E se a criança estiver fazendo… BIRRA?

Outubro 12, 2017 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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O pai está em vias de extinção – Eduardo Sá

Setembro 13, 2017 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Eduardo Sá publicado na http://www.paisefilhos.pt/ de 29 de agosto de 2017.

Falta pai à maioria das famílias! Não o pai machista e autoritário de antigamente. Mas um pai que precisa de se reinventar. Com a certeza de que o crescimento e a função do pai se tem apagado…

 1- Talvez como nunca, fará tanto sentido comemorarmos o Dia do Pai. Não que o pai não tenha sido, desde sempre, um “bem de primeira necessidade” para o desenvolvimento de todas as crianças. É claro que foi! Mas receio que, duma forma subtil, e desde há vários anos, o seu papel tenha vindo a tornar-se, na dinâmica das mais diversas famílias, pálido e frouxo em demasia. E que, por isso, precise de ser reinventado.

É verdade que o mundo sempre foi machista. E que ainda será. Não acho que ele tenha ganho tanto assim com isso. Mas reconheço que a biologia e uma escolaridade precária contribuíram, desde sempre, para que os homens e as mulheres tenham vivido numa divisão de papéis que muitos foram tomando como mais ou menos inquestionável. O homem, foi assumindo a força do trabalho e a reunião dos recursos indispensáveis para a sobrevivência e para a defesa da família. A mulher, a maternidade e a gestão dos filhos e da casa. Escusado será dizer que, a par desta aparente fatalidade biológica (e dos constragimentos económicos, sociais e escolares em que ela se foi ancorando), a mortalidade peri-natal ajudou, ainda mais, as mulheres a ficarem “presas” à maternidade. Até porque a discrepância entre os nados-vivos e as crianças duma família foi, desde sempre, assustadora e, monstruosamente, dolorosa.

Com a progressiva medicalização da gravidez, do parto e da saúde do bebé, e com os novos recursos médicos trazidos para o planeamento da gravidez, a maternidade, entretanto, pôde passar a ser planeada. Menos filhos passou a significar melhores pais. Mais oportunidades de planeamento familiar. E melhores condições para que a mulher transformasse a formação escolar em compromissos profissionais e em oportunidades de carreira. Mas o mundo, apesar disso, foi permanecendo machista. E matriarcal. Isto é, foi prevalecendo a tutela do homem sobre a mulher que, em função da confluência de compromissos profissionais, familiares e domésticos, passou a “acumular funções” que a foram tornando mais expedita, mais sagaz e mais preponderante na dinâmica da família.

Evidentemente que um mundo assim se transformou, profundamente, ao longo de todo o século XX. E que, a par da paridade de direitos e de responsabilidades entre o pai e a mãe, os papéis de um e de outro se foram matizando. Melhor: o papel da mãe “apurou-se” e ganhou robustez e versatilidade; e o papel do pai “maternalizou-se”. O que, assumamos, trouxe a magnífica mais-valia de uma criança passar a ter duas “mães”: a mãe, ela-própria, divina e inimitável; e o pai, participando, com “sexto sentido”, em todos os momentos do crescimento de uma criança. Com um protagonismo que se foi “democratizando”, de forma transversal, independentemente das classes sociais ou dos estatutos económicos que, dantes, se iam tornando obstáculos para tamanha revolução da parentalidade. Chegámos, pois, à formula de que mais gosto: a primeira função de um ser humano é ser mãe! Que, por outras palavras, acaba por ser um modo minimalista de afirmar que o instinto maternal não é um “equipamento de base” de todas as mulheres e um “extra” de alguns homens. Será mais “democrático”, felizmente! Com a particularidade – preciosa! – dos desempenhos parentais das mulheres e dos homens terem vindo a melhorar tanto e terem-se tornado tão mais paritários e complementares, nos últimos cinquenta anos, que os filhos têm acumulado exemplos, recursos e oportunidades para se virem a tornar melhores pais.

2 – Há, no entanto, uma constante que, curiosamente, tem vindo a acompanhar estas condições únicas de que as crianças, hoje, dispõem. O modo como parecem ter, cada vez mais, uma relação muito difícil com a autoridade. O que, à primeira vista, não seria expectável. Por maioria de razão, porque nunca houve tão bons pais, tanta escolaridade, tanto contraditório diante dos gestos educativos dos pais e tanta democracia familiar.

Aquilo a que, dantes, se foi chamando “A Lei do Pai” representava uma forma autoritária de definir e de cuidar das regras familiares que, em inúmeras circunstâncias, se acompanhava de desempenhos tirânicos por parte do pai que, para mais, não se faziam acompanhar de atitudes que ligassem com coerência o exigido e o desempenhado. E implicavam medo – muito medo, por vezes – do pai. O que fazia com que o pai, para além de omisso, no dia a dia de uma família, surgisse como um juiz temido, muitas vezes inconstante e, frequentemente, incoerente. Por vezes, alimentado (ora de forma assustada e submissa, ora dum jeito um bocadinho batoteiro) pela mãe, com a célebre insinuação: “Ai quando o pai vier!…”, que transformou muitos pais em pessoas estranhas, aparentemente distraídas, afetuosamente inábeis e, sobretudo, muito trôpegas com as palavras e com os gestos de amor.

Todavia, e apesar dos formatos mais democráticos e mais plurais das famílias, quando perguntamos a crianças de cinco, seis ou sete anos se reconhecem existir uma “função paterna” diferente da “função materna” elas não só não as confundem como, aliás, as caracterizam ao pormenor. Dir-se-á que os modelos familiares pesam nesta caracterização? É verdade que sim. Por mais que não devamos excluir um certo “inconsciente coletivo” que, casando biologia e cultura, terá ajudado a compor, ao longo dos séculos, estas funções.

Só que eu não entendo porque é que, tomando os formatos tradicionais da família, um pai (felizmente) mais maternal terá de ser menos… pai. Porque é que não pode assumir um lado de “rei leão” de forma a que “a lei familiar” não tenha de casar com o autoritarismo? Porque é que na fabulosa transformação da família que estamos a viver, a “função do pai” se encolheu, como se a maioria dos homens parecessem viver tão atormentados pelas omissões e pelos maus desempenhos dos seus próprios pais que, sempre que se trata de serem firmes e serenos, guerreiros mas sensatos, bondosos e “duros”, justos mas escutadores, ora protagonistas ora “segundas figuras”, se baralham e se “perdem”? Como se dar colo a um filho para, depois, o colocar “às cavalitas”, ou ser-se protetor mas, também, amigo da sua autonomia não fosse, facilmente, conciliável. Como se parecesse não ser fácil ser-se maternante mas, todavia, pai!

Sim: falta pai à maioria das famílias! Não o pai machista e autoritário de antigamente. Mas um pai que precisa de se reinventar. Com a certeza de que o crescimento e a função do pai se tem apagado, de tal forma que, por causa destes “pais em vias de extinção”, a Humanidade tem vindo a desencontrar-se e a confundir democracia familiar com “comissões de gestão” familiares. Falta “autoridade de pai”. O desafio será imenso para todos os homens? Não! É fascinante para todas as famílias. Que, a par do modo como o pai se maternalizou, têm de recuperar a sensatez da “função do pai”. Nem que, para tanto, a mãe tenha, ela própria, de se paternalizar.

 

 

Filhos teimosos? Nem sabe a sorte que tem

Setembro 11, 2017 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do Açoriano Oriental de 27 de agosto de 2017.

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“Os pais estão a deixar-se tiranizar pelos filhos”

Abril 28, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista do http://expresso.sapo.pt/  a Sílvia Portugal no dia 15 de abril de 2017.

Carolina Reis

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Rui Duarte Silva

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O modelo familiar atual prefere os afetos e centra-se nas crianças e nos jovens, o que torna mais difícil impor a autoridade. Para a socióloga Sílvia Portugal, é essa a razão que justifica a desculpabilização que os pais fizeram dos incidentes durante a viagem de finalistas ao sul de Espanha .

O que nos revela a reação desculpabilizante dos pais?

Tem muito a ver como é hoje exercida a autoridade e a disciplina na família. A autoridade é uma questão central. E o que se entende que os jovens devem ser ou fazer. Os pais não querem aquilo que tiveram: a autoridade patriarcal, o poder da disciplina, as sanções físicas, que era o modelo educativo da geração dos pais destes jovens. Vêm de uma geração em que a autoridade era inquestionável e não havia espaço para liberdade. Não querem para os filhos o que eles tiveram. As mudanças foram muito rápidas e as pessoas não encontraram ainda o seu lugar de pais na família.

Que modelo de família temos hoje?

É mais democrática. Substituímos o modelo de autoridade patriarcal por um mais democrático, no qual as mulheres e as crianças ganharam voz. Hoje, as crianças são o centro. E os pais não sabem muito bem o que querem ou, pelo menos, não sabem como fazer. Não sabem como conciliar uma família onde todos têm voz e é dominada pelo afeto com uma família que integre modelos de autoridade e disciplina. Não são passados modelos muito claros do que deve e do que não deve ser. Porque olhamos de fora e é muito claro que o que aconteceu foi um ato de vandalismo. Não é desculpável e, no entanto, os pais desculpam-nas.

Ainda é possível haver autoridade?

Claro. E tem de haver. E tem de haver disciplina. E isso pode ser compatibilizado com uma família mais democrática e com uma família de afetos. As pessoas não conseguem encontrar esse modelo que concilie dois modelos que, à partida, parecem inconciliáveis. Chegamos ao caricato de vermos livros de autoajuda para pais — escritos por psicólogos — que aconselham a dizer não aos filhos. É algo que soa estranho, os pais que têm que ler estes livros passaram a infância e juventude a ouvir dizer não, e agora têm muita dificuldade em dizer não aos filhos.

Isto é reflexo da tão falada crise de valores?

Não é uma questão de crise, mas sim de mudanças. Uma série de mudanças, muito rápidas, que aconteceram na família e na sociedade como um todo. Há aqui uma mudança de valores e representações acerca do que deve ser a família. Contudo, vemos que ao longo da história a família esteve sempre em crise. Mas resiste e adapta-se.

Os pais têm menos condições para exercer a parentalidade?

Sim. A nível do emprego, da precariedade, das longas jornadas de trabalho. Isto implica muito menos tempo para a família. O trabalho tomou conta da vida das pessoas. No pouco tempo que têm evitam o conflito. E exercer autoridade implica conflito. É necessário para marcar as diferenças de papéis, para dizer que os pais são pais e não são amigos.

Já chegámos ao ponto em que os filhos mandam nos pais?

Temos uma geração de progenitores que foi tiranizada pelos seus pais e agora se deixa tiranizar pelos seus filhos. Tem de lidar com situações muito adversas, suas e dos seus filhos. Tivemos uma realidade, sobretudo depois do 25 de Abril, em que as gerações tiveram sempre uma vida melhor do que as anteriores. Ora, estes pais e estes jovens não têm esta expectativa. É a primeira vez que enfrentamos um momento em que as gerações a seguir podem ter condições de vida piores do que a anterior. E isto é muito angustiante, cria muita incerteza. E os pais tentam compensar os filhos.

Nos últimos dias, também vimos outro fenómeno. Pais a dizer que nunca tiveram comportamentos daqueles e que os seus filhos jamais o fariam. É uma hipocrisia?

É um clássico, são sempre os filhos dos outros. Isto acontece muito nos discursos sobre a família: descoincidência entre aquilo que as pessoas acham que devia ser e, na prática, fazem exatamente o contrário. Não lhe chamaria hipocrisia. Tem a ver com estas tensões que são quotidianas e estruturais.

 

 

 

 

 

Daniel Sampaio: “Temos fobia e inveja dos adolescentes”

Outubro 20, 2016 às 8:00 pm | Publicado em O IAC na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista da http://activa.sapo.pt/ a Daniel Sampaio no dia 11 de outubro de 2016.

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Por Catarina Fonseca

Não precisa de apresentações: o psiquiatra mais famoso de Portugal completa agora 70 anos e recebeu-nos para uma conversa sobre adolescentes, escola, pais, e a cultura da alegria.

Geralmente, encontro-o na feira do livro de Lisboa, onde é presença assídua há muitos anos. Desde que começou a escrever, Daniel Sampaio gosta de se encontrar com o seu público: lá está todos os anos, a dar autógrafos, a comer um Magnum e a falar com os seus leitores. Agora, recebe-me no gabinete da direção do Serviço de Psiquiatria, no Hospital de Santa Maria. Está calor, e não há ar condicionado. Nem gelados. Não sei como é que se pode recuperar a alegria e a esperança sem ar condicionado nem gelados. Ele é mais resistente. “A nossa maior virtude aqui é a paciência. Principalmente com as anoréticas, é de colher de chá de arroz em colher de chá de arroz.” Os livros, esses, continuam presentes, numa pequena biblioteca. E se a paciência é uma das suas virtudes, a comunicação é outra. Talvez seja normal, depois de anos a dar aulas, entrevistas, consultas. Digo-lhe que venho à procura dele como dantes se procuravam os sábios da tribo (por acaso só me lembrei disto agora, mas teria gostado de lho dizer). Aliás, digo eu, os pais andam agora muito perdidos, e eu pego nas dores deles e venho perguntar a quem sabe mais. Ele acena. “É verdade. As pessoas não sabem onde procurar apoio. Mas eles existem.” E falamos de quê, com um homem que investigou e desenvolveu áreas tão importantes como a terapia de casal, o suicídio, a adolescência, as perturbações alimentares, e tanto mais? Começa-se por onde? Acaba-se onde? “Está a escrever para pais, não é? Quer falar de adolescentes?” Vamos a isso.

A adolescência é mesmo complicada ou isso é mito?

É mesmo complicada. Para os filhos e para os pais. Há estudos que dizem que a adolescência é o período mais difícil na vida de um pai. Porque é preciso encontrar um equilíbrio entre dar alguma liberdade e exercer algum controlo, e isso pode ser bastante difícil. Uma vez perguntei a um jovem o que era ser adolescente, e ele respondeu: ‘Pedir tudo aos pais, e ficar com o que eles quiserem dar’ (risos). E é mesmo assim.

Diz que neste momento os pais estão mais próximos dos filhos do que nunca, mas há um marcado défice de autoridade. Por outro lado, às vezes a autoridade é exercida de modo totalmente arbitrário. Para nós, educar ainda é humilhar?

Sim. O problema é que essa autoridade clássica, que é mais autoritarismo que autoridade, não funciona com os jovens de hoje, que têm muita noção dos seus direitos. Portanto, é preciso criar outro tipo de autoridade. Se um pai acompanhar o filho desde pequeno, esta autoridade será natural e reconhecida. Agora, se for um pai castrador, o filho adolescente vai dizer que não a tudo. O que geralmente acontece é que temos dois extremos: ou pais que foram muito permissivos na infância, que deram tudo e mais alguma coisa aos filhos, ou pais muito autoritários, que criaram conflitos terríveis com os filhos. E portanto, não se desenvolveu uma autoridade naturalmente baseada na relação.

Hoje a autoridade ‘autoritária’ não funciona, é isso?

Pois não, porque hoje os mais novos têm voz. E têm canais por onde se fazer ouvir. Sabem ligar para o SOS Criança, sabem discutir na net, criam blogs, fazem-se ouvir. Por exemplo, escrevi um livro em 94, ‘Inventem-se novos pais’, porque os adolescentes não tinham voz e eu quis dar-lhes essa voz. Isso não se passa hoje, o que faz com que os pais vacilem. Dantes, dizia-se ‘É assim porque o pai quer’, e pronto. Hoje isso já não é aceite.

Os pais estão muito perdidos?

Muito. Querem muito fazer as coisas bem feitas e não sabem a quem recorrer. Mas na maioria dos casos, basta recorrerem a eles próprios. Muitas vezes não é preciso um psicólogo nem um psiquiatra, o que é preciso é que aquelas pessoas se sentem e conversem umas com as outras, em família. Portanto, os técnicos deviam existir para os casos mais graves de psiquiatria. Nós aqui o que fazemos muitas vezes é promover essa comunicação familiar.

As crianças de hoje são educadas com muitos medos…

Isso é muito importante, porque não crescemos sem medos. Mas se passamos a vida a dizer-lhes ‘não podes sair, não podes ir a casa dos teus amigos, não podes andar de comboio’, não estamos a promover a autonomia. O nosso papel devia ser ajudá-los a ultrapassar esses medos, não resguardá-los. ‘Vais lá e fazes o que tens a fazer, e eu estou aqui para te ajudar no que for preciso’. Esse deve ser o papel de um pai.

Pode dar um exemplo prático?

Recebi há tempos uma adolescente já com 18 anos. Tecnicamente era uma adulta, mas na prática não tinha muita margem de manobra. Ela queria ir passar uns dias a um acampamento numa serra com uma amiga. Isto resultou num terrível conflito familiar. Então trabalhámos os medos dos pais: que ela ficasse doente, que se perdesse, que fosse assaltada. A solução foi os pais ficarem num hotel relativamente próximo. Comentário da rapariga: “Acho bem. Porque um dia posso ter fome e vou jantar com vocês.” (risos). A adolescência é isto. É ter necessidade de estar longe dos pais mas manter a proximidade. Mas temos de os deixar afastar-se.

Diz que infantilizamos os adolescentes, que lhes damos uma vida monótona e sem objetivos, onde a única coisa que têm de fazer é ouvir os professores, e depois queixamo-nos de que são apáticos ou turbulentos…

Precisamos de responsabilizar mais os jovens. Na escola ainda há muita indisciplina, e tem de se encontrar uma forma de eles participarem mais. Tomam-se medidas inúteis como as expulsões, mas nunca ninguém lhes pergunta a eles se têm alguma solução. Quando lhes pergunto como as coisas poderiam ser diferentes, eles dão respostas interessantes: podia-se trabalhar mais em grupo, o professor podia não falar tanto. Os meus netos mais velhos são agora adolescentes, mas as coisas que me contam das aulas deles são iguais ao Liceu Pedro Nunes onde andei há mais de 50 anos. Mas dantes o professor tinha uma posição social de muito prestígio, ser professor de liceu era muito respeitado. Hoje esse mundo desapareceu. Hoje os miúdos aprendem uns com os outros, aprendem na net, e portanto não se pode manter o modelo de escola do século XIX com todos sentados em cadeiras enquanto o professor fala.

Estamos perto do regresso às aulas. De que tipo de escola precisamos agora?

De uma escola que valorize e responsabilize os jovens, e que os coloque numa posição ativa em todos os momentos da aula. Mas não o fazemos.

Temos medo dos adolescentes?

Mais do que medo: temos fobia. É uma fobia muito radicada na inveja. De uma forma geral, os jovens não são perturbados. Apenas 10% o são. Os outros 90% têm apenas dúvidas e problemas. E portanto nós precisamos de uma cultura que os ouça e os valorize.

Mas para conseguirem resolver esses problemas, os adultos têm de se confrontar com essa fobia e essa inveja e isso não deve ser fácil…

E não é. A fobia manifesta-se em relação ao corpo juvenil. A saúde, a beleza, a energia, suscita-nos muita inveja. A alegria também. É importante recuar à nossa adolescência, mas percebendo que a de hoje é totalmente diferente.

De que maneira é que os seus netos adolescentes são diferentes dos seus filhos quando eram adolescentes?

A internet é a diferença principal. Foi uma revolução em termos de comunicação. Os jovens hoje estão em constante contacto uns com os outros, e sempre em rede. O que é divertido é que os pais criticam-nos mas fazem a mesma coisa.

Isso abala a autoridade dos pais?

Se esta for exercida desde a infância, não. Desde um ano, tem de dizer ao bebé o que ele pode e não pode fazer. Quando o bebé começa a explorar o mundo, não se deve afastar do caminho todos os obstáculos, tudo o que ele pode partir. Deve-se é começar a dizer não. Dá trabalho? Pois dá. Mas eles aprendem. Há famílias onde ninguém contraria o bebé, ninguém lhe diz nada. Conheci uma avó que transformou a sala numa piscina. Tirou os móveis todos da sala, pôs uma piscina de plástico lá dentro, e lá andavam os netos. Isto é o que não se deve fazer.

Quem é? Acha que ela me adota?

(risos) Acho que não é um bom sistema. A sala da avó é a sala da avó, e não deve ser transformada por causa daquela criança. Estas crianças vão chegar à adolescência com um poder enorme sobre os adultos. E depois, quando nos damos conta disso, é demasiado tarde. Com um filho, tem de indicar-lhe desde pequeno quais são os seus limites, e ao mesmo tempo guardar tempo para brincar com ele, de maneira a não haver uma imagem castradora do pai.

Assim quando eles crescem a autoridade torna-se mais fácil…

Muito mais. No exemplo clássico das saídas à noite, não se pode cair no 8 ou 80. Nem o ‘não vais a lado nenhum’ nem o ‘sai à vontade e curte a vida’. As coisas devem ser combinadas e devemos ser flexíveis com um adolescente, permitir que estejam com os amigos em certas ocasiões e connosco em outras.

Como se deve educar um adolescente?

Para a autonomia. Mas nós povos do sul temos muita dificuldade em fazer isto. O papel cultural da mãe portuguesa é muito interessante. Dantes pensava-se que os rapazes falavam mais com o pai e as raparigas com a mãe, mas hoje sabe-se que ambos falam mais com a mãe. Portanto, a mãe continua a ser o centro da família, até porque geralmente continua a ser quem está mais disponível. Mas depois querem controlar toda a vida deles.

Um dos seus lemas é ‘Trata os teus filhos como gostarias de ser tratado’. E quando isso não acontece? Como é que se sobrevive a um pai ou a uma mãe tóxicos?

É sempre possível sobreviver. Mas geralmente sobrevivemos mal. Não há é uma lei determinística. Temos sempre poder sobre a nossa vida.

Nunca é tarde para ter uma infância feliz, como dizia a Clarice Lispector?

Pois não. Não podemos ficar reféns dos nossos pais. Podemos mudar a forma como nos relacionamos com os pais e com a infância que tivemos, e a adolescência é a melhor altura para fazer isto, porque está tudo em transformação. A adolescência serve idealmente para reparar alguns aspetos da relação com os pais.

Mas para muitos filhos esta revolta sabe a traição…

Vou citá-lo: “A obediência cega aos princípios da família pode manter-se toda a vida, se a desobediência sempre foi considerada uma traição.” Mas todas as famílias têm de evoluir. Podemos manter-nos leais a valores universais: a verdade, o respeito entre gerações, a capacidade de expressar pontos de vista, a pessoa sentir-se valorizada dentro da sua família. Mas o quotidiano muda muito, não se pode viver hoje como há 20 anos.

Como era em adolescente?

Era um pouco sombrio. Era um existencialista, com 17 ou 18 anos tinha grandes preocupações sociais, lia muito Camus e Sartre, interessava-me por política. Era muito sério, não tinha aquela alegria, aquele prazer de viver que muitos adolescentes hoje têm.

Isso não é uma coisa geracional? Essa alegria?

Talvez seja. Os jovens saudáveis de hoje têm o culto da alegria. Como o futuro é muito imprevisível, eles têm de aproveitar o dia de hoje da melhor maneira possível. Nós tínhamos tudo muito certinho. Quando entrei para medicina já sabia que ia ser psiquiatra, e depois sabia que ia ter emprego. Estava tudo previsto.

Porque é que decidiu ir para psiquiatra?

Fui muito influenciado pela filosofia. Tinha uma professora fantástica, a Dra. Maria Luísa Guerra. Os bons professores continuam a ter uma influência enorme nas nossas escolhas, e foi esse o caso. Eu achava que a psiquiatria ia explicar o que era a guerra, o amor, os comportamentos, e depois, claro, percebemos que a vida é mais complicada do que pensamos aos 17 anos. Achava que a psiquiatria tinha respostas para todos os problemas.

E tem?

Há doenças graves, como a doença bipolar e a esquizofrenia, que podemos controlar mas não tratar. Hoje em dia as terapias são incrivelmente mais avançadas. E depois há uma série de situações muito fáceis de tratar, desde que reconhecidas, como a depressão. Ao contrário do que se pensa, a grande maioria das depressões cura-se e a pessoa não volta lá, se o tratamento for bem feito.

Voltando ao adolescente sério que era, a segurança deu-lhe a possibilidade de explorar o seu lado sombrio?

Claro que sim. Quando nos sentimos mais seguros, exploramos melhor o mundo e descobrimos o sentido da nossa vida.

Hoje eles exploram menos o mundo?

Exploram de outra maneira. Mais imediata. Hoje há o culto do imediatismo, tudo tem de ser já. Estamos numa sociedade sem memória. As pessoas recordam muito pouco alturas importantes da sua vida, estão demasiado obcecadas a viver o momento.

Serve para quê, a memória?

Para encontrarmos um rumo. Para perceber os lados positivos da minha vida, e descobrir o meu caminho. Sem memória, andamos de um lado para o outro sem saber quem somos.

Que tipo de geração é esta que não tem um rumo?

A resposta imediata e a ausência de reflexão vêm em grande parte das novas tecnologias . O acesso à informação é tão rápido que eles perderam o gosto pela pesquisa. Não têm concentração para isso, nem prazer nisso. Um neto meu fez um trabalho sobre a Sophia de Mello Breyner. Achou graça ao facto de ela ser mãe do Miguel Sousa Tavares mas já não quis saber do pai. E enquanto eu ia buscar a obra completa da Caminho, ele procurava o poema na internet e dizia ‘Ai não me interessa o poema todo, só tenho que citar aqui uns versos’. E estamos assim. A citar uns versos. O conhecimento é muito rápido e muito pouco aprofundado.

Que consequências é que isto tem?

Consequências importantes ao nível das pessoas em que se estão a tornar. A geração atual tem criatividade, tem iniciativa, mas corre o risco de se tornar muito superficial. Por exemplo, eles leem cada vez menos. Não têm paciência nem concentração.

Estamos em tempos difíceis: crise, terrorismo, desemprego, austeridade. Ainda é possível ser feliz?

É possível: desde que se consiga construir a nossa história de vida, o nosso projeto. E depois, pensarmos que a felicidade se conquista no dia-a-dia. Ninguém é permanentemente feliz. Mas podemos ter muitos momentos de felicidade. Temos é de lutar por ela.

A lição de Daniel

Psiquiatra, professor e escritor, completa 70 anos e afirma que vai dar o lugar aos outros: ‘Não quero ser daqueles velhos chatos que ficam para sempre’. É diretor do Serviço de Psiquiatria do Hospital de Santa Maria, cofundador do Núcleo de Estudos do Suicídio, do Núcleo de Doenças do Comportamento Alimentar e da Sociedade Portuguesa de Suicidologia. Foi um dos introdutores, em Portugal, da Terapia Familiar, a partir da Sociedade Portuguesa de Terapia Familiar. Tem-se dedicado ao estudo dos problemas dos jovens e das suas famílias, e organizou, no Hospital de Santa Maria, o atendimento de jovens com anorexia e bulimia. Divulgador na rádio e nos jornais, é ainda autor de mais de 20 livros. É pai de três filhos, João, Miguel e Daniel, e avô de sete netos.

 

Pais autoritários criam filhos mentirosos

Setembro 1, 2016 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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texto da http://visao.sapo.pt/ de 26 de agosto de 2016.

Suzanne Plunkett

Rui Antunes

Mas, quanto mais precoces a fugir à verdade, maior a probabilidade de as crianças se tornarem inteligentes e bem-sucedidas

As crianças não mentem’ é uma daquelas verdades que damos como absolutas se nos quisermos enganar a nós próprios. Claro que mentem, sobretudo quando fazem algum disparate e não querem ser descobertas. Mas há umas que mentem mais do que outras: as que recebem uma educação autoritária e inflexível na imposição de regras.

Esta é a grande novidade do mais recente estudo conduzido pela canadiana Victoria Talwar, uma especialista na matéria que coleciona inúmeras investigações na área do desenvolvimento cognitivo das crianças. Já se sabia que elas mentem desde os dois anos e por vários motivos, como aponta o psicólogo infantil Mário Cordeiro neste artigo, mas a professora da Universidade McGill, em Montreal, veio agora relacionar a frequência das mentiras com o ambiente mais ou menos rígido em que são educadas. Em casa ou na escola, quanto mais regras os pais e os professores definirem e mais punições impuserem a filhos e alunos quando eles não as cumprem, maior é a tendência para criarem um mentiroso.

Um novo método da equipa de investigadores de Talwar para medir a honestidade das crianças consiste em fazê-las adivinhar qual o objeto que faz determinado som sem olharem para ele. Após duas ou três tentativas de resposta fácil, o teste chega a um ponto em que é impossível associar um som mais estranho a qualquer objeto. Então os investigadores arranjam uma desculpa para saírem da sala e, ao regressarem, insistem na questão: “Qual é o objeto que faz este som?”. E acrescentam outra: “Espreitaste?”

Victoria Talwar fez a experiência em duas escolas africanas, uma com um regime disciplinar mais autoritário e focado na obediência às regras, outra com menos obrigações e castigos. E os resultados do jogo da espreitadela, como lhe chamam, foram bastante conclusivos: enquanto na segunda escola a percentagem de crianças que mentiram, ao dizerem que não tinham espreitado o objeto, ficou em linha com a média de outros estudos do género, na primeira a quantidade de mentirosos disparou.

A explicação avançada é bem simples e lógica: as crianças mentem mais ao sentirem a ameaça de uma punição. É uma espécie de reação em legítima defesa.

Embora moralmente condenável, a habilidade para mentir também tem o seu lado positivo. As crianças que desenvolvem essa capacidade tendem a tornar-se mais inteligentes e bem-sucedidas. E, como ficou demonstrado neste estudo de Kang Lee, da Universidade de Toronto, quanto mais cedo começarem a fintar a verdade, melhor.

 

 

 

7 perguntas para o pediatra Daniel Becker: “Seu filho deve aprender que não é o centro do mundo”

Agosto 20, 2016 às 1:00 pm | Publicado em Vídeos | Deixe um comentário
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Texto do site http://www.psicologiasdobrasil.com.br/ de 15 de agosto de 2016.

O pediatra Daniel Becker é o criador da Pediatria Integral: um conceito de que a criança precisa ser vista de forma mais abrangente. Não é apenas tratar e prevenir doenças, mas cuidar do bem estar emocional, social e até espiritual da criança e da família. São 20 anos de experiência de consultório no Rio de Janeiro. Formado pela UFRJ, ele é especialista em Homeopatia e mestre em Saúde Pública. Médico do Instituto de Pediatria da UFRJ, ele foi pediatra da Médicos sem Fronteira em campos de refugiados na Ásia e fundador de uma ONG, o CEDAPS, Centro de Promoção da Saúde, com atuação em comunidades carentes.

Becker é um apaixonado pela profissão e conta que ao olhar sua trajetória se diz satisfeito pelas escolhas que fez. Ele é separado, pai de dois filhos, um menino de 17 anos, roqueiro, e uma menina de 20 anos, psicóloga. “Eles são muito bacanas. Tenho muito orgulho deles”, diz o médico. Com tantos compromissos, entre palestras e consultas, ele abriu gentilmente um espaço na agenda para responder às minhas perguntas.

1.Na sua palestra no Ted, você diz que um dos pecados contra a infância é a “entronização”. O que isso significa? Estamos colocando nossas crianças em um trono?

A gente vive em tempos de hipervalorização da infância tanto pela mídia quanto pretensamente pela família e pela sociedade. Mas na verdade a infância é desvalorizada naquilo que ela tem de real, na sua essência. Um dos fatores que explica esse paradoxo é a falta de intimidade e de convivência entre pais e filhos por causa das questões da vida moderna. E quando estão juntos, os pais não conhecem essas crianças, não sabem lidar com elas. Estão estressados com os seus trabalhos, estão viciados nos seus telefones e não querem também se submeter à desaprovação social de uma criança que chora ou se comporta mal. Acaba que essa criança não tem direito de se manifestar de forma negativa, que faz parte do comportamento infantil. Ela não pode fazer uma birra, dizer “não”, chorar, explorar seus limites de atuação no mundo. Como os pais não sabem lidar com essas situações, a criança acaba tendo todos os seus desejos realizados, não lhe colocam limites, não lhe dizem que ela tem que lidar com a frustração. A gente quer calar a qualquer custo o mal estar. Então para parar com o chilique, a gente acaba cedendo. Ao invés de aprender as regras de convivência, a criança passa a ser uma rainha que dita as normas, os programas, os horários.

2.E o pecado que você chama de “superproteção da infância”?

A superproteção é impedir que as crianças tenham suas próprias experiências. A gente está presente o tempo todo, aquilo que os americanos chamam de “helicopter parent”, pais que ficam flutuando em torno das crianças fazendo com que elas não tenham a experiência do mundo, justamente porque os pais se interpõem entre o mundo e a criança. Elas ficam impedidas de lidar com o risco, com a aventura, com as relações interpessoais, com os problemas da escola, com a dor, com os machucados. Se a criança tem um problema com uma outra criança, os pais se interpõem para resolver a questão, no playground não deixam ela se arriscar a subir mais alto no trepa-trepa. É claro que ninguém quer que o filho quebre um dedo ou receba um ponto, mas são experiências da infância. A criança tem que ter a experiência do risco, do machucadinho e da frustração. Outra coisa muito grave é que para evitar os perigos do mundo, as famílias ficam muito em casa, se expõem pouco à natureza, as praças e as praias. Os riscos desses lugares existem e temos que lidar com eles, pois fazem parte da vida.

3.Qual o prejuízo real para crianças que não sabem ouvir a palavra “não”? O que vai ser (ou já está sendo) dessa geração sem limites? 

Eu já vi criança dormindo às duas da manhã, já vi criança de dois anos que comanda o que tem na geladeira e no armário da despensa. Outras que determinam o programa da família nos fins de semana, se elas não querem sair, ninguém sai. Pais que deixam a criança de 3 anos ficar horas na televisão porque não sabem desligar o aparelho e deixar ela ficar frustrada. Criança que come o biscoito ao invés da comida, que ganha o presente depois de ter se jogado no chão do shopping. Isso tudo causa um prejuízo enorme, tanto na qualidade de vida dessa família, quanto na psiquê, na emocionalidade dessa criança. Ela precisa saber que a sua vida tem limites, que a sua influencia tem limites, que o mundo não gira em função do seu umbigo. Muitos meninos e meninas dessa geração vão levar isso para a vida adulta e não só terão dificuldades de convívio como vão quebrar a cara nos seus ambientes de trabalho e em relacionamentos interpessoais. Porque nem sempre a vida vai acolher esse tipo de onipotência que é resultado de uma educação cheia de falhas nesse sentido.

4.A culpa que os pais carregam é a grande vilã nessa história?

Eu tenho muito medo da gente restringir a questão à responsabilidade da família. A família é responsável sim, tem que saber lidar com a frustração, o choro, as emoções negativas da criança, tem que saber mostrar a ela que esses momentos passam, que estas situações vão deixar ensinamentos importantes. Os pais sentem culpa porque não estão presentes na vida dela e quando estão juntos querem dar coisas demais. A gente briga com essa história de dar presente, ao invés de dar presença. Muitas vezes o tal “deficit de atenção” é deficit de atenção de pai e mãe que a criança sofre. Mas a gente tem que justamente tomar muito cuidado para não piorar isso dizendo que os pais são os culpados porque o que leva a tudo isso é a vida moderna, é a perda de referências, é a falta de capacidade de aprender com as gerações anteriores, com a experiência dos outros, é a invasão do tempo de trabalho e do tempo de entretenimento no tempo em família, é o vício do smartphones. Tudo isso tem que ser pesado na compreensão desse fenômeno da entronização e da superproteção da infância, a gente não pode restringir a responsabilidade e nem as soluções apenas a nível familiar.

5.A justificativa sincera de muitos pais é de que eles fazem o melhor que podem, trabalham o dia todo, batalham para dar conforto aos filhos, chegam exaustos em casa. É até mesmo controverso: as pessoas querem ter filhos mas não conseguem ter tempo de conviver com eles. Como resolver este impasse? 

As pessoas querem ter filhos e imaginam que tudo vai ser um mar de rosas. Elas têm que ter consciência de que vão ter filhos neste mundo em que vivem: nas grandes cidades, muitas vezes com a falta de presença de familiares, com trabalhos que demandam excessivamente, com transporte que fazem elas chegarem tarde em casa, isso tudo tem que ser incorporado por um casal quando eles planejam filhos. Planejar ter filho é ver o futuro. Claro que a maioria das pessoas não faz isso, a gente quer ter filho, a gente quer reproduzir a nossa própria genética, isso faz parte de um mandato biológico. Mas hoje em dia a gente tem que pensar nas condições de vida que essa criança vai nascer e como nós vamos dedicar o nosso tempo a ela. Isso faz parte da responsabilidade de um casal. É preciso planejar a carreira, o local de trabalho para que a convivência familiar seja maximizada, para que a criança cresça com a presença dos pais, dos avós, tios, primos. Escolher um lugar para morar com natureza por perto. De novo a gente não pode reduzir a solução deste impasse a nível da família, a gente tem que tentar pensar na sociedade como um todo. A sociedade brasileira é insegura, desigual e cheia de problemas e isso influencia nas condições de vida das famílias.

6.O video americano “Childhood is not a mental disorder” já deu o que falar sobre o uso exagerado de remédios em crianças para controlar “doenças do comportamento”? Você concorda que é preciso ter muito cuidado com os diagnósticos?

Eu gosto muito desse vídeo e ele traz mesmo uma dimensão terrível do que a sociedade está fazendo com a infância. O mercado pressiona a família por soluções fáceis, todo mundo quer resolver os problemas imediatamente. A energia da criança está sendo reprimida. É claro que o comportamento dela vai ser muito afetado por todas as questões que eu já citei, podendo se rebelar, ter insônia, desatenção, brigar na escola, ser impulsiva. Em vez da gente repensar como oferecer a estas crianças uma infância melhor, mais saudável, mais verdadeira, o que o mercado propõe é que elas sejam medicalizadas. A indústria de diagnósticos e de remédios é monstruosa e crescente. No Brasil, a Ritalina é o principal remédio usado para criança. Em 10 anos a venda de Ritalina subiu de 75 mil caixas para 2 milhões de caixas. O Ministério da Saúde agora está estabelecendo uma regulação para a venda do remédio. A gente não pode negar que essas doenças existem, o TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade) é uma doença grave, mas ela atinge um pequeno número de crianças. A grande maioria desses diagnósticos está sendo feita de forma arbitrária, sem critério suficiente, eu diria até perversa. É preciso mudar o comportamento da família ou ir para psicoterapia, terapia ocupacional, fisioterapia, fonoaudiologia, que são benéficas para este tipo de problemas e poderiam ser tentadas antes e de forma mais eficaz. Porque o remédio vai ter efeitos colaterais, vai rotular esta criança, como o video expõe muito bem, vai colocar na cabecinha dela que ela é apenas um transtorno e não uma criança que tem potencialidades múltiplas e possibilidades infinitas para o seu futuro. Tem a historia de uma mãe que levou a filha ao pediatra porque achava que ela tinha problemas e o pediatra deixou a criança com uma música e saiu da sala por alguns minutos com a mãe. Eles ficaram observando a criança do lado de fora, enquanto ela dançava o tempo todo. E o pediatra disse: “Sua filha não tem um problema, sua filha é uma bailarina, leve-a para uma aula de ballet e vão ser felizes”. Gillian Barbara Pyrke, a menina da historia, se tornou uma famosa coreógrafa da Broadway. Quantos gênios, artistas, cientistas nós não estamos perdendo medicando e rotulando essas crianças?

7.Quais as suas dicas para criarmos “crianças como crianças”?

Acolher as crianças nas suas emoções. Especialmente as crianças pequenas têm uma racionalidade limitada e uma emocionalidade muito grande. Se ela está com raiva, você pode dizer pra ela “você está com muita raiva”. E mostrar de forma teatral o que está acontecendo com ela, fazê-la entender o sentimento que ela está tendo e dar permissão para ela sentir essas emoções, tanto negativas quanto positivas. Acolher também os desejos: “você quer esse brinquedo, eu sei que você quer muito ele, eu te entendo, mas a mamãe não pode comprar ele agora”. Isso quebra um pouco esse mecanismo da birra. Ter convivência com os nossos filhos, oferecer a eles oportunidades de conversa, de refeições em família, de sair na rua juntos, brincar nos parques, subir no trepa-trepa, ralar o joelho no chão, cair do skate (com capacete!), subir numa árvore, levar um zero, aprender com a frustração. Tudo isso é importante para formar uma criança mais feliz e um adulto mais íntegro, preparado para conviver com o outro. Pra saber respeitar o outro a primeira coisa que a criança tem que entender é que ela não é o centro do mundo. Ela é um membro da família e ter relações igualitárias com os outros membros da família vai fazê-la entender que ela vive numa sociedade. Esse é o nosso papel como pais.

Texto original no Tudo sobre a minha mãe

 

 

“Os pais não são amigos dos filhos. São adultos e devem funcionar como tal, traçando limites”

Junho 3, 2016 às 12:30 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista do Jornal de Leiria a Daniel Sampaio no dia 26 de maio de 2016.

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“Ser Pai do século XXI” Entrevista de Manuel Coutinho à RTP

Março 20, 2015 às 12:15 pm | Publicado em O IAC na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista do Dr. Manuel Coutinho (Secretário–Geral do Instituto de Apoio à Criança e Coordenador do  Sector SOS-Criança do Instituto de Apoio à Criança) à RTP Notícias no dia 19 de março de 2015.

Visualizar os vídeos da entrevista no link:

http://www.rtp.pt/noticias/index.php?article=812354&tm=4&layout=121&visual=49

Pedro A Pina  RTP

Nuno Patrício e Pedro A. Pina, RTP

Como são os pais dos dias atuais? Seremos ainda conservadores da disciplina masculina em que a agressividade e a figura de macho alfa impera? O online da RTP foi saber como são afinal os pais do século XXI.

Ser pai é cada vez mais um desafio. Mais que uma missão, a questão da parentalidade é colocada do ponto de vista social como formativa, educativa e afectiva, em que todos os factores têm de estar interligados sob pena de perda funcional da criança.

Então como deveremos ser? Pais autoritários, pais passivos ou pais democráticos? Qual será o melhor modelo de paternidade e qual o mais aconselhado em pleno Século XXI?

As perguntas parecem ter resposta num equilíbrio entre eles, embora nem sempre seja fácil de alcançar.

Manuel Coutinho é psicólogo no Instituto de Apoio à Criança (IAC), falou com o online da RTP e explicou a diferença entre o pai exclusivamente autoritário e o pai democrático.

“Um bom pai é aquele que educa por amor mas também aquele que sabe limitar por amor”, diferenças que o psicólogo Manuel Coutinho dizem fazer toda a diferença nos dias que correm.

Assumir a paternidade e ser pai é considerado um dos principais desafios da atual sociedade – valores em quase tudo diferentes dos modelos que nos foram transmitidos pelos nossos pais que foram na grande maioria “buscar” inspiração à geração anterior.

Para Manuel Coutinho, o progenitor que sabe acolher, respeitar a mãe do filho e aquele que transmite valores ao filho é o verdadeiro pai no sentido da “função matriarcal”.

Para o psicólogo do IAC, os pais masculinos já não são mais os financiadores da criança nem o garante dos bens materiais mas sim um elemento indispensável no seio do núcleo familiar.

A educação exclusivamente masculina não é fator obrigatório de uma conduta mais violenta ou disfuncional, diz o investigador e seguidor de vários casos em que existem maus tratos em crianças:  “A agressão física e psicológica faz-se sentir com maior vigor em casais heterossexuais”, afirma.

Centenas de crianças em Portugal esperam em instituições por uma família de acolhimento – famílias essas que devido a questões físicas ou legislativas são impedidas de adoptar, deixando em ambos os casos máculas para toda a vida.

Manuel Coutinho considera o problema incompreensível e explica que a alternativa existe porque, no entender deste psicólogo, “prender” uma criança, devido a problemas burocráticos, às instituições é pior do que deixá-la ser adoptada por um casal do mesmo sexo.

Quanto ao actual papel do pai, a complementaridade com a mãe é a solução para um equilibrado estado psíquico e social da criança.

Os desafios para os pais do século XXI estão no entanto a crescer e com a geração dos telemóveis, dos chats e da internet, em que a autonomia e parece ter ocupado um espaço anteriomente exclusivo da família.

Neste contexto, como educar um filho? Teremos de ser novamente pais autoritários? Ou agir com passividade? Mais uma vez o equilibrio está no meio.

Ser pai e mãe democrata, obviamente, mas democracia não implica negociar até ao impasse, inversão de valores ou laxismo, porque a democracia exige decisão.

Os pais não são nem nunca podem ser “colegas” dos filhos, mas pais, onde o afeto existe mas com firmeza, porque os pais que amam os filhos educam e estabelecem regras.

Como Criar um Delinquente

Junho 27, 2014 às 6:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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