Nem menos sensíveis, nem mais agressivas. Os videojogos não têm os efeitos que se pensava nas crianças

Junho 1, 2017 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , , , , , ,

Notícia da http://visao.sapo.pt/ de 21 de maio de 2017.

ERIC PIERMONT/ Getty Images

Um estudo alemão analisou os efeitos a longo prazo dos videojogos e concluiu que as crianças não se tornam mais agressivas ou menos empáticas mesmo que joguem todos os dias e que os jogos sejam violentos

Há uma preocupação generalizada sobre o impacto dos videojogos nas crianças. Numa altura em que a popularidade e a qualidade destes jogos continua a aumentar, um grupo de investigadores da Faculdade de Medicina de Hannover, na Alemanha, realizou um estudo que promete deixar alguns pais mais descansados.

A investigação, liderada por Gregor Szycik, analisou os efeitos a longo prazo dos videojogos e não encontrou nenhuma ligação com alterações nas respostas neurais nas crianças.

O estudo observou 30 participantes (todos do sexo masculino) que nos últimos quatro anos jogaram videojogos de tiro, como Call of Duty e Counterstrike, durante duas horas ou mais, todos os dias. Os participantes foram comparados a outras crianças que não jogavam.

Enquanto eram examinados através de uma ressonância magnética – que media a ativação de zonas específicas do cérebro -, os participantes observaram imagens projetadas com o objetivo de provocar respostas emocionais e empáticas. No final, preencheram um questionário e os resultados revelaram pouca ou nenhuma variação nos níveis de agressividade e empatia entre jogadores e não jogadores.

Apesar do pequeno número de participantes, Gerry Moore, professor de psicoterapia e saúde mental na Universidade da Cidade de Dublin, ouvido pelo The Irish Times, salienta uma particularidade deste estudo: foi pedido às crianças que não jogassem durante um tempo anterior aos testes – a maioria não tinha jogado nas últimas 24, o que significa que não foi tido em conta o impacto imediato de jogar jogos violentos. Outros estudos que encontraram relação entre a violência dos jogos e a violência do comportamento usaram os dados obtidos imediatamente após o jogo. “Ao providenciar este intervalo no tempo, este estudo mostrou que que as crianças poderiam mostrar mais empatia se lhe fosse permitido parar e talvez contar até 10 e dispersar a situação”, considera.

O especialista diz ainda que o nível de empatia das crianças não pode ser determinado exclusivamente pelo tempo que passam a jogar videojogos, por mais violentos que sejam. “As pessoas aprendem a ser empáticas muito cedo. Muitos estudos indicam que a empatia começa a desenvolver-se tão cedo como os estágios pré-verbais da infância – muito antes das crianças começarem a jogar videojogos”, defende.

 

 

 

Jogar é uma das maneiras inatas para aprender

Abril 27, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , , , ,

Texto do site http://porvir.org/ de 30 de março de 2017.

Palestrante do Transformar, Gonzalo Frasca, professor e designer de jogos, discute a importância dos jogos para a aprendizagem

por Vinícius de Oliveira

Todos aprendemos jogando, seja encaixando blocos de plástico durante a infância, ou mais tarde, comandando heróis e planejando cidades nos videogames. Movidos pelo desafio, a emoção e a vontade de experimentar o novo, continuamos envolvidos por um longo tempo, o que infelizmente nem sempre acontece na educação. Segundo Gonzalo Frasca, uruguaio que é professor da disciplina de videogames na Universidade ORT, em Montevidéu, e chefe de design de jogos na startup WeWeWantToKnow, isso acontece porque a educação se preocupa demais com conteúdos e, com isso, deixou de lado uma característica natural do ser humano. Para ele, o aprendizado se tornou um sofrimento e, em referência ao jogo das Eliminatórias da Copa entre Brasil 4 x 1 Uruguai, o especialista em jogos diz que muitas crianças estão perdendo por goleada, todos os dias na escola.

“Jogar é uma das maneiras inatas para aprender. É a estratégia cognitiva com que conhecemos e exploramos o mundo e, se não conseguimos entender sua profunda relação com a aprendizagem, é justamente porque a escola foi por outro caminho”, disse ao Porvir, alguns dias antes de sua visita ao Brasil para participar do painel “Como engajar e ensinar alunos através de jogos”, do Transformar, evento sobre inovação em educação organizado por Porvir/Inspirare, Fundação Lemann e Instituto Península, que acontece na próxima terça-feira (4), em São Paulo (SP).

Leia também: Games engajam os alunos e trazem significado para a matemática

Na entrevista que você lê abaixo, Frasca mostra como a estrutura de jogos alicerçada em feedbacks (retornos avaliativos) pode ajudar a sala de aula e como vê o professor diante de uma encruzilhada: na formação inicial, ele tem que manter “ordem e progresso” da sala de aula, mas os jogos, especialmente videogames como o (simulador de construção de cidades) SimCity e o (construtor de mundos feitos em blocos virtuais) Minecraft, que não têm um objetivo claro, colocam o aluno diante do “caos” e trazem novas questões para quem ensina.

Frasca também trata na conversa com o Porvir do programa da empresa WeWeWantToKnow, que está desenvolvendo um programa piloto na França e na Noruega para ensinar crianças a partir de 5 anos a resolverem os primeiros problemas de álgebra. De antemão, o designer e professor uruguaio mostra-se realista. “Não vai aparecer um aplicativo milagroso que vai mudar tudo. Mas, sim, é possível inovar para que as crianças aprendam e gostem de aprender. Isso é fundamental”.

Porvir – Como jogos podem ser usados para ensinar e mudar a lógica de ensino e aprendizagem que temos atualmente?

Gonzalo Frasca – Vou respondê-lo de duas maneiras: uma de maneira mais teórica e outra, mais prática, com o que estamos fazendo no projeto piloto na França e na Noruega com o (aplicativo para sistemas iOS e Android) Dragonbox. Jogar é uma das maneiras inatas para aprender e seres humanos aprendem as coisas mais difíceis e complicadas jogando. É a estratégia cognitiva com que conhecemos e exploramos o mundo e se não conseguimos entender sua profunda relação com a aprendizagem, é justamente porque a escola foi por outro caminho. Nos Estados Unidos, a carga de matérias para o jardim da infância é um disparate absoluto. Existem várias razões históricas e econômicas, mas em resumo, não se pode aprender sem emoção. Se eu não me interesso por alguma coisa, não vou aprender. Ouvir (o que o professor está ensinando) me importa porque parece um tema interessante ou porque vão me castigar com uma nota baixa, mas a segunda opção é de curto prazo. Isso é um pouco da teoria. De maneira concreta, produzo videogames para crianças há quase duas décadas para Cartoon Network e Pixar. A estratégia que se aplica a maior parte dos videogames é capturar a atenção, emocionar a criança e oferecer um desafio.

Porvir – Mas na educação poderia ser a mesma coisa, não é verdade?

Gonzalo Frasca – Bem, deveria ser a mesma coisa, mas não estou dizendo que se deve ter apenas videogames na educação. O Dragonbox, primeiro produto que desenvolvemos, desenvolve consciência algébrica em crianças de cinco anos. Ele é uma amostra que a álgebra, ensinada a partir da educação secundária, tem uma base é que é possível de ser entendida por uma criança pequena. E como isso acontece? Primeiro não pode ser muito fácil porque entendia e não pode ser muito difícil, porque paralisa. E tem que se adaptar a cada criança. E dar feedbacks imediatos, sempre que estiver fazendo as coisas bem ou mal. O que fazemos é manter o nível alto para que se mantenha o desafio. Sempre digo que o oposto do tédio não é a diversão, é o desafio. Quando não se está entediado, quer dizer que tenho algo um pouco difícil para fazer.

Porvir – Como o programa Dragonbox funciona nas escolas?

Gonzalo Frasca – Comecei pela Noruega e pela França, países onde minha empresa possui sedes. Temos 600 crianças na Noruega, em diversas escolas, e 50 na França. Não fizemos uma solução só com videogames. Temos tablets para tarefas digitais com jogos, mas não nos limitamos a isso. Também temos vários livros de texto. Em nosso método, as crianças têm espaços reais e virtuais para experimentar, por exemplo, o conceito de “maior que” ou “menor que”. Uma vez que trabalharam com isso por 20 minutos, o professor pede que expliquem o que acontece, os alunos participam de um pequeno jogo e fazem um teste para ver se aprenderam. Uma das diferenças do programa é que cada criança pode fazer o teste no momento em que se sentir preparado. Nunca aplicamos uma prova até o momento em que acreditamos que ela já sabe, porque cada uma aprende em um ritmo diferente. E também asseguramos que vamos avaliá-los para que fiquemos tranquilos sobre o quanto eles já sabem. É um processo que estamos trabalhando com os professores. Não somos um grupo de entendidos em tecnologia que está desconectado da escola. Fazemos visitas diárias, sempre trabalhando para tentar melhorar.

Porvir – Em uma de suas palestras do TEDxMontevideo, você dizia que não existe nenhuma criança que diz não servir para jogar videogames, mas isso acontece com matemática, física, história. Por que?

Gonzalo Frasca – É uma soma de muitas coisas. O que quer dizer jogar? Jogar quer dizer ter interesse em uma ação e testar o que acontece em sua volta. É o mesmo que experimentar. Essa manhã eu estava com a minha filha de 1 ano, que estava colocando um brinquedo dentro de uma garrafa de água. Eram patos grandes, que não entravam. Ela continuava tentando, tentando até que encontrava outra coisa, usava um frasco maior e aí conseguia. Isso é jogar e também é testar uma hipótese. Tento colocar, vejo que não funciona e trato de colocar o cubo em outro lado. Dessa maneira, ela está entendendo o conceito do que é dentro ou fora, tamanhos, circunferências, um montão de coisas por meio da experiência. O importante é que ela seja desafiada.

Porvir – Mas as famílias costumam pensar que videogames são perda de tempo.

Gonzalo Frasca – O problema é que pensamos o videogame como entretenimento, e não conseguimos ensinar tudo com videogames. Por exemplo, para apresentar o conceito de litro, usamos garrafas de verdade, com água de verdade. Os pais se preocupam com os jogos, mas é difícil dizer qual jogo oferece boa qualidade de aprendizagem, mais ou menos da mesma forma que avaliar qual livro pode ser bom ou não. Se o site RottenTomatoes (de avaliação de filmes) diz que um filme é muito ruim, então você pode deixar de assistir. Com videogames é mais difícil, sobretudo porque a maior parte do que se chama jogo educativo é muito básica, sem estudos científicos por trás, porque é muito caro. Todo mundo diz que é educativo, mas é como se não houvesse controle sobre a medicina e disséssemos que este remédio cura calvície ou o câncer. Na realidade, isso nem sempre é verdade.

Porvir – Em entrevistas anteriores, você fala muito de jogos como The Sims e SimCity. O que eles têm de especial?

Gonzalo Frasca – Eles são os clássicos. O SimCity, como o Minecraft, não têm um objetivo definido. Nos jogos de futebol, deve fazer mais gols. Em SimCity é como ir ao parque, pode-se fazer muitas coisas. O interessante é que parece um laboratório de experimentação.

Porvir – E como devemos preparar os professores para chegada dos jogos à sala de aula?

Gonzalo Frasca – Muitas vezes os professores têm uma formação para ter controle sobre a classe porque, com 25-30 alunos, é necessário ter ordem e progresso. E o jogo é visto como o caos. De um lado, ensinam aos professores a manter a ordem e, de outro, dizem que do caos podem sair coisas boas. É um processo complicado e que não vem só da formação, mas do processo cultural. É aceitar que o jogo é uma maneira de aprender e entender o mundo. Isso se vê por exemplo em algumas empresas e trabalhos que são mais criativos e não te obrigam a bater ponto de 9 às 5 todos os dias. Mas o mundo ideal para escola não é aquele em que alunos estão jogando videogame toda hora, mas algo parecido com o jardim da infância, em que se cultiva o espírito do jogo.

Porvir – Para terminar, poderia enviar uma mensagem ao público que irá acompanhar sua palestra?

Gonzalo Frasca – Não existem sugestões mágicas. Não vai aparecer um aplicativo milagroso que vai mudar tudo. Mas, sim, é possível inovar para que as crianças aprendam e gostem de aprender. Isso é fundamental. Temos muitos desafios como civilização, mas não podemos fazer com que crescer e aprender se torne um sofrimento. Tem que ser difícil, mas não um sofrimento. É como futebol. Se fosse fácil, não seria tão bom. Mas sofrer o tempo todo. Se todos os jogos fossem 4×1 como o que o Brasil ganhou do Uruguai, seria um sofrimento. Hoje em dia, muitas crianças estão perdendo por goleada, todos os dias na escola. E isso precisa ser evitado.

 

 

 

Uso de eletrônicos em excesso atrasa desenvolvimento infantil, diz Unicamp

Março 2, 2017 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , , , ,

Notícia do site http://g1.globo.com/ de 29 de setembro de 2016.

Vídeo da notícia aqui

globo

Estudo foi feito com crianças de 8 a 12 anos, na região de Campinas.

Pesquisadora se surpreendeu com o tempo gasto com os aparelhos.

Um estudo da Faculdade de Educação (FE) da Unicamp, em Campinas (SP), concluiu que as crianças que usam aparelhos eletrônicos sem controle e não brincam, ou brincam pouco, no “mundo real” podem ter atraso no desenvolvimento. A pesquisa foi realizada com meninos e meninas de 8 a 12 anos de idade, que ficam de quatro a seis horas diante das telas de computadores, tablets, celulares e videogames.

Para a pedagoga Ana Lúcia Pinto de Camargo Meneghel, que desenvolveu o estudo na FE durante o mestrado na linha de psicologia da educação, as crianças que se enquadram neste perfil acabam não brincando e nem tendo uma rotina, o que afeta no ritmo de construção do desenvolvimento cognitivo.

Ao todo, 21 meninos e meninas de uma escola particular na região de Campinas (SP) passaram por testes para avaliar as capacidades que eles precisam ter para, inclusive, aprender bem o conteúdo ensinado na escola. Para a surpresa da pesquisadora, de todas as crianças, apenas uma mostrou as habilidades esperadas para essa faixa.

“Apenas uma criança, de 12 anos, tinha construído as noções lógico-elementares, que seriam as noções matemáticas e a noção de espaço”, afirma a pesquisadora da Unicamp.

Brincar aumenta a criatividade

O uso de eletrônicos em si não é exatamente o problema, segundo a pesquisa, mas sim a falta de brincadeiras no “mundo real”.

“O mais importante é eles brincarem. Num parquinho, na piscina, na escola. Precisa oferecer para essas crianças atividades criativas. Atividades que eu vou buscar, que eu tenha curiosidade”. explica Ana Lúcia. [Veja exemplos no vídeo acima]

Moradora de uma chácara em Vinhedo (SP), Isabella Bracalente, de 9 anos, aproveita para subir em árvores e explorar brincadeiras, como andar de bicicleta, patins e pular corda.

“Eu acho que só ficar no tablet o dia inteiro, a gente não desenvolve a nossa criatividade. Por isso que eu gosto de brincar”, conta a menina.

Segundo a pesquisa, quando a criança brinca, faz uso das operações infralógicas, que garantem noção operatória de espaço, tempo e causalidade. Um exemplo é uma brincadeira simples de entrar debaixo de uma cadeira. A criança precisa viver a experiência para saber se cabe naquele espaço ou não.

Crianças foram entrevistadas

A pedagoga e pesquisadora Ana Lúcia conversou com as crianças e todas afirmaram ter pelo menos quatro aparelhos eletrônicos em casa. Sobre brincadeiras na rua, os meninos e meninas responderam que não brincavam porque os pais não deixavam, por ser perigoso.

Sobre a prática de atividades físicas, das 21 crianças avaliadas, 14 afirmaram que não praticavam nenhuma. As que disseram sim, afirmaram fazer natação, uma ou duas vezes na semana.

A pesquisadora percebeu em outros questionamentos, sobre o que as crianças fazem quando não estão na escola, que muitas não conseguem descrever suas rotinas.

Dificuldades para medir espaço

Entre os testes desempenhados, as crianças tiveram que montar uma torre com peças de madeira em uma mesa e depois outra no chão, com peças diferentes. A ideia é que construíssem torres de igual tamanho. Elas tiveram dificuldades para medir as duas.

Em outra prova, a pesquisadora avaliou a perspectiva. Com a ajuda de uma maquete de casas e fotos de diversos ângulos da maquete, muitas das crianças não conseguiram definir as posições das casas. Ana Lúcia concluiu que essas crianças ainda não tinham desenvolvido a noção de espaço.

E em atendimentos psicopedagógicos, verificou que as crianças sem oportunidade de brincar, explorar e que passam horas diante dos aparelhos eletrônicos, apresentaram dificuldade na hora de organizar os pensamentos. Foi difícil, por exemplo, montar contas matemáticas no papel com um número embaixo do outro.

 

 

 

 

Pode um jogo online engordar uma criança? Autoridades de saúde dizem que sim

Fevereiro 24, 2017 às 10:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , ,

Notícia da http://www.tsf.pt/ de 14 de fevereiro de 2017.

lisa-soares

Nuno Guedes

Direção-Geral da Saúde alerta: pais devem ter cuidado com a publicidade na Internet a alimentos nocivos e dirigida, especialmente, a crianças e adolescentes.

O diretor do Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável da Direção-Geral da Saúde (DGS) dá um exemplo que ele próprio já encontrou na Internet: um jogo, patrocinado, com chocolates.

À partida, parece uma brincadeira inofensiva, mas Pedro Graça diz que estamos perante uma das típicas publicidades “insidiosas” comum na Internet e nas redes sociais.

São casos como este e muitas outras formas de publicidade a alimentos nocivos para a saúde, para crianças e adolescentes, que levam a DGS a estar preocupada com a publicidade na Internet e a fazer um alerta aos pais, mas também ao Estado que deve regular.

Em declarações à TSF, Pedro Graça diz que um estudo recente feito no Canadá concluiu que 90% da publicidade a alimentos na Internet envolvia produtos de “má qualidade nutricional”, algo que em Portugal, até com a internacionalização de muitas marcas, “não será muito diferente”.

O responsável da DGS recorda que a publicidade nos meios tradicionais (rádios, TV, imprensa) foge cada vez mais para a Internet, um sítio onde, segundo afirma, os anúncios estão “fora de controlo” e onde as crianças e adolescentes passam cada vez mais tempo.

Pedro Graça sublinha que “estimamos que uma criança está em média uma ou duas horas por dia em frente à televisão, mas se lhe juntarmos a Internet esse tempo em frente aos ecrãs duplica e mesmo triplica ou quadruplica, o que aumenta a nossa preocupação”.

Um crescimento do sedentarismo que, segundo o especialista, é acompanhado muitas vezes pela publicidade a produtos altamente calóricos e maus do ponto de vista nutricional.

O diretor do Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável cita ainda um estudo da Fundação para a Ciência e Tecnologia que diz que 55% das crianças portuguesas acedem à Internet diariamente por conta própria, a partir do seu quarto, enquanto que os pais portugueses são aqueles que na Europa menos “controlam os conteúdos de uma forma interativa com os filhos” (68 %).

Em declarações TSF, o deputado do PS, Pedro Delgado Alves, explica que as mudanças ao Código da Publicidade que estão a ser discutidas no Parlamento também vão atingir a Internet, mas admite que é muito difícil, quase impossível, regular tudo o que chega às crianças e adolescentes.

ouvir a reportagem no link:

http://www.tsf.pt/sociedade/interior/pode-um-jogo-online-engordar-uma-crianca-autoridades-de-saude-dizem-que-sim-5665827.html

Crianças portuguesas dominam televisão e tablet

Fevereiro 23, 2017 às 10:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , , , , , , ,

Notícia do http://www.cmjornal.pt/ de 16 de fevereiro de 2017.

O estudo citado na notícia é o seguinte:

Crescendo entre Ecrãs. Usos de meios eletrónicos por crianças (3-8 anos)

crescendo

15% das crianças entre os três e os oito anos vê reality shows com os pais.

Por Hugo Real

As crianças portuguesas entre os “três e os oito anos são nativos digitais, vivem em lares digitais, têm pais digitais e 94 % vê televisão todos os dias. O televisor e o tablet funcionam muitas vezes como babysitter ou instrumento apaziguador”. Esta é uma das principais conclusões do estudo ‘Crescendo entre Ecrãs. Usos de meios eletrónicos por crianças (3-8 anos)’, um trabalho desenvolvido pela Entidade Reguladora para a Comunicação Social em parceria a Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, que já está disponível online.

De acordo com o estudo, “as famílias de condição escolar mais baixa têm mais aparelhos digitais em casa e consomem mais conteúdos da televisão generalista”. Já as crianças de famílias de um “estrato socioeconómico mais elevado são as que mais usam a internet”. O inquérito mostra ainda que o televisor está presente em 99% dos lares, sendo seguido pelo telemóvel (92%), o computador portátil (70%) e o tablet (em 68%). “Estes equipamentos estão nos espaços comuns da casa, ao alcance das crianças e, em alguns casos, até lhes pertencem. As crianças apropriam-se dos dispositivos comuns e conseguem manuseá-los com facilidade”, refere a investigação coordenada pela professora Cristina Ponte.

De acordo com o estudo, 94% das crianças vê, diariamente, 1h41 minutos de televisão, sendo que este valor que sobe ao fim de semana. Desenhos animados e programas infantis são os conteúdos favoritos e para a família. Em termos de canais, o Panda é visto diariamente por 75% das crianças, enquanto que os canais Disney chegam a 56%. “O consumo de canais generalistas é superior em crianças integradas em famílias com menor escolaridade”, acrescenta o documento.

O trabalho indica ainda que 79% das crianças vê televisão com acompanhamento parental, “o que significa que 21% das crianças vê televisão sozinha”. “Os pais declaram ver frequentemente com a criança desenhos animados e programas infantis, mas também visionam com os filhos outros conteúdos, como telenovelas, descoberta de talentos, concursos, noticiários… e até reality shows (15%)”.

Segundo a investigação, os tablets são vistos pelos pais como “um dispositivo adequado para as crianças” e estas fazem uso destes equipamentos em “dois terços dos lares onde há este dispositivo, com ou sem a tutela dos pais e irmãos mais velhos”, sendo que 63% tem mesmo o seu próprio equipamento. De resto, os tablets e smartphones são mesmo “usados para acalmar ou distrair a criança durante as refeições ou para premiar o bom comportamento ou desempenho escolar”. É de registar ainda que “18% das crianças destas idades têm um telemóvel para uso pessoal (metade dos quais smartphones)”.

O inquérito revela também que 38% destas “crianças acedem à internet, sendo o tablet o dispositivo mais usado para este fim (63%)”.

 

 

 

 

Entre o encantamento e o pânico dos pais: crianças e jovens passam cada vez mais tempo “agarrados” a ecrãs

Fevereiro 16, 2017 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , , , ,

texto do site http://tek.sapo.pt/ de 7 de fevereiro de 2017.

tek

Do televisor aos telemóveis, passando pelos tablets e computadores portáteis, as crianças e jovens portugueses passam cada vez mais tempo “agarrados” a ecrãs e meios eletrónicos. Estes são muitas vezes usados como baby-sitter ou para acalmar e distrair as crianças durante a refeição.

Em casa, mas também na escola e noutros espaços, é frequente vermos as crianças com a atenção dominada por um qualquer ecrã, que funciona quase como um íman que atrai a vista e capta o tempo dos mais novos. Encantamento de um lado, preocupação e até pânico do outro, ou seja, dos pais e educadores.

Entre televisão, internet e jogos, resta muitas vezes pouco tempo para outras atividades, principalmente o estudo e os desportos ou brincadeiras de socialização, um problema que já foi apontado múltiplas vezes por vários especialistas e pedopsiquiatras, e que se estende para a adolescência e a idade adulta. Mas nem tudo é negativo.

Um estudo realizado no ano passado pela Faculdade de Ciências Socias e Humanas para a Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) traça um retrato fidedigno do ambiente de ecrãs em que vivem as crianças e jovens entre os 3 e os 8 anos de idade, o modo de acesso aos equipamentos e a forma como os pais orientam essa utilização.

O estudo “Crescendo entre Ecrãs: Usos de meios eletrónicos por crianças (3-8 anos)”, que deverá ser publicado em breve e ao qual o TeK teve acesso, partiu de um inquérito nacional realizado face a face em 656 lares, com questionários para pais e crianças, e ainda entrevistas e observação em casa de 20 famílias de diferentes perfis e com crianças utilizadoras da internet.

Em termos gerais, as conclusões não diferem da realidade com que nos deparamos habitualmente: todas as crianças veem televisão, metade joga jogos digitais e 38% usam a internet, uma contabilização que os autores do estudo usam para contrariar a imagem de ‘nativos digitais’ como condição atual de ser criança. “A utilização dos equipamentos é muitas vezes meramente instrumental e falta a componente social, com a gestão da comunicação e das frustrações”, explica ao TeK Cristina Ponte, uma das investigadoras da FCSH que liderou o estudo.

Novos cenários e enquadramento

Nos últimos dez anos muito mudou em termos de cenário tecnológico e de uso dos equipamentos e por isso a investigadora explica que era importante atualizar os números e a análise do uso de equipamentos eletrónicos por parte dos mais novos. “Mudou a paisagem de aparelhos eletrónicos que usamos. Hoje dominam os smartphones e os tablets, mas também mudaram as tecnologias e mercados, as redes sociais e todos os conteúdos que são mais visuais”, justifica.

Segundo o estudo, o telemóvel e o televisor são os ecrãs mais presentes nos lares, seguidos de tablets e portáteis, e cerca de metade das crianças que acede à internet tem o seu próprio tablet, concluindo-se que as que estão integradas em famílias com estatuto socioeconómico alto são as que acedem mais e usam mais a internet. Esta utilização é sobretudo lúdica, com domínio dos desenhos animados e filmes, jogos e músicas.

Os dados indicam que dois terços das crianças entre os 6 e 8 anos acedem à internet, o dobro do número registado no grupo dos 3 aos 5 anos.

Apesar da televisão ser mais dominante entre os ecrãs que captam a atenção dos mais novos, os pais mostram maiores preocupações em relação ao uso da internet, enquanto as questões com o consumo televisivo estão mais relacionadas com interdição de conteúdos violentes do que sobre o tempo gasto em frente ao televisor.

Das entrevistas e observação realizadas pela equipa em casa de 20 famílias, a ideia mantém-se: o contacto das crianças com a televisão é frequente e intenso, em espaços comuns e em televisores partilhados que muitas vezes monopolizam. A televisão está presente em ‘pano de fundo’ enquanto as crianças se ocupam com outras coisas e como baby-sitter. Este ecrã também é usado para distrair a criança, quando está a ser vestida ou alimentada, ou para ajudar a adormecer ou a acordar.

Também os tablets e smartphones são usados como “pacificadores” para acalmar ou distrair as crianças no momento da refeição, ou como moeda de troca por bom comportamento ou desempenho escolar. O estudo mostra que a maioria das crianças usa a internet numa base diária, sobretudo através de ecrãs portáteis e individualizados, com preferência pelo tablet.

E o que devem as famílias fazer? O estudo aponta ainda algumas recomendações dirigidas às famílias, mas também às escolas, empresas e comunidade, referindo que as famílias estão a aprender a lidar com uma tecnologia desafiante e que as estratégias devem ser sobretudo flexíveis, ajustando-se à idade, interesse e necessidade das crianças. “Estratégias restritivas resultam numa limitação do acesso a oportunidades, pelo que a mediação deve privilegiar a capacitação para a resolução de problemas e a resiliência”, refere-se.

 

 

“Interditar ou Capacitar?” – Artigo de Cristina Ponte

Janeiro 27, 2017 às 6:55 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , , , , , ,

Artigo publicado no site https://www.internetsegura.pt/ a 26 de janeiro de 2017.

O Estudo “Crescendo entre ecrãs. Os usos de ecrãs por crianças de 3-8 anos”, coordenado pela Professora Cristina Ponte e promovido pela Entidade Reguladora para a Comunicação Social, vem apontar para os desafios da mediação parental da Internet em Portugal – “interditar ou capacitar?”.

No próximo dia 28 de Janeiro, o estudo será referenciado no Jornal Expresso.

Faça o download das notas de pesquisa em primeira mão.

Anexo

Videojogos: “Proibir não é a solução”

Janeiro 6, 2017 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , ,

Entrevista de Nuno Lobo Antunes ao https://www.publico.pt/ de 27 de dezembro de 2016.

Nuno Lobo Antunes, director clínico do centro de desenvolvimento PIN – Progresso Infantil Enric Vives-Rubio

Nuno Lobo Antunes, director clínico do centro de desenvolvimento PIN – Progresso Infantil Enric Vives-Rubio

Nuno Lobo Antunes defende que é necessário utilizar os próprios jogos e a tecnologia no tratamento de crianças com dependência de videojogos.

Romana Borja-Santos

Para o neuropediatra Nuno Lobo Antunes, director clínico do centro de desenvolvimento PIN – Progresso Infantil, as tecnologias fazem e vão continuar a fazer parte do mundo das crianças e jovens. Perante um número cada vez maior de casos de adicção aos videojogos e jogos online, o médico defende que é urgente que os pais estejam atentos e que apostem na prevenção. Mas sem proibição. Lobo Antunes defende que o problema não está no meio, mas no uso que se lhe dá, e faz um paralelismo com uma faca: “Pode ser utilizada para cortar amarras ou para ferir alguém.”

As situações de adicção aos jogos são mais frequentes quando há perturbações do desenvolvimento nas crianças?

Há uma grande incidência, nomeadamente nos casos de Síndrome de Asperger, a forma mais ligeira do autismo. São miúdos com dificuldades na interacção social, com dificuldade em fazer ou manter amigos, e às vezes com alguma dificuldade também em fazer uma distinção entre o mundo real ou fantasiado. Temos vários casos em que a dependência chega a um ponto em que abandonam todas as outras actividades, o que provoca situações dramáticas. Se os pais lhes cortam essa possibilidade isso leva a desregulações comportamentais gravíssimas. Mas também há miúdos sem perturbações e em que percebemos numa idade precoce que têm uma grande tendência para desenvolver esta adicção. A prevenção é essencial.

Como se controla a relação com os videojogos se praticamente todas as crianças e jovens têm smartphones nas mãos?

Hoje já ninguém tem um telefone. As pessoas têm computadores nas mãos. A minha visão é de que temos de acompanhar os desafios, dificuldades e soluções que a sociedade vai criando à medida que vai evoluindo. Lidamos com seres em transformação constante. Se não estivermos atentos a essas mudanças estamos a lidar com crianças do passado e não com as crianças actuais e proibir não é solução. É preciso compreender que as novas tecnologias trazem soluções novas. No PIN temos mais de 100 crianças a quem fazemos intervenção à distância. As novas tecnologias também criam soluções novas que permitem fazer coisas fantásticas.

Nas terapias usam videojogos ou jogos online?

Absolutamente. Muitas vezes as sessões psicoterapêuticas também terminam com um jogo ou com uma actividade lúdica que reforça a cumplicidade e a ligação entre as crianças e os terapeutas. Como costumo dizer, a faca é um belíssimo instrumento. Tudo depende da mão que a empunha. Pode ser utilizada para cortar amarras ou para ferir alguém. O problema não é da faca, é da mão que a empunha. Queremos ser uma mão – e somos seguramente – que usa a faca no bom sentido. As pessoas confundem o instrumento com quem o utiliza.

A forma como as novas gerações utilizam os videojogos pode mudar o nosso cérebro?

O nosso cérebro permanece igual há milhares de anos. Não é assim tão fácil de transformar quanto isso. Se treinamos muito uma determinada actividade naturalmente que nos tornamos mais aptos nessa actividade. Mas o cérebro não muda assim de forma tão definitiva, adquire competências através do treino. Mas são alterações individuais. No século XIX temia-se muito que os romances fizessem mal às raparigas, que lhes enchessem a cabeça de fantasias e visões eróticas. Há sempre uma certa relutância da geração anterior em compreender o que atrai e fascina as gerações que se seguem. Os alunos mexem melhor com a tecnologia do que os professores e isso é novo. A reacção normal dos mestres é uma reacção muito defensiva e não adaptativa.

 

Presos ao ecrã

Janeiro 5, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , , , , , , , ,

Texto da http://www.paisefilhos.pt/ de 23 de dezembro de 2016.

pais-filhos

Escrito por Paulo Oom, pediatra

A utilização maciça da multimédia, através do telemóvel, televisão e consolas tem repercussões. Ser muito social nas redes sociais pode significar um grande isolamento.

 Hoje, o tempo de estudo de uma criança é bem diferente do que era há uns tempos. Já não existe a secretária cheia de papel, borrachas e lápis ou a tradicional biblioteca ou escritório cheios de livros para consulta. Pelo contrário, a criança tem hoje ao seu dispor inúmeros recursos em qualquer computador e quase tudo o que precisa saber lhe salta para cima à distância de um clique. Um teclado e um “rato” são tudo.

Também as brincadeiras já não são o que eram. Andar de bicicleta, jogar futebol, jogar basquete, brincar à cabra-cega ou ao mata são coisas de um passado distante. Pelo contrário, nunca como antes houve à disposição das crianças e jovens tanta tecnologia para se divertirem e distraírem. São computadores, consolas, telemóveis e múltiplos comandos que as levam para aventuras nunca antes vividas e emoções nunca antes sentidas. A criança está sentada em frente a um grande ecrã onde todo o mundo passa à sua frente. Virtual, claro.

Uma velocidade impressionante

Uma das formas mais interessantes para analisarmos o impacto das novas tecnologias é analisar quanto tempo demora determinada tecnologia a atingir os 50 milhões de utilizadores. Um número impressionante, é certo, mas que reflete bem a penetração no mundo de cada novidade. Para a rádio, por exemplo, foram necessários 38 anos para atingir aquele número de ouvintes. Já o telefone, depois de inventado, precisou de “apenas” 20 anos e a televisão de uns “poucos” 13 anos para conseguirem ter 50 milhões de utilizadores regulares. Os números mais recentes, contudo, impressionam mais. Para a internet bastaram quatro anos e mais recentemente todos os recordes foram batidos com o Facebook a precisar de três anos e meio e o Twitter de apenas três anos para serem utilizados por 50 milhões de almas. No entanto, nada disto é comparável aos 88 dias conseguidos pelo Google + para se espalhar pelo mundo e atingir o mesmo número de utilizadores.

Uma utilização maciça

Um estudo americano recente, desenvolvido pela Kaiser Family Foundation, revelou que as crianças e jovens americanos com idades entre os oito e os 18 anos utilizam aparelhos multimédia durante 7h38m por dia ! E esta evolução tem sido crescente, pois ao longo dos últimos anos a sua utilização tem vindo a aumentar, ao contrário da leitura de livros tradicionais que tem vindo a diminuir progressivamente. Muitos destes jovens possuem atualmente vários dispositivos multimédia, com destaque para os iPod/Mp3 seguidos de perto pelo telemóvel e pelo computador. O telemóvel tem vindo a disseminar-se e hoje cerca de um terço das crianças com menos de dez anos possui um. Esta percentagem sobe para perto dos 90 por cento quando falamos de adolescentes entre os 15 e os 18 anos. Ainda no mesmo estudo verificamos que apesar da profusão de instrumentos multimédia ao dispor dos jovens, e das preocupações levantadas por muitos pais, apenas um terço dos pais estabelece regras em relação à sua utilização, nomeadamente em relação ao tempo durante o qual podem utilizar cada dispositivo.

Um estudo semelhante realizado em Portugal revelou que praticamente 100 por cento dos lares portugueses possuem televisão e que em cerca de 90 por cento existe um computador. Mais importante, 60 por cento das crianças portuguesas têm uma televisão e 30 por cento um computador no quarto. No total, o tempo gasto por dia em multimédia pelas crianças e jovens portugueses ultrapassa as 5h30m. Estamos no caminho certo? Não parece…

As consequências são inevitáveis

Tudo isto tem consequências. As crianças comunicam cada vez menos umas com as outras de forma presencial e o seu relacionamento é feito muitas vezes à custa de símbolos como smiles, LOL ou polegares virados para cima. Em vez de darem a mão parece estarem ligadas por wi-fi. Mesmo quando em família, começam a ser raros os momentos passados em conjunto a conversar, a rir ou a passear ao ar livre. O computador e principalmente o telemóvel tomaram gradualmente conta de todo o tempo disponível. As refeições estão cada vez mais multimédia e numa mesa, para além dos pratos, talheres, copos e guardanapos, existem sempre espalhados diversos telemóveis. Mesmo na escola e nos recreios a maior parte das brincadeiras foi substituída pelo olhar mecânico para o pequeno ecrã e o teclar constante. Chegam a estar lado a lado mas a comunicar através das teclas. Infelizmente muitas vezes o exemplo é dado pelos próprios pais. No estudo americano que já referi verificou-se que estes passam por semana mais de 33 horas vidrados no ecrã. Que lindo exemplo. Como podem depois ter autoridade para impor limites?

Uma evolução plástica em resposta ao meio ambiente

O cérebro é um órgão maravilhoso. Ele é o cerne da consciência e controla a atividade de todo o corpo. O cérebro de um recém-nascido contém cerca de 100 biliões de células. Ao longo dos primeiros anos de vida o cérebro vai aumentando em tamanho mas o número de células mantem-se aproximadamente o mesmo. O seu tamanho final depende de muitos fatores incluindo aspetos genéticos, uma boa nutrição, a estimulação fornecida pelos seus pais e as experiências vividas pela criança.

 A principal característica das células cerebrais é a sua capacidade para se conectarem umas com as outras, estabelecendo circuitos que vão ser utilizados para as mais diversas funções. Uma única célula cerebral pode ligar-se a 15.000 outras células.

Aos três anos o cérebro de uma criança possui mais de mil triliões de ligações. Mas este número começa a diminuir a partir daí, pois apenas se vão manter para o resto da vida as ligações utilizadas e vão ser reprimidas as ligações não utilizadas ou inúteis. Isto confere ao cérebro humano uma enorme plasticidade e a capacidade de se desenvolver em resposta às exigências do ambiente. Esta maturação cerebral não ocorre toda ao mesmo tempo mas ao longo da vida durante os primeiros 18 a 20 anos. E ocorre para diferentes áreas do cérebro de forma sequencial. Sabemos por isso que existem períodos da vida onde a criança e jovem estão especialmente aptos a progredir na aquisição de determinadas funções. São as suas “janelas de oportunidade”.

É o caso da visão e da audição que estão especialmente ativas na sua maturação desde o nascimento e até aos cinco anos de idade, ou da linguagem que tem uma enorme capacidade de desenvolvimento do nascimento até aos dez anos. Já a destreza motora desenvolve-se principalmente até aos 12 anos.

 Por fim, o desenvolvimento das relações sociais e os aspetos emocionais das ligações humanas podem desenvolver-se desde o nascimento até aos 18 ou 20 anos. Ao longo de todo este processo sabemos que as áreas cerebrais que forem estimuladas pela experiência desenvolvem-se gradualmente enquanto que as áreas que não forem estimuladas caem em desuso e são “descontinuadas”. É uma forma de o cérebro humano canalizar a sua energia para estabelecer as relações entre as células e as vias que interessam, em detrimento daquelas que parecem menos utilizadas (e portanto inúteis).

Uma das últimas áreas a desenvolver-se é a zona do lobo frontal, que é responsável pelo controlo emocional, planeamento, julgamento e pensamento crítico. Estas áreas amadurecem principalmente durante a adolescência e até aos vinte anos. Isto permite explicar alguns dos comportamentos de risco da adolescência e ao mesmo tempo levantar suspeita de que os jovens que não utilizam estas áreas do cérebro durante a adolescência por estarem demasiadamente ocupados num mundo virtual virão a ser seguramente adultos diferentes daquele que foram os seus pais.

Multitasking – vantagem ou prejuízo?

O fenómeno multitasking, tão em voga atualmente, é por muitos considerado como uma enorme vantagem, por permitir que o jovem execute diversas funções ao mesmo tempo. A criança já não estuda simplesmente. Estuda ao mesmo tempo que ouve música, navega na internet e fala ao telefone. Mas esta suposta “vantagem” não o é na realidade. O cérebro tem pouca capacidade para efetuar diversas funções em simultâneo. Pelo contrário quando um jovem executa diversas atividades em simultâneo o que acontece na realidade é que o seu cérebro vai alternando por períodos muito curtos entre uma e outra função. E quanto maior o número de funções maior a dispersão cerebral entre todas elas, não conseguindo nunca concentra-se numa só. Daqui resulta um conhecimento muito alargado no que diz respeito aos tópicos envolvidos, mas muito pouco profundo quando analisado cada tópico em particular. É o célebre conhecimento “mile wide and inch deep”. Muito pouco de muita coisa.

Relacionamentos sociais:

quantos mais melhor?

Analisando diferentes espécies conseguimos perceber que a percentagem do seu cérebro ocupada com os aspetos sociais varia de espécie para espécie e que isso influencia o número de relacionamentos significativos que cada indivíduo consegue ter. Indivíduos de espécies animais com um cérebro maior, conseguem relacionar-se com um maior número de indivíduos da mesma espécie. Extrapolando para o tamanho do cérebro humano seria de esperar que qualquer um de nós conseguisse lidar, na nossa vida social, com 100 a 230 relacionamentos sociais significativos, sendo o valor médio esperado para a nossa espécie de 150. No entanto, verificamos que o número médio de relacionamentos Facebook entre os jovens é de 834. Mais social será provavelmente igual a menos social pois a maioria desses relacionamentos será tão superficial que em nada se distinguirá da não-existência.

Exercício físico e violência

Não parece haver uma relação inversa entre a utilização multimédia e a prática de exercício físico. Muitas crianças com uma utilização considerada alta de multimédia praticam bastante exercício, provavelmente porque durante a prática física estão a ouvir música através de algum dispositivo eletrónico. O sedentarismo não é explicado apenas pela utilização destes dispositivos, mas alguns poderão estar mais relacionados com a obesidade, como é o caso das consolas de jogos. Da mesma forma, a utilização de multimédia não torna aparentemente as crianças mais violentas. Enquanto as vendas de jogos considerados de “conteúdo violento” aumentam, o número de crimes violentos entre os jovens tem vindo a diminuir. Parece que os jovens conseguem distinguir com alguma coerência o mundo real do virtual ou conseguem “descarregar” o seu stresse e agressividade na consola de jogos, servindo como um escape para a violência no mundo real. Cada caso é um caso e cabe aos pais irem acompanhando o adolescente que têm em casa e estabelecerem as regras adequadas.

Nota final

Estudos demonstram que a utilização multimédia não é inocente. Canaliza a energia do jovem para o desenvolvimento de certas áreas cerebrais em detrimento de outras, em períodos sensíveis do desenvolvimento, tornando mais difícil que no futuro este seja capaz de reverter a situação.

Escola e satisfação pessoal

É aqui que existem os maiores problemas. Muitos estudos realizados nesta área demonstram que existe uma relação direta entre a utilização de aparelhos multimédia e os maus resultados escolares, provavelmente pelo efeito multitasking, em que a criança estuda agarrada aos seus vários dispositivos, de que resulta um défice de atenção em relação àquilo em que devia estar concentrada. A internet é mais utilizada para gozo do que para estudo e muitas vezes simultaneamente para os dois, com maus resultados.

Mais importante parece ser a relação encontrada entre a satisfação pessoal do jovem e o grau de atualização de aparelhos multimédia. Diversos estudos chegaram à conclusão que quanto maior a utilização dos elementos multimédia menor é o grau de satisfação do jovem com a sua vida e aqueles que o rodeiam. Os jovens com utilização alta de multimédia são, em média, mais ansiosos e mais dados a depressões que os restantes.

 

 

 

 

 

Videojogos: quando a vida dos filhos passa a estar centrada num ecrã

Janeiro 4, 2017 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , ,

Texto do https://www.publico.pt/ de 27 de dezembro de 2016.

No centro clínico PIN — Progresso Infantil os pais são convidados a participar nos jogos com os filhos Enric-Vives Rubio

No centro clínico PIN — Progresso Infantil os pais são convidados a participar nos jogos com os filhos

Vício é cada vez mais comum entre as crianças que passam a viver isoladas. O PÚBLICO acompanhou uma sessão com pais e filhos num centro clínico que trata este comportamento aditivo.

Romana Borja-Santos

As crianças vão entrando e pedindo licença para ocupar um lugar nos poufs dispostos em frente às consolas. Timidamente. Quase é necessário que os terapeutas lhes peçam para começar a jogar. À porta, os pais espreitam. No entanto, não é preciso passar muito tempo para que estalem os primeiros sinais de conflito entre os meninos. Parar o jogo e dar lugar a uma outra criança parece ser uma missão difícil, mesmo num ambiente diferente do de casa. “É um dos sinais de adicção aos videojogos”, alerta Pedro Rodrigues, psicólogo clínico e um dos psicoterapeutas do centro clínico de desenvolvimento PIN — Progresso Infantil, onde decorreu esta experiência que junta pais e filhos numa sessão sobre os desafios que as novas tecnologias estão a trazer às famílias.

Enquanto os filhos jogam, os pais são convidados para uma conversa de grupo com Pedro Rodrigues. O relato dos problemas que têm em casa também começa de forma tímida. Mas rapidamente concluem que lidam com casos muito semelhantes. “A maior dificuldade é quando é para o tirar do jogo, mas eu até compreendo em parte porque gosto de jogar”, sintetiza Octávio Gonçalves, um dos pais. A sessão, que decorreu há uma semana, contou com um grupo de 30 crianças. Pedro Rodrigues admite que não são raros os casos com demonstrações de violência física que chegam ao centro, em Paço de Arcos, Oeiras. Alguns já partiram a consola, o computador ou o telemóvel nos momentos de revolta.

Além das explosões de raiva, o interesse quase exclusivo e obsessivo pelos jogos e pela Internet é outro sinal de alerta, a par com o aumento do tempo de jogo, os conflitos, a quebra do rendimento escolar e as mentiras sobre o tempo que se passa a jogar. A perda de outros interesses, a fuga às emoções e o insucesso em tentar reduzir o tempo de jogo são outros sinais. Quando quatro ou cinco destas características estão presentes, Pedro Rodrigues alerta que é urgente pedir ajuda. Aliás, este comportamento adictivo foi incluído em 2013 na última revisão do Manual de Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais.

“Os pais vêm procurar ajuda quando o problema já está no patamar do intolerável, quando existe violência física, verbal e quando as notas baixam, porque os pais são muito sensíveis às notas”, diz João Faria, também psicólogo clínico e responsável pelo Núcleo de Intervenção no Comportamento Online do PIN, centro que é dirigido pelo neuropediatra Nuno Lobo Antunes [ver entrevista ao lado]. Aqui acompanham sobretudo crianças com perturbações do desenvolvimento, em que são mais comuns os problemas de dependência — em particular nos casos de Síndrome de Asperger (forma ligeira de autismo). “Nestas perturbações há muitos interesses exclusivos e tendência para escolher uma actividade e desenvolvê-la muito, também pela capacidade de controlo e antevisão da situação”, explica João Faria.

“Quer ser youtuber

Na sessão com os pais, alguns admitem que tentam lidar com o problema proibindo temporariamente os jogos. Helena Castro tem dois filhos. Diogo com 13 e António (nomes fictícios) com 10 anos. O primeiro chegou ao PIN devido a problemas de comportamento, o segundo tem Asperger. As tecnologias são um problema, sobretudo no mais velho. “Quer ser youtuber”, resume a mãe, que relata dificuldades em casa e na escola — com uma série de notas negativas e “brancas” nos testes. Diogo quase nunca se desliga. Mesmo na escola vai fazendo vídeos com os amigos e publicando na Internet. “Volta e meio tiro-lhe o telemóvel e dou-lhe um dos antigos, que só faz e recebe chamadas. Chama-lhe o Ipedra, em brincadeira com o nome do Ipad, e diz que sou uma ditadora, uma Hitler.”

Susana Saldanha conhece bem o cenário. É mãe de um outro youtuber, Francisco, de 10 anos, “que sempre foi extremamente regrado” até terem ido, há um ano, por razões profissionais, para o Rio de Janeiro. “É uma sociedade totalmente diferente e posso dizer que o meu filho era um pouco gozado por ser português. Nem telemóvel tinha e lá eles têm tudo e eu tive de lhe dar um para ele se sentir integrado”, explica.

A oferta teve o efeito contrário: Francisco começou a isolar-se cada vez mais. Passou a estar sempre online ou a jogar. A relação de proximidade com a mãe deu lugar a conflitos. Mergulhava cada vez mais tempo nos jogos. Entrou em depressão, teve pela primeira vez uma crise de epilepsia que os médicos atribuíram à mudança radical de vida. Regressaram a Portugal. Mas com eles veio também “o vício dos videojogos e da Internet”. “O meu filho reconhece que está viciado e que tem dificuldade em parar e que acaba por usar os jogos e o YouTube como um refúgio para as emoções”, explica.

Proibir?

Pedro Rodrigues e João Faria são unânimes: proibir não deve ser o caminho. Até porque os jogos têm potencialidades. Na sala onde decorre a experiência há conflitos. Mas também há meninos que quase não comunicam e que a jogar vão falando e rindo com os parceiros. “Se eu retirar não vou dar a possibilidade das crianças aprenderem a auto-regularem-se. A tecnologia deve ser um elemento de ajuda nos ganhos de competência. Isso implica que pais e educadores estejam mais presentes”, defende Pedro Rodrigues. O psicólogo lembra que a adicção aos videojogos actua no cérebro da mesma forma que “as drogas como a cocaína ou heroína”, pelo que é “essencial” actuar no comportamento em vez de só restringir.

Dicas que Susana Simões, outra das mães presentes na sessão, recebe como úteis, mas com dúvidas. “Os jogos violentos trazem algum benefício?”, questiona. Pedro Rodrigues defende que os pais devem ficar atentos às idades recomendadas. “Mas mesmo que eu tente evitar há os colegas da escola que vêem programas e jogam jogos violentos”, contrapõe Susana Simões.

Uma realidade de que Pedro Rodrigues está consciente. A receita, defende, está em conversar com os filhos sobre o mundo irreal dos jogos. Sobre a violência em concreto, reconhece que pode parecer estranho, mas sublinha que “pode servir como momento de libertação de energias sobretudo nos jovens com algumas perturbações e com dificuldade em aderir a actividades físicas”. Nas perturbações do desenvolvimento há quase sempre um défice na produção de dopamina, uma substância associada ao prazer e às recompensas que muitas vezes estes jovens não conseguem no mundo real.

O terapeuta lembra que a postura inicial dos pais neste dia de experiência foi ficar fora da sala das consolas, recomendando que tentem participar nas actividades — até para perceberem como funcionam os jogos. João Faria corrobora que é importante os pais envolverem-se, considerando que pode ser perigoso “tirar o chão” a estas crianças — ou seja, fazer um corte radical. Até porque, este comportamento de dependência, diz, é muitas vezes o espelho de outros assuntos mal resolvidos, nomeadamente a incapacidade que muitos jovens têm em serem aceites socialmente e em terem os resultados esperados a nível escolar. “Os pais estão ávidos de ter estratégias, mas tem de ser feito um trabalho prévio”, sublinha João Faria. “Têm de ter tempo para serem pais.”

 

 

Página seguinte »


Entries e comentários feeds.