Fotos dos filhos no Facebook. Sim ou não?

Fevereiro 16, 2017 às 5:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Hugo Daniel Sousa publicado no https://www.publico.pt/ de 5 de fevereiro de 2017.

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A Maria acabadinha de nascer. O João a dormir como um anjinho. A Sofia com aquele olhar sedutor. O Miguel com um sorriso maroto de quem só tem dois dentes. Os primeiros passos do Pedro. Ou a acrobacia da Mariana no parque. Há poucas coisas mais ternurentas do que uma foto de uma criança. Especialmente se forem as nossas. Por esta razão, e mais algumas, os pais adoram mostrar as fotos dos filhos aos amigos e familiares. E os feeds do Facebook e do Instagram ou a timeline dos blogues enchem-se de fotos de crianças,

A grande questão — que até já chegou aos tribunais — é se os pais têm o direito de publicar fotos dos filhos nas redes sociais, em particular, e na Internet, em geral?

Para não ficar apenas com a minha opinião (e a minha prática), fiz uma rápida sondagem por alguns amigos. “Publicas fotos dos teus filhos no Facebook?” A primeira resposta foi curta e grossa. “Não”. Porquê? “É um assunto da vida privada”. Outra mãe, outra resposta: “Publico algumas, sempre irreconhecível e demos instruções ao resto da família para fazerem o mesmo”. “Porquê? Achas que não tens o direito de publicar ou é só por segurança?”, perguntei. “Ambas”, foi a resposta.

Voltei a fazer a pergunta, desta vez a alguém que está fora do país. “Sim, publico. Porque vivo longe e é uma maneira fácil de os meus amigos e família poderem acompanhar o crescimento deles, já que raramente os vêem”, respondeu-me um dos pais, deixando um par de ressalvas: “Tenho a preocupação de não os mostrar em situações que impliquem desconforto/embaraço (para futuro registo digital) e nunca, mas nunca, os localizo geograficamente.” E juntou uma adenda. “Num futuro próximo, poderei deixar de publicar fotos deles e até as poderei apagar todas, se for esse o desejo deles.”

A última resposta que recebi é muito parecida com a anterior. Os pais só publicam fotos dos filhos às vezes, mas com o cuidado de as limitar aos amigos e não deixar que sejam vistas por conhecidos deles. A razão para publicar fotos é fácil de adivinhar. “Porque sou uma mãe estupidamente babada. E para ir dando noticias nossas à família e amigos espalhados pelos quatro cantos do mundo.”

Esta discussão já começou há alguns anos e promete continuar. Até na justiça. Num caso de um casal divorciado, o tribunal definiu as condições da regulação do poder parental e, entre elas, incluiu o dever de os pais não divulgarem “fotografias ou informações que permitam identificar a filha nas redes sociais”. A mãe recorreu para o Tribunal da Relação de Évora, que foi bem claro na resposta. “Na verdade, os filhos não são coisas ou objectos pertencentes aos pais e de que estes podem dispor a seu belo prazer. São pessoas e consequentemente titulares de direitos”, escreveram os juízes Bernardo Domingos, Silva Rato e Assunção Raimundo num acórdão de Julho de 2015.

Argumentando que há um “perigo sério e real” de a divulgação de fotos de crianças nas redes sociais as deixar mais susceptíveis a predadores sexuais, os juízes concluem que a proibição de publicar fotos que permitam identificar a criança é “adequada e proporcional à salvaguarda do direito à reserva da intimidade da vida privada e da protecção dos dados pessoais e sobretudo da segurança da menor no ciberespaço”.

Confesso que mais do que ser um legalista ou proibicionista, sou fã da lei do bom-senso. E, por isso, o que realmente me choca são os pais que publicam fotos dos filhos sem qualquer pudor ou contenção (e, como viram, não é o caso dos amigos acima citados). Mas há muitos que não respeitam as dicas básicas de segurança, como enumerava um artigo da Notícias Magazine, de Junho de 2014: nunca publicar fotos de crianças no banho ou de fraldas, nem com uniformes escolares; evitar pôr fotos em alta resolução; não fazer post de imagens em que crianças aparecem com objectos de valor ou imagens em que seja fácil identificar o local (a escola, a casa, etc). Também fundamental é ter o cuidado de restringir ao máximo o número de pessoas que podem ter acesso à imagem no Facebook, limitando, por exemplo, a acesso a amigos mais próximos — e, mesmo assim, as definições de privacidade no Facebook são um mundo em constante mutação, sendo fácil cometer erros.

Estes conselhos são todos úteis para quem não resistir à tentação. Eu, porém, prefiro seguir neste caso a regra do menos é mais: zero fotos é igual a zero riscos. E as imagens hão-de chegar, por outros meios (menos fáceis mas mais seguros), aos avós, tios e amigos que vivem longe. É que — como alguém escreveu num texto erradamente atribuído na Internet a José Saramago — um “filho é um ser que nos emprestaram para um curso intensivo de como amar alguém além de nós mesmos, de como mudar os nossos piores defeitos para darmos os melhores exemplos e de aprendermos a ter coragem”. Na feliz (e assustadora) expressão desse autor desconhecido, os filhos “são apenas um empréstimo”. E, por isso, prefiro que um dia não me cobrem essa dívida: “Pai, como foste capaz de publicar esta foto minha no Facebook?”.

 

Partilhar fotos íntimas ou insultar? Normal

Fevereiro 14, 2017 às 1:30 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do http://www.dn.pt/de 13 de fevereiro de 2017.

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DN/Lusa

Um em cada quatro jovens acha normal partilhar fotos íntimas ou insultar nas redes sociais

Um em cada quatro jovens considera normal partilhar fotografias íntimas ou insultar alguém através das redes sociais, de acordo com um estudo da UMAR – União de Mulheres Alternativa e Resposta, a ser divulgado na terça-feira.

O estudo sobre violência no namoro “apresenta dados preocupantes”, dos quais a UMAR, num comunicado hoje divulgado, destaca que 24% dos jovens inquiridos “considera normal partilhar fotos íntimas ou insultar através das redes sociais” e 14% “legitima a violência psicológica”.

Dos cerca de 5.500 jovens inquiridos no estudo, 19% “já foi vítima de violência psicológica”.

O mais recente estudo da UMAR sobre Violência no Namoro é apresentado na terça-feira, Dia dos Namorados, em Lisboa, numa conferência de imprensa que contará com a presença da secretária de Estado para a Cidadania e Igualdade, Catarina Marcelino.

 

 

 

Lego cria rede social para crianças partilharem as suas construções

Fevereiro 13, 2017 às 8:00 pm | Publicado em Vídeos | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.publico.pt/ de 31 de janeiro de 2017.

A Lego Life disponibiliza avatares e emojis especiais Lego Life

A Lego Life disponibiliza avatares e emojis especiais Lego Life

 

Empresa pretende que a Lego Life seja uma plataforma segura para utilizadores até aos 13 anos, que não poderão divulgar dados reais.

Ana Cristina Sousa

A Lego lançou recentemente a Lego Life, uma rede social vocacionada para crianças, que permite partilhar as construções de Lego de uma forma segura para menores de idade.

Apesar de haver vários sites, como o Flickr, que os mais aficionados usam para partilhar as suas obras de Lego, até ao momento não havia nenhuma opção destinada a menores e onde estes pudessem navegar com total segurança. A marca dinamarquesa entendeu que estava na hora de mudar o panorama.

Os utilizadores vão poder publicar fotografias das suas criações Lego, seguir outros utilizadores e comentar publicações com recurso a emojis especiais da Lego. Através do newsfeed é possível às crianças acederem a uma variedade de conteúdos de marketing da marca. Segundo o site The Verge poder-se-á aceder a linhas de produtos como os Lego com base no Star Wars, bem como às contas das redes sociais de personagens da Lego (como o Master Wu de Ninjago ou Lego Batman).

Aceder à rede social implica alguns requisitos: a criança terá de ter até 13 anos (embora não haja uma restrição explícita da marca para pessoas acima desta idade), ser um fã incondicional da marca e, não menos importante, o registo na conta Lego Life deve ser efectuado com recurso a um endereço de e-mail dos pais. Outra novidade na Lego Life é que os perfis não têm a fotografia dos utilizadores. Em vez disso, a Lego permite serem criadas pequenas figuras, com uma variedade de roupa e acessórios à escolha.

Para deixar os pais livres de preocupações sobre quem os filhos seguem, por quem são seguidos, ou ainda, a que tipo de conteúdo estão expostos, a Lego estabeleceu uma parceria com a Crip, uma empresa que faz moderação de conteúdo que combina algoritmos e detecção humana para escrutinar todas as imagens antes de estas irem para o site.

A rede social Lego Life é gratuita e está disponível para Android e iOS, da Apple. A aplicação pode ser descarregada nos Estados Unidos, Canadá, Austrália, Nova Zelândia e Suíça, bem como em 12 países da União Europeia e nas respectivas línguas. Portugal não foi contemplado.

Texto editado por João Pedro Pereira

 

Instagram do SOS-Criança do IAC

Janeiro 31, 2017 às 12:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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https://www.instagram.com/iacsoscrianca/

 

Facebook e educação : publicar, curtir, compartilhar

Janeiro 30, 2017 às 8:00 pm | Publicado em Livros, Recursos educativos | Deixe um comentário
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descarregar o livro no link:

http://books.scielo.org/id/c3h5q

Vídeos publicados na Internet incentivam jovens a ser violentos?

Janeiro 23, 2017 às 6:00 am | Publicado em Vídeos | Deixe um comentário
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Texto do http://ionline.sapo.pt/ de 16 de janeiro de 2017.

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Joana Marques Alves

Investigadora Margarida Gaspar de Matos e pedopsiquiatra Ana Vasconcelos comentam os últimos casos de imagens virais de violência entre jovens. Teme-se um “concurso de mau caráter”. Adolescentes vivem uma fase da vida particularmente vulnerável. Despistar sinais de risco, até familiares, é crucial para que a moda não pegue.

Primeiro houve mensagens ameaçadoras. Depois, a ex-namorada marcou um encontro para falarem sobre o relacionamento. Quando chegou ao local combinado, no Feijó, o jovem de 15 anos foi esfaqueado, espancado e apedrejado. Teve de ser hospitalizado, depois de uma das facadas lhe ter atingido um pulmão. O caso foi divulgado no mesmo dia em que foi difundido na internet o vídeo de um jovem da mesma idade a ser espancado por outros junto a duas escolas em Almada. Repete-se a cena. Cenas que, no passado, muitas vezes podiam ficar escondidas nos recantos das escolas, são filmadas e colocadas a circular na internet. O número de casos de violência entre adolescentes tem vindo a preocupar pais, educadores e psicólogos, e as autoridades estão a ser cada vez mais requisitadas nos estabelecimentos de ensino. A violência juvenil está a aumentar? E as imagens com milhares de partilhas e reproduzidas na televisão a qualquer hora do dia serão um combustível perigoso?

Segundo dados da PSP e da GNR citados pela imprensa, no ano letivo de 2015/2016 foram registados 5051 episódios criminais nas escolas ou imediações. Só a PSP registou 4102 ocorrências, um número que representa um aumento significativo face aos anos anteriores. No ano letivo de 2014/2015 houve 3930 ocorrências, em 2013/2014, 3888, e em 2012/2013 foram contabilizadas 3486, ou seja, menos 700 casos do que no último ano letivo. Também a GNR tem vindo a registar mais casos.

O último Relatório Anual de Segurança Interna – que apresenta dados relativos ao ano escolar 2014/2015 – dá mais pistas sobre o fenómeno da violência nas escolas. A maioria das ocorrências que levaram as autoridades a deslocar-se aos estabelecimentos de ensino estava relacionada com casos de ofensa à integridade física. Depois surgem os episódios relacionados com furtos e injúrias ou ameaças. O mesmo relatório mostra que a maioria dos casos ocorre no distrito de Lisboa, seguido de Porto e Aveiro. Os distritos onde foram registadas menos ocorrências foram Évora, Guarda e Castelo Branco.

A necessidade de ser viral

Entre os especialistas contactados pelo i, a opinião é unânime: a divulgação de imagens estimula comportamentos violentos, mas isso não quer dizer que as agressões tenham aumentado. A sociedade também pode estar mais atenta, declarando mais casos que, no passado, eram calados nos corredores das escolas. “Antes não se falava tanto disso porque, de algum modo, a violência interpessoal era mais tolerada: os pais agrediam os filhos, de chicote por vezes, os professores agrediam os alunos, os maridos agrediam as mulheres, os amigos agrediam-se uns aos outros, a polícia agredia os cidadãos… A regulação social era feita com base na pancadaria”, sublinha a investigadora Margarida Gaspar de Matos, membro do Centro de Investigação do ISPA – William James Center for Research.

A especialista defende que, com as mudanças sociais, é necessário filtrar bem os casos e estabelecer uma diferença entre atos de delinquência, doença mental e meras formas “menos conviviais” de relação interpessoal. “Vídeos como o acima referido [o caso revelado nos primeiros dias de janeiro] mostram uma agressão gratuita que aparenta ter como fim único ‘postar’ na internet um vídeo ‘viral’. Esta é uma nova forma de exibicionismo e de ‘desafeto’ que, a pegar, nos vai dar enormes dissabores nas relações interpessoais”, alerta a especialista.

Margarida Gaspar de Matos usa mesmo uma ideia forte: para os jovens, este fenómeno pode desencadear uma espécie de “concurso de mau caráter”, um despique em torno da violência. E que já não é o conceito de bullying, que começou a ser discutido no final do século passado. “A diminuição do bullying teve muito a ver com a identificação do fenómeno e a tolerância zero em relação a este. Foi retirado ao bullier o estatuto de valentão e passou a ter o estatuto de parvalhão, do cobarde que, não sabendo dialogar para resolver diferendos, agride os mais fracos”, diz a investigadora. “Este vandalismo exibicionista representa outra coisa diferente e temo que este fenómeno aumente se não for identificado e desmistificado como algo estúpido, selvagem e intolerável, e se não houver propostas consistentes e continuadas de soluções que passam, claro, pela responsabilização e punição, mas também, em alguns casos, pelo tratamento.”

Falta de consciência moral

Gaspar de Matos acredita que, podendo ser uma intolerável moda de mau gosto, alguns casos poderão indiciar perturbações mentais ou de personalidade dos jovens que requerem acompanhamento. A pedo- psiquiatra Ana Vasconcelos assinala que não há, ainda assim, muitos casos semelhantes aos de Almada e Feijó. Mas também teme que esta tendência incite a mais violência e defende, por isso, um maior acompanhamento dos jovens.

“Uma das coisas de que se falava há uns tempos era o facto de não ser aconselhável divulgar muitos casos de pedofilia porque isso podia excitar as tendências dos pedófilos. Aqui pode acontecer um fenómeno semelhante”, diz a especialista.

A natureza do adolescente, em fase de descobertas, faz deste um terreno arriscado. “Houve uma altura em que havia a moda de os miúdos se asfixiarem com sacos de plástico. Isso, na verdade, é um truque erógeno [que causa satisfação ou prazer sexual]. No início da puberdade, os adolescentes podem entrar em esquemas como este nos quais confundem a excitação com a violência, acabando por ter esses impulsos muito desajustados.”

A pedopsiquiatra explica que a falta de consciência moral e de autocrítica têm papéis preponderantes nestas alturas, bem como a necessidade de mostrar aos outros aquilo de que se é capaz e de copiar os comportamentos exemplificados em situações prévias. Além disso, o ambiente precário e as inseguranças vividas no seio familiar podem condicionar bastante a vida do jovem na escola, suscitando potenciais comportamentos violentos: “A falta de uma base familiar e de uma perspetiva para as famílias condiciona os adolescentes. Ainda hoje um rapaz me dizia: ‘Estou preocupado porque acho que o meu pai vai para a Suíça.’ Os jovens ouvem coisas que lhes trazem uma insegurança familiar. Todos estes aspetos também não ajudam.” O problema pode começar nas redes sociais, mas vai, como sempre, muito para além disso.

 

 

 

Um jogo sexual está a preocupar as autoridades espanholas

Janeiro 21, 2017 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Noticia do http://www.dn.pt/ de 9 de janeiro de 2017.

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A não utilização de preservativos agrava os riscos deste comportamento | Arquivo Global Imagens

Médicos alertam para riscos deste comportamento, depois de aumento de casos de doenças sexualmente transmissíveis entre jovens

Um aumento de casos de doenças sexualmente transmissíveis na unidade de adolescentes de um hospital de Madrid e pelo menos quatro casos de gravidezes indesejadas são sinais que estão a preocupar as autoridades de saúde da capital espanhola, que alertam para um jogo sexual perigoso, chamado “roleta sexual” ou “Juego del Muelle”, segundo o jornal El Mundo.

De acordo com o jornal, há um vídeo de quatro minutos que se tornou viral nas redes sociais em Espanha e mostra como se joga: cinco rapazes estão sentados sem roupa interior e três raparigas, nuas da cintura para baixo, sentam-se aos seus colos. A cada 30 segundos, as raparigas mudam para o colo do rapaz ao lado. Perde o jovem que ejacular primeiro.

Todos os jovens que aparecem no vídeo são menores de idade e em cima de uma mesa são visíveis várias garrafas de álcool e cigarros. Um dos jovens contou ao jornal espanhol que faz este jogo regularmente com os amigos, tendo recebido as instruções do jogo por uma mensagem no Whatsapp. O rapaz, que não se quis identificar, contou ainda que não usam preservativo. Os jovens contam também que este começou na Colômbia, onde é conhecido por Carrossel.

Os serviços de saúde espanhóis dizem que pelo menos quatro adolescentes ficaram grávidas em 2016 ao fazer este jogo, mas admitem que é difícil chegar a um número real, pois as jovens não contam como engravidaram. “É algo relativo, impossível de comprovar, pois elas não dizem”, disse uma fonte médica ao El Mundo.

Difícil de contabilizar é também o número de casos de doenças transmitidas neste tipo de jogo. Pilar Lafuente, ginecologista do Hospital La Paz, em Madrid, diz que passou de ver “dois ou três casos [de DST] por ano para atender 10 menores de idade por trimestre”.

“O problema é que se unem a inconsciência e a imaturidade. Com boa educação sexual isto não aconteceria”, explicou a psicóloga e sexóloga Ana Lombardía, citada pelo jornal. A especialista explica alguns dos problemas práticos deste tipo de comportamento: “os rapazes podem ter problemas de ereção e de controlo da ejaculação. Mas é pior para as raparigas. A dor de serem penetradas sem estarem excitadas cria vaginismo: a vagina está contraída e isso cria lacerações e feridas”.

Além disso, mesmo que os rapazes usem preservativo, as raparigas estão “totalmente indefesas”, continua Lombardía. “Elas vão rodando e entram em contacto com as secreções das outras. Logo contraem VIH, hepatite C, sífilis, gonorreia e o HPV”.

“Os adolescentes são cada vez mais precoces e têm acesso ao álcool, drogas e sexo mais cedo. Aborrecem-se rápido e procuram outras formas de se divertirem sexualmente”, explicou a psicóloga e sexóloga.

O estudo internacional Health Behaviour in School-aged Children (HBSC), revelado no ano passado, mostrou que a não utilização de preservativo é um problema grave entre os jovens portugueses: 25% disseram não usar.

 

As regras do Instagram foram simplificadas para que até as crianças as compreendam

Janeiro 19, 2017 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.publico.pt/ de 9 de janeiro de 2017.

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Estudo mostra que os jovens passam 20 horas semanais na Internet Rui Gaudencio

Uma advogada esteve a “traduzir” a linguagem hermética da versão dos termos e condições em inglês. Crianças e jovens afirmam que não utilizariam a rede social se soubessem com o que estavam a concordar.

Inês Chaíça

Um estudo do Comissariado para as Crianças inglês determinou que os “Termos e Condições” das redes sociais não estão escritos de maneira a que as crianças percebam. Só no Reino Unido, 56% das crianças entre os 12 e os 15 anos têm Instagram, mas uma grande parte dos jovens em estudo com a mesma idade diz não compreender as condições de adesão a esta rede social.

Não é novidade que os jovens da “Geração Z” (ou seja, os nascidos depois de 1998) passam muito tempo na Internet. Um estudo da Common Sense Media mostrou que passam nove horas por dia nas redes sociais. Outros estudos e relatórios dizem que passam quase 20 horas por semana online – muitas dessas horas passadas nas redes sociais. Só o grupo de crianças entre os três e os quatro anos passou oito horas e 18 minutos por semana a usar a Internet.

Um estudo do Instituto Superior de Psicologia mostra que 70% dos jovens portugueses até aos 25 anos apresentam sinais de dependência, dos quais 6% admite ter ficado “sem comer ou sem dormir por causa da Internet”. Mas quantos podem dizer que sabem com o que estão a concordar quando marcam a caixa que diz “Li e compreendi os termos e condições de utilização”? De acordo com um relatório do Comissariado para as Crianças de Inglaterra, Growing Up Digital, publicado na semana passada, as expressões usadas nessas páginas são tão complexas que são “impenetráveis e largamente ignoradas”.

O grupo, composto por profissionais dos sectores público e privado de várias áreas, trabalhou com crianças e jovens entre os oito e os 15 anos que utilizavam o Instagram (ainda que a rede social apenas autorize a utilização a maiores de 13 anos).

“Os Termos e Condições são a primeira coisa com a qual alguém concorda quando se inscreve em sites, mas claro que ninguém os lê. Quero dizer, quase nenhum adulto os lê”, afirma Jenny Afia, advogada e colaboradora no grupo de trabalho do Comissariado Para as Crianças de Inglaterra, ao jornal norte-americano Washington Post. O que a leva a concluir que a maior parte das crianças não sabe no que se está a inscrever quando aceita as condições das redes sociais.

Traduzindo o “legalês”

Trabalhando especificamente com os “Termos e Condições” do Instagram, pela sua popularidade entre os jovens, conseguiram perceber que tem mais de 5000 palavras e sete páginas, num vocabulário hermético, um “legalês”. De acordo com um teste de legibilidade, conseguiram perceber que só um licenciado teria facilidade em compreender na totalidade a linguagem utilizada.

Depois da leitura, o grupo de jovens disse que tinham conseguido perceber muito pouco. Uma adolescente de 13 anos chegou mesmo a perguntar se seria necessário ler tudo até ao fim: “isto tem, tipo, 100 páginas”, lê-se no relatório. O problema é que os termos e condições têm exactamente tudo o que estes jovens precisam de saber sobre os seus direitos online. Por isso Afia ficou encarregada de traduzir o “legalês” para inglês comum, simplificado – e o mesmo documento ficou apenas com uma página.

Por exemplo, no artigo 4.º que explica os direitos do utilizador lê-se:

“O utilizador declara e garante que: (i) é o proprietário do Conteúdo que publica no ou através do Serviço ou que de algum modo dispõe do direito de ceder os direitos e licenças estipulados nos presentes Termos de Utilização; (ii) a publicação e o uso do Conteúdo do utilizador no ou através do Serviço não desrespeita, não constitui a apropriação indevida nem infringe os direitos de terceiros, incluindo mas não limitado a direitos de privacidade, direitos de publicidade, direitos de autor, direitos de marca comercial e/ou outros direitos de propriedade; (iii) pagará quaisquer direitos de autor, taxas e quantias devidos resultantes de Conteúdo que este publique no ou através do Serviço; e (iv) tem o direito e a capacidade legal de subscrever os presentes Termos de Utilização na respetiva jurisdição.”

Que, “traduzido”, fica apenas:

“Partimos do princípio de que é dono de tudo o que publica e que não constitui uma ofensa à lei. Caso contrário, poderá ser multado e terá de pagar essa multa”.

Outra frase determina: “Oficialmente, é dono de tudo o que publicares, mas estamos autorizados a usá-lo e podemos deixar que terceiros o usem. Essas pessoas podem até pagar-nos para usar as imagens, mas não a si”.

Vários adolescentes disseram que não usavam o Instagram se soubessem de tudo o que estão a aceitar. “Usava muito menos as mensagens directas do Instagram se soubesse que [o Instagram] as podia ler”, afirmou uma jovem de 13 anos. “Eles devem mesmo saber que ninguém lê os Termos e Condições. Se os tornassem mais fáceis de ler, as pessoas pensariam duas vezes antes de aderirem”, disse a mesma jovem, que garantiu que ia apagar a aplicação.

Outro jovem de 16 anos diz ter percebido “a quantidade de informação pessoal” que está a dar “a uma empresa aleatória” sem se aperceber. Jenny Afia acrescentou que “até advogados com experiência têm dificuldade em perceber os Termos e Condições de alguns sites. Como podemos esperar que as crianças percebam?”

A General Data Protection Regulation, da União Europeia, a entrar em vigor em 2018, deve vir a protegê-los da maior parte dos abusos de privacidade por parte de empresas privadas. Até que haja transparência por parte dos sites, o consentimento informado das crianças e jovens não será uma realidade, afirma Jenny Afia, acrescentando que “os pais têm de ter consciência de que eles são crianças até serem adultos e não a partir do momento em que pegam num smartphone”.

Texto editado por Hugo Torres

 

 

Menores de Edad y Conectividad Móvil en España: Tablets y Smartphones

Janeiro 13, 2017 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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menores

descarregar o estudo no link:

http://www.diainternetsegura.es/descargar_estudio.php

 

“O ódio já está na Internet”

Janeiro 9, 2017 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social, Recursos educativos | Deixe um comentário
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Texto do https://www.publico.pt/ de 30 de dezembro de 2016.

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Juntámos à mesa jovens com percursos e experiências diferentes do discurso de ódio. Pusemo-los a dialogar sobre formas de lidar com as “piadolas” racistas ou homofóbicas que circulam nas redes sociais. Isto tudo a propósito de um manual do Conselho da Europa, que acaba de sair em português

Joana Gorjão Henriques

Uma piada misógina na Internet torna-se viral e deixa uma jovem em pranto; o pranto vai em crescendo até ela ser de novo insultada por “se estar a fazer de vítima”. O insulto sobre a cor de pele negra de um rapaz propaga-se e torna-se um hábito que leva a outro insulto e a outro até se tornar insuportável estar na escola. Um comentário racista é deixado no mural do Facebook de alguém, mas outro alguém que também é alvo decide ficar calado.

Quantos episódios como estes se passam na vida real e nas redes sociais e no nosso mural do Facebook, do Twitter? Até que ponto a fronteira entre liberdade de expressão de uma pessoa e direitos humanos da outra colidem no espaço público? Quanto destas ofensas são afinal discurso de ódio?

Em meados de Dezembro, o Instituto Português do Desporto e da Juventude (IPDJ), que coordena uma campanha do Conselho da Europa contra o discurso de ódio online, lançou um manual, com o nome Referências, para educar através dos direitos humanos. Fez acções de formação durante três dias com 24 participantes, entre professores e dirigentes de associações juvenis, entidades que irão ser multiplicadores da campanha. É um manual com exercícios para se reflectir em situações em que no centro está um caso de “discurso de ódio” – e para experienciar na própria pele o que é estar do lado das vítimas.

Para perceber como funciona este manual, o que é o discurso de ódio hoje nas redes sociais portuguesas e como é entendido pela juventude, juntámos à mesa um grupo de sete pessoas: quatro jovens com sensibilidades e experiências diferentes, uma membro de uma associação juvenil, a coordenadora da campanha do IPDJ, Margarida Saco, e uma mãe da Associação de Pais de uma escola em Lisboa. Lançámos perguntas, conduzimos a conversa, pusemos o foco na opinião de Tomás Barão, Edgar Cabral, Jéssica Pedro e Filipe Moreno.

1. O que é para vocês o discurso de ódio? Já vos atingiu?

 

Tomás Barão, 21 anos, estudante de Design de Comunicação na Faculdade de Belas-Artes. É de Palmela.

Já sofri bullying mas foi há alguns anos. Acabei por ultrapassar a questão. O discurso de ódio atinge todas as pessoas. Quando discrimino a pessoa negra, estou a discriminar a mulher, a pessoa transexual, a pessoa cigana… São minorias oprimidas que muitas vezes, elas próprias, são opressoras de outras minorias.

Por exemplo, noutro dia, fui dançar hip-hop. No espectáculo, o rapper falava sobre a sua vida, um bocado difícil. E no meio da música põe-se a dizer coisas misóginas e a incitar à violência contra as mulheres. Pensei: ‘Okay, estás a usar o rap como ferramenta para exprimires a opressão que sofres e ao mesmo tempo estás a oprimir.’ Estas coisas têm de ser desconstruídas, isso passa pelo que nos falta ter na escola. É muito fácil perceber que os manuais de História, por exemplo, não fazem a desconstrução do que foi a colonização portuguesa dos países africanos e têm uma narrativa extremamente imperialista, fala-se da epopeia dos portugueses mas não das atrocidades. Esta imagem pode ser um discurso de ódio. Ao ser complacente com essas discriminações, está a discriminar. Um professor de História tem de ter noção destas coisas e, se não consegue falar aos seus alunos sobre escravatura, fez essa escolha. Não sei se é discurso de ódio mas a invisibilidade mata, tem de ser abordada.

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Depois fazem-se manuais [como o Referências]. Acho que têm um efeito muito limitado, não vão à raiz do problema. A raiz do problema atinge-se na escola, é onde as coisas têm de começar.

Edgar Cabral, 21 anos, animador sócio-cultural no Atelier de Tempos Livres de uma escola em Telheiras, vem do bairro Zambujal, na Amadora.

O Tomás tem razão. Há vários factores que trazem racismo, preconceito, discriminação, ‘n’ coisas que se não forem trabalhadas pela raiz dificilmente conseguimos mudar alguma coisa. Estes manuais podem-nos ajudar a minimizar mas não resolvem o problema – como diz a campanha, o ódio não é opinião, é um sentimento que temos de dentro de nós e, se não conseguirmos tirar o ódio de dentro de nós, dificilmente conseguimos mudar alguma coisa. O Tomás diz que sofreu bullying. Porque é que a educação que vem de casa não trabalhou isso? A escola tem de pegar no pai e na mãe, falar do caso de bullying, chegar ao foco do problema. Um pedido de desculpa serve mas ao mesmo tempo não serve porque deixa sempre marca nas pessoas. Eu, com a minha experiência nos bairros sociais, digo que há ódio racial. As pessoas passam ao lado e nem olham umas para as outras. Às vezes vejo crianças a dizerem: ‘És isto.’

Tomás Porque aprendem na família.

Edgar E dói. Há ‘n’ coisas que têm de ser trabalhadas. As campanhas e a publicidade são meios para chegar às pessoas, mas sem trabalho de campo é muito difícil. Nas redes sociais vê-se de tudo. O ódio já está na Internet. Às vezes abrimos a página de Facebook e já estamos a levar com alguma coisa.

2. Também sente isto em relação ao Facebook, Jéssica?

Jéssica Pedro, 17 anos, estudante do 12.º ano de Ciências Sócio-Económicas, vive no Bairro de Campolide, em Lisboa.

Sim. Basta entrar no feed do Facebook. O discurso de ódio incentiva ao discurso de ódio. Por exemplo, agora o assunto dos refugiados tem sido muito debatido. Há uns que lhes chamam terroristas, alguém escreve sobre isso, outra pessoa partilha porque concorda, segue-se um ciclo de pessoas a basearam-se em notícias falsas, que não têm sentido – e o ódio vai-se propagando. Depois há pessoas que dizem: ‘É a minha opinião, tens de aceitar.’ Liberdade de expressão é o argumento mais usado. Mas estão a ofender pessoas.

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3. O que é classificaria como discurso de ódio?

Jessica É um discurso que incentiva o ódio em relação a uma raça, a uma pessoa, grupo social, de género, etc.

4. Há gradações?

Jéssica Sim, as minorias recebem muito mais discurso de ódio do que o grupo dos brancos, por exemplo.

5. E há coisas mais graves do que outras?

Jéssica Sim, mas efectivamente tudo é grave. Por exemplo, humor negro. Há piadas que não deviam ser consideradas humor sequer. E as pessoas dizem: ‘Ah, mas foi só uma piada.’ Assim passa. Há imensas piadas, até com violação, e em relação às raças, em que as pessoas dizem que não podemos levar a mal – essa é a desculpa mais frequente. Mesmo que não me afecte a mim, que afecte outra minoria, as pessoas dizem que não posso levar a mal.

Filipe Moreno, 17 anos, estudante no 12.º ano, na área de Economia, mora no Bairro de Alvalade, em Lisboa.

Em relação ao humor negro tenho uma mentalidade mais aberta. Mas concordo, acho que quem faz essas piadas nem pensa, é apenas um motivo para entreter. Em relação à sensibilização, na minha escola, todos os anos havia palestras, da polícia, de instituições: o bullying e ódio não é muito presente. Mas cada vez que abro o meu Facebook o ódio é constante, literalmente: ‘Este é cigano, este é gay, vamos desprezá-lo, não pode ter os mesmos direitos do que nós.’ Liberdade de expressão não é poder dizer mal de tudo. Há coisas mais pequenas, mais básicas que vão fomentar o ódio: a pessoa que partilha a seguir acrescenta um ponto e esse ciclo começou com algo que não é muito de ódio, mas acaba no extremo.

6. O que se faz nesse caso, quando se vê?

Filipe Deve-se tentar dar o nosso ponto de vista. Não se deve cair na crítica fácil de dizer ‘és racista’, mas mostrar o que está mal com contra-argumentos.

7. Faz sempre isso?

Filipe Nem sempre, porque muitas vezes nem conheço a pessoa. Mas tento fazer quando é um amigo. Não vou dizer directamente: ‘És racista.’

Jéssica  Se formos responder com ódio, estamos a ser iguais a eles. Devemos expressar o nosso ponto de vista porque normalmente passamos ao lado das coisas, ‘isso não é comigo, não quero saber’ – acho que isso tem de ser mudado.

Edgar Nas redes sociais, quando vejo alguma coisa desse tipo, não ligo muito. Para quem vive num bairro social, isto é o prato do dia. Tento chegar perto da pessoa e mudar o ponto de vista e muitas vezes tenho sucesso porque estou perto da pessoa.

Tomás A Internet incita-nos a agir de maneira impulsiva. Custa, mas temos de perceber que é muito mais fácil acusar logo e dizer ‘és um racista, xenófobo’ do que [usar contra-argumentos].

A propósito das piadolas, tenho um amigo que escreve num blogue sobre transexualidade; estava a comentar uma série de piadas transfóbicas em que os humoristas se defendem dizendo que aquela é a profissão deles, ‘vocês não têm sentido de humor nenhum’. O que diz o meu amigo é que é possível fazer humor do lado das pessoas oprimidas. Como o Jon Stewart, que fez um segmento a gozar com o facto de as pessoas trans não terem direitos. Ou seja, a escolha é do humorista: possível é.

8. Como é a vossa experiência no envolvimento de discussões deste tipo?

Tomás Normalmente o que publicamos no Facebook é uma câmara de eco. Quando é algo pelos direitos LGBT, toda a gente diz ‘sim’, ‘like’. Mas uma vez publiquei uma notícia sobre a etnia cigana e foi incrível. As pessoas vinham dizer: ‘Tu tens razão, mas… a minha mãe é professora e na escola um cigano disse que queria ser ladrão’ – e outras coisas do género, historietas que não interessam para nada. Foi muito difícil desconstruir aquilo, é das coisas mais enraizadas na mentalidade portuguesa – e acho que não consegui.

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9. O manual tem alguma coisa que ajude a lidar com estas situações?

Margarida Saco Acho que tem de ser cada um a encontrar os seus próprios argumentos. É uma questão de ir respondendo e desconstruindo com histórias e dados positivos. Assim como alguém diz que conhece um cigano que quer ser ladrão, há outros exemplos contrários. E não é por um querer ser ladrão que podemos generalizar. Estou aqui com isto aberto na parte do discurso online [abre o manual]: uma das coisas que faz é dar uma definição, e várias dicas e pistas, com exemplos. O discurso de ódio é sempre mau mas há o mau e o pior. Que medidas vamos usar para responder? Uma parte tem que ver com o tom, que dá para medir a intenção.

O manual dá estes exemplos de frases: ‘Os imigrantes, ao longo da história, têm sido uma má influência’, ‘as pessoas com deficiência vivem à custa do Estado’, ‘um preto não é um ser humano, é um animal’, ‘és uma prostituta, vou violar-te amanhã’. Aqui o tom do texto escrito vai aumentando, e embora o primeiro já seja mau o final é um discurso direccionado com ameaça. Também há outros exemplos aqui, é diferente a intenção da frase ‘acabem com os gays’ escrita num email a um amigo como piada ou no mural de alguém que é gay. Uma das preocupações do manual é dar instrumentos às pessoas para puderem analisar, terem capacidade crítica e intervirem.

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Regina Lima, 26 anos, membro da Associação Bué Fixe

Faz todo o sentido a ideia de contrapor o discurso com argumentos válidos, saber responder com argumentos positivos. O manual ajuda bastante. O discurso de ódio muitas vezes expressa já uma intenção, que é a sua pior forma – este exemplo de ‘vou violar-te’ se calhar não é tão comum, mas ‘merecia ser violada’ já se ouve.

10. Como é que se lida com o discurso de ódio que quer ser subtil?

Tomás Por isso faz falta treinar o espírito crítico e nisso a escola falha. Muitas vezes esses discursos passam indetectados. O outro é dar-nos argumentos contra. Alguém que lide com pessoas com deficiência consegue desconstruir esses argumentos, alguém que não conhece ninguém tem mais dificuldade. Por exemplo, tinha alguma dificuldade em dar alguns argumentos a pessoas que são contra as pessoas ciganas; só quando comecei a conhecer pessoas ciganas é que comecei a ter argumentos. Antes pensava: isto é discurso de ódio, há qualquer coisa de errado, mas não tenho informação, como lido com isto? Por isso faz falta estar em contacto com as comunidades, com as minorias e cada um partilhar aquilo que somos.

11. As redes sociais espelham discriminação em relação a mulheres, Jéssica?

Jéssica Sim, estamos atrás do computador, do ecrã e há o anonimato, é fácil as pessoas espelharem opiniões ridículas. Depois há um público maior: a partir do momento em que alguém publica uma opinião, estão imensas pessoas a ver. Voltando ao humor negro: para quem está a dizer uma piada, aquilo é só uma piada. Se alguém vê e concorda, pensa: ‘Há mais uma pessoa a concordar comigo e ainda tenho mais razão do que pensava que tenho.’ Assim vai-se espalhando.

12. E a escola que ferramentas dá para lidar com este tipo de questões?

Gabriela Ramos, 40 anos, mãe, trabalha com a presidência da Associação de Pais dos alunos da Escola Secundária de Vergílio Ferreira  

O problema tem que ver com valores, com responsabilidade e o emitir opiniões. É preciso trabalhar a responsabilidade para com o outro, compreender. O meu filho, de oito anos, este ano foi alvo de bullying por causa da cor e ninguém deu por isso: ‘és preto’, ‘cheiras mal’, ‘o que estás a fazer na nossa turma?’, diziam-lhe. Davam-lhe encontrões no recreio, colocavam os seus pertences na casa de banho. Mas passavam despercebidos, foi outra criança que alertou os pais para o que se estava a passar. Erradicar o discurso do ódio passa também por perceber as estratégias que estão a ser usadas. Porque começou como uma piada: ‘vamos chamar-lhe preto’, ‘não brinquem com o Bernardo’. O líder teve seguidores e enraizou-se, tornou-se uma piada. Uma miúda da turma do Bernardo passava por ele e dava um estalo na cara, achava piada. Eu ponho o dedo na ferida, abordei alguns pais sobre isto que aconteceu para perceberem que nem tudo corre bem: não temos filhos perfeitos.

13. Como é que se controla a piadola que começa a ter seguidores?

Filipe Passa pelos pais. E quando os preconceitos começam em casa, há grupos que são discriminados logo aí.

Tomás Na comunidade LGBT é um bocadinho mais difícil. As crianças ciganas têm pais ciganos, as negras têm pais negros e sofrem o mesmo. As pessoas LGBT quase sempre têm pais que não são LGBT e muitas vezes estão em risco de serem postas fora de casa apenas por o pai ou mãe descobrirem que são gay, lésbica, transexual…

Nesse caso, é um discurso de ódio que os jovens muitas vezes ouvem em casa sempre que aparece uma coisa na televisão, o pai ou mãe mandam o comentário e a pessoa em casa encolhe-se, fica a perceber que há algo errado ali. É o efeito da piadola, que pode ser extremamente pequenina e parecer insignificante mas a pessoa ao lado vai sentir-se mal. Se calhar há pessoas com sensibilidade para não fazer piadas racistas quando está um negro por perto mas as pessoas muitas vezes não pensam que está por perto uma pessoa lésbica, homossexual ou trans porque não é visível, só se a pessoa se assumir. As discriminações operam de maneiras diferentes.

14. Se pensarem nas vossas redes sociais, o que é mais comum verem de discurso de ódio?

Tomás Acabo por fechar as minhas redes sociais a isso, quem não interessa não sigo – sou amigo de pessoas que têm mais cuidado com aquilo que dizem.

15. O argumento do politicamente correcto é muito usado?

Tomás E qual é o mal?

Filipe Que é isso de politicamente correcto? Temos a nossa opinião independentemente de ser politicamente correcta. Se algum dia tiver uma opinião e disserem que é politicamente incorrecta, não a vou apagar por causa disso.

Jéssica As pessoas normalmente justificam o discurso de ódio como sendo opinião. Não é. Temos direito a ter a nossa opinião desde que não estejamos a ofender ninguém. Dizerem que ‘és preto e não gosto de ti’ e justificarem que é uma opinião… Não. Temos de estabelecer a diferença entre opinião e discurso de ódio.

16. O discurso de ódio devia ser punido?

Tomás Não sei se cabe a mim decidir.

Edgar Pergunta muito difícil.

[Em Portugal, há legislação, quer através da lei de discriminação racial ou do Código Penal, que pune racismo, xenofobia, discriminação com base na orientação sexual.]

Filipe Acho também há a procura dos revoltados das redes sociais, acontece tantas vezes as marias madalenas a chorar… Muitas vezes procura-se chamar racista e xenófobo a pessoas com discursos em que nem sequer há essa intenção.

Regina O discurso de ódio também tem que ver com a forma como se define. O que o Filipe está a dizer é que o que para mim é discurso de ódio não será para ele. Se calhar depende se fazemos ou não parte de uma minoria, habitualmente discriminada ao longo do tempo – uma pessoa que não sofreu na pele se calhar não vê. Somos livres, sim, faz parte dos direitos humanos, mas temos de colocar as coisas no ponto em que a minha liberdade começa onde acaba a do outro. Não posso achar que a minha liberdade é um dado absoluto e achar que neste contexto devo dizer tudo o que quero.

descarregar o “Referências” – Manual para o combate contra o discurso de ódio online

 

 

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