Três vezes mais casos de Baleia Azul nas mãos da justiça

Julho 20, 2017 às 10:36 am | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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Notícia do Jornal de Notícias de 20 de julho de 2017.

Três vezes mais casos de Baleia Azul nas mãos da justiça

 

 

Crianças no Facebook? Seja um exemplo para os mais novos

Julho 13, 2017 às 7:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do http://www.jn.pt/de 30 de junho de 2017.

Há algumas técnicas que o podem ajudar a manter os seus filhos seguros nas redes sociais
Foto: EPA/DIEGO AZUBEL

São os utilizadores mais vulneráveis nas redes sociais e os relatos de crianças aliciadas nestes espaços não param de aumentar.

Empresas que tentam impingir produtos ou utilizadores mais velhos com intenções perversas deixam as autoridades em alerta. Proibir o uso não é a solução, mas há alguns truques que o ajudarão a estar mais descansado:

1- Não mentir na idade: A idade mínima para a criação de uma conta no Facebook é de 13 anos. Mas os vários estudos publicados pela EuroKidsOnline apontam para um elevado número de crianças na rede. O melhor é mesmo respeitar esta regra ou controlar o uso;

2- Evite publicar fotos dos seus filhos: São aos milhares as fotografias de crianças que vão parar à Internet publicadas pelos próprios pais. Essas fotos são facilmente partilhadas por outros utilizadores que até as podem guardar nos computadores pessoais. Esta é uma das regras de ouro que depende só dos pais;

3- Manter o computador num local central da casa: Quando o uso das redes sociais é feito num computador, é possível controlar a utilização. Por isso, o melhor mesmo é deixar o computador num local onde pode facilmente ver o seu filho ou filha.

4- Alerta para os anúncios perigosos: Abre uma janela pop-up com a promessa de um iPad a troco de umas respostas a perguntas simples. Se há adultos que caem nestes truques, as crianças são ainda mais vulneráveis.

5- Seja um exemplo, até nas redes sociais: Se publica tudo o que faz no Facebook, com fotografias pouco aconselháveis, e troca mensagens com desconhecidos, o mais provável é que o seu filho o imite. Sendo prudente nestes espaços, vai dar um bom exemplo aos mais novos.

 

 

 

Oito métodos para uma internet mais segura

Junho 8, 2017 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto da http://www.paisefilhos.pt/ de 25 de maio de 2017.

Family with laptop in bed. Mother and child with computer at home

As recentes notícias sobre o jogo “Baleia Azul” – cuja consequência mais grave é poder levar os jovens participantes ao suicídio – são apenas o último “susto” que os pais de crianças e jovens têm vindo a experimentar no que diz respeito à forma como os filhos agem online. Há muito que medos relacionados com a exposição a conteúdos pornográficos, ciberbullying ou a atuação de predadores sexuais na internet fazem parte do quotidiano dos adultos. Há por isso que adotar estratégias que, ao mesmo tempo que reconhecem a omnipresença do mundo virtual na vida dos mais novos, promovem uma maior segurança.

Recentemente, a especialista britânica Katharine Hill lançou um livro com o título “Left To Their Own Devices?” (“Deixados à solta?”, em tradução livre), onde não só identifica algumas das situações a que pais, avós e adultos de referência devem estar atentos, como identifica oito métodos para promover o uso da internet de uma forma mais segura em meio familiar.

 1 – Não proibir a tecnologia

“Não é produtivo impedir as crianças de terem acesso à tecnologia. Eventualmente, haverá um amigo ou colega que tem um tablet ou um smartphone e as imagens e conteúdos vão chegar. Trata-se, antes de mais, de aprender a distinguir o certo do errado”.

 2 – Não deixar que os ecrãs dominem o quotidiano

“Enquanto pais ou avós, há que evitar que a vida seja passada à frente dos ecrãs, começando por dar o exemplo. Há que falar sobre o tempo que é gasto e que poderia ser perfeitamente utilizado para outras atividades de lazer. E, se for necessário, estabelecer regras de utilização adaptadas às diferentes idades das crianças e adolescentes”.

 3 – Criar um “acordo familiar tecnológico”

“Uma das coisas mais importantes que os pais podem fazer é usar os valores familiares no uso da tecnologia. Por exemplo, criar um ‘acordo tecnológico’ que estabeleça claramente o que as crianças estão autorizadas a fazer, o que é de evitar e o que não podem mesmo fazer e basear essas escolhas nos princípios que regem a vida da família”.

 4 – Deixar os equipamentos a carregar for a do quarto

“Uma parte importante desse ‘acordo tecnológico’ é estabelecer que os carregamentos dos aparelhos são feitos, durante a noite, fora dos quartos. Isto é o equivalente a impedir o acesso à internet durante essas horas. Mas, atenção: mais uma vez, todos os membros da família devem respeitar essas ‘horas sem net”, tanto crianças como adultos”.

 5 – Usar os sistemas de controlo parental

“No Reino Unido, a idade média em que as crianças têm acesso aos primeiros conteúdos pornográficos é aos 11 anos. Daí ser extremamente importante usar os sistemas de controlo parental nos sites e smartphones. Não se trata de impedir acesso à informação e conteúdos positivos, mas sim gerir e bloquear conteúdos impróprios”.

 6 – Estar envolvido na “vida online” dos mais novos

“No caso dos adolescentes, não há que hesitar: os adultos devem fazer parte das suas redes sociais e segui-los atentamente. Mas nunca de uma forma que pareça controladora, antes mostrando envolvimento positivo. Por exemplo, tirar uma foto de uma atividade em família e postá-la conjuntamente no Instagram”.

 7 – Estar informado e preparado para falar

“Não se pode enterrar a cabeça na areia e evitar falar de assuntos difíceis. Os pais podem pensar algo como ‘o meu filho não vê pornografia’ ou ‘nunca será uma vítima da Baleia Azul’, mas isso está longe de ser uma certeza. Daí ser importante os adultos manterem-se a par dos desenvolvimentos, bons e maus da tecnologia, para que as crianças saibam que podem falar abertamente sobre estes temas e serem compreendidas”.

8 – Limitar o uso adulto dos ecrãs

“Mais uma vez repito que é essencial ensinar pelo exemplo. Os valores transmitem-se, não se impõem. Se nos momentos em família, durante as brincadeiras ou às refeições, os adultos não largam os ecrãs, nada mais natural que as crianças e jovens façam o mesmo. Há que mostrar que o pai e a mãe sabem limitar o uso, em vez de lhes exigir que o façam apenas porque são os mais novos”.

 

 

 

Instagram é a rede social mais nociva para a saúde mental

Junho 5, 2017 às 6:00 am | Publicado em Relatório | Deixe um comentário
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Texto do http://exameinformatica.sapo.pt/ de 24 de maio de 2017.

O estudo citado na notícia pode ser consultado na notícia da Royal Society for Public Health:

Instagram ranked worst for young people’s mental health

Ruben Nascimento Oliveira

É o que diz um estudo realizado no Reino Unido que questionou 1500 pessoas para comparar os efeitos na saúde mental das redes sociais: Instagram, Snapchat, Facebook,Twitter e Youtube.

A Royal Society for Public Health em conjunto com o movimento Young Health publicou um estudo focado nos efeitos que cinco redes sociais diferentes têm na saúde dos jovens.

O estudo foi feito no Reino Unido, onde cerca de 1500 pessoas entre os 14 e 24 anos de idade foram questionadas sobre a sua saúde, bem-estar, suporte emocional, imagem corporal e bullying, noticia a Cnet.

Após análise às respostas, os investigadores concluíram que o Instagram era o mais prejudicial para a saúde dos jovens seguidos por ordem decrescente relativamente ao seu efeito nocivo nos utilizadores, pelo Snapchat, Facebook, Twitter e Youtube.

Os efeitos negativos superiores do Instagram e Snapchat parecem ser derivados do grande foco em imagens que existe em ambas as redes sociais, explica Shirley Cramer Chefe executiva do Public Health Group.

 

“Se calhar já existiram mais casos do Baleia Azul que não foram identificados como tal”

Maio 16, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista do https://www.publico.pt/ a Ivone Patrão no dia 7 de maio de 2017.

A professora teme que os casos de adolescentes que chegam ao hospital por causa da Baleia Azul possam ser mais do que os já conhecidos e apela aos pais para que estabeleçam regras.

Bárbara Wong

Nas últimas semanas, o país foi surpreendido com um jogo que pode levar os que aderem ao suicídio, é a última etapa do jogo, antes disso as propostas passam pela automutilação. É o jogo Baleia Azul e tem tido aderentes que vão parar ao hospital. Paralelamente há uma série para jovens e adolescentes, com produção executiva da ex-estrela da Disney Selena Gómez, que também gira em torno do suicídio de uma adolescente e que já levou escolas nos EUA a boicotar a série; na Nova Zelândia e no Canadá, os departamentos responsáveis pela classificação dos filmes considerou a série Por 13 Razões não adequada a jovens com menos de 18 anos e no Brasil a visualização levou a que centenas de jovens pedissem ajuda. A série que é uma adaptação do livro de Jay Asher aborda ainda a violação, o bullying, a depressão e a falta de acesso a cuidados de saúde mental.

A psicóloga Ivone Patrão, que trabalha na primeira consulta de dependência de Internet no país, que funciona no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, escreveu recentemente o livro #geração-cordão sobre as gerações que estão dependentes das novas tecnologias. A também professora no ISPA- Instituto Universitário teme que os casos de adolescentes que chegam ao hospital por causa do Baleia Azul possam ser mais do que os já conhecidos e apela aos pais para que estabeleçam regras.

Temos o jogo Baleia Azul e temos a série Por 13 Razões onde o suicídio está permanentemente presente. Até que ponto estes não servem para despoletar nos jovens o desejo do suicídio?

Claro. Confrontamo-nos com jovens que estão em sofrimento e se estas tarefas do Baleia Azul não existissem eles estariam a automutilar-se e a instituir um plano suicida. O jogo ou a série só vêm dar o mote. Há um sofrimento físico que ajuda a anular o sofrimento psicológico. O jovem pensa: “Eu sinto-me tão deprimido, tão vulnerável, tão mal que ao cortar-me sinto-me aliviado” e este jogo, para um jovem isolado, surge como alguém que não faz juízos de valor e o incita.

Até que ponto esta geração está mais perdida do que as anteriores porque têm menos perspectivas de vida?

Não diria que é uma geração perdida, mas que tem um risco que as anteriores não tinham, por causa do acesso fácil a tudo, por não ter de saber as coisas mas só o sítio onde elas estão. Com as tecnologias eles não fazem time-out, não fazem refresh uns dos outros e não param para reflectir, para pensar, para ajustar a forma de pensar sobre algo que se passou durante o dia. Estão sempre ligados e isso ajuda a que os jovens que estão mais vulneráveis facilmente entrem no jogo. Sobretudo se têm ideias de morte, é como juntar o útil ao agradável. O jogo é uma coisa prazerosa onde se ganha. Aqui é completamente ao contrário.

O suicídio entre os jovens é a segunda causa de morte, diz a OMS.

Primeiro são os acidentes de viação e depois o suicídio. Eu diria que poderá haver muitas situações de suicídio que são considerados acidente e podem não ser. Em termos de número podemos ter dados superiores e não temos valores concretos das tentativas. Tenho situações de jovens que já tentaram suicidar-se três vezes, quer dizer que estão em sofrimento e que quem está à volta não se apercebe. Entrar neste jogo é muito fácil para estes jovens.

Mas o jogo não é também o testar os limites? Ou seja, não pode ser jogado por jovens que não têm esse quadro que descreve?

É comum e típico dos jovens querer testar os limites, mas só até um certo nível, percebem quando há uma zona de perigo. Portanto, se não estiverem em sofrimento ou vulneráveis recuam e não jogam.

As notícias sobre este jogo podem levar mais jovens a entrar no Baleia Azul?

Haverá muitos que terão curiosidade porque querem saber o que é, até que ponto os tentam manipular, mas só jogarão se estiverem em grande sofrimento.

Há tentativas de suicídio online, os jovens entram em directo, mostram aos outros o que vão fazer e que acabam por ser salvos porque alguém que está a ver telefona para a polícia, jovens que nem sequer estão em Portugal (que estão em França, em Espanha, nos EUA) e que alertam as autoridades. Tenho relatos de pais que tiveram a polícia e os bombeiros em casa, de repente, sem saber porquê, quando tinham o filho ou a filha, noutra divisão da casa, a fazer essa tentativa em directo.

Mas o jogo ou a série não podem servir de alerta para não cometer o suicídio?

Pode funcionar não para os que estão em sofrimento, mas para os que vão ouvir as notícias com mais cuidado sobre outros que ficaram hospitalizados ou morreram. Vai funcionar para pais e professores para estarem atentos. Se estas situações não surgissem como é que a população em geral sabia?

Pode servir para jovens falarem com um professor ou com os pais de um amigo que esteja nessa situação. É preciso conhecer os sinais de alerta – alterações de comportamento, baixo rendimento escolar, distanciamento na relação com os colegas.

Se calhar já existiram mais casos do Baleia Azul que os profissionais das urgências não identificaram como tal e definiram como automutilação porque o jogo era desconhecido. Haverá mais casos que poderão ser associados ao jogo.

Faz sentido para os jovens jogarem o Baleia Rosa ou vão achar que é uma parvoíce?

É positivo e estará adaptado aos que gostam da lógica dos desafios e de conseguir fazer bem e depressa as tarefas que, neste caso, são adequadas. É preferível que joguem e é de recomendar sempre que peçam ajuda especializada quando se sentem num beco sem saída.

O que é a “geração-cordão” que dá título ao seu livro?

É uma metáfora que tem a ver com a questão de ser uma geração que está sempre ligada às tecnologias e que não tem competências de autonomia e de desenvolvimento do seu projecto de vida, que não corta o cordão umbilical, não se autonomiza, não faz as tarefas da adolescência e está em contacto com o mundo mas só virtualmente. Defendo que é importante cortar o cordão umbilical à nascença e criar laços, deixar as crianças crescer de forma saudável.

Como é que devemos gerir as tecnologias nas nossas vidas?

Ainda estamos a anos-luz. Em inquéritos é muito engraçado os pais responderem: “não deixo estar muito tempo” ou “deixo o tempo que baste” [a usar o computador]. O que é isso? É ausência de clareza e traz muitos conflitos. Muitos jovens chegam à consulta porque os pais não sabem o que fazer. Desde crianças que lhes damos tablets e smartphones sem estabelecer regras e quando chegam à adolescência já é tarde.

Até que ponto os pais também dão um mau exemplo do uso das tecnologias?

Os pais são um exemplo presencial e virtual. E ainda não parámos para pensar nisso. Temos muitos pais com adolescentes que têm Facebook e outras redes e querem instituir regras em casa, mas depois fazem posts à uma da manhã. Costumo dizer que à hora de jantar, a família pode fazer um “encontro da tecnologia” onde se juntam os telefones todos. A tecnologia encontra-se num sítio e a família noutro para conversar e conviver. Dificilmente as pessoas o fazem.

Alguns pais estão conscientes que são um modelo presencial, mas não acredito que tenham a ideia que também são um exemplo virtual. Mesmo com crianças pequenas, estas observam a relação do adulto com a tecnologia e fazem uma aquisição do que vêem. Estamos no princípio da consciencialização e é preciso afinar práticas educativas. É importante que se comece cedo, não a evitar as tecnologias, mas a enquadrá-las, introduzindo-as com regras e limites.

Haverá mais situações de jovens e crianças em risco e mais a experimentar o Baleia Azul. Tenho acompanhado jovens com automutilação. Lembro-me de uma jovem que não conseguia verbalizar e escrevia sobre a sensação que tinha quando se cortava, era um alívio, tudo ficava mais simples e mais fácil de lidar.

Como é que se resolve?

Há uma componente de intervenção com a família. É importante que os objectos cortantes não estejam disponíveis, que a família não faça juízos de valor, mas que compreenda o que se passa. Geralmente está escondido, nota-se nos comportamentos: baixo rendimento escolar, depressão, isolamento, jovens que chegam à consulta muito vestidos… Começo logo a suspeitar. Há uma componente de intervenção de psicoterapia que perdura

Cura-se?

(Silêncio) É importante a adesão do jovem à intervenção. Para compreender esse estado e fazer um caminho diferente com estratégias positivas. Vi algumas imagens da mutilação da baleia no braço de uma jovem, que se nota que tem uma componente artística fantástica, portanto um desenho daquela jovem deve ser belíssimo. Significa que tem interesses que foram deixados de lado e que é preciso ir buscar. Muitas vezes há acontecimentos de vida – perda de coesão na família, a dificuldade de os pais têm de lidar com o crescimento dos filhos… Não quero fazer uma relação directa com o divórcio, mas às vezes, percebemos que estes jovens andam à semana, numa casa e noutra, e ninguém se apercebe do que está a acontecer.

Estes jovens que se automutilam também podem ser vítimas de bullying?

De bullying e de ciberbullying. Eles têm os telemóveis durante todo o dia – as regras variam de casa para a escola, de escola para escola, e até há professores que têm uma cesta onde os alunos põem o telefone, mas eles têm dois, o outro fica no bolso!

Portanto, há fotografias, vídeos, criam-se grupos para gozar com o colega, criam-se situações que é difícil os adultos terem percepção das mesmas porque uma coisa é o bullying directo que se vê no recreio, outra é este que se passa na rede.

Se não vêem, o que podem fazer os pais ou os professores?

Estes jovens dão sinais, ficam mais inquietos, mais agressivos. Às vezes podem ser os pais a pedir ajudar, a ir a uma consulta de triagem. Os pais podem ver o histórico do computador; fazer uma conversa pela positiva, de interesse e não de crítica. Tudo isto é mais fácil se os pais começarem quando eles ainda são crianças porque na adolescência cheira-lhes a intrusão. Aos 16 anos não se lhes pode pedir a password do email.

O que está a dizer é que os pais precisam de criar relação com os filhos e falar com eles.

É essencial, desde muito cedo. Eles são do toque, desenvolvem essas competências sozinhos. Os pais ficam descansados porque eles são muito espertos e esquecem-se que os filhos criam uma pegada digital, criam contas de Facebook ou de email aos oito/dez anos, podem entrar em sites que não são seguros, que podem falar com pessoas mais velhas… Damos uma chucha e há uma altura para a tirar, mas a da tecnologia é para o resto da vida.

E os pais estão a dar essa chucha antes de lhes dar um livro, um brinquedo de pano ou de madeira.

É verdade. Damos e não tem mal em dar, mas não pode ser só isso. Não tem mal usar tecnologia, é preciso saber as regras e os pais não estão a fazer isso.

Que outros casos ligados a dependência da tecnologia chegam à consulta de Santa Maria?

Chegam-nos as situações mais graves. A consulta existe desde 2013. São sobretudo rapazes com número de horas exagerado [à frente de um ecrã], em absentismo escolar, sem projectos de vida, com perturbações psiquiátricas ou deprimidos e que encontraram no jogo online uma forma de ter prazer e de viver. São desinvestidos do ponto de vista físico, não comem ou comem em excesso porque estão sempre em frente ao computador.

E as raparigas?

As raparigas têm dependência das redes sociais o que implica socialização virtual e presencial, como há partilha de conteúdos, fotos e vídeos, encontram-se. Portanto recorrem menos à consulta.

Qual é a percentagem de jovens com dependência?

Os estudos indicam 25%. No Japão ou na China é mais de 45%. Associado ao número de horas temos o isolamento e a desistência de outro tipo de actividades, de lazer, desportivas e de contacto social. Efectivamente, temos muitos jovens que deixam a prática do desporto porque assim têm mais horas para jogar; que não vão ao cinema ou que aproveitam os furos nas aulas para jogar.

O ministro da Saúde japonês implementou os bootcamps obrigatórios de desenvolvimento pessoal sem tecnologia. Têm centros de internamento.

São necessários em Portugal?

Nalgumas situações que temos que são mais graves. Estes jovens estão em absentismo escolar e não trabalham. Há comunidades terapêuticas para toxicodependentes que podem dar apoio nestas situações porque do ponto de vista neurológico é uma dependência sem estar ligada a nenhuma substância, mas activa as mesmas partes do cérebro que as drogas ou o álcool.

Fazem-se planos de intervenção para a saúde, alimentação, prevenção rodoviária, parece-me que cada município devia desenvolver um plano de intervenção saudável de tecnologia – o próprio município disponibiliza wi-fi, por que não disponibilizar formação para pais, professores e jovens? Duvido que haja algum programa autárquico sobre este assunto, que é urgente.

Passaria por consultas?

Passaria primeiro por formação. Passaria por termos técnicos nos centros de saúde que possam fazer formação mais concreta para responder quando há casos de maior vulnerabilidade. Ainda estamos no início do que vai aparecer.

Vai ser pior que o Baleia Azul?

Pode haver outros jogos, estão sempre a surgir mais jogos.

 

Serviços telefónicos de ajuda e apoio ao suicídio em Portugal e na Europa

 

SOS – Serviço Nacional de Socorro 112

SOS Voz Amiga (entre as 16 e as 24h00) 21 354 45 45 91 280 26 69 96 352 46 60

SOS Telefone Amigo 239 72 10 10

Telefone da Amizade 22 832 35 35

Escutar – Voz de Apoio – Gaia  22 550 60 70

SOS Estudante (20h00 à 1h00) 808 200 204

Vozes Amigas de Esperança (20h00 às 23h00) 22 208 07 07

Centro Internet Segura 800 21 90 90  Linha Internet Segura

 

 

E depois dos ecrãs: que vida pode sobrar?

Maio 11, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do https://www.publico.pt/ de 1 de maio de 2017.

Estamos rodeados de ecrãs e a vida parece caber em meia dúzia de polegadas. Nos transportes públicos, nos restaurantes, em casa. Há quem pense que a utilização febril dos dispositivos conduz afinal a uma nova forma de ignorância.

Inês Chaíça

“Nada é mais significativo e deprimente do que ver numa entrada de uma escola, ou num restaurante popular, ou na rua, pessoas que estão juntas, mas que quase não se falam, e estão atentas ao telemóvel, mandando mensagens, enviando fotografias, vendo a sua página de Facebook, centenas de vezes por dia”, escreveu o colunista José Pacheco Pereira na sua última crónica de 2016 para o PÚBLICO. Nela, define um novo tipo de ignorância: aquele que não está apenas relacionado com a falta de conhecimento pura e dura, mas com a falta de interesse pelo que nos rodeia – e que estaria, em grande parte, relacionada com os dispositivos electrónicos e as redes sociais.

Fala também da falta de capacidade de questionar o mundo e de distinguir a informação certa da falsa. E, pior: porque a informação não-verificada se propaga de forma tão rápida nas redes sociais, Pacheco Pereira define-as como “viveiros de populismos”. Será apenas isso?

Miguel C. Tavares e José Alberto Gomes estiveram em Hong Kong e as imagens que trouxeram parecem ilustrar a crónica de Pacheco Pereira (ainda que não estejam directamente relacionadas). Em cinco minutos, a curta-metragem In Between mostra uma sociedade alheada do que se passa à sua volta e presa aos ecrãs.

Miguel Tavares, formado em arquitectura mas que hoje em dia é realizador freelancer, explicou ao PÚBLICO que não foi para Hong Kong com uma ideia pré-definida – passou lá um mês a misturar-se com a população e com a cidade e a perceber como funcionam as dinâmicas de comunicação. “A ideia surgiu lá, não foi algo pensado”, explica. “É um tema que também me interessa e é bastante actual e pertinente: essa alienação, o facto de cada pessoa viver no seu mundo”. E trouxe para Portugal imagens de pessoas nas suas deslocações quotidianas, mas que não conseguem desligar-se: os olhos estão presos ao ecrã do smartphone e os auriculares não saem dos ouvidos.

Conta que sentiu mais isso em Hong Kong do que em Portugal, “pela própria dinâmica da cidade” e “pelas distâncias que as pessoas percorrem de transportes”, que acabam por atirá-las para o refúgio do telemóvel e das redes sociais. “Em Portugal não há nada parecido”, considera. Talvez nas grandes metrópoles europeias, mas ainda assim com algumas reservas.

As reacções que teve enquanto filmava são sintomáticas dessa diferença entre as sociedades ocidentais e orientais: “Era impossível tentar fazer o mesmo em Portugal. Eles têm um à-vontade muito grande com as fotografias e com as câmaras”. No entanto, salienta uma certa falta de abertura em relação ao outro, uma certa reserva e uma vontade de manter as distâncias – salvaguardando que o choque de culturas pode ser a causa disso.

Miguel C. Tavares já não é novato nas andanças dos festivais de cinema. Com a curta-metragem Sizígia, realizada pelo colectivo Ruptura Silenciosa, do qual fez parte, esteve no Festival Internacional de Cine de Mar del Plata, na Argentina, no Festival Court c’est Court, em Cabrières d’ Avignon, França, e no Indie Lisboa, todos em 2013. A curta-metragem ??? IN BETWEEN ???, filmada em 2016, ainda não se estreou em nenhuma plataforma e é mostrada publicamente agora pela primeira vez.

A “linha da vida” que é o smartphone

Estamos cada vez mais ligados e já quase não sobram dúvidas: o smartphone passou a ser o veículo principal da navegação na Internet a nível global – e os jovens são os seus principais utilizadores. “No Brasil, em três anos, passou-se de 30% de jovens que acediam à Internet pelo smartphone para 85%”, explica Cristina Ponte, investigadora e professora na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (FCSH-UNL) que se especializou nas questões que envolvem crianças e jovens e os media. “Num estudo com 44 jovens universitários angolanos, verificou-se que menos de 10 têm um computador e uma ligação à Internet a partir de casa, por isso é o smartphone que os liga ao mundo”. Em Portugal, ainda há uma grande tradição na utilização do computador porque “os jovens cresceram com os programas do e-escolas e e-escolinhas, que lhes deram acesso a computadores portáteis”, explica a investigadora.

Mas a tendência para a crescente utilização do smartphone é real e começa a ter consequências. Pacheco Pereira, por exemplo, alerta para a alienação quase total dos jovens: “Não há maior punição para um adolescente do que se lhe tirar o telemóvel, e alguns dos conflitos mais graves que ocorrem hoje nas escolas estão ligados ao telemóvel que funciona como uma linha de vida”, escreveu.

Cristina Ponte, professora universitária, confirma que os jovens confiam cada vez mais no smartphone. “Por exemplo, os meus alunos dizem-me muitas vezes que deram uma vista de olhos no texto que mandei para ler no telemóvel, mas isso não dá para nada”. A investigadora diz que há coisas que têm de levar o seu tempo – e ler é uma delas. “Concordo com Pacheco Pereira quando ele diz que o tempo da leitura não é o tempo da imagem em movimento – sobretudo se estas imagens durarem apenas 60 segundos e forem mudas. Há um tempo que pede para ser vivido de forma mais lenta”.

No entanto, salienta que a sensibilidade para os perigos da Internet e dos ecrãs é fruto da cultura familiar e dos processos prévios – e não apenas do facto de se ser jovem, como parece sugerir Pacheco Pereira na passagem citada acima. O espírito crítico nasce de um “ambiente estimulante” criado em casa, diz a investigadora, de jovens que foram incentivados, desde cedo a exprimirem as suas opiniões. “Não podemos ver os jovens e a tecnologia e ignorar os ambientes familiares em que viveram, a educação que tiveram, o facto de terem crescido em condições de liberdade e de acesso a um conjunto diversificado de literatura, cinema, teatro…”, explica a investigadora, acrescentando que todas as pessoas têm recursos diferentes, o que justifica o facto de a tecnologia não actuar em todas as pessoas da mesma forma. Por isso, defende, é perigoso generalizar, como fez Pacheco Pereira.

Activismo político e as redes sociais

“Há jovens que têm a capacidade de ter um espírito crítico e tiram partido das redes sociais, normalmente com um sentido mais activista”, adianta a mesma investigadora. O que explica, em parte, os movimentos activistas (de jovens e não só) nascidos nas redes sociais. Cristina Ponte considera que os telemóveis e as redes sociais facilitam a organização e mobilização em torno de uma causa. Isso ganha mais expressão no caso dos jovens porque “estão sempre na vanguarda das tecnologias, são capazes de se mobilizar e fazer curto-circuito à informação mainstream”.

Ao mesmo tempo, assiste-se a um tempo em que os jovens não parecem ter outra alternativa às redes sociais. Cristina Ponte salienta que na actualidade há alguns espaços que lhes são interditos, e que os obrigam a procurar outras formas de estarem em contacto uns com os outros. A rua, por exemplo, tornou-se num espaço quase proibido e os adolescentes são vistos como arruaceiros se andarem em grupo.

Já Tiago Lapa, investigador do Centro de Estudos de Sociologia do ISCTE-IUL e professor na mesma universidade, salienta o carácter mais tradicional das manifestações de interesses políticos que começam nas redes sociais e que passam para a rua. “Quem usa as redes sociais quer transmitir uma mensagem”, sintetiza. “Os movimentos sociais organizam-se a partir das redes sociais – o que provoca uma certa globalização desses movimentos – mas há que perceber que um dos objectivos dessas mobilizações é, precisamente, aparecer na televisão”, acrescenta o investigador.

Exemplo disso foi a manifestação de 12 de Março de 2011, que ficou conhecida como manifestação da “gração à rasca. Tiago Lapa diz que as redes sociais foram peças centrais nessa manifestação, mas que se “não tivesse sido televisionada, não teria o impacto que teve na percepção das pessoas”.

Já António Guerreiro, ensaísta, crítico literário e cronista, tem uma visão mais céptica sobre a possibilidade de as redes sociais se constituírem como a voz de um movimento político. Conta ao PÚBLICO que, até hoje, “não há uma comunidade política ou um sujeito social constituídos através das redes sociais”. O que não quer dizer, explica, que as redes sociais não produzam efeitos, mas são “de outra ordem”. “As redes sociais são um bom exemplo de um mecanismo hipertélico, algo que vai para além dos seus próprios fins e se anula por isso”, considera.

“Quem não está na rede é como se não existisse”

Se não foi fotografado, comentado ou gravado no Facebook, no YouTube, no Twitter ou no Instagram é porque não aconteceu: é esta a lógica que parece reger a comunicação nas redes sociais. E, segundo Cristina Ponte, é importante pensar nos tipos de vigilância que instaura. Por um lado, a vigilância positiva, o facto de “podermos tirar uma fotografia a algo que achemos injusto”, como descreve a investigadora, e partilhá-lo numa questão de segundos. Por outro, instaura “um tipo de vigilância e controlo, tidos quase como naturais, e que colocam muitas questões de privacidade e reserva”. E, de facto, o que está na Internet não sai da Internet – para o bem e para o mal. O direito ao esquecimento impõe-se como um novo debate político, cujas bases só agora foram lançadas. “É uma batalha política pura que poderá ganhar algum relevo nos próximos anos”, avalia Tiago Lapa.

Parecemos cada vez mais alheados do mundo – mas saltamos de aplicação em aplicação e sabemos exactamente o que cada um dos nossos amigos está a fazer. Como Pacheco Pereira coloca a questão: “quem envia um ping espera um pong”, escreveu o colunista da sua primeira crónica deste ano no PÚBLICO, em que voltou ao tema. “É uma pressão para estarmos constantemente ligados e a responder num tempo vertiginoso”, confirma Cristina Ponte. “[Os novos meios] são quase totalitários. Quem não está na rede é como se não existisse”, afirma a investigadora da FCSH.

Em Portugal são cada vez menos os casos de pessoas que optam por não pertencer ao universo das redes sociais. O número de utilizadores continua a aumentar e isso tem a ver com a “nossa cultura latina”, de querer saber sempre o que os outros estão a fazer. “A cuscar”, como resume a professora.

“A sociedade da transparência, ditada pelos media sociais, retira a distância mas ao fazer isso retira a possibilidade da descoberta e da curiosidade”, explica Tiago Lapa. Dá a falsa impressão de que é possível conhecer e saber tudo sobre uma pessoa, apenas através daquilo que ela escolhe publicar na Internet. “Essa transparência é enganadora e extremamente redutora”, adverte o investigador do CIES, até porque a personagem online é construída e “aquela pessoa tem outra vida, outras máscaras e outros sentimentos, é apenas uma versão de si mesma”.

Contudo, não se trata, necessariamente, de “sociedades sem relações humanas de vizinhança, de companhia e amizade, sem interacções de grupo, sem movimentos colectivos de interesse comum” como avalia Pacheco Pereira. Cristina Ponte afirma, que, pelo menos no caso dos adolescentes, estas dinâmicas sociais não são novas. “É o que faz com que o jovem se sinta integrado”, especialmente no caso das raparigas. Antigamente “eram as cartas, depois as cassetes, os telefones, todo um conjunto de recursos tecnológicos que eram dados aos adolescentes” e que, na essência, não são diferentes dos media sociais.

Alienação e a (aparente) ascensão dos populismos 

Quando se tira o holofote dos jovens e adolescentes e se passa para os adultos, o cenário não sofre grandes alterações. Pacheco Pereira escreve que “não é por acaso que o grande reservatório do populismo político e social nas sociedades ocidentais são as redes sociais, que, não sendo a causa do populismo, são um seu grande factor de crescimento e consolidação”. Será que há necessariamente uma relação entre as duas coisas?

A opinião de Tiago Lapa não é totalmente contrária. Explica que o problema não é exclusivo das redes, mas de um conjunto de condições políticas especiais que “tornam esses discursos atractivos”. As pessoas transmitem as suas opiniões sobre um determinado assunto “utilizando uma ferramenta que têm à mão, que são as redes”. Mas ressalva que tem mais a ver “com os mensageiros do que com os meios” – portanto isto podia acontecer na Internet, na rua ou nas páginas de um jornal. De acordo com o professor do ISCTE, as redes sociais suprimem algumas necessidades de sociabilidade mas “ainda são um meio que temos de aprender a utilizar”. O que falta, muitas vezes, é uma abordagem crítica sobre o que se lê – uma certa desconfiança em relação à fidedignidade e credibilidade das pesquisas online. E para generalizar esse espírito crítico há que aumentar a literacia da população: fazer com que saibam descodificar mensagens e perceber o objectivo do emissor quando escreve e publica nas redes sociais.

Não se trata de uma época com falta de informação. Trata-se, antes, de um contexto em que há “várias informações contraditórias disponíveis” – há demasiada informação e não se sabe em quem acreditar. Em paralelo, houve a deterioração de “um conjunto de autoridades, sendo o jornalista uma delas”. Também neste ponto, Tiago Lapa e Pacheco Pereira estão de acordo.

Discordam apenas na definição de “nova ignorância”. Pacheco Pereira define “este novo tipo de ignorância” como um “ataque ao saber, ao conhecimento certificado, em nome de um igualitarismo da ignorância”. Tiago Lapa tem algumas reservas. A existência de várias fontes de informação não é necessariamente negativa: “Permitem canais alternativos para obter informação fora dos canais mainstream”, diz Tiago Lapa, o que é positivo porque cada pessoa pode fazer a sua dieta informativa própria.

O investigador, por outro lado, não concorda que os ecrãs e as redes sociais por si sejam um meio de alienação, como sugere Pacheco Pereira. A discussão, aliás, já é antiga. “É uma associação muito antiga e que já vem com o cinema, com a televisão, com os grandes meios de comunicação e que agora é associado à Internet”, explica Tiago Lapa. Essa teoria baseia-se num conjunto de pressupostos, como a falta de pensamento crítico e passividade dos consumidores de conteúdos. “Sim, qualquer meio tem potencial de alienação”, admite o professor, “mas há que perceber para que grupo e em que condições”.

António Guerreiro, por sua vez, coloca a questão da alienação noutra perspectiva: “o mundo que nos rodeia não é o das tecnologias, da realidade virtual, das imagens sem referente? Se estamos atentos a esse mundo, estamos atentos ao real porque não existe outro”. Não se trata necessariamente de alienação. Na perspectiva do ensaísta aceitar que existe alienação “seria aceitar uma velha concepção de que estamos mergulhados na ‘ideologia’”, que precisa de ser afastada, “como um véu”, para aceder à verdade.

Para além dos ecrãs, o que existe?

Nem a Organização Mundial de Saúde nem o manual da Associação Americana de Psicologia definem a dependência da Internet como uma doença mental. No entanto, há programas de tratamento para a dependência da Internet, que a equiparam a adições a substâncias como a droga ou o álcool. Daniel Sampaio, psiquiatra responsável pelo Núcleo de Utilização Problemática da Internet do Hospital de Santa Maria, explica ao PÚBLICO que “as pessoas que têm dependências da Internet, do ponto de vista do cérebro, não são muito diferentes das que são dependentes das drogas ou do álcool”: “Tem a ver com a diminuição da ansiedade”, explica.

O que distingue a utilização normal da utilização abusiva da Internet é o prejuízo da vida pessoal e social. Faltar à escola, ao trabalho, às refeições e aos convívios com amigos seriam sinais de uma utilização abusiva. O simples facto de estar sempre ligado não faz com que alguém seja viciado na Internet – acontece apenas a partir do momento em que se deixar de lado as actividades do quotidiano. Na categoria dos casos pouco problemáticos estão as “pessoas sozinhas”, mas com “óptimas relações em presença”, que desenvolvem com recurso a vários dispositivos, descreve Daniel Sampaio.

“O grande problema das pessoas dependentes da Internet é que muitas vezes têm patologias associadas, sintomas de outras doenças mentais, particularmente sintomas depressivos ou ansiosos”, afirma o psiquiatra. O tratamento é psicológico e psiquiátrico e consiste em tratar as perturbações associadas, fazendo, ao mesmo tempo, uma desabituação à Internet – mas nunca cortando abruptamente o seu uso.

Os casos de pessoas que apresentam sintomas de dependência relançam o debate sobre o progresso. Este debate é antigo, e no entender de Tiago Lapa, está resolvido. O progresso técnico nem sempre anda de mãos dadas com o progresso social e isso é óbvio em muitas esferas da vida quotidiana. “Não é por termos melhores aparelhos que vivemos melhor”, resume.

A questão do trabalho é sintomática de uma utilização da Internet que nem sempre se traduz numa melhoria das condições de vida, que é, por sua vez, um debate político. Algumas profissões tornaram-se obsoletas e a intensificação do trabalho é uma realidade. O direito a desligar, que deu origem a uma nova lei em França e que tem passado, também, para as agendas políticas de outros países europeus, é exemplo disso. Para Cristina Ponte, a questão é simples: trata-se de bom senso da parte de quem manda um e-mail ou tenta telefonar fora do expediente. “Esta discussão é importante para nos fazer pensar que temos que ter respeito pelo outro e pelo seu tempo de descanso”, considera. Resume a questão de maneira peremptória: “Podem mandar e-mail, mas não fiquem à espera que responda”.

No entanto, evidencia que “na maior parte do tempo, as pessoas estão ligadas, não por causa do trabalho, mas porque há um certo horror ao ‘não fazer nada’”. E isso reflecte-se na maneira como os pais educam os filhos: “Há pais que acham que o tempo dos ecrãs deve ser útil, por isso, os filhos devem estar a fazer alguma coisa educativa”, resume a investigadora. E isso nem sempre é o melhor do ponto de vista pedagógico.

Esta nova sociabilidade “faz parte de sociedades em que deixou de haver silêncio, tempo para pensar, curiosidade de olhar para fora, gosto por actividades lentas como ler, ou ver com olhos de ver”, escreve Pacheco Pereira. As questões avolumam-se – a Internet mudou assim tanto o nosso quotidiano? Constitui um tipo de progresso? É uma nova forma de expressão política? A comunidade cientifica ainda não chegou a um consenso mas estas questões – que começam a ser agora discutidas no âmbito político – tornam-se cada vez mais relevantes.

Texto editado por Sérgio B. Gomes e Hugo Daniel Sousa

 

 

 

 

 

 

Geração Z, os jovens que nasceram na era da internet, da crise e do terrorismo

Maio 11, 2017 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social, Vídeos | Deixe um comentário
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Texto do http://observador.pt/ de 1 de maio de 2017.

Rita Porto

Depois dos Millennials, chega agora a Geração Z. Jovens que nasceram na era da internet e que não sabem o que é o mundo sem a crise e sem o terrorismo. O que esperam eles do futuro?

Leonor esteve indecisa sobre que objeto haveria de trazer quando lhe pedimos para escolher algo que a caracterizasse. Acabou por optar pelo violino em vez do telemóvel. Esta adolescente de 16 anos — feitos agora em abril — toca desde os oito anos e ainda hoje tem aulas e concertos: “Nem sei bem por que escolhi o violino. Acho que sempre gostei do som do instrumento”.

A irmã Carlota foi mais rápida na escolha: um azulejo com um barco à vela em tons de azul. “Fi-lo quando estava no 11° ano. Inspirei-me em todas as viagens que costumávamos fazer com os pais no Alcâncio, o barco do pai. Está sempre exposto na sala de estar”, conta a estudante de Cerâmica da Escola Artística António Arroio. O cuidado com que o manuseia, bem como o modo como o transporta — envolto em várias camadas de papel de cozinha para não se partir dentro da mala — denota a importância que ele tem para a adolescente de 18 anos, cuja carreira que quer seguir ainda é uma incógnita. “Gostava de um dia ter um atelier, mas não sei bem”.

Já Duarte anda com o seu objeto ao pescoço: um colar com duas estrelas azuis e uma roxa, feito pelo seu irmão mais novo. E não é o único assessório que costuma ter consigo: ao pulso tem um elástico e no dedo anelar da mão direita um anel, oferecido pelo melhor amigo, para o ajudar a ultrapassar “um mau momento”. “Gosto de usar acessórios. Ajudam-me a tirar o stress da escola e distraem-me um pouco”, conta o estudante de ciências.

André não andará sempre com o seu skate atrás, mas é sem dúvida uma parte essencial da sua vida. “Comecei a andar de skate há quatro anos, quando tinha 12. Na altura, um amigo comprou um skate numa ‘loja do chinês’ e depois toda a gente comprou um, e eu pensei ‘Porque não?’. Era só na brincadeira. À medida que as pessoas foram deixando de andar de skate, eu começava a interessar-me cada vez mais”, recorda o jovem de 16 anos.

Os treinos na rua com o melhor amigo — que entretanto também deixou o skate — passaram para o Skatepark. Foi o pai quem o levou lá pela primeira vez e, nem dois anos depois de ter começado, já estava a participar no primeiro torneio. “A primeira vez que ouvi falar num campeonato nem fui, por vergonha. Da segunda vez fiquei todo nervoso, mas participei. Fiquei em sexto lugar. Fiquei super feliz, mas também estava bué nervoso”. Foi apenas o início: hoje em dia participa em vários campeonatos, tanto nacionais como internacionais, muitos deles através da loja que o patrocina — Twin Tail.

A escolha de Leonor M. foi a mais tecnológica. “Sou uma pessoa que vive no seu próprio mundo e muitas vezes ponho os phones para estar só comigo, sem ninguém me chatear”. É algo que esta adolescente de 15 anos não dispensa, seja nos transportes públicos, em casa para ouvir música ou até na escola — “Este ano, como não me dou muito bem com a minha turma, acabo por estar muitas vezes de phones“. Um objeto essencial para a jovem baterista quando está a ensaiar em casa. “Tenho uma bateria elétrica em casa. Posso pôr os phones no amplificador e só se ouve como se estivesse a bater em qualquer coisa, mas eu gosto mesmo é de ter som no amplificador. A minha mãe sofre um bocado [risos].”

O que é a Geração Z?

Estes jovens têm histórias e gostos totalmente diferentes uns dos outros, mas partilham algo em comum: todos fazem parte da Geração Z. Depois dos baby boomers, da Geração X e dos Millennials, chegou-se à última letra do alfabeto para caracterizar as pessoas nascidas entre meados dos anos 90 até meados de 2010.

De acordo com dados do INE, são cerca de 2.566.327 as pessoas com menos de 24 anos a viver em Portugal. Dados da Pordata mostram que se trata de uma geração que nasceu numa população cada vez mais envelhecida, cujas mães são mais ativas e com mais escolaridade, mas cada vez menos jovens. Nascem no seio de famílias menos convencionais — têm cada vez menos irmãos biológicos, mas cada vez mais meios-irmãos — e estão rodeados de tecnologia.

Madalena Lupi, diretora do Departamento de Estudos Qualitativos da Netsonda/ConsumerChannel, analisou esta camada de jovens a propósito do 8º Seminário de Marketing Kids & Teens, promovida pela Brandkey, e ressalva que os anos limites para esta geração não são consensuais. “Partimos do princípio que são pessoas que nasceram por volta de 1995 e até 2016 — é uma geração que está em formação”, diz ao Observador.

A investigadora explica ainda que se trata de uma geração com “características próprias” graças ao contexto pessoal, social e económico em que nasceram e estão a crescer, ainda que algumas possam ser semelhantes às gerações anteriores.

Diana Dias Carvalho, socióloga e investigadora nas áreas da sociologia da família, da infância e da juventude, considera mesmo limitativo falar-se de gerações. “O risco de se falar em gerações é que tendemos a reduzi-las a certas características e consequências, e depois quando vamos ver, muitas vezes essas representações não colam com as realidades que encontramos, porque vai depender sempre dos contextos sociais — que são muito diversificados”.

Internet e novas tecnologias

Carlota — 18 anos: “Lembro-me que recebi o meu primeiro telemóvel no quinto ano — nem sequer tinha câmara! Foi-me dado quando começámos a vir sozinhas para casa e para se precisássemos de ligar para os pais. Mas não sinto que seja dependente do telemóvel e da internet. Há umas semanas estive de férias no Algarve com os meus avós e praticamente não mexi no telemóvel. Levei computador para fazer uns trabalhos para a escola e, apesar de ter internet, quase não a usei. Mesmo no dia a dia, só uso o telemóvel nos intervalos das aulas ou para ocupar o tempo, com alguma pesquisa que foi pedida pelos professores, por exemplo. Em termos de redes sociais, o que mais uso é o Instagram — não é tanto pelos vídeos, mas pelas fotografias (gosto muito de editá-las). O Snapchat já não uso tanto porque foram sendo criadas outras aplicações que fazem o mesmo. Uso bastante o Messenger de Facebook, mas só vou mesmo ao Facebook se os meus amigos me disserem que publicaram qualquer coisa.”

Leonor — 16 anos: “O meu primeiro telemóvel era um antigo telefone da minha mãe — deram-me aquele porque se o perdesse não havia problema. Não acho que seja viciada no telemóvel, mas dá sempre jeito. Por exemplo, eu nunca ando com relógio, portanto estou habituada a ver as horas no telemóvel e faz-me falta se não o tiver comigo. Costumo utilizá-lo para estar em contacto com os meus amigos e com os meus pais. Utilizo muito o Instagram, onde partilho fotografias e vídeos, e o WhatsApp para falar com os meus amigos, para combinar coisas ou quando preciso de alguma coisa para a escola e não tenho paciência para lhes ligar. Não uso muito o Messenger do Facebook, nem sei bem porquê.”

André — 16 anos: “Não me lembro de não haver internet — é mesmo estranho! Não sou dependente de tecnologia, mas uso o telemóvel diariamente, especialmente para as redes sociais. Utilizo o Instagram, o Snapchat, mas o Facebook não tanto e o YouTube um bocadinho. Também uso o WhatsApp para falar com os meus amigos e combinar coisas com eles, mas com mensagens áudio gravadas, que escrever dá muito trabalho [risos] . Publico vídeos no Instagram e no YouTube. Quando vou a um parque peço sempre a alguém para filmar, e vou pondo fotografias e vídeos. Sempre que faço alguma coisa nova tenho necessidade de mostrar. Não é para me orgulhar, simplesmente gosto que vejam. As pessoas dão apoio e isso é gratificante.”

Duarte — 16 anos:“Se me esquecer do telemóvel é um stress, porque não tenho maneira de comunicar com as pessoas. Antigamente estava muito preso às redes sociais. Atualmente gosto mais de usar o Instagram, para descobrir coisas novas ligadas à arte e à genética, e o Twitter, para me manter atualizado e ver as notícias — é fácil e rápido, porque sigo as páginas dos jornais e também há os trends. Falo com os meus amigos pelo WhatsApp e só tenho Facebook por causa do Messenger. Não me consigo imaginar sem internet. A internet ajudou-me a criar certas amizades que ainda hoje tenho. Agora sou capaz de comunicar mais, mas antigamente era mais difícil, era muito tímido. Acho que graças às redes sociais estou mais confortável ao pé das pessoas novas e consigo falar melhor com elas. Os nossos pais acham que, com a internet, não estamos tão atentos ao que se passa à nossa volta, mas no meu caso ajudou-me a perceber que o mundo não são só coisas boas. Comunicamos [entre amigos] de maneira diferente, conseguimos falar de vários tópicos porque estamos mais informados.”

Leonor M. — 15 anos: “Eu sou muito dependente do telemóvel — mais do que do computador. Dá para fazer tudo com ele, mas se me esquecer também não tem mal. Uso-o para falar com os meus amigos do grupo de jovens e da minha escola antiga, porque não estou com eles todos os dias. Utilizo muito o Messenger do Facebook e o WhatsApp. A rede social que uso mais é o Twitter, onde sigo pessoas famosas, como atores, músicos, chefs, e amigos meus, mas também gosto muito do Instagram porque gosto de tirar fotografias. Acho que as pessoas da minha idade partilham muitas coisas e acabam por não pensar quem vai ver aquilo. Por exemplo, a minha conta é privada, mas a de muita gente não é e nem sequer veem quem as segue.”

O universo digital é um dos aspetos mais característicos desta geração, como explica Madalena Lupi. “Hoje em dia, todos temos muitas companhias tecnológicas, todos utilizamos muito a internet, mas esta geração nasceu com ela. Se pensarmos que o Google apareceu em 1996, é uma geração que não conhece o mundo sem Google. Ou seja, o mundo para eles já foi definido de acordo com estes parâmetros e isso afeta em muito a maneira como eles o encaram e a maneira como reagem perante muitas coisas”.

Não são, contudo, jovens dependentes de tecnologia, sublinha a investigadora. Ainda assim, a facilidade com que chegam à informação de que precisam , graças “à internet no bolso” (o telemóvel), é determinante para o seu dia a dia: “Qualquer dúvida que um jovem desta geração tenha, tem a internet e toda uma rede enorme de pessoas que lhes explica o que é, como se faz, tudo o que houver a saber sobre o assunto.”, afirma Madalena Lupi.

Algo que pode parecer um caos para muitos, mas não para eles. “A capacidade de discriminar estímulos e de os encontrar será sempre superior à de gerações anteriores, porque cresceram com isto. Não acho que este excesso de informação seja uma coisa caótica e que desorganize. Eles próprios vão encontrando formas de selecionar esses estímulos.”, explica a psicóloga Patrícia Câmara ao Observador.

Uma realidade que faz deles pessoas mais “independentes” e “fazedores”, que utilizam a internet a seu favor para “concretizar as suas iniciativas”: “Na geração anterior, alguém que tivesse jeito para trabalhos manuais ou que até quisesse vender algumas coisas que fazia, tinha de ir a feiras e a lojas. Esta geração põe na internet e vende”.

Para a socióloga Diana Dias Carvalho — atualmente a tirar o doutoramento no ISCSP-UL sobre os jovens e a sua transição para o trabalho e para a vida adulta –, não se pode afirmar “com certeza” que há um uso excessivo da internet, especialmente porque se trata de uma geração com agendas “muito preenchidas e compartimentadas”, integrando o uso das novas tecnologias no seu dia a dia. “O que as crianças fazem online tem muito a ver com o que fazem offline: os jogos online têm a ver, por exemplo, com o gosto pelo futebol; as pessoas com quem falam online são aquelas com quem convivem offline“.

As redes sociais são das ferramentas mais utilizadas no telemóvel por esta geração, mas independentemente do domínio da internet nas suas vidas, continuam a privilegiar a comunicação cara a cara. “A tecnologia faz parte da vida deles, não foi algo que apareceu para substituir alguma coisa. Esta geração cresceu com as tecnologias e, portanto, mais do que os outros, sabe utilizá-las e não as utiliza para tudo. Eles cresceram com todo este digital e a criar relações em simultâneo”, adianta Madalena Lupi. Diana Dias Carvalho refere-se às redes sociais como “uma extensão do mundo offline e da interação face a face”.

Patrícia Câmara vai mais longe e defende que a comunicação online pode não só fazer com que os jovens que se sintam diferentes, cresçam tão menos “isolados”, como também pode servir como preparação para as relações na vida real. “Há jovens mais tímidos para quem a internet pode ser um refúgio — criando uma espécie de second life –, mas também pode ser até uma forma de se aproximarem dos outros, que de outra maneira não seriam capazes. Pode ser um passaporte para experimentar primeiro aquilo que ainda não se teve coragem de fazer na realidade, e não um impedimento do relacionamento em si”.

Pais e internet: controlo vs intimidade

A psicóloga destaca ainda a importância de haver uma “educação mais construtiva” no que toca a estas ferramentas digitais. “Acho que há sítios e horas em que as pessoas se devem desligar. Deve-se privilegiar os momentos de interação, como por exemplo os jantares de família. É importante fomentar estes espaços para que a alienação não exista efetivamente”.

Os pais muitas vezes tentam promover esta “educação”, nem que seja para tentar proteger os filhos daquilo que acham que são os perigos da internet, e muitas vezes não sabem como lidar com a quantidade de ferramentas a que os filhos têm acesso. “Estamos a assistir a uma mudança de paradigma com esta geração e os pais ficam mais aflitos porque a quantidade de coisas a que os filhos têm acesso e que eles não controlam é imensa. O que me parece é que, às vezes, por causa disso, há uma invasão da intimidade que não havia antes”, diz Patrícia Câmara, dando como exemplo determinadas aplicações que permitem aos pais localizarem os filhos e vice-versa. “No lugar onde devia estar a intimidade, o respeito e o espaço do outro passa a estar o controlo”.

A psicóloga considera que os pais deviam optar antes por um discurso “de responsabilização”, de explicação de que “há coisas que se tem realmente de saber, como a pesquisa na internet”, mas pautado “pela dignidade e pelo respeito”. “A história do Pinóquio — que foi seduzido na rua — é antiga. Há sempre predadores à espreita em todas as gerações. Cabe a todos nós, pais e profissionais, sermos instigadores de confiança, alertando para os perigos, mas sem personificarmos o ‘Velho do Restelo’ que teme em aceitar a evolução”.

A maneira como os pais olham para os perigos e benefícios do uso da internet varia consoante se trata de uma família favorecida ou desfavorecida, refere Diana Dias Carvalho. Nas famílias mais desfavorecidas, são muitas vezes as crianças que ensinam aos pais como funcionam as novas tecnologias, fazendo com que os adultos fiquem “mais distantes” e não facultem “ferramentas” aos filhos para eles se “orientarem”. Nas famílias mais favorecidas, por sua vez, são os progenitores que promovem a utilização da internet, estando por isso mais “vigilantes” e transmitindo uma série de “cuidados”.

Carlota — 18 anos e Leonor – 16 anos: “O Facebook foi a nossa primeira rede social, cada uma criou uma conta em 2012. O nosso pai não achava boa ideia que tivéssemos acesso mais cedo porque dizia que podia haver perigos e podíamos não ter bem noção do que estava a acontecer. Por exemplo, alguém fazer-se passar por uma pessoa da nossa idade, combinarmos um encontro e sermos raptadas. Nós sempre encarámos isso com muita seriedade — tivemos amigos que criaram uma conta às escondidas e nós não achávamos isso bem. Nessa altura, o nosso pai pediu-nos as passwords só para, se acontecesse alguma coisa, conseguir chegar até nós, mas nunca usou. Foi mais por uma questão de segurança e nós compreendemos. Nunca percebi muito bem porquê, mas lembro-me que os pais nos pediam para estarmos sentadas num sítio específico — à mesa por exemplo — para quando passassem pudessem dar uma vista de olhos e ver o que estávamos a fazer.”

André — 16 anos: “Tenho Facebook há sete anos e acho que nem disse nada ao meus pais quando criei a conta. Eu sei que eles ficam preocupados, mas nunca foram de me controlar. Eles sabem que eu sei tomar conta de mim. É como sair à noite: uma vez tive de levar um amigo a casa porque ele não estava muito bem. O meu pai ficou preocupado e eu disse-lhe: ”Pai, no dia em que eu chegar a casa assim, proíbe-me de sair à noite. Pode ser?”

Duarte — 16 anos: “Quando criei o meu Facebook tinha 12 anos. Acho que era a idade mínima para se criar uma conta e os meus pais não queriam que tivesse antes. Assim que tive Facebook, eles foram os meus primeiros amigos e tinham a minha password, mas acho que nunca a utilizaram. O meu pai sempre me avisou para ter cuidado com quem adicionava — dizia-me para ter a certeza de quem eram e se não tivesse, para não adicionar –, mas sempre teve muita confiança em mim. A minha mãe sempre foi mais insegura em relação a isso, não queria que me acontecesse nada.”

Leonor M. — 15 anos: “Os meus pais sempre me direcionaram para o que achavam que eu podia ou não fazer, mas nunca viram o meu Facebook. A verdade é que eu também sempre fui muito consciente. Eles não tinham a minha password, mas sabiam que se quisessem ver eu deixava sem qualquer problema. Acho que foi essa confiança que também nunca criou problemas”.

Relação com pais e irmãos

Será que estamos a falar de uma geração mais próxima dos pais? Madalena Lupi acha que sim, defendendo que o fosso geracional entre estes jovens e os seus pais é mais pequeno quando comparado com gerações anteriores, muito graças a valores que ultrapassam as fronteiras geracionais. “Os jovens sentem-se confortáveis com a geração anterior porque os valores são os mesmos. Temos pais e filhos a ouvirem as mesmas músicas e a irem aos mesmos concertos”.

Patrícia Câmara afirma que há efetivamente uma relação mais “aberta” e “flexível” entre pais e filhos, mas sublinha que existe um fosso geracional, especialmente do ponto de vista da tecnologia, o que leva depois a uma tentativa de maior controlo da vida dos filhos — “como se os miúdos soubessem mais do que os pais e os pais têm de espreitar pelo buraco da fechadura”.

Esta distância entre pais e filhos, acrescenta ainda a psicóloga, não é necessariamente negativa. Pelo contrário, serve precisamente para apoiar estas crianças ao longo do crescimento. “Crescer sem ter a sensação que há alguém que está lá pode ser a experiência mais desamparante possível. A relação entre pais e filhos deve poder jogar-se numa dinâmica de afastamentos e aproximações, de encontros e desencontros, amparados pela certeza de que sempre que faz frio se pode voltar ao ninho”.

Carlota — 18 anos: “Ter colegas com os pais separados era uma coisa comum — eu própria tenho pais separados. Lembro-me que quando estava no primeiro ano tinha bastantes colegas que já tinham os pais separados. Conheço muitas pessoas que não se dão bem com os pais ou têm relações más com eles. Todos os dias tenho colegas a queixarem-se que discutiram com a mãe porque ela não lhes deixa fazer qualquer coisa, ou porque falou-lhe mal, etc. Eu tenho uma relação muito próxima com os meus pais e, de vez em quando, até ouvimos as mesmas músicas. Às vezes o meu pai põe a rádio na M80 e se passa uma música antiga que eu começo a cantar, ele até pergunta: ”Mas tu conheces isto?’. A minha irmã e eu damo-nos relativamente bem, quando não nos damos mal [risos], mas até nos damos muito bem. Temos algumas discussões e partilhar não é coisa da Nonô. Ela gosta muito de usar a minha roupa, mas normalmente eu não posso usar a dela. Os nossos gostos são relativamente parecidos, apesar de haver muita coisa que eu gosto e ela não, e vice-versa, mas conhecemo-nos muito bem.”

Leonor — 16 anos: “Tenho uma relação próxima com os meus pais e com a minha irmã — roupa é coisa que não partilho [risos] –, mas tenho colegas com más relações com os pais, ou porque se divorciaram, ou porque nunca se deram bem. Sempre tive colegas com pais divorciados, mas de há uns tempos para cá parece que há mais. Há outros que são muito cúmplices, mas tem um bocadinho a ver com os pais. Há pais que, pelo trabalho, ou porque não têm paciência, estão mais ausentes na vida dos filhos e isso ressente-se na relação entre eles.”

André — 16 anos: “Não partilho muitos gostos com os meus pais. Não gostamos das mesmas séries nem das mesmas músicas. Quando uso a aparelhagem do meu pai, para pôr a minha música, ele costuma dizer: ‘Quando é que pões música a sério?’ [risos]. Às vezes sento-me com a minha mãe a ver a telenovela. Com o meu pai, às vezes ele vai ter comigo ao quarto e conversamos sobre futebol e ficamos a ver vídeos de skate. Temos uma relação aberta e próxima. Conto-lhes o que for preciso, falamos da nossa semana e sobre o skate, mas também temos as nossas discussões — depende do humor de cada um. Tenho muitos amigos com os pais separados e eles têm imensos problemas com isso. Queixam-se que estão sempre a mudar de sítio e que não conseguem estar com os dois ao mesmo tempo. Tenho cada vez mais amigos a passarem por isso.”

Duarte — 16 anos: “Eu tenho três irmãos, um com 21 anos — é filho do meu padrasto — e dois [meios-irmãos] com seis e quatro anos, e damo-nos todos bem. Claro que temos as nossas discussões, mas gostamos muito uns dos outros e preocupamo-nos uns com os outros. Com os meus pais, tinha uma relação mais próxima quando era mais novo. Acho que a maior parte do problema é falta de comunicação. Já não conto tudo o que se passa como antigamente. Tenho amigos que também não se sentem à vontade para falar com os pais sobre determinados assuntos, mas tenho amigas que partilham tudo com os pais e são capazes de falar de todos os problemas. Mas partilho muitos gostos com os meus pais, em termos de músicas, filmes e séries. Lembro-me de estar no sofá a ver o CSI com a minha mãe e tenho memórias de estar no carro com eles a ouvir música — o meu pai gosta de ouvir Blur e Beach Party e eu gosto muito do gosto musical dele. Antigamente se calhar era mais fácil os meus pais falarem com os pais deles sobre certas coisas, porque não tinham a quem recorrer sem ser a eles. Hoje em dia não só temos a internet, como temos outros adultos com quem falar, como professores, e falamos com os amigos.”

Leonor M — 15 anos: “Eu tenho uma relação muito próxima com os meus pais. Até tenho atividades que faço só com o meu pai, ou só com a minha mãe, ou com os dois, e se fizer com algum amigo, é muito estranho. Por exemplo, adoro ver séries com a minha mãe – agora estamos a ver o House. Com o meu pai costumo ouvir música. Gostamos muito de ouvir a Rádio Cascais porque dá muita música antiga, do tempo do meu pai, e acabamos por estar no carro a ouvir e a cantar. Acho que a minha geração tem uma relação mais aberta com os pais, falamos de todos os assuntos. Tenho ainda duas irmãs, uma com 28 anos e outra com 20. Já não estou tanto tempo com minha irmã mais velha porque ela agora está a trabalhar, mas sempre me dei bem com ela. Acabo por ter uma relação mais próxima com a minha irmã do meio porque divido o quarto com ela. Com ela falo muito do nosso dia a dia, mas se tiver algum problema, vou falar com a minha irmã mais velha, exatamente por ela ser mais velha.”

O convívio com os avós

Uma vez que se trata de uma geração que nasceu no seio de uma população cada vez mais envelhecida, e numa altura em que se vive cada vez até mais tarde, muitos destes adolescentes cresceram na companhia dos avós. Uma convivência que os marcou e continua a fazer parte dos seus rituais. Será provavelmente das últimas gerações a ter este privilégio, uma vez que se tem filhos cada vez mais tarde e, consequentemente, é-se avô numa idade mais avançada.

Carlota — 18 anos: “Tenho uma relação muito próxima com os meus avós [maternos] — não cheguei a conhecer os meus avós paternos. Falamos imenso com eles, nem que seja uma vez por semana. Nem sempre somos nós a ligar, sei que devíamos ligar mais. Eles estão em Lagos e sempre que estamos juntos parece que não passou tempo nenhum. Lembro-me de ser pequena, de a minha avó cortar uma manga, dar-me o caroço e eu comê-lo no degrau da cozinha.”

Leonor — 16 anos: “Tenho uma relação muito próxima com os meus avós, desde sempre. Eles foram para Lagos quando tinha cinco ou seis anos e ainda me lembro dos almoços de família que se faziam todos os fins de semana quando eles ainda moravam cá em cima.”

André — 16 anos: “Tenho dois avós da parte da minha mãe e uma avó da parte do meu pai — costumo estar com ela quando vou ao emprego do meu pai porque ela mora ali perto. Com os outros avós temos jantares de família, em que também vêm os meus tios — às vezes não dão jeito se eu tiver uma saída [com os amigos]. Costumo ir mais cedo para casa deles para ajudar a fazer o jantar e para conversar. Depois de comer, eu, o meu avô, os meus tios e o meu pai costumamos ficar a jogar às cartas ou a conversar.”

Duarte — 16 anos: “Eu dou-me extremamente bem tanto com os meus avós paternos como maternos. Todas as semanas estou com os quatro, costumo ajudá-los no que for preciso. Do lado materno, precisam mais de ajuda com as compras, para fazer recados e limpezas. A minha avó canta num coro e há umas semanas fui assistir, com o meu avô, a um espetáculo que eles deram no Olga Cadaval. Do lado paterno são mais independentes, mas faço-lhes companhia. Lembro-me de, quando era mais novo, ir ao zoo com eles e com o meu primo.“

Leonor M — 15 anos: “Eu sempre convivi muito com os meus avós maternos. Durante muito tempo eu saía da escola e ia para casa deles porque a minha avó tinha sido professora e ajudava com os trabalhos de casa. Com os avós paternos também tinha uma relação próxima, mas não os via todos os dias como os outros avós. Às vezes ligava-lhes a dizer que ia lanchar ou jantar a casa deles. Acho que a relação que eu tenho com os meus pais é diferente da que eles tinham com os pais deles na minha idade. Hoje em dia há uma maior abertura para falar com os nossos pais do que antigamente.”

Onde pára o amor?

A vontade de ter alguém com quem partilhar a intimidade continua a estar presente nesta geração, à semelhança das anteriores. Seja através de relacionamentos longos ou apenas fugazes, a base é sempre a mesma, como explica Patrícia Câmara: “Ter alguém que acompanhe as várias etapas do crescimento”, “que ajude na descoberta do corpo”, tendo como “expectativa” que o amor vem “compensar as fragilidades”.

Mas até aqui as redes sociais têm a sua influência. Não é fácil para estes jovens distinguir aquilo que pertence à esfera pública e o que deve ser mantido exclusivamente na intimidade. “É difícil com a maturidade própria destas idades gerir aquilo que é suposto ser público e o que é suposto ser íntimo. A intimidade acaba por ficar à mercê do julgamento de outros”.

Carlota — 18 anos: “Eu nunca tive um namorado nem uma grande paixão, mas vejo pelas minhas colegas e há muitas que estão em relações longas. Tenho uma amiga que está com o mesmo namorado há cerca de seis anos, mas depois também tenho outras que estão com alguém no máximo durante seis meses. Talvez por estarmos no 12.º ano acho que as pessoas da minha idade dão mais valor à escola e a terem emprego do que a divertirem-se. Ainda hoje tinha uma colega a queixar-se que não via o namorado há um mês por causa de trabalhos, etc.”.

Leonor — 16 anos: “Acho que não tem muito a ver com a geração em si, mas sim com a personalidade. Varia de pessoa para pessoa. Tenho amigos que não namoram e outros que sim; uns com relações mais longas e outros mais curtas. Talvez os mais frequentes sejam os namoros passageiros, de dois a três meses, se calhar porque se fartam uns dos outros”.

André — 16 anos: “São normalmente ‘namoricos’, não costumam ser relacionamentos muito longos — no geral as pessoas enjoam ao fim de três ou quatro meses. Nem sei bem explicar porquê, por uma pequena discussão acabam logo tudo .”

Duarte — 16 anos: “Hoje em dia, as relações são cada vez mais curtas — duram um mês ou poucos meses. É mais complicado manter uma relação, mas não sei bem porquê. Parece que é um pouco mais complicado as pessoas exprimirem-se e com isso perde-se a intimidade. Com as redes sociais também não é fácil porque já não há a privacidade que havia antes, é tudo público. As pessoas expõem-se mais e é difícil manter um relacionamento entre poucas pessoas — é uma notícia que circula facilmente. Com isso, há um receio de assumir as relações. Apesar de serem raros os relacionamentos longos, acho que os adolescentes valorizam as relações não só amorosas, mas também de amizade.”

Leonor M — 15 anos: “Eu conheço muitas pessoas da minha idade que têm namorado. Não são relacionamentos nem muito longos, nem muito curtos — de três a quatro meses –, mas acho que isso tem a ver com a nossa idade. Estamos sempre a querer coisas diferentes a cada momento e mudamos de opinião muito facilmente.”

Tolerância

Madalena Lupi não tem dúvidas de que estamos perante uma geração mais tolerante que as anteriores: “Para eles, a diferença é uma coisa natural e lutam por preservar essa diferença”. Uma tolerância que advém de um maior conhecimento da diversidade do mundo e das pessoas. “Eu não vejo uma geração fechada, pelo contrário. Acho que eles têm uma abertura e falam sobre determinados assuntos, como a sexualidade, a homossexualidade, de uma maneira que era impensável há 15 anos”, refere Patrícia Câmara.

Carlota — 18 anos: “Como ando numa escola de artes, em Lisboa, há uma maior diversidade de pessoas e há uma maior tolerância em relação ao que é diferente. Não sei como será noutros sítios.”

Leonor — 16 anos: “Não acho que haja uma grande tolerância. Sempre que há alguém que se veste de maneira diferente, as pessoas olham de lado.”

André — 16 anos: “Não acho que sejamos uma geração mais tolerante. Conheço muita gente que se vir um homossexual goza ou afasta-se. Para mim é indiferente, conheço um rapaz gay, ele é fixe e faz parte do nosso grupo. Ele não admite, mas nós também não gozamos com ele. Se ele for gay, nós apoiamos. Antigamente havia mais [preconceito] porque as pessoas tinham medo de expressarem os seus sentimentos. Hoje em dia, sinto que há cada vez mais pessoas a assumirem-se e as pessoas vão-se habituando. Mas ainda vai faltar algum tempo até se ser tolerante para com toda a gente.”

Duarte — 16 anos: “Com o passar dos anos estamos a tornar-nos mais tolerantes com a diversidade. Eu dou-me com pessoas tolerantes relativamente a questões como a homossexualidade e o racismo, mas também já conheci pessoas que não suportam homossexuais e que são bastante racistas. Acho que tem a ver com a família: se os pais forem racistas então os filhos também são um bocadinho. A homossexualidade não tanto, acho que é uma coisa mais individual.”

Leonor M. — 15 anos: “Acho que somos uma geração tolerante, mas estava à espera que fôssemos mais. Estamos no século XXI, cada vez somos mais diferentes e estava à espera de uma outra atitude. E com a internet podemos saber e falar de tanta coisa, e as pessoas acabam por não saber. Eu sou uma pessoa que gosta muito de falar sobre certos temas e saber a opinião dos outros. No grupo de jovens semi-católico onde ando juntamo-nos de quinze em quinze dias, fazemos atividades e falamos sobre questões como o racismo, a homossexualidade e assuntos do dia a dia, mas muitas vezes as pessoas isolam-se e nem sabem do que se está a passar. Há uma certa vergonha em falar de algumas questões como a homossexualidade. Há uma brincadeira que os meus amigos costumavam fazer que é dizer coisas como ‘mas que atitude gay’ ou ‘és mesmo gay’. Eu detesto isso porque, para mim, ser gay não é um insulto. Acho que não o fazem por maldade, é mais porque não pensam no que estão a dizer.”

Igualdade de género: será desta?

A igualdade de género tem sido um tema extremamente debatido e chegou aos ouvidos destes jovens. É por isso uma questão à qual estão mais atentos. “Está a fazer este movimento no sentido em que mulheres e homens o percorram de uma forma mais idêntica”, defende Patrícia Câmara.

Carlota — 18 nos: “Na escola é um bocadinho ao contrário do que as pessoas pensam. Os rapazes são pior tratados porque assume-se que eles são os que se portam pior. Na minha aula de Geometria Descritiva, houve um colega que foi expulso da aula por ter falado uma vez, enquanto uma outra colega que estava sempre a incomodar não foi. Também acontece o contrário. Ou seja, as raparigas não poderem fazer algumas coisas que os rapazes podem. No nono ano, por exemplo, tive um professor de educação física que punha os rapazes a jogarem à bola, uns contra os outros, e as raparigas só ficavam a rematar à baliza quando algumas delas até jogavam melhor que alguns rapazes — mas esse professor era um bocado machista.”

Leonor — 16 anos: “Ultimamente fala-se muito mais nesta questão, mas apesar do esforço, ainda há muito esta desigualdade. Pessoas que ainda dizem que as raparigas não se devem sentar de determinada maneira e não devem dizer certas coisas. Ainda assim, é algo que tem vindo a melhorar.”

André — 16 anos: “Não noto uma grande diferença de tratamento entre rapazes e raparigas. Há muitas raparigas que jogam futebol e outras que andam de skate. Nós tratamos toda a gente igual, mas quando se aleijam, parece que nos preocupamos mais com as raparigas. Não é por mal, é só uma questão de cuidado.”

Duarte — 16 anos: “As pessoas que me rodeiam consideram as raparigas iguais aos rapazes. Não notam diferença de tratamento na escola, por exemplo — acho que os professores têm a mesma atenção e o mesmo cuidados com todos –, mas ainda se encontram pessoas que acham que as mulheres são ‘inferiores’. Não é uma coisa que se oiça muito, mas quando alguém está mais irritado ou numa situação complicada, ainda se veem pessoas a recorrerem a esta diferença.”

Leonor M. — 15 anos: “Hoje em dia estamos mais relembrados desta questão e pensamos mais nisso. Já aconteceu, durante uma aula, um professor dizer que aquilo que estou a fazer não é trabalho para uma mulher e para pedir ajuda a um colega. Tenho também um professor que acha que trabalhar num bar não é trabalho para uma mulher. Obviamente que não gosto de ouvir, mas como são professores não posso ter grande reação. São pessoas mais velhas, acho que na minha geração já não se nota tanto.”

Terrorismo

A palavra terrorismo ganhou toda uma outra dimensão após o 11 de setembro de 2001. Nessa altura, os jovens da Geração Z ainda não eram nascidos, ou eram demasiado novos e não se lembram do que era o mundo antes da queda das Torres Gémeas, moldando por isso a maneira como olham para os ataques terroristas.

“Eles vivem num mundo em que as coisas estão em constante ameaça terrorista. Um jovem desta geração que veja uma mochila abandonada no metro, o primeiro pensamento que tem é: ‘será que alguém deixou aqui uma bomba?’, enquanto uma pessoa com a mesma idade há uns anos pensaria: ‘olha, alguém esqueceu-se da mochila’.”, explica Madalena Lupi.

Já Patrícia Câmara não acredita que estes jovens estejam assustados com estes ataques, especialmente por acharem que Portugal é um país seguro.

Carlota — 18 anos: “Não gosto muito de pensar nessa questão. Se pensarmos todos os dias nisso [nos ataques terroristas], vamos estar a criar medos que até podem ser verdade, mas que são desnecessários. Não podemos viver a vida com medo.”

Leonor — 16 anos: “Eu não ligo muito [à questão do terrorismo], talvez porque vivo em Portugal. Se calhar, se vivesse noutro país em que os atentados acontecessem com mais frequência não pensaria assim, mas não estaria tão preocupada quanto as pessoas que sempre viveram naquele país. E não, se vir uma mochila abandonada, não penso logo que pode ser uma bomba.”

André — 16 anos: “O terrorismo não me assusta, antes pelo contrário. Às vezes vejo onde aconteceram os atentados porque já sei que depois as viagens para lá vão ficar mais baratas. São também países que depois acabam por ter mais segurança. Por um lado é mais chato — tens de ser revistado e eles têm muito mais cuidado –, mas por outro não volta a acontecer um atentado tão cedo graças a essa segurança.”

Duarte — 16 anos: “Ainda me lembro do que era viver sem terrorismo. Lembro-me que era mais calmo quando queríamos sair do país. A questão do terrorismo é uma coisa de que falamos entre amigos. Se acontecesse alguma coisa em Portugal, não sei como as pessoas iriam reagir — talvez não estejamos preparados. A notícia do primeiro atentado em Paris chocou-me. Ficámos [os meus amigos e eu] todos um bocado em pânico, sem saber o que dizer e as redes sociais foram invadidas com montes de coisas.”

Leonor M. — 15 anos: “O terrorismo é uma coisa com que vivemos todos os dias. As notícias são só sobre isso, sobre a crise e sobre miséria. Não acho que sejamos uma geração mais insegura, acho exatamente o oposto. Somos muito mais calmos neste tipo de coisas, mas isso tem um lado mau: não somos responsáveis.”

Crescer com a crise

Para além do terrorismo, a crise financeira foi outro dos fenómenos que marcou o crescimento destes jovens. A grande maioria não se lembra do que é viver sem crise.”Eles têm muita noção do que foi a crise e têm consciência de que ela pode comprometer ou condicionar o seu futuro”, defende Diana Dias Carvalho.

Carlota — 18 anos: “Como vivemos quase toda a vida em crise, não temos bem noção do que é viver sem ela, então acabamos por achar isto tudo normal. Acho que a nossa geração ficou marcada por esta crise e acabou por fazer com que estejamos mais atentos aos gastos, mas não acho que sejamos uma geração poupada. Mesmo que a crise passasse iríamos ter cuidado e atenção para não gastar muito dinheiro — por exemplo, iríamos continuar a estar atentos aos produtos mais baratos ou em promoções.”

Leonor — 16 anos: “Não me lembro de viver sem crise. Há uns tempos tinha a perceção de que as pessoas estavam preocupadas em poupar e agora nem tanto. Cá em casa tentamos poupar, mas não é nada de preocupante. Tentamos não deixar as luzes todas acesas, não gastar água desnecessariamente e, quando vamos ao supermercado, estamos mais atentos aos produtos mais baratos.”

André — 16 anos: “Toda a gente fala na crise. Os meus amigos e eu tentamos sempre ir jantar ao mais barato possível, nem que seja se eu não tiver muito dinheiro, os meus amigos vêm todos jantar a minha casa e depois pagam-me a saída. Em casa senti algumas diferenças, mas nunca me faltou nada. O meu pai sempre que vai ao supermercado leva vales do Mini Preço ou do Pingo Doce, vê os descontos online, vai mais vezes às compras quando há descontos — noto essa preocupação. Normalmente mudo de skate de mês a mês, dependendo do esforço que faça, mas houve uma altura em que tive de me aguentar com o que tinha.”

Duarte — 16 anos: “Lembro-me que antes da crise as notícias eram mais calmas. Havia menos stress em termos das escolhas que fazemos, que podemos ou não fazer. Em casa, a maior diferença que notei foi nos gastos — sabemos quanto custa um litro de leite no Continente, no Lidl, no Pingo Doce e fazemos comparações para ver o que é mais barato. Antes estávamos mais à vontade e agora há mais avisos. Por exemplo, costumava deixar a televisão ligada para companhia, mesmo que não estivesse a ver nada. Agora já considero isso um desperdício. Com o passar do tempo consegui perceber que as coisas já não são o que eram e consegui habituar-me a isso. Eu até me considero poupado, mas tenho gastos que posso evitar. Não acho que a pessoas minha idade sejam muito poupadas. Se recebem dinheiro e têm algo em mente, gastam logo e não esperam para que o preço fique melhor, por exemplo.”

Leonor M. — 15 anos: “Acho que não me lembro de viver sem crise. Os telejornais passam muita coisa sobre a crise e coisas políticas e, ainda que sejam assuntos importantes, acho que se devia falar mais sobre cultura e sobre o país em si. As pessoas já vivem em stress e depois chegam a casa e na televisão só se fala nisso. Em minha casa não falamos tanto em poupança, mas o meu pai tenta explicar-me o que está a acontecer para eu ter noção do que se passa à minha volta. Eu sempre fui muito de juntar dinheiro para comprar coisas que são importantes para mim: a minha bateria, a minha máquina fotográfica, a minha primeira Nintendo.”

Madalena Lupi também sublinha o peso da crise nesta geração. “Provavelmente tiveram pais que perderam emprego, houve estilos de vida que mudaram. Eles já perceberam que nada é seguro, que as coisas podem acabar de um momento para o outro e portanto já não são tão idealistas”. Ao serem menos “idealistas” e mais “fazedores”, continua a investigadora, é também uma geração que pensa que “pode mudar o mundo no pequeno espaço que é seu e no grande espaço que é a internet”.

Futuro profissional….

Patrícia Câmara considera que se trata de uma geração que procura “alternativas” ao dito emprego clássico — as startup e a”recuperação” dos cursos profissionais são exemplo disso. “Procuram coisas mais centradas a partir de si próprios, na construção de coisas para o mundo, do que propriamente na integração de grandes instituições”.

A crise também fez com que se tornassem “menos obstinados” com as carreiras e levou-os a questionar os “padrões de sucesso”. “Não me parecem miúdos tão centrados no sucesso, até porque a maior parte sente que as carreiras não existem”, acrescenta.

E será que, à semelhança das gerações anteriores, estão de olhos postos lá fora em novas possibilidades de emprego? Patrícia Câmara acha que não. “Acho que esta ideia de ir para fora está a ficar mais pequenina. Não só pela questão do medo — dos atentados terroristas, do Brexit –, mas também pela vontade de reabilitar o próprio país. Os momentos de grande crise também obrigam a um olhar para dentro social e psicologicamente”.

Esta insegurança relativamente ao futuro faz com que alguns jovens optem por estar mais focados no aqui e agora. “Acho que esta indefinição do futuro é a grande diferença para esta geração. Além de que o presente é tão espesso que eu não acho que eles estejam propriamente a pensar no futuro”, defende Patrícia Câmara.

Carlota — 18 anos: “Eu costumo pensar mais no presente do que no futuro — penso a cinco anos no máximo –, mas tenho imensas colegas que estão preocupadas em melhorar as notas desde o nono ano para conseguirem entrar na faculdade. Acho que se devia pensar mais no agora. Este ano vou acabar o 12.º ano e, para o ano, estou a pensar fazer um Gap Year e ir para Londres aprender inglês para depois ir para a Tailândia dar aulas. Queria também passar pela Austrália para visitar uns primos que estão lá a viver e só depois voltar a Portugal. Gostava de ir para a faculdade quando voltasse, mas não sei para que curso. Tento não pensar muito nisso [de faculdade e emprego]. As oportunidades fazem-se. Temos é de estar atentas a novas oportunidades, mesmo que não seja na nossa área. Ou seja, aceitar um trabalho mesmo que não seja na nossa área e mais tarde arranjar forma de chegar aos nossos sonhos.”

Leonor — 16 anos: “Agora estou no 10.º ano em humanidades. Eu até teria ido para ciências, mas tinha físico-química e matemática e eu sabia que não iria resultar. A verdade é que nunca tive aquela coisa de saber desde pequena o que queria ser. Estou a pensar em ir para Direito — o meu pai até disse que talvez conseguiria arranjar-me um estágio –, mas ainda não sei bem. Por enquanto é só uma ideia, não sei se é mesmo isso que quero seguir. Sei que gostava de fazer Erasmus quando estivesse na faculdade e talvez até ir trabalhar para fora. Eu sempre tive familiares a viverem na Austrália portanto, para mim, é uma coisa normal ter pessoas longe e só as ver de vez em quando.”

André — 16 anos: “Estou no 10.º ano em humanidades. No ano passado estive em ciências, mas não gostei muito. A meio do ano deixei de me empenhar, quase não ia às aulas e ficava o tempo todo a andar de skate porque já sabia que ia mudar de área. Planos para o futuro não tenho nenhuns. Eu gostava de seguir skate, mas não sei. Depende das oportunidades que forem surgindo, dos patrocínios, dos campeonatos, mas o tempo irá proporcionar isso tudo. Se der para seguir skate, muito bem. Se der para seguir outra coisa, segue-se outra coisa — tem é de ser algo relacionado como fotografia ou filmagens. Para ser skater vou ter de ir para fora. Estados Unidos é o sítio em que se ganha mais nome, mais dinheiro e há mais probabilidade de ser profissional. É o meu sonho.”

Duarte — 16 anos: “Para mim, aquilo que fazemos no presente vai influenciar o nosso futuro e acho que se queremos ter um bom futuro, há que ter cuidado com o que se faz no presente. No nono ano estava um bocado indeciso entre ciências e artes. Fascina-me tudo o que tenha a ver com artes — toco trompete, adoro pintura e escultura. Só que depois achei que seria difícil escolher o que seguir no universo das artes. Outra coisa que me influenciou foi a saída [profissional], ter emprego. Então fui para ciências. Foi um escolha racional — se tivesse escolhido com o coração, teria ido para artes. Gostava de seguir Genética. É uma área que me interessa, tentar perceber como está tudo estruturado. Se conseguir ter notas, gostava de ir para uma faculdade de Genética que há nas Caldas da Rainha, mas também pondero ir estudar fora. Mais tarde, gostava de ter um bom emprego, ainda que tenha medo de não ter emprego em Portugal.”

Leonor M. — 15 anos: “Eu estou a tirar técnicas de cozinha e pastelaria na Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril. Depois estou a pensar ir para a faculdade também no Estoril. É um curso profissional, decidi entrar num curso específico logo porque não sabia que área haveria de escolher e para escolher algo que não iria gostar muito, não valia a pena. Espero um dia ter o meu restaurante, com comida não tanto tradicional, mas mais molecular. A cozinha depende muito do dia da pessoa que estiver a cozinhar, e tem muito por base a inspiração de cada um.”

… e pessoal?

Mas não se pode descartar o lado pessoal e Patrícia Câmara considera que o maior receio dos jovens continua a estar ligado a este aspeto: “Não encontrar alguém com quem partilhar a vida”. Para esta geração, a família voltou a ter um lugar central, defende a psicóloga. “Querem uma carreira sim, mas sem abdicar de existência”.

Carlota — 18 anos: “Eu não penso muito nisso [ter alguém]. Às vezes vezes falamos deste assunto, mas é uma coisa sem muita importância.”

Leonor — 16 anos: “Acho que toda a gente pensa em ter filhos e casar fica mais em segundo plano. Não acho que seja preciso um papel para se poder ter filhos ou para dar importância a uma relação. Acho que a maior parte das pessoas da minha geração pensa em ter filhos sem casar antes.”

André — 16 anos: “Gostava também de ser pai aos 20 e poucos para acompanhar durante mais tempo os meus filhos. Normalmente as pessoas pensam em acabar o 12.º ano, ter uma média fixe, escolher um curso, acabar a faculdade, ter emprego e vida estável e só depois casar e ter filhos. Eu sou completamente ao contrário: acho que é bom ter uma vida estável, mas isso demora muito tempo.”

Duarte — 16 anos: “Quando imagino o meu futuro, claro que me preocupo com o emprego, mas não estaria tão motivado em querer ter um bom emprego se não tivesse alguém ao meu lado. Gostava de assentar e ter filhos, ensinar aquilo que aprendi à minha descendência, mas nem todos pensam como eu. Tenho muitos colegas que nem pensam em ter filhos ou só pensam em ter muito mais tarde, quando tiverem uma vida mais estável. Eu gostava de ter dois filhos, para terem irmãos. Talvez um casal: um rapaz e uma rapariga.”

Leonor M. — 15 anos: “A nossa geração pensa cada vez menos em casar e ter filhos — não é uma coisa de que falamos muito entre amigos, é mais de passagem. Pensamos em fazer tudo muito mais tarde porque achamos que quando tivermos 28 anos, por exemplo, não vamos ter um emprego estável. Eu penso muito nos filhos que terei: como vou conseguir conciliar o tempo que eles vão estar de férias e eu não estou; as horas a que vou chegar a casa e eles já vão estar a dormir. Acho que vou ter de ter alguém ao meu lado que vai ter de ser muito tolerante comigo.”

 

vídeos e fotografias no link:

http://observador.pt/especiais/geracao-z-os-jovens-que-nasceram-na-era-da-internet-da-crise-e-do-terrorismo/

Baleia-Azul. O jogo na internet que está a levar jovens no Brasil a suicidar-se

Maio 7, 2017 às 1:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Notícia do http://www.dn.pt/ de 24 de abril de 2017.

Através de grupos no facebook, jovens são desafiados pelo “curador” a cumprir tarefas
| Pedro Correia / Global Imagens

Desafio do mundo virtual tem 50 níveis e incentiva ao suicídio e à automutilação. Já originou vítimas em oito estados do país. Polícia investiga origem do jogo que surgiu primeiro numa rede social russa

O casal de namorados Luís Kafru-ne e Kaena Maciel, de 19 e 18 anos respetivamente, hospedou-se no Maksoud Plaza, hotel de luxo na região da Avenida Paulista, em São Paulo. Horas depois, Luís matou Kaena com um tiro na cabeça e suicidou-se. As autoridades suspeitam que este crime é mais um episódio do macabro Baleia-Azul, jogo na internet que já levou ao suicídio ou à automutilação adolescentes em oito estados do Brasil.

“A culpa é da baleia”, escreveu no Facebook um rapaz de 17 anos de Bauru, cidade do interior do estado de São Paulo, minutos antes de se tentar atirar de um viaduto. Casos semelhantes aconteceram nos estados do Paraná, Minas Gerais, Mato Grosso, Pernambuco, Rio de Janeiro, Santa Catarina e Paraíba.

A origem do Baleia-Azul, um jogo com 50 níveis de dificuldade que tem o suicídio como etapa final, é controversa. As primeiras informações datam de 2015 e estavam na rede social Vkontakte, o equivalente russo do Facebook. Os participantes são selecionados de madrugada por um administrador – chamado de “curador” – que vai lançando desafios, cada vez mais difíceis e perigosos. Além do Brasil, há casos relacionados com o jogo, cujo nome deriva do mamífero dos oceanos Atlântico, Índico e Pacífico que procura praias para morrer por vontade, na Rússia, Ucrânia, Roménia, Espanha e França.

Além dos casos citados, também em Jaú (estado de São Paulo), um rapaz de 13 anos tentou matar-se cortando os braços com uma lâmina de barbear, após ser excluído da família das redes sociais por suposta determinação do curador. O site G1 teve acesso a um trecho do diálogo em que o curador começa por perguntar ao adolescente se quer jogar e se está disposto a ir até ao fim, para depois determinar a primeira de 50 tarefas que consistia em listar aquilo que o fazia sentir triste.

Uma jovem de 25 anos, do Paraná, estava preocupada com o comportamento da irmã, de 11, e resolveu investigar o computador dela. Contou ao O Estado de S. Paulo que não conseguiu chegar ao fim das mensagens enviadas pelo curador: “Incitam-nos a fazer o mal às pessoas que amamos, é agressivo, intenso, perigoso.” Ainda no Paraná, oito adolescentes dos 13 aos 17 anos deram entrada em hospitais da capital Curitiba após tentativas de suicídio por medicamentos e automutilação. Um deles admitiu à polícia jogar Baleia-Azul. “Vamos procurar os responsáveis por incitação ao suicídio”, disse o secretário estadual de segurança. A pena prevista pelo Código Penal para esse tipo de crime é de dois a seis anos de prisão.

A Polícia Militar da Paraíba identificou 20 participantes no Baleia–Azul que se tentaram mutilar ou matar na capital estadual João Pessoa e noutras cidades. Há dois casos de aliciamento ao jogo no Rio de Janeiro e nove de mutilações juvenis em Santa Catarina. No Mato Grosso, a polícia suspeita que o suicídio de Maria Olívia, de 16 anos, se deveu ao Baleia-Azul, identificando na sequência uma comunidade de 350 participantes do jogo. Em Minas Gerais, registaram-se mais dois casos de suicídio nas últimas semanas. Maria de Fátima, mãe de Gabriel (19 anos), um dos jovens que morreu, disse que ele “não aguentou a pressão. Dizia que eles têm os dados das famílias de quem tenta sair e fazem ameaças. Quem for mãe ou pai dê umas palmadas, mas olhe o telemóvel dos seus filhos, não quero que mais nenhuma mãe passe pelo que estou passando”.

Em Pernambuco, a polícia aposta na prevenção, com vídeos na internet e visitas a escolas. A Escola de Comércio Álvares Penteado (São Paulo), lançou o Coelho Branco, que consiste em 15 tarefas “do bem”, e a psicóloga Tamara Camargo, com dois publicitários, lançou o site Baleia Rosa, onde adolescentes podem desabafar. “Cerca de 20% são utilizadores de Baleia-Azul e outros sites”.

 

 

 

 

Fatiga informativa: la nueva enfermedad de la era digital

Maio 3, 2017 às 12:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Texto do site http://ethic.es/

Por Luis Meyer

La primera voz de alarma se produjo en 1996, justo antes de que Facebook, Google, Twitter, Instagram, Snapchat, Apple, Android o los diarios en papel se sumaran al atiborramiento informativo multidireccional de la web. El psicólogo Davis Lewis recibió el encargo de la agencia Reuters para un informe de título clarividente: Dying for information? (¿morir de información?). Así, realizó numerosos análisis sobre más de mil directivos de lugares tan dispares como Estados Unidos, Hong Kong o Reino Unido. En todos ellos percibió el mismo patrón de fatiga informativa. El filósofo coreano afincado en Alemania, Byung-Chul Han, recoge y concreta estas conclusiones en su ensayo En el enjambre: «Parálisis de la capacidad analítica, perturbación de la atención, inquietud general e incapacidad de asumir responsabilidades».

En aquella época, esto es, en los noventa, las redes sociales aún estaban germinando, eran un exotismo por definir, igual que internet en general. Se reducían a unos cuantos servicios de chat en los que se creaban foros, de una forma muy rudimentaria y para una minoría. El año pasado, Facebook alcanzó los 1.860 millones de usuarios, casi un 20% más que en 2015. Más de 1.200 millones son activos a diario, esto es: envían y reciben información, señalan sus preferencias sobre infinidad de temas con solo un clic de ratón por medio de la herramienta ‘like’, comparten y expanden contenidos en todos los formatos imaginables, textos, audios, fotografías y vídeos. A día de hoy, en torno a una cuarta parte de la población mundial usa Facebook activamente. Según un estudio de la publicación The Verge sobre ciencia e innovación, en 2030 el porcentaje podría superar el 60% de los habitantes del planeta. Hay que tener en cuenta que, para entonces, habremos subido de los 7.000 millones actuales a casi 9.000.

Uno de los últimos estudios realizados en España sobre el uso del correo electrónico data de 2009. Lo llevó a cabo la consultora Contactlab, y desveló que al día, en España, se recibían 350 millones de e-mails. Si tenemos en cuenta que ese año, en nuestro país, se contabilizaban algo más de 15 millones usuarios habituales de la web, esto significaba en torno a 20 correos cada 24 horas por persona. Casi uno por hora. El periódico más leído de España, El País, asiste en los últimos años a un desangramiento de los lectores de su edición impresa. Pero al mismo tiempo, quienes acceden a su web, crecen en número cada año: más de un millón de usuarios únicos diarios. Este trasvase en los periódicos por parte de quienes renuncian a la información pausada y reflexiva a la que invita el papel y saltan a la información actualizada a cada minuto de sus páginas web, es similar en todas las cabeceras.

Cuando Lewis dio la voz de alarma en 1996 sobre el síndrome de la fatiga informativa, que definió con las siglas IFS y catalogó de enfermedad psíquica, no imaginaba que la realidad iba a ser tan apabullante. El filósofo Byung-Chul Han trata en su obra En el enjambre la desideologización y tecnificación de las estructuras sociales, en las que los políticos se separan de la ciudadanía para convertirse en eso ajeno que llamamos ‘establishment’ y los ciudadanos se van convirtiendo en meros consumidores. Y señala como principal patología la sobrecomunicación. También alerta sobre la fatiga informativa: «El principal síntoma es la parálisis de la capacidad analítica. Que es lo que precisamente constituye el pensamiento. El exceso de información atrofia el pensamiento, la capacidad de distinguir lo esencial de lo no esencial». Y va más allá: «El cansancio de la información incluye también síntomas característicos de la depresión que, ante todo, una enfermedad narcisista. El sujeto se ahoga en su propio yo, agotado y fatigado de sí mismo. Nuestra sociedad se hace cada vez más narcisista. Redes sociales como Twitter o Facebook agudizan esta evolución, pues son medios narcisistas».

Una derivada de la fatiga informativa es otra nueva patología, definida por los psicólogos como tecnoestrés. Y se da tanto por déficit como por exceso: por un lado, quienes se ven incapaces de sumarse y aceptar los nuevos usos impuestos por la era digital; por otro, quienes son incapaces de hacerlo de una manera saludable, y se identifican en exceso con la tecnología, perdiendo la perspectiva de su propio yo. El equipo de Investigación WANT Prevenció Psicosocial de la Universitat Jaume I de Castellón ha elaborado recientemente un cuestionario para predecir sus síntomas: incluye aspectos como ansiedad y riesgos psicosociales.

Pero los riesgos, según expone Byung-Chul Han, va más allá de los efectos directos en el usuario, su relación con el entorno o su pérdida de capacidad analítica. La sobreinformación nos lleva, en su opinión, a una nueva protocolización general de la vida, y la ingente cantidad de información que dejamos a nuestro paso por la red, reunida en eso inabarcable llamado big data, lleva a un nuevo concepto de Big brother: «Cada uno observa y vigila al otro, y cada uno es observado y vigilado».

Los beneficiados reales de toda esta recopilación de información en la red no son los propios usuarios, sino las empresas y los Estados. En muchos casos, actúan como un solo ente. Un claro ejemplo es la agencia Acxiom, que posee datos relevantes de más de 300 millones de estadounidenses, esto es, casi toda la población, y los vende a las empresas que los solicitan. Tiene más información que el FBI, prueba de ello es que han recurrido muchas veces a la agencia para sus operaciones de investigación.

En su carrera por monetizar el nuevo modelo de periodismo digital, los periódicos buscan, por encima de todo, aumentar el número de lectores, su permanencia en sus páginas webs y los clics. Lo mismo puede decirse de las redes sociales o de casi cualquier aplicación gratuita de móvil. La publicidad tradicional deja de ser la vía de financiación principal y deja paso a las bases de datos, cada vez más hinchadas, con las que poder comercializar. La información, por tanto, deja de tener sentido en sí misma, y pasa a ser un mero vehículo para obtener datos del usuario. Cada vez importa menos qué se cuenta, sino cuánta aceptación (cuántos clics) tendrá lo que se cuenta.

Y mientras tanto, como opina Byung-Chul Han, el efecto pernicioso en el ciudadano de a pie es cada vez mayor: «La hipercomunicación digital destruye el silencio que necesita el alma para reflexionar y para ser ella misma. Se percibe solo ruido, sin sentido ni coherencia. Todo ello impide la formación de un contrapoder que pudiera cuestionar el orden establecido que adquiere así rasgos totalitarios»

 

 

Brasil: Polícia investiga jogo online que provoca suicídio de adolescentes

Maio 1, 2017 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do http://www.jornaleconomico.sapo.pt/ de 18 de abril de 2017.

A Polícia Civil do Rio de Janeiro está a investigar um jogo de Internet que poderá levar jovens a mutilações corporais e até ao suicídio. Conhecido como Baleia Azul, o jogo é praticado em comunidades fechadas de Facebook e Whatsapp. Os jogadores, na sua grande maioria adolescentes, cumprem 50 tarefas no âmbito deste jogo, a última das quais é o suicídio.

A delegada Fernanda Fernandes, da Delegacia de Repressão aos Crimes de Informática (DRCI), acredita que o jogo, já identificado em outros países e outros estados do Brasil, esteja sendo praticado no Rio. Ela já tem, pelo menos, quatro casos suspeitos, todos envolvendo adolescentes.

“Não parece se tratar de um boato.Temos várias comunidades que estamos rastreando sobre o jogo, algumas falando diretamente o nome Baleia Azul, outras com codinomes. O jogo existe, é real”, disse a delegada à Agência Brasil.

Fernanda ouviu, na tarde desta segunda-feira (17), o pai de uma estudante de 14 anos, de um colégio do interior do estado, que relatou a sua preocupação de que a adolescente possa estar envolvida no jogo, pois ela teria riscado a baleia, com um objeto cortante, no antebraço, no que é uma das fases do Baleia Azul.

Nesta terça-feira (18), a delegada irá, com o pai da jovem, ao seu encontro. O objetivo da investigação, segundo ela, é evitar que os jovens se suicidem, mais do que encontrar os mentores dos grupos, o que será feito no decorrer dos trabalhos. “Temos esta vítima que vamos tentar ouvir. Os indícios, as fotos e postagens no Facebook, levam-nos a crer que tem envolvimento com o jogo. Ela tem o desenho da baleia azul no antebraço, embora não tenhamos contato com ela para confirmar isso. Nós já vimos cortes no corpo dela e postagens insinuando suicídio”, disse.

Fernanda Fernandes fez uma apelo aos familiares e amigos de possíveis vítimas para procurarem as autoridades e relatarem os factos. “O apelo para os pais é que verifiquem qualquer mudança, alteração de comportamento dos jovens e qualquer comportamento depressivo, mais introspectivo. Se têm hábitos mais noturnos e de madrugada na internet. Os pais têm que ter controle do que os filhos fazem nas redes sociais. E prestar atenção se têm indícios de lesão no corpo dos filhos. Também é preciso entrar em contato com a escola. O adolescente, quando vira vítima do jogo, muda o comportamento”, disse.

Os mentores dos jogos, que surgiu na Rússia, podem ser indiciados por crimes de associação criminosa, lesão corporal, ameaça e até homicídio. Segundo relatos, os mentores ameaçam as vítimas se elas deixarem o jogo.

Fonte: Agência Brasil

 

 

 

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