A brincar se seduz, manipula e convence. É a base da educação

Junho 28, 2017 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do http://www.dn.pt/ de 28 de maio de 2017.

Tony Dias/Global Imagens

Desde o primeiro momento que a ligação entre pais e filhos se faz pelo brincar, é a receita para a felicidade e já tem um dia mundial

Leonor é a médica e a sala de brincar o consultório. Este é o espaço que dá acesso ao mundo da fantasia, aquele onde tudo é possível. Leonor abre a mala de médico – oferecida pelo avô -, veste a bata branca e coloca o estetoscópio ao pescoço. “Foi a melhor prenda da vida dela”, diz a mãe, Margarida Cerveira. No consultório está tudo a postos para a doutora de cinco anos começar a cuidar da borbulha da irmã Sofia, de 1 ano e meio. Usa um pouco de creme, que, como explica ao DN, “é para tirar as dores”. Enquanto isso, Frederico, de 7 anos, o mais velho dos três irmãos, diverte-se a montar legos com o amigo David. Não há tempo a perder, a hora de almoço está quase a acabar.

Duas vezes por semana, Margarida, psicóloga, e o marido, Artur Figueiredo, agente cultural, unem esforços para passar a hora de almoço com os filhos. Uma forma de tentar contrariar a correria do dia-a-dia. E sempre que possível brincam. “A base da educação parental é o brincar. É a linguagem que as crianças melhor entendem”, diz–nos a mãe. Mudaram de casa há pouco tempo e ainda não há televisão. “Não temos uma cultura televisiva”, explica. Ao fim de semana, Frederico dedica meia hora por dia aos jogos de computador. Não há tablets, nem o vício de mexer nos smartphones dos pais, que não se consideram extremistas, mas ressalvam que os preocupa que “os miúdos fiquem muito dependentes das máquinas”.

É no quarto de brincar que os três irmãos se divertem, soltam a imaginação. Da estante de livros tiram as histórias que querem ouvir à noite. Sofia sabe onde estão os seus, na prateleira de baixo. As bonecas, os puzzles, os jogos, as peças da Playmobil convivem com alguns brinquedos do tempo dos pais. A ideia é deixá-los brincar. E, sempre que possível, ao ar livre, no quintal, num parque ou na quinta dos avós. “A profissão deles é brincar”, frisa Margarida. “E gostam que brinquemos com eles”, acrescenta Artur. Para o casal, “devia ser obrigatório ter meia hora por dia para brincar com as crianças”.

A ideia de que as brincadeiras estão na base da educação é partilhada por Beatriz Pereira, investigadora do Centro de Investigação em Estudos da Criança, da Universidade do Minho, que falou com o DN a propósito do Dia Mundial do Brincar, que hoje se comemora: “É absolutamente indispensável que os pais brinquem com os filhos. Todas as famílias com crianças pequenas deviam ter acesso a condições que lhes permitissem fazê-lo, porque é preciso tempo.” Os primeiros contactos com o bebé e as formas de comunicação são lúdicas. “É através do jogo que são feitas as aprendizagens de cooperação, partilha, das regras”, prossegue a investigadora. Mesmo antes de nascer, o bebé já brinca. “Brinca na barriga da mãe e sabe-se, por registos ecográficos e outros estudos, que se entretém. Brinca e utiliza o seu próprio corpo para isso”, explica o pediatra Mário Cordeiro. Além de ouvirem, “os bebés veem desde muito cedo e apercebem-se de alguma luminosidade que chega através da parede abdominal da mãe”. Se calhar, “veem sombras chinesas e devem divertir-se a vê-las”, argumenta.

O pediatra diz: “O brincar com o seu corpo, com o dos pais e com os brinquedos ou com qualquer coisa que passe ou que esteja ao seu alcance é importante e uma brincadeira.” Só que os adultos estão tão ocupados que, por vezes, nem reparam em “como magníficas são as crianças a brincar… e a manipular, seduzir e convencer”.

Brincar pode parecer simples, mas é uma das atividades mais elaboradas. Mário Cordeiro diz que “desenvolve a criatividade, o imaginário, a imaginação, a alternância, o sentido figurativo e representativo, e a organização dos gestos, das falas e dos cenários”. E não exige brinquedos. “Os bebés servem-se do próprio corpo e brincam com as mãos e com os pés. Os mais velhos agarram em dois ou três objetos e fazem deles o que querem, inventam histórias e ações.”

Brincar, a receita da felicidade

Beatriz Pereira avisa que “uma criança que não brinca é infeliz”. “A vida das crianças estará em risco se não tiverem espaço e tempo para brincar.” A investigadora defende que “é absolutamente necessário que, até aos 6 anos, as crianças tenham grandes períodos para brincar livremente, sem orientação dos professores, e se possível ao ar livre”. Além de estar associado a estilos de vida ativos e saudáveis, brincar é “essencial para o desenvolvimento integral, onde se destaca o desenvolvimento motor, social, emocional e cognitivo”.

Quanto mais pequenas são as crianças, maior a necessidade de brincar. “É preciso que não tenham a agenda muito preenchida com atividades.” Outro entrave são, muitas vezes, as tecnologias. “Aparecem muitas vezes para dar lugar à falta de tempo dos pais para levar as crianças para espaços ao ar livre”, lamenta a investigadora da Universidade do Minho. Não se pode impedir que tenham contacto com a tecnologia, “mas é essencial brincar ao ar livre, o brincar espontâneo, sujar-se, esmurrar-se”. Para aprender os limites, a criança tem de saber até onde pode ir.

Cultura do “quero tudo, já”

Brincar é também aprender a lidar com sentimentos menos bons. “As brincadeiras reais, fantasistas, permitem à criança, desde muito cedo, sublimar algumas frustrações e aprender a gerir o stress e a contrariedade, o que é fundamental nos nossos dias, já que, na nossa sociedade, gravitamos muito à volta do “quero tudo, já!”, e qualquer obstáculo ou dificuldade é sentida como uma agressão do outro, levando a sentimentos de raiva, violência ou vitimização”, afirma Mário Cordeiro. Muitas vezes, a própria brincadeira serve para “ar- quitetar situações em que a criança pretende, afinal, exprimir as suas angústias, revelar o que vai na alma e dar sinal dos problemas que a atormentam”.

Através da brincadeira, defende o pediatra, “devemos fazer que se promova, nos nossos pequenos ecossistemas, culturas de segurança, de afetos, de gestão pacífica de conflitos e, antes de mais, uma cultura lúdica, de prazer e de brincadeira”. Dentro do Homo sapiens é preciso recuperar “o Homo ludens, ou seja, durante toda a vida, é preciso manter a parte da brincadeira e da criatividade (e de expressão de sentimentos) para que a vida seja mais longa, mais tranquila e com mais momentos de felicidade”.

 

 

A casa é a primeira escola e os pais são os primeiros professores

Junho 25, 2017 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do site http://uptokids.pt/ de 8 de junho de 2017.

 

A casa é a primeira escola e os pais são os primeiros professores

Esta máxima é o mote do movimento Slow Parenting, que já falamos anteriormente.

O processo de aprendizagem de uma criança durante a primeira infância, é inacreditavelmente rápido, e muitas vezes subvalorizado. A criança até aos 3 anos apresenta capacidade para pensar sobre o mundo e sobre si mesma através da interação que vai estabelecendo com as pessoas e objetos. A observação, repetição, imitação e a experimentação permitem à criança situar-se perante si própria e perante os outros.

Cada momento de cada dia é uma experiência de aprendizagem.

A “casa” representa um lugar de reunião, estável, confortável e onde há amor tornando-se num local seguro. A composição da família, o número de brinquedos, a localização ou número de quartos, não define uma casa. Tal como um jardim, uma casa deve ser assistida, apreciada, nutrida e respeitada para prosperar. É o cenário para do crescimento físico, mental, emocional e espiritual de um indivíduo, e se houver respeito e amor incondicional, esta casa será uma âncora para os filhos. A casa é a essência daquilo que queremos ser e do que queremos que os nossos filhos sejam.

A casa é a primeira sala de aula – não só no sentido académico – mas como um trampolim para o mundo.

Como nos tratamos uns aos outros, talvez seja a lição de vida mais importante que aprendemos em casa. Somos educados uns com os outros? Respeitamo-nos? Demonstramos emoções? Honramos a privacidade?  Revezamo-nos? Assumimos as tarefas domésticas?

Resumidamente: podemos contar a nossa história honestamente e sem receio de julgamentos?

Em casa, os nossos filhos aprenderão a resolver problemas, desenvolverão a leitura e até as habilidades matemáticas apenas através da experiência vivida com a família. A aprendizagem com base no amor será adquirida num ambiente calmo e estável, onde se conversa, se brinca, se lêem histórias (muitas) e se fazem vozes de personagens em família.

 “É impossível ter-se livros a mais”

Com a tendência crescente para o consumismo tecnológico, receio que muitas crianças cresçam sem a compreensão e respeito de experimentar palavras escritas. A alegria de manter um livro, virar as páginas com antecipação, procurar um marcador perfeito, e ler em voz alta é um dos maiores presentes que podes dar aos teus filhos.

É imprescindível que arranjemos tempo para ler com os nossos filhos diariamente. Que os incentivemos a ler por conta própria. Há que parar e arranjar tempo. Quando deixam de dormir a sesta, esse tempo é perfeito para ficarmos no quarto com uma pilha de livros, e que os ensinemos relaxar enquanto expandem o seu vocabulário e estimulam a imaginação.

Esta prática também os ensina a apreciar o silêncio e a sentirem-se feliz consigo próprios – outra componente tão importante.

Histórias de encantar, aventuras, poesias tontas e lengalengas irão evoluir para coleções por capítulos que ocuparão a estante conforme os nossos filhos crescem.

É mais fácil dar à criança um entretenimento visual para passar o tempo, mas queremos mesmo que o caminho seja “passar tempo”? Tentemos que os livros se tornem na melhor ferramenta para os ajudar a “passar tempo”!

Se a casa é a primeira escola, então, os pais são obviamente os primeiros professores.

As tuas amizades e a forma como comunicas influenciarão directamente a forma como o teu filho irá relacionar-se na vida. A educação, respeito, a ética, o amor-próprio, o viver em comunidade são lições de vida que aprenderá contigo. Não fiques à espera que o mundo exterior faça esse trabalho por ti. Se assumires que a escola se irá encarregar disso, então já esperaste muito tempo. Essa é a tua responsabilidade desde o primeiro dia de vida do teu filho.

Parentalidade Consciente e Slow Parenting

A parentalidade não é sobre como criar o filho perfeito e idílico. Nem deve procurar resultados, mas sim experienciar o caminho. Por mais que queiramos acreditar que com determinação e trabalho duro conseguimos controlar tudo, a vida é muito mais complexa que isso, e certamente os nossos filhos terão de lidar com imprevistos. Se tens a capacidade de te adaptar positivamente a situações adversas, também o teu filho herdará essa característica. A isso se chama resiliência.

A parentalidade consciente pressupõe que se faça pausas, que se estude a envolvente e se façam escolhas com base no que consideramos ser o melhor para os filhos, mantendo-nos íntegros e fieis aos nossos valores.

Não será fácil, nem será óbvio, mas se estiveres confiante dos teus valores, um dia que tenhas de fazer essas escolhas, instintivamente saberás qual é o melhor caminho.

Aprender a confiar nos teus instintos e libertares-te das dúvidas é o primeiro passo para a parentalidade consciente.

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O cérebro adolescente

Junho 24, 2017 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto da http://revistaneuroeducacao.com.br/ de 25 de setembro de 2015.

Muitas vezes eles pensam e sentem como os adultos. Mas não raro se comportam como crianças. A explicação é neurobiológica: algumas regiões cerebrais responsáveis pela autorregulação amadurecem mais tardiamente. Estudos com as modernas tecnologias de imageamento trazem uma melhor compreensão das intensas transformações que ocorrem nessa etapa da vida

por Gilberto Stam

Desejara que não houvesse idade entre 16 e 23 anos, ou que a mocidade dormisse todo esse tempo.” Na peça Conto de inverno, escrita entre 1610 e 1611 por William Shakespeare, o personagem denomina os jovens de “cérebros ferventes”. Sua reação à rebeldia típica dessa fase da vida revela que nada mudou ao longo do tempo. Os adultos, em geral, sentem muita dificuldade de compreender o comportamento dos adolescentes.

Em tempos modernos, a mesma atitude tem sua melhor tradução em uma expressão bem conhecida de todos nós: “são os hormônios!”, um bode expiatório invisível que explicaria o comportamento dos jovens. Essa afirmação, na verdade, indica pouco conhecimento sobre o assunto. “Existe apenas um hormônio importante na adolescência, o sexual, e por si só ele não explica outros comportamentos típicos da faixa etária, como a sociabilidade e a propensão ao risco”, diz a neurocientista Suzana Herculano-Houzel, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, autora do livro O cérebro em transformação (Objetiva). “Quem comanda as mudanças da adolescência, inclusive a produção do hormônio sexual, é o cérebro”, explica.

É evidente que um adolescente tem o cérebro imaturo, já que, por definição, ele ainda não é um adulto. Mas o corpo desenvolvido, já parecido com o do adulto, acaba gerando nos mais velhos a expectativa de um comportamento mais maduro, o que se torna fonte permanente de frustração. Um dos motivos desse tipo de engano está em informações científicas incorretas. Há duas décadas, a teoria predominante era que o cérebro atingia sua maturidade máxima no final da infância. Mais recentemente, constatou-se que o adolescente, na verdade, não está totalmente maduro fisicamente – inclusive no que diz respeito ao cérebro. “A maturação do cérebro humano segue pela adolescência e pode continuar até a idade adulta”, diz a neurocientista Sarah-Jayne Blakemore, da Universidade de Londres. “Dez anos atrás, sabíamos pouco sobre o cérebro adolescente. Avançamos muito graças às novas tecnologias de imagem, feitas por ressonância magnética”, diz.

Imagens que dizem muito

Um grande projeto nessa área de pesquisa é conduzido pelo Instituto Nacional de Saúde Mental dos Estados Unidos, que conta com cerca de 8 mil imagens de 2 mil pessoas – entre crianças, adolescentes e adultos –, oferecendo uma nova perspectiva sobre o desenvolvimento do cérebro. Uma das mudanças mais visíveis nessas sequências de imagens ocorre na chamada massa cinzenta, a região mais exterior do órgão, que é constituída pelos corpos celulares dos neurônios. Ao contrário do que se possa imaginar, a massa cinzenta diminui ao longo da adolescência.

Essa diminuição, no entanto, não representa uma perda de neurônios, cujo número, em geral, pouco muda. Ela ocorre devido a uma grande perda de sinapses (conexões entre os neurônios mediadas por substâncias químicas chamadas de neurotransmissores). As sinapses começam a aumentar durante a gestação e atingem o pico aos 6 meses de vida do bebê. Na adolescência, o quadro muda. “No começo dessa fase, há um grande número de sinapses, mas, quando se inicia a transição para a fase adulta, ocorre uma morte programada de sinapses, que refina as conexões”, diz a neuropsicóloga Cláudia Berlim de Mello, do Centro Paulista de Neuropsicologia. “Essa perda de algumas sinapses – e consolidação de outras – acontece de acordo com o uso”, explica. Ou seja, sinapses usadas com frequência são reforçadas, enquanto as que deixam de ser usadas são perdidas, de modo que as opções feitas nessa fase da vida ajudarão a formar o cérebro do adulto.

Paralelamente, ocorre outra mudança importante na chamada matéria branca, constituída por axônios (parte do neurônio responsável por conduzir os impulsos elétricos que partem do corpo celular). Ao longo do desenvolvimento, os axônios são cobertos por uma camada de mielina, que forma uma espécie de capa. A mielina é um isolante e aumenta a velocidade de transmissão do sinal entre as células. Assim, enquanto a matéria cinza diminui devido ao corte das sinapses, a branca aumenta por causa do aumento na mielina. Entre a perda e o refinamento das sinapses, a massa total do cérebro permanece relativamente constante, mas o funcionamento vai se aprimorando graças às mudanças estruturais e químicas. Além de ajudar a entender o adolescente, essas descobertas podem levar muitos adultos a questionar própria maturidade cerebral. Isso porque o corte de sinapses pode avançar até os 30 anos, e o aumento na massa branca, até os 40.

EMBATES COM A FAMÍLIA

Há outro dado nesse complexo processo: a maturação do cérebro não se dá de maneira homogênea, mas em ritmos diferentes em cada região. As novas tecnologias de imagem mostram que a última parte do cérebro a amadurecer – o córtex pré-frontal – é justamente a região onde se processam comportamentos tipicamente de adultos, como capacidade de planejamento, concentração, inibição de impulsos e empatia. Ao mesmo tempo que o corte do excesso de sinapses aperfeiçoa o funcionamento dessa importante área, as novas e melhoradas fibras com mielina permitem que diferentes partes dentro do pré-frontal se comuniquem melhor. “Essa integração resulta em um aperfeiçoamento da linguagem e da coordenação motora, por exemplo”, diz Herculano–Houzel. “Não por acaso, pacientes adultos que sofreram lesões no córtex apresentam comportamentos típicos de adolescentes”, completa.

Com o amadurecimento do córtex pré-frontal, o adolescente vai se aproximando do mundo adulto, embora de maneira não muito suave. “Nessa fase, começam a se desenvolver o comportamento autorreflexivo, a autorregulação e o raciocínio, levando a uma maior consciência crítica de si e dos outros”, diz Berlim de Mello. “Por isso, eles tendem a ver incongruências no mundo dos adultos. Ao contrário da criança, que tende a ser alegre, o adolescente é mais irritadiço e nega ou questiona o que vem antes dele.” Como o cérebro ainda está se consolidando, as oscilações de humor são comuns, assim como o comportamento reativo. “Eles começam a olhar o mundo de forma mais profunda, mas o lado emocional não está totalmente amadurecido. Daí surgem embates com os adultos e com a família”, explica a neuropsicóloga. “Além disso, eles são mais impulsivos, reativos e intensos. Percebem as incongruências, mas não sabem como lidar com elas.”

Se, por um lado, a maturidade emocional do adolescente oscila, é nessa fase também que ele passa a possuir ferramentas que o preparam para a vida adulta. Surge a capacidade de tomar decisões, julgar e planejar. No córtex pré-frontal, uma região chamada córtex orbitofrontal (localizada atrás dos olhos) é a última a amadurecer e promove as capacidades de usar emoções para nortear decisões e de criar empatia pelos outros – características fundamentais da vida adulta.

Insaciáveis

Outra mudança fundamental ocorre no sistema de recompensa, “conjunto de estruturas no cérebro responsáveis por premiar com prazer ou bem-estar comportamentos que acabaram de se mostrar úteis ou interessantes”, conforme Herculano-Houzel define em seu livro. Isso significa que o adolescente precisa de muito mais para sentir prazer. É algo difícil de visualizar porque ocorre em nível bioquímico – no cérebro, o prazer é proporcionado pela molécula dopamina, que é um neurotransmissor. Os adolescentes possuem um terço dos receptores para dopamina. Por isso, precisam de experiências mais intensas, que estimulam mais a liberação da substância, para sentir prazer. Essa mudança, por si só, é a principal responsável pela maioria dos comportamentos típicos do adolescente, como a busca de novidades, os excessos (como ouvir música alta) e o comportamento de risco, que também gera euforia e produção de dopamina. Sem falar na nova e mais importante descoberta: o sexo, cujo prazer só é possível porque o sistema de recompensa se torna sensível aos hormônios que promovem o prazer sexual. E tudo isso não é ruim, pois a procura pelo prazer é o que move o adolescente a descobrir coisas novas e a buscar independência.

Riscos possíveis

As coisas podem se complicar, porém, quando o comportamento de risco e a sociabilidade nascente se combinam. “Na adolescência, a causa principal de morte são os acidentes que, em geral, são causados por comportamento de risco”, diz Blakemore. “Um dos motivos principais do comportamento de risco é a influência do meio social. Os adolescentes são levados a impressionar os amigos, em busca de aprovação, enquanto também vão se tornando mais independentes dos pais.”

O encontro de um cérebro em formação com o comportamento de risco, como consumo de álcool e de drogas, é o ponto de maior vulnerabilidade. Afinal, a especialização das sinapses ocorre tanto para bons quanto para maus hábitos. O risco de dependência é maior porque o jovem está numa fase de experimentação. Dependências adquiridas podem permanecer durante a vida adulta. As descobertas sobre esse período da vida ajudam a lançar um olhar novo sobre o adolescente e a reconhecê-lo como alguém que não está pronto e que, por isso, precisa ser acolhido e orientado. Elas ajudam a pintar com detalhes um quadro que já havia sido delineado pela psicologia, mostrando que a adolescência é uma fase característica e que, também no cérebro, os adolescentes apresentam suas peculiaridades – que precisam ser respeitadas.

 

“Há consumo excessivo de fármacos” para ansiedade em época de exames

Junho 21, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.publico.pt/ de 17 de junho de 2017.

Francisco Miranda Rodrigues foi eleito bastonário da Ordem dos Psicólogos Portugueses em Dezembro de 2016 Rui Gaudêncio

 

Bastonário da Ordem dos Psicólogos Francisco Miranda Rodrigues diz que “o bullying tem um impacto muito negativo”, mas “não é o problema principal” nas escolas.

Ana Dias Cordeiro

O bastonário da Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP), Francisco Miranda Rodrigues, recebeu a confirmação da Direcção-Geral da Educação (DGE) de que irão ser desbloqueadas “verbas para a contratação de mais 200 psicólogos já para o início do próximo ano lectivo” para trabalharem nas escolas. Actualmente, existe em média um psicólogo por cada grupo de 1700 alunos. As recomendações internacionais apontam para um rácio de um para 1000. A contratação é uma boa notícia, mas é preciso ir bem mais longe, diz.

Miranda Rodrigues sublinha a importância de se criarem condições para estes profissionais se fixarem nos estabelecimentos de ensino, porque é aí que começa a prevenção de problemas como a depressão. O especialista deixa ainda um alerta: há muitas formas de lidar com a ansiedade associada os exames que se aproximam, mas, “por regra”, elas não passam pela medicação. “Não devia ser nunca a primeira linha.”

O bullying é um dos principais problemas que os psicólogos encontram nas escolas?

O bullying tem um impacto muito negativo, mas a sua abrangência, comparativamente com outras situações, não é o principal problema. A depressão é um dos problemas mais graves com que temos de lidar, pelos impactos que tem ao longo da vida, e que são incapacitantes. Se prepararmos uma criança desde cedo para identificar em si aquilo que são as emoções — como raiva ou tristeza —, isso dá-lhe uma possibilidade de controlo que de outra forma não teria. Preventivamente, a escola é essencial para isto. Nas questões relacionadas com violência em contexto escolar, essa é uma das coisas que é importante trabalhar.

Estamos a iniciar a época dos exames nacionais do secundário. O problema da ansiedade agrava-se na altura dos exames?

A altura dos exames leva, por vezes, ao consumo de ansiolíticos ou ao consumo de metilfenidato [conhecido por Ritalina, o nome de uma das marcas]. Trata-se de medicação perfeitamente pertinente, quando estamos perante determinado tipo de quadros de hiperactividade devidamente diagnosticados. Mas o que temos hoje em dia, aparentemente, é um sobrediagnóstico relativamente à hiperactividade. O que não é aparente é o consumo excessivo dos fármacos associados a este tipo de situações. Isto não é dizer que não deve haver consumo nenhum…

Existe pressão dos pais ou dos médicos?

Que existe pressão existe. Refiro-me à pressão de quem, no dia-a-dia, está a ver o filho em sofrimento e pede ao médico [algo para o aliviar]. Esta é uma das coisas. A outra é se eu recorro a uma consulta num centro de saúde, com uma queixa que pode ter que ver com hiperactividade, mas não necessariamente necessitar de metilfenidato. Se não existem lá recursos, os médicos medicam. Os médicos de família estão muito sensibilizados para a referenciação para a consulta de psicologia, mas se não existem lá recursos não podem referenciar.

Existe pressão dos professores para garantir o bom desempenho dos alunos?

É mais um contributo, mas não me parece que seja o principal.

Qual é a melhor forma de lidar com a ansiedade em época de avaliações?

Há formas de lidar e não é, por regra, com medicação. Isso não devia ser nunca a primeira linha, nem o metilfenidato, nem os ansiolíticos. São excepções os casos em que a primeira linha, pela gravidade ou pela tipologia da situação, necessita efectivamente de intervenção farmacológica. Há formas de trabalharmos isso e os psicólogos podem ajudar, para que os alunos desenvolvam estratégias para controlar a ansiedade. Não há uma regra para todos.

Quantos psicólogos existem nas escolas e quantos há a menos?

O seu antecessor disse em Outubro de 2016 que havia 500 a menos. A senhora secretária de Estado adjunta e da Educação, Alexandra Leitão, disse-nos de forma clara e inequívoca que garantia que antes do início do ano lectivo teríamos mais 200 psicólogos nas escolas, ao abrigo de um protocolo com a Direcção-Geral da Educação. E isso é positivo, mas estes 200 já deveriam ter entrado em Setembro de 2016 [de acordo com esse protocolo]. Esta contratação, é feita com base em fundos comunitários, foi reafirmada por este Governo, e vinha do Governo anterior. O Estado comprometeu-se a atingir o rácio de um psicólogo para 1100 alunos, nas escolas públicas, e para isso precisam de fazer contratações. Os 200 não vão chegar. O que temos aqui é uma tentativa de chegar a isso, mas há um atraso grande.

Sem contratos permanentes, o compromisso não cumpre o vosso objectivo de fixar os psicólogos nas escolas?

Do ponto de vista preventivo, vamos começar a trabalhar nas escolas o mínimo dos mínimos. Com os novos 200, ficaremos com 900. Mas de todos apenas 300 têm contrato a tempo inteiro. Os outros 400 têm contratos de um ano. E na mesma situação estarão os novos 200. Ora, os psicólogos preenchem necessidades permanentes de apoio ao aluno. Depois, estamos a falar de coisas como estes fenómenos recentes na Internet, como o Baleia Azul e outros. A raiz da questão é: temos pessoas mais susceptíveis de virem a ser vítimas deste tipo de situações, por não terem competências que são protectoras dos factores de risco? Se eu trabalhar isto previamente, [esses fenómenos] nem serão assunto.

O programa Escola SaudavelMente, que lançaram há um ano, é uma forma de conter problemas nas escolas?

O facto de uma escola ter psicólogos conta bastante para poder ter boas práticas. Nós lançámos essa campanha, no âmbito da qual também foi lançada a iniciativa do selo Escola SaudavelMente, para distinguir boas práticas, com esta interrogação: serão as nossas escolas saudáveis psicologicamente? Das 253 escolas e agrupamentos [num universo de mais de 800] que se candidataram, 99 obtiveram o selo. O facto de uma escola desenvolver competências socioemocionais é um exemplo de uma boa prática promotora de saúde psicológica. Mas a organização, o que se faz com os equipamentos e os tempos livres, pode ou não também permitir uma vivência mais saudável.

 

 

Época de exames – 7 dicas para acalmar os nossos filhos

Junho 21, 2017 às 10:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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texto do site http://uptokids.pt/ de 16 de junho de 2017.

A época de exames já começou para muitos alunos. Dos mais novos aos mais velhos todos estudam, todos se preparam para prestar provas sobre o que aprenderam

Muitos pais já se esqueceram do que sentiram quando eles próprios passaram por isso, outros não sabem como ajudar nesta fase.

Para mim, como irmã de uma finalista do 12º ano, acho que há coisas básicas que todos podemos fazer e que por vezes são suficientes para que os nossos “alunos” se sintam mais calmos.

– Desdramatizar. Por mais importantes que os exames sejam, por mais ponderação que tenham na nota ou até na média, é preciso não fazer um bicho de sete cabeças – um exame é, no fundo, uma recapitulação do que foi dado. E eles estiveram nas aulas. Estudaram.

– Aceitar as suas dúvidas. É natural que elas existam e podemos orientá-los sobre como conseguir ultrapassá-las. Muitas vezes eles precisam de se sentir acompanhados, apenas isso.

– Ser companheiros no que respeita a espantar os nervos. Trocar experiências, dar dicas, fazer com eles exercícios de relaxamento ou simplesmente ajudá-los a encontrar uma forma de fazer uma pausa no meio de tanto estudo.

– Valorizar o que nos dizem. Por mais que achemos descabido, devemos ouvir. Desabafar é essencial para nos ouvirmos a nós próprios, porque expressamos os nossos pensamentos em voz alta. Sistematizar o que sentem pode ser a chave para que entendam onde precisam de trabalhar mais ou por qaue motivo estão a ter mais dificuldades numa matéria que noutra.

– Ter muita paciência.

– Não deixar os nossos próprios nervos transparecerem. Eles já têm os deles e basta.

– Ir acompanhando, mas dar-lhes espaço. Não fazer perguntas a toda a hora (já estudaste? Não devias estar a estudar? Como assim vais ter com os teus amigos com o exame daqui a 144 horas???), não exigir que eles tenham as respostas todas na ponta da língua.

É uma fase que é ansiada o ano todo e que passa num instante. Pode ser determinante para a definição do futuro deles, como pode também significar ficar mais um ano à espera.

Vejam as férias à espera no fundo do túnel.

Os miúdos vão ser capazes e vocês também!

Marta Coelho

 

 

 

Como explicar a tragédia às crianças: “é preciso transmitir-lhes segurança”

Junho 20, 2017 às 11:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do http://www.dn.pt/de 18 de junho de 2017.

Rui Marques Simões

No rescaldo do incêndio de Pedrógão Grande, é importante dosear a informação transmitida a crianças e adolescentes, explica o psiquiatra Pedro Pires

Ninguém está preparado para lidar com uma tragédia brutal, num contexto e com uma dimensão completamente inesperadas, como o grave incêndio que espalhou a morte em redor de Pedrógão Grande (norte do distrito de Leiria). E mais complicado parece explicá-lo a crianças e adolescente. A prioridade deve ser transmitir-lhes segurança, explica, ao DN, o psiquiatra da infância e adolescência Pedro Pires, colaborador do Programa Nacional para a Saúde Mental nessas áreas.

“O importante é transmitir segurança. O principal medo da criança é pensar que isso lhe pode acontecer. É preciso tranquilizá-la, explicando que é uma experiência isolada e que a criança, no mundo onde vive, está em segurança”, aponta o psiquiatra.

Depois, o grau de profundidade da explicação de uma tragédia como o incêndio de Pedrógão Grande deve variar consoante a idade. “Numa criança pequena, em idades mais precoces, antes da adolescência, é evitável dar explicações detalhadas: até pode ser negativo dar detalhes e mostrar a crueza da realidade, porque a criança não tem – de modo geral – capacidade psíquica e cognitiva de compreensão da totalidade da situação. Já num adolescente é importante abordar este assunto. A conversa deve ser mais detalhada e é importante falar e esclarecer as dúvidas”, descreve Pedro Pires.

De resto, a exposição aos conteúdos mediáticos, como imagens televisivas e partilhas de redes sociais, também deve doseada e intermediada, para não afetar espetadores com idades mais sensíveis. “Não é demais repetir o controlo que deve existir nos media, principalmente quanto à imagem. É um conteúdo traumático sobre o qual criança não tem capacidade de elaborar [raciocínios]. Pela idade, não tem capacidade para aguentar a exposição ao sofrimento. E os pais devem procurar, no que for possível, que crianças pequenas não visualizem essas imagens”, conclui o colaborador para a infância e adolescência do Programa Nacional para a Saúde Mental.

 

 

O papel importante dos tios na vida das crianças

Junho 18, 2017 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do http://lifestyle.publico.pt/ de 31 de maio de 2017.

Monica Leftwich

O papel de tio carinhoso na vida de uma criança deve ser valorizado e, mais importante do que isso, deve ser necessário.

No último ano, o meu cunhado e eu revezámo-nos a tomar conta dos filhos um do outro quase todos os fins-de-semana. Quer seja eu a ficar com os meus sobrinhos ou as minhas filhas a irem para casa dele, temos feito um bom trabalho em fazer com que os primos fiquem muito chegados.

É sempre uma balbúrdia elegante quando os miúdos estão juntos. Sim, no fim de uma semana com eles, a minha casa parece uma zona de catástrofe. O chão da minha cozinha está decorado com caixas de pizza abandonada e a quantidade de roupa suja duplicou. Mas posso criar laços com eles, especialmente com o meu sobrinho mais velho, de uma forma especial que não tenho com os meus filhos. Ele confessa-me as suas preocupações com a escola, as amizades em crise e outros temas sensíveis que pode não querer partilhar com outras pessoas. Por exemplo, ele não estava a ter bons resultados na disciplina de Inglês e estava demasiado assustado para contar logo aos pais, por isso desabafou comigo sobre a sua irritação enquanto jantávamos comida chinesa.

Tudo isto com a convicção de uma confiança verdadeira que ele vê em mim. Não como se eu fosse a “Tia Moni”, como me chama carinhosamente. Mas como se fosse uma boa amiga; uma amiga que escuta sem os juízos de valor e o sermão imediato que os pais dão quando recebem notícias desagradáveis sobre os filhos.

O mais bonito é que os papéis de tia (a figura de autoridade maternal que deve ser respeitada) e sobrinho (o jovem em crescimento com os seus próprios ideais e visão da vida) continuam a ser reconhecidos e cumpridos.

O papel de tio carinhoso na vida de uma criança deve ser valorizado e, mais importante do que isso, é necessário. Então, porque é que parece que os tios são algo subvalorizados na construção da “aldeia” que é necessária para criar uma família?

Melanie Notkin, fundadora do site SavvyAuntie.com, disse à Forbes que isto acontece porque “ao contrário dos pais, não há uma obrigação de ser tio: quando temos um filho, temos uma obrigação legal.” Os tios só têm de se envolver quando decidem envolver-se. Mas nunca se está a dar demasiado amor a uma criança. De facto, Notkin defende que quanto mais tios uma criança tem na sua vida, mais influências positivas pode vir a ter no resto da vida.

Os tios também podem ser os amigos adultos de que uma criança precisa. Por exemplo, uma criança pode sentir-se demasiado nervosa para falar com os pais sobre a paixoneta que tem na turma de Matemática ou sobre o rufia do recreio. Com certeza que querem abordar estes assuntos com alguém, mas podem sentir que os pais vão ficar desinteressados ou zangados em relação àquilo que os está a perturbar. Então, entra em cena o “tio fixe” que ouve sem as atitudes de juízos de valor e de presunção que os pais podem mostrar quando abordam temas sensíveis com os filhos. Os tios podem ter uma abordagem mais descontraída com os sobrinhos, oferecendo-lhes soluções diferentes e mais encorajadoras para os seus problemas. Têm mais probabilidade de contar aos sobrinhos histórias embaraçosas sobre os pais deles. Estas conversas (e outras mais divertidas) podem ajudar a solidificar uma relação poderosa de confiança entre os tios e os sobrinhos durante muitos anos.

Os tios não têm necessariamente de ser da família para serem influentes. Durante anos, assumi o papel de “tia” de várias crianças que não são da minha família. Quando converso com elas, estas meninas lindas lembram-se dos momentos divertidos que passaram com a “Miss Monica”. Por exemplo, levei a filha da minha amiga à praia pela primeira vez quando ela tinha oito anos. Agora, ela tem 14 e pede-me para a levar a nadar antes de pedir à mãe.

Então, como é que os tios que querem envolver-se mais nas vidas dos sobrinhos podem tornar-se exemplos positivos? Segundo Amy Goyer, uma perita familiar que trabalha com a associação AARP, ser mais aberto, escutar mais e não fazer juízos de valor ajuda a construir uma base de conforto e de confiança com uma criança. O contacto habitual com a criança através de SMS ou das redes sociais ajuda-os a reconhecer que se preocupa com eles e que tem um interesse genuíno no que se passa com eles. Goyer recomenda aos tios que estejam disponíveis para actividades de atletismo ou concertos dos sobrinhos ou para tomar conta deles ao fim-de-semana. Isto pode ajudar a criança a identificá-los como uma figura de confiança nas suas vidas, que vai estar sempre lá para os apoiar.

Desempenhar o papel do tio respeitado mas fixe e divertido pode incutir inspirações mais livres e imaginativas numa criança, lado-a-lado com os genes estruturados e habituais mais previsíveis, que eles recebem dos pais. Acima de tudo, os tios são capazes de fornecer a uma criança um tipo único de amor e influência que vai permanecer com eles no futuro.

Exclusivo PÚBLICO/The Washington Post

Leftwich é uma escritora freelance que escreve sobre ser pai/mãe solteira, finanças e saúde da mulher. Encontre-a em monicaleftwich.com ou no Twitter em @moleftwich.

 

 

 

Portugal já é berço de 22 bebés refugiados

Junho 15, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Jornal de Notícias de 12 de junho de 2017.

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Os quatro excessos da educação moderna que perturbam as crianças

Junho 14, 2017 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do site http://www.revistapazes.com/ de 24 de maio de 2017.

Por Jennifer Delgado Suárez, psicóloga

Quando nossos avós eram pequenos, eles tinham apenas um casaco de frio para o inverno. Apenas um! Naquela época de vacas magras, já era luxo ter um. Exatamente por isso a criançada cuidava dele como se fosse um tesouro precioso. Naquela época bastava a consciência de se ter o mínimo indispensável. E, acima de tudo, as crianças tinham consciência do valor e da importância de suas coisas.

Muita água correu por baixo da ponte, acabamos nos transformando em pessoas mais sofisticadas. Agora prezamos pelas várias opções e queremos que nossos filhos tenham tudo aquilo que desejarem, ou, caso seja possível, muito mais. Não percebemos que esse mimo excessivo ajuda a criar um ambiente propício para transtornos psicológicos.

De fato, foi demonstrado que o excesso de estresse durante a infância aumenta a probabilidade de que as crianças venham a desenvolver problemas psicológicos. Assim, uma criança sistemática pode ser empurrada para ativar um comportamento obsessivo. Uma criança sonhadora, sempre com a cabeça nas nuvens, pode perder a sua capacidade de concentração.

Neste sentido, Kim Payne, professor e conselheiro norte-americano, conduziu uma experiência interessante em que simplificou a vida de crianças diagnosticadas com Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade. Depois de apenas quatro meses, 68% destes pequeninos passaram a ser considerados clinicamente funcionais. Eles também mostraram um aumento de 37% em suas habilidades acadêmicas e cognitivas, um efeito que não poderia coincidir com a medicação prescrita para esta desordem, o Ritalin.

Estes resultados são, em parte, extremamente reveladores e, mais que isto, também são um pouco assustadores, porque nos fazem pensar se realmente estamos criando para nossos filhos um ambiente saudável, mental e emocionalmente.

O que estamos fazendo de errado e como podemos corrigir isto?

Quando o “muito” se transforma em “demais”?

No início de sua carreira, este professor trabalhou como voluntário em campos de refugiados, onde teve que lidar com crianças que sofrem de estresse pós-traumático. Payne constatou que essas crianças se mostravam nervosas, hiperativas e tremendamente ansiosas, como se pressentissem que algo de ruim fosse acontecer de uma hora para a outra. Elas também eram amedrontadas em excesso, temendo qualquer novidade, o desconhecido, como se tivessem perdido a curiosidade inata das crianças.

Anos mais tarde, Payne constatou que muitas das crianças que precisavam de sua ajuda mostravam os mesmos comportamentos que os pequenos que vinham de países em guerra. No entanto, o estranho é que estas crianças viviam na Inglaterra, abraçados por um ambiente completamente seguro. Qual a razão que os levava a exibir os sintomas típicos de estresse das crianças pós-traumáticas?

O professor pensa que as crianças em nossa sociedade, apesar de estarem seguras do ponto de vista físico, mentalmente vivem em um ambiente semelhante ao produzido em áreas de conflito armado, como se suas vidas estivessem sempre em perigo. A exposição à muitos estímulos provoca um estresse acumulado que obriga as crianças a desenvolverem estratégias que as façam se sentir mais seguras.

Na verdade, as crianças de hoje estão expostas a um fluxo constante de informações que não são capazes de processar. Elas são forçadas ao crescimento rápido, já que os adultos depositam muitas expectativas sobre elas, forçando-as a assumir papéis que realmente não condizem com a realidade infantil. Assim, o cérebro imaturo das crianças é incapaz de acompanhar o ritmo imposto pela nova educação, por conseguinte, um grande estresse ocorre, com as óbvias consequências negativas.

Os quatro pilares do excesso.

Como pais, nós normalmente queremos dar o melhor para os nossos filhos. E pensamos que, se o pouco é bom, o mais só pode ser melhor. Portanto, vamos implementar um modelo de paternidade superprotetora, nós forçamos os filhos a participar de uma infinidade de atividades que, em teoria, ajudam a preparar os pequenos para a vida.

Como se isso não fosse suficiente, nós enchemos seus quartos com livros, dispositivos e brinquedos. Na verdade, estima-se que as crianças ocidentais possuem, em média, 150 brinquedos. É demais, e quando é excessivo, as crianças ficam sobrecarregadas. Como resultado, elas brincam superficialmente, facilmente perdendo o interesse imediatista nos brinquedos e no ambiente, elas não são estimuladas a desenvolver a imaginação.

Payne ressalta que estes são os quatro pilares do excesso que forma a educação atual das crianças:

1 – Excesso de coisas.

2 – Excesso de opções.

3 – Excesso de informações.

4 – Excesso de rapidez.

Quando as crianças estão sobrecarregadas, elas não têm tempo para explorar, refletir e liberar tensões diárias. Muitas opções acabam corroendo sua liberdade e roubam a chance de se cansar, o que é elemento essencial no estímulo à criatividade e ao aprendizado pela descoberta.

Gradualmente, a sociedade foi corroendo as qualidades que tornam o período da infância algo mágico, tanto que alguns psicólogos se referem a esse fenômeno como a “guerra contra a infância”. Basta pensar que, nas últimas duas décadas, as crianças perderam uma média de 12 horas por semana de tempo livre. Mesmo as escolas e jardins de infância assumiram uma orientação mais acadêmica.

No entanto, um estudo realizado na Universidade do Texas revelou que quando as crianças brincam com esportes bem estruturados, elas se tornam adultos menos criativos, em comparação com jovens que tiveram mais tempo livre para criar suas próprias brincadeiras. Na verdade, os psicólogos têm notado que a maneira moderna de jogar gera ansiedade e depressão. Obviamente, não é apenas o jogo mais ou menos estruturado, mas também a falta de tempo.

Simplificar a infância.

A melhor maneira de proteger a infância das crianças é dizer “não” para as diretrizes que a sociedade pretende impor. É preciso deixar que as crianças sejam crianças, apenas isso. A melhor maneira de proteger o equilíbrio mental e emocional é educar as crianças na simplicidade. Para isso, é necessário:

– Não encher elas de atividades extracurriculares, que, em longo prazo, não vão ajudá-las em nada. – Deixe-lhes tempo livre para brincar, de preferência com outras crianças, ou com jogos que estimulem a criatividade, jogos não estruturados.

– Passar um tempo de qualidade com eles é o melhor presente que os pais podem dar.

– Criar um espaço tranquilo em suas vidas onde eles podem se refugiar do caos e aliviar o estresse diário.

– Garantir tempo suficiente de sono e descanso.

– Reduzir a quantidade de informações, certificando-se de que esta seja sempre compreensível e adequada à sua idade, o que envolve um uso mais racional da tecnologia.

– Simplifique o ambiente, apostando em menos brinquedos e certificando-se de que estes realmente estimulem a fantasia da criança.

– Reduzir as expectativas sobre o desempenho, deixe que elas sejam simplesmente crianças. Lembre-se que as crianças têm uma vida inteira pela frente até se tornarem adultos, entretanto, então, permita que elas vivam plenamente a infância.

Texto publicado em espanhol no site Rincón de la Psicología, traduzido e adaptado pela Revista Pazes.

 

 

 

“Não é preciso gritar para nos fazermos ouvir”

Junho 13, 2017 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do site http://www.paisefilhos.pt/ de 10 de janeiro de 2017.

Teresa Martins

“Berra-me baixo” mostra como deixar de gritar com os filhos em apenas quatro semanas. O resultado é uma relação parental fortalecida e mais harmoniosa.

É possível educar sem gritar, mesmo quando os pais andam exaustos e as crianças teimam em não cooperar. A coach parental Magda Gomes Dias propõe, no seu novo livro, um desafio a todos os pais que andam cansados de gritarias: mudar em 21 dias (para melhor) a relação com os filhos e passar a “berrar baixo”. A primeira regra é deixar de tentar e começar a fazer. É esse o compromisso que a autora e formadora na área da parentalidade positiva pede. Depois é seguir os passos de “Berra-me baixo”, sabendo que no fim a relação entre pais e filhos sairá fortalecida e muito mais harmoniosa.

Porque gritamos tanto com os nossos filhos?

Magda Gomes Dias (MGD): Por vários motivos e que diferem de pai para pai. Gritamos porque andamos sem paciência, porque nos sentimentos ameaçados e desafiados por uma resposta torta (logo nós que damos a melhor educação aos nossos filhos!), porque já pedimos 300 vezes as mesmas coisas, porque temos medo que eles descarrilem… E gritamos porque aprendemos a comunicar assim, também.

Estamos com défice de paciência e de estratégias alternativas?

MGD: Estamos pois! Andamos esgotados e queremos que tudo resulte do dia para a noite. Não resultando, gritamos para nos fazermos ouvir.

Mas dar “dois berros” por vezes funciona…
MGD: É importante dizê-lo com todas as letras: toda a gente grita. Para alguns pais a palmada na hora certa e os dois berros fazem parte de educar. Mas para um enorme número de pais, gritar é algo que não desejam fazer. Há estudos que provam que o stresse emocional provoca tudo menos coisas boas na criança. Mas o que eu vejo hoje em dia é mais do que isso. São pais que não se reveem nessa forma de educar – berrando, batendo, ameaçando ou humilhando. E querem fazer diferente só que, na ausência de modelos equilibrados, caem muitas vezes na justa oposição que é a permissividade… Mas há um caminho do meio que tem por base o respeito mútuo entre pais e filhos e que assenta na qualidade da relação criada. É quando apostam nisto que tudo o resto vem, incluindo a ausência da necessidade de dar dois berros.

Quais são as situações mais comuns que nos fazem “saltar a tampa”?

MGD: No livro escolhi 10 situações que nos fazem saltar a tampa. São os 10 “clássicos” que os pais com quem trabalho me apresentam com regularidade: quando não nos escutam; quando nos respondem torto; quando não querem cooperar; quando não param de choramingar; quando nunca estão satisfeitos; quando batem; quando temos um adolescente em casa; quando temos um marido/mulher que nos dá dores de cabeça; quando a casa está de pernas para o ar; quando os miúdos se dão mal.

O que estamos a fazer aos nossos filhos quando gritamos constantemente com eles?

MGD: Quando se berra de forma regular, estamos a criar um stresse desnecessário na vida dos nossos filhos – e na nossa. A maior parte dos pais que gritam dizem-me que os filhos não os ouvem. Por isso gritar faz com que os filhos deixem de escutar. Parece, à primeira vista, um grande paradoxo mas depois de bem analisado não é. Porque podemos ter uma de duas situações: aquela em que os miúdos dizem “oh, ela só grita, é sempre a mesma coisa” e ignoram; e a outra em que os miúdos ficam num estado de stresse tão grande que não conseguem reagir/responder. O que é péssimo e é a prova que a forma como exercemos a nossa autoridade parental é feita com base no medo. E medo não é respeito nem cooperação. Depois há também crianças que reagem de forma agressiva – e esta forma é também uma defesa e só se defende quem tem medo e se sente agredido. Além disso, gritar de forma continuada pode criar um caminho para uma autoestima muito baixa…

Qual é o primeiro passo para deixarmos de gritar? É preciso olhar para dentro?

MGD: Sim, é mesmo! Este é um livro justamente acerca dessa transformação! Primeiro, é preciso desejar mesmo criar uma relação com base no respeito mútuo. Depois, é preciso identificar os motivos que nos levam a gritar e refletir como é que eu quero fazer da próxima vez. É quando fazemos esta reflexão que estamos a praticar autorregulação. E depois lidar com a frustração de não o conseguirmos fazer sempre. O objetivo não é a perfeição, mas a melhoria continua.

Deixar de gritar é deixar de ralhar?

MGD: Esta é uma questão fundamental neste livro. De repente, o leitor mais cético pode dizer “mas então eu já não posso bater e agora já não posso gritar? O próximo passo é deixar de educar a criança?” Não é nada disto! Ralhar significa educar, orientar, acompanhar. E ralhar não tem de ser feito a gritar. Podemos fazê-lo sem levantar a voz. Afinal de contas, ralhamos com um colega ou corrigimos e chamamos à atenção? Os nossos filhos têm tanto (ou mais) valor que os nossos colegas. Se não grito com um, porque razão gritaria com o outro? Se o faço é porque não consigo ver essa igualdade enquanto pessoas.

Firmeza, mimo e paciência são os três ingredientes indispensáveis para melhorarmos a relação com os nossos filhos?
MGD: Claro que são! Todas as crianças precisam de pais firmes e justos. Pais que sabem o que estão a fazer… e a firmeza vem justamente dessa sabedoria. A paciência é uma característica que vamos perdendo quanto mais cansados estivermos – e os pais são pessoas cansadas, por natureza. Por isso é que a primeira regra da parentalidade positiva diz: pais felizes = filhos felizes. E depois o mimo… o mimo é amor. Se estraga, então é outra coisa. Mimo a mais não existe – o que existe é a falta de limites por parte do adulto.

Este exercício implica um crescimento interior dos pais…
MGD: Passamos a ter um maior conhecimento de nós, a perceber o quanto pode ser gratificante a nossa melhoria contínua e a nossa relação com os nossos filhos e isso enche a nossa vida.

Não há risco de “recaídas”?

MGD: Quando o foco é deixar de gritar, é bem possível que se tenha uma recaída. Este é um livro sobre amor e felicidade e sobre como é que podemos melhorar a nossa relação parental. O deixar de berrar vem por acréscimo. Se deixamos completamente de gritar? Isso é possível e vai depender da evolução que fizermos e da maturidade que ganharmos. Em primeiro lugar ganhamos o poder de identificar o que nos faz gritar. Por isso, vamos conseguir percecionar o momento em que o vamos fazer – é como se houvesse uma pausa entre aquilo que acontece e a nossa explosão. Se depois gritamos ou não, isso é uma decisão só nossa.

E é aí que percebemos que a forma como comunicávamos era talvez até violenta? Sentimos vergonha?

MGD: Vergonha ou culpa. Eu gostava de filmar as cenas em que gritamos com os nossos filhos. A primeira coisa que não fazemos é respeitá-los e o respeito mútuo é a base para a transformação. Se eu não vejo os meus filhos como pessoas com igual valor a mim, é difícil porque tudo o que eu vou fazer ou é autoritário ou permissivo. Depois, a forma como gritamos é de uma agressividade incrível, a começar pela nossa cara e pela violência dos nossos gestos. Está na hora de usarmos a culpa da melhor forma porque ela é benéfica se soubermos usá-la.

O que diria aos pais que dizem “hoje não se pode dar uma palmada ou um berro que os meninos ficam logo traumatizados…”
MGD: É legítimo termos receio que os nossos filhos não deem certo. E como a maior parte de nós se safou com o modelo da educação autoritária então porque é que isto não iria resultar nos filhos? O problema não é poder-se dar uma palmada ou gritar. O problema é que os pais estão na educação dos filhos como se um jogo de poder se tratasse e não é nada disso. Quando estamos numa relação mais punitiva, estamos apenas a dizer que os nossos filhos, porque são crianças, têm menos valor que nós. Que não são iguais. E são. São tão humanos e pessoas quanto eu sou e estão em crescimento. Precisam por isso de orientação.

Castigos ou consequências?

Os castigos ainda são uma fórmula recorrente para tentar incutir nas crianças que determinado comportamento não é o mais correto. Mas serão eficazes ou mesmo necessários? “O castigo tem vários objetivos e é antes de tudo a forma que a grande maior parte de nós conhece para… educar! É a forma que muitos pais e educadores têm de mostrar à criança que se prevarica, há que fazer sofrer”. E se na verdade o castigo “funciona no imediato, a médio e a longo prazo a criança vai aprender a esconder para não ser apanhada e aquilo que é mais importante – a responsabilidade – não foi conseguido”. Ou seja, o castigo é uma “excelente forma de desresponsabilizar a criança”.
As consequências, por outro lado, “têm a ver com a situação, são justas e ajudam a criança a tomar decisões e a serem responsáveis”. Por vezes, sublinha Magda Gomes Dias, “a diferença entre um castigo e uma consequência está apenas no tom e na intenção de fazer sofrer a criança”.

 

 

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