“Brincar devia ser uma tarefa tão obrigatória como lavar os dentes”

Agosto 6, 2019 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do DN Life de 18 de julho de 2019.

Inês Afonso Marques, autora do livro A brincar também se educa, assegura que 15 minutos por dia de brincadeiras entre pais e filhos podem fazer uma diferença significativa no desenvolvimento das crianças. Com uma seleção de atividades simples que podem ser feitas em família, a psicóloga clínica pretende desmistificar a ideia da falta de tempo dos pais.

Texto de Joana Capucho

Em 14 anos de prática clínica com crianças e pais, a psicóloga Inês Afonso Marques habituou-se a ouvir os mais novos queixarem-se da falta de tempo dos pais para brincar. “E os pais confirmam que não têm tempo e não sabem brincar com os filhos”.

Por isso, é comum prescrever 15 minutos diários de brincadeiras às famílias – o chamado tempo especial. “Ao fim de muito pouco tempo, registam-se melhorias em termos de humor, na redução do número de birras, na autoestima e na satisfação”, assegura a autora do livro A brincar também se educa, que chegou esta semana às livrarias.

Os pais, frisa a psicóloga Inês Afonso Marques, “tendem a ser os companheiros preferidos das brincadeiras dos filhos”.

Para a psicoterapeuta infantojuvenil, não se atribui a importância que é merecida ao tempo de brincar e ao envolvimento de pais e filhos nas brincadeiras. “Brincar devia ser uma tarefa tão obrigatória como lavar os dentes”, sublinha Inês Marques, destacando que “através das brincadeiras podemos passar um conjunto de ensinamentos e oportunidades de aprendizagem às crianças”. E os pais, frisa, “tendem a ser os companheiros preferidos das brincadeiras dos filhos”.

Com a publicação deste livro, a coordenadora da equipa infantojuvenil da Oficina de Psicologia “quer desmistificar a ideia que é preciso muito tempo” para brincar. “Se existir muito tempo, maravilha. Mas 15 minutos diários especiais, em que os pais estão realmente focados nos filhos, podem ser suficientes para transmitir oportunidades importantes às crianças”, diz. Este é “o tempo razoável, um valor de referência que pode realmente fazer a diferença”. São períodos em que todos se abstraem do jantar, dos e-mails, das tarefas de casa, dos trabalhos da escola.

Após os 12/13 anos, os minutos especiais podem ser aproveitados, por exemplo, com jogos de tabuleiro, corridas, jogos de basquetebol, passeios de bicicleta ou a fazer uma receita.

“Quinze minutos por dia podem fazer uma diferença muito significativa no crescimento de uma criança e na dinâmica de uma família. Além dos laços emocionais, há muitas competências que podem ser estimuladas”. Inês Afonso Marques refere-se, por exemplo, à criatividade, imaginação, capacidade de resolução de problemas, descoberta de emoções. “Esse tempo é uma espécie de tubo de ensaio em que as crianças experimentam uma série de competências que podem replicar lá fora, na vida real, no futuro”.

Na opinião da psicóloga, é preciso haver flexibilidade: dar espaço e tempo às crianças. “Brincar implica sujar, desarrumar, fazer barulho. Tudo isso torna as brincadeiras muito ricas”. Hoje, lamenta, as crianças brincam cada vez menos ao ar livre – “há quase uma iliteracia do brincar”. “E é tão rico o contacto com a natureza, o trepar às árvores, o brincar com a água, criar histórias em diferentes cenários”.

No livro, do qual extraímos os exemplos que apresentamos em baixo, Inês Afonso Marques dá sugestões de atividades até ao início da adolescência. No entanto, alerta, “a partir daí, os 15 minutos continuam a ser importantes, mas a forma de interação não será tanto através da brincadeira”. Após os 12/13 anos, os minutos especiais podem ser aproveitados, por exemplo, com jogos de tabuleiro, corridas, jogos de basquetebol, passeios de bicicleta ou a fazer uma receita.

Jogo dos objetos

Imaginem diferentes objetos: um sapato, uma bola vermelha, um livro, uma cadeira, uma folha, uma caixa. Em conjunto, tentem arranjar novas funções para cada um deles. Quem é mais criativo? Os pais ou os filhos? Como o jogo não implica estar na presença dos objetos, pode ser feito em qualquer lugar. É uma brincadeira simples que estimula a criatividade, a curiosidade e a capacidade de resolução de problemas.

Caixas mistério

Disponha vários objetos dentro de caixas em cima de uma mesa. Tape os olhos dos seus filhos e desafie-os a tentar adivinhar quais são os objetos, estimulando os diferentes sentidos. Pode usar, por exemplo, pau de canela ou canela em pó, chá, pétalas de flor cheirosas, sal, areia, aparas de lápis, bolinhas de algodão, esferovite, berlindes, giz, gelatina, gel de banho, elásticos, gomo de limão, sumo de laranja, arroz, água, molas.

Calendário dos afetos

Façam um calendário com atividades que estimulem os afetos. Podem definir um dia para as crianças fazerem o jantar, a noite das massagens ou o dia de tomar banho de mangueira no quintal. São atividades simples que estimulam as emoções e reforçam os laços familiares. Também podem construir uma caixa anti-stress para toda a família onde estejam objetos que ajudarão a acalmar em momentos de maior ansiedade.

Brincadeiras sem brinquedos

Façam desenhos um dos outros e pendurem-nos durante algum tempo num sítio visível. Preparem um piquenique, leiam um livro em conjunto, plantem uma árvore, façam uma luta de almofadas. Inês Afonso Marques sugere que dancem em família, saltem em poças de água, façam uma gincana, experimentem fazer origami, construam um brasão familiar. Há imensas atividades que não precisam de objetos especiais. Tão simples como dar um mergulho no mar.

A geração iPhone tem um fraquinho por jogos de tabuleiro, sabia?

Janeiro 4, 2015 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do Observador de 21 de dezembro de 2014.

Getty Images

Ana Cristina Marques

Gasta a bateria do seu smartphone ou iPad com jogos e passa horas agarrado à consola. Mas é provável que o seu filho também goste de jogos de tabuleiro: do tradicional Monopólio ao complexo xadrez.

Aos quatro anos de idade Camila pediu o primeiro tabuleiro de xadrez ao Pai Natal. Como lá em casa ninguém sabia como mover as 32 peças pelas 64 casas, a família ficou surpreendida, mas o pedido não foi negligenciado. “Ela nunca gostou de brincar ao faz de conta nem nunca se deu bem com barbies“, conta a mãe, Rita Avelino.

Atualmente com dez anos, Camila é membro do Clube de Xadrez da Escola Secundária D. Filipa de Lencastre, em Lisboa, criado pela associação de pais há três anos e que já conquistou muitos alunos. “Temos 10% da escola em competição federada e a Camila é uma das principais concorrentes”, explica Rita, a também diretora do respetivo grupo.

Mas nem só de xadrez se fazem as brincadeiras na casa dos Avelinos. A família, composta ainda por mais dois filhos, de sete e 11 anos, tem igual preferência pelo Monopólio e pelo Catan, um jogo de estratégia cujo objetivo é construir cidades. Entre quatro paredes, os jogos de tabuleiro são levados a sério e, ao contrário do que se possa pensar, foram os filhos que os pediram aos pais. Rita Avelino conta ainda um episódio vivido esta sexta-feira no ATL da escola. Perante uma sala de jogos recheada com opções digitais, as crianças pediram jogos de tabuleiro. “São os miúdos que querem jogar, mas acredito que haja pouca disponibilidade dos pais para brincar com eles”, acrescenta.

A psicóloga infanto-juvenil Vera Lisa Barroso confirma ao Observador que conhece muito casos de crianças da geração iPhone (que nasceram já na era dos smartphones) que pedem jogos de tabuleiro porque sabem que é uma das poucas maneiras de os pais brincarem com elas. Neste caso, isso acontece sobretudo como resultado do que se passa no consultório, em que pais e filhos são convidados a reunirem-se em torno deste tipo de jogos, embora construídos para fins clínicos, que promovem a interação social e familiar. Mas há outras vantagens associadas.

Os jogos de tabuleiro implicam a partilha de regras entre todos os participantes, explica a profissional da Oficina de Psicologia. “Observamos benefícios de um ponto de vista social, como a capacidade de as crianças aprenderem a cumprir diretrizes previamente definidas e acordadas entre todos, além de aprenderem a respeitar e ajudar o adversário”. De um ponto de vista cognitivo, existe o desafio estratégico orientado para o objetivo de ganhar; de um ponto de vista emocional, o contacto com o orgulho e felicidade da vitória, mas também com a frustração e zanga da derrota.

Ágata Mandillo concorda com as características enunciadas. Não é formada na área, ainda que esteja a tirar um doutoramento em educação, mas é mãe de duas raparigas que têm claras preferências por jogos de tabuleiro. Se ao início eram os pais que as estimulavam nesse sentido, mais recentemente a iniciativa é das próprias filhas — é exemplo o jogo sobre o ciclo da água que uma das meninas pediu para comprar e para levar para a escola. Mas porque gostam elas desta forma de entretenimento? Porque promove a jogatana entre família e amigos, argumenta a mãe, além do sentido estético dos materiais e das cores neles utilizados.

No entanto, também há tempo de antena para brincadeiras digitais que ocupam, sobretudo, memória no iPad da família Mandillo. Apesar de lhes reconhecer mais-valias, a também dona e gerente de um restaurante de pizzas biológicas em Lisboa explica que, não raras vezes, esse jogos têm “estratégias muito mecânicas e sistemáticas”. Daí que Ágata olhe para as brincadeiras de papel e cartão como sendo “mais estimulantes intelectualmente, apesar de darem mais trabalho por não serem tão imediatas”.

Dito isto, voltamos à “velha” guerra, com o campo de batalha a ser composto pelos jogos de tabuleiro e aqueles digitais ou, então, os videojogos. Erguidas as espadas e entoados os hinos de combate, há vencedores? “Os jogos digitais permitem a estimulação de todas as competências cognitivas dos jogos de tabuleiro, mas com outras vantagens extremamente aliciantes para as crianças que ficam fascinadas com a qualidade gráfica e com o realismo das imagens e dos sons, enquanto muitos pais ficam fascinados com a possibilidade de terem um tempinho para eles”, garante Vera Lisa Barroso.

No entanto, não há final feliz à vista porque os videojogos são “tendencialmente isolantes”, limitam a interação social dos mais novos e podem tornar-se viciantes. Mas desengane-se quem pensa que os tabuleiros de cartão ou de plástico representam a perfeição – estes não estão associados à promoção de imaginação e criatividade.

Mas o mais importante é mesmo brincar. “As crianças devem jogar e brincar todos os dias, porque são crianças e este é o seu modo de descarregar energia, libertar emoções, trabalhar a imaginação, expressar aquilo que pensam e sentem, interagir com os outros”, conclui a psicóloga infanto-juvenil. “Aquilo que costumo dizer aos pais das crianças com quem trabalho é que o importante é jogar… brincar… Daqui a uns anos nenhuma criança conseguirá contabilizar, ao certo, quanto tempo é que os pais despenderam a brincar com ela, mas certamente vai recordar que brincavam”.

 

 

 


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