A geração de filhos que se sentem trocados pelo telemóvel

Agosto 12, 2019 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Texto e imagem do site Up to Kids

Telemóvel: Quando os pais o colocam à frente dos filhos

Só um segundo, filho! A mãe está só a acabar esta story e já falo contigo!”

Esta frase, que podia ser tirada de um cartoon, serve perfeitamente como alegoria a uma questão extremamente contemporânea que tem vindo a contaminar as relações entre pais e filhos. Cerca de 42% das crianças com idades entre 8 e 13 anos sentem-se trocadas pelo telemóvel dos pais. Esta é uma constatação do estudo Digital Diaries, realizado em junho por uma das maiores empresas globais de tecnologia de segurança.

Ficou surpreendido com os dados? Então leia o resto, porque não melhora.

O que diz o estudo?

Para este estudo a AVG entrevistou 6.117 pessoas de países como Austrália, Brasil, República Checa, França, Alemanha, Nova Zelândia, Reino Unido e Estados Unidos. Ou seja, o estudo reflete a realidade de pais e filhos de diferentes nacionalidades e culturas. Isto reforça o argumento de que o problema não é apenas reflexo do comportamento de um grupo específico de pessoas..

O estudo concluiu ainda que 54% das crianças reclamaram da frequência com que os seus pais olham para o telemóvel, especialmente enquanto conversam com elas.  Outra conclusão relevante: o sentimento de desprezo (32%) pela falta de concentração no diálogo, segundo informações do R7.

“Os meus pais estão sempre no telemóvel. Odeio o telefone e queria que nunca tivesse sido inventado”. Esta foi a declaração de uma criança após responder à simples pergunta da professora americana, Jen Adams: “Que invenção gostavas que nunca tivesse sido criada?”.

“Se eu tivesse que dizer qual a invenção que não gosto, diria que não gosto do telemóvel. Porque os meus pais estão sempre agarrados a ele. O telemóvel às vezes é um hábito muito mau. Eu odeio o telemóvel da minha mãe e gostava que não existisse. Essa é a invenção que eu não gosto”, respondeu um aluno do 2º ano de um colégio no estado de Louisiana, segundo a Crescer.

As idades e o desenvolvimento da criança

Donald W. Winnicott e Henri Paul H. Wallon, dois dos principais teóricos da aprendizagem, apontaram a relação mãe-bebé como um fator-chave para o sucesso do bom desenvolvimento cognitivo e emocional das crianças nos seus primeiros meses e anos de vida. O período que vai dos 0 aos 5 anos, para teóricos como Sigmund Freud, M. Klein, Lev Vygotsky, Jean Piaget, constitui uma fase crucial para esse desenvolvimento.

Não se trata apenas do desenvolvimento motor e cognitivo mas também do desenvolvimento emocional. Quanto mais segura afetivamente a criança se sente, melhor se torna a sua capacidade de superar adversidades e de encarar a vida. Para se desenvolver a criança absorve as referências que a rodeiam. Os pais são a sua maior referência. É com base no comportamento dos pais que a criança constrói a sua ideia de mundo, especialmente de relacionamentos.

A autoimagem da criança, isto é, a forma como se vê, também é reflexo da forma como os seus pais a tratam e se tratam mutuamente.

A falta de segurança e de referências na vida das crianças na geração atual tem produzido uma geração emocionalmente vulnerável, carente, insegura e ansiosa.

Crianças de 7, 10, 11 anos (período compatível com a evolução da internet) estão, cada vez mais, a apresentar problemas de ordem afetiva associados à falta de atenção dos pais. Isto afeta também a (falta de) disciplina.

Esta é a geração que nos últimos anos tem apresentado maiores índices de psicopatologias, suicídio, automutilação, depressão e “rebeldias”. Não é só a falta de referência dos pais, mas a substituição dela por outra qualquer, literalmente, já que diante da ausência da família, a criança procura encontrar-se no que o mundo lhe oferece de forma fácil e rápida.

E qual seria a solução?

É preciso que os pais e mães dediquem parte das suas vidas ao momento mais crucial da vida dos filhos. Falamos do período em que a personalidade se forma e as primeiras habilidades sociais se desenvolvem. Esta fase vai dos 0 aos 5 anos, sendo esse um período crítico, mas que se consolida até os 10/12 anos.

A partir da adolescência, já no início da puberdade (11/12 em diante), a lógica começa a inverter-se. Os filhos querem tornar-se mais independentes dos pais. É nessa fase que começam a “trocar” os pais pelos amigos. Isso é natural e necessário. É uma preparação para o mundo e algo contrário a isso não é um bom sinal.

Será nessa fase da adolescência que os seus filhos colocarão à prova toda a herança recebida durante a infância. Os que tiverem tido referências de segurança dificilmente deixarão para trás os conselhos dos pais. Aliás, antes pelo contrário, vão utilizá-los ao longo da vida. O bom vínculo parental construído até os primeiros 10/12 anos de relação servirá de âncora para toda a juventude.

Resumindo, vale a pena investir na atenção ao seu filho sem a presença da tecnologia. Até porque podemos estar no Facebook enquanto a criança dorme ou está distraída a ver bonecos animados. Porque ninguém é de ferro, certo?

Redação CONTI outra. Com informações do texto de Will R. Filho, em Opinião Crítica, adaptado por Up To Kids®

mais informações na notícia:

Kids Competing with Mobile Phones for Parents’ Attention

E se os telemóveis fossem proibidos nas escolas?

Julho 19, 2019 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Westend61Getty Images

Notícia da Visão de 28 de junho de 2019.

O ano passado, França proibiu o telemóvel nas escolas públicas. Agora, o estado de Victoria, na Austrália, decidiu fazer o mesmo. Em Portugal, várias instituições de ensino já adotaram regras semelhantes, mas também há escolas onde é utilizado para auxiliar a aprendizagem. Afinal, qual é a melhor opção?

Os estudantes de escolas públicas básicas e secundárias do estado australiano de Victoria vão ser proibidos de usar o telemóvel dentro dos estabelecimentos de ensino a partir de 2020. A medida foi implementada pelo ministro da educação James Merlino, numa tentativa de melhorar os resultados escolares, reduzindo as distrações e o ciberbullying.

Durante o período escolar, os estudantes devem desligar os telemóveis e colocá-los num cacifo, onde permanecerão até à hora de saída. Em caso de emergência, os pais devem passar a contactar a escola diretamente.

As únicas exceções à regra vão dar-se no caso de alunos que precisem do smartphone para monitorizar algum aspeto da sua saúde, ou quando algum professor quiser fazer uma atividade que requeira o uso do dispositivo.

A medida surgiu graças aos resultados observados na McKinnon Secondary College, que foi a primeira escola pública do estado a banir o uso de telemóvel e a reportar uma melhoria da concentração em sala de aula e da comunicação no recreio, por parte dos alunos. O parlamento francês já havia tomado a mesma decisão, em julho do ano passado.

Um estudo realizado pela Universidade de Chicago concluiu que a simples presença do telemóvel, mesmo quando não o estamos a utilizar, reduz a nossa capacidade de concentração. Os smartphones incentivam a conexão constante com outros, com entretenimento ou informação, pelo que é muito difícil “desligar”.

Essa é uma das razões pelas quais várias escolas proibiram a sua utilização. É o caso da Escola Básica António Alves Amorim, em Santa Maria da Feira, onde os telemóveis são recolhidos pelo professor, logo de manhã, e devolvidos no final do dia.

Contudo, os telemóveis não são completamente proibidos em contexto de sala de aula. Tal como acontecerá no estado australiano de Victoria, um professor pode decidir permitir o uso dos telemóveis para fins pedagógicos.

Jorge Ascenção, presidente da Confederação Nacional de Associações de Pais (CONFAP), concorda que os dispositivos de comunicação possam ser autorizados “dentro da sala para auxiliar as aprendizagens”.

No entanto, é fundamental que “haja liderança, para eles poderem ser utilizados com regras”. Na escola de Lourosa, antes da proibição, os alunos filmavam as aulas ou uns aos outros nos balneários. Esses vídeos eram depois publicados nas redes sociais, originando casos de ciberbullying e problemas disciplinares.

Para Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos Escolas Públicas, a melhor solução para o ciberbullying é educar os alunos para o problema, porque “não é só nas escolas, é um fenómeno global”. Na sua opinião, “a escola pública faz isso bastante bem”, convidando a Escola Segura para dar formação aos alunos sobre o tema. “A escola pública está muito preocupada com esse fenómeno e faz o seu trabalho”, afirma.

Existe ainda o problema da falta de socialização entre as crianças, que passam muito tempo no telemóvel durante o intervalo em vez de brincarem ou conviverem, atividades fundamentais para o seu desenvolvimento. Nesse caso, “faz sentido limitar o uso do telemóvel no recreio”, afirma o presidente da CONFAP. No entanto, “é preciso explorar isso de forma pedagógica”, “explicando [às crianças] as razões e as vantagens que eles próprios terão”. Até porque, recorda Filinto Lima, os problemas de socialização também acontecem em contexto familiar.

“Dar um celular para uma criança de 5 anos é um crime”

Julho 18, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia e imagem do Época Negócios de 31 de agosto de 2018.

Sharon Thomas, psicóloga especializada em educação, defende que pais e escolas têm o dever de estabelecer limites aos filhos no uso da tecnologia.

Saber escolher a idade e o momento para dar um celular ao filho envolve analisar duas questões. É preciso, previamente, saber qual função o aparelho desempenhará na vida da criança. Em paralelo, exige analisar o comportamento do filho e seu entendimento sobre limitações e privações.

Este é o conselho de Sharon Thomas, psicóloga especializada em educação com formação na Georgetown University, na Universidade de Londres e no Hunter College. Nascida no Brasil, mas vivendo nos Estados Unidos desde os 11 anos, Sharon fundou em Nova York o Centro de Educação e Recursos MAIA. Seu trabalho é orientar pais, escolas e professores sobre desenvolvimento acadêmico, déficits de aprendizado e, entre outros fatores, analisar a efetividade da tecnologia dentro e fora da sala da aula.

“Hoje, o celular virou um bem que as pessoas acham que devem ter porque todo mundo tem”, afirma Sharon em entrevista à Época NEGÓCIOS. “Muitos pais me falam: ‘Minha filha tem 5 anos, a amiguinha tem um celular já e ela quer também’, mas eu acho um crime dar um celular para uma criança de 5 anos. Nesta idade, ela não desenvolveu as habilidades básicas.”

As habilidades às quais Sharon refere-se são denominadas nos Estados Unidos como function executives. “Parece papo de CEO, mas a metodologia das escolas americanas é estruturada com base em funções desenvolvidas no lobo dos cérebros e são essenciais para tudo que fazemos em nossas vidas”, afirma. Entre essas funções executivas, estão a capacidade de planejamento, estabelecimento de metas no longo prazo, iniciativa para tomada de decisões e flexibilidade comportamental.

“Nos EUA, as escolas tentam entender como a tecnologia está afetando ou beneficiando o desenvolvimento dessas funções executivas. Às vezes, uma nova tecnologia entrega um aprendizado tão rápido, que dificulta que as pessoas foquem, absorvam e se aprofundarem no conhecimento. Parece que virou tudo bullet point”, diz.

As funções executivas, segundo Sharon, demoram de 25 a 32 anos para serem desenvolvidas por completo – por esta razão, diz a especialista, “seria irrealístico esperar que crianças e jovens consigam se automonitorar e impor os limites sobre o uso da tecnologia”. No caso da criança de cinco anos, um celular não teria a função prática (“uma criança nesta idade não fica sem supervisão”) e poderia expô-la a situações inseguras (“com quem ela vai começar a conversar?”). “A idade certa para dar um celular varia de pessoa para pessoa, mas é preciso entender o motivo dele ser necessário. Eu não daria para um adolescente só ‘porque todo mundo tem’. A função dos pais também é saber dizer não”, diz.

Sharon defende que é preciso celebrar os benefícios que a tecnologia proporciona, em termos de conhecimento e comunicação, mas é preciso monitorá-la para não criar vícios, desânimo e até comprometer o desenvolvimento dos filhos. “Muitos pais me procuram dizendo que seus filhos estão desanimados e indo mal na escola. Vamos analisar a rotina deles e vemos que eles passam grande parte do dia no quarto conectados, socializando com várias pessoas e, depois de várias horas, ficam exausto e ‘sem tempo'”.

Sharon recomenda que os pais mostrem aos filhos os benefícios da internet e as limitações do mundo virtual. “A vida online só aponta para tudo que é maravilhoso em geral. E, no caso de uma adolescente que está lutando para criar uma identidade diferente das dos pais, seu uso excessivo pode se tornar uma pressão e virar até bullying”, diz.

Um outro aspecto a trabalhar nesta relação, segundo Sharon, é dar o exemplo. “Uma das coisas ruins que a tecnologia trouxe para os adultos foi esse fácil acesso a todos o tempo todo. Eles se sentem impelidos a responder rapidamente a todos. E aí ocorre que ficamos o tempo todo online. Mas precisamos criar limites para nós mesmos. Do contrário, os filhos vão falar: você não quer que eu use o iPad, mas olha você conectado o tempo todo”, diz.

Do lado das escolas, Sharon diz que as instituições possuem a responsabilidade de entender se a tecnologia levada para a sala de aula está, de fato, ajudando no desenvolvimento dos alunos. E fazer intervenções, para garantir que não está desenvolvendo um aprendizado mais profundo e eficaz. É uma missão difícil, diz, porque o que vende hoje no mundo da educação é “tecnologia” e qualquer escola nova irá ser construída em torno de alguma novidade de mercado. “Vemos muitas escolas enchendo salas de iPads e novas ferramentas tecnológicas, mas sabemos que o nosso aprendizado não depende apenas de conseguirmos uma informação. Mas, de como sabemos usar essa informação de forma relevante.”

Na Austrália também vão começar a ser proibidos os telemóveis nas escolas

Julho 10, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Expresso de 25 de junho de 2019.

Estado australiano de Victoria vai aplicar a medida já em 2020. Objetivo é o de combater a distração e o ciberbullying nas escolas.

O ministro da Educação do estado de Victoria, James Merlino, anunciou esta segunda-feira que os telemóveis passarão a ser proibidos em todas as escolas públicas básicas e secundárias já no próximo ano letivo.

O objetivo é aumentar a concentração dos alunos e combater o cyberbullying no interior da comunidade escolar. Embora reconheça que a medida possa não ser bem recebida pelos estudantes e encarregados de educação, o governante insistiu que será vital também para aumentar o sucesso escolar.

“Os telemóveis dos alunos estarão proibidos desde o primeiro toque da campainha para entrar nas aulas até ao toque de saída”, afirmou James Merlino em conferência de imprensa.

Antes de começaram as aulas, os estudantes do ensino público de Victoria deverão assim guardar os seus telemóveis nos seus cacifos da escola, não estando autorizados a ir buscá-los nos intervalos ou na hora de almoço. Em casos de emergência, os pais e/ou encarregados de Educação deverão contactar a escola para entrarem em contacto com os estudantes.

As únicas exceções dizem respeito aos alunos que utilizam os telemóveis para controlarem problemas de saúde, ou quando os professores solicitam excecionalmente a utilização numa aula para uma atividade curricular.

O ministro da Educação de Victoria garantiu ainda que as escolas públicas do estado continuarão a apostar na literacia digital, através da utilização de outras tecnologias nas aulas. Apesar de a medida dizer respeito apenas ao ensino público, algumas escolas privadas daquele estado australiano já se manifestaram disponíveis também para aplicar a restrição.

No ano passado, o governo francês anunciou também a proibição dos telemóveis nas escolas públicas do ensino básico e secundário a partir do atual ano letivo (2018/2019). A medida foi aprovada a 7 de junho na Assembleia Nacional.

Cada vez mais jovens e dependentes

Julho 6, 2019 às 6:15 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Photo by Tim Gouw on Unsplash

Notícia do Correio da Manhã de 26 de maio de 2019.

Vanessa Fidalgo

Os telemóveis são o novo melhor amigo, mas, em excesso, causam transtornos.

Os telemóveis vieram para ficar na vida das famílias portuguesas e o estar constantemente ligado é uma realidade à qual já nem os mais pequenos escapam. O aparelhinho de uso pessoal com mil e uma utilizações divide opiniões mas, sobretudo, tem tendência para fugir ao controlo paternal e às recomendações dos pediatras.

Segundo um estudo da Entidade Reguladora da Comunicação Social (ERC), uma em cada cinco crianças portuguesas entre os três e os oito anos têm telemóvel e metade são smartphones. Mas subindo um pouco a fasquia da idade, o telemóvel mostra-se incontornável. Segundo o Barómetro de Telecomunicações da Marktest, no primeiro trimestre de 2018 83% das crianças portuguesas entre os 10 e os 12 anos tinham telemóvel, número que passa para os 97% se considerarmos os jovens entre os 13 e os 17 anos.

De acordo com o estudo ‘Happy Kids: Aplicações Seguras e Benéficas para Crianças’, publicado pela Universidade Católica Portuguesa no ano passado, os pais são os primeiros a passar os dispositivos eletrónicos para as mãos dos filhos, tornando-os uma espécie de babysitter eletrónica para quando é preciso ‘trabalhar em casa’ ou manter ‘os miúdos calmos no restaurante’ – foram as principais razões apontadas. E os que mais usam aplicações são os que têm entre zero e os dois anos.

Berta Pinto Ferreira, pedopsiquiatra, lembra que a Sociedade Portuguesa de Pediatria não recomenda o uso de telemóveis por crianças com menos de 2 a 3 anos, mas o que lhe chega ao consultório é bem diferente. “Começam mais cedo e passam cada vez tempo a mais a brincar com eles nessa ou em idades mais avançadas, segundo nos dizem as consultas e os estudos mais recentes”. Por um lado porque as próprios pais “estão agarrados ao telemóvel”, por outro pela própria “necessidade de os manterem mais sossegados porque estão cansados, porque têm de trabalhar, fazer coisas, etc”.

Mas as consequências não se fazem demorar e manifestam a vários níveis. “Há estudos que apontam para trasos no desenvolvimento da linguagem, que se desenvolve em contacto com o outro e os telemóveis, obviamente, não nos respondem. Depois tem impacto na empatia (que também se desenvolve com o outro), no sono, na obesidade porque é uma atividade sedentária e, por último, a consequência final é a dependência”, avisa. A

Mas os telemóveis são “muito mais apelativos que um livro, atrativos e, se forem usados de forma acompanhada, como ferramenta de aprendizagem, recorrendo a alguns jogos educativos, até podem desenvolver algumas capacidades cognitivas e contribuir para a aprendizagem”, reconhece. E até mesmo em termos de socialização também têm as suas vantagens: “muitos miúdos levam-nos para a escola para ouvir a mesma música juntos. Isso é bom”.

O problema é o tempo que se passa a interagir só com eles. Segundo um estudo exploratório feito pelo Centro da Criança e do Adolescente do Hospital CUF Descobertas publicado em Março deste ano pela revista ‘Acta Médica Portuguesa’: 3,9% das crianças inquiridas revelaram comportamentos típicos de dependência e um terço (33,3%) foram consideradas em risco.

“Chegam-nos adolescentes com sinais claros de dependência, que muitas vezes estão até às duas ou três da manhã no telemóvel, com claro impacto psicológico: além de cansaço, trazem perturbações de ansiedade e depressivas. Por outro lado, atualmente, ninguém desliga os telemóveis, estamos disponíveis 24 horas por dia não vá alguém querem falar connosco a qualquer hora, e isso também cria stress. E há situações de dependência que têm de ser tratadas como tal”, frisa Berta Pinto Ferreira que apela “à sensibilidade dos pais” e ao “devido acompanhamento”.

João, de nove anos, e Afonso, de oito, usam o tablete desde o primeiro ano de vida, para ver vídeos, desenhos animados e jogar. Mas o telemóvel chegou lá a casa causado por outras vicissitudes. “Quando eu e o pai nos separámos, há um ano, demos-lhes os telemóveis para podermos falar com eles quando estivessem na casa do outro. No início serviu para isso, para trocar aquela mensagem de despedida, antes de deitar. Agora eles usam-no mais para os vídeos e para falar no grupo dos colegas de turma do WhatsApp”, afirma Tânia Parreiras, a mãe, de 36 anos. Mas, por vezes, também se esquecem dele desligado ou sem bateria “durante dias e dias a fio” e preferem ir fazer outras coisas, concretamente, jogar futebol. Tânia, reconhece, no entanto, que há muito que o pediam: “Talvez desde os cinco, seis anos, sobretudo o João”.

A mãe controla o que veem no You Tube através do histórico, pois os garotos usam a conta de Tânia para aceder. “Redes sociais ainda não têm e não sei muito bem como vou reagir quando acontecer. Uma coisa é certa: vou controlar”, garante. O mesmo acontece em alturas de testes e trabalhos de casa. “Os aparelhos ficam longe”, frisa. Mas vão em alturas de férias e passeio:” talvez porque nós, os pais, quando estamos mais cansados ou precisamos de fazer tarefas. Quando eles eram pequenos levavam sempre o tablet para ir a um restaurante”.

Luísa Januário, 42 anos e três filhas. Ana Carolina, de 10 anos, Catarina, de 17 e Alexandra de 19. Tiveram o seu primeiro telemóvel por volta dos dez anos. A mãe reconhece no entanto, que “entre a mais velha e a mais nova, houve diferenças geracionais”.

O de Ana Carolina chegou há poucos meses, comprado com o seu próprio dinheiro, amealhado das mesadas e prendas de aniversário. “Desde pequena, dos quatro ou cinco anos, que quer mexer no meu ou no das irmãs”. Usa-o essencialmente para “jogar, ver vídeos e conversar no Whatsapp com os colegas de turma, onde já quase todos têm também telemóvel. “Também tem Instagram, foram as irmãs que lhe criaram, mas sou eu que tenho a password”, diz a mãe.

Na escola primária, onde frequenta o 4º ano, os telemóveis só saem da mochila à hora do recreio. O que não a deixa propriamente feliz: “antes brincávamos mais, agora parece que o recreio perdeu a piada porque está tudo sentado nos telemóveis!”, lamenta Ana Carolina.

Para a mãe, são um mal necessário: “Sobretudo em relação às mais velhas, para saber onde e como estão. Mas acho que não devemos proibir porque o fruto proibido é sempre o mais apetecido”. Por isso, há regras bem definidas, até porque Ana Carolina, além da escola, tem outros deveres: estuda no conservatório nacional de música e toca percussão numa banda filarmónica. “Durante a semana, não há telemóvel. E aí sim, está um bocadinho de manhã, depois mais um bocadinho à tarde. Mas tem tempo para tudo: trabalhos de casa, música, brincar e telemóvel”, diz Luísa, que reconhece que muitas vezes os pais facilitam, “nem tanto por pressão dos miúdos mas porque o tempo é pouco e é preciso entretê-los com qualquer coisa”. Luísa já usou o argumento de tirar o telemóvel como castigo: “por não estarem a fazer o que deviam”. E resultou.

Lá em casa, é Catarina, de 17 anos, que passa mais tempo agarrada ao aparelho. Tanto que às vezes se sente farta. “É verdade que ás vezes deixo os trabalhos de casa e outras coisa para depois para estar no telemóvel e fico horas a mais do que devia. Mas às vezes também fico farta e até sinto que preciso de fazer um ‘detoux’.

Os crimes do teclado
Tito de Morais, fundador do projeto MiudosSegurosNa.Net, alerta para o facto destes dispositivos promoverem a “constante busca por atenção e estímulo da superficialidade através a comparação social em detrimento da   profundidade”.

Ao parecer ‘versus’ ser juntam-se os riscos físicos: “o cyberbullying e os outros riscos potenciais, resultantes da
exposição potencial a conteúdos impróprios, contactos e comunicação com terceiros – conhecidos ou desconhecidos – riscos associados a práticas comerciais e publicitárias não-éticas e, sobretudo, à datificação das crianças”. Ou seja, a divulgação de dados pessoais que possam por a sua integridade em risco.

Aos pais cabe uma tarefa com nome feio: controlar. “O que é mais difícil por ser um dispositivo privado, móvel, e de bolso. No entanto, os principais sistemas operativos disponibilizem ferramentas de controlo parental e existem no mercado ferramentas especializadas neste tipo de tarefas que podem facilitar a vida aos pais”, explica o especialista em segurança na internet Tito de Morais.

O recreio já é digital
Às escolas, os telemóveis também já vieram para ficar. O recreio, por natureza, é uma altura livre, que os alunos ocupam da forma que pretenderem, durante a qual – segundo o Estatuto do Aluno – o uso de telemóveis e outros dispositivos tecnológicos dentro do recinto escolar só é permitido com autorização da direção da escola ou do   professor. “Os limites estão portanto definidos. A questão é da vontade em os fazer ou não fazer cumprir. Pessoalmente, não me parece que a proibição seja a solução. Alias veja-se a situação presentemente. Se as crianças passam os intervalos ocupadas a olhar para os ecrãs, a culpa é nossa, porque como adultos não lhes arranjarmos alternativas mais interessantes para ocuparem o seu tempo. Às tantas, são animadores desportivos, artísticos e culturais nos intervalos. Às tantas, o que falta não é ser mais rígidos e impor limites, às tantas o que falta é ensinar as crianças a brincar”, sugere Tito de Morais.

Mas é também na escola que os professores mais sentem os efeitos dos telemóveis. Judite Esteves, professora na EB 2,3 Cardoso Lopes, na Amadora, nunca teve conhecimento na sua escola de um crime de cyberbullying mas já presenciou autênticos dramas quando há um aparelho “apreendido, perdido ou roubado”.

“Sente-se nos jovens o desgosto de ficar incomunicável aliado ao medo da reação dos encarregados de educação. É principalmente nestas situações que constatamos o nível exagerado de dependência”, constata. Na Cardoso Lopes, as regras estão bem definidas: É obrigatório todos os alunos depositarem o aparelho, devidamente desligado, em bolsas numeradas que existem à entrada de todas as salas de aula.

Mas aos intervalos, pelos ecrãs que os seus olhos espreitam e somam de soslaio, não deverá andar “muito longe da verdadeira percentagem” se considerasse que cerca de 90 por cento dos alunos têm telemóvel e alguns têm mais do que um…

“Tanto é usado para comunicar como para jogar. Sem dados concretos, a sensação que tenho é que as raparigas o utilizam mais para comunicar nas redes sociais e os rapazes para jogar”, calcula.

Mas o que mais constatam os professores é o nível de dependência. “O telemóvel tornou-se um objeto de extrema importância na vida da maioria das pessoas. Dificilmente poderia ser diferente a relação com um utensílio que reúne tecnologias que permitem telefonar, enviar mensagens, aceder a sites, redes sociais, vídeos, jogar, pesquisar, fotografar e certamente muito mais… Possivelmente qualquer um dos meus alunos poderia juntar ainda outras funções que desconheço. Quando uma criança tem acesso a um instrumento desta dimensão e aprende a manuseá-lo o caminho para a dependência está aberto. Uns utilizam-no de forma moderada e saudável, outros servem-se dele para ações que poderão ser consideradas prejudiciais, não só para si mas muitas vezes para os outros. Causando muitas vezes situações de indisciplina que são alvo de sanções”.

Por isso, equilíbrio e bons exemplos são precisos, avisa a professora: “O bom senso é geralmente o melhor caminho. Mas uma coisa é certa, não só os encarregados de educação, mas também a escola têm que aceitar, acompanhar os avanços tecnológicos e usufruir e deixar usufruir de tudo que há de positivo nestes avanços”.

Novos ossos estão a crescer nos crânios dos jovens devido ao uso excessivo do telemóvel

Junho 29, 2019 às 8:20 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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David Shahar e Mark Sayers – Scientific Reports

Notícia da RTP Notícias de 21 de junho de 2019.

As novas tecnologias mudaram, indubitavelmente, a nossa forma de vida. Sabemos que os novos dispositivos eletrónicos alteraram a forma como comunicamos, como trabalhamos, como vivemos. Revolucionou a forma como aprendemos, assim como expandiu a quantidade de informação disponível, anteriormente mais limitada.

Hoje, não nos imaginamos a viver sem elas. Mas sabemos também agora que estas novas tecnologias, em particular os telemóveis, estão também a transformar o corpo humano.

Era já conhecido que os telemóveis afetam a saúde ocular. Também a coluna e até o cérebro. Mas não sabíamos que poderia afetar o nosso crânio, nem se imaginava que novos ossos poderiam crescer com a utlização em excesso destes aparelhos.

Um estudo feito pelos investigadores australianos David Shahar e Mark Sayers, da Universidade de Queensland, analisou os crânios de mais de mil pessoas, com idades compreendidas entre os 18 e os 86 anos. Concluíram que 400 pessoas, sobretudo os mais jovens, tinham tido um crescimento de ossos na base dos crânios, o que dizem ser uma mudança corporal provocada pelo uso crescente da tecnologia moderna.

A investigação concluiu que as pessoas (sobretudo os jovens) estão a desenvolver “uma exostose proeminente, que emana da protuberância occipital externa”. Ou seja, esporões ósseos estão a formar-se na parte de trás do crânio. São pequenos crescimentos ósseos que podem formar-se na extremidade dos ossos e que ocorrem quando uma inflamação danifica a cartilagem e o corpo tenta reparar o dano, fazendo crescer mais osso. Durante o estudo, os autores encontraram esporões ósseos cujo tamanho variava entre os 10 e os 31 milímetros.

Os investigadores afirmam que a inclinação frontal da cabeça, ao deslocar o peso da coluna para os músculos da cabeça, provoca um crescimento ósseo nas ligações dos tendões e ligamentos. Assim, acreditam que os dispositivos eletrónicos, em particular os telemóveis, estão na origem do problema.

Quais são as possíveis consequências?

O que reserva o futuro para os jovens adultos que desenvolvem, como referem os autores, “um processo degenerativo (…) num estágio tão inicial das suas vidas”?

Shahar acredita que esta formação óssea pode conduzir a uma deformidade grave na postura, que, por sua vez, pode provocar dores no pescoço, nas costas, e dores de cabeça crónicas. Alguns esporões ósseos podem também requerer tratamento, conforme o tamanho e a gravidade.

O cirurgião ortopédico David Geier afirma no entanto que este problema pode ser prevenido. “As pessoas que estão preocupadas com isto podem começar a trabalhar com um fisioterapeuta para aprender exercícios para fortalecer os músculos que ajudam com a sua postura”, disse à NBC News.

E acrescenta que há pequenas mudanças que podem ajudar, como “colocar almofadas por baixo dos computadores e segurar no telemóvel ou no tablet um pouco mais acima”.

Estudo levanta dúvidas

Este estudo tem recebido críticas distintas, tendo sido apoiado por vários especialistas e rejeitado por outros.

Alguns afirmam que o trabalho é baseado em raios-x antigos, não tem um grupo de controlo, e não consegue provar a causalidade. Além disso, as pessoas que participaram no estudo tinham-se especificamente queixado de dores no pescoço e procuraram um médico, o que significa que não é claro como os resultados se aplicam ao resto da população.

David Langer, diretor de neurocirurgia no Hospital Lenox Hill, disse ao The New York Times que “é mais provável ter uma doença degenerativa dos discos ou desalinhamento do pescoço do que um esporão ósseo a crescer no crânio”.

Este verão, na praia, no rio ou na piscina, ignore o telemóvel. Não ignore a criança

Junho 24, 2019 às 12:30 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Spots de rádio no SoundClound:

– Spot 1:

https://soundcloud.com/tito-de-morais/sets/campanha-de-prevencao-do-afogamento-infantil-spot-1

– Spot 2:
https://soundcloud.com/tito-de-morais/campanha-de-prevencao-do-afogamento-infantil-spot2

Eu parti o telemóvel

Maio 2, 2019 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Carmo machado  publicado na Visão de 15 de abril de 2019.

Muitos dos nossos alunos estão na escola porque é obrigatório. Não têm escapatória. Podem tirar-lhes tudo, dentro da escola, e eles não reagirão. Tentem tirar-lhes o telemóvel e virá a mãe e o pai e a tia a exigir a sua devolução imediata. Preparem-se até para ser agredidos, se necessário for. Por favor, mas não lhe tirem o telemóvel! Se têm dúvidas, tentem!

Nunca imaginei fazer esta afirmação. Hoje, porém, após muita reflexão e em plena interrupção letiva de Páscoa, assumo que sonho com uma escola sem internet e com alunos sem telemóveis. Pronto, já disse. Hesitei várias vezes antes de escrever isto mas, por vezes, as decisões são como os precipícios. A gente atira-se por ali a baixo e deixa de haver lugar para arrependimento…

Ando há vários meses a observar os alunos dentro e fora das aulas, sobretudo nos intervalos. Sofrem, quase todos, de nomofobia (fobia causada pelo desconforto ou angústia resultante da incapacidade de acesso à comunicação através de aparelhos celulares ou computadores). De facto, assim que dá o toque de saída, os alunos na sua maioria limitam-se a ligar o telemóvel e ali ficam, presos ao ecrã. Antes, saíam para os pátios, iam à sala de convívio, jogavam, cantavam, namoravam, sei lá… Agora, limitam-se simplesmente a olhar para o ecrã do telemóvel, que para eles parece ser tão importante como os seus próprios pulmões. Passei há dias por um corredor onde estavam, sem exagero absolutamente nenhum, mais de quinze alunos solitários – como se de ilhas se tratassem – agarrados ao ecrã. Falo de uma escola. De um espaço de socialização por excelência. De descoberta. De partilha. De confronto. Mas não! Aquilo que observo diariamente (e garanto-vos que estou atenta) é preocupante. Os alunos passeiam pela escola de telemóvel na mão e auscultadores nos ouvidos. Julgo mesmo que nada do que ali se passa lhes interessa. Muitos dos nossos alunos, especialmente nos cursos profissionais (experiência própria), estão na escola porque é obrigatório. Não têm escapatória. Podem tirar-lhes tudo, dentro da escola, e eles não reagirão. Tentem tirar-lhes o telemóvel e virá a mãe e o pai e a tia a exigir a sua devolução imediata. Preparem-se até para ser agredidos, se necessário for. Por favor, mas não lhe tirem o telemóvel! Se têm dúvidas, tentem!

A internet veio para ficar e eu própria, tanto na minha vida pessoal como profissional, já não saberia viver sem ela. Porém, analiso as horas que literalmente perco, agarrada aos motores de pesquisa, e tenho dias em que quase me esqueço de abrir um livro. Quando isto acontece, sinto-me culpada e prometo a mim própria controlar o tempo gasto com o uso da tecnologia. Chego a ter vontade de partir o telemóvel… Mas até que ponto isto acontece com as nossas crianças e os nossos jovens, que dele fazem uma utilização livre na maior parte das vezes, sem qualquer controlo parental?

Dentro da sala, utilizo cada vez menos a internet. Infelizmente, quando esta me é necessária, ou não está disponível ou os equipamentos (quase obsoletos) não funcionam. Já me preocupei mais, confesso! Quando isto acontece (quase sempre), a alternativa encontrada para colmatar a falta da ligação à rede acaba por revelar-se muito mais criativa e interativa. É nestas situações que a verdadeira comunicação acontece, a partilha de ideias ocorre e a aprendizagem se desenvolve. Talvez por isto tenha andado a pesquisar o fenómeno Waldorf.

O colégio Waldorf, localizado na Califórnia, foi criado em 1984 por pais e encarregados de educação preocupados com a necessidade de a escola ensinar numa perspetiva global, holística, ajudando os alunos no seu desenvolvimento como indivíduos totais, em termos cognitivos mas também emocionais e motivacionais. Aspeto importante: nesta escola não há computadores. E, interessante analisar porquê, é exatamente para esta escola privada que muitos cérebros de Silicon Valley (funcionários da Google, da Apple e de outras empresas de ponta) enviam os seus filhos. Esta nova tendência – a desconexão – pode ser o futuro do ensino. Voltar às raízes, à essência, à valorização dos sentidos, das emoções, dos espaços, dos afetos…

As escolas estão equipadas com computadores mas o uso que deles se faz nem sempre é produtivo. O computador é apenas uma ferramenta, como muitas outras. E, de facto, como afirma um pai de um aluno a frequentar Waldorf, aquele que só tem um martelo acha que todos os problemas são pregos. Por outro lado, o uso permanente do telemóvel com ligação à internet (entrando os alunos em absoluto estado de nervos quando não têm ligação à rede ou quando esgotam o seu pacote de dados) é a forma mais consistente de distração, de ocupação dos tempos livres e de socialização destas novas gerações.

Sonho com uma escola desconetada. Com alunos sem telemóvel. Com professores capazes de dar uma boa aula sem a bengala da tecnologia. Lembram-se? O luxo, numa escola de futuro, passará por cada aluno possuir uma árvore e estar desligado da internet.

 

Como educar uma geração digital com tanta dificuldade para se concentrar?

Abril 20, 2019 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia da G1globo de 3 de abril de 2019.

Se os celulares e novas mídias estão prejudicando a capacidade dos estudantes de prestar atenção, como os professores podem mudar seus métodos de ensino para ensinar as habilidades de que eles precisam?

Os estudantes de hoje têm de lidar com um problema – e ele não está escrito no quadro negro. Eles estão tão acostumados a constantes estímulos de aplicativos de smartphone e plataformas de streaming que não conseguem se concentrar na aula.

As gerações Z (idades entre 10 e 24 anos) e alpha (até 9 anos de idade) nasceram em um mundo onde os algoritmos os mantêm clicando e navegando em um ritmo frenético.

Agora, os professores também têm um problema. Como você adapta o currículo escolar para estudantes criados em meio à tecnologia? E isso pode comprometer a educação tradicional?

O desenvolvimento inicial do cérebro é um assunto complexo, mas, nos últimos anos, pesquisadores em todo o mundo manifestaram preocupações sobre o impacto que smartphones e o hábito de consumir diferentes mídias simultaneamente podem ter sobre a capacidade de concentração.

Os professores também já notaram isso. “É um problema. Para começar, o adolescente médio só consegue prestar atenção por cerca de 28 segundos”, diz Laura Schad, que dá aulas para alunos de 12 a 14 anos na Filadélfia, nos Estados Unidos.

Ela diz que, embora os smartphones tenham afetado claramente os cérebros em pleno desenvolvimento de seus alunos, falta treinamento para lidar com a questão: como a educação deve evoluir para atender alunos que são nativos digitais não foi algo tratado em sua formação profissional, por exemplo.

Os efeitos da tecnologia ficam mais claros em uma das atividades escolares mais tradicionais, a leitura, especialmente quando as crianças migram das mídias digitais baseadas em texto para aplicativos repletos de imagens como Instagram e Snapchat.

“Hoje, os alunos parecem achar especialmente exaustivo ler textos complexos ou longos sem fazer pausas constantes. No passado, os alunos pareciam estar acostumados a se dedicar a um texto por um longo período de tempo”, diz Erica Swift, professora do 6º ano de uma escola de Sacramento, nos Estados Unidos. “Você percebe a falta de resistência deles, ao pedir intervalos de descanso ou ao conversar com os colegas em vez de estudar. Alguns até mesmo desistem por completo de leituras mais longas.”

Simplesmente transferir o texto para um aparelho eletrônico não ajuda, o que indica que o problema é mais complexo do que uma simples preferência pelas telas em detrimento de algo impresso em papel.

Taylor explica que o ato de prestar atenção não só tem um valor inerente, mas funciona como porta de entrada para formas mais profundas de aprendizado – especialmente em termos de memória.

A sala de aula do futuro

Se os alunos não parecem prestar atenção por longos períodos, muitos professores simplesmente dividem as lições em partes menores. Gail Desler, especialista em integração tecnológica do distrito escolar de Elk Grove, onde fica a escola de Swift, diz: “Uma ideia comum entre os professores é que algo mais curto é melhor”.

Desler também dá como exemplo professores que iniciam as aulas com exercícios de atenção plena ou de meditação quando os alunos precisam se concentrar.

Uma professora do ensino médio em Salinas, nos Estados Unidos, usa o aplicativo Calm para ajudar os alunos a meditar, mas um estudo de 2013 indicou que qualquer tipo de “intervalo de descanso da tecnologia” pode combater a ansiedade por realizar múltiplas coisas ao mesmo tempo.

Alguns professores também escolhem “ir ao encontro dos alunos” em plataformas como o YouTube e o Instagram. Asha Choksi, vice-presidente de pesquisa global da editora educacional Pearson, dá o exemplo de um professor que filma a si mesmo realizando um experimento científico, publica no YouTube e usa o vídeo na aula para ilustrar o material no livro didático, que pode ser visto como algo chato para os alunos.

Da mesma forma, Schad busca manter os alunos dedicados às tarefas por meio de lembretes no Instagram sobre o dever de casa e as próximas atividades.

Estes recursos podem manter os alunos atentos quando refletem seus interesses. Desler elogia professores que fazem coisas como relacionar a história da propaganda nazista ao cyberbullying.

“Trata-se de introduzir informações relevantes em um currículo obrigatório, de maneira que os alunos se vejam refletidos no que é ensinado”, diz ela. “Ao fazer conexões com coisas que estão acontecendo aqui e agora, você entra no mundo deles e os envolve.”

Adaptação à nova realidade

Enquanto isso, plataformas especializadas de aprendizado como o Flipgrid, que permite aos alunos compartilhar vídeos de si mesmos fazendo apresentações, ajudam os professores a envolver os alunos usando as mídias que eles estão acostumados a usar.

Um estudo de 2018 da Pearson descobriu que os alunos da geração Z evitam livros e apontam vídeos como sua fonte preferida de informações, atrás apenas dos próprios professores. Ao se inserir nos meios dos quais as crianças já participam e com os quais criam, os professores podem captar melhor sua atenção.

Alguns distritos escolares já migraram digitalmente para plataformas como o Google Classroom, que permite que alunos e pais monitorem notas e tarefas futuras e acompanhem o desempenho dos estudantes para entender melhor no que eles estão deixando a desejar.

A tecnologia pode até mesmo ajudar a reparar danos causados ​​à habilidade de leitura. Schad diz que, em sua escola na Filadélfia, os professores usam computadores lidar com as dificuldades apresentadas pelos estudantes. A plataforma de leitura da escola, a Lexia, adota elementos de videogames para estimular a participação.

O programa também separa automaticamente os alunos com base no seu desempenho, oferecendo aos alunos mais bem sucedidos tarefas mais avançadas no mundo real e exercícios digitais extras para aqueles com mais dificuldades, até que aprendam totalmente a lição. Essa abordagem personalizada ajuda a lidar com as diferentes formas como estudantes são afetados pela tecnologia.

Os Estados Unidos são líderes globais em tecnologia educacional, com empresas de tecnologia de ponta recebendo US$ 1,45 bilhão (R$ 5,7 bilhões) em investimentos em 2018.

Mas empresas como a Flipgrid e a Lexia terão cada vez mais concorrência vinda do exterior. A indústria de tecnologias para educação no leste da Ásia está crescendo, conforme plataformas americanas como a Knewton se expandem internacionalmente e geram um crescente interesse global em adaptar as salas de aula para estudantes que são nativos digitais.

Uma forma de ‘aprendizado misto’

Ainda assim, enquanto alguns educadores estão adotando a tecnologia em sala de aula, vários estudos mostraram que salas de aula tradicionais podem ter mais sucesso.

Um estudo de 2015 da London School of Economics mostrou que os resultados do teste GCSE, que avalia estudantes do ensino médio no Reino Unido, melhoraram quando escolas de Birmingham, Londres, Leicester e Manchester proibiram os celulares em sala de aula.

O professor de neurociência William Klemm, autor de The Learning Skills Cycle (O Ciclo de Habilidades de Aprendizado, em tradução livre), destaca um estudo de 2014 que apontou que anotações à mão ajudam alunos a reter mais informações em comparação com o uso de um computador.

Klemm também aponta que dividir lições em partes menores pode ser prejudicial, porque isso pode impedir que os alunos tenham uma compreensão mais ampla do que é ensinado. Ele diz que os estudantes precisam de tempo para se envolver com um tema.

Até mesmo educadores que veem com bons olhos o uso da tecnologia acreditam que os métodos tradicionais têm seu valor e sugerem uma abordagem de “aprendizagem mista”.

“Tenho visto muita discussão entre acadêmicos nos últimos anos sobre se o formato de palestra é algo do passado e que deve ser extinto”, diz Katie Davis, professora da Escola de Informação da Universidade de Washington, nos Estados Unidos.

“Acho que isso se resume a se você acredita que existem habilidades valiosas envolvidas no processo de acompanhar um argumento complexo que é apresentado linearmente em tempo real.”

Enquanto Davis admite que as novas mídias poderiam ajudar a desenvolver habilidades importantes, ela ainda acredita que as palestras têm o seu valor.

Educadores com diferentes opiniões sobre o uso da tecnologia concordam que a autoridade do professor continua sendo de máxima importância.

Elizabeth Hoover, diretora de tecnologia para escolas públicas de Alexandria City, nos Estados Unidos, busca melhorar a educação em seu distrito por meio da tecnologia, mas diz que isso nunca substituirá o aprendizado diretamente com um professor.

“A interação pessoal ainda é o componente mais importante em uma sala de aula”, diz ela, para quem a tecnologia deve ser empregada apenas quando aprimora uma lição de maneiras que seriam impossíveis de outra forma.

Schad também diz que muitos professores confiam na tecnologia apenas porque não têm recursos analógicos suficientes. Programas como o Lexia não seriam necessários se as escolas fornecessem mais recursos para contratar mais profissionais que auxiliem no aprendizado, o que permitiria liberar professores para se concentrarem nos alunos que enfrentam dificuldades.

A professora Sophia Date, que ensina Ciências Sociais para o 12º ano de uma escola da Filadélfia, também questiona o investimento em tecnologia em detrimento de investimentos em mais professores.

“Há um enorme vontade de levar a tecnologia para a sala de aula, mas, às vezes, isso é feito no lugar de mudanças maiores e mais necessárias. As organizações que doam fundos para educação têm prazer em dar dinheiro para comprar tablets e computadores, mas não estão dispostas a custear um salário de um professor por um ano”, diz ela.

Date defende que ampliar o acesso à tecnologia continua a ser algo crucial para ajudar a diminuir a diferença entre as condições oferecidas a estudantes de baixa e alta renda, mas diz que isso não pode substituir mudanças no sistema educacional.

Aprendendo a raciocinar

Embora a tecnologia mine alguns aspectos da educação, também capacita estudantes de formas inesperadas.

“Existe essa visão de que os jovens ficam um pouco apáticos, preguiçosos, distraídos com a tecnologia”, diz Choksi, da Pearson. “Realmente, subestimamos o papel que a tecnologia está desempenhando na educação das crianças e o poder que isso dá a elas em seu aprendizado.”

Por exemplo, alunos que não tem paciência para esperar que os educadores respondam a suas perguntas estão cada vez mais dispostos a buscar as respostas por si mesmos. “Eles podem estar estudando álgebra e ir ao YouTube para descobrir como resolver um problema antes de consultar um professor ou um livro didático”, diz Choksi.

Swift diz que isso deve ser estimulado nos alunos. “Você quer que eles façam novas perguntas e busquem novas respostas.”

Taylor aponta que, conforme a informação se torna onipresente, o sucesso não se resume a saber mais, mas na capacidade de pensar de forma crítica e criativa, que são, ironicamente, as habilidades que a mídia digital prejudica ao reduzir a capacidade de prestar atenção dos estudantes.

“Se você pensar em Mark Zuckerberg, Bill Gates e em todas estas pessoas que obtiveram sucesso no mundo da tecnologia, elas não chegaram até aí porque sabiam programar, mas porque são capazes de raciocinar”, diz ele.

Os nativos digitais continuarão a adotar vorazmente as novas mídias. Os professores não têm escolha a não ser evoluir, não apenas para garantir que alunos possam acessar e tirar proveito das tecnologias, mas para fazer com que os alunos tenham sucesso em um mundo que está constantemente tentando distraí-los.

 

 

 

Proibidos de usar telemóveis na escola, alunos “reinventaram a forma de estarem juntos”

Fevereiro 22, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia e imagem da Rádio Renascença de 16 de janeiro de 2019.

Primeiro estranhou-se, depois entranhou-se. Há dois anos que os intervalos na escola básica António Alves Amorim, em Santa Maria da Feira, decorrem sem selfies nem “escapadinhas” à internet. Todos estão satisfeitos: direção, pais e até alunos.

Até há dois anos, os problemas disciplinares estiveram a acumular-se. Os alunos filmavam aulas e até se filmavam em contextos de balneário, vídeos que depois publicavam nas redes sociais. A situação chegou a um tal ponto que a diretora da EB 2/3 António Alves Amorim, sede do agrupamento com o mesmo nome em Santa Maria da Feira, teve de agir.

Mónica Almeida decidiu levar ao Conselho Pedagógico a ideia de proibir o uso de telemóveis dentro da escola. “No Conselho Pedagógico, [a ideia] foi aceite de forma unânime, se bem que todos nós estávamos um pouco céticos quanto ao sucesso no futuro”, conta à Renascença. Todos foram ouvidos: professores, encarregados de educação, junta de freguesia e câmara municipal de Santa Maria da Feira. Todos concordaram. E em Setembro de 2017, o projeto arrancou.

Nascidos em 2003, foram os alunos do 9.º ano os que, há dois anos, mais estranharam a medida. “Eles andavam com o telemóvel em qualquer lado, mesmo na sala de aula”, conta a diretora da escola. E tinham sempre justificações (ou desculpas). “Ou era para ver as horas ou uma mensagem que chegou… Eles tinham” – “tiveram”, corrige Mónica Almeida – “essa liberdade desde o 5.º ano”. Sem que nada o fizesse prever, acabaram por ser “os primeiros a admitir que esta medida foi uma mais-valia”.

Nem tudo foi pacífico. Para avançar com a proibição, foi elaborado um novo código de conduta que previa penalizações a quem não respeitasse a proibição. O castigo previsto foi discutido e determinado com os pais: se os alunos fossem apanhados a usar o telemóvel, teriam três dias de suspensão.

“Isso aconteceu logo no primeiro ano da implementação, mas depressa as coisas ganharam o seu rumo”, garante Mónica Almeida. Até que hoje, dois anos volvidos, “os alunos sabem que têm de cumprir e aceitam perfeitamente”.

Quando chegam à escola, os cerca de 600 alunos desta escola de Santa Maria da Feira têm de colocar os telemóveis dentro de caixas, que ficam guardadas todo o dia num armário. Quando as aulas terminam, recuperam os dispositivos.

Mónica conta que muitos alunos não tinham uma conversa propriamente dita com os colegas antes disto, limitavam-se a ir falando durante o dia. Esta despersonalização e digitalização da comunicação chocavam a diretora e alimentaram esta ideia. O resultado? Os alunos “passaram a ter de comunicar verbalmente” o que, “para eles, foi uma vantagem”.

O feedback dos alunos é positivo. Nas reuniões que a direção tem periodicamente com os delegados de turma, “uma das situações que eles apontam como favorável é mesmo esta: o retirar dos telemóveis”. Um facto curioso: “Começou pelos mais velhos”, conta a diretora.

“E no nosso tempo como é que era?”

À pergunta “Então como é que os alunos vão comunicar com os pais?”, imediatamente Mónica Almeida, de 46 anos, responde com uma pergunta retórica: “Como é que era no nosso tempo?”

A solução, em jeito de resposta, foi rápida de encontrar – já existia desde esses tempos: os pais podem telefonar para a escola para dar algum recado aos filhos e estes podem, sem custos, telefonar aos pais.

“Entranhou-se de tal forma que os pais, hoje em dia, até nos agradecem esta medida.”

Mónica relata casos de alunos que já nem sequer levam o telemóvel para a escola. Filhos da tecnologia e nascidos com a internet, são já vários os alunos do 5.º ano, nascidos em 2008, que deixam os aparelhos em casa.

“Tratamos as novas tecnologias por tu”

A diretora do agrupamento faz questão de sublinhar que está à frente de uma escola “muito tecnológica” apesar desta proibição.

“Todas as salas estão equipadas com computadores e somos uma escola envolvida em vários projectos eTwinning” (uma plataforma online criada pela União Europeia que permite a várias escolas na Europa desenvolverem projetos de aprendizagem comuns).

Porém, a inibição do uso de telemóveis não é ininterrupta. “Sempre que um professor precisa do telemóvel dos alunos para fins pedagógicos, ele envia um recado aos encarregados de educação a pedir autorização. Isso é permitido”, explica Mónica Almeida.

Outros diretores admitem em conversas com a colega de Santa Maria da Feira que sentem haver “muita dificuldade” para implementarem esta medida nas suas escolas. A eles, Mónica deixa um conselho para o arranque: “Temos de ser muito assertivos desde o início, não podemos vacilar.”

Para ela, a medida valeu a pena. Acima de tudo porque, explica, os alunos “reinventaram a forma de estarem juntos, reinventaram as brincadeiras”.

 

 

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