Eduardo Sá: “As crianças saudáveis também ficam tristes”

Maio 18, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista do http://observador.pt/ a Eduardo Sá no dia 10 de maio de 2017.

Eduardo Sá respondeu às perguntas mais complicadas. Desmistificou a Baleia Azul, criticou a forma como a escola está organizada e pediu aos pais mão dura quando ela é necessária. Leia a entrevista.

 Eduardo Sá, psicólogo, professor, 55 anos, cinco filhos. Esteve na redação do Observador esta manhã numa entrevista coletiva, transmitida em direto, e onde também houve lugar às perguntas dos leitores. Foi esclarecedor, foi provocador, foi polémico. E falou de muita coisa. Desde a Baleia Azul, passando pelas vacinas, educação e dando dicas e truques sobre a difícil temática: como conseguir lidar com os adolescentes?

 Fala muito de pais e filhos. De certeza que há imensos pais e mães pelo país inteiro que costumam lê-lo e ouvi-lo e aposto que eles têm uma pergunta sempre atrás da orelha: “Será que ele consegue ser o pai que diz que nós devemos ser?”
Eu costumo dizer que os bons pais, e sublinhe-se bons, têm três qualidades ou três defeitos consoante a perspetiva que queiram colocar. Têm, invariavelmente, coração grande. Têm a cabeça quente, o que significa que as boas pessoas têm obrigatoriamente mau feitio e falam de mais. E, portanto, numa circunstância dessas, mal seria que eu achasse que deveria ser bacteorologicamente puro. Aliás, eu devo dizer que era engraçadíssimo que, um dia, um jornal como este fizesse uma campanha para transformar o lado esganiçado das mães em património da humanidade, porque eu acho lindíssimo, acho do mais bonito e comovente que existe, quando uma mãe faz aquelas reações acaloradas, fúria de mãe, que culmina sempre com duas pérolas: “Qualquer dia vou-me embora desta casa e vocês vão ver” ou “Não fales assim que sou tua mãe”, que faz com que os filhos fiquem estranhamente tranquilos, porque os filhos balizam-se pelos mesmos indicadores que os pais em relação a eles. Quando um filho sente que uma mãe está estranhamente calada é porque está doente e quando assume aquela postura acalorada que só as mães com um coração muito grandes são capazes de ter, começam: “Pronto, ela está no seu melhor”. Eu penso que os pais por dentro não são diferentes.

Portanto, também se irrita, lá em casa?
Mal seria se não o fizesse.

Tem um bebé de 17 meses… Tem uma diferença muito grande para os outros quatro, não é? Como é que é ter agora um bebé em casa? Vai ser um pai completamente diferente? Pensou muito sobre o assunto?
Não. Eu acho, aliás, que devia ser proibido pensarmos demais quando somos pais. Mas vou ser diferente. Tenho a ideia que num primeiro filho nós somos sempre piores pais. E isto vale para todos, acho eu.

É bastante provável, sim…
Portanto, os nossos primeiros filhos deviam ser sempre considerados crianças em perigoso porque nós, às vezes, lemos demais, às vezes queremos que eles se comportem de acordo com um conjunto de regras que depois têm muito a ver com a nossa história. Nós queremos sempre que um primeiro filho cicatrize muitas experiências da nossa vida. E, portanto, temos um bocadinho a ideia de que, num primeiro filho, acima de tudo, queremos ser melhores do que os pais que nós tivemos, queremos, de preferência não repetir os erros que eles foram repetindo, por mais que nós imaginássemos que eles estavam distraídos e, por ventura, até nem estariam. Queremos que eles peguem os sonhos que nós deixámos mais ou menos pelo caminho. E isto, num primeiro filho, é uma coisa terrível. Qual é a vantagem de um primeiro filho? O álbum do bebé tem as fotografias todas.

Verdade.
E, portanto, à medida que nós vamos sendo pais, vamo-nos reconciliando com o equipamento base com que todos nós lidamos e que muitas vezes desprezamos. Nós temos um sexto sentido absolutamente magnífico. As mães, não é publicidade enganosa, passam a vida a dizer que têm um dedo que adivinha. Só as mães é que descobrem os pacotes de leite debaixo das almofadas do sofá. E, portanto, este lado, que eu acho que é muito bonito, só se vai desenvolvendo à medida que vamos deixando de querer ser bons pais. E eu acho que às vezes, esta exigência de sermos bons pais estraga toda esta capacidade que nós temos para sermos pais, só pais.

Há uma questão preocupante, que temos visto nas últimas semanas, que é a da Baleia Azul. Acha que todas as crianças ou jovens estão sujeitos ao mesmo risco ou só aqueles que são mais problemáticos, à partida é que estão mais expostos?
Tenho medo de algum discurso público sobre os adolescentes, porque tenho medo que, às vezes, seja um bocadinho invejoso. É inacreditável que quando nós falamos dos adolescentes, falamos de riscos, de perigos, e, invariavelmente, esquecemo-nos das mais-valias incalculáveis que eles têm. E, portanto, é muito importante que nós possamos deixar claro para os pais que não há como um adolescente passar a ser um adolescente auto-mutilado, à conta de um jogo. Não vale a pena. Mas isto deve colocar-nos com uma discussão dura em cima da mesa, isto é, continuo a achar que devia ser proibido os pais terem programas espiões dentro dos computadores dos filhos. É batota. Mas acho que os pais são a verdadeira entidade reguladora da vida dos filhos e, portanto, não consigo compreender porque é que os pais se encolhem quando se trata de saber quais são os sites pelos quais os filhos andam a passear, quais são os amigos virtuais que têm, quais são os jogos por onde passam, etc. Não me choca que os pais façam isso na presença dos filhos, fazendo o uso da sua autoridade que é calma, uma autoridade que advém da sabedoria e da bondade dos próprios pais. E, portanto, tenho medo que se tenha falado tudo isto com tanto bruaá, que eu acho inquietante, mas às vezes não consigo perceber outras inquietações que deviam ser igualmente importantes. Há muitos mais adolescentes que entram nas redes sociais e que, de repente, de fotografia em fotografia, estão a tirar a roupa para alguém que está do outro lado. E, quando a determinada altura decidem parar, são advertidos, são ameaçados e as represálias em relação aos seus próprios pais são mais que muitas. Em termos de dimensão, é incomparavelmente superior em relação àquilo que se passa com a Baleia Azul e é uma rede que, de uma forma incompreensível para mim, tem merecido um silêncio que não consigo entender.

Mas, nesse caso, a polícia até já fez um vídeo para avisar os jovens e os pais. O que eu lhe queria perguntar era se está toda a gente sujeita ao mesmo risco?
Não, como é evidente. Não, por favor.

Ou até um jovem que parece mais equilibrado…
Quando vê aqueles filmes de época, em plena segunda guerra, vê o modo como muitas pessoas que estavam sob tortura induziam uma dor aguda de forma a calarem uma dor que, obviamente, a tortura infligia. Portanto, vamos ser claros: a esmagadora maioria dos jovens é incomparavelmente saudável e, comparados com os pais, seguramente mais saudáveis, por uma razão simples: porque os pais têm feito até um bom trabalho. Não vale a pena, no entanto, nós termos a ideia de que todos os adolescentes são saudáveis. Há adolescentes que são de facto muito doentes e que, às vezes, quando entram nesta vertigem, claro que estão à procura de uma dor, mutilam-se para sossegar, como é evidente, e silenciar, quando mais não seja, transitoriamente, uma dor que é muito mais intensa e muito mais regular na vida deles.

E o facto de isto se ter tornado uma onde louca nos meios de comunicação social…
Devia ser proibido.

Acha que isto leva a que haja mais curiosidade ainda e que possa levar a mais casos?
A prova de que talvez a comunicação social não esteja tão sintonizada com os adolescentes são as manchetes sobre manchetes que isto tem dado. A comunicação social, curiosamente, tem uma atitude, uma discrição exemplar em relação aos números de suicídios que vão acontecendo, porque a própria comunicação social tem a noção de que às vezes desencadeia um efeito dominó, que é francamente prejudicial, sobretudo naqueles adultos ou naqueles adolescentes que estão naquele registo quase impulsivo: “Faço ou não faço?”. É evidente que tudo isto fez com que muitos adolescentes, que nem sequer sabiam da existência do Baleia Azul, tenham lá ido ver. Não acho que isto seja razoável ou, pelo menos, é escorregadio. Mas sejamos razoáveis. Tomando em consideração o modo autogestacionário como muitos adolescentes circulam na internet, a percentagem de adolescentes que resvalam para o perigo é absolutamente mínima, tomada em consideração a distração dos pais em relação a isso.

ler o resto da entrevista no link:

http://observador.pt/especiais/eduardo-sa-as-criancas-saudaveis-tambem-ficam-tristes-a-tristeza-e-o-melhor-ansiolitico-do-mundo/

 

“Se calhar já existiram mais casos do Baleia Azul que não foram identificados como tal”

Maio 16, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista do https://www.publico.pt/ a Ivone Patrão no dia 7 de maio de 2017.

A professora teme que os casos de adolescentes que chegam ao hospital por causa da Baleia Azul possam ser mais do que os já conhecidos e apela aos pais para que estabeleçam regras.

Bárbara Wong

Nas últimas semanas, o país foi surpreendido com um jogo que pode levar os que aderem ao suicídio, é a última etapa do jogo, antes disso as propostas passam pela automutilação. É o jogo Baleia Azul e tem tido aderentes que vão parar ao hospital. Paralelamente há uma série para jovens e adolescentes, com produção executiva da ex-estrela da Disney Selena Gómez, que também gira em torno do suicídio de uma adolescente e que já levou escolas nos EUA a boicotar a série; na Nova Zelândia e no Canadá, os departamentos responsáveis pela classificação dos filmes considerou a série Por 13 Razões não adequada a jovens com menos de 18 anos e no Brasil a visualização levou a que centenas de jovens pedissem ajuda. A série que é uma adaptação do livro de Jay Asher aborda ainda a violação, o bullying, a depressão e a falta de acesso a cuidados de saúde mental.

A psicóloga Ivone Patrão, que trabalha na primeira consulta de dependência de Internet no país, que funciona no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, escreveu recentemente o livro #geração-cordão sobre as gerações que estão dependentes das novas tecnologias. A também professora no ISPA- Instituto Universitário teme que os casos de adolescentes que chegam ao hospital por causa do Baleia Azul possam ser mais do que os já conhecidos e apela aos pais para que estabeleçam regras.

Temos o jogo Baleia Azul e temos a série Por 13 Razões onde o suicídio está permanentemente presente. Até que ponto estes não servem para despoletar nos jovens o desejo do suicídio?

Claro. Confrontamo-nos com jovens que estão em sofrimento e se estas tarefas do Baleia Azul não existissem eles estariam a automutilar-se e a instituir um plano suicida. O jogo ou a série só vêm dar o mote. Há um sofrimento físico que ajuda a anular o sofrimento psicológico. O jovem pensa: “Eu sinto-me tão deprimido, tão vulnerável, tão mal que ao cortar-me sinto-me aliviado” e este jogo, para um jovem isolado, surge como alguém que não faz juízos de valor e o incita.

Até que ponto esta geração está mais perdida do que as anteriores porque têm menos perspectivas de vida?

Não diria que é uma geração perdida, mas que tem um risco que as anteriores não tinham, por causa do acesso fácil a tudo, por não ter de saber as coisas mas só o sítio onde elas estão. Com as tecnologias eles não fazem time-out, não fazem refresh uns dos outros e não param para reflectir, para pensar, para ajustar a forma de pensar sobre algo que se passou durante o dia. Estão sempre ligados e isso ajuda a que os jovens que estão mais vulneráveis facilmente entrem no jogo. Sobretudo se têm ideias de morte, é como juntar o útil ao agradável. O jogo é uma coisa prazerosa onde se ganha. Aqui é completamente ao contrário.

O suicídio entre os jovens é a segunda causa de morte, diz a OMS.

Primeiro são os acidentes de viação e depois o suicídio. Eu diria que poderá haver muitas situações de suicídio que são considerados acidente e podem não ser. Em termos de número podemos ter dados superiores e não temos valores concretos das tentativas. Tenho situações de jovens que já tentaram suicidar-se três vezes, quer dizer que estão em sofrimento e que quem está à volta não se apercebe. Entrar neste jogo é muito fácil para estes jovens.

Mas o jogo não é também o testar os limites? Ou seja, não pode ser jogado por jovens que não têm esse quadro que descreve?

É comum e típico dos jovens querer testar os limites, mas só até um certo nível, percebem quando há uma zona de perigo. Portanto, se não estiverem em sofrimento ou vulneráveis recuam e não jogam.

As notícias sobre este jogo podem levar mais jovens a entrar no Baleia Azul?

Haverá muitos que terão curiosidade porque querem saber o que é, até que ponto os tentam manipular, mas só jogarão se estiverem em grande sofrimento.

Há tentativas de suicídio online, os jovens entram em directo, mostram aos outros o que vão fazer e que acabam por ser salvos porque alguém que está a ver telefona para a polícia, jovens que nem sequer estão em Portugal (que estão em França, em Espanha, nos EUA) e que alertam as autoridades. Tenho relatos de pais que tiveram a polícia e os bombeiros em casa, de repente, sem saber porquê, quando tinham o filho ou a filha, noutra divisão da casa, a fazer essa tentativa em directo.

Mas o jogo ou a série não podem servir de alerta para não cometer o suicídio?

Pode funcionar não para os que estão em sofrimento, mas para os que vão ouvir as notícias com mais cuidado sobre outros que ficaram hospitalizados ou morreram. Vai funcionar para pais e professores para estarem atentos. Se estas situações não surgissem como é que a população em geral sabia?

Pode servir para jovens falarem com um professor ou com os pais de um amigo que esteja nessa situação. É preciso conhecer os sinais de alerta – alterações de comportamento, baixo rendimento escolar, distanciamento na relação com os colegas.

Se calhar já existiram mais casos do Baleia Azul que os profissionais das urgências não identificaram como tal e definiram como automutilação porque o jogo era desconhecido. Haverá mais casos que poderão ser associados ao jogo.

Faz sentido para os jovens jogarem o Baleia Rosa ou vão achar que é uma parvoíce?

É positivo e estará adaptado aos que gostam da lógica dos desafios e de conseguir fazer bem e depressa as tarefas que, neste caso, são adequadas. É preferível que joguem e é de recomendar sempre que peçam ajuda especializada quando se sentem num beco sem saída.

O que é a “geração-cordão” que dá título ao seu livro?

É uma metáfora que tem a ver com a questão de ser uma geração que está sempre ligada às tecnologias e que não tem competências de autonomia e de desenvolvimento do seu projecto de vida, que não corta o cordão umbilical, não se autonomiza, não faz as tarefas da adolescência e está em contacto com o mundo mas só virtualmente. Defendo que é importante cortar o cordão umbilical à nascença e criar laços, deixar as crianças crescer de forma saudável.

Como é que devemos gerir as tecnologias nas nossas vidas?

Ainda estamos a anos-luz. Em inquéritos é muito engraçado os pais responderem: “não deixo estar muito tempo” ou “deixo o tempo que baste” [a usar o computador]. O que é isso? É ausência de clareza e traz muitos conflitos. Muitos jovens chegam à consulta porque os pais não sabem o que fazer. Desde crianças que lhes damos tablets e smartphones sem estabelecer regras e quando chegam à adolescência já é tarde.

Até que ponto os pais também dão um mau exemplo do uso das tecnologias?

Os pais são um exemplo presencial e virtual. E ainda não parámos para pensar nisso. Temos muitos pais com adolescentes que têm Facebook e outras redes e querem instituir regras em casa, mas depois fazem posts à uma da manhã. Costumo dizer que à hora de jantar, a família pode fazer um “encontro da tecnologia” onde se juntam os telefones todos. A tecnologia encontra-se num sítio e a família noutro para conversar e conviver. Dificilmente as pessoas o fazem.

Alguns pais estão conscientes que são um modelo presencial, mas não acredito que tenham a ideia que também são um exemplo virtual. Mesmo com crianças pequenas, estas observam a relação do adulto com a tecnologia e fazem uma aquisição do que vêem. Estamos no princípio da consciencialização e é preciso afinar práticas educativas. É importante que se comece cedo, não a evitar as tecnologias, mas a enquadrá-las, introduzindo-as com regras e limites.

Haverá mais situações de jovens e crianças em risco e mais a experimentar o Baleia Azul. Tenho acompanhado jovens com automutilação. Lembro-me de uma jovem que não conseguia verbalizar e escrevia sobre a sensação que tinha quando se cortava, era um alívio, tudo ficava mais simples e mais fácil de lidar.

Como é que se resolve?

Há uma componente de intervenção com a família. É importante que os objectos cortantes não estejam disponíveis, que a família não faça juízos de valor, mas que compreenda o que se passa. Geralmente está escondido, nota-se nos comportamentos: baixo rendimento escolar, depressão, isolamento, jovens que chegam à consulta muito vestidos… Começo logo a suspeitar. Há uma componente de intervenção de psicoterapia que perdura

Cura-se?

(Silêncio) É importante a adesão do jovem à intervenção. Para compreender esse estado e fazer um caminho diferente com estratégias positivas. Vi algumas imagens da mutilação da baleia no braço de uma jovem, que se nota que tem uma componente artística fantástica, portanto um desenho daquela jovem deve ser belíssimo. Significa que tem interesses que foram deixados de lado e que é preciso ir buscar. Muitas vezes há acontecimentos de vida – perda de coesão na família, a dificuldade de os pais têm de lidar com o crescimento dos filhos… Não quero fazer uma relação directa com o divórcio, mas às vezes, percebemos que estes jovens andam à semana, numa casa e noutra, e ninguém se apercebe do que está a acontecer.

Estes jovens que se automutilam também podem ser vítimas de bullying?

De bullying e de ciberbullying. Eles têm os telemóveis durante todo o dia – as regras variam de casa para a escola, de escola para escola, e até há professores que têm uma cesta onde os alunos põem o telefone, mas eles têm dois, o outro fica no bolso!

Portanto, há fotografias, vídeos, criam-se grupos para gozar com o colega, criam-se situações que é difícil os adultos terem percepção das mesmas porque uma coisa é o bullying directo que se vê no recreio, outra é este que se passa na rede.

Se não vêem, o que podem fazer os pais ou os professores?

Estes jovens dão sinais, ficam mais inquietos, mais agressivos. Às vezes podem ser os pais a pedir ajudar, a ir a uma consulta de triagem. Os pais podem ver o histórico do computador; fazer uma conversa pela positiva, de interesse e não de crítica. Tudo isto é mais fácil se os pais começarem quando eles ainda são crianças porque na adolescência cheira-lhes a intrusão. Aos 16 anos não se lhes pode pedir a password do email.

O que está a dizer é que os pais precisam de criar relação com os filhos e falar com eles.

É essencial, desde muito cedo. Eles são do toque, desenvolvem essas competências sozinhos. Os pais ficam descansados porque eles são muito espertos e esquecem-se que os filhos criam uma pegada digital, criam contas de Facebook ou de email aos oito/dez anos, podem entrar em sites que não são seguros, que podem falar com pessoas mais velhas… Damos uma chucha e há uma altura para a tirar, mas a da tecnologia é para o resto da vida.

E os pais estão a dar essa chucha antes de lhes dar um livro, um brinquedo de pano ou de madeira.

É verdade. Damos e não tem mal em dar, mas não pode ser só isso. Não tem mal usar tecnologia, é preciso saber as regras e os pais não estão a fazer isso.

Que outros casos ligados a dependência da tecnologia chegam à consulta de Santa Maria?

Chegam-nos as situações mais graves. A consulta existe desde 2013. São sobretudo rapazes com número de horas exagerado [à frente de um ecrã], em absentismo escolar, sem projectos de vida, com perturbações psiquiátricas ou deprimidos e que encontraram no jogo online uma forma de ter prazer e de viver. São desinvestidos do ponto de vista físico, não comem ou comem em excesso porque estão sempre em frente ao computador.

E as raparigas?

As raparigas têm dependência das redes sociais o que implica socialização virtual e presencial, como há partilha de conteúdos, fotos e vídeos, encontram-se. Portanto recorrem menos à consulta.

Qual é a percentagem de jovens com dependência?

Os estudos indicam 25%. No Japão ou na China é mais de 45%. Associado ao número de horas temos o isolamento e a desistência de outro tipo de actividades, de lazer, desportivas e de contacto social. Efectivamente, temos muitos jovens que deixam a prática do desporto porque assim têm mais horas para jogar; que não vão ao cinema ou que aproveitam os furos nas aulas para jogar.

O ministro da Saúde japonês implementou os bootcamps obrigatórios de desenvolvimento pessoal sem tecnologia. Têm centros de internamento.

São necessários em Portugal?

Nalgumas situações que temos que são mais graves. Estes jovens estão em absentismo escolar e não trabalham. Há comunidades terapêuticas para toxicodependentes que podem dar apoio nestas situações porque do ponto de vista neurológico é uma dependência sem estar ligada a nenhuma substância, mas activa as mesmas partes do cérebro que as drogas ou o álcool.

Fazem-se planos de intervenção para a saúde, alimentação, prevenção rodoviária, parece-me que cada município devia desenvolver um plano de intervenção saudável de tecnologia – o próprio município disponibiliza wi-fi, por que não disponibilizar formação para pais, professores e jovens? Duvido que haja algum programa autárquico sobre este assunto, que é urgente.

Passaria por consultas?

Passaria primeiro por formação. Passaria por termos técnicos nos centros de saúde que possam fazer formação mais concreta para responder quando há casos de maior vulnerabilidade. Ainda estamos no início do que vai aparecer.

Vai ser pior que o Baleia Azul?

Pode haver outros jogos, estão sempre a surgir mais jogos.

 

Serviços telefónicos de ajuda e apoio ao suicídio em Portugal e na Europa

 

SOS – Serviço Nacional de Socorro 112

SOS Voz Amiga (entre as 16 e as 24h00) 21 354 45 45 91 280 26 69 96 352 46 60

SOS Telefone Amigo 239 72 10 10

Telefone da Amizade 22 832 35 35

Escutar – Voz de Apoio – Gaia  22 550 60 70

SOS Estudante (20h00 à 1h00) 808 200 204

Vozes Amigas de Esperança (20h00 às 23h00) 22 208 07 07

Centro Internet Segura 800 21 90 90  Linha Internet Segura

 

 

“Automutilações são um flagelo entre os jovens”

Abril 28, 2017 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista de Jorge Humberto Costa ao https://ionline.sapo.pt/ de 26 de abril de 2017.

Marta Reis

Jogo que está a causar alarme incentiva os jovens a cortarem-se. Psicólogo escolar alerta que este comportamento tem vindo a aumentar entre os adolescentes portugueses. Jovens instáveis emocionalmente são os mais vulneráveis mas outros fazem-no por imitação ou para se integrarem no grupo.

Entre os 50 desafios do jogo Baleia Azul, a maioria visa levar os jovens a cortarem-se ou usarem objetos com lâmina para escrever na pele. Embora este jogo só agora comece a causar preocupação por cá, o fenómeno das automutilações entre adolescentes tem vindo a ser estudado e os últimos dados nacionais sugerem que dois em cada dez jovens do 8.º ano e 10.º ano já se magoaram de propósito, a maioria quando se sentia triste e “farta”. Jorge Humberto Costa, psicólogo escolar no Agrupamento de Escolas de Valongo e membro de um grupo informal que junta peritos nesta área, a plataforma Psi Escolas, diz ao i que as automutilações são um flagelo nas escolas que importa despistar precocemente e defende que pais e professores devem estar alerta.

Já tinha conhecimento deste jogo?

Não, mas o que sabemos de há uns anos para cá é que há alunos que participam neste tipo de jogos para experimentar diferentes estágios de dor. Tivemos relatos há dois ou três anos de um jogo em que o culminar era os alunos ficarem suspensos, agarrados pela pele, por exemplo com anzóis. São fenómenos que começam nas redes sociais e em que o problema é acontecerem fora das escolas.

E até que ponto as escolas estão preparadas para despistar estes casos?

Como as automutilações no geral, acaba por ser complicado a deteção porque os alunos tendem a fazê-lo em zonas do corpo que não são visíveis, como o tornozelo ou a coxa. Mas a partir do momento em que as situações são sinalizadas, é fácil iniciar o trabalho com os alunos e envolver as famílias. O ponto que nos preocupa sempre mais é a identificação deste tipo de comportamento.

Como se poderia melhorar o despiste? A falta de psicólogos nas escolas é um problema?

Claro que a falta de psicólogos é sempre um problema. Hoje continuamos a ter um rácio de um psicólogo por vezes para mais de 2000 alunos com a dificuldade de os agrupamentos escolares serem muito distendidos, com escolas longe umas das outras. O que tentamos fazer é ter um trabalho estreito com os professores de Educação Física, que são quem vê os alunos com menos roupa, com o fato de treino ou o calção.

E já existe essa sensibilização? Há orientações da tutela?

Creio que existe sensibilização dos professores. Mesmo que não haja por parte do ministério orientações claras sobre isto, os psicólogos que trabalham no terreno já fazem esse trabalho de forma insistente e reúnem-se regularmente com colegas. Por outro lado, por exemplo no meu agrupamento temos já academias de pais, em que falamos com os encarregados de educação. O ministério pode sempre ter uma maior intervenção, mas isso não justifica inércia porque provavelmente não iria trazer nada de novo. Nesse aspeto o que faltava era aproximarmo-nos de um rácio de um psicólogo por mil alunos e termos pelo menos dois psicólogos nos agrupamentos maiores e também equipas multidisciplinares onde a intervenção dos assistentes sociais fosse valorizada.

O PCP apresentou recentemente um projeto de lei para que seja definido o regime jurídico da psicologia em contexto escolar e denuncia que o último concurso para a admissão nesta carreira é de 1997.

Vamos também nas próximas semanas voltar a dinamizar o grupo Psi Escolas que tem funcionado mais no Facebook para promover esse reforço da psicologia nas escolas.

Como o atual rácio, como funciona a intervenção? Chegam apenas aos casos mais graves?

Acabamos por dedicar-nos aos casos mais graves, ainda que em termos de prevenção existam estes dois grandes vetores de preocupação que são bullying e as automutilações.

Os últimos dados para Portugal do inquérito Health Behaviour in School-aged Children” (HBSC) revelaram que, em 2014, 20,3% dos jovens tinham-se magoado pelo menos uma vez a si próprios nos 12 meses anteriores.

Penso que é um número que até pecará por defeito. É um flagelo que temos nas escolas.

O que leva os jovens a ter estes comportamentos?

Podemos dividi-los em dois patamares. Temos por um lado os alunos que usam a dor física para suportar a dor emocional e depois temos outros alunos que o fazem por imitação. Como os primeiros o fizeram e deram um feedback positivo, os segundos que teoricamente não iriam ter esse comportamento acabam por fazê-lo também.

Acontece mais em que faixas etárias?

Na casa dos 13 e 4 anos.

Os dados nacionais indicam que é um comportamento mais recorrente nas raparigas.

Sim, ainda que os rapazes também o façam.

Não sendo um comportamento saudável, colocam a vida em risco?

Na maioria das situações não existe essa intenção, só por descuido ou erro de cálculo. Mas o problema é que é um comportamento progressivo e como percecionam bem-estar acabam por ir fazendo com mais frequência. O perigo é mais por aí, até porque depois acaba por ser a primeira resposta que têm quando são confrontados com uma situação problemática. É quase uma resposta primária.

E é algo que associem a algum tipo de aluno, mais isolado, com piores notas?

É um comportamento transversal e daí o problema da imitação. Se um aluno líder tiver esses comportamentos, há maior probabilidade de mais alunos serem seguidores.

Quando detetam uma situação e os pais são chamados, há surpresa?

Sim, muitos deles não fazem mesmo ideia. Claro que depois reconhecem que havia um afastamento emocional dos filhos e isso é um fator de risco importante.

Uma das jovens com quem falámos sobre o jogo Baleia Azul dizia-nos ter receio de não ser forte o suficiente para resistir à pressão psicológica. Mesmo jovens mais maduros podem ser vulneráveis neste tipo de situações?

O problema é que não conseguimos saber, em determinados alunos, até que ponto a força do grupo tem poder suficiente ou não. Se a grande maioria dos colegas tiver um determinado comportamento, vão-se sentir afastados do grupo e na adolescência esse afastamento é doloroso. Eles referem-nos muitas vezes aquela ideia de não conseguirem fazer parte das conversas. Se a automutilação ou qualquer outro comportamento for um tema de participação e conversa, podem sentir que não aderir é um fator para a rejeição. Ou saem do grupo ou por vezes o sentimento de pertença obriga-os a determinados rituais. Nesse sentido ninguém está imune.

Que mensagem passaria aos pais?

O melhor que podemos dizer aos pais é para desligarem a televisão na hora das refeições e conversarem. Se percebem que os miúdos têm alguma alteração do comportamento por exemplo ao nível do sono ou da própria alimentação devem tentar perceber. Outra preocupação pode ser verificar com alguma frequência quando saem do banho se há alguma marca nos braços ou nos antebraços.

Não é uma recomendação alarmista?

Às vezes é preferível sermos um bocadinho mais alarmistas e identificar os problemas do que facilitarmos e vermo-nos com uma situação mais difícil de resolver. Numa frase, diria que os pais devem procurar estar emocionalmente próximos dos filhos e pensarem na sua disponibilidade e como às vezes tentam comprar emocionalmente os filhos. Nota-se a diferença nas crianças que têm os pais presentes.

Esse afastamento dos pais é algo que tem notado?

Trabalho nas escolas há 18 anos e sempre houve situações de automutilação. Sentimos que está a aumentar da mesma forma que tudo tende a aumentar, a partilha das gratificações na redes sociais é muito mais rápida. Por outro lado, os jovens estão emocionalmente mais instáveis. Temos uma sociedade cada vez consumista e eles sentem-se mais frustrados, o que se nota também nas dificuldades vocacionais. Sabemos que hoje em dia a parte social e monetária e os pais para terem mais dinheiro têm de estar mais tempo fora e acabam por compensar os alunos de forma mais material do que emocional.

 

 

 

Jovens com sintomas depressivos envolvem-se em lutas mais frequentemente, diz estudo

Abril 25, 2017 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do http://24.sapo.pt/ de 11 de abril de 2017.

Um estudo do Instituto de Saúde Pública da UPorto (ISPUP) concluiu que sintomas depressivos como a tristeza, o cansaço, a irritabilidade e os sentimentos de culpa levam a que os jovens se envolvam com mais frequência em lutas físicas.

“À primeira vista, esta relação parece paradoxal porque as componentes da depressão incluem a autoculpabilização e o cansaço e, portanto, parte-se do princípio de que a pessoa estará demasiado apática para a agressão”, explicou a investigadora do ISPUP Sílvia Fraga.

Contudo, segundo indica, existem outros fatores associados aos comportamentos agressivos que estão também presentes em casos de depressão, como a irritabilidade.

Neste projeto, desenvolvido pela Unidade de Investigação em Epidemiologia (EPIUnit) do ISPUP, foram avaliados 1.380 jovens (743 raparigas e 637 rapazes), nascidos em 1990, a frequentar escolas públicas e privadas do Porto.

As avaliações deram-se em dois momentos, quando os jovens tinham 13 e 17 anos, tendo sido analisado o nível dos sintomas associados à depressão dos adolescentes nestes dois períodos e o envolvimento em lutas físicas somente no segundo.

As conclusões deste trabalho, no qual participaram também os investigadores do ISPUP Elisabete Ramos e Henrique Barros, mostram que os rapazes se envolviam mais frequentemente em comportamentos violentos aos 17 anos de idade quando apresentavam sintomas depressivos relevantes nos dois momentos da avaliação.

Já nas raparigas, verificou-se que as agressões eram mais frequentes entre aquelas que tinham sintomas de depressão aos 17 anos de idade, independentemente de possuírem, ou não, estes sintomas na avaliação anterior.

Nos rapazes, “é necessário que estes sentimentos estejam presentes há mais tempo” para que “os exteriorizem ou reajam, envolvendo-se em lutas físicas. Nas raparigas não encontramos esta relação, talvez porque lidam com a persistência destes sentimentos de outra forma”, referiu Sílvia Fraga.

“Tanto a depressão como a violência são dois fatores que merecem toda a atenção, especialmente entre os mais jovens”, indicou a investigadora, acrescentando que “o envolvimento em lutas é um comportamento frequente nas escolas e, por isso, muitas vezes ignorado”.

Para a especialista, a saúde mental dos adolescentes e o envolvimento em comportamentos violentos são questões prioritárias na área da Saúde Pública e estes resultados chamam a atenção para a necessidade de se estar atento a comportamentos agressivos em contexto escolar, pois podem representar um primeiro indicador de alterações que frequentemente não ser percebidas.

Fizeram parte deste estudo adolescentes nascidos em 1990 e recrutados em 2003 para o projeto EPITeen, que tem como objetivo acompanhá-los até à fase adulta, avaliando-os de quatro em quatro anos.

Deste projeto, no qual esteve também envolvida a Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP), resultou o artigo “Depressive Symptoms and Involvement in Physical Fighting among Portuguese Adolescents” (“Sintomas Depressivos e Envolvimento em Combate Físico entre Adolescentes Portugueses”), publicado recentemente na revista “Health & Social Work”.

 

 

XXVIII Encontro Nacional da APPIA “Fazer Bem Olhando a Quem – Boas Práticas em Saúde Mental Infanto-Juvenil” 17 a 20 de Maio, em Viana do Castelo

Abril 1, 2017 às 1:00 pm | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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mais informações:

http://appia.com.pt/

Indisciplina e más notas provocadas por sofrimento emocional acentuado

Janeiro 5, 2017 às 1:00 pm | Publicado em O IAC na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do http://www.dn.pt/ de 30 de dezembro de 2016.

A notícia contém declarações da Dra. Melanie Tavares, Coordenadora dos Sectores da Actividade Lúdica e da Humanização dos Serviços de Atendimento à Criança do Instituto de Apoio à Criança.

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Isolamento pode ser um dos sinais de sofrimento | Nuno Pinto Fernandes/Global Imagens

Ana Bela Ferreira

Promoção da saúde mental é prioridade da Direção Geral da Saúde, que já formou 300 profissionais para ajudar jovens

As dificuldades de aprendizagem e indisciplina de muitas crianças resultam de “um sofrimento emocional acentuado”, alerta a Direção Geral da Saúde (DGS), no relatório do Programa Nacional de Saúde Escolar, feito no letivo 2014/2015 e recentemente apresentado. Preocupada com o problema, a promoção da saúde mental passou a ser “o eixo central da intervenção da Saúde Escolar”.

A aposta – resultado de uma parceria entre a DGS e Direção Geral da Educação – “tem a ver com a consciência de que o universo escolar traz atrelado uma série de preocupações e a certeza de quando há uma boa saúde mental é mais fácil a aprendizagem, a inserção social, o sucesso escolar e como é importante apostar desde o início nestas áreas”, defende Conceição Tavares Almeida, psicóloga e assessora para a área da infância e adolescência no programa nacional de saúde mental.

Para poder ajudar as crianças e jovens, arrancou, em fevereiro deste ano, um plano de formação “de cerca de 300 profissionais de saúde e de educação que ficaram capacitados para desenvolver projetos de promoção da saúde mental orientados pela tipologia de competências socioemocionais”, segundo explicou ao DN a coordenadora do Programa Nacional Saúde Escolar, Gregória Paixão von Amann. E que o coordenador do Programa Nacional para a Saúde Mental – que trabalhou em conjunto com a equipa da Saúde Escolar – confirma que está previsto manter em 2017. “Está no plano de atividades a continuidade deste programa de formação, para chegar mais ou menos a mais 300 pessoas e assegurar apoio a quem já teve esta formação. Está previsto, mas às vezes pode haver problemas de orçamento, tal como já tivemos no ano passado”, aponta o especialista.

Com estas ações, os responsáveis de saúde pretendem que sejam desenvolvidos projetos junto das crianças que as ensinem “a aceitar as diferenças entre si, a respeitarem-se mutuamente, a saberem identificar quando precisam de ajuda e recorrerem a um adulto de referência, a assumirem gradualmente a responsabilidade das suas ações e a tomarem as melhores decisões para a sua saúde e vida”, refere a coordenadora do programa de saúde escolar.

Além disso, “quando os professores estão alerta para a situação por detrás daqueles comportamentos, acabam por adequar a sua forma de estar e conseguem ter outros resultados, não tem que ser uma atitude desculpabilizante, mas de compreensão”. E como “comportamento gera comportamento”, os alunos “acabam por mudar a sua atitude perante o professor”, justifica Melanie Tavares, coordenadora da mediação escolar do Instituto de Apoio à Criança (IAC).

É “melhorando a qualidade da interação entre a criança ou jovem com a família, a escola e o meio sociocultural”, que a DGS acredita ser o caminho para combater o sofrimento emocional de muitas crianças. “No âmbito do Programa Nacional de Saúde Escolar a promoção da saúde mental é uma prioridade pois é a dimensão da saúde que permite lidar, de forma mais eficaz, com as emoções, os sentimentos, as frustrações e usufruir do seu contributo para a capacidade de pensar e de tomar decisões”, diz Glória von Amann.

Não há crianças mal educadas

Uma das razões para investir na saúde mental dos jovens é, segundo o psiquiatra Álvaro Carvalho, o facto de “nenhuma criança é mal educada porque sim”. “O caráter só se forma no final da adolescência, ou seja, até lá comportamentos de indisciplina ou agressivos são, com frequência, expressão de problemas emocionais, que podem ter origem na família ou na escola”.

Esse é o entendimento que tem estado na base da atuação dos gabinetes de apoio ao aluno e à família (GAAF) do IAC, desde que foram criados em 1998. “A nossa intervenção sempre assentou em quatro pilares: aluno, escola, família e comunidade. A nossa experiência diz-nos que na maioria das vezes o problema está na família, na falta de apoios socioeconómicos ou acompanhamento”, refere Melanie Tavares, coordenadora da mediação escolar do IAC. Da sua experiência, a psicóloga, lembra que “os alunos são o espelho das situações familiares”. “Uma criança quando não está bem só consegue por cá para fora coisas más. Se tivermos adultos educados para lidar com este tipo de crianças ou jovens, eles desistem do comportamento que tinham”, acrescenta.

Dos casos que acompanham, “sem fazer um estudo, diria que 80% dos alunos que identificámos com problemas emocionais, tiveram problemas de comportamento”. No ano letivo anterior, os GAAF identificaram 229 alunos com problemas do foro psicológico e 544 participações disciplinares (sendo que o mesmo aluno pode ter mais do que uma participação).

O número de crianças “com problemas mentais” não é conhecido em Portugal, como esclarece Álvaro Carvalho, que faz referência aos dados internacionais que apontam para uma incidência de 20% e dessas só um quinto das crianças são tratadas.

Por vezes o mais difícil é perceber os sinais. “A questão é que tudo pode ser sintoma”, aponta Melanie Tavares. “Pode ser começar a ficar agitada ou muito parada, deixar de ter capacidade de concentração, ou então ficar muito concentrada e sobre investir na parte escolar, alterações alimentares. No fundo, é preciso estar atento a mudanças”, sintetiza Álvaro Carvalho.

 

 

 

I Jornadas da ARIA “Saúde Mental e Reabilitação Psicossocial – Caminhos a Percorrer” 16 setembro em Lisboa

Setembro 9, 2016 às 2:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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A ARIA – Associação de Reabilitação e Integração Ajuda vem por este meio divulgar o Programa no âmbito da organização das I jornadas da ARIA como tema a “Saúde Mental e Reabilitação Psicossocial – Caminhos a Percorrer”, irá decorrer dia 16 de Setembro de 2016, no Auditório do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa.

Inscrição:

https://docs.google.com/forms/d/e/1FAIpQLSd-ko_wGbyGUX5eAqcCFTXo8tVrQ32VnbdrnZDCfjlVo5qPEA/viewform?c=0&w=1

Programa:

http://www.aria.com.pt/downloads/2016_destaques_1jornadas.pdf

 

 

 

Jovens viciados no Facebook com níveis de saúde mental preocupantes

Agosto 4, 2016 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do http://www.jn.pt de 14 de julho de 2016.

O estudo mencionado na notícia é o seguinte:Portuguese Validation of the Bergen Facebook Addiction Scale: an Empirical Study

Rick Wilking Reuters

Um estudo sobre a adição ao Facebook em Portugal revela que os jovens com este problema apresentam níveis de saúde mental e de bem-estar psicológico “preocupantes”.

Segundo o estudo, coordenado pelo investigador português Halley Pontes, da Nothingham Trent University, no Reino Unido, “a adição ao Facebook está associada a maior preferência para interação social online e níveis elevados de sintomas depressivos, ansiedade patológica e stress”.

A investigação, publicada no “International Journal of Mental Health and Addiction”, decorreu em maio e junho de 2015 e envolveu uma amostra de 547 jovens estudantes portugueses do 2º e 3º ciclo do ensino básico.

O estudo procurou avaliar a extensão dos problemas relacionados com a utilização excessiva e problemática do Facebook, entre outras adições, numa amostra exclusivamente portuguesa, disse à Lusa o investigador Halley Pontes.

“Dada a penetração da Internet e dos sites de redes sociais entre os jovens portugueses, juntamente com a necessidade de mais investigação sobre o uso contextualizado da Internet, tornou-se fundamental entender” os efeitos que o uso excessivo e viciante destas redes podem ter sobre a saúde mental dos adolescentes, refere o estudo.

A investigação verificou que “a adição ao Facebook estava presente em 3,6% da amostra total. Tendo em conta a população geral, esta percentagem poderia traduzir-se num total ligeiramente acima dos 380 mil indivíduos, o que é bastante significativo”, disse Halley Pontes, que já publicou mais de 50 estudos científicos na área da adição à internet e videojogos.

Os resultados do estudo apontam que, “em termos do bem-estar psicológico e saúde mental, os indivíduos com problemas de adição ao Facebook apresentaram níveis preocupantes e significativamente piores, em comparação aos participantes que não apresentavam problemas de adição” a esta rede social.

Para Halley Pontes, estudar o problema da adição às redes sociais online é de extrema relevância no contexto da promoção da saúde mental nos indivíduos.

Vários estudos sugerem que o excessivo uso das redes sociais online, leva a que os indivíduos apresentem níveis de saúde mental bastante reduzido.

Um estudo recente realizado numa amostra representativa da população jovem do Canadá verificou que os jovens que costumavam utilizar as redes sociais online por mais de duas horas diárias, apresentaram piores níveis de saúde mental geral, maior incidência de problemas do foro psiquiátrico, aumento da ideação suicida, bem como uma maior necessidade de suporte a nível da saúde mental.

Segundo o Inquérito à Utilização de Tecnologias da Informação e da Comunicação pelas Famílias 2015, do Instituto Nacional de Estatística, a participação em redes sociais é mais frequente em Portugal do que na média dos países da União Europeia.

Em 2015, 70% dos utilizadores de Internet em Portugal participavam em redes sociais, ainda assim menos dois pontos percentuais do que em 2014, mas mais 13 pontos percentuais do que em 2011.

 

 

Los antidepresivos no son la opción adecuada para el tratamiento de la depresión en niños y adolescentes

Julho 27, 2016 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do site http://www.infocop.es/ de 1 de julho de 2016.

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Infocop

El trastorno depresivo mayor tiene una prevalencia estimada del 2-8% en niños de 6 a 12 años, y del 5-6% en adolescentes de 13 a 18 años. En comparación con los adultos, el trastorno depresivo mayor en niños y adolescentes está todavía infradiagnosticado e infratratado, posiblemente porque tienden a presentar síntomas menos comunes como irritabilidad, conductas agresivas y rechazo a la escuela.

A pesar de que los tratamientos psicológicos se consideran el tratamiento de elección en muchas guías clínicas basadas en la evidencia, y de las advertencias de la FDA desde 2004 sobre el aumento del riesgo de suicidio que producen los antidepresivos en esta población, el tratamiento farmacológico sigue siendo el más prescrito para jóvenes deprimidos.

Con motivo del debate que genera el uso de psicofármacos en menores, y en su caso, qué tipo de medicamento de administra, un equipo de investigadores ha publicado un estudio cuyo objetivo ha sido comparar la eficacia de un grupo de antidepresivos y la tolerancia a estos, con el efecto de un tratamiento placebo, en menores con trastorno depresivo mayor.

Este interesante trabajo es el meta-análisis más completo publicado hasta la fecha, sobre los tratamientos farmacológicos para niños y adolescentes con depresión, que recopila los estudios publicados sobre este asunto con el fin de analizar la evidencia de los ensayos encontrados.

La búsqueda se hizo utilizando los principales buscadores científicos, así como las páginas Webs de las agencias reguladoras y los registros internacionales. Se eligieron los estudios cuyos resultados se centrasen en la eficacia (el cambio en los síntomas depresivos) y la tolerancia (interrupciones del tratamiento debidas a eventos adversos). Y fueron excluidos estudios con deficiencias metodológicas como tratamientos de menos de 4 semanas o tamaño de la muestra menor a 10 pacientes. En total se eligieron 34 ensayos, incluyendo una muestra total de 5260 participantes y 14 tratamientos antidepresivos diferentes.

Según los resultados de eficacia sólo la fluoxetina obtuvo diferencias significativas con respecto al placebo, con un tamaño del efecto mediano. En cuanto a la tolerancia, la fluoxetina también obtuvo mejores resultados que otros antidepresivos, presentando la mayoría de ellos síntomas adversos  que obligaron a interrumpir el tratamiento.

Teniendo en cuenta el balance riesgo-beneficio, este trabajo concluye que los antidepresivos no son una opción adecuada para el tratamiento de la depresión mayor en niños y adolescentes. Siendo la fluoxetina la opción menos mala en el caso de que se prescriba algún antidepresivo.

No obstante, según los autores del estudio, estas conclusiones hay que tomarlas con cautela, debido a que muchos estudios de los seleccionados (el 65%) estaban financiados por los propios laboratorios del medicamento, por lo que tenían altas probabilidades de estar sesgados y sobreestimar la eficacia de los resultados. Además, no pudieron acceder a los datos brutos de los estudios, con argumentos sobre la propiedad intelectual o la privacidad de los pacientes; lo que les impidió analizar los datos de forma neutral.

Por esta razón, los efectos positivos derivados del uso de antidepresivos, incluidos los de la fluoxetina, pueden estar incluso sobrevalorados; de la misma manera que consideran que los riesgos del consumo de determinados antidepresivos pueden ser mayores en la población real de lo que se ha observado hasta ahora en los ensayos clínicos.

De estos resultados se derivan algunas conclusiones a tener en cuenta:

  • Es de suma importancia el acceso a los datos de los estudios publicados, asi como la publicación de todos los estudios, obtengan resultados positivos o no.
  • El hecho de que en la mayoría de los países no estén disponibles los tratamientos psicológicos recomendados por su eficacia, no justifica la prescripción de los psicofármacos como única alternativa, ya que se ha demostrado que no son mejores que la ausencia de tratamiento.

Parece inexplicable que a pesar de haberse demostrado que la ecuación riesgo-beneficio del uso de antidepresivos en niños y adolescentes no compensa por su escasa eficacia y sus importantes efectos secundarios, y a pesar de las advertencias de la FDA sobre la peligrosidad de su uso, la prescripción de antidepresivos en esta población sigue aumentando de forma vertiginosa durante los últimos años (ver el artículo: La prescripción de antidepresivos a niños y adolescentes sigue aumentando a pesar de no estar recomendada).

Referencia:

Cipriani, A.; Zhou, X.; Del Giovane, C, et al. (2016). Comparative efficacy and tolerability of antidepressants for major depressive disorder in children and adolescents: a network meta-analysis. The Lancet. Published Online. http://dx.doi.org/10.1016/S0140-6736(16)30385-3

 

Em Portugal, a falta de autonomia dos adolescentes “é algo assustadora”

Março 16, 2016 às 2:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Entrevista do Público a Margarida Gaspar de Matos no dia 15 de março de 2016.

Enric Vives Rubio

Margarida Gaspar de Matos: “Quando há ‘apenas’ laços fortes há, em geral, pouca dissonância e debate de ideias (vamos pouco além das discussões do dia-a-dia sobre a gestão da casa)” Enric Vives-Rubio

Andreia Sanches

Entrevista a Margarida Gaspar de Matos a propósito do novo estudo da Organização Mundial de Saúde: a família, que os portugueses tanto prezam, dá afecto e apoio, mas os “pares”, sublinha, são essenciais para aprender a negociar, a debater e a descobrir o mundo.

Os adolescentes portugueses estão menos com os amigos, depois da escola, quando comparados com os de outros países. E saem menos à noite. Isso é bom, ou significa que estão demasiado presos às saias da mãe? Com que impacto no seu crescimento? Margarida Gaspar de Matos, psicóloga e investigadora, da Faculdade de Motricidade Humana, da Universidade de Lisboa, que coordena a parte portuguesa do estudo Health Behaviour in School-aged Children (HBSC), da Organização Mundial de Saúde (OMS), responde a algumas perguntas suscitadas pelo mais recente relatório internacional sobre a adolescência, divulgado nesta terça-feira de manhã.

Segundo o HBSC, Portugal é o país, em cerca de 40, onde os jovens de 11, 13 e 15 anos menos estão com amigos depois das oito da noite. Isto é bom ou mau? Significa o quê?

Temos uma cultura muito ligada à família e pouco ligada a “grupos de amigos”. Por outro, temos das maiores cargas de aulas e de TPC (trabalhos para casa) da Europa. E, por outro ainda, há agora a Internet que deixa os jovens mais “voluntariamente” em casa… se, por um lado, as saídas à noite estão associadas a riscos (consumos, por exemplo), por outro lado esta falta de autonomia é algo assustadora.

Que indicadores nos estudos revelam essa “falta de autonomia algo assustadora”?

Neste estudo temos dados, por exemplo, sobre a frequência com que os adolescentes jantam com a família — somos dos que mais o fazemos. Ou sobre sair à noite com os amigos — somos dos que menos o fazemos. Estudos anteriores mostravam que em Portugal os jovens não se envolviam em actividades de voluntariado, associativismo. E temos a tal imensa carga horária dos jovens portugueses na escola, que outros estudos, ainda, demonstram.

Na rede [de peritos do] HBSC falamos muito disto: há países (nórdicos) onde os jovens em geral saem de casa dos pais quando acabam o secundário, ficam entregues a si próprios, arranjam um part time para se auto-financiar, pedem um empréstimo para estudar… estas práticas não são comuns entre nós e os jovens ficam dependentes dos país até bem depois da sua maioridade.

Os estudos em geral confirmam que, salvo em casos extremos, é bom termos uma família e apreciarmos ter tempo de qualidade para a família, mas também (salvo casos extremos) é bom termos amigos, tempo livre para os amigos e irmos construindo a nossa autonomia. A família dá no início uma estrutura, mas entre amigos gera-se “a geração”. Ambos são necessários.

Sermos dos que mais jantam com a família é “bom”, se isso for indicador de coesão familiar e alimentação saudável, mas já não é tão “bom” se for indicador de que os jovens não conseguem estar sem a família. Do mesmo modo, estar com os amigos fora de aulas é “mau” se ficar associado as lutas, aos consumos e ao insucesso escolar; mas já não é tão “mau” se significar autonomia, amigos pessoais, interesses vocacionais ou de lazer partilhados… Há um sociólogo (Granovetter) que (em 1983, imagine) escreveu um trabalho chamado a importância dos laços fracos (“weak ties”). O racional é que na nossa rede de contactos sociais/o nosso capital social, temos laços fortes com um número reduzido de pessoas — pais, filhos, esposos, etc. — e laços fracos com um número mais extenso de pessoas. Os laços fortes dão-nos afecto e apoio, mas os laços fracos são importantes para nos “abrir ao mundo”, para construirmos a nossa “diferença” face à família e ao nosso grupo restrito, para nos tornarmos “tolerantes à diferença” e até curiosos sobre o mundo.

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Os laços fortes não chegam.

Quando há “apenas” laços fortes há, em geral, pouca dissonância e debate de ideias (vamos pouco além das discussões do dia-a-dia sobre a gestão da casa). São os nossos laços fracos que nos fazem questionar os nossos valores e as nossas crenças. Claro que os laços fracos podem fazer perigar a nossa “boa educação”, mas a falta de laços fracos dificulta a evolução das ideias e, em última análise, pode perpetuar, por exemplo, o preconceito, a xenofobia… Alem disso o “treino” de debate entre pares constrói-se com estes laços fracos e facilita o aparecimento de jovens com capacidades de negociação, de debate, de resolução de conflitos, que muitas vezes em relações “verticais”, como as da família, não são privilegiados….

No estudo, os adolescentes portugueses aparecem em pior posição do que os de outros países no que diz respeito aos níveis de “satisfação com a vida”, aos 13 e 15 anos. Mas, em relação a outros sintomas de saúde mental e física (como ter dores de cabeça, de estômago, dormir mal, etc), não estão tão mal como os jovens de outros países. Como se enquadra isto?

Pois, diz bem: posso adiantar apenas enquadramentos ou interpretações, estes estudos “transversais” não nos permitem identificar causas. Adianto a minha leitura. É nos mais velhos (13 e 15) que ocorre a pior posição na “satisfação com a vida” e é nos mais novos (11 e 13) que menos ocorrem os chamados sintomas múltiplos. Penso que a recessão que atolou o país desde 2010 pode estar associada à falta de satisfação com a vida. Temos outros dados em Portugal [recolhidos através de questões que nem todos os países aplicaram no inquérito, pelo que não constam dos resultados do relatório final da HBSC/OMS] que apontam para um aumento dos jovens que se auto-lesionam em Portugal, dos que dizem que “estão tão tristes que não aguentam” e dados também que mostram uma diminuição das expectativas em relação ao futuro. Estas questões, associadas à (falta de) saúde mental, formam um dos grandes problemas detectados pelo nosso estudo nacional.

Há algum tempo, numa entrevista ao PÚBLICO, a Candace Currie, a ex-coordenadora internacional do HBSC, disse que estava preocupada com a saúde mental das meninas.

Também está?

Sim, eu e a Candace e mais alguns investigadores do HBSC temos um grupo a estudar exactamente as diferenças de género. As meninas tradicionalmente “internalizam” e aparecem com mais preocupações, com menos confiança, com menos satisfação com a vida, com menor percepção de qualidade de vida, com mais sintomas,  com mais preocupações pela imagem do corpo. Como se o “glass ceiling” estivesse já na adolescência e as meninas andassem sempre stressadas a tentar “provar algo” para sua afirmação pessoal. Este stress aparece com mais força após a puberdade e, portanto, poderá estar associado a alterações hormonais (e respectiva leitura cultural claro). Já quis estudar isto a fundo mas ainda não consegui o apoio financeiro respectivo. Talvez este ano.

mais gráficos no link:

https://www.publico.pt/sociedade/noticia/em-portugal-a-falta-de-autonomia-dos-adolescentes-e-algo-assustadora-1726066

 

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