“O meu filho corta-se”

Junho 14, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Rute Agulhas publicado no Público de 29 de maio de 2019.

Muitos jovens têm comportamentos de auto-mutilação. Os pais questionam o que fazer, e eu acrescento o que não fazer.

Muitos jovens têm comportamentos de auto-mutilação. Com as unhas, o x-acto, o compasso, a tesoura ou a lâmina do afia-lápis, desenham cortes no seu corpo. Cortam-se nos pulsos e nos antebraços, nas virilhas e nos tornozelos, havendo mesmo quem se corte no corpo todo, de forma quase indiscriminada. Outros jovens não se limitam a cortar-se e, com agulha e linha, cosem a pele. Inspirados pelo célebre desafio “Tokyo Ghoul”, que começou na China em Setembro de 2011, imitam a personagem Juuzou Suzuya, que costura os lábios, o pescoço e os braços para modificar o corpo.
Os pais descobrem, habitualmente, de modo acidental, ou alertados por alguém. Muitas vezes, os professores são os primeiros a dar o alerta, ou não tivesse a escola um papel privilegiado na identificação de sinais de mau estar e sofrimento das crianças e jovens.

Mas porque o fazem? Pode parecer algo muito estranho e quase paradoxal, mas a verdade é que os cortes são sentidos como um alívio, quando comparados com uma dor emocional mil vezes maior. É isto que os jovens reportam. Uma tristeza, revolta, zanga e angústia tão poderosas e intensas que, quando confrontadas com uma dor física, parecem acalmar. “O meu peito está a arder e a sangrar por dentro, e quando sangro cá fora parece que o que se passa lá dentro fica menos mau… por momentos esqueço-me de todas as coisas más que não me saem da cabeça e sinto um alívio tão grande…”, diz Maria, com 14 anos de idade. Uma jovem deprimida, vítima de maus tratos diversos.

Este comportamento auto-lesivo surge frequentemente associado a um estado depressivo, que pode manifestar-se com sinais e sintomas diversos, desde físicos, afectivos, cognitivos ou comportamentais. Muitas vezes de mãos dadas com perturbações de ansiedade e ideação suicida. De uma forma geral, estes jovens apresentam uma visão profundamente negativa de si próprios, do mundo e do futuro.

Vêem-se a si mesmos como não tendo valor, como sendo inadequados, indesejáveis e incapazes, atribuindo as suas experiências negativas a defeitos psicológicos, morais ou físicos.

Vêem o mundo como insustentável, apresentando obstáculos insuperáveis e resultando continuamente em falha ou perda.

Vêem o futuro sem esperança, pois acreditam que os esforços que despendem serão sempre insuficientes para modificar o curso da sua vida, percepcionando-a como um prolongamento indefinido do seu sofrimento e frustração.

Porque é que isto acontece? Pois, não existe uma resposta simples. Sabemos que existem situações de maior risco, especialmente nos adolescentes, como sejam a baixa auto-estima, sentimentos de culpa, perdas precoces, dinâmica familiar disfuncional ou a exposição prolongada a situações de stress. Também as situações de maus tratos, físicos ou emocionais, a negligência e o abuso sexual são factores de risco acrescido.

Os pais questionam o que fazer, e eu acrescento o que não fazer.

Os pais devem estar atentos, pois outros sinais e sintomas, mais subtis e nem sempre valorizados, precedem a auto-mutilação. Seja a tristeza, a raiva ou a ansiedade, a maior irritabilidade, a apatia ou o isolamento. Ainda, as dificuldades de atenção e concentração (com impacto no rendimento escolar), o comportamento agressivo ou as alterações no sono ou alimentação. Sinais de alerta aos quais os pais (e outros adultos próximos) devem prestar especial atenção. Ao mesmo tempo, desconfiar quando o jovem usa roupas compridas e que tapam o corpo em dias quentes. Recusa vestir algo que mostra os braços ou as pernas? Usa casaco e capuz em dias de verão? Cobre os pulsos com numerosas pulseiras que nunca tira? Pode não ser nada. Ou pode ser.

O que não fazer? Gritar, ralhar, ameaçar, culpabilizar. Ao invés disso, escutar. Mostrar disponibilidade para ajudar e pedir ajuda especializada. Os comportamentos de auto-mutilação não são uma fase, uma mania ou uma mera tentativa de chamar a atenção. São um sinal de alerta vermelho.

 

Psicóloga especialista em Psicologia Clínica e da Saúde, Psicoterapia e Psicologia da Justiça; docente e investigadora no ISCTE-IUL

 

O que andam os seus filhos a fazer online e os riscos que correm

Maio 3, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto da Visão de 20 de abril de 2019.

Vânia Maia

Talvez ainda não tenha ouvido falar da TikTok, da Tellonym ou da YouClap, mas estas são algumas das aplicações preferidas dos adolescentes. Partilhar vídeos caseiros, enviar mensagens anónimas, superar desafios lançados pelos amigos…

Noutros tempos, passavam-se bilhetinhos, sem assinatura, de mão em mão, na sala de aula. Atualmente, existem apps de envio de conteúdos anónimos. São habitualmente usadas para fazer as mesmas perguntas mais ou menos inocentes de antigamente, mas agora é muito mais fácil difundir a mensagem e muito mais difícil ser apanhado, se a opção for insultar um colega. O ciberbullying é apenas um dos vários perigos que se escondem nas apetecíveis apps. Saberão os adolescentes portugueses defender-se deles?

Aos 17 anos, Catarina Semedo Oliveira já é perita em segurança online. Faz parte dos Líderes Digitais, uma iniciativa da SeguraNet, com o patrocínio da Direção-Geral da Educação. A reputação de especialista faz com que os amigos lhe peçam ajuda com frequência. “Normalmente, o problema é terem começado a falar com um desconhecido que, depois, propõe um encontro, e então ficam com medo”, revela.

Daniel Cardoso, docente de Ciências da Comunicação nas universidades Nova e Lusófona, procura tranquilizar os pais: “A esmagadora maioria dos jovens que se encontram pessoalmente com desconhecidos depara-se com pessoas da sua idade. É muito raro darem de caras com adultos, mas essa preocupação é compreensível.” Hoje em dia, já não terá grande eficácia dizer simplesmente para não falarem com estranhos. “É uma mera proibição, não incute espírito crítico, o importante é capacitá-los para lidarem com as situações”, defende o investigador. “Se é inevitável que vão ter com estranhos, então o melhor é dizer-lhes para agendarem o encontro num local público, levarem um amigo e avisarem mais alguém da situação”, sugere. “É importante manter um canal de comunicação aberto que seja compreensivo e não proibitivo”, remata.

Catarina Semedo Oliveira conhece vários casos de jovens que se viram numa encruzilhada: “Quando alguma coisa correu mal, não eram capazes de falar com os pais porque sentiam que tinham traído a sua confiança ao não respeitarem as proibições.”

A psicóloga clínica Ivone Patrão é apologista de uma supervisão baseada na partilha desde o jardim-escola. “Se só começarem a falar destas questões quando os filhos tiverem 16 anos, os pais terão muito mais dificuldade em alterar comportamentos.” E lembra que é fundamental respeitar a privacidade dos adolescentes: “Se a sensibilização tiver sido feita ao longo da infância, as regras estarão incutidas e os jovens saberão lidar com as situações que aparecerem.” A VISÃO foi em busca das apps mais populares entre os adolescentes para que pais e filhos saibam lidar com os vícios e as virtudes das redes.

1.TikTok
recomendado a partir dos 16 anos

Cantigas de amigo
Esta aplicação chinesa de partilha de vídeos tem mais de 150 milhões de utilizadores. O seu maior sucesso são os vídeos de adolescentes a cantarem ou a fazerem playback – uma das funcionalidades mais apetecidas são os duetos com outros utilizadores

Alertas: O jornal britânico The Guardian noticiou que foram descobertos vários casos de adultos que solicitavam imagens de nudez a menores através da app. Mesmo entre os jovens, a partilha de conteúdos sexuais explícitos, os chamados nudes, tem-se tornado cada vez mais comum. A psicóloga Ivone Patrão aconselha os pais a lembrarem os filhos de que estão permanentemente a construir a sua identidade digital, mesmo quando partilham conteúdos em privado. “Uma vez na internet, para sempre na internet. Será que gostaria que daqui a dez anos vissem o que publiquei hoje?”, interroga-se, aos 17 anos, Catarina Semedo Oliveira. Na TikTok, só depois de somar mil seguidores é possível fazer vídeos em direto, um incentivo para aceitar toda a gente.

Conselhos de segurança: A aplicação tem uma secção exclusiva para menores de 13 anos, na qual só é possível ver vídeos previamente aprovados e não é permitido partilhar conteúdos, mas basta alterar a data de nascimento para ter acesso a todas as funcionalidades. O modo restrito permite filtrar conteúdo inapropriado e é possível limitar as mensagens privadas a amigos.

37% dos jovens viram imagens de cariz sexual na internet ou noutro local no último ano (em 91% dos casos, as imagens foram vistas em dispositivos com acesso à internet). Oito por cento sentiram muito incómodo perante o que viram, 11% sentiram algum ou bastante incómodo

2.Twitch
recomendado a partir dos 15 anos

Espectadores da internet
Propriedade da Amazon, é uma das campeãs do streaming de vídeos de pessoas a jogarem videojogos

Alertas: É comum a interação com desconhecidos nas salas de conversação, o que pode potenciar o contacto com pessoas mal-intencionadas. Muitas vezes, os gamers estão expostos ao discurso de ódio nestas plataformas. Os utilizadores são incentivados a premiarem os seus jogadores favoritos comprando Bits, apesar de a app ser gratuita. São muitas as aplicações grátis que solicitam os dados do cartão de crédito. O pedido não é inocente. Existem compras integradas que só se revelam com a utilização e a compra fica de antemão facilitada.

Conselhos de segurança: Existe a opção de bloquear os convites para conversas privadas. Nas definições, é importante desativar a opção que permite a partilha da atividade do espectador, sem a sua autorização.

16% ou seja, uma em cada seis crianças e adolescentes vítimas de ciberbullying teve de fazer coisas que não queria fazer

3.Tellonym
recomendado a partir dos 17 anos

(Des)Protegidos pelo anonimato
Esta app permite enviar mensagens escritas anónimas para outros utilizadores. É possível associar-lhes fotografias ou vídeos

Alertas: Não é preciso estar registado para usar a aplicação, o que facilita os comportamentos de ciberbullying ou o envio de conteúdos inapropriados, por exemplo os sexualmente explícitos. Outra aplicação de troca de mensagens anónimas, a Kik, foi referenciada nas investigações de mais de mil casos de abuso sexual, nos últimos cinco anos, no Reino Unido. “Este tipo de aplicações é muito usado para fazermos perguntas ingénuas como ‘gostas desta ou daquela pessoa?’, mas também pode facilitar o contacto com desconhecidos que peçam dados pessoais ou contribuam para o discurso de ódio e para o bullying”, reconhece Catarina Semedo Oliveira, embaixadora europeia jovem para a segurança na internet, que insta todos os internautas a não compactuarem com o ciberbullying. “Não devemos pôr ‘gosto’ e muito menos comentar. Devemos relatar o que vemos, fazer uma captura de ecrã e mostrar aos pais ou aos professores.”

Conselhos de segurança: É possível bloquear preventivamente as mensagens dos utilizadores não registados. Os remetentes de conteúdos indesejados também podem ser bloqueados. Outra opção é filtrar determinadas palavras, evitando que as mensagens que as contenham cheguem ao destinatário. Sempre que uma app não precise da câmara ou do microfone para funcionar, essas permissões devem ser negadas.

24% dos inquiridos entre os 9 e os 17 anos confessaram ter sido vítimas de bullying online e offline no último ano. A forma de ciberbullying mais incomodativa são as “mensagens desagradáveis”, consideram quase dois terços.

4.Facetune
recomendado a partir dos 13 anos

Cirurgias estéticas digitais
Mais do que editar fotografias, esta app permite alterar a aparência da pessoa fotografada. Aumentar os olhos, diminuir o nariz, remover as imperfeições da pele ou estreitar a cintura são algumas das funcionalidades

Alertas: A alteração das selfies de forma a corresponderem à imagem que gostariam de ter pode contribuir para o isolamento digital, destruindo a autoestima dos adolescentes. “Nas redes sociais, há tempo para tirar uma fotografia e melhorar a aparência, o que não é possível no convívio presencial, isso pode causar ansiedade e afetar a autoestima dos jovens mais vulneráveis, levando-os a evitar o contacto face a face”, nota a psicóloga Ivone Patrão. “Quando um jovem se foca apenas na construção da sua imagem, de forma a agradar aos outros, há um sofrimento atroz por detrás. Terá de haver outros sinais de que não está bem”, alerta a docente do ISPA.

Conselhos de segurança: Estar atento aos sinais que possam denunciar uma baixa autoestima. Lembrar que o investimento pessoal não deve reduzir-se à imagem e alertar para o facto de tudo o que é partilhado nas redes ser altamente encenado.

28% dos jovens entre os 11 e os 17 anos receberam mensagens sexuais explícitas no ano passado; em 2014, esse valor não ia além dos 5%. São, sobretudo, os adolescentes entre os 15 e os 17 anos quem mais as recebe.

5.Houseparty
recomendado a partir dos 13 anos

Fazer a festa no ecrã
Com mais de 20 milhões de utilizadores – 60% na faixa etária entre os 16 e os 24 anos –, a principal atração desta aplicação são as chamadas de vídeo em grupo

Alertas: Só podem ser adicionadas pessoas que já façam parte das redes sociais ou dos contactos do telefone do utilizador. No entanto, é possível encontrar outros usuários nas proximidades, se o localizador do telefone estiver ligado. As salas de conversação estão abertas por defeito, mas surge um alerta “stranger danger” sempre que um desconhecido, como um amigo de um amigo, entra no grupo. A jovem líder digital Catarina Semedo Oliveira deixa uma advertência: “Não devemos achar que qualquer pessoa com quem temos amigos em comum é de confiança.”
A transmissão em direto aumenta o risco de serem difundidos conteúdos inapropriados impossíveis de serem controlados.

Conselhos de segurança: O ideal é desligar o localizador do telefone para evitar ser contactado por desconhecidos que estejam a utilizar a aplicação na mesma zona geográfica. Também é possível trancar as salas de conversação, impedindo qualquer pessoa de entrar sem ser convidada, basta acionar o modo privado nas definições.

33% dos jovens portugueses entre os 9 e os 17 anos que tiveram experiências negativas na internet ignoraram ou esperaram que o problema desaparecesse. Outro terço decidiu bloquear a pessoa 
que o incomodou.

6.Yubo
recomendado a partir dos 18 anos

Amores virtuais
É conhecida como o “Tinder dos adolescentes”, mas é apresentada como uma aplicação para “fazer novos amigos”. Deteta os utilizadores geograficamente mais próximos

Alertas: É necessário revelar a localização do dispositivo para a app funcionar devidamente. O perfil pode ser visto por todos os utilizadores geograficamente próximos e, quando há um match, podem manter-se conversas privadas e, até, partilhar vídeos. A jovem embaixadora digital Catarina Semedo Oliveira recomenda precaução: “Quando começamos a falar com alguém, temos de pensar bem em tudo o que dizemos e partilhamos. É mais fácil sermos enganados se o outro souber muito sobre nós.” A informação revelada online deve ser limitada ao mínimo, mesmo aquela que é teoricamente partilhada em privado. Dados pessoais, como o número de telefone, a morada de casa ou a escola que se frequenta, devem ser sigilosos. Em relação aos encontros presenciais, é perentória: “É sempre preferível jogar pelo seguro. Podemos conhecer pessoas novas na escola, não precisamos de passar pela internet.”

Conselhos de segurança: É possível desativar a localização e a opção de fazer match, mas os perfis mantêm-se sempre públicos. Os utilizadores menores de idade só podem contactar com pessoas da mesma faixa etária, mas basta inserir uma data de nascimento falsa para contornar o sistema, o que torna a segurança muito limitada.

44% das crianças e dos jovens portugueses confessaram ter-se encontrado presencialmente com pessoas que conheceram na internet – um comportamento mais comum entre os 13 e os 17 anos. A esmagadora maioria (79%) ficou contente após os encontros. Mais de metade (53%) admite contactar com desconhecidos na internet.

7.YouClap
recomendado a partir dos 16 anos

Desafios a toda a prova
Esta app portuguesa, criada pelo engenheiro informático José Rocha, formado na Universidade de Aveiro, permite aos utilizadores lançar desafios (a todos os outros seguidores, a alguns ou apenas a um). Fazer a melhor coreografia de uma canção, contar a piada mais seca ou, simplesmente, fotografar o jantar, as possibilidades são infinitas. Um terço dos seus cerca de 50 mil utilizadores tem entre 14 e 18 anos

Alertas: Existe o risco de serem lançados desafios perigosos – como já aconteceu noutras aplicações, por exemplo, com a Baleia Azul (que culminava com uma tentativa de suicídio). Todas as contas são públicas para todos os utilizadores.

Conselhos de segurança: Os programadores eliminam constantemente conteúdos ofensivos, mas são os utilizadores que denunciam 70% a 80% dos casos – é importante estar familiarizado com esta função. Em breve, será possível tornar as contas privadas, mas também será inaugurada a função de conversação.

46% dos jovens entre os 11 e os 17 anos viram imagens nojentas ou violentas contra pessoas e animais no último ano. Praticamente o mesmo número (45%) deparou com informação sobre automutilação e 43% estiveram expostos a discurso de ódio (em função da cor da pele, da religião, da nacionalidade ou da orientação sexual)

Fonte: Estatísticas retiradas do inquérito EU Kids Online 2019, sobre o comportamento dos jovens portugueses, entre os 9 e os 17 anos, em contexto digital.

As apps que os pais também usam

Além dos adolescentes, também os mais velhos são utilizadores destas aplicações, mas nem por isso se devem descurar os seus perigos

Snapchat
É muito utilizado no contexto de sexting (envio de conteúdos sexualmente explícitos), uma vez que tem a particularidade de as mensagens supostamente desaparecerem ao fim de pouco tempo. Pura ilusão, já que é possível fazer capturas de ecrã, comprar replays e salvar conteúdos do Snapchat recorrendo a aplicações específicas para o efeito. Convém desativar a localização.

Instagram
Tudo começou com a partilha de fotografias mas, agora, esta rede social tem muito mais que se lhe diga. Com a função IGTV, os utilizadores podem subscrever os canais de vídeo uns dos outros. Além disso, é possível fazer transmissões em direto e trocar mensagens escritas, vídeos ou áudio em privado com outros utilizadores. Uma das principais opções para tornar a app mais segura é tornar a conta privada. Podem bloquear-se seguidores indesejados e limitar os comentários ou filtrar palavras e emojis ofensivos.

WhatsApp
Além das mensagens escritas, o WhatsApp permite a partilha de fotos, vídeos e áudio. Podem bloquear-se contactos guardados ou desconhecidos (mas não números anónimos) e é possível tornar a conta privada nas definições, de forma a que só os contactos (ou mesmo ninguém) consigam ver se está online. A função mais preocupante é a partilha da localização do utilizador, mas é possível desligá-la.

YouTube
O sucesso dos youtubers ajudou a transformar este repositório de vídeos numa rede social. Para terem sucesso, os seus vídeos precisam de ser também comentados. A investigadora Ana Jorge, que tem estudado a relação dos mais novos com os meios de comunicação, alerta para a importância de lhes despertar o sentido crítico: “É fundamental desconstruir o que fazem os youtubers explicando, por exemplo, que as suas recomendações são pagas pelas marcas.”

 

 

 

Quando o adolescente recorre à auto-mutilação

Novembro 21, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto da Oficina de Psicologia

Quando o adolescente recorre à auto-mutilação para lidar com o sofrimento

Alguns dos adolescentes que partilham em consulta que se auto-mutilam admitem que já o faziam há algum tempo antes de os pais terem tomado conhecimento. Na maioria das vezes os pais referem mesmo não terem identificado quaisquer sinais de alarme, ficando muito assustados e imersos numa grande preocupação e desorientação quando confrontados com a partilha do filho. A dor de um adolescente que se auto-mutila é grande… E por isso pais e outros adultos cuidadores anseiam por orientações que acalmem a própria angústia, possibilitando um apoio adequado ao jovem.

Embora possa parecer estranho, a auto-mutilação entre os jovens pode ocorrer como uma espécie de “moda”, quando alguém no grupo de pares experimenta fazê-lo e acaba por ser seguido pelos outros. Sendo uma experiência dolorosa, a maioria dos adolescentes acaba por interromper o comportamento. No entanto, quando a auto-mutilação persiste, geralmente é porque estamos perante um jovem que vive em grande sofrimento emocional, que busca na dor do corpo uma “justificação” para a dor emocional. Reflectindo com o adolescente sobre a sua relação com as emoções, este começa a ganhar consciência de que é mais sensível às emoções, sentindo-as de forma mais profunda e intensa que os outros, optando por não as expressar, “guardando-as só para si”, e demorando mais tempo a sentir-se reconfortado, com todos os custos que isso acarreta.

Manter a calma será um importante primeiro passo a adoptar pelos pais quando descobrem que o filho se auto-mutila. Alguns pais reagem com pânico e desorientação, o que poderá agravar ainda mais a sensação de desconforto do adolescente. Dizer apenas para parar de o fazer terá também pouco efeito. No entanto, retirar do alcance do jovem objectos com que se possa magoar pode ser de extrema importância. Paralelamente, e com efeito mais duradouro e profundo, será fundamental adoptar uma postura de disponibilidade para escutar o que preocupa o jovem e o que está a sentir. Assim, mostre interesse por aquilo que o jovem pensa e sente, dando-lhe espaço para (mas não o obrigando a) partilhar.

Em simultâneo, o encaminhamento para um profissional qualificado, como um psicólogo, será importante no sentido de serem aprendidas/desenvolvidas outras estratégias de regulação emocional alternativas e mais adequadas.

A comunicação eficaz dentro da família é verdadeiramente importante para que o adolescente se sinta seguro, valorizado e confiante, pelo que se sugere a existência de um momento diário, nas rotinas da família, em que todos se sintam livres e aceites na partilha de ideias, dúvidas, preocupações e conquistas.

 

 

Um quarto das raparigas de 14 anos automutila-se ou quer fazê-lo

Setembro 18, 2018 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia da SIC Notícias de 29 de agosto de 2018.

Dois estudos separados, um de cada lado do Atlântico, chegaram à mesma preocupante conclusão: uma em cada quatro adolescentes automutilou-se no ano passado, segundo a investigação britânica, ou vai fazê-lo, segundo a norte-americana.

Achei que a automutilação era o que eu queria fazer e o que tinha de fazer porque não havia mais nada que pudesse fazer”. As palavras de uma jovem à Children’s Society, a organização britânica que conduziu o estudo, traduzem, provavelmente, o pensamento de uma grande parte das raparigas que se automutilam. “Não me sentir tão bonita ou tão boa como as outras raparigas contribuiu para a minha automutilação”, explica ainda a jovem.

O relatório estima que cerca de 110 mil menores, com 14 anos, se automutilaram no Reino Unido durante o ano passado, em números bem desiguais entre géneros: 76 mil raparigas e 33 mil rapazes. Também foram elas que se mostraram menos felizes, no geral, com a vida, mas com grande ênfase na aparência.

Mais números: quase metade dos adolescentes que se disseram atraídos por pessoas do mesmo sexo ou dos dois sexos levaram a cabo atos de automutilação. Os oriundos de lares com menos rendimentos também se mostraram mais propensos à prática.

Em outubro do ano passado, um estudo da Universidade de Manchester descobriu que a automutilação por raparigas entre os 10 e os 19 anos aumentou 68% em três anos.

“É fundamental que o bem estar das crianças seja levado mais a sério e que se faça mais para atacar a raiz da sua infelicidade e apoiar a sua saúde mental”, considera Matthew Reed, responsável da Children’s Society, destacando o papel das escolas, com a presença, inclusivamente, de um conselheiro, e a inclusão dos temas da aparência e dos esterotipos de género no currículo da Educação Sexual.

Nos Estados Unidos, um estudo publicado em julho no American Journal of Public Health, chegou a conclusões semelhantes: uma em cada quatro raparigas das escolas secundárias do país e um em cada 10 rapazes tentam magoar-se a si próprios (com cortes e/ou queimaduras), mesmo quando não têm intenção suicida.

Fatores como ser vítima de violação ou bullying aumentam o risco: Os adolescentes que relataram ter tido relações sexuais forçadas tinham 56% mais probabilidade de se ter automutilado e no caso de ter sofrido bullying online o risco duplicava. Jovens homossexuais ou bissexuais também apresentaram maior tendência para a automutilação.

Os investigadores inquiriram mais de 64 mil estudantes em 11 estados – quase 18% relatou pelo menos um episódio de automutilação no ano anterior.

“A automutilação é surpreendentemente comum entre adolescentes”, conclui Martin Monto, da Universidade de Portland, que liderou o estudo.

 

 

Queimar-se com sal e gelo: o novo e perigoso jogo da moda entre os adolescentes

Setembro 21, 2017 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia e imagens do http://observador.pt/ de 19 de setembro de 2017.

Um rapaz de 12 anos morreu depois de ter estado 20 minutos com sal e gelo nas costas

Depois do desafio da canela e do jogo da baleia azul, a moda de queimar a pele com sal e gelo está a preocupar as autoridades espanholas. Irritações, necrose e até a morte: os dermatologistas alertam.

Chegou dos Estados Unidos e está a espalhar-se por Espanha. O novo e perigoso jogo da moda entre crianças e adolescentes consiste em queimar a pele com uma combinação de sal e gelo. A Guarda Civil espanhola já alertou pais e sociedade em geral para os perigos daquilo a que chama “desafio viral”.

O dermatologista Pablo de la Cueva disse ao El Español que “a pele pode sofrer danos de diferentes graus, desde pequenas irritações que a deixam vermelha e inflamada até feridas estruturais e necrose”.

Três raparigas espanholas mostram as consequências do desafio

“Uma prática completamente desaconselhada”, alerta o médico. A combinação de sal e gelo aplica na pele temperaturas que podem chegar aos 20 graus negativos. O frio é tão intenso que pode acabar por rebentar as células. Além disso, o gelo atua como anestésico: muitas das vezes, os jovens só se dão conta das consequências depois de retirarem a combinação da pele.

Os jovens parecem orgulhosos das queimaduras

“As primeiras consequências implicam irritação, ardor e dor”, detalha Pablo de la Cueva. “Além disso, podem gerar-se infeções que só podem ser tratadas com antibióticos. Se a pele está com necrose, podem ficar com cicatrizes irreversíveis e problemas de pigmentação.”

A Guarda Civil espanhola, através do Twitter, partilhou uma imagem de um dos jovens que participou e limitou-se a dizer “apesar de ser algo muito idiota, há gente que o faz”. Um dos exemplos mais impressionantes é o caso de um rapaz norte-americano de 12 anos que pediu aos amigos que lhe pusessem sal e gelo nas costas, formando uma cruz. Aguentou 20 minutos. As feridas – que podem ser vistas na imagem principal deste artigo – foram fatais.

Depois do desafio de comer canela ou do jogo da baleia azul, chegou a moda do gelo e do sal.

 

 

Quando um jovem decide deixar de viver

Agosto 25, 2017 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto publicado na http://visao.sapo.pt/ de 15 de agosto de 2017.

ROBERTO SCHMIDT

Patrícia Fonseca

No espaço de três meses, três alunos da mesma escola secundária mataram-se da mesma forma, debaixo de comboios na zona Oriental de Lisboa. A VISÃO teve acesso a um inquérito realizado a 150 colegas das vítimas.

Antes de entrarem na estação de Braço de Prata, em Lisboa, os comboios descrevem uma pequena curva. Quem está na plataforma pode vê-los surgir, a uma centena de metros, como se brotassem das entranhas da Terra. Quase todos desaparecem na outra ponta do horizonte de forma tão rápida como apareceram – são Intercidades e Alfas Pendulares que seguem para a Gare do Oriente.

Naquele início de tarde tórrido de maio, Bruna saiu da escola à hora de almoço, meteu-se por um atalho de terra batida e, em poucos minutos, chegou à linha de caminho de ferro. Quando o maquinista entrou na curva, viu-a no meio da via, caminhando de forma aparentemente descontraída e desligada do mundo, de costas para o comboio. Naqueles breves segundos, em que travou a fundo, vários passageiros aperceberam-se do que estava prestes a acontecer. Entraram todos em pânico, ficaram depois em estado de choque. Não havia como evitar o pior.

A menina de 14 anos teve morte imediata. A polícia chegaria depois para recolher o seu corpo, na zona da curva traiçoeira, bem como os ténis e a mochila da escola, abandonados ao lado da linha. Nessa altura, ainda não sabiam – não podiam saber –, que aquela tragédia estava longe de ter sido um acidente. Bruna tinha decidido morrer assim.

A maldita baleia azul

As marcas de automutilação no seu corpo, bem como as informações recolhidas posteriormente pelas autoridades junto da família e de amigos, levaram a classificar a sua morte como suicídio – e como o primeiro caso fatal devido ao “jogo” Baleia Azul, tal como viria a ser revelado no programa Sexta às 9, da RTP. O inquérito à sua morte, tal como todos os que estão sob investigação relacionados com o fenómeno do chamado “jogo da morte”, está nas mãos da Unidade de Combate ao Crime Informático da Polícia Judiciária e da Direção Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP), por determinação da procuradora-geral da República. Estavam em investigação cerca de 20 casos em maio mas, neste momento, o Ministério Público e a PJ, contactados pela VISÃO, preferem não adiantar quaisquer pormenores sobre a evolução da situação.

Bruna estaria deprimida, já tinha tentado suicidar-se antes e, por esse motivo, uma familiar próxima tinha-a levado às urgências do Hospital D. Estefânia, alguns dias antes. Medicaram-na com tranquilizantes e enviaram-na para casa, com uma carta dirigida ao médico de família, para que este a referisse para ser mais tarde atendida nos serviços de Pedopsiquiatria. Os seus problemas familiares eram conhecidos na escola e na Comissão de Proteção de Crianças e Jovens em Risco da sua área de residência, onde estava referenciada desde fevereiro.

A cadeira vazia

Naquele 15 de maio, Bruna tinha ido à aula de Português. Desde então, e até ao último dia de aulas, na semana passada, a sua professora não conseguia deixar de olhar para a sua cadeira vazia com um misto de tristeza e inquietação.

“Quando há um aluno que vem à escola de manhã e de tarde se suicida, o mundo fica do avesso e o professor questiona a sua função e, pior ainda, questiona-se a si próprio”, diz Carmo Machado. Até porque esta não era a primeira aluna da Secundária D. Dinis a acabar com a sua vida neste ano letivo. Foi a terceira. Três mortes em sequência, que ocorreram da mesma forma, nas linhas de comboio da zona de Lisboa, em três meses seguidos.

Em março, Tiago, de 16 anos, a frequentar o 11º ano, atirou-se para a frente de um comboio depois de deixar uma longa carta à mãe, onde explicava que a sua decisão não era culpa dela, nem de ninguém. Ele simplesmente não gostava de si e da sua imagem. Sonhava ser modelo mas tinha uma deformação no rosto devido a um problema de saúde, acreditava que só iria piorar com a idade, e não queria viver assim.

Em abril, Tiago, de 17 anos, no 12º ano na área de Economia, pôs termo à vida na mesma linha férrea. As autoridades policiais ainda consideraram a hipótese de poder ter sido sugado para a linha devido à velocidade a que o comboio circulava, mas tudo indica que se atirou devido à depressão que sofria, sendo acompanhado por um psiquiatra. Também ele terá deixado uma nota suicida à família, segundo os seus amigos.

“Cada vez mais me convenço de que a primeira tarefa de um professor é trabalhar a relação humana com os seus alunos, mostrar-lhes novas perspetivas de vida, deixar uma semente de mudança em alunos que dela necessitam avidamente. Jovens adolescentes a quem, por vezes, falta quase tudo: famílias estruturadas, ambientes propícios à aprendizagem e à curiosidade para aprender, autoestima, autoconfiança e até comida…”, refere Carmo Machado.

E a escola, sabe-o bem, pode ser um lugar de grande solidão. “No meio de centenas de jovens barulhentos, há sempre um silêncio intransponível dentro de alguns. Quantas vezes, numa aula em frente a três dezenas de seres fervilhantes de vida, de sonhos e de mágoas, não me senti impotente para conseguir chegar a todos? Quantas vezes não me apeteceu simplesmente ignorar o programa? Destruir o manual? Sair da sala com eles para as ruas da cidade? Explicar-lhes que a vida é dura e difícil, injusta muitas vezes, implica ganhos e perdas, mas vale a pena ser vivida até ao fim. Sem batota.”

O que fazer?

Formalmente, não existem diretivas do Ministério da Educação sobre a forma como os professores, ou as escolas, devem agir em casos de suicídio. Cada instituição atua em função dos meios que dispõe e, claro, da sensibilidade das direções. A Direção-Geral de Educação, em resposta à VISÃO, esclarece apenas são promovidas ações de “Promoção da Saúde Mental” ao longo do ano em várias escolas, em articulação com a Direção-Geral de Saúde, e que “nos casos de depressão ou da manifestação de qualquer outra sintomatologia no âmbito da saúde mental, o psicólogo escolar deve avaliar a situação e, se necessário, articular com os serviços de saúde competentes”. No caso da D. Dinis, há um psicólogo (da área educativa, não clínica) para cerca de mil alunos.

A VISÃO sabe que, apesar do Plano Nacional de Prevenção do Suicídio 2013-2017 destacar as escolas como um terreno privilegiado de ação, não foram disponibilizados meios adicionais para a D. Dinis lidar com a morte destes três alunos. Foi apenas recomendado um reforço das interações entre a Comissão de Proteção de Crianças e Jovens em Risco, a Administração Regional de Saúde e a Santa Casa da Misericórdia, que já colaboram usualmente com a escola, acompanhando situações previamente sinalizadas.

A direção da D. Dinis (que preferiu não prestar declarações) decidiu promover, embora sem saber se da forma mais correta, encontros com pais e professores para abordar o tema. A PSP, através do programa Escola Segura, reforçou as ações de prevenção junto dos estudantes. E também psicólogos do programa +Contigo, desenvolvido pela Escola Superior de Enfermagem de Coimbra, foram convidados a deslocarem-se a Chelas pelo corpo diretivo. Inicialmente, focaram-se na sensibilização dos professores, para que pudessem identificar sinais de alerta nos alunos: tristeza, isolamento, alteração nos padrões de rendimento escolar, desinteresse geral por todas as atividades, comportamentos violentos e impulsivos, entre outros. O trabalho será retomado em setembro, agora junto dos alunos. E, mais uma vez, pro bono. As verbas que este programa recebia da Direção-Geral de Saúde foram “cativadas” e, desde há dois anos, não há financiamento.

Tema não deve ser tabu

O enfermeiro José Carlos Santos, fundador do +Contigo em 2009, confirma as dificuldades financeiras, embora garanta que, devido à “generosidade” da Escola Superior de Enfermagem de Coimbra e da Administração Regional de Saúde do Centro, o programa continue a funcionar a nível nacional, tendo envolvido, só este ano, cerca de 6400 alunos, do Algarve aos Açores. Sobre a intervenção prevista na escola de Lisboa, e sem querer adiantar pormenores, reconhece apenas que o caso é raro no panorama nacional, pelo facto de terem sucedido três suicídios em sequência, mas que o desespero que revela é, entre os jovens, cada vez mais usual.

“No último ano, o aumento de comportamentos autolesivos e suicídios foi muito evidente”, revela, preocupado. Por isso não se cansa de repetir que, sempre que há uma situação detetada numa escola, “não se deve negar o acontecimento” ou fingir que ele não sucedeu. “É um problema grave e, sem uma rápida intervenção, há sérios riscos de fenómenos de imitação.”

Falar sobre o assunto, garante, não é desaconselhado – muito pelo contrário. “Este tema não pode ser tabu, tem de se trabalhar o luto, resolver as questões da culpa e não permitir que se glorifique o que fizeram, entendendo-os como atos de coragem.” Um jovem que se suicida, recorda, “está numa situação de grande sofrimento” e “quase sempre existem questões do foro mental associadas”. Há uma vulnerabilidade crescente nas raparigas, nota, e os alunos do 10º ano têm demonstrado maiores níveis de depressão. Já não é possível ajudar os que morreram, mas há muitos à espera de um sinal de atenção, nas contracurvas da vida.

Reportagem publicada na VISÃO 1272 de 20 de julho

 

 

 

 

Três vezes mais casos de Baleia Azul nas mãos da justiça

Julho 20, 2017 às 10:36 am | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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Notícia do Jornal de Notícias de 20 de julho de 2017.

Três vezes mais casos de Baleia Azul nas mãos da justiça

 

 

“O problema são as mini-baleias azuis. E são milhões e milhões”

Junho 13, 2017 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista do https://www.noticiasaominuto.com/ a Daniel Cotrim no dia 22 de maio de 2017.

POR Goreti Pera

Daniel Cotrim, psicólogo clínico na Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV), considera que “qualquer adolescente pode entrar” num jogo como a Baleia Azul, movido pelo “desafio, aventura e risco”. Há, por isso, um papel importante que deve ser assumido pelos pais e uma preocupação acrescida que vai além do fenómeno atual: “O problema são as baleias azuis mais pequeninas, mais insidiosas, que se baseiam nas grandes”, alerta, em entrevista ao Notícias ao Minuto.

Surgiu numa rede social russa e proliferou pelo mundo. O jogo Baleia Azul, que convida os jogadores a cumprir 50 desafios que culminam no suicídio, fez até ao momento cerca de uma centena de vítimas mortais, uma delas em Portugal.

Há também relatos de várias vítimas e a preocupação pelos contornos de que o jogo se revestiu é assumida pelas autoridades de diversos países.

O Notícias ao Minuto conversou com Daniel Cotrim, psicólogo-clínico, sobre o que pode motivar um adolescente a ligar-se ao ‘jogo da morte’ e sobre os sinais a que os países e a comunidade escolar devem estar atentos.

O que leva um adolescente a jogar um jogo como a Baleia Azul?

Quando se fala de adolescentes, temos de ter em conta os sentimentos de descoberta, a ideia de revolta, de desafio. Juntamente com isto há sentimentos de alguma vulnerabilidade, de fragilidade e isolamento social, que é também provocado pela vivência do próprio adolescente em relação ao resto do mundo. O que faz um adolescente ir para um jogo destes é o facto de, apesar de ser perverso e nefasto, pegar pelo lado do desafio, aventura e risco, características associadas à adolescência. O mais perverso neste jogo é ter como destinatários os jovens que se encontram mais fragilizados e sozinhos, que podem ter problemas emocionais e que estão mais disponíveis para corresponder a este tipo de solicitações.

Os adolescentes, ainda que vivam numa fase conturbada da vida, têm noção dos limites? Quando entram neste jogo, saberão que culmina no suicídio…

Temos que pensar que os adolescentes querem o desfio, mesmo quando o desafio pede coisas estranhas e horríveis e que podem culminar no suicídio. O que o adolescente pensa sempre é que não vai fazer isso, que é mais forte e é capaz de não chegar a esse ponto, que vai dizer que ‘não’ quando não quiser mais. “Se pedirem para me matar, eu não me mato”, pensará.

A grande questão é que quem está do outro lado [o administrador do jogo] é uma pessoa altamente manipuladora e que consegue ter acesso a um conjunto de dados pessoais que o jovem disponibilizou na rede (por exemplo, dados de acesso à sua conta no Facebook, onde tem os amigos, a escola, os hobbies…). Essa pessoa – perversa e com alguma pensamento psicopático – consegue perceber qual é o perfil do jovem jogador e a partir daí começa a ameaça: “Se não fizeres isto, eu vou à tua casa, vou matar a tua namorada…”. O medo pode, por isso, levar o jovem a sentir-se coagido a continuar a jogar, mesmo quando quer sair.

Tem mais probabilidade de entrar num jogo como a Baleia Azul um adolescente instável e sem uma retaguarda familiar consistente ou qualquer adolescente pode entrar, sendo que a instabilidade surge depois, devido à manipulação?

Acho que qualquer jovem pode entrar, pelas características da própria adolescência. Esse é o mito que nós associamos a estas coisas. É claro que um jovem mais vulnerável e emocionalmente fragilizado é menos capaz de rejeitar os desafios, de ver um filme de terror às 4h30 da manhã, de ir para a linha do comboio ou de deixar de falar com a família. Mas não podemos esquecer que existe alguém do outro lado a manipular as emoções das pessoas.

Um jovem que nunca tenha tido tendências depressivas ou suicidas consegue acabar com a vida fruto desta manipulação?

Acho que sim, acho que é claramente possível pelo conjunto de pressão que lhe é exercida. Há relato de centenas de mortes no mundo inteiro. À partida, 90% dos jovens não tem tendências depressivas, mas se esta pressão é exercida de forma muito forte e manipuladora, com acesso real à vida privada, pode levar um jovem ou adulto a cometer o suicídio. É aqui que entra o papel da família. Compete aos pais controlar os acessos dos filhos à internet e perceber que páginas visitam. Não é fazê-lo às escondidas (isso é desrespeitar o adolescente), mas fazê-lo na presença dele. O ideal é fazê-lo de uma forma benéfica, levando o adolescente a perceber que é normal a família estar preocupada e que está lá a servir-lhe de retaguarda caso haja alguma coisa que ele não entenda.

Os jovens têm sempre muitas coisas para dizer aos pais. A grande questão é que muitas vezes os pais não têm disponibilidade e não querem ouvir o que o jovem tem para lhes dizer, porque acham que a sua missão é só alimentar e vestir. Os pais não têm de esperar que o filho lhes conte os seus segredos, mas têm de lhe dizer que, aconteça o que acontecer, estarão sempre ali e nunca o abandonarão. Assim, quando acontecer uma crise, o filho saberá que os pais estão ao seu lado.

O facto de o jovem saber que os seus acessos à internet são controlados pelos pais pode levá-lo a esconder o que lhes convier, apagando parte do histórico de navegação, por exemplo?

Depende, porque há uma diferença entre controlar e ser autoritário. Se eu for autoritário no meu controlo, se vir às escondidas e não respeitar, o adolescente vai apagar de certeza absoluta. Porém, se o meu controlo for exercido de uma forma afetiva, se for algo partilhado entre os dois, isso já não vai acontecer. A grande questão é que, no que diz respeito à internet e às redes sociais, os pais não se querem chatear, não se querem envolver. E não é por não saberem, porque eles próprios às vezes têm redes sociais. Há uma cultura de há uns anos para cá de permissividade, em que se deixa fazer tudo. Os pais não gostam de se zangar nem de dizer não. E nós temos de pensar de forma contrária: temos de nos zangar quando é momento para nos zangarmos e temos de sermos capazes de dizer não.

Qual será o perfil do criador de um jogo deste tipo e que motivações terá?

Diria que deve ser um individuo altamente perverso e manipulador, com traços muito grandes de psicopatia e sociopatia. Será definitivamente mais velho do que os adolescentes, porque um adolescente por si só não teria a capacidade para montar toda esta máquina. Quanto às motivações, creio que é ver até que ponto tem poder para ver o outro autodestruir-se. Infelizmente, há muitas pessoas assim. Há aqueles que matam 10 ou 20 pessoas e há outros que se escondem e que tentam manipular as pessoas ao ponto de estas tirarem a própria vida.

Quais são os sinais de alerta a que os familiares devem estar atentos?

Sempre que os pais percebam que há uma mudança de comportamento drástica nos seus filhos (ter sentimentos de ansiedade ou medo muito vivos, ter pesadelos contínuos ou não conseguir dormir), que estão muito cansados, que escondem o telemóvel, que ficam assustados quando se aproximam do seu computador ou que usam mangas compridas no tempo quente, deverão estar alerta e falar abertamente com os filhos. Devem mostrar-lhes que podem e devem confiar nos pais. Se algum destes sinais estiver manifestamente associado à Baleia Azul, o primeiro conselho é não castigar, não ralhar, não culpar. O segundo é denunciar o caso o mais depressa possível às autoridades, procurar um profissional da saúde mental (como o psicólogo) e não tratar o filho como um doente mental, porque não é um doente mental, é vítima de um crime grave.

As escolas têm também um papel importante na deteção de casos e na prevenção?

Têm sim, sobretudo na prevenção dos casos. Era importante nas escolas falar-se sobre segurança na internet, haver ações de sensibilização dadas por exemplo pela polícia, não numa abordagem policial mas educacional. A escola também é importante para detetar sinais. Se o professor perceber que um aluno começou a usar mangas compridas em pleno junho e que não quer fazer ginástica para não se despir, tem que falar com os pais ou com a Comissão de Proteção de Crianças e Jovens.

Deve falar-se com os jovens sobre suicídio? O tema é, de certa forma, um tabu.Deve falar-se claramente sobre suicídio, até porque os jovens falam disso entre si, muitas vezes de forma muito pouco esclarecida. É normal um pensamento sobre suicídio surgir. É importante haver psicólogos nas escolas preparados para lidar com estas questões (e não é ter dois psicólogos para cinco mil alunos). A sensação que tenho é que está a haver alguma alteração em certos conteúdos letivos e uma resolução nos conteúdos mais ligados às questões humanas.

Como é que vê o papel a comunicação social perante esta situação?

Vejo bem no sentido em que espoletou a atenção para um assunto que de outra maneira ninguém teria conhecido. Mas, por outro lado, é preciso ter cuidado na informação que se passa para ser uma influenciadora de bons comportamentos nas famílias. Tentar perceber como é que as famílias devem reagir é um bom papel da comunicação, mas quando são dadas continuamente notícias de mais vítimas não se presta um bom serviço ao país. Além disso, identificar as vítimas (nome, morada) é errado, as pessoas têm direito à sua privacidade.

De que forma os pais devem reagir perante as notícias que têm vindo a ser difundidas?

O papel dos pais, nesta situação, é explicar os filhos quais são os efeitos destas coisas e explicar que nós próprios não entendemos como é que elas surgem. E há que ter em conta que o problema não são estes grandes fenómenos que aparecem e depois acabam, o problema são as baleias azuis mais pequeninas, mais insidiosas, que se baseiam nas grandes. Vou dar como exemplo um grupo de amigos em que todos têm WhatsApp e que podem começar a fazer este tipo de desafios: “Escreve na tua mão a palavra XPTO. Se não escreveres e mandares fotografia para o grupo, vamos dizer na escola que és um cobarde”. Por isso, o pior de tudo não é a Baleia Azul em si, são as mini-baleias azuis que podem advir daqui. E são milhões e milhões.

“Se calhar já existiram mais casos do Baleia Azul que não foram identificados como tal”

Maio 16, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista do https://www.publico.pt/ a Ivone Patrão no dia 7 de maio de 2017.

A professora teme que os casos de adolescentes que chegam ao hospital por causa da Baleia Azul possam ser mais do que os já conhecidos e apela aos pais para que estabeleçam regras.

Bárbara Wong

Nas últimas semanas, o país foi surpreendido com um jogo que pode levar os que aderem ao suicídio, é a última etapa do jogo, antes disso as propostas passam pela automutilação. É o jogo Baleia Azul e tem tido aderentes que vão parar ao hospital. Paralelamente há uma série para jovens e adolescentes, com produção executiva da ex-estrela da Disney Selena Gómez, que também gira em torno do suicídio de uma adolescente e que já levou escolas nos EUA a boicotar a série; na Nova Zelândia e no Canadá, os departamentos responsáveis pela classificação dos filmes considerou a série Por 13 Razões não adequada a jovens com menos de 18 anos e no Brasil a visualização levou a que centenas de jovens pedissem ajuda. A série que é uma adaptação do livro de Jay Asher aborda ainda a violação, o bullying, a depressão e a falta de acesso a cuidados de saúde mental.

A psicóloga Ivone Patrão, que trabalha na primeira consulta de dependência de Internet no país, que funciona no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, escreveu recentemente o livro #geração-cordão sobre as gerações que estão dependentes das novas tecnologias. A também professora no ISPA- Instituto Universitário teme que os casos de adolescentes que chegam ao hospital por causa do Baleia Azul possam ser mais do que os já conhecidos e apela aos pais para que estabeleçam regras.

Temos o jogo Baleia Azul e temos a série Por 13 Razões onde o suicídio está permanentemente presente. Até que ponto estes não servem para despoletar nos jovens o desejo do suicídio?

Claro. Confrontamo-nos com jovens que estão em sofrimento e se estas tarefas do Baleia Azul não existissem eles estariam a automutilar-se e a instituir um plano suicida. O jogo ou a série só vêm dar o mote. Há um sofrimento físico que ajuda a anular o sofrimento psicológico. O jovem pensa: “Eu sinto-me tão deprimido, tão vulnerável, tão mal que ao cortar-me sinto-me aliviado” e este jogo, para um jovem isolado, surge como alguém que não faz juízos de valor e o incita.

Até que ponto esta geração está mais perdida do que as anteriores porque têm menos perspectivas de vida?

Não diria que é uma geração perdida, mas que tem um risco que as anteriores não tinham, por causa do acesso fácil a tudo, por não ter de saber as coisas mas só o sítio onde elas estão. Com as tecnologias eles não fazem time-out, não fazem refresh uns dos outros e não param para reflectir, para pensar, para ajustar a forma de pensar sobre algo que se passou durante o dia. Estão sempre ligados e isso ajuda a que os jovens que estão mais vulneráveis facilmente entrem no jogo. Sobretudo se têm ideias de morte, é como juntar o útil ao agradável. O jogo é uma coisa prazerosa onde se ganha. Aqui é completamente ao contrário.

O suicídio entre os jovens é a segunda causa de morte, diz a OMS.

Primeiro são os acidentes de viação e depois o suicídio. Eu diria que poderá haver muitas situações de suicídio que são considerados acidente e podem não ser. Em termos de número podemos ter dados superiores e não temos valores concretos das tentativas. Tenho situações de jovens que já tentaram suicidar-se três vezes, quer dizer que estão em sofrimento e que quem está à volta não se apercebe. Entrar neste jogo é muito fácil para estes jovens.

Mas o jogo não é também o testar os limites? Ou seja, não pode ser jogado por jovens que não têm esse quadro que descreve?

É comum e típico dos jovens querer testar os limites, mas só até um certo nível, percebem quando há uma zona de perigo. Portanto, se não estiverem em sofrimento ou vulneráveis recuam e não jogam.

As notícias sobre este jogo podem levar mais jovens a entrar no Baleia Azul?

Haverá muitos que terão curiosidade porque querem saber o que é, até que ponto os tentam manipular, mas só jogarão se estiverem em grande sofrimento.

Há tentativas de suicídio online, os jovens entram em directo, mostram aos outros o que vão fazer e que acabam por ser salvos porque alguém que está a ver telefona para a polícia, jovens que nem sequer estão em Portugal (que estão em França, em Espanha, nos EUA) e que alertam as autoridades. Tenho relatos de pais que tiveram a polícia e os bombeiros em casa, de repente, sem saber porquê, quando tinham o filho ou a filha, noutra divisão da casa, a fazer essa tentativa em directo.

Mas o jogo ou a série não podem servir de alerta para não cometer o suicídio?

Pode funcionar não para os que estão em sofrimento, mas para os que vão ouvir as notícias com mais cuidado sobre outros que ficaram hospitalizados ou morreram. Vai funcionar para pais e professores para estarem atentos. Se estas situações não surgissem como é que a população em geral sabia?

Pode servir para jovens falarem com um professor ou com os pais de um amigo que esteja nessa situação. É preciso conhecer os sinais de alerta – alterações de comportamento, baixo rendimento escolar, distanciamento na relação com os colegas.

Se calhar já existiram mais casos do Baleia Azul que os profissionais das urgências não identificaram como tal e definiram como automutilação porque o jogo era desconhecido. Haverá mais casos que poderão ser associados ao jogo.

Faz sentido para os jovens jogarem o Baleia Rosa ou vão achar que é uma parvoíce?

É positivo e estará adaptado aos que gostam da lógica dos desafios e de conseguir fazer bem e depressa as tarefas que, neste caso, são adequadas. É preferível que joguem e é de recomendar sempre que peçam ajuda especializada quando se sentem num beco sem saída.

O que é a “geração-cordão” que dá título ao seu livro?

É uma metáfora que tem a ver com a questão de ser uma geração que está sempre ligada às tecnologias e que não tem competências de autonomia e de desenvolvimento do seu projecto de vida, que não corta o cordão umbilical, não se autonomiza, não faz as tarefas da adolescência e está em contacto com o mundo mas só virtualmente. Defendo que é importante cortar o cordão umbilical à nascença e criar laços, deixar as crianças crescer de forma saudável.

Como é que devemos gerir as tecnologias nas nossas vidas?

Ainda estamos a anos-luz. Em inquéritos é muito engraçado os pais responderem: “não deixo estar muito tempo” ou “deixo o tempo que baste” [a usar o computador]. O que é isso? É ausência de clareza e traz muitos conflitos. Muitos jovens chegam à consulta porque os pais não sabem o que fazer. Desde crianças que lhes damos tablets e smartphones sem estabelecer regras e quando chegam à adolescência já é tarde.

Até que ponto os pais também dão um mau exemplo do uso das tecnologias?

Os pais são um exemplo presencial e virtual. E ainda não parámos para pensar nisso. Temos muitos pais com adolescentes que têm Facebook e outras redes e querem instituir regras em casa, mas depois fazem posts à uma da manhã. Costumo dizer que à hora de jantar, a família pode fazer um “encontro da tecnologia” onde se juntam os telefones todos. A tecnologia encontra-se num sítio e a família noutro para conversar e conviver. Dificilmente as pessoas o fazem.

Alguns pais estão conscientes que são um modelo presencial, mas não acredito que tenham a ideia que também são um exemplo virtual. Mesmo com crianças pequenas, estas observam a relação do adulto com a tecnologia e fazem uma aquisição do que vêem. Estamos no princípio da consciencialização e é preciso afinar práticas educativas. É importante que se comece cedo, não a evitar as tecnologias, mas a enquadrá-las, introduzindo-as com regras e limites.

Haverá mais situações de jovens e crianças em risco e mais a experimentar o Baleia Azul. Tenho acompanhado jovens com automutilação. Lembro-me de uma jovem que não conseguia verbalizar e escrevia sobre a sensação que tinha quando se cortava, era um alívio, tudo ficava mais simples e mais fácil de lidar.

Como é que se resolve?

Há uma componente de intervenção com a família. É importante que os objectos cortantes não estejam disponíveis, que a família não faça juízos de valor, mas que compreenda o que se passa. Geralmente está escondido, nota-se nos comportamentos: baixo rendimento escolar, depressão, isolamento, jovens que chegam à consulta muito vestidos… Começo logo a suspeitar. Há uma componente de intervenção de psicoterapia que perdura

Cura-se?

(Silêncio) É importante a adesão do jovem à intervenção. Para compreender esse estado e fazer um caminho diferente com estratégias positivas. Vi algumas imagens da mutilação da baleia no braço de uma jovem, que se nota que tem uma componente artística fantástica, portanto um desenho daquela jovem deve ser belíssimo. Significa que tem interesses que foram deixados de lado e que é preciso ir buscar. Muitas vezes há acontecimentos de vida – perda de coesão na família, a dificuldade de os pais têm de lidar com o crescimento dos filhos… Não quero fazer uma relação directa com o divórcio, mas às vezes, percebemos que estes jovens andam à semana, numa casa e noutra, e ninguém se apercebe do que está a acontecer.

Estes jovens que se automutilam também podem ser vítimas de bullying?

De bullying e de ciberbullying. Eles têm os telemóveis durante todo o dia – as regras variam de casa para a escola, de escola para escola, e até há professores que têm uma cesta onde os alunos põem o telefone, mas eles têm dois, o outro fica no bolso!

Portanto, há fotografias, vídeos, criam-se grupos para gozar com o colega, criam-se situações que é difícil os adultos terem percepção das mesmas porque uma coisa é o bullying directo que se vê no recreio, outra é este que se passa na rede.

Se não vêem, o que podem fazer os pais ou os professores?

Estes jovens dão sinais, ficam mais inquietos, mais agressivos. Às vezes podem ser os pais a pedir ajudar, a ir a uma consulta de triagem. Os pais podem ver o histórico do computador; fazer uma conversa pela positiva, de interesse e não de crítica. Tudo isto é mais fácil se os pais começarem quando eles ainda são crianças porque na adolescência cheira-lhes a intrusão. Aos 16 anos não se lhes pode pedir a password do email.

O que está a dizer é que os pais precisam de criar relação com os filhos e falar com eles.

É essencial, desde muito cedo. Eles são do toque, desenvolvem essas competências sozinhos. Os pais ficam descansados porque eles são muito espertos e esquecem-se que os filhos criam uma pegada digital, criam contas de Facebook ou de email aos oito/dez anos, podem entrar em sites que não são seguros, que podem falar com pessoas mais velhas… Damos uma chucha e há uma altura para a tirar, mas a da tecnologia é para o resto da vida.

E os pais estão a dar essa chucha antes de lhes dar um livro, um brinquedo de pano ou de madeira.

É verdade. Damos e não tem mal em dar, mas não pode ser só isso. Não tem mal usar tecnologia, é preciso saber as regras e os pais não estão a fazer isso.

Que outros casos ligados a dependência da tecnologia chegam à consulta de Santa Maria?

Chegam-nos as situações mais graves. A consulta existe desde 2013. São sobretudo rapazes com número de horas exagerado [à frente de um ecrã], em absentismo escolar, sem projectos de vida, com perturbações psiquiátricas ou deprimidos e que encontraram no jogo online uma forma de ter prazer e de viver. São desinvestidos do ponto de vista físico, não comem ou comem em excesso porque estão sempre em frente ao computador.

E as raparigas?

As raparigas têm dependência das redes sociais o que implica socialização virtual e presencial, como há partilha de conteúdos, fotos e vídeos, encontram-se. Portanto recorrem menos à consulta.

Qual é a percentagem de jovens com dependência?

Os estudos indicam 25%. No Japão ou na China é mais de 45%. Associado ao número de horas temos o isolamento e a desistência de outro tipo de actividades, de lazer, desportivas e de contacto social. Efectivamente, temos muitos jovens que deixam a prática do desporto porque assim têm mais horas para jogar; que não vão ao cinema ou que aproveitam os furos nas aulas para jogar.

O ministro da Saúde japonês implementou os bootcamps obrigatórios de desenvolvimento pessoal sem tecnologia. Têm centros de internamento.

São necessários em Portugal?

Nalgumas situações que temos que são mais graves. Estes jovens estão em absentismo escolar e não trabalham. Há comunidades terapêuticas para toxicodependentes que podem dar apoio nestas situações porque do ponto de vista neurológico é uma dependência sem estar ligada a nenhuma substância, mas activa as mesmas partes do cérebro que as drogas ou o álcool.

Fazem-se planos de intervenção para a saúde, alimentação, prevenção rodoviária, parece-me que cada município devia desenvolver um plano de intervenção saudável de tecnologia – o próprio município disponibiliza wi-fi, por que não disponibilizar formação para pais, professores e jovens? Duvido que haja algum programa autárquico sobre este assunto, que é urgente.

Passaria por consultas?

Passaria primeiro por formação. Passaria por termos técnicos nos centros de saúde que possam fazer formação mais concreta para responder quando há casos de maior vulnerabilidade. Ainda estamos no início do que vai aparecer.

Vai ser pior que o Baleia Azul?

Pode haver outros jogos, estão sempre a surgir mais jogos.

 

Serviços telefónicos de ajuda e apoio ao suicídio em Portugal e na Europa

 

SOS – Serviço Nacional de Socorro 112

SOS Voz Amiga (entre as 16 e as 24h00) 21 354 45 45 91 280 26 69 96 352 46 60

SOS Telefone Amigo 239 72 10 10

Telefone da Amizade 22 832 35 35

Escutar – Voz de Apoio – Gaia  22 550 60 70

SOS Estudante (20h00 à 1h00) 808 200 204

Vozes Amigas de Esperança (20h00 às 23h00) 22 208 07 07

Centro Internet Segura 800 21 90 90  Linha Internet Segura

 

 

Não te deixes enganar pela Baleia – Se entras no jogo, o teu papel é perder

Maio 9, 2017 às 2:30 pm | Publicado em Divulgação, Vídeos | Deixe um comentário
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