fórmula, que são bastantes, iriam ser os únicos a ter cólicas, o que não é a realidade. Essa ideia surgiu porque os bebés que não são amamentados bebem o leite através do biberão, que pode causar mais ingestão de ar, o que gera gases e que se acreditava serem o motivo das cólicas”, explica o especialista.

Da mesma forma, o médico pediatra também desmistifica a ideia de que a alimentação das mães pode ser um fator.

“Já existiram vários estudos a tentar encontrar uma ligação entre a alimentação das mães e a amamentação mas todos se revelaram inconclusivos”, afirma Miguel Fragata Correia.

 

 

 

 

Crianças superprotegidas têm mais dificuldade em lidar com a frustração

Junho 26, 2018 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 19 de junho de 2018.

As crianças cujos pais são excessivamente controladores – já baptizados como “pais-helicóptero” por andarem sempre a “sobrevoar” os filhos – tornam-se menos capazes de controlar as suas emoções e os seus impulsos à medida que vão crescendo, podendo mesmo vir a sofrer dificuldades acrescidas nas aprendizagens feitas na escola.

A conclusão resulta de um estudo que juntou investigadores norte-americanos, ingleses e suíços e que, segundo o jornal britânico The Guardian, implicou a observação de 422 crianças e respectivas mães durante oito anos. “Os pais que são excessivamente controladores são quase sempre bem-intencionados e estão a tentar apoiar os seus filhos”, introduz Nicole Perry, uma investigadora universitária do Minnesota, nos EUA, para recomendar: “Contudo, para promover o desenvolvimento das competências emocionais e comportamentais das crianças, os pais devem permitir que estas experimentem uma variedade de emoções e dar-lhes espaço para as gerir de forma autónoma. E só depois, quando a tarefa se revela demasiada para as crianças, devem ajudá-las e orientá-las”.

Num artigo publicado na revista Developmental Psychology, da Associação Americana de Psicologia, os investigadores explicaram que as 422 crianças foram chamadas a um laboratório quando tinham dois anos de idade para os investigadores verem como brincavam com as respectivas mães. Durante quatro minutos e postas diante de uma variedade de brinquedos, as mães sabiam que estavam a ser observadas. Depois, eram deixadas sozinhas com os filhos durante mais dois minutos, sem saberem que continuavam a ser gravadas e observadas.

Aquilo que os investigadores procuravam apurar era até que ponto as mães tentavam assumir as tarefas e orientar a brincadeira dos filhos.

Anos depois, quando as crianças tinham cinco anos de idade, os investigadores voltaram a observá-las para perceber que comportamentos assumiam perante uma distribuição não equitativa de doces e quando convidadas a completar um puzzle sob pressão.

Numa fase posterior do mesmo estudo, quando as crianças tinham dez anos, os investigadores questionaram os respectivos professores sobre a existência de problemas como depressão, ansiedade e solidão entre estas crianças, bem como sobre os respectivos desempenhos escolares e aptidões sociais. Nesta altura, as crianças foram também questionadas sobre as suas atitudes em relação à escola e aos professores.

As conclusões a que os investigadores chegaram são claras q.b. Sopesadas as diferenças etárias e de contextos sócio-económicos, os filhos de mães mais controladoras revelaram, aos cinco anos, ter menos controlo sobre as suas emoções e sobre os seus impulsos. E, mais do que isso, as crianças que aos cinco anos revelavam problemas de auto-controlo das emoções revelaram, cinco anos depois, ter menos aptidões sociais e um desempenho académico mais fraco.

Apenas seis minutos de observação

Os investigadores limitaram-se a observar uma única vez a interacção entre os bebés e as respectivas mães e não consideraram mudanças na família ou na saúde das crianças. Conforme ressalva Dieter Wolke, da Universidade de Warwick, no Reino Unido, os investigadores não averiguaram sobre a existência de distúrbios de ansiedade entre as mães. Mas o investigador não deixou, por isso, de enfatizar o facto de as conclusões convergirem com as de outros estudos que demonstraram que a falta de auto-controlo na infância gera problemas em idades mais avançadas.

“A questão é que se alguém não aprende a auto-regular-se na infância como é que se vai auto-regular quando sai de casa ou quando vai para a universidade?”, reflecte, para considerar que impedir as crianças de fazerem essa aprendizagem configura uma “certa forma de abuso”.

A questão estará assim em perceber onde está a fronteira, isto é, “quando é que o controlo se torna excessivo” e de que modo se enquadra no contexto em que a criança está inserida.

“Embora o estudo estabeleça uma ligação entre o excessivo controlo parental e problemas futuros não é possível concluir que uma coisa provoca a outra”, sublinha outra investigadora, Janet Goodall, da Universidade de Bath, na Inglaterra, para lembrar que a interacção das crianças com as mães durou apenas seis minutos. De resto, segundo a investigadora, os pais não devem sentir-se culpados: “O que realmente importa é que os pais se preocupem com as suas crianças e sobre o que estas fazem e aprendem.”

mais informações na notícia :

Helicopter Parenting May Negatively Affect Children’s Emotional Well-Being, Behavior

 

 

Bebeteca | Espectáculo “O Mundo ao Colo” 2 junho na Biblioteca Municipal Eng. Jorge Bento (Condeixa-a-Nova)

Maio 31, 2018 às 6:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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mais informações no link:

https://www.facebook.com/events/1668042409981906/

1ªs Jornadas do Centro de Estudos do Bebé e da Criança “Olhar a Primeira Infância” 4 de Junho na FCG

Maio 30, 2018 às 9:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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A inscrição nas Jornadas tem o valor de 30€ e deverá ser feita através do link:

https://goo.gl/forms/7TM6ClDloIoGSbMG2

e o comprovativo de pagamento enviado para o e-mail:

jornadascebchde@gmail.com

mais informações no link:

http://www.spp.pt/eventos/default.asp?ida=1776

 

Há mais de 136 mil crianças e jovens sem médico de família

Maio 23, 2018 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Observador de 10 de maio de 2018.

Miguel Santos Carrapatoso

De acordo com dados oficiais, existem mais de 136 mil crianças e jovens até aos 18 anos sem médico de família. Entre janeiro e março, havia quase mil recém-nascidos nestas circunstâncias.

São números preocupantes: existem neste momento, em Portugal, mais de 136 mil crianças e jovens com menos de 18 anos sem médico de família atribuído. Mais: olhando para os dados referentes ao período entre janeiro e março deste ano, é possível concluir que quase mil recém-nascidos também se viram privados de médico de família, isto apesar de a lei dterminar que todos os recém-nascidos têm de ter médicos de família à nascença.

A informação é avançada pelo jornal Público, depois de o Bloco de Esquerda ter questionado os 55 agrupamentos de saúde (Aces) sobre a atribuição de médico de família a recém-nascidos, crianças e jovens até aos 18 anos. Desses 55 agrupamentos, apenas 47 responderam, o que permitiu concluir, ainda assim, que existem mais de 136 mil crianças e jovens em idade pediátrica e 968 recém-nascidos (entre janeiro e março) sem médico de família.

Esta é a segunda vez que o Bloco exige saber se a lei, aprovada em setembro de 2016, estava ou não ser respeitada. Da última vez que o fez, em maio de 2017, foram registados mais de 4 mil recém-nascidos e mais de 108 mil crianças e jovens em idade sem médico de família. Ou seja, diminuíram os casos de falta de acompanhamento entre recém-nascidos, mas aumentou o défice de resposta para os restantes grupos.

É isso mesmo que nota Moisés Ferreira, deputado do Bloco de Esquerda. “Os números resultantes das perguntas de 2017 eram claramente preocupantes. Houve uma evolução, mas a lei continua longe de ser cumprida. Temos quase mil recém-nascidos sem médico de família atribuído e houve uma evolução negativa quando olhamos na idade pediátrica. É preciso encontrar uma solução. O que nos preocupa é que, não estando atribuído um médico a estes recém-nascidos, crianças e jovens, esta vigilância esteja a ser prejudicada”, afirmou o deputado, em declarações ao mesmo jornal Público.

O bloquista não poupa, aliás, críticas ao Governo socialista, que diz estar mais preocupado em “fazer anúncios” do que em fazer cumprir a lei.

“O Governo não pode ficar só por anunciar a legislação sem se preocupar que ela seja cumprida. Tem de fazer cumprir a lei para os recém-nascidos e tem de fazer mais para contratar médicos de família. Infelizmente, o Governo parece ficar mais pelos anúncios, não vai ver o que está a ser cumprido no terreno e no último ano e meio tem contribuído negativamente para a não resolução do problema com atrasos nos concursos para a colocação de médicos de família”, criticou Moisés Ferreira.”

Em declarações ao mesmo jornal, Rui Nogueira, presidente da Associação Portuguesa de Médicos de Família, sublinhou a importância do acompanhamento permanente de recém-nascidos e crianças durante os primeiros dois anos de vida, sendo que as consultas aos cinco e 12 anos também são fundamentais.  “[Essa] vigilância que fica perdida sem um médico de família atribuído”, notou.

De acordo com as contas do jornal Público, os casos de falta de médico de família nestas idades registam-se, sobretudo, na região de Lisboa e Vale do Tejo. “É uma expressão claríssima da falta de médicos. Isto significa que 86% dos recém-nascidos sem médicos estão nesta região”, sublinhou Rui Nogueira.

O Público tentou contactar o Ministério da Saúde, mas o gabinete de Adalberto Campos Fernandes não respondeu às perguntas daquele jornal.

 

Os bebés também têm depressões

Maio 21, 2018 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do site MAGG de 13 de março de 2018.

por MARTA GONÇALVES MIRANDA

O doente mais novo do pedopsiquiatra Pedro Caldeira da Silva, que criou a Consulta dos Bebés Irritáveis, tinha apenas quatro meses.

O médico pedopsiquiatra Pedro Caldeira da Silva, da Unidade da Primeira Infância do Hospital D. Estefânia, em Lisboa, acredita que os bebés podem ter depressões. E os sintomas não são assim tão diferentes dos adultos: apatia, pouco interesse na relação com o outro, um olhar triste. Independentemente de não saberem falar, andar ou guardar memórias, eles também sentem dor. “O importante é reconhecer que os bebés podem ter sofrimento — chamemos-lhe depressão ou chamemos-lhe outra coisa qualquer.”

Para combater o estigma associado às crianças e a psiquiatria, o médico criou a Consulta dos Bebés Irritáveis em 2002. Quase 20 anos depois, o número de casos diagnosticados tem-se mantido estável, mas chega quase aos 10%. E é importante perceber que às vezes o bebé não chora apenas porque tem cólicas como disse à MAGG  Pedro Caldeira da Silva. Leia a entrevista.

Como é que um bebé pode ter uma depressão?

Mesmo entre os especialistas é difícil aceitar [essa ideia.] Há especialistas que acham que os bebés não podem ter uma depressão, porque acham que para ter uma depressão é preciso ter um aparelho mental construído, ter memórias. Portanto, só a partir de uma determinada altura da evolução do desenvolvimento é que se pode falar verdadeiramente em depressão. A nossa experiência na Unidade da Primeira Infância do Hospital D. Estefânia não é bem essa, e há um conjunto grande de especialistas que trabalham em permanência na infância e que falam em depressão em bebés muito pequeninos.

Os especialistas que se opõem à ideia de bebés com depressões acreditam que só é possível ter este quadro a partir de que idade?

Pensam que a partir dos dois anos. Nós podemos pensar na depressão com dois ramos: o da perda súbita de pessoas significativas; e o da insuficiência crónica [de afecto]. Neste último digamos que é preciso ter uma idade maior, dizem alguns. Eu não colocaria sequer esse limite nos dois anos, pode acontecer mais cedo. A partir de certa altura é uma questão de terminologia entre os especialistas, mas o importante é reconhecer que os bebés podem ter sofrimento — chamemos-lhe depressão ou chamemos-lhe outra coisa qualquer.

Segundo a sua experiência, quão cedo é que um bebé pode ter uma depressão?

Lembro-me de um bebé com quatro meses que tinha um quadro depressivo. E os quadros de depressão nos bebés, curiosamente, são muito semelhantes aos quadros de depressão nos adultos.

De que sintomas é que estamos a falar?

Adinamia [redução da força muscular, debilitação muscular e fraqueza], pouca vitalidade, o evitamento do olhar, pouco interesse na relação com o outro, um aparente atraso no desenvolvimento. Alterações do sono e da alimentação, irritabilidade. É um quadro muito semelhante ao dos adultos, com as mudanças inerentes — pouco interesse no jogo, na relação. Um ar triste.

O bebé com quatro meses foi o paciente mais novo que tratou?

Sim. Este era um bebé que estava internado no hospital, tinha sido lá deixado pela mãe.

Foi abandonado?

Sim, mas entregue num sítio em que a mãe provavelmente achava que iria ser bem tratado. Mas claro que o serviço de pediatria não é um bom sítio para deixar bebés. No hospital, e naquela altura — isto já foi há mais de dez anos — os cuidados eram muito transversais no sentido em que uma enfermeira mudava as fraldas, outra alimentava. O resto das necessidades do bebé não eram atendidas, de forma que o bebé estava ali. Estava ali.

Acompanhou esse bebé?

Pediram-me para vê-lo porque estava muito irritado, não aguentava estar deitado, chorava imenso e tinha um ar muito triste. Observei o bebé e a coisa mais marcante que se notava logo era o evitamento do olhar. O bebé não olhava nem por nada. Tinha um aparente atraso de desenvolvimento e transmitia-nos uma tristeza muito grande. Estive com o bebé e isto foi filmado. Em meia hora ajudei-o a reanimar. O filme é muito interessante nesse ponto de vista porque vê-se um bebé a reanimar. Partindo de um evitamento maciço e intencional do olhar, o bebé recusava, recusava e chorava, até finalmente aceitar a relação e recuperar a atividade. Isto foi observado depois pelo pessoal do serviço de pediatria e serviu para mudarem a prática. Perceberem que, mesmo no internamento, é preciso uma continuidade de cuidados.

Com esse caso houve de facto uma transformação no serviço de internamento?

Sim. Os bebés precisam destas experiências repetidas.

De que forma é que interagiu com ele?

Tentei captar-lhe o olhar, entrar no ritmo dele. Tentei regular a distância, perceber qual era a distância com que ele se sentia mais seguro. Tentei perceber quantas modalidades sensoriais é que ele tolerava ao mesmo tempo: se conseguia falar-lhe, tocar-lhe e embalá-lo ao mesmo tempo. Fui ensaiando, fui-me mostrando persistentemente disponível e provavelmente o bebé foi-se sentindo seguro e retomou a relação.

Não sabe o que é que aconteceu ao bebé?

Não, não sei. Soube apenas que este vídeo ajudou na altura os juízes a decidirem mais rapidamente o que fazer com ele.

O que é que pode levar à depressão de um bebé?

Em primeiro lugar, as perdas importantes. No ponto de vista da saúde mental de primeira infância, os primeiros trabalhos importantes publicados foram realizados por René Spitz, um pediatra e psicanalista norte-americano.

Que tipo de estudos é que ele realizou?

Ele fez trabalhos nas prisões nos anos 40 e documentou o que se passava com os bebés que estavam com as mães até aos seis meses e depois eram retirados às progenitoras. E eram “muito bem tratados”, estavam em salas com muitas camas, todas brancas, sem grandes estímulos, eram muito bem lavadinhos e limpos e… mais nada. Spitz documentou isto e constatou que os bebés retirados às mães tinham aquilo que ele chamou depressão anaclítica.

Depressão anaclítica?

Uma depressão por perda. Depois realizou mais trabalhos destes em hospitais, e foram estes que permitiram que as mães estivessem presentes nos internamentos das crianças. Em Portugal as mães passaram a poder estar com os bebés em 1981 ou 1982. As coisas demoram.

Em Portugal as coisas chegam mais devagar?

Não é só cá. Demorou muito tempo a obter este reconhecimento e vencer a resistência de que as mães eram um empecilho na vida dos filhos.

A perda é uma das razões que podem levar à depressão de um bebé. Qual é a outra?

A outra é a insuficiência crónica. A indisponibilidade emocional dos cuidadores tem mais consequências do que propriamente o mau-trato físico.

Estamos a falar de por exemplo mulheres que sofrem de depressão pós-parto?

Por exemplo. A depressão pós-parto é um factor de risco. Nesse caso os bebés não estão necessariamente deprimidos mas mimetizam a expressão deprimida das mães. Quando nós observamos um bebé filho de uma mãe com uma depressão, nós próprios sentimo-nos um bocado deprimidos. Os bebés mimetizam a face da mãe — não quer dizer que estejam deprimidos. Mas pode ser um dos factores: se a depressão se arrasta, não é reconhecida e se mantém cronicamente, há este aspeto da indisponibilidade crónica para o bebé.

Pode haver também uma predisposição genética para a depressão nos bebés?

Provavelmente há, embora esta predisposição genética aumente com a idade. A componente genética do desencadear da depressão aumenta com a idade. Nos bebés muito provavelmente as coisas são quase exclusivamente de base relacional.

Tem ideia de quantos casos de bebés são diagnosticados com depressão?

Aqui na Unidade da Primeira Infância do Hospital D. Estefânia são menos de 10% dos nossos casos. Ainda são alguns.

Maioritariamente são bebés que desenvolveram depressões associadas à perda?

Não, penso que a maioria dos casos estão associados sobretudo à insuficiência crónica.

Como é que um pai ou uma mãe reage a um diagnóstico destes?

Nós não transmitimos necessariamente o diagnóstico. O diagnóstico serve para o que serve, portanto não é necessário muitas vezes transmiti-lo. Umas vezes sim, informamos, quando nos parece que é útil, outras vezes não.

Como é que é feito o tratamento?

O tratamento é relacional. Não se usam anti-depressivos em bebés. É fornecer ao bebé rapidamente uma experiência diferente.

Quando é possível, tenta-se que sejam os pais a fazê-lo?

O tratamento é muito sensível, e nós temos muito cuidado com isso. Tentamos ver se de facto na família é possível fazer esta experiência continuada satisfatória. Para um bebé ou uma criança muito pequenina, para quem os cuidadores não estão muito atentos ou não atendem às suas necessidades, começar um tratamento destes é um risco. Se a relação com o bebé é interrompida, isto para ele vai representar um abandono e nós podemos acabar por contribuir para agravar a depressão. Temos de ter muito cuidado e perceber bem qual é a motivação e a disponibilidade emocional da família para então decidirmos qual é a via de intervenção. Mas muito frequentemente utilizamos as técnicas da chamada psicoterapia mãe-criança, em que se fala com a mãe na presença do bebé ou se está com o bebé na presença da mãe.

E em que é que isso consiste exatamente?

Usamos a palavra. Falamos sobre o bebé com a mãe, falamos sobre as dificuldades da mãe, ou chamamos a atenção para os movimentos do bebé, o que é que necessita, se precisa de colo. Às vezes falamos pelo bebé.

Isso quando existe de facto uma disponibilidade por parte da família. E quando não existe?

Quando não existe, não existe. As pessoas ou procuram ajuda e aceitam ou não procuram e não aceitam. Mas outra das coisas que podemos fazer é ponderar a ajuda das creches ou dos jardins de infância. Sensibilizar alguém que esteja mais disponível para a criança de forma mais continuada. Isto dá-nos alguma garantia de que vai haver uma continuidade.

Quando é que criou a Consulta dos Bebés Irritáveis?                                                                                       

Em 2002. A nossa preocupação foi, e continua a ser, a seguinte: trazer um bebé ou trazer uma criança à psiquiatria é muito difícil. Há um estigma normal e natural associados. Portanto, nós fazemos muitas coisas com a intenção de diminuir o estigma.

Como por exemplo?

Por exemplo, não temos nenhum entrave ao pedido de consulta. As pessoas telefonam e têm consulta, não precisam de relatórios, computadores ou médicos de família. O acesso é completamente livre, porta aberta, desde que as crianças tenham menos de três anos. Foi também um bocadinho neste contexto que nós pensámos como é que podíamos chamar a atenção para o facto de haver bebés que estão em sofrimento, que choram, choram, choram e são difíceis de acalmar e que, enfim, nós podemos dar alguma ajuda além de dizer que é das cólicas. O que nós pensámos então foi criar uma consulta que estivesse descentrada da psiquiatria, que não tivesse estes nomes, e que chamasse a atenção para isto e que as pessoas tivessem um sítio aonde pudessem recorrer.

O que é que é um bebé irritável?

É um bebé que os pais acham que é irritável.

É tão simples quanto isso?

É tão simples quanto isso. Depois nós logo vemos o que é. Nós temos conseguido dar resposta numa semana. A Unidade da Primeira Infância nunca teve lista de espera. Temos 35 anos. Isto é um ponto de honra. Quando é preciso fazemos mais atendimentos, quando há total impossibilidade das nossas enfermeiras, faz-se um acompanhamento telefónico antes da consulta. Nós conseguimos dar sempre resposta. Depois o que encontramos no bebé irritável varia muito. Nós estávamos à espera de encontrar muitos casos de bebés com as chamadas perturbações regulatórias do processamento sensorial. Há um conjunto de bebés que têm reatividade especial aos estímulos sensoriais — aos sons, ao toque, ao embalar —, e que desse ponto de vista podem ser muito irritáveis.

São muito sensíveis?

Sim, ou pelo contrário podem ser muito pouco sensíveis e por isso procurarem ativamente estímulos. Estávamos a pensar que iríamos encontrar muitos casos desses, e para esses o esclarecimento das características do bebé ajuda a adaptar a relação. E encontrámos alguns, mas a grande maioria dos que nos chegaram eram bebés com dificuldades no sono. Também encontrámos muitas mães com depressão pós-parto não reconhecida. Hoje em dia penso que já há muito mais sensibilidade para isto, mas ainda é preciso chamar a atenção para este problema. Muitas mulheres e bastantes homens têm depressão pós-parto e não o reconhecem, não procuram ajuda.

 

 

“Temos de olhar para os bebés como seres muito competentes”

Maio 6, 2018 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do https://www.dn.pt/ de 15 de abril de 2018.

Joana Capucho

Clementina Almeida, psicóloga clínica com especialidade em bebés, diz que os pais precisam de muita informação para saberem lidar melhor com o desenvolvimento dos filhos

Se uma criança for forçada a deixar de usar fraldas sem estar preparada para o fazer, o processo pode arrastar-se durante meses ou até anos. “Muitas vezes os infantários decidem fazer o desfralde, mas as crianças não estão prontas. Se respeitarmos o seu desenvolvimento, as coisas vão acontecer naturalmente”, diz Clementina Almeida, psicóloga especialista em bebés, autora do livro Luca, o hipopótamo que não queria deixar as fraldas.

Depois da publicação de um livro sobre os medos e outro acerca das birras, a psicóloga lançou recentemente dois novos títulos: Pipo, o urso que não queria ficar sozinho e Luca, o hipopótamo que não queria deixar as fraldas. O objetivo é ajudar os mais pequenos – e os adultos – a gerirem duas situações que provocam grandes emoções: as perdas e o desfralde. “Os pais precisam de muita informação para saberem lidar melhor com o desenvolvimento dos filhos”, diz ao DN. Por isso, organiza os livros “ao contrário do que é habitual”: “Com base na ciência, ponho um animal a fazer o que é suposto as crianças fazerem, para que se identifiquem, entendam as suas emoções e se acalmem. E no final tenho algumas estratégias genéricas para os pais.” Assim como explicações para que percebam o porquê de determinados comportamentos.

No que diz respeito ao desfralde, Clementina Almeida diz que os pais devem estar atentos aos sinais, nomeadamente às competências físicas (ser capaz de ficar sentado algum tempo, ter controlo muscular da bexiga e intestino), cognitivas (saberem quando precisam de ir à casa de banho) e emocionais (estarem prontas para abandonar a fralda). E dá algumas dicas para que o processo ocorra de forma tranquila, como “não ter pressa, dar o exemplo, ler histórias, criar rotina e contar com os “acidentes””.

David Miranda utilizou algumas destas estratégias com a filha, Benedita, de 3 anos. “Hoje em dia existe muita imposição, nomeadamente nas escolas, mas nós temos uma abordagem muito liberal. E procurámos um infantário que também a tivesse”, afirma o autor do blogue Duas para um. Recorda-se que o desfralde terá acontecido “aos dois anos, dois anos e meio”, de forma natural. “Fomos conversando, lendo histórias. Foi a Benedita que disse que queria deixar a fralda, como a personagem da história. Primeiro durante o dia, depois à noite. Houve deslizes, raros, o que comprova que foi no momento certo”, refere.

Se o desfralde for mal conduzido, Clementina Almeida, fundadora do espaço ForBabies, diz que pode dar origem a retenção de urina ou fezes, atrasar o processo, levar a situações de vergonha ou “até provocar situações de obstipação”.

A importância do luto

Pipo é um urso que não queria ficar sozinho. Com a ajuda dos pais, aprendeu a lidar com a tristeza e o medo de estar separado daqueles de quem mais gosta, recorrendo a “um tesouro invisível cheio de joias – pedacinhos de quem se ama”. É com esta história que Clementina espera ajudar crianças que são obrigadas a lidar com a morte de alguém próximo, de um animal de estimação ou com a separação. Foi a mais difícil de escrever, assume, já que não é fácil falar de perdas.

“Temos de olhar para os bebés como seres altamente competentes. Não podemos pensar que não sentem ou não veem. Nestas situações, são muitas vezes deixados de parte”, indica a psicóloga, destacando que “o desaparecimento de alguém pode gerar angústia”. A criança pode, inclusive, pensar que, a qualquer momento, os pais podem desaparecer. “Temos de deixar que se despeça do que perdeu. Permitir que faça o luto, o que pode ser feito com um desenho para enviar para a “estrelinha” ou uma carta a dizer que gosta da pessoa.”

O nível de desenvolvimento da criança ditará a forma como vai entender a perda ou a separação. “Deve usar-se a imaginação para explicar a situação. Fazê-lo à medida das suas capacidades de entendimento. Se ela resolver ir brincar a meio da conversa, é normal.” É a forma de lidar com a dor. “Dê-lhe tempo.” E em caso de morte, “nunca exponha a criança a um funeral”.

Quando o casal se divorcia, Clementina Almeida diz que “o ideal é que ambos expliquem que o pai e a mãe gostam muito da criança, mas deixaram de gostar um do outro. Devem dar a segurança que, nos momentos mais importantes, vão estar os dois.” Segundo a psicóloga, entre os vários modelos de guarda partilhada há casos em que a criança passa uma semana com cada um, semanas divididas pelos dois e até situações em que é mantida a casa do casal, e pai e mãe saem alternadamente. Uma situação que não será viável para a maioria das famílias, mas “que preserva tudo”.

Da coleção de Clementina Almeida fazem parte os livros Duda, o leão que tinha medo e Tita, a zebra que não queria ter riscas. Tudo começou com Olívia, a ovelha que não queria dormir. David Miranda diz que foi um dos primeiros livros que leu à filha, e ajudou a criar “um momento zen” antes de ir para a cama. Olha para “os livros como um guião para ajudar a resolver os problemas das crianças”.

 

 

Como traduzir um bebé?

Maio 1, 2018 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Snews

Entrevista do https://www.educare.pt a Clementina Almeida.

Explica que o cérebro dos bebés nasce imaturo. Para o entenderem os pais devem perceber mais sobre o desenvolvimento infantil. Assim, vão poder lidar melhor com birras, medos e outras situações. Clementina Almeida, psicóloga especializada em bebés, em entrevista ao EDUCARE.PT.

Andreia Lobo

Chamam-lhe “tradutora de bebés”. Clementina Almeida é psicóloga clínica com especialidade em bebés. Fundou o BabyLab, da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra, onde é investigadora e dirige a ForBabies, no Porto, uma clínica especializada no atendimento de bebés dos zero aos 36 meses.

Empenhada em passar aos pais informação baseada em “evidência científica”, Clementina Almeida escreveu o livro “Socorro! O meu bebé não dorme”, editado pela Porto Editora. Estreou-se, depois, na literatura para a infância, com uma coleção de histórias “com psicologia” para crianças e pais. Quatro personagens ajudam os mais pequenos a identificar-se com a problemática com a situação que vivem e a entender o que  sentem: “Luca, o hipopótamo que não queria deixar as fraldas”, “Pipo, o urso que não queria ficar sozinho”, “Duda, o leão que tinha medo” e “Tita, a zebra que não queria ter riscas”.

Por detrás de cada livro permanece sempre a preocupação de explicar aos mais crescidos os motivos de alguns dos comportamentos das crianças. Por isso, a psicóloga e escritora admite, com graça, que “escreve ao contrário”. Primeiro, investiga sobre o que a ciência diz a propósito do tema que pretende explorar. Depois, cria uma história que a criança possa entender. No final do livro, volta à ciência e explica aos pais, de forma simples, tudo o que precisam de saber. O EDUCARE.PT conversou com Clementina Almeida sobre desenvolvimento infantil, sobre birras e medos e como entender melhor o que as crianças nos dizem.

EDUCARE.PT (E): Dos zero aos três é a idade em que o cérebro atinge 85% do seu desenvolvimento. Como se explica este desenvolvimento num período tão curto?


Clementina Almeida (CA):
 Ao contrário da maior parte dos órgãos, que quando o bebé nasce já têm a maturidade suficiente, o cérebro nasce completamente imaturo. Se o cérebro crescesse aquilo de que nós precisávamos para que se tornasse maturo era impossível as mulheres darem à luz. Isto tem a ver com a nossa evolução como espécie, o facto de deixarmos de andar em quatro patas e passarmos a andar em duas, as ancas tiveram de estreitar para podermos correr e fugir dos predadores. E, portanto, a natureza arranjou um compromisso que é os bebés nascem ao fim de nove meses, mas com o cérebro ainda imaturo.

O bebé nasce totalmente dependente das relações que vai ter com o seu meio ambiente, das relações próximas com a mãe e com o pai, ou seja, com os cuidadores, mas também das experiências sensoriais que vai ter no primeiro ano de vida. Imagine-se o cérebro como uma pirâmide, em que a parte de baixo são as vias sensoriais mais básicas, como o cheiro, o toque, o ouvir – daí ser tão importante lermos e falarmos para os bebés. Com base nessas partes sensoriais vão edificar-se as estruturas mais complexas em termos cognitivos e emocionais.

No fundo, os primeiros três anos vão determinar as nossas competências em termos de aprendizagens futuras e a nossa saúde. Se tivermos boas fundações, tudo corre bem. Se tivermos experiências adversas de infância, como viver numa família economicamente desfavorecida, ter de lidar com psicopatologia materna, viver em pobreza ou mau ambiente familiar… Tudo tem um impacto tremendo no desenvolvimento cerebral nestes três anos. Quando somos bebés fazemos 700 a mil sinapses por segundo, é um verdadeiro fogo de artifício, nunca mais na vida teremos este tipo de desenvolvimento.

E: Que implicações isto tem?


CA:
 Se pensarmos que todas as sociedades gastam imenso dinheiro em termos de saúde pública, é certo que gastaríamos muito menos se investíssemos na primeira infância. Alguns prémios Nobel da economia dizem que por cada dólar investido na primeira infância temos um retorno de sete a nove dólares. Mas ainda estamos culturalmente muito habituados a achar que os bebés comem, dormem e mais nada. Falar para o bebé para quê, se ele não responde? Graças à evolução das neurociências conseguimos, hoje, perceber o que se passa dentro do cérebro do bebé. E sabemos que se passa muita coisa. Por isso, os primeiros anos não podem ser deixados ao acaso, de forma nenhuma.

E: Tão-pouco se podem deixar ao “acaso” os cuidados nos berçários e nas creches?


CA:
 Sim, por exemplo. Mas em Portugal não temos berçários de qualidade. Desde logo, porque um dos critérios para ter qualidade é o ratio de adulto por bebé. No primeiro ano de idade sabemos que o ideal será o ratio de um para um, porque o bebé precisa de um cuidador que responda de imediato às suas necessidades. Se nos berçários temos oito bebés para dois cuidadores, é óbvio que se um começa a chorar e os outros sete se seguem alguém vai ficar com as suas necessidade inatendidas. E este choro inatendido – quando é repetitivo e não há nada que o acalme – é, muitas vezes, classificado como stress tóxico na primeira infância.

Tóxico porque efetivamente acaba por afetar o desenvolvimento cerebral que se está a dar naquele momento. Que é precisamente o oposto do que se deseja. O stress vai libertar alguns químicos, nomeadamente o cortisol que tem um efeito cáustico no desenvolvimento dos bebés. Por bebé entende-se a idade dos menos nove meses até aos três anos e, depois, os de três estão a deixar de ser bebés, mas ainda são pequeninos. Um bebé que tem sistematicamente estas necessidades inatendidas, fica com o cérebro literalmente menor e com áreas – chamadas de buracos negros – que não se desenvolvem como deveriam.

E: Com tudo o que disse, o que deveria mudar na forma como a sociedade olha para estas idades?


CA:
 Há muito saber deste que ainda está na ciência. Ou seja, que ainda não está acessível aos pais. Os jornalistas têm um papel fundamental de transmitir esta informação. Quanto mais os pais souberem sobre o desenvolvimento, mais vão fazer pelos seus filhos. Portanto, o primeiro passo é possibilitar aos pais o acesso à informação de que os primeiros anos de vida da criança são demasiado importantes para serem deixados aos acaso. Depois, em termos de políticas de prevenção temos tendência para atuar quando já existe a doença ou o sintoma já apareceu. Fazemos pouco em termos preventivos. Em termos políticos, a prevenção é algo cujos resultados só se vêm daqui a vinte ou trinta anos. Não costuma ser uma prioridade em Portugal trabalhar com vista à prevenção.

E: Dê-me exemplos de coisas simples que os pais podem fazer para aproveitarem ao máximo o potencial destes três anos?


CA:
 A coisa mais simples que podem fazer é falar para o bebé. Sabemos que existem bebés que ouvem cerca de 600 palavras por dia enquanto outros ouvem 1500. Aos três anos, por exemplo, dá uma diferença de 30 milhões de palavras. Não seria importante se não estivesse relacionado com o desenvolvimento da linguagem aos dois anos e, inclusive, depois com o sucesso académico até aos 10 anos. Falar não custa dinheiro.

Podemos falar com o bebé sobre tudo, ler, cantar, ou seja, usar muitas e muitas palavras, porque estamos a fazer estimulação sensorial auditiva que é muito importante. Também é importante expor o bebé a outras experiências sensoriais: tocar em tecidos, expo-lo a cheiros, do café, do chocolate, da canela… O trabalho na ForBabies começa pelo programa BabySense em que os bebés recebem uma hora de estimulação sensorial adaptada à idade e ao desenvolvimento. Os pais recebem orientações para fazer o programa em casa, o que inclui fazer tintas e plasticina caseiras que são coisas divertidas que os bebés adoram. E, acima de tudo, ajudamos estes pais a perceberem o quão importante este tipo de experiências é para o desenvolvimento cerebral do bebé.

E: Sente que os pais precisam de formação para a parentalidade?


CA:
 Precisam de conhecimento. Mas muita coisa é instintiva. Costumo dizer que os mais especialistas em bebés são os pais, porque os conhecem e percebem todas as suas nuances e diferenças. Todas as famílias são diferentes e eu valorizo muito a criatividade familiar. Por isso também sou avessa àqueles cursos de parentalidade. A maior parte deles ensinam uma determinada abordagem e a mim isso soa-me mal. Parece que pretendem que todos os pais façam daquela maneira para que todos filhos sejam daquela maneira. O que corta muito esta criatividade. Nos EUA e em Inglaterra existem movimentos a favor de ensinar os pais acerca do desenvolvimento. A ideia é não que precisamos de ensinar os pais a serem pais, porque já sabemos que eles vão fazer o melhor que podem. Se eu souber que o meu bebé está a fazer uma birra porque está numa fase de desenvolvimento, que a birra tem estas fases e a seguir posso atuar desta maneira, que ele me está a transmitir um pedido de ajuda e, não propriamente, um confronto comigo, se calhar, consigo perceber de que forma o posso ajudar.

Há determinadas estratégias em cursos de parentalidade que põem os pais a pensar: “Isso é muito giro, mas venha cá a casa quando ele está a espernear.” Noto muito isso na consulta de psicologia pediátrica de rotina que avalia as crianças pequenas para além dos percentis. Os pais procuram muito esta consulta como orientação e dizem-me que a partir do momento em que perceberam o que se estava a passar a situação melhorou logo.

E: A dificuldade é mesmo entender o que está por detrás do comportamento dos bebés.


CA: 
Sim, porque é preciso perceber de desenvolvimento e isso falha. Depois, se a estratégia é dar mais ou menos beijinhos, se é conversar lá fora ou lá dentro, isso depende da criatividade de cada pai e mãe e não devemos cortar isso.

E: A pensar no que é comum a muitas crianças – birras, medos, perdas e dificuldades no desfralde – escreveu uma coleção de livros infantis que servem também de apoio aos pais…
CA: Com mais ou menos exuberância, todas as crianças acabam por passar por uma ou outra destas fases. A ideia dos livros é a criança identificar-se com o animal que protagoniza a história – o leão que tem medo, a zebra que não quer ter riscas – e que representa um momento comum na infância dos zero aos três. No final do livro tento espalhar conhecimento. Explico, por exemplo, aos pais o que são os medos característicos de cada fase e as estratégias genéricas que podem utilizar. Os livros não são apenas “historinhas”, são ferramentas para os pais.

No caso das fraldas, muitas crianças têm dificuldades porque no infantário de repente toda a gente vai desfraldar e não se tem consideração o nível de desenvolvimento cognitivo e emocional de cada criança. O desfralde é uma fase do desenvolvimento, fazê-lo antecipadamente é como ter a criança sem caminhar e querer ensiná-la a correr. Largar as fraldas é um marco, é deixar de estar a brincar e fazer a coisa quando lhe apetece, é ter consciência do funcionamento da sua bexiga, do seu intestino. As crianças têm de ser capazes, em termos motores, de se sentarem durante algum tempo. Tudo isto são metas que vão conquistando e quando se conquistam o desfralde é natural.

E: As birras são também outro desafio para os pais…


CA: 
As birras são outro marco natural do desenvolvimento da criança. Mas acontecem, na maior parte das vezes, porque nós pais fazemos com que elas surjam. Os adultos controlam tudo na vida da criança: a que horas sai de casa, para onde vai, o que vai comer, o que vai vestir, a que horas se deita. Chega uma altura em que a criança começa a ter a sua autonomia e quer controlar qualquer coisa, quer decidir coisas no mundo dela. Uma forma de evitar as birras é dar à criança poder de decisão ao longo do dia. Não é deixá-la fazer tudo o que quer, mas dentro do que eu preciso que ela faça deixá-la decidir alguma coisa. Por exemplo, preciso que ela se vista. Posso dar a escolher: queres esta camisola ou esta? Não é abrir o armário e perguntar: qual é que queres? Isso seria demasiado para uma criança de dois anos. Mas se der à criança possibilidades de escolha, a parte psíquica que precisa de escolher e de sentir que controlou qualquer coisa ali à volta vai-se desenvolvendo saudavelmente. A criança fica mais segura e, ao mesmo tempo, o adulto está a fazer as coisas que quer. Se disser apenas “vamos vestir isto”, a possibilidade que a criança tem de escolher é dizer “não”, porque não lhe foi dada outra hipótese. Portanto, há formas de prevenir e de lidar com a birra quando ela aparece.

E: Muito frequentes são as birras no supermercado. Há alguma explicação?


CA: 
É preciso perceber que os supermercados, os shoppings, são locais de muita estimulação e, portanto, podem rapidamente provocar uma birra porque os bebés não têm ainda capacidade para regular todo aquele estímulo. Muitas vezes os pais pegam na criança que sai da creche onde está completamente contida –  porque também não tem grandes hipóteses de escolha e as coisas estão muito determinadas –  metem-na no carro e a caminho de casa passam pelo supermercado. É como pegar num barril de pólvora e andar a ver se aquilo explode. Se calhar era melhor depois da creche fazer a criança correr para aliviar aquela “panela de pressão” ou fazer ao contrário, ir primeiro ao supermercado e depois ir buscar a criança. Não devemos deixar de os expor às situações, mas é preciso perceber quando os estamos a expor. Há momentos que servem mesmo de gatilho.

E: No final de cada um dos seus livros escreve: “Respire fundo e lembre-se que o adulto é você”. Os pais esquecem-se disto?


CA: 
As crianças precisam imenso da ajuda dos pais para se regularem emocionalmente. Não têm sequer alguns dos neurotransmissores que os adultos têm e a nós, muitas vezes, salta-nos a tampa, a eles que não os têm mais facilmente isso acontece. Se a criança tem dificuldade em lidar com a birra e ainda levar por cima com agressividade ou berros dos adultos vai ter grande dificuldade em lidar com aquilo de forma saudável. A ciência mostra que 80% do que somos é relação e 20% é genética. Vem alguma coisa determinada, mas depois se aquele gene dispara, ou se me torno mais desta forma ou de outra, é pela relação que estabeleço todos os dias.

 

A solução para as cólicas pode estar no mimo. “A noção de que os recém-nascidos ganham habituação ao colo é um mito”

Abril 29, 2018 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do site https://magg.pt/ de 12 de abril de 2018.

por CATARINA DA EIRA BALLESTERO

As cólicas são um dos dramas de quem acabou de ter um bebé. Pediatras explicam o que são, como se podem atenuar e dão conselhos úteis.

São uma das maiores inimigas dos novos pais. As cólicas dos bebés, que geralmente surgem ao final do dia, provocam desconforto à criança, fazendo-a chorar durante longos períodos, o que lhe gera um elevado grau de irritação, que não ajuda a que se acalme. Mas afinal, o que são as cólicas e o que é que as causa?

“Na verdade, não se sabe muito bem o que as causa”, diz à MAGG Hugo Rodrigues, pediatra, que acrescenta que se calcula que estas “estejam relacionadas com alguma imaturidade do intestino e acumulação de gases”.

A definição médica das cólicas baseia-se na chamada “regra dos 3”, como explica o pediatra — se os bebés choram mais de três horas por dia, mais de três dias por semana e mais de três semanas por mês.

“Na prática, consideramos que um bebé tem cólicas quando tem episódios de choro que não têm causa evidente e se fora desses episódios, a criança estiver bem”, afirma o especialista.

No entanto, existem outras teorias, e uma das mais consistentes assenta na premissa de que as cólicas dos recém-nascidos são apenas mais uma etapa do desenvolvimento cerebral do bebé.

As cólicas são tão comuns como gatinhar ou sentar

O pediatra Miguel Fragata Correia acredita que as cólicas são uma etapa do desenvolvimento das crianças, tão comum como aprender a gatinhar.

“O cérebro dos recém-nascidos, ainda muito imaturo, tem uma perceção alterada dos estímulos dos intestinos e reage aos mesmos com um choro excessivo.”

“O bebé passa por um desenvolvimento cerebral e as cólicas são o reflexo disso mesmo. O cérebro dos recém-nascidos, ainda muito imaturo, tem uma perceção alterada dos estímulos dos intestinos e reage aos mesmos com um choro excessivo.”

O especialista afirma que as cólicas permanecem um mistério, dado que todos os estudos feitos no sentido de perceber a razão das mesmas se revelaram inconsistentes.

“Existe uma associação geral com os gases, e que é de facto um contributo (dado que quanto mais gás temos nos intestinos, maior é o desconforto), mas não é a razão principal”, refere o pediatra.

A obstipação das crianças também costuma ser um fator apontado por muitos pais como a causa mas, mais uma vez, o especialista desmente. “Se esse fosse o caso, não teríamos bebés que fazem cocó três e quatro vezes por dia e sofrem imenso com as cólicas.”

“Acredito que não fazem mal ao bebé, só à família”

Apesar do enorme desconforto que causa nas crianças, Miguel Fragata Correia acredita que as cólicas não são prejudiciais para a saúde. “Acredito que as cólicas não fazem mal ao bebé, só à família. São um período muito complicado, de extremo cansaço, muito stressante e os pais passam muitas horas sem dormir”, salienta o pediatra.

Débora Grilo Esteves, produtora, tem 30 anos e é mãe de duas crianças: Frederica, de dois anos, e Lopo, com apenas 10 semanas. “A Frederica nunca sofreu com cólicas por isso não fazia ideia do que me esperava. Nos primeiros dias o Lopo era um anjinho, dormia dia e noite e só acordava para mamar”, conta Débora.

Mas não demorou muito para o cenário se alterar. Com cerca de duas semanas, o filho de Débora e do companheiro de quase dez anos, Sebastião, começou a sofrer muito com cólicas. “Por volta das 19 horas começava a ficar irrequieto. De repente acordava a chorar, aos gritos mesmo, muito encarnado e não acalmava com nada. Tentava dar mama, colo, mimos — mas nada funcionava. E ficava assim horas e horas.”

As cólicas do filho mais novo foram complicadas de decifrar para Débora, e a produtora chegou a pensar se Lopo teria fome. ”Estás num tal estado de desespero que pensas em tudo e equacionei que o meu leite não fosse suficiente para o alimentar. Mas percebi numa consulta que estava a aumentar bem de peso e acabei por descartar essa hipótese.”

A produtora concorda que a fase das cólicas, que ainda atravessa no presente, é um período muito duro, principalmente para os pais, privados de sono e exaustos ao limite.

“Já ouvi várias vezes que é uma fase, que geralmente termina por volta dos três, quatro meses e estou aqui em countdown.”

“Já ouvi várias vezes que é uma fase, que geralmente termina por volta dos três, quatro meses e estou aqui em countdown. São semanas muito complicadas. Quando a Frederica nasceu, aproveitava os momentos em que ela dormia para descansar mas agora a realidade é outra.”

Com uma criança de dois anos e um bebé de dez semanas em casa, Débora confessa que a gestão do tempo é desafiante e que o apoio do companheiro é crucial — assim como os momentos a dois para respirar.

“Os meus filhos não gostam de dormir ao mesmo tempo. Quando consigo adormecer o Lopo, a Frederica acorda e está super ativa, o que é completamente normal para a idade dela. Quer brincar, ver filmes, o que for. Mas o meu tempo de descanso desaparece. Acabámos por nos organizar por turnos: de noite eu fico responsável pelo bebé, de manhã o Sebastião cuida da nossa filha para eu dormir mais, por exemplo.”

O cansaço e a noites sem dormir também podem causar danos no casal, como explica o pediatra Miguel Fragata Correia, que considera que alguns pais até “podem ter de fazer terapia de casal. É um facto, as cólicas de uma criança podem alterar a dinâmica familiar.”

No caso de Débora e do companheiro, a exaustão também gera conflitos, apesar de o casal conseguir reconhecer facilmente a razão porque está a discutir.

“Estamos tão exaustos que começamos a discutir por tudo e por nada. Mas pouco depois conseguimos parar um bocadinho e perceber que o cansaço é o culpado de todas essas brigas. E tentamos também ter espaço para nós. De vez em quando recorremos aos avós ou às nossas irmãs e arranjamos forma de ir jantar com amigos ou a dois. É importante ter três horas para estarmos um com o outro, sem falar nem pensar em bebés.”

Há uma luz ao fundo do túnel: as cólicas, como qualquer fase, também passam

Patrícia Ferreira Ramos, blogger e assessora de imprensa, tem 35 anos e é mãe de dois filhos. Mas foi com a filha mais velha, de quatro anos, que passou pelo pesadelo das cólicas.

“A Leonor teve imensas até aos dois meses. Usámos todas as gotas e mais algumas, como o Aero-Om, e até pedimos a uma amiga da Irlanda para nos trazer umas especiais que não se vendiam em Portugal”, conta Patrícia.

A filha não dormia, os pais também não — e não sabiam mais o que fazer. Chegaram a ir ao hospital e passavam noites com a bebé ao colo e a fazer muitas massagens.

“Os nossos esforços aliviavam-na um pouco mas, de repente, as cólicas desapareceram por completo com cerca de dois meses.”

Os pediatras concordam: as cólicas têm uma linha de tempo. “Geralmente, começam por volta das três semanas, têm o seu pico nas seis, oito semanas, e terminam aos três ou quatro meses”, explica Miguel Fragata Correia, que acrescenta que ”são uma fase que todos os bebés passam, apenas existem uns que se manifestam mais que outros. E nunca vi casos de cólicas que não passassem, há que explicar isso aos pais.”

Enquanto não se atinge a marca dos quatro meses, que geralmente representa o fim desta saga, há que não desesperar — e existem técnicas para tentar acalmar o seu bebé.

“A noção de que os recém-nascidos ganham habituação ao colo é um mito.”

“O mais importante é o contacto físico com os pais, porque tranquiliza os bebés”, afirma o pediatra Hugo Rodrigues. “Para além disso, devem sempre tentar-se as massagens ou dobrar as pernas do bebé sobre a barriga, para ver se ajuda.”

Miguel Fragata Correia é um apologista do colo para acalmar os bebés e vai mais longe — há que abandonar a ideia de que este pode ser prejudicial.

“A noção de que os recém-nascidos ganham habituação ao colo é um mito e, até aos cinco meses, nenhuma criança ganha manhas. Há sim que acalmar o bebé com colo, é mais fácil e as crianças respondem melhor. Se colocarmos um recém-nascido sozinho num berço, este não vai ter capacidade para se acalmar.”

O especialista acrescenta que, apesar de não existirem fórmulas precisas e cada criança ser diferente, as técnicas que acalmam mais os bebés são aquelas que recriam o ambiente do útero.

“Um ambiente calmo, quente, em que a mãe encoste o bebé a si fazendo um contacto pele a pele e embrulhado numa manta podem ser ferramentas úteis, bem como as massagens na barriga a cada muda da fralda”, afirma Miguel Fragata Correia, que acredita que há que “acalmar os bebés para acalmar os pais.”

Hugo Rodrigues conclui: ”Por fim, e se mesmo assim não se conseguir resolver a situação, existem alguns medicamentos no mercado com uma eficácia considerável. Faz sentido que os pais tentem testá-los para atenuar o desconforto do seu filho, desde que sempre aconselhados pelo médico pediatra.”

O leite de fórmula causa mais cólicas que o materno?

Existem vários mitos à volta do tema das cólicas, sendo a alimentação um dos mais recorrentes. Afinal, existe alguma validade na ideia de que os bebés alimentados a leite artificial sofrem mais de cólicas do que os bebés amamentados?

O pediatra Miguel Fragata Correia garante que não existe verdade nessa ideia. “Se assim fosse, todos os bebés alimentados a fórmula, que são bastantes, iriam ser os únicos a ter cólicas, o que não é a realidade. Essa ideia surgiu porque os bebés que não são amamentados bebem o leite através do biberão, que pode causar mais ingestão de ar, o que gera gases e que se acreditava serem o motivo das cólicas”, explica o especialista.

Da mesma forma, o médico pediatra também desmistifica a ideia de que a alimentação das mães pode ser um fator.

“Já existiram vários estudos a tentar encontrar uma ligação entre a alimentação das mães e a amamentação mas todos se revelaram inconclusivos”, afirma Miguel Fragata Correia.

 

 

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