Internet já traz mais problemas aos jovens que o álcool ou a droga

Julho 10, 2019 às 8:00 pm | Publicado em Relatório | Deixe um comentário
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Notícia da TSF de 26 de junho de 2019.

Por Nuno Guedes

As conclusões são do serviço do Ministério da Saúde que avalia os comportamentos aditivos e dependências.

Um em cada quatro jovens de 18 anos admite que teve no último ano problemas por causa da utilização da internet.

Esta é uma das conclusões do relatório “Comportamentos Aditivos aos 18 anos – Inquérito aos jovens participantes no Dia da Defesa Nacional – 2018” que ouviu 66 mil jovens.

A percentagem de jovens que relata problemas com a internet (25,9%) aumentou em relação ao último inquérito realizado em 2017 (22,9%) pelo Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD) do Ministério da Saúde. Os casos mais comuns, a afetar 15,9% dos jovens, envolvem “problemas de rendimento na escola ou no trabalho” por causa do tempo online. Com 11,5% seguem-se as situações de mal-estar emocional e problemas com comportamentos em casa (9,6%).

O número de jovens de 18 anos com problemas pelo uso da Internet (25,9%) é mesmo superior ao número de jovens que diz que já teve problemas devido ao consumo de álcool (21%) ou drogas (9%).

Por exemplo, a Internet gera mais do triplo de casos de problemas de rendimento na escola ou no trabalho do que o álcool (15,9% vs. 4,4%) ou quatro vezes mais que o consumo de substâncias ilícitas (2,9%).

Nos comportamento tidos em casa, a Internet também é um fator bem mais problemático do que o álcool ou as drogas, com a presença online a perder, apenas, para o álcool nas situações de mal-estar emocional junto dos jovens de 18 anos.

Parte do tempo em que os jovens estão na internet é passado a jogar, com o estudo a revelar que “a maior proporção de jovens joga até 3 horas por dia, seja durante a semana ou ao fim de semana (por exemplo, 23,5% jogam 1 hora por dia e 14,7% durante 2 a 3 horas por dia, ao fim de semana; enquanto 18,7% jogam até 1 hora por dia e 14,3% jogam 2 a 3 horas por dia, se for um dia útil)”. No entanto, o documento faz questão de sublinhar que “é de salientar como perto de 10% dos jovens mencionam jogar durante 6 horas ou mais por dia”.

O relatório citado na notícia é o seguinte:

Comportamentos Aditivos aos 18 anos. Inquérito aos jovens participantes no Dia da Defesa Nacional – 2018

Novos ossos estão a crescer nos crânios dos jovens devido ao uso excessivo do telemóvel

Junho 29, 2019 às 8:20 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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David Shahar e Mark Sayers – Scientific Reports

Notícia da RTP Notícias de 21 de junho de 2019.

As novas tecnologias mudaram, indubitavelmente, a nossa forma de vida. Sabemos que os novos dispositivos eletrónicos alteraram a forma como comunicamos, como trabalhamos, como vivemos. Revolucionou a forma como aprendemos, assim como expandiu a quantidade de informação disponível, anteriormente mais limitada.

Hoje, não nos imaginamos a viver sem elas. Mas sabemos também agora que estas novas tecnologias, em particular os telemóveis, estão também a transformar o corpo humano.

Era já conhecido que os telemóveis afetam a saúde ocular. Também a coluna e até o cérebro. Mas não sabíamos que poderia afetar o nosso crânio, nem se imaginava que novos ossos poderiam crescer com a utlização em excesso destes aparelhos.

Um estudo feito pelos investigadores australianos David Shahar e Mark Sayers, da Universidade de Queensland, analisou os crânios de mais de mil pessoas, com idades compreendidas entre os 18 e os 86 anos. Concluíram que 400 pessoas, sobretudo os mais jovens, tinham tido um crescimento de ossos na base dos crânios, o que dizem ser uma mudança corporal provocada pelo uso crescente da tecnologia moderna.

A investigação concluiu que as pessoas (sobretudo os jovens) estão a desenvolver “uma exostose proeminente, que emana da protuberância occipital externa”. Ou seja, esporões ósseos estão a formar-se na parte de trás do crânio. São pequenos crescimentos ósseos que podem formar-se na extremidade dos ossos e que ocorrem quando uma inflamação danifica a cartilagem e o corpo tenta reparar o dano, fazendo crescer mais osso. Durante o estudo, os autores encontraram esporões ósseos cujo tamanho variava entre os 10 e os 31 milímetros.

Os investigadores afirmam que a inclinação frontal da cabeça, ao deslocar o peso da coluna para os músculos da cabeça, provoca um crescimento ósseo nas ligações dos tendões e ligamentos. Assim, acreditam que os dispositivos eletrónicos, em particular os telemóveis, estão na origem do problema.

Quais são as possíveis consequências?

O que reserva o futuro para os jovens adultos que desenvolvem, como referem os autores, “um processo degenerativo (…) num estágio tão inicial das suas vidas”?

Shahar acredita que esta formação óssea pode conduzir a uma deformidade grave na postura, que, por sua vez, pode provocar dores no pescoço, nas costas, e dores de cabeça crónicas. Alguns esporões ósseos podem também requerer tratamento, conforme o tamanho e a gravidade.

O cirurgião ortopédico David Geier afirma no entanto que este problema pode ser prevenido. “As pessoas que estão preocupadas com isto podem começar a trabalhar com um fisioterapeuta para aprender exercícios para fortalecer os músculos que ajudam com a sua postura”, disse à NBC News.

E acrescenta que há pequenas mudanças que podem ajudar, como “colocar almofadas por baixo dos computadores e segurar no telemóvel ou no tablet um pouco mais acima”.

Estudo levanta dúvidas

Este estudo tem recebido críticas distintas, tendo sido apoiado por vários especialistas e rejeitado por outros.

Alguns afirmam que o trabalho é baseado em raios-x antigos, não tem um grupo de controlo, e não consegue provar a causalidade. Além disso, as pessoas que participaram no estudo tinham-se especificamente queixado de dores no pescoço e procuraram um médico, o que significa que não é claro como os resultados se aplicam ao resto da população.

David Langer, diretor de neurocirurgia no Hospital Lenox Hill, disse ao The New York Times que “é mais provável ter uma doença degenerativa dos discos ou desalinhamento do pescoço do que um esporão ósseo a crescer no crânio”.

20% das mortes dos 15 – 24 anos devem-se ao consumo de álcool

Junho 25, 2019 às 2:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Mais informações no link:

http://www.sicad.pt/pt/Paginas/detalhe.aspx?itemId=297&lista=SICAD_NOVIDADES&bkUrl=/BK

Os ecrãs impedem os jovens de desenvolver empatia. E as sociedades tornam-se “brutais”

Junho 24, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 2 de fevereiro de 2019.

A resiliência constrói-se. Num ambiente de segurança, o cérebro de alguém que sofreu um trauma regenera-se “muito mais rapidamente do que imaginamos”. Mas, atenção, avisa o psiquiatra Boris Cyrulnik, uma criança que cresce a olhar para ecrãs não consegue desenvolver empatia.

Alexandra Prado Coelho

A nossa capacidade de resistência à adversidade – a chamada resiliência – não está inscrita nos genes. Não nascemos com uma determinada predisposição, antes somos moldados pelo ambiente desde o útero materno e pela vida fora, e é isso que nos torna mais ou menos resilientes.

O defensor desta ideia, o neuropsiquiatra francês Boris Cyrulnik – que esteve em Portugal esta semana para fazer uma conferência na Noite das Ideias, iniciativa da Embaixada de França e do Instituto Francês, dia 31 de Janeiro, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa – sabe do que fala. Ele próprio é um exemplo de resiliência e tornou-a o tema principal das suas pesquisas e do seu trabalho de toda a vida.

Hoje com 81 anos, este sobrevivente do Holocausto tem trabalhado com pessoas, sobretudo crianças e jovens, que passaram por situações traumáticas. “A resiliência”, diz, “é uma construção constante, é um fenómeno de desenvolvimento e nós desenvolvemo-nos o tempo todo, a nível biológico, psicológico, afectivo, social.” E acrescenta, com um sorriso de garoto: “Só paramos de nos desenvolver aos 120 anos. Depois disso, é possível, mas é difícil.”

Muito do processo de regeneração de um cérebro que sofreu um trauma passa pela segurança mas também pela empatia com os outros. Ora, actualmente, com a presença constante da tecnologia nas nossas vidas, é precisamente a capacidade de criação de empatia que começa a estar em risco. E que consequências isso tem para uma sociedade?

“Uma pessoa nunca pode ser reduzida ao seu trauma”

Antes de entrarmos por aí, vamos começar por perceber o que pode afectar, positiva e negativamente, o nosso cérebro desde o início da vida. O poder dos genes, ou seja, o determinismo genético, tem o seu momento alto “no encontro do espermatozóide com o óvulo”, depois disso é o meio que começa a agir sobre o jovem feto. “Há meios que orientam [a criança] para a aquisição de factores de protecção e outros para a aquisição de factores de vulnerabilidade. Se a mãe está stressada, segrega substâncias que passam no líquido amniótico e o bebé adquire esses factores de vulnerabilidade. Se a mãe se sente segura e feliz, o bebé desenvolve-se bem e tem factores de protecção.”

A forma como, por exemplo, essas substâncias segregadas pela mãe alteram o cérebro do bebé pode ser observada em exames neurológicos. As crianças afectadas pelo stress materno “nascem com uma alteração dos dois lóbulos pré-frontais e do sistema límbico e a amígdala do cérebro reage muito fortemente”. Isto significa que “chegam ao mundo com uma alteração cognitiva pela situação de precariedade social da mãe”.

Um ambiente onde a criança se sinta protegida é, por isso, essencial. A boa notícia é que “o cérebro regenera muito rapidamente”. Mesmo um trauma profundo pode curar-se “muito mais facilmente do que imaginamos”. A consciência disso deve-se, em grande parte, ao trabalho que Cyrulnik desenvolveu. “Antes dizíamos sobre estas crianças, é genético, não vale a pena preocupar-nos com elas. E não nos ocupávamos. Hoje rodeamo-las de segurança e a resiliência regressa. Em 48 horas começam a segregar hormonas de crescimento e hormonas sexuais, sejam masculinas ou femininas. Mas se não os rodearmos de segurança passam a vida toda em sofrimento.”

Boris Cyrulnik tinha sete anos quando perdeu os pais, levados pelos nazis para Auschwitz, onde morreram. Antes de ser detida, a mãe confiou o rapaz a uma família, que acabou por o entregar também aos alemães. Conseguiu escapar, escondendo-se numa sinagoga, da qual acabou por conseguir fugir, tendo trabalhado numa quinta para conseguir sobreviver até ao final da guerra. Só aos dez anos é que foi entregue a uma família que o criou.

Depois disso, as tentativas que fez para falar da sua situação depararam com um muro de indiferença. Os franceses não queriam ouvir, da boca de uma das vítimas, a história de como tinham abandonado e condenado à morte crianças judias. Num país também ele profundamente traumatizado, Boris Cyrulnik percebeu que não valia a pena insistir em contar a sua história. Mas foi também esta experiência que o fez perceber que queria ser psiquiatra.

A ideia de que uma criança, por maior que seja o trauma que sofreu, não pode ser ajudada a ultrapassá-lo é o que mais o indigna – e, trabalhando com órfãos na Roménia, vítimas de genocídio no Ruanda, ou crianças-soldado na Colômbia, foi reforçando essa convicção. “Uma pessoa nunca pode ser reduzida ao seu trauma”, costuma dizer.

Há, contudo, outros factores que devem ser tidos em conta – a diferença entre rapazes e raparigas, por exemplo, que se nota logo no desenvolvimento nos primeiros anos de vida. “As raparigas começam a falar cerca de cinco meses antes dos rapazes. Porquê, não sei. Mas é um factor de protecção, porque quando estão infelizes podem dizê-lo, podem pedir ajuda, enquanto os rapazes não sabem dizê-lo e passam à acção mais rapidamente.” Passagem à acção que vão manter como característica de comportamento ao longo da vida.

Quando chegam à adolescência, “as raparigas, que têm uma biologia mais estável, têm um avanço neuropsicológico de cerca de dois anos relativamente aos rapazes”. Não só falam melhor, como são “mais estáveis emocionalmente” e já terminaram a sua “fadiga de crescimento”.

Nas décadas seguintes, nota-se que as raparigas e as mulheres “aprendem os rituais de interacção melhor que os rapazes” e continuam a “dominar a palavra” – se isso ainda não parece ser evidente no espaço público, onde a visibilidade das mulheres continua a ser menor, Boris Cyrulnik acha que é apenas uma questão de tempo: “Há aí [nessa invisibilidade] um grande determinismo social. Mas penso que isso vai desaparecer em dez anos”.

O domínio masculino no espaço público está ligado à força física e à violência. “A violência foi um factor adaptativo em todas as culturas. Muitos sociólogos dizem que é pela violência que a sociedade se constitui. Se os homens não fossem violentos, a espécie humana teria desaparecido”.

Na sua infância e juventude, durante a II Guerra Mundial, “o trabalho era uma forma de violência, 15 horas por dia, seis dias por semana”. Recorda as vidas duríssimas dos mineiros em França ou dos operários dos estaleiros navais. “Era um trabalho de uma violência extrema, os operários tinham as costas feridas pelos pedaços de carvão que lhes caiam em cima, as mulheres tinham que os lavar para evitar as infecções e para que eles pudessem ir trabalhar no dia seguinte, senão, não haveria dinheiro nem comida.”

A força e a violência eram, portanto, essenciais e isso fazia com que os homens fossem “vistos como heróis”, sendo, por isso mesmo, “sacrificados na mina ou na guerra”. Esta violência adaptativa não faz sentido nas actuais sociedades ocidentais como a europeia, por exemplo, mas continua a fazer sentido em países em guerra. A diferença é clara: “A violência é destruição num contexto de paz mas é construção social num contexto de guerra”. Daí que no Médio Oriente “um rapaz que não é violento, é desprezado, pela mãe, a mulher, os outros rapazes”.

“No mundo actual [ocidental], o sector terciário desenvolveu-se, a escola também, as mulheres têm desempenhos iguais ou superiores aos homens e a violência já não tem valor de construção da sociedade, é apenas destruição”, explica. “Mas isso só acontece desde os anos 60 do século XX. Eu nasci em 1937, faço parte de uma geração na qual apenas 3% das crianças estudavam. Os outros iam trabalhar, com 12, 13 anos, os rapazes para a mina, as raparigas para casa, e a maternidade acontecia aos 16, 17 anos. Hoje isso é impensável.”

E, no entanto, mesmo que desadaptada ao contexto actual, a violência contínua de certa forma inscrita na nossa “memória transgeracional” – pronta a renascer assim que for necessária. “Acontece nas sociedades que se afundam, por exemplo, o Brasil, a Venezuela, que estavam numa curva ascendente e a violência era muito combatida, sobretudo pelas mulheres, porque se manifestava apenas na destruição do casal, da família, da sociedade.” Quando a crise económica faz afundar o país, “a violência reaparece e torna-se um valor adaptativo e nesse contexto um homem que não é violento é imediatamente eliminado”.

Ao longo da sua carreira, Cyrulnik viu muitas situações nas quais esses instrumentos de adaptação da espécie humana vinham ao de cima, tanto a violência como, por outro lado, a solidariedade. E percebeu que são valorizados de forma diferente conforme o contexto. No entanto, nota, a solidariedade que surge nessas circunstâncias é geralmente “de clã, de grupos com as mesmas crenças religiosas, a mesma cultura, a mesma cor de pele, o mesmo nível social”.

Quanto à violência, “nas guerras decoramos os psicopatas quando matam um adversário, e em alturas de paz colocamo-los na prisão – eles são sempre psicopatas, é o meio que valoriza, ou não, a passagem ao acto”.

Esta presença da violência, que “atravessa todas as culturas”, ajuda a perceber também a vitimização da mulher. “Elas sofreram, foram massacradas, porque são menos dotadas para a violência”. Por outro lado, quando a situação piora e a violência se torna novamente adaptativa, “as mulheres valorizam os homens violentos e querem estabelecer laços com eles”. O que acontece hoje, em contextos de paz, é que “as mulheres, que foram de facto vítimas, e algumas ainda são, servem-se da noção de vítima para tomar o poder e legitimar a própria violência, que não é física, mas verbal”.

O bebé “precisa do cheiro” da mãe

Está também a surgir nas nossas sociedades outro fenómeno que preocupa o psicanalista: a dificuldade de desenvolver empatia, que afecta sobretudo os mais jovens. A empatia é algo que implica interacção humana, sublinha. E quando grande parte da relação com o mundo é feita não através de outros seres humanos mas sim de ecrãs de televisões, computadores ou telemóveis, é muito mais difícil aprender a empatia.

E, no entanto, esta é algo que um bebé recém-nascido adquire com uma surpreendente facilidade. “Os bebés compreendem imediatamente a menor variação da mímica facial da mãe, desde muito pequenos. Somos uns virtuosos, únicos entre as espécies vivas a lidar com a mímica facial.” Daí que seja difícil criar um robot que possa realmente substituir uma pessoa.

Mas, relativamente à tecnologia, Cyrunik não tem uma posição redutora. “Tinha um amigo com uma clínica de hemodiálise e duas ou três vezes por semana as pessoas dormiam na clínica e criavam laços com a máquina, queriam sempre a mesma porque já conhecia as reacções deles. Como na psicanálise, havia uma relação transferencial.”

Por outro lado, “quando as crianças são criadas com ecrãs, são privadas da interacção, das palavras, do piscar de olhos, dos sorrisos; com um ecrã não há rituais de interacção”. Isso faz com que “tenham um atraso no desenvolvimento da linguagem quase como uma criança autista, não sabem descodificar as interacções, se alguém lhes sorri não compreendem, não aprendem os pequenos gestos que nos permitem viver juntos, socializam mal, tornam-se impulsivos”. Um bebé, frisa Cyrulnik, “precisa do cheiro, do calor dos braços da mãe”.

Se um bebé “é isolado antes de adquirir a palavra, o que acontece até aos 21 meses, há uma atrofia dos lóbulos pré-frontais e dos anéis límbicos”. São crianças que crescem “com um cérebro moldado pelo fracasso social e cultural” e “não conseguem controlar as suas emoções”.

Por isso, a ligação que muitos jovens (e não só) estabelecem hoje com esses ecrãs omnipresentes preocupa-o. “Já há consequências. Os jovens que passam mais de três horas por dia em frente a ecrãs mexem-se menos, encontram-se menos com os outros, têm mais depressões e, sobretudo, param o desenvolvimento da empatia – a aptidão a descentrarem-se de si próprios para conseguir a representação do mundo mental dos outros”.

A ausência de empatia manifesta-se, diz Cyrulnik, na forma como muitas pessoas “não estão atentas aos outros”. “No metro de Paris, por exemplo, isso é flagrante. Estão no meio da porta e não se mexem quando os outros querem entrar ou sair. Estão centrados neles mesmos porque a escola centrou-os sobre eles mesmos, os ecrãs também e aprenderam mal os rituais de interacção”.

O exemplo do metro pode ser menor, mas Cyrulnik confirmou esta constatação noutras situações mais graves. Recorda um rapaz que, no hospital e quando uma pessoa da família acabara de morrer e os outros familiares choravam, ria a olhar para alguma coisa no telemóvel. Ou outro que assaltara uma senhora que caíra acabando por morrer em consequência de uma pancada na cabeça e que respondia apenas que “se ela tivesse largado a mala, não teria morrido”.

“Sociedades brutais”

Uma sociedade com menores níveis de empatia é necessariamente mais perigosa, conclui. “Os psicopatas podem matar, roubar, violar, sem culpabilidade”. Por isso defende a necessidade de se desenvolver uma “pedagogia da empatia”, que deve começar nas escolas, para explicar que “não nos podemos permitir tudo”. Tal como é preciso perceber que “se um rapaz tem um desejo sexual não pode permitir-se tudo”, também uma rapariga que não esteja interessada nele “não pode permitir-se tudo, não pode humilhá-lo”.

Conseguirmos colocar-nos no lugar do outro – é isso a empatia e também, segundo Cyrulnik, a base da moralidade – ajuda a perceber que nem tudo é possível. “Temos, como sociedade, que ter uma maior consciência disso”. Em França, após a I Guerra Mundial havia um enorme número de órfãos e “praticamente todos conseguiram rapidamente uma família de acolhimento”. Hoje, nessa mesma França, em paz, “passam 16 meses entre o alerta de que uma criança está em risco e o momento em que vai encontrar uma família, e são 16 meses em que a criança é infeliz”. A ausência de empatia, avisa, “faz sociedades brutais”.

 

 

O jogo da asfixia que está a assustar Espanha (em Portugal “não foram reportados casos mas não quer dizer que não haja”)

Junho 18, 2019 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Expresso de 31 de maio de 2019.

Liliana Coelho

O caso não é inédito. Dois adolescentes voltam a ser hospitalizados em Espanha após alinharem no jogo da asfixia, também conhecido por “jogo da morte”. As vítimas são estranguladas até perderem a consciência. Um desafio com muitos riscos que pode causar danos cerebrais ou mesmo a morte.

Uma adolescente de 12 anos foi a mais recente vítima do jogo da asfixia que está a circular nas redes sociais em Espanha. É o segundo caso registado esta semana.

Segundo o jornal “El Mundo”, a jovem aceitou esta quinta-feira de livre vontade participar no jogo em plena via pública no município de Pinto, em Madrid. Passava pouco das 14h (13h em Lisboa). As amigas que a acompanhavam estrangularam e pressionaram o peito da jovem até lhe provocar falta de oxigénio. Resultado? A vítima caiu ao chão inconsciente, tendo sido levada de imediato para o hospital.

Neste momento, as autoridades locais informaram que a adolescente se encontra “bem”, fora de perigo, “embora assustada” e com um hematoma na cara. Entretanto, já foi solicitada uma investigação sobre o caso, que está a assustar os pais de adolescentes em Espanha.

Três dias antes foi registado um episódio semelhante em Granada que envolveu vários jovens neste jogo – que foi filmado e divulgado nas redes sociais. Um deles foi também transportado para o hospital. A polícia local já pediu aos pais no Twitter para estarem mais vigilantes face a estas situações, que já foram registadas noutros anos em países como Brasil, EUA, Reino Unido ou França.

Contactado pelo Expresso, o fundador do MiudosSegurosNa.Net, Tito de Morais, admite que os jovens portugueses possam também aderir a este desafio, que está conquistar também jovens no Brasil, aconselhando os encarregados de educação a estarem mais atentos aos passos dos filhos. “Não nos foram reportados quaisquer casos em Portugal, mas não quer dizer que não haja. Dado a enorme proliferação dos mesmos na Internet em geral e no Brasil em particular, e dado termos a língua em comum, não me admiraria que houvesse casos em Portugal”, afirma Tito de Morais.

De acordo com este especialista, um dos maiores problemas que se coloca à identificação de mortes resultantes deste tipo de jogos – que podem causar várias consequências como danos cerebrais – é que geralmente são classificados como suicídio e não como mortes acidentais. “Daí estarmos a alertar para a importância de incluirmos também pediatras nas ações de formação sobre o tema”, acrescenta.

Mais do que denúncias, sublinha Tito de Morais, estas situações chegam ao projeto MiudosSegurosNa.Net através dos media e de parceiros internacionais. No total, o fundador do projeto diz que foram identificadas 40 ações de instigação a comportamentos autolesivos a que geralmente chamam “jogos” ou “desafios”. “A maioria é composta por vídeos com conteúdos nocivos, prejudiciais ou danosos, que podem ser mortais ou, como alguns outros, meramente parvos”, acrescenta.

São vários os sinais de alerta relativos à prática da asfixia e de outros desafios perigosos, como o isolamento, a utilização de golas altas mesmo no verão, olhos vermelhos, desorientação, dor de cabeça frequente, conversas sobre estes jogos ou presença de objetos suspeitos no quarto como cordas ou trelas, refere o portal Projeto MiudosSegurosNa.Net e o Instituto Dimicuida.

Tito de Morais insiste que os pais e educadores têm um papel fundamental na prevenção deste tipo de casos, sendo por isso também vital o diálogo.

 

 

“O meu filho corta-se”

Junho 14, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Rute Agulhas publicado no Público de 29 de maio de 2019.

Muitos jovens têm comportamentos de auto-mutilação. Os pais questionam o que fazer, e eu acrescento o que não fazer.

Muitos jovens têm comportamentos de auto-mutilação. Com as unhas, o x-acto, o compasso, a tesoura ou a lâmina do afia-lápis, desenham cortes no seu corpo. Cortam-se nos pulsos e nos antebraços, nas virilhas e nos tornozelos, havendo mesmo quem se corte no corpo todo, de forma quase indiscriminada. Outros jovens não se limitam a cortar-se e, com agulha e linha, cosem a pele. Inspirados pelo célebre desafio “Tokyo Ghoul”, que começou na China em Setembro de 2011, imitam a personagem Juuzou Suzuya, que costura os lábios, o pescoço e os braços para modificar o corpo.
Os pais descobrem, habitualmente, de modo acidental, ou alertados por alguém. Muitas vezes, os professores são os primeiros a dar o alerta, ou não tivesse a escola um papel privilegiado na identificação de sinais de mau estar e sofrimento das crianças e jovens.

Mas porque o fazem? Pode parecer algo muito estranho e quase paradoxal, mas a verdade é que os cortes são sentidos como um alívio, quando comparados com uma dor emocional mil vezes maior. É isto que os jovens reportam. Uma tristeza, revolta, zanga e angústia tão poderosas e intensas que, quando confrontadas com uma dor física, parecem acalmar. “O meu peito está a arder e a sangrar por dentro, e quando sangro cá fora parece que o que se passa lá dentro fica menos mau… por momentos esqueço-me de todas as coisas más que não me saem da cabeça e sinto um alívio tão grande…”, diz Maria, com 14 anos de idade. Uma jovem deprimida, vítima de maus tratos diversos.

Este comportamento auto-lesivo surge frequentemente associado a um estado depressivo, que pode manifestar-se com sinais e sintomas diversos, desde físicos, afectivos, cognitivos ou comportamentais. Muitas vezes de mãos dadas com perturbações de ansiedade e ideação suicida. De uma forma geral, estes jovens apresentam uma visão profundamente negativa de si próprios, do mundo e do futuro.

Vêem-se a si mesmos como não tendo valor, como sendo inadequados, indesejáveis e incapazes, atribuindo as suas experiências negativas a defeitos psicológicos, morais ou físicos.

Vêem o mundo como insustentável, apresentando obstáculos insuperáveis e resultando continuamente em falha ou perda.

Vêem o futuro sem esperança, pois acreditam que os esforços que despendem serão sempre insuficientes para modificar o curso da sua vida, percepcionando-a como um prolongamento indefinido do seu sofrimento e frustração.

Porque é que isto acontece? Pois, não existe uma resposta simples. Sabemos que existem situações de maior risco, especialmente nos adolescentes, como sejam a baixa auto-estima, sentimentos de culpa, perdas precoces, dinâmica familiar disfuncional ou a exposição prolongada a situações de stress. Também as situações de maus tratos, físicos ou emocionais, a negligência e o abuso sexual são factores de risco acrescido.

Os pais questionam o que fazer, e eu acrescento o que não fazer.

Os pais devem estar atentos, pois outros sinais e sintomas, mais subtis e nem sempre valorizados, precedem a auto-mutilação. Seja a tristeza, a raiva ou a ansiedade, a maior irritabilidade, a apatia ou o isolamento. Ainda, as dificuldades de atenção e concentração (com impacto no rendimento escolar), o comportamento agressivo ou as alterações no sono ou alimentação. Sinais de alerta aos quais os pais (e outros adultos próximos) devem prestar especial atenção. Ao mesmo tempo, desconfiar quando o jovem usa roupas compridas e que tapam o corpo em dias quentes. Recusa vestir algo que mostra os braços ou as pernas? Usa casaco e capuz em dias de verão? Cobre os pulsos com numerosas pulseiras que nunca tira? Pode não ser nada. Ou pode ser.

O que não fazer? Gritar, ralhar, ameaçar, culpabilizar. Ao invés disso, escutar. Mostrar disponibilidade para ajudar e pedir ajuda especializada. Os comportamentos de auto-mutilação não são uma fase, uma mania ou uma mera tentativa de chamar a atenção. São um sinal de alerta vermelho.

 

Psicóloga especialista em Psicologia Clínica e da Saúde, Psicoterapia e Psicologia da Justiça; docente e investigadora no ISCTE-IUL

 

Eu parti o telemóvel

Maio 2, 2019 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Carmo machado  publicado na Visão de 15 de abril de 2019.

Muitos dos nossos alunos estão na escola porque é obrigatório. Não têm escapatória. Podem tirar-lhes tudo, dentro da escola, e eles não reagirão. Tentem tirar-lhes o telemóvel e virá a mãe e o pai e a tia a exigir a sua devolução imediata. Preparem-se até para ser agredidos, se necessário for. Por favor, mas não lhe tirem o telemóvel! Se têm dúvidas, tentem!

Nunca imaginei fazer esta afirmação. Hoje, porém, após muita reflexão e em plena interrupção letiva de Páscoa, assumo que sonho com uma escola sem internet e com alunos sem telemóveis. Pronto, já disse. Hesitei várias vezes antes de escrever isto mas, por vezes, as decisões são como os precipícios. A gente atira-se por ali a baixo e deixa de haver lugar para arrependimento…

Ando há vários meses a observar os alunos dentro e fora das aulas, sobretudo nos intervalos. Sofrem, quase todos, de nomofobia (fobia causada pelo desconforto ou angústia resultante da incapacidade de acesso à comunicação através de aparelhos celulares ou computadores). De facto, assim que dá o toque de saída, os alunos na sua maioria limitam-se a ligar o telemóvel e ali ficam, presos ao ecrã. Antes, saíam para os pátios, iam à sala de convívio, jogavam, cantavam, namoravam, sei lá… Agora, limitam-se simplesmente a olhar para o ecrã do telemóvel, que para eles parece ser tão importante como os seus próprios pulmões. Passei há dias por um corredor onde estavam, sem exagero absolutamente nenhum, mais de quinze alunos solitários – como se de ilhas se tratassem – agarrados ao ecrã. Falo de uma escola. De um espaço de socialização por excelência. De descoberta. De partilha. De confronto. Mas não! Aquilo que observo diariamente (e garanto-vos que estou atenta) é preocupante. Os alunos passeiam pela escola de telemóvel na mão e auscultadores nos ouvidos. Julgo mesmo que nada do que ali se passa lhes interessa. Muitos dos nossos alunos, especialmente nos cursos profissionais (experiência própria), estão na escola porque é obrigatório. Não têm escapatória. Podem tirar-lhes tudo, dentro da escola, e eles não reagirão. Tentem tirar-lhes o telemóvel e virá a mãe e o pai e a tia a exigir a sua devolução imediata. Preparem-se até para ser agredidos, se necessário for. Por favor, mas não lhe tirem o telemóvel! Se têm dúvidas, tentem!

A internet veio para ficar e eu própria, tanto na minha vida pessoal como profissional, já não saberia viver sem ela. Porém, analiso as horas que literalmente perco, agarrada aos motores de pesquisa, e tenho dias em que quase me esqueço de abrir um livro. Quando isto acontece, sinto-me culpada e prometo a mim própria controlar o tempo gasto com o uso da tecnologia. Chego a ter vontade de partir o telemóvel… Mas até que ponto isto acontece com as nossas crianças e os nossos jovens, que dele fazem uma utilização livre na maior parte das vezes, sem qualquer controlo parental?

Dentro da sala, utilizo cada vez menos a internet. Infelizmente, quando esta me é necessária, ou não está disponível ou os equipamentos (quase obsoletos) não funcionam. Já me preocupei mais, confesso! Quando isto acontece (quase sempre), a alternativa encontrada para colmatar a falta da ligação à rede acaba por revelar-se muito mais criativa e interativa. É nestas situações que a verdadeira comunicação acontece, a partilha de ideias ocorre e a aprendizagem se desenvolve. Talvez por isto tenha andado a pesquisar o fenómeno Waldorf.

O colégio Waldorf, localizado na Califórnia, foi criado em 1984 por pais e encarregados de educação preocupados com a necessidade de a escola ensinar numa perspetiva global, holística, ajudando os alunos no seu desenvolvimento como indivíduos totais, em termos cognitivos mas também emocionais e motivacionais. Aspeto importante: nesta escola não há computadores. E, interessante analisar porquê, é exatamente para esta escola privada que muitos cérebros de Silicon Valley (funcionários da Google, da Apple e de outras empresas de ponta) enviam os seus filhos. Esta nova tendência – a desconexão – pode ser o futuro do ensino. Voltar às raízes, à essência, à valorização dos sentidos, das emoções, dos espaços, dos afetos…

As escolas estão equipadas com computadores mas o uso que deles se faz nem sempre é produtivo. O computador é apenas uma ferramenta, como muitas outras. E, de facto, como afirma um pai de um aluno a frequentar Waldorf, aquele que só tem um martelo acha que todos os problemas são pregos. Por outro lado, o uso permanente do telemóvel com ligação à internet (entrando os alunos em absoluto estado de nervos quando não têm ligação à rede ou quando esgotam o seu pacote de dados) é a forma mais consistente de distração, de ocupação dos tempos livres e de socialização destas novas gerações.

Sonho com uma escola desconetada. Com alunos sem telemóvel. Com professores capazes de dar uma boa aula sem a bengala da tecnologia. Lembram-se? O luxo, numa escola de futuro, passará por cada aluno possuir uma árvore e estar desligado da internet.

 

“Um filho stressado é menos autónomo, independente e responsável” Mário Cordeiro

Maio 1, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista da Visão a Mário Cordeiro no dia 24 de março de 2019.

Clara Soares

No gabinete do pediatra Mário Cordeiro, os livros infantis partilham as estantes com os peluches familiares. Nas paredes, há pinturas abstratas feitas pelo médico que presidiu à Associação para a Promoção da Segurança Infantil, publicou dezenas de livros e manuais sobre bebés, crianças e adolescentes, e tem uma cadela adotada, estando também ligado à Provedoria dos Animais de Lisboa. Aos 63 anos, o mais novo de oito irmãos e pai de cinco filhos optou por reformar-se da Função Pública e dedicar-se apenas à clínica privada. O ponto central da conversa não foi o romance ou a poesia, paixões que lhe dão atualmente muito gozo, mas antes o seu novo livro, que pretende desafiar-nos, a todos. Pais Apressados Filhos Stressados é sobre o tempo que não temos mas podemos ter, se conseguirmos fazer escolhas conscientes e desfrutar da vida, enquanto dura, com quem amamos – sem despachar tudo e todos nem andar a reboque, lamentando: “Prefiro a adrenalina dos dias de semana ao stresse dos fins de semana.”

Comecemos pelo fim: a família vista pelos olhos do cão…
Quis mostrar um casal e três filhos, numa sexta-feira à noite, exaustos, cada um com o seu programa a colidir com o dos outros e a discutir quem tem razão. O cão observava, sem ter a noção do tempo dos humanos. Tem aquilo que advogo no livro: ouvir, parar, pensar e refletir antes de fazer e de ser dono do tempo.

O mal-estar infantil e juvenil, aliviado com fármacos, por vezes em excesso, pode ser evitado?
As chamadas drogas sempre existiram. Podemos drogar-nos até com trabalho e desporto. Fugimos à realidade quando ela se torna pouco suportável. Temos de aceitar que somos finitos e que o tempo é escasso. As fugas para a frente criam a disrupção dos ritmos biológicos do animal que somos. Mudar o quotidiano implica parar e pensar.

O que pensarão as mulheres portuguesas que, à luz de um estudo, só têm 54 minutos do dia para elas?
Embora aquém da igualdade de direitos de género, estamos melhor do que há 40 anos. Se nós e as instituições políticas e laborais assumirmos isso, chegaremos à meta em menos de cinco gerações.

Como arranja tempo para fazer tudo o que gosta?
Faço o que me dá prazer. Tenho este grau de liberdade, porque lutei por isso. Quando os meus filhos eram pequenos, não havia sábado sem festa de aniversário. Se era possível iam; quando não era, não iam. Eu sempre lhes disse: não são menos pessoas por não irem a todas. Ir a todas e correr à procura nem se sabe do quê cria um stresse enorme e impede o desfrutar das coisas. Ser humano não é ser perfeito; é aperfeiçoar-se e ter gozo nisso.

Ter sofrido um enfarte contribuiu para ter uma vida mais tranquila?
Acho que não. Penso neste tema há algum tempo e tenho um estilo de vida tranquilo. O problema de saúde teve que ver com uma herança genética.

No livro, retrata os adultos como seres que vivem uma angústia existencial e que a transferem para a prole. O que se passa?
Fui buscar o livro O Macaco Nu (Desmond Morris, 1967) para ilustrar isso mesmo. Construímos sociedades bem diferentes das dos nossos antepassados, mas continuamos a ser mamíferos com crias dependentes, incapazes de fazer escolhas.

Refere-se ao paradigma do sucesso de que tanto se fala?
O ter e o fazer estão a dominar a sociedade. O desejável é que pais e filhos cheguem a casa e que desliguem durante um bocado, envolvendo-se em atividades calmas. É preciso perceber o que queremos da vida e deixar as comparações. “Quero um carro igual ao do vizinho.” Costumo usar o nonsense. “Sabe uma coisa? Vou arranjar uma betoneira”, disse uma vez a uns pais. Eles ficaram a olhar para mim, perplexos. “O meu vizinho também tem uma.” A frugalidade é preferível à ganância do ter por ter: quando se tem algo, isso perde o interesse.

Há quem diga que as obras sobre a parentalidade geram sentimentos de culpa e de inadequação nos pais. Confirma?
Nos meus livros, procuro tranquilizá-los, mas uma pessoa que leu este título disse-me que ficou inquieta. A ideia é mesmo essa: dar mais poder aos pais, sem que eles tenham receio de reconhecer os seus erros. Quando se queixam do comportamento dos filhos, sugiro que pensem como uma empresa, que reúnam o conselho de administração num sítio agradável e conversem, usando até o método de análise SWOT (Forças, Fraquezas, Oportunidades, Ameaças), e que descubram, por exemplo, “uma maneira de fazer com que o Zé se torne mais persistente sem ser casmurro”.

Sobre a hiperatividade: doença, sintoma de mal-estar ou, como se queixam alguns adultos, falta de educação?
De facto, há uma ideia de que tudo o que se mexe é hiperativo e de que todos os que sonham têm défice de atenção. Retirando os casos de dispersão e a falta de concentração, com hiperatividade sem aspas, posso dizer que as crianças vivem numa contenção enorme e com excesso de vigilância. Em vez de apanharem ar puro e de brincarem na rua, passam o tempo em espaços fechados, e até os prisioneiros têm mais liberdade do que elas, como se disse num estudo recente.

Pertence a uma família numerosa e foi por várias vezes pai. Como lidava com as birras e com os maus comportamentos?
Tentamos sempre definir regras e explicar por que razão elas existem. Dizer só “Manel, não faças isso” resulta em ameaças e em castigos – “ficas sem ver televisão durante uma semana” – que não se cumprem. Mesmo que a criança obedeça, fica à espera de que o regime caia para fazer o que quer. Freud explicava isto bem. No território da fantasia, há total liberdade, posso pensar que sou serial killer, mas o polícia interno refreia-nos e permite desenvolver a empatia: “Extirpar pessoas não é bom. E mesmo que o seja, já pensaste no que a pessoa sentirá?” O bom polícia vem dos pais. A atitude deles permite que a criança ultrapasse a fase narcisista e interiorize que há coisas que não pode fazer.

O que os pais precisam de saber para estar de bem com a vida e facilitarem a dos filhos?
Parar para pensar, sem medo. Ser frugal e pôr fim à ânsia, quase ganância, do ter. Contemplar, deleitar-se, descobrir a vida. Nas relações com o próximo, não criar um colete de forças sentimental à volta dos outros por terem opiniões divergentes. Apreciar as microexpressões, o silêncio, as pausas, como numa composição musical que não é possível sem elas.

Qual a fatura de crescer a despachar, em modo acelerado?
Um filho stressado é menos autónomo, independente e responsável. Não somos donos deles nem eles são réplicas nossas, mas podemos influenciá-los através de valores que lhes damos. Se inventámos as máquinas foi para nos permitirem dedicar-nos à criatividade, à fantasia e à arte. A ligação do corpo com a Natureza, por exemplo, está completamente esquecida na escola. É quase um crime.

É também um alerta que faz aos professores.
Durante quase 40 anos fui professor, sei que eles nem sempre são bem tratados face à importância que têm. Porém, ao entrarem numa aula, desliguem dos problemas e descubram coisas novas com os alunos. Lembro Agostinho da Silva, a quem perguntaram sobre o que iria falar numa apresentação, que respondeu: “O que quereis saber?”

 

 

Estudo revela que mais de um terço dos jovens não usou preservativo na última relação sexual

Abril 22, 2019 às 12:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Mais de um terço dos jovens inquiridos num estudo nacional relatou não ter usado preservativo na última relação sexual e 14,5% disse ter tido relações sexuais associadas ao consumo de álcool ou drogas.

“Uma minoria significativa” reportou não ter usado preservativo na última relação sexual (34,1%), sublinha o estudo “Comportamentos sexuais de risco nos adolescentes”, divulgado a propósito do 10.º Congresso Internacional de Psicologia da Criança e do Adolescente, que vai decorrer na quarta e na quinta-feira em Lisboa.

A investigação, a que a agência Lusa teve acesso, concluiu que são os rapazes que mais frequentemente usam preservativo, que têm relações sexuais associadas ao consumo de álcool ou drogas e que não têm a vacina contra o vírus do papiloma humano (HPV).

O estudo realizado em Portugal faz parte do Health Behaviour in School Aged Children (HBSC) 2018, um inquérito realizado de quatro em quatro anos em 48 países, em colaboração com a Organização Mundial de Saúde, que pretende estudar os comportamentos dos adolescentes nos seus contextos de vida e a sua influência na sua saúde/bem-estar.

Segundo os dados recolhidos em Portugal, os jovens mais novos, do 8º ano, são os que mais frequentemente têm relações sexuais associadas ao consumo de álcool ou drogas, realça o estudo, advertindo que estes resultados “podem ter implicações significativas na alteração das políticas de educação e de saúde, direcionando-as para o desenvolvimento de competências pessoais e sociais nas várias estruturas que servem de apoio aos adolescentes portugueses”.

Os autores do estudo apontam como justificações possíveis para estes resultados “o desinvestimento na educação sexual”, a redução do número de campanhas de prevenção e o facto de a infeção se ter passado a considerar uma doença crónica e não uma “sentença de morte”, o que “poderá estar a desvalorizar a importância da proteção.

O estudo “Comportamentos sexuais de risco nos adolescentes” abrangeu 5.695 adolescentes, 53,9% dos quais raparigas, com uma média de idades de 15,46 anos, a frequentarem o 8º ano, o 10º ano ou o 12º ano.

A maioria dos adolescentes inquiridos mencionou já ter tido um relacionamento amoroso, apesar de não ter no momento (48,4%), sobretudo os rapazes (51,8%) e os adolescentes do 8.º ano (50,9%).

Segundo o estudo, a maior parte disse não ter tido relações sexuais (77%). Dos que referiram já ter tido, contaram que a primeira relação sexual foi aos 15 anos.

Os dados indicam também que 85,6% dos inquiridos não realizaram o teste de VIH e 84,7% não têm a vacina contra o HPV.

Segundo os últimos dados estatísticos da UNICEF, cerca de 30 jovens entre os 15 e os 19 anos foram infetados com o VIH/sida, por hora no mundo em 2017, números “particularmente alarmantes se se considerar que nos restantes grupos etários a epidemia estará a diminuir”.

Em Portugal, a situação é também preocupante pois cerca de um terço dos infetados com o VIH/sida tem menos de 30 anos e cerca de 16% tem entre 15 e 24 anos.

O estudo lembra que o melhor meio de evitar a infeção VIH/sida e outras infeções sexualmente transmissíveis continua a ser o preservativo.

HN // JMR

Lusa/fim

 

Do jogo ao desporto – Carlos Neto

Abril 16, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Photo by Virgil Cayasa on Unsplash

Artigo de Carlos Neto publicado no site Fronteiras XXI

Em Portugal 70% das crianças brincam menos de uma hora por dia. As crianças têm hoje menos tempo para brincar do que os prisioneiros nas prisões. A inversão desta tendência pode ser alcançada através de políticas públicas que promovam mais atividade física regular, uma educação física consistente no contexto escolar, atividades desportivas adequadas em diferentes idades e cidades que permitam a criação de estilos de vida saudável para todos os cidadãos.

Vivemos num tempo de grande inatividade física e as crianças e jovens sofrem por isso. É um tempo de analfabetismo motor, porque elas não têm de facto uma literacia física e motora adequada, porque o tempo de brincar na rua desapareceu e está em vias de extinção (Neto, 2001). As crianças hoje não têm tempo para brincar, explorar com os amigos a rua de forma livre e espontânea.

É preciso dizer que há um declínio enorme do jogo livre nas últimas décadas do ponto de vista de tempo e espaço para brincar. Por outro lado, aumentou de forma dramática as desordens mentais: ansiedade, depressão, hiperatividade/deficit de atenção e taxa de suicídio na adolescência.

Esta mudança nas últimas quatro décadas, poderá dever-se a uma transição epidemiológica (excesso de peso e obesidade, diabetes, doenças cardíacas e respiratórias, etc.), transição demográfica (densidade populacional e espacial), transição nutricional e digital (alteração de hábitos alimentares e aumento da utilização quotidiana de dispositivos digitais) e diminuição significativa de tempo e espaço de jogo de atividade física.

Para ter uma ideia, 70% das crianças em Portugal brincam menos de uma hora por dia. As crianças têm hoje menos tempo para brincar do que os prisioneiros nas prisões, que têm mais tempo de ócio fora das celas. O tempo na infância, passou a ser vivido de forma muito organizada, estruturada e limitada. Temos currículos escolares muito extensos e intensos, e as crianças passam muito tempo sem mexer o corpo estando sentadas e quietas. Os relatórios da Organização Mundial de Saúde (OMS), têm vindo a alertar para um aumento exponencial de sedentarismo em todas as idades, géneros, raças, continentes e culturas, com consequências nocivas a curto, médio e longo prazo para a saúde física e mental da população mundial.

A inversão desta tendência pode ser alcançada através de políticas públicas que promovam mais atividade física regular, uma educação física consistente no contexto escolar, atividades desportivas adequadas em diferentes idades e cidades mais saudáveis que permitam oportunidades de criação de estilos de vida saudável para todos os cidadãos. Uma relação mais próxima com a natureza, colocar o corpo em situações de maior nível de risco e desenvolver atividades lúdicas e desportivas em grupo é um grande desafio para a saúde pública dos cidadãos do século XXI.

Na infância e juventude é urgente encontrar estratégias de ação para melhorar o seu reportório motor, lúdico e desportivo. A formação desportiva mobiliza milhares de crianças e jovens, mas interessa elaborar uma reflexão séria como esse processo deve ser caraterizado e implementado na escola e no clube desportivo.

A nossa opção quanto à filosofia de ação na formação desportiva, inicia-se através de duas dinâmicas complementares: oportunidades de brincar (jogo exploratório) e jogar (atividade motora com regras) em situações informais (em casa, na rua, recreio escolar, espaços ao ar livre) e no plano escolar (educação física e desporto escolar) através de atividades físicas e motoras de forma intencional, sistemática e periódica. Deste modo, será necessário:

1-Criar condições propícias para a formação de uma cultura motora básica (saber fundamental), através de formas de trabalho diversificado e capazes de desenvolver e manter durante qualquer idade, uma plasticidade motora, capaz de permitir a adaptação a novas situações de maior complexidade ou culturalmente institucionalizadas;

2-Permitir o acesso a tarefas motoras mais ou menos definidas, a fim de permitir uma estruturação percetiva consistente (consciência da sua mobilidade corporal e perceção de dados exteriores). Desenvolver igualmente aspetos relacionados com aquisições motoras centradas sobre conceitos de direção, lateralidade, ajustamento postural, coordenação motora global e segmentar, perceção temporal e espacial e imagem do corpo, nas relações estabelecidas na utilização do próprio corpo, dos objetos e com os companheiros, como elementos decisivos para um aperfeiçoamento desejável no desenvolvimento motor infantil.

A designação de cultura motora fundamental que propomos não significa cultura de movimentos. Pretende somente traduzir a capacidade de domínio do corpo a partir da vivência de múltiplas situações de movimento. De outra forma, poderemos designar a qualidade de desempenho motor adquirido como uma capacidade facilitadora de novas aprendizagens em situações mais estruturadas ou inabituais.

Por outro lado, a mobilidade das crianças em contexto pedagógico significa que as ações motoras apresentam um processo dinâmico com um fim definido, sem muitas vezes se perceber de forma bem clara a intencionalidade dos seus comportamentos (fantasia, simbolismo e afeto). Trata-se de formas de movimento com um nível próprio de organização e que permitam graus de complexidade progressiva das estruturas motoras.

Passar do jogo ao desporto, implica perceber o desenvolvimento lúdico, motor, percetivo, cognitivo, emocional e social da criança ao longo do tempo (life spain). A formação desportiva deverá seguir uma orientação desenvolvimentista (respeito pelo crescimento e evolução motora infantil) e não por uma orientação desportivista (imposição de modelos adultos no trabalho desportivo com crianças e jovens).

A motricidade, o movimento, a atividade física e o jogo, são formas de ação fundamentais nas primeiras idades, porque é aí que tudo começa, isto é, a formação desportiva começa mais cedo do que as pessoas julgam. Não se fazem campeões a partir dos 12, 13, 14 anos. Começa antes, mas é preciso perceber qual é a conceção pedagógica, técnica e científica que se deve trabalhar na formação desportiva nas primeiras idades.

 

 

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