Estudos relacionam o uso de tecnologias ao aumento de suicídios

Agosto 28, 2018 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do site Paracatu de 13 de agosto de 2018.

O crescimento das estatísticas de atos e tentativas de suicídio, de autolesão e todo tipo de doença mental nos últimos anos coincidiu com o crescimento estratosférico do uso de tecnologias digitais como smartphones, computadores e principalmente o acesso à internet que hoje é totalmente livre e pode ser usado inclusive para cometimento de crimes.
Os indícios de possíveis prejuízos à saúde mental de crianças e jovens pela forte inclusão desses equipamentos ao cotidiano motivaram muitos pesquisadores a buscar a existência de uma relação direta entre uma coisa e outra. Repito, são indícios que foram estudados e se tornaram dados científicos.
Anualmente, mais de 800 mil pessoas morrem no mundo por suicídio, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Entre os jovens de 15 a 29 anos, é a segunda principal causa de morte. No Brasil, nos últimos anos observou-se aumento de 209% em casos de auto lesão e tentativa de suicídio.
A partir desses ficou fácil relacionar o uso massivo de tecnologias com o aumento de relatos de problemas de saúde mental nos últimos anos que por sua vez levantaram ainda mais reflexões e incertezas.
Parte das pesquisas identificou riscos no uso de tecnologias especialmente de maneira intensa, isso nem é novidade né?
Mas no âmbito dos impactos gerais na saúde mental, acadêmicos da Universidade de San Diego, sinaliaram que adolescentes mais expostos aos dispositivos eletrônicos (como computador, celulares e vídeo-games) manifestaram menores níveis de autoestima, satisfação com a vida e felicidade.
Na relação entre hábitos de consumo de dispositivos técnicos e comportamento suicida, também há pesquisas indicando vínculo entre essas duas condutas.
A relação entre uso da internet e comportamento suicida e de autolesão foi particularmente associado ao vício no acesso a essa tecnologia, altos índices de navegação e contato com sites onde havia conteúdo relacionado ao tema.
Os pesquisadores também investigaram o estímulo a esses comportamentos a partir de práticas de constrangimento e assédio contra jovens em redes sociais e usando tecnologias, ou seja, o cyberbullying. A equipe encontrou grandes evidências de influências negativas em 75% dos 33 casos. Chegou-se a conclusão de que as vítimas de cyberbullying tem muitos mais chances de exibir um comportamento suicida e cometer algum ato no sentido de tirar a própria vida.
O que a gente sempre fala aqui no FM repórter e repete agora é que, tudo que passa, sobra. Tudo tem limite e o que os pais de jovens e adolescentes tem que fazer é acompanhar é controlar monitorar não há mal nenhum nisso.
Até porque proibir eu acho que é meio difícil, pra não falar impossível

 

Metade dos adolescentes confunde informação com publicidade na internet

Agosto 27, 2018 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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thumbs.web.sapo.io

Notícia do Sapo Lifestyle de 14 de agosto de 2018.

É uma das grandes ameaças do mundo digital. Metade dos adolescentes que estudam em Buenos Aires, Argentina, não distingue entre publicidade e informação na internet, segundo uma notícia da Agência Nacional de Comunicação (Enacom) daquele país.

Tal conclusão surge com base num estudo da mesma entidade, feito em 2017 com 350 alunos de escolas públicas e privadas da capital argentina. Cerca de 80% dos inquiridos admitiu então que “seleciona a primeira página que lhes aparece no ecrã” quando faz uma pesquisa na internet. “Isto quer dizer que eles podem confiar num artigo patrocinado por um banco como se fosse uma análise da economia feita por uma universidade”, afirmou Roxana Murdochowicz, coordenadora do estudo, ao jornal Clarín.

Na mesma pesquisa, 5 em cada 10 estudantes do ensino secundário admitiu usar uma só página de internet para trabalhar, dispensando comparações com outras páginas – e assim eliminando o risco de contraditório. A mesma percentagem de estudantes diz que usa o site “mais conhecido”, sem distinguir as fontes de informação.

Esta confusão entre informação e publicidade parece não se confinar à Argentina. “A dificuldade em distinguir estes dois géneros é comum e há uma fé inacreditável em relação ao que está na Internet”, reforçou Roxana Murdochowicz, que comparou a pesquisa feita em Buenos Aires com investigações levadas a cabo em Inglaterra e Estados Unidos.

Segundo um estudo do ano passado da Universidade de Stanford, com uma amostra de 7.800 estudantes do ensino médio de várias cidades dos Estados Unidos, a maioria dos adolescentes não distingue publicidade de informação e também acredita que todas as informações que estão na Internet são verdadeiras.

No Reino Unido, um estudo com 1500 crianças desenvolvido pela Ofcom, organismo que regula os meios de comunicação britânicos, revelou que sete em cada dez alunos dos 12 aos 15 anos não distingue estas duas realidades tão díspares e também acredita em tudo que a Internet veicula, argumentando que “se o Google diz é porque é verdade”.

“Embora o acesso à informação seja cada vez maior, a capacidade de refletir é limitada; e apesar de a Internet oferecer a possibilidade de verificar e comparar fontes, os mais novos não o fazem”, salienta Roxana Murdochowicz.

O estudo argentino adverte que a ausência de comparação de fontes tem riscos: “Limita o pensamento crítico e leva a tomadas de decisão sem fundamento”. Por outro lado, “oculta a identidade – e a intenção – de quem produz os conteúdos e não permite distinguir dados falsos dos verdadeiros”.

Murdochowicz mostra-se: “Os adolescentes não identificam a origem das notícias, mas confiam nelas sem qualquer problema. Mesmo quando não sabem quem produziu a informação que estão a partilhar. Este problema está na origem de um fenómeno atual e perigoso: as notícias falsas ou fake news.”

A mesma responsável aconselha os jovens a prestarem atenção aos títulos das notícias e a analisarem a sua relação com o resto do texto, já que muitas vezes a informação anunciada não é fundamentada.

mais informações no link:

https://www.enacom.gob.ar/chicosypantallas

 

Recomendação CM / Rec (2018) 7 do Comité de Ministros aos Estados-membros relativa às diretrizes para respeitar, proteger e cumprir os Direitos da Criança no ambiente digital

Agosto 3, 2018 às 6:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Recommendation CM/Rec(2018)7 of the Committee of Ministers to member States on Guidelines to respect, protect and fulfil the rights of the child in the digital environment

 

Pais preparados podem evitar que os filhos fiquem dependentes da internet

Julho 27, 2018 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Patricia Prudente

Notícia do Atlântico Expresso de 16 de julho de 2018.

Psicólogo deixa dicas para que os jovens tenham uma melhor saúde

Pais preparados podem evitar que os filhos fiquem dependentes da internet

A dependência da internet começa cada vez mais cedo, alerta João Lemos, psicólogo. O especialista defende que o treino das competências parentais pode aliviar o problema. tíOspais não devem ter medo de impor limites aos seus filhos. Muitos permitem que os seus filhos gastem uma, duas, três horas por dia na internet e isto é completamente errado. O que eu defendo é que de Segunda-feira a Sexta-feira, a internet seja utilizada apenas para trabalhos para a escola e ao fim-de-semana ter acesso durante um curto espaço de tempo, se o comportamento do filho o justificar.

O que os pais têm de promover são actividades ao ar livre, a interacção, a comunicação, os jogos de mesa, convívio saudáveis”.

A Organização Mundial da Saúde considerou que a dependência dos videojogos é uma doença. É um problema com que se depara nos Açores?

É um problema que existe quase em todo o mundo, principalmente nos países ditos desenvolvidos e que aderiram ao uso da internet e não só. Já venho a falar sobre esta problemática há muitos, muitos anos e alertar as famílias para o perigo da ciberdependência.

De facto, o uso de videojogos insere-se neste diagnóstico de ciberdependência, ou seja, dependência do mundo virtual, dependência da internet. É um problema gravíssimo porque afecta o desenvolvimento dos jovens e adultos – porque o problema não é só de jovens, é também de adultos, embora o perigo maior tenha a ver com os jovens, porque estão numa fase de formação, de preparação para a vida, que passa pela área académica e, depois, pela área profissional e, transversalmente a tudo isto, às áreas social e familiar, uma vez que este quadro clínico se caracteriza, essencialmente, por uma alienação da realidade nestas áreas todas, com implicações muito negativas no funcionamento dos próprios jovens e adultos, no relacionamento interpessoal dentro das famílias e, também, na sociedade e no mundo do trabalho.

Tudo isto tem como consequência final os disfuncionamentos comportamentais, disfuncionamentos familiares, disfuncionamentos profissionais, acabando na clínica. Pode começar numa fase inicial, para apoio psicológico nas consultas, o que é muito reduzido. Normalmente, estes casos só chegam à clínica quando há situações judiciais graves de conflitos entre pais e filhos, que depois acabam por cair na Comissão de Protecção de Menores ou no tribunal. No final, pode resultar em internamentos em clínicas, que já começaram a ser criadas no continente para esse efeito, daí a gravidade da situação.

É um problema que começa cedo?

Cada vez mais. Já vemos crianças, na segunda infância, a fazer o treino do esfincter no bacio com um tablet à frente a fazer jogos. Evidentemente, que esta questão é complexa. Existem colegas, da área da psicologia que promovem, incentivam e valorizam a utilização dos jogos pedagógicos, mas a existirem jogos pedagógicos virtuais têm de ser muito bem utilizados, com limites e com objectivos muito bem definidos. Não pode ser, como acontece actualmente, em que há um acesso indiscriminado das crianças e jovens aos videojogos, à internet, sem qualquer controlo parental.

Tudo isso termina neste processo de desajustamento social por uma alienação relativamente às obrigações e aos deveres académicos e, depois, numa separação e isolamento dentro da própria família, ao ponto de não existir um grupo de pessoas a viverem em conjunto, mas sim um grupo de pessoas a viverem separadas umas das outras, cada um no seu espaço, ligado ao seu computador ou ao seu instrumento de acesso à rede virtual inclusivamente os pais, pela via do Facebook, que pode permitir a aproximação entre as pessoas, mas que também acaba por contribuir para o afastamento.

Daí ser uma questão muito problemática. Nós temos de pensar nisto a sério e talvez fosse altura de os nossos governantes, os nossos políticos, pegarem nessa informação da OMS e verem qual é a ligação entre isto a proposta do treino das competências parentais.

Ou ajudamos os jovens pais a serem pais competentes ou o problema vai ser um ciclo vicioso e em espiral, que nunca mais vai acabar. 0 sistema tenderá sempre para um reequilíbrio. Agora, eu acho que é desnecessário passarmos uma crise de disfunção social, familiar e individual para depois irmos resolver o problema, seguindo aquela máxima latina de ‘casa roubada, trancas à porta’.

Estamos a agir tarde demais, na sua opinião?

Corremos o risco de estar a criar gerações diferentes, com comportamentos sociais e de sociabilização diferentes?

Gosto de usar o provérbio e dizer que nunca é tarde demais, mais vale tarde do que nunca. Nós temos de actuar já e actuar já é na área parental, porque são os pais que têm a responsabilidade na educação dos filhos.

De certo modo, houve aqui uma inversão do paradigma educativo, por razões várias: o consumismo, a pressão social para o consumismo e, também, a falta de conhecimentos dos pais sobre esta realidade. Tudo isso levou a que os pais condescendessem com a situação sem que percebessem o mal que estavam a criar aos seus filhos.

Agora, chega-se a uma situação em que os pais já não sabem o que fazer, já não têm capacidade, já não têm autoridade educativa para poder monitorizar o comportamento dos seus filhos para os poder ajudar à mudança. No entanto, seguindo esta linha de que nunca é tarde demais para actuar e que mais vale tarde do que nunca, podemos aconselhar esses pais a receber apoio especializado na área comportamental – e, nesta área, estamos a falar essencialmente de apoio dos psicólogos e das psicólogas, que os podem ajudar a tomar medidas adequadas, tendo em conta o desenvolvimento da criança, a promoção de estilos comportamentais saudáveis, não só ao nível da ciberdependência, mas também nas outras dependências todas. De uma forma construtiva e eficaz. Ou, de facto, os nossos governantes apostam a sério na resolução deste problema agora, investindo, rapidamente, como eu já defendi anteriormente, ou então vão gastar o triplo ou o quádruplo no tratamento destes problemas. Não se trata só de ajudar as pessoas dependentes, mas sim lidar com os custos indirectos que advêm de investimentos na área do ensino sem obter resultados, ao nível do trabalho, ao nível das problemáticas familiares que, depois, levam também as famílias a receber apoio psicológico e psiquiátrico.

Digamos que há, aqui, um efeito de bola de neve. Nós não podemos pensar só nos cuidados secundários, temos, essencialmente, de pensar nos cuidados primários, em cooperação com as escolas e, também, como disse anteriormente, com o treino das competências parentais.

Já há directivas sobre como lidar com estes casos?

Não tenho conhecimento de nenhuma directiva ao nível da Ordem dos Psicólogos relacionada com esta temática. O que nós temos são as competências profissionais para lidar com as dependências, porque o mecanismo cognitivo, afectivo e comportamental é o mesmo. Ao nível biológico há uma grande diferença: aqui não há uma dependência química, há exclusivamente uma dependência cognitiva – que, do meu ponto de vista, é a pior das dependências e já o digo há mais de 20 anos. Enquanto o alcoolismo, o tabagismo, o consumo de drogas ilícitas tem uma componente de dependência química, neste caso é exclusivamente psicológico, cognitivo, com a agravante de ter de se utilizar medidas, também cognitivas e comportamentais, de gestão do tempo e do comportamento, para ajudar com dependência de videojogos. Mas não é só de videojogos: é a dependência da realidade virtual, a chamada ciberdependência, nomeadamente das redes sociais. No fundo, há que fazer uma reaprendizagem de um estilo de vida saudável. Aqui temos de actuar muito a sério, muito rapidamente, de uma forma transversal, desde o início da constituição da família – estamos a falar do treino das competências parentais – e actuar nos diferentes níveis de desenvolvimento das crianças e dos adultos, para que assim seja possível minimizar os custos desta problemática clínica e melhorar a qualidade de vida das pessoas. Efectivamente, esta perspectiva que estou a apresentar não vai ser compreendida pela maior parte das pessoas, eu tenho consciência disso. A maior parte das pessoas não tem conhecimento da gravidade do problema, não sabe do que é que estamos a falar e, inclusivamente, dentro da classe clínica poderá haver, também, algumas objecções ao que estou a dizer.

Há mais de 20 anos que venho a tocar na ferida; agora, passado este tempo, vem a OMS levantar a questão de uma forma relevante, considerando como uma doença mental. Talvez, a partir de agora, com estas orientações da OMS, os nossos clínicos em diferentes áreas possam encarar este problema de uma forma mais séria – inclusivamente os nossos governantes, os nossos parlamentares, quem tem o poder de decisão política, para que se compreenda que numa sociedade que se quer saudável, é preciso fazer prevenção primária e não só apostar na prevenção secundária.

Quais são os sinais de alarme sobre este tipo de problemática?

O isolamento social e familiar, faltar sistematicamente às aulas e ao trabalho. Os pais estão tão ocupados e com as suas obrigações, envolvidos em actividades e sobrecarregados que, muitas vezes, não se apercebem da gravidade do problema. Mas há o absentismo escolar, há o dormir na sala de aula, há comportamentos marginais e de violência que, muitas vezes, ocorrem quando estes jovens são chamados à atenção na sala de aula… Tudo o que seja comportamentos que saiam da norma ou daquilo que é adequado no relacionamento interpessoal são sinais de alerta. Os pais têm de aprender a fazer o controlo do uso da internet, de forma criteriosa e construtiva. Os pais não devem ter medo de impor limites aos seus filhos. Muitos permitem que os seus filhos gastem uma, duas, três horas por dia na internet e isto é completamente errado. O que eu defendo é que de segunda-feira a sexta-feira a internet seja utilizada apenas para trabalhos para a escola e ao fim-desemana ter acesso durante um curto espaço de tempo se o comportamento do filho o justificar. O que os pais têm de promover são actividades ao ar livre, a interacção, a comunicação, os jogos de mesa, convívio saudáveis.

 

Já está disponível para download o InfoCEDI n.º 76 sobre A Criança e o Direito à Imagem

Julho 19, 2018 às 2:30 pm | Publicado em CEDI | Deixe um comentário
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Já está disponível para consulta e download o nosso InfoCEDI n.º 76. Esta é uma compilação abrangente e atualizada de dissertações, estudos, citações e endereços de sites sobre sobre A Criança e o Direito à Imagem.

Todos os documentos apresentados estão disponíveis on-line. Pode aceder a esta publicação AQUI.

Agarrados à Internet – como se a decisão não fosse nossa

Julho 4, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do Público de 24 de junho de 2018.

Os especialistas da saúde acreditam que é possível ter uma relação saudável com as novas tecnologias. Mas há regras que devem ser impostas para que haja um uso controlado.

Lisa Freitas

Os ecrãs sempre ligados apoderaram-se do quotidiano das sociedades contemporâneas. E com eles a dificuldade em desligar do mundo online. As consequências dessa dependência originam patologias que os agentes da saúde tentam compreender e controlar. Apesar de ser uma adicção sem substância, os efeitos da dependência da Internet podem ser tão ou mais avassaladores quanto o consumo de drogas e álcool, de acordo com os especialistas da área que têm dado especial atenção a esta problemática.

Em Portugal, mudanças comportamentais ligadas ao uso das novas tecnologias começam a revelar uma tendência e há várias instituições a prestar apoio a pessoas com esta dependência, como o Centro de Tratamento Villa Ramadas, em Alcobaça. “O primeiro caso foi em 2004. Durante os anos seguintes foram surgindo pontualmente outros, mas houve um crescimento marcante na procura de tratamento nos últimos três a quatro anos”, revela Eduardo Ramadas da Silva, o director terapêutico do centro, num e-mail enviado ao P2.

Esta tendência de crescimento de pessoas viciadas na Internet a pedir apoio também é assinalada pela psiquiatra Rita Barandas, do Núcleo de Utilização Problemática de Internet (NUPI), do Hospital de Santa Maria, em Lisboa. Em conversa com o P2, esta especialista fala num “problema crescente” nos últimos anos e reconhece que, em 2014, quando o NUPI foi criado, “não se sabia muito bem que tipo de respostas dar”.

Em Portugal, uma em cada cinco crianças até aos oito anos tem telemóvel para uso pessoal. Cerca de 38% acedem à Internet, sendo o tablet o dispositivo mais usado para este fim. Mas o acesso cresce significativamente com a idade — 22% das crianças dos três aos cinco para 62% das crianças dos cinco aos oito anos acedem à internet —, segundo dados de um estudo realizado pela Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC). Intitulado Crescendo entre Ecrãs. Uso de Meios Electrónicos por Crianças (3-8 anos), o estudo teve o contributo científico de uma equipa de investigadores da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, coordenada pela socióloga Cristina Ponte.

Apesar de ser um problema em crescendo, vários especialistas contactados pelo P2 afirmam que nos casos de dependência da Internet não há uma causalidade linear com a maior parte das doenças psíquicas. Existem muitos outros factores que perpetuam, por exemplo, a condição de isolamento. Para Eduardo Ramadas da Silva “o isolamento extremo é um comportamento que pode ter na sua origem diferentes quadros clínicos, nomeadamente, depressão e perturbações de ansiedade”. “É muito comum a dependência à Internet surgir associada a outro tipo de queixas que podem anteceder ou ser consequência desta”, explicou.

Rita Barandas é da mesma opinião: “Não há uma situação única que esteja na origem. Muitas vezes não há nada de particular, as pessoas começam a jogar por simplesmente gostarem de jogar, mas, por vezes, instala-se um padrão repetitivo e compulsivo”. A psiquiatra revela que ao NUPI já chegaram casos de isolamento de pessoas que ficaram em casa dias, semanas e até meses. “Mas, regra geral, são pessoas que têm outras patologias psiquiátricas, não são só utilizadores compulsivos de jogos. São doentes que, por exemplo, sofrem de depressões ou que têm outra perturbação qualquer que faz com que se isolem e não queiram sair de casa.”

Por seu lado, o director terapêutico do centro Villa Ramadas diz que “a origem destes comportamentos é idiossincrática, variando de paciente para paciente”. “A dependência pode surgir do uso abusivo, principalmente se existirem vulnerabilidades que aumentem o risco do desenvolvimento de um quadro de dependência. Estas vulnerabilidades podem ser genéticas (presença de quadros de dependência na família) ou ambientais. Nestas últimas, os traços de personalidade, a pré-existência de perturbações de ansiedade ou de humor, são factores importantes”, frisou Eduardo Ramadas da Silva, afirmando ainda que no centro que dirige a média de idades para os pacientes é de cerca de 30 anos, sendo que o paciente mais novo tinha 15 anos, e o mais velho 41 anos.

Proibir ou bloquear não resolve

No estudo coordenado pela socióloga Cristina Ponte, 68% dos pais usa frequentemente a Internet e para a maioria (75%) a rede traz vantagens para o desenvolvimento das crianças. “Os comportamentos de isolamento extremo, independentemente de estarem ou não associados a um uso abusivo da Internet e das redes socias, podem ser sempre sinais importantes de que algo está errado. É especialmente importante, no caso das crianças e dos adolescentes, que os pais e outros adultos próximos estejam atentos a este tipo de comportamentos”, disse Ramadas da Silva. “A proibição de dispositivos tecnológicos, ou o corte da Internet, apenas seriam possíveis nos casos de menores sobre o controlo dos pais e, mesmo nestes casos, não resolveria o problema”, frisou o director do centro.

Certo é que hoje passamos muito tempo online. Para Rita Barandas “é impressionante a forma passiva como ficamos agarrados à Internet – é como se a decisão não fosse nossa”. “A ubiquidade e o facto de estar tão próximo é bom, mas a desvantagem é que ficamos vulneráveis e acaba por ser tão fácil e gratificante que é difícil pararmos.” A psiquiatra rejeita a ideia de vício associada a este comportamento. “Tudo o que é comportamental, apesar de ter muitas semelhanças em algumas coisas, é diferente dos chamados vícios de substâncias. É difícil traçarmos uma linha a partir da qual é considerado patológico ou negativo”. O foco do NUPI passa por perceber “quando há disrupção de alguma área da vida” desses indivíduos e a partir daí fazer o acompanhamento necessário, um tratamento complexo e que não funciona como um botão on e off. “É uma solução de compromisso, até porque jogar videojogos e estar na Internet não é uma coisa errada em si, não tem mal nenhum. Não podemos proibir as pessoas de aceder ao computador e de aceder às consolas”.

Por outro lado, “não há uma solução no sentido de que antes havia um problema ou uma doença e limpamos a doença e a pessoa nunca mais vê o computador à frente”, frisa Rita Barandas. “Estamos perante situações em que as pessoas vão continuar a usar o computador para trabalhar, ou para estudar, ainda mais numa altura em que se fala de literacia digital.”

A solução passa, de acordo com as opiniões dos vários profissionais, por usar as novas tecnologias a favor e não contra os utilizadores e tentar modificar padrões de dependência.

“No caso da dependência à Internet, não é realista esperar que os pacientes se comprometam com uma vida sem contacto com a mesma”, diz Eduardo Ramadas da Silva. “Procura-se promover um maior equilíbrio e desenvolver nos pacientes, estratégias que lhes permita lidar não apenas com a dependência, mas também com qualquer situação menos positiva que possam encontrar.”

 

 

 

Podem as crianças em grupo, com acesso à Internet, aprender sozinhas? | Sugata Mitra

Junho 5, 2018 às 6:00 am | Publicado em Vídeos | Deixe um comentário
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Doutor em física e professor de tecnologia educativa da Universidade de Newcastle (Reino Unido), Sugata Mitra salta para a fama internacional quando a TED, organização que promove a tecnologia, a educação e o desenho elegeu a sua conferência como a mais inspiradora e com mais potencial de mudança, no ano 2013.

A sua história conta a experiência de um jovem e brilhante físico que há quase 20 anos coloca um computador com ligação à internet num muro de um subúrbio de Nova Deli, perto do seu gabinete, e pergunta: conseguirão aquelas crianças, sem educação, aprender por si mesmas? As gravações com câmara escondida mostraram ao professor Mitra que as crianças jogaram no computador, aprenderam a usá-lo e para além disso ensinaram as outras sem a intervenção de nenhum adulto.

À sua história chamou-se “Hole in the Wall” (Buraco na Parede) e inspirou parte do argumento do filme que ganhou o Óscar, ‘Slumdog Millionaire’. Mitra avançou nas suas investigações o que denominou como educação minimamente invasiva e reproduziu o teste noutros lugares da Índia e do mundo. Os resultados? A capacidade de auto-aprendizagem das crianças com o uso da Internet e as novas tecnologias é surpreendente.

Hoje, a sua proposta educativa conhece-se como SOLE (siglas em inglês de Self Organised Learning Environments), ambientes de aprendizagem auto-organizados e conta com experiências em escolas de mais de 50 países.

Tradução livre do espanhol.

Ver programa completo.

Referência: ¿Puede un grupo de niños con acceso a internet aprender solos?. (2018). BBVA Aprendemos Juntos. Retrieved 23 May 2018, from https://aprendemosjuntos.elpais.com/especial/puede-un-grupo-de-ninos-con-acceso-a-internet-aprender-solos-sugata-mitra/

 

 

Adição digital: estudo comprova ligação entre uso excessivo de dispositivos digitais e depressão

Junho 2, 2018 às 1:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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moodsapo

Notícia e fotografia do moodsapo de 22 de maio de 2018.

As ligações entre uso excessivo da tecnologia e o desenvolvimento de problemas de saúde mental são cada vez mais faladas. Uma nova pesquisa realizada nos EUA veio comprovar esta ligação e ainda estabelecer uma relação causal entre o posicionamento do corpo, a energia e o humor da população que usa excessivamente os dispositivos digitais.

Já se sabe que os tablets, smartphones e outros gadgets digitais tomaram conta do dia-a-dia da população. E também já se sabe que essa ‘normalidade’ não traz benefícios à saúde, muito pelo contrário. Mas um novo estudo levado a cabo pela Universidade de São Francisco, nos EUA, veio agora comprovar que realmente «existe uma forte ligação entre a adição digital, especialmente no uso compulsivo do telemóvel, e a ansiedade e depressão».

A recente investigação contou com a participação de dois grupos de estudantes universitários, na qual se observou que vários indivíduos dos dois grupos, dentro e fora das aulas, estavam constantemente com a cabeça inclinada para baixo a fazer scroll nos seus telemóveis, em vez de estarem a conviver com as pessoas que os rodeavam. Este facto levou os investigadores a uma conclusão: o grupo que mais utilizou o telemóvel reportou um maior nível de solidão, ansiedade e depressão do que o grupo que menos o usou. «Para a preservação da saúde mental, é necessária a comunicação humana, porque é assim que aprendemos a modular os nossos estados de humor», esclarece Erik Pepper, investigador e professor no Instituto de Estudos de Saúde Holística da Universidade de São Francisco.

O investigador explica que as mensagens de texto e emails são formas de comunicação digital assíncronas, ou seja, são comunicações transmitidas de forma intermitente. Através desse tipo de comunicação, as pessoas não veem com quem estão a falar, logo não podem aperceber-se de sinais não-verbais, como a linguagem corporal ou vocal, entoação, etc., «razão pela qual não é possível medir o impacto emocional do seu discurso», elucida Erik Peper, o que pode originar uma errada interpretação da mensagem enviada. Além disso, o nível de profundidade dessas comunicações tende a ser mais superficial.

Durante as últimas três décadas, o investigador e professor da Universidade de São Francisco Erik Pepper afirma notar uma grande diferença comportamental nos estudantes. Antes do boom tecnológico, a maioria dos jovens estabelecia «contacto visual, falando entre si à medida que desciam os corredores nas pausas entre as aulas. Hoje em dia, é mais provável vê-los encostados a uma parede enquanto mexem nos seus smartphones ou tablets», conta. «Estão na sua própria bolha digital», frisa, acrescentando que se não se criar intimidade através da comunicação com os outros, irá criar-se um clima de isolamento e, consequentemente, o início de uma depressão. Além disso, a comunicação não-satisfatória não é a única forma pela qual os aparelhos eletrónicos afetam a saúde mental.

Os autores do estudo Erik Pepper e Richard Harvey foram mais longe, tentando estabelecer uma relação causal entre o posicionamento do corpo, a energia e o humor da população objeto de estudo. «Quando uma pessoa está deprimida e sem esperança, tende a adotar uma postura mais curvada», explicam. Se esse indivíduo «já tiver histórico de depressão, estados de pessimismo, ansiedade ou medo, ao colocar o corpo nesta posição está a evocar esses mesmos estados de espírito», prosseguem. Mas, assim que corrigem a postura, irão sentir-se menos deprimidos, mesmo que nenhum outro fator seja alterado.

Para além de serem parte integrante no aparecimento de sintomas de doenças do foro mental, os dispositivos móveis também dificultam o ato de adormecer devido à luz azul emitida pelos ecrãs, fator este que também «contribui para um maior desenvolvimento de doenças», sejam estas de foro psíquico ou físico, acrescenta Erik Pepper.

Também a estimulação dos conteúdos visualizados pode privar os cidadãos de um sono tranquilo e regenerador. «Nas redes socais, as pessoas tendem a ficar emocionalmente mais ativas, ao responder em várias frentes, mantendo-se assim mais acordados e com uma maior perda de sono», explica, acrescentando que não é por acaso que muitos dos alunos alvos de estudo se encontrem numa situação crónica de privação de sono. Quanto mais tempo gastar a consumir media, digital ou não, menos tempo gasta para se manter ativo, sendo por isso «o melhor tratamento para o combate à depressão, o movimento e o exercício», diz.
Assim sendo, como sabe se está dependente do seu smatphone? «Coloque o telemóvel longe do seu alcance e tente, durante alguns dias, não o usar», sugere o especialista. De acordo com os investigadores, se ficar agitado e começar a sentir que é impossível não ir verificar as redes sociais e emails, então poderá estar com um problema de dependência digital. Veja na galeria, no início do artigo, seis formas de controlar a obsessão pelo mundo digital, segundo estes especialistas.

O estudo citado na notícia é o seguinte:

Digital Addiction: Increased Loneliness, Anxiety, and Depression

 

Daniel Sampaio: “Têm de ser definidas regras e implementados castigos. o que se passa é que nas famílias não há regras”

Maio 31, 2018 às 9:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Paulo Rascão – MadreMedia

 

A internet pode aproximar mais do que dividir pais e filhos. Entrar-lhes no telemóvel é invadir a sua privacidade, mas há formas de os fazer falar. Sem ser chato e sem medo de se impor. Por estranho que pareça, nem tudo são problemas psiquiátricos, (…).

Os pais queixam-se de que os filhos passam a vida ao telemóvel. Os filhos revidam e respondem que os pais estão sempre no Facebook. O psiquiatra Daniel Sampaio vem agora dizer uma coisa aparentemente simples: se não podes vencê-los, junta-te a eles. No seu livro “Do Telemóvel para o Mundo”, o médico especializado em adolescência defende que o telemóvel e as novas tecnologias, já não tão novas como isso, podem e devem ser utilizadas como ponte entre pais e filhos e não como fonte de conflitos.

(…)

Afinal, o que mudou nos últimos 20 anos na maneira de ser e de estar de jovens e pais? O que é feito do famoso generation gap? Foi isso que fomos descobrir.

Ouvi-o dizer que considera o telemóvel, em termos de privacidade, uma extensão do cérebro e, por isso, os pais não devem invadi-lo.

Exactamente, penso que é território privado. Defendo que os pais não devem invadir esse território e devem antes estabelecer uma relação de confiança com os filhos para que estes possam falar sobre aquilo que fazem no telemóvel. Como psiquiatra especializado em adolescentes, aquilo a que tenho assistido é que as consultas de psiquiatria são marcadas justamente por questões de comunicação. Ou seja, a utilização do telemóvel tornou-se um ponto de conflito. Nalgumas famílias mais disfuncionais tornou-se uma questão de ruptura: tira-se o telemóvel, há gritos, procura-se o telemóvel onde os pais o escondem, depois passa-se para o computador, utiliza-se a bateria até ao fim e os pais chegam a desligar a electricidade para não se poder recarregar os aparelhos. É um palco de conflito entre gerações. A proposta do livro é que seja exactamente o contrário, uma aproximação entre gerações. Porque a internet, particularmente no telemóvel, permite uma comunicação instantânea entre pais e filhos, entre avós e netos. Se podemos ter isso como uma coisa positiva, é nessa direcção que temos de caminhar.

 

“Provavelmente pela primeira vez na história das famílias há um território em que os mais novos sabem mais do que os mais velhos”

 

E por que motivo se tornou fonte de conflito?

Porque provavelmente pela primeira vez na história das famílias há um território em que os mais novos sabem mais do que os mais velhos. As crianças e jovens são muito mais ágeis e sabedoras das tecnologias a que nós chamamos novas, mas que já não são assim tão novas, e o que acontece é que a autoridade familiar se sente questionada. Os pais têm experiência de vida e em muitas circunstâncias sentem-se por isso capacitados para exercer a sua autoridade: tu fazes assim porque eu sei que isso é mau ou bom. Quando entramos no território da internet, há muito desconhecimento das pessoas mais velhas e isso vem alterar a relação de poder na família. Os mais novos dizem aos mais velhos: “És um totó”, “És um cota”, “Não percebes nada disso”, “Eu é que sei”. Isto veio alterar a hierarquia familiar, digamos assim. O que o livro vem dizer é: tenhamos atenção aos riscos, mas aproveitemos as coisas boas, que são muito mais do que os riscos. Porque a internet veio para ficar. Há quem compare a internet com a revolução da imprensa, iniciada por Gutenberg no século XV. Temos de aproveitar este período para nos aproximar mais dos filhos, dos netos – quem tem netos, como é o meu caso – para fazer com que a internet seja uma ponte entre gerações.

 

“Temos de aproveitar este período para nos aproximar mais dos filhos, dos netos. Para fazer com que a internet seja uma ponte entre gerações”

 

Os pais tiram o telemóvel às crianças para as castigar. E porque é que o dão?

Porque sofrem uma grande pressão por parte dos filhos para que eles tenham um telemóvel. Quase todos os miúdos de dez ou de oito anos têm telemóvel, um smartphone.

Muito menos do que isso: dois, quatro, cinco anos.

Mas isso é completamente errado. Isso é aquilo a que se chama a ama electrónica, a babysitter electrónica: dá-se um tablet ou um telemóvel à criança, ela fica fascinada e fica quieta. O que digo é que é preciso definir regras de utilização desde muito cedo. Aos cinco anos pode jogar um jogo no telemóvel do pai ou do irmão mais velho, mas tem de perceber que há regras, a mais importante de todas é o tempo de utilização. Isso tem de ser interiorizado pela criança, que se não faz isso na altura certa dificilmente poderá aceitar as regras mais tarde. Na família, como na escola.

 

“Têm de ser definidas regras e implementados castigos. O que se passa é que nas famílias não há regras”

 

Também tem falado sobre o assunto em escolas?

Estive ontem numa escola, a Escola Secundária de Carcavelos, onde o telemóvel é utilizado na sala de aula. Tudo porque verificaram que era um inferno proibir o telemóvel quando os alunos estavam sistematicamente a desobedecer, a enviar mensagens, etc. Então optaram por trabalhar as regras de utilização durante um ano e no ano seguinte implementaram o uso segundo os critérios definidos com o acordo da associação de estudantes. Hoje é utilizado como instrumento de trabalho durante uma parte da aula, depois é desligado. Os prevaricadores, aqueles que utilizam o telemóvel de uma forma diferente, são imediatamente punidos com a aceitação dos alunos. Na família deve ser da mesma maneira: têm de ser definidas regras e implementados castigos. O que se passa é que nas famílias não há regras. E tudo se torna anárquico. Quando se torna anárquico, o poder que as crianças e jovens têm por dominarem as tecnologias leva a que a hierarquia se inverta e tenhamos filhos a mandar nos pais, como acontece nalgumas famílias.

 

“O poder que as crianças e jovens têm por dominarem as tecnologias leva a que a hierarquia se inverta e tenhamos filhos a mandar nos pais”

 

Se não fosse o telemóvel ou a internet essas famílias estariam unidas ou, de facto, estaria cada um para seu lado?

Antes essas famílias estavam em frente da televisão. Em 1996, já lá vão 22 anos, escrevi “Voltei à Escola”, e o que os pais me diziam era: “Passam a vida a ver televisão”. E eu respondia: “Há um botão para desligar a televisão”. Nessa altura, as famílias também não falavam. E em 1994 escrevi sobre a síndrome das bandejas, em que cada um pegava no seu tabuleiro e sentava-se em frente da televisão a ver o seu programa, em vez de jantar em família. Portanto, este é um problema que vem de trás. Agora foi empolado porque o telemóvel abre-se para o mundo, não sabemos o que pode acontecer, não controlamos o que estão a ver, com quem estão a falar.

Sempre existiu o generation gap. Esse fosso entre pais e filhos é muito diferente do que era há 20 anos?

Hoje os pais estão mais próximo. Desde o final do século XX, com a Convenção sobre os Direitos da Criança, os pais passaram a debruçar-se muito mais sobre os filhos. De uma forma geral, são mais afectuosos. A maioria dos pais aproximou-se dos filhos, mas perdeu autoridade por causa da camaradagem. Depois veio a fase, no início do século XXI, do “é preciso dizer não”. Ora, só é possível dizer não em determinadas circunstâncias: se os pais forem muito distantes, os filhos não aceitam um não. Se forem muito permissivos – e há pais que o são – evidentemente não conseguem manter o não. Precisamos, e a internet pode ser um contributo para isso, de nos envolver com os mais novos, de estar próximo deles, para daí emergir uma autoridade natural. Se eu estiver distante e quiser impor a autoridade de repente ou, ao contrário, se for muito permissivo e quiser impor-me, não consigo. A autoridade é um tema muito importante.

 

“Devia haver uma série de apoios intermédios, os médicos de família ou o enfermeiro do centro de saúde deviam ter formação e ajudar os pais nestas questões, que não são de psiquiatria na maioria dos casos, são de comunicação”

 

Os pais são muito sujeitos a interferências externas – legislação, escolas, psicólogos, psiquiatras, comissões de protecção – e isso traz medo e indefinição que se reflecte na educação dos filhos…

Os pais estão muito sozinhos. Em Portugal, infelizmente, não há a cultura de os pais conversarem uns com os outros, de haver grupos de pais onde se podem trocar experiências. Os pais estão sozinhos e quando precisam de ajuda vão ao psicólogo ou ao psiquiatra. Devia haver uma série de apoios intermédios; os médicos de família ou o enfermeiro do centro de saúde, por exemplo, deviam ter formação e ajudar os pais nestas questões, que não são de psiquiatria. Evidentemente que há jovens com questões psiquiátricas, mas a maioria das vezes que recorrem ao psicólogo ou ao psiquiatra fazem-no por problemas de comunicação que a internet e o telemóvel vieram tornar mais nítidos, mas que já existiam. Quando há 20 anos os jovens passavam o dia em frente da televisão, o problema era exactamente o mesmo, o exterior é que era diferente. Os pais podem estar inseguros, mas são sempre a principal influência dos filhos, está mais do que provado. E se não sabem como agir, têm de reflectir. Os miúdos não vêm com livro de instruções, mas podem, por exemplo, falar com outros pais, isso é muito interessante. Porque alguns pais são bons a orientar os filhos nos estudos e péssimos guiá-los nas saídas à noite, há pais competentes numas áreas e menos competentes noutras. E é bom trocar experiências, saber como outros fazem.

 

“O nagging persistente: não vale a pena dizer mais do que duas vezes. As coisas têm de ser ditas com voz calma e se houver uma resposta agressiva é preciso chamar a atenção sem confronto, sem tensão, o que não significa falta de firmeza”

 

No livro fala muito no nagging, o chatear constante dos pais – que, quem tem filhos adolescentes sabe, é difícil evitar. Pode explicar a sua teoria?

O nagging, o ralhar persistente. Os adolescentes são contestatários, não aceitam as coisas muito facilmente porque têm dentro deles a ideia de que têm de ser diferentes dos pais. Mas o nagging não é eficaz. O que eu digo é: diga no máximo duas vezes. Não vale a pena dizer mais do que isso, porque se diz mais do que duas vezes vai ter uma retroacção: “A mãe é chata”. E isso também é interessante acerca do telemóvel, a necessidade que os adolescentes têm de descansar agarrando-se às ditas novas tecnologias; mal chegam da escola e a primeira coisa que fazem é precipitarem-se sobre os telemóveis, faz parte da maneira de ser actual. E temos de saber esperar um bocadinho por essa descompressão antes de desatarmos a falar. As coisas têm de ser ditas sem ser de forma persistente e com voz calma e se houver uma resposta agressiva é preciso chamar a atenção sem confronto, sem tensão. Criar pontes de diálogo não significa falta de firmeza, não ser persistentes não significa não ser firme.

 

“Eu digo sempre que a família não é uma democracia. E é muito importante passar essa ideia, a certa altura é preciso decidir”

 

Falou nos direitos da criança e do jovem. Hoje podem justificar tudo, têm sempre uma palavra. Isto, com os filhos, tem de ser uma democracia?

Isso faz parte da cultura actual, os jovens têm muito poder nas famílias, têm muito poder na sala de aula. Mas eu digo sempre que a família não é uma democracia. E é muito importante passar essa ideia, a certa altura é preciso decidir. Há famílias que ficam num impasse: os filhos a justificarem-se, os pais a justificarem-se, todos numa discussão sem fim. Que normalmente termina numa zanga ou com um choro ou qualquer coisa do género. Nestas situações, é preciso dizer que não há condições para continuar a discutir, é preciso decidir. O que não significa que três dias depois não se volte ao assunto para conversar sobre a decisão. Mas os pais são normalmente muito oscilantes e deixam muitas vezes que sejam os mais novos a tomar as decisões, como se tivessem capacidade para o fazer.

 

“Uma adolescência normal é pedir tudo e ficar com aquilo que os pais dão. Cabe aos pais perceberem que os filhos estão sempre a pedir, mas que não têm de dar. E isso começa na infância.”

 

A verdade é que eles estão à espera que os pais decidam, mesmo quando parece que não…

Aconteceu com um jovem de 16 anos uma coisa que achei muito interessante… Quando há um patologia psiquiátrica é normal nas consultas os pais perguntarem-me: “Mas isso é da anorexia ou é da adolescência?” ou “Mas isso é da depressão ou é da adolescência?”, é uma pergunta que fazem muitas vezes, para saber se é daquele problema específico ou da adolescência em geral. E eu interrogo-me muito sobre o que é uma adolescência normal. E perguntei a este rapaz o que é uma adolescência normal. E ele respondeu: “É muito simples: uma adolescência normal é pedir tudo e ficar com aquilo que os pais dão”. Ou seja, quer sair à noite todos os dias, quer comprar o telemóvel topo de gama, quer carta e carro, quer dormir até tarde… Mas depois contenta-se com o que os pais lhe dão. Cabe aos pais perceberem que os filhos estão sempre a pedir, mas que não têm de dar. E isso começa na infância. Há muitos pais que dizem: “Não deu problemas nenhuns até aos 13 anos, mas entrou na adolescência e foi um drama”. Quando vemos isso, verificamos que os pais foram muito permissivos e começaram a ceder às solicitações dos miúdos muito novos. Quando fala com adolescente mais velhos, como fiz com este rapaz, percebe que é muito importante que os pais estejam numa espécie de fundo de palco, de bastidores. Os pais têm de estar ali, embora eles precisem de liberdade.

Voltando ao telemóvel como extensão do cérebro, ou seja, à privacidade. Como se controla, então, a pornografia, as conversas, as amizades? Haverá sempre segredos, mas agora estão também mais expostos.

Pode-se controlar no sentido da confiança, de questionar o que estão a fazer. Até porque vai perceber que, a certa altura, ficam embaraçados se não estiverem a fazer a coisa certa. Isto acontece mais com os rapazes, a propósito de pornografia. Os rapazes vêem muita pornografia – no meu tempo era nas revistas. Não podemos impedir isso, faz parte do desenvolvimento, de uma época. O que podemos fazer é escolher entre ignorar ou perguntar o que andam a ver e explicar. E a segunda hipótese é a atitude correcta, caso contrário deixamos na mão dos outros a explicação e o entendimento daquilo que estão a ver, que pode não ser o melhor e o mais certo. Se controlarmos em casa, eles vão para casa dos amigos. Se controlarmos os amigos, eles vão escolher outros amigos. A perspectiva é a de monitorizar, de acompanhar e não de fazer guerra, de censurar. Assim, eles falam com os pais.

Qual é, para si, o principal problema de os pais terem acesso à informação dos filhos?

O principal problema é que muitas vezes os pais não sabem o que fazer com a informação que descobrem, ficam prisioneiros. Vou dar-lhe alguns exemplos: recentemente – e isto foi exactamente assim – um pai chegou à consulta com o filho de 14 anos, a mãe caladinha, e a primeira coisa que diz é: “Vim aqui porque sou engenheiro informático e tenho um device com o qual entrei no telemóvel do meu filho e vi coisas muito estranhas”. O filho começou a ficar em pânico. “Então e aqui à frente do médico é que dizes isso?” “Sim, vi que entraste em sites pornográficos e ainda por cima homossexuais”. Foi uma coisa terrível. O pai ficou completamente embaraçado com o que viu e a solução que encontrou foi marcar uma consulta no psiquiatra. Quando, no limite, até devia ter sido em casa que devia ter dito: “Olha, entrei no teu telemóvel, vi isto e estou muito preocupado”. Mas ficou de tal maneira preso que não teve outra acção. Outro caso também interessante e que estou a seguir, um rapaz que tem uma depressão, os pais começaram controlar os encontros dele e pediram para falar comigo. E eu cometi o erro de falar com os pais sem ser na presença do miúdo. O que aconteceu foi: ele anda com encontros com raparigas fáceis e isto está a fazer-lhe muito mal, o que vamos fazer? Obtiveram esta informação no telemóvel, ficaram muito chocados e agora? Tive de reunir todos, falar dos encontros dele, etc. Mas isso era uma conversa que podiam ter tido em casa, uma conversa banal entre um rapaz de 16 anos e os pais: com quem é que tu andas, quem são os teus amigos, com quem sais? Voltamos ao ponto de partida, o telemóvel pode ser um elemento para criar proximidade em vez de criar distância.

E se os pais não conseguem falar com os filhos, como fazer?

Têm de promover a conversa. Pode ser um avô, pode ser um tio, um mediador entre pais e filhos. Até um técnico, o tal de que falava, o enfermeiro. Não é preciso que seja logo um psiquiatra, porque isso dá logo a conotação da patologia mental que, em muitos casos, não existe.

Fez parte do grupo inicial que estudou a implementação da educação sexual nas escolas…

Sabe há quantos anos?

Em 2009, não foi?

Sim.

Mas não correu muito bem, correu? Hoje mal se fala no assunto.

Entre 2005 e 2009 correu muito bem. Trabalhámos com as escolas, formámos muitos grupos de professores e a educação sexual ficou integrada na educação para a saúde. Na altura fomos contra uma disciplina única, quando podíamos aproveitar a oportunidade para falar de outros temas muito importantes, como a alimentação e a actividade física, porque havia (e há) muitos alunos com excesso de peso, e portanto uma das alíneas passava pela exercício físico, a segunda era as drogas, a terceira era a educação sexual e a quarta era a violência no namoro. Ao mesmo tempo que se fez este trabalho, formaram-se centenas de professores que trabalhavam a educação para a saúde e que podiam ser os mediadores dessas áreas temáticas nas escolas. Representou um esforço grande e que correu muito bem, a lei foi aprovada na Assembleia da República. O que aconteceu depois é que houve um desinvestimento, deixou de haver um carácter obrigatório e passou a ser opcional. Algumas escolas continuam a trabalhar o tema, mas a nível geral este movimento perdeu força. Seria preciso vir dizer: ficam consagradas por ano tantas horas para a educação sexual, tantas horas para o álcool e drogas, tantas horas para a violência no namoro. Uma formação obrigatória. Agora existe a educação para a cidadania, mas o programa for dizer que devem ser bons cidadãos…

Hoje rapazes e raparigas parecem não se entender. Falo já do final da adolescência e idade adulta: elas dizem que eles só pensam no ginásio e no corpo, eles dizem que elas querem super-homens é só pensam na carreira. Há uma explicação?

Guerra de sexos. Isso tem de ser conquistado na adolescência. É uma questão de educação, tudo isso tem de ser trabalhado na adolescência, no início da adolescência. É quando conhecem o seu próprio corpo e começam a interagir com o sexo oposto – ou com o mesmo sexo se forem homossexuais. É uma fase importantíssima. Para, por exemplo, introduzir o tema do respeito, da ética relacional. Até que ponto é que eu posso pôr mensagens no telemóvel contra uma menina gorda da escola? Um grupo de WhatsApp a dizer mal de uma menina gorda? Evidente que ela ficou em silêncio, até que um deles disse que queria sair do grupo. Isso gerou uma discussão. É sobre estas coisas que os pais e a escola se devem pronunciar. Como é que tu vais respeitar as pessoas que convivem contigo. Ok, é gorda. E então? O rapaz é homossexual? É tudo muito natural, mas os homossexuais sofrem horrores na escola, muitas vezes através de cyberbullying. Se não for assim logo na infância, chegam à idade adulta disfuncionais, não reflectiram sobre isso.

Essa é outra questão. Vivemos na era do politicamente correcto, uma certa carneirada. Queremos que os miúdos aceitem conceitos à força, a diferença só porque sim, sem reflectir, sem debater, sem deixar sentir…

O respeito é importante… Eu faço terapia de casal e, de facto, é sempre o mesmo problema: a disputa do casal em que no frigorífico devia haver uma prateleira para ela e uma prateleira para ele. Simbólico, isto. A apropriação do espaço. O espaço masculino, para os iogurtes dele, as coisas que ele gosta. Quando havia uma mudança, havia uma guerra. Isto é a igualdade levada ao extremo. As pessoas são diferentes. Os homens gostam de sair com os seus amigos e as mulheres gostam de sair com as suas amigas. Há casais que têm extrema dificuldade em aceitar isto. É levada a coisa ao extremo, têm de fazer tudo em conjunto. Não é assim.

 

Artigo de Isabel Tavares para SAPO24, em 21 de maio de 2018.

Redes sociais imitam estratégias de casas de jogos para criar dependência psicológica

Maio 22, 2018 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia da Visão de 9 de maio de 2018.

As técnicas utilizadas pelos casinos e outras empresas de jogos de azar estão a ser copiadas pelas redes sociais. O objetivo é criar dependência psicológica nos utilizadores.

As redes sociais podem ser tão viciantes como os jogos dos casinos, e ativam no cérebro dos utilizadores mecanismos parecidos aos que são provocados pelo efeito da cocaína. Quem o diz são especialistas de várias áreas, que afirmam que os utilizadores podem chegar a ouvir sons relacionados com os smartphones que, muitas vezes, não são reais. “Essas ‘chamadas fantasma’ e notificações estão ligadas ao nosso desejo psicológico de recebermos esses sinais”, explica, ao The Guardian, Daniel Kruger, especialista em comportamento humano e professor na Universidade de Michigan, EUA.

“Empresas como o Facebook usam métodos parecidos aos da indústria do jogo para manter os utilizadores nas suas plataformas”, afirma Natasha Schüll, autora do livro Addiction by Design: Machine Gambling in Las Vegas, publicado em 2012, onde explica, por exemplo, como as máquinas automáticas dos casinos, as conhecidas slot machines, são pensadas de forma detalhada para viciar os jogadores.

Segundo a escritora, no mundo online, o objetivo é manter a “atenção contínua do utilizador”, através de cliques e do tempo passado nas plataformas: se a pessoa começa a perder o interesse, por exemplo, pelo que se passa no Facebook, vai ser, automaticamente, bombardeada por mensagens subtis ou ofertas para que o seu foco volte a ser a rede social.

O mecanismo cerebral das pessoas quando atualizam o feed do Facebook ou do Instagram é, na opinião de Tristan Harris, ex-especialista em Ética da Google, “irritantemente” semelhante àquele que é desencadeado pelas slot machines: quando puxam a alavanca da máquina, as pessoas podem ter direito a mais uma partida, receber um prémio monetário, ou nada. A verdade é que nunca se sabe o que vai acontecer, se vai haver alguma recompensa ou não, da mesma forma que, nas redes sociais não se sabe se se vai encontrar algum conteúdo interessante. “Mas isso é, precisamente, aquilo que nos faz voltar a atualizar os nossos feeds”, refere Tristan Harris.

Também Mark Griffiths, diretor da Unidade Internacional de Pesquisa de Jogos da Universidade de Nottingham Trent, diz que a recompensa é a chave que prende os utilizadores às redes sociais. “As redes sociais estão repletas de recompensas imprevisíveis, para chamar a atenção dos utilizadores e fazer com que eles criem a rotina de irem constantemente ver os seus perfis”. afirma.

Tal como o gambling, que afeta a estrutura do cérebro e que, por isso, torna as pessoas mais suscetíveis a sofrerem de ansiedade e depressão, as redes sociais também têm sido relacionadas com comportamentos depressivos e, por isso, o seu potencial para provocar um impacto psicológico negativo nos utilizadores não deve ser desvalorizado. “Temos de começar a perceber os custos que o tempo passado nas redes sociais acarreta, porque afeta-nos financeiramente, fisicamente e emocionalmente”, defende Natasha Schüll.

Mas, apesar de toda a polémica em torno das violações da privacidade no Facebook durante o início deste ano, a verdade é que o número de utilizadores desta rede social aumentou 14% em relação ao ano passado e o lucro aumentou 49%, quando comparado com o do mesmo trimestre de 2017.

 

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