Telemóveis à mesa? O alerta “oportuno” do Papa

Fevereiro 17, 2020 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia e imagem do Educare de 5 de fevereiro de 2020.

Sara R. Oliveira

O mundo já não vive sem tecnologia e os dispositivos móveis fazem parte do cérebro dos nativos digitais. Há, porém, momentos de convívio que não merecem ser perturbados. As refeições em família são tempos de comunicação por excelência. O que fazer? Como usar esse objeto que tanto aproxima como afasta?

No último domingo de 2019, dia da Sagrada Família, o Papa Francisco saiu ligeiramente do seu discurso durante a habitual missa no Vaticano, em Roma, Itália, para lançar uma pergunta incómoda na era da globalização e do mundo tecnológico e digital. “Na tua família, sabes comunicar ou és como aqueles jovens que estão à mesa com o telemóvel, a conversar no chat?”, perguntou para avisar que a comunicação em família é fundamental e não pode ser negligenciada. Este alerta do Papa volta a centrar as atenções num tema pertinente e atual. Os telemóveis não devem fazer parte das refeições. “Devemos reanimar a comunicação na família”, pediu.

“Do Telemóvel para o Mundo. Pais e Adolescentes no Tempo da Internet” é o título do mais recente livro de Daniel Sampaio, psiquiatra e professor catedrático. “O apelo do Papa é oportuno, mas não se deve criticar o uso dos telemóveis, que são muito importantes para comunicar com o mundo”, refere ao EDUCARE.PT. E, como sustenta no seu livro, “ninguém deve ter telemóveis à mesa (filhos e pais)”. “Os telemóveis devem ser desligados antes da hora de dormir”, acrescenta.

Nesse livro, Daniel Sampaio recupera a expressão “galáxia internet”, termo do sociólogo espanhol Manuel Castells, para sublinhar e reafirmar que hoje é impossível viver sem internet e que o número de utilizadores aumenta todos os dias. “Os jovens são os habitantes mais ativos desta nova galáxia e por vezes até a glorificam em excesso. A realidade é que os adolescentes não são capazes de viver sem internet e é bom que pais e professores se convençam disso”.

O telemóvel já faz parte do cérebro e do corpo dos jovens. Não há volta a dar, não adianta afirmar o contrário. Esta é uma das mensagens principais do livro de Daniel Sampaio que explica que a constatação não tem necessariamente de ser uma coisa má. Esse objeto permite contactar muita gente, marcar uma viagem, um jantar, um encontro, uma festa. Um pequeno objeto que cabe na palma de uma mão e que é uma porta aberta para o mundo. Não há distâncias, não há barreiras. “Tudo isto deve ser aproveitado. Estamos num mundo novo e é fundamental que pais e filhos se encontrem nesse mundo e que o telemóvel não seja apenas um motivo de conflito”, escreve Daniel Sampaio.

Tito de Morais, fundador do projeto MiudosSegurosNa.Net, que ajuda famílias, escolas e comunidade a promover a segurança online, considera a declaração do Papa sobre os telemóveis “extremamente oportuna”. “A utilização de dispositivos móveis durante as horas das refeições está a destruir a comunicação familiar e o próprio tempo de refeição”, refere ao EDUCARE.PT. E, a propósito, lembra um episódio contado por uma amiga pediatra que ao explicar a uma mãe que às refeições não deveria haver intromissão de aparelhos tecnológicos, essa mãe perguntou o que era isso de refeições, contando que, em sua casa, cada um se servia do tacho na cozinha. Ela ia para a sala ver televisão enquanto comia e o filho para o quarto comer enquanto jogava.

Entrar num restaurante fundamenta a preocupação do Papa, segundo Tito de Morais. “Rara será a mesa com crianças em que estas não estejam hipnotizadas pelo telemóvel ou pelo tablet. Os pais estarão também provavelmente grudados à televisão”. O problema é os pais não terem noção de que se estão a retirar de um tempo único, cada vez mais raro, de convívio e diálogo com os filhos. “Quando se aperceberem do erro que cometeram e procurarem repor esse tempo, já irão tarde demais e dificilmente o conseguirão fazer, por duas razões: o tempo que se perdeu, está perdido, não volta para trás, e já desenvolveram nos filhos, ao longo de anos, um hábito e uma rotina e, como sabemos, hábitos e comportamentos são das coisas mais difíceis de alterar”.

Nem smartphones, tablets ou televisões ligadas nos momentos das refeições. Esses momentos devem ser espaços de interação pessoal, para falar, ouvir, conversar. Tito de Morais refere que o papel da escola e dos educadores deve centrar-se na educação parental, “mostrando, com exemplos, a importância da preservação do tempo da refeição como um tempo de diálogo familiar e dos benefícios que daí se tiram ao nível do acompanhamento parental da vida dos nossos filhos”. “Pais, famílias, escolas, professores e educadores devem promover o ensino da gestão do tempo e das prioridades como uma competência essencial para os dias de hoje e para o futuro”, defende o autor do MiudosSegurosNa.Net.

“Os filhos perdem-se em casa”
Os telemóveis e as novas tecnologias constituem um enorme desafio para as comunidades e um constrangimento para as famílias em todo o mundo. São realidades demasiado evidentes. Para Luís Fernandes, psicólogo, mestre em Observação e Análise da Relação Educativa, o alerta do Papa Francisco “faz todo o sentido” e, vindo de quem vem, alcança mais gente, em diversos contextos, e fá-lo com um grande impacto social. Em seu entender, é preciso analisar vários fatores e olhar para o mundo digital como um aliado, não como um inimigo.

A geração “always on”, sempre ligada, vive agarrada à tecnologia. Os nativos digitais não conhecem outro mundo, e os seus pais, mais velhos, tiveram de entrar nessa realidade, sentem também que têm e devem estar sempre ligados, onde estiverem, a que horas for, seja por motivos pessoais, seja por razões profissionais. “Damos a tecnologia muito cedo aos miúdos e isso acaba por afetar a comunicação”, comenta. E, muitas vezes, os telemóveis nas mãos dos mais novos tornam-se momentos de descanso para os mais velhos.

“Os filhos perdem-se em casa pelas navegações que fazem”, refere Luís Fernandes. A frase exemplifica o que acontece quando se vive constantemente ligado às novas tecnologias e o tempo de brincar na rua já se encontra em vias de extinção. “Na adolescência, os jovens afastam-se um bocadinho, não comunicam tanto com os pais, e as novas tecnologias amplificam a falta de comunicação”, comenta o psicólogo. É preciso impor algumas restrições e se não há telemóveis à mesa, não há para todos, filhos e pais, pais e filhos. “Os miúdos não podem ver isso como algo injusto, eles não podem, mas os pais podem. Tem de ser algo negociado. Para todas as partes, os mesmos deveres”. Há famílias que, sobretudo ao fim de semana, estabelecem um horário sem telemóveis para passear, fazer jogos, brincar. Pais e filhos, juntos, sem toques e interferências por perto.

A tecnologia também mudou a forma de ensinar, a forma de preparar e dar aulas. Há novas ferramentas que prendem a atenção dos alunos. “Temos de ver como usar essas ferramentas a nosso favor e isso passa muito por dialogar e envolver esses dispositivos na aprendizagem”, refere. Dar aulas de outras maneiras, explorar abordagens mais atrativas. “Não faz sentido querer que a tecnologia não faça parte da vida dos nativos digitais”, avisa Luís Fernandes. O melhor caminho é limitar e consciencializar os mais novos. Proibir não ajuda, nem resulta.

“Desencontros comunicacionais”
Sónia Seixas, psicóloga e professora universitária, licenciada em Antropologia Social e em Psicologia Educacional, doutorada em Psicologia Pedagógica, abre e fecha parênteses antes de abordar diretamente o assunto. O facto de alguém de uma geração anterior comentar ou avaliar comportamentos da geração seguinte, mais nova, nomeadamente quanto à introdução de elementos de inovação que interferem na vivência quotidiana das duas gerações (a anterior e a seguinte), é complexo, difícil, e possivelmente tendencioso. É com esta ressalva que fala do assunto e comenta a declaração do Papa Francisco, sobretudo enquanto mãe e membro de uma sociedade em acelerada transformação.

“É inevitável que esta nova geração se habitue, desde cedo, a contactar, interagir e comunicar à distância, através dos ecrãs, utilizando habilmente todos os dispositivos e aplicações que se encontram disponíveis e acessíveis à sua exploração e utilização”, afirma. Mas, sublinha, estas novas maneiras de comunicação “não se substituem às formas presenciais de interação que a geração dos seus pais avós não só prefere, como utiliza de sobremaneira”. Por causa destas preferências que não coincidem instalam-se, por vezes, “desencontros comunicacionais” que, em seu entender, “não deveriam ser obrigatoriamente entendidos nem como opostos nem como obstáculos”, apesar da tecnologia sempre presente, desde o acordar ao deitar, poder dificultar a partilha de alguns momentos em família, como a refeição quando é feita em conjunto.

“Nos dias de hoje, em que vivemos o nosso dia a dia de forma acelerada, apressados para conseguirmos responder simultaneamente a todas as demandas profissionais, pessoais e familiares, torna-se difícil garantir momentos em família, onde a comunicação tenha um espaço devidamente assegurado. É por isso fundamental criar oportunidades em que todos os elementos da família possam comunicar presencialmente, olharem-se nos olhos, ler e interpretar emoções e estados de espírito através da linguagem não verbal (corporal e facial), escutar, expressar-se verbalmente, sem a mediação de ecrãs”, refere Sónia Seixas.

A utilização das tecnologias é muito atrativa e isso é inquestionável. Há, no entanto, outros fatores a ter em consideração. “Em momentos que temos a família reunida, nomeadamente à volta da mesa de refeição, deveríamos encontrar mecanismos para que a familiaridade, a intimidade, a cumplicidade, a partilha, o auto e hetero conhecimento, se pudessem desenvolver e aprofundar”. Pais e filhos distantes, por momentos, dos alertas de mensagens, do email, daquela necessidade de consultar, de mil informações que passam pelo ecrã.

A família em primeiro lugar. “Havendo um papel a atribuir, seria à família e não à escola, uma vez que esses momentos familiares, a serem ‘regulamentados’ ou negociados, devem sê-lo nesse contexto, com esses interlocutores e tendo como referência a sua própria rotina e dinâmica relacional”. Em seu entender, não é que a comunicação necessite de ser “reestabelecida ou retomada” na família, mas antes que “tenha de haver um esforço consciente e voluntário, para que se mantenha nos termos daquilo que possamos considerar como menos digital e mais presencial, menos online e mais offline”.

Estamos separados e amamos os nossos filhos

Fevereiro 7, 2020 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opnião de Vera Ramalho publicado no Público de 16 de janeiro de 2020.

Pais que são adequados na definição da guarda da criança, nas práticas parentais, que têm menos conflitos durante o divórcio e à frente da criança, podem amenizar o impacto do divórcio na criança.

Na literatura, o divórcio ou a separação dos pais é descrito como um evento que causa mal-estar psicológico às famílias, em concreto, porque implica mudanças e ajustamentos na vida dos adultos (pais e outros familiares) e das crianças. Sobretudo quando há adequação dos adultos, os efeitos negativos na adaptação da criança são maioritariamente transitórios.

O impacto do divórcio na criança depende de vários factores, entre eles o temperamento e a idade da criança; a psicopatologia dos pais, com especial relevância para a depressão; uma coparentalidade conflituosa, incluindo a intensidade e frequência do conflito interparental antes e após o divórcio.

No caso de desajustamento, a magnitude e a duração dos problemas que a criança pode exibir decorrem de várias circunstâncias, sendo que entre aquelas que podem causar maior impacto negativo está a forma como os próprios adultos lidam com o divórcio e como a transpõem para a criança. Pais que são adequados na definição da guarda da criança, nas práticas parentais, que têm menos conflitos durante o divórcio e à frente da criança, podem amenizar o impacto do divórcio na criança.

Em prol da adaptação da criança ao divórcio/separação, ficam aqui algumas sugestões para os pais e a família:

  • Dar prioridade ao bem-estar da criança e às suas necessidades separando a conjugalidade da parentalidade e abrindo mão da eventual vontade de contrariar o ex-cônjuge;
  • Respeitar o outro promovendo a comunicação com o pai/mãe da criança quanto às necessidades dos filhos;
  • Promover uma parentalidade cooperativa. A qualidade da parentalidade é um dos melhores preditores do bem-estar social e emocional da criança. Assim, a partilha de um estilo parental democrático, baseado na coparentalidade cooperativa, marcada pelo envolvimento de ambos os pais na educação, cuidados e decisões sobre a vida dos filhos, é decisiva no ajustamento da criança ao divórcio;
  • Separar a relação conjugal da relação coparental (a relação dos adultos é só com eles, não cabe à criança saber coisas relacionadas com o fracasso da relação dos pais ou se a mãe/o pai acha que o seu ex-parceiro a/o deixou porque tem outra pessoa;
  • Reduzir ao máximo o conflito: O conflito entre pais é considerado o factor de risco com maior impacto no ajustamento da criança à separação. O conflito pode ser manifestado pela raiva, pela hostilidade, pelas dificuldades de cooperação nos cuidados e na comunicação com os filhos, pela linguagem agressiva, pela agressão física, ou outras situações nefastas e cria stress, tristeza e insegurança na criança. Além disso, o conflito entre os pais traduz-se, na maioria das vezes, em disciplina permissiva e inconsistente, instabilidade emocional, impulsividade nas práticas parentais e menor responsabilidade e disponibilidade emocional para a criança;
  • Não envolver a criança na disputa; ela não é um juiz ou conselheiro matrimonial. Quando as crianças são envolvidas nos conflitos parentais, acontece a deterioração das relações pais-filhos. O impacto na criança é muito negativo, causando stress e desadaptação. Quanto mais a criança percebe que os conflitos entre os pais são desadequados, maior o risco para ter problemas de ajustamento e de bem-estar. Também está comprovado que ambientes pós-divórcio altamente conflituosos podem acarretar mais problemas de externalização (comportamentos de oposição, agressividade, hostilidade, etc.) na criança;
  • Respeitar o direito da criança de gostar do pai, da mãe e dos restantes membros da família;
  • Não perguntar à criança se prefere estar com o pai ou com a mãe, pois isto só causa tensão à criança;
  • Mostrar interesse pelo que a criança possa estar a sentir e disponibilidade para responder a perguntas e esclarecer dúvidas relacionadas com receios acerca do divórcio;
  • Não perguntar o que acontece em casa do outro progenitor;
  • Manter ao máximo hábitos e rotinas diárias;
  • Não dizer mal do outro progenitor ou da sua família à criança nem permitir que a restante rede familiar o faça;
  • Não usar a criança como forma de apoio pessoal, mas procurar ajuda noutros adultos;
  • Se os pais estiverem juntos numa festa ou em qualquer outro momento festivo da criança, não devem discutir ou entrar em conflito à frente da criança e dos seus amigos;
  • Não expor a vida da criança (mesmo quando fala de si) nas redes sociais. A probabilidade da criança ouvir comentários desagradáveis é enorme e o dano que isto pode provocar nela também;
  • Deixar a criança levar as suas roupas, brinquedos e outros pertences para a casa do pai/mãe. São dela.
  • Não usar a criança como mensageiro para falar com o outro progenitor. Este tipo de envolvimento da criança é totalmente desaconselhado e causa ansiedade, tristeza e mágoa. Os adultos devem agir como tal e comunicar entre si pelo bem-estar dos seus filhos.

Trabalho por turnos: casais contam como se guarda tempo para os filhos

Fevereiro 7, 2020 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do Notícias Magazine de 28 de junho de 2020.

Vivem momentos únicos quando apenas um dos pais está presente, são poucas as vezes que estão todos reunidos, passam dias sem ver um dos progenitores, dão uma notícia por mensagem e recebem um aconchego num telefonema. Vivências de uma realidade com rotinas muito próprias e organizadas ao pormenor.

Sofia Filipe

Liliana Morais tem 35 anos e é enfermeira no Hospital de Chaves. Situada nessa cidade transmontana, a creche de Carolina, de dois anos, abre as portas às oito da manhã. A hora a que Liliana já tem de estar no Bloco Operatório. Deixa a filha em casa dos pais do marido, Tiago Morais, três anos mais novo. A pré-escola do filho mais velho, Afonso, de cinco anos, permite entrar mais cedo, mas há um acréscimo na mensalidade. Fica também em casa dos avós. “Os meus sogros levam os miúdos às diferentes escolas.”

Se o turno desta mãe terminar às 15.15 horas, vai buscar o primogénito às 16 e a mais nova meia hora depois. Se for às 17, vão os avós ou o pai, que também é enfermeiro, mas no Serviço de Urgência Geral do Hospital de Vila Real. “Certos dias, somos quatro pessoas a levar e buscar os meninos”, comenta Liliana. A organização familiar é alterada se estiver no turno da tarde (15 às 22.15) ou no da noite (22 às 8.15).

Tiago tem os mesmos horários e a planificação é feita a cada mês. Segundo dados do Instituto Nacional de Estatística, no final de setembro de 2019 eram 835 mil as pessoas a trabalhar por turnos em Portugal. Mais de 423 mil mulheres tinham horários variáveis, contra 409 mil homens. No entanto, a população masculina ganhava à feminina, uma vez que há 226 mil homens a trabalhar mais serões, noites, sábados e domingos do que as mulheres.

Este casal de Chaves faz séries de turnos. Ou seja, num dia estão de tarde; no noutro, de manhã ou de tarde. Um horário que faz com que não vejam os filhos praticamente dois dias. “De manhã estão na escola. Saio de casa às 14 horas e regresso pelas 23.30, quando já estão a dormir. No dia seguinte, saio pelas 6.50. Ainda estão a dormir. Quando regresso, pelas 16.30, estou pouco tempo com eles, porque volto a sair às 20.50 para iniciar o turno da noite”, exemplifica Tiago.

Das datas especiais, refere o Natal como das mais difíceis. “Ter a família sentada à mesa, chegar aquela hora e ter de sair. Fica sempre um gosto amargo. Por muito que expliquemos, os nossos filhos ainda não conseguem perceber por que razão o pai não pode estar ali para abrir os presentes com eles.” No dia a dia, “é duro” quando Afonso lhe diz ao telefone que tem saudades.

“O trabalho por turnos gera inseguranças e frustrações que muitas vezes se refletem no bem-estar e na própria relação do casal” Marta Marques
Psicóloga educacional”

Para a família Morais, conseguir desfrutar de tempo de qualidade em conjunto “é uma tarefa árdua”. Requer, por exemplo, uma organização pormenorizada, de forma a conseguirem gozar algumas folgas no mesmo dia. Em novembro, coincidiram apenas dois dias. À logística familiar acresce uma profissão “desgastante, física e psicologicamente”. “É muito difícil sair da porta do hospital e esquecer tudo o que vimos e fizemos lá dentro. Quando folgamos, a energia está muito próxima do zero. O esforço é levantar a cabeça e aproveitar os momentos que não acontecem com muita frequência”, diz Liliana. Apesar de sentirem que deveriam estar mais presentes, têm noção de que conseguem “dar o apoio necessário aos filhos”.

Mara Granadas, 34 anos, e Nuno Rafael, de 43, não identificam qualquer vantagem numa vida por turnos. “Só desvantagens.” Moram na Quinta do Anjo, em Palmela, e em 15 minutos chegam ao Parque Industrial da Autoeuropa, onde trabalham como operadores de linha, mas em fábricas diferentes. Ela na Faurecia, desde 2013, e ele na Benteler, desde 2011. Mara está a fazer dois turnos (7 às 15.30 e 15.30 à meia-noite). Em fevereiro, passa a cumprir também o terceiro (meia-noite às 7), que já é feito pelo companheiro de há 13 anos. “Estaremos em turnos diferentes. Vai facilitar a vida com a nossa filha, mas sairemos prejudicados enquanto casal. Apenas vamos estar juntos nas férias de verão e no Natal”, desabafa esta mãe, ela própria “filha dos turnos”.

Francisca tem dez anos e dificilmente terá irmãos. “Sentimos que deveríamos estar mais presentes no crescimento. Por isso, não queremos mais filhos”, assume Mara, que gostaria de ter presenciado certos momentos. “O primeiro dente que caiu ou a primeira leitura podiam ser hoje memórias.” Prefere o turno da manhã, pois, dessa forma, consegue estar com a filha em casa ao fim do dia. “Como uma família normal.” Já Nuno dá preferência ao turno da noite. “Descanso muito pouco, mas consigo levar e buscar a Francisca à escola e participar em atividades extracurriculares, como atletismo, explicação e aulas de canto.”

Quando cumprem o turno da tarde, só veem a menina cerca de uma hora por dia, antes de a deixarem na escola. Ao regressarem da jornada, já dorme. Uma semana por mês estão no mesmo horário e recorrem aos avós. Se estes não puderem, porque ainda trabalham, têm de “pedir a amigos e vizinhos”. Nas férias, a Francisca tem de ir para um ATL. “O nosso subsídio de férias é para comportar essa despesa”, realça a operadora de linha, classificando a época de testes escolares como a mais complicada. “Pede apoio e dificilmente alguém está com disponibilidade para a ajudar a estudar. Nem sempre é fácil explicar a uma criança que temos mesmo de trabalhar por turnos e que não podemos estar com ela sempre que precisa.”

A presença regular e emocionalmente significativa das figuras parentais é fundamental para o processo de desenvolvimento dos mais novos, frisa Marta Marques, psicóloga educacional e investigadora do projeto IDEA (Investigação de Dificuldades para a Evolução na Aprendizagem) na Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa. “O trabalho por turnos é muitas vezes acrescido de maior stresse, com noites pouco regeneradoras do funcionamento emocional e sintomas de burnout. Estas situações podem levar os pais a sentir que estão sozinhos na prestação de cuidados à criança e poderá fazer crescer a perceção de não corresponderem de forma adequada às necessidades, gerando inseguranças e frustrações que muitas vezes se refletem no bem-estar e na própria relação do casal”, sustenta.

“[filhos de casais que trabalham por turnos] Tornam-se mais desatentos e, por vezes, menos interessados em aprender novos conteúdos”
Maria João Senos Educadora de infância

Na opinião de Maria João Senos, educadora de infância na Santa Casa da Misericórdia de Ílhavo, a presença menos frequente dos progenitores em simultâneo poderá afetar os filhos em idade pré-escolar. “Pode não ser logo evidente, mas no decorrer do dia a dia vamos notando algumas alterações, principalmente no comportamento.” Mais tarde, sublinha, surgem outras consequências. “Tornam-se mais desatentos e, por vezes, menos interessados em aprender novos conteúdos”, observa, destacando que, em idade escolar, “o ambiente familiar tem de ser bom e estável para não haver implicações negativas”.

“Só queria estar presente para a abraçar”

Para Marisa Matias, professora auxiliar e investigadora na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto, a consequência mais óbvia da dessincronização entre o horário de trabalho e os tempos sociais “é a não participação nas atividades rotineiras da família e o menor envolvimento nas tarefas domésticas e de cuidado aos filhos”. Segundo a docente, as famílias cujos pais trabalham por turnos procuram criar rotinas diferentes das habitualmente adotadas pelos casais com empregos tradicionais. “Não podem jantar, mas, por exemplo, tomam o pequeno-almoço juntos.”

A proximidade emocional é fundamental para o sucesso das relações familiares. No entanto, Marisa Matias lembra que isso não acontece por acaso. Requer “tempo passado em conjunto, disponibilidade e investimento afetivo”. E é essa proximidade que Susanna Lee Carvalho e Carlos Rafael tentam manter, mesmo quando o cansaço dá cartas ou perante sintomas de burnout. Susanna e Carlos são técnicos de tráfego de assistência em escala na placa no Aeroporto de Lisboa há mais de duas décadas.

Desde que, há 11 anos, nasceu Amy, não se cruzam no local de trabalho. “Se nos colocarem no mesmo horário, pedimos para mudar. Dentro das possibilidades operacionais, a gestão do planeamento é flexível”, esclarece Susanna, de 43 anos, que há quatro anos voltou a ser mãe, de Scarlett. “Está sempre um de nós em casa para levar as meninas às respetivas escolas ou para as receber”, completa Carlos, 46 anos.

A “maior alegria” desta família de Cascais é quando estão os quatro juntos. Não deixam as filhas nos avós maternos para uma “escapadela a dois”, preferem declinar convites para casamentos ou batizados se apenas um estiver disponível e optam por ter uma vida social “menos agitada”. “Normalmente, temos um fim de semana juntos de seis em seis semanas”, aponta a mãe de Amy e Scarlett. Carlos explica que mesmo alguns desses fins de semana em família são de horário reduzido.

“Se sair à meia-noite de uma sexta-feira e na segunda entrar às quatro da manhã…” Quanto a férias, embora não seja na época que preferem, podem tirar 15 dias no mesmo período do ano, devido ao acordo de empresa referente a casais. Os turnos de Carlos abrangem as 24 horas, os de Susanna nunca ultrapassam a uma da manhã, mas podem começar às quatro da madrugada. Nesses dias, acorda às 2.50 horas. “É o meu horário preferido, pois permite-me ter mais tempo para as meninas e realizar diversas tarefas.”

Quando as filhas eram pequenas, Susanna e Carlos optaram por não usufruir da creche do Aeroporto de Lisboa. “As meninas teriam de fazer turnos, interromper o sono. Se a nós custa, imagino a elas.” Trabalhar com horários complexos acaba por deixar marcas. Como daquela vez em que estava num turno noturno e a filha mais velha lhe telefonou. “A Amy teve uma desavença com uma amiga e ligou-me a desabafar. Eu só queria estar presente para a abraçar. As minhas filhas são filhas dos turnos e aprenderam cedo que há beijinhos dados num telefonema.”

“Os momentos em que um abraço é substituído por palavras confortantes podem ter implicações se a família representar isso como um problema”, defende Marta Marques. “As crianças não nascem com uma ideia pré-formatada de família. Adquirem-na pela forma como os adultos a ajudam a viver”, assinala a psicóloga educacional, que considera importante transmitir segurança e tranquilidade. “A ausência física não representa abandono. E se a criança se sentir segura vai viver com maior tranquilidade essa saudade.”

Estranhava ver pai e mãe presentes em simultâneo

Tal como as irmãs Amy e Scarlett, também Beatriz Leal, de 11 anos, (con)vive bem com os horários atípicos dos pais e, inclusivamente, quando era mais nova chegou a estranhar ter os dois presentes em simultâneo. Ana Torrão, 43 anos, e João Leal, 46, são funcionários da Tabaqueira há 18 e 20 anos, respetivamente. Ambos trabalharam quatro anos num regime de turnos específico. Eram quatro dias seguidos com 12 horas de trabalho e outros tantos de folga. Ou seja, foram quatro anos desencontrados.

Quando muito, cruzavam-se na cancela da fábrica quando um saía e o outro entrava. Atualmente, a técnica de qualidade só faz dois horários (7 às 15.30 e 15.30 à meia-noite). O técnico de manutenção ainda cumpre o turno da meia-noite às sete da manhã. Os horários mudam semanalmente, mas, para garantirem o apoio à filha, Ana Torrão faz duas semanas de manhã e uma de tarde. “As chefias são flexíveis. É menor e, assim, não fica sozinha”, afirma Ana.

Residem na Malveira, no concelho de Mafra, e não contam com o apoio dos avós maternos, porque vivem no Cartaxo, nem dos paternos, que estão em Benavente. “Um dia, tive de deixar um trabalho a meio para dar assistência à Beatriz”, lembra João. O casal usufruiu das vantagens de ter a menina na creche da Tabaqueira e a mãe recorda como lhe custou o primeiro dia. “Se eu fazia 12 horas de trabalho, a Beatriz tinha de lá estar todo esse tempo.”

De acordo com o Relatório da Carta Social 2018 do Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, no ano letivo de 2018/19, o Instituto de Segurança Social assegurou o financiamento da comparticipação complementar a 1 186 creches pela prática de horário de funcionamento superior a 11 horas diárias. “O período de permanência numa creche ou jardim de infância deveria ser o menor possível. Hoje em dia, é quase impossível e é muito triste”, lamenta Maria João Senos, que recebe algumas crianças às 7.30 horas e, por vezes, só saem às 19.30 horas.

Voltando ao casal que trabalha na Tabaqueira, atualmente, quem está no turno da manhã deixa a Beatriz na escola, perto do trabalho, às 7 horas. O cônjuge vai buscar a menina às 17 horas. “É difícil termos disponibilidade para dar apoio nos estudos, daí a importância do ATL. Tem tido boas notas”, salienta João Leal. Para estes pais, a filha está em primeiro lugar e por ela vencem a saturação psicológica, a falta de paciência e o cansaço físico inerentes ao trabalho por turnos. Dos direitos, não abdicam. Ana recorda que “bateu o pé” quando a chefia não pretendia facilitar horários durante a gravidez e ao regressar da licença de maternidade. “Não sofri represálias. Mas algumas pessoas têm medo. Se existem leis que protegem os trabalhadores, são para ser usadas.”

Diane Cristóvão Augusto, advogada-estagiária, lembra que o Código do Trabalho prevê matéria dedicada à parentalidade. “Estas normas são uma projeção do princípio da proteção do trabalhador, sendo cada vez mais alvo de atenção e de alterações.” No entanto, não há nenhuma norma que regule os profissionais que trabalham por turnos. São de aplicação geral. O direito ao trabalho flexível previsto no artigo 56.º do Código do Trabalho, por exemplo, é aplicado a todos os trabalhadores com filhos menores de 12 anos. “É intenção do legislador harmonizar o direito do trabalhador à conciliação da atividade profissional com a vida familiar”, diz a jurista. “Uma pessoa que concilie as duas áreas é mais realizada, mais produtiva, com ganhos para todos. Pessoas felizes garantem melhores resultados.”

Carla Mota vive na Costa da Caparica, tem 36 anos, é mãe de Ethan Gabriel Gonçalves, de três, e conhece o direito ao horário flexível. “Ainda não precisei. Se houver necessidade, não hesito em solicitar”, assume esta funcionária da Europ Assistance na área da assistência em viagem. Na empresa, o plano de turnos é feito mês a mês. De momento, apresenta-se ao trabalho às oito ou às dez da manhã, mas tem outros horários possíveis, como o das 18 às duas da madrugada. É casada com Byron Gonçalves, de 34 anos, cujos turnos cobrem as 24 horas. É técnico de telecomunicações e manutenção de redes na Oni há dez anos e também costuma estar de prevenção, que implica deslocação ao local de trabalho, se for necessário.

Trabalham em Lisboa. Saem, por isso, de casa com alguma antecedência. Se acontecer estarem no mesmo horário, recorrem aos avós paternos ou maternos, que moram a poucos quilómetros. “Se não tivéssemos esta rede de apoio, seria muito complicado. Quando entro às oito da manhã, levanto-me às cinco da madrugada. Para o Ethan não acordar a essa hora, por norma, dorme em casa da mãe do Byron”, explica Carla, que já esteve uma semana sem ver o marido, devido aos horários opostos. Quando estão juntos, tentam ter “tempo de qualidade, com muitas atividades”. Quando o pai está a fazer madrugadas, preparam um pequeno vídeo e enviam. “Assim, a noite não custa tanto a passar.”

Para Marisa Matias, uma vantagem do trabalho por turnos reside “na compensação financeira que certos horários atípicos acarretam”. Carla e Byron confirmam. “O meu subsídio de turno não compensa tanto como o do meu marido”, comenta Carla, que deseja um dia poder trabalhar a partir de casa, para estar mais tempo com Ethan. Todavia, o trabalho em horário atípico “associa-se a maior stresse, problemas com o sono, conflitos conjugais e menos tempo para o casal”, frisa a investigadora. Ana Torrão e João Leal não escondem que “o casamento esteve ameaçado”. “Estávamos habituados a estar quase sempre sozinhos”, diz Ana. “Tivemos de reaprender a viver juntos”, completa João. Conseguiram ultrapassar essa fase e assistem, juntos, ao crescimento da Beatriz.

No próximo ano letivo, Francisca vai para o Ensino Preparatório. Na perspetiva de Mara Granadas e Nuno Rafael, a conjugação de todos os horários “não será fácil, mas não vale a pena sofrer por antecipação”. Susanna Lee Carvalho e Carlos Rafael não se imaginam a trabalhar com horários fixos. “Não temos de pedir para faltar porque vamos a uma consulta médica e podemos tratar de assuntos pessoais”. Também Liliana e Tiago Morais preferem manter os turnos. Em termos profissionais, “é menos rotineiro”. Nas questões familiares, existe “a grande vantagem” de poderem estar presentes na vida dos filhos “em diferentes alturas do dia e nos dias úteis”.

Para a psicóloga educacional Marta Marques, os filhos de pais trabalhadores por turnos podem criar representações da rotina familiar diferentes. Mas essas vivências não têm que representar um problema, “se os pais mantiverem uma comunicação e colaboração positiva e se a criança sentir uma vinculação de segurança”. A educadora de infância Maria João Senos sublinha a importância de um bom ambiente familiar. “Se todos se compreenderem e conseguirem conversar, sem telemóveis, será um bom caminho.”

Filhos herdam o sofrimento dos pais

Janeiro 17, 2019 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do Sapo Lifestyle de 4 de janeiro de 2019.

Uma investigação fascinante e surpreendente recuou ao século XIX para perceber o efeito dos traumas e do sofrimento nos descendentes de quem os viveu.

Quem disse que a herança genética se restringe à cor de olhos ou a doenças cardíacas e afins? Uma complexa investigação com descendentes de prisioneiros da Guerra de Secessão, que devastou e dividiu ao meio os EUA no século XIX, vem mostrar que, de alguma forma, a dor fica registada na genética da família.

Durante anos, estudos feitos com animais mostraram que certos fatores ambientais provocam mudanças na informação genética transmitida de uma geração para outra. É como se deixassem marcas que anulam ou insuflam genes, mas sem alterar o ADN. Deste modo, ficou provado que o açúcar ingerido pelos pais pode contribuir para a obesidade dos descendentes ou que a dieta pobre dos avós é capaz de influenciar a saúde dos futuros netos. “Apesar do forte impacto que poderia ter sobre a ciência e a saúde, pouco se sabe sobre esses mecanismos epigenéticos em humanos, e investigar mais implica fazer experiências que a ética condena”, avança um artigo do El País.

É por isso que o referido estudo – que envolveu a análise de perto de 200 mil soldados das forças do Norte nas prisões do Sul durante a guerra civil americana – é tão especial. Os seus autores, da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), investigaram a fundo o que aconteceu a esses prisioneiros de guerra depois de deixarem o cativeiro. Graças aos arquivos militares, perceberam se eram ou não casados, onde moravam ou quantos filhos tinham. Também conseguiram saber quando é que os ex-prisioneiros morreram, bem como as suas mulheres e descendentes. E, após essa análise profunda, concluíram que os que haviam passado por lugares terríveis da Guerra da Secessão, como o campo de prisioneiros de Andersonville, na Georgia, tinham vivido menos tempo do que outros veteranos de guerra. “Naquele campo, a fome transformou os homens em cadáveres ambulantes, bem como a proliferação de doenças como o escorbuto, a diarreia e o stress psicológico”, relata a principal autora do estudo, Dora Costa.

Foi possível estudar o DNA de 6500 veteranos de guerra e dos seus 20 mil filhos. Por outro lado, os investigadores analisaram vários fatores, como a situação sócio-económica, a origem, a data de alistamento, o estado de saúde antes da guerra, e compararam a longevidade dos filhos de veteranos que eram prisioneiros com a dos que não eram, percebendo que, nas mesmas circunstâncias e com a mesma idade, os primeiros tinham duas vezes mais hipóteses de morrer. Mas há outros dados que reforçam a tese da base epigenética: dentro da mesma família, as crianças que um prisioneiro de guerra tinha depois de sobreviver ao cativeiro eram até 2,2 vezes mais propensas a morrer cedo do que os seus irmãos mais velhos.

Até agora, as poucas experiências sociais que permitiram estudar a transmissão intergeracional do trauma em humanos tinham sido protagonizadas por crianças. Nos últimos meses da Segunda Guerra Mundial, o norte da Holanda, ainda dominada pelos nazis, foi alvo de uma epidemia de fome. A ausência de alimentos afetou a fertilidade das mulheres, mas o pior veio a seguir: os filhos de mulheres grávidas durante esses meses infernais nasceram com uma média de 300 gramas a menos. Como adultos, a exposição pré-natal à fome reduziu o tamanho do corpo e aumentou a incidência de diabetes e esquizofrenia.

Tais efeitos podem manifestar-se até à terceira geração. Em 2017, um trabalho com uma amostra de 800 mil crianças suecas provou que o trauma de perder um pai ou uma mãe deixa uma marca que os filhos dos órfãos herdam. Os investigadores perceberam que as crianças que ficavam órfãs nos anos anteriores à adolescência tendiam a ter filhos prematuros e com menos peso do que aquelas que não tinham perdido os pais. “É pouco antes da puberdade, nesse período de crescimento lento, que os testículos começam a formar-se e a espermiogénese é programada; trata-se de um momento psicologicamente formativo e, com este estudo, compreendemos que enfrentar um trauma psicológico, como a morte de um pai, pode afetar o nascimento e a saúde dos futuros descendentes”, explicou a coautora deste estudo, Kristiina Rajaleid.

O estudo dos prisioneiros de guerra norte-americanos deixa, todavia, por explicar, um detalhe curioso: o trauma desses anos terríveis só foi herdado pelos filhos – mas não pelas filhas – dos combatentes. Nem os autores do estudo, nem os especialistas consultados, conseguem explicar essa discriminação por sexo.

 

 

Como se diz a um filho que a mãe tem cancro?

Novembro 22, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do Expresso de 12 de novembro de 2018.

Joana Nunes Mateus

Debate: pouco se fala do impacto emocional que o cancro tem na família do doente oncológico, desde o cônjuge, aos pais mais velhos ou aos filhos mais novos.

Se há momento que toda a mãe com cancro guarda para sempre na memória é aquele em que disse ao filho que estava doente. Que o diga a advogada Cristina Nogueira, que foi diagnosticada com um cancro na mama quando o seu filho tinha acabado de fazer cinco anos: “Eu soube que tinha cancro às três da tarde e só pensava que, daqui a uma hora, tinha de ir buscar o meu filho ao infantário. O que é que eu faço?! Não fiz. Não fui capaz”.

Sem guião para enfrentar o “pesadelo total” de falar com um filho tão pequeno sobre uma doença tão complicada, Cristina lá foi aproveitando as revistas que faziam capa com a atriz Sofia Ribeiro para explicar que também tinha aquela doença e que também iria perder o cabelo. “Mas vais ficar careca para sempre? E vais morrer?”, perguntou o filho. “Acho que não. Vou fazer tudo para não morrer!”, respondeu Cristina. Apesar de ser tratada num dos hospitais mais reputados na luta contra o cancro, esta doente oncológica lamenta nunca lhe ter sido oferecido qualquer apoio psicológico. Nem a ela, nem à família, nem ao filho.

Lidar com um stresse tão grande
Não é fácil ver a mãe, que fazia tudo com ele, perder as forças devido à quimioterapia: “Pegar nele ao colo, cambalhotas, andar de bicicleta… Tudo isso passou a ser ficção científica para mim!”, diz Cristina, que acabou por procurar apoio psicológico no privado. “Comecei a notar algumas características que não eram típicas dele: alguma agressividade, sinais de nervosismo, roer as unhas, mais rebelde em termos escolares… Tudo isso me foi explicado que são formas normais das crianças, em idade precoce, lidarem com um stresse tão grande”.

Também a presidente da associação Evita, Tamara Milagre, contou a sua história pessoal na terceira conferência “Tenho Cancro. E Depois?” promovida, esta semana, no IPO Coimbra, pela SIC Notícias e Expresso, em parceria com a Novartis.

Tamara Milagre era uma adolescente de 14 anos quando a sua mãe de 44 descobriu o cancro. “Ela era uma mulher muito bonita e a autoimagem dela caiu completamente ao chão. Ficou careca, inchada, sem mama, e a vida tornou-se dramaticamente diferente. Como filha de uma doente oncológica, tive uma reação completamente oposta ao lógico: eu fiquei revoltada com a minha mãe porque ela não estava a funcionar e eu precisava muito dela. A casa não estava tão limpa, eu tinha de fazer mais coisas e a minha mãe não estava lá para me dar atenção… Anos mais tarde, lavada em lágrimas, pedi desculpa à minha mãe”.

Só passada a adolescência, é que esta filha percebeu a razão da sua raiva: “Depois é que percebi melhor. Na realidade, era o medo enorme dela morrer que me estava a revoltar. E eu vivi isso com muita ansiedade e sofrimento”. Hoje Tamara Milagre é presidente da Evita e acompanha famílias onde a comunicação é ainda mais complexa: são as famílias com cancro hereditário que, não só têm mais casos de cancro, como os enfrentam em idade mais precoce.

“As crianças não gostam de mentiras”, diz Margarida Damasceno, oncologista há mais de 30 anos, aos pais que não sabem como falar do cancro aos filhos. Diretora do serviço de oncologia do Centro Hospitalar São João e presidente eleita da Sociedade Portuguesa de Oncologia, Margarida Damasceno avisa como dizer a verdade: “Uma verdade com final feliz, abrindo sempre a luz ao fundo do túnel”.

70% de divórcios
O cancro também se abate sobre a vida do casal. “Portugal tem uma triste estatística na taxa de divórcio após diagnóstico do cancro onde lideramos destacados com 70%”, alerta a doente oncológica Cristina Nogueira. “Penso que a maioria dos divórcios corresponde aos maridos que abandonam”, acrescenta a oncologista Margarida Damasceno. É que, perante a doença, a maioria das mulheres “tem aquele lado maternal, vai deixar de ser a mulher do doente para ser a mãe do doente, vai aceitá-lo como um filho”. Já a maioria dos maridos não reage assim: “Não sabe lidar com a situação e, ou desaparece ou então fica de tal maneira alheio à situação que a própria mulher não consegue lidar com um marido que não a compreende”.

Neste debate dos desafios familiares, Margarida Damasceno deixou uma proposta a todos os hospitais: a criação da figura do “gestor hospitalar do doente”, para que os doentes oncológicos e os seus familiares saibam com quem podem contar.

Mais psicólogos
“Quando pensamos num doente oncológico, temos de pensar no desequilíbrio que vai a nível físico, psicológico, existencial. E isto é muito complexo. São necessárias equipas multidisciplinares. É necessário mais psicólogos”, pediu também a coordenadora regional da rede de cuidados continuados, Maria José Ferros Hespanha.

A presidente do IPO Coimbra, Margarida Ornelas, deixou vários exemplos do que está a ser feito naquela instituição para apoiar as famílias a melhor enfrentarem o desafio do cancro. É o caso do programa Humaniza, financiado pela fundação La Caixa, que irá permitir ao IPO Coimbra ter, não apenas um psicólogo, mas mais dois psicólogos e dois assistentes sociais. É também o caso da consulta de onco-sexologia para o casal tirar dúvidas. Os familiares são ainda convidados a participar em todas as fases do processo, desde o acolhimento do doente oncológico até às consultas, podendo mesmo acompanhá-lo 24 horas nos cuidados paliativos.

Estatuto do Cuidador já

“O Estatuto do Cuidador Informal deve ser uma prioridade deste Governo nesta legislatura”, defende Margarida Damasceno, diretora do Serviço de Oncologia do Centro Hospitalar São João e presidente eleita da Sociedade Portuguesa de Oncologia. Maria José Ferros Hespanha, coordenadora regional da Rede Nacional de Cuidados Continuados, diz que, sem este Estatuto, “vamos ter as urgências hospitalares entupidas de pessoas que podiam resolver os seus problemas com os cuidadores informais”. Margarida Ornelas, presidente do IPO Coimbra, alerta que “a taxa de incidência do cancro, a crescer a 3% ao ano no nosso país, vai exigir necessidades assistenciais cada vez maiores ao nível dos profissionais e das condições dos serviços. É importante que o Estatuto do Cuidador Informal seja reconhecido, à semelhança de outros países. Os cuidadores informais devem ter apoio informacional, apoio emocional e apoio instrumental ao nível da prestação dos cuidados”.

Textos originalmente publicados no Expresso de 10 de novembro de 2018

 

Estudo mostra que sofrimento mental materno está associado a stress dos filhos

Agosto 8, 2018 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 26 de julho de 2018.

LUSA

Um estudo desenvolvido por investigadores da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP) mostra que o sofrimento mental materno se associa a biomarcadores de stress nos filhos, deixando-os em maior risco de desenvolver síndrome metabólico e obesidade.

“Desde o nascimento que o bebé começa a estabelecer uma relação de vinculação com o adulto que lhe assegura o seu conforto e sobrevivência, o seu neurodesenvolvimento, regulação emocional e resposta ao stress”, escreve a instituição de ensino superior em comunicado.

Segundo a FMUP, quando a qualidade das relações de vinculação está comprometida, podem ser espoletados mecanismos na criança que levam a variações nos níveis de cortisol, a hormona do stress responsável pelo controle dos níveis de açúcar no sangue, e a alterações comportamentais, ao nível do sono e do apetite.

Este estudo envolveu os pais e cerca de 100 crianças que frequentavam a consulta de obesidade no Hospital Dona Estefânia, em Lisboa, e mostra uma correlação significativa entre o estado mental materno e os níveis alterados de cortisol nos filhos, associação encontrada mais frequentemente nas raparigas.

Foram igualmente analisadas as diferenças entre os vários tipos de vinculação entre progenitores e os filhos, destacando-se as estratégias de vinculação insegura que se desenvolvem quando “a qualidade da relação, que implica a sensibilidade e capacidade de resposta contingente do cuidador principal, está comprometida”, explica a investigadora Inês Pinto.

A responsável pelo trabalho concluiu que as filhas que apresentavam estratégias de relação insegura do tipo “evitante”, na qual uma situação de depressão da mãe pode fazer com que esta não seja tão responsiva a alguns sinais de sofrimento da criança, acabam por não ser capazes de se regularem emocionalmente, “podendo recorrer aos alimentos para se confortar”.

“Esta criança interpreta que o choro é algo negativo e suprime-o, seja para manter a mãe por perto ou porque sente que não surte efeito”, lê-se na nota da FMUP.

Estas são crianças que “raramente pedem ajuda e que tentam resolver tudo sozinhas”, sendo também “as que menos aparecem nas consultas”, porque “aprendem que tudo o que é emocional não pode ser verbalizado”.

De acordo com a também médica pedopsiquiatra no hospital Beatriz Ângelo, em Loures, este processo pode culminar num cenário de compensação através em desregulações hormonais.

Já nas estratégias de vinculação insegura do tipo ansioso, as crianças percebem “que nem sempre as mães estão presentes, mas que podem forçar a resposta materna, se exagerarem os seus estados”. “São essas que mais aparecem na consulta, que pedem ajuda, mas nas quais não foram encontradas associações com as hormonas do stress”, referiu.

Para a investigadora, a intervenção dos profissionais de saúde deve ser adaptada consoante o tipo de vinculação. Enquanto na relação de vinculação insegura do tipo evitante é necessário ajudar as crianças a verbalizar os sentimentos, no grupo ansioso é preciso auxiliá-las a distinguir “uma dor real daquela que não é”.

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Os resultados desta investigação, desenvolvida no programa doutoral em Metabolismo: Clínica e Experimentação da FMUP e orientada pelo professor catedrático Rui Coelho sublinham a importância da qualidade da relação de vinculação entre a mãe e o filho, do funcionamento familiar e do estado mental de pais e filhos quando se estuda a obesidade infantil.

“Deste modo, ao protegerem os seus filhos do stress excessivo e que perturba o funcionamento e o desenvolvimento dos sistemas neurofisiológicos, contribuem para a redução do risco da obesidade infantil”, acrescentou a investigadora.

Notícia da FMUP:

Depressão materna pode influenciar obesidade infantil

 

 

O que acontece quando os pais trocam os filhos pelos smartphones

Junho 21, 2018 às 12:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do Diário de Notícias de 14 de junho de 2018.

Profissionais de saúde infantil contam ao DN que há pais que não conseguem parar de utilizar os dispositivos eletrónicos nem quando vão às consultas com os filhos

Frustração, birras, queixas, amuos. É este o resultado da “tecnoferência”, ou seja, da interferência que a tecnologia tem nas relações familiares. De acordo com um estudo feito por investigadores dos estados do Illinois e Michigan (EUA), quando os pais passam muito tempo a ver televisão ou agarrados aos smartphones durante as refeições e nos momentos de brincadeira, as crianças tendem a mostrar comportamentos problemáticos, maior frustração e hiperatividade. A longo prazo, alertam, as relações podem ficar comprometidas.

A questão já se colocava com a televisão, mas os dispositivos móveis vieram agravar o problema. Segundo a Science Daily, os investigadores acompanharam 172 famílias com filhos de cinco anos ou mais novos durante dois anos. Na grande maioria das famílias, um ou mais dispositivos eletrónicos interrompiam a interação pais e filhos em algum momento do dia. Enquanto estavam absorvidos pelos ecrãs, os pais conversavam menos e reagiam mal quando as crianças tentavam obter atenção.

“O bom senso já nos dizia que isto acontece, mas é bom que haja estudos que o demonstrem. O facto de os pais estarem muito agarrados aos ecrãs vai prejudicar as relações com os filhos”, admite o pediatra Hugo Rodrigues. Nessas alturas, explica, “os filhos sentem que os pais não estão genuinamente interessados neles, em brincar com eles. Não chega estar ao lado”.

Para “ativar os adultos”, as crianças têm comportamentos desajustado: “Se os pais não lhes prestam atenção, elas desviam-lhes a atenção dos ecrãs com maus comportamentos”. À pergunta sobre se estas situações são comuns, a resposta é afirmativa. “Basta olhar à nossa volta, nos transportes públicos, nos restaurantes. Sempre que se veem famílias com crianças, há uma alta probabilidade de pais e filhos estarem agarrados ao ecrã”.

Impacto a longo prazo

O estudo publicado na revista Pediatric Research tinha como objetivo examinar o impacto que os dispositivos eletrónicos têm na paternidade e no comportamento das crianças. Entre as conclusões, os investigadores dizem que a tecnologia pode influenciar negativamente as relações entre pais e filhos a longo prazo.

Inês Afonso Marques, responsável pela área infantojuvenil da Oficina de Psicologia, diz que “pode levar a um fenómeno de desamparo aprendido”. Se for muito repetido, explica a psicóloga, “há um desligamento entre pais e filhos que não tem um impacto positivo nas relações”. Estas, prossegue, “fazem-se de contacto físico, ocular”.

Nas sala de espera do consultório, Inês Afonso Marques vê frequentemente “crianças e pais agarrados ao telemóvel”. E até mesmo dentro do consultório. “Há pais que não conseguem não olhar para o smartphone na consulta. Qual a mensagem que passam aos filhos? Que eles não são assim tão importantes?”

A mesma situação é relatada ao DN pela pedopsiquiatra Ana Vasconcelos: “Vejo pais a mexer nos telemóveis enquanto converso com eles e com os filhos”. Segundo a especialista, estes têm caraterísticas semelhantes às de muitas crianças: “Têm de estar sempre ocupados com algo que lhes preencha o espírito, caraterísticas do défice de atenção e da hiperatividade”.

Ao passarem muito tempo focados nos ecrãs, Ana Vasconcelos diz que os pais “não são a bússola empática para guiar os filhos, e as crianças ficam em auto-gestão”. Paralelamente, há ambientes familiares “de grande tensão”.

Falta consciência

Da parte dos adultos, não haverá consciência do tempo que dedicam às novas tecnologias. “Os pais tentam cada vez mais regular o tempo que os filhos passam nos dispositivos, mas não o que eles passam ligados”, adianta a psicóloga Cátia Teixeira. É preciso, frisa, que tenham consciência de que são modelos. “Se o modelo de relação é mais distante, isso terá as suas consequências”, assinala.

Segundo os investigadores, a situação complica-se porque há um ciclo vicioso: há pais que se refugiam na tecnologia dos comportamentos problemáticos dos filhos, dando menos atenção às crianças, o que vai gerar mais comportamentos desajustados.

 

Mais informações na notícia:

Digital devices during family time could exacerbate bad behavior

 

9 mentiras que os pais têm de parar já de contar às crianças

Abril 30, 2018 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do https://www.noticiasmagazine.pt/ 11 de abril de 2018.

 

«NÃO VAI DOER NADA»

Qualquer pai gostaria de livrar um filho de todo o sofrimento, mas certas dores fazem parte e as mentiras que lhes contamos só as torna piores. Se ele gritar ao ter de levar uma vacina, por exemplo, tranquilize-o dizendo que é uma picada pequenina e passa num instante, em vez de lhe prometer que não vai doer nada. Afinal, basta-lhe levar a primeira para saber que o enganou e perder a confiança em si.

«ÉS MESMO UM ARTISTA»

Claro que é legítimo dizer isto à criança, desde que seja verdade e não esteja a elogiá-la em vão apenas para ficar contente. A ser esse o caso, pode acontecer que acabe por magoá-la sem intenção se ela perceber (e acredite: miúdos são ótimos a ler a linguagem corporal dos adultos) que os pais não estão a ser sinceros. O resultado não é bom, seja um desenho ou um boneco de plasticina? Releve os aspetos em que se destaca, como a originalidade, a iniciativa ou a escolha de cores.

«NÃO SEI O QUE ACONTECEU À TUA PINTURA»

Esta é outra frase que pode dizer ao seu filho se não souber, de facto, onde foi parar a tão procurada folha, mas nunca se tiverem sido os pais a dar-lhe sumiço enquanto dormia a sesta. É um facto que não pode guardar todos os desenhos que ele faz. Porém, para evitar enganos, designe uma gaveta ou caixa para o efeito e explique-lhe que naquele lugar das pinturas especiais só cabem os trabalhos mais mágicos. Depois dê-lhe a responsabilidade de decidir quais quer guardar.

«O PAI NATAL ESTÁ A VER-TE»

Embora a fantasia do Pai Natal possa ser mantida até depois dos 5-6 anos em nome da imaginação, sem prejuízo para o desenvolvimento infantil, não é boa ideia (também em nome da imaginação) servir-se do velhinho de barbas para ameaçar o seu filho de que ficará sem presentes se não se portar bem. Castigos devem ser justos, proporcionais à falta e dados na hora, como consequência de algo a corrigir. Imputar as culpas ao Pai Natal não só não é justo, como um dia a criança irá cobrar a mentira aos pais

«OLHA QUE ME VOU EMBORA»

Às vezes é só o que apetece: a criança está à mesa há horas e não dá sinais de ir comer a sopa tão cedo? «Olha que me vou deitar e ficas às escuras.» Queremos sair de casa, já sem tempo para nada, e ela descalça os sapatos e faz-se de morta? «Levanta-te do chão ou deixo-te sozinha.» Claro que a política de instilar medo nunca foi boa conselheira, pelo que é preferível dizer-lhe que se não entrar já no elevador deixa de haver tempo para irem comer o tal gelado mais tarde.

«NUNCA VOU DEIXAR QUE TE MAGOES»

Oposta à política do medo, a política da superproteção também não resulta pelo facto de não estar ao nosso alcance protegê-los de tudo o tempo todo. Nunca lhes diga «nunca vou». De novo, o melhor é agarrar-se à verdade para os fazer sentirem-se seguros sem, no entanto, deixar de lhes explicar – sempre com palavras tranquilizadoras para não gerar uma ansiedade acrescida – que existem perigos reais aos quais têm de estar atentos, como falar com estranhos ou largarem a mão dos pais num centro comercial.

«O PARQUE INFANTIL ESTÁ FECHADO»

E quem diz o parque diz a piscina ou qualquer outro lugar onde prometeu que levava o seu filho antes de chegar à conclusão que afinal não dá mesmo jeito nenhum. Seja qual for o cenário, não lhe minta. Ensine-lhe que nem sempre as coisas correm como nós queremos, por muito que nos custe, e que certos compromissos como ir às compras ou visitar os avós têm prioridade, sob pena de ficarmos com a despensa vazia ou magoarmos alguém querido. Ele acabará por perceber.

«NÃO TEMOS DINHEIRO PARA ISSO»

Desferir sem rodeios esta frase se a criança lhe pede um bolo ou um brinquedo pode assustá-la, já para não mencionar o facto de estar a faltar à verdade. Explique-lhe antes que não podemos ter tudo o que nos apetece porque o dinheiro não estica. Que ir à Disneyland, mudar de casa, de carro ou passar umas férias divertidas em família exige alguns sacrifícios, mas vai valer a pena. Sobretudo, envolva-a na questão das poupanças familiares (sem forçar nada) para que se sinta integrada.

«DÁ-ME SÓ UM MINUTO»

Somos ótimos a despachar as crianças com esta frase, mas não a use se souber que vai levar mais do que um minuto a poder ir brincar com elas, passear ou dar-lhes a atenção de que precisam. Conta demorar ainda uns dez minutos a terminar o bolo para pô-lo no forno? Ou um bom quarto de hora a preencher o IRS e a limpar o quarto? Pois diga-lhes isso: que vai só despachar aquela tarefa urgente e depois fica livre. Ser franco e pedir-lhes ajuda também as ajuda a entender o mundo à sua volta.

 

O pai que cuida do bebé não “ajuda”, exerce a paternidade

Março 8, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do site http://uptokids.pt/ de 20 de fevereiro de 2017.

O pai que cuida, que acalma o bebé quando está a chorar, que o embala ao colo, que troca as fraldas e que lhe ensina as primeiras palavras não está a “ajudar” a mãe, está a exercer o papel mais maravilhoso e responsável de sua vida: o da paternidade. Quando nos perguntam se o pai “ajuda”, é uma armadilha da linguagem em que muitas vezes caímos e que é necessário transformar.

Nos dias de hoje, e para a nossa surpresa, continuamos a ouvir muitas pessoas a dizer a clássica frase “o meu marido/namorado ajuda com as tarefas de casa” ou “eu ajudo a minha mulher a cuidar das crianças”É como se as tarefas e as responsabilidades de uma casa e de uma família tivessem património, uma característica associada ao género e que ainda não evoluiu nada nos nossos padrões de pensamento.

A figura do pai é tão relevante quanto a da mãe na criação dos filhosNo entanto, é natural que o primeiro vínculo de apego do recém-nascido durante os primeiros meses de vida se centra na figura materna. Atualmente a clássica imagem do progenitor cujo foco é a férrea autoridade e o sustento básico do lar deixou de ser sustentável e deve ser restituída.

É preciso acabar com o sistema patriarcal ultrapassado em que as tarefas são sexualizadas em cor-de-rosa ou azul para provocar mudanças reais na nossa sociedade. Para isso, devemos semear a mudança no âmbito privado das nossas casas e, acima de tudo, na forma como nos expressamos.

O pai não “ajuda”, o pai não é alguém que vai lá a casa e facilita o trabalho da mãe  de vez em quando. Um pai é alguém que sabe estar presente, que ama, que cuida e que se responsabiliza por aquilo que dá sentido à sua vida: a sua família.

O cérebro dos homens durante a criação dos filhos

É sabido que o cérebro das mães passa por várias alterações durante a criação de um bebé. A própria gravidez, a amamentação, e a tarefa de cuidar da criança todos os dias favorecem uma reestruturação cerebral com fins adaptativos. É algo impressionante. Além de a oxitocina aumentar, as sinapses neuronais mudam para aumentar a sensibilidade e a percepção para que a mulher possa reconhecer o estado emocional de seu bebé.

Mas o que é que acontece com o pai? Será que é um mero espectador biologicamente imune a este acontecimento? Claro que não. O cérebro dos homens também muda, e fá-lo de uma forma simplesmente espetacular. Segundo um estudo realizado pelo “Centro de Ciências do Cérebro Gonda da Universidade de Bar-Ilan”, se um homem exerce um papel primário ao cuidar do seu bebé, experimenta a mesma mudança neuronal que uma mulher.

Através de várias imagens do cérebro, retiradas em estudos realizados tanto em pais heterossexuais como homossexuais, foi possível ver que a atividade das amígdalas cerebrais era 5 vezes mais intensa do que o normal. Esta estrutura está relacionada com a advertência do perigo e com uma maior sensibilidade ao mundo emocional dos bebés.

Assim, surpreendentemente, o nível de oxitocina secretada por um homem que exerce o papel de cuidador primário é igual ao de uma mulher que também cumpre seu papel como mãe. Tudo isso nos revela algo que já sabíamos: um pai pode relacionar-se com os filhos no mesmo nível emocional que a mãe.

A paternidade e a maternidade responsável

Existem pais que não sabem estar presentes. Existem mães tóxicas, pais maravilhosos que criam seus filhos sozinhos, e mães extraordinárias que deixam marcas inesquecíveis no coração de seus filhos. Criar um filho é um desafio e pêras, algo para o qual nem todos estão preparados e que muitos outros enfrentam como o desafio mais enriquecedor das suas vidas.

A boa paternidade e a boa maternidade não têm a ver com géneros, mas com pessoas. Além disso, cada parceiro tem consciência das suas próprias necessidades e irá realizar as suas tarefas de criação e atenção com base nas suas características. Ou seja, são os próprios membros do casal que estabelecem a partilha e as responsabilidades do lar com base na disponibilidade de cada um.

Chegar a acordos, ser cúmplices uns do outro e deixar claro que o cuidado dos filhos é responsabilidade mútua e não exclusividade de um só irá criar uma harmonia que promoverá a felicidade da criança, pois terá acima de tudo um ótimo exemplo.

Da mesma forma, e além dos grandes esforços que cada família realiza, é necessário que a sociedade também seja sensível a este tipo de linguagem que alimenta os rótulos sexistas e os estereótipos.

As mães que continuam com a sua carreira profissional e que lutam para ter uma posição na sociedade não são “más mães”, e nem estão a deixar de cuidar dos seus filhos. Por outro lado, os pais que dão biberons, que procuram remédios para as cólicas dos seus bebés, que vão comprar fraldas ou que dão banho às crianças todas as noites não estão a ajudar: estão a exercer sua paternidade.

Por Valeria Amado, em A mente é maravilhosa, adaptado por Up To Kids®

 

 

O (des)acordo dos pais na vida escolar dos filhos

Outubro 2, 2016 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Sofia Vaz Pardal e Teresa Silva Tavares publicado no https://www.publico.pt/ de 8 de setembro de 2016.

A escolha do percurso escolar dos filhos, pelo impacto que tem na sua vida futura, terá que ser efectuada de comum acordo por ambos os pais.

A definição do rumo escolar dos filhos traduz-se num dos pilares da sua educação, pelo que a escolaridade não se pode/deve limitar a garantir a aprendizagem comportando, antes, um desafio de preparação para um futuro, com mais e melhores ferramentas, sendo de grande responsabilidade as escolhas que os pais são chamados a fazer neste âmbito.

A escolha do percurso escolar dos filhos, pelo impacto que tem na sua vida futura, terá que ser efetuada de comum acordo por ambos os pais.

Quando não existe consenso na decisão a tomar, pode ser necessário recorrer a tribunal, para resolver os diferendos agudos.

A lei determina que os pais têm que estar de acordo nas decisões sobre questões de particular importância na vida dos filhos.

Não existe, do ponto de vista legal, uma posição uniforme, na doutrina e na jurisprudência, quanto à classificação, como questões de particular importância na vida dos filhos, das situações relacionadas com a escolha da escola, matrícula, mudança de escola, etc.

Há quem entenda que a matrícula, em escola privada, respeita a uma questão de particular importância e quem defenda que a matrícula, em escola pública, respeita a um ato da vida corrente e, outros, que entendem que a escolha, entre ensino público ou privado, é sempre uma questão de particular importância e que, por isso, tem que ser decidida, por acordo, entre os pais.

Também há quem considere que a matrícula de um filho é um ato de particular importância na vida deste se respeitar ao seu futuro profissional, pelo contrário, se se tratar de inscrição em ensino obrigatório, já respeita a um ato da sua vida corrente, não exigindo o acordo dos pais.

Numa visão mais homogénea, há ainda quem defenda que todas as situações relativas à escola e à formação do filho, correspondem a questões de particular importância.

Assumindo que se trata de uma questão de particular importância que requer o acordo de ambos, quando os pais não conseguem chegar a uma decisão conjunta e, porque a vida dos filhos não pode ficar suspensa, deve tal situação de desacordo ser desbloqueada.

Uma mãe ou um pai, que se encontre numa situação destas e, vendo que a manutenção do conflito pode prejudicar a vida escolar do seu filho, deve recorrer ao tribunal, confiando ao juiz a tarefa de resolver a desavença.

O progenitor que recorra ao tribunal terá que indicar, de forma clara e objetiva, as razões, que o opõem às razões do outro progenitor, caraterizando a situação de desacordo que existe. (artigo 44.º n.º 1 da Lei n.º 141/2015, de 8 de setembro, que aprovou o Regime Geral do Processo Tutelar Cível).

A intervenção do tribunal é, inicialmente, mediadora, procurando o juiz obter, junto dos pais, o acordo que faltou. Será, marcada, para o efeito, uma conferência de pais, na qual o tribunal tentará pôr termo à desavença, conciliando as posições antagónicas dos pais, obtendo-se uma decisão que defenda o menor. Não o conseguindo, o juiz pode decidir provisoriamente a questão, devendo, em determinadas circunstâncias, ouvir o menor (artigos 35.º, 37.º e 38.º do Regime Geral do Processo Tutelar Cível).

A decisão provisória carecerá de se tornar definitiva, sendo a decisão judicial proferida, norteada pelo superior interesse do menor.

Por vezes, sucede que o pedido de intervenção do tribunal é feito já numa altura em que timings são apertados, pois, existe um calendário escolar rígido que não se altera porque os pais não se entendem e porque corre um processo em tribunal.

Não raramente, um dos progenitores procura prolongar a negociação com o outro só para ganhar tempo e retirar margem de manobra, sabendo que, quanto mais tempo decorrer, menos probabilidade existirá de o outro poder fazer valer a sua opinião, constrangendo, também, o recurso, a tribunal.

Para garantir o efeito útil da decisão do tribunal, prevê a lei que, correm durante as férias judiciais, os processos cuja demora possa causar prejuízo aos interesses do menor, pelo que este pedido – o de o processo correr em férias judiciais – deve ser ponderado no binómio intervenção do tribunal-calendário escolar devendo, ainda, tal pedido ser devidamente fundamentado (artigo 13.º do Regime Geral do Processo Tutelar Cível).

A educação dos filhos é um direito de ambos os pais mas, acima de tudo, um dever que, ambos os pais, têm perante os filhos.

O percurso escolar dos filhos, enquanto parte da educação destes, não deve ter que ser imposto, tendo a intervenção judicial caráter excecional, na medida em que o acordo entre os pais, é o modo principal (e desejável) de exercício das responsabilidades parentais, sendo estes corresponsáveis, nas matérias relativas às questões de particular importância na vida dos filhos, pelo que, de forma salutar e positiva, devem procurar – e encontrar – os consensos necessários, no interesse dos seus filhos, que são sempre o elo mais fraco em guerras judiciais ou em guerrilhas de pais.

Os filhos precisam dos pais e precisam de pais que possam dialogar entre si sobre decisões que têm que tomar sobre eles.

Guerra e guerrilha são caminhos de desgaste e de empobrecimento, que os filhos não merecem, pelo que o recurso a tribunal deve ser ponderado e decidido, de forma madura e responsável e reduzido aos casos em que tal intervenção se mostre indispensável para proteger os filhos.

Advogadas, svp@raassocidados.pt, tst@raassociados.PT

 

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