Na nova sala de aulas todos ensinam, todos aprendem

Abril 25, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do http://expresso.sapo.pt/ de 15 de abril de 2017.

Bernardo Mendonça

Isabel Leiria

As escolas do futuro já estão aí. O professor perde protagonismo, as carteiras não estão alinhadas, os alunos vão juntos à procura do conhecimento. Tablets e smartphones entram nas salas de aulas e aprender não se faz apenas dentro de quatro paredes.

Se as máquinas estão a roubar o emprego aos homens, então o melhor é parecermo-nos cada vez menos com elas. Em muitas circunstâncias, elas farão o trabalho melhor, mais rápido e com menos custos. Temos de saber dominá-las e usá-las em nosso proveito. Mas é preciso algo mais. Criatividade, pensamento crítico, competências sociais são argumentos cada vez mais valiosos no mundo do trabalho. E, se assim é, que sentido faz as escolas continuarem a ensinar alunos como se fossem máquinas de armazenar e debitar conhecimentos?

Justifica-se continuar a pedir a crianças e adolescentes que fiquem sentados numa sala de aulas, de forma passiva, enquanto o professor os inunda com saber enciclopédico debitado e factos a que podem aceder rapidamente em qualquer site ou vídeo na internet? Justifica-se que os alunos não possam falar uns com os outros para debater matérias?

“Enquanto adultos, somos bem-sucedidos através da colaboração com outros. Então porque é que se considera que uma ajuda entre colegas num teste ou exame é batota?”, interroga George Monbiot, colunista no “The Guardian”, num artigo recente intitulado “Na idade dos robôs, as escolas estão a formar as crianças para se tornarem redundantes”.

Monbiot pode estar a simplificar, a ser demagógico, a olhar apenas para a realidade que conhece. Mas um pouco por todo o mundo, governantes, professores, especialistas, investigadores estão a fazer a mesma pergunta. Num mundo em acelerada mutação, como deve a escola formar jovens que são diferentes das gerações anteriores e de quem se exigirá também algo de diferente? “Nos últimos anos, apareceu a realidade aumentada, as impressoras 3D, a biogenética, há carros elétricos e sem condutor. Mas continuamos a ensinar ciência da mesma forma”, diz Andreas Schleicher, responsável pelos testes PISA (Programme for International Student Assessment), a maior avaliação internacional educativa, realizada pela OCDE, em 88 países e regiões.

Por cá, a inquietação não é diferente. Será injusto dizer que nada mudou, que as escolas continuam a funcionar como no século XIX, quando pelas suas portas entram hordas de crianças nascidas no século XXI, que não sabem o que é um mundo sem internet e sem telemóveis.

A verdade é que, num modelo que permanece muito formatado e limitado pelas regras, despachos e circulares emanados da 5 de Outubro, há escolas e professores que põem em prática outras abordagens. Umas começaram há mais de duas décadas, outras dão os primeiros passos.

O Ministério da Educação promete agora dar mais liberdade às escolas para abordarem o currículo de outras formas, sem arriscarem uma inspeção de cada vez que fugirem à norma. Flexibilização, competências além de conhecimento, trabalhos de projeto que obriguem os alunos a irem eles próprios à procura da informação, atividades que juntem várias disciplinas são as orientações em cima da mesa. Porque na vida real é assim que se trabalha.

A simples desconstrução de uma sala de aulas tradicional pode ser o primeiro passo para algo novo. E tudo pode começar por uma cadeira. Ponham-lhe umas rodas, juntem-lhe uma minimesa e coloquem apenas 15 numa sala que acolhe turmas com 26 alunos. “Não havendo lugar para todos, o professor automaticamente vai ter de pensar a aula de maneira diferente”, exemplifica Luís Fernandes, diretor do Agrupamento das Escolas do Freixo, no concelho de Ponte de Lima.

O Espaço de Aprendizagem Personalizada é a mais recente novidade numa escola pública que se habituou a ganhar prémios pelos projetos inovadores que põe em prática e dinheiro para equipar a escola e ultrapassar a limitação das verbas transferidas pelo Estado. Este ano foi distinguida pela quarta vez consecutiva com o selo da Microsoft de ShowCase School, pelo uso inovador da tecnologia na educação.

UMA SALA À MEDIDA

Lá fora, veem-se vinhas e a serra. Dentro da sala, há um quadro e uma mesa interativos do mais moderno que existe no mercado, uma smart TV, tablets. As cadeiras azuis, verdes e vermelhas estão espalhadas aleatoriamente pelo espaço. O conceito de desarrumação não existe ali. Os alunos tanto tocam no ecrã do tablet como folheiam os velhos manuais escolares. Uma bancada amarela e outra azul, também com rodas, podem ser deslocadas para improvisar um auditório. Há carteiras altas para se trabalhar em pé. E uma prancha que parece um skate basculante a fazer de estrado, onde o professor dá a aula ou o aluno apresenta um trabalho. Ao lado fica a sala para gravação de vídeos. O espaço adapta-se à medida de cada aula.

Em Portugal, há pelo menos 23 salas assim — o Ministério chama-lhes Ambientes Educativos Inovadores —, número que duplicará até ao final do ano. Inspiradas na Future Classroom Lab, projeto europeu nascido em Bruxelas, têm como objetivo desafiar os professores a repensar o papel da pedagogia e da tecnologia nas salas de aulas. São todas diferentes entre si, mas com algo em comum: o centro da atividade é o aluno em interação com outros colegas e professores. Não é um espaço para ouvir matéria, mas para pôr os miúdos a investigar, interagir, criar, desenvolver, partilhar e apresentar.

Dada a proximidade do teste, a aula é de revisão da matéria de Físico-Química do 8º ano. Ouve-se uma música tipo concurso e um relógio a fazer a contagem decrescente de cada vez que é lançada uma pergunta no quadro interativo. O que mede um sonar? Os alunos tocam no ecrã do tablet para escolher uma de quatro opções possíveis. O tempo acaba. No quadro aparece o número de respostas certas e erradas. Logo de seguida, o nome das equipas que lideram o quiz. Os Blood Dragons do Miguel e do Luís dominam.

Surgem dúvidas quando à morfologia do ouvido. Há demasiadas respostas erradas. O professor, João Cunha, pede aos alunos que se virem para a televisão no canto oposto da sala. As cadeiras rodopiam em silêncio graças às tais rodinhas. A imagem de um modelo 3D de um ouvido surge no ecrã. Com os dedos, João Cunha roda-o 360 graus, amplia até se ver perfeitamente os ossos constituintes do ouvido interno, médio e externo. Mas também podia mostrar uma secção de um folículo capilar, a coluna vertebral ou um embrião com seis semanas.

“As empresas pedem cada vez mais soft skills (competências além do conhecimento técnico). Como é que um aluno pode ser criativo, por exemplo, se estiver sentado numa sala apenas a ouvir a matéria que tem de saber para o exame? Com estas novas abordagens, eles ganham uma facilidade em mostrar o que fazem e a comunicar que será sem dúvida uma mais-valia para eles”, argumenta João Cunha. Além do que ajuda a resolver um outro problema sentido por muitos professores. “Hoje em dia, é complicadíssimo dar uma aula de 90 minutos. Ao fim de 20, os miúdos desligam. Mesmo que estejam ali calados a olhar para nós.”

O DESAFIO DE CRIAR UM EBOOK

Na biblioteca da Escola Básica e Secundária Gama Barros, no Cacém, estão mais de vinte miúdos do 5º ano mergulhados no mundo das fadas e dos elfos. Na verdade, parecem estar mesmo no fundo do mar, pelas imagens de peixes e algas coloridas que decoram as paredes. Divididos em pares, com iPads na mão, têm a desafiante tarefa de criar um ebook a partir de livros desse universo de fantasia. O desafio desta aula de Português é escreverem no iPad, pelas suas próprias palavras, resumos da história que cada livro conta, atribuindo-lhe um título, pesquisando imagens na internet para a ilustrar e respondendo a questões de uma ficha.

Cada aluno conversa com o parceiro do lado, em voz baixa, ajudando-se entre si, empenhados em chegar a bom porto. Os dois professores respondem às dúvidas de alguns. No final, cada dupla grava uma leitura em áudio do texto que acabam de escrever, com a ajuda da professora bibliotecária Filomena Lima, organizadora e mentora desta atividade. “Gana” e “Varinha” revelaram-se palavras difíceis para Rita, de 11 anos. “Nunca tínhamos ouvido a nossa voz gravada. Queremos repetir a leitura para a melhorar”, diz Yara, de 10. Na mesa ao lado, Ângelo, de 11 anos, está ansioso por ler a sua parte. “Este exercício puxa mais por nós, pela nossa autonomia. E é mais divertido”, explica.

“Nestes grupos de trabalho, há sempre um mais ágil do que o outro, e isso puxa por ambos”, defende Filomena Lima. Há cinco anos que este projeto é desenvolvido por ela na biblioteca da escola. Foi com a verba ganha no projeto Ideias com Mérito que Filomena conseguiu adquirir os iPads. Começou por dinamizar uma atividade com o guloso nome “Tablets de Chocolate”, em que dava a trabalhar textos ligados à temática do chocolate, como “Chocolate à Chuva”, de Alice Vieira, ou “Como Água para Chocolate”, de Laura Esquível, e os alunos tinham de pesquisar os temas através dos iPads. O projeto visa a promoção da literacia digital, a leitura e a motivação no contexto escolar. Mas não é fundamentalista. A professora acredita que é preciso que os alunos mantenham “o contacto com os livros em suporte papel”, ao mesmo tempo que vão desenvolvendo essa literacia digital.

“Isto dá um entusiasmo extra à turma, com resultados bastante positivos. Mas as escolas não têm qualquer capacidade financeira para adquirir estes equipamentos tecnológicos. Devia depender de uma política nacional que ainda não existe.” O que existe são projetos a que cada escola está livre de se candidatar, dependendo das ideias e motivação dos diretores e professores, lembra Filomena Lima. “Querer ensinar de forma diferente, com recurso às novas tecnologias, dá um trabalhão, exige mais de nós. O que me move a mim e a muitos professores que o fazem é um espírito de missão, o gosto por ensinar, de fazer melhor, de ver que com este projeto conseguimos motivar e obter resultados.”

O que é também claro para ela é que a sala de aulas tem de ser reinventada. “Estamos a ir ao encontro das capacidades e autonomia de cada um, dando-lhes para a mão os aparelhos que alguns já usam para jogar. Mas aqui usam-nos para aprender. Os miúdos estão diferentes. Não dá para usar métodos de há 10 ou 20 anos.” À saída, alguns comentam entre si que o exercício foi giro. “O mais complicado foi interpretar o texto e fazer o resumo.” Mas a dois tudo se torna mais fácil.

Não raras vezes, as crianças com mais dificuldades surpreendem quando são convidadas a trabalhar de forma menos tradicional e com recurso a outras plataformas, considera João Henriques, professor de Inglês no Colégio dos Plátanos (Sintra). Foi o que aconteceu com uma das suas alunas mais tímidas, de quem pouco tinha ouvido a voz. Desafiada a apresentar-se, em inglês, através de um vídeo caseiro, Catarina, aluna do 8º ano, deu a conhecer mais dela em dois minutos do que no resto do ano letivo.

“Há o mito de que se algo é divertido não dá trabalho, de que se é motivador não exige esforço”, critica João Couvaneiro, assessor no gabinete do secretário de Estado da Educação e que este ano integrou a short list dos 50 candidatos a ‘melhor professor do mundo’, atribuído pela Varkey Foundation — uma espécie de Nobel da Educação, que vale ao vencedor um milhão de dólares. School in a Box é o nome do projeto em que está envolvido e que pretende fazer chegar a tecnologia a regiões remotas de Moçambique como forma de melhorar a educação. Na caixa seguem iPads e painéis solares.

Não é que a tecnologia em si seja a solução, salvaguarda. Mas pode ser uma ajuda preciosa como “transformadora das práticas pedagógicas”. “A tecnologia não vem substituir nada. Vem acrescentar coisas. Com os tablets e dispositivos móveis, o processo de ensino não fica amarrado a uma sala específica. Permite levá-lo para fora das quatro paredes. E motivar os alunos”. O que é meio caminhado andado para que eles aprendam de forma efetiva e mais sólida. “Porque é que as crianças sabem os nomes dos dinossauros, que são complicadíssimos? É porque estão motivados para 
o saber.”

Durante dois anos, os alunos do Agrupamento do Freixo também saíram da sua escola e foram à descoberta de percursos pedestres possíveis de fazer ali à volta e com interesse histórico e cultural. Sinalizaram-nos, tiraram fotografias, estudaram o património, escreveram os textos e juntaram tudo numa aplicação para telemóveis chamada Trilhandando, feita com a ajuda de uma empresa de software local. E, claro, receberam mais um prémio.

O FIM DA SALA AUTOCARRO

A questão já não é saber se as tecnologias devem ou não entrar nas salas de aulas. É perceber de que forma podem trazer valor acrescentado. E é aí que tem de entrar o professor como orientador, argumenta Teresa Salema, mentora do CoderDojo, movimento internacional que promove a aprendizagem da programação junto dos jovens, usando a tecnologia de forma gratuita e segura.

“Quando temos o Estado a exigir que todos os cidadãos entreguem os seus impostos online e quase um terço dos portugueses tem iliteracia digital, estamos perante um problema. A educação já não pode excluir a tecnologia, e a sala de aulas não pode estar fechada num quadro, numa sebenta e num professor, no velho modelo do autocarro” — professor ao volante, alunos sentados nos bancos de trás. “A sala de aulas deve estar centrada no aluno, respeitando as suas capacidades, ritmos e limitações de cada um, e aberta ao mundo da internet, dotando os alunos de ferramentas digitais, essenciais no mundo em que vivemos”, defende.

É este apport tecnológico que faz com que muitas ideias, algumas com mais de um século, voltem agora a ser discutidas “com entusiasmo”, nota João Couvaneiro. Será relativamente consensual que há muito que a educação deixou de ter apenas a ver com os chamados três ‘r’— reading, writing, aryhtmetics (em português, ler, escrever e contar). A trilogia deu lugar à teoria dos quatro ‘c’ da aprendizagem — comunicação, colaboração, criatividade e pensamento crítico integram agora a cartilha.

Claro que sempre se ensinou nas escolas a comunicar. Mas, num mundo onde a comunicação, social mas também profissional, passou a fazer-se através do Skype, do Twitter, do LinkedIn, do e-mail, do Messenger e do WhatsApp, a escola deve limitar-se a ensinar como se escreve uma carta com o remetente colocado no sítio certo? Fazer trabalhos de grupo é outra das mais clássicas tarefas escolares. Só que as potencialidades são outras, já não limitadas nem no tempo nem no espaço.

“A reprodução do conteúdo disciplinar, algo em que os alunos portugueses são bastante bons, está a tornar-se menos importante. As coisas que são fáceis de ensinar e testar são também as que são fáceis de digitalizar e automatizar. No passado recebia-se a sabedoria dos professores. O futuro passa por cada um gerar o conhecimento. O passado era hierárquico, o futuro é colaborativo. O passado dividia as matérias por disciplinas e os alunos pelas suas expectativas. O futuro tem de integrar ambos. Precisamos de educar os jovens a criar o futuro e não apenas a aprender o passado”, defendia Andreas Schleicher, em entrevista recente ao Expresso.


Foi precisamente isso que observámos numa aula de Português de uma turma do 7º ano, na Escola Carlos Gargaté, na Charneca da Caparica (Almada). Os alunos formam grupos, podem usar o smartphone e o tablet para tirar dúvidas, acedem a um blogue onde estão as indicações para as tarefas da aula e é-lhes entregue uma ficha para preencherem. Desta forma, o professor é mais um orientador, mas são os alunos que se organizam para obter as melhores respostas. “Eu tento que eles sejam autónomos e que resolvam sozinhos os problemas, sob a minha supervisão. Na última aula dei-lhes 15 ferramentas digitais para trabalharem a biografia da escritora Alice Vieira: desde mapas a editores de vídeo, desenhos animados, jogos. Tudo isso é válido para contar a biografia da autora, e eles trabalham de forma mais motivada o conhecimento”, descreve Teresa Pombo.

A professora de Português é adepta do cruzamento de saberes e de disciplinas. Quando dá “Os Lusíadas”, usa o Google Earth para mostrar aos alunos onde decorre cada canto narrado por Camões. Como a passagem pelo Congo: “Por onde o Zaire passa, claro e longo/ Rio pelos antigos nunca visto.”

Por vezes, divide as suas aulas com o colega de Inglês ou com o de Matemática. “Para mim, é o que faz sentido, e não passar a matéria aos alunos de forma compartimentada. No primeiro caso foi uma aula bilingue, em que lhes apresentámos uma banda desenhada em inglês sobre a história de uma criança privilegiada e outra desfavorecida. Os alunos interpretaram o texto em inglês e depois discutiram o tema oralmente em português. Com o professor de Matemática celebrámos o dia do ‘pi’ e criámos frases coerentes com aqueles números.”

Na aula a que assistimos, Teresa repete inúmeras vezes a pergunta: “Mas vocês não leram o que está à vossa frente? Basta lerem. Não vou desistir do blogue e das instruções e matéria que lá coloco, vocês é que vão ter de mudar de atitude.” E depois comenta connosco que este é um dos principais males desta nova geração. Têm dificuldade na leitura e interpretação de textos, por estarem mais treinados para o clique e para o estímulo rápido e imediato.

A aula termina com um flashmob, com alguns alunos a irem ao quadro para gritarem o poema ‘Urgentemente’, de Eugénio de Andrade, que apresentariam horas mais tarde, com bandeiras e palavras de ordem, num pavilhão para todos os alunos da escola. “É urgente o amor”, escreveu Eugénio. É urgente a mudança, dizem os professores.

“Se eu fosse uma professora tradicional já tinha perdido dois dos meus alunos que têm défice de atenção. E, na verdade, perderia mais. Se a minha aula fosse só debitar, quem iria ouvir-me? Sou da opinião de que as tecnologias podem devolver algum encanto e motivação aos professores. E isso passa para os alunos. Mas a sensação que eu tenho é que a maioria dos professores ainda não está sensibilizada para estas novas formas de passar o saber. Seja através dos jogos ou das ferramentas digitais.”

APRENDER ATRAVÉS DA PESQUISA

No Colégio Luso-Internacional do Porto (CLIP), que segue o currículo britânico, há muito que os alunos se habituaram a trabalhar de forma transdisciplinar. Tal como está a ser feito para o ensino público, também lá se definiram 21 competências para o século XXI que os alunos devem adquirir ao longo da escolaridade e que os professores devem trabalhar nas disciplinas tradicionais, mas não só.

Desde o pré-escolar até ao equivalente ao 9º ano, os alunos passam por uma unidade curricular que integra conteúdos programáticos de todas as cadeiras e que utiliza o método de Concept Based Learning. Ou seja, parte-se de um conceito e de um tema e a partir daí trabalham-se várias áreas, explica Isabel Morgado, um dos elementos da direção do CLIP. A unidade dura duas a três semanas e foi este ano letivo dedicada à liberdade e aos direitos das crianças.

Mas o expoente máximo desta articulação de saberes acontece nas aulas de Learning Through Research (Aprender Através da Pesquisa) e que integra o currículo do 6º, 7º e 8º , com uma carga de sete horas por semana. Os alunos são divididos em grupos de quatro, misturando turmas diferentes, mais novos e mais velhos, fortes, médios e com mais dificuldades. Quando se inicia um novo tema, que tem sempre associado uma disciplina base, mudam as equipas. A ideia é que todos aprendam com todos e trabalhem em conjunto.

Na sala, há um barulho e uma confusão controlados. Se as vozes sobem de mais, Andrea Reis, professora de História e uma das responsáveis por esta cadeira, bate três palmas secas. De imediato, todos os alunos imitam o gesto, e o silêncio instala-se. O tema chama-se “Lei e Criminalidade” e tem a disciplina de Inglês como base. Já criaram uma personagem, uma arma, um crime, um local (real e que os leva, por exemplo, a usar o Google Maps e a identificar uma rua) e um motivo. Já escreveram o guião e o storyboard e estão agora a decorar as falas para a representação à turma.

Na unidade anterior tiveram de estudar as matérias-primas de um país em desenvolvimento e pensar num produto final, passando por todo o processo, desde a extração dos produtos, circuito de distribuição, logística, até à venda, incluindo o custo por unidade e o marketing. No final, venderam-se no colégio velas de café, chocolates, sabonetes de mel. “São eles que têm de fazer toda a pesquisa. O professor é um facilitador, ajuda a tomar decisões”, afirma Andrea Reis.

Os temas escolhidos estão alinhados com a disciplina de Global Perspectives que terão no secundário e que desde há dois anos passou a ser obrigatória no 11º e 12º para obterem o diploma final que é reconhecido internacionalmente. Tal como o nome indica, a ideia não é trabalhar uma área isoladamente, mas analisar e refletir sobre um problema global, desde a energia ao emprego ou às mudanças demográficas.

Um mantra para limpar energias

Passam poucos minutos das 11h da manhã. Na sala de aulas da turma do 1º ano da Escola Básica Louro Artur (do Agrupamento Carlos Gargaté), os rapazes chegam do recreio agarrados às cadernetas de cromos e algumas meninas vêm acompanhadas de bonecas. A professora Ana Paula Figueiredo pede com voz serena que as crianças façam o mantra para ‘limparem’ as energias da rua. E, como num filme, toda a turma de pequenotes sobe para cima das mesas, de forma ordeira e em silêncio, sentando-se de pernas cruzadas. A professora põe a tocar uma música de relaxamento, e os meninos, como numa coreografia bem ensaiada, cerram os olhos e erguem o braço direito por cima da cabeça, enquanto o braço esquerdo faz um movimento circular no peito. Cinco minutos disto. A meio chega uma aluna atrasada, que arruma a sua carteira, sobe à mesa e junta-se ao mantra, sem precisar de qualquer instrução. Parece ficção ou impossível, mas acontece todos os dias naquela turma.

“Assim fazemos o trabalho melhor e concentramo-nos mais”, explica-nos uma menina. “E a mim tira-me as dores de barriga”, acrescenta outra. Logo depois a professora começa a aula e pede a quatro alunos para irem ao quadro para formarem com o corpo a palavra ‘cão’. Uma delas faz com o corpo o til. Outros formam a palavra ‘caramelo’. Tanto os que estão sentados como os que formam a palavra estão atentos e divertidos com a tarefa. Ainda vemos as crianças a mimetizarem uma canção num vídeo com linguagem gestual. Isto porque naquela aula aprende-se o alfabeto de três formas: a clássica, em braille tátil e visual e em língua gestual portuguesa.

Ana Figueiredo recorda que foi depois de tomar contacto com as “Ekui Cards”, 26 cartas do alfabeto que incluem o braille, a dactilologia (alfabeto da língua gestual portuguesa) e o fonético, que adaptou a sua aula. “Este ano tive liberdade total. E posso dizer que com este método tenho obtido resultados muito positivos na aprendizagem da leitura e escrita destas crianças. As aulas são lúdicas e apelativas, porque interagimos brincando com as letras, sílabas e palavras. As crianças manifestam alegria e vontade de descobrir novas palavras dramatizando para os colegas.”

Como complemento, Ana Figueiredo introduziu o relaxamento orientado com músicas e respiração adequada, conseguindo desta forma que as crianças se acalmem depois do recreio e recuperem a sua concentração para as tarefas da aula.

A professora, que na escola anterior não teve o mesmo apoio, é agora uma referência na nova escola. E os pais agradecem. “De manhã utilizo mandalas e imagens de Miró para eles colorirem que os ajuda a descontrair. Valorizo os manuais como um complemento de consolidação. No entanto, num 1º ano, acho que há uma dependência exagerada, o que condiciona os professores a abrir a sua mente para novas estratégias mais inclusivas para todas as crianças.”

Nesta mesma escola assistimos a outra atividade singular. Conhecemos o professor Pardal de carne e osso. Na verdade, este professor primário chama-se Horácio, tem 60 anos e 37 de profissão. Há um ano as lágrimas corriam-lhe pelo rosto e estava a perder o gosto pelas aulas e pelos alunos. “Estava desmotivado. Estar mais de 30 anos a dar aulas deixa-nos saturados.”

Foi a direção da escola que o ouviu e apostou nele para um novo desafio. Deixaria de dar aulas a uma só turma e passaria a fazer o que sempre gostou de fazer, passar conhecimento científico de turma em turma. E é um gosto vê-lo de bata branca entre um monte de geringonças a explicar a magia do ar e as suas propriedades. “Se mergulharmos este recipiente fundo na água com um algodão na base, porque é que o algodão continua seco? É por causa do ar, pois é.” O ar é de todos, e o que este professor gostaria é que o bichinho pela ciência ficasse em todos aqueles alunos.

Em Portugal, decorria a década de 70 e uma escola pública começava a experimentar uma forma diferente de se organizar, de ensinar e de trabalhar com os alunos, na altura apenas da primária. Conhecida como Escola da Ponte, em Vila das Aves/São Tomé de Negrelos (Santo Tirso), foi buscar inspiração ao Movimento da Escola Moderna e durante anos tentou convencer o Ministério da razão de ser de alargar o seu projeto a todo o ensino básico, sem turmas, sem anos de escolaridade (os alunos estão integrados em três núcleos — iniciação, consolidação e aprofundamento — e podem transitar de um para o outro em qualquer momento do ano) e onde os alunos assumem um papel central na vida da escola.

São eles que definem com os professores os planos de aprendizagem, os momentos e a forma de avaliação, sendo que o trabalho é feito essencialmente em grupo, com três ou quatro colegas. São também eles que, em assembleia de escola, definem direitos e deveres e gerem conflitos entre colegas. Têm tarefas atribuídas, como a organização de eventos, cuidar do jardim, a produção do jornal ou guiar as visitas à escola. Objetivo: promover a autonomia e a consciência cívica dos alunos, explicam os elementos da direção.

Em 2005, já com autorização de funcionamento até ao 3º ciclo do ensino básico, a Escola da Ponte assinou o primeiro contrato de autonomia com o Ministério da Educação, ou seja, a diferença passou a ser reconhecida oficialmente. Hoje são cerca de 300 as escolas e agrupamentos que também têm um contrato de autonomia com o Ministério. Mas os constrangimentos continuam a ser muitos, lamentam os diretores.

E os resultados de tudo isto? Sem surpresas, os alunos são os primeiros a dizer que preferem trabalhar assim. Significa que vão passar todos a ter boas notas? Não há ilusões. “É difícil estabelecer um nexo de causalidade entre os projetos que desenvolvemos e esta nova forma de trabalhar e os resultados académicos. Mas o que sabemos é que os alunos estão a desenvolver competências que lhes vão ser úteis quando forem para o mercado de trabalho e que estão a aprender coisas que não vão esquecer. Isto para nós também é sucesso académico”, resume Luís Fernandes.

 

 

 

 

O meu bem-estar e o teu: O respeito… começa em mim! Web We Want e ENABLE – Unindo esforços contra o bullying

Abril 10, 2017 às 12:00 pm | Publicado em Recursos educativos | Deixe um comentário
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Apps para dispositivos móveis: manual para professores, formadores e bibliotecários

Março 15, 2017 às 12:00 pm | Publicado em Recursos educativos | Deixe um comentário
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https://estudogeral.sib.uc.pt/jspui/handle/10316/31202

 

“Devemos conseguir que os alunos aprendam e não apenas prepará-los para os exames”

Março 12, 2017 às 6:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista do http://observador.pt/ a César Bona no dia 3 de fevereiro de 2017.

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Marlene Carriço

Para o professor César Bona os conhecimentos não são tudo. O importante é educar os alunos para a vida e estimular a sua criatividade. Só assim, e sentindo-se felizes, aprenderão de verdade

Uma escola que, mais do que ensinar, educa. Professores que falam e deixam falar. Questionam, desafiam, confiam, responsabilizam e dão liberdade aos alunos para que estes possam dar asas à imaginação. Para o espanhol César Bona é este o ideal de ensino. Este professor do 1.º e 2.º ciclos defende e pratica, dentro da sala de aula, um modelo em que se “educa na felicidade”. Pois acredita que só assim os alunos se transformam em seres íntegros repletos de conhecimentos.

César Bona acredita que tão importante quanto transmitir conhecimentos aos alunos, é conseguir que eles os aprendam e que os saibam usar no dia-a-dia, ajudando-os assim a desenvolver outras competências.

Se mandasse, não havia horas dedicadas a cada disciplina, porque o que faz sentido são os projetos que envolvem múltiplas matérias. Faz testes, mas diz que é triste que se viva a cultura da nota. E envia trabalhos para casa, mas poucos. O paradigma do ensino tem de mudar e os professores têm de estar dispostos a isso e a aprender.

Em 2016 foi considerado um dos 50 melhores professores do Mundo, segundo o Global Teacher Prize, uma espécie de Prémio Nobel dos professores, pelas iniciativas que tem levado a cabo nas várias escolas por onde já passou. Destas, destacou, em entrevista ao Observador, o filme mudo protagonizado pelas seis crianças de uma escola numa pequena localidade, que permitiu aproximar os alunos que não se falavam, por zangas entre as famílias. Esse filme venceu um prémio num festival de cinema na Índia e recebeu um prémio do Ministério da Educação espanhol.

“A Nova Educação”, de César Bona, está à venda nas livrarias desde 4 de janeiro

“A Nova Educação”, de César Bona, está à venda nas livrarias desde 4 de janeiro

Qual a importância do professor no percurso escolar e na vida do aluno?

É vital. Nós vamos marcar a vida dos rapazes e das raparigas. Costumo dizer que a escola, a sociedade ou a vida não têm um muro. Temos de educar para a vida porque vamos influenciá-los. Vamos ser os seus modelos.

Mas entende que os professores estão muito fixados em ensinar, quando deviam estar preocupados com a aprendizagem das crianças e disponíveis para aprender com elas. Porque diz isto?

Obviamente, quando escolhemos uma profissão, temos de dar o máximo. Supõe-se que estamos preparados para ensinar, mas não podemos esquecer que temos de estar sempre a aprender: com os nossos colegas, com a nossa família, e sobretudo com as nossas crianças. Além disso, quando dizemos às crianças que aprendemos com elas, estamos a promover a auto-estima. É importante que eles sintam que podem dar algo à turma, aos colegas e à sociedade. A essência de uma criança é composta por criatividade, imaginação e esperança. Então, se não tivermos isso em conta estaremos a perder uma grande oportunidade para que eles aprendam e para tirar deles o máximo partido.

Criatividade. É um ponto em que insiste bastante. Como se pode estimular a criatividade dos alunos?

Sobretudo escutando, deixando-os falar. Não temos que ver as crianças como um recipiente que temos de encher de conhecimento.

E porque é que há professores que não estimulam essa criatividade? Dá mais trabalho? Falta tempo?

Não creio que seja uma questão de trabalho. Acho que quando nos tornamos adultos, esquecemo-nos de que fomos crianças. E quando trabalhamos com crianças devemos sempre lembrar-nos da criança que fomos. Assim vamos entendê-los melhor e eles entendem-nos melhor também.

Mas optar por um método de ensino em que se deixa a criança falar e em que se estimula a criatividade exige mais trabalho e disponibilidade da parte do professor do que uma aula expositiva. Ou não?

Não creio que dê realmente mais trabalho. Diz isso porque, por norma, a educação tem sido assim, expositiva. Temos vindo a criar metas individuais quando somos seres sociais. Em muitas aulas as mesas e as cadeiras estão voltadas para o quadro. Isso significa que o tipo de interação que queremos é que nos escutem e que repitam. Mas se vamos educar para a sociedade, temos de estimular o diálogo, a reflexão, o respeito.

Como organiza os seus alunos na sala de aula?

Os alunos estão organizados em grupos, formados ao calhas. E vão mudando de grupo ao longo do ano. Quando estás com uma pessoa diferente de ti por perto vais aprendendo mais.

Como é que consegue garantir que as crianças, no meio da criatividade, e desta liberdade que lhes é dada, conseguem aprender o currículo imposto centralmente?

As editoras têm um grande peso. A informação que está num livro, está em todos. Se queremos educar para as competências devemos esquecer um pouco as disciplinas – a matemática, as línguas. Pode-se aprender muito mais coisas do currículo simplesmente fazendo-lhes perguntas ou permitindo-lhes fazerem perguntas.

Mas há exames e os professores têm de preparar os alunos para esses exames.

Para mim não. A educação associou-se de maneira muito forte aos exames, quando se devia associar à aprendizagem. Devemos conseguir que os alunos aprendam e não prepará-los para os exames. O exame é a prova que mostra que eles estão a aprender. Os exames existem e têm muito peso, mas temos apenas em conta a resposta e esquecemos todo o processo. Esquecemo-nos de convidar os alunos a pensar, a questionar, a partilhar e a perceber porque chegaram àquele resultado. Muitas vezes o que fazemos é: damos-lhes a resposta e exigimos-lhe a resposta tal e qual como a pedimos. E isso está longe do que é educar.

A verdade é que todo o sistema está focado nos exames. Existe a chamada ‘cultura da nota’. Para progredir nos estudos e entrar na universidade é preciso ter uma boa média. As crianças vão crescendo com essa pressão.

E isso é triste. É triste pensar que a educação se resume a uma nota. Há gente que pensa que a escola só serve para preparar as crianças para passarem nos exames. Há gente que pensa que a escola serve para educar seres empregáveis. E não. Serve para educar seres íntegros, que têm muitos conhecimentos, e que sabem como aplicá-los. Não só para melhorar a nível individual, mas também coletivamente. Se os ensinas a investigar, a partilhar, a falar em público, eles chegarão a um exame e passarão sem nenhum problema. É preciso incidir no processo. Eles devem sentir-se implicados na aprendizagem. Em 30 dias aproximadamente 90% do que aprendemos numa aula apaga-se, porque falta todo este processo.

E o professor foca-se nesse processo. É isso? Mas tem de articular isso com o currículo, certo?

Pôr o currículo no centro de tudo, para mim, é um horror. No centro de tudo devia estar a criança. Não o professor, não a escola, não o currículo. Uma pessoa é muito mais do que conhecimento. O conhecimento é muito importante, mas há outras coisas que devemos ter em conta também. E como é que se consegue educar seres íntegros ao mesmo tempo que aprendem coisas? Devemos perguntar-nos isto: o que ensino, como ensino e para quê? Não nos devemos esquecer para que é que ensinamos. E se ensinamos para a vida devemos adequar os conteúdos aos alunos para que saibam usá-los.

Consegue adequar os conteúdos a cada um dos seus alunos?

Há ferramentas que devíamos ter sempre em conta e que servem para todas as crianças: seja menino ou menina, de uma religião ou outra e de qualquer que seja o nível social. O respeito por nós mesmos, o respeito pelos outros, pelas diferenças e a responsabilidade social, o compromisso social. Todas estas ferramentas servem para todas as pessoas no mundo. E é preciso termos consciência da importância da autoestima.

Em Portugal os professores dizem que não têm tempo para fazer esse trabalho mais dirigido a cada aluno.

Em Espanha também dizem o mesmo, porque o currículo é muito extenso. Mas se tivermos de cortar o currículo, corte-se então. Para mim há coisas mais importantes na vida do que tentar dar o que decidiram quatro pessoas, que provavelmente nem pisaram uma aula.

Os professores podem fazer isso? Podem cortar o currículo?

Temos de priorizar. É impossível tentar educar se tivermos de encaixar tudo num ano letivo.

Todo este foco no processo, de que temos vindo a falar, implica uma mudança muito grande no paradigma do ensino. E há professores que resistem. Por que acha que isso acontece?

A medicina evolui, as comunicações evoluem, a educação deve evoluir. E isso não significa esquecer a escola tradicional. No sentido em que coisas que funcionavam há 40 anos, funcionarão agora e nos próximos 40. Mas temos de estar conscientes de que não podemos continuar a educar os nossos alunos como nós fomos educados. Por isso, a mente dos professores deve ser sempre flexível e adaptar-se aos novos tempos. Haverá pessoas que não aceitam isto [diz, apontando para o telemóvel], mas terão de mudar. Porque o telemóvel associa-se à vida normal de um adolescente.

Mas introduzir novas tecnologias na sala de aula apenas não basta para levar a cabo a tal mudança. Ou basta?

Não. A tecnologia é uma ferramenta. Nada mais. É importante porque podes partilhar, pesquisar, comunicar.

E como é que se consegue, numa turma com crianças pequenas, com telemóveis na mão, que eles não se distraiam?

Não digo que têm de estar sempre com o telemóvel na mão. Há momentos para tudo: para uma aula expositiva, para trabalho em grupo e para a tecnologia. É como em casa: os pais têm de saber que as crianças não têm de estar todo o dia com o telemóvel.

Aproveitando a deixa dos pais. Costuma dizer-se, em Portugal, que os pais educam e os professores ensinam. Concorda com esta filosofia?

Em Espanha também se diz isso. Mas há frases que temos de apagar e esta é uma delas. Um pai e uma mãe fazem o que podem para educar os filhos, mas quando eles saem de casa e entram na escola entram numa microsociedade. Para mim, a escola é o melhor sítio para ajudar os pais a educar. Ensina-se em casa e na escola, educa-se em casa e na escola. É um compromisso social. O que queremos para sociedade devemos promover na escola, em conjunto com as famílias. O primeiro lugar educativo é a família, a seguir a escola e a seguir a sociedade. O diálogo entre famílias e professores é essencial. É a chave que abre tudo.

Em Portugal há aulas de 90 minutos. Acha possível ter as crianças 90 minutos numa sala a aprender?

Se fosse eu a mandar, acabaria com os horários, tal como existem. Diria para trabalharmos juntos: professor de história e de línguas, por exemplo, na mesma sala. Conseguiríamos que se ensinasse de forma global e por projetos. E se quisermos ensinar por projetos uma hora é muito pouco, mas claro que será muito se quisermos os alunos 1h30 sentados, numa aula expositiva. Sentados, vendo e ouvindo, nem nós [adultos] aguentamos.

O que pensa da competitividade dentro de sala de aula? É importante para alcançar maior sucesso?

Digo sempre que devemos educar para sermos melhores do que antes. Não devemos promover a competitividade entre as crianças. Que mundo queres criar? Um mundo competitivo ou um mundo no qual toda agente colabora?

Mas é possível ter as duas coisas. Pensemos nos desportos em equipa. Os jogadores da mesma equipa ajudam-se, mas competem com a equipa adversária.

Eu fui futebolista e tentei dar o máximo de mim. Todos os dias treinava duro para melhorar. E melhorando sabia que a equipa seguiria em frente.

Dentro das salas , quando forma grupos, cria competição entre eles?

Não. Eles colaboram. Estamos a falar de aprendizagem em todos os sentidos. Aprendem também a respeitar e a partilhar.

E faz testes?

Sim.

E trabalhos para casa?

As crianças passam muitas horas na escola e não têm culpa do currículo ser tão extenso. Ao fim de semana o que gostas de fazer? Passear, desligar do que fazes, certo? As crianças têm mais tempo e mandamos-lhes mais trabalhos para casa. Eu gosto de os pôr a investigar. Mas gosto que tenham tempo para eles e para a família. Por isso, quando envio trabalhos para casa são poucos e servem para complementar ou estimular a sua curiosidade e criatividade.

Como é que se faz com que a criança goste da escola ? Essa seria uma boa pergunta para ser colocada num congresso de professores. Muitos regressariam à criança que foram. Se os fazemos sentir-se parte da escola e da sociedade, se os fazemos falar e partilhar as ideias e se eles se sentem escutados e úteis, no dia seguinte vão com mais vontade para a escola.

Algumas pessoas criticam-no, dizendo que promove a felicidade ignorante. Como responde a estas críticas?

É paradoxal, porque criticam o que não conhecem. Dizem que não há conhecimento, mas também não conhecem. Antes de se abrir a boca deve-se saber do que se fala. É por isso que eu não falo muito. Para mim, saber muitas coisas é importantíssimo. Ter um bom domínio de linguagem e conhecimentos de história. Mas tão importante quanto isto é que as crianças se sintam felizes. E educar na felicidade não significa não ser exigente. Eu sou muito exigente. E digo-lhes que a auto exigência é importantíssima. E quando estou a falar de felicidade estou a falar de educar na resiliência, na frustração, no respeito. Isto está na mesma linha do conhecimento.

Porque acha que o criticam?

Porque falta reflexão. E falta cada um olhar para si e ver-se como um ser imperfeito. Nada é perfeito e estamos sempre a aprender. Se és professor tens de estar sempre a aprender. Eu, quando era criança, sentia-me bem quando me perguntavam o que tinha para dizer ou o que sugeria. Sentia-me importante. Ou quando um professor me tratava com carinho. Eu tive professores muito exigentes e nada carinhosos e sentia terror. Mas também não podemos dar muito carinho sem exigir, porque senão não se aprende nada.

E sempre pensou assim?

Há 15 anos que dou aulas, mas nem sempre pensei assim. Eu era um professor inflexível, mas percebi que tinha de mudar.

E acha que é melhor professor agora?

Sou melhor pessoa agora. Para mim ser professor e pessoa é a mesma coisa.

Como é que lida com mau comportamento dentro da sala de aula?

Ao longo dos anos, fui percebendo que todos os castigos que apliquei nunca funcionaram e cheguei a uma conclusão mais profunda: que esses castigos eram a projeção da minha frustração. Quando já não sabia o que fazer, castigava-os. Só começou a funcionar quando comecei a perguntar-lhes o que tinham para me ensinar a mim e aos colegas. Isso transformou tudo.

Li no seu livro que uma das estratégias foi a criação da “Ilha de Creta”. É uma espécie de castigo suave.

(Risos) É um convite à reflexão. E chamei-lhe “Ilha de Creta” porque gosto muito de mitologia. Quando os alunos vão para essa mesa, isolados do grupo, acabam por perceber que estão melhor em sociedade, no grupo. E isso faz com que queiram voltar.

Inspirou-se em algo ou alguém?

Creio que tudo está inventado. Eu não criei nada. A inspiração está em todos os sítios, num filme, num livro, numa pessoa que vejo na rua, num amigo.

Esta maneira de dar aulas permitiu-lhe chegar aos 50 finalistas do Global Teacher Prize. Concorreram 5.000. Como viu esta distinção?

Com muita tranquilidade. Eu vejo a vida como uma linha. Sei de onde venho e que sou professor. Tudo o que tem acontecido e a exposição mediática são acidentes positivos. Quando isto passar eu voltarei à aula. Tudo isto têm sido presentes. A gente que tenho conhecido, as viagens…

Acha que esta exposição e o facto de as suas ideias chegarem a mais gente, pode ajudar à mudança? Pode estar a ajudar. A única diferença entre o professor César e milhares de professores é o microfone. Há gente admirável e que não servirá nunca de guia. Esta profissão é a mais bonita possível. E eu estou aqui para falar por milhares de professores. Eu não invento nada. Falo de coisas do senso comum e digo, sobretudo, que a criança tem de estar no centro de tudo.

E parece que há cada vez mais professores a perceber que o modelo está esgotado e o quer mudar.

Sim, é verdade. Mas os professores têm de perceber que têm de ser eles próprios a dar o passo e têm de estar conscientes de que não são ilhas. Têm de comunicar. E mudar não significa que haja uma luta entre inovação e escola tradicional. Mudar ou inovar deveria significar estar consciente de que cada passo que damos tem de ir no sentido do bem estar da criança. Tudo está inventado. Temos de conseguir educar tendo em conta o fator humano e com a consciência de que cada passo que damos ou cada palavra que dizemos vai influenciar os demais. E por isso temos de tentar que essa influência seja positiva.

Volto aos resultados. As notas dos alunos melhoram com este método de ensino?

São, comprovadamente, melhores. Em questão de notas e de compromisso social. As crianças nestas escolas sentem-se envolvidas e escutadas. Em algumas escolas até fazem as normas da escola e são os primeiros a cumpri-las.

De todos os projetos que levou a cabo até agora nas escolas, qual o mais marcante?

É difícil porque têm todos contextos distintos. Obviamente que o filme mudo foi muito especial. A escola só tinha seis crianças. Dessas, duas não se falavam por motivos familiares. Eu não conseguia suportar aquilo. A escola com seis crianças estava dividida. Então pensei fazer o filme mudo e disse à menina e ao menino que não se falavam que eles seriam os protagonistas e que se iriam amar. Vê-los a trabalhar juntos e ver como finalmente as famílias e as pessoas daquela povoação se uniram foi incrível.

Em Portugal, os professores sentem-se pouco respeitados. Porque é que acha que os professores foram perdendo o respeito dos alunos e dos pais? De quem é a culpa?

Aplica-se o mesmo a Espanha. Mas eu não usaria a palavra culpa. Se recuarmos, o respeito estava muitas vezes associado ao medo. E foi-se de extremo a extremo. Temos de refletir, porque o respeito não é sinónimo de medo. Não se pode exigir respeito. O respeito ganha-se. E sim, a sociedade tem de começar a dar valor a esta profissão que é a mais importante de todas.

 

 

Matemático cria um método para que todos (mas mesmo todos) sejam bons nos números

Março 6, 2017 às 8:00 pm | Publicado em Vídeos | Deixe um comentário
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Texto do http://observador.pt/ de 16 de fevereiro de 2017.

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O canadiano John Mighton é dramaturgo, autor e professor de matemática e tem lutado para que a disciplina dos números deixe de ser o bicho papão do ensino, conta a Quartz. Para tal, projetou um programa de ensino que testou alguns dos alunos com mais problemas a fazer cálculos matemáticos. Provou-se que, com este método, todas as crianças começaram a ter resultados positivos no domínio dos números e até a apreciar a matemática.

O seu projeto dá pelo nome de JUMP, (Junior Undiscovered Math Prodigies) e já está a ser utilizado por 15 mil crianças, em oito estados dos EUA, outras 150 mil no Canadá e cerca de 12 mil em Espanha. O próprio Departamento de Educação norte-americano considerou o projeto tão positivo que doou cerca de 2,75 milhões de dólares (cerca de 2,59 milhões de euros), em 2012, a dois cientistas cognitivos do Hospital ‘Sick Children’ e da Universidade de Toronto para que conduzissem um estudo de controlo em 1.100 crianças, em 40 salas de aula.

Os resultados finais destes testes irão sair ainda este ano, esperando que se confirme que os alunos que utilizaram o JUMP, em 18 salas de aulas, progrediram duas vezes mais rápido do que os alunos que receberam a educação padrão de matemática, noutras 11 salas de aula.

Como funciona o programa?

John Mighton identificou primeiro os dois grandes problemas na forma como se ensina a matemática:

  1. Sobrecarrega-se o cérebro das crianças, num movimento de alternância entre o concreto e o abstrato. Este movimento coloca demasiado stress na sua memória de trabalho;
  2. Há a tendência de se dividir as turmas consoante as suas habilidades. Isto cria hierarquias que desmotivam os alunos mais fracos e que também não beneficiam os melhores.

Segundo o professor, ao longo da última década, tanto os EUA como o Canadá adotaram uma abordagem onde os alunos têm que descobrir imensos conceitos por si próprios. Num artigo publicado na Scientific American, ele explica que na maioria das aulas expõem-se problemas matemáticos que não se baseiam numa regra geral, fórmula ou procedimento concreto (como encontrar o perímetro de um retângulo), mas sim em problemas complexos que têm como exemplos o mundo real e que, por sua vez, podem ser abordados de várias formas, tendo várias soluções (como por exemplo medir telhas de telhados).

Segundo o estudioso, este tipo de abordagem, ao qual deu o nome de ‘aprendizagem baseada em problemas’, faz como que os professores não tenham um papel de instruir diretamente os alunos, mas sim deixa-los tentar encontrar soluções, sozinhos, para problemas complexos e realistas que têm múltiplas abordagens e respostas, sendo que muitas crianças ainda não têm as ferramentas necessárias para descobrir quais as respostas. As crianças acabam, desde cedo, por ficar frustradas e acreditar que a matemática é mesmo um ‘bicho de sete cabeças’.

O principal problema neste tipo de métodos é que exigem que as crianças estejam constantemente com demasiada informação a acontecer ao mesmo tempo nos seus cérebros. Para um melhor êxito, o matemático defende que as crianças terão mais sucesso na matemática quando a mesma é dividida em vários componentes que são explicados cuidadosamente e só depois praticados, de uma forma contínua.

O matemático afirmou que alguns críticos iriam argumentar que todos os bons professores abordam os problemas matemáticos de várias formas mas, na verdade, muitos professores são também eles ansiosos quanto à matemática e acabam por passar essa ansiedade para os alunos. O mesmo acontece com os pais.

Nikki Aduba foi uma das pessoas que ajudou a implementar o método de Mighton nas escolas de um bairro Londrino, em Lambeth. Nikki afirmou que o matemático explicou todos os passos com tanta atenção e paciência que todos os alunos conseguiam acompanhar o seu raciocínio. Solomon, professora de matemática, foi a responsável por conduzir o projeto piloto JUMP. Foram os pequenos passos, diz, que tornaram a matemática acessível a todos os alunos, permitindo que todos eles tivessem sucesso, pela primeira vez, nos números, principalmente porque conseguiam entender todos os passos e, com isso, ficavam motivados. Com o passar do tempo, os alunos começaram a praticar mais e mais, sendo capazes de desenvolver habilidades que poderiam pensar que não tinham.

Para Mighton os pequenos passos é que fazem o sucesso e afirmou que não vai desistir até que todos pratique este método de ensino. Em analogia, o estudioso afirmou que a matemática “é como uma escada: se se perder um passo, é difícil de se continuar e há um conjunto de consequências”.

Quando se introduziu este método numa escola de Manhattan, no ano letivo de 2013/2014, nos alunos de 4º ano, verificou-se um aumento significativo nas notas dos alunos, em relação a toda a cidade de Nova Iorque. Agora, cada turma dessa escola está a utilizar este método como forma de ensino.

O programa JUMP fez com que, em 2015, Mighton ganhasse o prémio de ‘Empresário do Ano’. O projeto JUMP está a ser desenvolvido e trabalhado há cerca de 15 anos, sendo que o matemático nunca teve qualquer equipa que o ajudasse. O projeto, no início, foi fruto apenas do seu próprio investimento.

 

 

Roda dos Alimentos Mediterrânica Interativa

Fevereiro 28, 2017 às 8:00 pm | Publicado em Recursos educativos, Vídeos | Deixe um comentário
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Roda da Alimentação Mediterrânica

http://nutrimento.pt/cartazes/a-roda-da-alimentacao-mediterranica/

A nova Roda dos Alimentos Mediterrânica interativa pode ser utilizada pelos profissionais da saúde e educação e disponibilizada em unidades de saúde, assim como no contexto de sala de aula como uma ferramenta para auxiliar os professores na abordagem ao tema.

Neste sentido e de forma a facilitar o seu acesso e utilização, considerando a dificuldade no acesso à internet por muitas instituições, disponibilizamos a roda em vários formatos de uso:

http://nutrimento.pt/noticias/roda-dos-alimentos-mediterranica-em-video-para-todos/

Professora dá lição sobre bullying usando duas maçãs

Fevereiro 28, 2017 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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texto do site http://uptokids.pt/de 10 de fevereiro de 2017.

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Rosie Dutton, uma professora britânica, explicou de uma forma criativa e bem eficaz os efeitos do bullying.

Rosie apenas precisou de duas maçãs.

Por fora, as frutas eram aparentemente iguais: grandes, muito vermelhas, daquelas que escolhemos nos mercados.

Só que, antes de levá-las para a sala de aula, a professora bateu com uma delas no chão repetidamente, mas de forma delicada. As crianças não souberam disso.

Na sala de aula mostrou as duas maçãs aos alunos, e pediu-lhes que as descrevessem. As semelhanças entre elas eram evidentes.

“Peguei na maçã que tinha atirado ao chão e comecei a dizer às crianças o quanto eu não gostava dela, que eu a achava nojenta, com uma cor horrível e que o pincaro era muito curto. Eu disse-lhes que, por eu não gostar daquela maçã, queria que elas também não gostassem, então elas deveriam insultar a fruta.”

As crianças olharam para Rosie admirados, mas começaram a passar a maçã de mão em mão, e cada aluno fazia um insulto à maçã. “És feia!” “Cheiras mal” “Não prestas”

“Nós ofendemos mesmo aquela pobre maçã. Até me senti mal por ela.”

De seguida, Rosie pediu que passassem a segunda maçã de mão em mão e que todos a elogiassem: “Que maçã adorável”, “A casca é bonita”, “Tens uma cor linda”.

Depois a professora segurou as duas maçãs e, em conjunto com as crianças, falaram sobre as suas semelhanças e diferenças. Aparentemente continuavam iguais..

A professora cortou as duas maçãs ao meio. A maçã elogiada era clarinha, fresca e sumarenta por dentro.

A maçã insultada estava cheia de marcas, nodoas negras, e estava mole por dentro por dentro.

“Acho que as crianças tiveram uma espécie de iluminação naquele momento. Entenderam que, o que vimos no interior das maçãs representava cada um de nós quando se sente ofendido, triste por alguém nos maltratar através de ações ou palavras”, explica no post que fez no Facebook.

“Quando as pessoas sofrem de bullying, especialmente as crianças, sentem-se péssimas por dentro e muitas vezes não demonstram nem exteriorizam o que estão a sentir. Se não tivéssemos cortado aquela maçã ao meio, nunca teríamos percebido este efeito”

Na semana anterior, Rosie havia partilhado com as crianças uma situação em que ficou triste com as ofensas de uma pessoa.

“Nós podemos impedir que isso aconteça. Podemos ensinar às crianças que que não devemos insultar, maltratar, ou gozar com os colegas. Podemos ensinar que devemos sempre defender os coleguas e não colaborar com qualquer tipo de bullying, tal como aluna hoje, que se recusou a insultar a maçã.”

A esclarecedora lição foi dada numa aula chamada Relax Kids. Nesta aula, a professora e a escola oferecem ferramentas e técnicas para as crianças lidarem com os seus sentimentos e emoções, e ajudam os alunos a aprender a lidar com o stress ou ansiedade.

Rosie Dutton diz que esta postura é transversal a todas as aulas. Mas nesta disciplina, especificamente, fala-se sobre emoções e as atividades realizadas promovem o trabalho em equipa, o respeito, o apoio aos colegas, a resolução de conflitos, a auto-estima e a confiança. Neste espaço pretende-se ainda divulgar espaços e criar elos seguros com as crianças, para que saibam onde e a quem devem recorrer se sentirem que precisam de ajuda.

Esta valiosa lição pode e deve ser transmitida aos nossos filhos na escola, em casa, nas actividades, onde quer que vão. Quanto mais cedo as crianças perceberem o efeito do Bullying, mais depressa estarão atentas ao que se passa em seu redor de forma a poderem proteger alguma vítima, ou protegerem-se a si próprias. É importante que as crianças entendam que se forem postas de parte ou insultadas pelos colegas a culpa dão é delas. Mas deles. E que eles são os bullys.

 

Nas salas de aulas reina a “pequena indisciplina”

Fevereiro 10, 2017 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança, Site ou blogue recomendado | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.publico.pt/ de 7 de fevereiro de 2017.

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Só 0,01% dos alunos foram transferidos compulsivamente de escola em 2014/2015, revela o Ministério da Educação. Aulas expositivas “potenciam” problemas, dizem pais e directores.

Clara Viana

Este é um dos casos em que as minorias contam. Segundo um inquérito realizado junto dos directores de 45 agrupamentos frequentados por 53.664 alunos, 8,23% dos estudantes tiveram em 2015/2016 participações disciplinares. E, no entanto, a nível internacional, os professores portugueses são dos que se queixam mais de problemas de indisciplina em sala de aula, conforme dão conta inquéritos internacionais a docentes.

“Basta um aluno ou dois malcomportados por turma para darem cabo de uma aula”, comenta a propósito Alexandre Henriques, professor do 3.º ciclo e secundário e autor do inquérito sobre indisciplina nas escolas, feito em colaboração com a Associação Nacional de Directores de Agrupamentos e Escolas Públicas (ANDAEP), que nesta terça-feira será publicado no blogue ComRegras de que também é responsável.

É o segundo inquérito sobre o tema realizado por Alexandre Henriques. O primeiro retratava a situação em 2014/15. Para que pudessem ser feitas comparações entre ambos, o autor levou em linha de conta apenas uma parte dos agrupamentos que este ano responderam ao inquérito, de modo a abranger um universo de alunos idêntico ao do ano passado: cerca de 35 mil. Resultados: o número de alunos, neste universo, com participações disciplinares passou de 2014/2015 para 2015/2016 de 2641 para 3035; registou-se também um acréscimo nos dois tipos de medidas disciplinares previstas pelo Estatuto do Aluno. Nas medidas ditas correctivas, de que o exemplo mais frequente é a ordem de saída da sala aula, passou-se de 4,18% para 5,28%; nas sancionatórias, que podem levar à suspensão ou à transferência compulsiva de escola, a oscilação foi de 1,96% para 2,28%.

participacoes-medidas

Em números absolutos, nos agrupamentos inquiridos há registo de 3807 medidas correctivas em 2015/2016 que foram aplicadas a 1854 alunos, o que quer dizer que muitos dos visados são repetentes na matéria. O mesmo se passa nas medidas sancionatórias, com um total de 1054 aplicadas a 802 alunos.

participacoes-alunos“Suspender um aluno não se faz”

Em resposta ao PÚBLICO, o Ministério da Educação indicou que em 2014/2015, últimos números que tem disponíveis, “foram instaurados 215 procedimentos disciplinares que originaram transferência de escola (a medida sancionatória mais gravosa), o que representa 0,01% do total de mais de um milhão de alunos”.

“Sou director há 14 anos e nunca suspendi um aluno, nem nunca o farei. Porque mandar um aluno para a rua é mandar também o problema para a rua e isso não se faz. Isto não quer dizer que não tenhamos tido problemas graves, mas conseguimos resolvê-los na escola”, refere a propósito o presidente da Associação Nacional de Dirigentes Escolares (ANDE), Manuel Pereira.

Ao contrário da evolução de crescimento identificada nas conclusões apontadas no estudo de Alexandre Henriques em colaboração com a ANDAEP, Manuel Pereira dá conta de que no agrupamento de que é director, agrupamento de Escolas de Cinfães, “há uma diminuição clara da indisciplina”, o que ele atribuiu à “grande política de proximidade com os alunos e encarregados de educação”.

O aumento reportado no estudo não significa “que haja mais casos de indisciplina nas escolas, mas sim que estas estão mais atentas ao fenómeno e o reportam mais”, afirma Filinto Lima, responsável da ANDAEP, que lamenta que o Ministério da Educação não tenha dados públicos sobre este tema, tornando assim impossível ter um retrato nacional da indisciplina na escola.

 

participacoes-disciplinaresAulas expositivas potenciam indisciplina

Apesar destas limitações, Filinto Lima não tem dúvidas de que, nesta matéria, “é a pequena indisciplina que reina nas escolas”. Os alunos que olham para trás, que atiram um avião de papel, que falam uns com os outros, são alguns dos casos que aponta.

“Difícil é sentá-los e depois mantê-los cativados e pró-activos durante a sala de aula”, afirma, para acrescentar que as aulas expositivas, com o professor a debitar a matéria, ainda muito frequentes em Portugal, acabam por potenciar “situações de indisciplina”.

“Pede-se às crianças que fiquem imóveis numa sala de aulas durante 50 minutos”, lembra o presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais (Confap), Jorge Ascenção, acrescentando que muito do que está em causa também aqui são as práticas pedagógicas em sala de aula. “Aquilo que é normal numa criança, uma forma de estar mais irrequieta, é vista muitas vezes como indisciplina”, frisa.

Jorge Ascensão considera, por isso, que há sempre “algum exagero” quando se fala de indisciplina nas escolas. “Desde a ministra Maria de Lurdes Rodrigues, que existe uma tendência de vitimização por parte dos professores que, por vezes, quase leva a crer que Portugal é um país de crianças gangsters. Claro que há situações graves nas escolas, mas sempre as houve”, diz.

Os dados de um inquérito aos professores realizado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), em 2013, dão conta de que os docentes portugueses estão entre os que dizem gastar mais tempo a manter a ordem em sala de aula: 17,7% do tempo de aulas é consumido nesta tarefa contra uma média de 13,1% na OCDE. No mesmo inquérito, Portugal está entre os cinco países com uma maior percentagem de professores (38%) a reportarem terem turmas em que mais de 10% dos alunos têm problemas comportamentais.

 

http://www.comregras.com/

“Gestão dos conflitos passa muitas vezes para as mãos dos alunos”

Fevereiro 8, 2017 às 5:10 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista de João Sebastião ao https://www.publico.pt/ de 7 de fevereiro de 2017.

O sociólogo João Sebastião foi responsável pelo Observatório de Segurança em Meio Escolar PAULO PIMENTA / PUBLICO

O sociólogo João Sebastião foi responsável pelo Observatório de Segurança em Meio Escolar PAULO PIMENTA / PUBLICO

 

João Sebastião, investigador do ISCTE e antigo responsável pelo Observatório de Segurança em Meio Escolar, aponta mais o dedo aos professores do que aos alunos.

Clara Viana

A indisciplina em sala de aula é um dos problemas da escola portuguesa?

O principal problema da escola é o insucesso escolar porque o objectivo da escola antes de tudo o mais é o de ensinar. Portanto, desviar o assunto para a indisciplina é desviar do essencial. Dito isto, lembro que a questão da disciplina é comum a todas as organizações, não é um problema específico das escolas. Trata-se de garantir que todos os indivíduos nessas instituições tenham comportamentos semelhantes e expectáveis.

O que é mais difícil nas escolas por causa das idades dos alunos?Esse é um dos problemas. Muitos estão na adolescência em plena fase da contestação da autoridade. Depois há a questão da dimensão. Temos mais de um milhão de alunos todos os dias nas escolas e todos eles são diferentes. Não é possível levá-los a comportarem-se de forma igual.

E também temos os professores, que são mais de 120 mil, e muitos deles próprios também não cumprem as regras das escolas. Criam as suas próprias o que leva a uma diversidade muito grande de comportamentos que tem também influência no comportamento dos alunos. Por exemplo, há uns que não querem as mochilas em cima da mesa, outros que não querem chapéus nas cabeças, outros não se importam, etc. Portanto são os alunos que acabam por ter de descobrir quais são as características particulares dos professores para se adaptarem a elas. A gestão de conflitos passa assim, muitas vezes, para as suas mãos.

Nos inquéritos feitos a professores no âmbito dos testes PISA [estudo da OCDE feito de três em três anos], os docentes portugueses são dos que mais reportam situações de indisciplina. Quer isto dizer que os alunos portugueses são mais indisciplinados do que outros?

Nem de perto, nem de longe. O que se passa é que os professores portugueses têm uma cultura defensiva que os leva a considerar que tudo o que é problema na escola é responsabilidade de fora. Por exemplo, a indisciplina é um problema das famílias que não educam bem os seus filhos.

O que devíamos ter era um sistema de regras simples e claras para toda a comunidade escolar e que fosse discutido por todos e aplicado a todo. As escolas em que tal acontece, que são poucas, obtêm resultados muito mais eficazes.

 

 

Tecnologias: há diferenças entre público e privado

Fevereiro 3, 2017 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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texto do site http://www.educare.pt/ de 23 de janeiro de 2017.

O documento citado no texto é o seguinte:

Modernização Tecnológica das Escolas 2014/2015

educare

Distribuição não é igual. No ensino público, em 2014/2015, a maior parte dos computadores estava no 3.º ciclo. No privado, havia mais computadores no Secundário. E, no conjunto, 53% das escolas não tinham quadros interativos nas salas de aula.

Sara R. Oliveira

Os anos passam e as escolas estão cada vez mais tecnológicas. Há mais computadores, mais alunos com acesso à Internet, mais maquinaria disponível para fins pedagógicos. As novas tecnologias tornaram-se uma presença constante no dia a dia dos estudantes. Mesmo assim, nem todas as escolas do país têm quadros interativos nas salas de aula. O documento “Modernização Tecnológica das Escolas 2014/2015”, publicado pela Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC), revela os recursos tecnológicos das escolas públicas e privadas, do pré-escolar ao Secundário, do ensino regular, tuteladas pelo Ministério da Educação (ME) e localizadas em Portugal Continental.

Há diferenças neste mundo das novas tecnologias entre o ensino público e privado, como mostram as informações recolhidas e tratadas do inquérito realizado anualmente junto das escolas. No ano letivo em análise, 2014/2015, havia 436 870 computadores no ensino regular Básico e Secundário em Portugal continental. No público, estavam 369 401 computadores, no privado dependente do Estado (em que 50% dos seus fundos regulares de funcionamento provêm de organismos estatais) 21 574, e no privado independente 45 895. Em termos gerais, 30% dos computadores estavam no 3.º ciclo, 28% no Secundário, 18% no 2.º ciclo, 15% no 1.º ciclo e 9% no pré-escolar.

A distribuição varia consoante o tipo de ensino. No público, a maior parte dos computadores, 121 353, estava no 3.º ciclo, seguindo-se o Secundário com 96 298, o 2.º Ciclo com 75 898, o 1.º ciclo com 56 574, e o pré-escolar com 19 278. No privado independente, a configuração é diferente. É no Secundário que havia mais computadores, 22 806 dos 45 895. Quase metade, portanto. Depois surge o pré-escolar com 7604, o 1.º ciclo logo a seguir com 7121. O 3.º ciclo aparece em quarto lugar com 5739 e em quinto o 2.º ciclo com 2625 computadores. No ensino privado dependente do Estado, a distribuição é outra. No ano letivo em análise, havia mais computadores no pré-escolar, 12 169 dos 21 574. O 3.º ciclo surge em segundo lugar com 3 874, seguido do Secundário com 2392 e o 2.º ciclo com 2310. O 1.º ciclo ficava em último com apenas 829 computadores, apenas 4% do total.

Em termos de dimensão, e em termos gerais, 36% dos computadores estavam em escolas que tinham entre 500 e 999 alunos, 35% em escolas com 100 a 499 alunos, 19% em escolas com mais de mil estudantes e 10% com menos de 100. Também aqui há diferenças entre o ensino público e o privado. No público, a maior percentagem dos computadores, 41%, estava em escolas que tinham entre 500 e 999 alunos, 33% em escolas com entre 100 e 499 alunos, 19% com mais de mil e 7% com menos de 100. No privado, havia mais computadores nos estabelecimentos, 56%, que tinham entre 100 e 499 alunos, 20% em escolas com menos de 100 alunos, e 12% em escolas com entre 500 e 999 alunos e 12% em escolas com mais de mil alunos.

Do total dos computadores, no público e privado, 84% destinavam-se a fins pedagógicos e 16% eram para uso administrativo. Oitenta e três por cento eram computadores de secretária e 17% portáteis. Dos 436 870 computadores, 248 403 tinham mais de três anos de vida e 188 467 três ou menos anos de atividade. No geral, em termos de antiguidade, 57% dos computadores que estão nas escolas públicas e privadas têm três ou mais anos. E 54% dos portáteis têm mais de três anos.

Dos 366 202 computadores com ligação à Internet, 307 925 eram usados para fins pedagógicos e 58 277 para fins administrativos. E 61% dos que eram ligados para fins pedagógicos tinham mais de três anos de vida e 64% dos usados para fins administrativos tinham igualmente mais de três anos de atividade. O inquérito efetuado revela ainda que 53% das escolas públicas e privadas, do pré-escolar e ensino não superior, não tinham quadros interativos em 2014/2015. Ou seja, 4500 escolas não tinham quadros interativos e 3939 dispunham desse meio.

O documento publicado pela DGEEC não inclui informação sobre recursos tecnológicos de instituições de educação e formação tuteladas pelo Instituto de Emprego e Formação Profissional, centros de emprego e formação profissional, nem dados relativos a outras entidades registadas no sistema de informação e gestão de ofertas do ME. “A informação agora publicada resulta de um processo de recolha, validação e tratamento de dados obtidos através de inquérito anual – questionário eletrónico, tipo de recenseamento – relativos a recursos tecnológicos existentes nas escolas”, lê-se no documento.

 

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