Mais de quatro mil casos de ódio online na UE em seis semanas

Julho 1, 2020 às 8:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Notícia da TSF de 22 de junho de 2020.

Um total de 4.364 casos de discurso de ódio na internet, a grande maioria no Facebook, foram detetados em seis semanas na União Europeia (UE), com 475 a chegarem à polícia, anunciou esta segunda-feira a Comissão Europeia.

Os dados foram revelados pelo executivo comunitário na quinta avaliação de um código de conduta assinado por várias plataformas digitais contra o incitamento ao ódio na internet, que revelam que 39 organizações de 23 Estados-membros e do Reino Unido “enviaram notificações relativas a discursos de ódio considerados ilegal para as tecnológicas durante um período de seis semanas”, entre 4 de novembro a 13 dezembro de 2019.

Segundo o executivo comunitário, destas queixas, 2513 foram feitas “através dos canais de notificação à disposição dos utilizadores em geral”, enquanto as restantes 1851 foram apresentadas através de canais específicos disponíveis apenas para entidades denunciantes.

Entre as plataformas online signatárias deste código de conduta, a grande maioria das reclamações foram feitas ao Facebook (2.348), seguindo-se o Twitter (1.396), YouTube (464) e Instagram (109).

Outras plataformas, como o Jeuxvideo.com (40) e Dailymotion (7), também foram abrangidas.

A Comissão Europeia adianta que, “além de assinalarem o conteúdo às tecnológicas, as organizações que participaram no exercício de acompanhamento apresentaram 475 casos de discurso de ódio à polícia, ao Ministério Público ou a outras autoridades nacionais”.

Criado em maio de 2016 no seguimento da decisão-quadro relativa à luta contra o racismo e a xenofobia na UE – que criminaliza o incitamento público à violência ou ao ódio por referência à raça, cor, religião, ascendência ou origem étnica – este código de conduta traduz-se num mecanismo voluntário de autorregulação, que foi subscrito pelas maiores plataformas ‘online’.

A legislação adotada veio também abranger o crime de incitamento ao ódio na internet.

Foram removidos 71% dos conteúdos

Neste novo relatório de monitorização do código de conduta, Bruxelas verificou, então, que 90% dos conteúdos assinalados foram avaliados pelas plataformas em 24 horas, ao passo que, em 2016, isso só acontecia com 40%.

Por seu lado, foram removidos 71% dos conteúdos considerados discursos de ódio ilegais em 2020, percentagem que compara com 28% em 2016.

Acresce que as plataformas responderam a 67,1% das notificações recebidas, percentagem superior à do exercício anterior (65,4%).

A vice-presidente da Comissão Europeia com a pasta dos Valores e a Transparência, Vera Jourová, congratula-se com os dados, sustentando que este código de conduta “continua a ser uma história de sucesso quando se trata de combater o discurso de ódio ilegal na internet”.

Ainda assim, a responsável vinca que “chegou o momento de garantir que todas as plataformas têm as mesmas obrigações em todo o mercado único e de clarificar na legislação as responsabilidades das plataformas para tornar os utilizadores mais seguros na internet”, exortando assim a uma monitorização mais apertada.

Também o comissário europeu da Justiça, Didier Reynders, saúda os “bons resultados”.

“No entanto, não nos devemos satisfazer com estas melhorias e devemos prosseguir o bom trabalho, [pelo que] exorto as plataformas a colmatar as lacunas observadas nas avaliações mais recentes, em especial no que respeita à transmissão de reações aos utilizadores e à transparência”, salienta o comissário.

Mais informações na notícia da Comissão Europeia:

Commission publishes EU Code of Conduct on countering illegal hate speech online continues to deliver results

Crianças espelham os medos dos pais – Entrevista de Manuel Coutinho do IAC ao JN

Maio 29, 2020 às 2:50 pm | Publicado em O IAC na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Jornal de Notícias de 29 de maio de 2020 e entrevista do Dr. Manuel Coutinho (Secretário–Geral do Instituto de Apoio à Criança e Coordenador do Sector SOS-Criança do Instituto de Apoio à Criança).

‘Influencers’ deveriam ser responsabilizados se difundirem desinformação

Maio 26, 2020 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia da TSF de 14 de maio de 2020.

LUSA

Professor acredita que pessoas que têm muito impacto nas redes sociais devem ser responsabilizadas, mas “legislação atual não prevê isso”.

Os ‘influencers’ deveriam ser responsabilizados no caso de partilharem desinformação, já que os conteúdos que difundem abrangem milhares de pessoas e poderão representar um perigo para a saúde pública, defende o coautor de um estudo sobre desinformação na saúde.

O paradigma da transmissão de informação mudou e já não são apenas os “grandes grupos de media” os “responsáveis e responsabilizáveis pela informação” que é transmitida, explicou à agência Lusa Francisco Goiana da Silva, professor na Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade da Beira Interior e coautor de um estudo que venceu, este ano, o Prémio em Bioética João Lobo Antunes.

‘Influencers’, ‘instagramers’, ‘youtubers’ e ‘bloggers’. Esta é a terminologia utilizada para designar as pessoas que começaram a fazer carreira no mundo digital que surgiu no século XXI e cujo alcance é muito maior do que a generalidade dos órgãos de comunicação social.

Estas pessoas “têm de ser, de alguma forma, responsabilizadas pelo impacto que aquilo que defendem e que apresentam tem nos seus ouvintes ou nos seus seguidores e, neste momento, a legislação atual não prevê isso”, prosseguiu Francisco Goiana da Silva.

O investigador fez um paralelismo entre, “por um lado, uma indústria dos media que é extremamente regulada e, por outro, uma indústria informal”, que tem cada vez mais influência, mas que não tem “qualquer tipo de regulação”.

Francisco Goiana da Silva dá um exemplo prático da necessidade de regulação destes ‘novos difusores de informação’:

“A diretora-geral da Saúde [Graça Freitas] encontra, no Facebook, um ‘influencer’ que tem 100.000 seguidores e que veicula uma informação que é um perigo para a saúde pública. Vimos isto até a acontecer com líderes políticos. A diretora-geral da Saúde encontra isto e, neste momento, não há nenhuma forma formal, um canal estabelecido, através do qual a diretora-geral da Saúde possa notificar que aquela notícia não tem validade científica”, explicou.

O investigador lembrou que um ‘influencer’ é diferente de uma pessoa que apenas está presente nas redes sociais. O número de seguidores é muito superior e “deixa de ser só partilha de opinião” para começar a ser também “gerador de capital” e de rendimento.

Na opinião do especialista, é necessário “haver uma revisão da legislação no sentido de fazer, nada mais, nada menos, do que assumir que estes novos veículos de informação existem e têm de ser responsabilizáveis pela informação que transmitem”.

Contudo, esta responsabilização não pode ser baseada em censura: “Isto nunca pode ser feito à custa da violação do direito à opinião, à expressão.”

Mas a regulação não passa apenas pela responsabilização em relação aos conteúdos que são difundidos.

Para o coautor de “Desinformação e Saúde: Uma Perspetiva Bioética” é necessário criar uma plataforma que reúna os órgãos de comunicação social portugueses, as autoridades sanitárias e os ‘influencers’, para permitir uma verificação correta da informação que é divulgada, podendo impedir, inclusive, que chegue a ser difundida.

Em relação à saúde, “estamos a falar de uma área muito específica”, acrescenta o investigador, considerando que, neste campo, os órgãos de comunicação social não têm o “conhecimento técnico e as bases científicas para saberem o que é correto”, acabando por divulgar notícias que citam estudos que carecem de validação científica.

“Há artigos [científicos] que não devem ser partilhados porque são fracos e podem induzir em erro”, sublinhou, uma vez que isso também é uma formar de propagar desinformação.

Por isso, Francisco Goiana da Silva destaca a necessidade de investir em plataformas nas quais “as entidades técnicas e científicas” possam “dar esse suporte” na exposição de ‘fake news’ sobre saúde e relatórios científicos deficientes.

A combinação destes dois fatores poderá contribuir para um novo tipo de literacia centrada na promoção “do espírito crítico” das pessoas.

“O cidadão já não tem falta de informação. O que tem é informação a mais e falta de capacidade de distinguir o trigo do joio”, realçou, acrescentando que as autoridades nacionais e internacionais deveriam, por isso, “desenvolver ferramentas”, como uma “‘checklist’ muito simples para que qualquer cidadão, independentemente do seu grau de escolaridade, consiga saber o que deve procurar numa notícia antes de partilhar”.

O investigador lembra a necessidade, principalmente durante uma pandemia sobre a qual a comunidade científica ainda sabe pouco, de verificar a fonte das informações antes de partilhar uma possível ‘notícia falsa’, incluindo através do ‘link’ dessa fonte, para saber se remete, de facto, para autoridades oficiais, como, por exemplo, a Direção-Geral da Saúde (DGS) ou a Organização Mundial da Saúde (OMS).

“Alguém que partilha mentiras, torna-se, por associação, mentirosa e, portanto, as pessoas têm de ter muito cuidado e rigor com tudo aquilo que partilham. Podem estar a veicular informação que pode colocar em risco a vida de terceiros”, finalizou.

Regulador holandês quer investigar de que forma TikTok usa dados de menores

Maio 18, 2020 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Dinheiro Vivo de 8 de maio de 2020.

Cátia Rocha

O regulador da privacidade holandês anunciou que pretende investigar como é que os dados de menores de idade são usados pela rede social TikTok.

Com a rede social chinesa TikTok a atingir recordes devido ao confinamento causado pela pandemia de covid-19, começam a surgir as dúvidas sobre a forma como são usados os dados de milhões de utilizadores menores de idade.

Após as autoridades dos Estados Unidos aumentarem o escrutínio à rede social, é a vez de o regulador de privacidade holandês anunciar que pretende saber como são usados os dados dos jovens utilizadores, numa rede social conhecida pela popularidade entre adolescentes.

“Para muitos utilizadores esta é uma forma importante de estar em contacto com os amigos e passar tempo juntos, especialmente com a crise do coronavírus”, escreve, em comunicado, a autoridade de proteção de dados holandesa, reforçando que “o crescimento do TikTok tem levado a preocupações crescentes com a privacidade”. Na mesma nota, é indicado que o regulador pretende “examinar se o TikTok está a proteger de forma adequada a privacidade das crianças holandesas” e quais são os consentimentos parentais para os dados que são recolhidos, armazenados e usados. O regulador de privacidade refere que as crianças e os adolescentes podem não estar conscientes das consequências do comportamento online numa plataforma com cariz global. O TikTok já reagiu a este anúncio do regulador, com a Reuters a indicar que um porta-voz garantiu que a rede social está disposta a colaborar na investigação. “O principal prioridade do TikTok é a proteção a privacidade dos utilizadores e a sua segurança, especialmente em relação aos utilizadores jovens”. No mês passado, o TikTok introduziu ferramentas de controlo parental na plataforma, nomeadamente para restringir os conteúdos inapropriados e gestão de tempo de uso da rede social, conhecida pelos elevados tempos de permanência na app. Além disso, também foram feitas alterações para os utilizadores com menos de 16 anos, como o bloqueio das funções de chat ou de streaming de vídeo. Em Portugal, segundo dados facultados pela Azerion ao Dinheiro Vivo, o TikTok tem 1,7 milhões de utilizadores, sendo mais popular entre as jovens. Em fevereiro, 34% dos utilizadores portugueses tinham entre os 14 e os 18 anos e 39% dos 19 aos 24 anos.

Fotografias dos filhos nas redes sociais? Por vezes, os pais são os primeiros a pô-los em risco

Maio 12, 2020 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 10 de abril de 2020.

Unidade de Cibercrime da APAV lembra que “aquilo que colocamos nas redes sociais pode ser usado em nosso desfavor” a partir do momento em que perfis podem ser “acedidos por desconhecidos”.

Daniel Dias

Com a propagação da pandemia que nos obriga ao isolamento, tem havido quem recorra às redes sociais para, através da câmara do telemóvel, mostrar o pequeno pedaço do mundo que consegue ver a partir da sua janela. Os filhos incluídos. Por isso, especialistas recomendam: em tempos de quarentena, e com o mundo “ainda mais ‘conectado’ do que é costume”, é importante não nos esquecermos da cibersegurança e dos perigos que podem espreitar.

“Nós temos a ideia de que as pessoas olham sempre para uma fotografia de uma criança de forma carinhosa. Mas, infelizmente, há quem, por exemplo, veja um objecto de desejo”, alerta Tito de Morais, fundador do projecto Miúdos Seguros na Net, que assume como missão ajudar “famílias, escolas e comunidades a promover a utilização responsável das novas tecnologias de informação e comunicação por jovens”.

“É óbvio que, em princípio, pensamos que não corremos nenhum risco quando o que circula não sai da rede de amigos”, faz questão de frisar o consultor. Mas, conta Ricardo Estrela, responsável pela Unidade de Cibercrime da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV), “precisamos de ter em mente que, se há uma mínima possibilidade de os nossos perfis no Facebook ou no Instagram serem acedidos por desconhecidos, o que lá colocamos pode ser usado em nosso desfavor”.

“Temos um hábito muito mau. Primeiro, publicamos as coisas e só depois, normalmente na sequência de algum problema que nos acontece, é que pensamos nestas questões de segurança e de privacidade”, observa Tito de Morais. “De um dia para o outro, tivemos de passar do ensino presencial para as aulas à distância, assim como precisámos de nos adaptar ao teletrabalho. Fizemos essa transição atabalhoadamente. Começou tudo a correr para o Zoom, quando, pelo que temos vindo a ouvir e descobrir, essa plataforma não é necessariamente segura”, exemplifica.

Para o criador do Miúdos Seguros na Net, “não admira que as famílias estejam mal preparadas para mudanças desta magnitude se o próprio Estado não dá o exemplo”. Quando, no Dia Nacional do Estudante, a 24 de Março, o Ministério da Educação promoveu a iniciativa #EstudoEmCasa — na qual desafiou pais a partilharem fotografias do novo e provisório ambiente de trabalho dos seus filhos, “criando um movimento nacional de motivação” para que estes pudessem continuar empenhados, num ano lectivo “com contornos diferentes do habitual” —, a tutela “deixou a nota de que não seriam divulgadas as imagens que incluíssem os rostos das crianças, mas, se clicarmos na etiqueta, vemos que isso não aconteceu”, alerta.

Ricardo Estrela aponta para a necessidade de os pais “terem consciência do direito à salvaguarda da imagem dos filhos menores” e sublinha a importância de “não revelarmos ‘pistas’ ou informações visuais que permitam identificar a nossa localização quando decidimos divulgar essas imagens que mostram as ‘vistas’ do nosso distanciamento social”. Isto, explica o gestor da Linha Internet Segura, “não é paranóia”; é, sim, o que, “no mínimo”, devia ser “etiqueta” nas redes sociais.

E-mails duvidosos e perfis falsos

Durante as últimas semanas, a Unidade de Cibercrime da APAV tem identificado várias “tendências perigosas” na Internet. “Temos estado atentos a perfis falsos que se fazem passar por entidades ligadas à área da saúde e que se aproveitam da falta de acesso no mercado para vender máscaras protectoras a um preço muito acima do normal”, avisa Ricardo Estrela. “Normalmente”, continua, “as formas de pagamento não são comuns. Pede-se o IBAN para a realização da transferência. As pessoas precisam de ter cuidado com as páginas a que acedem e as fontes que consultam.”

Outro problema detectado tem que ver com “muitas tentativas de phishing” – a circulação de e-mails falsos com o objectivo de enganar utilizadores e induzi-los a fraudes em que revelam informação privada ou palavras-passe. Algumas mensagens de correio electrónico “seduzem com títulos espectaculares” — sugerindo, por exemplo, que foi encontrada uma cura para o novo coronavírus. Outras tentam dar a entender que “vêm da empresa onde a pessoa trabalha”. São, por norma, “e-mails muito genéricos”, “com um PDF executável que supostamente contém dados como as novas políticas de segurança no trabalho”, quando, na verdade, corresponde a uma armadilha.

Nos primeiros três meses de 2020, o Portal da Queixa registou mais de mil reclamações relativas a esquemas de burla e fraude, um aumento de mais de 30% face a 2019. Uma tendência que deve crescer nos próximos tempos “tendo em conta a obrigação da permanência das pessoas em casa, alterando os seus hábitos de consumo”, com o “fluxo de compra direccionado para os canais digitais”. O envio de SMS que dão conta de que o destinatário venceu um alegado passatempo constitui uma das “tácticas” comuns. Neste momento de pandemia, a rede aponta para a necessidade de uma “navegação consciente”.

Texto editado por Bárbara Wong

Autocarro interactivo percorre escolas para alertar para os perigos da Internet

Março 24, 2020 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 10 de março de 2020.

A campanha SmartBus levará um autocarro interactivo a percorrer todo o país, para ensinar crianças entre os 10 e 14 anos a utilizar a Internet em segurança. A primeira paragem foi em Lisboa.

Bárbara Carlão

O autocarro está estacionado na Rua Ilha dos Amores, no Parque das Nações. Esta terça-feira, como no dia anterior, os três educadores que orientam as aulas que decorrem no interior do SmartBus, uma iniciativa da Huawei, recebem alunos da Escola Vasco da Gama, situada a poucas dezenas de metros de distância.

Cinco minutos antes da hora de início da aula, desinfecta-se tudo o que tem ecrã táctil: telemóveis, tablets, computadores, painéis interactivos. Enquanto se espera pela turma seguinte, o educador comenta que a maioria dos alunos não está suficientemente educada nem familiarizada com as consequências que podem advir de acções tão comuns no mundo online como a partilha de uma foto ou da sua localização, preocupações que são tidas em conta nestas aulas.

São 10h45 e uma turma de 7.º ano, com 23 alunos, entra no autocarro. “Sabem o que estão aqui a fazer?”, começa por perguntar o educador. “Vamos receber um telemóvel”, responde alguém, dando voz à esperança, não só sua, mas de todos os colegas. Todos sabem que o objectivo da aula é outro: sensibilizar para os perigos da Internet.

Não se encontra um único estudante entre os ali presentes que não tenha redes sociais – utilizam sobretudo o Instagram e já não tanto o Facebook, que marcou a geração millennial. Quando o educador pergunta para que utilizam as redes, ouve-se respostas como “para partilhar a vida”, e “para comunicar”. Mas será que alguém leu as autorizações “escritas em letrinhas pequeninas”? Todos se riem, deixando imediatamente claro que a resposta é um redondo “não”. O primeiro tema é a protecção de dados, e o educador explica que as redes são gratuitas mas têm um preço – a divulgação e venda dos nossos dados privados.

O autocarro, que funciona como sala de aula interactiva, está equipado com uma série de smartphonestablets e computadores, dispostos ao longo de uma mesa corrida, com cadeiras dos dois lados. À ordem do educador, os alunos sentam-se e, dois a dois, começam por ligar os tablets. No ecrã de início encontram duas aplicações, o Smartbook e o Beeper: dois jogos inspirados no Facebook e no Twitter, respectivamente, que simulam situações que podem decorrer da utilização dessas duas redes sociais.

Assim que pegam nos tablets e começam a jogar, ouve-se uma espécie de buzina que sinaliza que alguém deu uma resposta errada. “Lê bem o que diz”, pede o educador, quando um dos alunos lhe pergunta porque a resposta que deu estava errada. “Não olhes só para as imagens”, aconselha. Não mais de dois segundos depois a mesma buzina volta a soar, e passados cinco segundos gera-se uma espécie de sinfonia que não pára nos cinco minutos seguintes.

A primeira situação que os alunos encontram no Beeper é um colega de turma fazer uma publicação a dizer que foi a um concerto. Quando lhes é perguntado se há algum problema, respondem unanimemente que não – o educador concorda, e aproveita para explicar que não há problema em partilhar algo que se fez, mas sim em partilhar o que se está a fazer no momento ou ainda o que se fará no futuro.

Outra situação que surge é a partilha de uma notícia falsa – “pensem sempre se é verdadeiro aquilo que vêem na Internet”, aconselha o educador. E quando não têm a certeza, o que podem fazer? “Pesquisar no Google”, ouve-se em uníssono.

Já no jogo Smartbook, os estudantes recebem uma mensagem no chat enviada por um desconhecido que diz ter 14 anos. “Ele tinha 14 anos? Ele tinha barba!”, comenta um dos alunos. Neste cenário, a mensagem que se quer passar é que, sobretudo na Internet, nem tudo o que parece é. “Se não conhecerem a pessoa, não falem com ela”, diz o educador, sugerindo aos alunos que partilhem este tipo de situação com os pais.

Aborda-se também conceitos como malware e phishing, situações cujo perigo é menos fácil de detectar por quem não tem conhecimento de que existem, até porque podem ter origens aparentemente inofensivas, como uma mensagem de alguém conhecido.

Quando passam para os telemóveis, os estudantes encontram mais dois jogos de simulação situacional, o Chatapp e o Fotocam, que se assemelham ao Whatsapp e o Instagram. Aqui surge a oportunidade de abordar assuntos como a partilha de fotos, em particular fotos íntimas, sejam dos próprios ou de terceiros. No Chatapp, um colega fictício envia uma mensagem a pedir que lhe enviem uma foto para ele, por sua vez, enviar a um amigo. Um dos alunos soube imediatamente identificar o risco nesta situação – “eles podem publicar” a fotografia online sem a autorização de quem nela figura. E porque “o que vai para a Internet, não sai da Internet”, o educador reforça que “publicar coisas de outras pessoas sem autorização” é ilegal.

Tanto o Francisco como o Gabriel, ambos de 12 anos, participam na aula. Ambos afirmam que os pais falaram com eles sobre os cuidados que devem ter quando utilizam a internet quando, há dois anos, começaram a ter redes sociais. Ainda assim, Francisco consegue elaborar uma lista de coisas que acabou de aprender.

“Ler as coisas logo do início”, ou seja, ler os termos de utilização, bem como ter cuidado com os sites que visita e “nunca dar dados pessoais”. Acrescenta ainda que se deve sempre “ter cuidado com quem fala connosco e nós não conhecemos” e que nunca se deve enviar “fotos nossas a alguém que não conhecemos”.

Ao seu lado, Gabriel acena em concordância e diz que “era bom falarmos mais para estarmos mais informados, porque não sabíamos muito daquilo que nos disseram aqui”. Embora abordem alguns destes temas na disciplina de Tecnologias da Informação e da Comunicação, como afirma Gabriel, não é o suficiente, confessa uma das professoras que os veio acompanhar, Verónica Melo.

“Os miúdos já nascem com isto”

“Os miúdos já nascem com isto e há que sensibilizá-los para estes problemas a que estão sujeitos”, começa por dizer. “Os pais também fazem o seu trabalho”, mas a verdade é que a escola também tem de fazer um maior acompanhamento, “até porque os miúdos passam mais tempo na escola do que em casa”. É por isso que Verónica Melo acredita que este tipo de iniciativas é extremamente importante: “Eles ainda não têm muita noção dos perigos que efectivamente correm, e quando têm acham que é [só] aos outros que acontece”.

A aula acaba com o educador a esclarecer que a internet, incluindo as redes sociais, não é só perigos – mas esses perigos existem. “Quem não arrisca, não petisca”, argumenta um dos alunos. Mas porque quem arrisca por vezes também “não petisca o que quer”, como responde o educador, o melhor é mesmo prevenir.

O projecto SmartBus, iniciativa da empresa Huawei, já percorreu a Bélgica, Holanda, Espanha e chegou ontem a Portugal. Durante o mês de Março, o autocarro percorrerá o país de norte a sul, contando abranger cerca de cinco mil alunos dos 5.º e 6.º anos.

Texto editado por David Pontes

Decretar guerra aberta ao “unboxing” no YouTube para proteger as crianças na Internet

Março 21, 2020 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Sapo 24 de 6 de março de 2020.

As crianças norte-americanas passam muito tempo a ver vídeos no YouTube. Seja a ver conteúdos relacionados com videojogos ou outras temáticas, tanto a plataforma da Google como outras empresas (TikTok, por exemplo) podem vir a sofrer alterações significativas na maneira como operam com este tipo de temáticas. Isto, caso um decreto-lei, denominado KIDS (The Kids Internet Design and Safety ACT — O Projeto de Segurança das Crianças na Internet), passe no Congresso dos Estados Unidos.

O decreto foi introduzido pelos senadores democratas Ed Markey e Richard Blumenthal e, caso seja aprovado, estas plataformas vão ter de alterar a maneira como trabalham o conteúdo publicado pelos seus utilizadores e que seja focado para um público mais jovem. As alterações podem ocorrer desde os seus anúncios ao próprio design, passando pela limitação de conteúdo quando alguém com menos de 16 anos utiliza as plataformas, de acordo com o The Verge.

“Hoje em dia os rostos das crianças estão cada vez mais cobertos pelo brilho dos seus ecrãs e está na hora de enfrentar assustadora realidade de que alguns sites e aplicações são feitos de maneira a prejudicar as crianças”, segundo o senador Markey. “As empresas mais poderosas incentivam as crianças a comprar produtos online a toda a hora, e as plataformas de topo estão saturadas de conteúdo perturbador ao qual nenhuma criança deve ser exposta”, completou.

O decreto parece focar-se muito nos “unboxings” (abrir caixas de novos produtos que surgem no mercado), algo bastante popular no YouTube. No sentido prático do decreto, o The Verge dá o exemplo de um canal popular entre os jovens norte-americanos, o Ryan’s World, em que um vídeo pode alcançar milhões de visualizações. Caso este decreto vá em frente, este conteúdo não seria banido, mas o YouTube ficaria proibido de o recomendar a crianças — algo que limitaria bastante a sua difusão na plataforma.

Os senadores querem também mudar a arquitetura de alguns os sites e aplicações que, na sua opinião, estão desenhados para apelar às crianças. Ora, caso o decreto seja aprovado, este iria proibir as empresas de terem funcionalidades como o “autoplay” (começar a dar um novo vídeo assim que o atual termine) e deixaria de ser possível enviar notificações ou recompensas que incentivam as crianças a ficar durante longos períodos a navegar.

Markey, co-autor deste decreto, é o principal responsável por outro em vigor: o COPPA (Children’s Online Privacy Protection Act — Proteção da Privacidade das Crianças Online, em português), que proíbe que os sites recolham dados de crianças com menos de 13 anos. Contudo, tal não impediu que tanto o YouTube como o TikTok, fossem multados em vários milhões de dólares pela comissão de defesa do consumidor norte-americana (Federal Trade Comission — FTC) por terem violado as diretrizes deste decreto. E Markey já está a trabalhar no COPPA 2.0 — que tem como intuito aumentar a idade para 15.

“As grandes empresas montam as suas plataformas para ludibriar e explorar as crianças para ganhar mais gostos, mais visualizações, mais compras. O KIDS Act coloca anticorpos em curso no reinado de negligência dos marketers e das gigantes tecnológicas — protegendo as crianças e dando aos pais alguma paz de espírito”, disse Richard Blumenthal, o outro co-autor do decreto.

No início deste ano o YouTube levantou novas restrições a conteúdo que tem como alvo as crianças e alterou as regras e o modo como se podem encontrar vídeos que visem claramente o público jovem, por exemplo, aqueles que dão destaque a personagens infantis, temas, brinquedos ou jogos.

TikTok – o que é e o porquê da polémica?

Março 2, 2020 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do site Centro da Criança

A aplicação TikTok é uma rede social criada em 2016 na China (sendo que na China tem o nome de Douyin). Esta rede social tem tido muito sucesso à escala global, não sendo Portugal exceção, conta atualmente com mais de 500 milhões de utilizadores ativos. Esta aplicação permite aos utilizadores criar vídeos curtos de música e lip-sync de 3 a 15 segundos e vídeos curtos de looping de 3 a 60 segundos.

Até aqui tudo bem. O problema é que este aplicativo tem como idade mínima de adesão os 13 anos. Facto que nos leva a ter uma maior atenção nas questões de segurança.

Daí que esta rede social esteja a ser muito comentada desde há uns meses. Os comentários e críticas devem-se, em certa medida a três questões: à guerra comercial entre vários países, nomeadamente entre os EUA e a China e a tentativa de controlo de informação sensível; às constantes guerras comerciais entre os gigantes da tecnologia que lutam entre si pelo mercado apetecível dos adolescentes e crianças; e, por último, por questões de segurança dos utilizadores. Sendo esta última a que mais nos interessa para este contexto.

Assim, importa salientar que a TikTok já esteve temporariamente banida na Indonésia e India por conter vídeos de cariz sexual. Facto que levou a empresa ByteDance (detentora da TikTok) a efetuar alterações nos seus padrões de segurança e a eliminar cerca de 15 milhões de vídeos da plataforma.

Já nos Estados Unidos da América, onde a TikTok se tonou em outubro de 2018 a aplicação mais descarregada (sendo a primeira app chinesa a atingir este sucesso), a empresa detentora da aplicação foi multada em cerca de 5,7 milhões de dólares por recolha de informações de menores de 13 anos em violação da Lei de Proteção da Privacidade Online das Crianças. Facto que levou a alterações na aplicação e ao impedimento de que crianças menores de 13 anos possam fazer upload de vídeos. Todavia, em novembro último a empresa foi acusada de transferir dados pessoais de cidadãos americanos para servidores na China.

Noutros países, como Alemanha e Austrália, têm surgido avisos por parte de diversas instituições que mencionam o facto de esta rede não ter os mesmos padrões de segurança de outras redes, existirem inúmeros relatos de cyberbullying e o facto de a TikTok falhar constantemente na remoção de contas suspeitas e referenciadas. Além disso, esta tem sido descrita como uma rede muito utilizada por pedófilos, pois aqui têm acesso a vídeos de crianças e adolescentes a dançar, a cantar e partilhar os vídeos.

Se tem um adolescente ou um pré-adolescente lá em casa, certamente que ele conhece esta aplicação e é muito provável que a use para ver vídeos, mas também para produzir conteúdo para “alimentar” a plataforma (à semelhança do Instagram). Se já assistiu a danças em frente ao telemóvel, então é muito provável que esteja a gravar uma coreografia para a TikTok.

Assim, os conselhos que lhe posso deixar não passam pela proibição da utilização desta aplicação, até porque os perigos são muito semelhantes aos de outras redes como o Instagram, Snapchat ou até o Youtube. Além disso, todos sabemos os efeitos contrários que a proibição poderá acarretar.

Neste, como noutros casos, deve discutir o assunto abertamente em casa, expondo os perigos, a necessidade de prevenção, deixando sempre a “porta aberta” para que qualquer desconforto (com esta ou outra rede social) lhe seja transmitido.

Pode também visitar o website https://www.internetsegura.pt/ou utilizar esta plataforma para esclarecer mais dúvidas.

Partilhar ou não partilhar: o que fazer com as fotos dos nossos filhos?

Fevereiro 27, 2020 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do Notícias Magazine de 20 de fevereiro de 2020.

Alguns pais não se importam de partilhar fotos dos filhos. Outros não mostram a identidade dos descendentes nas redes sociais. Três famílias, três experiências.

Sofia Filipe

Há quatro meses, Filipa Salvaterra vivia os últimos dias da segunda gravidez. A 23 de outubro, véspera do nascimento de Duarte, assinalou o quinto aniversário de Maria partilhando com 295 amigos do Facebook uma fotografia do bolo e uma dedicatória à filha. A mensagem sobre a nova fase, “com o mano”, estava nas entrelinhas e só era entendida por familiares e amigos que privam com a engenheira química, de 37 anos, no Centro Nacional de Embalagem. “É uma questão de privacidade.” Moradora no Montijo, Filipa justifica assim o facto de não publicar nenhuma fotografia dos filhos nas redes sociais nem de avançar pormenores da vida privada.

O marido, Pedro Cruz, um ano mais novo, pensa da mesma forma. “É mais seguro. Também não indicamos locais nem moradas. É a nossa vida pessoal e ninguém tem de saber o que fazemos ou onde estamos”, declara o engenheiro de manutenção na Hovione, Loures. “Dos 571 amigos que tenho no Facebook, só devo falar com cerca de dez. Muitos andaram comigo na escola, outros são da mesma terra ou foram colegas. Não há grandes ligações com a maioria.”

Mostrar ou não mostrar os filhos nas redes sociais? Eis uma questão pouco dada a unanimidade. O poder de decisão, esse, nem sempre pertence aos pais. Em 2015, durante um processo de regulação de responsabilidades parentais, o Tribunal de Setúbal proibiu os pais de uma criança de 12 anos de partilharem fotografias da filha nas redes sociais. A mãe recorreu para a Relação e o Tribunal da Relação de Évora manteve a decisão. Vem referido no acórdão que, “na verdade, os filhos não são coisas ou objetos pertencentes aos pais e de que estes podem dispor a seu belo prazer. São pessoas e consequentemente titulares de direitos”.

Se existe o direito à imagem das crianças, por que motivo é atropelado com a constante divulgação nas redes sociais? “Orgulho e vontade de mostrar ao mundo a felicidade. Também algum exibicionismo, necessidade de reconhecimento e afirmação social”, responde Tito de Morais, fundador de MiúdosSegurosNa.Net, um projeto que ajuda famílias, escolas e comunidades a promover a segurança online. Ao ato de partilhar excessivamente fotografias e informações acerca dos filhos, sem consentimento, dá-se o nome de sharenting. O especialista compreende que os pais o façam, mas aconselha a evitar. “A necessidade de afirmação social dos pais não se pode sobrepor à segurança e proteção da privacidade dos filhos.”

Para a psicóloga especialista em adolescentes Bárbara Ramos Dias, “todas as pessoas têm direito à privacidade. Os filhos ainda mais. São crianças inocentes”. Sensibiliza para os riscos associados à partilha de fotografias a mostrar a cara, de dados pessoais ou de localização geográfica nas redes sociais e dá como exemplo situações de rapto.

“A necessidade de afirmação social dos pais não se pode sobrepor à segurança e proteção da privacidade dos filhos”
Tito de Morais
Fundador de MiúdosSegurosNa.Net

Filipa e Pedro têm consciência dos perigos associados à exposição de crianças na Internet, destacando o uso de fotos manipuladas em sites de pedofilia. O fundador de MiúdosSegurosNa.Net explica que “a manipulação digital das fotos através de montagens e a criação de deep fakes elevam a fasquia ao nível da sofisticação”. Por seu turno, defende que “basta mudar o contexto em que as imagens aparecem para adquirirem logo outro significado”.

A última fotografia partilhada pelos pais de Ódin, seis anos, e Aron, quatro, retrata uma brincadeira com água num campo. Estão de costas e afastados da objetiva. Para Carla Santos e Duarte Cera, ambos de 35 anos, partilhar momentos em que os filhos estão de costas, tapar-lhes o rosto, editar as fotografias ou usar imagens de baixa resolução são algumas estratégias para não exporem os descendentes nas redes sociais. Além disso, fazem a publicação depois da atividade em família e não referem local nem horário. Este casal de Cascais acredita que “existe o risco de serem identificadas rotinas da família e assim dar azo a situações perigosas”.

Carla é doula e usa o Facebook (conta pessoal com 791 amigos e página profissional com 465 seguidores) e o Instagram (conta pessoal com 200 seguidores e a profissional com 707). Duarte concilia a atividade de leitor de contador das águas com a de baterista dos Invoke e utiliza as redes sociais Facebook (790 amigos) e Instagram (185 seguidores). “O acesso às fotos é reservado a listas definidas por nós, por questões de segurança”, afirma Carla.

Em tempos, colocou uma fotografia sua, grávida, como foto de perfil, e recebeu “uma mensagem de um desconhecido a questionar se o bebé já tinha nascido, porque gostava muito de ver uma imagem. Foi assustador”. Duarte faz referência ao impacto negativo mencionando que “a imagem fica para sempre online, pode ser usada no futuro como ferramenta de bullying, por colegas ou pessoas das relações profissionais”. Carla sublinha: “É a privacidade dos nossos filhos, que não têm noção do que é a exposição. Quando tiverem, será algo unicamente gerido por eles. Não vamos interferir”.

Na net como no parque ou nos transportes públicos

Como a partir de uma certa idade os filhos ganham o sentido de individualização, os pais devem perguntar-lhes se podem fazer determinada publicação, segundo Bárbara Ramos Dias. “Há miúdos que não gostam de se expor. Deve-se respeitar a opinião e a vontade.” Exemplo: na pré-adolescência e adolescência, sobretudo as raparigas, têm preocupação com a imagem. “Consideram que estão gordas, feias ou com borbulhas. Não gostam quando os pais põem online fotos que não lhes agradam.” É uma fase da vida com inseguranças e fragilidades que a exposição “pode aumentar”. Dados do EU Kids Online Portugal, de 2018, mostram que 28% dos participantes, entre os nove e os 17 anos, indicaram que os pais publicaram textos, vídeos ou imagens sobre eles sem lhes perguntarem. Dos inquiridos, 14% pediram aos pais para retirar conteúdos, dos quais um quinto são raparigas entre os 13 e os 17 anos; e 13% disseram ter ficado incomodados com a partilha sem consentimento.

“Todas as pessoas têm direito à privacidade. Os filhos ainda mais. São crianças inocentes”
Bárbara Ramos Dias
Psicóloga especialista em adolescentes

Experiências que não foram vividas pelos irmãos Matilde e Samuel, de 13 e 11 anos, de Caneças. Os pais têm sempre o cuidado de perguntar se concordam com determinada publicação em que são visados. “São pessoas independentes. Não é por sermos pais que temos o direito de usar a imagem deles sem a sua autorização”, diz Miguel Campos, de 46 anos, motorista. “Desde que têm idade para manifestar opinião que lhes pergunto se posso publicar as fotos em que aparecem”, corrobora Sílvia Campos, 42 anos. Pelas respostas que recebe dos filhos, a angariadora imobiliária nota que estão mais interessados em perceber se “estão mais ou menos bonitos”.

Miguel usa o WhatsApp e o Facebook (452 amigos). Sílvia é mais ativa: 3 446 amigos nesta rede social, 777 seguidores no Instagram e 256 contactos no WhatsApp. Esta mãe nunca se coibiu de mostrar a cara dos filhos, com publicações esporádicas. É o orgulho que sente nos filhos que a motiva a partilhar o bom aproveitamento escolar, uma atividade especial, vivências durante as férias, momentos engraçados com familiares e amigos ou uma comemoração festiva. Com reservas. Usa definições de privacidade, as fotos de férias só são publicadas posteriormente e, por norma, não dá referências geográficas. Sílvia tem consciência de perigos mas ressalva que estes não existem apenas na Internet. “Também lhes podem tirar fotos na escola, no parque, na praia, nos restaurantes, nos transportes públicos”, enumera, referindo que é apologista das conversas educativas. “Alerto para os perigos, tiro dúvidas e estou atenta. Como pais, temos de os proteger e assegurar que as publicações não sejam prejudiciais no futuro. Não considero nenhuma das opções [mostrar ou não mostrar a cara dos filhos] certa ou errada. Sentirmo-nos bem e fazer com que os nossos filhos também se sintam bem deve ser a regra.”

Maria e Duarte são menores e não têm a noção dessa dinâmica. Os pais Filipa e Pedro decidiram salvaguardar os filhos para precaver eventuais problemas no futuro não mostrando nada. “São menores e um dia podem não querer ou não gostar de ter fotos deles online”, comenta a mãe, lembrando que as fotografias digitais estão guardadas no computador e/ou na nuvem. “Qualquer pessoa pode aceder. Se forem colocadas no Facebook, é abrir ainda mais a vida privada ao mundo.”

A mãe de Ódin e Aron acredita que “explorar a vida e a imagem de uma criança tira autenticidade às relações e às vivências”. “A mensagem que transmite não me deixa muito segura. Somos valorizados por seguidores/gostos/reações? Somos o que acham de nós? A opinião dos outros pesa assim tanto? Tenho receio da superficialidade.”

Cuidados a ter nas redes sociais

Tito de Morais, fundador de MiúdosSegurosNa.Net, aconselha a evitar:
• Partilhas públicas. Mesmo não mostrando a cara da criança, inadvertidamente podem ser revelados outros aspetos.
• Fotos que mostrem o corpo despido da criança. Há quem olhe para esse tipo de fotos como objeto de desejo sexual.
• Fotos potencialmente embaraçosas, tais como mudança da fralda, na sanita ou no banho. Na adolescência, envergonham com facilidade.
• Localizar a criança em sítios que frequenta (escola, ATL, etc.).
• Fotos com amigos, sobretudo se não tiverem autorização por escrito dos respetivos pais (ambos, pois no caso de pais divorciados pode haver opiniões discordantes).

Internet segura com os conselhos deste pediatra

Fevereiro 26, 2020 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do Sapolifestyle

As recomendações são do médico Hugo de Castro Faria, especialista em Pediatria. Hoje é o Dia Mundial da Internet Segura.

A atual geração de adolescentes cresceu numa realidade francamente diferente de outras gerações anteriores. Desde idades muito precoces habituaram-se à omnipresença da tecnologia (televisão, computadores, tablets, videojogos, telemóveis etc.). É natural e expectável que tenham uma relação com estes meios de comunicação e divertimento muito diferente da que têm e tiveram os seus pais. Apercebemo-nos, em consulta, que esta diferença origina muitos conflitos e incompreensões.

É fundamental que façamos um esforço de entendimento, tentando perceber o papel fundamental que estes meios têm na vida dos jovens, ao interpretar e avaliar determinados comportamentos. Ainda assim, precisamos de ter alguns cuidados pois a utilização excessiva e desregrada acarreta alguns riscos e consequências que importa ter em conta.

Vantagens das novas tecnologias

  • A familiaridade e facilidade de utilização da internet, redes sociais e novas tecnologias é fundamental enquanto ferramenta futura.
  • Permite um acesso ilimitado, fácil, rápido a uma quantidade inimaginável de informação.
  • É uma ferramenta importantíssima de literacia, cultura e educação.
  • Facilita o contacto social rápido e instantâneo. Tanto o contacto social com pessoas que já se conhecem (colegas de escola e amigos), como com pessoas distantes de culturas diferentes. Esta facilidade pode ser altamente enriquecedora ao promover o contacto com outras realidades.
  • A familiaridade e competência na utilização das ferramentas informáticas e de comunicação são uma enorme mais-valia no futuro académico e profissional dos jovens.

Riscos associados ao excesso de utilização das novas tecnologias

  • Sedentarismo
  • Obesidade e excesso de peso
  • Alterações do sono
  • Insucesso escolar
  • Depressão (Isolamento)
  • Dependência e vício
  • Cyberbullying
  • Violência, pornografia, pedofilia

Parece claro que a forma como as novas gerações sociabilizam é extremamente diferente daquela das gerações passadas. A sociabilização é atualmente independente da distância ou do isolamento físico e a presença nas redes sociais é cada vez mais indispensável para a inclusão nos grupos de jovens. É nelas que se organizam festas ou eventos, que se discutem trabalhos de grupo e que se acertam pormenores de organização na escola.

Devemos contudo estar alerta para alguns riscos e problemáticas que são emergentes e têm estado associadas ao crescimento das redes sociais.

Quando olhamos para a forma como os adolescentes utilizam as redes sociais, há um aspeto que impressiona particularmente: a ausência de períodos de sossego distante dos amigos. As redes sociais estão presentes constantemente, com notificações e mensagens a chegar a cada instante, a solicitação é permanente e há cada vez menos espaço para os momentos de solidão e quietude, que são fundamentais para processos de introspeção, estudo, leitura, sono, etc.

O sono é uma preocupação crescente, existe um défice de sono nos adolescentes das sociedades modernas, com graves consequências para a saúde, desenvolvimento e rendimento escolar. A presença do telemóvel no quarto, ligado e online nas redes sociais atrasa muito a hora a que os jovens adormecem. De pouco serve irem para a cama às 22 h, se estão a trocar mensagens ou comentar publicações nas redes sociais, no seu telemóvel, até à 1 ou 2 h da manhã.

Uma outra preocupação crescente é o cyberbullying. É um tipo de bullying particularmente grave e poderoso. O bullying online tem o potencial de chegar à totalidade dos amigos e/ou familiares da vítima, está ativo 24 h por dia e muitas vezes é extremamente difícil de apagar após publicação e partilha. É fácil perceber que as consequências podem ser desastrosas, podendo levar a isolamento social, absentismo escolar, depressão e, em raros casos extremos, ao suicídio.

O uso massivo da internet e redes sociais tem ainda o potencial de levar ao desinteresse por outras experiências tão fundamentais como as atividades sociais «ao vivo» ou o desporto, aumentando o sedentarismo e reduzindo a atividade física com as múltiplas consequências tão conhecidas para a saúde (obesidade, hipertensão arterial, risco cardiovascular, etc.).

Recentemente tem-se reconhecido a problemática da dependência destas novas tecnologias (videojogos ou internet e redes sociais), que constitui uma doença séria com múltiplas consequências, como o isolamento social, a depressão, as perturbações do sono ou o absentismo escolar.

É fundamental que os pais mantenham vigilância da utilização que os filhos fazem da internet e redes sociais. Estabelecendo regras quanto ao tempo de utilização, tipo de utilização e vigilância dos «amigos online», acompanhando a actividade on-line e explicando e ajudando a interpretar correctamente a informação acedida. Esta vigilância é um dever qualquer pai.

Regras de segurança online

  • Supervisão parental:
  • Regras bem definidas
  • Patilha
  • Ferramentas de “parenting”
  • Bloqueio de sites
  • Filtros
  • Consulta de Histórico

Ensinar sobre:

  • Evitar a partilha de dados pessoais
  • Desconfiar de desconhecidos
  • Denunciar
  • Reforçar que nem tudo o que está online é verdade

Um estudo recente realizado com crianças e adolescentes na consulta do Hospital CUF Descobertas, mostrou que os níveis de utilização dos novos meios de são extremamente altos, o que contrasta com níveis muito baixos de supervisão parental:

  • Entre os 0 e os 3 anos 67% utiliza estes meios e apenas 35 % dos pais exerce controlo parental
  • Entre os 4 e os 6 anos 89% utiliza e apenas 44% do pais exerce controlo parental
  • Entre os 7 e os 10 anos 98 % de utilização e 50 % controlo parental
  • Entre 11 e 14 anos 100 % utiliza e 57 % de controlo parental
  • Entre os 15 e os 18 anos 100 % utiliza e apenas 26 % controlo parental.

Nestes números impressiona sobretudo a baixa percentagem de controlo exercido pelos pais, o que revela uma grande falta de sensibilização para os riscos envolvidos.

As recomendações são do médico Hugo de Castro Faria, Pediatra no Centro da Criança e do Adolescente do Hospital CUF Descobertas.

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