Eu parti o telemóvel

Maio 2, 2019 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Carmo machado  publicado na Visão de 15 de abril de 2019.

Muitos dos nossos alunos estão na escola porque é obrigatório. Não têm escapatória. Podem tirar-lhes tudo, dentro da escola, e eles não reagirão. Tentem tirar-lhes o telemóvel e virá a mãe e o pai e a tia a exigir a sua devolução imediata. Preparem-se até para ser agredidos, se necessário for. Por favor, mas não lhe tirem o telemóvel! Se têm dúvidas, tentem!

Nunca imaginei fazer esta afirmação. Hoje, porém, após muita reflexão e em plena interrupção letiva de Páscoa, assumo que sonho com uma escola sem internet e com alunos sem telemóveis. Pronto, já disse. Hesitei várias vezes antes de escrever isto mas, por vezes, as decisões são como os precipícios. A gente atira-se por ali a baixo e deixa de haver lugar para arrependimento…

Ando há vários meses a observar os alunos dentro e fora das aulas, sobretudo nos intervalos. Sofrem, quase todos, de nomofobia (fobia causada pelo desconforto ou angústia resultante da incapacidade de acesso à comunicação através de aparelhos celulares ou computadores). De facto, assim que dá o toque de saída, os alunos na sua maioria limitam-se a ligar o telemóvel e ali ficam, presos ao ecrã. Antes, saíam para os pátios, iam à sala de convívio, jogavam, cantavam, namoravam, sei lá… Agora, limitam-se simplesmente a olhar para o ecrã do telemóvel, que para eles parece ser tão importante como os seus próprios pulmões. Passei há dias por um corredor onde estavam, sem exagero absolutamente nenhum, mais de quinze alunos solitários – como se de ilhas se tratassem – agarrados ao ecrã. Falo de uma escola. De um espaço de socialização por excelência. De descoberta. De partilha. De confronto. Mas não! Aquilo que observo diariamente (e garanto-vos que estou atenta) é preocupante. Os alunos passeiam pela escola de telemóvel na mão e auscultadores nos ouvidos. Julgo mesmo que nada do que ali se passa lhes interessa. Muitos dos nossos alunos, especialmente nos cursos profissionais (experiência própria), estão na escola porque é obrigatório. Não têm escapatória. Podem tirar-lhes tudo, dentro da escola, e eles não reagirão. Tentem tirar-lhes o telemóvel e virá a mãe e o pai e a tia a exigir a sua devolução imediata. Preparem-se até para ser agredidos, se necessário for. Por favor, mas não lhe tirem o telemóvel! Se têm dúvidas, tentem!

A internet veio para ficar e eu própria, tanto na minha vida pessoal como profissional, já não saberia viver sem ela. Porém, analiso as horas que literalmente perco, agarrada aos motores de pesquisa, e tenho dias em que quase me esqueço de abrir um livro. Quando isto acontece, sinto-me culpada e prometo a mim própria controlar o tempo gasto com o uso da tecnologia. Chego a ter vontade de partir o telemóvel… Mas até que ponto isto acontece com as nossas crianças e os nossos jovens, que dele fazem uma utilização livre na maior parte das vezes, sem qualquer controlo parental?

Dentro da sala, utilizo cada vez menos a internet. Infelizmente, quando esta me é necessária, ou não está disponível ou os equipamentos (quase obsoletos) não funcionam. Já me preocupei mais, confesso! Quando isto acontece (quase sempre), a alternativa encontrada para colmatar a falta da ligação à rede acaba por revelar-se muito mais criativa e interativa. É nestas situações que a verdadeira comunicação acontece, a partilha de ideias ocorre e a aprendizagem se desenvolve. Talvez por isto tenha andado a pesquisar o fenómeno Waldorf.

O colégio Waldorf, localizado na Califórnia, foi criado em 1984 por pais e encarregados de educação preocupados com a necessidade de a escola ensinar numa perspetiva global, holística, ajudando os alunos no seu desenvolvimento como indivíduos totais, em termos cognitivos mas também emocionais e motivacionais. Aspeto importante: nesta escola não há computadores. E, interessante analisar porquê, é exatamente para esta escola privada que muitos cérebros de Silicon Valley (funcionários da Google, da Apple e de outras empresas de ponta) enviam os seus filhos. Esta nova tendência – a desconexão – pode ser o futuro do ensino. Voltar às raízes, à essência, à valorização dos sentidos, das emoções, dos espaços, dos afetos…

As escolas estão equipadas com computadores mas o uso que deles se faz nem sempre é produtivo. O computador é apenas uma ferramenta, como muitas outras. E, de facto, como afirma um pai de um aluno a frequentar Waldorf, aquele que só tem um martelo acha que todos os problemas são pregos. Por outro lado, o uso permanente do telemóvel com ligação à internet (entrando os alunos em absoluto estado de nervos quando não têm ligação à rede ou quando esgotam o seu pacote de dados) é a forma mais consistente de distração, de ocupação dos tempos livres e de socialização destas novas gerações.

Sonho com uma escola desconetada. Com alunos sem telemóvel. Com professores capazes de dar uma boa aula sem a bengala da tecnologia. Lembram-se? O luxo, numa escola de futuro, passará por cada aluno possuir uma árvore e estar desligado da internet.

 

Como educar uma geração digital com tanta dificuldade para se concentrar?

Abril 20, 2019 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia da G1globo de 3 de abril de 2019.

Se os celulares e novas mídias estão prejudicando a capacidade dos estudantes de prestar atenção, como os professores podem mudar seus métodos de ensino para ensinar as habilidades de que eles precisam?

Os estudantes de hoje têm de lidar com um problema – e ele não está escrito no quadro negro. Eles estão tão acostumados a constantes estímulos de aplicativos de smartphone e plataformas de streaming que não conseguem se concentrar na aula.

As gerações Z (idades entre 10 e 24 anos) e alpha (até 9 anos de idade) nasceram em um mundo onde os algoritmos os mantêm clicando e navegando em um ritmo frenético.

Agora, os professores também têm um problema. Como você adapta o currículo escolar para estudantes criados em meio à tecnologia? E isso pode comprometer a educação tradicional?

O desenvolvimento inicial do cérebro é um assunto complexo, mas, nos últimos anos, pesquisadores em todo o mundo manifestaram preocupações sobre o impacto que smartphones e o hábito de consumir diferentes mídias simultaneamente podem ter sobre a capacidade de concentração.

Os professores também já notaram isso. “É um problema. Para começar, o adolescente médio só consegue prestar atenção por cerca de 28 segundos”, diz Laura Schad, que dá aulas para alunos de 12 a 14 anos na Filadélfia, nos Estados Unidos.

Ela diz que, embora os smartphones tenham afetado claramente os cérebros em pleno desenvolvimento de seus alunos, falta treinamento para lidar com a questão: como a educação deve evoluir para atender alunos que são nativos digitais não foi algo tratado em sua formação profissional, por exemplo.

Os efeitos da tecnologia ficam mais claros em uma das atividades escolares mais tradicionais, a leitura, especialmente quando as crianças migram das mídias digitais baseadas em texto para aplicativos repletos de imagens como Instagram e Snapchat.

“Hoje, os alunos parecem achar especialmente exaustivo ler textos complexos ou longos sem fazer pausas constantes. No passado, os alunos pareciam estar acostumados a se dedicar a um texto por um longo período de tempo”, diz Erica Swift, professora do 6º ano de uma escola de Sacramento, nos Estados Unidos. “Você percebe a falta de resistência deles, ao pedir intervalos de descanso ou ao conversar com os colegas em vez de estudar. Alguns até mesmo desistem por completo de leituras mais longas.”

Simplesmente transferir o texto para um aparelho eletrônico não ajuda, o que indica que o problema é mais complexo do que uma simples preferência pelas telas em detrimento de algo impresso em papel.

Taylor explica que o ato de prestar atenção não só tem um valor inerente, mas funciona como porta de entrada para formas mais profundas de aprendizado – especialmente em termos de memória.

A sala de aula do futuro

Se os alunos não parecem prestar atenção por longos períodos, muitos professores simplesmente dividem as lições em partes menores. Gail Desler, especialista em integração tecnológica do distrito escolar de Elk Grove, onde fica a escola de Swift, diz: “Uma ideia comum entre os professores é que algo mais curto é melhor”.

Desler também dá como exemplo professores que iniciam as aulas com exercícios de atenção plena ou de meditação quando os alunos precisam se concentrar.

Uma professora do ensino médio em Salinas, nos Estados Unidos, usa o aplicativo Calm para ajudar os alunos a meditar, mas um estudo de 2013 indicou que qualquer tipo de “intervalo de descanso da tecnologia” pode combater a ansiedade por realizar múltiplas coisas ao mesmo tempo.

Alguns professores também escolhem “ir ao encontro dos alunos” em plataformas como o YouTube e o Instagram. Asha Choksi, vice-presidente de pesquisa global da editora educacional Pearson, dá o exemplo de um professor que filma a si mesmo realizando um experimento científico, publica no YouTube e usa o vídeo na aula para ilustrar o material no livro didático, que pode ser visto como algo chato para os alunos.

Da mesma forma, Schad busca manter os alunos dedicados às tarefas por meio de lembretes no Instagram sobre o dever de casa e as próximas atividades.

Estes recursos podem manter os alunos atentos quando refletem seus interesses. Desler elogia professores que fazem coisas como relacionar a história da propaganda nazista ao cyberbullying.

“Trata-se de introduzir informações relevantes em um currículo obrigatório, de maneira que os alunos se vejam refletidos no que é ensinado”, diz ela. “Ao fazer conexões com coisas que estão acontecendo aqui e agora, você entra no mundo deles e os envolve.”

Adaptação à nova realidade

Enquanto isso, plataformas especializadas de aprendizado como o Flipgrid, que permite aos alunos compartilhar vídeos de si mesmos fazendo apresentações, ajudam os professores a envolver os alunos usando as mídias que eles estão acostumados a usar.

Um estudo de 2018 da Pearson descobriu que os alunos da geração Z evitam livros e apontam vídeos como sua fonte preferida de informações, atrás apenas dos próprios professores. Ao se inserir nos meios dos quais as crianças já participam e com os quais criam, os professores podem captar melhor sua atenção.

Alguns distritos escolares já migraram digitalmente para plataformas como o Google Classroom, que permite que alunos e pais monitorem notas e tarefas futuras e acompanhem o desempenho dos estudantes para entender melhor no que eles estão deixando a desejar.

A tecnologia pode até mesmo ajudar a reparar danos causados ​​à habilidade de leitura. Schad diz que, em sua escola na Filadélfia, os professores usam computadores lidar com as dificuldades apresentadas pelos estudantes. A plataforma de leitura da escola, a Lexia, adota elementos de videogames para estimular a participação.

O programa também separa automaticamente os alunos com base no seu desempenho, oferecendo aos alunos mais bem sucedidos tarefas mais avançadas no mundo real e exercícios digitais extras para aqueles com mais dificuldades, até que aprendam totalmente a lição. Essa abordagem personalizada ajuda a lidar com as diferentes formas como estudantes são afetados pela tecnologia.

Os Estados Unidos são líderes globais em tecnologia educacional, com empresas de tecnologia de ponta recebendo US$ 1,45 bilhão (R$ 5,7 bilhões) em investimentos em 2018.

Mas empresas como a Flipgrid e a Lexia terão cada vez mais concorrência vinda do exterior. A indústria de tecnologias para educação no leste da Ásia está crescendo, conforme plataformas americanas como a Knewton se expandem internacionalmente e geram um crescente interesse global em adaptar as salas de aula para estudantes que são nativos digitais.

Uma forma de ‘aprendizado misto’

Ainda assim, enquanto alguns educadores estão adotando a tecnologia em sala de aula, vários estudos mostraram que salas de aula tradicionais podem ter mais sucesso.

Um estudo de 2015 da London School of Economics mostrou que os resultados do teste GCSE, que avalia estudantes do ensino médio no Reino Unido, melhoraram quando escolas de Birmingham, Londres, Leicester e Manchester proibiram os celulares em sala de aula.

O professor de neurociência William Klemm, autor de The Learning Skills Cycle (O Ciclo de Habilidades de Aprendizado, em tradução livre), destaca um estudo de 2014 que apontou que anotações à mão ajudam alunos a reter mais informações em comparação com o uso de um computador.

Klemm também aponta que dividir lições em partes menores pode ser prejudicial, porque isso pode impedir que os alunos tenham uma compreensão mais ampla do que é ensinado. Ele diz que os estudantes precisam de tempo para se envolver com um tema.

Até mesmo educadores que veem com bons olhos o uso da tecnologia acreditam que os métodos tradicionais têm seu valor e sugerem uma abordagem de “aprendizagem mista”.

“Tenho visto muita discussão entre acadêmicos nos últimos anos sobre se o formato de palestra é algo do passado e que deve ser extinto”, diz Katie Davis, professora da Escola de Informação da Universidade de Washington, nos Estados Unidos.

“Acho que isso se resume a se você acredita que existem habilidades valiosas envolvidas no processo de acompanhar um argumento complexo que é apresentado linearmente em tempo real.”

Enquanto Davis admite que as novas mídias poderiam ajudar a desenvolver habilidades importantes, ela ainda acredita que as palestras têm o seu valor.

Educadores com diferentes opiniões sobre o uso da tecnologia concordam que a autoridade do professor continua sendo de máxima importância.

Elizabeth Hoover, diretora de tecnologia para escolas públicas de Alexandria City, nos Estados Unidos, busca melhorar a educação em seu distrito por meio da tecnologia, mas diz que isso nunca substituirá o aprendizado diretamente com um professor.

“A interação pessoal ainda é o componente mais importante em uma sala de aula”, diz ela, para quem a tecnologia deve ser empregada apenas quando aprimora uma lição de maneiras que seriam impossíveis de outra forma.

Schad também diz que muitos professores confiam na tecnologia apenas porque não têm recursos analógicos suficientes. Programas como o Lexia não seriam necessários se as escolas fornecessem mais recursos para contratar mais profissionais que auxiliem no aprendizado, o que permitiria liberar professores para se concentrarem nos alunos que enfrentam dificuldades.

A professora Sophia Date, que ensina Ciências Sociais para o 12º ano de uma escola da Filadélfia, também questiona o investimento em tecnologia em detrimento de investimentos em mais professores.

“Há um enorme vontade de levar a tecnologia para a sala de aula, mas, às vezes, isso é feito no lugar de mudanças maiores e mais necessárias. As organizações que doam fundos para educação têm prazer em dar dinheiro para comprar tablets e computadores, mas não estão dispostas a custear um salário de um professor por um ano”, diz ela.

Date defende que ampliar o acesso à tecnologia continua a ser algo crucial para ajudar a diminuir a diferença entre as condições oferecidas a estudantes de baixa e alta renda, mas diz que isso não pode substituir mudanças no sistema educacional.

Aprendendo a raciocinar

Embora a tecnologia mine alguns aspectos da educação, também capacita estudantes de formas inesperadas.

“Existe essa visão de que os jovens ficam um pouco apáticos, preguiçosos, distraídos com a tecnologia”, diz Choksi, da Pearson. “Realmente, subestimamos o papel que a tecnologia está desempenhando na educação das crianças e o poder que isso dá a elas em seu aprendizado.”

Por exemplo, alunos que não tem paciência para esperar que os educadores respondam a suas perguntas estão cada vez mais dispostos a buscar as respostas por si mesmos. “Eles podem estar estudando álgebra e ir ao YouTube para descobrir como resolver um problema antes de consultar um professor ou um livro didático”, diz Choksi.

Swift diz que isso deve ser estimulado nos alunos. “Você quer que eles façam novas perguntas e busquem novas respostas.”

Taylor aponta que, conforme a informação se torna onipresente, o sucesso não se resume a saber mais, mas na capacidade de pensar de forma crítica e criativa, que são, ironicamente, as habilidades que a mídia digital prejudica ao reduzir a capacidade de prestar atenção dos estudantes.

“Se você pensar em Mark Zuckerberg, Bill Gates e em todas estas pessoas que obtiveram sucesso no mundo da tecnologia, elas não chegaram até aí porque sabiam programar, mas porque são capazes de raciocinar”, diz ele.

Os nativos digitais continuarão a adotar vorazmente as novas mídias. Os professores não têm escolha a não ser evoluir, não apenas para garantir que alunos possam acessar e tirar proveito das tecnologias, mas para fazer com que os alunos tenham sucesso em um mundo que está constantemente tentando distraí-los.

 

 

 

Proibidos de usar telemóveis na escola, alunos “reinventaram a forma de estarem juntos”

Fevereiro 22, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia e imagem da Rádio Renascença de 16 de janeiro de 2019.

Primeiro estranhou-se, depois entranhou-se. Há dois anos que os intervalos na escola básica António Alves Amorim, em Santa Maria da Feira, decorrem sem selfies nem “escapadinhas” à internet. Todos estão satisfeitos: direção, pais e até alunos.

Até há dois anos, os problemas disciplinares estiveram a acumular-se. Os alunos filmavam aulas e até se filmavam em contextos de balneário, vídeos que depois publicavam nas redes sociais. A situação chegou a um tal ponto que a diretora da EB 2/3 António Alves Amorim, sede do agrupamento com o mesmo nome em Santa Maria da Feira, teve de agir.

Mónica Almeida decidiu levar ao Conselho Pedagógico a ideia de proibir o uso de telemóveis dentro da escola. “No Conselho Pedagógico, [a ideia] foi aceite de forma unânime, se bem que todos nós estávamos um pouco céticos quanto ao sucesso no futuro”, conta à Renascença. Todos foram ouvidos: professores, encarregados de educação, junta de freguesia e câmara municipal de Santa Maria da Feira. Todos concordaram. E em Setembro de 2017, o projeto arrancou.

Nascidos em 2003, foram os alunos do 9.º ano os que, há dois anos, mais estranharam a medida. “Eles andavam com o telemóvel em qualquer lado, mesmo na sala de aula”, conta a diretora da escola. E tinham sempre justificações (ou desculpas). “Ou era para ver as horas ou uma mensagem que chegou… Eles tinham” – “tiveram”, corrige Mónica Almeida – “essa liberdade desde o 5.º ano”. Sem que nada o fizesse prever, acabaram por ser “os primeiros a admitir que esta medida foi uma mais-valia”.

Nem tudo foi pacífico. Para avançar com a proibição, foi elaborado um novo código de conduta que previa penalizações a quem não respeitasse a proibição. O castigo previsto foi discutido e determinado com os pais: se os alunos fossem apanhados a usar o telemóvel, teriam três dias de suspensão.

“Isso aconteceu logo no primeiro ano da implementação, mas depressa as coisas ganharam o seu rumo”, garante Mónica Almeida. Até que hoje, dois anos volvidos, “os alunos sabem que têm de cumprir e aceitam perfeitamente”.

Quando chegam à escola, os cerca de 600 alunos desta escola de Santa Maria da Feira têm de colocar os telemóveis dentro de caixas, que ficam guardadas todo o dia num armário. Quando as aulas terminam, recuperam os dispositivos.

Mónica conta que muitos alunos não tinham uma conversa propriamente dita com os colegas antes disto, limitavam-se a ir falando durante o dia. Esta despersonalização e digitalização da comunicação chocavam a diretora e alimentaram esta ideia. O resultado? Os alunos “passaram a ter de comunicar verbalmente” o que, “para eles, foi uma vantagem”.

O feedback dos alunos é positivo. Nas reuniões que a direção tem periodicamente com os delegados de turma, “uma das situações que eles apontam como favorável é mesmo esta: o retirar dos telemóveis”. Um facto curioso: “Começou pelos mais velhos”, conta a diretora.

“E no nosso tempo como é que era?”

À pergunta “Então como é que os alunos vão comunicar com os pais?”, imediatamente Mónica Almeida, de 46 anos, responde com uma pergunta retórica: “Como é que era no nosso tempo?”

A solução, em jeito de resposta, foi rápida de encontrar – já existia desde esses tempos: os pais podem telefonar para a escola para dar algum recado aos filhos e estes podem, sem custos, telefonar aos pais.

“Entranhou-se de tal forma que os pais, hoje em dia, até nos agradecem esta medida.”

Mónica relata casos de alunos que já nem sequer levam o telemóvel para a escola. Filhos da tecnologia e nascidos com a internet, são já vários os alunos do 5.º ano, nascidos em 2008, que deixam os aparelhos em casa.

“Tratamos as novas tecnologias por tu”

A diretora do agrupamento faz questão de sublinhar que está à frente de uma escola “muito tecnológica” apesar desta proibição.

“Todas as salas estão equipadas com computadores e somos uma escola envolvida em vários projectos eTwinning” (uma plataforma online criada pela União Europeia que permite a várias escolas na Europa desenvolverem projetos de aprendizagem comuns).

Porém, a inibição do uso de telemóveis não é ininterrupta. “Sempre que um professor precisa do telemóvel dos alunos para fins pedagógicos, ele envia um recado aos encarregados de educação a pedir autorização. Isso é permitido”, explica Mónica Almeida.

Outros diretores admitem em conversas com a colega de Santa Maria da Feira que sentem haver “muita dificuldade” para implementarem esta medida nas suas escolas. A eles, Mónica deixa um conselho para o arranque: “Temos de ser muito assertivos desde o início, não podemos vacilar.”

Para ela, a medida valeu a pena. Acima de tudo porque, explica, os alunos “reinventaram a forma de estarem juntos, reinventaram as brincadeiras”.

 

 

Nesta escola de Santa Maria da Feira há uma regra fundamental: os telemóveis são proibidos

Fevereiro 1, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Sol de 14 de janeiro de 2019.

Medida entrou em vigor há dois anos.

Na escola EB,3 de Lourosa, no concelho de Santa Maria da Feira, o uso de telemóveis é proibido. Os aparelhos são recolhidos pelos professores na primeira aula e só voltam a ser entregues no final do dia.

A medida, que inicialmente não agradou a todos, é hoje vista como algo positivo.

“Os mais velhos acharam que era uma medida ditatorial, mas com o tempo perceberam que exatamente por eu querer que sejam livres é que o telemóvel fica em outro sítio que não na escola”, disse Mónica Almeida, diretora do Agrupamento de Escolas de Lourosa, em declarações à SIC.

A medida, que entrou em vigor há dois anos, levou a que vários alunos fossem penalizados no início. Contudo, muitos defendem que hoje reaprenderam a conviver.

“Foi um bocadinho difícil, ao inicio estávamos um bocadinho contrariados, mas agora concordamos com isto”, refere uma aluna.

“Acho que agora convivemos mais, conversamos”, defende outro aluno.

Também os pais apoiam a medida e garantem que esta é saudável e benéfica para todos os alunos.

Reportagem da SIC Notícias:

Escola em Santa Maria da Feira proíbe uso de telemóveis

 

 

Pai inventa app que obriga crianças a retribuir chamada

Janeiro 22, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia e imagem do MAGG de 8 de janeiro de 2019.

por  Marta Gonçalves Miranda

Um britânico estava farto de ser ignorado pelo filho quando descobriu a forma perfeita de acabar com o problema.

Quando o filho de Nick Herbert entrou para a escola, o pai ofereceu-lhe um telefone. Era uma forma prática de estarem sempre em contacto — pensava ele. A verdade é que Ben rapidamente descobriu o maravilhoso mundo dos jogos e vídeos, e a funcionalidade da chamada era frequentemente ignorada. Tanto que o adolescente chegava a pôr o telemóvel em silêncio para que o pai não soubesse o que é que ele andava a fazer.

Para acabar com a tortura do ghosting, o britânico criou a aplicação ReplyASAP. De uma forma muito simples, a app bloqueia o telemóvel até que o utilizador responda à mensagem enviada para a aplicação. Mais: a ReplyASAP também faz (muito) barulho até que haja uma resposta, mesmo que o telemóvel esteja em silêncio.

“Esta aplicação nasceu das minhas próprias frustrações pessoais com as aplicações de mensagens que existem atualmente”, contou Nick Herbert no site. Durante o desenvolvimento da app o britânico fez questão de incluir o filho, que até acabou por gostar da ideia. “Ele também me pode mandar mensagens — portanto, há um entendimento mútuo de que a ReplyASAP só é usada para coisas realmente importantes, e não porque precisa de pilhas para o comando da Xbox”.

Para já a app só está disponível para Android, mas a versão para iOS já está em desenvolvimento. Quanto aos preços, há quatro pacotes disponíveis: Bronze (1,10€); Prata (2,77€); Ouro (7,77€); e Platina (14,45€). A grande diferença é o número de pessoas que é possível incluir no sistema de troca de mensagens. A aplicação está disponível para download em Portugal, e em português.

 

 

Preocupado com o tempo que o seu filho passa à frente do telemóvel? Tenha calma…

Janeiro 16, 2019 às 12:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Ecrãs devem ser evitados antes da hora de dormir | Reuters

Notícia da RTP Notícias de 4 de janeiro de 2019.

Alexandre Brito – RTP

O Royal College of Paediatrics and Child Health, organismo britânico que reúne pediatras do país, publicou um guia para os pais relacionado com o tempo que as crianças devem passar à frente de um ecrã (tablets, telemóveis, etc). Com conselhos algo inesperados. Não há qualquer recomendação de tempo limite. Apenas bom senso e acompanhamento próximo pelos adultos.

Os pediatras dizem que não há evidências suficientes que confirmem que o tempo que as crianças passam à frente de ecrãs seja por si mesmo prejudicial à saúde em qualquer idade. Por essa razão, os pediatras indicam que é impossível recomendar um tempo limite relacionado com a idade.

Isso significa que as crianças podem usar, por exemplo, tablets e telefones o tempo que quiserem? Não. De acordo com as recomendações do Royal College of Paediatrics and Child Health, os pais devem permitir o uso desses aparelhos de acordo com a idade de desenvolvimento da criança – que varia -, com as necessidades individuais relacionadas com o exercício físico, socialização, entre outras. Quando o tempo que se passa à frente do ecrã afeta essas atividades, então torna-se prejudicial para a saúde do menor.

Nesse sentido, diz o Dr. Max Davie do Royal College of Paediatrics and Child Health, “temos que deixar os pais serem pais” e ajustarem o tempo de utilização destes ecrãs de acordo com o que é importante para a família e a criança. “A tecnologia é uma parte integrante da vida das crianças e dos jovens. Eles usam-na para comunicar, entretenimento e cada vez mais na educação”.

Apesar destas indicações, os pediatras avisam que para melhor compreender o que está a acontecer é preciso “mais e melhores estudos, particularmente relacionados com novos usos dos media digitais, como as redes sociais”.

No guia agora publicado, os pediatras lançam uma série de perguntas para ajudar os pais a avaliarem e a tomarem decisões relacionadas com o uso destes equipamentos:

  • O tempo da sua família à frente dos ecrãs está controlado?
  • O uso desses ecrãs tem influência no que a sua família quer fazer?
  • O uso dos ecrãs tem influência no sono?
  • Consegue controlar o que come durante o uso desses ecrãs?

Ainda de acordo com o Dr. Max Davie, “é importante encorajar os pais a fazerem aquilo que consideram certo para a sua família”. Sugere, no entanto, “que sejam estabelecidas fronteiras de acordo com a idade, negociadas entre os pais e as crianças, de forma a que todos na família as compreendam”.

E acrescenta: “Quando essa fronteiras não são cumpridas, tem que haver consequências”.

Tão importante como os conselhos anteriores é que os próprios pais façam uma reflexão “sobre o seu tempo à frente desses ecrãs de forma a terem uma influência positiva nos mais novos”.

Um alerta. Evitar o uso de ecrãs uma hora antes de dormir

Apesar de todas estas recomendações, de certa forma inesperadas, há uma que vai no sentido do que outros estudos já indicavam.

As crianças não devem usar esses ecrãs – telemóveis, tablets, etc – uma hora antes da hora de dormir. A luz estimula o cérebro com efeitos nocivos para o sono.

Apesar de existirem “modos noturnos” nesses aparelhos, dizem os pediatras que não há qualquer evidência de que sejam eficazes.

 

 

Daniel Sampaio. “Os pais não devem ver pornografia com os filhos. Tenho casos de homens que o fazem

Janeiro 2, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista de Daniel Sampaio ao i 15 de dezembro de 2018.

Aos 72 anos, o psiquiatra quer viver até aos 80 e continuar a acompanhar famílias nos anos que tem pela frente.

É no escritório de sua casa, rodeado de livros, que Daniel Sampaio nos recebe para uma conversa que passa pela omnipresença da tecnologia mas também por questões clássicas na prática de um psiquiatra, como álcool, drogas e sexo. Gatos e psiquiatria são algumas das palavras que saltam à vista nas lombadas coloridas. Com uma experiência de mais de 40 anos a acompanhar famílias, adolescentes e casais, Daniel Sampaio defende o envolvimento dos pais na vida dos filhos, mas assinala que os mais novos também têm direito à sua privacidade. E acredita que a falta de tempo de que os pais se queixam é “um falso problema”, porque o envolvimento não passa só pela presença física.

Quando fala da sua família deixa sempre transparecer uma ideia de equilíbrio, de que cresceu com regras mas que os seus pais lhe deram sempre espaço para participar. É esse equilíbrio que faz falta às famílias?

Os meus pais eram pais com muito pouco tempo. Agora ouço pais dizer que não têm tempo, mas isso é um falso problema porque o tempo entre pais e filhos é sobretudo um tempo de momentos. Nós temos é de aproveitar bem os momentos do dia com os filhos, não é preciso estarmos muitas horas, porque o convívio intimo das pessoas que vivem em conjunto proporciona vários pequenos momentos. Os meus pais trabalhavam muito, o meu pai era médico de saúde publica e foi Diretor-Geral de Saúde. Vivemos em Sintra até aos meus 15 anos – portanto infância e parte da adolescência foi passada em Sintra. O meu pai saía muito cedo, voltava tarde, e a minha mãe era explicadora particular de inglês e dava lições todo o dia. O grande contributo para a minha educação foi o aproveitar muito bem o tempo do pequeno-almoço, do final da tarde, da hora de jantar e da hora de deitar, de que eu falo no meu livro “Do Telemóvel para o Mundo”, e proponho esses tempos como tempos essenciais. Depois, o mais importante é que estimulavam muito a participação. Promoviam conversas sobretudo à hora de jantar e nos fins de semana sobre temas variados, da atualidade. O meu irmão tem mais sete anos do que eu, havia uma diferença grande de idades, mas eles conseguiam mesmo assim um equilíbrio de modo a pôr os dois filhos a participar, e isso foi muito estimulante.

Lembra-se de algum episódio em particular?

Lembro-me por exemplo de aos 12 anos, quando Humberto Delgado se candidatou à Presidência da República. Eu não sabia nada sobre Humberto Delgado, o meu irmão tinha 19 e já sabia muito, mas eu fui chamado a participar e a dar opinião sobre Salazar e sobre Humberto Delgado, e era sempre assim. Essa participação foi muito formativa e estimulante.

Referiu-se à falta de tempo como “um falso problema”. Mas a verdade é que isso é algo de que os pais se queixam cada vez mais, não é?

Sim. Os pais usam muito esse argumento, quanto a mim mal. Evidentemente que os pais que têm filhos, crianças ou adolescentes, estão numa fase muito ativa da vida profissional e do ponto de vista físico não têm muito tempo, mas há uma falsa ideia nos pais de que têm de promover conversas com os filhos e estar muitas horas a falar com eles.

Não é isso que os filhos querem?

Nas crianças e adolescentes de hoje, esse não é um bom método porque eles gostam de coisas rápidas e não gostam de estar muito tempo sentados a conversar. Portanto nós temos de aproveitar os momentos em que o pai está a fazer a barba, em que a mãe está eventualmente a preparar o pequeno-almoço ou o jantar, e os filhos podem colaborar. E é aí que pode falar-se sobre o que aconteceu na escola, sobre uma coisa que apareceu na internet, sobre um encontro que eles tiveram. Tem de haver envolvimento emocional dos pais.

Esse envolvimento tem que ver com aquela ideia de que os pais devem ser amigos dos filhos? É defensor disso?

Não sou nada defensor disso, mas sim da renovação da autoridade. O que me preocupa hoje em dia, e tenho muitas consultas sobre isso, são pais que não têm autoridade sobre os filhos, porque eventualmente foram muito camaradas, estiveram muito próximos e portanto ficaram sem autoridade. E na adolescência é preciso ter autoridade, que tem de ser construída, porque uma criança e um adolescente não aceita imediatamente a autoridade do pai e da mãe. O pai verdadeiramente sábio é o pai que conhece bem os filhos e que está próximo dos filhos e daí emana uma autoridade natural. Se eu for muito próximo de uma pessoa, posso influenciá-la. Essa construção da autoridade começa na infância. As pessoas pensam que quem mais influencia são os amigos, os professores, a internet, os namorados; tudo isso é muito importante, mas a grande influência é dos pais. Quando os pais estiveram muito envolvidos e não conseguiram essa autoridade, é natural que haja uma contestação por parte dos filhos adolescentes. Apesar de essa contestação fazer parte do crescimento, se os pais têm uma autoridade natural conseguem ultrapassar esse obstáculo.

Mas essa gestão é um bocadinho complicada, não é? Porque os pais têm de se envolver, mas ao mesmo tempo não podem envolver-se demasiado…

Têm de se envolver afetivamente e isso passa pela proximidade física, pelo carinho, pela ternura, mas passa também pelo respeito da intimidade da criança e sobretudo do adolescente. É preciso haver alguma distância. O quarto do adolescente, por exemplo – é importante que os pais respeitem esse espaço, mas não quer dizer que o filho não tenha de arrumar o quarto de vez em quando. O envolvimento passa não por muito tempo físico, mas por muita atenção, orientação, companheirismo, respeito de parte a parte. Em Portugal devia haver muito mais estruturas que apoiassem os pais, como grupos de pais nos centros de saúde, onde pudessem trocar experiências. Muitos pais pensam que é preciso mandar o filho ao psicólogo e ao psiquiatra, mas nem sempre. Estimulo muito que os pais contactem com pais que tenham filhos da mesma idade porque a troca de experiências é muito importante, o falar sobre a condição de ser pai.

Porquê psiquiatria?

No final do secundário fui muito influenciado por uma professora de filosofia, Maria Luísa Guerra, que ainda está viva e lúcida, julgo que com 92 anos. Era uma pessoa que trabalhava com o grupo dos alunos, mandou-nos fechar o livro, que era muito mau, e dava textos para discutirmos. E portanto criou ali uma dinâmica de grupo muito boa, comecei a interessar-me por psicologia, que em Portugal estava muito pouco desenvolvida. Era filho de um médico, comecei a pensar que podia ir para psiquiatria e entrei na Faculdade de Medicina sempre a pensar que ia ser psiquiatra. Achei que o psiquiatra podia ter um campo mais vasto de atuação, porque pode fazer terapêuticas medicamentosas e pode fazer psicoterapia.

Como começou a dar aulas?

Fui convidado para assistente e depois fiz a carreira toda, que passa por vários graus. Foi muito bom, mas muito difícil. Tenho muitas saudades dos alunos e tenho saudades sobretudo do tempo em que a faculdade era professores e alunos, porque infelizmente a faculdade agora é professores, alunos e burocratas, há muitas pessoas nas faculdades que se perdem a exigir declarações e relatórios. Esses foram os últimos anos da minha carreira, quanto a mim houve muito tempo perdido a fazer relatórios e justificações.

Destaca em algumas conversas o facto de ter tido um gato até aos 18 anos. Os animais fazem falta às famílias?

Tenho tido sempre gatos, toda a vida. Agora tenho uma com 14 anos. Sou completamente um cat lover. Há ali uma oferta [aponta para uma estante] que um neto me trouxe de Roma, que diz “io amo i gatti”. Gosto muito da personalidade dos gatos e da companhia que fazem, acho que o gato é como os filhos: se nós tratamos bem o gato, o gato trata-nos muito bem; se tratarmos bem o filho, com muito envolvimento, com ternura, mas também com regras – os gatos também precisam de regras – o filho gosta muito de nós. Os animais são muito bons para as crianças. É muito importante que as pessoas possam desenvolver uma relação com o animal, possam cuidar do animal – às vezes pedem por exemplo um cão aos pais e depois não se interessam por cuidar dele e é o pai que vai levar o cão à rua, e isso é pena. Dá trabalho, mas vale muito a pena.

Além do seu irmão [o ex-presidente da República Jorge Sampaio], que é mais velho sete anos, teve também outra presença mais velha com quem conviveu bastante – o cientista Filipe Duarte Santos. Ambos foram pessoas bem sucedidas desde cedo, observá-los influenciou-o de alguma forma?

É meu primo direito, do lado da minha mãe. O que eu recordo da nossa infância e adolescência é que era a nossa avó que estimulava muito o nosso convívio, dos três netos. E esse convívio foi muito importante para mim. O meu primo sempre foi cientista, desde novo. De vez em quando estava connosco, era muito novo, pegava numa folha de papel e desatava a fazer fórmulas matemáticas à nossa frente e nós não percebíamos como era possível fazer aquilo. Sempre foi uma pessoa muito avançada do ponto de vista da ciência e fico muito satisfeito que agora tenha este reconhecimento internacional em termos das alterações climáticas. Foi pioneiro e está muito bem, com 76 anos. A par do meu irmão, foi muito formativo ter duas pessoas que sempre foram boas na sua área. São duas referências para mim.

Os pais queixam-se dos filhos, os filhos queixam-se dos pais. O que está a falhar?

As pessoas queixam-se, mas não quer dizer que esteja alguma coisa a falhar. Se nós pensarmos em grande números, na maioria dos casos as famílias correm bem. As queixas são inevitáveis. A relação entre pais e filhos passa por uma separação que é inevitável. Para crescer tenho de me separar das pessoas que estão comigo, se não não consigo enfrentar o outro. Tenho de me separar e é difícil não o fazer sem conflito. Na maior parte dos casos, os conflitos são pequenos. A contestação é fundamental, ocorre sobretudo entre os 15 e os 18. A adolescência é uma época boa, apesar de as pessoas costumarem dizer que é terrível, que é a idade do armário, na maioria dos casos não é assim – é uma época de descoberta, de fazer amigos, de descobrir o amor e a sexualidade, de ter novas experiências, de viajar. Acho que se dramatiza muito as questões. Mesmo nas situações em que os pais se separam, o que é sempre muito traumático – os divórcios nunca são felizes, é sempre muito traumático para as crianças e para os adolescentes, e isso é uma coisa que às vezes se esquece – é preciso estar muito atento às consequências que isso traz sobre os filhos. Depois do divórcio, sou a favor da guarda alternada para que a criança ou jovem fique em contacto com o pai e a mãe.

Mas isso não é, de outra perspetiva, mau para a criança? Porque acaba por andar mais cansada, por exemplo.

Não. Sabe que eu tenho 40 anos de experiência, já passei por tudo, como ficarem só com a mãe e com o pai de 15 em 15 dias e jantar à quarta-feira – que durante anos foi a extraordinária decisão unânime dos tribunais, mesmo que o pai vivesse a 300 quilómetros de distância da mãe. A evolução para a guarda conjunta e residência alternada tem que ver com o facto de os pais durante muito tempo estarem privados do convívio com os filhos, porque se se está com uma criança um fim de semana de 15 em 15 dias e num jantar por semana, não se consegue desenvolver intimidade. É preciso partilhar a vida para haver envolvimento e ganhar-se autoridade e esses pais não tinham autoridade porque não tinham intimidade. A residência alternada é mais parecida com a família, porque as crianças e adolescentes têm contacto com o pai e com a mãe e adaptam-se muito bem.

As gerações mais velhas têm muito aquela ideia de que antigamente havia mais respeito, de que os jovens eram mais bem educados. Concorda?

Havia mais respeito porque havia mais distância, não é? A disciplina está ligada ao respeito, mas muito do respeito que havia em relação aos pais e professores era baseado no medo e agora esse autoritarismo já não funciona. Temos de construir o respeito, mas recíproco. É preciso que os professores respeitem os alunos para que os alunos os respeitem. É circular. O que observo mais é que há invasões do espaço de um adolescente que hoje são inadmissíveis. Não faz sentido que um pai mexa no telemóvel de um filho, não faz sentido que um pai pesquise os bolsos de um filho ou a gaveta, é uma falta de respeito. Claro que quando um filho usa um palavrão para o pai isso é falta de respeito, também. O respeito também te de ser construído.

Já exercia antes do boom da tecnologia – telemóveis, internet… Desde que a tecnologia se generalizou, as dinâmicas familiares pioraram?

Não. Estamos numa fase de transição. Apesar de o Facebook já ter 14 anos, falamos sempre de novas tecnologias – o Facebook, de resto, já é muito pouco usado pelos adolescentes, que usam mais o Instagram. Há uma evolução como houve no século XV, com a revolução na imprensa. Nos períodos de grande mudança das comunicações há adaptações e o que é interessante é que os jovens são os precursores desta nova forma de comunicar, eles vão à frente. É um território onde os pais e sobretudo os avós se mexem com mais dificuldade, mas defendo que é preciso que pais e avós estejam muito atentos e se atualizem. Eu tive de me atualizar, primeiro como médico e como escritor, mas adaptei-me também a comunicar em família. Nós temos um grupo no Whatsapp que se chama “family project” e é muito interessante porque estamos sempre a comunicar uns com os outros. Eu, a minha mulher – que é a campeã dessa forma de comunicar, está sempre em contacto com os três filhos e sete netos, menos os dois mais pequenos, que têm 7 e 8 anos. Temos cinco adolescentes e estamos sempre em contacto com eles, é permanente. É algo muito importante para a família – lá está a questão do tempo, não estamos sempre juntos e isto é extremamente positivo.

Quando se deve dar o telemóvel?

A partir dos dez anos, mas antes deve-se explicar e ir acompanhando com o tal envolvimento afetivo.

Até a criança ter telemóvel, o ver televisão – o tempo passado no ecrã – pode ser usado como ferramenta para educar para o uso futuro do telemóvel?

Exatamente, é a mesma coisa. Não se deve deixar uma criança passar muito tempo a ver televisão, como não se deve deixar depois um adolescente muitas horas no computador e no telemóvel. É uma questão que é adequada à idade, mas desde muito cedo deve-se interiorizar a regra. A educação é muito interessante: se conseguirmos fazer uma criança interiorizar uma regra, ela depois vai tomar conta dessa regra e torna-se natural. Se desde o princípio as crianças perceberem que o telemóvel, o computador, o tablet é para utilizar com tempo relativamente curto, isso vai ser interiorizado. Agora, o proibir não resulta. E a investigação é muito interessante porque já se sabe que em relação às dependências da internet sobretudo nos rapazes não funciona o castigo. Os rapazes são mais turbulentos do que as raparigas, são mais dependentes, mas justamente pelas características diferentes nos rapazes e nas raparigas, nos rapazes funciona muito melhor a persuasão e a autorregulação, ajudá-los a perceber que têm desde muito cedo de autorregular a utilização. As raparigas são mais fáceis de convencer através da retirada. Alguns pais tiram o telemóvel, escondem o telemóvel, nalguns caso até chegam a desligar a luz elétrica da casa quando tudo está sem bateria e assim impedem os filhos de carregar os aparelhos. Não faz nenhum sentido, são casos extremos, mas existem.

No fundo, nessas situações há uma transferência de autoridade.

Exatamente. Nalguns casos o que se passa é que a autoridade está invertida. São os adolescentes que mandam nos pais e isso é muito mau sinal do funcionamento da família.

Como podem os pais lidar com essa perda de autoridade?

Falando com outros pais e até procurando ajuda especializada, terapia familiar. O último livro que escrevi [”Do Telemóvel Para o Mundo”] é muito comprado pelas famílias e apareceu-me uma família com o livro todo sublinhado e com um papelinho com as regras. E o adolescente de 16 anos, que passava a vida no jogo Fortnite e no telemóvel, disse uma coisa muito interessante: “para que é que estamos a falar do telemóvel, quando nós não falamos uns com os outros?”. Ou seja, muitas vezes, o telemóvel e a internet servem um propósito, que é esconder a dificuldade que as pessoas têm de falar umas com as outras. Tem de se perceber que não se pode passar a vida a guerrear por causa do telemóvel quando o que está em causa é a dificuldade de aproximação entre pais e filhos e a gestão daquilo que é autonomia e daquilo que é controlo. Tem de haver sempre muita troca de informação entre pais e filhos. Os pais não podem controlar demasiado.

Quais são os perigos?

Esses filhos, que são superprotegidos, não se desembaraçam na escola, tenho verificado muito isto. Na escola, hoje em dia, um adolescente tem de se afirmar. Se um rapaz ou rapariga não sabe gerir a sua afinação pessoal, se mostra medo, se de alguma forma é muito diferente dos outros e não se consegue integrar, esse jovem tem problemas de relacionamento e isola-se. E aí é vitima dos outros. Esta mensagem é muito importante para os pais: “eu tenho de tornar o meu filho competente e para tornar o meu filho competente tenho de educar contra o medo, tenho desde muito cedo dizer quenão pode mostrar medo, mesmo que o sinta”. Nas situações de bullying – e de cyberbullying, através da internet – temos de pensar nos agressores e ver o que podemos fazer em relação aos jovens que fazem isso, mas temos de pensar nas vítimas também, que muitas vezes são muito tímidas e muito inseguras e não se conseguem afirmar. E aí é muito importante que a educação seja uma educação para enfrentar os outros. Muitos me dizem isto, que é difícil estar na escola, que há muitos comentários – que somos gordos, caixa de óculos. Por exemplo, as raparigas falam muito no problema do cabelo. Além dos testes, os pais devem preocupar-se com o modo como o rapaz ou a rapariga está a viver a sua relação com os outros. Temos de educar para esta afirmação pessoal.

Falou em cyberbullying. Tem acompanhado muitos casos?

Sim, bastantes. É uma das minhas preocupações neste momento. O bullying tradicional é uma coisa visível no pátio, vemos uns a baterem noutros, o cyberbullying é silencioso, de intimidação e provocação através da internet, e o que se passa muitas vezes é que o jovem que está a ser vítima desse cyberbullying está a sofrer em silêncio, não fala sobre isso a ninguém porque tem vergonha – aos amigos, aos professores, aos pais. Às vezes isso mantém-se por muito tempo e as mensagens vão-se tornando-se mais agressivas. É um tema que tem de se discutir na escola e é preciso que os pais estejam atentos, quando as crianças começam a dizer que têm dores de barriga, que não querem ir a escola, começam a chegar a casa chorosos, tristes, são sinais indiretos de que algo se passa. E aí é preciso confrontar diretamente e perguntar: “Passa-se alguma coisa com o teu telemóvel, estás a receber alguma mensagem?”. Há casos de jovens que foram submetidos a esta pressão durante muito tempo em que ninguém fez nada.

Disse que os pais não podem mexer no telemóvel do filho, mas nesse tipo de casos têm licença o fazer?

Só com autorização do filho. Sei que é muito discutível, mas a minha experiência pessoal como avô – porque na altura dos meus filhos não havia internet – e como psiquiatra, trabalhando com dezenas de jovens por semana, é um território muito íntimo e a linha vermelha é os pais não poderem entrar. Para saber o que se passa no telemóvel do meu filho em caso de risco, tenho de estar próximo dele, e isso tem que ver com a construção da autoridade e com a construção da intimidade. Se eu estou próximo, sento-me ao lado dele e digo – “olha acho que estás aflito, estás sempre a olhar para o telemóvel, passa-se alguma coisa? Vou sentar-me ao teu lado para que me possas mostrar”. O mais importante não é a mensagem em si, é ele poder dizer ao pai ou à mãe que está a receber mensagens de humilhação e provocação.

Deve haver regras quanto a horas para uso?

Sim, mas combinadas. Deve haver períodos em que não há telemóvel, aqueles que são fundamentais para a convivência em família – o acordar e partir para a escola, o pequeno-almoço tomado em casa – que muitas vezes não é -, a hora de chegar a casa e fazer os trabalhos e jantar e a hora de deitar. Não concordo por exemplo que os jovens estejam a estudar e ao mesmo tempo a receber mensagens, e aí é preciso bom senso, porque eles às vezes estudam a partir do telemóvel. E aí o pai tem de gerir, dar um tempo ao filho para estudar no telemóvel com os amigos, mas depois estudar sozinho. À hora de deitar, estar com o telemóvel torna-se um pouco complicado, porque muitos namoram a essa hora. E sabemos que o uso a essa hora perturba o sono por causa da luz, ao contrário do que eles dizem, que dizem que é muito bom porque provoca sono.

Disse que a idade certa para ter o telemóvel são os dez anos, mas nem todos os jovens têm maturidade nessa idade para ter um telemóvel.

Sim, claro, isso é uma orientação. Tem que ver com a passagem da monodocência para a pluridocência, eles passam a ter mais estímulos, vão ter um horário com menos horas, vão chegar mais cedo a casa, estão na pré-adolescência e a descobrir coisas novas. Os pais é que precisam de gerir, e não precisam de dar de início um telemóvel de último modelo. Mas devem dar um smartphone.

Se não a criança acaba por ser alvo de chacota entre os colegas, não é?

Exatamente. Tive um adolescente com 13 anos a quem os pais não davam um smartphone e ele dizia “eu tenho o telemóvel da minha bisavó, porque a minha avó já tem um smartphone, a minha bisavó é que tem um telemóvel destes”. Deve dar-se um smartphone com regras de utilização.

E se os pais se recusam a dar telemóvel e o adolescente vai para casa a dizer que todos os amigos têm, como gerir isso?

Eles fazem sempre isso. Os amigos têm sempre os melhores ténis, a t-shirt mais à moda, têm o melhor tablet, saem à noite todos os dias… isso é discurso adolescente, não é? Mas os pais aí têm de marcar a sua posição e dizer, por exemplo, que dentro de seis meses ou um ano o filho poderá ter.

Exerce há quarenta anos. Tem vindo a aperceber-se de que as crianças têm cada vez menos vontade de ganhar responsabilidade, de crescer?

Sim, completamente, mas isso deriva da educação. Uma educação que é sobretudo típica da Europa do Sul, Grécia, Itália e que é superprotetora. E a educação superprotetora dá pessoas imaturas e pessoas menos responsáveis. E eu sou muito contra isso, sou absolutamente a favor de que os adolescentes muito novos andem sozinhos na rua, utilizem o metro – se bem que agora todos querem andar de Uber – e se saibam desembaraçar. Isso de brincarem na rua, andarem na rua desde cedo e saberem safar-se de situações difíceis é extremamente importante para a maturação emocional. Isto é uma coisa que os pais devem com cuidado ir fomentando. Poder ir a pé uma parte do trajeto, poder andar de metro muito cedo, com 11 ou 12 anos podem perfeitamente desembaraçar-se desde que tenham um amigo ou andem em grupo, são coisas que os pais devem fomentar em vez desta coisa terrível e completamente paradoxal que é a criança estar a uma relativa distância de um clube onde vai fazer desporto e podia perfeitamente ir a pé e o pai vai levá-la de carro. E portanto os adolescentes veem a cidade através dos vidros dos carros dos pais. Nas grandes cidades, os pais têm muito medo – dos assaltos, dos predadores sexuais.

E então, protegem demasiado.

Exato. E prejudicam a sua vida – porque muitas vezes têm de interromper o trabalho e ir a correr para levar ao futebol e depois voltar para o trabalho e isso dá um cansaço enorme que se repercute depois ao fim do dia quando chegam a casa. A educação deve ser para a autonomia. Desde muito cedo, a criança com um ano pode começar a perceber que pode arrumar os seus brinquedos num cantinho, logo que comece a andar com dois anos já pode fazer mais coisas, com sete ou oito anos pode pôr e levantar a mesa e pode ir dormir a casa de um amigo. Todas essas coisas são muito importantes.

Tem muitos casos de jovens deprimidos?

Sim, muitos.

Mas têm vindo a aumentar?

O que tem vindo a aumentar são as perturbações de ansiedade – jovens com muita ansiedade social, que têm dificuldade em contactar com os outros, situações de fobias, de ataques de pânico. Tenho jovens muito ansiosos, com muita angústia, muita dificuldade nos testes, por exemplo. Há jovens com medos em relação à sexualidade, que têm muito medo – sobretudo os rapazes têm medo de se afirmar sexualmente, de não serem capazes de estar à altura da rapariga.

E o que podem fazer quanto a essas angústias?

Exercício físico. Sabe-se hoje em dia que o exercício físico regular é fundamental para o nosso cérebro, que com o exercício liberta substâncias calmantes. E a estes jovens, de 15, 16, 17 anos, ponho-os a correr na cidade.

E os resultados são bons?

Os resultados são espetaculares. As raparigas é mais difícil porque dizem que os homens se metem com elas quando correm, mas os rapazes não têm esse problema. Muitas vezes consigo não dar medicamentos, converso com eles, converso com os pais e ponho-os a correr, duas ou três vezes por semana, é melhor até do que o ginásio. Ficam mais satisfeitos com a sua imagem, mais calmos e de alguma forma dá-lhes bem estar psíquico para as dificuldades que têm de enfrentar.

Há quem diga que as redes sociais aproximam, há quem diga o contrário. A amizade mudou muito?

Não, os jovens saudáveis contactam muito em presença e contactam muito através das redes sociais. Estiveram a conversar com os colegas de manhã e chegam a casa e falam com os mesmos. A internet permite até que falem com amigos de outros países – isso é sobretudo importante na faculdade, quando fazem Erasmus, que é uma coisa que faz muito bem. Quanto àqueles jovens que têm dificuldade de comunicação, refugiam-se muito na comunicação virtual e temos de promover a ida dos amigos lá a casa, fomentar o desporto…

Tem uma relação longa, que começou no quarto ano da faculdade.

Tenho um casamento de 48 anos. Estamos a dois anos das bodas de ouro.

Da mesma forma que as redes sociais alteraram a amizade, mudaram também o amor? O amor ganhou com as possibilidade que a internet oferece ou perdeu?

Nunca me tinham feito essa pergunta. Está diferente, sim. Acho que o risco de infidelidade é maior, começa-se muitas vezes com uma mensagem e de repente está-se numa situação diferente. Acho que a fragilidade do elo conjugal é cada vez maior – isso é válido também para os casais do mesmo sexo, que acompanho na terapia familiar. O elo é muito frágil, porque as pessoas idealizam o amor. As pessoas gostaram muito uma da outra de início, estiveram apaixonadas, há a química do início da relação, há a grande descoberta do outro, mas isso tem curta duração, ninguém está apaixonado durante muito tempo. E depois é preciso que se construa uma relação e o mais importante para tal é reconhecer o outro e estarmos permanentemente atentos ao outro. Ou seja, eu só consigo ter uma relação profunda com a pessoa que amei, só posso continuar a amar essa pessoa, se estiver permanentemente atento ao que ela está a sentir e àquilo que ela deseja. E a outra pessoa a mesma coisa em relação a mim. Outro dia disse isto a um jovem adulto que vive com a namorada, tem 30 anos, e ele disse “mas isso dá imenso trabalho”. E eu respondi “imenso trabalho”. E o que se passa neste momento é que as pessoas são muito narcísicas, estão muito viradas para si próprias, para o seu êxito pessoal, para o seu bem estar físico – há muito investimento no próprio corpo, os ginásios estão cheios de pessoas para tirar a barriga. Este investimento na própria pessoa dá pouco espaço emocional para o investimento no outro.

A par das redes sociais, os pais continuam a ter preocupações clássicas como o tabaco, o álcool, a droga, o sexo. O que os assusta mais nestas questões?

O que assusta mais, em geral, é a perda de controlo dos pais em relação aos filhos, que pode levar a uma perda de controlo dos filhos. Os pais a certa altura percebem que não podem continuar a controlar, e isso é bom, mas têm de continuar a acompanhar, e como vimos às vezes há dificuldade nessa questão. Ou seja, eu tenho de ir controlando, mas ao mesmo tempo tenho de promover autonomia e esse equilíbrio é muito difícil, sobretudo nas famílias em que as pessoas não falam umas com as outras. É muito frequente que eles comecem a beber aos 15 ou 16 anos, mas ao contrário do que se ouve na televisão, muito poucos ficam alcoólicos. E é preciso passar essa mensagem. “Tens de ter cuidado com o que bebes, mas não é uma catástrofe se beberes aos 16 anos. Tens de beber com moderação e ao mesmo tempo tens de beber agua, para evitar desidratação. Quando vais sair à noite e sais de casa à meia noite, deves comer antes de sair, porque com o estômago cheio o álcool faz menos efeito.” São várias mensagens que se devem ter para evitar essas coisas mais graves, como o coma alcoólico, não se deve é dramatizar.

E as drogas?

O mesmo em relação à experimentação de drogas. Sou absolutamente contra a canábis, como psiquiatra, vi muitos jovens que desencadearam psicoses por causa do uso sistemático da canábis. É uma droga perigosa que tem consequências graves sobre o cérebro dos nossos adolescentes, que é um cérebro em formação e devem dizer não às drogas. Mas, se por acaso experimentarem, não quer dizer que venham a ser toxicodependentes, como os pais me dizem. “Ah, é um drogado”, não é, essa mensagem é terrível. Se experimentou, é uma coisa, se está a consumir todas as semanas é outra coisa, se está a consumir todos os dias já é muito mais grave. E temos de perceber qual é o significado do consumo, porque a canábis serve um propósito – muitas vezes é usada por causa da ansiedade, porque é calmante de início.

E quanto ao sexo, como devem os pais por exemplo lidar com a clássica situação de apanhar um filho a ver pornografia?

Mais de 90% dos rapazes veem pornografia. Muito mais do que as raparigas. É uma coisa que deve ser valorizada sobretudo pelas consequências negativas que pode ter. O que se passa muitas vezes com alguns rapazes que veem muita pornografia é que pensam que a vida sexual das pessoas é aquilo que veem no telemóvel e portanto fazem uma ideia da vida sexual que não corresponde à realidade das pessoas com quem estão e das raparigas com quem se vão cruzar. E os pais não devem ver pornografia com o filhos.

Tem casos desses?

Sim, casos de homens que veem com os filhos. Acham tudo muito natural.

Mas isso é levar a questão a um extremo pouco saudável, não é?

Claro. E tenho também pais que fumam haxixe com os filhos. É o pai camarada. “Já que sou camarada dos meus filhos, posso fumar ganzas com eles, e porque não também ver pornografia com eles?”. Tenho casos assim e não é um ou dois. E eu digo logo que isso não se pode fazer. Mas quanto à pornografia, os pais devem falar sobre isso. Devem dizer que não corresponde à vida normal das pessoas e por outro lado é um negócio que explora o corpo da mulher e do homem e não é uma coisa saudável. Mas faz parte de um percurso, claro que depois quando arranjam namorada deixam de ver. Deve ser falado na escola e em casa sem constrangimentos. Eu passei a falar da questão da pornografia nas consultas, porque eles ficam aliviadíssimos, porque veem às escondidas dos pais. Noutro dia perguntei a um rapaz de 17 anos se de vez em quando via pornografia e a resposta foi “vejo todos os dias”, e a partir daí começámos a falar. Curiosamente este rapaz tem muita dificuldade na interação com as raparigas, e a pornografia prejudica a interação.

A educação sexual devia ter um papel nisso, não é?

Sim. É lamentável. Fez-se um esforço enorme entre 2005 e 2009 para se pôr educação sexual nas escolas, estive nisso, criou-se um grupo de trabalho e uma lei de educação sexual. Entre 2009 e 2018, houve um desinvestimento. É uma pena, porque educação sexual permite falar de tudo. Não é só falar do preservativo e da pila. Também é, mas o mais importante é que se fala de educação – respeito homem-mulher, respeito das minorias sexuais, afetos e emoções ligados à sexualidade. Quando há educação sexual as pessoas iniciam a vida sexual mais tarde, porque percebem que é um momento muito importante na vida.

Acha que as crianças e os jovens passam muito tempo na escola? Muitas vezes o que acontece é que perdem fins-de-semana a fio, por exemplo, para estudar. É sensato?

Isso acontece sobretudo com aqueles que querem ter boas notas no secundário para entrar na faculdade. Acho que a escola tem um horário excessivo, passam muito tempo na escola, sobretudo os mais novos. Mas o que me impressiona mais é que a escola é muito pouco caritativa, é muito semelhante à escola do meu tempo. Tenho netos no Pedro Nunes, onde eu andei, e as histórias que me contam de professores a falar durante 90 minutos são muito semelhantes às minhas, mas no meu tempo eram 50 minutos. A escola não evoluiu em termos de metodologia de ensino, o ensino continua muito dependente do professor, com muito pouco trabalho de grupo e muito pouco interativo. Ao contrário dos estudantes e da sua vida, que é muito interativa. E depois querem que estejam 90 minutos numa cadeira a ouvir os professores. A escola de hoje é um confronto entre professores e alunos, muitas aulas não são dadas por indisciplina.

Disse que acompanha também casais homossexuais. Uma criança que cresce dois pais ou duas mães é prejudicada?

Não. Não vejo nenhum problema nisso e a criança não se torna homossexual por isso, desde que esse casal tenha a preocupação de se dar com pessoas de outro sexo para que a criança possa diversificar as suas relações. Crianças educadas por casais do mesmo sexo não têm mais problemas do que as outras nem se tornam homossexuais, isso são receios das pessoas. O percurso para a aceitação da homossexualidade não é um percurso fácil, às vezes ouve-se que determinada pessoa “optou” por ser homossexual, isso não existe. As pessoas não optam, não é uma opção. A partir do momento em que uma pessoa aceita a sua homossexualidade e vive com uma pessoa do mesmo sexo, não vejo nenhum problema em que a pessoa adote uma criança. Aliás, eu fui das pessoas que falou logo a favor do casamento entre pessoas do mesmo sexo e tenho acompanhado vários casais.

Esses casais têm problemas semelhantes aos dos casais homossexuais?

Os problemas são exatamente os mesmos. São problemas de comunicação, de fidelidade, das redes sociais, da sexualidade. Tem que ver com partilhar a vida. é difícil partilhar a vida com uma pessoa, mas é mais difícil estar sozinho. As pessoas sozinhas têm muito mais doença mental e são mais infelizes, apesar de os casais se queixarem. As pessoas sozinhas sentem uma grande solidão e um grande desejo de encontrar a pessoa certa. Vejo isso em pessoas hetero e homossexuais.

Como é que vê a saúde em Portugal hoje em dia? Estamos a atravessar uma greve prolongada dos enfermeiros que põe em causa cirurgias programadas e, em alguns casos, a vida das pessoas.

Acho completamente inaceitável. As pessoas que a promovem deviam ponderar,  apesar de terem razões para reivindicar, porque estão vidas em jogor. Quem trabalhou 40 anos num hospital como eu sabe como é difícil ter cirurgiões e anestesistas disponíveis no SNS para fazer as operações programadas. Mas acho que o SNS funciona de uma maneira geral bastante bem, exceto na psiquiatria e saúde mental, onde há muitas lacunas.

Integrou a comissão de acompanhamento de apoio psicológico às vítimas dos incêndios. Como estavam aquelas pessoas que de repente perderam tudo?

Destaco que as vítimas tiveram um apoio muitíssimo bom. Na zona de Pedrógão havia uma equipa de saúde mental comunitária que partiu do serviço de psiquiatria dos hospitais universitários de Coimbra. Num ano, essa equipa realizou três mil consultas. A situação foi altamente traumática, as pessoas perderam familiares, mas podemos dizer que não houve casos de doença mental grave nas pessoas que ficaram. Não houve suicídios e houve muito poucos internamentos .

Há coisas que independentemente da tecnologia nunca vão mudar?

Sim. a relação entre pais e filhos e as questões de amor nunca vão mudar, são eternas. Têm novas facetas, mas os problemas são os mesmos. Na adolescência falamos de coisas que não existiam há 10 ou 20 anos, mas no fundo estamos a falar da mesma coisa: como educar. A mensagem principal é que não há felicidade maior do que amar e ser amado. Digo isto a pessoas que estão no auge da carreira, que querem fazer muitas coisas e trabalham das nove da manhã às dez da noite e depois não conseguem ter relações afetivas. Digo-lhes que a carreira é importante, mas também é importante estar com a pessoa amada. Na minha experiência, o mais importante é ter uma família e sentir-me amado, apesar da carreira que tive.

Chegou ao topo da carreira médica e da docência, tem uma família preenchida. O que lhe falta fazer?

Numa outra entrevista disse que queria chegar aos oitenta anos e uma doente minha perguntou-me: “só aos 80?”. Mas partindo do princípio que me faltam oito anos, quero dedicar os últimos anos da minha vida à relação entre pais e filhos.

Os 80 anos é por algum motivo em especial?

É simbólico, é um número redondo.

 

 

 

40 maneiras de usar o telemóvel na escola

Dezembro 6, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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O seu filho está viciado em jogos e televisão?

Outubro 18, 2018 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do site Sapo Lifestyle

As crianças regem-se pelo prazer, não lidam bem com a frustração e inspiram-se no comportamento dos pais. Você pode e deve ajudá-las. Saiba como!

Sim, confirmamos. As crianças também podem estar viciadas em fontes de prazer que vão descobrindo à medida que crescem. Mais, o facto de se estarem a desenvolver e o exemplo dado pelos pais contribuem de forma decisiva para o problema. «Os vícios são comportamentos repetitivos que podemos considerar compulsões. Por um lado, o ser humano é, por natureza, muito repetitivo, por outro, guiamo-nos por duas leis, a da promoção do prazer e a do evitamento do desprazer», explica Alcina Rosa, psicóloga.

O que podemos, então, fazer para evitar este comportamento? «Usar o autocontrolo, o nosso comportamento consciente», responde a especialista que alerta para um fator determinante no caso dos mais pequenos. «Na infância, este regulador ainda não está muito desenvolvido. As crianças regem-se pelo que gostam ou não e cabe aos pais ajudá-las a desenvolver essa capacidade», refere ainda a especialista. Vamos a isso!

Televisão e videojogos

O seu filho evita sair de casa, tem um rendimento escolar fraco, dificuldades na socialização, isola-se, revela falta de interesse por outras atividades. Estes são sinais de alarme. A televisão e as consolas são frequentemente usadas pelos progenitores como amas porque, enquanto a criança está a jogar ou em frente ao televisor, está quieta. «Também o próprio comportamento dos pais, que passam horas a ver TV, se torna um exemplo», alerta Alcina Rosa.

Instituir a regra «primeiro, o trabalho, depois, o lazer» e fixar uma hora para deitar são duas prioridades que os pais devem ter. «Se a criança quiser passar todo o seu tempo de lazer em frente à TV, os pais têm de competir com outras atividades, como jogos sociais, leitura de livros, conversas. Pode custar um bocadinho descolá-lo da televisão mas, se a atividade que propomos lhe agradar, depressa se esquece da TV e se envolve», afirma Alcina Rosa.

Internet e redes sociais

A criança demonstra falta de atenção, cansaço, isola-se, tem comportamentos pouco sociáveis e uma fraca rede de amizades. Os próprios pais podem estar a passar muito tempo ao computador e nas redes sociais, comportamento que pode ser apreendido pelos mais pequenos. Este também pode constituir um problema. O que é que se deve fazer nestes casos? «Restringir totalmente o acesso não é uma solução, pois fazem parte da sua realidade», sublinha Alcina Rosa.

«Mas evitar que o computador esteja no quarto é um bom princípio», alerta a especialista. Dessa forma, é mais fácil controlar o tempo de utilização e o uso que faz dele. «Deve saber que programas utilizam e se são adequados à idade», refere Mafalda Navarro, psicóloga clínica. «A mais-valia será saber do que falam, que programas utilizam e se estão a despender o tempo apropriado à idade». Atividades em família que promovam o contacto social são fundamentais.

Telemóvel

Também aqui existem sinais de alarme, nomeadamente «perder a noção do tempo, negligenciar tarefas básicas, ansiedade e sintomas de abstinência, necessidade crescente de melhor equipamento, isolamento e baixo rendimentos», descreve Mafalda Navarro. «É contraproducente insistirmos com a criança para que desligue o telemóvel se os pais têm os seus sempre ligados», refere ainda. «Quantas vezes vemos pais darem um telemóvel à criança para ficarem sossegadas?», reforça Alcina Rosa.

Alterar esta situação exige algum acompanhamento. «Proibir não funciona. O essencial é ensinar, desde cedo, a controlar-se, a corrigir comportamentos de forma consciente ou, mal os pais virem costas, fará aquilo que não é suposto», alerta Alcina Rosa. «Quanto mais tarde receberem um telemóvel, melhor», aconselha ainda.

Veja na página seguinte: Quando as crianças são viciadas em doces e em fast food

Doces e fast food

«Este tipo de alimentação constante causa uma dependência igual a substâncias como o álcool ou drogas», alerta Mafalda Navarro, psicóloga. Um dos principais erros a evitar é «usar doces ou uma ida a uma cadeia de fast food como prémio por algo que os mais novos fizeram bem. Dessa forma, a criança associa algo que lhe é prejudicial a um comportamento correto», diz Alcina Rosa.

«A melhor maneira de evitar que coma esse tipo de alimentos é não tê-los no seu campo de visão. Não ter em prateleiras acessíveis e, principalmente, o próprio adulto não consumir à sua frente», aconselha Mafalda Navarro, acrescentando que «também é importante que os pais expliquem aos filhos que são alimentos nocivos que devem ser consumidos esporadicamente e que se não os dão todos os dias é porque estão a cuidar deles e a zelar pela sua saúde».

Texto: Paula Barroso com Alcina Rosa (psicóloga clínica) e Mafalda Navarro (psicóloga clínica)

 

 

Associação alemã apela: “Larguem os telemóveis e vigiem as crianças na água”

Agosto 20, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia da TSF de 15 de agosto de 2018.

Desde o início do ano houve 300 afogamentos na Alemanha, dos quais 20 envolveram crianças, e a Associação Alemã de Salva-Vidas (DLRG) diz que é urgente mudar hábitos para travar o aumento dos números. Aquela que é a maior organização do género a nível mundial estabelece mesmo uma ligação direta entre o número de crianças em risco na água e a distração dos pais com os telemóveis.

O caso mais recente aconteceu na semana passada, quando um menino de sete anos se afogou numa piscina da Baviera.

De acordo com o The Guardian, A DLRG lembra que as piscinas não são parques ou jardins-de-infância e aconselha os pais e avós a largarem os telemóveis e a reforçarem a vigilância.

O representante da organização, que conta com 40 mil salva-vidas voluntários em praias, piscinas e lagos da Alemanha, lamenta ainda a forma negligente como alguns adultos se comportam com as crianças hoje em dia.

Os nadadores salvadores culpam ainda o sistema escolar por não ter aulas de natação obrigatórias para os mais pequenos e lembram que os horários das famílias nem sempre são compatíveis com as aulas de natação dos filhos, o que aumenta o problema.

 

 

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