Literacia digital dos alunos portugueses é boa, mas o que aprendem sozinhos não chega

Novembro 8, 2019 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia e foto do Expresso de 5 de novembro de 2019.

Portugal fica acima da média quanto ao conhecimento que os jovens de 13 e 14 anos têm sobre computadores. Só que não basta serem “nativos digitais”, conclui estudo internacional. É preciso ensiná-los e as escolas têm um papel importante a desempenhar.

Mesmo que as crianças comecem a usar telemóveis e computadores como se ninguém nunca as tivesse ensinado, isso não significa que consigam aprender sozinhas tudo o que é necessário para lidar com o mundo digital. E ainda que os alunos portugueses de 13 e 14 anos tenham um nível de literacia digital acima da média de outros países europeus, é preciso ensinar-lhes mais, conclui um estudo internacional sobre literacia digital de alunos de 8.º ano (ICILS), promovido pela IEA (International Association for the Evaluation of Educational Achievement) e divulgado esta terça-feira.

“O estudo mostra que dar aos estudantes e aos professores acesso a equipamentos tecnológicos não resulta automaticamente no desenvolvimento de aptidões de literacia digital sofisticada. Os estudantes precisam de ser ensinados a usar os computadores de forma eficiente e os professores precisam de ser apoiados para usar tecnologias no ensino”, conclui a IEA, associação responsável por este e outros estudos internacionais como o TIMMS (sobre o desempenho escolar a Matemática e Ciências).

Com base num inquérito feito a 46 mil estudantes do 8.º ano de escolaridade e 26 mil professores, em 14 países, entre os quais Portugal, o ICILS 2018 quis perceber se os alunos de hoje estão preparados para estudar, trabalhar e viver num mundo digital.

Avaliar as fontes de informação a que recorrem ou a força de segurança de uma password, construir um website ou criar uma base de dados são algumas das questões colocadas. E os estudantes portugueses ficam acima da média de outros países europeus em muitas destas perguntas. A maioria consegue editar fotografias (82%), um em cada três sabe criar uma base de dados e construir um website, quase todos escrevem textos no computador para trabalhos escolares (92%) e três em cada quatro (73%) conseguem avaliar a qualidade da informação que consultam na Internet.

Portugal fica acima dos estudantes com as mesmas idades em França, Itália ou Luxemburgo, mas abaixo do nível de literacia dos alunos de 8.º ano na Dinamarca ou Finlândia. Apenas 7% dos portugueses têm um nível de conhecimento digital insuficiente, mais que os 3% na Dinamarca, mas menos que os 18% de média nos restantes países. Um quinto (20%) dos alunos portugueses tem um nível de literacia autónomo ou avançado, mais baixo do que os 39% na Dinamarca e os 30% na Finlândia.

Contexto económico da família influencia

“Maior do que a diferença nos níveis de literacia digital entre países é a desigualdade desse conhecimento dentro de cada país”, alerta ao Expresso Dirk Hastedt, diretor executivo da IEA. E uma das variáveis que contribuem para essas desigualdades é o nível económico das famílias, medido neste estudo através profissões dos pais, a sua formação académica e a quantidade de livros existente em casa.

“Há uma enorme relação entre um melhor contexto socioeconómico e uma maior literacia digital”, afirma o responsável. Ou seja, quando os pais têm maior capacidade financeira, os filhos tendem a ter conhecimentos tecnológicos mais avançados e autónomos, derivados em parte de um maior acesso a tecnologia.

“Em Portugal, essa relação até é bastante menor do que a média dos outros países”, conclui Dirk Hastedt. O que também se distingue em Portugal é o facto de não haver muita diferença no nível de literacia entre os alunos com pais imigrantes, ao contrário do que tende a acontecer noutros países.

A “grande responsabilidade” das escolas

É o papel das escolas e dos professores que está em causa, sublinha Dirk Hastedt. Três em cada quatro estudantes (74%) dos países inquiridos – cerca de 80% em Portugal – admitem ter sido na escola que aprenderam a procurar informação na Internet. “Isso significa que 26% dos alunos não adquiriram esses conhecimentos na escola. Ou foi com os pais em casa ou nem sequer aprenderam.”

Às escolas cabe, por isso, uma “grande responsabilidade”, acrescenta Hastedt. “Perante um contexto socioeconómico desigual dos alunos, é à escola que cabe esse papel de elemento moderador do efeito da diferença”. Por isso, é importante assegurar que os professores se sentem “mais confiantes” em ensinar os alunos a lidar com a tecnologia. “É preciso dar mais atenção a esta questão porque hoje os professores, sobretudo acima dos 40 anos de idade, não estão confortáveis com isso. É preciso pôr fim à ideia de que os alunos sabem sempre mais do que eles no que diz respeito à tecnologia.”

Uma variável que agrava o problema é o envelhecimento dos docentes, o que faz com que a maioria se sinta ainda mais distante do mundo digital. “Esse é um problema não só de Portugal, mas de muitos outros países”, reconhece o diretor executivo da IEA. “É essencial ensinar estas competências aos jovens nas escolas e garantir que os seus professores estão bem apoiados para transmitir este alicerce da educação moderna.”

Mais informações no link:

https://www.iea.nl/news-events/events/release-icils-2018-results

“Ver por Dentro…” O impacto das perturbações do desenvolvimento e comportamento no sucesso escolar – 25 outubro em Estarreja

Outubro 19, 2019 às 9:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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mais informações no link:

https://www.cm-estarreja.pt/noticias/8078?fbclid=IwAR2mNtPp8raeE5eB18KveskEtg4zF-GWNhimnEryI8fr8H4SVpfCKoZbhb8

As Crianças e o uso da Internet, Redes Sociais, Videojogos, Smartphones, Tablets, etc no Reino Unido

Outubro 8, 2019 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Imagem retirada daqui

Até 67% das crianças, entre os 0 e os 3 anos, utilizam novas tecnologias

Setembro 30, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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© iStock

Notícia e imagem do Notícias ao Minuto de 23 de Setembro de 2019.

por Liliana Lopes Monteiro

Alertas para a urgência de refletir sobre os potenciais riscos do consumo excessivo das tecnologias por parte das crianças e dos jovens, no dia 1 de outubro – adolescentes, pais, professores e médicos juntam-se, no Auditório do Centro do Conhecimento do Hospital CUF Descobertas, para discutir a questão: ‘Internet a mais, convívio a menos?’.

“Os jovens de hoje vivem num contexto nunca antes visto. A internet, redes sociais e mundo digital têm uma presença constante e imediata que veio revolucionar a vida de todos nós – a forma como comunicamos, como socializamos, como trabalhamos e como estudamos. Mas, no caso das gerações mais jovens, influencia também a forma como crescem” contextualiza Hugo Faria, pediatra no Hospital CUF Descobertas, que irá participar no Evento.

Os benefícios e vantagens das novas tecnologias são vários, mas trazem também riscos que não conhecemos ainda na totalidade.  “Que impacto tem o consumo das tecnologias em excesso no desenvolvimento – quando sabemos que 90% das crianças e adolescentes acedem às novas tecnologias e que 69% utiliza as novas tecnologias por mais de uma hora e meia, por dia; e, em particular, olhando para os dados sobre crianças com  idades entre os 0 e os 3 anos, onde sabemos que 67% utiliza novas tecnologia? – incita Hugo Faria para o debate, recordado resultados do Estudo de caracterização dos hábitos de utilização das novas tecnologias por crianças e jovens dos 0 aos 18 anos de idade, em que participou recentemente no Centro da Criança e do Adolescente do Hospital CUF Descobertas,  contando com respostas de 412 cuidadores.

É durante os primeiros anos de vida que através de interações presentes e da estimulação sensorial se estruturam áreas muito importantes como a emoção, a cognição, a motricidade e a linguagem. Para Hugo Faria “interessa discutir e sensibilizar as pessoas para o que acontece quando estas interações são substituídas por tempo passado em frente aos ecrãs”.

A Conferência ‘Internet a mais, convívio a menos’ tem entrada gratuita, colocando a discussão aberta a toda a comunidade.

Internet a mais, convívio a menos? conferência em Lisboa, 1 de outubro

Setembro 26, 2019 às 9:18 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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mais informações no link:

https://www.saudecuf.pt/cuf/eventos/internet-a-mais-convivio-a-menos

Dez anos depois do Magalhães, faltam computadores e internet nas escolas

Setembro 22, 2019 às 1:00 pm | Publicado em Relatório | Deixe um comentário
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DN

Notícia e imagem do Diário de Notícias de 5 de agosto de 2019.

Catarina Reis

No ano em que o Magalhães entrou nas escolas, havia um rácio de um aluno por computador no 1.º ciclo, mas agora são quase sete alunos por computador. Diretores alertam que cenário atual atrasa a aprendizagem dos alunos.

Corria o mês de julho de 2008 quando o então primeiro-ministro José Sócrates anunciou a distribuição de 500 mil computadores, fabricados em Portugal, para os alunos do 1.º ciclo. Ficaria conhecido como Magalhães, um portátil de pequenas dimensões – à medida dos mais novos – azul, branco e cinzento, à prova de choque e de líquidos. Gratuito para os estudantes no primeiro escalão de ação social escolar e com um valor máximo de 50 euros para os restantes. Mas, cerca de dez anos depois, a ideia de ter salas de aula mais tecnológicas continua a parecer apenas uma miragem. De acordo com o relatório “Educação em Números 2019”, da Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC), no ano em que o Magalhães tomou de assalto as escolas havia um aluno por computador no 1.º ciclo, mas agora há cerca de sete. E não só faltam computadores, como os que existem estão obsoletos e a interneté limitada. Diretores consideram que o cenário atual está a atrasar os sistemas de aprendizagem.

Antes da era Magalhães, os números eram ainda mais altos. Segundo o documento, havia em 2001-2002 uma média de 26,7 alunos deste ciclo, no ensino público, por computador. Foi descendo até 2008 e entre este ano e 2010 foram atingidos os valores mais baixos de sempre. Mas desde então que tem sofrido um aumento significativo, situando-se nos 6,6 em 2017-2018.

© Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC) – Relatório “Educação em Números 2019”

Já na tabela relativamente ao número médio de alunos por computador com ligação à internet, o valor sobe ligeiramente para os 7,4 – sendo em 2016-2017 ainda mais alto, de 7,7.

Escolas paradas no tempo

As escolas parecem ter parado no tempo. “O nosso parque informático já tem dez anos e é um problema muito complicado das escolas portuguesas”, lembrava o diretor do agrupamento de escolas de Cinfães e presidente da Associação Nacional de Dirigentes Escolares (ANDE), em 2018. Um ano depois, a situação mantém-se.

Ainda neste ano, a Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas (ANDAEP) correu as escolas do país, de norte a sul, para fazer um registo das maiores dificuldades encontradas pelos diretores no processo de ensino e aprendizagem. “Este foi um dos temas mais focados. É uma queixa generalizada”, conta o presidente da associação, Filinto Lima.

Os computadores existentes “estão obsoletos, por isso, os recursos devem ser novos e mais”, diz. “Não é preciso haver um computador por aluno, mas mais”. Dotar as escolas de material informático deve ser “uma prioridade” do Ministério para aumentar a qualidade de aprendizagem dos alunos”, sublinha.

Até porque provas não faltam de que os estudantes podem aprender melhor com o auxílio da tecnologia. Depois de lançar o projeto Tablets no Ensino e na Aprendizagem (TEA) em várias escolas, de 2014 a 2016, a Fundação Calouste Gulbenkian concluiu que os alunos que estudaram com o equipamento registaram um sucesso escolar de quase 100%. A investigação mostrou que os alunos participantes na experiência “foram todos aprovados, à exceção de um, tendo sido calculada uma taxa global, para estes alunos participantes, de sucesso escolar muito próxima dos 100%”. O programa envolveu no início do primeiro ano um total de 51 alunos e 18 professores, e no segundo 44 alunos e 15 professores.

Mesmo desvinculadas destas iniciativas, há escolas que optaram por modelos de aprendizagem quase inteiramente tecnológicos, trocando os manuais nas mochilas por tablets, através de financiamento local. É exemplo disso a Escola Básica da Ponte, em Santo Tirso, o mais antigo exemplo de autonomia pedagógica na rede pública, onde os livros são vistos apenas como material de consulta.

“Os professores cada vez mais recorrem às novas tecnologias para lecionar, mas a rede de internet falha muito nas escolas.”

Um exemplo que outros estabelecimentos de ensino gostariam de seguir, embora não tenham autonomia material e financeira para o fazer. Mas a solução não passa apenas por investir em mais computadores, adianta o dirigente da ANDAEP. A rede de internet é outra das dificuldades à permeabilidade da tecnologia nas escolas. “Os professores cada vez mais recorrem às novas tecnologias para lecionar, mas a rede de internet falha muito nas escolas”, diz. “Quando um docente programa as suas aulas, tem de programar com um plano B, porque já conta que a rede vá falhar.”

De acordo com um estudo de diagnóstico sobre a modernização tecnológica do ensino em Portugal, de 2008, do Ministério da Educação, a avaliação do grau de modernização tecnológica nas escolas prende-se fundamentalmente em três fatores: acesso, competências e motivação. O primeiro é referente à quantidade de equipamento nas escolas, bem como a existência de internet. O segundo à utilização destes recursos. E o terceiro à “atitude positiva face à utilização e os seus benefícios para o ensino”, pode ler-se. O mesmo documento concluía que “as principais barreiras à modernização tecnológica no país” são as “insuficiências no acesso (equipamentos e internet)”, mas também as “qualificações e competências”.

Questionado pelo DN, o gabinete do ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues, recorda que procedeu, em abril deste ano, “ao reforço da Rede Alargada da Educação, uma das maiores redes no que respeita à simultaneidade de utilizadores”. A iniciativa, escrevem, “garante a ligação de cerca de cinco mil escolas”, com “uma média diária de 1.4 milhões de dispositivos” a funcionar em simultâneo.

“Os docentes não usavam [o Magalhães] e as crianças usavam nas suas casas para jogar, em vez de recorrerem ao portátil para os fins para os quais foi destinado.”

Magalhães “falhou o seu propósito”

Em 2009, milhares de crianças abriam pela primeira vez o seu portátil Magalhães, José Sócrates percorria algumas escolas do país para presenciar o momento e as salas de aula portuguesas assistiam à entrada de ferramentas tecnológicas como não havia memória. Portugal era notícia e pioneiro no mundo. Mas o projeto acabaria por ser visto mais como um fracasso do que um caso de sucesso. Em parte, explica o presidente da ANDAEP, porque foi a desculpa para “uma grande propaganda política”. Por outro lado, porque “chegou como uma imposição” às escolas.

“Os professores não pediram tecnologia nas escolas e não houve um período [anterior] de sensibilização” para o uso dos portáteis que iriam ser distribuídos pelos alunos, lembra Filinto Lima. O resultado ficou a olho nu: um estudo de 2014 da Universidade Portucalense revelava que 89,1% dos professores e 86% dos estudantes disseram que nunca ou raramente recorriam ao computador nas salas de aula.

O Magalhães “falhou o seu propósito”, reitera o dirigente. “Os docentes não usavam e as crianças usavam nas suas casas para jogar, em vez de recorrerem ao portátil para os fins para os quais foi destinado.”

O relatório citado na notícia é o seguinte:

Educação em números : Portugal 2019 , Pág. 91-96

Pais preocupados com ideias extremistas da internet. Como proteger as crianças?

Setembro 17, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto e imagem do site MAGG de 20 de agosto de 2019.

por Rafaela Simões

Os pais têm medo de que os filhos se tornem em supremacistas brancos de direita. A solução começa em casa: educar sobre a internet.

A semana passada, 13 de agosto, uma escritora, critica dos media e mãe de três filhos escreveu um tweet que se tornou viral. Joanna Schroeder mostrou preocupação com o facto de os adolescentes estarem expostos a conteúdos extremistas online e o potencial de influência que isso pode ter nos seus comportamentos. Falamos aqui de adolescentes associados a um padrão: são jovens, brancos e do sexo masculino.

Esta preocupação adensa-se com os últimos acontecimentos: a 28 de julho, um ataque de um adolescente que matou três pessoas num festival de comida, em Gilroy, na Califórnia. Apenas seis dias depois, acontece um outro episódio, classificado como um dos tiroteios em massa mais violentos dos Estados Unidos. Aconteceu a 8 de agosto no supermercado Walmart, em El Paso, no Texas, e provocou mais de 20 mortos. O jovem branco de 21 anos terá agido por ódio, já que antes de entrar no supermercado publicou na internet um manifesto anti-imigração, que entre as quatro páginas explicava o objetivo: matar o maior número de pessoas que encontrasse.

Perante esta série de acontecimentos sucessivos, os pais e professores estão mais alerta e tentam perceber o que está a acontecer com a geração do digital. Já os jovens, não sentem que este seja um problema generalizado. “Sou um adolescente branco que passa a maior parte do meu tempo aqui. No YouTube, no Twitter, nos jogos, apenas por entretenimento. Tenho ideias conservadoras porque eu penso que são lógicas e são o caminho certo. Não porque alguma figura da internet está a fazer-me uma lavagem cerebral para uma fantasia de ‘supremacia branca’”, responde um adolescente ao tweet de Schroeder que tem mais de 80 mil retweets e quase 180 mil gostos.

A mãe disse ao jornal “BBC” que a sua preocupação começou quando há cerca de um ano os seus filhos começaram a fazer perguntas que pareciam ter vindo de discursos de alta direita. Questionaram porque é que os negros podiam “copiar a cultura branca, mas os brancos não podiam copiar a cultura negra”. O alerta foi acionado aqui, e depois de pesquisar percebeu que os adolescentes partilhavam entre si conteúdos como memes machistas e racistas (que aparentemente seriam inofensivos).

Alguns especialistas referem que os algoritmos nas plataformas online podem estar a alimentar a expansão de pontos de vista extremistas e de conspirações, que afetam também os adultos, mas os jovens continuam a ser o principal foco de preocupação, pelo facto de serem mais vulneráveis e de ainda estarem a desenvolver o sentido critico. E o algoritmo é uma das razões que leva Joanna Schroeder a preocupar-se, já que assistir, por exemplo, a um vídeo com conteúdos influenciáveis pode ser o inicio do problema: “É provável que seja conteúdo cuidadosamente criado para atrair os jovens rapazes. Depois de assistir a um desses, os próximos vídeos podem ficar cada vez mais extremistas”.

Tudo começa em casa

“Devíamos estar a ensinar o pensamento crítico e a empatia. Não devíamos ensinar às crianças o que pensar, mas podemos ensiná-las a ouvir as pessoas que têm um pensamento diferente delas”, refere Tom Rademacher, professor do oitavo ano em Minnesota, nos Estados Unidos, ao jornal americano.

O caminho passa pelas escolas, mas começa em casa, onde a professora de sociologia Margaret Hagerman, passou dois anos a estudar um grupo de famílias brancas ricas e a maneira como discutiam e ensinavam sobre raça. Percebeu que os pais achavam que os seus filhos eram “daltónicos” no que toca às raças e que este mesmo assunto deixava os pais desconfortáveis quando abordado entre adultos: “Se os adultos brancos não conseguem ter conversas sobre racismo na América com outros adultos brancos, eu não percebo como é que eles pensam estar preparados para ter essas conversas com crianças”.

Mas por mais que os pais pensem que esta é uma realidade distante ou que não afeta os seus filhos, não é isso que acontece se estiverem atentos. Além dos jovens viverem rodeados de pessoas de raça branca — os vizinhos e os colegas de escola — que os induz para ideias relacionadas com supremacia branca, as conversas entre eles abordam temas como raça, racismo e desigualdade. “As crianças estão a aprender sobre raça na América através de diferentes aspetos das suas vidas quotidianas”, refere a professora.

Também a sala de aula é palco de estudo de Margaret que refere que “[os jovens brancos] estão a tentar perceber onde está a linha de pensamento. Porque é que as coisas são engraçadas e porque é que são ofensivas.” Neste limbo, os jovens acabam por se sentir “como se estivessem sob ataque” pela sociedade dominante, acrescenta.

Os pais não devem temer mensagens “anti-branco”

Os pais devem funcionar como educadores ou, mais precisamente, como explicadores críticos. Ou seja, quando uma dúvida surgir no seguimento de algo que os adolescentes viram online, a professora se sociologia sugere que os pais perguntem onde é que os jovens ouviram aquela ideia para poderem ter conhecimento do contexto e explicar de forma critica aquele meme, fotografia ou comentário que lhes pareceu inofensivo.

“Os nossos filhos precisam de saber que esperamos que eles sejam bondosos, respeitosos e honestos. Não porque pensemos que eles não são assim, mas porque sabemos que eles têm uma bondade natural dentro deles”, refere. Acrescenta que seria mais fácil implantar algumas destas ideias num ano do currículo escolar para ensinar a lidar com a radicalização na internet.

Contudo, os pais temem que a ideia acabe por passar mensagens “anti-branco”. Margaret desmistifica a ideia explicando que a sua sugestão é que “a sala de aula possa ser um local onde as crianças possam explorar sem se sentirem envergonhados. Quando aplicamos vergonha num grupo, estamos a empurrá-lo para um caminho mais negativo”, conclui.

Agarrados ao YouTube

Setembro 9, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Gonçalo Delgado

Notícia do Notícias Magazine de 14 de agosto de 2019.

Estudos, psicólogos e pais constatam tendência crescente. Influenciadores seduzem com o discurso simples, muitas vezes “proibido”, e com a ilusão da fama e de uma vida faustosa. Mas o que tem de divertido e didático também pode ter de pernicioso – e o caso da “Team Strada” é só o mais recente exemplo disso. Um manual de instruções para lidar com o projeto de estrela que tem lá em casa.

Por Ana Tulha

Beijos na boca a menores, toques ostensivos no peito e nas pernas de jovens raparigas e até uma entrada repentina e prolongada pela casa de banho onde uma adolescente clama por privacidade. Tudo registado em vídeo e amplamente exposto na Internet. Estas e outras imagens arrastaram, no final da semana passada, o canal do YouTube “Team Strada” (gerido por Hugo Strada, youtuber de 36 anos) para o olho do furacão.

Depois de várias denúncias no Twitter e de uma queixa do grupo VOST Portugal – Voluntários Digitais para Situações de Emergência – à Comissão Nacional de Proteção de Crianças e Jovens, foi o próprio YouTube a fechar o canal “Team Strada”. O caso está agora nas mãos do Ministério Público, a quem competirá decidir da legalidade das práticas seguidas pelo projeto. Mas a polémica teve já o condão de despertar a atenção e a preocupação de muitos pais em relação a esta rede social.

Afinal, o que andam os nossos filhos a ver e que impacto é que isso pode ter na postura e no desenvolvimento deles? Há riscos? O que fazer quando não largam os tablets (ou os computadores ou os telemóveis) para não perderem pitada dos conteúdos divulgados pelos youtubers que gostavam de ser? Estas e outras questões andam, por estes dias, na mente de muitos pais, zelosos pelo bem-estar e são crescimento dos filhos.

E essa necessidade de saber mais só pode ser uma boa notícia. É Tito de Morais, responsável pela associação “Miúdos Seguros Na .Net”, quem o garante: “Isto serve-nos de alerta, porque andávamos todos distraídos. Para mim, o interessante [neste caso] é o alerta que fica sobre a forma como este tipo de youtubers e personalidades podem fazer grooming [aliciamento] sexual através da Internet. A ideia de que uma figura externa poder ser aquela que vai realizar os nossos sonhos é perigosa, pelo ascendente que exerce. Os miúdos têm de ter noção de que aquilo que mais desejam pode ser a maior vulnerabilidade.”

O totó, o gay, a jovem abonada

Com conta aberta desde abril de 2018, o projeto “Team Strada” foi criado por Hugo Strada, youtuber de 36 anos (também autointitulado gestor de artistas e produtor de eventos), com o objetivo de juntar jovens youtubers e criar conteúdo colaborativo. O projeto incluía uma casa partilhada, cenário de muitos dos vídeos divulgados no canal que, antes de ser encerrado, andava já perto dos 200 mil seguidores. Entre o conteúdo dos vídeos, havia partidas, desafios e atividades radicais.

E à boleia da fama cibernética, a “Team Strada” tinha já dado o salto para outros palcos, com a participação em vários eventos públicos e até parcerias com artistas e marcas. João Leal, professor de 38 anos, natural de Montemor-o-Velho, pai de duas crianças, de 11 e 6 anos, esteve recentemente num desses eventos, que decorreu no princípio de julho, na Figueira da Foz.

“Arrastado” pela filha mais velha, seguidora do grupo, João assegura ter saído de lá profundamente dececionado – e preocupado – com o que tinha acabado de ver. “Foi um espetáculo deprimente. Andavam para lá aos saltos, a tentar cantar em play-back algumas covers, e notava-se que muitos deles não estavam no seu estado normal. Pelos movimentos que faziam, pelas caras com que estavam, dava todo o ar de estarem alcoolizados ou sob o efeito de estupefacientes”, relata à Notícias Magazine, dando conta de um grupo pensado na fidelização de um público o mais abrangente possível.

“Era evidente que havia ali vários miúdos, de todos os estratos e grupos sociais. Desde o betinho ao miúdo que é mais totó, passando pelo gay, pela menina afro, pela miúda com um peito enorme, exposto de forma quase gratuita. Percebia-se que aquela organização foi pensada para que houvesse o máximo de população possível a segui-los.” João lamenta ainda que, além de apelarem aos fãs para lhes levarem uma variedade de produtos (“Coca-Colas, bolachas e outras coisas”), os elementos da “Team Strada” tenham decidido à última que não iam ficar para autógrafos, desiludindo os fãs presentes. “Tudo aquilo levou-me logo a alertar a minha filha para os comportamentos daquele grupo”, recorda João.

Pouco tempo depois, estalava a polémica: primeiro foi o humorista Pedro Teixeira da Mota a partilhar no Twitter o vídeo de um excerto da participação do grupo no programa Curto Circuito de 22 de julho, em que é possível ver Hugo Strada a beijar na boca um dos elementos do grupo (menor de idade), depois foi o youtuber João Sousa a publicar, também no Twitter, uma compilação de imagens duvidosas dos vídeos da “Team Strada” – entre as quais, as tais cenas envolvendo toques ostensivos e entradas inapropriadas em casas de banho ocupadas.

Pelo meio, até ex-elementos do grupo recorreram às redes para lançar queixas e acusações. Daí até o caso ganhar dimensão generalizada, com intervenções do Ministério Público e do próprio YouTube, foi um pequeno passo. A tudo isto, Hugo Strada respondeu com uma curta mensagem divulgada no Instagram, em que garante estar a ser alvo de comentários difamatórios e de manipulação de imagens, prometendo “encaminhar o assunto para que sejam tomadas medidas legais para repor a verdade”. A NM tentou, através do contacto telefónico que está disponível na página da “Team Strada” no Facebook, obter mais algum comentário ao caso, mas não recebeu qualquer resposta.

O sonho de ser famoso

Entretanto, as reações, dos psicólogos aos académicos, multiplicaram-se. “Acho que [o que se vê nos vídeos] é perigoso e faz com que as pessoas fiquem desconfiadas de todos os conteúdos”, admite Bárbara Romão, especialista em pedopsiquiatria desde 2008 e coordenadora de um estudo sobre o uso das redes sociais pela comunidade juvenil em São Miguel, nos Açores.

Entre as conclusões do estudo, baseado numa amostra de 547 estudantes, destaque para o facto de 51% dos inquiridos ter começado a utilizar a Internet a partir dos três anos de idade e de o YouTube ser já a rede social mais utilizada pelos jovens ouvidos neste inquérito – no seguimento de outros estudos internacionais recentes, que também têm apontado essa tendência. Habituada a ter no consultório muitas crianças e jovens que não passam sem esta rede social, Bárbara Romão, também ela mãe de um jovem de 12 anos, ajuda a explicar o fascínio exercido pelos youtubers junto dos seguidores, sobretudo entre os mais novos.

“O facto de estes youtubers serem, regra geral, jovens adultos que por um lado têm uma vida aparentemente independente, sem adultos a controlar, e por outro já aparentam ter uma vida que muitos desejam, até exibindo casas com boas condições, é algo que atrai muito os jovens”, justifica a pedopsiquiatra, que arrisca traçar um perfil-tipo dos youtubers mais conhecidos: “São carismáticos, bons comunicadores, têm o poder de conseguir que as pessoas lhes prestem atenção e utilizam muito o humor.” Como? Através de vídeos que vão desde os relatos do quotidiano às paródias, passando por críticas e dicas das mais diversas áreas.

Tito de Morais acrescenta outras explicações para o encantamento. “O facto de comungarem do mesmo tipo de interesses também é relevante. Até porque muitas vezes estes youtubers também são gamers, que jogam os mesmos jogos que eles. E depois também é o efeito manada. O desejo de pertença a um grupo que partilha do mesmo tipo de interesses faz com que os miúdos não se sintam excluídos.” E ainda há o chamariz de parte destes influenciadores exibirem vidas faustosas, que despertam em muitas crianças e jovens o sonho de se tornarem, eles próprios, youtubers.

Tito de Morais, habituado a receber contactos das mais variadas proveniências, através da página “Miúdos Seguros Na .Net”, conta que, recentemente, teve duas professoras do primeiro ciclo a partilharem a estupefação por perguntarem aos alunos o que queriam ser e três em cada quatro responderem que querem ser youtubers. E um estudo recente da Harris Poll, a mais antiga empresa de estudos de mercado dos Estados Unidos, aponta no mesmo sentido. De um inquérito preenchido por pais e crianças entre os oito e os 12 anos, dos EUA, China e Reino Unido, resultou que 29% destes jovens sonhavam, antes de mais nada, ser youtubers.

Os riscos começam aí, na ilusão de que esse “estatuto” garante uma vida desafogada – e de que é fácil chegar lá. “Há dez anos, para se ser famoso, regra geral, tinha de se passar pela televisão. Hoje em dia não. Está-se a criar o mito da fama. Há a sensação de que ao ser youtuber se pode conseguir ter uma boa vida, que dificilmente se consegue com um part-time, por exemplo. E isto do querer ser famoso pode tornar-se uma grande vulnerabilidade, possivelmente aproveitada por pessoas com más intenções”, alerta Ana Jorge, professora de Comunicação na Universidade Católica de Lisboa e autora de uma tese de doutoramento relacionada com a cultura das celebridades e os adolescentes.

A investigadora ajuda a compreender os primórdios do fenómeno. “Inicialmente, o YouTube surgiu muito como um repositório de vídeos, que já tinham circulado noutros meios. Aos poucos, foi-se tornando mais um lugar propício para alojar este lado dos produtores de conteúdo original, até pela possibilidade de monetização.” É neste contexto que, no início da década, surgem em Portugal os primeiros vloggers – bloggers que produzem conteúdos vídeo. De vloggers passaram a youtubers (e a influenciadores), associaram-se a populares campanhas de telemóveis e até se juntaram em mansões luxuosas. Tudo sementes de um fenómeno de popularidade hoje incontestável, capaz de fazer sonhar os mais jovens com o estrelato.

Sónia Sousa, mãe do youtuber João Sousa, de 18 anos (e de uma menina de nove anos que já é vidrada no YouTube), reconhece que as coisas nem sempre são assim tão simples. “Confesso que no início achei mais piada do que o que acho agora. Quando eles começam, há menos responsabilidade. Não há agentes, não há nada. É só uma distração. Depois, quando são agenciados, têm de cumprir contratos, torna-se quase uma profissão”, admite.

Sónia conta que com 10, 11 anos, o filho (que tem um canal no YouTube desde os oito) andava convencido que ia ganhar muito dinheiro à conta desta rede social, mas que agora, também com a ajuda dos pais, que sempre lhe tentaram incutir isso, “já tem outra consciência”, tanto que está a pensar avançar para uma licenciatura na área da Comunicação Social. Ainda em relação ao YouTube, o melhor para Sónia Sousa, 45 anos, é mesmo “ver o carinho dos miúdos – e mesmo dos adultos – pelo filho”.

Tomar banho para quê?

Para os mais novos, os influenciadores depressa se tornam “role-models”. Nalguns casos, a influência exercida pelos youtubers junto dos seguidores é de tal ordem que estes chegam a imitar posturas, comportamentos e expressões dos ídolos. Por vezes, até a própria língua. Quem acompanha de perto o fenómeno garante que há cada vez mais crianças e adolescentes a falarem frequentemente com sotaque brasileiro, por influência dos youtubers daquele país (bem mais populares e numerosos do que os portugueses).

“Já tive uma menina numa consulta que simplesmente se recusava a falar português sem sotaque brasileiro”, partilha a pedopsiquiatra Bárbara Romão. A replicação de comportamentos, que dependerá sempre da idade e da personalidade do jovem em causa, pode ser tanto mais preocupante quanto mais duvidosas forem a postura e a mensagem passadas por estes influenciadores. Luísa Agante, investigadora na área do marketing infantil e autora da página Agante & Kids, aponta um exemplo concreto.

“A quantidade de tempo que os miúdos passam no YouTube e a quantidade de coisas a que têm acesso é enorme e condiciona-os completamente. Por exemplo, há um youtuber brasileiro, o Lucas Neto, que costuma dizer: ‘Eu quero ser rico e ter uma casa de oiro.’ Os miúdos replicam isso. Há uns tempos, fez um vídeo em que dizia que só precisava de tomar banho uma vez por semana.

Entre os youtubers portugueses também já houve polémicas deste género. Wuant, por exemplo, foi alvo de duras críticas quando, num vídeo intitulado “soluções para os problemas”, aconselhou os jovens a mandarem as mães “para o cara…” quando os acordassem para ir para a escola. De resto, nos vídeos partilhados por este youtuber, é comum ouvirem-se palavrões aqui e ali. O registo não agrada aos pais, mas, por vezes, funciona como chamariz para os mais novos.

“Eu costumo ir às escolas fazer ações de sensibilização e já tive miúdos que me estão a falar dos youtubers que veem e depois acrescentam: ‘Mas não vá ver, que ele diz muitas asneiras.’ Ou: ‘Mas não vai contar nada disto ao meu pai, pois não?’ É uma espécie de segredo que fica entre a criança e o youtuber”, frisa Tito de Morais.

Os riscos não se esgotam na replicação de postura e palavreado menos corretos. “O maior perigo é o isolamento que se cria. O YouTube pode tornar-se algo aditivo, viciante. E há outras coisas associadas a isso. Com a exposição a um ecrã que, por vezes, em termos de conhecimento é muito pobre, os jovens acabam por perder espírito crítico e a possibilidade de ver coisas construtivas. Pode haver também um bloqueio da criatividade e um baixo tempo de permanência em tarefa. Aborrecem-se facilmente. Além de que é um elemento perturbador das dinâmicas familiares. Às vezes, só o facto de terem de ir para a mesa é uma seca porque têm de desligar as máquinas. Então, vão aborrecidos e mortinhos para voltar para o computador”, destaca a pedopsiquiatra Bárbara Romão, que refere ainda uma “crise de autoridade dos pais, que têm dificuldade em traçar limites e acham que tudo tem de ser decidido pelos filhos”.

O que fazer. E as boas notícias

Um sinal dos tempos? “O principal risco é olhar para isto como algo inócuo. Na verdade, tem tudo a ver com o tipo de vida que temos. Numa altura em que vivemos com muita pressa e com muito stress, quando os pais chegam a casa é confortável ter os miúdos distraídos com o YouTube. E, depois, os vídeos têm que ser todos tão estimulantes que acho que os nossos filhos estão a perder a capacidade de ficarem aborrecidos”, acrescenta Luís Pereira, que estuda a área da literacia digital.

O investigador, que pertence ao departamento de desenvolvimento académico da Coventry University, no Reino Unido, deixa por isso um alerta: “É importante que os pais percebam quanto tempo os filhos passam a ver estes programas. E que deem uma vista de olhos no histórico, para perceber, por exemplo, se andam a ver algum vídeo que não deviam. Há que impor limites, em termos de tempos e o dos vídeos que são vistos. E há que promover uma certa diversidade de conteúdos.”

Acompanhar é, por isso, a regra de ouro. Saber de que vídeos os filhos gostam, que canais seguem, quem são os ídolos. Sob pena de se criar uma barreira intransponível entre pais e filhos. No caso dos mais novos, cingir o acesso ao “YouTube Kids”, com conteúdos muito mais restritos, ou mesmo recorrer a software de controlo parental (ver caixa) são também soluções a ter em conta.

A investigadora Luísa Agante chama ainda a atenção para a necessidade de haver outros intervenientes no processo: “É preciso muita intermediação parental, mas professores e educadores também deviam intervir mais neste processo. Para isso, é preciso instruí-los para falarem sobre estes temas.”

Até porque também há que ter em conta o elevado potencial didático e construtivo do YouTube. “É uma fonte de conhecimento como nunca existiu na vida. Pode ser uma atividade altamente enriquecedora”, enfatiza o investigador Luís Pereira. Tito de Morais acrescenta que “uma criança que comece a produzir os seus vídeos vai ganhar conhecimentos de edição e desenvolver a criatividade, ao pensar conteúdos”.

“É preciso transformar isso num projeto familiar, para que se possa tornar educativo e para que permita desenvolver interesses pela música ou pelo desporto, por exemplo.” SirKazzio, youtuber português com mais de cinco milhões de subscritores, garante que tenta “ao máximo passar uma imagem alegre, divertida, mas respeitosa”, tentando também fazer ver aos mais jovens que, além dos vídeos, “há mais coisas que os podem entreter, como os livros ou a música”.

“Embora nem todos o façam, acho que a maioria dos youtubers tenta fazer entender às crianças que primeiro devem estudar, que não devem ser agressivos, que não devem tentar imitar alguns vídeos, entre muitas outras coisas.” Sobre o caso “Team Strada”, não teceu comentários.

A esse propósito, Ana Jorge, investigadora na Universidade Católica de Lisboa, deixa uma questão, que vai além dos utilizadores: “Como é que estes conteúdos circulam tanto tempo sem que ninguém se aperceba? As pessoas que veem este tipo de coisas devem denunciar. E o YouTube deve verificar, até porque é quem mais beneficia economicamente”.

Caso Team Strada. E agora, como é que lido com os meus filhos? Experimente começar com uma conversa

Agosto 21, 2019 às 6:00 am | Publicado em O IAC na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do site Sapo24 de 29 de julho de 2019.

Margarida Alpuim

As notícias da semana passada sobre a Team Strada e o fascínio pelo mundo dos youtubers e influencers voltou a chamar a atenção para os riscos dos comportamentos online desregrados. Numa sociedade em que nascemos “com o nariz colado ao ecrã”, duas psicólogas sugerem estratégias para que os pais possam ajudar os filhos a fazer uma utilização segura da Internet. As conversas sem julgamento de valor criam espaço para fazer perguntas, partilhar angústias e promover o juízo crítico — mas nem sempre é fácil saber por onde começar.

“Uso das tecnologias? Sim. Desde pequenos? Sim.” Só que com regras. Quem o diz são duas psicólogas que trabalham com jovens, uma na área da ciberpsicologia e outra na promoção de comportamentos saudáveis.

As especialistas falaram ao SAPO24 a propósito da polémica com a Team Strada: o caso mediático de um projeto de jovens youtubers coordenados por um adulto, Hugo Strada, que tem sido alvo de crítica pela proximidade física considerada excessiva que estabelece com os membros mais novos do grupo, alguns deles menores de idade. O Ministério Público já confirmou a abertura de um inquérito relativo à ação deste homem de 36 anos.

Ivone Patrão, docente no ISPA – Instituto Superior de Psicologia Aplicada e investigadora na área dos comportamentos e dependências online, e Margarida Gaspar de Matos, professora universitária e colaboradora numa rede da Organização Mundial de Saúde que estuda os comportamentos dos adolescentes, dão voz a uma visão que tem vindo a ficar cada vez mais clara nos últimos anos: a Internet tem aspetos positivos para o desenvolvimento infantil e juvenil, informa, entretém, “só que não é baby-sitter”, e precisa de ser utilizada com supervisão.

A afirmação parece óbvia e simples, mas, quando chega a hora de definir limites e de encontrar estratégias para ajudar os mais novos a fazerem um uso saudável das tecnologias, muitas vezes os adultos não sabem por onde começar.

“Os pais estão receosos destas conversas, não sabem como as fazer. Mas, se não começarem a experimentar, também nunca as fazem”, afirma Ivone Patrão. A especialista encoraja os responsáveis a não terem medo: “A conversa não é nada de transcendente. Até porque há coisas que os pais vão certamente logo perceber”.

O que fazer, então?

Antes de mais: Conversar com “serenidade” e evitar os diálogos extremados

“Quando os pais ficam aflitos e começam a proibir [a utilização da Internet] e a dizer que é um horror, não criam bom impacto”, explica desde logo Margarida Gaspar de Matos. Reações como esta, acredita a psicóloga, levam os filhos a dizerem: “O meu pai não percebe nada disto”. “E riscam os pais da lista” de pessoas a quem recorrer em caso de dúvida.

A ideia não é os pais “impedirem os filhos de acederem aos vídeos ou à Internet. Isso é uma política muito catastrófica, que só faz com que cada um fique radicado na sua certeza”, continua.

Ivone Patrão concorda. As conversas sobre os limites e disciplina no uso da Internet devem acontecer sem que haja “um juízo de valor à partida”. Não traz bons resultados dizer: “Isto não presta, isto não vale nada, não vejas isto”. Isso afasta os mais novos, considera a psicóloga.

Quando os adultos reagem de forma radical sem entrarem em diálogo com os filhos e “sempre com o sermão no cantinho do seu cérebro”, Margarida Gaspar de Matos diz que o resultado acaba por ser as crianças ou os jovens deixarem de falar com os pais e  ficarem “sozinhos, sem saber o que hão de fazer”.

A alternativa, defende, é ter uma “conversa que não seja assustadora, que seja serena”. “Uma atitude de serenidade; de disciplina, mas de diálogo”, sublinha. Desta forma, “se os filhos por algum motivo ficarem aflitos, vão perguntar aos pais”.

Ivone Patrão, que é também terapeuta familiar, reforça a ideia: as crianças e os jovens “têm de estar à vontade para dizerem aos pais ‘Vi isto’ ou ‘Apareceu aquilo’”, referindo-se ao facto de por vezes aparecerem imagens com conteúdos inapropriados para os mais novos — como homens e mulheres nuas. Em vez de o responsável a dizer “Apareceu isto? Então, nunca mais vês”, a psicóloga sugere que a conversa seja ao contrário e que se entre em diálogo: “Quando isso aparecer, o que é que achas que deves fazer?”. Assim, diz, “começamos a imprimir juízo crítico, a imprimir as questões da valorização, do respeito, de como se comunica”, continua.

A ideia é “pô-los a pensar” a partir dos conteúdos que lhes chegam: “O que te pareceu o comportamento deste youtuber? E esta linguagem?”. Ivone Patrão dá um exemplo: usar algumas expressões “em determinado contexto e para fazer humor é uma coisa, passar o dia a dizer asneiras é outra”. “Temos de ter espaço para falar disto. E não me parece que as famílias tenham este espaço”, considera.

Estratégias construtivas para criar disciplina

Uma forma de criar espaços de conversa é jogar com os filhos e ver alguns vídeos com eles. Sabendo que os pais não podem “estar a supervisionar a todo o segundo”, refere Ivone Patrão, “é muito importante que se estabeleçam bem as regras quanto ao número de horas que [os filhos] estão online e quanto ao tipo de conteúdos que são visualizados. E que se dê espaço para falar sobre como está a correr o cumprimento” das regras estabelecidas: “Mostra lá o que tens estado a ver?”, “Em que é que estás mais interessado agora?”. “Senão, os pais perdem o fio à meada” e não se instala o hábito de ir conversando sobre o tema.

É precisamente por isso que as duas especialistas concordam com a ideia de que seja criada disciplina desde cedo.

Margarida Gaspar de Matos põe o relógio da utilização da Internet a contar logo a partir dos três anos — para as crianças com dois anos ou menos é mesmo desaconselhável, acrescenta. A ideia é limitar o tempo que as crianças estão online. “Não é preciso grandes explicações. É só dizer que, tal como não podem comer ou dormir o dia todo, também não podem estar ao computador todo o dia. Só podem estar meia hora depois do lanche”, exemplifica.

“Se a criança se habituar que a vida é assim — com uma disciplina à volta da utilização dos ecrãs —, vai considerar isso normal”, completa.

“O que também se tem de fazer desde os três, quatro anos é dar alternativas a estar com o nariz no ecrã. Sugerir outras coisas para fazer. Pode ser ler, ajudar nas tarefas da casa, fazer legos, praticar um desporto. E atividades em família”, salienta Margarida Gaspar de Matos. A psicóloga lembra até que os momentos passados em família proporcionam um espaço para conversas informais, sem ser “aquela hora da conversa de que os adolescentes não gostam nada”. Naturalmente, “à medida que se vai fazendo uma caminhada ou se vai fazendo um bolo, as pessoas estão na conversa e os temas surgem”.

Ivone Patrão adverte para que, nos dias de hoje, nas conversas que têm com os filhos, não basta aos pais perguntar: “O que está a acontecer na escola? E cá em casa? E com os avós?”. “Não. Então e online? O que é que está a acontecer online? Também temos de olhar para isso”, exclama. Até porque às vezes “podem andar a acontecer coisas online que influenciam o estado de humor daquela criança ou daquele jovem e os pais não sabem”, alerta.

A polémica que se gerou na última semana sobre a Team Strada e as mensagens que têm circulado nas redes sociais — por exemplo, “nunca esperei isso do Hugo Strada, realmente ele magoou muitos”, “eu gostava tanto da Team Strada” ou “cansei de estar calada e como medo. Isto é abuso psicológico” — revelam que há muitos jovens a sentirem-se afetados pela situação de alguma maneira.

Caso Team Strada: “Quem visualiza está em risco, mas quem está dentro pode estar em perigo”

Na sexta-feira, dia 26 de julho, a Procuradoria-Geral da República confirmou a “instauração de um inquérito” em relação à atuação de Hugo Strada, o adulto mentor do grupo. Em causa estão imagens da interação entre ele e os jovens que têm gerado controvérsia.

Toda a polémica e o possível fim do grupo pode ter um impacto real quer nos participantes da Team Strada, quer nos fãs, acredita Ivone Patrão.

“Quem visualiza [os vídeos da Team Strada] está em risco, mas quem está dentro deste enredo pode estar em perigo”, avança a investigadora, advertindo que nesta fase apenas é possível comentar em termos hipotéticos, uma vez que não há informação oficial sobre as dinâmicas no interior do grupo.

Caso os atuais membros da equipa estejam “a ser alvo de algum tipo de abuso psicológico ou até sexual”, eles estão em perigo. A psicóloga não tem dúvidas: Dadas as circunstâncias, “tinha de  ser aberto inquérito” para averiguar os comportamentos em questão.

Por outro lado, se para os membros do grupo a Team Strada era, possivelmente, além de um projeto de vida, um espaço de “carinho”, há uma perda a considerar.

“Se isto era uma forma de eles receberem afeto, isso agora vai-lhes ser retirado”, explica. Se a equipa funcionava como um “grupo de pertença”, estes jovens sentiam-se integrados num grupo de pessoas “com quem se identificavam, com quem faziam todas as atividades, riam, choravam”. Caso tenha de acabar, “não deixa de ser uma perda”, esclarece a psicóloga.

Dependendo da gravidade das situações, estes jovens “podem vir a desenvolver sintomatologia negativa — revolta, tristeza, ansiedade”. “É importante que haja suporte. Da família, dos amigos. Pode haver até alguns casos de jovens que necessitem de acompanhamento psicológico”, adianta a especialista, deixando a ressalva de que “não gosta de psicologizar tudo” e que as respostas devem ser dadas consoante a reação de cada um.

Ao mesmo tempo, os jovens que veem ou viam os vídeos da Team Strada também “estão em risco”, por estarem expostos todos os dias a conteúdos desadequados, podendo começar a “achá-los normais” e a perder “o juízo crítico”.

Aquilo que os pais podem fazer para ajudar os filhos a gerirem as emoções e a fazerem uma leitura saudável do caso passa primeiro por “dar espaço para eles falarem. Muito. Ouvir. Dar espaço para colocarem cá para fora todas as suas angústias, ansiedades. O que acham, o que pensam”, sugere Ivone Patrão. E depois tranquilizá-los — “Agora podes visualizar outras coisas”, “Os projetos têm princípio, meio e fim” — e perceber se o discurso está “fora da realidade e a inundar a liberdade de alguém”. Nesses casos, os pais podem ajudar os filhos a recentrarem-se e recordar os valores que querem alimentar na família.

Para as situações mais extremas, caso os jovens se sintam “sozinhos, amedrontados, isolados, sem ninguém com quem falar”, Margarida Gaspar de Matos lembra que existem linhas de apoio para onde as crianças e os jovens podem telefonar e que são atendidos por alguém que os ajuda primeiro a baixar os níveis de ansiedade, e depois a encontrar formas de apoio para lidarem com o momento que estão a viver. Um exemplo desses serviços, gratuitos, é a Linha SOS Criança (número: 116 111).

Para que não se chegue a estes pontos de rutura, a docente da Universidade de Lisboa insiste no papel fundamental da prevenção e na importância de que os filhos recebam afeto de forma a que se sintam “enraizados” e “contentes com a vida”, evitando assim que, por estarem fragilizados, se vejam envolvidos em situações de vulnerabilidade.

A Team Strada é um projeto criado em abril de 2018 com o objetivo de juntar jovens youtubers. Num livro publicado em outubro do ano passado, a Team Strada apresenta os seus membros como estando “prontos para fazer as melhores pranks [partidas], causar o pânico e aventurar-se em grandes desafios”.

O criador e mentor da equipa é Hugo Strada, de 36 anos, também ele youtuber, e que se identifica como gestor de artistas e influencers e produtor de eventos.

O projeto conta também com uma casa, onde os jovens se juntam para criar conteúdos “que são publicados no YouTube, a principal plataforma da Team [o canal está neste momento inacessível]”, pode ler-se no livro.

Cristina Ponte – EU Kids Online: Como é a internet usada pelos jovens e pelas suas famílias?

Agosto 20, 2019 às 12:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Texto do 90segundos de ciência de 16 de julho de 2019.

Esta investigação tem como objetivo conhecer como as crianças e jovens usam a internet e os meios digitais, e qual o impacto que estas experiências têm no seu bem-estar e no seu desenvolvimento.​

Cristina Ponte, docente na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (NOVA FCSH) e investigadora no Instituto de Comunicação da Nova (ICNOVA), coordena em Portugal o estudo europeu EU Kids Online.

Este estudo tem como base uma rede de inquéritos realizados a crianças e jovens entre os 9 e os 17 anos em vinte países da União Europeia.

“Para recolhermos este conhecimento nós fazemos inquéritos nacionais nos mais de vinte países que participam nesta rede. Nesses inquéritos temos perguntas que crianças e jovens dos 9 aos 17 anos respondem sobre as suas práticas digitais, e também temos perguntas sobre os modos como a sua família, os seus amigos, e a escola que frequentam têm uma intervenção na forma como elas lidam com o digital”, refere.

O EU Kids Online insere-se numa rede de investigação criada em 2006 que já se encontra na sua quarta edição. Entre 2015 e 2018 foram realizados novos inquéritos a crianças e jovens dos países que participam nesta iniciativa.

Alguns dos dados preliminares desta análise apontam para uma maior necessidade dos pais incentivarem os filhos a retirar um maior proveito da informação disponível online.

Os resultados de 2018 indicam que 60% dos jovens portugueses ajudam com frequência os pais a usar a internet. Contudo, apenas um quinto dos pais incentiva os filhos a pesquisar por informação online.

Estes dados também demonstram que as crianças mais novas gostam de fazer atividades online com os seus pais.

Para Cristina Ponte esta oportunidade deve ser usada pelos pais para ensinar os filhos sobre os cuidados a ter com a informação que é lida online.

“Enquanto os adolescentes já prezam a sua privacidade, as crianças mais novas gostam de estar com os pais a fazer atividades. Aí, de uma maneira informal, pode ser dada muita formação sobre formas de pesquisar, cuidados a ter com o que se lê, não acreditar em tudo o que aparece nos ecrãs, entre outros aspetos”, conclui.

Saiba mais sobre a investigadora em: Linkedin | Researchgate | Google Scholar | NOVA FCSH

Ouvir as declarações de Cristina Ponte no link:

Ep. 667 Cristina Ponte – EU Kids Online: Como é a internet usada pelos jovens e pelas suas famílias?

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