Já está disponível para download o InfoCEDI n.º 76 sobre A Criança e o Direito à Imagem

Julho 19, 2018 às 2:30 pm | Publicado em CEDI | Deixe um comentário
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Já está disponível para consulta e download o nosso InfoCEDI n.º 76. Esta é uma compilação abrangente e atualizada de dissertações, estudos, citações e endereços de sites sobre sobre A Criança e o Direito à Imagem.

Todos os documentos apresentados estão disponíveis on-line. Pode aceder a esta publicação AQUI.

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Agarrados à Internet – como se a decisão não fosse nossa

Julho 4, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do Público de 24 de junho de 2018.

Os especialistas da saúde acreditam que é possível ter uma relação saudável com as novas tecnologias. Mas há regras que devem ser impostas para que haja um uso controlado.

Lisa Freitas

Os ecrãs sempre ligados apoderaram-se do quotidiano das sociedades contemporâneas. E com eles a dificuldade em desligar do mundo online. As consequências dessa dependência originam patologias que os agentes da saúde tentam compreender e controlar. Apesar de ser uma adicção sem substância, os efeitos da dependência da Internet podem ser tão ou mais avassaladores quanto o consumo de drogas e álcool, de acordo com os especialistas da área que têm dado especial atenção a esta problemática.

Em Portugal, mudanças comportamentais ligadas ao uso das novas tecnologias começam a revelar uma tendência e há várias instituições a prestar apoio a pessoas com esta dependência, como o Centro de Tratamento Villa Ramadas, em Alcobaça. “O primeiro caso foi em 2004. Durante os anos seguintes foram surgindo pontualmente outros, mas houve um crescimento marcante na procura de tratamento nos últimos três a quatro anos”, revela Eduardo Ramadas da Silva, o director terapêutico do centro, num e-mail enviado ao P2.

Esta tendência de crescimento de pessoas viciadas na Internet a pedir apoio também é assinalada pela psiquiatra Rita Barandas, do Núcleo de Utilização Problemática de Internet (NUPI), do Hospital de Santa Maria, em Lisboa. Em conversa com o P2, esta especialista fala num “problema crescente” nos últimos anos e reconhece que, em 2014, quando o NUPI foi criado, “não se sabia muito bem que tipo de respostas dar”.

Em Portugal, uma em cada cinco crianças até aos oito anos tem telemóvel para uso pessoal. Cerca de 38% acedem à Internet, sendo o tablet o dispositivo mais usado para este fim. Mas o acesso cresce significativamente com a idade — 22% das crianças dos três aos cinco para 62% das crianças dos cinco aos oito anos acedem à internet —, segundo dados de um estudo realizado pela Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC). Intitulado Crescendo entre Ecrãs. Uso de Meios Electrónicos por Crianças (3-8 anos), o estudo teve o contributo científico de uma equipa de investigadores da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, coordenada pela socióloga Cristina Ponte.

Apesar de ser um problema em crescendo, vários especialistas contactados pelo P2 afirmam que nos casos de dependência da Internet não há uma causalidade linear com a maior parte das doenças psíquicas. Existem muitos outros factores que perpetuam, por exemplo, a condição de isolamento. Para Eduardo Ramadas da Silva “o isolamento extremo é um comportamento que pode ter na sua origem diferentes quadros clínicos, nomeadamente, depressão e perturbações de ansiedade”. “É muito comum a dependência à Internet surgir associada a outro tipo de queixas que podem anteceder ou ser consequência desta”, explicou.

Rita Barandas é da mesma opinião: “Não há uma situação única que esteja na origem. Muitas vezes não há nada de particular, as pessoas começam a jogar por simplesmente gostarem de jogar, mas, por vezes, instala-se um padrão repetitivo e compulsivo”. A psiquiatra revela que ao NUPI já chegaram casos de isolamento de pessoas que ficaram em casa dias, semanas e até meses. “Mas, regra geral, são pessoas que têm outras patologias psiquiátricas, não são só utilizadores compulsivos de jogos. São doentes que, por exemplo, sofrem de depressões ou que têm outra perturbação qualquer que faz com que se isolem e não queiram sair de casa.”

Por seu lado, o director terapêutico do centro Villa Ramadas diz que “a origem destes comportamentos é idiossincrática, variando de paciente para paciente”. “A dependência pode surgir do uso abusivo, principalmente se existirem vulnerabilidades que aumentem o risco do desenvolvimento de um quadro de dependência. Estas vulnerabilidades podem ser genéticas (presença de quadros de dependência na família) ou ambientais. Nestas últimas, os traços de personalidade, a pré-existência de perturbações de ansiedade ou de humor, são factores importantes”, frisou Eduardo Ramadas da Silva, afirmando ainda que no centro que dirige a média de idades para os pacientes é de cerca de 30 anos, sendo que o paciente mais novo tinha 15 anos, e o mais velho 41 anos.

Proibir ou bloquear não resolve

No estudo coordenado pela socióloga Cristina Ponte, 68% dos pais usa frequentemente a Internet e para a maioria (75%) a rede traz vantagens para o desenvolvimento das crianças. “Os comportamentos de isolamento extremo, independentemente de estarem ou não associados a um uso abusivo da Internet e das redes socias, podem ser sempre sinais importantes de que algo está errado. É especialmente importante, no caso das crianças e dos adolescentes, que os pais e outros adultos próximos estejam atentos a este tipo de comportamentos”, disse Ramadas da Silva. “A proibição de dispositivos tecnológicos, ou o corte da Internet, apenas seriam possíveis nos casos de menores sobre o controlo dos pais e, mesmo nestes casos, não resolveria o problema”, frisou o director do centro.

Certo é que hoje passamos muito tempo online. Para Rita Barandas “é impressionante a forma passiva como ficamos agarrados à Internet – é como se a decisão não fosse nossa”. “A ubiquidade e o facto de estar tão próximo é bom, mas a desvantagem é que ficamos vulneráveis e acaba por ser tão fácil e gratificante que é difícil pararmos.” A psiquiatra rejeita a ideia de vício associada a este comportamento. “Tudo o que é comportamental, apesar de ter muitas semelhanças em algumas coisas, é diferente dos chamados vícios de substâncias. É difícil traçarmos uma linha a partir da qual é considerado patológico ou negativo”. O foco do NUPI passa por perceber “quando há disrupção de alguma área da vida” desses indivíduos e a partir daí fazer o acompanhamento necessário, um tratamento complexo e que não funciona como um botão on e off. “É uma solução de compromisso, até porque jogar videojogos e estar na Internet não é uma coisa errada em si, não tem mal nenhum. Não podemos proibir as pessoas de aceder ao computador e de aceder às consolas”.

Por outro lado, “não há uma solução no sentido de que antes havia um problema ou uma doença e limpamos a doença e a pessoa nunca mais vê o computador à frente”, frisa Rita Barandas. “Estamos perante situações em que as pessoas vão continuar a usar o computador para trabalhar, ou para estudar, ainda mais numa altura em que se fala de literacia digital.”

A solução passa, de acordo com as opiniões dos vários profissionais, por usar as novas tecnologias a favor e não contra os utilizadores e tentar modificar padrões de dependência.

“No caso da dependência à Internet, não é realista esperar que os pacientes se comprometam com uma vida sem contacto com a mesma”, diz Eduardo Ramadas da Silva. “Procura-se promover um maior equilíbrio e desenvolver nos pacientes, estratégias que lhes permita lidar não apenas com a dependência, mas também com qualquer situação menos positiva que possam encontrar.”

 

 

 

Podem as crianças em grupo, com acesso à Internet, aprender sozinhas? | Sugata Mitra

Junho 5, 2018 às 6:00 am | Publicado em Vídeos | Deixe um comentário
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Doutor em física e professor de tecnologia educativa da Universidade de Newcastle (Reino Unido), Sugata Mitra salta para a fama internacional quando a TED, organização que promove a tecnologia, a educação e o desenho elegeu a sua conferência como a mais inspiradora e com mais potencial de mudança, no ano 2013.

A sua história conta a experiência de um jovem e brilhante físico que há quase 20 anos coloca um computador com ligação à internet num muro de um subúrbio de Nova Deli, perto do seu gabinete, e pergunta: conseguirão aquelas crianças, sem educação, aprender por si mesmas? As gravações com câmara escondida mostraram ao professor Mitra que as crianças jogaram no computador, aprenderam a usá-lo e para além disso ensinaram as outras sem a intervenção de nenhum adulto.

À sua história chamou-se “Hole in the Wall” (Buraco na Parede) e inspirou parte do argumento do filme que ganhou o Óscar, ‘Slumdog Millionaire’. Mitra avançou nas suas investigações o que denominou como educação minimamente invasiva e reproduziu o teste noutros lugares da Índia e do mundo. Os resultados? A capacidade de auto-aprendizagem das crianças com o uso da Internet e as novas tecnologias é surpreendente.

Hoje, a sua proposta educativa conhece-se como SOLE (siglas em inglês de Self Organised Learning Environments), ambientes de aprendizagem auto-organizados e conta com experiências em escolas de mais de 50 países.

Tradução livre do espanhol.

Ver programa completo.

Referência: ¿Puede un grupo de niños con acceso a internet aprender solos?. (2018). BBVA Aprendemos Juntos. Retrieved 23 May 2018, from https://aprendemosjuntos.elpais.com/especial/puede-un-grupo-de-ninos-con-acceso-a-internet-aprender-solos-sugata-mitra/

 

 

Adição digital: estudo comprova ligação entre uso excessivo de dispositivos digitais e depressão

Junho 2, 2018 às 1:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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moodsapo

Notícia e fotografia do moodsapo de 22 de maio de 2018.

As ligações entre uso excessivo da tecnologia e o desenvolvimento de problemas de saúde mental são cada vez mais faladas. Uma nova pesquisa realizada nos EUA veio comprovar esta ligação e ainda estabelecer uma relação causal entre o posicionamento do corpo, a energia e o humor da população que usa excessivamente os dispositivos digitais.

Já se sabe que os tablets, smartphones e outros gadgets digitais tomaram conta do dia-a-dia da população. E também já se sabe que essa ‘normalidade’ não traz benefícios à saúde, muito pelo contrário. Mas um novo estudo levado a cabo pela Universidade de São Francisco, nos EUA, veio agora comprovar que realmente «existe uma forte ligação entre a adição digital, especialmente no uso compulsivo do telemóvel, e a ansiedade e depressão».

A recente investigação contou com a participação de dois grupos de estudantes universitários, na qual se observou que vários indivíduos dos dois grupos, dentro e fora das aulas, estavam constantemente com a cabeça inclinada para baixo a fazer scroll nos seus telemóveis, em vez de estarem a conviver com as pessoas que os rodeavam. Este facto levou os investigadores a uma conclusão: o grupo que mais utilizou o telemóvel reportou um maior nível de solidão, ansiedade e depressão do que o grupo que menos o usou. «Para a preservação da saúde mental, é necessária a comunicação humana, porque é assim que aprendemos a modular os nossos estados de humor», esclarece Erik Pepper, investigador e professor no Instituto de Estudos de Saúde Holística da Universidade de São Francisco.

O investigador explica que as mensagens de texto e emails são formas de comunicação digital assíncronas, ou seja, são comunicações transmitidas de forma intermitente. Através desse tipo de comunicação, as pessoas não veem com quem estão a falar, logo não podem aperceber-se de sinais não-verbais, como a linguagem corporal ou vocal, entoação, etc., «razão pela qual não é possível medir o impacto emocional do seu discurso», elucida Erik Peper, o que pode originar uma errada interpretação da mensagem enviada. Além disso, o nível de profundidade dessas comunicações tende a ser mais superficial.

Durante as últimas três décadas, o investigador e professor da Universidade de São Francisco Erik Pepper afirma notar uma grande diferença comportamental nos estudantes. Antes do boom tecnológico, a maioria dos jovens estabelecia «contacto visual, falando entre si à medida que desciam os corredores nas pausas entre as aulas. Hoje em dia, é mais provável vê-los encostados a uma parede enquanto mexem nos seus smartphones ou tablets», conta. «Estão na sua própria bolha digital», frisa, acrescentando que se não se criar intimidade através da comunicação com os outros, irá criar-se um clima de isolamento e, consequentemente, o início de uma depressão. Além disso, a comunicação não-satisfatória não é a única forma pela qual os aparelhos eletrónicos afetam a saúde mental.

Os autores do estudo Erik Pepper e Richard Harvey foram mais longe, tentando estabelecer uma relação causal entre o posicionamento do corpo, a energia e o humor da população objeto de estudo. «Quando uma pessoa está deprimida e sem esperança, tende a adotar uma postura mais curvada», explicam. Se esse indivíduo «já tiver histórico de depressão, estados de pessimismo, ansiedade ou medo, ao colocar o corpo nesta posição está a evocar esses mesmos estados de espírito», prosseguem. Mas, assim que corrigem a postura, irão sentir-se menos deprimidos, mesmo que nenhum outro fator seja alterado.

Para além de serem parte integrante no aparecimento de sintomas de doenças do foro mental, os dispositivos móveis também dificultam o ato de adormecer devido à luz azul emitida pelos ecrãs, fator este que também «contribui para um maior desenvolvimento de doenças», sejam estas de foro psíquico ou físico, acrescenta Erik Pepper.

Também a estimulação dos conteúdos visualizados pode privar os cidadãos de um sono tranquilo e regenerador. «Nas redes socais, as pessoas tendem a ficar emocionalmente mais ativas, ao responder em várias frentes, mantendo-se assim mais acordados e com uma maior perda de sono», explica, acrescentando que não é por acaso que muitos dos alunos alvos de estudo se encontrem numa situação crónica de privação de sono. Quanto mais tempo gastar a consumir media, digital ou não, menos tempo gasta para se manter ativo, sendo por isso «o melhor tratamento para o combate à depressão, o movimento e o exercício», diz.
Assim sendo, como sabe se está dependente do seu smatphone? «Coloque o telemóvel longe do seu alcance e tente, durante alguns dias, não o usar», sugere o especialista. De acordo com os investigadores, se ficar agitado e começar a sentir que é impossível não ir verificar as redes sociais e emails, então poderá estar com um problema de dependência digital. Veja na galeria, no início do artigo, seis formas de controlar a obsessão pelo mundo digital, segundo estes especialistas.

O estudo citado na notícia é o seguinte:

Digital Addiction: Increased Loneliness, Anxiety, and Depression

 

Daniel Sampaio: “Têm de ser definidas regras e implementados castigos. o que se passa é que nas famílias não há regras”

Maio 31, 2018 às 9:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Paulo Rascão – MadreMedia

 

A internet pode aproximar mais do que dividir pais e filhos. Entrar-lhes no telemóvel é invadir a sua privacidade, mas há formas de os fazer falar. Sem ser chato e sem medo de se impor. Por estranho que pareça, nem tudo são problemas psiquiátricos, (…).

Os pais queixam-se de que os filhos passam a vida ao telemóvel. Os filhos revidam e respondem que os pais estão sempre no Facebook. O psiquiatra Daniel Sampaio vem agora dizer uma coisa aparentemente simples: se não podes vencê-los, junta-te a eles. No seu livro “Do Telemóvel para o Mundo”, o médico especializado em adolescência defende que o telemóvel e as novas tecnologias, já não tão novas como isso, podem e devem ser utilizadas como ponte entre pais e filhos e não como fonte de conflitos.

(…)

Afinal, o que mudou nos últimos 20 anos na maneira de ser e de estar de jovens e pais? O que é feito do famoso generation gap? Foi isso que fomos descobrir.

Ouvi-o dizer que considera o telemóvel, em termos de privacidade, uma extensão do cérebro e, por isso, os pais não devem invadi-lo.

Exactamente, penso que é território privado. Defendo que os pais não devem invadir esse território e devem antes estabelecer uma relação de confiança com os filhos para que estes possam falar sobre aquilo que fazem no telemóvel. Como psiquiatra especializado em adolescentes, aquilo a que tenho assistido é que as consultas de psiquiatria são marcadas justamente por questões de comunicação. Ou seja, a utilização do telemóvel tornou-se um ponto de conflito. Nalgumas famílias mais disfuncionais tornou-se uma questão de ruptura: tira-se o telemóvel, há gritos, procura-se o telemóvel onde os pais o escondem, depois passa-se para o computador, utiliza-se a bateria até ao fim e os pais chegam a desligar a electricidade para não se poder recarregar os aparelhos. É um palco de conflito entre gerações. A proposta do livro é que seja exactamente o contrário, uma aproximação entre gerações. Porque a internet, particularmente no telemóvel, permite uma comunicação instantânea entre pais e filhos, entre avós e netos. Se podemos ter isso como uma coisa positiva, é nessa direcção que temos de caminhar.

 

“Provavelmente pela primeira vez na história das famílias há um território em que os mais novos sabem mais do que os mais velhos”

 

E por que motivo se tornou fonte de conflito?

Porque provavelmente pela primeira vez na história das famílias há um território em que os mais novos sabem mais do que os mais velhos. As crianças e jovens são muito mais ágeis e sabedoras das tecnologias a que nós chamamos novas, mas que já não são assim tão novas, e o que acontece é que a autoridade familiar se sente questionada. Os pais têm experiência de vida e em muitas circunstâncias sentem-se por isso capacitados para exercer a sua autoridade: tu fazes assim porque eu sei que isso é mau ou bom. Quando entramos no território da internet, há muito desconhecimento das pessoas mais velhas e isso vem alterar a relação de poder na família. Os mais novos dizem aos mais velhos: “És um totó”, “És um cota”, “Não percebes nada disso”, “Eu é que sei”. Isto veio alterar a hierarquia familiar, digamos assim. O que o livro vem dizer é: tenhamos atenção aos riscos, mas aproveitemos as coisas boas, que são muito mais do que os riscos. Porque a internet veio para ficar. Há quem compare a internet com a revolução da imprensa, iniciada por Gutenberg no século XV. Temos de aproveitar este período para nos aproximar mais dos filhos, dos netos – quem tem netos, como é o meu caso – para fazer com que a internet seja uma ponte entre gerações.

 

“Temos de aproveitar este período para nos aproximar mais dos filhos, dos netos. Para fazer com que a internet seja uma ponte entre gerações”

 

Os pais tiram o telemóvel às crianças para as castigar. E porque é que o dão?

Porque sofrem uma grande pressão por parte dos filhos para que eles tenham um telemóvel. Quase todos os miúdos de dez ou de oito anos têm telemóvel, um smartphone.

Muito menos do que isso: dois, quatro, cinco anos.

Mas isso é completamente errado. Isso é aquilo a que se chama a ama electrónica, a babysitter electrónica: dá-se um tablet ou um telemóvel à criança, ela fica fascinada e fica quieta. O que digo é que é preciso definir regras de utilização desde muito cedo. Aos cinco anos pode jogar um jogo no telemóvel do pai ou do irmão mais velho, mas tem de perceber que há regras, a mais importante de todas é o tempo de utilização. Isso tem de ser interiorizado pela criança, que se não faz isso na altura certa dificilmente poderá aceitar as regras mais tarde. Na família, como na escola.

 

“Têm de ser definidas regras e implementados castigos. O que se passa é que nas famílias não há regras”

 

Também tem falado sobre o assunto em escolas?

Estive ontem numa escola, a Escola Secundária de Carcavelos, onde o telemóvel é utilizado na sala de aula. Tudo porque verificaram que era um inferno proibir o telemóvel quando os alunos estavam sistematicamente a desobedecer, a enviar mensagens, etc. Então optaram por trabalhar as regras de utilização durante um ano e no ano seguinte implementaram o uso segundo os critérios definidos com o acordo da associação de estudantes. Hoje é utilizado como instrumento de trabalho durante uma parte da aula, depois é desligado. Os prevaricadores, aqueles que utilizam o telemóvel de uma forma diferente, são imediatamente punidos com a aceitação dos alunos. Na família deve ser da mesma maneira: têm de ser definidas regras e implementados castigos. O que se passa é que nas famílias não há regras. E tudo se torna anárquico. Quando se torna anárquico, o poder que as crianças e jovens têm por dominarem as tecnologias leva a que a hierarquia se inverta e tenhamos filhos a mandar nos pais, como acontece nalgumas famílias.

 

“O poder que as crianças e jovens têm por dominarem as tecnologias leva a que a hierarquia se inverta e tenhamos filhos a mandar nos pais”

 

Se não fosse o telemóvel ou a internet essas famílias estariam unidas ou, de facto, estaria cada um para seu lado?

Antes essas famílias estavam em frente da televisão. Em 1996, já lá vão 22 anos, escrevi “Voltei à Escola”, e o que os pais me diziam era: “Passam a vida a ver televisão”. E eu respondia: “Há um botão para desligar a televisão”. Nessa altura, as famílias também não falavam. E em 1994 escrevi sobre a síndrome das bandejas, em que cada um pegava no seu tabuleiro e sentava-se em frente da televisão a ver o seu programa, em vez de jantar em família. Portanto, este é um problema que vem de trás. Agora foi empolado porque o telemóvel abre-se para o mundo, não sabemos o que pode acontecer, não controlamos o que estão a ver, com quem estão a falar.

Sempre existiu o generation gap. Esse fosso entre pais e filhos é muito diferente do que era há 20 anos?

Hoje os pais estão mais próximo. Desde o final do século XX, com a Convenção sobre os Direitos da Criança, os pais passaram a debruçar-se muito mais sobre os filhos. De uma forma geral, são mais afectuosos. A maioria dos pais aproximou-se dos filhos, mas perdeu autoridade por causa da camaradagem. Depois veio a fase, no início do século XXI, do “é preciso dizer não”. Ora, só é possível dizer não em determinadas circunstâncias: se os pais forem muito distantes, os filhos não aceitam um não. Se forem muito permissivos – e há pais que o são – evidentemente não conseguem manter o não. Precisamos, e a internet pode ser um contributo para isso, de nos envolver com os mais novos, de estar próximo deles, para daí emergir uma autoridade natural. Se eu estiver distante e quiser impor a autoridade de repente ou, ao contrário, se for muito permissivo e quiser impor-me, não consigo. A autoridade é um tema muito importante.

 

“Devia haver uma série de apoios intermédios, os médicos de família ou o enfermeiro do centro de saúde deviam ter formação e ajudar os pais nestas questões, que não são de psiquiatria na maioria dos casos, são de comunicação”

 

Os pais são muito sujeitos a interferências externas – legislação, escolas, psicólogos, psiquiatras, comissões de protecção – e isso traz medo e indefinição que se reflecte na educação dos filhos…

Os pais estão muito sozinhos. Em Portugal, infelizmente, não há a cultura de os pais conversarem uns com os outros, de haver grupos de pais onde se podem trocar experiências. Os pais estão sozinhos e quando precisam de ajuda vão ao psicólogo ou ao psiquiatra. Devia haver uma série de apoios intermédios; os médicos de família ou o enfermeiro do centro de saúde, por exemplo, deviam ter formação e ajudar os pais nestas questões, que não são de psiquiatria. Evidentemente que há jovens com questões psiquiátricas, mas a maioria das vezes que recorrem ao psicólogo ou ao psiquiatra fazem-no por problemas de comunicação que a internet e o telemóvel vieram tornar mais nítidos, mas que já existiam. Quando há 20 anos os jovens passavam o dia em frente da televisão, o problema era exactamente o mesmo, o exterior é que era diferente. Os pais podem estar inseguros, mas são sempre a principal influência dos filhos, está mais do que provado. E se não sabem como agir, têm de reflectir. Os miúdos não vêm com livro de instruções, mas podem, por exemplo, falar com outros pais, isso é muito interessante. Porque alguns pais são bons a orientar os filhos nos estudos e péssimos guiá-los nas saídas à noite, há pais competentes numas áreas e menos competentes noutras. E é bom trocar experiências, saber como outros fazem.

 

“O nagging persistente: não vale a pena dizer mais do que duas vezes. As coisas têm de ser ditas com voz calma e se houver uma resposta agressiva é preciso chamar a atenção sem confronto, sem tensão, o que não significa falta de firmeza”

 

No livro fala muito no nagging, o chatear constante dos pais – que, quem tem filhos adolescentes sabe, é difícil evitar. Pode explicar a sua teoria?

O nagging, o ralhar persistente. Os adolescentes são contestatários, não aceitam as coisas muito facilmente porque têm dentro deles a ideia de que têm de ser diferentes dos pais. Mas o nagging não é eficaz. O que eu digo é: diga no máximo duas vezes. Não vale a pena dizer mais do que isso, porque se diz mais do que duas vezes vai ter uma retroacção: “A mãe é chata”. E isso também é interessante acerca do telemóvel, a necessidade que os adolescentes têm de descansar agarrando-se às ditas novas tecnologias; mal chegam da escola e a primeira coisa que fazem é precipitarem-se sobre os telemóveis, faz parte da maneira de ser actual. E temos de saber esperar um bocadinho por essa descompressão antes de desatarmos a falar. As coisas têm de ser ditas sem ser de forma persistente e com voz calma e se houver uma resposta agressiva é preciso chamar a atenção sem confronto, sem tensão. Criar pontes de diálogo não significa falta de firmeza, não ser persistentes não significa não ser firme.

 

“Eu digo sempre que a família não é uma democracia. E é muito importante passar essa ideia, a certa altura é preciso decidir”

 

Falou nos direitos da criança e do jovem. Hoje podem justificar tudo, têm sempre uma palavra. Isto, com os filhos, tem de ser uma democracia?

Isso faz parte da cultura actual, os jovens têm muito poder nas famílias, têm muito poder na sala de aula. Mas eu digo sempre que a família não é uma democracia. E é muito importante passar essa ideia, a certa altura é preciso decidir. Há famílias que ficam num impasse: os filhos a justificarem-se, os pais a justificarem-se, todos numa discussão sem fim. Que normalmente termina numa zanga ou com um choro ou qualquer coisa do género. Nestas situações, é preciso dizer que não há condições para continuar a discutir, é preciso decidir. O que não significa que três dias depois não se volte ao assunto para conversar sobre a decisão. Mas os pais são normalmente muito oscilantes e deixam muitas vezes que sejam os mais novos a tomar as decisões, como se tivessem capacidade para o fazer.

 

“Uma adolescência normal é pedir tudo e ficar com aquilo que os pais dão. Cabe aos pais perceberem que os filhos estão sempre a pedir, mas que não têm de dar. E isso começa na infância.”

 

A verdade é que eles estão à espera que os pais decidam, mesmo quando parece que não…

Aconteceu com um jovem de 16 anos uma coisa que achei muito interessante… Quando há um patologia psiquiátrica é normal nas consultas os pais perguntarem-me: “Mas isso é da anorexia ou é da adolescência?” ou “Mas isso é da depressão ou é da adolescência?”, é uma pergunta que fazem muitas vezes, para saber se é daquele problema específico ou da adolescência em geral. E eu interrogo-me muito sobre o que é uma adolescência normal. E perguntei a este rapaz o que é uma adolescência normal. E ele respondeu: “É muito simples: uma adolescência normal é pedir tudo e ficar com aquilo que os pais dão”. Ou seja, quer sair à noite todos os dias, quer comprar o telemóvel topo de gama, quer carta e carro, quer dormir até tarde… Mas depois contenta-se com o que os pais lhe dão. Cabe aos pais perceberem que os filhos estão sempre a pedir, mas que não têm de dar. E isso começa na infância. Há muitos pais que dizem: “Não deu problemas nenhuns até aos 13 anos, mas entrou na adolescência e foi um drama”. Quando vemos isso, verificamos que os pais foram muito permissivos e começaram a ceder às solicitações dos miúdos muito novos. Quando fala com adolescente mais velhos, como fiz com este rapaz, percebe que é muito importante que os pais estejam numa espécie de fundo de palco, de bastidores. Os pais têm de estar ali, embora eles precisem de liberdade.

Voltando ao telemóvel como extensão do cérebro, ou seja, à privacidade. Como se controla, então, a pornografia, as conversas, as amizades? Haverá sempre segredos, mas agora estão também mais expostos.

Pode-se controlar no sentido da confiança, de questionar o que estão a fazer. Até porque vai perceber que, a certa altura, ficam embaraçados se não estiverem a fazer a coisa certa. Isto acontece mais com os rapazes, a propósito de pornografia. Os rapazes vêem muita pornografia – no meu tempo era nas revistas. Não podemos impedir isso, faz parte do desenvolvimento, de uma época. O que podemos fazer é escolher entre ignorar ou perguntar o que andam a ver e explicar. E a segunda hipótese é a atitude correcta, caso contrário deixamos na mão dos outros a explicação e o entendimento daquilo que estão a ver, que pode não ser o melhor e o mais certo. Se controlarmos em casa, eles vão para casa dos amigos. Se controlarmos os amigos, eles vão escolher outros amigos. A perspectiva é a de monitorizar, de acompanhar e não de fazer guerra, de censurar. Assim, eles falam com os pais.

Qual é, para si, o principal problema de os pais terem acesso à informação dos filhos?

O principal problema é que muitas vezes os pais não sabem o que fazer com a informação que descobrem, ficam prisioneiros. Vou dar-lhe alguns exemplos: recentemente – e isto foi exactamente assim – um pai chegou à consulta com o filho de 14 anos, a mãe caladinha, e a primeira coisa que diz é: “Vim aqui porque sou engenheiro informático e tenho um device com o qual entrei no telemóvel do meu filho e vi coisas muito estranhas”. O filho começou a ficar em pânico. “Então e aqui à frente do médico é que dizes isso?” “Sim, vi que entraste em sites pornográficos e ainda por cima homossexuais”. Foi uma coisa terrível. O pai ficou completamente embaraçado com o que viu e a solução que encontrou foi marcar uma consulta no psiquiatra. Quando, no limite, até devia ter sido em casa que devia ter dito: “Olha, entrei no teu telemóvel, vi isto e estou muito preocupado”. Mas ficou de tal maneira preso que não teve outra acção. Outro caso também interessante e que estou a seguir, um rapaz que tem uma depressão, os pais começaram controlar os encontros dele e pediram para falar comigo. E eu cometi o erro de falar com os pais sem ser na presença do miúdo. O que aconteceu foi: ele anda com encontros com raparigas fáceis e isto está a fazer-lhe muito mal, o que vamos fazer? Obtiveram esta informação no telemóvel, ficaram muito chocados e agora? Tive de reunir todos, falar dos encontros dele, etc. Mas isso era uma conversa que podiam ter tido em casa, uma conversa banal entre um rapaz de 16 anos e os pais: com quem é que tu andas, quem são os teus amigos, com quem sais? Voltamos ao ponto de partida, o telemóvel pode ser um elemento para criar proximidade em vez de criar distância.

E se os pais não conseguem falar com os filhos, como fazer?

Têm de promover a conversa. Pode ser um avô, pode ser um tio, um mediador entre pais e filhos. Até um técnico, o tal de que falava, o enfermeiro. Não é preciso que seja logo um psiquiatra, porque isso dá logo a conotação da patologia mental que, em muitos casos, não existe.

Fez parte do grupo inicial que estudou a implementação da educação sexual nas escolas…

Sabe há quantos anos?

Em 2009, não foi?

Sim.

Mas não correu muito bem, correu? Hoje mal se fala no assunto.

Entre 2005 e 2009 correu muito bem. Trabalhámos com as escolas, formámos muitos grupos de professores e a educação sexual ficou integrada na educação para a saúde. Na altura fomos contra uma disciplina única, quando podíamos aproveitar a oportunidade para falar de outros temas muito importantes, como a alimentação e a actividade física, porque havia (e há) muitos alunos com excesso de peso, e portanto uma das alíneas passava pela exercício físico, a segunda era as drogas, a terceira era a educação sexual e a quarta era a violência no namoro. Ao mesmo tempo que se fez este trabalho, formaram-se centenas de professores que trabalhavam a educação para a saúde e que podiam ser os mediadores dessas áreas temáticas nas escolas. Representou um esforço grande e que correu muito bem, a lei foi aprovada na Assembleia da República. O que aconteceu depois é que houve um desinvestimento, deixou de haver um carácter obrigatório e passou a ser opcional. Algumas escolas continuam a trabalhar o tema, mas a nível geral este movimento perdeu força. Seria preciso vir dizer: ficam consagradas por ano tantas horas para a educação sexual, tantas horas para o álcool e drogas, tantas horas para a violência no namoro. Uma formação obrigatória. Agora existe a educação para a cidadania, mas o programa for dizer que devem ser bons cidadãos…

Hoje rapazes e raparigas parecem não se entender. Falo já do final da adolescência e idade adulta: elas dizem que eles só pensam no ginásio e no corpo, eles dizem que elas querem super-homens é só pensam na carreira. Há uma explicação?

Guerra de sexos. Isso tem de ser conquistado na adolescência. É uma questão de educação, tudo isso tem de ser trabalhado na adolescência, no início da adolescência. É quando conhecem o seu próprio corpo e começam a interagir com o sexo oposto – ou com o mesmo sexo se forem homossexuais. É uma fase importantíssima. Para, por exemplo, introduzir o tema do respeito, da ética relacional. Até que ponto é que eu posso pôr mensagens no telemóvel contra uma menina gorda da escola? Um grupo de WhatsApp a dizer mal de uma menina gorda? Evidente que ela ficou em silêncio, até que um deles disse que queria sair do grupo. Isso gerou uma discussão. É sobre estas coisas que os pais e a escola se devem pronunciar. Como é que tu vais respeitar as pessoas que convivem contigo. Ok, é gorda. E então? O rapaz é homossexual? É tudo muito natural, mas os homossexuais sofrem horrores na escola, muitas vezes através de cyberbullying. Se não for assim logo na infância, chegam à idade adulta disfuncionais, não reflectiram sobre isso.

Essa é outra questão. Vivemos na era do politicamente correcto, uma certa carneirada. Queremos que os miúdos aceitem conceitos à força, a diferença só porque sim, sem reflectir, sem debater, sem deixar sentir…

O respeito é importante… Eu faço terapia de casal e, de facto, é sempre o mesmo problema: a disputa do casal em que no frigorífico devia haver uma prateleira para ela e uma prateleira para ele. Simbólico, isto. A apropriação do espaço. O espaço masculino, para os iogurtes dele, as coisas que ele gosta. Quando havia uma mudança, havia uma guerra. Isto é a igualdade levada ao extremo. As pessoas são diferentes. Os homens gostam de sair com os seus amigos e as mulheres gostam de sair com as suas amigas. Há casais que têm extrema dificuldade em aceitar isto. É levada a coisa ao extremo, têm de fazer tudo em conjunto. Não é assim.

 

Artigo de Isabel Tavares para SAPO24, em 21 de maio de 2018.

Redes sociais imitam estratégias de casas de jogos para criar dependência psicológica

Maio 22, 2018 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia da Visão de 9 de maio de 2018.

As técnicas utilizadas pelos casinos e outras empresas de jogos de azar estão a ser copiadas pelas redes sociais. O objetivo é criar dependência psicológica nos utilizadores.

As redes sociais podem ser tão viciantes como os jogos dos casinos, e ativam no cérebro dos utilizadores mecanismos parecidos aos que são provocados pelo efeito da cocaína. Quem o diz são especialistas de várias áreas, que afirmam que os utilizadores podem chegar a ouvir sons relacionados com os smartphones que, muitas vezes, não são reais. “Essas ‘chamadas fantasma’ e notificações estão ligadas ao nosso desejo psicológico de recebermos esses sinais”, explica, ao The Guardian, Daniel Kruger, especialista em comportamento humano e professor na Universidade de Michigan, EUA.

“Empresas como o Facebook usam métodos parecidos aos da indústria do jogo para manter os utilizadores nas suas plataformas”, afirma Natasha Schüll, autora do livro Addiction by Design: Machine Gambling in Las Vegas, publicado em 2012, onde explica, por exemplo, como as máquinas automáticas dos casinos, as conhecidas slot machines, são pensadas de forma detalhada para viciar os jogadores.

Segundo a escritora, no mundo online, o objetivo é manter a “atenção contínua do utilizador”, através de cliques e do tempo passado nas plataformas: se a pessoa começa a perder o interesse, por exemplo, pelo que se passa no Facebook, vai ser, automaticamente, bombardeada por mensagens subtis ou ofertas para que o seu foco volte a ser a rede social.

O mecanismo cerebral das pessoas quando atualizam o feed do Facebook ou do Instagram é, na opinião de Tristan Harris, ex-especialista em Ética da Google, “irritantemente” semelhante àquele que é desencadeado pelas slot machines: quando puxam a alavanca da máquina, as pessoas podem ter direito a mais uma partida, receber um prémio monetário, ou nada. A verdade é que nunca se sabe o que vai acontecer, se vai haver alguma recompensa ou não, da mesma forma que, nas redes sociais não se sabe se se vai encontrar algum conteúdo interessante. “Mas isso é, precisamente, aquilo que nos faz voltar a atualizar os nossos feeds”, refere Tristan Harris.

Também Mark Griffiths, diretor da Unidade Internacional de Pesquisa de Jogos da Universidade de Nottingham Trent, diz que a recompensa é a chave que prende os utilizadores às redes sociais. “As redes sociais estão repletas de recompensas imprevisíveis, para chamar a atenção dos utilizadores e fazer com que eles criem a rotina de irem constantemente ver os seus perfis”. afirma.

Tal como o gambling, que afeta a estrutura do cérebro e que, por isso, torna as pessoas mais suscetíveis a sofrerem de ansiedade e depressão, as redes sociais também têm sido relacionadas com comportamentos depressivos e, por isso, o seu potencial para provocar um impacto psicológico negativo nos utilizadores não deve ser desvalorizado. “Temos de começar a perceber os custos que o tempo passado nas redes sociais acarreta, porque afeta-nos financeiramente, fisicamente e emocionalmente”, defende Natasha Schüll.

Mas, apesar de toda a polémica em torno das violações da privacidade no Facebook durante o início deste ano, a verdade é que o número de utilizadores desta rede social aumentou 14% em relação ao ano passado e o lucro aumentou 49%, quando comparado com o do mesmo trimestre de 2017.

 

OCDE: 80% dos jovens portugueses dizem “sentir-se mal” quando não estão na Internet

Maio 20, 2018 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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thumbs web sapo io

Notícia do Sapo24 de 7 de maio de 2018.

Oito em cada dez adolescentes portugueses dizem “sentir-se mal” se não estiverem ligados à internet, uma percentagem só superada pelos franceses e suecos, segundo dados da OCDE sobre 31 países.

“Entre os países da OCDE tem havido um aumento do tempo que os estudantes passam online depois de um dia típico de aulas”, sublinha o estudo agora divulgado que aponta Portugal como tendo um “elevado número de jovens de 15 anos que reportam sentir-se mal se não estiverem ligados à Internet”.

Entre os rapazes a percentagem é de 79,4% e entre as raparigas é de 79,2%, segundo os dados relativos a 2015, que revelam que as adolescentes portuguesas são as que mais se ressentem, já que a percentagem de francesas e suecas é um pouco menor.

Entre os rapazes, mais de 80% dos suecos e dos franceses ressentem-se quando não estão online. No final da lista dos 31 países, surgem os jovens alemães, estónios e eslovacos, que rondam os 40%.

A média dos países da OCDE analisados ronda os 55%, com as raparigas a queixarem-se um pouco mais, segundo os dados do relatório que analisa a aplicação do Programa de Autonomia e Flexibilidade e Curricular (PAFC), que começou a ser aplicado em Portugal este ano letivo.

O relatório mostra também que os jovens passam cada vez mais tempo ligados, quando se comparam os dados de 2012 e 2015: Os jovens portugueses estavam ligados cerca de 100 minutos e passaram a estar cerca de 140 minutos, ficando abaixo da média da OCDE e em 9.º lugar dos que menos tempo passam ligados.

O relatório aponta ainda o aumento de alunos estrangeiros e lembra a importância da criação do “Perfil do Aluno”, que define o perfil que os estudantes devem alcançar até ao final da escolaridade obrigatória (12.º ano).

O relatório considera que o PAFC “realiza muitos objetivos práticos que estão ligados aos objetivos estabelecidos pelo perfil do aluno”, dando como exemplo o facto de o PAFC dar autonomia pedagógica às escolas que assim “podem projetar experiências de aprendizagem que estejam alinhadas com os objetivos do perfil do aluno”.

“Por exemplo, as escolas podem direcionar lições e práticas para falantes de português não nativos ou para estudantes em risco de abandono. Assim, o projeto aborda os principais objetivos da política, como equidade e retenção. Por se tratar de uma reforma ampla que está aberta a todas as escolas, também se empenha em apoiar a aprendizagem de alta qualidade para todos – não apenas as elites”, sublinha o relatório, que lembra que uma equipa da OCDE visitou as escolas envolvidas neste projeto.

O estudo recorda algumas das medidas que têm sido aplicadas pelo Ministério da Educação, como o programa nacional de promoção do sucesso escolar, a estratégia nacional para a cidadania ou o fim dos exames nacionais do 4.º e 6.º anos.

 

 

 

Conferência “Há tecnologia a mais na vida dos nossos filhos?” 5 maio no ISCTE

Maio 2, 2018 às 9:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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mais informações no link:

https://www.facebook.com/events/202454583689992/

 

Aula Aberta “Escolas ONLINE: Utilização saudável das tecnologias e da Internet no contexto educativo” – 9 de maio na Póvoa de Santo Adrião

Abril 30, 2018 às 4:38 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Apesar da entrada ser livre, é sujeita à lotação do espaço, pelo que é necessária inscrição prévia através dos seguintes contactos:

Câmara Municipal de Odivelas – Gabinete de Saúde, Igualdade  e Cidadania

Plano Estratégico Concelhio de Prevenção das Toxicodependências (PECPT)

Tel.: 219 320 970 | e-mail: gsi@cm-odivelas.pt (ou, em alternativa, pedro.fernandes@cm-odivelas.pt e/ou  sandra.silva@cm-odivelas.pt)

 

Como lidar com esta nova geração “dependente” da tecnologia

Abril 23, 2018 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia da http://visao.sapo.pt/ de 8 de abril de 2018.

CLARA SOARES

Jornalista e Psicóloga

Duas psicólogas, especialistas em perturbações que afetam os adolescentes, falam das pressões excessivas e dos exageros da vida virtual. Não é à toa que a Organização Mundial de Saúde acabou de incluir o “vício de videojogos” na sua lista de doenças do foro psiquiátrico.

IVONE PATRÃO

A investigadora do ISPA – Instituto Universitário de Psicologia Aplicada e autora do livro Geração Cordão defende que os adultos devem falar com as crianças desde cedo sobre 
o uso da tecnologia

Os adolescentes passam demasiado tempo online ao ponto de isso lhes alterar o humor?

Há dez anos, comecei a receber na clínica jovens com indicação de comportamentos agressivos e alterações do sono, mas que nada tinham que ver com perturbação de hiperatividade e défice de atenção. Estavam ligados à dependência online. 
A dependência da tecnologia compromete a alimentação, o sono, o rendimento escolar, as relações com os outros. Numa pesquisa que fizemos com meio milhão de adolescentes que usa smartphone, 14% deles tiveram a cotação máxima em dependência da internet.

A vida virtual e o multitasking afetam o funcionamento 
do cérebro juvenil? 
Há diferenças de género?

Quem já tem outros fatores de risco para sintomas ansiosos e depressivos fica mais vulnerável. 
Os estudos na área da neurobiologia, com recurso a ressonâncias magnéticas, mostram que são ativadas as mesmas zonas cerebrais (da recompensa) nos utilizadores da internet e de videojogos. O excesso 
do seu uso limita o desenvolvimento 
e o treino das competências sociais 
e da autonomia. Uma investigação com 2 220 jovens, entre os 12 e os 30 anos, permitiu perceber que os rapazes tendem a ligar-se mais aos videojogos 
e as raparigas às redes sociais.

Os miúdos aprendem por imitação e seguem o modelo dos pais. Estes estão à altura?

Os jovens, com legitimidade, perguntam: “Então o meu pai não me deixa estar na internet e, à uma da manhã, põe um post no Facebook?” Chegam aos 16 anos sem nunca terem conversado sobre isto com os pais ou recebem respostas vagas como “podes estar, mas só um bocadinho” ou “já estás nisso há tempo demais”. 
Não são exemplos a seguir.

Os jovens podem ficar deprimidos pelo medo da comparação social 
na vida real. Como se lida com isto na vida virtual?

A pressão do grupo sempre existiu. 
A vida online amplia essa pressão, eles ficam 24 horas ligados, sem parar 
para refletir, como acontecia antes. Deixaram de ter time out. Assumo que a sintomatologia ansiosa e depressiva tem que ver com esta sobrecarga. Aconselho os pais a promoverem momentos de encontro. Definam regras, como o não usar ao jantar, sem exceções, seja o jogo ou o email de trabalho a enviar. Mas falem uns com os outros!

TERESA LOBATO FARIA

A especialista lembra que os jovens precisam de se sentirem compreendidos e aceites pelos adultos, sem pressões excessivas nem julgamentos. E deixa pistas para os pais e os professores
Porque se agravam 
os sintomas ansiosos e depressivos 
na adolescência?

Essa é a altura da vida em que os jovens começam a questionar e a tomar decisões, a imitar o que fazem os amigos. 
É também nessa altura que surgem atitudes de isolamento ou de rebeldia. Há também a questão genética, o bullying, a rejeição do grupo e o stress crónico nas famílias. O imediatismo social dominante limita a capacidade de esperar e de resistir à frustração. 
A ansiedade vem antes da depressão 
e é um fator de risco para esta.

O que faz com que haja jovens que se sintam menos bem na escola, chegando mesmo a vomitar?

Vomitar pode traduzir uma fobia escolar ligada à angústia da separação ou ao excesso de exigência e à pressão para o sucesso. Muitas vezes, os adultos exigem em vez de ajudarem. Por exemplo, quando divulgam nas redes sociais o facto de o filho estar no quadro de honra… A intenção até pode ser boa, mas a comparação social cria sensações de incapacidade.

A adolescência não é uma doença. 
Há alguma coisa que está 
a escapar aos adultos?

O pior que se pode dizer a um adolescente aflito é: “Tu sabes, tu consegues.” Isto agrava o problema, conduz a estados de desistência e de falta de esperança. Outros erros comuns: numa turma, castigar os malcomportados sem ter a sensibilidade de avaliar o impacto que isso tem sobre os perfeccionistas, que vão para as aulas com uma ansiedade horrível; pais que ficam ofendidos se os jovens preferem programas com amigos às saídas com eles.

Que fatores contribuem 
para uma adolescência tranquila?

A partilha familiar, que é um fator protetor por excelência, mas existe pouco, 
e ter abertura para aceitar os deslizes e a experimentação dos miúdos. Imagine que o vê a fumar – mas é fumador, está em risco ou só a experimentar? Os pais também não devem ficar sentidos perante os primeiros sinais de autonomia dos filhos, o que é saudável. Quando os vossos filhos se queixam, levem-nos a sério. Evitem que meros mal-entendidos se tornem conflitos enormes. Saibam ouvir e respeitar para que eles não se sintam incompreendidos e cresçam com chão e esperança.

 

 

 

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