Campanha do Unicef Portugal combate falta de apoio a recém-nascidos prematuros e famílias

Outubro 19, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social, Vídeos | Deixe um comentário
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Notícia da ONU News de 8 de outubro de 2019.

Iniciativa em Portugal deve ajudar famílias em todo o mundo; todos os anos 2,6 milhões de bebês morrem antes de completarem um mês; cerca de 1 milhão não sobrevivem sequer 24 horas.

O Fundo das Nações Unidas para a Infância, Unicef, lança esta semana uma campanha em Portugal para angariar donativos para a prevenção e acompanhamento de bebês prematuros e das suas famílias.

Os donativos serão usados em programas de sobrevivência infantil em todo o mundo.

Ajudar

Com a hashtag “Ligados à Vida”, o spot de televisão de 30 segundos conta a história de Blessing, uma tanzaniana que nasceu prematura e que a agência ajudou a salvar através de uma unidade de cuidados intensivos neonatais.

A campanha dura de 7 a 27 de outubro na televisão e na internet. Para ajudar e contribuir para esta causa, os portugueses só têm que ligar para o 760 100 215 (chamada de valor acrescentado – €0,60 + IVA) ou visitar o site www.unicef.pt.

Importância

Todos os anos 2,6 milhões de bebês morrem antes de fazerem um mês. Cerca de 1 milhão morre durante as primeiras 24 horas.

Mais de 80% das mortes de recém-nascidos acontecem por complicações durante o parto e infecções como meningite e pneumonia. Segundo a agência da ONU, milhões de vidas poderiam ser salvas se mães e filhos tivessem acesso aos cuidados necessários, a uma boa alimentação e a água potável.

Ação

Com os donativos desta campanha, o Unicef pretende ajudar a prevenir e a reduzir a prematuridade de várias formas.

Devem ser criadas e reforçadas unidades de cuidados intensivos de neonatologia, formadas equipas médicas em situações de emergência e triagem e comprados novos equipamento e medicamentos, incluindo aquecedores eléctricos e máquinas de respiração de oxigénio.

Os donativos angariados com a campanha também devem servir para prestar acompanhamento psicológico às famílias.

http://www.youtube.com/watch?v=oIJYGDo1CBs

Ligados à Vida

“Estamos a criar adultos egocêntricos, centrados apenas nas suas necessidades”

Outubro 18, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista de Rute Agulhas ao Pontos SJ de 16 de março de 2018.

Rute Agulhas, psicóloga, acompanha crianças e jovens, alguns em grande sofrimento. Diz que sociedade imediatista e consumo excessivo de tecnologia estão a gerar jovens que não sabem sonhar, esperar, nem lidar com a frustração.

Escreveu recentemente uma carta aberta aos youtubers onde lhes pedia atenção àquilo que faziam. Isto porque tinham chegado ao seu consultório crianças com crises de ansiedade devido aos vídeos que viam no youtube. O que é que este fenómeno nos diz sobre as crianças e jovens de hoje?

Os youtubers são um fenómeno recente em Portugal mas com uma adesão exponencial, e entre miúdos cada vez mais novos. Muitos dizem de forma clara que quando forem grandes querem ser youtubers. Vejo miúdos de 10 anos que fazem cursos para criar e manter uma conta no youtube.

O que é que isto nos diz dos sonhos e desejos das nossas crianças e jovens?

Os youtubers são um modelo incontornável. São jovens adultos, entre os 20-25 anos, que fazem vídeos com conteúdos diversos: uns são puro entretenimento, brincadeiras, que não trazem grandes consequências para os miúdos, mas outros têm conteúdos assustadores, como a “Maria Sangrenta”, ou abordam temas que depois não são clarificados, levando os miúdos a fantasiar. Escrevi esta carta por perceber que havia miúdos com ansiedades, medos, pesadelos e até dificuldades em adormecer porque pensavam em conteúdos dos vídeos. Depois há os jogos, onde aparece a cara do youtuber a jogar e, se uns são inofensivos, outros, como o “Palhaço assassino”, têm conteúdos assustadores. Os miúdos vêem o seu modelo a expressar medo, a ficar assustado, a gritar, a arregalar os olhos. E, por norma, tendemos a mimetizar e a comportar-nos por observação dos nossos modelos. Os youtubers são modelos porque são simpáticos, geram empatia, e os miúdos identificam-se com eles, querem ser iguais a eles, vestir como eles, ter as mesmas coisas do que eles. Os seus produtos de merchandising, livros ou revistas, esgotam num instante, e as meninas pintam o cabelo e maquilham-se da mesma forma das youtubers.

A minha ideia foi levar os youtubers, que talvez façam isto sem pensar nas consequências, a refletir sobre a importância do seu papel, pois têm centenas de milhares de seguidores. Por exemplo, o Casio atingiu há dias os cincos milhões de seguidores. Os miúdos estão sempre em cima do acontecimento pois usam os telemóveis e tablets dos pais, fazem uma subscrição, e quando há um novo conteúdo são notificados. Muitos pais nem sabem. E se não estão a par de tudo, quando chegam à escola imediatamente passam a estar.

A questão central é que aos pais, educadores e família compete o dever de supervisão dos conteúdos e do tempo gasto nisto. Há miúdos que passam horas agarrados ao youtube. Mas muitos pais estão tranquilos porque os filhos estão sossegadinhos no quarto e não estão na rua… O ISCTE fez um estudo recentemente que mostrou que os pais ainda continuam a achar que os perigos estão na rua, são as drogas, os consumos, as más companhias. Não acham que as redes sociais sejam preocupantes e não supervisionam. Os miúdos, que são inteligentes, sabem fazer mais do que os pais e apagam o histórico depois de usar o tablet. Há pais que põem regras, como não levar os telemóveis para a cama. Mas a verdade é que há miúdos que esperam que os pais adormeçam e levantam-se para ir buscá-los. Outros acordam às seis da manhã ao fim de semana, e quando os pais acordam às 9 horas, já eles têm três horas de tecnologias. Na escola, se não têm telemóvel, vêem no dos amigos. Não há forma de controlamos a 100 por cento esta exposição, por isso o investimento só pode passar pela educação.

Como se consegue?

Tem que se conversar sobre o que vêem, explicar, perder tempo, estar com eles a ver. Por vezes, os miúdos estão com phones e nós nem sabemos o que estão a ouvir. Há situações em que têm mesmo de por filtros nos equipamentos. Há pais muito diferenciados que confiam plenamente que os miúdos já têm maturidade para fazer o seu filtro. Mas não têm. Tem de caber aos pais esse papel. Por outro lado, não se trata de culpabilizar os youtubers mas de ajudá-los a serem mais sensíveis ao que fazem e aos seus impactos.

Como é que eles reagiram à sua interpelação?

Reagiram bem e admitiram que nem sempre pensam nas consequência. Por vezes até alertam no final dos vídeos “atenção, não repitam isso, é uma brincadeira, não façam isso sem a presença de um adulto“. Mas estamos a falar dos últimos dez segundos do vídeo, onde a atenção da criança já se esbateu. A mensagem não passa.

No meio de tudo isto, as crianças ficam aterrorizadas, com medos. Mas porque é que continuam a ir ver, mesmo após as recomendações?

Os youtubers misturam conteúdos assustadores – que levam a medos, ansiedades e problemas do sono – com conteúdos lúdicos. Quando os miúdos começam a ver um vídeo não sabem se será assustador e é muito difícil parar a meio. Os youtubers são comunicadores natos, muito apelativos e expressivos a nível não verbal. Os miúdos também afirmam: “depois chego à escola e não tenho nada para comentar”. Ou seja, sentem-se excluídos face aos pares. Todos viram, comentaram, e eles sentem-se excluídos. E nesta idade é muito importante sentirem-se parte de um grupo. No outro dia um dizia-me: “por um lado quero ver, por outro não quero”. Ficam naquela ambivalência. E se não têm ninguém que os ajude a processar e a pensar as vantagens e desvantagens de ver, como podem lidar com o chegar à escola e os outros gozarem por não terem visto? Então optam por ser iguais aos outros, porque há este fenómeno de identificação.

O espaço de conversa entre pais e filhos é cada vez mais difícil?

Cada vez há menos tempo para isso. As pessoas não podem deixar de trabalhar mas há pequenas coisas que podem fazer a diferença, como não ter o rádio ligado quando se vai buscar as crianças à escola, não jantar com a televisão acesa, aproveitar o banho para interagir com os filhos. Sabemos que os miúdos não reagem muito quando lhes perguntamos como foi o dia. Este tipo de interrogatório é infrutífero, é de uma forma mais descontraída que as coisas vem. Os rituais familiares que facilitem a comunicação e a expressão afetiva são muito importantes. São zonas de conforto, criam previsibilidade na vida das crianças. Não se trata de criar tempo extra – os pais queixam-se muito que esse tempo extra não existe -, mas de aproveitar o tempo que têm.

Mas vemos famílias juntas no restaurante onde miúdos e pais estão agarrados ao telemóvel…

Os pais são os modelos. Se eles estão agarrados, é difícil dizer aos filhos para não estarem. Pior: os pais dão os telemóveis e os tablets aos filhos para eles se calarem. Desde pequeninos que fazem isso.

Qual o impacto disso nas crianças?

Não podemos fazer de conta que não estamos na era das tecnologias e pensar que os nossos miúdos de hoje vão crescer da forma como nós crescemos. Quando eu digo aos meus filhos que tive telemóvel aos 23 anos eles quase que desmaiam. A realidade não vai ser a mesma, é um facto. Mas é preciso um equilíbrio e isso é que muitas vezes não se consegue. Os pais delegam muito na internet: se o filho está a fazer o TPC e tem uma dúvida, respondem: “vê no Google“. É a resposta mais fácil. Os pais têm um papel pedagógico e, em vez de ir ao Google, pode ir ao dicionário ou à enciclopédia. Isso implica motivação e sensibilidade e muitas vezes os pais preferem uma solução mais tipo penso rápido do que uma solução de fundo.

Esse consumo excessivo de tecnologia não traz danos a nível da criatividade e da empatia?

O principal impacto é o imediatismo que os miúdos querem em tudo. É o aqui, o agora, e o já. A tolerância à frustração é baixíssima, não têm capacidade de adiar o presente. Os pais, como se sentem culpados pela falta de tempo para os filhos, tendem a compensá-los de outras formas, muitas vezes desajustadas, como por exemplo o materialismo, e o já, o agora. Os miúdos não têm capacidade de espera. Por definição uma criança ou adolescente é auto-centrado, pensa que o mundo gira à sua volta. Se não houver ninguém que o ajude a descentrar-se, a ver que há realidades para além deles próprios, é difícil. Estamos a criar adultos egocêntricos, centrados apenas nas suas necessidades e pouco empáticos. E isso assusta-me.

Mas vai percebendo que também há sonhos, valores e coisas positivas que movem estas crianças?

Claro. Eu vejo de tudo. Ainda no outro dia um miúdo me dizia: “no Natal não quero presentes pois para mim o mais importante é estar com a família, as pessoas de que eu gosto…” Eu até pensei que não estava a ouvir bem pois só estou habituada a ouvir um consumismo desenfreado.

O que esperam os pais dos filhos?

Bons alunos, excelentes notas. Os miúdos têm agendas assustadoras, cheias de atividades extra curriculares e os pais só esperam que eles sejam os primeiros aqui e ali. É quase uma coisa narcísica para os pais: “o meu filho foi o melhor nisto“. Mas se calhar o filho está triste, não tem amigos, está de rastos, e quase não dorme porque sai do futebol às nove da noite e entra na escola às oito da manhã. Parece que os pais não vêem isso: não há tempo para fazer nada, como se fazer nada fosse uma perda de tempo. Não fazer nada é a coisa mais importante do mundo. Para eles criarem e sonharem alguma coisa têm de ter espaço para isso, e não têm. Depois chegam as férias e os pais só querem ocupar-lhes o tempo ao máximo.

Há pouco falava da espera. Agora da gratuidade. São tudo valores que são difíceis de transmitir hoje?

Sim… Ainda vejo algumas famílias com estas preocupações. Por exemplo, de não ver televisão, de restringir o uso das tecnologias, de privilegiar o contacto com a natureza, de dar metade dos presentes de Natal a uma instituição. Há pais que fazem este esforço… Mas a falta de tempo e a necessidade que os miúdos têm de conversar é enorme. Os pais ficam muito perdidos, por vezes querem ser os melhores amigos dos filhos e os papéis confundem-se. Há pais que me dizem: “quero ser o melhor amigo dela para ela me contar tudo“. Mas ela tem que contar o que entende, porque confia no pai e vê nele um papel parental e não um amigo.

Os pais têm dificuldade em gerir este desejo de proximidade e autonomia?

Sim. E quando entram na pré adolescência, por um lado querem monitorizar – e devem – mas depois há o respeito pela privacidade. Os miúdos reagem mal quando se vai ver o telemóvel ou a conta de instagram. Pais muito controladores levam a que os miúdos criem contas paralelas nas redes sociais. E eles acham que controlam e não controlam nada. Tem de passar pelo diálogo e isso implica tempo, disponibilidade, e os pais perceberem que isso é importante. Muitas vezes, o sucesso académico, profissional  e financeiro são a única bitola para medir o sucesso. Os pais vangloriam-se muito do sucesso dos filhos, como se fosse o prolongamento do seu sucesso pessoal. Ou pelo contrário, para que eles possam ser aquilo que eles não puderam ser.

E o contrário também acontece? Os pais sentirem o falhanço dos filhos como falhanço pessoal?

Sim. Perguntam-se: “onde é que eu falhei? O que vão pensar de mim? Qual vai ser a minha representação social se o meu filho não for o melhor?” Há uma metáfora na parentalidade que diz que educar um filho é como lançar um papagaio de papel. Se damos pouca corda e puxamos muito, o papagaio cai. Mas se damos muita corda, o papagaio perde-se. Este equilíbrio, que não é fácil, é entre a autonomia e a segurança, o vínculo. Deixar voar mas perceber que há aqui segurança, um sítio onde podem sempre voltar. Este é um equilíbrio que implica ajustamentos e nem sempre os pais estão disponíveis para isso.

Porque é que há tantas falhas nas competências dos pais?

Há variadas razões. Antigamente, havia uma aldeia a cuidar de uma criança, como diz o provérbio, pois havia uma perspetiva comunitária. Hoje as pessoas estão muito sozinhas, nem o vizinho conhecem. Os miúdos muito entregues à escola, ao ATL, e num determinado estatuto económico, às empregadas. Os pais são um bocado periféricos na vida das crianças, estão tão ocupados que nem têm muita noção das coisas. Há miúdos que vivem numa “gaiola dourada”, que saem da casa para o colégio, e vice-versa, enquanto os pais estão entregues às suas vidas profissionais altamente exigentes. É oito ou 80: os pais que não supervisionam e dão a liberdade toda e depois este extremo da gaiola dourada.

Os miúdos das classes mais altas sofrem mais isso?

Diria que sim. Muitos nem têm competências básicas para andar num transporte público. Andam sempre de UBER ou no carro dos pais.

Mas que tipo de jovens são os dos nossos dias?

Correndo o risco de generalizar, diria que não têm tolerância à frustração. Não fazem planos a médio e longo prazo porque estão habituados ao aqui e agora e não sabem o que é trabalhar para uma meta, ter prazos e tarefas para cumprir até lá, algumas que duram tempo. É mais: eu quero isto agora e já. Até nas classes mais baixas: há pais sem posses e filhos com iphone. São atributos de exteriorização que os miúdos valorizam imenso.

A sociedade vive muito de estímulos e parece impossível criar uma personalidade que não seja uma manta de retalhos. Como podemos ajudar as crianças e jovens a encontrarem formas de unificação interior?

Para aceitarem e assumirem que não têm de ser iguais e fazer o que os outros fazem, tem de haver uma auto estima e segurança que a maioria deles não tem. Mesmo nos comportamentos mais desviantes, de consumos, de automutilações, percebemos que é um fenómeno de grupo. “Como estou num grupo onde estão todos a fumar um charro e eu não estou?” “Se três ou quatro se auto-mutilam porque eu não o faço também?” E experimentam e depois pensam: “até soube bem porque a tristeza que eu tinha até desapareceu por uns momentos“…É uma coisa assustadora. Muitos fazem parte de grupos na internet onde partilham os cortes, como se cosem, etc.

Mas isto está sempre associado a um sofrimento muito grande..

Sim, claro. Mas também está relacionado com processos de identificação. Sabemos que os miúdos precisam de se identificar. Mas temos que perceber como podemos contribuir para que o processo de identificação seja em torno de algo positivo, como o desporto, o acreditar em algo.

Até que ponto as tradições religiosas podem ajudar nisto?

Podem facilitar a dois níveis. Primeiro porque têm muitos rituais, de congregação: as pessoas unem-se para celebrar algo em comum. E depois algumas religiões –  e tenho miúdos de várias –  têm crenças culturais e religiosas que ajudam a lidar com determinadas circunstâncias, nomeadamente a perda, que pode não ser necessariamente a morte, mas uma perda qualquer. O facto de acreditarem em algo facilita a aceitação.

E a espiritualidade como desejo de aperfeiçoamento, de ser melhor, de ter uma ajuda externa, também é importante?

Sim, para jovens e adultos. Vejo pessoas que, em momentos difíceis, seguiram por esse caminho e afirmam que sentiram uma paz interior e adquiriam outra capacidade para olhar as coisas. Sentem-se menos sozinhas, e isso ajuda a lidar com depressões, lutos, ansiedades e divórcios. Quando os filhos saem de casa, (síndrome do ninho vazio) muitas reorientam-se e vão à procura do voluntariado, de sentirem-se bem a fazer o bem. É muito gratificante: fazer o bem pelo bem, a troco de nada, pode ser terapêutico até do ponto de vista da sintomatologia.

Também tem essa experiência com jovens?

Sim. Acompanho miúdos que, por terem problemas de comportamento e pré delinquência e, e numa perspetiva construtiva, foram encaminhados para projetos da comunidade. Ao início têm relutância, dizem que não se identificam e só vão porque são obrigados, mas depois a gratificação que tiram é grande. Recordo um que estava num projeto de sem abrigo e que dizia que não queria estar com aquelas pessoas; depois começou a contar-me histórias, quase com uma lágrima no olho, pois estava a sentir empatia, a saber pôr-se no lugar do outro. Vejo também muitos universitários pró-ativos que, apesar de estarem muito focados na universidade, querem guardar espaço para fazer voluntariado.

É uma forma de contrariar este auto-centramento?

Sim, e reconhecem que isso os ajuda a sentirem-se melhores pessoas. Esta perspetiva comunitária tem-se perdido mas tem de ser reconquistada. O poder da comunidade é muito grande. Os bairros antigamente tinham essa função e o mundo rural também. Hoje as famílias nas cidades estão dispersas e há falta de redes sociais.

Mas as crianças vivem essa ilusão com as redes sociais tecnológicas…

Sim, claro. Têm x amigos mas são virtuais, não se conhecem. E mesmo quando estão lado a lado, mandam mensagens uns aos outros. Os professores dizem que nos intervalos os miúdos estão todos lado a lado a teclar.

Isto resolve-se limitando o acesso às tecnologias até determinada idade?

Mas como se limita? Onde não há internet? E como se monitoriza?

É preciso forçar as crianças a brincarem umas com as outras?

Sim. Alguns já nem sabem fazê-lo, têm déficits de competências sociais, não sabem convidar para brincar, pedir namoro. É tudo virtual, por emojis. Os miúdos falam por mensagens muito curtas e cheias de simbolismo, pelo que a probabilidade de mal entendidos também é maior. A subjetividade da comunicação gera dificuldade na comunicação.

Isso é assim tão generalizado?

A minha amostra é enviesada porque eu vejo as famílias sempre nalgum estado de sofrimento. Mas os adolescentes, numa maneira geral, é assim que comunicam. O que é assustador. Ou os pais contrariam isto, de uma forma ativa – e isto implica chatearmo-nos com os filhos, dizer não, acabou – ou então não sei…. O problema é que temos muitos pais sozinhos, no pós divórcio, e que têm medo da rejeição e da perda dos filhos, sendo, por isso, mais permissivos. Pensam: “Se eu digo que não, ele não quer vir para a minha casa”. Entre uma coisa e outra, os miúdos esticam a corda e é uma escalada.

Falta literacia sentimental aos pais? Há dificuldade em ler o que se passa dentro de cada um e de o expressar?

Sim. Não há emoções boas e emoções más mas vemos muito nas crianças a ideia de que a tristeza, a raiva e a zanga são coisas más. São emoções como as outras, desde que devidamente enquadradas e geridas. E mais uma vez os pais são modelos: se morre alguém e os pais choram às escondidas, porque não podem mostrar aos filhos que estão tristes, que sentido isso faz? Não estamos a dotar os miúdos de competências para lidar com as emoções, sejam positivas ou negativas. Para serem modelos, os pais têm de estar confortáveis com a sua parte emocional. Ou seja, eu posso zangar-me, tenho direito, mas não tenho direito de magoar, de partir uma mesa. A legitimidade entre a emoção e a legitimidade do comportamento. Tenho de ter capacidade para comunicar. Se isto não acontece no seio mais primário que é a família, onde vai acontecer?

Falando agora das famílias que, em vez de serem porto de abrigo, são o motivo do sofrimento das crianças, devido a maus tratos ou conflitos parentais. De que forma isso agudiza o sofrimento?

Quando os maus tratos acontecem no seio da família derruba-se a crença base que qualquer ser humano precisa de ter, a de que “eu pertenço a algo“, neste caso à família, à qual posso recorrer em caso de necessidade. Se quem devia proteger não o faz, e os miúdos não encontram alternativas, é o arruinar do sentimento de segurança. Por vezes encontram alternativas na família alargada, na escola, nos amigos, e isso são fatores protetores. Mas quando não têm competências para ir à procura, para pedir ajuda, é muito pior. Não é necessariamente hipotecar o futuro mas diminui claramente a esperança no futuro. Pois se eu não tenho uma base e uma vinculação seguras, como vou explorar o mundo e arriscar o que quer que seja? Surgem as ansiedades, inseguranças, a dificuldade em confiar. Cai por terra a ideia de que há pessoas que me amam incondicionalmente e estão dispostas a tudo por mim. Dificuldade em expressar emoções, em ter relações de intimidade emocional, em confiar, são características típicas das vinculações desorganizadas, associadas aos maus tratos e abandonos, aos pais inconsistentes, à falta de previsibilidade. As crianças precisam de perceber que, aconteça o que acontecer, o pai está lá. Isso condiciona depois a forma como se vinculam aos outros adultos e traduz-se nas relações de casal muito complicadas e também no exercício da parentalidade. Quando avaliamos pais mal tratantes, abusivos, é muito importante perceber como eles próprios se vincularam e cresceram.

Os pais têm noção disso? Conhecem-se?

Muitas vezes não. E como não têm capacidade de perceber, vão replicando o modelo disfuncional. As famílias que estão disponíveis, conseguem mudar. Mas nem todas as famílias são trabalháveis.

Ao lidar com estes sofrimentos, consegue acreditar no futuro e nas crianças?

Tento agarrar-me às coisas boas, como àquela criança que disse que o mais importante era a família. Tento valorizar estas situações boas que me fazem não desistir de acreditar no ser humano. No meio de tantas experiências menos boas, aprendemos a distanciar-nos, mas há dias em que chego a casa e choro.. Trabalho há 20 anos e alegra-me perceber que hoje se reflete muito mais sobre estas coisas, por isso quero acreditar que daqui a uns anos estejamos bem melhor.

 

Rute Agulhas é Psicóloga especialista em Psicologia clínica e da Saúde, Psicoterapia e Psicologia da Justiça. Docente universitária. 

Fotografia: Nuno Pinto Fernandes

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.

O seu filho é alvo de bullying?

Outubro 17, 2019 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do Sapo Lifestyle

Luís Fernandes, psicólogo e investigador, co-autor do livro «CyberBullying – Um Guia para Pais e Educadores», explica como reagir perante estas situações e indica o que nunca, mas nunca, deve fazer.

Dados do Programa Escola Segura e da GNR indicam que o bullying nas escolas portuguesas aumentou nos últimos anos. O número crescente de queixas que tem chegado às autoridades também o confirma. Luís Fernandes, psicólogo e investigador na área do bullying e da violência na escola, confirma esse crescendo, explicando que se trata de «comportamentos agressivos entre crianças e jovens em idade escolar».

«São ações repetidas que nascem de um desequilíbrio de poder, através de agressões físicas, psicológicas e/ou sexuais, algumas realizadas via internet e dispositivos digitais [cyberbullying]», refere. «Pais e educadores devem atuar rapidamente pois o bullying só pode ser vencido com o apoio de toda a comunidade educativa, sendo essencial que vítima, agressor e quem assiste à agressão sejam acompanhados», diz.

Siga as orientações de Luís Fernandes, psicólogo e investigador na área do bullying e da violência na escola.

Com o seu filho

– Dê o seu apoio. «Seja solidário com a criança/jovem transmitindo-lhe que poderá contar consigo em qualquer circunstância, que irá resolver a situação. Caso tenha sido o próprio a contar o que está a passar-se, elogie a sua coragem», aconselha o especialista.

– Evite acusações. «Não acuse a criança/jovem por, de alguma forma, ser responsável pela situação. Isso não ajuda em nada a resolução do problema e fragiliza mais a vítima», assegura o psicólogo e investigador.

– Envolva-se. «Vá acompanhando a situação de perto, pois isso transmite segurança e permite ainda monitorizar e intervir precocemente perante novas situações que possam surgir», realça o especialista.

Com a escola

– Defina um plano de atuação. «Contacte o professor titular da turma [no primeiro ciclo], o diretor de turma [nos outros ciclos de ensino] e/ou a direção da escola para perceber se estão a par da situação e definir-se um plano que proteja a criança/jovem», sugere Luís Fernandes.

– Conheça o regulamento interno. «Saiba quais os procedimentos previstos para estas situações, se existe um regulamento interno que refira os comportamentos que não são aceitáveis, assim como as suas consequências», recomenda o psicólogo e investigador.

– Informe-se sobre o caso. «Apure se as agressões e/ou humilhações decorrem há muito tempo e quais os principais locais onde costumam ocorrer e se existem desconfianças por parte dos pais do agressor», insiste o especialista.

– Sugira uma ação de sensibilização. «Sensibilizar quem assiste à agressão é uma mais-valia para a resolução destes problemas. Sugira uma ação pedagógica junto dos colegas do seu filho», sugere ainda.

Com o agressor

– Nunca o contacte. «Evite contactar diretamente os agressores ou os pais destes a pedir satisfações ou a exigir que estes deixem de incomodar os seus filhos, pois esta situação poderá agravar as agressões», alerta Luís Fernandes, psicólogo e investigador, co-autor do livro «CyberBullying – Um Guia para Pais e Educadores», publicado pela Plátano Editora, em parceria com Sónia Seixas e Tito de Morais.

– Procure um mediador. «O ideal será entender se existem pessoas que funcionem como mediadores da própria situação, como, por exemplo, um diretor de turma ou o coordenador dos diretores de turma (normalmente um dos docentes mais experientes da escola), o psicólogo (caso exista) ou o diretor da escola», sugere.

«A participação dos funcionários é igualmente fundamental uma vez que a maioria dos casos ocorre nos recreios e/ou espaços comuns da escola», realça ainda o especialista português.

Os números do bullying

– 25% das crianças e jovens em idade escolar, seja como vítimas, agressores ou nesse duplo papel [vítimas que se transformaram em agressores], estão envolvidas em casos de bullying.

– 616 casos de bullying registados mensalmente em Portugal.

– Mais de 50% das vítimas não denunciam as agressões.

– 70% das situações de bullying ocorrem nos recreios e/ou espaços comuns da escola.

Texto: Carlos Eugénio Augusto com Luís Fernandes (psicólogo e investigador na área do bullying e da violência na escola e co-autor do livro «CyberBullying – Um Guia para Pais e Educadores»)

ONU marca Dia Internacional da Menina dizendo que elas são “força imparável”

Outubro 15, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Unicef/ UN0212108/Mohammadi
As meninas continuam enfrentando mais obstáculos para ir à escola

Notícia da ONU news de 11 de outubro de 2019.

Agência ONU Mulheres diz que muitos compromissos para dar autonomia às meninas ainda não foram cumpridos; 12 milhões delas casam-se antes de completar 18 anos e 130 milhões de alunas estão fora da escola; já Unicef diz que investir em meninas é investir num futuro melhor para todos.

Esta sexta-feira, 11 de outubro, as Nações Unidas marcam o Dia Internacional da Menina sob o tema: “Força da menina: natural e imparável”, numa tradução livre.

A ONU Mulheres lembra que em 2020, o mundo celebrará os 25 anos da primeira Conferência Mundial sobre Mulheres, que reuniu mais de 30 mil representantes de 200 países, em Pequim, na China.

Fora da escola

Foi neste encontro, que nasceu a aprovação da Declaração e Plataforma de Ação de Pequim.

Mesmo assim, os desafios persistem e muitos compromissos assumidos ainda não foram cumpridos.

Todos os anos, 12 milhões de meninas casam-se antes de completar 18 anos de idade. Cerca de 130 milhões ainda estão fora da escola e quase 15 milhões de adolescentes entre 15 e 19 anos são forçadas a uma experiência sexual.

Movimento

Em nota, o Fundo das Nações Unidas para a Infância, Unicef, diz que o movimento, que começou em Pequim, não parou de crescer. Segundo a agência, “o que começou como um movimento mundial lutando por direitos à saúde sexual e reprodutiva, participação política e igualdade salarial, expandiu-se.”

Hoje, as lutas são contra o casamento infantil, violência de gênero, mudança climática, questões de autoestima e educação. Também pedem mais investimentos financeiros e um desenvolvimento inclusivo.

O Unicef destaca alguns progressos nessas décadas. Segundo a agência, “as meninas estão rompendo fronteiras impostas por estereótipos, incluindo crianças com deficiência e outras que vivem em comunidades marginalizadas.

O Unicef afirma que “como empreendedoras, inovadoras e criadoras de movimentos globais, as meninas estão liderando e promovendo um mundo relevante para elas e para as gerações futuras.”

Apoio

Apesar do progresso dos últimos 25 anos, “as meninas em todo o mundo, especialmente aquelas que vivem em áreas rurais ou emergência humanitárias e com deficiência, ainda precisam de ajuda.”

A comunidade internacional deve criar mais oportunidades para que as suas vozes sejam ouvidas e para que elas possam participar na tomada de decisões. Também deve-se dedicar mais recursos para esta população, “porque investir em meninas é investir num futuro melhor para todos.”

Aniversário

O Unicef afirma que, quase 25 depois da sua aprovação, a Plataforma de Ação de Pequim “continua sendo uma base poderosa para avaliar o progresso na igualdade de gênero.”

O documento exige um mundo onde todas as meninas e mulheres possam viver sem violência, frequentar a escola, escolher quando e com quem se querem casar e ganhar um salário igual por um trabalho igual.

A Declaração de Pequim foi o primeiro documento internacional a mencionar, especificamente, os direitos das meninas. Esse reconhecimento continua na Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, que dedica o objetivo 5 à conquista da igualdade de gênero e à autonomia de todas as mulheres.

A Plataforma de Ação de Pequim tem nove metas relativas às meninas:

 

  1. Eliminar todas as formas de discriminação;
  2. Eliminar atitudes e práticas culturais negativas;
  3. Promover e proteger direitos e aumentar a conscientização sobre necessidades e potencial;
  4. Eliminar a discriminação na educação e desenvolvimento de capacidades;
  5. Eliminar a discriminação nas áreas de saúde e nutrição;
  6. Eliminar a exploração econômica do trabalho infantil e proteger as meninas no trabalho;
  7. Erradicar a violência;
  8. Promover a conscientização e participação na vida social, econômica e política;
  9. Fortalecer o papel da família na melhoria da condição das meninas.

mais informações nos links:

https://www.unicef.org/gender-equality/international-day-girl-2019

https://www.unwomen.org/en/news/stories/2019/10/statement-ed-phumzile-international-day-of-the-girl

Mais de um terço dos jovens portugueses já se sentiu desconfortável na Internet

Outubro 15, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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A utilização intensiva das redes sociais intensifica a sensação de solidão, mesmo entre os jovens que tenham, à partida, uma boa rede de relações sociais e familiares GettyImages

Notícia e imagem do Expresso de 17 de setembro de 2019.

Estudo nacional revela que 14% dos jovens também já foram ofensivos ou agiram incorretamente com alguém.

Um em cada três jovens portugueses já se sentiu desconfortável enquanto navegava na Internet e 14% já foram ofensivos ou agiram incorretamente com alguém, segundo um estudo nacional divulgado esta terça-feira

O estudo, conduzido pela Netsonda e promovido pelo Faceboook, hoje divulgado, revela que 38% dos jovens já se sentiram desconfortáveis enquanto navegavam na internet, em oposição com os restantes 62% que dizem nunca terem sentido qualquer incómodo.

Dos jovens inquiridos, 14% admitiram mesmo já terem dito algo ofensivo ou terem agido incorretamente com alguém através da ‘web’, sendo que “chamar nomes” foi o ato mais apontado.

Comparando rapazes com raparigas, eles são mais agressivos também na Internet (17% contra 10% das raparigas).

Perante a hipótese de alguém ser desagradável com eles ou com alguém seu conhecido, a maioria optaria por enviar mensagem privada ao “agressor” ou pedir ajuda aos pais, professores ou algum adulto de confiança.

No entanto, 29% ignorariam o ato, enquanto outros 22% optariam por falar diretamente com a pessoa. Os amigos surgem como a quinta opção: 19% dizem que recorreriam aos seus amigos para tentar resolver o problema.

É através das redes sociais que os jovens se mantêm em contacto com os amigos, mas é também em frente a um ecrã que se divertem, acompanham as novidades e tendências, segundo um inquérito online realizado durante o mês de agosto a mil jovens portugueses, entre 14 e 19 anos

O estudo tentou perceber o que fazem os mais novos quando estão nas redes sociais, de que forma acedem à Internet, como reagem perante uma “agressão” virtual ou que experiências já vivenciaram.

Hoje em dia, são raros os jovens que não têm um ‘smarphone’ e é através dele que acedem à Internet: 69% usam o telemóvel, seguindo-se o computador (17%).

As consolas de vídeo jogos e o computador de família são as opções menos recorrentes (2%).

É precisamente para estar em contacto com os amigos que os jovens mais usam as redes sociais (79%), mas também como forma de entretenimento (61%).

Já 49% dizem que lhes permite acompanhar as novidades das marcas e os “influencers”. Numa comparação entre rapazes e raparigas, elas estão muito mais interessadas em acompanhar as tendências (60% contra 39% de rapazes) enquanto eles usam muito mais as redes para entretenimento (74% contra 47%).

“Ler notícias” também é um dos principais motivos para usar as redes sociais, principalmente entre os mais velhos: os jovens entre os 17 e os 19 anos colocam esta função em terceiro lugar, enquanto entre os mais novos o desejo de se manter informado surge em quinto.

Apenas um em cada três jovens diz usar as redes sociais para manter o contacto e ver as publicações da família.

O estudo hoje divulgado revela ainda a atitude que os jovens imaginam que teriam perante um eventual abuso, sendo apresentada a hipótese de ser publicada uma fotografia sua sem consentimento: oito em cada dez (79%) dizem que pediriam que a foto fosse retirada, 76% acreditam que reportariam a situação à rede social e 61% retiravam a sua identificação da imagem.

No universo de inquiridos, 60% já comunicaram situações nas redes sociais.

Bloquear ou deixar de seguir alguém já faz parte dos hábitos dos jovens, com mais de 60% dos inquiridos a admitirem que já utilizaram estas ferramentas para gerir o contacto ‘online’ com outros.

Apenas 3% desconheciam que tal era possível e 12% disseram conhecer essa opção, mas nunca a utilizaram.

O estudo tentou ainda perceber se seriam capazes de partilhar as suas ‘passwords’ com alguém. A maioria disse que não, mas 35% responderam afirmativamente, colocando a família, os namorados e os melhores amigos como as pessoas a quem estavam dispostos a entregar as palavras passe de acesso às redes sociais, e-mails ou ‘smartphones’.

Um em cada 100 jovens disse mesmo que partilharia a ‘password’ com os professores ou diretores da escola.

Educação financeira: o que ensinar às crianças?

Outubro 15, 2019 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto da TSF de 7 de outubro de 2019.

Por Rita Costa

Fizemos a pergunta a Susana Albuquerque, coordenadora de Educação Financeira da Associação de Instituições de Crédito Especializado, que lembra que é a partir de cedo que se adquirem hábitos comportamentais.

“A partir dos 3 anos, eu posso ensinar os meus filhos a esperar para ter e quando estou a ensinar a esperar para ter estou a ensinar o comportamento que está na base da poupança, porque a poupança implica adiar a gratificação imediata”, afirma Susana Albuquerque.

A coordenadora de Educação Financeira da Associação de Instituições de Crédito Especializado da Associação de Instituições de Crédito Especializado (ASFAC) sublinha a importância dos pais terem consciência de como coisas tão simples como “não podes ter agora, vais esperar ou vais ter amanhã” são formas de educar para a poupança.

“Como é que se formam comportamentos, como é se se formam hábitos? Através do treino”. E é por isso que Susana Albuquerque pede atenção às pequenas coisas do dia a dia. “Cada vez que vamos às compras, mostramos o que é fazer uma lista, mostramos que temos um limite para gastar e que, portanto, se calhar não podemos levar tudo o que está nas prateleiras e que temos de fazer escolhas”, sugere.

Susana Albuquerque acredita que ao envolvermos as crianças quando vamos às compras, estamos a fazer com que experienciem e sintam que fazer escolhas é natural. Elas podem aprender desde cedo a fazer escolhas conscientes.

Bullying: o que nunca deve dizer se o seu filho for vítima?

Outubro 14, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Shutterstock

Texto e imagem do DN Life de 7 de outubro de 2019.

É um problema pesado, muitas vezes associado a depressões, baixa autoestima, distúrbios de apetite e sono, ansiedade, fraco desempenho escolar, dores de estômago, solidão. E sim, o bullying é da responsabilidade de todos, pelo que também em casa devemos evitar agravar o sofrimento.

Texto de Ana Pago

“IGNORA”
Se passar ao lado do problema bastasse para resolvê-lo, não teríamos números gritantes a mostrar que um em cada quatro jovens se envolve em situações de bullying como vítima, agressor ou ambos os papéis (“por exemplo, um aluno de 7.º ano que é vítima de um do 9.º e agride, ele próprio, um colega do 5.º”, explica o psicólogo Luís Fernandes, a trabalhar nas áreas da prevenção, combate e intervenção no bullying). Pior: pedir à criança para ignorar os ataques não só não valida o seu sofrimento muito real – por alguma razão ela tentou falar consigo –, como a fará sentir-se mais sozinha e desamparada do que nunca.

“EVITA ESSES COLEGAS”
É outra sugestão bem-intencionada mais fácil de proferir que de fazer, ou não seriamos o 15.º país com mais relatos de bullying na Europa e América do Norte, segundo Luís Fernandes. “Trabalhar com os agressores é tão importante como com quem sofre, já que muitas vezes os próprios são vítimas de violência em contexto familiar”, explica o coautor (com a investigadora Sónia Seixas) dos livros Plano Bullying e Diz Não ao Bullying. Além disso, dizer a um filho que evite os bullies apenas fará com que sinta ser uma vítima deles porque não é suficientemente bom a afastar-se.

“AS CRIANÇAS SÃO MESMO ASSIM”
Se é um facto que as crianças conseguem ser bastante cruéis entre elas, que os agressores são muitas vezes vítimas de ambientes agressivos e que devemos educar para a tolerância, é também um facto que desculpas deste género nunca podem legitimar a violência. “O bullying dói muito e o agressor quer realmente fazer mal”, confirma em entrevista ao Huffington Post Barbara Coloroso, autora de The Bully, The Bullied and the Bystander (O Intimidador, a Vítima e a Testemunha em tradução livre). “Se os pais minimizarem, racionalizarem ou tentarem explicar o comportamento do bully, não tardará a que os filhos prefiram sofrer em silêncio”, acrescenta a especialista em educação.

“TENS QUE SABER DEFENDER-TE”
Na cabeça dos pais o repto irá seguramente incitar os filhos à autodefesa: como não? É como se as palavras tivessem poder em si mesmas, de tão fortes que são. Na prática, porém, o mais provável é a criança ficar a sentir que a culpa de ser vítima é toda dela, por não se saber opor ao agressor. Tal como será unicamente sua a responsabilidade de ter que aprender a defender-se o quanto antes.

“PRECISAS DE SER FORTE”
Sendo outro abanão que pretende ajudar a criança a acabar de vez com aquele sofrimento sempre presente, uma estratégia mil vezes melhor passa por tranquilizar a vítima, estar do seu lado, mostrar que vamos fazer tudo para acabar com as humilhações, adianta o psicólogo Luís Fernandes. “Dá um conforto extraordinário”, diz. E sabe-o porque uma garota de 11 anos, a quem um dia perguntou quando é que o bullying terminou para ela, lhe respondeu que foi no instante em que o pai a abraçou e garantiu que as agressões nunca mais iam voltar a acontecer agora que ele sabia de tudo.

“NÃO SEJAS TÃO DRAMÁTICO”
É capaz de ser das piores observações que uma criança pode ouvir do adulto com quem fala (por mais que este tente apenas desdramatizar o problema sem se dar verdadeiramente conta dos estragos que estará a causar ao fazê-lo). Ninguém tem culpa de ser vítima de bullies. Ninguém é violentado porque quer, pelo que os pais terão de ter especial cuidado para não passarem a mensagem errada de que os filhos estão a exagerar no que sentem.

“É SÓ UMA FASE, VAI PASSAR”
Nem uma coisa nem outra, sublinha o psicólogo Luís Fernandes, que considera haver ainda muitos mitos em torno do bullying que importa desfazer: “Não acontece só em algumas escolas, não é uma mera brincadeira e nunca deve ser encarado como uma fase que passará em breve e que, portanto, pode ser relativizada”, afirma. Até pode vir a suceder num futuro próximo, mas por enquanto ainda é um tormento que ninguém tem o direito de minimizar.

Presunção de inocência e protecção da criança “não são incompatíveis”

Outubro 13, 2019 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 7 de outubro de 2019.

Uma geração de inábeis sociais

Outubro 11, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto de Mafalda Anjos publicado na Visão de 4 de abril de 2019.

Esta semana, descreveram-me um cenário que me causou arrepios: o recreio de um colégio de Lisboa, daqueles no topo dos rankings nacionais, repleto de miúdos, mas, em vez do rebuliço normal das crianças a brincar, o cenário era de paz. Uma paz podre. Os muitos miúdos que ocupavam o pátio estavam sentados pelas escadas, nos bancos corridos ou no chão, agarrados ao seu smartphone. Era cada um por si, cérebros abstraídos e dormentes, isolados do mundo à sua volta, tão sozinhos entre uma multidão de colegas – pequenos e tristes zombies digitais.

Não é só nas escolas. Basta ver os encontros de famílias com crianças pequenas ou os grupos de teenagers quando se juntam –, algo que acontece com muito menos frequência do que na minha geração, em que passávamos horas perdidas à conversa nas esplanadas ou nos jardins. É ver cada um no seu telefone, um dedinho a deslizar para ver o vídeo, a foto ou a storie seguinte, dois dedinhos de cada lado para jogar ao jogo da moda: mata este, atira sobre aquele.

Estamos longe de perceber exatamente como estes nativos digitais vão ser no futuro, por mais estudos que se comecem agora a fazer ao impacto da tecnologia nos cérebros destes miúdos. Terão com toda a certeza competências extraordinárias que nós não temos, vão inventar maravilhas que nos hão de deixar boquiabertos e pôr-nos a pensar como é que vivemos sem isso até àquele dia. Sei que teremos computadores excecionais capazes de fazer coisas que não conseguimos sequer ficcionar – cálculos mirabolantes, matchs perfeitos entre ofertas e vontades cada vez mais caprichosas, velocidades estonteantes para tudo e mais alguma coisa. Mas tudo indica que, ao fim do dia, vamos continuar a ser esta amálgama de matéria e de sentimento, com algumas necessidades e instintos básicos de algumas centenas de milhares de anos: sobreviver, socializar, amar e ser amado. Continuaremos a ser, assim espero, apenas humanos. E é precisamente isso que nos vai distinguir cada vez mais das máquinas e dos robots, que serão anos-luz mais competentes do que nós nas coisas, para usar uma expressão simplista, mecânicas ou, pelo menos, não emocionais.

Voltando ao recreio e aos dedinhos nos ecrãs… Não sei como serão daqui a uma ou a duas dezenas de anos estes nativos digitais, mas uma coisa não é difícil de antecipar: serão muito mais socialmente inábeis. E isso é inquietante, porque estamos, afinal, a falhar em formar as novas gerações no que garantidamente mais vamos precisar no futuro: melhores seres humanos, com o que, na verdade, nos distingue na nossa humanidade – a capacidade de ouvir, ler ou tocar o outro, de interagir em sociedade. Uma criança que não aprendeu a brincar num recreio não sabe criar empatias, gerir conflitos e emoções, ultrapassar frustrações. Como vão estas crianças trabalhar em equipa, integrar-se num grupo ou empresa? Que caminho das pedras tardio terão de fazer para desformatar um cérebro de sinapses condicionadas pelos ecrãs que nós – pais, educadores, adultos – lhes enfiámos à frente?

Isto não são apenas considerandos gerais de ordem filosófica. O caso é sério, não podemos encolher os ombros. Todos os dias saem novos estudos que dizem que a dependência de jogos eletrónicos e das redes sociais causa verdadeiros distúrbios emocionais, e a Organização Mundial de Saúde já propôs inseri-la como doença mental na próxima revisão do manual de classificação de patologias. Um estudo da Ordem dos Médicos, a crianças portuguesas de 11 anos, conclui que um terço está em risco de dependência. Muitos passam quatro horas por dia, todos os dias, a jogar. Além de inábeis sociais, estamos a criar uma geração de viciados numa droga tão ou mais aditiva do que as que conhecíamos até agora.

Escrevo com sentimento de culpa, note-se. Também eu coloco tablets e smartphones à frente dos meus filhos. Mas é mesmo preciso pararmos todos para pensar no que estamos, coletivamente, a fazer aos nossos miúdos. Daqui a uns anos, pode ser tarde demais.

Centro de acolhimento para crianças refugiadas em Portugal está sobrelotado e não há alternativas

Outubro 11, 2019 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Expresso de 3 de outubro de 2019.

A denúncia é feita pelo Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, que alerta ainda para mais casos nos aeroportos nacionais que apontam para possíveis situações de tráfico de menores: crianças acompanhadas por adultos que dizem ser pais ou terem relação de parentesco, mas não apresentam documentação que o comprove.

O centro de acolhimento para crianças refugiadas está sobrelotado e não existem respostas alternativas para as crianças não acompanhadas, o que atrasa a entrada imediata em Portugal, denunciou esta quinta-feira o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras.

Num colóquio, em Lisboa, sobre se “Portugal cumpre os direitos das crianças”, uma responsável do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) denunciou a atual “situação de sobrelotação” em que se encontra o centro de acolhimento para crianças refugiadas, gerido pelo Centro Português para os Refugiados (CPR), e para a inexistência de respostas alternativas.

“Gostaria que este assunto fosse repensado porque o SEF nem que queira agendar entrada imediata para o menor tem de esperar que haja disponibilidade de acolhimento deste menor”, apontou Maria Emília Lisboa, inspetora coordenadora superior e assessora técnica na Direção Nacional do SEF.

De acordo com a responsável, o centro de acolhimento até uma certa altura teve essa capacidade, mas “atualmente e pontualmente vai tendo dificuldades”.

“E aí (…) temos dificuldade em conseguir arranjar um alojamento alternativo e adequado para estas crianças que não falam a língua e precisam de um tratamento diferenciado”, adiantou, ressalvando que a exceção é no caso das crianças em que se suspeita serem vítimas de tráfico e para as quais há imediatamente uma resposta de acolhimento.

Maria Emília Lisboa apontou que têm sido detetadas nos aeroportos nacionais mais casos que apontam para possíveis situações de tráfico de menores, em que aparecem crianças acompanhadas por adultos que dizem ser pais ou terem relação de parentesco, mas não apresentam documentação que o comprove.

Nestes casos, as crianças são sinalizadas como potenciais vítimas de tráficos, separadas do adulto e encaminhadas para centros de acolhimento especializado, normalmente uma instituição de acolhimento indicada pela segurança Social, já que precisam de uma proteção acrescida.

Posteriormente é feita participação ao Ministério Público relativamente ao adulto pelos indícios de tráfico, cabendo depois aos tribunais determinar e avaliar se o adulto é de facto ou não o progenitor da criança.

“Estas situações têm-nos preocupado muito nos últimos anos porque é uma realidade que não era comum apresentar-se em Portugal. Às vezes apareciam indocumentados, mas isso devia-se às circunstâncias em que saiam do país”, apontou, acrescentando que o SEF se tem deparado com circunstâncias, como a destruição propositada de documentos, que indiciam que há o objetivo de induzir as autoridades em erro e utilizar indevidamente a sistema de asilo.

Maria Emília Lisboa referiu ainda que o SEF está “particularmente atento e preocupado” com as crianças não acompanhadas com idade até aos 16 anos porque o centro de acolhimento do CPR, para onde são encaminhadas, é um centro aberto e elas muitas vezes abandonam as instalações, dirigindo-se “possivelmente para outros países da União Europeia”.

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