Um cão como ligação entre o mundo e uma criança autista

Abril 24, 2018 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.publico.pt/ de 9 de abril de 2018.

Poderá um cão ajudar crianças com perturbação do espectro do autismo? O presidente da Associação Portuguesa de Cães de Assistência (APCA) não tem dúvidas: “Sim, pode.” Um cão, treinado, diz Rui Elvas, será um ponto de focalização para a criança, ajudando-a em momentos de maior ansiedade. “Uma ida ao centro comercial, com todos os estímulos visuais e sonoros, pode ser muito difícil para uma criança com autismo. Um cão de assistência será uma espécie de porto seguro”, exemplifica ao PÚBLICO o responsável pela APCA.

A associação, que nasceu há quatro anos, já treinou 11 cães para acompanhar crianças com perturbações do espectro do autismo, e dos 240 pedidos que tem em lista de espera, 70% são para este tipo de patologia. O primeiro a ser treinado, há dois anos, foi o Sinatra, um labrador. O último foi a cadela Lia, que aterrou no final da semana passada na Madeira, mesmo no meio da família de Francisco, de quatro anos, a quem, em Março de 2016, os médicos diagnosticaram autismo.

É ele que corre todo o comprimento do pequeno cais da praia de Machico, a segunda cidade da ilha, a 30 quilómetros a leste do Funchal. Uma após outra, vai retirando da praia de calhau rolado pequenas pedras que depois atira com cuidados mil para o mar. Lia, um cão-d’água português, está deitada a observar.

A interacção entre os dois é nula, neste momento. Rui Elvas nota que é cedo. Lia — o nome foi escolhido para rimar com “ia”, um dos poucos sons que Francisco já articula — tem quatro meses, e chegou à Madeira naquele mesmo dia. É o início de um processo longo de familiarização e treino, que, segundo Rui Elvas, vai ajudar a criança a lidar com as ansiedades e frustrações que acompanham o autismo.

“Enquanto os adultos pressionam a criança, o cão de assistência não pede nada em troca. Não exige, não força. Está simplesmente lá para ela”, sintetiza o presidente da APCA.

Carla Pereira, 47 anos, mãe de Francisco, quer acreditar que sim. Que vai ajudar a ligar o filho ao mundo. Conheceu a APCA no final do ano passado, no dia de Natal. Uma reportagem na televisão contava a história da entrega de um cão a uma família com três crianças com perturbações do espectro do autismo, nos Açores. “Estava a ver e pensei: porque não? Mal não irá fazer”, recorda ao PÚBLICO, enquanto acompanha o vaivém do filho, entre o início da praia e o meio do cais.

As dificuldades de linguagem e de socialização de Francisco confundiram no início a família e os médicos. “Pensámos que era surdez, e fizemos uma imensidão de exames, mas o Francisco não tinha problemas de audição”, conta Carla Pereira, que ensina Matemática na escola secundária da cidade.

Quando o diagnóstico de autismo foi feito, já a família desconfiava. O atraso na linguagem foi o primeiro sinal de alerta. As dificuldades de socialização, a confirmação.

Desde então, Francisco é acompanhado pelo Centro de Desenvolvimento da Criança, no Serviço de Pediatria do Hospital Dr. Nélio Mendonça, no Funchal. Terapia da fala. Terapia ocupacional. Psicologia. Quando falou com o neuropediatra sobre o que tinha vista na televisão, o clínico não se opôs. “Mal não fará”, ouviu Carla Pereira.

Em Fevereiro, dois meses depois de ter conhecido o trabalho da APCA, já Rui Elvas estava na Madeira a visitar a família. O objectivo é perceber quais são as necessidades da criança. O contexto familiar e que tipo de cão se adequa melhor.

“Não saltar, não ladrar”

Neste caso, foi escolhido um cão-d’água português, que, aponta Rui Elvas, é uma raça com características muito próprias que vão ao encontro das necessidades das crianças com perturbações do espectro do autismo. À cabeça, está a maior esperança média de vida (14/15 anos) quando comparada com outras raças, o que garante à partida mais tempo com a criança/jovem. “Em segundo lugar, amadurecem mais rápido, o que permite que comecem a ser treinados mais cedo”, enumera Rui Elvas, apontando para Lia, que se mantém imóvel e em silêncio. “Se fosse um labrador, com esta idade, não estava quieto”, compara o treinador.

Lia, continua, teve de esperar quatro meses para ser entregue, por ser essa a idade mínima para poder ser vacinada contra a raiva e viajar de avião. Não fosse isso, podia ter sido introduzida na família mais cedo. “O normal é acontecer entre as oito e as 12 semanas, para o cão se habituar aos movimentos muitas vezes bruscos e aos barulhos que as crianças fazem.”

Outra vantagem do cão-d’água é o pêlo. Esta raça, originária do Algarve, que ganhou nova vida em 2009 quando foi adoptada pelos Obama na Casa Branca, tem cabelo em vez de pêlo. “A questão das alergias não se coloca, o que é uma enorme vantagem.”

A primeira fase do treino do animal é a obediência, como se fosse um normal cão doméstico. “É importante estabelecer três regras simples: não saltar, não ladrar e não morder”, enumera Rui Elvas, que nesta fase, como na seguinte, se limita a orientar a família. “A ideia é supervisionar e facilitar, promovendo sempre a relação entre o cão e a nova família.”

O segundo momento do treino é mais técnico. Específico para a criança a quem o cão irá prestar assistência. No caso das perturbações de autismo, os cães são treinados para acompanhar a criança de forma a estarem presentes quando for necessário acalmá-las. “Existe muitas vezes a tendência para as crianças fugirem, e o cão é treinado para evitar isso.”

Tudo isto custa dinheiro. A aquisição, o treino e a certificação de um cão de assistência para crianças com autismo atingem os cinco mil euros. No Orçamento do Estado para este ano, por força de uma proposta do PAN, foi incluindo uma alínea que prevê o apoio financeiro às escolas que certificam os cães de assistência. Mas até agora nada foi concretizado. Por isso, a APCA tem de ser criativa. “Vamos retirando parcelas das famílias que podem pagar, para que outras, que não têm possibilidades económicas, possam também ser apoiadas” explica Rui Elvas. Muitas vezes não é suficiente. A associação tem recorrido ao crowdfunding ou a eventos para angariação de fundos, como o que aconteceu em Dezembro, nos Açores.

A APCA, que tem também treinado animais para a Dinamarca, Suíça, Alemanha, Luxemburgo, Angola e vai estar dentro de semanas em Inglaterra, nasceu em 2014 e integra, entre treinadores, terapeutas, veterinários e psicólogos, um total de 13 pessoas.

A ideia de constituir uma associação sem fins lucrativos surgiu quando uma família bateu à porta da K9 Training Center, a escola de treino canino que Rui Elvas mantém no Estoril, a perguntar se podiam treinar um cão de assistência para uma criança diabética. “Percebemos que essa área não estava a ser trabalhada e decidimos criar a associação para dar resposta a estas situações.”

Para além dos 11 cães treinados para dar assistência a crianças com autismo, a APCA já entregou outros oito, para patologias tão distintas como a diabetes (cães são treinados para supostamente detectarem crises de hipoglicemia) ou a mobilidade reduzida. O objectivo, diz Rui Elvas, é continuar a ajudar as pessoas.

 

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Porque é que as crianças pedem sempre a mesma história na hora de dormir?

Abril 24, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia da https://www.tsf.pt/ de 9 de abril de 2018.

A psicóloga Clementina Almeida acredita que esse pedido está relacionado com uma necessidade de rotina. “A rotina dá-lhes uma sensação de previsibilidade. Não é por acaso que eles pedem para ler aquela história outra vez e outra vez e é sempre a mesma – porque isso lhes dá segurança”, explica a psicóloga clínica.

Clementina Almeida explica que a previsibilidade, o saberem o que vem a seguir, ajuda as crianças a acalmarem-se e os momentos que antecedem a hora de dormir são muito importantes.

Para Clementina Almeida, não interessa qual é a rotina (porque cada família é uma família), o que importa é que ela exista.

Ouvir a psicóloga Clementina Almeida no link:

https://www.tsf.pt/sociedade/interior/porque-e-que-as-criancas-pedem-sempre-a-mesma-historia-na-hora-de-dormir-9244306.html

Conferência “Educação Artística: Uma prioridade, a Formação de Professores” Maria Emília Brederode Santos, 10 de maio em Lisboa

Abril 23, 2018 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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mais informações no link:

https://www.facebook.com/events/1338423776258737/

 

Como lidar com esta nova geração “dependente” da tecnologia

Abril 23, 2018 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia da http://visao.sapo.pt/ de 8 de abril de 2018.

CLARA SOARES

Jornalista e Psicóloga

Duas psicólogas, especialistas em perturbações que afetam os adolescentes, falam das pressões excessivas e dos exageros da vida virtual. Não é à toa que a Organização Mundial de Saúde acabou de incluir o “vício de videojogos” na sua lista de doenças do foro psiquiátrico.

IVONE PATRÃO

A investigadora do ISPA – Instituto Universitário de Psicologia Aplicada e autora do livro Geração Cordão defende que os adultos devem falar com as crianças desde cedo sobre 
o uso da tecnologia

Os adolescentes passam demasiado tempo online ao ponto de isso lhes alterar o humor?

Há dez anos, comecei a receber na clínica jovens com indicação de comportamentos agressivos e alterações do sono, mas que nada tinham que ver com perturbação de hiperatividade e défice de atenção. Estavam ligados à dependência online. 
A dependência da tecnologia compromete a alimentação, o sono, o rendimento escolar, as relações com os outros. Numa pesquisa que fizemos com meio milhão de adolescentes que usa smartphone, 14% deles tiveram a cotação máxima em dependência da internet.

A vida virtual e o multitasking afetam o funcionamento 
do cérebro juvenil? 
Há diferenças de género?

Quem já tem outros fatores de risco para sintomas ansiosos e depressivos fica mais vulnerável. 
Os estudos na área da neurobiologia, com recurso a ressonâncias magnéticas, mostram que são ativadas as mesmas zonas cerebrais (da recompensa) nos utilizadores da internet e de videojogos. O excesso 
do seu uso limita o desenvolvimento 
e o treino das competências sociais 
e da autonomia. Uma investigação com 2 220 jovens, entre os 12 e os 30 anos, permitiu perceber que os rapazes tendem a ligar-se mais aos videojogos 
e as raparigas às redes sociais.

Os miúdos aprendem por imitação e seguem o modelo dos pais. Estes estão à altura?

Os jovens, com legitimidade, perguntam: “Então o meu pai não me deixa estar na internet e, à uma da manhã, põe um post no Facebook?” Chegam aos 16 anos sem nunca terem conversado sobre isto com os pais ou recebem respostas vagas como “podes estar, mas só um bocadinho” ou “já estás nisso há tempo demais”. 
Não são exemplos a seguir.

Os jovens podem ficar deprimidos pelo medo da comparação social 
na vida real. Como se lida com isto na vida virtual?

A pressão do grupo sempre existiu. 
A vida online amplia essa pressão, eles ficam 24 horas ligados, sem parar 
para refletir, como acontecia antes. Deixaram de ter time out. Assumo que a sintomatologia ansiosa e depressiva tem que ver com esta sobrecarga. Aconselho os pais a promoverem momentos de encontro. Definam regras, como o não usar ao jantar, sem exceções, seja o jogo ou o email de trabalho a enviar. Mas falem uns com os outros!

TERESA LOBATO FARIA

A especialista lembra que os jovens precisam de se sentirem compreendidos e aceites pelos adultos, sem pressões excessivas nem julgamentos. E deixa pistas para os pais e os professores
Porque se agravam 
os sintomas ansiosos e depressivos 
na adolescência?

Essa é a altura da vida em que os jovens começam a questionar e a tomar decisões, a imitar o que fazem os amigos. 
É também nessa altura que surgem atitudes de isolamento ou de rebeldia. Há também a questão genética, o bullying, a rejeição do grupo e o stress crónico nas famílias. O imediatismo social dominante limita a capacidade de esperar e de resistir à frustração. 
A ansiedade vem antes da depressão 
e é um fator de risco para esta.

O que faz com que haja jovens que se sintam menos bem na escola, chegando mesmo a vomitar?

Vomitar pode traduzir uma fobia escolar ligada à angústia da separação ou ao excesso de exigência e à pressão para o sucesso. Muitas vezes, os adultos exigem em vez de ajudarem. Por exemplo, quando divulgam nas redes sociais o facto de o filho estar no quadro de honra… A intenção até pode ser boa, mas a comparação social cria sensações de incapacidade.

A adolescência não é uma doença. 
Há alguma coisa que está 
a escapar aos adultos?

O pior que se pode dizer a um adolescente aflito é: “Tu sabes, tu consegues.” Isto agrava o problema, conduz a estados de desistência e de falta de esperança. Outros erros comuns: numa turma, castigar os malcomportados sem ter a sensibilidade de avaliar o impacto que isso tem sobre os perfeccionistas, que vão para as aulas com uma ansiedade horrível; pais que ficam ofendidos se os jovens preferem programas com amigos às saídas com eles.

Que fatores contribuem 
para uma adolescência tranquila?

A partilha familiar, que é um fator protetor por excelência, mas existe pouco, 
e ter abertura para aceitar os deslizes e a experimentação dos miúdos. Imagine que o vê a fumar – mas é fumador, está em risco ou só a experimentar? Os pais também não devem ficar sentidos perante os primeiros sinais de autonomia dos filhos, o que é saudável. Quando os vossos filhos se queixam, levem-nos a sério. Evitem que meros mal-entendidos se tornem conflitos enormes. Saibam ouvir e respeitar para que eles não se sintam incompreendidos e cresçam com chão e esperança.

 

 

 

Hiperatividade infantil. Estamos a medicar demasiado os miúdos?

Abril 23, 2018 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do site https://magg.pt/ de 5 de abril de 2018.

por MARTA GONÇALVES MIRANDA

Os pais acusam as escolas de fazerem pressão, os professores alertam para os perigos de ignorar o problema da hiperatividade.

Quando Jasper estava no terceiro ano do primeiro ciclo do ensino básico, foi-lhe diagnosticado défice de atenção. A meio do ano, a professora sugeriu que a criança começasse a tomar medicamentos. “Eu disse: ‘Ele não toma medicamentos’”, conta Regina, mãe de Jasper, no novo documentário da Netflix, “Take Your Pills: Receita para a Perfeição”. A professora respondeu-lhe: “Nesta escola toda a gente toma medicação”.

Em 2015, o Infarmed lançou o primeiro (e para já único) estudo sobre o consumo de fármacos para a Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA). Os números eram alarmantes: cerca de cinco milhões de doses estavam a ser prescritas por ano a miúdos até aos 14 anos. Por outros números, em 2014 tinham sido dispensadas 276 mil embalagens de metilfenidato em Portugal continental.

Metilfenidato. Falamos da substância ativa mais comum em Portugal para tratar a Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA). Nas farmácias portuguesas é vendida com os seguintes nomes: Concerta, Ritalina e Rubifen.

Na altura, a Direção Geral de Saúde descreveu os números como “alarmantes”. Felizmente, nos anos seguintes os números melhoraram: segundo o Infarmed divulgou ao jornal “Público” no início deste ano, verificou-se uma diminuição no consumo de medicamentos para tratar a hiperatividade e défice de atenção. Entre janeiro e novembro de 2016 foram vendidas 259 mil embalagens. Em 2017, foram 254 mil.

Os números estão mais baixos, no entanto o debate continua aceso. Para alguns, como a professora do 3º ciclo do ensino básico, Carla Magalhães, há crianças que deveriam estar a ser medicadas e não estão porque os pais não se querem render à chamada “doença da moda”. Precisam de facto de ajuda porque, sem ela, não conseguem aprender ou sequer integrar-se. No extremo oposto, outros defendem que há miúdos mal-medicados ou a serem incentivados a tomar medicamentos prematuramente, com pais a acusarem as escolas de fazerem pressão.

“Eu sei que não era um miúdo fácil, mas não foi a medicação que o ajudou”

Vânia Barreiras é educadora de infância. Aos 37 anos, conviveu de perto com o problema da hiperatividade e défice de atenção. Ou pelo menos acha que sim: um dos seus filhos, hoje com 18 anos, foi diagnosticado com a doença quando passou para o quinto ano numa escola privada em Viana do Castelo. Um médico aconselhou a criança a tomar medicação. Começaram por uma dose baixa de Concerta.

“Eu recebia queixas do género: ‘Ele brinca com tudo, até com a borracha’. Era a forma que ele tinha de se manter atento, precisava de se mexer. Eu notava isso em casa, quando estávamos a estudar o dois estava sempre a abanar as pernas, por exemplo.”

Porém, Vânia Barreiras acabou por aceitar o que os médicos lhe diziam, que a medicação era a única alternativa. No primeiro ano, as coisas pareciam estar a correr bem. Os professores pararam de a chamar à escola, o filho parecia estar mais concentrado, até tinha a letra mais legível. Só que logo a seguir vieram os efeitos secundários, como as dores de cabeça e a falta de apetite.

“Quando vinha o corta-mato da escola, dizia que não queria tomar o medicamento porque se não depois não conseguia correr”

“Estava apático, parecia uma crianças doente. Quando vinha o corta-mato da escola, dizia que não queria tomar o medicamento porque se não depois não conseguia correr.”

Até que começou a mentir — farto de se sentir alterado com a medicação, a criança começou a deixar de tomar os medicamentos às escondidas dos pais. Vânia Barreiras apercebeu-se disso e, percebendo a aflição do filho, decidiu cortar com a medicação no 7.º ano.

“No 8.º ano mudou de escola e eles diziam o inverso: nada de medicação. Hoje está a terminar o 12.º ano e não toma nada. Eu sei que não era um miúdo fácil, mas não foi a medicação que o ajudou. Não foi a pressão da escola que o ajudou. Há casos e casos, as coisas têm de ser avaliadas individualmente.”

Aos 18 anos, o filho de Vânia é uma criança perfeitamente normal. Mas nunca mais conseguiu encontrar o equilíbrio com a escola — detesta ler, escrever, tudo o que seja teórico é um martírio. “Mas se forem actividades práticas não há problema nenhum. Ele pratica equitação, por exemplo, e tem um talento natural para acalmar os cavalos. Conseguiu ir ao pódio de um campeonato regional sem qualquer dificuldade.”

Há pressão das escolas para medicar os miúdos?

Joana Esteves, 31 anos, está neste momento a trabalhar na área social, mais precisamente no rendimento social de inserção. Há pouco tempo lidou com um caso de uma criança diagnosticada com PHDA que, inesperadamente, começou a sentir palpitações. Os médicos suspeitaram que podia ser um problema cardíaco, por isso pediram aos pais que parassem com a medicação até serem feitos todos os exames.

“A escola recusou que ele tivesse aulas até voltar a estar medicado”, conta Joana Esteves à MAGG. “A criança esteve em casa até saírem os resultados dos exames e perceberem que o problema não era da medicação.”

“Está na moda medicar os miúdos. Fala-se muito nisto: é uma criança agitada, logo se calhar é uma criança hiperativa. Não, se calhar é só uma criança normal que salta, pula”

Joana Esteves trabalhou praticamente toda a vida com crianças, nomeadamente em contexto de ATL. Tal como os números do Infarmed atestam, também ela sentiu uma diminuição no consumo de psicofármacos no ano letivo e 2016/2017. Nos anos anteriores, não tem dúvidas: havia muitas crianças medicadas. Se tivesse de apontar um número, diria entre 15 a 20%.

“Há pressão das escolas para ter as crianças medicadas”, afirma. “Está na moda medicar os miúdos. Fala-se muito nisto: é uma criança agitada, logo se calhar é uma criança hiperativa. Não, se calhar é só uma criança normal que salta, pula.”

Um empresária de 45 anos que pediu anonimato sentiu isso na pele. No ano letivo de 2014/2015, o filho entrou para o primeiro ano num colégio privado em Lisboa. “Senti logo pressão por parte da escola para que ele fosse ao psicólogo do colégio.” Os pais assim fizeram, e o menino foi diagnosticado como tendo défice de atenção. Encaminhado para outro gabinete de psicologia infantil, a avaliação foi completamente diferente — o miúdo estava ótimo, garantiram.

“A única coisa que lhe prescreveu foi um café de manhã para aumentar a concentração. Mas a pressão na escola continuou.”

Nunca ninguém disse abertamente “o menino precisa de tomar medicação”, mas indiretamente parecia ser essa a resposta. Os pais estavam constantemente a receber chamadas de atenção, na escola o rapaz sentia-se inferiorizado. “Ele começou a ser acompanhado por uma psicóloga e a professora dizia que ele estava muitas vezes distraído. ‘Parece que não dormiu, estava deitado em cima da secretária’. Ela nunca percebeu que ele fazia isto, não porque não tivesse dormido à noite, mas porque estava desmotivado — isto foi-me dito pela psicóloga.”

“Eles querem miúdos robot, que não olhem para o lado. Uns são mais quietos, outros são mais distraídos. Os mais distraídos são logo rotulados com défice de atenção. No mínimo!”

O filho da empresária esteve no colégio durante o primeiro e segundo anos do primeiro ciclo do ensino básico. A auto-estima da criança estava cada vez pior. Começou a ficar obcecado com as notas, e a fazer comentários em casa como “eu não sou bom, só tive 57%”. Quando a mãe encontrou uns desenhos do filho com as frases “eu não devia ter nascido” e “sou um falhado”, linguagem que ele nunca tinha ouvido em casa, tomaram a decisão de o tirar do colégio. Fizeram-no em janeiro deste ano.

“Hoje em dia as escolas privadas estão muito vocacionadas para rankings. Querem ser as melhores, porque isso vende mais. Eles querem miúdos robot, que não olhem para o lado. Uns são mais quietos, outros são mais distraídos. Os mais distraídos são logo rotulados com défice de atenção. No mínimo! Isto é um massacre para os miúdos.”

Na nova escola, o comportamento do rapaz mudou completamente. “Hoje o meu filho está muito mais feliz. Não teve qualquer problema de adaptação e não tem de tomar nada.”

Marta Calado, psicóloga na Clínica da Mente, no Porto, assegura que a maioria dos casos que chegam à clínica vêm por sugestão das escolas. “Quando os pais chegam aqui com crianças que foram diagnosticadas com PHDA, normalmente isto acontece devido a uma queixa escolar.” Muitas vezes, a clínica recebe estes pais porque eles não conseguem reconhecer os seus filhos após a toma da medicação — eles ficaram completamente diferentes, regra geral pior.

“O pedido de apoio muitas vezes passa por aqui: eu não quero ter o problema que tinha anteriormente mas também não quero este novo problema com que me deparo agora.”

Na opinião de Marta Calado, é muito fácil perceber se uma criança tem ou não hiperatividade. “Conseguimos identificar rapidamente quando há uma limitação que é de âmbito físico ou emocional.” E à pergunta se recebem mais casos de crianças bem ou mal-diagnosticadas, a resposta é imediata: “Mal. Sem dúvida. Temos poucos casos dos ditos ‘verdadeiros’ hiperativos. Cada vez mais são os casos de crianças mal-diagnosticadas.”

“Os professores não querem ter os miúdos medicados”

Carla Magalhães é professora de fisico-química há 23 anos. Neste momento numa escola em Lisboa a dar aulas ao 3.º ciclo, deixa o alerta: no que diz respeito à medicação, estamos a entrar num debate onde de um lado estão as pessoas a favor e no outro as pessoas contra. E isso sim é o mais preocupante: não podemos ser contra ou a favor. Tudo depende dos miúdos.

“Obviamente que não podemos pensar em ter a maioria dos nossos jovens dopados. E preocupa-nos que haja um consumo excessivo. Mas há casos em que é absolutamente imprescindível. Miúdos hiperativos não são miúdos agitados, não são miúdos com mau feitio ou que não sabem estar. Eles sofrem hiperatividade, e a hiperatividade é uma patologia.”

A professora de 46 anos realça que maus profissionais existem em todas as profissões. Não pode falar por uma classe inteira e garantir que não há professores que incentivam os pais a procurarem soluções medicamentosas, no entanto, afirma que esta não é de todo a regra.

“Os professores não querem ter os miúdos medicados. É de facto difícil gerir turmas com 30 ou mais alunos, e também se sabe que a nossa profissão carece de facto de apoio. Antes bastava passar a informação de que o menino estava mal-comportado e o assunto era resolvido, agora se calhar pensa-se primeiro que a responsabilidade não é da criança. Mas não é por isso que vamos agora desatar a caçar miúdos com hiperatividade. Eu pelo menos espero que não seja isso que se esteja a passar.”

Só que o contrário também não pode acontecer: não podemos ter miúdos que precisam de ajuda e não a recebem. “Há alturas em que é aflitivo o sofrimento destas crianças. Se eu pedir a um miúdo agitado para sossegar e dizer-lhe que no final ele pode fazer aquilo que quer — a tal questão da recompensa —, ele consegue. Com um miúdo hiperativo isto não funciona porque ele simplesmente não consegue. E ele ficafrustrado, porque quer fazê-lo mas não consegue.”

Carla Magalhães explica que os miúdos hiperativos são, regra geral, extremamente inteligentes. Logo têm consciência que não conseguem fazer aquilo que lhes é pedido, o que os deixa em luta consigo mesmos. Além disso, são muitas vezes usados pelos colegas para causar distúrbio nas aulas — eles sabem que eles não vão conseguir controlar-se —, no entanto, no recreio, são estereotipados e postos de parte. Isto porque até para os colegas eles são demasiado agitados.

“Que também há o contrário, há. Há miúdos que quase roçam o abandonado pelos pais quando estes não tentam pelo menos perceber o que se passa com eles.”

“Já tivemos alguns casos em que tivemos de falar com os pais para encaminharem esses miúdos. Porque de facto estavam em sofrimento. O máximo que um professor pode fazer é pedir à mãe ou ao pai para verem, fazerem um rastreio, e depois agirem em conformidade. Que seja generalizado que os professores querem que os miúdos tomem medicamentos, não. Agora, que também há o contrário, há. Há miúdos que quase roçam o abandonado pelos pais quando estes não tentam pelo menos perceber o que se passa com eles.”

“Eu não queria que ele tomasse medicação. Pensei que podia ser só uma fase, todas as crianças são agitadas”

O filho mais velho de Tatiana Gaspar, 32 anos, foi diagnosticado com hiperatividade e défice de atenção há dois anos. No início, a recepcionista em Lisboa foi completamente contra a utilização de medicamentos. “Eu não queria que ele tomasse medicação. Pensei que podia ser só uma fase, todas as crianças são agitadas.”

Só que a situação tornou-se cada vez mais grave. No jardim de infância, Tatiana Gaspar era constantemente chamada à escola pela educadora — o filho não parava quieto, batia nos outros meninos, subia aos móveis, não respeitava nenhuma regra. A educadora chegou a dizer à mãe que, nos dias em que ele estivesse mais agitado, tinha de o ir buscar à escola.

“Já não sabia o que fazer. Acabei por falar com a médica e começámos a dar medicação, primeiro para o défice de atenção e mais tarde para a hiperatividade.”

Tatiana Gaspar notou imediatamente mudanças no comportamento do filho. Não é que de repente se tivesse tornado numa criança calma. Nada disso: continuou agitado, fazia as suas birras, mas pela primeira vez conseguia concentrar-se nas tarefas. Já consegue pintar e fazer desenhos, por exemplo, coisas que não fazia antes.

No início de fevereiro, uma troca na medicação pelo genérico causou o terror lá em casa. “Durante um mês, foi como se tivéssemos começado tudo outra vez. Voltou àquilo que era. Nós perguntávamos-lhe: ‘Porque é que estás assim, porque é que estás a fazer isso?’, e ele respondia: ‘Porque a minha cabeça não para’. ‘Filho, para um bocadinho.’ ‘Mãe, a minha cabeça está maluca’.”

Nenhum pai gosta de tomar a decisão de medicar um filho. No caso de Tatiana Gaspar, foi uma decisão extremamente difícil. No entanto, as melhorias são evidentes: sim, continua agitado e irrequieto mas, nas palavras da mãe, os miúdos também não nasceram para ficar quietos. É normal. O que interessa é que agora já consegue prestar atenção às tarefas que tem de realizar, seja na escola, seja na terapia da fala.

“Tem dado muito resultado. Ficou muito mais interessado nas coisas, mais participativo. Também melhorou bastante na fala e na concentração.”

“Eu até digo na brincadeira que ele agora está mais chato, porque quer saber o porquê de tudo. Isso não acontecia antes.”

Uma dos temas tabu que envolvem a questão da medicação é o facto de os miúdos ficarem apáticos, quase sem vida. Isso nunca aconteceu com o filho de Tatiana: “Na terapia, às vezes fica muito quieto, porque é só ele e a terapeuta e não tem outros estímulos. Mas é porque está concentrado, não apático. Eu até digo na brincadeira que ele agora está mais chato, porque quer saber o porquê de tudo. Isso não acontecia antes.”

“Passo mais tempo a tirar medicação do que a pôr”

O grande problema actualmente é olhar para uma criança que se mexe muito e assumir de imediato que ela é hiperativa ou tem um défice de atenção. “Passo mais tempo a tirar medicação do que a pôr”, revela à MAGG Pedro Cabral, diretor clínico do Centro de Apoio ao Desenvolvimento Infantil, CADIn. “Toda a gente está a utilizar critérios de medicação em função do grau de movimento.” E isso não podia ser mais errado: “Às vezes precisamos de nos mexer para fixar melhor as coisas. O exemplo mais básico é contar pelos dedos: se eu contar pelos dedos, consigo contar até mais tarde e melhor.Estou a recrutar mais circuitos para a mesma tarefa e em sítios diferentes do cérebro.”

“O que há mais são miúdos quietinhos a olhar para os professores e a segui-los com os olhos e os professores a pensarem que eles estão muito atentos quando na realidade estão a pensar que ela tem o nariz quase a cair”

Na opinião de Pedro Cabral, há cada vez mais diagnósticos feitos em consulta, nos infantários e nas escolas em que se assume que a criança não está a prestar atenção porque se mexe. Isso não é verdade. Para aprender nós precisamos de estar atentos. Não interessa se nos estamos a mexer muito. “Mas como é que ele pode estar atento se se está a mexer?”. “A pergunta é: ‘Se não para atento, como é que consegue estar quieto?

“O que há mais são miúdos quietinhos a olhar para os professores e a segui-los com os olhos e os professores a pensarem que eles estão muito atentos quando na realidade estão a pensar que ela tem o nariz quase a cair. O facto de a criança estar quieta ou parada não quer dizer que esteja a seguir o raciocínio do professor.”

A forma como as crianças estão a ser educadas também é relevante no que diz respeito aos diagnósticos errados de PHDA. Pedro Cabral sublinha que vivemos tempos em que, quando interrompem os pais, as crianças recebem logo atenção; quando pedem qualquer coisa, recebem-na de imediato. Além disso, há cada vez mais pessoas a interferir na educação dos miúdos — pais, avós, tios, profissionais, todos a opinar sobre as crianças. Às vezes, essas vozes só causam ruído.

Os medicamentos deixam as crianças apáticas?

Marta Calado, da Clínica da Mente, relata que muitas crianças que recebe chegam de facto num estado de apatia. “A criança fica nitidamente diferente daquilo que era antes. Obviamente que isto depende de caso para caso. Se temos uma criança que é ativa e faladora, vamos ter uma criança quase muda; se temos uma criança ativa mas que não é muito faladora, assistimos a uma alteração de comportamento a outro nível.”

“Se os medicamentos deixam as crianças apáticas, então é porque estão a ser dados em excesso. E isso é muitas vezes o efeito procurado pelos pais, professores ou cuidadores porque querem ter as crianças sossegadas e, pensam eles, talvez atentos”, explica Pedro Cabral. “O café e a Ritalina têm exatamente o mesmo efeito ao nível do sistema nervoso. Não é suposto ficar ‘pedrado’.”

E quais são os maiores perigos da medicação? Para Pedro Cabral são dois: os miúdos convencerem-se que só conseguem estudar medicados; e os pais, médicos e professores ficarem contentes esquecendo-se de pensar no que é que não está certo em casa ou no ambiente que rodeia a criança.

“Temos miúdos que às vezes se deitam à uma da manhã ainda com o telemóvel a tocar com o Instagram, WhatsApp e Messenger, a dormir pouco, habituados a ser constantemente bombardeados com estímulos que mudam muito rapidamente e trazem novidades constantes, e depois ficam incapazes de ouvir uma aula de História ou de Filosofia”, lamenta o especialista.

Antes de qualquer medida como medicamentos ou café, é muito mais importante para a criança libertar-se dos ecrãs a partir de determinadas horas, dormir bem, praticar desporto. É que, alerta Pedro Cabral, “a medicação é uma coisa muito séria para ser entregue desta forma a pessoas que não sabem o que é que estão a fazer.”

 

 

“Aprender a falar em público deve ter o mesmo peso do que aprender matemática nas escolas”

Abril 23, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Paco Puentes

Entrevista do https://brasil.elpais.com/ a Neil Mercer no dia 5 de abril de 2018.

ANA TORRES MENÁRGUEZ

Neil Mercer, diretor do centro de Oratória de Cambridge, defende que professores têm que atuar também no desenvolvimento das habilidades não só na transmissão de conhecimento.

Neil Mercer (Lancashire, 1948) dedica sua carreira a estudar como a forma de falar influencia os resultados acadêmicos. Ele acredita que falar em classe é algo tradicionalmente associado ao mau comportamento, e que as salas de aula foram concebidas para que os alunos participem em silêncio. Essa é uma realidade que atualmente não ocorre nos colégios privados britânicos, onde os alunos são ensinados a dominar a arte da oratória. “O discurso é para as elites”, critica o diretor do centro de oratória da Universidade de Cambridge, que recentemente apresentou suas pesquisas à comissão de Educação da Câmara dos Comuns (deputados), propondo que o programa acadêmico das escolas públicas britânicas dê importância à oratória.

O departamento que ele comanda, chamado Oracy@Cambridge, foi criado há dois anos e meio para estabelecer uma ponte entre pesquisa, a prática e as políticas públicas com o objetivo de determinar como a expressão oral deve ser ensinada nas escolas e locais de trabalho. A equipe é composta por oito especialistas em educação, pesquisadores e assessores públicos, e um de seus estudos demonstrou que as crianças que dominam a oratória obtêm melhores nota em matemática e ciências. Mercer já assessorou os governos de Gales e Singapura para incluir a oratória em seus programas acadêmicos.

Para Mercer, professor emérito de Educação em Cambridge, trata-se de uma questão de desigualdade social: os filhos de famílias mais privilegiadas costumam frequentar colégios que os ajudam a melhorar sua expressão oral e dar o melhor de si. Essa habilidade lhes propiciará acesso a melhores postos de trabalho, porque são capazes de negociar. Seu objetivo é formar professores da escola pública para que ataquem o problema de frente e sejam uma segunda chance para as crianças que não aprendem a falar corretamente em suas casas. A linguagem influi no rendimento escolar.

Por que a escola não presta atenção à oratória?

Existe a crença de que os colégios devem se centrar na transmissão de conhecimentos sólidos e que qualquer foco no desenvolvimento das habilidades de pensamento distrairá os professores e alunos desse objetivo. É uma falsa dicotomia. As pesquisas em psicologia e educação introduziram algumas mudanças na nossa forma de entender como as crianças desenvolvem suas habilidades cognitivas. Durante anos usou-se como referência o trabalho do psicólogo suíço Jean Piaget, que sustenta que as crianças aprendem a resolver problemas através de sua experiência direta com o mundo, sozinhos.

Mais tarde, ganhou maior peso a perspectiva de seu contemporâneo russo Lev Vygotsky: as crianças desenvolvem sua compreensão do mundo através da interação com pessoas do seu entorno. Não o fazem como indivíduos isolados, mas absorvem o que veem e o que ouvem dos outros. Em nossas pesquisas vimos que a aquisição da linguagem e a exposição das crianças a conversas bem construídas durante a etapa pré-escolar estão altamente relacionadas com os resultados acadêmicos posteriores. As crianças que de forma regular são envolvidas em diálogos raciocinados em casa ficam mais propensas a serem mais efetivas em sua expressão oral.

As diferenças no nível educativo que as crianças recebem em casa deveriam ser compensadas na escola, já que muitas entram aos três anos.

Quando as crianças chegam à escola, sua forma de falar se baseia na experiência que tiveram em casa, e isso varia muito de famíliapara família, não têm por que terem aprendido as ferramentas que necessitam. É na família onde aprendem a falar, têm seus primeiros diálogos. A língua que experimentam será a base do que são capazes de expressar. Pode ser que nunca tenham escutado uma conversa de qualidade, bem construída e com argumentos ordenados, ou que não lhes tenham pedido que expliquem suas ideias de forma clara. Muitos pais não se animam a tentar. Isso geralmente está associado a uma desvantagem socioeconômica. Algumas crianças serão muito boas inclusive em respeitar a vez de cada um usar a palavra, outros sentirão medo se tiverem que falar em público. Para muitas delas, a escola e os professores são sua única segunda chance de desenvolver a oratória. Como professor, você nunca deve menosprezar sua influência sobre as crianças. A forma pela qual aprendem a falar depende, em muitos casos, da maneira como o docente se dirige a elas.

Na escola pública não existe uma disciplina para aprender a falar bem em público. O que falhou para que se deixe de lado essa competência?

O término oracy (oratória) foi cunhado em 1965 por Andrew Wilkinson, pesquisador da Faculdade de Educação da Universidade de Birmingham, para dar à expressão oral um status similar ao dos literacy skills (habilidades de leitura e escrita). O fato de não se dar importância a ela no programa acadêmico nacional inglês reflete o desconhecimento dos políticos, que veem a discussão em sala como uma mera distração de outras matérias mais relevantes. Eles opinam que as crianças aprendem a falar de forma natural, mas não a ler. No centro de Oratória de Cambridge desenvolvemos métodos para ensinar a dominar a oratória e para avaliar o progresso dos alunos. Se eles aprenderem a se comunicar de forma efetiva, serão mais bem avaliados e participarão com mais sucesso da sociedade. A expressão oral já é ensinada nos colégios privados, acessíveis para as famílias com mais recursos econômicos. Entretanto, esses centros não ajudam a promover a igualdade social e a mobilidade no Reino Unido.

Como explica que aprender a se expressar bem influencie nos resultados acadêmicos de ciências e matemática?

Nosso estudo intitulado Reasoning as a Scientist: Ways of Helping Children to Use Language to Learn Science(“raciocinando como um cientista: formas de ajudar as crianças a usarem a linguagem para aprender ciências”), que publicamos em 2003, demonstra que as conversas podem contribuir para entender melhor as ciências e a matemática. Analisamos a evolução de mais de 200 alunos britânicos de 9 e 10 anos em um programa experimental. Embora os ensinássemos a interiorizar um vocabulário específico, as habilidades descritivas não eram o foco principal, e sim a capacidade de raciocinar em grupo. Medimos o progresso dos alunos através dos exames de matemática e ciências e o cruzamos com todas as atividades que tinham seguido em sala de aula para desenvolver verbalmente seus conhecimentos. O discurso é crucial nas ciências porque se aprende a descrever observações de forma clara, raciocinar sobre causas e efeitos, fazer perguntas precisas, formular hipóteses, analisar de forma crítica as explicações dos outros, resumir resultados… Definitivamente, esses são procedimentos de pesquisa.

A chave é falar em grupo ou ser capaz de preparar e pronunciar um discurso efetivo?

Uma pesquisa em colégios britânicos demonstrou que as conversas que ocorrem em classe quando os professores dividem os alunos em grupo não são cooperativas, nem produtivas, e são desiguais quanto à quantidade de tempo em que cada aluno intervém. Os alunos não têm claro o que se espera que façam ou que elementos constituem uma conversa de qualidade. Os professores raramente deixam claras suas próprias expectativas ou critérios, e não oferecem orientações sobre como se comunicar em grupo de forma efetiva. É preciso ensiná-los a usar a linguagem para perguntar, raciocinar, negociar as ideias e construir decisões por consenso. Nosso projeto Exploratory Talks, dentro do programa Thinking Together, estabelece regras para promover essas discussões em sala de aula: toda a informação relevante é compartilhada, todos os membros do grupo são convidados a contribuírem para a conversa, respeitam-se todas as ideias, todos devem expor de forma clara o seu raciocínio, e é preciso chegar a um acordo.

Como um professor pode saber se está agindo corretamente e se o debate em classe está funcionando?

Se seguir determinadas pautas, comprovará que as condições naturais e habituais que se dão nas conversas ficam suspensas. O status social dos participantes pode ser neutralizado com as regras do jogo, criando uma atmosfera mais igualitária. Por exemplo, as crianças com mais confiança em si mesmas e que costumam falar mais tempo têm a oportunidade de escutar outros pontos de vista. Os mais lacônicos e tímidos, que normalmente ficam calados e em um segundo plano, sentem que sua contribuição é valorizada, que sua voz vale tanto como a dos outros. Perguntas feitas aos demais colegas são premiadas pelo docente e, em longo prazo, isso leva a um melhor entendimento da postura dos outros, a uma maior empatia. Os professores que participaram dos nossos projetos-pilotos nos contam que seus alunos agora são capazes de resolver conflitos fora da sala de aula com maior facilidade. Nosso programa Thinking Together in Maths and Scienceexplica como colocar isso em prática dentro da classe. No próximo mês de setembro ofereceremos em Cambridge o curso de formação de docentes Oracy Leaders, que elaboramos com o Voice 21, a fundação da escola inovadora School 21. É um programa de um ano com apenas quatro sessões presenciais.

 

O telemóvel é hoje uma extensão do nosso corpo, particularmente do nosso cérebro. É absolutamente privado. Perde-se a relação de confiança quando os pais começam a espreitar o telemóvel dos filhos – Daniel Sampaio

Abril 21, 2018 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Diana Tinoco

Entrevista da Visão a Daniel Sampaio no dia 5 de abril de 2018.

Texto CLARA SOARES, Fotografia Diana Tinoco

O telemóvel é hoje uma extensão do nosso corpo, particularmente do nosso cérebro. É absolutamente privado. Perde-se a relação de confiança quando os pais começam a espreitar o telemóvel dos filhos

Daniel Sampaio recebe-nos com um sorriso aberto, em sua casa, na capital. Na sala ao lado, dois dos seus sete netos estão na companhia da avó. Maria José Ferreira foi sua colega de curso, na Faculdade de Medicina de Lisboa, e com ela viria a casar-se no ano em que concluiu a licenciatura. Aos 72 anos, e a menos de dois de celebrar as bodas de ouro, o professor jubilado mantém contacto regular com a comunidade educativa da escola secundária que tem o seu nome, na Sobreda da Caparica, em Almada, e permanece fiel ao nível de atividade que lhe conhecem colegas, alunos, pacientes e leitores. Do Telemóvel para o Mundo (Caminho, 216 págs., €15,50) é o seu novo livro, que será apresentado no próximo dia 11 de abril, ao final da tarde, na Fundação Medeiros Ferreira. O autor lança o desafio a adolescentes e pais da sociedade em rede: a internet pode separar gerações mas também aproximá-las mais do que nunca. Lembra-se do seu primeiro smartphone com teclas, no início da década, quando surgiram no mercado – “os adolescentes não gostam, que são ostelemóveis dos bisavós!” e acredita que vivemos um momento decisivo e especial, para o qual devemos estar preparados. Quanto mais cedo o fizermos, melhor.

Desde que se jubilou, como passou a ocupar o seu tempo livre?

A seguir à minha jubilação, em setembro de 2016, e da última lição em outubro desse ano, houve um vazio. Foram 40 anos de vida profissional muito ativa, e nos primeiros meses senti falta da faculdade e do hospital. O trabalho de consultório aumentou e tem sido gratificante. Pertenci a dois grupos de trabalho no Ministério da Saúde, tenho lido bastante e levei um ano a escrever este livro, que envolveu pesquisa, entrevistas a jovens e referência a casos clínicos.

Continua a manter o consultório e a trabalhar fora de casa?

Sou contra os consultórios em casa! A casa é um sítio privado e deve-se separar muito bem a vida profissional da privada. Continuo a dar consultas na sede da Sociedade Portuguesa de Terapia Familiar (SPTF), duas vezes por semana.

A terapia familiar funciona em Portugal?

É gratificante ter mais de mil sócios e três delegações. A SPTF está muito ativa, porque soubemos organizarnos e dar espaço para que as novas famílias aparecessem: casais separados, divórcios litigiosos, guardas parentais, famílias monoparentais, outras com crianças adotadas… O mérito da SPTF, criada em 1979, foi ter-se modernizado, estando a formar pessoas das comissões de proteção de crianças e jovens.

Como era o adolescente Daniel, em relação aos pais, aos avós…?

Eu lia muito e era um pouco sombrio e muito sério. Tive alguma militância associativa na comissão próassociação dos liceus, que era uma estrutura ilegal. Acompanhei a crise académica e depois entrei na faculdade, nos anos 1960. Eu fui mais comprometido do que os adolescentes de hoje, que me parecem mais alegres.

Pergunta ao homem que lançou o Núcleo dos Estudos do Suicídio (NES): os miúdos estão bem?

A maioria está. Quando se criou o NES (em 1987), não existiam ainda os comportamentos autolesivos ou de automutilação. Nas nossas escolas falta a capacidade para dar resposta a essas situações, porque a saúde escolar está muito pobre. Embora não sendo a maioria, há jovens com problemas significativos de saúde mental e poucos pedopsiquiatras e psicólogos nos serviços públicos.

Quais as conclusões do grupo de trabalho sobre a integração dos psicólogos no Serviço Nacional de Saúde (SNS), coordenado por si?

Os grupos de trabalho fazem as suas recomendações, vamos ver se são cumpridas ou não. Foi proposto um programa nacional para o tratamento da ansiedade e da depressão, e recomendada maior contratação de psicólogos para os centros de saúde, evitando encher os serviços de psiquiatria com casos de doença mental grave, particularmente a esquizofrenia e a doença bipolar. E foi ainda recomendada a criação de estágios de psicologia no SNS, com uma parte do ordenado a ser suportada pelo Instituto de Emprego e Formação Profissional.

Porque admite ter “errado o alvo” quando escreveu o livro Inventem-se Novos Pais?

Nos anos 80, à luz da psiquiatria e da psicologia, não podia haver uma adolescência normal sem crise, depressão e conflito. No século XXI, verificou-se que isso era uma ideia errada. Os adolescentes normais não têm grande mal-estar. Há adolescentes problemáticos que exigem uma abordagem especializada, mas a maioria ultrapassa esta fase, com alguma turbulência, porém sem dificuldades de maior. No novo livro corrigi algumas coisas que disse antes, como a de que ser adolescente implicava sempre sofrimento.

O mal-estar de que fala será mais dos pais dos adolescentes do que dos próprios?

É uma época muito difícil para os pais. Nunca como agora os pais estiveram tão próximos dos filhos do ponto de vista do afeto, mas têm falta de autoridade: é o caso do pai-camarada, que gosta muito do filho e está sempre com ele.

Como exercer a autoridade com os nativos digitais?

Quando a internet se generalizou nos telemóveis, introduziu uma dimensão conflitual nas famílias. Isso nota-se nas consultas, nas escolas e na relação entre pais e filhos. Para que a internet seja um ponto de encontro, e não de conflito, devemos habituar as crianças desde cedo a lidar com as tecnologias. Na adolescência já é tarde, porque, como sabem mais do que os pais e avós, os filhos têm formas mais diversas e sofisticadas de escapar ao controlo deles.

No livro apresenta casos que mostram como tudo pode correr mal…

São casos reais, mas modificados, para manter a confidencialidade. Admira-me haver pedidos de consulta centrados no conflito em torno do uso da internet. Nessas famílias perdeu-se a oportunidade de encontrar um caminho de proximidade. Se a internet for um ponto de conflito, vai cavar-se um fosso intergeracional enorme, porque os mais novos não vão prescindir de usar o telemóvel.

Ou da “Galáxia internet”, como refere por diversas vezes.

É um termo do sociólogo espanhol Manuel Castells. Com este livro, quero mostrar que a internet é uma oportunidade para novas comunicações na família, que são agora em rede: dos irmãos, dos amigos, dos filhos, dos pais – apontam o dedo aos filhos, mas eles mesmos passam muitas horas no Facebook. De tão centradas no conflito à volta do uso do telemóvel, muitas famílias não se aperceberam do que já mudou na área da comunicação.

Há uma idade certa para se dar o telemóvel ou o tablet aos filhos?

Cedo, cinco ou seis anos, para interiorizarem a regra. Um adolescente deve saber que há horas em que não é suposto utilizar ecrãs. Ter a noção de que não deve estar com o telemóvel às refeições nem levá-lo para a cama, na hora de ir dormir.

Se os pais consultarem os emails de trabalho ou o Facebook à refeição, ou quando vão deitar-se, perdem a legitimidade para se fazerem respeitar nesse campo.

Exatamente. Há períodos decisivos na vida da família para comunicar em presença, sem ecrãs: acordar e ir para a escola ou para o trabalho; chegar a casa e organizar os trabalhos de casa, banhos, jantar; e hora de deitar. Esta disciplina passa por pais e filhos.

Fala em parentalidade construtiva. Pode explicar melhor o conceito?

Não se pode ter autoridade sem envolvimento afetivo com um filho adolescente. Este envolvimento é construído na infância, e sem ele surge o conflito, potenciado pela internet, quando deveria ser o contrário. Pais ou mães distantes não conseguem fazer como noutros tempos, impor- -se através da educação pelo medo, até porque a criança tem hoje a possibilidade de fazer ouvir a sua voz e não acata o autoritarismo. Os pais só não devem transigir quando estão em jogo questões de saúde ou de segurança.

Fazem sentido os livros com estratégias para os pais, na área das tecnologias ou outras?

Tudo o que seja ajudar os pais a refletir, idealmente com outros pais, é positivo, pois eles têm muitas dúvidas, mas não há serviços nem locais onde possam ser auxiliados. Os livros não devem ser muito diretivos e no meu eu criei as secções “perguntas e respostas” e “para pensar”. Há coisas que já se sabem: organizar a hora do deitar, o uso da internet, abrir a casa aos amigos dos adolescentes.

Como a questão do namorado ou da namorada, se podem ou não dormir lá em casa…

De uma forma geral, as mães estão mais próximas dos filhos. A mãe continua a ser, na sociedade portuguesa, uma figura muito importante a nível emocional. Se falarmos com os nossos jovens sem entrar na intimidade deles, percebemos que há relações ocasionais. Quando for um namoro responsável e com envolvimento, “à séria” como eles dizem, os pais devem apoiá-los.

Aí entram as questões da sexualidade e da inexistência da educação sexual nas escolas.

Sempre lutei por isso, conseguiu-se alguma coisa, mas continuo a defender a sua importância, porque cada vez mais encontro jovens com muitas dúvidas e muita ignorância sobre o tema. A internet pode ter um perigo importante, que é a pornografia no telemóvel, vista sobretudo pelos rapazes. Se aos 12 e 13 anos passarem o tempo a ver pornografia, com a exploração do corpo da mulher e as proezas atléticas sexuais, que pouco ou nada têm que ver com o que se passa na vida real, podem começar a ter dificuldades na relação sexual com os parceiros, porque idealizam uma determinada situação. A educação sexual deveria ter isto em conta, bem como o que se passa nas escolas, a difusão de imagens íntimas a seguir a uma zanga entre namorados (porn revenge). A educação para os média no campo da sexualidade também é fundamental. A internet é uma fonte de informação que é preciso contextualizar em pequenos grupos de rapazes e de raparigas, para falarem do que estão a sentir nas suas interações. Há muito a fazer.

Espreitar o telemóvel dos filhos é próprio de “sem-abrigo digitais”?

Sou completamente contra os filtros parentais. E também que os adultos vejam o telemóvel dos pais. O telemóvel é hoje uma extensão do nosso corpo, particularmente do nosso cérebro. É uma coisa absolutamente privada. Perde-se a relação de confiança quando os pais começam a espreitar o telemóvel dos filhos. Ficam prisioneiros disso e com uma angústia acerca do que devem e não devem fazer. Ter um telemóvel por volta dos dez anos implica que a criança saiba, aos oito, como vai usá-lo devidamente quando o receber, à entrada do 5.º ano de escolaridade. Ou seja, precisa de saber que, quando entra na internet, não pode divulgar o nome completo e outros dados pessoais.

Como se desenvolve essa capacidade para aconselhar os filhos numa área em que nem sempre os adultos se orientam?

Basta, por exemplo, que os pais verbalizem os medos que têm sobre o uso que os filhos podem dar ao equipamento. Ou de como possam proceder face a condutas menos próprias (ciberbullying e afins).

Manifestou-se a favor do uso medicinal da canábis, embora condene o uso recreativo. Que argumentos o levam a ter essa posição?

Há já muitas evidências acerca dos derivados da canábis, que são úteis, do ponto de vista médico, em situações ligadas à quimioterapia, à dor e a certos casos de epilepsia na criança. Deve ter um uso farmacêutico controlado e não haver um autocultivo. Em relação ao uso recreativo, sou contra. São drogas muito perigosas porque impedem o progresso da adolescência normal, que envolve tarefas como modificar a relação com os pais, com os companheiros, a vida amorosa e sexual e a concentração nos estudos. É muito curioso: os jovens são muito hábeis. Em vez de usarem a palavra “erva” ou “haxixe”, dizem aos pais “eu fumo pólen”. Trata-se da mesma coisa, razão pela qual dedico uma parte do livro às drogas.

Contudo, e isso é do conhecimento de muitos adolescentes, muitos pais consumiram derivados de canábis na juventude.

O grande problema hoje é o fácil acesso e a ideia romântica de que não faz mal. Não subscrevo a teoria de que estas drogas conduzem ao consumo de outras, essa situação não se coloca nos adolescentes. Porém, sabemos hoje que o cérebro está em formação até por volta dos 23 anos e que o uso de drogas pode eventualmente comprometer as sinapses. Falta mais investigação sobre isso. Enquanto psiquiatra, tenho conhecimento de casos de esquizofrenia precipitados pelo uso recreativo em quem tem predisposição para a doença.

Sugere aos pais que relativizem certos comportamentos agressivos dos filhos, fruto da imaturidade do cérebro. É mesmo assim?

Digo isso com algumas reservas! Se der um murro num colega, temos de responsabilizá-lo! Falei disso porque se sabe que o cérebro ainda não está suficientemente formado para exercer plenamente a capacidade de abstração e de autocrítica.

Como se exerce a autoridade sem dramas nas famílias recompostas?

No regime clássico – ou seja, os filhos ficam com a mãe e veem o pai de 15 em 15 dias –, a consequência é o afastamento do pai. Tenho evoluído bastante acerca da guarda partilhada, que deve tentar-se sempre que possível, por ser a forma mais parecida com a da família nuclear. Se houver um mínimo de entendimento entre adultos, as crianças e os jovens adaptam-se. Defendo que, em cada casa, devem estar definidos papéis e regras. Se a mãe vive com o padrasto, ambos devem definir como atuar, e isso não quer dizer que em casa do pai tenha de ser igual.

Na prática, vale o princípio “em cada casa as regras são as de quem lá vive”?

A autoridade do padrasto e a da madrasta são muito difíceis de gerir, porque rapidamente os adolescentes dizem “não és o meu pai” ou “não és a minha mãe”; eles utilizam esse argumento como arma. Zangam-se com a mãe e dizem “vou viver para casa do pai”. Ou estão em casa do pai e telefonam à mãe a dizer “vem-me buscar”. Sou contra isso: permitir que a criança ou o adolescente utilize as regras da outra casa na casa onde está não resulta.

Voltamos à questão de quem tem condições para ser apresentado em casa, mas desta vez dirigida aos adultos…

A apresentação de um novo companheiro, ou de uma nova companheira, aos filhos deve ser muito prudente, e o relacionamento ser minimamente sério e ter pernas para andar, tanto quanto se consegue saber. E sem que os jovens sejam surpreendidos por alguém a dormir lá em casa.

Que gostaria de dizer aos seus leitores enquanto cidadão digital?

Estou apaixonado pelo momento atual. A internet é um ponto de encontro maravilhoso, de partilha e de comunicação. Com as devidas regras, podemos aproximar as gerações em vez de separá-las.

csoares@visao.pt

Pode uma relação sobreviver a um filho com necessidades especiais?

Abril 20, 2018 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do site https://magg.pt/ de 4 de abril de 2018.

Há casos em que o nascimento de uma criança, que deveria estar recheado de felicidade, vem acompanhado de algo mais. Uma doença não detetada em nenhuma fase da gravidez, complicações no parto que deixam graves sequelas nas crianças. E há outros em que o diagnóstico de uma patologia chega meses ou anos depois do parto. Seja como for, a pergunta impõe-se: o que sucede a um casal quando é confrontado com algo tão difícil como lidar com as necessidades especiais de um filho, com uma doença grave e degenerativa? Sobrevive, fortalece-se, ou pelo contrário, fica mais frágil e acaba?

“Temos de perceber que se trata de uma situação dificílima”, diz à MAGG Ana Paula Silva, psicóloga clínica e da saúde. “É um projeto de vida que é dramaticamente interrompido.” 

Por isso, “as separações são muito comuns quando falamos de pais que são confrontados com o nascimento de uma criança com deficiências graves e necessidades especiais”, revela Ivone Silva, diretora-geral da Associação Portuguesa de Paralisia Cerebral.

Como explica a dirigente da APCL, estas são situações que absorvem muito os pais. “Uma criança com deficiência exige muito das famílias. Há uma procura incessante de respostas que possam curar o seu filho, uma solução para o cenário que se impôs perante aqueles pais. Há tristeza, há um desgaste incrível neste processo e isso acaba por ser fatal para muitas relações.

Cláudia Mendes, funcionária pública de 50 anos, é mãe de Matilde, uma menina de 11 anos diagnosticada em 2009 com Síndrome de Pitt-Hopkins, uma doença rara, com graves implicações a nível psico-motor.

“A Matilde nasceu em 2006 e desde cedo que eu percebi que algo se passava. Em comparação com outros meninos da idade dela, notava que ela não fazia nada do que as outras crianças faziam, como sentar-se ou fazer contacto visual, por exemplo”, conta Cláudia à MAGG.

“O meu ex-companheiro teve muitas reticências em aceitar que a filha tinha uma deficiência. Confesso que existem alturas em que acho a postura dele pouco realista.”

Cláudia expressou as suas preocupações a vários pediatras, sendo que a resposta era sempre a mesma. Ouvia que era uma mãe ansiosa, que cada criança tinha o seu timming. E Cláudia esperava, mas mesmo considerando que Matilde tinha um ritmo mais lento, continuava sem se desenvolver. Consultou vários especialistas até que, em 2009 (cerca de três anos depois do nascimento da filha), encontrou um pediatra que percebeu que algo se passava.

“Logo de início, mesmo ainda antes de o diagnóstico ser confirmado, o médico explicou-nos que existia um grande atraso a nível psico-motor. E que seria imperativo estimulá-la o mais possível enquanto era nova, de forma a que ela conseguisse atingir o máximo das suas capacidades.”

A primeira fase após o diagnóstico foi de desespero, recorda Cláudia. O pai de Matilde, havia partilhado da opinião dos médicos, que se tratava apenas de um timming diferente de desenvolvimento. “O meu ex-companheiro teve muitas reticências em aceitar que a filha tinha uma deficiência. Confesso que existem alturas em que acho a postura dele pouco realista. Claro que a esperança é sempre a última a morrer, queremos sempre pensar positivo mas há que encarar a realidade.”

A super-proteção dos filhos isola os pais

A Matilde tem uma incapacidade de 96 por cento. Não fala, não come com garfo, ainda usa fralda e, acima de tudo, tem de ser sempre acompanhada.

“Deixei de me focar numa relação e passei a focar-me exclusivamente na Matilde.”

“Apesar de todos os esforços e trabalho que a Matilde tem realizado, sendo que fez francos progressos, terá sempre uma grave lacuna a nível das simples atividades da vida diária. Tem o tempo dela, o ritmo dela”, explica Cláudia, que refere que a filha não lava os dentes ou as mãos sem ajuda.

Devido a esta situação, que obriga a que a filha esteja sempre acompanhada, Cláudia confessa que o seu relacionamento começou a sofrer.

“Deixei de me focar numa relação e passei a focar-me exclusivamente na Matilde. Assumi um papel de cuidadora e de mãe super-protetora. A Matilde está totalmente desprotegida e precisa da mãe para tudo.”

Esta situação de super-proteção é bastante comum nos pais de crianças com necessidades especiais, apesar de ser também o primeiro passo para o isolamento dos adultos e, consequentemente, também para o afastamento do casal.

“Existe uma tendência para os pais de crianças com deficiências se fecharem neles próprios e na sua existência. Isolam-se dos amigos, da família, o seu único propósito passa por viver para o filho. Arranjam terapeutas para os filhos, escolas especais, o que for preciso, mas esquecem-se deles”, salienta Ana Paula Silva.

“As mães são a parte do casal que se fecha mais, passando a ter como único objetivo cuidar do filho. Muitas delas, dependendo do nível de dependência das crianças, acabam mesmo por desistir da carreira profissional para ficar em casa.”

Afastam-se das suas necessidades, do que precisam e, na opinião da psicóloga, acabam por ser as mulheres a isolarem-se mais. “Sem dúvida que as mães são a parte do casal que se fecha mais, passando a ter como único objetivo cuidar do filho. Muitas delas, dependendo do nível de dependência das crianças, acabam mesmo por desistir da carreira profissional para ficar em casa a cuidar destas. Não digo que isto não possa acontecer também com os pais mas, em 33 anos de carreia, só vi mães a assumirem o papel de cuidadora principal”, afirma a especialista.

Esquecem-se que são mulheres, em alguns casos também mães de outras crianças e, acima de tudo, que são companheiras. Como explica Ana Paula Silva, os maridos e companheiros podem sentir-se de parte, dado que a parceira, que também lhes dava atenção, agora vive apenas e só para a criança. E é natural que os problemas comecem a surgir.

“Tínhamos muitas desavenças, por vezes as vozes elevavam-se e a Matilde sentia esse ambiente pesado, ficava incomodada”, conta Cláudia Mendes. “Eu precisava de ter uma vida calma, a minha filha precisava de um ambiente tranquilo. Cheguei a uma altura que me preferia calar ou fingir que não se tinha passado nada para evitar discussões com o meu companheiro. Não queria mais distúrbios do que aqueles que toda a situação da Matilde, só por si, já causavam. E chegou o dia que a situação se tornou incomportável e cada um seguiu a sua vida.”

O desgaste é a principal causa de separação

A experiência da maternidade e da paternidade não é fácil, mesmo quando tudo corre bem e nasce uma criança saudável. A privação de sono dos pais, o choro de um recém-nascido, a inexperiência de um casal quando se trata do primeiro filho — todos estes fatores levam, por vezes, a discussões e problemas num casal.

“É natural que as prioridades sejam outras mas, quando deixa de haver vida a dois, é mais que natural que a relação fique desgastada.”

“Quando nasce uma criança com necessidades especiais, tudo isto é ainda mais difícil”, afirma Patrícia Poppe, psicoterapeuta. “São situações que causam muita dor e impotência. Para além da dor, a perceção de que tudo o que podem fazer para ajudar o seu filho não vai ser suficiente é muito complicado para os pais.”

Um filho com necessidades especiais exige mais. Mais tempo, mais atenção, mais paciência. “Quando existe uma pressão acrescida, fruto desta situação, é comum surgir um desgaste na relação. As mulheres ficam muito envolvidas, os homens sentem-se de parte e ambos se isolam, acham que conseguem com tudo e não entendem que pedir ajuda, seja profissional ou a amigos e família, é o primeiro passo para se manterem sãos e também para manter um relacionamento”, explica Ana Paula Silva.

A falta de vida social, principalmente no contexto de casal, é um fator que abala muitos relacionamentos. “É natural que as prioridades sejam outras mas, quando deixa de haver vida a dois, é mais que natural que a relação fique desgastada”, refere Ivone Silva, que acrescenta que é possível contrariar esta situação se os pais, por vezes, deixarem os avós tomar conta dos filhos para que estes possam ter momentos a dois.

Outra estratégia para manter saudável uma relação é o diálogo aberto e sem medos. “O casal deve apoiar-se, escutar-se e falar abertamente. Quando isso não acontece, quando não se verbaliza algo com medo da reação do outro, é muito complicado”, diz Patrícia Poppe.

A união faz a força

Andreia Paes de Vasconcellos, blogger e autora do livro “Tomás — Maternidade, Trissomia e Amor: a história de um bebé especial”, tinha 30 anos quando engravidou pela primeira vez. Depois de uma gravidez perfeita, sem quaisquer problemas ou indícios suspeitos, Andreia deu à luz a um rapaz às 37 semanas, num parto normal, rápido e sem complicações.

“Quando o Tomás nasceu, percebi logo que se passava algo que não era normal”, conta Andreia à MAGG. “Mas não queria acreditar, só pensava que os recém-nascidos eram feios e que nada se podia passar. Tinha feito os exames pré-natais todos e nunca havia sido detetada nenhuma anormalidade nas ecografias.”

Andreia tentou guardar o sentimento para si e, enquanto esperavam o regresso da médica com notícias, não partilhou nada com o marido, Bernardo, que sem Andreia saber, estava a fazer exatamente o mesmo — não tocou no assunto para poupar a mulher do sofrimento.

“Quando eu disse que não trocava o Tomás por nada, mas trocava a doença por tudo, o Bernardo disse-me que queria o Tomás assim, mesmo com trissomia, pois isso fazia parte dele.”

“Quando a médica regressou de observar o Tomás na sala de pediatria, já veio com o discurso da Trissomia 21, apesar de o diagnóstico ainda não estar confirmado. Foi uma noite terrível, chorei imenso. Mas apoiamo-nos sempre um ao outro, nunca atribuímos culpas e confesso que não falámos muito sobre o tema até confirmarmos o diagnóstico.”

Nos 15 dias a seguir ao nascimento de Tomás, a relação com o marido foi testada ao limite, lembra Andreia. Na noite anterior a receberem a confirmação do diagnóstico de Trissomia 21, o ambiente estava pesado. A poucas horas de terem uma resposta, o casal estava ansioso e nervoso. E foi nesse momento que Bernardo disse algo que ofereceu segurança e consolo a Andreia.

“Eu ainda tinha esperança noutro cenário, mas o meu marido estava mais mentalizado. E mesmo quando eu disse que não trocava o Tomás por nada, mas trocava a doença por tudo, o Bernardo disse-me que queria o Tomás assim, mesmo com trissomia, pois isso fazia parte dele. Na altura não fez muito sentido para mim, mas deu-me força e fez-me perceber que, independentemente do diagnóstico, tudo ia ficar bem.”

O casal uniu-se, apoiou-se mutuamente e Andreia afirma que a relação dos dois nunca se abalou devido à doença do filho. Não perderam tempo com energias negativas e pensaram sempre no futuro.

“Regra geral, estamos sempre bem em família. Caminhamos lado a lado, ele agarrou-se a mim, eu a ele, e depois de passarmos por uma situação destas, estamos muito mais fortes. Nunca rejeitámos o Tomás, e acredito que quando isso acontece, é difícil uma relação sobreviver. Mas no nosso caso, venha o que vier, já nada nos abala”, afirma Andreia.

A especialista Ana Paula Silva concorda: “Quando os casais se se conseguem unir e gerir este turbilhão de emoções, é possível superar e lutar juntos, mesmo numa situação complicadíssima como o nascimento de uma criança que exige outro tipo de cuidados. E insisto que o apoio psicológico é muito importante. Neste tipo de casos, mesmo que os pais ainda se considerem capazes de suportar esta realidade sem ajuda, este deve ser um objetivo a médio prazo, procurar apoio profissional”.

 

 

 

Bem-vindo ao (incrível) universo português dos videojogos

Abril 17, 2018 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Ricardo Castelo/NFACTOS

Texto da http://visao.sapo.pt/ de 2 de abril de 2018.

Rui Antunes

Estágios de pré-época no estrangeiro, treinos diários, patrocinadores, salários de profissional… Os “nerds” dos computadores tornaram-se superestrelas do desporto, arrastando multidões que pagam para vê-los jogar.

Estação de comboio, aí vai ele: monitor num braço, torre do computador no outro, teclado, rato, auscultadores e saco-cama na mochila. O mínimo indispensável rumo a três dias de competição ao vivo, olhos nos olhos com os rivais. Destino: uma sala qualquer improvisada por esse País fora. Dormida: “debaixo da mesa”, a sonhar com o grande prémio para o vencedor, um portátil.

As aventuras de equipamento às costas, nos seus tempos de juventude, despertam gargalhada fácil em Ricardo Pacheco, agora a caminho dos 32 anos e já pai de uma criança. Como não rir do malabarismo forçado daquelas viagens no Alfa Pendular, a partir da sua “base” em Guimarães, atrás dos melhores prémios nos torneios de Counter Strike? 
À distância de uma década, sobram todos os motivos e mais um: o videojogo catapultou-o, em 2015, para uma carreira internacional e fez dele jogador profissional.

Conhecido no meio pelo cognome Fox (raposa), já representou as duas melhores equipas do mundo da atualidade e disputou torneios que atribuem prémios de um milhão de dólares (cerca de €800 mil), com estada incluída em hotéis de luxo. Nunca mais precisou de levar o monitor nem o computador. Os tempos mudaram e a brincadeira tornou-se assunto sério. “Desde que comecei a jogar por equipas estrangeiras, tive sempre salários entre os 
€7 mil e os €12 mil mensais. Dá para viver bem”, assume o ex-funcionário de uma empresa de segurança privada.

Não se pense que o vimaranense é caso único na comunidade nacional de gamers. Entre o Counter Strike (CS) e o League of Legends (LoL), os dois videojogos favoritos em Portugal e dos que atraem mais fãs e receitas no mundo, há pelo menos 15 portugueses ao serviço de clubes espanhóis, franceses, turcos e polacos. Nem todos são jogadores: Simão Oliveira, 20 anos, trabalhou em 2017 como analista de adversários para a equipa de LoL do Paris Saint-Germain e já se comprometeu com outra para 2018, sempre a partir de casa, em Famalicão; André Guilhoto, 23, chegou agora à Alemanha para treinar o Schalke 04. “Gostaria de ficar por mais uns cinco anos pelo menos”, diz o Mourinho do LoL, como lhe chamam por cá, onde tem à sua espera um plano B na área da engenharia informática.

Os clubes de futebol europeus, à imagem das equipas americanas da NBA, já não passam ao lado deste fenómeno em crescendo, com quase 200 milhões de entusiastas e outros tantos seguidores ocasionais, segundo o mais recente relatório da empresa de estudos de mercado 
Newzoo. Por entusiastas, na sua maioria dos 10 aos 35 anos, a consultora especializada em jogos eletrónicos entende as pessoas que seguem regularmente competições de videojogos em direto, sobretudo na internet mas também em cadeias televisivas como a ESPN.

Por cá, a Federação Portuguesa de Futebol avançou no verão passado com um departamento de eSports para organizar torneios do simulador FIFA, com a participação de clubes como Sporting, Boavista ou Estoril. A Sporting TV já transmitiu um dos jogos em direto e a experiência é para continuar, enquanto a estação pública lançou o RTP Arena, um canal online só dedicado aos desportos eletrónicos.

É todo um novo mundo que se abre, capaz de esgotar recintos como o Madison Square Garden, a famosa sala de espetáculos de Nova Iorque, ou o Estádio Olímpico de Pequim, o mesmo onde Usain Bolt se apresentou aos comuns mortais e Nélson Évora voou para dar o ouro a Portugal no triplo salto faz agora dez anos. Talvez não sejam necessários outros tantos para os eSports se tornarem um desporto olímpico, a par do atletismo e da natação. Em 2022, nos Jogos Asiáticos (uma espécie de Olímpicos, mas só daquele continente), já terão direito a pódio e a medalhas.

Ricardo Castelo/NFACTOS

UMA CASA PARA OS “GAMERS”

Clickfiel Arena, Penafiel, 3 de fevereiro. Como manda a tradição, a primeira jornada da Liga Portuguesa de LoL disputa-se ao vivo, com as oito equipas presentes e um duelo a cada três horas. A escolha para o arranque da quarta edição recaiu neste estúdio criado especificamente para competições de eSports, pequeno mas acolhedor, situado nas traseiras de um bloco de apartamentos.

Decorado com 30 pufes e seis sofás para a assistência, que pode acompanhar a ação em dois ecrãs de dimensão apreciável, o espaço dispõe de uma dezena de computadores para aquecimento antes da prova de fogo. Ao centro, cinco jogadores de cada lado alinham-se no palco. Não há sorrisos.

Auscultadores na cabeça, os diálogos sucedem-se entre companheiros de equipa. Nenhum tem mais de 25 anos, 16 é a idade mínima para se poder participar. 
A tensão é libertada em forma de gritos, quando a vitória está iminente ou a derrota já espreita, até à estocada final.

Todos os jogos são transmitidos em direito na internet, através da Twitch – a plataforma digital adquirida em 2014 pela Amazon, por mil milhões de dólares, que se tornou o principal veículo de difusão dos videojogos –, com imagens escolhidas por uma equipa de realização, posicionada atrás do palco. A startup Inygon, promotora da prova, começou a atividade com três pessoas e já vai em 19 trabalhadores, dez dos quais em part-time. Numa zona mais lateral, dois apresentadores relatam com frenesim as incidências, como se de um jogo de futebol se tratasse. No final, há comentários e análise num espaço de entrevistas, do lado oposto à mesa dos snacks, onde 21 pizzas médias vão desaparecendo de cena, umas atrás das outras. Também há sandes, água, sumos, leite com chocolate e bebidas energéticas.

Os elementos do clube For The Win, crónico candidato ao título, preferem ir almoçar fora. Enquanto saboreiam francezinhas, desvendam um pouco da sua vida. São cinco estudantes universitários, com idades entre os 18 e os 23. Vêm de Portimão, do Barreiro, de Aveiro, Famalicão e Santo Tirso, mas treinam-se juntos quatro a cinco horas por dia, cada um em sua casa. Têm cláusulas de rescisão nos contratos (simbólicas, dizem), salário-base, deslocações e estadas pagas pelo clube, um dos mais “ecléticos” do panorama, com 18 videojogos e mais de 50 equipas, além de uma vasta comunidade de gamers ocasionais. Os jovens falam de haver uma “grande discrepância a nível salarial” entre os clubes, que pagam dos €50 aos €600 mensais, com alguns a evidenciarem dificuldades em ter as contas em dia.

Não é o caso dos K1ck, a mais antiga organização de eSports em Portugal e atual tricampeã nacional de LoL, conhecida por estar uns degraus acima da concorrência na folha salarial. A equipa passou 18 dias na Lituânia, a preparar a nova temporada, e ainda neste mês deve mudar-se para uma casa no Porto, onde os jogadores poderão dedicar-se a tempo inteiro à sua profissão. É um conceito seguido pelas melhores equipas do mundo, mas nunca tentado em Portugal. Neste ano, pela primeira vez, o vencedor da primeira volta da liga nacional apura-se para uma prova europeia que dá acesso à competição rainha na Europa, a LCS, e os K1ck ambicionam entrar nessas lutas.

“É o ano da revolução, o arranque para darmos o salto”, confia Ruben Barbosa, 21 anos, que viu a sua cotação disparar em passagens pela Alemanha e pelo Brasil – primeiro, do salário mínimo para os €1 500 e, depois, para os €3 000. “O meu valor parece aumentar sempre que vou lá para fora”, alegra-se, também por ter agarrado a oportunidade que a mãe lhe deu de adiar a faculdade se conseguisse ganhar a vida a jogar.

Desde 2016, tem andado cá e lá, sempre com porta aberta nos K1ck que faz das transferências internacionais uma importante fonte de receita. “O FC Porto e o Benfica também só sobrevivem se venderem jogadores”, ri-se o engenheiro informático Pedro Fernandes, responsável máximo do clube, a viver um ano sabático no seu trabalho para acompanhar mais de perto no projeto de eSports.

VIDA DE “STREAMER”

“O poder disto é imparável”, atira Pedro Silveira, seguro de que “hoje são poucos os miúdos que não jogam online”. Organizador de torneios ao vivo há mais de uma década, agora à frente da Lisboa Games Week – evento anual na FIL – e da secção de eSports do Sporting, este antigo gamer tem em mãos aquela que promete vir a ser a primeira prova internacional de desporto eletrónico em Portugal. O XL Moche, assim se chama, vai realizar-se em junho na Altice Arena, em Lisboa, e distribuir €100 mil pelos melhores em torneios de CS, LoL, FIFA e Clash Royale, um jogo de telemóvel. 
A maior fatia do bolo caberá ao Counter Strike, de forma a seduzir equipas do top 20 mundial a marcarem presença.

O Moche já patrocina as ligas nacionais de CS e LoL e, ao promover esta “festa”, refere Samuel Carvalho, responsável pela estratégia, marca e patrocínios, pretende mostrar “a versão espetacular da competição ao vivo e do showtime digital, como se fosse um festival de música”. A ideia é posicionar a marca entre os jovens, o seu público-alvo, e vem no seguimento da aposta no surf, que perde em audiências para os videojogos nas transmissões via internet.

A popularidade do CS, um jogo de tiros na primeira pessoa, com cinco elementos em cada equipa em permanente comunicação por voz, está longe de resumir-se ao interesse em acompanhar as batalhas online. Ricardo Sousa, mais conhecido por Zorlak, foi jogador de primeira linha em Portugal, nos primeiros anos do século, numa versão anterior do jogo. Quando se retirou, aos 23 anos, ganhava o suficiente em prémios para comprar o passe, cobrir as despesas de telemóvel e almoçar na universidade. Impensável receber um salário mensal fixo, por mais pequeno que fosse, como hoje oferecem quase todos os clubes da liga portuguesa (€100 a €200 na maioria dos casos). Viver do seu passatempo preferido era ideia que nunca se atravessara nos seus pensamentos.

Doze anos depois, manhã cedo, recebe-nos na sua casa nova, nos arredores de Lisboa, após mais uma jornada noturna ao computador, no escritório profissional que montou numa das assoalhadas. O curso de engenharia informática não o entusiasmou. Mudou para enfermagem veterinária mas, antes de apresentar a tese final, viu-se na imobiliária que o pai geria. Veio a crise, o negócio das casas ruiu e ficou com uma dívida ao banco a reclamar “dinheiro rápido”. Foi servir num restaurante, conta, a ganhar €1 300 por mês, “mais em gorjetas do que em ordenado”. Larga o restaurante em agosto de 2016, quando a sua segunda vida no Counter Strike já seguia em alta, com as lições individualizadas em direto na internet, os comentários de jogos profissionais, as explicações acerca das estratégias de combate, as dicas sobre os melhores equipamentos… Mais tarde, haveria de chegar a colaboração com o canal RTP Arena.

Nunca esteve tão bem na vida, admite agora, agradecido aos mais de 170 mil seguidores do seu canal na Twicht. Zorlak, que é streamer, ou seja, comentador/apresentador, passa oito a doze horas por dia online, numa tagarelice sem filtro com os fãs, no seu estúdio de €10 mil repleto de computadores e monitores, quase sempre noite fora “para fugir ao horário nobre” e às “enchentes” de cinco mil visitantes em simultâneo. Vive das contribuições deles e diz não precisar de mais do que os que já tem, para não desvirtuar o formato: só os 20 maiores doadores já lhe deram quase €40 mil.

Certo dia do ano passado, um seguidor teimou que Zorlak teria de comprar um frigorífico igual ao seu para a nova casa e doou dois mil euros de uma vez. De imediato, surgiram outros com uma “vaquinha” para a televisão. 
A namorada, Margarida Cruz, abriu uma empresa para eles gerirem melhor a atividade e contrataram um contabilista. Ela passou a dedicar-se à agenda, aos contactos com parceiros e ao canal do YouTube, estando em avaliação a renúncia a um trabalho em part-time, uma vez que os rendimentos já são suficientes para os dois viverem do que mais gostam.

“Se tiver de ficar mais 20 anos a streamar, assino por baixo”, solta Ricardo, ciente da evolução do mercado dos desportos eletrónicos, mas sem querer alimentar falsas ilusões quanto ao seu modo de vida. “Não pensem que isto é fácil e que todos conseguem. No meu primeiro ano não fiz mais do que 200 dólares (cerca de €160).”

MAS ISTO É SAUDÁVEL?

Os videojogos de competição já são considerados desporto, mas estar à frente de um computador, “imerso” em cenários dantescos, a atirar em tudo o que mexe, não é bem a mesma coisa do que andar num parque a correr atrás de uma bola. Não há gamer que não tenha enfrentado a resistência ou a desconfiança dos pais com tantas horas dedicadas aos videojogos. Esconder o teclado, o rato ou os comandos da consola, desligar a internet ou exigir boas notas em troca são as contramedidas mais usadas. A recente decisão da Organização Mundial de Saúde, de considerar o vício dos videojogos uma doença mental, também não ajuda a aligeirar o estigma que pende sobre os jogadores.

“É verdade que os miúdos se refugiam muito nas tecnologias e que isso pode tornar-se compulsivo, mas há uma diabolização exagerada do videojogo, quando apenas uma minoria de 8 a 13% sofre de perturbações”, alega Maria João Andrade, psicóloga da Grinding Mind, uma associação que tem por objetivo promover “uma vivência saudável” ligada aos jogos de computador. A médica defende, por exemplo, que os videojogos de equipa e em contextos competitivos são “uma oportunidade de socialização presencial” que combate o “risco do isolamento”. Desde que não se deixe de investir em outras áreas, como a escola ou a família, não vê motivos para alarme.

“Noto uma preocupação cada vez maior com a saúde por parte dos jogadores”, atesta, por seu lado, o treinador António Lisboa, 26 anos, agora ao leme dos Grow Up. 
“Na nossa equipa, até brincamos que os treinos correm melhor se antes o Daniel tiver ido ao ginásio.” O visado intervém: “É verdade, estar sempre em casa acaba por fartar.”

Gonçalo Pinto, 18 anos, já sentiu mais a pressão parental para dar tréguas à consola. O jogador do FIFA é caloiro em Ciências da Comunicação e, com o triunfo no primeiro torneio organizado pela Federação Portuguesa de Futebol, ganhou créditos também em casa: não só porque o Sporting o convidou para representar o clube mas também por ter arrecadado os €10 mil de prémio. Agora, não gere a expectativa por menos e quer “ser campeão do mundo”.

O FIFA não tem ainda a expressão do Counter Strike ou do League of Legends, mas o facto de Gonçalo andar a treinar-se com jogadores do Manchester City ou do Valência é já um claro indício do potencial a explorar. 
A própria FIFA está a incentivar outras federações nacionais a incluírem a variante eletrónica na agenda para aguçar o apetite dos clubes e chamar patrocinadores. Tal como a fé, o dinheiro move montanhas. E os videojogos movem os jovens. Não é à toa que os tradicionais estádios de futebol das grandes equipas europeias e os de basquetebol da NBA já integram eventos de eSports como forma alternativa de arrecadar receita. A tendência é tal que os videojogos, ao vivo, podem mesmo vir a moldar a arquitetura das novas arenas, carregadas de ecrãs gigantes, que mostram o mínimo movimento dos jogadores. No fim – e isto já acontece agora –, os gamers levantam-se e dirigem-se à multidão, passando a mão para “dar cincos”, como se fossem estrelas de rock.

 

 

 

Homenagear os clássicos para crianças

Abril 17, 2018 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social, Vídeos | Deixe um comentário
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Texto do blogue http://blogues.publico.pt/letrapequena/ de 27 de agosto de 2017.

Uma homenagem à literatura clássica infantil, num livro muito bonito e cheio de referências bibliográficas felizes.

Logo nas guardas de abertura, encontramos uma mancha de caracteres que invocam dezenas de títulos e escritores que nos remetem para leituras de infância: As Aventuras de Pinóquio (Carlo Collodi), Um Conto de Natal (Charles Dickens), 20.000 Léguas Submarinas (Júlio Verne), Aventuras de Alice no País das Maravilhas (Lewis Carrol), só para citar alguns.

Disseram os autores, Oliver Jeffers e Sam Winston, sobre o livro que criaram juntos: “Desde o início sabíamos que queríamos criar um conto que celebrasse o nosso amor pela literatura clássica infantil com um toque moderno. Para nós, tratou-se de capturar alguma da magia que acontece quando alguém se perde ao ler uma história intemporal, mas de um modo que os leitores ainda não tinham visto.”

E a verdade é que a obra é muito original e poética. Por isso mereceu este ano o Prémio de Melhor Livro de Ficção atribuído pela Feira do Livro Infantil de Bolonha.

A história começa assim: “Eu sou a menina dos livros. Venho de um mundo de histórias. E na minha imaginação eu flutuo.” A menina atravessa um mar de palavras para ir ter com um rapaz e o convidar a entrar no mundo dos livros, e da imaginação.

Esse “mar de palavras” é representado de uma forma muito expressiva, com um conjunto de frases retiradas de outra obras e que formam ondas.

O humor também está presente, como no plano em que se vê um homem a ler o jornal. Há três títulos impressos: “Negócios”, “Coisas importantes” e “Coisas sérias”.

Reproduzimos parte da notícia sobre coisas importantes: “Uma importante companhia vai parar de produzir coisas importantes no final deste ano. Alegam que ninguém quer esta coisa particularmente importante. Alguém num websitedisse: ‘Não é nada importante que tenham deixado de produzir essa coisa. Talvez não seja assim tão importante. A coisa mais importante agora é descobrir outra coisa que seja importante.’”

O que é verdadeiramente importante neste livro pode resumir-se na frase: “A nossa casa é uma casa de invenção, onde toda a gente pode entrar.”

A Menina dos Livros
Texto e ilustração: Oliver Jeffers e Sam Winston
Tradução e edição: Editorial Presença
36 págs., 12,90€

Texto publicado na edição do Público de 26 de Agosto, página Crianças. 

 

 

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