A vida interrompida de Ana e os mais jovens assassinos de um país em choque

Julho 9, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia e imagem do Público de 24 de junho de 2019.

Uma menina de 14 anos foi assassinada na Irlanda por dois rapazes de 13 anos. O julgamento, cujo veredicto foi conhecido na semana passada, foi acompanhado por um debate nacional sobre o bullying e o papel das redes sociais.

Ana era diferente. Nascida na Sibéria, foi adoptada aos dois anos por Geraldine e Patric Kriégel e levada para a Irlanda. Dava nas vistas: era uma menina alta e sorridente que adorava cantar e dançar. Mas que também tinha problemas de memória, visão e audição — sequelas de uma operação de remoção de um tumor. Era também muito ingénua e inocente, e já a professora da primária tinha alertado os pais para o risco de vir a ser vítima de bullying.

O receio viria a confirmar-se. Ana era ridicularizada e assediada diariamente. Era questionada por ter “pais falsos” e deixada à parte por todos os grupos. Através das redes sociais, os abusos repetiam-se também fora do espaço escolar.

Aos 14 anos, Ana sentia-se profundamente sozinha. Foi por isso que aceitou com entusiasmo o convite de um rapaz de 13 anos que, em Maio de 2018, apareceu à porta para levá-la a conhecer outro menino de que Ana gostava. Ele também gostaria de Ana e estaria à sua espera numa casa abonada em Lucan, um subúrbio de Dublin.

Era uma armadilha. No esconderijo, o rapaz que a tinha ido buscar a casa e o outro que a esperava, também com 13 anos, abusaram sexualmente de Ana e agrediram-na violentamente com um pau e um bloco de cimento. Acabaria por morrer ali. No seu corpo, mais tarde encontrado pela polícia, ficaram marcas de cerca de 60 ferimentos.

As autoridades não tardaram a chegar aos dois rapazes. Por se tratarem de menores, as suas identidades não foram reveladas, apesar de os seus nomes circularem nas redes sociais e de as respectivas famílias estarem a receber insultos e ameaças de morte através da Internet. Mas oficialmente são o Rapaz A (o que estava à espera na casa abandonada) e o Rapaz B (o que foi buscar Ana).

Durante a investigação, a polícia irlandesa descobriu no computador do Rapaz A mais de 12 mil imagens pornográficas, muitas delas envolvendo violência sexual, para além de registos de pesquisas online sobre tortura. O Rapaz B alegou ter apenas assistido às acções do amigo. Na semana passada, um tribunal declarou ambos culpados de homicídio.

O caso não tem precedentes na Irlanda, onde não havia registos de homicidas tão jovens nem de um crime contra outra criança com semelhantes contornos de violência. Disso é reflexo a moldura penal a seguir. Naquele país, os menores raramente enfrentam uma pena superior a três anos de reclusão, apesar de os juízes poderem impor sentenças mais longas. No caso de A e B, ainda não se conhece a sentença.

Fora do tribunal, a sociedade irlandesa discute o que fazer perante o caso. O organismo de protecção de menores, cita o jornal inglês The Guardian, deu aos pais irlandeses uma série de recomendações sobre como falar com os filhos acerca das notícias do julgamento. Ao mesmo tempo, o Governo aumentou a pressão sobre empresas como o Facebook e o Twitter, exigindo maior controlo sobre a circulação de conteúdos — incluindo as imagens que identificam os dois arguidos — e o primeiro-ministro Leo Varadkar admite ‘importar’ uma lei britânica de restrição do acesso à pornografia de modo a combater a violência sexual.

Cada vez mais jovens e dependentes

Julho 6, 2019 às 6:15 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Photo by Tim Gouw on Unsplash

Notícia do Correio da Manhã de 26 de maio de 2019.

Vanessa Fidalgo

Os telemóveis são o novo melhor amigo, mas, em excesso, causam transtornos.

Os telemóveis vieram para ficar na vida das famílias portuguesas e o estar constantemente ligado é uma realidade à qual já nem os mais pequenos escapam. O aparelhinho de uso pessoal com mil e uma utilizações divide opiniões mas, sobretudo, tem tendência para fugir ao controlo paternal e às recomendações dos pediatras.

Segundo um estudo da Entidade Reguladora da Comunicação Social (ERC), uma em cada cinco crianças portuguesas entre os três e os oito anos têm telemóvel e metade são smartphones. Mas subindo um pouco a fasquia da idade, o telemóvel mostra-se incontornável. Segundo o Barómetro de Telecomunicações da Marktest, no primeiro trimestre de 2018 83% das crianças portuguesas entre os 10 e os 12 anos tinham telemóvel, número que passa para os 97% se considerarmos os jovens entre os 13 e os 17 anos.

De acordo com o estudo ‘Happy Kids: Aplicações Seguras e Benéficas para Crianças’, publicado pela Universidade Católica Portuguesa no ano passado, os pais são os primeiros a passar os dispositivos eletrónicos para as mãos dos filhos, tornando-os uma espécie de babysitter eletrónica para quando é preciso ‘trabalhar em casa’ ou manter ‘os miúdos calmos no restaurante’ – foram as principais razões apontadas. E os que mais usam aplicações são os que têm entre zero e os dois anos.

Berta Pinto Ferreira, pedopsiquiatra, lembra que a Sociedade Portuguesa de Pediatria não recomenda o uso de telemóveis por crianças com menos de 2 a 3 anos, mas o que lhe chega ao consultório é bem diferente. “Começam mais cedo e passam cada vez tempo a mais a brincar com eles nessa ou em idades mais avançadas, segundo nos dizem as consultas e os estudos mais recentes”. Por um lado porque as próprios pais “estão agarrados ao telemóvel”, por outro pela própria “necessidade de os manterem mais sossegados porque estão cansados, porque têm de trabalhar, fazer coisas, etc”.

Mas as consequências não se fazem demorar e manifestam a vários níveis. “Há estudos que apontam para trasos no desenvolvimento da linguagem, que se desenvolve em contacto com o outro e os telemóveis, obviamente, não nos respondem. Depois tem impacto na empatia (que também se desenvolve com o outro), no sono, na obesidade porque é uma atividade sedentária e, por último, a consequência final é a dependência”, avisa. A

Mas os telemóveis são “muito mais apelativos que um livro, atrativos e, se forem usados de forma acompanhada, como ferramenta de aprendizagem, recorrendo a alguns jogos educativos, até podem desenvolver algumas capacidades cognitivas e contribuir para a aprendizagem”, reconhece. E até mesmo em termos de socialização também têm as suas vantagens: “muitos miúdos levam-nos para a escola para ouvir a mesma música juntos. Isso é bom”.

O problema é o tempo que se passa a interagir só com eles. Segundo um estudo exploratório feito pelo Centro da Criança e do Adolescente do Hospital CUF Descobertas publicado em Março deste ano pela revista ‘Acta Médica Portuguesa’: 3,9% das crianças inquiridas revelaram comportamentos típicos de dependência e um terço (33,3%) foram consideradas em risco.

“Chegam-nos adolescentes com sinais claros de dependência, que muitas vezes estão até às duas ou três da manhã no telemóvel, com claro impacto psicológico: além de cansaço, trazem perturbações de ansiedade e depressivas. Por outro lado, atualmente, ninguém desliga os telemóveis, estamos disponíveis 24 horas por dia não vá alguém querem falar connosco a qualquer hora, e isso também cria stress. E há situações de dependência que têm de ser tratadas como tal”, frisa Berta Pinto Ferreira que apela “à sensibilidade dos pais” e ao “devido acompanhamento”.

João, de nove anos, e Afonso, de oito, usam o tablete desde o primeiro ano de vida, para ver vídeos, desenhos animados e jogar. Mas o telemóvel chegou lá a casa causado por outras vicissitudes. “Quando eu e o pai nos separámos, há um ano, demos-lhes os telemóveis para podermos falar com eles quando estivessem na casa do outro. No início serviu para isso, para trocar aquela mensagem de despedida, antes de deitar. Agora eles usam-no mais para os vídeos e para falar no grupo dos colegas de turma do WhatsApp”, afirma Tânia Parreiras, a mãe, de 36 anos. Mas, por vezes, também se esquecem dele desligado ou sem bateria “durante dias e dias a fio” e preferem ir fazer outras coisas, concretamente, jogar futebol. Tânia, reconhece, no entanto, que há muito que o pediam: “Talvez desde os cinco, seis anos, sobretudo o João”.

A mãe controla o que veem no You Tube através do histórico, pois os garotos usam a conta de Tânia para aceder. “Redes sociais ainda não têm e não sei muito bem como vou reagir quando acontecer. Uma coisa é certa: vou controlar”, garante. O mesmo acontece em alturas de testes e trabalhos de casa. “Os aparelhos ficam longe”, frisa. Mas vão em alturas de férias e passeio:” talvez porque nós, os pais, quando estamos mais cansados ou precisamos de fazer tarefas. Quando eles eram pequenos levavam sempre o tablet para ir a um restaurante”.

Luísa Januário, 42 anos e três filhas. Ana Carolina, de 10 anos, Catarina, de 17 e Alexandra de 19. Tiveram o seu primeiro telemóvel por volta dos dez anos. A mãe reconhece no entanto, que “entre a mais velha e a mais nova, houve diferenças geracionais”.

O de Ana Carolina chegou há poucos meses, comprado com o seu próprio dinheiro, amealhado das mesadas e prendas de aniversário. “Desde pequena, dos quatro ou cinco anos, que quer mexer no meu ou no das irmãs”. Usa-o essencialmente para “jogar, ver vídeos e conversar no Whatsapp com os colegas de turma, onde já quase todos têm também telemóvel. “Também tem Instagram, foram as irmãs que lhe criaram, mas sou eu que tenho a password”, diz a mãe.

Na escola primária, onde frequenta o 4º ano, os telemóveis só saem da mochila à hora do recreio. O que não a deixa propriamente feliz: “antes brincávamos mais, agora parece que o recreio perdeu a piada porque está tudo sentado nos telemóveis!”, lamenta Ana Carolina.

Para a mãe, são um mal necessário: “Sobretudo em relação às mais velhas, para saber onde e como estão. Mas acho que não devemos proibir porque o fruto proibido é sempre o mais apetecido”. Por isso, há regras bem definidas, até porque Ana Carolina, além da escola, tem outros deveres: estuda no conservatório nacional de música e toca percussão numa banda filarmónica. “Durante a semana, não há telemóvel. E aí sim, está um bocadinho de manhã, depois mais um bocadinho à tarde. Mas tem tempo para tudo: trabalhos de casa, música, brincar e telemóvel”, diz Luísa, que reconhece que muitas vezes os pais facilitam, “nem tanto por pressão dos miúdos mas porque o tempo é pouco e é preciso entretê-los com qualquer coisa”. Luísa já usou o argumento de tirar o telemóvel como castigo: “por não estarem a fazer o que deviam”. E resultou.

Lá em casa, é Catarina, de 17 anos, que passa mais tempo agarrada ao aparelho. Tanto que às vezes se sente farta. “É verdade que ás vezes deixo os trabalhos de casa e outras coisa para depois para estar no telemóvel e fico horas a mais do que devia. Mas às vezes também fico farta e até sinto que preciso de fazer um ‘detoux’.

Os crimes do teclado
Tito de Morais, fundador do projeto MiudosSegurosNa.Net, alerta para o facto destes dispositivos promoverem a “constante busca por atenção e estímulo da superficialidade através a comparação social em detrimento da   profundidade”.

Ao parecer ‘versus’ ser juntam-se os riscos físicos: “o cyberbullying e os outros riscos potenciais, resultantes da
exposição potencial a conteúdos impróprios, contactos e comunicação com terceiros – conhecidos ou desconhecidos – riscos associados a práticas comerciais e publicitárias não-éticas e, sobretudo, à datificação das crianças”. Ou seja, a divulgação de dados pessoais que possam por a sua integridade em risco.

Aos pais cabe uma tarefa com nome feio: controlar. “O que é mais difícil por ser um dispositivo privado, móvel, e de bolso. No entanto, os principais sistemas operativos disponibilizem ferramentas de controlo parental e existem no mercado ferramentas especializadas neste tipo de tarefas que podem facilitar a vida aos pais”, explica o especialista em segurança na internet Tito de Morais.

O recreio já é digital
Às escolas, os telemóveis também já vieram para ficar. O recreio, por natureza, é uma altura livre, que os alunos ocupam da forma que pretenderem, durante a qual – segundo o Estatuto do Aluno – o uso de telemóveis e outros dispositivos tecnológicos dentro do recinto escolar só é permitido com autorização da direção da escola ou do   professor. “Os limites estão portanto definidos. A questão é da vontade em os fazer ou não fazer cumprir. Pessoalmente, não me parece que a proibição seja a solução. Alias veja-se a situação presentemente. Se as crianças passam os intervalos ocupadas a olhar para os ecrãs, a culpa é nossa, porque como adultos não lhes arranjarmos alternativas mais interessantes para ocuparem o seu tempo. Às tantas, são animadores desportivos, artísticos e culturais nos intervalos. Às tantas, o que falta não é ser mais rígidos e impor limites, às tantas o que falta é ensinar as crianças a brincar”, sugere Tito de Morais.

Mas é também na escola que os professores mais sentem os efeitos dos telemóveis. Judite Esteves, professora na EB 2,3 Cardoso Lopes, na Amadora, nunca teve conhecimento na sua escola de um crime de cyberbullying mas já presenciou autênticos dramas quando há um aparelho “apreendido, perdido ou roubado”.

“Sente-se nos jovens o desgosto de ficar incomunicável aliado ao medo da reação dos encarregados de educação. É principalmente nestas situações que constatamos o nível exagerado de dependência”, constata. Na Cardoso Lopes, as regras estão bem definidas: É obrigatório todos os alunos depositarem o aparelho, devidamente desligado, em bolsas numeradas que existem à entrada de todas as salas de aula.

Mas aos intervalos, pelos ecrãs que os seus olhos espreitam e somam de soslaio, não deverá andar “muito longe da verdadeira percentagem” se considerasse que cerca de 90 por cento dos alunos têm telemóvel e alguns têm mais do que um…

“Tanto é usado para comunicar como para jogar. Sem dados concretos, a sensação que tenho é que as raparigas o utilizam mais para comunicar nas redes sociais e os rapazes para jogar”, calcula.

Mas o que mais constatam os professores é o nível de dependência. “O telemóvel tornou-se um objeto de extrema importância na vida da maioria das pessoas. Dificilmente poderia ser diferente a relação com um utensílio que reúne tecnologias que permitem telefonar, enviar mensagens, aceder a sites, redes sociais, vídeos, jogar, pesquisar, fotografar e certamente muito mais… Possivelmente qualquer um dos meus alunos poderia juntar ainda outras funções que desconheço. Quando uma criança tem acesso a um instrumento desta dimensão e aprende a manuseá-lo o caminho para a dependência está aberto. Uns utilizam-no de forma moderada e saudável, outros servem-se dele para ações que poderão ser consideradas prejudiciais, não só para si mas muitas vezes para os outros. Causando muitas vezes situações de indisciplina que são alvo de sanções”.

Por isso, equilíbrio e bons exemplos são precisos, avisa a professora: “O bom senso é geralmente o melhor caminho. Mas uma coisa é certa, não só os encarregados de educação, mas também a escola têm que aceitar, acompanhar os avanços tecnológicos e usufruir e deixar usufruir de tudo que há de positivo nestes avanços”.

Por medo de atiradores, escolas dos EUA vigiam redes sociais de alunos

Julho 3, 2019 às 6:00 am | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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Notícia da Veja Brasil de 9 de junho de 2019.

Entre as medidas adotadas está o sistema de reconhecimento facial dos estudantes; ONGs se preocupam com imprecisão da tecnologia, indicando falsos suspeitos

Por Da Redação

O medo de atiradores estimulou a adoção de um sistema de vigilância dos alunos em escolas nos Estados Unidos. Entre as primeiras medidas, estão o monitoramento das redes sociais de adolescentes, para prevenir e identificar comportamentos agressivos.

Em algumas regiões do país, o método já cresceu a ponto de incluir a tecnologia de reconhecimento facial dos suspeitos, o monitoramento das postagens de quem está apenas no entorno das escolas, inclusive os adultos, e a identificação do uso de palavras que podem ser associadas a massacres.

Há empresas que vendem uma “análise psicológica” das postagens de alunos e aplicativos de “inteligência emocional” para avisar os pais sobre as buscas feitas na internet com palavras-chave como “morte”, “matar” ou “armas”.

Se a vigilância de redes sociais já era um assunto controverso, o debate sobre o direito à privacidade ganhou um novo componente na última semana, quando o distrito escolar de Lockport, no Estado de Nova York, anunciou a instalação do projeto de reconhecimento facial dos alunos. A ideia é cruzar os rostos de quem transita pela escola com uma base de dados com informações sobre alunos expulsos e com passagens pela polícia.

Autoridades locais pediram imediatamente que o projeto seja adiado. Os métodos de vigilância têm sido alvo de críticas de especialistas que consideram que os sistemas minam a privacidade dos jovens, a liberdade de expressão e podem criar traumas por possíveis falsas acusações. Os pais também temem o compartilhamento dessas informações com autoridades públicas ou para fins comerciais, já que a coleta de dados é feita por empresas privadas.

Os testes dos sistemas de reconhecimento facial ainda mostram que sua precisão varia de acordo com a cor de pele ou o gênero do rosto analisado. Segundo um professor da rede pública de Massachusetts, Erik Learned-Miller, o sistema, se não for bem testado, pode se tornar tendencioso.

Preconceito velado

E é com isso que Latarndra Strong se preocupa. Mãe de dois adolescentes, de 13 e 15 anos, ela foi informada de que a escola dos filhos, em Orange County, na Carolina do Norte, havia contratado uma empresa para analisar as postagens dos alunos.

“Morte, tiros, assassinato” são palavras que pulam no celular do diretor de uma das escolas que contratou estes serviços, com custo de aproximadamente 2 dólares americanos por aluno. Em alguns casos, o monitoramento das redes cria situações absurdas, como um alerta para postagens inofensivas com variações da palavra morte: é o caso de um alerta gerado a partir as mensagens “eu adoro meu gato e morreria por ele” ou “estresse pode matar”.

“Eles decidem quem será criminalizado. Como mãe, estou preocupada com o que é feito com esses dados”, diz Latarndra. Segundo ela, a escola avisou da contratação do sistema de monitoramento, mas não consultou os pais. “Quero entender os gatilhos que, segundo eles, fazem com que um aluno se torne suspeito.”

A Carolina do Norte é outro estado a adotar o sistema.  A empresa contratada é a Social Sentinel, uma companhia privada presente em distritos escolares de 35 dos 50 Estados americanos. Como ela, outras companhias já se espalharam pelos Estados Unidos. Seu trabalho consiste em analisar o conteúdo postado pelo aluno ou contido em e-mails do servidor da escola para identificar alunos que precisam de ajuda.

A empresa defende a importância de seu trabalho, mencionando uma pesquisa da organização Educators School Safety Network, estimando que 40% das pessoas que machucam a si mesmas ou a outros já expressaram esse desejo nas redes sociais. “É nossa missão identificar essas postagens e dar a nossos clientes a oportunidade de intervir”, informou um porta-voz da empresa.

Segundo a Social Sentinel, a tecnologia é continuamente refinada e o modelo é conservador, para criar um “número mínimo de falsos positivos”. A empresa afirma que não gera dados para outros propósitos, como marketing, e garante não monitorar usuários específicos ou dados privados.

Regulação do sistema

O advogado Brad Shear, especialista em redes sociais, passou a defender jovens rejeitados em universidades em razão de postagens online nos últimos anos. Com dois filhos na escola, ele é crítico do novo sistema de vigilância.

“É preciso haver regulação e lei”, critica ele. “O melhor a fazer é educar as crianças. Há casos de falsos positivos, e essas empresas estão tentando assustar educadores e pais dizendo que precisam disso para se tornarem seguros.” Segundo ele, há casos em que adolescentes postam letras de músicas nas redes sociais e já entram na mira dos alertas.

Em artigo, as pesquisadoras Rachel Levinson-Waldman e Faiza Patel, do Centro de Justiça Brennan, da New York University, apontam que 92% dos adolescentes frequentam redes sociais diariamente e que 24% deles estão conectados quase constantemente.

“Os programas de monitoramento podem funcionar como dispositivos de escuta que registram cada fala e os transmitem aos diretores escolares. Esse escrutínio pode revelar um comportamento de risco que requer intervenção. Mas, com muito mais frequência, também reprimirá a capacidade dos jovens de se expressarem”, afirmam.

O escritório nova-iorquino da Associação Americana para Liberdades Civis (ACLU) tem sido uma das vozes críticas à proposta de reconhecimento facial, sob o argumento de que o sistema de identificação passa aos estudantes a mensagem de que eles são criminosos em potencial e, por isso, precisam ter os rostos escaneados enquanto estudam ou brincam.

“Está claro que o Estado deve intervir e garantir que essas tecnologias imprecisas, preconceituosas e perigosas não sejam impostas a alunos, professores e pais sem a devida consideração de seus direitos”, afirmou Stefanie Coyle, conselheira de educação do NYCLU.

‘Isso só aumenta o estresse’

Ethan Sommers, de 19 anos, entrou para o movimento March For Our Lives depois de ter amigos que foram vítimas de tiroteios em escolas. O grupo foi criado por jovens depois do massacre de Parkland, na Flórida. Para ele, não está claro como o monitoramento de redes sociais ou reconhecimento facial pode tornar o ambiente estudantil mais seguro.

“Achamos que isso não ajuda, porque só aumenta o estresse”, afirma. “Não só falha na proteção, como não contribui com a qualidade da saúde mental dos estudantes, que é a nossa principal preocupação”, afirmou.

Erik Learned-Miller, professor de ciência da computação da Universidade de Massachusetts, tem se dedicado a pesquisas sobre os sistemas de reconhecimento facial. Segundo ele, ainda não há normatização suficiente sobre o tema para fazer com que os benefícios compensem os riscos.

“Se você nunca testou, por exemplo, o equipamento em situações de pouca luz, como sabe se vai funcionar? Os administradores de escolas compram o serviço sem saber nada sobre a tecnologia, as companhias não providenciam essas informações e não há diretrizes claras sobre isso. Não recomendaria às escolas comprarem neste momento uma tecnologia que não está pronta”, afirma Miller, que aponta erros em identificação facial nas suas pesquisas.

Em Nova York, um jovem de 18 anos está processando a Apple por ter sido detido injustamente por meio dos sistemas de monitoramento. Segundo ele, o sistema de reconhecimento facial da loja – que a empresa nega usar – o identificou como suspeito de forma equivocada. A polícia o liberou por entender ser a pessoa errada, mas Ousmane Bah pede uma indenização de 1 bilhão de dólares à empresa por danos morais.

Miller compara os sistemas à venda de remédios controlados. “É preciso passar por um processo para que sejam estipuladas as contraindicações”, afirma. “Qual é o custo do erro? Suponha que um pai entre em uma escola e não seja identificado corretamente, o que acontecerá? Um policial será acionado e vai atirar? Eu não sou anti-indústria, mas tenho visto empresas superestimando a precisão da tecnologia”, afirma o pesquisador.

Em maio, a cidade de São Francisco, na Califórnia, sede das gigantes de tecnologia, aprovou uma lei que proíbe o uso desses programas de reconhecimento facial pela polícia local. A cidade entendeu que o risco aos direitos e liberdades civis “supera seus benefícios”.

Em 2016, um estudo do Centro de Privacidade e Tecnologia da Universidade Georgetown indicava que as bases de dados coletados por agentes públicos reconheciam o rosto de 117 milhões dos mais de 240 milhões de americanos adultos.

(com Estadão Conteúdo)

À procura de likes, menores expõem intimidade nas redes sociais

Junho 28, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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DN Life

Notícia e imagem do DN Life de 7 de junho de 2019.

Numa sociedade altamente sexualizada, crianças e adolescentes partilham fotos de momentos íntimos para gerar mais interação nas redes sociais.

Texto de Joana Capucho

Mais de 110 menores foram identificados recentemente em Espanha pela partilha de conteúdos com teor sexual nas redes sociais. Em causa estão vídeos de momentos de intimidade publicados em plataformas como Instagram, Twitter ou YouTube. Segundo a Polícia espanhola, há casos em que as imagens de crianças nuas ou seminuas foram partilhadas pela família, mas existem outros em que foram os próprios menores a publicar as imagens. O objetivo, diz o comunicado das autoridades, era “conseguir novos seguidores para os seus canais do Youtube ou mais likes nas suas publicações”.

Tito Morais, fundador do MiudosSegurosNa.Net, confessa que ficou “surpreendido” quando leu a notícia, mas, após alguma análise, considera que “faz sentido” tendo em conta a sociedade em que vivemos. “Vários estudos indicam que cada vez mais as redes sociais são um mecanismo de afirmação social perante os pares, sendo conhecidos vários efeitos negativos das mesmas ao nível da saúde mental”, diz à DN Life.

Na opinião do promotor do projeto de segurança online, estas plataformas “promovem cada vez mais a superficialidade em detrimento da profundidade”. O que vale atualmente é sobretudo “o parecer”, o que se “traduz na procura do like”.

Por cá, não são conhecidos casos de crianças ou adolescentes que partilhem conteúdo sexual com o objetivo de gerar mais interação nas redes sociais. “De forma deliberada, para ter mais likes ou seguidores, não tenho noção que aconteça”, diz a psicóloga Vânia Beliz, que tem participado em várias sessões sobre os perigos da internet nas escolas. Na opinião da sexóloga, estes são “comportamentos típicos da adolescência, de pisar o risco, mas que nesta altura têm consequências mais graves”.

O facto de as crianças e adolescentes viverem “num ambiente altamente sexualizado e de saberem que o sexo e a transgressão atraem” pode ajudar a explicar o fenómeno. “Os miúdos fazem o que veem fazer. Os videoclips são altamente erotizados, assistem a filmes que não são adequados para a idade”, explica a psicóloga. Ao mesmo tempo, “estão num processo de experimentação, de transgressão, de testar os limites”. O grande problema, frisa, “é que se colocam num cenário perigoso, porque a internet tem uma capacidade de divulgação dos conteúdos brutal”.

A necessidade de reconhecimento e de dar nas vistas sempre existiu, lembra a sexóloga, “mas agora surge de uma forma mais perigosa”, porque acontece no meio digital. “Há necessidade de ser aceite, de fazer alguma coisa que suscite a atenção dos outros. Estão numa altura em que é importante ter aprovação”, refere a psicóloga, destacando que “o sexo vende, chama a atenção”.

Daniel Cardoso, professor na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias e membro do projeto EU Kids Online, também não tem conhecimento de casos como aqueles que foram relatados em Espanha. “Mas, do que tenho visto, os jovens e as jovens, como quaisquer outras pessoas com vida sexual, sexualidade, interesses íntimos e que vivem numa sociedade que sobrevaloriza a sexualidade e a experiência sexual, acabam por mobilizar as suas próprias representações, às vezes por questões motivadas pela sua própria vontade, outras vezes para fins mais instrumentais, como parece ser o caso”, refere o investigador.

A serem reais, destaca Daniel Cardoso, “este tipo de ações têm de ser lidas no contexto de uma sociedade e cultura que sobrevaloriza a questão da nudez, da sexualidade e da sexualização dos corpos”. Como estão em causa menores, o docente universitário diz que se levanta outra problemática: “Tecnicamente, o que produzem pode ser considerado pornografia infantil, o que mostra o quão pouco adaptadas à realidade as nossas leis estão”. Há um caso, recorda, de uma adolescente americana que foi detida por posse e distribuição de pornografia infantil, depois de ter enviado uma foto sua ao namorado. Em causa, frisa, estão também “questões relacionadas com a autonomia sexual”.

“Vivemos numa sociedade que hiperssexualiza os jovens e, quando estes começam a testar os seus limites, achamos que é problemático, mas não problematizamos o contexto”, diz Daniel Cardoso, que prefere colocar a questão de uma outra forma. “Que sociedade é esta que faz com que este tipo de ações faça sentido? Se fazem isto, é porque têm resultados. Que cultura é esta que incentiva e mobiliza este tipo de práticas?”.

Nem a GNR nem a PSP têm registo de casos de menores que publicam fotos ou vídeos nus. Nas escolas, conta Vânia Beliz, o mais frequente é ler testemunhos de crianças e adolescentes “que já partilharam conteúdo erótico ou íntimo, que se filmaram ou que receberam ameaças” relacionadas com o sexting. Segundo a psicóloga, os promotores das ações de sensibilização leem “coisas horríveis” quando pedem relatos escritos, como casos em que as raparigas tinham enviados nudes aos namorados que os mostraram aos amigos ou que tinham ido a festas, consumido bebidas alcoólicas e filmado situações íntimas.

Tito de Morais, que há vários anos tem vindo a alertar para esta problemática, diz que, em Portugal, o que se sabe é que “há jovens que praticam sexting e que são coagidos a fazê-lo por namorados ou namoradas”. Daí “resulta muitas vezes sextortion (para extorsão de dinheiro ou favores sexuais)” e, em alguns casos, revenge porn, ou seja, publicação de vídeos ou imagens de cariz sexual sem o consentimento do outro.

Conselhos:

  • Nunca partilhar imagens ou vídeos de cariz íntimo na internet pois, quando disponibilizados na web, perde o controlo sobre a sua utilização e partilha.
  • Acompanhar a atividade das crianças na internet e a utilização das redes sociais.
  • Informar-se de forma a aumentar a literacia digital.
  • Só permitir o acesso ao telemóvel às crianças que mostrem maturidade para trabalhar com o dispositivo.
  • Se necessário, investir em programas de supervisão para controlar a atividade dos menores online.
  • Liderar pelo exemplo: não fazer uma utilização excessiva dos smartphones e das redes sociais.
  • Criar zonas livres da utilização de dispositivos eletrónicos, nomeadamente o local da refeição e os quartos.
  • É aconselhável ter um perfil nas redes sociais onde os menores estão inscritos, mas resista à tentação de fazer comentários sem o seu consentimento.
  • Não adicionar desconhecidos.
  • Incluir os menores no processo de definição de regras, uma vez que a imposição tende a não funcionar.
  • Ter atenção a comportamentos das crianças relacionados com o isolamento, nervosismo, falta de auto estima, insegurança, absentismo escolar, perda de apetite ou apresentação de lesões físicas.

 

 

O jogo da asfixia que está a assustar Espanha (em Portugal “não foram reportados casos mas não quer dizer que não haja”)

Junho 18, 2019 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Expresso de 31 de maio de 2019.

Liliana Coelho

O caso não é inédito. Dois adolescentes voltam a ser hospitalizados em Espanha após alinharem no jogo da asfixia, também conhecido por “jogo da morte”. As vítimas são estranguladas até perderem a consciência. Um desafio com muitos riscos que pode causar danos cerebrais ou mesmo a morte.

Uma adolescente de 12 anos foi a mais recente vítima do jogo da asfixia que está a circular nas redes sociais em Espanha. É o segundo caso registado esta semana.

Segundo o jornal “El Mundo”, a jovem aceitou esta quinta-feira de livre vontade participar no jogo em plena via pública no município de Pinto, em Madrid. Passava pouco das 14h (13h em Lisboa). As amigas que a acompanhavam estrangularam e pressionaram o peito da jovem até lhe provocar falta de oxigénio. Resultado? A vítima caiu ao chão inconsciente, tendo sido levada de imediato para o hospital.

Neste momento, as autoridades locais informaram que a adolescente se encontra “bem”, fora de perigo, “embora assustada” e com um hematoma na cara. Entretanto, já foi solicitada uma investigação sobre o caso, que está a assustar os pais de adolescentes em Espanha.

Três dias antes foi registado um episódio semelhante em Granada que envolveu vários jovens neste jogo – que foi filmado e divulgado nas redes sociais. Um deles foi também transportado para o hospital. A polícia local já pediu aos pais no Twitter para estarem mais vigilantes face a estas situações, que já foram registadas noutros anos em países como Brasil, EUA, Reino Unido ou França.

Contactado pelo Expresso, o fundador do MiudosSegurosNa.Net, Tito de Morais, admite que os jovens portugueses possam também aderir a este desafio, que está conquistar também jovens no Brasil, aconselhando os encarregados de educação a estarem mais atentos aos passos dos filhos. “Não nos foram reportados quaisquer casos em Portugal, mas não quer dizer que não haja. Dado a enorme proliferação dos mesmos na Internet em geral e no Brasil em particular, e dado termos a língua em comum, não me admiraria que houvesse casos em Portugal”, afirma Tito de Morais.

De acordo com este especialista, um dos maiores problemas que se coloca à identificação de mortes resultantes deste tipo de jogos – que podem causar várias consequências como danos cerebrais – é que geralmente são classificados como suicídio e não como mortes acidentais. “Daí estarmos a alertar para a importância de incluirmos também pediatras nas ações de formação sobre o tema”, acrescenta.

Mais do que denúncias, sublinha Tito de Morais, estas situações chegam ao projeto MiudosSegurosNa.Net através dos media e de parceiros internacionais. No total, o fundador do projeto diz que foram identificadas 40 ações de instigação a comportamentos autolesivos a que geralmente chamam “jogos” ou “desafios”. “A maioria é composta por vídeos com conteúdos nocivos, prejudiciais ou danosos, que podem ser mortais ou, como alguns outros, meramente parvos”, acrescenta.

São vários os sinais de alerta relativos à prática da asfixia e de outros desafios perigosos, como o isolamento, a utilização de golas altas mesmo no verão, olhos vermelhos, desorientação, dor de cabeça frequente, conversas sobre estes jogos ou presença de objetos suspeitos no quarto como cordas ou trelas, refere o portal Projeto MiudosSegurosNa.Net e o Instituto Dimicuida.

Tito de Morais insiste que os pais e educadores têm um papel fundamental na prevenção deste tipo de casos, sendo por isso também vital o diálogo.

 

 

A Selfie Publicada

Junho 4, 2019 às 1:59 pm | Publicado em Vídeos | Deixe um comentário
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Instagram: Jovem suicida-se após questionar seguidores na rede social

Maio 22, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia e imagem do site PPLWare de 17 de maio de 2019.

As redes sociais têm hoje um impacto forte nas sociedades! “Facilmente” se consegue manipular a opinião pública e, em muitos cenários, as redes sociais conseguem ter o efeito “mudança” para o bem e para o mal.

Recentemente uma jovem de 16 suicidou-se após questionar os seus seguidores no Instagram se devia morrer ou viver.

O caso aconteceu na Malásia, no estado de Sarawak, e as autoridades estão a investigar o que terá levado uma jovem de 16 anos a suicidar-se. De acordo com as informações, a jovem colocou no Instagram uma sondagem onde questionava se devia morrer ou continuar a viver. Depois de obter mais respostas que indicavam para colocar fim à vida, a jovem acabou mesmo por fazê-lo.

Segundo dados da Polícia Local, o resultado do inquérito chegou a ter 69% dos seguidores a votarem a favor da morte e apenas 31% a favor de continuar a viver. No entanto, o inquérito terminou com 88% dos utilizadores a votarem a favor da vida.

Ching Yee Wong, responsável pelas comunicações do Instagram já deu os sentimentos à família e referiu que a rede tem uma enorme responsabilidade no sentido de garantir a segurança dos utilizadores.

Wong alertou para que os utilizadores “façam uso das próprias ferramentas de denúncia do Instagram para entrar em contacto com os serviços de emergência quando se detectam comportamentos que coloque em risco a segurança dos utilizadores.”

É importante que os jovens, e sobretudo os seus responsáveis, se consciencializem dos perigos e riscos que as redes sociais podem trazer. Apesar de serem ferramentas importantes no nosso dia a dia, podem também perigosos e, como no caso, fatais, quando não são bem utilizadas.

Pedro Pinto

 

 

Pornografia e abuso de menores nas redes sociais estão a aumentar

Maio 15, 2019 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Maria Miguel Cabo

Notícia e imagem da TSF de 3 de maio de 2019.

Só no último ano, a Unidade de Combate ao Cibercrime e à Criminalidade Tecnológica da Polícia Judiciária abriu 64 inquéritos sobre encontros sexuais com crianças através de plataformas eletrónicas.

“Ainda existe muito aquela ideia de que se os filhos estiverem fechados no quarto estão protegidos, e, muitas vezes, estão mais abandonados e expostos do que se estivessem na rua.” Carla Costa já viu e ouviu de tudo sobre abuso sexual de crianças e jovens na internet. Pelas mãos da Inspetora-Chefe da Unidade Nacional de Combate ao Cibercrime e à Criminalidade Tecnológica da Polícia Judiciária (PJ) passam milhares de casos com um denominador comum: os perigos do mundo virtual, que são mais reais do que se possa imaginar.

No gabinete da Inspetora-Chefe, na sede da PJ em Lisboa, a palavra que mais se ouve quando se fala de pornografia infantil, abuso sexual de menores ou aliciamento de crianças e jovens para encontros de cariz sexual (grooming) é “controlo” – neste caso, a falta dele. Só no último ano, a Unidade que dirige abriu 64 inquéritos devido a situações de aliciamento sexual de menores através das redes sociais.

Facebook e WhatsApp são as plataformas onde se registam mais casos, geralmente associados à chantagem prolongada das vítimas: “Muitas vezes há jovens que se enamoram por alguém que está do outro lado e não conhecem, que pensam tratar-se de um jovem da mesma idade e vai-se a perceber que é um adulto que está do outro lado. Depois caem numa situação em que são exigidas cada vez mais imagens e são inclusivamente instruídas a fazer vídeos de cariz sexual para satisfazer os interesses de outras pessoas”, explica Carla Costa.

Por vezes, as situações acabam por ser detetadas e denunciadas à PJ pelos pais, mas noutros casos os encontros e abusos sexuais acabam por acontecer.

A Inspetora-Chefe admite que a falta de acompanhamento quando os menores navegam na internet é preocupante e que muitas situações de abuso começam numa mentira, com a cumplicidade dos próprios progenitores. “Muitas vezes, temos crianças que mentem sobre a idade com o conhecimento dos pais. E isto não acontece só em famílias desestruturadas, mas também em famílias completamente estruturadas, com estabilidade.”

Para criar conta nas redes sociais, a idade mínima nem sempre é respeitada. Os jovens acabam por mentir para efetuar o registo e ficam sujeitos a perigos desvalorizados pelos pais e pela própria sociedade. A Inspetora-Chefe explica que “no Facebook [a idade mínima] são 13 anos, no WhatsApp são 16 anos “e que, muitas vezes, os pais permitem que os menores tenham acesso às aplicações (até para facilitar as comunicações com os filhos), mas esquecem-se de os controlar.

“Isso é uma obrigação dos pais, devem conversar e alertar para os perigos. Parece-me que, muitas vezes, a falha passa por aí”. Carla Costa lembra ainda a importância das aplicações de controlo parental que permitem acompanhar as pesquisas e acessos dos filhos nas redes sociais.

O aumento do número de casos de pornografia infantil e abuso sexual de crianças com base em interações nas redes sociais tem expressão um pouco por todo o mundo. Em Espanha e no Reino Unido, por exemplo, as autoridades estão a investigar vários casos de crimes contra menores com origem em aplicações de encontros para adultos. Também aí os jovens mentiram sobre a idade para se poderem registar em redes sociais como o Tinder ou o Grindr.

 

 

 

Zeros à direita: o que é e como se caracteriza a geração Z?

Maio 8, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Gonzalo Fuentes

Artigo de opinião de Helena Martins publico no Público de 24 de abril de 2019.

Estes jovens acreditam que têm de ser eles a fazer as mudanças que querem ver no mundo e estão orientados para criar soluções e agir sobre as coisas que os preocupam, são fazedores e estão orientados para objectivos e missões concretas.

Já toda a gente ouviu falar de millennials, mas o que vem a seguir? Apresento-vos a GenZ ou iGen, os jovens nascidos entre 1995 e 2005 que já estão a mudar o mundo.

Pessoas nascidas no mesmo período de tempo e que vivenciam as mesmas circunstâncias e experiências influenciam-se mutuamente, acabando por partilhar algumas características: é isto que nos permite falar sobre as gerações como tendo uma identidade própria.

A geração Y ou millennials é, de acordo com vários autores, a mais estudada de todos os tempos (bom… até aqui!), na medida em que representou um grande corte com o passado graças ao à-vontade e uso generalizado da tecnologia, em especial a Internet wireless, os smartphones e os chamados meios sociais, as redes sociais que permitiram o surgimento de fenómenos como os influencers e novas profissões como os youtoubers, mas também revoluções sociais e políticas como a Primavera Árabe. Esta geração de jovens nascidos entre 1980 e 1995 é frequentemente descrita (talvez de forma pouco justa) como egocêntrica, impaciente e mimada — e, em Portugal, ficou conhecida como “geração à rasca”.

Os millennials cresceram num ambiente de optimismo e florescimento económico, de expectativas elevadas — “Estuda, filho, para teres um bom futuro!” —, mas depararam-se com uma realidade de recessão económica. Foram criados na expectativa de obter, com os seus esforços e formação superior, uma vida cheia de regalias e privilégios, mas viram-se confrontados com uma realidade de insegurança, precariedade e recessão económica enquanto jovens adultos.

É neste ambiente económica e politicamente menos favorável surge a Generation Z, Gen Z, iGen, nativos digitais ou geração tecnológica. Estes jovens cresceram num mundo pós 11 de Setembro e pós derrocada dos mercados financeiros, tendo portanto circunstâncias de crescimento fundamentalmente diferentes das dos millennials, na medida em que, no seu mundo, a segurança e a invulnerabilidade anteriormente dada por adquirida se abateu face a fortes recessões económicas e ataques terroristas vários. Acredita-se, por isso, que as expectativas destes jovens sejam mais realistas e empreendedoras do que as da geração que os antecedeu. Estes jovens acreditam que têm de ser eles a fazer as mudanças que querem ver no mundo e estão orientados para criar soluções e agir sobre as coisas que os preocupam, são fazedores e estão orientados para objectivos e missões concretas.

Os iGens são também os primeiros verdadeiros nativos digitais: desconhecem um mundo sem Google, iPhone ou Wi-Fi. Tão ou mais capazes de gerir estes recursos tecnológicos do que os millennials, os GenZ aprenderam com os erros dos seus antecessores a não se sobre-expor e a ter cuidado com aquilo que publicam, preferindo media que se autodestroem versus os que permanecem: favorecem as stories de 24 horas no Instagram, usam Snapchat e WhatsApp, onde os conteúdos se partilham com um grupo restrito de pessoas em vez de canais abertos como o Facebook, ao qual desconhecidos podem mais facilmente aceder e que qualquer busca no Google expõe para sempre.

Estes são, então, jovens com expectativas realistas, uma profunda consciência social e ferramentas de intervenção e mobilização social sem paralelo na História.

As repercussões da sua capacidade e vontade de agir têm adquirido uma visibilidade cada vez maior com consequências globais, como é o caso da jovem Greta Thunberg, cujas preocupações ambientais se tornaram virais e fizeram com que, ainda este ano, jovens em todo o mundo faltassem às aulas para se manifestar pelo planeta, a mais jovem prémio Nobel de sempre, Malala Yousafzai, ou os jovens americanos que se mobilizam para promover legislação contra a liberalização das armas de fogo, etc.

A geração Z parece juntar vários predicados que a tornam uma força de mudança importante desde uma idade muito jovem, ao aliar excelente acesso e conhecimentos tecnológicos e de social media, uma consciência social extraordinária, vontade de agir e uma capacidade de impacto global sem precedentes.

Se os millennials esperavam que o mundo reconhecesse o seu valor e evoluísse na medida das suas competências, os jovens Z parecem determinados a moldar as circunstâncias aos seus valores e dispostos a usar as suas competências para fazer o mundo evoluir.

 

“Tenho 14 anos e abandonei as redes sociais depois de descobrir o que foi publicado sobre mim”. Relato de uma adolescente na primeira pessoa

Maio 7, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia da Visão de 25 de abril de 2019.

São meia dúzia de minutos de leitura ávida que mal nos deixa respirar. Esta é a experiência de Sonia Bokhari, aluna do 8º ano, quando se inscreveu nas redes sociais.

Nunca imaginara nada daquilo. Sonia escrevia compulsivamente, era a líder da Aliança Gay-Hetero na sua escola e também pertencia ao Clube do Ambiente. Resolveu abrir conta no Facebook e no Twitter. Foi então que descobriu o que tanto a mãe como a irmã já tinham postado sobre ela – acabou por decidir fechar as contas e desaparecer dali, em seguida.

O relato faz parte de uma série de reportagens da Fast Company e começa assim: “Ah, isso é engraçado!” Era o último comentário da minha irmã, de 21 anos, à mais recente atualização do Face da nossa mãe. O primeiro de muitos: afinal, as redes sociais têm tido uma importância significativa na vida da minha irmã desde os seus 13 anos e, desde então, publica regularmente.”

A regra lá em casa, conta Sonia, é a comum a muitos pais de crianças pequenas: como o que não faltam por aí são avisos sobre os riscos do uso abusivo das redes sociais, tanto ela como a irmã só poderiam inscrever-se depois dos 13 – e isto mesmo que muitos dos seus amigos já o fizessem desde os dez. E ela acatou isso sem grande contestação.

“É verdade que isso me deixava algo curiosa, mas nada que me perturbasse no dia a dia. E como não tinha smartphone nem autorização para me inscrever, acabou por não ser propriamente um problema para mim.”

Até que chegou o dia D – e Sonia fez como esperado. Inscreveu-se e, claro, dado que as redes eram uma presença tão valorizada nos telemóveis lá de casa, o primeiro perfil que pesquisou foi o da mãe. Mas a reação não foi a melhor.

“Foi quando percebi que, embora essa fosse a primeira vez que andava por ali, estava longe de ser a primeira vez que as minhas histórias apareciam online. E quando vi as fotos que tinham vindo a ser publicadas nos últimos anos, senti-me profundamente envergonhada e mesmo traída.”

É que, ali, à vista de todos, estavam os momentos mais “embaraçosos” da sua infância – desde a carta que tinha escrito para as fada dos dentes aos cinco anos a fotos suas a chorar quando era mais pequena, e outras ainda já mais velha.

“Tudo sem que eu tivesse qualquer conhecimento. Parecia que a minha vida inteira estava documentada no Facebook e eu não fazia ideia.”

Sonia reconhece a razão por que a mãe o fez: afinal, para a família e amigos em geral aquilo eram só, como ela fiz, “momentos engraçados e fofos”. Mas para ela não.

“Para mim foram mortificantes. Além disso, percorrendo os comentários da minha irmã, apercebi-me do que ela se riu à conta daquilo.”

O impacto na vida de Sonia foi tremendo, ela que tinha acabado de fazer 13 anos e achava que ia finalmente começar a sua vida nas redes sociais.

“Só que afinal já havia centenas de fotos e histórias online, para sempre, quer eu quisesse quer não. E eu não tinha controlo algum sobre aquilo. Obviamente, senti-me traída.”

Depois da fúria, a calmaria e um pedido: “Não voltem a fazer isso sem a minha permissão.”

E mãe e irmã prometeram não voltar a fazê-lo, embora não sem antes mostrarem a maior surpresa perante aquela reação. “Que não era para me envergonhar, era só para contar as minhas gracinhas e assim manter um registo do que eu fazia quando era pequena.”

E, por fim, com muita tranquilidade – e, até, mais maturidade do que as pessoas à sua volta – Sonia relembrou: “Nós, os adolescentes, passamos a vida a ser alertados para o facto de que tudo o que postamos fica online para sempre. Mas então digo-vos que os pais também devem refletir sobre a forma como isso pode afetar a vida dos seus filhos quando estes se tornam jovens adultos.”

E na altura em que Sonia se tornou mais ativa no Facebook e no Twitter ainda nem tinha pensado seriamente na sua pegada digital. Era outubro e, durante aquele mês, houve uma série de apresentações na sua escola sobre isso e sobre segurança online.

Os autores pertenciam a uma organização chamada OK2SAY, que educa e ajuda os adolescentes a sentirem-se seguros online. O primeiro grande conselho foi que nunca publicassem nada negativo sobre alguém – nem fotos inapropriadas – porque isso pode afetar profundamente a vida desse pessoa, tanto na escola como em futuras oportunidades de emprego.

“Também nos alertaram sobre predadores online, algo que sempre me perturbou, porque poderia, por qualquer razão acabar no perfil de alguém que acabasse por me fazer mal. É verdade que não tinha muito com que me preocupar, já que não tinha entrado em contacto com estranhos nem partilhado informações pessoais.”

Só que, nessa altura, Sonia já cometera o mais comum dos erros de quem é inexperiente em redes sociais: todas as suas contas eram públicas. Quando se apercebeu disso – e do impacto que isso tinha – foi logo a correr às definições. A sua ideia, inicialmente, era só remover tudo o que incluia a sua localização. Mas acabou por apagar tudo o que tinha publicado.

“Percebi que ter 13 anos e andar já nas redes sociais, afinal, não era assim tão fantástico”, confessa. Um ano depois, as suas contas, acrescenta, permanecem inativas. “Penso que poderei voltar a usá-las, em algum momento, no futuro, mas para já não.”

E esta é a explicação: “Pode parecer uma decisão dramática, mas tudo o que vi e ouvi foi mais do que suficiente para me convencer o quanto prefiro ficar longe de tudo isso. Não sinto que esteja a perder seja o que for da minha vida social e sempre me poupo a uma série de riscos.”

Houve, reconhece Sonia, alguns amigos que a acusaram de ser chata, mas não a deixaram de tratar da mesma maneira. Aliás, salienta, a sua decisão acabou por influenciá-los – graças a todas as suas reticências, passaram a ter mais cuidado. “Já não partilham o local onde estão nem o seu nome completo e mantêm as suas contas privadas. Nesta altura, já acho que a minha geração vai ter de ser mais madura e responsável do que a dos nossos pais.”

Diz Sonia que, para quem é agora adolescente, ser anónimo não é mais uma opção – afinal, para muitos deles as decisões sobre a sua presença online são tomadas ainda antes de aprenderem falar.

“Agora que já passou algum tempo desde soube o que a minha irmã e mãe publicavam sobre mim, consigo reconhecer que isso permitiu que tivéssemos uma conversa sobre isso, algo que todo os pais precisam fazer com os seus filhos. E, mais importante ainda, tornou-me consciente de como quer usar as redes sociais hoje e no futuro. “

 

 

 

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