Um dia na vida de um aluno com dislexia

Outubro 11, 2018 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do site Sapolifestyle de 1 de março de 2018.

Para os alunos com dislexia cada aula pode ser uma luta, na medida em que, quase todas as disciplinas dependem da leitura e ortografia. Dislexia pode, assim, levar, também, a problemas sociais, emocionais e comportamentais. Use este guia visual para saber como esta perturbação da aprendizagem específica afeta o quotidiano do seu filho.

Henrique é um aluno de 11 anos. Tem necessidades educativas especiais. A inteligência é uma das suas principais características, mas os problemas de leitura condicionam-lhe o dia-a-dia. Uma simples tarefa, fácil de executar para a maior parte dos seus colegas, pode transformar-se num verdadeiro quebra-cabeças para um aluno com dislexia.

Vejamos como é, afinal, um dia típico na vida de Henrique:

Problemas relacionados à dislexia: Baixa autoestima e abandono escolar

6h15

Acorda cedo com o despertador mas, logo desliga o alarme e não quer sair da cama. Depois de tantos comentários sobre o quão lenta e sofrida é a sua leitura, Henrique deixa-se levar pela pressão e prefere nem pensar na escola. Imaginar entrar numa sala de aula é suficiente para o destabilizar. Um dia, chegou a fingir uma dor de estômago para justificar a falta. Não tem dúvidas: os melhores dias são aqueles em que fica em casa, longe do stress que as aulas lhe provocam.

Problemas relacionados à dislexia: Compreensão de leitura e escrita à mão

8h30

Chegou o dia. Henrique não está preparado para o teste de história.

Tentou terminar os trabalhos de casa, mas as dificuldades na leitura são tão evidentes que apenas conseguiu concluir alguns parágrafos. E, como demorou tanto tempo para ler e perceber cada frase, como sempre, teve dificuldade em entender o texto na sua globalidade.

Não se pode dizer o contrário: Para além de inteligente, Henrique, também é esforçado! Quer ultrapassar os obstáculos que o impedem de ter sucesso escolar. Nas aulas costuma ouvir atentamente o professor e, ainda que de forma pouco organizada, tenta retirar notas/apontamentos da matéria mais importante, mas não chega. Henrique precisa de acompanhamento especializado para conseguir superar as suas dificuldades. E assim, o teste, quinta-feira, advinha-se um pesadelo.

Problemas relacionados à dislexia: Descodificação e memória de trabalho

10h30

Henrique gosta de matemática, exceto dos problemas. Levam-lhe uma eternidade a ler e compreender. Dificilmente consegue reter e sistematizar o que lê e, como era de esperar, não os consegue resolver, por muito que tente. Geralmente, comete erros simples, por exemplo, como mudar dois números ou misturar a sequência de etapas. Ou seja, a resposta está, quase sempre errada, apesar de até ter adquirido e entendido os conceitos e ter um bom raciocínio lógico-matemático.

Problemas relacionados à dislexia: Reconhecer palavras à vista, construir vocabulário e consciência fonológica

12h30

É difícil para Henrique relaxar durante o almoço. Tem trabalhos de casa para fazer e precisa de ajuda. Sozinho não os consegue fazer. Por isso corre na escola, desenfreado, à procura de uma ajuda-extra dos professores. Aproxima-se o teste de vocabulário de francês e Henrique está preocupado. Por muito que olhe para os flashcards sobre a matéria, parece sempre que os olha pela primeira vez. Infelizmente, um problema, não exclusivo, da disciplina de francês – é transversal às outras. As palavras, simplesmente, não lhe “ficam” na memória.

Problemas relacionados à dislexia: Aprender uma língua estrangeira e evitar tarefas

13h30

A aula de francês é, sem dúvida, das mais difíceis. Se Henrique já tem imensos problemas para ler e escrever em português, mais difícil se torna a tarefa de o fazer numa outra língua, com diferentes sons e regras de ortografia.

O método de ensino do professor deixa Henrique desconfortável e ainda mais inseguro: todos os alunos são incentivados a lerem em voz alta na sala de aula, um de cada vez. E quando Henrique sente que está prestes a ser chamado, inventa uma desculpa qualquer para se ausentar da aula. A maneira mais fácil é dizer que precisa de ir à casa de banho mas já não resulta, a desculpa está gasta. Henrique sempre preferiu refugiar-se num local qualquer, em vez de mostrar fragilidades diante da turma e, eventualmente, dizer até algo impróprio ao professor e ter uma falta disciplinar.

Problemas relacionados à dislexia: Ansiedade e dificuldade para ler música

14h30

O coro é a única coisa que Henrique gosta da escola. A leitura da música é difícil, mas, ao contrário das outras disciplinas, pode sempre aprender ouvindo-as. E é fantástico quando as pessoas elogiam a voz bonita que tem. Henrique preocupa-se que, se tiver de faltar ao coro por causa de uma outra aula qualquer, possa não ter agenda para a substituir. Dá imensa importância à participação no coro.

Problemas relacionados à dislexia: Descodificação, ortografia e interação

16h30

As mensagens de texto são stressantes para o Henrique. Demorou muito tempo para descobrir as abreviaturas usadas pelos amigos para simplificar determinadas palavras. As dificuldades que sente ao nível da leitura e da ortografia tornam difícil, quase impossível, fazer parte das conversas de grupo.

Problemas relacionados à dislexia: Escrita, ortografia, revisão

20h15

Os pais de Henrique continuam a pressioná-lo para terminar o estudo. A capacidade de soletração de Henrique é bastante pobre e, por vezes, a família, amigos e colegas não percebem a mensagem que pretende transmitir! A correção, também se torna difícil. Henrique não tem consciência dos erros que comete. Por isso, depende sempre da supervisão dos pais em casa. Às vezes, dizem que se trata de preguiça, mas não é. Henrique demora muito mais tempo a fazer um trabalho de casa do que um estudante sem dislexia.

Problemas relacionados à dislexia: Stress generalizado

22h15

Já é tarde e Henrique está cansado. Antes de dormir precisa de relaxar. Jogar na playstation é o passatempo favorito. Assim que entra no mundo virtual, Henrique torna-se igual a outra criança qualquer: esquece-se da dislexia e de todos os problemas que lhe estão associados. Hora de dormir. Amanhã outro longo dia pela frente.

Sobre a Dislexia

A dislexia é uma perturbação da aprendizagem específica com défice na leitura, normalmente associada a alterações neurodesenvolvimentais. Não significa falta de inteligência, nem dificuldades de visão. É uma disfunção neurológica que torna difícil aprender a ler com precisão e fluência. A questão central envolve a compreensão de como os sons nas palavras são representados por letras. É comum para um aluno com dislexia apresentar dificuldades na compreensão da leitura, erros ortográficos, dificuldades na estrutura frásica e na organização de ideias.

As crianças não superam a dislexia, aprendem mecanismos para lidar com ela.

As suas dificuldades com a leitura podem afetá-las socialmente, emocionalmente e verbalmente. É comum que evitem ler em voz alta e não saibam responder à pergunta do professor.

Pais e professores, não raras vezes, interpretam mal os sinais da dislexia. Confundem-nos, por exemplo, com preguiça. Por vezes, parece que os alunos não se esforçam o suficiente para obter melhores resultados escolares. Há, no entanto, fórmulas/estratégias de sucesso para fazer face à dislexia: abordagens de ensino adequadas; intervenções terapêuticas específicas, regulares, com técnicos especializados com o objetivo de reeducar as áreas subdesenvolvidas e com necessidade de desenvolvimento.

O programa de reeducação da dislexia permite superar os desafios de leitura e prosperar ao nível do aproveitamento escolar e da própria vida pessoal.

Como ajudar?

- Fale com a escola do seu filho sobre os métodos de ensino-aprendizagem estruturados e multissensoriais utilizados no ensino da leitura e da escrita. Esta abordagem de ensino é projetada/concebida para envolver as crianças através da visão, audição, movimento e toque.

O uso dessas diferentes áreas pode ajudá-los a associar sons a letras e, assim, aprender a descodificar palavras escritas.

- Explore alguns exercícios que ajudem a aprender e mostrar o que sabe. Por exemplo, ter um bloco de notas, fazer um relatório oral ou um projeto de vídeo, em vez de uma tarefa escrita. Solicitar a leitura na sala de aula em voz alta não é boa solução.

 As ferramentas tecnológicas podem ajudar os alunos com dislexia através do estímulo para a descoberta de novas palavras e ideias. Livros de áudio, aplicativos de texto para fala e livros didáticos digitais podem ajudar o seu filho a ouvir e entender melhor o que se pretende.

-Procure o Techfinder da Understanding. Estas aplicações, já analisadas por especialistas, podem ajudar a superar alguns problemas de leitura.

- Estimule o interesse do seu filho para a leitura. Livros de banda desenhada, desporto, moda e culinária são sempre boas formas para despertar vontade de ler. Procure livros sobre grandes temas atuais próprios para a idade do seu filho, desde que escritos de forma simples e facilmente entendível.

 Enfatize os pontos fortes de seu filho. Use desportos, passatempos e outras atividades para ajudar o seu filho a ficar motivado na escola. Outra maneira de ajudar a aumentar a auto-estima é partilhar histórias de sucesso sobre pessoas com dislexia.

- Ajude-o a aceitar a sua dificuldade. Os alunos mais resolvidos com o seu problema de dislexia, costumam dar o primeiro passo e falar sobre as dificuldades que sentem ao nível da leitura. Não é fácil, mas é importante que saibam procurar ajuda sempre que dela precisem.

Adaptado de “a day in the life of a teen with dyeslexia” in https://www.understood.org/

 

 

Boas maneiras de combater os medos das crianças

Outubro 10, 2018 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto de Laurinda Alves publicado no Observador de 18 de setembro de 2018.

Entre o livro e o Teatro LU.CA, a Associação Princesa Azul e a teatralização das histórias feita nas escolas, muito pode ser feito, posta em perspetiva e renovado nas crianças, educadores e famílias.

Ninguém deixa de ter medos só porque sim e, muito menos, porque alguém decreta que não há razões para ter medo. As coisas não são assim tão fáceis e sabemos bem que todas as idades têm os seus pavores e temores.

Os pesadelos das crianças são verdadeiramente assustadores e implicam com o sono de todos, pais e filhos. Ninguém dorme quando uma criança acorda a meio da noite, a chorar apavorada. Muitos de nós sabemos bem o que é trazer os filhos para a cama e perder a noite por não cabermos todos da mesma maneira, na mesma cama. Sobretudo, por ficarmos a tentar aplacar os pontapés involuntários de um filho que readormece e se atravessa no colchão por se sentir invencível na cama dos pais.

Não vale a pena tentar ser muito pedagógico com uma criança no momento em que desperta do sono com medos. Se o que a fez acordar foram terríveis pesadelos com monstros é importante acender a luz e mostrar que não há monstros no quarto, mas nem sempre é possível estabelecer um diálogo lúcido e efetivo. Muito pelo contrário, um bom abraço, um pouco de colo, uma voz que embala, gestos de ternura e muitos mimos devolvem a segurança, dando-lhes a certeza de não estarem sós. Valem mais que uma explicação factual sobre a inexistência de fantasmas e monstros.

Os medos das crianças tratam-se com mais eficácia se agirmos a montante ou a jusante. No momento em que estão aterrorizadas é muito difícil dizer ou fazer alguma coisa que não seja tentar acalmá-las com abraços e uma presença forte, terna e securizante. Assim como não é possível elaborar grandes teorias sobre a amizade entre os animais e os homens quando uma criança fica paralisada ou corre aos gritos porque tem medo de um cão, também não é recomendável dissertar filosófica e existencialmente sobre os pesadelos no momento em que acabaram de ter um.

Nesta lógica, há estratégias mais eficazes e uma delas passa por contar histórias, ler bons livros ou assistir a bons filmes e boas peças de teatro, para poder ter boas conversas a partir dessas mesmas histórias, lidas ou representadas. Há muitas opções e cada pai ou mãe saberão sempre encontrar as que melhor se adaptam às idades e fases dos seus filhos, mas agora que inaugurou o maravilhoso Teatro LU.CA – Teatro Luís de Camões, em Belém, vale a pena estar atento à programação infantil porque também é feita a pensar em alguns ‘nós cegos’ reais e imaginários que atrapalham a vida das crianças.

(Abro um parêntesis para dar os parabéns à CML pela extraordinária recuperação de uma sala construída em 1737, que foi a Casa da Ópera do rei D. João V, e agora é um Teatro exclusivamente dedicado às crianças e ao público mais jovem. O espaço do LU.CA parece um sonho: um verdadeiro teatro infantil, numa escala fabulosamente acolhedora e fantasticamente bem recuperado, onde apetece ir e voltar com filhos e netos. Lindo!)

No fim de semana passado tivemos a felicidade de juntar nove netos em casa e fomos com alguns ver a peça “Um tigre-lírio é difícil de encontrar”. Foi uma experiência mágica para todas as crianças presentes no LU.CA, justamente por se poderem sentar numa plateia com muita proximidade com o palco e os atores. A peça é sobre quatro crianças perdidas numa floresta, sem saberem como é que ali foram parar, e os atores falam dos seus medos com humor e muita fantasia.

Na plateia, as crianças vão-se revendo na história que o ator, dramaturgo e encenador Alex Cassal criou para estrear o recém-inaugurado Teatro LU.CA. (em minha opinião a peça tem apenas um brevíssimo momento que pode ser melhorado, se a sensibilidade de todas as crianças for tida em conta e esse momento não se destinar apenas a algumas, podendo chocar as outras, mas sobre isso falei no fim com Susana Menezes, a diretora artística do Teatro LU.CA, que simpaticamente convidou os atores e o encenador a virem conversar com o público no fim, numa espécie de extensão da peça que fez com que as crianças saltassem automaticamente para a beira do palco e tivessem a experiência feliz de falar com os atores.).

Nesta floresta mágica, onde tudo pode acontecer, Crista, Daniel, Binete e Alfredo, as quatro crianças perdidas, falam de personagens misteriosos e criaturas assustadoras, mas ao mesmo tempo, cómicas. Riem e fazem rir, perdem-se e voltam a encontrar-se e, pelo meio, falam de um tigre muito assustador que tem uma juba enorme, toda poderosa, feita de lírios gigantes. A ideia do tigre-lírio provoca medo, primeiro por ser um tigre e depois por ser um animal desconhecido. E é este filão que os atores e o dramaturgo exploram em cena.

Ter medo do desconhecido é próprio do ser humano e é, inclusivamente, um sinal de alerta que potencia a auto preservação. É bom sentir medos, portanto. E é esta verdade científica, associada à certeza de que não existem tigres-lírios, que permite aos pais, avós e educadores conversarem depois com as suas crianças, dissecando com elas os seus medos e pulverizando muitos dos seus maiores e mais terríveis pesadelos.

É mais fácil desfazer a ideia de certos monstros e matar alguns fantasmas depois de ver uma peça de teatro em que as crianças perceberam em toda a extensão que há criaturas que não existem e medos que não vale a pena ter, do que tentar explicar-lhes estas coisas sem terem feito a experiência de se reverem em atores ou protagonistas reais ou imaginários de histórias bem escritas ou bem interpretadas.

Nesta rentrée os pais e educadores de crianças e jovens ganharam novas ferramentas para os ajudar a lidar com os seus medos, angústias, ansiedades, e até com situações mais dramáticas como as das vítimas de bullying ou alguma forma de assédio. Passaram a ter o Teatro LU.CA, onde a programação se estende a palestras e Master Classes sobre temas tão essenciais como o racismo e a discriminação, mas também o recém-publicado Livro das Emoções, de Filipa Saragga, escrito em coautoria com as técnicas da Consulta de Ansiedade do Centro de Progresso Infantil e prefaciado por Nuno Lobo Antunes.

O Livro das Emoções é um livro cheio de beleza e magia que explica às crianças as emoções e as maneiras de lidar com elas. Não fala apenas de medos, mas também de saudade, raiva, nojo, tristeza, vergonha, frustração e alegria. Este livro surge na sequência de um outro, integrado no Plano Nacional de Leitura desde o ano em que foi publicado. Falo d’A Princesa Azul, história escrita com a intenção de promover o combate ao bullying através da consciência dos danos que qualquer forma de assédio provoca nas vítimas, sobretudo em idades precoces ou quando a personalidade ainda não está completamente formada e, por isso mesmo, é mais frágil e mais vulnerável.

A Princesa Azul tornou-se uma marca, aliás. Uma personagem com vida própria que gerou uma Associação cuja vocação é ir a escolas teatralizar situações de bullying, permitindo às crianças e jovens compreender melhor o impacto destrutivo de certas palavras e atos. Através da história da Princesa Azul, dos seus amigos e inimigos, as crianças ficam mais conscientes do poder resgatador ou demolidor daquilo que dizem e fazem umas às outras. Mais uma vez a ligação entre livros de histórias e a representação destas mesmas histórias tem o múltiplo efeito de despertar para uma realidade terrível, mas também dá origem a incríveis catarses, pois nas idas às escolas a Princesa Azul tem escutado partilhas de vítimas que se revêm na história e contam aquilo que lhes aconteceu.

Estas crianças nunca partilham em público, mas aproveitam a existência de uma Princesa Azul que vem ao seu encontro, convocando o seu imaginário, mas também a sua experiência e vivências, e no segredo de um gabinete na própria escola ou segredando ao ouvido da Filipa Saragga, que encarna a inspiradora e terna personagem da Princesa Azul, contam terríveis episódios que as atormentam e até ali guardaram só para si. Sabemos bem que o medo, associado ao silêncio, provocam grandes danos na autoconfiança e na autoimagem de crianças e jovens. Danos que podem tornar-se irreparáveis se não forem detetados e tratados a tempo.

É muito impressionante assistir ao início deste processo catártico e curativo das crianças que sofrem por serem (ou terem sido) vítimas de agressão física, moral ou emocional. E é por ser tão impressionante e tão salvífico que não posso deixar de escrever também sobre este belíssimo Livro das Emoções, cheio de profundidade e realismo, mas também repleto de magia e mistério, em páginas a transbordar de ilustrações, mesmo como as crianças gostam.

Entre o livro e o Teatro LU.CA, a Associação Princesa Azul e a teatralização das histórias feita nas escolas, muita coisa pode ser processada, posta em perspetiva e renovada nas crianças, educadores e famílias. Que bom existirem estas e tantas outras boas maneiras de combater os medos das crianças.

 

Contadores de história: projeto na UFRJ que ajuda crianças com doenças crônicas completa 10 anos

Outubro 9, 2018 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do site Extraglobo de 18 de setembro de 2018.

Prestes a completar 10 anos de atuação junto à crianças em tratamento no Instituto de Puericultura e Pediatria Martagão Gesteira (IPPMG), o projeto ‘Contadores de história’ está reunindo relatos de ex-voluntários, pais e pacientes em um livro que deverá ser lançado no próximo ano.

Sem ajuda de custos fixa de nenhuma instituição, o projeto sobrevive com doações, vaquinhas online e apoio dos voluntários, que são alunos da UFRJ ou funcionários do hospital. Cada um dos voluntários doa duas horas semanais para alegrar as crianças que fazem tratamento na unidade. Somente em 2017, foram quase 10 mil crianças atendidas e 3 mil horas de histórias narradas aos pacientes.

O projeto faz tanto sucesso entre os alunos da universidade que, para ser voluntário não basta se inscrever, mas tem que ter uma pitada de sorte. Com 70 vagas por semestre, a organização do projeto recebe cerca de 1500 inscrições dos mais diferentes cursos. Então, para deixar a escolha mais justa possível, é feito um sorteio para decidir quem serão os voluntários.

— No começo, a ideia era ter voluntários de fora da UFRJ. Mas como o hospital é na Ilha do Fundão, não estava dando muito certo. Então decidimos limitar para os alunos da UFRJ e foi um sucesso — comemorou Regina.

Além do certificado de horas complementares, para Regina, o principal estimulo para tantos universitários se colocarem a disposição é um só: fazer o bem.

— O que nos chama atenção é a necessidade de incluir na formação dos alunos esse olhar mais humano. Eles se descobrem lá. Isso ajuda na formação humana e cidadã deles. O que nos mais encanta é que o projeto é praticamente tocado pelos alunos . — conta.

Aluna de comunicação social e voluntária em 2017, Raiane Cardoso, saia de casa em Campo Grande às 5 horas da manhã para estar no hospital às 8 horas para participar das leituras. Depois a jovem ainda tinha ir para a faculdade no campus da Praia Vermelha, na Urca. A expêriencia com as crianças e a vontade de fazer o bem foram os principais motivadores da estudante.

No setor que Raiane mais contava histórias, conhecido como aquário devido as pinturas na parede, estavam as crianças em tratamento de câncer. Por conta do longo período de acompanhamento médico que a doença exige, a estudante acabou criando laços mais fortes com as crianças e seu familiares, como foi no caso do pequeno Felipe.

— A gente têm que estar preparado, você acaba se envolvendo com a história da criança. No aquário eu basicamente contava histórias para as mesmas crianças sempre. E lá tinha um menino chamado Felipe, que era bem pequeno. Nos 6 meses acompanhei de perto o tratamento dele, e teve momentos que depois de contar a história para ele, tive que ir embora de tão emocionada que ficava. — relembra Raiane.

Hoje formada, a terapeuta ocupacional Tainara Brites, ficou por 2 anos no ”Contando Histórias” e passou por diferentes funções da iniciativa, como organizadora de festas e auxiliando os voluntários iniciantes. Para ela, a maior dificuldade foi deixar de olhar as crianças como pessoas doentes:

— No início era bem difícil a entrada do hospital. Principalmente pelo espaço, que não era muito familiar na época. Ver uma criança conectadas em aparelhos não era fácil. O medo dos aparelhos e barulhos era muito grande no inicio. Com os treinamentos e as entradas semanais para contação de histórias esse olhar mudou bastante. Aos poucos comecei a enxergar a criança para além dos fios, acessos e aparelhos. Tirar o foco na doença ajudou muito para minha atuação ser mais natural e menos mecanizada. — conta.

Quem tiver interesse em ajudar o projeto ”Contando Histórias” de alguma maneira, pode entrar em contato com os organizadores pela página do Facebook.

Como as gigantes de tecnologia lidam com os dados de crianças

Outubro 8, 2018 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia e imagem do site Olhar Digital de 15 de setembro de 2018.

Treze! Para os mais supersticiosos, sinônimo de azar. Para outros, sorte. Não é sequer um número cabalístico. Treze é a idade mínima para que uma pessoa possa criar uma conta em uma rede social ou usar um serviço digital online em quase todo o mundo. Desde 1998, é o que define a Lei de Proteção à Privacidade Online para Crianças dos Estados Unidos. Segundo a regulamentação, esta é a idade mínima para que uma empresa possa, legalmente, coletar dados de um indivíduo.

No Brasil também. O Estatuto da Criança e do Adolescente define que, até os 12 anos, uma criança é considerada totalmente incapaz. Ou seja, qualquer um dos seus atos ainda é de total responsabilidade dos pais.

Ou seja, quem definiu essa idade não foi o Google ou Facebook, mas uma autoridade federal. Ainda assim, é impossível afirmar que toda criança, a partir dos 13 anos, terá maturidade suficiente para entrar de cabeça no mundo virtual. É verdade, a gente sabe que a maioria delas começa muito mais cedo, mas será que vale a pena? Cada criança evolui de forma diferente e, nesse sentido, o amadurecimento pode ser algo bastante subjetivo e impossível de ser generalizado.

A partir de denúncias e até com uma mãozinha da Inteligência Artificial, o Facebook bane e remove contas de menores de 13 anos. A idade mínima, seguindo a lei norte-americana, é uma política global da empresa salvo raras exceções, como na Espanha, por exemplo, onde o país exige que a criança tenha 14 anos para possuir conta em um serviço digital. Além disso, como uma proteção extra para adolescentes na plataforma, a rede de Mark Zuckerberg limita as categorias de publicidade para os mais jovens e, nas opções de audiência padrão para as publicações, a opção de fazer um post “Público” não existe. Por fim, o reconhecimento facial das fotos e marcações também é desligado para menores de 18 anos.

Recentemente, o Google foi alvo de investigações do Ministério Público Federal por conta de como trata os dados de crianças usuárias do YouTube. Enquanto há uma infinidade de conteúdo para os pequenos e até produzido por muitos menores na plataforma, os os termos de uso do YouTube dizem que o usuário deve ser maior de 18 anos, ser emancipado ou ter autorização de adultos responsáveis. Mas as autoridades alegam que não há qualquer processo de verificação; ou seja, certamente tem criança usando o serviço e tendo suas informações coletadas sem o devido consentimento legal. Engraçado é que nos Estados Unidos o YouTube enfrenta uma investigação bastante parecida.

As leis de proteção às crianças faz seu papel, mas sozinhas não são capazes de resolver o problema. As empresas digitais dizem que não saem da linha. Mas o mais importante mesmo é educar: pais e filhos.

No Brasil, o cidadão precisa completar 18 anos para ter licença para dirigir. Nos Estados Unidos, 16. Maturidade é uma coisa bastante difícil de se definir. Ainda que não seja hora de proibir ou afastar de forma exagerada os pequenos da vida virtual, o principal recado é geral: quem ama cuida!

Vídeo da notícia no link:

https://olhardigital.com.br/video/como-as-gigantes-de-tecnologia-lidam-com-os-dados-de-criancas/78553

Ensinar as crianças a gerir o seu dinheiro? Quanto mais cedo melhor

Outubro 8, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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thumbs.web.sapo.io

Notícia do Lifestylesapo

Nesta época de regresso às aulas não é fácil gerir um orçamento familiar. Muitas são as despesas com bens essenciais – material escolar, livros e roupa – para que o ano letivo seja produtivo.

É habitual um pai ou mãe ouvir os mais novos da família a interpelarem “compras-me isto?”. Só que, muitas das vezes, esse pedido implica o dispêndio de quantias que se situam muito acima do que é possível suportar no orçamento familiar. Como contrapor com o seu filho e explicar que tal despesa não cabe no orçamento? Será que ele tem noção do que isso poderá implicar no dia a dia financeiro da família?

Pois bem. Esta é uma situação, entre muitas, de conflitos que surgem em contexto familiar quando se discute acerca do dinheiro. É que falar sobre este tema nunca é fácil, principalmente, com crianças e jovens.

Por isso, é boa ideia começar logo cedo a implementar algumas ideias no que toca às finanças lá de casa. Lembre-se que a gestão financeira não é uma competência inata, por isso deve ser ensinada e treinada, tal como atar os atacadores ou ver as horas.

De acordo com um estudo desenvolvido pela Universidade do Wisconsin, as crianças a partir dos três anos já compreendem conceitos tais como o valor e a troca. Também a Universidade de Cambridge indica que a partir dos sete anos, deve começar-se a adquirir os hábitos e comportamentos financeiros que perdurarão ao longo de toda a vida.

Proporcionar uma educação financeira aos filhos é não só produtivo, por evitar alguns dos conflitos financeiros lá de casa, como também ensina-os a serem consumidores mais conscienciosos no futuro.

Assim, ficam aqui algumas dicas de como conduzir os seus filhos de forma eficaz nessa “viagem” ao mundo financeiro:

  1. Remeter a criança para a escolha: “Qual preferes, a caixa dos carrinhos coloridos ou o camião dos Bombeiros?”. Proporciona-lhe a oportunidade de autonomia da escolha, com base no conceito do valor das coisas;
  2. Atribua uma semanada ou mesada (consoante a idade) para estimular uma gestão financeira dos seus recursos;
  3. Não pague pelas tarefas de casa para que ele perceba que todos devem fazer a sua parte. Mas pode atribuir um valor a alguma tarefa que tenha mais impacto, de modo a que ele consiga um rendimento extra e a fim de valorizar o seu esforço;
  4. Ensine-o a trabalhar com cartões. Atribuía-lhe um de débito. Mas, atenção, tem que monitorizar os seus gastos. Envolva-o sempre em todo o processo para que saiba os prós e contras;
  5. Comparar preços. Explique-lhe que o mesmo produto pode ter diversos preços e que, por isso, antes de comprar deve consultar várias lojas. Use a Internet, como exemplo, para comparar preços de diversos produtos e serviços;
  6. Não decida por ele: isto vai ensiná-lo a lidar com um orçamento. Mesmo que cometa algum excesso aprenderá que numa próxima ocasião não o poderá fazer com o risco de ter que lidar com a frustração;
  7. Ajude-o mas não empreste ou adiante dinheiro. Caso contrário, ele vão ficar com a ideia que os empréstimos não implicam nada em troca. É importante definir bem as regras. Em caso de necessidade é preferível ajudar no sentido de ensinar estratégias de poupança ou de aquisição de rendimentos alternativos;
  8. Tenha atenção ao que diz em relação ao dinheiro. Não passe ao seu filho a noção de que a importância da pessoa varia consoante a quantidade de dinheiro que tem;
  9. Seja um exemplo. Não gaste demasiado ou inconscientemente, pois o seu filho aprende observando.

Se as épocas de crise são oportunidades para mudar comportamentos, também devem servir para introduzir melhorias na nossa qualidade de vida. Então, porque não incluir os mais novos nessas mudanças? Para que, mais tarde, eles próprios sejam consumidores mais conscienciosos e tomem decisões financeiras mais coerentes e menos arriscadas.

Os pais são os melhores modelos e os principais orientadores dos filhos, portanto, são eles quem devem fazer a diferença neste contexto.

Margarida Rogeiro / Psicóloga e Psicoterapeuta

© PsicoAjuda – Psicoterapia certa para si, Leiria

 

Como evitar que um pedófilo se transforme num abusador?

Outubro 5, 2018 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 15 de setembro de 2018.

Director do Instituto de Sexologia da Charité – Universidade de Medicina de Berlim esteve na Faculdade de Medicina do Porto a explicar como é que a Alemanha está a fazer prevenção de abuso sexual.

Ana Cristina Pereira

A pergunta foi lançada por Klaus M. Beier, director do Instituto de Sexologia da  Charité – Universidade de Medicina de Berlim, no auditório da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto: como prevenir o abuso sexual de crianças? E a resposta saiu-lhe clara. “Ajudando os pedófilos a controlarem os seus impulsos.”

Desenvolveu um projecto pioneiro na Alemanha, que apresentou na 13.ª edição do Young European Scientis Meeting, a conferência internacional organizada por alunos daquela faculdade. E diz-se disposto a treinar quem desejar seguir-lhe as pisadas. “Gostava que houvesse em Lisboa ou Porto um grupo de terapeutas que se disponibilizassem para avançar com um serviço destes”, afiança.

O abuso sexual pode provocar nas vítimas stress pós-traumático. Os efeitos de longa duração afectam o sistema imunitário, abrindo caminho a outras doenças. E isto leva Beier a questionar por que se investe tão pouco em prevenção primária.

O projecto foi lançado em 2005, com uma campanha que incluiu cartazes e spots. A mensagem era mais ou menos esta: “Tu não és culpado por ter este desejo sexual, mas és responsável pelo teu comportamento sexual. Há ajuda! Não te tornes num agressor.”

A pedofilia, classificada pela Organização Mundial de Saúde como uma doença, “não é uma escolha, é um destino”, enfatiza Beier. “Manifesta-se durante a puberdade e mantém-se estável ao longo da vida. Não tem cura. Uma pessoa pode, porém, aprender a controlar os seus ímpetos, evitar passar à prática.”

Importa não confundir pedófilos com agressores sexuais de crianças. Cerca de 60% dos agressores sexuais identificados usam crianças como substituto. Têm, por exemplo, uma debilidade mental, um distúrbio de personalidade anti-social ou uma atmosfera familiar traumatizante. “Eles gostariam de ter sexo com uma mulher; recorrem a uma menina, porque é mais fácil”, diz. Cerca de 40% sofrem de pedofilia (atracção por crianças pré-púberes) ou hebefilia (atracção por púberes ou recém-púberes). E esses, pelo nível de sofrimento que experienciam, estarão mais abertos a procurar ajuda.

“A sociedade tem de parar de demonizar a pedofilia”, considera o especialista. Só se conseguirá tratar estas pessoas a título preventivo se houver um serviço especializado e se esse serviço for capaz de estabelecer uma relação de confiança (o que implica não denunciar) e de empatia (compreender o sofrimento).

A mensagem que, em seu entender, importa interiorizar é: “Sabemos que isto faz parte da sexualidade humana, sabemos que essa é a orientação sexual de 1% da população, gostaríamos de integrar essas pessoas, não queremos que passem à prática, porque não queremos que façam mal às nossas crianças. Oferecemos-lhe tratamento. Quem abusar de crianças será castigado.”

Parece-lhe que os media têm responsabilidades. “No primeiro ano do programa, os jornalistas foram muito hostis”, recorda. “Perguntavam-nos: ‘O que estão a fazer aí? Estão loucos? Estas pessoas são criminosas. Têm de fazer queixa delas.’ Nós tivemos de os convencer de que esta é a maneira certa de proteger as crianças. E eles compreenderam. Começaram a usar termos mais neutros.”

A linguagem não é de somenos. “Se és um arquitecto ou um médico que sofre de pedofilia e lutas contra isso, não vais aceitar entrar num programa que diga que és um abusador de crianças”, exemplifica. “Tu vais pensar: eu tenho controlado o meu comportamento e tu estás a dizer que eu sou um abusador de crianças! Eu nunca abusei de uma criança! Eu não quero abusar de nenhuma criança!”

O programa para adultos existe em 11 cidades alemãs. Nos primeiros 12 anos, 8497 pediram ajuda e 1418 revelaram-se aptos para tratamento, que combina psicoterapia individual e de grupo com fármacos. Em 2014, arrancou um programa para adolescentes em Berlim. Até Junho deste ano, 114 pediram ajuda e 51 receberam luz verde.

Dois terços dos adultos que se sujeitaram a tratamento estão a conseguir controlar a sua pulsão sexual. Um terço admite ter voltado a ver pornografia infantil. Nos adolescentes, até agora não há registo de reincidência. Beier quer alargar a oferta a adolescentes de todo o país. Por terem uma idade mais próxima da das vítimas, “correm maior risco” de passar do desejo à prática.

O que pode fazer quem está longe? A equipa criou uma ferramenta de autoajuda para quem sente atracção por menores e não tem acesso a terapia e colocou-a online. Está em inglês e em alemão. No futuro, deverá existir noutras línguas, incluindo português. Já recebeu pedidos de ajuda de pedófilos de cerca de 60 países, nomeadamente de Portugal.

 

Com que idade devo entrar na escola?

Outubro 5, 2018 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Expresso de 8 de setembro de 2018.

Imagem retirada do blog do CIEC:

https://ciecum.wordpress.com/2018/09/14/com-que-idade-devo-entrar-na-escola/

 

 

 

Acolher jovens estrangeiros pode ser uma forma de “educar para a tolerância”

Outubro 5, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Miguel Manso

Notícia do Público de 17 de setembro de 2018.

Há famílias portuguesas que recebem adolescentes de outras nacionalidades através de intercâmbios que lhes permitem estudar em Portugal desde três meses a um ano lectivo. Neste período criam-se laços para a vida e aprende-se sobre outras culturas, dizem.

Rita Marques Costa

Francesca, uma jovem italiana, foi a primeira estudante de intercâmbio recebida por Maria João Lourenço e pela sua família, em 2013. “Quando soube que temos cinco filhos, ficou assustada com a dimensão da família”, lembra Maria João. Mas, depois, “adorou”. A esta adolescente seguiram-se Katrine, dinamarquesa, depois, ao mesmo tempo, Joaquin, do Chile, e Orkun, da Turquia. A seguir, Rosie, dos EUA, e Marthe, da Bélgica. No domingo, a família deu as boas-vindas a Baiplu, da Tailândia, e a Ege, da Turquia. Receber estes jovens é uma forma de “educar para a tolerância” e para a diversidade de opiniões e valores em cada cultura.

O programa em que a família está envolvida é da responsabilidade da AFS Portugal — uma associação que promove intercâmbios nacionais e internacionais entre jovens e as suas famílias. Há uma semana, mais de 80 estudantes conheceram as suas famílias de acolhimento.

Quando cá chegam, os jovens são tratados como filhos. Levam-nos a passear, a conhecer a cultura e até a participar nos encontros com outros membros da família. E pesa mais no orçamento familiar? “Depende”, diz Maria João. “Encaramos isto como um investimento que acaba por ser quase irrisório. Grande parte dos custos é da responsabilidade da AFS, como o material escolar e os almoços durante a semana. Não vou dizer que não há gastos — até porque passeamos muito mais —, mas faz parte do pacote educativo que queremos dar aos nossos filhos.”

Sobre os custos, a família de Cláudia e Jorge Calisto diz que pesa mais enviar um filho do que receber. Este ano, a filha Leonor, de 17 anos, foi para os Estados Unidos, o que, entre a escola, viagens e outros gastos, fica perto dos 12 mil euros, estima Jorge Calisto.

Com a partida temporária de Leonor, a família Calisto não contava receber ninguém este ano. “Ser família de acolhimento não estava nos planos iniciais”, lembra Jorge. “Até achámos que ia ser um ano mais tranquilo, só com dois filhos, mas depois ficámos curiosos e sensibilizados pelo facto de haver crianças ainda sem família de acolhimento.” Foi assim que Esin, uma jovem turca de 15 anos, foi parar a casa desta família lisboeta.

Abrir horizontes

Tanto como recebem estes jovens de outras nacionalidades, Maria João e o marido deixam os seus filhos ir. Este ano lectivo, um está na Dinamarca, através dos intercâmbios da AFS, e outra, mais velha, está a fazer o programa Erasmus. “Custa um bocadinho”, confessa Maria João, “mas faz parte da educação”. Para esta mãe, trata-se de ganhar “abertura para o mundo” e de incentivar os jovens a “interagirem com os outros fora da zona de conforto”. E garante que é uma experiência da qual saem “mais bem preparados para os dias de hoje”.

Mesmo assim, não é por irem para outro país que estes jovens deixam de ter de cumprir as obrigações académicas a nível nacional. No caso dos que querem fazer o último ano do secundário no estrangeiro, há que voltar e fazer os exames nacionais. Maria João conta que, por exemplo, o filho que foi para a Dinamarca vai já com o ensino secundário concluído. O plano é regressar no início de 2019, a tempo de fazer melhoria de notas e depois ingressar na faculdade.

Já Cláudia Calisto diz que nos Estados Unidos, para onde foi a filha Leonor, “as equivalências [com as disciplinas portuguesas] são mais possíveis”. Mesmo assim, declara: “Já encaramos a possibilidade que este seja um ano de intervalo.”

“Temos uma bolsa de famílias que costuma estar disponível” para cooperar com a AFS, mas costuma ser “um stress para conseguir o número necessário para satisfazer a procura”, explica a responsável pela AFS Portugal, Rita Saias. Mesmo assim, “não é porque um estudante vai que os pais são obrigados a receber”.

A escolha das famílias “não tem nada a ver com o background académico ou com o escalão financeiro”, assegura Rita Saias. Desde que exista espaço para o estudante e disponibilidade para o receber como um filho, “não se fazem distinções”. Por isso, pode ser uma família monoparental, homossexual, um casal jovem ou mais velho, podem até nem ter filhos ou ser apenas uma pessoa que vive sozinha.

O processo de selecção é relativamente simples. Primeiro, há uma candidatura da família, com “algumas questões básicas”. Depois, há um voluntário que visita a residência e avalia as motivações, disponibilidade e ajuda a “desmistificar” algumas ideias.

Quanto aos jovens, “já fazem parte do programa um ano antes” de chegarem ao país que os vai receber. Quando cá chegam, há voluntários encarregues de seguir os jovens e há um acompanhamento mensal para “garantir que está tudo bem”.

“Para toda a vida”

A primeira barreira que estas famílias sentem será a da língua. A comunicação faz-se em inglês e há um esforço para que os jovens comecem a falar português o mais depressa possível. Na casa de Cláudia e Jorge, por exemplo, os móveis e objectos já estão cobertos de pequenos post-its onde se podem ler os respectivos nomes em português para que a aprendizagem de Esin seja mais rápida.

Ultrapassadas eventuais dificuldades iniciais, este contacto com os jovens não é coisa que fique só pela sua estadia. “É uma relação para toda a vida”, diz Maria João. E não faltam elogios desta mãe aos seus “filhos de acolhimento”. É que, garante, “estes jovens são muito especiais, não é qualquer um que sai da sua zona de conforto”.

A presidente da AFS, Rita Saias, que também participou nestes intercâmbios quando frequentava o ensino secundário, confirma este laço especial que se cria: “São pessoas que sinto que me conhecem melhor do que a minha própria família. Foi uma experiência que mudou completamente a minha vida.”

Emmanuel, da Costa Rica, e Thitinan, da Tailândia, têm ambos 17 anos e chegaram a Portugal no início da semana.

A família de acolhimento de Emmanuel é de Setúbal. Esta é a sua primeira vez na Europa, mas não é uma estreia fora de casa. “Já estive no Panamá, no México e na Guatemala.” Quanto a esta experiência, diz que é uma oportunidade para “amadurecer e ganhar consciência das decisões que o afectam a si próprio”. “Esta é uma oportunidade que não surge duas vezes.”

Para Thitinan importa absorver o máximo da cultura e língua portuguesa e poder partilhar tudo o que aprendeu quando regressar à Tailândia. Quanto aos pais, garante, “insistiram que viesse”.

 

Quer investir na educação do seu filho? Promova desde cedo as suas funções executivas

Outubro 4, 2018 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Sofia Garcia da Silva publicado no Público de 16 de setembro de 2018.

Com o iniciar de um novo ano letivo ressurgem as expectativas e as preocupações, partilhadas por pais e professores, sobre como poderão proporcionar aos seus filhos ou alunos um percurso escolar sólido, autónomo e, sobretudo, feliz.

Aprender a ler, a escrever e a calcular é, geralmente, o centro de interesse e um foco de preocupação para aqueles que, de forma direta ou indireta, participam na educação dos mais novos. Consequentemente, os conhecimentos que uma criança adquire no pré-escolar (conhecer os números, o alfabeto, as cores) tendem a ser considerados importantes indicadores para o seu futuro sucesso académico.

Contudo, aquilo que a comunidade científica ligada ao neurodesenvolvimento tem defendido leva-nos a uma mudança de perspetiva: o sucesso académico parece depender, principalmente, de um conjunto de competências cognitivas que servem de suporte ao processo de aprendizagem, designado por funções executivas. Três dimensões do funcionamento executivo são destacadas na literatura: a memória de trabalho, que nos permite manter e manipular mentalmente informações necessárias à resolução de uma tarefa complexa; o controlo inibitório, através do qual somos capazes de inibir impulsos, resistirmos a distrações, tentações e hábitos e controlarmos as nossas emoções; e a flexibilidade cognitiva, a partir da qual conseguimos alterar o nosso pensamento, estratégias ou prioridades em função das necessidades correntes e ajustarmo-nos às diferentes exigências do meio. Ao trabalharem de forma orquestrada, estas funções possibilitam a autorregulação do comportamento perante a obtenção de um dado objetivo. São consideradas as bases para construção da resiliência e para uma maior produtividade na vida adulta.

Quando uma criança entra pela primeira vez numa sala de 1.º ciclo e inicia a aprendizagem formal, é-lhe exigida, por exemplo, a capacidade para manter a atenção e para filtrar distratores num ambiente rico em estímulos; que seja capaz de trabalhar em colaboração com os outros, inibindo respostas preponderantes ou comportamentos desajustados; ou que execute de forma eficiente as instruções dadas pelo professor. São estas ferramentas que vão permitir que a leitura, a escrita e a resolução de problemas tenham lugar, pelo que dificuldades ou défices nestas capacidades têm um impacto negativo no comportamento na sala de aula e no desempenho académico. Assim, a capacidade que a criança tem para recrutar e aplicar estas funções constitui um pré-requisito fundamental não só para o desenvolvimento das suas competências escolares, como também socioemocionais.

Todavia, de acordo com Center on the Developing Child, da Harvard University, as crianças não nascem com estas capacidades, mas sim com um potencial para as desenvolver. O seu desenvolvimento segue uma maturação gradual, mas não simultânea para todas as funções, que se inicia na infância e que se prolonga até à adolescência. Para além da influência dos factores genéticos e ambientais, as experiências assumem um papel crítico e podem ocorrer quer em contexto escolar, mais formal e estruturado, quer em contexto familiar e informal (p. ex. através do jogo e da brincadeira livre). Tal como um músculo, são a ação e a prática repetida que irão reforçar as múltiplas e complexas conexões neurais que suportam estas funções cognitivas. Assim, um maior conhecimento sobre estas capacidades e sobre as suas formas de promoção constituirá um excelente investimento no futuro dos seus filhos ou alunos. Através do exemplo e do fornecimento de “andaimes”, os adultos podem ajudar a criança a fortalecer as suas capacidades executivas emergentes, até que elas próprias sejam capazes de as usar autonomamente, num percurso de progressiva dependência-autonomia.

Aproveite o regresso às aulas para estabelecer um ambiente organizado, com rotinas e regras claras; ajude o seu filho ou aluno a traçar planos e objetivos a atingir; ensine-lhe estratégias que facilitem a memorização; segmente tarefas complexas em pequenos passos, se perceber que a criança não conseguirá ter sucesso; dê instruções de formas variadas ou organizadas em pequenas unidades, se lhe for difícil memorizar e executar indicações extensas. Vá retirando o seu apoio de forma gradual, dando maior independência à criança e permitindo que ela aprenda também com os seus próprios erros. Um bom ano letivo!

A autora segue o acordo ortográfico

Técnica Superior de Educação Especial no CADIn

É preciso tirar as crianças do sofá – Carlos Neto

Outubro 4, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista de Carlos Neto ao Jornal C de setembro de 2018.

Entrevista no link:

https://www.cascais.pt/sites/default/files/anexos/jornal/c_100_setembro2018_net.pdf

 

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