Como falar sobre racismo com crianças? As explicações de uma pediatra

Junho 12, 2020 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do Sapolifestyle de 8 de junho de 2020.

Falar sobre o racismo é difícil. Falar sobre racismo sendo branca ainda é pior. O privilégio de raça branca coloca-me num ponto muito pouco confortável para fazer considerações sobre o racismo nos nossos dias ou sobre a forma mais correta de o combater. Um artigo da médica pediatra Joana Martins.

Neste artigo a pediatra Joana Martins explica quatro estratégias para introduzir na infância a aceitação das diferenças.

Enquanto mãe percebi o momento em que tive que falar de raça com o meu filho de 4 anos. Foi na nossa primeira ida ao McDonalds mais perto de nossa casa em Lisboa. Estávamos entusiasmados com a experiência, não tanto pela comida em si, mas pelo ritual do pedido, da caixinha do Happy Meal, pelo brinquedo, pela folha de papel do tabuleiro com jogos e pela oferta de um livro de colorir e lápis de cera. Estava tudo a correr bem, estávamos descontraídos e a pensar que, apesar do miúdo não ter manifestado interesse nenhum na comida em si, estava todo bem-disposto com a miríade de novos items à disposição. E nisto, o Sebastião pergunta: “Mãe, porque é que os trabalhadores deste restaurante são todos de raça negra?!” E foi aqui que percebi: a) estou de tal forma cega que nem reparei que era esse o caso, b) fiquei altamente desconfortável com a pergunta, ainda para mais porque coincidiu com a passagem de uma colaboradora, que ouviu, e olhou para nós com um ar bastante consternado e c) o meu filho tinha razão e eu não sabia explicar isto sem abordar estigmas e assuntos muito delicados, como raça, classe social, oportunidades e remuneração.

E é aqui que gostaria de falar sobre uma coisa tão simples como a perceção de raça. Dizer de forma simplista que somos todos iguais não é verdade. Um bebé de 6 meses consegue reconhecer pessoas diferentes daquelas que constituem o seu círculo familiar mais íntimo. Achar que os bebés e as crianças não veem diferenças é apenas e só ridículo. Se os nossos bebés vêm peles de cor diferente, procuram respostas para estas diferenças. O pior que podemos fazer é não dar seguimento às suas questões. Pior do que sermos cegos para a cor, é sermos silenciosos sobre ela. É justamente aqui que começa o verdadeiro preconceito.

Os nossos bebés vão ver estas diferenças e, à medida que vão crescendo, vão começar a fazer associações: que papéis têm as diferentes pessoas na escola, no supermercado, na farmácia, no hospital? Se nós não falarmos sobre isto, vão-se criar janelas de associação enviesadas. Porque, para os miúdos, aquilo que é uma evidente seleção social baseada em preconceito, não é percepcionado como tal se não for explicado. Porque a assimetria, se não for endereçada, transforma-se numa situação natural, aceite, invisível. E isso não pode ser!

E explicar que, apesar de sermos todos humanos, as oportunidades não são iguais para todos e que, apesar de muito confortável, a narrativa surda da meritocracia que afirma que “quem se esforça, consegue” é, no mínimo, redutora. Há quem se esforce mesmo muito e não consiga atingir determinada função ou remuneração, por um preconceito. E mesmo entre aqueles que efetivamente atingiram determinado patamar social, quantos foram os que provieram de um meio menos privilegiado? E a que custo o conseguiram? Seremos ingénuos se acharmos que não foi um caminho mais sofrido. Compreendo que ao dizer aos nossos filhos que grande parte do que nos calha na vida é dependente da sorte seja bastante difícil. Que noção de justiça cósmica é esta? Nós, que queremos educar os nossos filhos para a justiça não sendo cruéis, fazemos cair um véu cor-de-rosa sobre a realidade. Mas a realidade é de todas as cores.

Existem obviamente diferentes níveis de discussão sobre o racismo e, à medida do desenvolvimento das crianças, pode ser possível discutir assuntos progressivamente mais difíceis. Mas, quando os vossos filhos são ainda pequeninos, permitam-me que sugira quatro formas bastante simples de trazer para o foco da sua atenção a questão da aceitação das diferenças.

  1. Vamos falar sobre a melanina

A melanina é o nosso “corante” natural: ela tem características tão únicas como cada um de nós. É a melanina que determina a cor da pele, se é bronzeável ou não, a cor do cabelo e a cor dos olhos.

A incrível combinação humana de cores e formas deve-se a proteínas como a melanina! Por isso, expliquem o que é a melanina. Expliquem que as peles muito claras têm menos melanina e as peles escuras têm muita melanina. Expliquem que, com o sol, a nossa pele produz melanina e ficamos mais morenos. É que a melanina é a nossa proteção natural contra o sol.

É uma explicação tão simples e que ajuda a desmistificar tudo.

  1. Vamos escolher bonecos e bonecas de todos os tamanhos, cores e feitios

Sim, nada como deixar que na prateleira de brinquedos dos vossos filhos exista um pouco de tudo. Sendo os portugueses globalmente morenos, é limitador ter apenas bonecas louras. E porque não introduzir outras variáveis: outros tons de pele, caracóis, óculos, cadeiras de rodas…

O importante é mesmo trazer a variabilidade para dentro de casa e com isso abrir espaço para que as perguntas mais naturais possam surgir. Só assim podemos educar as crianças para a aceitação do outro.

  1. Vamos escolher o que temos em casa

Como adultos, temos responsabilidade de escolher os brinquedos, histórias, músicas e filmes que tenham como protagonistas a mais variada panóplia de seres humanos. Nem sempre é fácil. O gigante Disney, por exemplo, tem uma princesa do médio oriente, uma menina de raça negra, uma guerreira asiática, uma heroína índia. E é tudo… Depois temos um grupo imenso de heroínas entre o louro e o ruivo… e a Branca de Neve! Isto é fruto de uma tradição de representação que tem vindo a melhorar com o tempo. No entanto, não deixem de ter disponíveis as histórias com heróis e heroínas de várias cores e feitios. No caso dos bonecos e bonecas, deve escolher-se um pouco de tudo: outros tons de pele, caracóis, óculos e cadeiras de rodas. Só assim podemos criar oportunidades de diálogo.

Para os mais velhinhos, ler livros que possam abordar questões de preconceito. Como se sente o herói da história que é posto de lado? O que sentem as pessoas que o rodeiam e que não o defendem?  O que é que se pode fazer?

Temos de incentivar que cada vez menos haja apenas e só testemunhas silenciosas, como se não fosse nada connosco. Não podemos continuar a ser cúmplices.

Quanto aos adultos, que percentagem dos nossos livros e álbuns de música são de autores não caucasianos? O que é que isto quer dizer sobre nós? Com a mesma naturalidade que podemos ouvir  Yo Yo Ma a tocar Bach, podemos ouvir as Músicas para Churrasco do Seu Jorge. Ninguém que conheça e aprenda a amar a Strange Fruit da Billie Holiday pode odiar o outro pelo seu tom de pele. Os nossos filhos têm que crescer rodeados do tudo aquilo que existe de criativo e bom à face da Terra. E a beleza não tem raça.

  1. Vamos também pertencer a grupos menos uniformes

Por fim, percebo perfeitamente que procuramos quem nos é semelhante, por uma questão de conforto. Dar de nós ao desconhecido é difícil. Mas vou contar-vos a forma como o Sebastião comeu chocolate pela primeira vez. E sim, foi antes dos 2 anos de idade, algo que a maioria dos pediatras não iria recomendar, mas adiante. Estávamos a brincar num grande relvado público, quando se aproximou um menino sensivelmente da mesma idade que o meu filho que, claramente, pretendia jogar à bola. A acompanhá-lo, um senhor envelhecido, emagrecido, que, rapidamente percebi, não falava uma palavra de português. Falámos em inglês. Enquanto os nossos miúdos jogavam, o senhor explicou-me que era sírio e que tinha fugido da guerra. Estava feliz por estar em Portugal, mas achava a aprendizagem do português muito difícil. Nisto, num ato de generosidade, ofereceu bolachas de chocolate aos dois futebolistas. Reparem, o homem refugiado, sem nada, ofereceu ao meu filho, parte do pouco que tinha. E os dois miúdos, igualmente suados, com as calças cheias de manchas verdes de relva, sentaram-se a partilhar bolachas de chocolate. Não se compreendiam e compreendiam tudo um do outro, porque o chocolate é universal.

E no fundo, se calhar, é apenas e só isto que precisamos: aproveitar as oportunidades que temos todos os dias, de interagir com o ser humano que está ao nosso lado, independentemente da cor, idade, credo ou língua.

Um artigo da médica Joana Martins, pediatra na Unidade de Cuidados Intensivos de Pediatria no Hospital D. Estefânia, Centro Hospitalar Universitário Lisboa Central.

Uma experiência pedagógica antirracista no 1.º Ciclo

Fevereiro 6, 2020 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Snews

Texto e imagem do Educare de 27 de janeiro de 2020.

“Com a mala na mão contra a discriminação” envolveu uma turma de 22 alunos do 4.º ano da Escola Básica do Castelo, em Lisboa. O projeto é um exemplo de como abordar o racismo nas suas múltiplas vertentes. Combater a invisibilidade da discussão sobre o racismo estrutural na sociedade, de uma forma didática e fundamentada no espaço escolar, surge como um dos principais objetivos.

Sara R. Oliveira

Há duas constatações relevantes que, de certa forma, foram o motor do projeto. O racismo raramente é abordado enquanto obstáculo à democratização escolar no debate político e científico nacional. As desigualdades étnico-raciais não têm tido, por variada razões, a mesma centralidade no amplo projeto de uma escola e sociedade democráticas. Ariana Furtado, professora do 1.º Ciclo na Escola do Castelo, em Lisboa, e Cristina Roldão, professora da Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Setúbal, realçam estes dois aspetos num texto em que partilham e detalham o projeto “Com a mala na mão contra a discriminação”, uma experiência pedagógica antirracista implementada por uma equipa de professores e educadores numa turma de 22 crianças do 4.º ano na Escola Básica do Castelo, em Lisboa, no ano letivo passado. O texto é parte integrante do “Estado da Educação 2018”, publicado pelo Conselho Nacional de Educação.

Na Escola Básica do Castelo estudam alunos com ascendência ou que nasceram em mais de 14 países. O respeito pelo outro é fundamental e o projeto tem vários objetivos, uns mais genéricos, outros mais específicos. Explicar que o racismo viola os Direitos Humanos é uma ideia sempre presente. Combater a invisibilidade da discussão sobre o racismo estrutural na sociedade de forma didática e fundamentada no contexto escolar, compreender a produção e a divulgação da História, as suas singularidades e os seus silenciamentos, para estimular a consciência histórica e enriquecer o protagonismo infantojuvenil, são objetivos mais específicos.

A desconstrução de preconceitos conduz o projeto, pensar e debater a História faz parte da estratégia, perceber as diferenças, as desigualdades e os direitos, permite aprender mais e conhecer melhor. Os alunos começaram por perceber o que é o racismo, como apareceu no mundo, como se manifesta, como cresceu, por que razão é que algumas pessoas são racistas. “A necessidade de garantir uma educação racional, laica e não coerciva, menos teórica e mais prática, torna-se imprescindível para o desenvolvimento do caráter, o incentivo à solidariedade e a valorização do exemplo, da ação, como referência educacional e reflexo da cidadania, dos alunos”.

Construiu-se uma metodologia híbrida voltada para a educação não formal infantil e para a participação plena de todos os alunos. Os exercícios de imaginação, experienciais e de posicionamento, foram fundamentais para estimular o diálogo junto dos alunos, a reflexão sobre questões quotidianas e pontuais, a tomada de decisão em grupo. As ações foram dinamizadas de forma interativa e, em todos os encontros, foram elaborados materiais escritos e artísticos utilizados para ilustrar as discussões teóricas.

“De onde vem a minha História?”
Os alunos percorreram vários caminhos ao longo de sete sessões. A viagem começou com uma mala produzida e utilizada pelas crianças, uma viagem pela História e pelos direitos. Os professores tinham uma caixa de boas práticas com as sessões descritas e organizadas em fichas pedagógicas. “De onde vem a minha História?” foi o título-pergunta da primeira sessão para que os alunos, a partir das suas lembranças, conhecessem e se apropriassem da sua história individual numa viagem à descoberta da sua identidade. Na segunda sessão, andaram à volta de quem escreve a História, se os livros contam histórias certas ou erradas, quais os critérios que selecionam o discurso oficial e popular. Depois disso, os alunos descobriram portugueses com diferentes ascendências e andaram à volta do fenótipo, as características observáveis de uma população, e como ele pode afetar, a todos os níveis, os direitos de um ser humano.

O que sabemos sobre o que não conhecemos? A pergunta foi o mote da quinta sessão com o objetivo de ampliar, diversificar e enriquecer a bagagem cultural dos alunos. Depois de cinco encontros de ensino-aprendizagem, a turma foi responsável pelo desenho e iniciativas capazes de conter os caminhos percorridos pela identidade, História e direitos. Surgiram várias reflexões e o desejo de uma escola que dê voz aos alunos, uma escola que garanta conhecimento.

O projeto mostra caminhos possíveis de abordagem crítica em sala de aula com alunos do 1.º Ciclo. As autoras do texto realçam “o quão iniciativas como esta devem não só fazer parte do espaço de autonomia das escolas, mas também fazer parte de uma estratégia nacional explícita e mais ampla em torno do antirracismo na educação, indo ao encontro dos princípios e objetivos da Década Internacional dos Afrodescendentes 2015-2024 (ONU), que ainda não tem reflexos palpáveis no plano educativo português, da matriz democrática do sistema educativo português e confrontando ativamente formas de populismo exploradoras do racismo e xenofobia que vão ganhando terreno nas esferas política e pública”.

A educação antirracista deve ser uma componente explícita da formação de professores e de formadores. Formação que, sublinham, “deverá entender o racismo enquanto continuidade histórica no presente, enquanto relação de poder que vai para além de uma dimensão moral e individual”. Além disso, é necessário incluir a dimensão antirracista no currículo do ensino Básico e Secundário.

“Neste plano, urgem orientações políticas para que os manuais escolares, sobretudo os de História, mas não só, discutam de forma crítica e não eurocêntrica a história de África e da diáspora africana, da comunidade cigana e do racismo em Portugal e no mundo”, defendem. “Sendo verdade que os manuais escolares são concebidos por entidades privadas, cabe ao Ministério da Educação salvaguardar que estes vão ao encontro dos princípios de igualdade que são os pilares da escola democrática”, acrescentam.

Há muito por fazer e para fazer. Melhorar a política de apoio na aprendizagem do Português para alunos que têm outra língua materna, avançar para estratégias bilingues em que as línguas maternas das minorias étnico-raciais possam ser reconhecidas, valorizadas e desenvolvidas nas escolas, são dois pontos destacados pelas autoras do texto. O levantamento e partilha pública de boas práticas antirracistas em educação, em termos nacionais e internacionais, bem como a criação de mecanismos de auscultação de alunos, famílias, professores e outros profissionais sobre as práticas discriminatórias em contexto escolar, são algumas das sugestões apresentadas. “É fulcral a existência de formas de monitorização do (anti)racismo nas escolas”.

Como o racismo penetra nas escolas
Um dos princípios organizativos da Lei de Bases do Sistema Educativo nacional refere que o sistema está desenhado para “contribuir para a defesa da identidade nacional e para o reforço da fidelidade à matriz histórica de Portugal, através da consciencialização relativamente ao património cultural do povo português, no quadro da tradição universalista europeia e da crescente interdependência e necessária solidariedade entre todos os povos do mundo”, bem como “assegurar o direito à diferença, mercê do respeito pelas personalidades e pelos projetos individuais da existência, bem como da consideração e valorização dos diferentes saberes e culturas”.

A igualdade, a educação intercultural, a diversidade nas escolas, as dificuldades de reconhecer as raízes históricas do racismo ligadas, de certa forma, ao silenciamento do passado. Estas questões importam neste assunto. “O recente debate em torno da recolha de dados étnico-raciais nos Censos 2021, e posterior recusa da mesma pelo Instituto Nacional de Estatística, mostram como, institucionalmente, se tem preferido o não reconhecimento político dessas desigualdades, optando-se por vias indiretas de tratar o tema”. “É frequente ouvir-se, por exemplo, que o racismo é fruto da ignorância. Ora, não só intelectuais de prestígio têm sido abertamente racistas, como não são os grupos mais distantes aqueles que maior discriminação racial cá sofrem, mas exatamente os povos com os quais Portugal tem uma longa história comum”.

“As expetativas que os professores têm sobre os alunos, com base na sua origem étnico-racial, tendem a ser interiorizadas pelos últimos, levando a um ajustamento do seu comportamento à projeção dos docentes. Essa é uma das formas pelas quais o racismo penetra nas escolas. Embora não estejam disponíveis estatísticas oficiais sobre desigualdades étnico-raciais e racismo institucional no sistema educativo, uma pesquisa feita, a partir de dados dos Censos 2011, mostra que a taxa real de acesso ao Ensino Superior, entre os 18 e os 22 anos, dos afrodescendentes foi de 16%, metade da dos restantes jovens no mesmo escalão etário. Esta taxa é cinco vezes inferior nos alunos de origem cabo-verdiana, guineense e santomense. As autoras do texto referem que essas desigualdades serão, em parte, decorrentes de obstáculos diretos no acesso ao Ensino Superior, como propinas, exames nacionais, vagas de cada curso, despesas associadas, mas, comentam, “pesam também aqui processos cumulativos a montante da entrada no Ensino Superior”.

Em Portugal, um dos países da OCDE com as mais altas taxas de retenção, as crianças e jovens com nacionalidade dos PALOP (Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa) apresentam em qualquer dos níveis de ensino, pelo menos, o dobro da taxa de retenção daqueles com nacionalidade portuguesa, quando não mesmo o triplo. “Pesando como um ‘cadastro’, a reprovação precoce é um marcador social do estatuto depreciado destes alunos nas hierarquias escolares, contribuindo para a sua marginalização progressiva quanto ao tipo de ‘lugares’ para os quais vão sendo canalizados dentro do sistema escolar”.

Lutar contra o Racismo Defender os Direitos Humanos

Setembro 19, 2019 às 8:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Texto da  Comissão Nacional da Unesco – Portugal

Lutar contra o racismo significa lutar ativamente contra a injustiça social e a intolerância racial, contra o fanatismo e o ódio.
Somos todos humanos e todos nós temos os mesmos direitos
#CombateaoRacismo #FightRacism
Saiba mais em: https://www.un.org/en/letsfightracism/

Pais preocupados com ideias extremistas da internet. Como proteger as crianças?

Setembro 17, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto e imagem do site MAGG de 20 de agosto de 2019.

por Rafaela Simões

Os pais têm medo de que os filhos se tornem em supremacistas brancos de direita. A solução começa em casa: educar sobre a internet.

A semana passada, 13 de agosto, uma escritora, critica dos media e mãe de três filhos escreveu um tweet que se tornou viral. Joanna Schroeder mostrou preocupação com o facto de os adolescentes estarem expostos a conteúdos extremistas online e o potencial de influência que isso pode ter nos seus comportamentos. Falamos aqui de adolescentes associados a um padrão: são jovens, brancos e do sexo masculino.

Esta preocupação adensa-se com os últimos acontecimentos: a 28 de julho, um ataque de um adolescente que matou três pessoas num festival de comida, em Gilroy, na Califórnia. Apenas seis dias depois, acontece um outro episódio, classificado como um dos tiroteios em massa mais violentos dos Estados Unidos. Aconteceu a 8 de agosto no supermercado Walmart, em El Paso, no Texas, e provocou mais de 20 mortos. O jovem branco de 21 anos terá agido por ódio, já que antes de entrar no supermercado publicou na internet um manifesto anti-imigração, que entre as quatro páginas explicava o objetivo: matar o maior número de pessoas que encontrasse.

Perante esta série de acontecimentos sucessivos, os pais e professores estão mais alerta e tentam perceber o que está a acontecer com a geração do digital. Já os jovens, não sentem que este seja um problema generalizado. “Sou um adolescente branco que passa a maior parte do meu tempo aqui. No YouTube, no Twitter, nos jogos, apenas por entretenimento. Tenho ideias conservadoras porque eu penso que são lógicas e são o caminho certo. Não porque alguma figura da internet está a fazer-me uma lavagem cerebral para uma fantasia de ‘supremacia branca’”, responde um adolescente ao tweet de Schroeder que tem mais de 80 mil retweets e quase 180 mil gostos.

A mãe disse ao jornal “BBC” que a sua preocupação começou quando há cerca de um ano os seus filhos começaram a fazer perguntas que pareciam ter vindo de discursos de alta direita. Questionaram porque é que os negros podiam “copiar a cultura branca, mas os brancos não podiam copiar a cultura negra”. O alerta foi acionado aqui, e depois de pesquisar percebeu que os adolescentes partilhavam entre si conteúdos como memes machistas e racistas (que aparentemente seriam inofensivos).

Alguns especialistas referem que os algoritmos nas plataformas online podem estar a alimentar a expansão de pontos de vista extremistas e de conspirações, que afetam também os adultos, mas os jovens continuam a ser o principal foco de preocupação, pelo facto de serem mais vulneráveis e de ainda estarem a desenvolver o sentido critico. E o algoritmo é uma das razões que leva Joanna Schroeder a preocupar-se, já que assistir, por exemplo, a um vídeo com conteúdos influenciáveis pode ser o inicio do problema: “É provável que seja conteúdo cuidadosamente criado para atrair os jovens rapazes. Depois de assistir a um desses, os próximos vídeos podem ficar cada vez mais extremistas”.

Tudo começa em casa

“Devíamos estar a ensinar o pensamento crítico e a empatia. Não devíamos ensinar às crianças o que pensar, mas podemos ensiná-las a ouvir as pessoas que têm um pensamento diferente delas”, refere Tom Rademacher, professor do oitavo ano em Minnesota, nos Estados Unidos, ao jornal americano.

O caminho passa pelas escolas, mas começa em casa, onde a professora de sociologia Margaret Hagerman, passou dois anos a estudar um grupo de famílias brancas ricas e a maneira como discutiam e ensinavam sobre raça. Percebeu que os pais achavam que os seus filhos eram “daltónicos” no que toca às raças e que este mesmo assunto deixava os pais desconfortáveis quando abordado entre adultos: “Se os adultos brancos não conseguem ter conversas sobre racismo na América com outros adultos brancos, eu não percebo como é que eles pensam estar preparados para ter essas conversas com crianças”.

Mas por mais que os pais pensem que esta é uma realidade distante ou que não afeta os seus filhos, não é isso que acontece se estiverem atentos. Além dos jovens viverem rodeados de pessoas de raça branca — os vizinhos e os colegas de escola — que os induz para ideias relacionadas com supremacia branca, as conversas entre eles abordam temas como raça, racismo e desigualdade. “As crianças estão a aprender sobre raça na América através de diferentes aspetos das suas vidas quotidianas”, refere a professora.

Também a sala de aula é palco de estudo de Margaret que refere que “[os jovens brancos] estão a tentar perceber onde está a linha de pensamento. Porque é que as coisas são engraçadas e porque é que são ofensivas.” Neste limbo, os jovens acabam por se sentir “como se estivessem sob ataque” pela sociedade dominante, acrescenta.

Os pais não devem temer mensagens “anti-branco”

Os pais devem funcionar como educadores ou, mais precisamente, como explicadores críticos. Ou seja, quando uma dúvida surgir no seguimento de algo que os adolescentes viram online, a professora se sociologia sugere que os pais perguntem onde é que os jovens ouviram aquela ideia para poderem ter conhecimento do contexto e explicar de forma critica aquele meme, fotografia ou comentário que lhes pareceu inofensivo.

“Os nossos filhos precisam de saber que esperamos que eles sejam bondosos, respeitosos e honestos. Não porque pensemos que eles não são assim, mas porque sabemos que eles têm uma bondade natural dentro deles”, refere. Acrescenta que seria mais fácil implantar algumas destas ideias num ano do currículo escolar para ensinar a lidar com a radicalização na internet.

Contudo, os pais temem que a ideia acabe por passar mensagens “anti-branco”. Margaret desmistifica a ideia explicando que a sua sugestão é que “a sala de aula possa ser um local onde as crianças possam explorar sem se sentirem envergonhados. Quando aplicamos vergonha num grupo, estamos a empurrá-lo para um caminho mais negativo”, conclui.

Crianças não nascem preconceituosas, a culpa é do ambiente onde elas vivem

Fevereiro 9, 2018 às 12:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do site http://paisefilhos.com.br/

Segundo pesquisa, ninguém nasce achando que é melhor que o outro não

Redação Pais&Filhos

Um novo estudo realizado pelos pesquisadores das Universidades de Nova York (NYU) e Amsterdam, mostra que crianças de 5, 6 anos se inspiram nos adultos para formar tanto a personalidade e traços psicológicos quanto a maneira de agir de acordo com o ambiente em que estão inseridas e não pela cor da pele. Essa pesquisa contradiz a ideia de que as pessoas já nascem ou criam com algum tipo de preconceito cedo, na infância, achando que o mundo é dividido por raças e cores e melhores e piores.

Outra descoberta foi que outras características das crianças como crenças variam de acordo com o ambiente em que são criadas, principalmente que convivem em um bairro com pessoas de diferentes etnias e trajetórias de vida.

Por isso, Tara M. Mandalaywala, da NYU, que liderou o estudo disse que “tudo indica que crenças sobre raça se desenvolvem com o tempo em resposta a situações específicas”.

O estudo

Os pesquisadores avaliaram 203 crianças de 5, 6 anos brancas e negras nova iorquinas e 403 adultos brancos e negros americanos. Eles fizeram perguntas sobre se os entrevistados viam a cor da pele como algo que poderia ser herdado e se eles acreditavam que a raça determina o que as pessoas serão quando crescerem (o quão inteligentes, legais, atléticos seriam).

O resultado

As crianças consideram a cor da pele como algo que poderia ser herdado, mas não contribuindo para estereótipos ou preconceitos. Elas esperam que as características comportamentais e psicológicas de uma pessoa sejam determinadas pelo ambiente em que ele ou ela foi criado, não por uma raça herdada.

Marjorie Rhodes, professora de psicologia na NYU, co-autora do estudo, complementa que a pesquisa “sugere que as crenças sobre raça que contribuem para o preconceito levam muito tempo para se desenvolver (isso quando acontece), e esse desenvolvimento depende, de certa maneira, dos bairros nos quais as crianças crescem”. Quanto maior a diversidade, mais fácil de mostrar para as crianças o quão todo mundo é igual e, claro que o seu comportamento faz toda a diferença na visão do seu filho.

 

Escola investigada por suspeita de discriminar alunos de etnia cigana

Janeiro 28, 2018 às 8:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.publico.pt/ de 26 de janeiro de 2018.

IDÁLIO REVEZ

A Escola Básica Major David Neto, em Portimão, está sob investigação por suspeita de práticas de discriminação racial e maus tratos a alunos, numa das 20 turmas deste estabelecimento de ensino. A situação tornou-se pública, há cerca de duas semanas, depois da mãe de uma estudante do 4º ano ter apresentado queixa na escola e noutras entidades por alegados “maus tratos” à filha. Queixa-se de ter sido empurrada por uma funcionária no refeitório do estabelecimento. Porém, as queixas relativas a actos discriminatórios a crianças de etnia cigana já se verificam há três meses.

A presidente da câmara de Portimão, Isilda Gomes, afirmou ao PÚBLICO que proferiu um despacho com “carácter de urgência, para seja aberto um processo de averiguações para apurar toda a verdade”, no que diz respeito à funcionária da autarquia visada nas acusações de “maus tratos” no refeitório. Também a Direcção-Geral dos Estabelecimentos Escolares (Dgeste) –  através da direcção de serviços regionais do Algarve – está a averiguar as alegadas práticas discriminatórias. Na próxima segunda-feira, a direcção do Agrupamento de Escolas Manuel Teixeira Gomes, a que a escola em causa pertence, vai decidir o âmbito do “processo de inquérito interno” para apurar responsabilidades ao nível do estabelecimento de ensino.

De acordo com as denúncias dos pais, veiculadas numa comunicado da associação SOS Racismo, a escola “tem uma turma onde colocou todas as crianças de etnia cigana, crianças com deficiências e crianças de raça negra, e crianças de raça branca que são transferidas de outras escolas”, situação que classificam como sendo de “maior absurdo, porque a mistura racial e cultural enriquece a todos”.

Directora nega discriminação

A directora do agrupamento, Maria Goreti Martins, garantiu ao PÚBLICO que a turma em questão “não é a única que tem alunos de etnia cigana” e que “há outras em que os alunos de outras etnias, vindas de outros países, estão em maior número do que nesta”. No entanto, recusou-se a dar qualquer informação sobre as queixas, alegando que estão a “decorrer averiguações” a diferentes níveis. A Provedoria de Justiça e o Ministério da Educação também receberam a queixa da mãe e já pediram esclarecimentos.

Ao PÚBLICO, o ministério confirmou as diligências em curso na escola, dando conta de que a Dgeste está a averiguar o caso “tendo já decorrido uma reunião destes serviços com a direcção do agrupamento a que pertence a escola e com a autarquia, responsável pela gestão do refeitório bem como por todos os funcionários desta escola”. Também a Inspecção-geral da Educação e Ciência está a realizar averiguações sobre este caso. De acordo com a tutela, “a direcção do agrupamento manifestou disponibilidade para averiguar eventuais responsabilidades da coordenação do estabelecimento através da abertura de um processo de inquérito interno”.

O caso chegou ainda ao Alto Comissariado para as Migrações (ACM) e à Secretaria de Estado para a Cidadania e Igualdade, que “estão em estreita articulação com o município de Portimão, acompanhando as diligências (…) com vista à rápida eliminação do problema”, diz o ACM.

“Além disso, a Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Racial confirma a recepção de uma denúncia” e que “estão a ser encetadas as diligências adequadas e necessárias à tramitação do procedimento decorrente da queixa”, acrescenta o ACM.

Segundo a informação dos pais, veiculada pela SOS Racismo, “as crianças de etnia cigana comem de pé, alguns deles colocados estrategicamente ao pé do caixote do lixo”. “São agredidos fisicamente e verbalmente, existem palavrões fortíssimos dentro do refeitório da parte dos funcionários do mesmo”, lê-se no comunicado da associação. Isilda Gomes esclareceu que a funcionária que zela pela disciplina na cantina, onde comem além dos alunos das 20 turmas do ensino Básico mais os de três turmas do pré-escolar, está no quadro do município há mais de 12 anos e “nunca foi alvo de qualquer queixa”.

Denúncia de insuficiência de comida

Numa reunião realizada no início desta semana, em que participaram os funcionários da escola, dirigentes e um representante do município, foi analisado o pedido de imediata suspensão da funcionária exigido pelos encarregados de educação. “A suspensão da actividade só terá lugar se o inquérito concluir que há matéria que justifique um processo disciplinar”, adiantou a autarca, acrescentando: “Os meus dois filhos frequentaram aquela escola e só tenho elogios a fazer.” Sobre as acusações de “discriminação”, enfatizou que “não cabe à câmara pronunciar-se sobre essa matéria”.

As primeiras queixas dos pais, no mês de Novembro, referiam-se ao facto dos alunos da referida turma serem os últimos a terem direito a ir almoçar, a partir das 13h30. Maria Goreti Martins, assim que tomou posse, no passado dia 11, introduziu um sistema de rotatividade entre as diferentes turmas.

A mãe da aluna que apresentou queixa comunicou entretanto à Câmara de Portimão que se afastava do movimento de pais que continua a denunciar “atitudes discriminatórias”. Os pais denunciaram ainda situações de insuficiência de comida, dando como exemplo “a divisão ao meio de um filete” de peixe por outras crianças.

 

 

 

 

Segregação nas escolas afecta milhares de crianças na Europa

Outubro 5, 2017 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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As crianças ciganas estão entre as mais discriminadas no acesso à escola dro daniel rocha

Notícia do https://www.publico.pt/ de 12 de setembro de 2017.

A segregação nas escolas mantém-se uma realidade para muitas crianças europeias, denunciou nesta terça-feira o comissário europeu dos Direitos Humanos, Nils Muiznieks, segundo o qual as crianças ciganas, migrantes ou refugiadas, pobres e com deficiência são as mais afectadas.

“O direito à educação é um direito humano fundamental. No entanto, muitos países europeus continuam a negar a milhares de crianças igual acesso à educação, mantendo-as em escolas segregadas”, alertou o comissário. Acrescentou que a situação é particularmente preocupante entre as crianças com deficiência, oriundas de comunidades ciganas ou migrantes e refugiadas.

“Isto é uma violação dos direitos humanos das crianças com consequências negativas a longo prazo para as nossas sociedades. Os Estados membros têm obrigação de assegurar o direito a cada criança a igual educação sem discriminação”, defendeu Nils Muiznieks, na sequência da apresentação de um relatório sobre segregação nas escolas.

Como causas para esta segregação, o relatório do Conselho da Europa aponta para fortes interesses instalados, seja por parte de decisores políticos, mas também escolas ou pais. Denuncia a existência de regulamentos irregulares na admissão das crianças, com as escolas a terem uma larga margem de manobra para fazer a selecção dos alunos, muitas vezes baseada em pressupostos discriminatórios.

Aponta, por outro lado, que há preconceitos e rejeição em relação a alguns grupos de crianças e um círculo vicioso entre a segregação escolar e a baixa qualidade da educação.

Como consequência, há uma violação dos direitos das crianças à educação, reduzindo as possibilidades de todas adquirirem as mesmas competências básicas, e com muitas a passarem a ter uma perspectiva maior de empregos com salários mais baixos e um maior risco de exclusão social na vida adulta.

imagem retirada do Twitter de Nils Muiznieks.

mais informações no link:

https://www.coe.int/az/web/commissioner/-/school-segregation-still-deprives-many-children-of-quality-education

 

Dos afrodescendentes espera-se que não passem “da escolaridade obrigatória”

Outubro 3, 2017 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do https://www.publico.pt/ de 9 de setembro de 2017.

Muito da tónica das conclusões do estudo da socióloga tem sido colocada no racismo institucional Miguel Feraso Cabral

Uma sala de aula com filas atrás para os negros e à frente para os brancos. Uma professora com dificuldade em acreditar que a aluna merecia mesmo 18. “Obviamente que somos muito mais analisados, avaliados e escrutinados”

Joana Gorjão Henriques

Em São Domingos de Rana, na linha de Cascais, fica o bairro das Faceiras, construído no início dos anos 1980 para acolher população retornada das ex-colónias e famílias de origem cabo-verdiana.

Neste conjunto de prefabricados, as crianças brincavam na rua. Cristina Roldão, 37 anos, era uma delas. Também a socióloga, à medida que ia avançando no percurso, se lembra de questionar sobre o porquê de alguns dos mais inteligentes amigos irem ficando para trás. A investigação académica que desenvolve acaba por ir ao encontro dessa inquietação. Será que hoje continua a ser assim? Na tese de doutoramento centrou-se nos jovens de origem africana de contextos desfavorecidos que chegam ao ensino superior. “É preciso muita coisa confluir, e em várias fases da vida.” Não se espere “o jovem resiliente que ‘vem desde o início’ com o sonho de chegar à faculdade”.

É o seu caso: foi trabalhadora-estudante e “não era evidente que ia para a universidade”, conta. Mas candidatou-se. Quando aos 19 anos o seu nome apareceu nas pautas de entrada na faculdade, em Sociologia e Planeamento, no ISCTE, “andou meses em estado de graça”.

Ao atravessar a rua para ir à escola primária, José Semedo Fernandes ficava de costas para Santa Filomena, na Amadora, onde cresceu. Hoje, aquele bairro de construção informal já não existe. Nem a escola. Mas perdura a memória da sala de aula: “Havia uma fila de portugueses, outra fila vazia a separar, e nós (negros) começávamos a partir da terceira fila. Os professores davam aulas para os alunos da frente.”

Na sala e no recreio, a maioria das crianças era do bairro, habitado por cabo-verdianos. Quanto mais avançava na escolaridade, menos colegas negros tinha: “Parece que há uma pressão que nos faz sentir não pertencer àquele mundo.”

José Semedo Fernandes, hoje com 38 anos, começou a sentir a segregação “logo na primária”: “Quiseram mostrar que o meu lugar era lá atrás. A mim estava reservada a construção, e não precisava de me esforçar muito.”

Ao entrar na faculdade, Cristina Roldão sentiu que tinha finalmente encontrado um espaço de discussão sobre temas em que há muito a interpelavam. Na altura, falava-se de desigualdades ligadas às migrações. Isso fazia sentido para a geração dos seus pais, mas não para a sua, nem para a da irmã, 12 anos mais nova, ambas nascidas em Portugal. “Porque sou daqui, sou negra.”

Pelo caminho, conheceu académicos e pensadores que reconheciam as desigualdades e a exclusão de “filhos de imigrantes”, mas quando chegava o tema do racismo “ninguém queria falar” dele.

Isto é, explicava-se muitas vezes que “há estruturas sociais que operam de forma a segmentar e a polarizar a sociedade, que há questões de classe, mas que se os negros tivessem capacidade económica, [as desigualdades] não existiam”. Durante um período, Cristina Roldão “quis acreditar nisso”.

No entanto, olhava à volta e era a única aluna negra da turma na universidade nascida em Portugal. Nunca teve professores negros. Nunca lhe foram referenciados sociólogos negros para estudar. “Dentro da faculdade, as pessoas com quem tinha experiência mais próxima eram as senhoras da limpeza.”

Já um pouco mais velho, os amigos da escola não iam a casa de José Semedo porque tinham medo do bairro, e raramente era convidado a ir a casa deles. Devia ter à volta de 12 anos quando um colega o escondeu no armário do quarto até o pai sair. “Porque dizia que o pai era racista e não queria que convivesse com africanos.”

Não era novidade. Um dos episódios que o marcaram foi uma criança na rua a apontar para ele: “Olha o macaco.”

A memória de discriminações de Cristina Roldão é antiga. Na creche, se havia piolhos, as primeiras cabeças a serem inspeccionadas eram as dos miúdos negros do bairro; nas peças de teatro, ficava com os papéis de rocha, de árvore ou masculinos; e, por ser boa aluna, havia desconfiança.

Mais velha, sentiu por vezes que queriam colocá-la “na posição de negro especial”: alguém que se torna “a prova de que é possível existirem negros que têm boas notas e que, quando se portam bem”, se transformam num “‘caso’ para mostrar que a escola também está aberta”, analisa.

Na escola, na vida fora do bairro, “a partir do 5.º ano”, o papel de José Semedo foi desmistificar o que é o “outro”. Não sofria de bullying porque encontrou mecanismos de defesa, mas também não era aquele aluno que se escolhia para um trabalho de grupo.

Quando escolheu Direito, fê-lo porque desde muito cedo percebeu as dificuldades dos negros em defenderem-se: “Havia abusos e não tínhamos voz nem mecanismos para nos proteger.”

Na cerimónia de entrega da cédula pela Ordem de Advogados, ele e outro jovem foram os únicos negros em centenas.

Num colégio também acontece

Durante os oito anos em que esteve no Planalto, em Lisboa, um colégio católico só para rapazes, William Fernandes, 25 anos, conviveu com uns quatro alunos negros.

Pouco tempo depois de entrar no colégio estava na fila do refeitório e um aluno mais velho quis passar à sua frente. Começou a chamar-lhe “preto” e a insultar a mãe. “Senti que tinha de me defender e que não ia aceitar esse tipo de comportamento. Acabei por metê-lo no chão e andámos um bocado à pancada. Chorei, estava tão nervoso.”

A direcção da escola não lhe aplicou castigo. William também não se lembra se alguém condenou o colega racista. O resto do percurso escolar fez-se sem outros incidentes violentos, mas “havia aquelas bocas”, e alunos mais novos que lhe chamavam “preto, preto, preto”. “Aprendi a lidar com isso, ignorava porque eram crianças e os pais e professores é que deviam saber educá-los.”

Ouviu anedotas racistas, ouviu bocas, ouviu colegas a dizerem que nunca iriam namorar com uma mulher negra. Um professor começou a mandá-lo sistematicamente para fora da sala. “Na altura não sabia bem o que era racismo. Senti que ele não tinha paciência. Não percebia.” Lembra-se de ir defender o irmão mais novo, no mesmo colégio, de situações em que lhe chamavam “preto”.

O ponto de interrogação desde o infantário

Não estudou num colégio como o Planalto, estudou em Alverca, na zona de Vila Franca de Xira: a historiadora Joacine Katar Moreira, a terminar o doutoramento no ISCTE, sempre teve bons resultados escolares, mas nem por isso se livrou de preconceitos. Por exemplo, lembra-se de no liceu ter tido 18 valores num teste de História e, na hora de lhe dar a nota, a professora quis esperar pelo teste seguinte. “Ou seja, precisava de comprovar se o 18 era efectivamente meu. Como era uma negra, era preciso verificar. Obviamente que somos muito mais analisados, avaliados e escrutinados. Há uma interrogação em relação às nossas capacidades e potencialidades desde o infantário.”

A interrogação número um é: “De onde és?” Isto é uma pergunta que os negros em Portugal passam “a sua existência a responder”, comenta. Estarem a ser confrontados com este “‘de onde és?’ é racismo, é negação do outro enquanto indivíduo com as mesmas possibilidades”, explica. “Quando te consideram estrangeiro, consideram que não estás ao nível de usufruir dos direitos e das hipóteses que os nacionais têm.”

É, de facto, na educação que há um racismo institucional mais estruturante, defende Joacine Moreira, uma das vozes que têm reflectido sobre racismo em Portugal. “A expectativa que se deposita nos afrodescendentes é a da escolaridade mínima obrigatória.”

Desde 2015 que Cristina Roldão participou em mais de 30 conferências internacionais e nacionais, debates não académicos, no centro e na periferia de Lisboa, para falar sobre os afrodescendentes no sistema educativo. Os dados que analisou mostram que 80% dos alunos com nacionalidade de um dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) seguem as vias vocacionais no ensino secundário, o dobro dos portugueses (ver texto ao lado).

Muita da tónica das suas conclusões tem sido colocada no racismo institucional. “Quando um professor tem baixas expectativas sobre um aluno, isso tende a ser incorporado por ele, que, por sua vez, ajusta o seu nível de desempenho e de rendimento escolar às expectativas do professor — é o amplamente conhecido ‘Efeito Pigmaleão’ ou a profecia que se auto-realiza”, explica. “Não está em causa a relação entre duas pessoas, mas entre um professor e um aluno, no seu papel institucional: aquele professor tem o poder, que lhe é atribuído pelo Estado, de condicionar o futuro” do aluno.

Cristina Roldão sugere ainda olhar-se para o racismo institucional na educação como resultado da combinação de três factores: políticas públicas, estratégias de recrutamento das escolas e estratégias de procura escolar das famílias. “Quando se decide que determinadas populações serão realojadas nos confins de um território, criam-se nesse espaço escolas segregadas que vão receber quase em exclusivo as crianças e os jovens desses bairros”, descreve. “As famílias de classe média, por sua vez, fugirão dessas escolas, potenciando ainda mais a segregação dos primeiros.”

No fundo, “mesmo sem existir uma directiva legal que promova a segregação étnico-racial”, a forma como a escola funciona contribui para a reprodução das desigualdades, analisa. “Se em Portugal não temos tanta consciência disso, em parte é porque existe uma política de não recolha de dados étnico-raciais. Porque é que o Estado, que tem a obrigação constitucional de promover a igualdade e a não discriminação, não tem instrumentos capazes de avaliar se esses princípios estão a ser cumpridos?” A socióloga defende “uma mudança de paradigma de combate às desigualdades”, feita em várias frentes, criando quotas de raça, género, classe. “O racismo é uma questão estrutural, ultrapassa a intencionalidade dos indivíduos.”

Isto não está estudado em profundidade em Portugal, mas recentemente, quando Cristina Roldão se candidatou a uma bolsa de pós-doutoramento da Fundação para a Ciência e Tecnologia com um projecto de investigação sobre a segregação de afrodescendentes no ensino, justificaram a recusa: “Não era original.”

Ler textos complementares

Há uma geração a ser encaminhada para as vias vocacionais

Com que direito se apagam as crianças não-brancas dos manuais?

“A presença de negros na academia é nula” 

 

 

 

 

Já está disponível para download o InfoCEDI n.º 69 sobre A Criança e a Discriminação Racial

Maio 16, 2017 às 12:45 pm | Publicado em CEDI, Publicações IAC-CEDI | Deixe um comentário
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Já está disponível para consulta e download o nosso InfoCEDI n.º 69. Esta é uma compilação abrangente e actualizada de dissertações, estudos, citações e endereços de sites sobre A Criança e a Discriminação Racial.

Todos os documentos apresentados estão disponíveis on-line. Pode aceder a esta publicação AQUI.

Dia Internacional para a Eliminação da Discriminação Racial – 21 de março

Março 21, 2017 às 1:39 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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mais informações nos links:

Mensagem do Secretário-Geral sobre Combate à Discriminação e Ódio Anti-Islâmicos

 

 

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