Onde estão de facto medidas efectivas de acolhimento familiar no Portugal do século XXI?

Junho 17, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social, Relatório | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Sérgio Costa Araújo publicado no Sapo24 de 1 de junho de 2019.

Numa história já muito velha de António Ennes (1848-1901), duas crianças são abandonadas no artifício da “Casa da Roda”. As razões poderão ser muitas: a pobreza da família biológica, o facto de serem enteadas, filhos ilegítimos, poderem interferir em processos de heranças. Estas crianças, as chamadas «enjeitadas», crescem na desordem emocional talvez, tal como nos sugere o autor, pela expectativa sempre presente de reencontrarem os pais. Neste drama moral, oitocentista, “em quatro actos”, a busca da identidade dos pais aumenta a comoção dos personagens que os rodeiam, mas que nem por isso parecem mais comprometidos em ajudá-los a resolver o enigma. Aos enjeitados, restam-lhes pouco mais do que os produtos do seu próprio fado e o facto de despertarem a comoção alheia. E tal como seria de esperar, numa época ainda pré-histórica aos Direitos da Criança, o final não é feliz.

Ainda que a literatura e as telenovelas continuem a servir-se dos dramas destas crianças para emocionar e, com isso, vender, na Europa real muito se evoluiu no campo dos seus direitos. Hoje, a esmagadora maioria dos estados reduziram drasticamente, por exemplo, o número de crianças que crescem entregues a instituições. Investem em contrapartida em medidas efectivas de acolhimento familiar, que incluem a colocação destas crianças aos cuidados de famílias de acolhimento. Deste modo, concretizam o direito de as crianças crescerem numa família, tal como expresso na Convenção dos Direitos da Criança, adoptada pela Assembleia geral das Nações Unidas a 20 de Novembro de 1989.

Segundo o Relatório CASA – Caracterização Anual da Situação do Acolhimento, do Instituto da Segurança Social, lançado em 2018, que apresenta o retrato deste sector em Portugal em 2017, 7553 crianças continuariam entregues aos cuidados de instituições e apenas 246 crianças em acolhimento familiar. Em 2008 eram 918. Estes números são evidências de que em Portugal, apesar de existirem, teoricamente, três grandes vias clássicas para a colocação de uma criança numa família: o apadrinhamento civil, a adopção e o acolhimento familiar, o Estado tem insistido de forma contínua na sua entrega a organizações.

A questão que então se impõe é onde estão de facto medidas efectivas de acolhimento familiar no Portugal do século XXI? Nesta matéria, e em contraciclo com os parceiros europeus, Portugal insiste em medidas de assistencialismo puro que passam pela mera institucionalização, particularmente em estruturas geridas por instituições particulares de solidariedade social. O panorama nacional é por isso simultaneamente inexplicável e preocupante, tornando urgente uma mudança que altere o foco do discurso político, académico e técnico em Portugal, centrado na “institucionalização” de crianças, para a sua “desinstitucionalização”. Mas de que estaremos a falar quando falamos de desinstitucionalização?

A desinstitucionalização centra-se, principalmente, nos aspectos de transição dos cuidados centrados em instituições, para cuidados centrados na família e na comunidade. Segundo o que se encontra na literatura internacional nesta matéria, isto implica uma mudança nos modos de agir que dá mais ênfase aos direitos da criança e à qualidade do encaminhamento que lhe é dada. O processo de desinstitucionalização implica a transformação sistemática de todo o sistema de protecção à criança. Isso poderá começar, por exemplo, com a disponibilização de serviços para ajudar e apoiar famílias e pais e, em última análise, para garantir que separar uma criança da sua família seja realmente o último recurso.

Se a retirada da criança, por exemplo, à família biológica, não puder ser evitada, e no sentido do melhor interesse da criança, opções diferentes devem existir e necessitam de ter em consideração as necessidades e desejos da criança, que deverá participar também ela nos processos de tomada de decisão. Estas medidas devem priorizar medidas de acolhimento familiar.

Os prejuízos para a criança do facto de crescer numa instituição são mais do que evidentes e estão mais do que estudados. Um relatório de Setembro de 2009 da Comissão Europeia aclara, por exemplo, o mito dos benefícios das instituições, ainda que de pequena dimensão, referindo que este tipo de instituições não é definido primeiramente pelo número de crianças e jovens que albergam, mas particularmente pela sua cultura institucional, baseada sobretudo em cinco aspectos: a despersonalização, a criação de rotinas rígidas, o tratamento em bloco, o distanciamento social e o paternalismo — factores que nem a boa vontade do melhor técnico consegue ultrapassar. Adicionalmente, e sobre o impacto da institucionalização, a comunidade científica também apresenta os efeitos adversos globais dos cuidados baseados em instituições: no comportamento e na interacção social, na formação do vínculo emocional, no desenvolvimento intelectual e da linguagem e até no cérebro da criança em desenvolvimento.

Em Portugal o ano de 2019 poderá marcar a tão desejada transformação nesta matéria. Esteve em consulta pública durante um mês, até ao passado dia 27 de Maio, um projecto de decreto-lei do governo que tem por objectivo impulsionar e priorizar o acolhimento familiar face a outras medidas.

As boas notícias desta proposta incluem garantias de protecção laboral e benefícios fiscais às famílias que decidam ser famílias de acolhimento. Agora o importante é que avance. Ao ser aprovado entraremos numa nova era de um sistema renovado, a caminho de se tornar verdadeiramente amigo das crianças. Caso contrário, permaneceremos distantes do interesse da criança e submersos num ambiente que se reveste das propriedades de um objecto arqueológico, que certamente inspirarão muitas outras novelas oitocentistas.

 

O relatório citado no artigo é o seguinte:

CASA 2017 – Relatório de Caracterização Anual da Situação de Acolhimento das Crianças e Jovens

 

 

Vidas roubadas em Portugal. As crianças que nunca mais ninguém viu

Junho 16, 2019 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Jornal de Notícias de 25 de maio de 2019.

O Dia Internacional da Criança Desaparecida assinala-se este sábado, dia 25 de maio. Em Portugal, há pelo menos nove casos por resolver.

Eles perderam-se dos pais, perderam a infância e juventude que teriam tido. Os pais perderam os filhos. Não sabem deles, nunca os enterraram (como é que se enterra quem não morreu?). Para a Justiça, não estão mortos, estão desaparecidos. É o caso de pelo menos nove meninos e meninas – agora serão adultos – que desapareceram em Portugal quando eram pequenos.

Sofia Catarina Andrade de Oliveira

É a mais nova da lista. Nascida em fevereiro de 2002, Sofia foi dada como desaparecida dois anos depois. Filha de pais separados, foi retirada à mãe, com quem vivia, pelo pai, Luís Oliveira da Encarnação, em Câmara de Lobos, Madeira, ao início da noite de 22 de fevereiro de 2004. Na fuga com a menor, o homem apanhou primeiro um táxi e depois boleia de um familiar, tendo sido deixado a pé, com a filha, às 21.30 horas, no Caniço de Baixo. Duas horas depois, deslocou-se à esquadra da PSP de Câmara de Lobos, onde estava a mãe da menor a participar o desaparecimento. Luís já não levava a filha consigo.

O pai acabou por ser detido dois dias depois e, em 2005, foi condenado a nove anos de prisão efetiva pela prática dos crimes de coação na forma tentada, sequestro e subtração de menores (um recurso acabou por baixar a pena para seis anos e cinco meses, no ano seguinte). Perante Polícia e tribunais, recusou sempre dizer onde estava a filha, mantendo a versão de que a menina se encontrava bem e que o segredo do paradeiro ia consigo para a cova. Se estiver viva, Sofia terá hoje 17 anos.

Tatiana Paula Mesquita Mendes (ou Odete Araújo Freman)

Nasceu em junho de 1998. Desapareceu em maio de 2005, a dias de fazer sete anos.

Tatiana Mendes – também identificada como Odete Freman – tinha nacionalidade guineense. Segundo a PJ, foi “adotada”, com a concordância da mãe biológica, por um casal, com quem viajou para Portugal em maio de 2004.

Cerca de um ano depois, a mãe adotiva informou que a menor tinha sido por si entregue a outra pessoa, ainda no ano anterior, e que a menina tinha morrido mais tarde num acidente de viação em Badajoz, Espanha.

Hélder Alexandre Ferro Pagarim Cavaco

É um dos mais antigos casos de jovens desaparecidos em Portugal. Hélder Cavaco nasceu em julho de 1973, em Santiago do Cacém, no distrito de Setúbal. Desapareceu em janeiro de 1990, com 16 anos, na zona da praia de São Torpes, em Sines. Praticava surf.

De acordo com a descrição disponível no site da PJ, Hélder media 1,76 metros, tinha cabelo e olhos castanhos, e uma cicatriz sob o olho direito. Quando foi visto pela última vez, vestia calças e blusão de ganga azul e usava uma mochila da mesma cor com riscas amarelas e vermelhas.

Madeleine Beth McCann

É um dos casos mais mediáticos, pelo mistério envolto e pelas teorias que espoletou. Todos se lembram de ver a Maddie na televisão, em 2007. Cabelo loirinho, liso, curto pelos ombros. Uma mancha castanha na íris do olho direito, verde (o esquerdo era azul e verde). E todos se lembram de ver a mãe, com semblante carregado, de mão dada ao marido, a usar sempre uma pulseira verde e outra amarela – as cores da esperança em Portugal e em Inglaterra, de onde Madeleine era natural.

Estava de férias com os pais e os irmãos gémeos num complexo turístico da Praia da Luz, em Lagos, quando desapareceu do quarto onde dormia, a 3 de maio daquele ano, enquanto os pais jantavam. Apesar dos esforços das polícias portuguesa e britânica, a pequena Maddie nunca foi encontrada. Doze anos depois, a história continua a fazer correr tinta. Escreveram-se livros sobre o caso e, recentemente, a Netflix lançou um documentário. No início deste mês, a PJ esclareceu que o caso continuava “em aberto”.

Jorge Manuel Sepúlveda

Jorge Sepúlveda, natural de Massarelos, no Porto. Tinha 14 anos quando desapareceu, a 15 de agosto de 1991.

Era feriado, celebração da Assunção de Nossa Senhora. Jorge levantou-se cedo nesse dia e saiu de casa sem que os pais soubessem. Não era a primeira vez que o fazia, mas desta não voltou. Foi visto a caminho do Tamariz por um colega e nunca mais se soube nada dele.

A fotografia de Jorge Manuel já não consta do site da PJ.

Rui Pedro Teixeira Mendonça

Rui Pedro tinha onze anos quando foi visto pela última vez, a andar de bicicleta, num terreno atrás do escritório onde a mãe trabalhava, em Lousada, na tarde de 4 de março de 1998. Passaram-se mais de 20 anos, mas este é um daqueles casos em que o tempo não leva a memória. Rui será hoje adulto, mas a imagem que continua a circular na Internet e nas televisões é a mesma. Olhos castanhos e cabelo da mesma cor, com risca ao meio, orelhas salientes, sorriso reguila.

Os contornos do desaparecimento não são claros. Muito se especulou sobre o caso, com o coletivo de juízes de Lousada e o Tribunal da Relação do Porto a discordarem de alguns pontos do processo.

A Relação deu como provado que o rapaz foi conduzido pelo arguido Afonso Dias, condenado em 2013 a três anos e seis meses de prisão efetiva por rapto, a uma prostituta para ter relações sexuais, o que, segundo declarações da própria em tribunal, acabou por não acontecer. Afonso, que em 2017 saiu da cadeia de Guimarães em liberdade condicional, continua a clamar inocência pelo que quer que tenha acontecido a Rui Pedro.

Cláudia Alexandra Silva Sousa

Nascida em 1987, desapareceu em 1994, a caminho da escola. Tinha sete anos. Chamavam-lhe “Carricinha”. A mãe viu-a a dobrar a curva da rua do Baltar, em Oleiros, Vila Verde, perto de casa e depois não a viu mais. Cláudia nunca mais apareceu.

Na altura, media 1,10 metros e pesava 30 quilos. Tinha uma cicatriz com cerca de 10 centímetros na coxa direita, outra no lábio inferior e outra num dedo da mão.

João José Gomes Teles

João Teles deixou de ser visto a 6 de outubro de 1998, meses depois do desaparecimento de Rui Pedro. Tinha 16 anos e frequentava o 9.º ano.

Desapareceu no Largo do Machiqueiro, em Câmara de Lobos, Madeira, de onde é natural.

Terá, atualmente, 36 anos.

Rui Manuel Pereira

Rui Pereira desapareceu de Famalicão em 1999 – exatamente um ano depois do desaparecimento de Rui Pedro, em Lousada – quando brincava no Parque de Sinçães, junto ao bairro onde vivia.

A investigação lutou sempre contra a falta de pistas. Os únicos factos que constam do processo referem apenas que, na tarde de 2 de março de 1999, Rui brincava com um amigo no parque quando foi chamado pelo condutor de um automóvel, onde entrou.

A fotografia de Rui já não consta no site da PJ, que fechou o caso em 2007.

Os casos de desaparecimento não prescrevem. Mas algumas das crianças que aqui recordamos já não constam da base de desaparecidos da Polícia Judiciária. Patrícia Cipriano, presidente da Associação Portuguesa de Crianças Desaparecidas (APCD), explicou ao JN as possíveis razões.

“Quando a PJ retira uma criança do seu site pode significar que esta foi localizada e não pretende que a sua imagem continue a ser divulgada (já sendo adulta) ou pode ter sido instaurada uma ação que vise a declaração de morte presumida dessa pessoa, vindo o Tribunal a declará-la presumivelmente morta. Nesse caso, a pessoa deixa de estar desaparecida e passa a estar morta para efeitos legais, não fazendo sentido continuar a ser exposta. Poderá também dar-se o caso de ser importante para a investigação a retirada da fotografia e informações do desaparecido, restringindo assim o acesso do público a essa imagem e informação”.

A APCD, constituída em 2007 por familiares de crianças desaparecidas, colabora com a Polícia Judiciária, desde 2011, nas investigações sobre menores desaparecidos. Em 2018, recebeu 26 pedidos de ajuda/aconselhamento e de informação, dos quais cinco foram relativos a casos de subtração de crianças (rapto parental intencional). Nesses casos, a associação dá, de forma gratuita, acompanhamento psicológico e consultadoria jurídica às famílias, além de apoiar as crianças que são vitimas de crime.

“O projeto continua a ser a criação de procedimentos e métodos que permitam uma mais célere localização da criança, a prevenção primária e o acompanhamento de casos reais”, disse ao JN a dirigente, lamentando que os donativos recebidos sejam “muito escassos” e que o orçamento anual seja “incerto e muito curto”. A APCD não tem fundos próprios nem Protocolos de Cooperação com o Estado, que garantiriam “alguma estabilidade”, admite a responsável, agradecendo à Câmara Municipal de Lisboa e à Santa Casa da Misericórdia de Lisboa o apoio que vai chegando.

ADN guardado em casa

“Quando temos um subsídio para um projeto em particular, o seu valor é integralmente utilizado no projeto”, apontou Patrícia Cipriano, referindo a criação de dois manuais de segurança infantil, uma aplicação móvel e um kit de identificação genética (“O meu ADN”), lançado em 2015, que permite fazer a recolha do ADN e impressões digitais em casa e guardar a amostra.

“O ADN é dos meios de prova mais importantes na identificação de pessoas, mas também na investigação criminal de raptos, homicídios, sequestros, violações, etc. Por isso, é muito importante que, quando uma criança desaparece (mas não só), os pais tenham uma amostra pura de ADN para entregar às autoridades”, explica a responsável, adiantando que o kit, resultante de uma parceria com a GNR, foi desenvolvido pelo perito em identificação de vítimas de catástrofes e consultor da Interpol Derek Forest.

O kit esteve disponível em algumas lojas e num microsite durante algum tempo, mas a fraca adesão do público mudou a estratégia. Agora, a associação está a trabalhar “no sentido de o vender diretamente a famílias e a profissionais de risco (polícias, bombeiros, trabalhadores da alta tensão, militares, etc)”.

 

 

Unicef: dezenas de milhares de crianças no noroeste da Síria estão em risco iminente

Junho 15, 2019 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia da ONU News de 30 de maio de 2019.

Chefe da agência diz que “as crianças não são responsáveis ​​por essa guerra, mas sofrem mais com a carnificina e consequências do que ninguém”; confrontos causaram a morte de pelo menos 134 crianças e mais de 125 mil deslocados em 2019.

O Fundo das Nações Unidas para a Infância, Unicef, disse esta quinta-feira que dezenas de milhares de crianças no noroeste da Síria estão em risco iminente de ferimentos, morte e deslocamento por causa de uma escalada significativa nos combates.

Segundo a agência, a violência se intensificou nos últimos dias, especialmente em aldeias no norte de Hama e no sul de Idlib.

Confrontos

Em nota, a diretora executiva do Unicef diz que “muitas famílias foram expulsas de suas casas novamente, enquanto outras são incapazes de se mudar para áreas mais seguras, cercadas pelos combates.”

Henrietta Fore afirma que “esta última escalada se segue a meses de crescente violência na área, que supostamente deixou pelo menos 134 crianças mortas e mais de 125 mil deslocadas desde o início do ano.”

Quase 30 hospitais foram atacados e o aumento da violência forçou alguns dos parceiros de saúde do Unicef a suspender suas operações de salvamento. Cerca de 43 mil crianças estão agora fora da escola e os exames finais em partes do Idlib foram adiados, afetando a educação de 400 mil estudantes.

Resposta

Fore diz que “os parceiros do Unicef estão no terreno no noroeste, trabalhando para alcançar crianças e famílias com clínicas de saúde móveis, serviços de imunização e nutrição, apoio psicossocial e suprimentos de água e saneamento.”

Apesar desses esforços, ela avisa que “estas são apenas soluções rápidas que não vão longe para mitigar as consequências humanitárias de uma violência tão brutal e gratuita.”

A diretora executiva disse ainda que “as crianças não são responsáveis ​​por essa guerra, mas sofrem mais com a carnificina e consequências do que ninguém.”

O Unicef diz que as partes do conflito devem fazer todos os esforços para proteger as crianças e a infraestrutura de que dependem, incluindo hospitais e escolas.

Henrietta Fore termina a nota pedindo que “os partidos e aqueles que têm influência criem uma paz abrangente e duradoura que finalmente acabe com esta guerra, em prol das crianças da Síria e do futuro do país e da região.

Mais informações na notícia da Unicef:

https://www.unicef.org/press-releases/tens-thousands-children-grave-danger-violence-escalates-northwest-syria

 

“O meu filho corta-se”

Junho 14, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Rute Agulhas publicado no Público de 29 de maio de 2019.

Muitos jovens têm comportamentos de auto-mutilação. Os pais questionam o que fazer, e eu acrescento o que não fazer.

Muitos jovens têm comportamentos de auto-mutilação. Com as unhas, o x-acto, o compasso, a tesoura ou a lâmina do afia-lápis, desenham cortes no seu corpo. Cortam-se nos pulsos e nos antebraços, nas virilhas e nos tornozelos, havendo mesmo quem se corte no corpo todo, de forma quase indiscriminada. Outros jovens não se limitam a cortar-se e, com agulha e linha, cosem a pele. Inspirados pelo célebre desafio “Tokyo Ghoul”, que começou na China em Setembro de 2011, imitam a personagem Juuzou Suzuya, que costura os lábios, o pescoço e os braços para modificar o corpo.
Os pais descobrem, habitualmente, de modo acidental, ou alertados por alguém. Muitas vezes, os professores são os primeiros a dar o alerta, ou não tivesse a escola um papel privilegiado na identificação de sinais de mau estar e sofrimento das crianças e jovens.

Mas porque o fazem? Pode parecer algo muito estranho e quase paradoxal, mas a verdade é que os cortes são sentidos como um alívio, quando comparados com uma dor emocional mil vezes maior. É isto que os jovens reportam. Uma tristeza, revolta, zanga e angústia tão poderosas e intensas que, quando confrontadas com uma dor física, parecem acalmar. “O meu peito está a arder e a sangrar por dentro, e quando sangro cá fora parece que o que se passa lá dentro fica menos mau… por momentos esqueço-me de todas as coisas más que não me saem da cabeça e sinto um alívio tão grande…”, diz Maria, com 14 anos de idade. Uma jovem deprimida, vítima de maus tratos diversos.

Este comportamento auto-lesivo surge frequentemente associado a um estado depressivo, que pode manifestar-se com sinais e sintomas diversos, desde físicos, afectivos, cognitivos ou comportamentais. Muitas vezes de mãos dadas com perturbações de ansiedade e ideação suicida. De uma forma geral, estes jovens apresentam uma visão profundamente negativa de si próprios, do mundo e do futuro.

Vêem-se a si mesmos como não tendo valor, como sendo inadequados, indesejáveis e incapazes, atribuindo as suas experiências negativas a defeitos psicológicos, morais ou físicos.

Vêem o mundo como insustentável, apresentando obstáculos insuperáveis e resultando continuamente em falha ou perda.

Vêem o futuro sem esperança, pois acreditam que os esforços que despendem serão sempre insuficientes para modificar o curso da sua vida, percepcionando-a como um prolongamento indefinido do seu sofrimento e frustração.

Porque é que isto acontece? Pois, não existe uma resposta simples. Sabemos que existem situações de maior risco, especialmente nos adolescentes, como sejam a baixa auto-estima, sentimentos de culpa, perdas precoces, dinâmica familiar disfuncional ou a exposição prolongada a situações de stress. Também as situações de maus tratos, físicos ou emocionais, a negligência e o abuso sexual são factores de risco acrescido.

Os pais questionam o que fazer, e eu acrescento o que não fazer.

Os pais devem estar atentos, pois outros sinais e sintomas, mais subtis e nem sempre valorizados, precedem a auto-mutilação. Seja a tristeza, a raiva ou a ansiedade, a maior irritabilidade, a apatia ou o isolamento. Ainda, as dificuldades de atenção e concentração (com impacto no rendimento escolar), o comportamento agressivo ou as alterações no sono ou alimentação. Sinais de alerta aos quais os pais (e outros adultos próximos) devem prestar especial atenção. Ao mesmo tempo, desconfiar quando o jovem usa roupas compridas e que tapam o corpo em dias quentes. Recusa vestir algo que mostra os braços ou as pernas? Usa casaco e capuz em dias de verão? Cobre os pulsos com numerosas pulseiras que nunca tira? Pode não ser nada. Ou pode ser.

O que não fazer? Gritar, ralhar, ameaçar, culpabilizar. Ao invés disso, escutar. Mostrar disponibilidade para ajudar e pedir ajuda especializada. Os comportamentos de auto-mutilação não são uma fase, uma mania ou uma mera tentativa de chamar a atenção. São um sinal de alerta vermelho.

 

Psicóloga especialista em Psicologia Clínica e da Saúde, Psicoterapia e Psicologia da Justiça; docente e investigadora no ISCTE-IUL

 

O bullying está a tomar conta da vida do meu filho e eu não sei lidar com isso

Junho 14, 2019 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto e imagem do MAGG de 30 de maio de 2019.

Há anos que ando a ouvir a minha geração, ali nos 40 e poucos, a falar, com algum desdém, de bullying nas escolas. “Isso não é novidade nenhuma. No nosso tempo já existia só que não se chamava era assim”. É normalmente esta a ideia de todos, amigos, conhecidos, família, e era também a minha, porque quando era puto também levei uns calduços dos rufias da escola, também me deram alcunhas parvas e insultuosas, também fui muitas vezes gozado por tudo e mais alguma coisa.

Hoje, à distância de 30 anos, tenho a tendência para ver tudo isso como coisas normais da adolescência, porque são episódios difusos lá no passado, vividos numa conjuntura diferente, numa envolvente social muito distante daquela que tenho hoje, e, sobretudo, porque são história que se passaram comigo, e não com os meus filhos. E só percebi essa diferença hoje, agora, quando um dos meus é a vítima, é o envolvido nisto que antigamente não tinha nome e a que hoje se chama bullying. E foi preciso tocar a sério a um filho meu para eu começar a entender melhor este fenómeno e a ver como ele consegue modificar quase a 100 por cento uma criança, como consegue destruir processos educativos que os pais colocam em prática durante anos, como consegue ser mais forte do que conversas, exemplos práticos, metodologias estudadas por psicólogos. O bullying leva tudo à frente, e eu, como pai, não sei lidar com isso.

O princípio de tudo

Foi ainda antes de o meu filho mais velho entrar para o primeiro ciclo, num colégio privado, que se começaram a manifestar na envolvente escolar em que estava inserido os primeiros episódios de coação, então mais verbal do que física. Ao contrário dos outros rapazes, ele não escolheu ir para o futebol ou para o karaté, preferiu o ballet. Teve todo o apoio dos pais. Tinha 4 ou 5 anos, e, na inocência da idade, não estava preparado para lidar com o preconceito de uma escolha que fez baseada naquilo que lhe apetecia mais. A turma era constituída unicamente por meninas, e ele era o único rapaz. Não foram precisas muitas semanas para chegar a casa a queixar-se de que vários meninos da escola gozavam com ele por andar no ballet. Logo aqui começam as minhas dúvidas.

De que forma é que uma escola combate este tipo de preconceito, esta coação verbal, a humilhação a que crianças de 4 ou 5 anos começam a ser sujeitas?

Era bastante fácil identificar os agressores, porque a escola era pequena, todos se conheciam pelos nomes, a vigilância sobre os alunos era constante e as crianças daquelas idades ainda não percebem o conceito de delação, não temem vinganças pelo facto de denunciarem quem os magoa, física ou verbalmente. Na altura, reportei o episódio aos responsáveis da escola, que me garantiram que iriam tomar medidas para que essas situações não voltassem a acontecer. Mas voltaram a acontecer. Muitas vezes. Naturalmente que ao fim de poucos meses, o meu filho me pediu para sair do ballet e ir para o judo, porque não queria continuar a ser gozado pelos colegas por ser o único menino no ballet. E agora outra dúvida que nunca consegui esclarecer:

Não é papel de uma instituição de ensino ajudar na construção da personalidade dos alunos, formando-os também como pessoas, com princípios cívicos básicos?

Muita gente defende que esse papel cabe aos pais, à família, à envolvente social extra escola, mas eu não consigo concordar com isso. Esse papel cabe a toda a gente, à sociedade em geral, a todos os que estejam a lidar diretamente com os envolvidos num caso de injustiça, seja ela qual for. Se uma criança vive uma situação como a que o meu filho estava a viver na escola, não seria obrigação dos responsáveis da escola, numa primeira fase, falarem com os agressores e explicarem-lhes, de forma didática e cívica, aquilo que estavam a fazer de errado? Não deveria ser papel da escola, referenciar os agressores e estar atenta para a eventual repetição desses mesmos comportamentos? Uma criança não aprende com uma conversa, aprende também pela repetição, pelo exemplo. Logo, o normal, digo eu, seria que alunos com comportamentos agressivos perante os outros devessem ser identificados e acompanhados mais de perto, por forma a que por um lado se protejam os agredidos, mas por outro se forme a personalidade dos agressores, e se consiga transformá-los em crianças mais conscientes. E este papel não cabe unicamente à escola, como é evidente. Cabe sobretudo aos pais, à família. E é por isso que eles têm de ser envolvidos em todo este processo. Na escola, onde muitas crianças passam grande parte dos dias, rodeadas de outras crianças, é mais fácil identificar este tipo de comportamentos, até porque quando os miúdos não estão com os pais tendem a comportar-se de forma diferente. Logo, o normal será estas situações serem reportadas aos pais, para que eles, em conjunto com a escola, possam contribuir para tornar aquela criança numa melhor criança, num melhor adolescente, num melhor adulto. Ninguém é bully só porque sim, ou a vida toda, todos os casos são reversíveis, com o devido acompanhamento e com as ações certas.

Se senti pela primeira vez o bullying na vida do meu filho neste episódio do ballet, voltei a perceber situações do género várias outras vezes no ano seguinte. E pelas mais variadas razões. Bullying verbal, mas também físico. E nunca entendi como é que num colégio privado minúsculo, que não deveria ter mais de 25 crianças em simultâneo no recreio, o meu filho era constantemente agredido, insultado, e estas situações não tinham um fim, e os agressores recorrentes nunca tinham acompanhamento ou punição. Optei por aquilo que se calhar muitos pais fariam: mudei o meu filho de escola.

No terceiro ano, com 7 anos, passou para uma instituição público-privada, bastante maior, menos controlada, mas que me parecia ter as condições para ele poder ter uma escolaridade tranquila. As coisas não foram muito diferentes: mais queixas, mais agressões, mais episódios de violência, de humilhação, sendo que, tal como na escola anterior, os agressores, perfeitamente identificados, nunca foram alvo de acompanhamento especial, de uma formação cívica para que entendessem a consequência dos seus atos de violência. Também nunca consegui que a escola me pusesse em contacto com os pais dos miúdos que, de forma persistente, infernizavam a vida ao meu filho, porque “isso não é fácil”, como me diziam, ou “as coisas não funcionam assim”. O que é certo é que nada se resolveu.

Estou longe de ser aquele tipo de pai que acha sempre que o filho é uma vítima, ou que o trata como um coitadinho porque leva pancada na escola. Pelo contrário. Perante o meu filho, sou até bastante descontraído com o tema, e tento fazer-lhe ver que estas situações são comuns em todas as escolas, e que ele não pode nunca deixar de relatar estes episódios, mesmo que lhe digam que é “um queixinhas”. Não é. É isso que é correto fazer. Também não sou o pai que diz que se leva tem de responder. Nunca. Digo-lhe o contrário disso. Que nenhum comportamento incorreto justifica outro comportamento incorreto, que jamais deve responder da mesma forma, porque isso não resolve qualquer problema, que não é a maneira mais inteligente de lidar com a situação.

Ao longo desses dois anos na nova escola, e perante repetidos episódios de bullying, fui tendo dezenas de conversas com o meu filho, tentando mostrar-lhe como agir perante essas situações, explicando-lhe que ele não deve valorizar demais isso, e que o importante é que ele se comporte de forma correta, digna, que estude, que seja educado com os professores e com os colegas, porque esse caminho é que o vai levar a ser um jovem melhor e um adulto melhor.

Terminado o quarto ano, e também porque sentia que a escola onde ele estava não correspondia às minhas expetativas, optei por matriculá-lo numa escola pública, com alunos do quinto ao 12.º ano. E aqui voltei à minha experiência pessoal para suportar parte da minha decisão. Desde que entrei para a escola, aos 6 anos, até que saí, no quarto ano da faculdade, que frequentei o ensino público. Os meus pais foram, ao longo de toda a vida, professores do ensino público. Tive boas e más experiências, não tenho termo de comparação para saber se é melhor ou pior do que o privado, mas seguramente terá vantagens e desvantagens. Achei que seria importante o meu filho experienciar a vivência de uma escola pública, visto que tinha andado sempre em colégios. Na minha ideia, isso dar-lhe-ia mais mundo, envolvê-lo-ia com todo o tipo de crianças e personalidades, boas e más, gente com mais e menos dinheiro, com histórias de vida mais pesadas e absolutamente normais. Defendo sempre que a diversidade nos enriquece, e sabia que numa escola pública daquela dimensão ele iria conhecer e conviver com muitos miúdos diferentes, e criar os seus laços.

Se no primeiro ano correu tudo com alguma tranquilidade e normalidade, a partir do sexto ano, quando ele tinha 10 anos, voltei a ouvir episódios de agressões, empurrões, murros, humilhações. Fui tentando desvalorizar, até porque apesar de tudo não via grandes alterações no aproveitamento escolar, nem na relação do meu filho com os professores, até começar a sentir que as coisas lentamente estavam a mudar. E foi só aí, provavelmente já um pouco tarde, que comecei a dedicar mais atenção ao bullying, à forma como estes episódios começavam a moldar, de forma até bastante acelerada, a personalidade do meu filho.

Nos últimos dois anos, quando ele andou entre os 10 e os 12 anos, o meu filho foi-se transformando. Não atribuo a mudança unicamente ao bullying, mas também à fase da pré-adolescência, mas o que comecei a sentir foi que ele tinha duas vidas, duas formas de estar diferentes, uma na escola e outra em casa. O miúdo doce e ternurento que tinha, e tenho, junto a mim não é a criança que os professores descrevem, uma criança irrequieta nas aulas, com comportamentos perturbadores para ele e para os outros, que desestabiliza, que não se consegue concentrar, que não acata ordens, que provoca. Como já referi, não sou, de todo, o pai que vitimiza o filho e que acha que o seu menino é um anjo e que os professores e colegas são uns patifes que só estão ali para o prejudicar. Gosto de entender todas as razões, de ouvir todas as partes, de entender as motivações. E, por isso, ao longo destes dois anos, tenho regularmente conversado de forma aberta, franca, direta com ele sobre cada um dos episódios que se vão passando na escola, dentro e fora da sala de aulas. Procurei, também, a ajuda de uma profissional, uma psicóloga infantil, para me ajudar, e para ajudar o meu filho na adoção dos comportamentos mais corretos, para que ele entenda o que se está a passar e saiba gerir estas situações sem o perturbar, sem o marcar para a vida.

Não há praticamente semana em que não veja o meu filho envolvido em episódios de violência e humilhação. Já foi parar ao hospital a sangrar do nariz de um murro que levou, já foi pontapeado por vários miúdos numa roda em ele estava no chão, no meio, a ser humilhado por todos, já lhe roubaram a mochila e deixaram-na dentro de uma sanita, já lhe roubaram o sapato e o obrigaram a andar descalço pela escola a ser gozado por toda a gente, já levou murros, calduços a toda a hora, é humilhado regularmente pelos mais velhos, é alvo de chacota nos grupos de WhatsApp da turma, e eu próprio já me encontrei com a diretora de turma para tentar entender tudo isto e perceber o que é que a escola faz em situações como esta. Uma vez mais, a resposta é a de sempre: não há muito que uma escola possa fazer. E mais uma pergunta minha:

Mas como é que não há muito que uma escola possa fazer perante um problema social e escolar tão grave como este?

Se não existem meios, criem-se meios. Investir em Educação não é só contratar mais professores, é ajudar a que as escolas tenham os meios adequados para nos ajudarem a todos, sociedade, a criarmos melhores pessoas. Não há pai que não queira que o seu filho seja uma melhor pessoa, e que aceite o contributo de profissionais para que ele receba a melhor formação escolar e humana possível. Como é possível que nas escolas não exista monitorização destas situações? Que não sejam sinalizadas as crianças com comportamentos agressivos recorrentes? Que não lhes seja atribuído um acompanhamento especial para as tornar em melhores pessoas, em crianças mais conscientes? Como é possível que as vítimas tradicionais, os miúdos mais frágeis, muitas vezes bons alunos, ou com características físicas que as tornam apetecíveis aos bullys (os gordinhos, os baixinhos, os que usam óculos, os muito magros e altos, os mais tímidos) não sejam de alguma forma protegidos, ou devidamente informados sobre o que fazer em situações em que são alvos de bullying?

O sentimento do meu filho é o pior possível, aquele de que não adianta dizer nada, não adianta apresentar queixa, porque nada se vai resolver. É a mesma sensação que nos faz descrer da Justiça. Se não acreditamos na Justiça, não temos uma sociedade justa, se os miúdos não acreditam na punição dos erros, no castigo de quem se comporta de forma inadequada, também eles desistam e resignam-se à sua condição de vítimas impotentes. E é imperativo que isto termine e que isto se altere.

Uma última pergunta:

Qual é o nosso papel enquanto pais que lidam com o bullying de forma real?

É um papel absolutamente decisivo, mas para isso é fundamental que estejamos atentos e conscientes do que está a acontecer com os nossos filhos. Esta semana, perante mais um episódio de bullying de que o meu filho foi vítima, tentei uma vez mais entender a envolvente e o contexto. A história começava com ele, o meu filho, a ir dar “um calduço”, como ele me disse, a outra criança. Não quis ouvir mais. Automaticamente percebi que o pior que poderia acontecer tinha acontecido. O agredido está a tornar-se no agressor. Aquilo que o meu filho viveu durante anos no papel de vítima está, agora, a manifestar-se no sentido oposto, com ele a fazer aos outros aquilo que lhe fizeram a ele. E isso é o pior que pode acontecer, é o sentimento máximo de falhanço para um pai, pelo menos para mim, após anos a viver com um lado do problema e agora, de repente, a ter de viver o outro lado desse mesmo problema. O que é que transformou o meu filho? O que é que fez daquele miúdo que passa a vida a pedir beijos e abraços em casa, que não passa um dia sem dizer que me ama, que está sempre com saudades dos irmãos, que toda a gente elogia e admira, numa criança que, do nada, vai dar um calduço a outro miúdo, só porque sim?

Honestamente, penso que sou um pai informado, com acesso a pessoas competentes e profissionais que atuam na área da psicologia infantil, procuro entender de forma racional todas as vertentes deste problema, procuro sempre agir com ponderação, dialogar ao máximo com o meu filho sobre tudo o que se passa com ele, mas sinto que sem o apoio das instituições de ensino onde eles estão inseridos jamais os pais conseguirão resolver estes problemas, ajudar os seus filhos, e combater ao máximo o bullying. Imagino o que acontece com pais menos informados, menos interessados, com menos oportunidades.

Quando é que este fenómeno será encarado como uma prioridade educativa? Quando começarmos a ter as clínicas cheias de jovens adolescentes a serem acompanhados com problemas ligados à depressão? Quando mais uns quantos se cortarem a sério, não porque o viram num vídeo do YouTube, mas porque não suportam mais viver numa constante humilhação e num clima de agressões constantes? Quando percebermos que estamos a formar jovens desinteressados, desinteressantes, sem interesses pela vida, porque o período escolar, que deveria ser de descoberta e aprendizagem, foi só uma época sombria que eles querem esquecer? Que pessoas são essas que iremos formar? Não sei, mas não são essas pessoas que vão tornar a nossa sociedade melhor.

 

 

Tsunami tirou-lhes os pais. Agora constroem escolas para crianças órfãs

Junho 13, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do noticiasaominuto de 25 de maio de 2019.

‘Orphans to Orphans’ é o nome do projeto criado por dois irmãos britânicos que perderam os pais no Sri Lanka em 2004.

Paul e Rob Forkan, de nacionalidade britânica, perderam os pais nesse fatídico dia em que viram uma “grande muralha de água” a atingir o resort onde estavam de férias com a família.

Kevin e Sandra Forkan, os pais, foram identificados três meses depois entre os cerca de 230 mil mortos à passagem do tsunami por vários países do Índico. Paul, Rob e mais dois irmãos conseguiram sobreviver com ferimentos ligeiros.

Volvidos 15 anos, a “dor” é ainda uma constante diária, disseram à BBC, mas não quiseram deixar que isso o parasse. Os dois idealizaram um projeto para transformar a realidade das crianças orfãs através da educação, investindo na construção de escolas.

A inciativa ‘Orphans to Orphans’ (de órfãos para órfãos, em português) é uma espécie de homenagem aos pais. O objetivo, revelam, é “abrir o máximo de escolas possível”.

Até agora, já construíram uma escola no Sri Lanka e outra no Malawi, prevendo-se a abertura de mais duas ainda este ano, uma no Nepal e outra no Brasil. Seguir-se-ão a Índia, país onde a família iniciou a viagem que acabaria de forma trágica quatro anos depois.

Maioria das crianças com cancro não morre. Taxa de sobrevivência pode chegar aos 90%

Junho 13, 2019 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Observador de 29 de maio de 2019.

Primeiros dados nacionais do registo oncológico pediátrico indica que surgiram cerca de 700 casos de cancro em crianças entre 2014 e 2016.

As taxas de sobrevivência a três anos estão acima dos 90% em alguns dos tipos de cancro mais frequentes nas crianças, conta o jornal Público esta quinta-feira. É o caso das leucemias linfoblásticas agudas, que representam 75% dos casos de leucemia.

As leucemias, os tumores do sistema nervoso central e os linfomas são os principais cancros até aos 14 anos. E os resultados do primeiro Registo Oncológico Pediátrico Português — que estão em linha com os dados europeus — revelam que, em todos eles, mais de metade das crianças sobrevive.

Os coordenadores do estudo, iniciado em 2014, contam ao jornal Público que as leucemias linfoblásticas agudas têm uma taxa de sobrevivência aos três anos de 91% e as mielobásticas agudas 69%; no caso dos tumores do sistema nervoso central, a taxa de sobrevivência atinge os 75%; nos linfomas de Hodgkin, chega aos 97% e nos linfomas de não Hodgkin fica nos 95%.

O cancro pediátrico é uma doença rara. Nos três anos analisados, entre 2014 e 2016, o Registo Oncológico Pediátrico Português registou em Portugal 762 novos casos em crianças até aos 14 anos.

De acordo com o jornal, as estimativas apontam para que um em cada 600 adultos seja sobrevivente de um cancro pediátrico.

 

 

 

Uma em cada 10 crianças no mundo trabalha

Junho 12, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia da TSF de 12 de junho de 2109.

Por Catarina Maldonado Vasconcelos

Uma em cada 10 crianças trabalha, mas, em Portugal, os casos que surgem são cada vez mais raros.

Em todo o mundo, há 152 milhões de crianças obrigadas a trabalhar. As estatísticas dizem que uma em cada 10 crianças trabalha, mas, em Portugal, os casos que surgem são cada vez mais raros, segundo a diretora da Unicef portuguesa.

“Não temos números consistentes, e sabemos que, a existir algum caso, pensamos que seja esporádico. São acontecimentos isolados, aqueles de que tivemos conhecimento”, revela a representante da organização que luta contra a realidade de mais de 150 milhões de infâncias roubadas.

Beatriz Imperatori, diretora executiva da Unicef, explica à TSF que a falta de conhecimento não é sinónimo de ausência de casos, uma vez que a pobreza e o trabalho infantil andam de mãos dadas.

“Gostaríamos de ter tudo o que são dados sobre as crianças em Portugal, uma fotografia mais exata daquilo que é a infância e do que é ser criança em Portugal para, então, saber quais são as fragilidades do sistema, onde é que elas estão, e como podemos melhorar”, apela a representante da organização, numa mensagem dirigida ao Governo.

O retrato é, no entanto, mais negro à escala mundial, principalmente em África e na América Latina, onde milhares de crianças nem sabem o que é brincar.

“O trabalho infantil pode ir desde a ajuda em casa até aos trabalhos agrícolas, o trabalho na indústria e até mesmo o trabalho escravo. Também não nos podemos esquecer das crianças-soldado, da exploração sexual e do tráfico de droga”, elenca Beatriz Imperatori.

O trabalho infantil vai dos cinco aos 17 anos, e é a indústria têxtil que mais recorre a crianças como mão-de-obra. Por isso, a Unicef lança um pedido, para que os consumidores sejam mais conscientes nas suas escolhas: “Os consumidores, com a força que têm – e todos nós, nas nossas opções diárias, podemos fazer as empresas e as marcas pensar -, devem perguntar-se de onde vêm e quem faz os produtos que lhes vêm parar às mãos.”

mais informações nos links:

https://www.ilo.org/lisbon/sala-de-imprensa/WCMS_709000/lang–pt/index.htm

https://www.ilo.org/ipec/Campaignandadvocacy/wdacl/2019/lang–en/index.htm

Nenhum jovem nasce delinquente

Junho 11, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto de João André Costa publicado no Público de 27 de maio de 2019.

Estes jovens não têm nenhum adulto com quem falar, nenhum guia. Nem têm nenhuma razão para ter quando foram os adultos a abandoná-los em primeiro lugar. Assim criados, estamos a falar de jovens sem qualquer confiança no mundo dos adultos.

Nenhum jovem nasce delinquente. Não, os jovens fazem-se delinquentes, e cada vez em maior número, à taxa de três pontos percentuais por ano ao longo dos últimos cinco anos.

O alerta veio da presidente da Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Protecção das Crianças e Jovens, Rosário Farmhouse, aos jornalistas presentes no encontro nacional das Comissões de Protecção de Crianças e Jovens.

Sem futuro, sem interesse, motivação ou esperança, são cada vez mais os jovens entre os 15 e os 17 anos envolvidos em comportamentos delinquentes, desde o consumo de drogas e álcool à indisciplina escolar e à actividade criminosa. Fruto de famílias desestruturadas, vítimas da violência doméstica, da negligência, de abusos físicos, emocionais, sexuais, testemunhas do consumo de estupefacientes no seio familiar, filhos do desemprego de um ou dos dois pais, eles próprios sem futuro, interesse ou esperança, imigrantes de segunda e terceira geração sem quaisquer raízes culturais, encontramos cada vez mais crianças e jovens sem ninguém com quem falar, sem um pai, sem uma mãe, com irmãos e irmãs igualmente afectados, também eles sem modelos familiares ou alguém com quem falar.

E este é o cerne da questão. Estes jovens não têm nenhum adulto com quem falar, nenhum guia. Nem têm nenhuma razão para ter quando foram os adultos a abandoná-los em primeiro lugar. Assim criados, estamos a falar de jovens sem qualquer confiança no mundo dos adultos.

Feridos, rejeitados, procuram a rejeição quando um adulto se aproxima pois essa é a realidade com que sempre viveram. Sozinhos, procuram outros jovens com quem se identificam, muitas vezes pelas piores razões, entrando numa espiral de onde é difícil regressar.

Trabalhando com estes alunos todos os dias, a maior dádiva é a nossa presença, a nossa persistência, dedicação, teimosia, o nosso carinho e amor. E sim, há pontapés, e sim, também há murros, contra as paredes e portas, contra outras crianças, entre outras crianças, contra os professores e pessoal auxiliar entre insultos e mais pontapés.

E sim, temos apoios, desde psicólogos a assistentes sociais, passando pela polícia e psiquiatras, sem esquecer os nossos colegas e, de vez em quando, os pais. Juntos, aturamos tudo. Juntos, encaixamos tudo. Juntos, fazemos a diferença. Porquê? Porque não nos vamos embora.

Somos um hospital, somos uma enfermaria, somos a casa que nunca tiveram, somos pais e somos mães, somos mais, somos professores. Ensinamos e educamos, fazemos as vezes das famílias que nunca tiveram, trabalhando em pequenas turmas com cinco ou seis alunos, num total de 40 alunos na escola inteira.

Tudo isto leva tempo. Leva tempo poder voltar a confiar, poder voltar a falar, a chorar, a rir, a abraçar, a agradecer, a confiar. Não é fácil. Tal como não é fácil explicar a outros adultos o quanto vai nas almas destas crianças, destes meninos perdidos acabadinhos de sair da “Terra do Nunca”.

Este modelo, existente em Inglaterra há vários anos, procura responder aos mesmos problemas com que Portugal agora se depara. Este modelo exige a presença dos melhores professores e profissionais para poder ajudar as crianças mais necessitadas da nossa sociedade. Porquê? Não seria mais fácil abandoná-los? Não seria mais fácil deixar a polícia e os tribunais fazerem o seu trabalho? Seria. Seria também uma sociedade mais fria onde não mora um abraço ou uma palavra amiga, onde cada um por si e todos por nenhum seria o lema vigente, e eu não quero viver assim.

Por isso continuo a lutar e a trabalhar, todos os dias, hoje em Inglaterra, amanhã em Portugal, à procura de mudar mentalidades e comportamentos, não das crianças, para as crianças ainda há esperança, mas dos adultos, para que os adultos voltem a acreditar como um dia, há muitos anos, também eles foram crianças. Eu também não acreditei quando me disseram.

 

Investir em educação para a primeira infância é melhor ‘estratégia anticrime’, diz Nobel de Economia

Junho 10, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia da BBC News de 21 de maio de 2019.

Luiza Franco Da BBC News Brasil em São Paulo

James Heckman já era vencedor do Nobel de Economia quando começou a se dedicar ao assunto pelo qual passaria a ser realmente conhecido: a primeira infância (de 0 a 5 anos de idade), sua relação com a desigualdade social e o potencial que há nessa fase da vida para mudanças que possam tirar pessoas da pobreza.

Em grande parte por causa de seus estudos, o assunto tem ganhado mais atenção nos últimos anos. Heckman concluiu que o investimento na primeira infância é uma estratégia eficaz para o crescimento econômico. Ele calcula que o o retorno financeiro para cada dólar gasto é dos mais altos.

Isso porque, na etapa entre o nascimento e os cinco anos de idade, o cérebro se desenvolve rapidamente e é mais maleável. Assim, é mais fácil incentivar habilidades cognitivas e de personalidade – atenção, motivação, autocontrole e sociabilidade – necessárias para o sucesso na escola, saúde, carreira e na vida.

No início dos anos 2000, Heckman começou a se debruçar sobre os dados do Perry Preschool Project, experimento social que mudou a vida de seus participantes. Ele funcionou assim: em 1962, na pequena cidade de Ypslanti, no Estado do Michigan, nos Estados Unidos, 123 alunos da mesma escola foram divididos aleatoriamente em dois grupos.

Um deles, com 58 crianças, recebeu uma educação pré-escolar de alta qualidade e o outro, com 65, não – este último é o grupo de controle. A proposta era testar se o acesso a uma boa educação infantil melhoraria a capacidade de crianças desfavorecidas de obter sucesso na escola e na vida.

“O consenso quando comecei a analisar os dados era de que o programa não tinha sido bem sucedido porque o QI dos participantes era igual ao de não participantes”, lembra ele, anos depois, em conversa com a BBC News Brasil.

Heckman e colegas resolveram analisar os resultados do experimento por outro ângulo. “Nós olhamos não para o QI, mas para as habilidades sociais e emocionais que os participantes demonstraram em etapas seguintes da vida e vimos que o programa era, na verdade, muito mais bem sucedido do que as pessoas achavam. Constatamos que os participantes tinham mais probabilidade de estarem empregados e tinham muito menos chance de ter cometido crimes”, diz o economista.

Sua análise do programa Perry chegou à conclusão de que houve um retorno sobre o investimento de 7 a 10% ao ano, com base no aumento da escolaridade e do desempenho profissional, além da redução dos custos com reforço escolar, saúde e gastos do sistema penal.

Mais de 50 anos depois do início desse programa, Heckman divulgou, neste mês de maio, nova pesquisa, feita com seu colega na Universidade de Chicago, Ganesh Karapakula, que confirma esses resultados e mostra que não apenas os participantes se beneficiaram do programa pioneiro, mas também seus filhos, estes mais escolarizados e bem empregados do que seus pares.

Leia os principais trechos da entrevista:

BBC News Brasil – Como era o currículo do Perry e por que ele foi tão bem-sucedido?

James Heckman – Quando comecei a estudar isso, também pensava no projeto como um currículo, mas não é – nem o Perry era e nem outros programas de educação infantil de qualidade são. Não são exatamente salas de aula. São como uma família estendida. São grupos pequenos de crianças, recebendo muita atenção, orientação, muitos estímulos.

No caso do Perry, eles pegavam crianças de famílias muito pobres e levavam para a creche. Era como ser pais – ficavam muito tempo com a criança e davam uma mentoria a ela. Levavam as crianças ao zoológico, ao parque, brincavam com elas. Isso dava à criança a oportunidade de interagir com seus pares. Por isso, funcionou. O programa também tinha visitas semanais aos pais.

Os pais ficaram muito empolgados. A criança voltava para casa entusiasmada. E os pais acabavam estimulando a criança ainda mais. As lições desse programa também são transferíveis para programas de visita (às casas dos pais, nos quais um educador ensina os pais como estimular seus filhos pequenos), ainda que eles pareçam ser diferentes. Uma lição é como é importante a vida doméstica na formação.

Um programa que está sendo implementado na Jamaica, por exemplo, consiste de passar uma hora por semana com a mãe ensinando como ela pode interagir com as crianças – desafiá-la, engajá-la. O preço não é tão alto e o retorno é enorme.

BBC News Brasil – O que te chamou a atenção nos dados sobre ele?

Heckman – Muitas pessoas diziam que o programa era um fracasso porque o QI dos participantes era igual ao de não participantes. Esse foi o consenso no início. Nós olhamos para outras coisas – as habilidades sociais e emocionais que os participantes demonstraram em etapas seguintes da vida.

Eles desenvolvem habilidades executivas – de planejamento, de interação, de cumprimento de tarefas, seguir instruções. Olhamos para sua empregabilidade, participação no crime. E assim vimos que o programa tinha sido muito mais bem sucedido do que as pessoas achavam, porque eles só estavam avaliando por um ângulo restrito (o do QI).

Em todos os países onde esse assunto foi pesquisado conclui-se que desigualdade na primeira infância se mantém nas etapas posteriores. O ambiente nos primeiros anos é muito importante. Nessa fase você constrói uma base de habilidades que vão te servir para o futuro.

Crianças pequenas são muito maleáveis e mutáveis. Há uma flexibilidade nessa etapa que não se vê em outras. É uma questão de eficiência econômica.

BBC News Brasil – No entanto, em geral, mais atenção é dada à educação em etapas seguintes da vida. Por que é difícil mudar isso?

Heckman – Porque os pais de crianças desfavorecidas não sabem o que faz elas ficarem para trás. Na verdade, só é preciso estimulá-las. Há estudos que mostram que ler para as crianças já tem um impacto enorme no desenvolvimento delas.

Além disso, as pessoas não têm tempo. Não estou dizendo que as mães não devem trabalhar e passar o dia em casa com os filhos, mas esses anos iniciais precisam ser enriquecidos. Uma solução é pré-escola de qualidade.

BBC News Brasil – Acha que os governos têm dado mais atenção nas últimas décadas à primeira infância? Quais são os desafios nesse sentido?

Heckman – O desafio é mudar a forma de pensar. A forma errada é pensar que a educação formal é o caminho para a criação de habilidades e que o modelo de professor em pé na frente da turma lecionando para crianças é o jeito certo de gerar vidas bem sucedidas. Esse raciocínio é promovido inclusive por cursos superiores de educação e por pessoas bem intencionadas. Mas o que importa é pensar na família e na formação da criança.

BBC News Brasil – No caso do Perry, vocês concluem que os benefícios se estendem para a segunda geração. Como acontece essa transferência de uma para a outra?

Heckman – Os participantes são pessoas bem sucedidas. Eles têm estatisticamente uma chance muito menor de ter cometido crimes. Vemos que há muita correlação entre atividade criminal dos pais e dos filhos. Os pais do Perry reproduzem com os filhos o que aprenderam na infância.

BBC News Brasil – Suas pesquisas mostram que homens se beneficiam desses programas muito mais do que mulheres. Por que isso acontece?

Heckman – Meninos são mais sensíveis (às mudanças) e têm mais chance de entrar para o mundo do crime. As meninas também se beneficiam, mas o risco que elas correm é muito inferior aos meninos.

Há uma influência social que na prática separa meninos de meninas muito cedo. Mas também é verdade que meninas de três anos de famílias desajustadas têm maior chance de se engajar em atividades como leitura de livros e menos chance de estarem se metendo em encrencas. As pessoas não querem falar sobre isso, mas é verdade.

Os meninos se desenvolvem num ritmo diferente e as meninas parecem conseguir se estruturas mais facilmente do que meninos. As meninas são mais resilientes.

De modo geral, quando meninos são criados em famílias onde só há a mãe, sem figuras paternas, eles têm mais dificuldade de obter orientação na vida. O laço entre filhas e mães é diferente da mãe com o filho. A mãe ama o filho, mas é diferente.

BBC News Brasil – Qual é a relação entre bom desenvolvimento infantil e crimes?

Heckman – Esse é o principal resultado de todos esses programas de educação infantil. O maior retorno para cada dólar investido em todos eles é a redução de crimes e a criação de um ambiente encorajador para as crianças.

As pessoas ignoram isso, mas é importantíssimo. É por isso que esses programas são tão bem sucedidos para homens. É uma estratégia anticrime. Nem que fosse só por isso deveriam ser levados a sério como política pública.

BBC News Brasil – Se a pessoa não tiver a oportunidade de se desenvolver na primeira infância, é caso perdido?

Heckman – O desenvolvimento acontece em outras etapas da vida. No entanto, uma etapa leva a outra. A criança bem formada consegue aproveitar melhor aprendizados futuros. Mas não devemos desistir das pessoas depois de uma certa idade. Isso não é verdade.

BBC News Brasil – Alguns críticos dizem que os resultados do Perry têm de ser vistos com cuidado pois o programa foi implementado num contexto muito particular, o que torna temerário extrapolar seus resultados. O que acha disso?

Heckman – Se você fizer uma imitação e aplicar o Perry de 1960 para Porto Alegre em 2019 seria loucura. Há adaptações culturais que precisam ser feitas. Mas os mecanismos que descrevemos são replicáveis. Ensinar os pais a se engajar na vida da criança, isso dá resultado no resto da vida

 

 

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