Nelson Carvalho alerta para necessidade de evitar propagação das dependências online

Novembro 8, 2018 às 12:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Notícia do dnotícias de 22 de outubro de 2018.

Sandra S. Gonçalves

A Escola da Apel recebe, no dia 19 de Novembro, as segundas jornadas ‘Prevenção dos Comportamentos Aditivos e Dependências’. De acordo com Nelson Carvalho, psicólogo clínico e director da Unidade Operacional de Intervenção em Comportamentos Aditivos e Dependências (UCAD), esta iniciativa, que terá a intervenção de diversos oradores, visa “criar um espaço de reflexão e de partilha de conhecimento”, de forma a evitar que haja uma propagação, sobretudo no que diz respeito à dependência online.

Um dos temas que irá ser abordado é a ‘Geração Cordão : Comportamentos e Dependências Online’, que será proferido por Ivone Patrão e moderado por Marco Gomes, director regional de Educação. Tendo em conta que esta se está a tornar uma realidade assustadora, Nelson Carvalho disse que é preciso evitar que haja uma propagação, tendo revelado que, cada vez mais, as escolas têm pedido a colaboração de especialistas, de forma a saberem lidar com as chamadas “dependências sem substâncias”. Nesse sentido, a UCAD desenvolveu o projecto ‘Estou online e agora?’.

Porém, fez questão de revelar que será realizado um diagnóstico regional aos jovens, com idades compreendidas entre os 13 e os 18 anos de idade, assim como aos pais para que os responsáveis possam arranjar uma forma de colocar um travão a esta utilização problemática das novas tecnologias. Até porque, conforme fez questão de frisar, a sintomatologia desta dependência é semelhante ao consumo de drogas.

Nas segundas jornadas ‘Prevenção dos Comportamentos Aditivos e Dependências’ serão ainda abordadas questões relacionadas com ‘Menores e perturbações de jogo. Uma proposta de prevenção’, que terá como orador António Castaños, estando a moderação a cargo de Alícia Freitas, psicóloga clínica da UCAD.

Além disso, haverá também um debate, moderado pelo jornalista Leonel Freitas, sobre o ‘Uso terapêutico da cannabis – uma perspectiva científica e política’. Um momento que contará com a participação de Manuel Isorna, da Universidade de Vigo, Sara Madruga, deputada do PSD/M na Assembleia da República, Paulino Ascenção, coordenador regional do BE/M, e Nelson Carvalho, psicólogo clínico e director do UCAD. Isto numa altura em que está em cima da mesa o debate em torno da legalização da cannabis para fins terapéuticos.

“É importante cruzar os diversos pontos de vista, colocando de um lado a perspectiva científica e política, que será abordada por diversos convidados”, realçou.

O evento, que se inicia às 09 horas, resulta de uma parceria entre o IASAÚDE, através da UCAD e a Junta de Freguesia do Imaculado Coração de Maria, estando destinado aos profissionais e estudantes ligados a estas áreas, bem como à população em geral.

A inscrição é gratuita através do preenchimento do formulário online ou através do email.

 

 

A nova vida dos filhos da droga

Setembro 19, 2018 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artur Machado

Texto do Notícias Magazine de 5 de setembro de 2018.

Texto de Filomena Abreu | Fotos de Artur Machado/Global Imagens

Tinha 11 anos quando começou a faltar às aulas. Aos 12, bebia álcool e consumia haxixe. Com 14, já estava na cocaína e no MD. Foi nessa altura que fugiu de casa. E, como não tinha dinheiro para a dose, roubava. Dormia na rua ou onde dava. Tiago – vamos chamar-lhe Tiago – era um carro sem travões. Aos 16 anos, conta algumas das experiências de vida que não deseja a ninguém.

Dessa vez, ninguém salvou ninguém, mas, algum tempo depois, tudo mudou. Faz agora um ano e dois meses. Após muitas tentativas, a mãe de Tiago conseguiu que o filho fosse acolhido na ART – Associação de Respostas Terapêuticas de Magrelos, a Quinta do Sol, no Marco de Canaveses. Entrou contrariado. Hoje, a conversa é outra. “Foi um grande plano de viragem. Se não tivesse vindo aqui parar, nem sabia o que seria de mim.”

A ART é a primeira resposta do país criada exclusivamente para adolescentes com problemas de uso e abuso de substâncias. Nasceu em 2009, depois do êxito de um projeto-piloto iniciado três anos antes, no polo da Quinta do Horizonte (Paredes de Viadores, Marco de Canaveses).

Os responsáveis começaram por inserir alguns jovens no grupo que já existia. Curiosamente, a comunidade percebeu que também fazia sentido estender a terapia aos jovens. Os adultos, que tinham problemas familiares graves, viam nos mais novos os próprios filhos. Porém, pouco a pouco, a equipa percebeu que os adolescentes tinham características muito próprias e foi necessário tomar opções.

Deste então, a ART só recebe miúdos em risco, dos 14 aos 18 anos. “É a última linha do acolhimento”, explica Diogo Soares, psicólogo na instituição. No ano passado, a associação foi certificada com o selo de Inovação e Empreendedorismo Social pelo IES – Social Business School. O conjunto das três unidades que existem em Portugal (duas no Marco e outra em Castro Verde, no Alentejo) corresponde a 50% da resposta nacional em programa para menores. O número de jovens que regressa à escola e se torna quadro de honra é o coroar de um conjunto sucessivo de vitórias.

Tiago acabou o ano com nota máxima a todas as disciplinas. Há de deixar a ART depois do verão. Quando concluir uma formação em agricultura, iniciada neste ano. O mundo lá fora poderia causar-lhe algum receio. Maiores são os sonhos.

Regresso ao passado. É ele quem faz a viagem, sem lhe pedirem. São sempre abismos de onde às vezes não se sai. “Hoje, sou outra pessoa. Era mentiroso, manipulador. Fazia de tudo para ter o que queria. Era muito agressivo e agora já me controlo. Não queria fazer nada, tudo me era indiferente. Só não queria que me chateassem.” A ART revirou-o do avesso. “Agora já falo com o meu pai e tenho objetivos.”

A comunidade terapêutica é apoiada pelo Ministério da Saúde e também pelo Ministério da Educação. Todos esses jovens têm algo em comum: uso ou consumo aditivo de substâncias. Mas as questões de fundo nunca ficam por aí. “À partida, quase todos os que têm problemas aditivos têm também medidas de promoção, proteção e problemas comportamentais graves. Além disso, há alguns com patologias do foro psicológico e psiquiátrico”, revela Diogo Soares.

Uma comunidade diversificada e heterogénea. Uma microssociedade, que se organiza dentro do próprio espaço. Com a particularidade de serem um grupo misto, de rapazes e de raparigas. “Essa é a novidade. Aqui convivem diariamente, com regras muito definidas de controlo e de respeito mútuo.” Um caminho que culmina na reinserção e do qual a escola, que abandonaram, é parte fundamental. Ficam na casa por um ano e meio, o tempo necessário para realizar as diversas fases do tratamento.

Sara está no início – Sara também não é o seu nome, como acontece com todos os outros jovens que dão a voz nesta reportagem. Entrou na ART há pouco mais de dois meses. “Ainda estou de pé atrás.” Com 15 anos, é a terceira vez que é institucionalizada.

Segundo Sara, os problemas começaram com o nascimento da sobrinha. A situação afastou-a dos pais e fez revoltar-se com a família. Aos 12 anos, os amigos eram tudo. Companhias que a levaram a faltar à escola e a consumir pólen, erva, MD. Todos os dias. “Não respeitava os meus pais e eles começaram a não ter mão em mim.” Foi parar a uma instituição em Vila Real. Ficou lá um ano e dois meses.

Quando voltou a casa, andou três ou quatro meses bem e recaiu. Tinha 14 anos quando tornou a ser institucionalizada, dessa vez na Régua. Aí, foi o descalabro. “Fugi de lá para regressar à mesma vida, até que a minha mãe pediu ajuda para que eu fosse para uma comunidade de reabilitação.” Quando entrou na ART, era ela contra o Mundo. Passados dois meses, diz que ainda não mudou muita coisa.

O número de pedidos de acolhimento que chegam à ART tem vindo a aumentar, principalmente do sexo feminino, segundo os responsáveis da instituição. Nos últimos três anos, as 27 vagas da unidade estiveram sempre 100% preenchidas. Os jovens chegam às três unidades por ordem do Tribunal ou da Comissão de Proteção de Crianças e Jovens. Mas também através das Estruturas da Divisão de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e Dependências e por via particular. Contudo, a maioria é encaminhada por decisão judicial. Vêm de todo o país. Sendo que grande parte já tinha sido institucionalizada antes de ser admitida.

O bom hábito de subir ao quadro de honra
Tiago Pinto é diretor da Quinta do Sol há seis anos, mas já ali trabalha há 12. O responsável garante que todos os dias há novos desafios para a equipa. “A nossa referência é o espírito de missão. Mais do que um ordenado, é percebermos que do outro lado há pessoas que precisam de apoio. Se estivéssemos no lugar deles, também gostaríamos de ter ajuda. Por isso, há uma entrega muito forte.”

Os números falam por si: desde 2009, houve 980 internamentos. “Obviamente ficamos tristes e desiludidos quando há insucesso, mas perceber que os sucessos estão a aumentar faz com que tenhamos um oxigénio muito maior”, sublinha Tiago. Em 2016, em 16 jovens, 11 deles foram quadro de honra na EB 2,3 de Sande. No ano passado, 11 em 19. E, neste ano, dos 16 inscritos na escola, metade atingiu o mesmo patamar.

É possível que, no próximo ano letivo, Kinder também comece a frequentar as aulas. A jovem, de 15 anos, iniciou uma dupla aprendizagem. A que a vai permitir integrar plenamente a sociedade e a que a vai levar a viver em paz consigo mesma. Desde pequena que salta de um lugar para o outro. Aos 11 anos, uma liberdade inesperada tirou-a do caminho que a família queria.

“A minha avó estava junta com um senhor. Ela pedia-me para não sair, ele incentivava-me a fazer o contrário. Eu fazia o que ele dizia, porque era o que eu queria.” Foi mais ou menos a partir daí que as coisas entortaram. “Comecei a fumar, a fazer mais porcaria, como grafitis no meio da rua e nos carros.” A mãe muito ausente – “estava sempre a trabalhar, saía às três da manhã e não tinha folgas”. A tenra vida já sem direção.

“Mandaram-me para Espanha morar com o meu pai. As coisas correram bem durante um tempo. Não faltava às aulas.” Contudo, passado alguns meses, “as parvoíces” voltaram. Bebia, fumava e foi recambiada para Portugal.

Tinha noção de que precisava de ajuda, mas não queria. “Era só para não ir para um sítio pior, em regime fechado.” Além dos consumos, a jovem passava ainda por problemas de autoestima. “Quando cheguei, tinha alopecia, que causa muitas falhas no cabelo. Parecia um pintainho. Andava sempre de ‘cap’ e nunca o queria tirar. Mas o doutor Diogo ajudou-me e comecei a sentir-me mais livre e melhor.”

A questão da identidade sexual também deixou de ser um bicho-de-sete-cabeças. “Gosto de ser tratada por Kinder porque esse nome não tem género. Nunca soube bem o que era a identidade sexual. Sei que sinto atração por mulheres, mas não me sinto homossexual. Sinto que sou um homem. Não é por eu achar que o meu corpo é feio. É porque, quando eu me olho ao espelho, sei que me sentia melhor se fosse do outro sexo, são coisas que não dão para explicar.”

Ainda que esse seja um ponto importante a ser trabalhado, de momento, prefere focar-se noutros aspetos.

De acordo com o último “Relatório Anual sobre a Situação do País em Matéria de Drogas e Toxicodependências”, divulgado neste ano, o número de toxicodependentes em tratamento está a crescer. Em 2016, estiveram em tratamento 27 834 utentes, o que representa um aumento de 841 doentes em relação ao ano anterior, invertendo a tendência de diminuição registada desde 2010. Na ART, essa subida também foi sentida. Os 313 miúdos admitidos em 2014 passaram para 576 em 2016. Sendo que cresceram também os pedidos de internamento femininos.

A institucionalização continua a ter o objetivo de os ajudar, tentando protegê-los das situações de conflito, degradantes e violentas, proporcionando um contexto de equilíbrio, que promova o desenvolvimento integral. Para isso, conta muito quem os orienta, no melhor e no pior dos dias.

Na ART, há educadores que são criminólogos, e que compreendem as razões de muitos terem chegado ao ponto onde estão ou estiveram. Mestres de kickboxing, que levam os jovens a perceberem que a força, a energia, a raiva, a agressividade e a impulsividade podem ser transformadas num jogo com hora de começar e de acabar. Monitores que vêm das Forças Armadas e que fazem com que muitos jovens, que não tinham projetos de vida, tenham enfim objetivos. E monitores que já passaram por estes mesmos tratamentos há duas décadas.

Pavlo Stepanov, 37 anos, é o melhor exemplo. Monitor na associação há quase quatro anos. “A minha vida começou com os problemas que os jovens daqui têm: comportamentos de risco, consumo de estupefacientes e tudo o que isso trazia.” Até que ficou agarrado às drogas pesadas.

Quando a mãe chegou a casa com um visto para Portugal e a possibilidade de uma reabilitação, Pavlo nem sabia onde o país ficava, mas aceitou. Uma vez cá, após várias intervenções e recaídas, acabou por perceber que não se podia afastar muito das casas onde lhe era estendida a mão. Foi assim que ficou a trabalhar como monitor numa comunidade terapêutica, em Torres Vedras. Endireitou a vida. Casou e foi parar ao norte do país.

Tornou-se profissional de kickboxing. Foi o treinador que o levou à ART. “O Luís Rasquinho, que sabia mais ou menos a minha história, telefonou-me e disse: ‘Estou a trabalhar numa instituição e acho que devias vir cá.’” Mal viu a casa, sentiu logo que era um ambiente familiar. “A estrutura destes centros é sempre muito parecida. Mas havia uma diferença em relação às que eu conhecia, aqui eram só jovens. Isso fez-me sentido.” Rebobinou a vida, lembrou-se do passado complicado e pensou: “É isto, vai ser esta a missão.”

Trabalhar com os miúdos, ensinar-lhes a usar no kickboxing o sexto sentido, que só quem passa por estes problemas tem, é o “vício bom” de Pavlo. Ele sabe, e os miúdos também, que sair da casa é a parte mais complicada.

Contudo, a ligação a quem lhes deu referências é tão grande que os pedidos de ajuda são constantes. Muitos dos que se veem em situações de risco contactam-no. “Às vezes, estou em casa a dormir, ao lado da minha mulher, e toca o telemóvel. Tenho de atender. Não posso ignorar porque sei o quanto a chamada é importante.” Do outro lado, um miúdo está com os amigos que o picam para fumar ganza. “O que é que eu faço?”, pergunta. E responde: “Esse telefonema faz diferença. Na maioria dos casos, basta dizer uma tontice qualquer, só para desviar a atenção dessa vontade.”

A importância das referências e dos objetivos

Quando acabar o tratamento, José, 17 anos, quer completar o secundário para depois poder tirar o curso de Ranger. Objetivo: ir para as operações especiais de Lamego, chegar a furriel, subir até sargento e fazer missões de paz no estrangeiro.

Foi preciso um ano e meio para que o jovem ganhasse referências, coisa que perdeu aos nove anos, quando o pai foi trabalhar para o estrangeiro. “Ele era o meu principal apoio. De um momento para o outro, passou a estar ausente e eu comecei a ser uma criança mais isolada e deprimida.” Piorou quando, aos 12 anos, deixou de fazer desporto, devido a uma operação.

“Tinha de ficar no meu canto para evitar que me aleijasse e sentia-me diferente dos outros”. Chumbou a primeira vez. Os amigos com quem andava eram todos mais velhos. Saía à noite. Estava descontrolado. “Queria afirmar-me de alguma maneira. Comecei a consumir drogas, a beber, a roubar em casa. Mais tarde, a roubar aos vizinhos.” Tudo que desse uns trocos para comprar a dose. Os dias já só tinham um sentido – consumir. Foi então que, quando “já estava no red line”, apareceu a ART.

A serenidade com que desfia as lembranças denota que já deu muitos passos em direção ao sucesso. De inseguro e tímido a destemido. “Agora, quando surge uma oportunidade, agarro-a, sigo em frente. Mesmo que às vezes possa não ter tanto jeito. Vou sem medo e dou sempre o meu melhor.” Enquanto trabalha a força interior escreve um livro sobre a sua história. E fez uma jura de fidelidade. “Pratico kickboxing, uma modalidade que descobri cá dentro. E quero continuar. O desporto foi muito importante na minha reabilitação e vai acompanhar-me sempre.”

No ginásio, agarra o haltere com a mesma força de quem não quer voltar a deixar escapar a vida. Na camisola, duas frases são como um lema de guerra: “Everything can change. Nothing is forever”. Tudo pode mudar. Nada é para sempre. Nem mesmo os pesadelos.

 

Adolescência. 3 histórias chocantes de sexo, violência e selfies

Junho 20, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do site MAGG de 11de junho de 2018.

por MARTA GONÇALVES MIRANDA

Depois de “O Fim da Inocência”, Francisco Salgueiro recebeu centenas de relatos de jovens. O resultado é “S.D.S. — Sexo, Drogas e Selfies”.

Sexo, drogas, álcool. Noites levadas ao limite, partilhas incessantes nas redes sociais, bebedeiras que quase terminam em coma alcoólico. Foi em 2010 que Francisco Salgueiro publicou o livro “O Fim da Inocência“, inspirado na história real de uma adolescente portuguesa.

Inês tem uma vida aparentemente perfeita, frequenta um dos melhores colégios nos arredores de Lisboa e relaciona-se com filhos de embaixadores e presidentes de grandes empresas. Mas é também consumidora regular de drogas, participa em jogos sexuais arriscados e utiliza desregradamente a internet.

“Antes de terminar ‘O Fim da Inocência’, perguntava a toda a gente se alguém conhecia histórias de outros adolescentes e ninguém conhecia. Era uma espécie de tabu”, conta à MAGG Francisco Salgueiro, 45 anos. “Quando o livro é publicado, começo a receber imensas histórias.”

“O Fim da Inocência” foi um enorme sucesso — em vendas, é verdade (já vai na 13.ª edição), mas também no despertar de uma consciência adormecida. Os pais não faziam a menor ideia do que os filhos andavam a fazer, a comunicação social não abordava estes temas. Depois do livro, e ainda mais depois da adaptação ao cinema (“O Fim da Inocência” foi o filme mais visto em 2017), tudo isso mudou.

“Quando escrevi ‘O Fim da Inocência’ achava que aquela era a geração que mais riscos estava a correr. Agora vejo claramente que é esta.”

Oito anos depois, ainda é raro o dia em que Francisco Salgueiro não recebe pelo menos um email de um adolescente a narrar-lhe alguma coisa. Foi por isso que surgiu a ideia de publicar “S.D.S. — Sexo, Drogas e Selfies“, que reúne várias histórias reais que lhe foram enviadas. São relatos novos e verídicos que mostram o que os jovens do século XXI fazem no seu dia a dia, em particular à noite.

E mudou assim tanta coisa desde Inês? Sim. E está pior? Sem dúvida. “Quando escrevi ‘O Fim da Inocência’ achava que aquela era a geração que mais riscos estava a correr. Agora vejo claramente que é esta.”

Por um lado, culpa das suas próprias profissões e estilos de vida, os pais acabam por estar mais desligados. Por outro, os miúdos vivem a cultura do YOLO (You Only Live Once — só vivemos uma vez) e do FOMO (Fear of Missing Out — medo de estarem a perder alguma coisa).

“Para nós pode não parecer muito tempo, mas para os adolescentes oito anos é de facto muito tempo em termos de novidades do que eles fazem no seu dia a dia. Há coisas que eles fazem hoje em dia que não passa pela cabeça dos pais ou das pessoas mais velhas.”

A MAGG pediu a Francisco Salgueiro que escolhesse excertos das histórias que mais o chocaram. Uma rapariga apanhada pelo segurança da discoteca a fazer sexo oral na casa de banho, e a ser filmada por amigos e desconhecidos. Uma jovem que reflete sobre um grupo de amigos que só interage via redes sociais (mesmo quando estão na mesma sala). Uma saída à noite que termina com uma agressão verbal — e física. Três histórias chocantes de “S.D.S. — Sexo, Drogas e Selfies”.

Atenção: as histórias que se seguem contêm cenas e linguagem sexualmente explícitas que podem ser consideradas inadequadas e ofender.

Ler as histórias no link:

https://magg.pt/2018/06/11/adolescencia-3-historias-chocantes-de-sexo-violencia-e-selfies/

 

Programa vai ajudar a reforçar laços entre pais e filhos para prevenir comportamentos aditivos no futuro

Maio 30, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Apostar na prevenção de comportamentos aditivos a médio prazo, em crianças dos 6 aos 14 anos, através da envolvência da família é o principal objectivo do programa “prevenir em família e comunidade” que deverá estar no terreno em 2019. Ontem, durante uma reunião entre as várias entidades parceiras do projecto que já foi aplicado nas Ilhas Baleares, em Espanha, a Directora Regional de Prevenção e Combate às Dependências, Suzete Frias, explicou que o mesmo vai ser aplicado inicialmente em territórios mais vulneráveis da ilha de São Miguel, Terceira, Pico e Graciosa. Rabo de Peixe é para já a única comunidade onde se sabe que o projecto vai avançar, uma vez que ali está já implementado o “Trajecto Seguro”, na escola Luísa Constantino, com uma metodologia semelhante de ligação da comunidade à família e da família à escola. A seguir a Rabo de Peixe, serão os resultados do estudo de comportamentos aditivos e comportamentos que está a ser feito prelo Governo Regional a indicar qual a localidade onde se justifica uma intervenção com o projecto.

Um projecto que se baseia na prevenção, através da formação para pais e para crianças onde a novidade são as sessões de interacção entre ambos. “Mais do que criar competências parentais, promove a vinculação da criança aos pais, dos pais à criança, a empatia, saber escutar, é a promoção dos factores protectores em relação a comportamentos de risco. Os estudos mostram que quanto mais vinculação, mais sentimento de pertença temos a nós próprios e ao mundo que nos rodeia, mais protegidos estamos em relação a comportamentos de risco, entre os quais os aditivos”, explica Suzete Frias.

O projecto, que ainda está em fase de organização, está a ser estruturado para famílias “que necessitam de prevenção selectiva, onde são detectados alguns sinais de que poderá haver problemas” no futuro e pretende numa fase posterior “criar um módulo mais pequeno de prevenção universal, porque é importante que tenhamos uma abordagem universal para todas as crianças e pais”.

Um trabalho em rede, tal como o que já vem sendo desenvolvido desde 2004 nas Ilhas Baleares e em 14 grandes cidades espanholas.

Luís Ballester Brage, professor da faculdade de Métodos de Investigação em Educação da Universidade das Ilhas Baleares, deu conta de alguns resultados “muito bons” em determinados parâmetros. O programa decorre em 14 sessões, durante quase 4 meses em que “com trabalho muito intenso” se trabalha com pais e filhos individualmente e posteriormente juntos para que se criem os tais laços de pertença e se melhore a comunicação. “Os resultados são muito importantes em termos de coesão familiar, resiliência familiar, coesão interna na família, controlo da dinâmica das relações familiares e noutros factores associados”, explica Luís Ballester Brage que reforça que “melhorou-se muito as atitudes positivas em respeito às drogas e aos consumos, com resultados consistentes”. O que a longo prazo, “influencia o consumo, ou seja, o consumo baixa e controla-se. A conduta de pequena delinquência e os comportamentos disruptivos também baixam”, explica.

A avaliação que o responsável pela Universidade das Ilhas Baleares faz deste projecto é bastante positiva já que o trabalho em conjunto permite que os filhos percebam “que os pais se preocupam porque durante quatro meses, os pais vêm todas as semanas para falar e comunicar com eles e isso é positivo. Temos miúdos que dizem que não sabiam que os pais se preocupavam

e que se interessavam em melhorar em família. Descobrem que há um projecto de família, que podem dizer coisas à família, confiar que a família pode ajudar”. E está dado o passo da confiança, pois “se aprendem a pedir ajuda, outros assuntos como o bullying, problemas de isolamento, depressão, como aprendem a falar sobre isso e ganham confiança com os pais e irmãos, também a ganham com os professores e com os colegas. Aprendem a comunicar melhor” e a pedir ajuda quando o caso assim o justifica.

Presente na reunião esteve também Jorge Negreiros, da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto, que pretende também adoptar este projecto, bem como a responsável do departamento de psicologia da Universidade dos Açores, Célia Carvalho.

 

Escrito por Carla Dias para o Correio dos Açores, em 17 de maio de 2018

Encontro ART “Adolescência – Respostas em Comunidade Terapêutica” 8 maio no Porto

Abril 27, 2018 às 9:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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mais informações:

http://art.pt/site/encontro/

 

Adolescente “mimado” que causou a morte a quatro pessoas sai em liberdade

Abril 6, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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REUTERS/Nick Oxford Ethan Couch foi libertado esta segunda-feira da prisão em Fort Worth, Texas, após cumprir dois anos de pena efectiva

Notícia do https://www.publico.pt/ de 3 de abril de 2018.

Em 2013, o norte-americano Ethan Couch, então com 16 anos, matou quatro pessoas ao conduzir alcoolizado. No entanto, escapou inicialmente a uma pena de prisão efectiva ao alegar ser vítima de um suposto distúrbio de personalidade resultante da riqueza e do “excesso de mimos”.

FILIPA ALMEIDA MENDES

Ethan Couch, o norte-americano responsável por um acidente de automóvel que resultou na morte quatro pessoas em 2013, no Texas, e que ficou conhecido por alegar sofrer de um distúrbio comportamental atribuído à riqueza material da família (mas que não é reconhecido pela Associação Americana de Psiquiatria) para escapar a uma condenação judicial, foi libertado esta segunda-feira da prisão em Fort Worth, após cumprir dois anos de pena efectiva por ter violado os termos da sua liberdade condicional.

O adolescente, que tinha 16 anos à data dos factos, conduzia sob o efeito de álcool (num valor três vezes superior ao limite legal), marijuana e medicação quando perdeu o controlo do seu veículo, matando quatro pessoas e ferindo outras nove que se encontravam na berma de uma estrada em Burleson — a 70 quilómetros de Dallas — a prestar auxílio ao motorista de um outro carro avariado. As autoridades estimam que Couch conduzia a 110 quilómetros por hora numa zona onde o limite máximo era de 60 km/h, como recorda o jornal Guardian.

O caso tinha gerado bastante polémica junto da opinião pública norte-americana depois de, em tribunal, um psicólogo convocado pela defesa do arguido ter argumentado que Couch sofria de um distúrbio comportamental resultante de ter crescido numa família rica e demasiado permissiva — “affluenza“, uma junção das palavras inglesas “influenza” (gripe, em português) e “affluence” (riqueza).

O conceito tinha sido popularizado nos anos 1990, referindo-se a jovens economicamente favorecidos que nunca aprenderam a ser responsáveis nem a medir as consequências dos seus actos. Contudo, a affluenza não é uma patologia reconhecida pela Associação Americana de Psiquiatria, pelo que o diagnóstico não tem qualquer validade clínica.

De acordo com os advogados de defesa de Couch, o facto de os seus pais serem pessoas abastadas e de o jovem ter tido uma educação privilegiada fez com que este fosse demasiado mimado, o que implicou que não soubesse distinguir o bem do mal, e que não tivesse desenvolvido um sentido de responsabilidade. Foi assim que, em 2013, Couch conseguiu de facto evitar uma pena de prisão efectiva, sendo sentenciado a dez anos em regime de liberdade condicional pelo tribunal de menores, bem como a frequentar um centro de reabilitação.

A sentença causou uma enorme indignação por parte das famílias das vítimas e de grupos de combate à condução sob o efeito de álcool.

Em 2016, no entanto, Couch acabou por violar os termos da liberdade condicional e foi condenado a cumprir uma pena de prisão efectiva depois de ter sido publicado um vídeo nas redes sociais onde se via o jovem numa festa em que várias pessoas consumiam álcool

Após o incidente, Couch desapareceu e deixou de contactar o seu agente de liberdade condicional, o que levou à emissão de um mandado de captura. Ethan e a sua mãe, Tonya Couch, fugiram para o México, tendo acabado por ser detidos e deportados para os Estados Unidos por violação da sentença. A mãe, que também escapou a uma pena de prisão efectiva por este incidente, foi na semana passada detida por falhar um teste de drogas ordenado pelo tribunal.

Actualmente com 20 anos, Couch vai cumprir fora da prisão os restantes seis anos da pena em liberdade condicional, segundo afirmaram os seus advogados Scott Brown e Reagan Wynn após a libertação nesta segunda-feira.

“Desde o início, Ethan admitiu o seu comportamento, aceitou a responsabilidade pelos seus actos, e sentiu verdadeiros remorsos pelas terríveis consequências dessas acções”, disse a sua equipa de advogados em comunicado citado pelo Guardian.

A associação “Mães Contra o Álcool ao Volante” (Mothers Against Drunk Driving – Maad, em inglês) emitiu um comunicado, antes da libertação do jovem, a dizer que “dois anos na prisão por matar quatro pessoas é uma grave injustiça para as vítimas e suas famílias que foram, por sua vez, condenadas a uma sentença perpétua”, segundo cita o jornal britânico.

Durante os seis anos em liberdade condicional, Couch será obrigado a usar pulseira electrónica e estará proibido de beber álcool e de conduzir. Será ainda submetido a testes regulares de álcool e drogas, e está obrigado a permanecer em casa entre as 21h da noite e as 6h da madrugada de todos os dias. Caso Couch volte a violar a liberdade condicional já enquanto adulto, poderá vir a ser condenado a uma pena até 40 anos de prisão – dez anos por cada uma das vítimas mortais do acidente.

O caso de Couch tinha motivado um debate sobre a educação de crianças e jovens que crescem em meios privilegiados e sobre os efeitos desse ambiente no desenvolvimento do sentido de responsabilidade. No entanto, tal como salientou ao PÚBLICO, em 2016, o especialista em psicologia de educação José Morgado, não está comprovada a existência de uma relação causa-efeito “entre ter muito dinheiro e ter um determinado tipo de comportamento”, pelo que não existem “mimos a mais, mas sim maus mimos”. Morgado dizia ser antes necessária uma “regulação ao nível dos valores e limites” e uma boa comunicação entre pais e filhos.

Texto editado por Pedro Guerreiro

 

 

Consumo de drogas e bullying são os mais prevalentes nos Açores

Fevereiro 28, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Correio dos Açores de 10 de fevereiro de 2018.

Consumo de drogas e bullying são os mais prevalentes nos Açores

Polícia Judiciária revela que há mais detenções de presumíveis abusadores sexuais na Região “O consumo de estupefacientes é o mais prevalente nos Açores e o bullying também”, resumiu o superintendente José Poças Correia, que conjuntamente com João Manuel Alves de Oliveira, Coordenador de Investigação Criminal, responsável pela PJ na Região, reuniram ontem com o Grupo de Trabalho da Comissão de Assuntos Sociais. Para a Polícia Judiciária, “mais detenções fora do flagrante delito dos presumíveis abusadores sexuais é um dado estatístico real”.

O Grupo de Trabalho da Comissão de Assuntos Sociais reuniu ontem na Delegação da Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores, em Ponta Delgada, onde se procedeu à “Análise e Avaliação das Respostas Públicas Regionais na área da informação dos direitos e protecção das crianças e jovens com mais de 12 anos”.

Presentes estiveram o superintendente José Alves de Oliveira, do Comando Regional da PSP dos Açores e João Manuel Alves de Oliveira, Coordenador de Investigação Criminal, responsável pela Polícia Judiciária na Região Autónoma dos Açores.

A reunião decorreu à porta fechada, mas no final foi possível falar com as referidas entidades.

Da parte do superintendente José Poças Correia, do Comando Regional da PSP dos Açores, este teve oportunidade de dizer que na reunião falou-se de comportamentos aditivos, nomeadamente os que resultam por via do consumo de álcool, tabaco e substâncias ilícitas. “Aquilo que é um dado adquirido tem a ver com os consumos de drogas, a nível geral, ou seja, como aliás o relatório do SICAD aponta um bocado nesse sentido.

Naturalmente, se há ao nível dos consumidores em geral também haverá ao nível dos jovens. Poderá haver aqui alguma prevalência, a esse nível, nos jovens até aos oito anos, mas são comportamentos que têm de ser corrigidos de alguma maneira, por via da sensibilização, da actuação junto das escolas, dos encarregados de educação e das diversas entidades que pode de algum modo contribuir para isso. A Polícia é mais difícil porque a Polícia, naturalmente tem um contacto directo com essas situações de rua, ou então, por via dos conselhos directivos das escolas”.

Mais esclareceu que ao nível dos comportamentos aditivos, “a maioria dos casos são encaminhados para a Comissão de Dissuasão da Toxicodependência, o que quer dizer que a Polícia identifica as situações, reporta e depois a Comissão da Dissuasão da Toxicodependência é que faz o tratamento da situação, quer ao nível da aplicação, ou não, das coimas que estão associadas aos consumos, quer ao nível depois, do acompanhamento e das consultas que são dadas no sentido de haver alguma sensibilização para evitar que essas situações se repitam”.

Respostas eficazes

Da parte da Polícia Judiciária, na voz de João Manuel Alves de Oliveira, Coordenador de Investigação Criminal, responsável pela PJ na Região Autónoma dos Açores, este esclareceu que “a intervenção da Polícia Judiciária centra-se naquilo que são as suas competências na área dos crimes da autodeterminação sexual, aqui com enfoque, muito particular, no domínio dos abusos sexuais das crianças. O que tivemos aqui foi uma partilha de um conjunto de informações que nós passamos à Comissão, que tem a ver com aquilo que é o nosso conhecimento desta área, os números que são conhecidos, as dificuldades que temos e também algumas ideias de como ter respostas mais eficazes com vista, não a debelar completamente o fenómeno que é quase uma utopia, mas pelo menos a atenuá-lo expressivamente”.

Sem poder revelar que ideias são essas de como ter respostas mais eficazes arriscou apenas a dizer, “o facto de se debater publicamente estes assuntos e o facto de terem deixado de ser tabu, que foram até há relativamente pouco tempo atrás, é um primeiro passo importantíssimo para não dizer decisivo para efectivamente alcançarmos este objectivo que é, pelo menos uma diminuição muito significativa do número de casos. Informação, sensibilização e depois, a parte das instâncias formais de controlo, da parte da Polícia Judiciária, naturalmente e não só, uma capacidade de resposta, e um saber técnico em conformidade com a lei para que as nossas investigações tenham êxito. Mas, este é um problema mais vasto, está para além do jurídico porque todos juntos, somos poucos e é uma questão de cidadania, somos poucos para combater este problema. A nós, Polícia Judiciária compete-nos efectivamente fazer aquilo que estamos obrigados por lei a fazer e fazemo-lo com todo o gosto e temos o dever de o fazer com a máxima competência”.

Ao nível dos abusos de menores, destacou dois patamares: “Um número de casos de investigações que nós abrimos e que nos chegaram ao nosso conhecimento e aquilo que é a criminalidade real. Ou seja, os indicadores que temos, é que para além dos casos que nos são reportados e que nós investigamos, há ainda um outro número de abusos dos quais nós não temos conhecimento.

São as chamadas cifras negras. É possível percebermos, aqui nos Açores, que a partir de 2014 houve um incremento de investigações abertas, quer do número de detenções fora do flagrante delito dos presumíveis abusadores sexuais. Isto sim, é um dado estatístico objectivo”.

Sem se revelar números, ficou entendido que de todos os comportamentos desviantes e os comportamentos aditivos que foram elencados, o consumo de estupefacientes é o mais prevalente e ao nível do bullying também, nomeadamente em ambiente escolar onde se registam por vezes algumas ocorrências.

Marco Sousa

Aumentou número de jovens com comportamentos anti-sociais

Julho 4, 2016 às 6:00 am | Publicado em Relatório | Deixe um comentário
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Notícia da http://rr.sapo.pt/ de 30 de junho de 2016.

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Filomena Barros

Os dados são do Relatório de Avaliação da Actividade das Comissões de Protecção de Crianças e Jovens.

Mais de 73 mil crianças e jovens em risco foram acompanhados em 2015. De acordo com o relatório, divulgado pelo Ministério da Segurança Social, sobre o trabalho das comissões de protecção em todo o país, há um aumento de casos de jovens com comportamentos anti-sociais.

São comportamentos ligados a indisciplina, mas também situações de bullying, consumo de estupefacientes e consumo de bebidas alcoólicas aumentarem. Correspondem a 14,5% dos casos, 5.643 novas situações em 2015.

Esta é uma das causas de sinalização de crianças e jovens em risco. Em primeiro lugar, as situações que comprometem o bem-estar, como a violência doméstica (mais de 12 mil novas situações); depois a negligência. Neste caso há uma diminuição dos casos de falta de supervisão e acompanhamento familiar a nível da educação e saúde, por exemplo. O direito à educação é a terceira causa de intervenção das comissões (mais de 6 mil novos casos no ano passado relacionados com absentismo, abandono ou insucesso escolar). Há ainda as situações relacionadas com maus-tratos físicos em contexto de violência doméstica ou ofensa física, maus-tratos psicológicos, abuso sexual ou criança abandonada ou entregue a si própria. Ao todo são mais de duas mil novas situações.

Em termos globais, as comissões acompanharam 73.355 processos de crianças e jovens em risco, o que representa mais 336 do que em 2014 (cerca de 28.900 novos processos).

Cerca de 34 mil transitaram de anos anteriores, 8.328 reaberturas, que se explica, por exemplo, pela falta de recursos humanos que dificulta o acompanhamento das famílias. Foram identificadas 855 crianças em situação de incapacidade ou deficiência.

Lisboa, Porto e Setúbal são as áreas que concentram maior parte dos processos. Foram aplicadas mais de 36 mil medidas de promoção e protecção que envolvem sobretudo jovens rapazes.

Acolhimento de crianças e jovens

Há cada vez mais jovens acolhidos por problemas de comportamento. Os dados oficiais indicam que 48% dos mais 11 mil casos de 2015 dizem respeito a esta problemática.

O Governo admite que representa um desafio e anuncia que vai rever o regime de funcionamento das casas de acolhimento.

O relatório CASA, que diz respeito às crianças e jovens acolhidos ou seja, afastados das famílias e colocados em instituições, identifica o constante aumento do número de adolescentes nos últimos anos, o que revela a necessidade de uma intervenção mais diferenciada.

Em 2015, a maior percentagem em situação de acolhimento – 55,6%, ou seja, 4.830 casos, corresponde a jovens com idades entre 12 e 17 anos.

13% têm entre 18 e 20 anos e há uma diminuição dos casos nos escalões etários mais baixos.

Ao todo foram acolhidas 11.212 crianças e jovens, entre os que entraram e os que saíram, 8.600 ficaram acolhidos no ano passado, e destes, mais de 6.300 estavam já acolhidos em anos anteriores. Quanto maior a idade mais anos ficam institucionalizados, durante 6 ou mais anos.

O projecto de vida autónoma deve ser aplicado aos 15 anos de idade, mas isso dificilmente é possível e os jovens acabam por ficar a viver em instituições até aos 19, 20 ou 21 anos.

O relatório indica, por outro lado, que aumentam os casos relacionados com uma problemática: 3.258 crianças e jovens foram institucionalizados devido a problemas de comportamento e sobretudo entre as idades dos 15 aos 17 anos.

83% dos jovens ficam em instituições no mesmo distrito de residência. Para os outros, a resposta encontrada fica mais longe, o que dificulta os laços familiares.

O sistema de acolhimento integra os lares da segurança social no continente e ilhas, a Casa Pia de Lisboa e na Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.

Medidas anunciadas pelo Governo

O Governo vai reforçar o número de técnicos das Comissões de Protecção de Crianças e Jovens em Risco já a partir de Julho e vai rever o regime de funcionamento das casas de acolhimento tendo em conta que há cada vez mais jovens institucionalizados devido a comportamento.

Há uma nova realidade: mais jovens do que crianças e mais problemáticos e complexos.

Nos casos acompanhados pelas comissões de protecção de menores e nas situações de acolhimento, ou seja, quando a criança ou jovem é retirado da família e colocado numa instituição.

A secretária de Estado da Inclusão para as pessoas com deficiência, Ana Sofia Antunes, que apresentou os dados oficiais que reflectem o aumento de 38% de sinalizações de casos de comportamento anti-social, deficiência ou incapacidade, consumo de droga ou álcool, identifica uma necessidade: trabalhar com as instituições para acompanharem este público específico.

A secretária de Estado revelou que, ao longo deste ano, vai proceder-se à revisão do regime de funcionamento das casas de acolhimento. Implica, por exemplo, alterar instalações, dar formação ao pessoal técnico e articular com a área da saúde e, em particular, da saúde mental, porque se trata de crianças e jovens com percursos difíceis.

A segurança social defende uma intervenção articulada também com a área da educação, para combater o insucesso escolar destes jovens.

Fonte oficial admite que está a ser difícil receber jovens para acolhimento, nos 6 lares especializados.

Por outro lado, foi anunciado o reforço de meios humanos nas comissões de protecção de menores: mais 80 técnicos, que vão ser distribuídos por 43 comissões de 36 municípios. O Governo vai também rever as verbas atribuídas a algumas comissões, sobretudo as que têm mais processos e para mais tarde foi anunciada a intenção de contratar e formar técnicos de mediação familiar.

 

Fórum Internacional Noite Saudável das Cidades

Março 11, 2016 às 12:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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mais informações:

http://noitesaudavelcoimb.wix.com/coimbra2016

 

O afecto dos funcionários dos lares de infância e juventude faz toda a diferença

Dezembro 16, 2015 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista do Público a Catarina Pinheiro Mota no dia 9 de dezembro de 2015.

Marco Duarte

 

Ana Cristina Pereira

Catarina Pinheiro Mota, psicóloga clínica e professora auxiliar na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, estuda a importância do afecto no desenvolvimento dos adolescentes em risco.

Estuda há mais de dez anos a importância do afecto no desenvolvimento dos adolescentes. Começou por comparar famílias tradicionais com famílias divorciadas e famílias distribuídas por instituições. Chegavam-lhe à consulta, num centro de saúde de Chaves, miúdos tomados pelo sentimento de perda, de abandono, de solidão. Parecia-lhe importante que os adultos que os recebiam estivessem preparados para acolher a revolta deles, respondendo-lhes com estabilidade, afecto. Seriam capazes? Percebeu que pouco se investiga em Portugal sobre a forma como crianças e jovens são acolhidos nos lares de infância e juventude e sobre o papel dos cuidadores. No pós-doutoramento que está a desenvolver no Centro de Psicologia da Universidade do Porto, esta professora auxiliar na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro já ouviu 402 adolescentes internados em 25 instituições do Norte, do Centro e do Sul do país e 119 cuidadores.

Ainda acontece não se explicar aos miúdos por que tiveram de sair de casa?

Agora, as equipas tentam trabalhar nesse sentido. Antigamente, não. Cheguei a atender meninos que sistematicamente fugiam para casa. Muitas vezes, não compreendiam o porquê de terem sido retirados à família. Esta questão é importantíssima na adaptação. Acolher não é só atribuir um quarto, explicar como funciona a instituição, também é ajudar a perceber o que aconteceu. Se não houver uma bom acolhimento, a possibilidade de rejeição é grande. Este é um contexto em que os adolescentes não escolheram estar e que às vezes até encaram como um castigo.

Há abuso sexual, mau trato físico ou negligência grave e a criança ou jovem é que sai de casa, é que sofre a consequência…

Sim, é verdade. É importante trabalhar a culpa. E não só. Há muitos sentimentos que emergem nesta fase de transição: sentimento de perda, revolta, medo. Às vezes, os adolescentes até se tornam mais agressivos com os cuidadores por, de alguma forma, sentirem que estão a ser castigados por aquelas pessoas quando na verdade não têm culpa.

Começou a estudar estas questões em 2004, estava Portugal ainda a tentar lidar com o escândalo na Casa Pia de Lisboa. O que mudou desde então?

Para além de redução do número de crianças por instituição, há mais pessoal técnico. Quando comecei a trabalhar, fui a muitas instituições. Tinham um director que nem tinha de ser psicólogo, nem assistente social. Era alguém que geria a dinâmica funcional. Agora falamos de uma equipa técnica e educativa. Isso é novo e tem vindo a progredir.

Há uma relação com o Plano DOM [lançado pelo PS para qualificar os lares de infância e juventude]? Sim. Esse programa foi bom. Trouxe mais formação e mais técnicos, mas também teve inconvenientes. Os técnicos tinham de fazer tarefas transversais. Se estou a tomar conta dos meninos no refeitório e tenho de ralhar com os que não querem comer, é menos viável levá-los para a consulta. Importa perceber que estas equipas tem de funcionar e que cada um tem o seu papel.

Que passa pelo afecto?

Há um esforço que tem vindo a ser feito de estar atento à questão afectiva. Isso antes era menos valorizado. O facto de actualmente haver equipas multidisciplinares facilita o acolhimento e o enquadramento [de crianças e jovens]. Agora importa perceber se esses técnicos são em número suficiente e se têm condições de trabalho estáveis. Eles precisam de se sentir bem para poderem dar o melhor de si próprios. Todos os trabalhadores precisam. Neste contexto, isso é particularmente importante porque implica [darem] muito deles. Levantámos uma série de questões. Qual a importância dos cuidadores? Será que aqueles que têm uma vivência afectiva estável conseguem cuidar melhor? À partida, sim. Aqueles que têm melhor relação com os pais apresentam mais estratégias, mais qualidade nas ligações, mais empatia. E isto é importantíssimo. A capacidade de responder, de estar lá, de estar atento, de criar uma ligação é importantíssima.

Diz que a relação com os professores e os funcionários da escola e do lar de infância e juventude pode aumentar a resiliência, o bem-estar, diminuir a prevalência de comportamentos desviantes… Sim e não estou a falar só de equipas directivas, de equipas técnicas. Estou a falar também em empregados de limpeza, cozinheiros, seguranças, jardineiros… Os miúdos dizem que a ligação que estabelecem com estas figuras que passam mais tempo com eles é muito importante. Lembro-me de um miúdo me falar de uma cozinheira: “Ela gosta muito de mim e eu gosto muito dela. Ela às vezes deixa-me tirar duas sobremesas.” Isto, que parece insignificante, para ele é muito significativo. Ele sente que tem ali alguém. Com as meninas acontece muito estarem preocupadas com alguma coisa ou precisarem de tirar dúvidas sobre questões relacionadas com a intimidade e irem falar com as funcionárias que estão mais perto delas, não necessariamente o psicólogo ou a assistente social, embora essas figuras também sejam importantes.

Todos são cuidadores….

Todos. Há uma tendência grande para dizer: “Ah, vamos ver se a instituição tem psicólogo”. Como se só o psicólogo ou o assistente social pudessem fazer esse trabalho. Lembro-me de uma senhora que fazia limpeza dizer: “Trato estas meninas como se fossem minhas filhas. Eu ponho regras aos meus filhos, também ponho a elas. É assim que eu sei fazer.” Este discurso é engraçado. Traduz uma necessidade de cuidar. Agora, as pessoas podem fazer o melhor que conseguem e não chegar. Era bom que pudessem ter mais formação…

Que formação?

Não é formação académica. É desenvolvimento pessoal, é supervisão, é ter alguém com quem discutir. “Este menino portou-se mal. O que vamos fazer? Qual é a melhor atitude?” Cada situação é diferente. Muitas vezes, os cuidadores têm dúvidas. Têm de gerir situações difíceis, quando as meninas são agressivas, por exemplo. Lembro-me de uma funcionária contar: “Naquele dia tive de me fechar porque aquele jovem ia bater-me!”

Têm se saber pôr limites?

Têm, mas ao mesmo tempo de saber investir. O que faz com que se sintam realizados é sentirem que conseguem ajudar.

Quando um miúdo se vira contra um cuidador, qual é a melhor estratégia?

Tudo depende da situação, mas no primeiro momento talvez o melhor seja afastar-se dizendo: “Olha, neste momento acho que não estás disponível para falarmos sobre isto. Vou deixar-te aqui um bocadinho. Depois, falamos.” Não há uma maneira boa de fazer isto, porque depende, mas não pode ser desprezar os miúdos, desvalorizar, fugir. O melhor é valorizar e devolver. É o que faço em situação de consulta. Já tive miúdos que queriam partir o meu gabinete. Não ia confrontá-los, ser mais agressiva do que eles. Muitas vezes, eles fazem isso não contra nós, mas contra as circunstâncias de vida deles. Descarregam na primeira pessoa que lhes coloca regras. E as regras são securizantes. Trazem o sentimento de que está ali alguém que se preocupa. Vêm de famílias sem regras. Não há regras – para comer, ir para a cama, lavar os dentes, nada. Isso cria insegurança. Quando falo em regras não é tipo quartel. Com adolescentes funciona muito bem se as regras forem negociadas. Eles são os primeiros a dizer uns aos outros: “Não estás a cumprir”.

De que regras estamos a falar?

De regras ao nível de cuidados pessoais, de cuidados com os pertences, de tratar de pequenas coisas, como fazer a cama, pôr a mesa. São as regras que trazem segurança aos adolescentes. Ainda que eles muitas vezes não concordem com elas ou se sintam revoltados… Chegam ali e como não estão habitados a ter regras entram em conflito com os cuidadores. Os cuidadores podem e devem defender as regras. Podem dizer: “Nós combinámos que toda a gente ia ter um dia para arrumar qualquer coisa.” É como fazemos em nossa casa: “Querias alguma coisa, mas já não é possível porque não fizeste o que combinámos.” Estes adolescentes não têm de ter um percurso desviante. Nalguns casos acontece, mas não tem de ser assim. É importante perceber o que faz diferença.

E as ligações afectivas é que fazem diferença?

Sim. Por isso é importante investir na qualidade da relação que se cria com os adolescentes. É importante valorizar o papel dos cuidadores, apostar na sua formação pessoal, na possibilidade de se sentirem apoiados. É importante haver menos rotatividade de funcionários. Há uma tendência para aproveitar recursos a partir de contratos mais precários – os estágios profissionais [de jovens licenciados], os desempregados enviados pelos centros de emprego. Isso pode dificultar as dinâmicas de criação de relações. São pessoas que se calhar não escolheram trabalhar ali, não estão preparadas, sabem que vão sair. Isso cria instabilidade. Os miúdos vão sentir mais uma perda. É mais benéfico ter estabilidade nestas ligações. Ainda que não sejam relações de vinculação, são relações afectivas.

Há miúdos que mudam muitas vezes de instituição…

Isso acontece mais com os que têm comportamento desviante. Esses não foram o alvo destes estudos. A dinâmica é diferente. Os adolescentes em risco não mudam tanto de sítio.

Mas há sempre funcionários a entrar e a sair, miúdos a entrar e a sair…

Isso cria alguma insegurança, algum receio de perda. Os amigos são extremamente importante numa instituição. Os amigos e outras figuras, como os irmãos. É um problema que temos em Portugal. A iminência de ter de se separar irmãos. Não temos quase nenhuma instituição mista. O que acontece? Vai o irmão para um lado, a irmã para outro e tudo funciona de acordo com a boa vontade dos técnicos, que têm de ter o bom senso de os juntar com frequência. Esta ligação com os irmãos às vezes é o único vínculo à família de origem. São o suporte. Estamos a falar em adolescentes. O irmão pode mesmo ser a figura de vinculação permanente.

Os irmãos também fazem a diferença?

Em qualquer contexto familiar. O irmão pode ser o exemplo, aquele com quem se partilha experiência, aquele que ajuda a gerir as situações mais difíceis. Quando se vai sozinho para uma instituição, é mais complicado. Quando se tem um irmão, é mais simples manter sentimento de pertença. O apoio dos irmãos é fonte de segurança. Os que se sentem protegidos pelos irmãos parecem mais serenos, mais autoconfiantes, manifestam mais sentido de vida.

 

 

 

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