O que os adolescentes consideram cool

Abril 23, 2017 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social, Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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texto do  http://blitz.sapo.pt/ de 8 de abril de 2017.

Zoran Ivanovich (Creative Commons)

Um estudo da Google indica onde se encontram as preferências dos adolescentes de hoje em dia

Todas as gerações são distintas. As preferências dos adolescentes de há meio século são, hoje, muito diferentes das preferências dos adolescentes de hoje. E assim vai variando, de década para década, de época para época. Traduzido por miúdos: o que ontem era “fixe” hoje é “uma seca”.

A Google elaborou, recentemente, um estudo que visa, precisamente, apontar onde se situam as preferências dos adolescentes de hoje em dia, a denominada Geração Z – a que nasceu em meados da década de 90, já com o uso da Internet disseminado por todo o mundo. No entanto, foram apenas considerados os jovens com idades compreendidas entre os 13 e os 17 anos.

Segundo o estudo, aquilo que é considerado “fixe” para a Geração Z é, também, uma representação dos seus valores, das expetativas que guardam para si próprios, dos seus amigos, e das marcas que mais apoiam. Neste grupo estão, por exemplo, o YouTube, a Netflix, a Nike e a própria Google.

E quais são, então as preferências musicais desta geração? Segundo o estudo, são mais variadas do que qualquer preconceito poderia ditar. Entre os artistas mais “votados” pelos inquiridos estão gigantes da pop atual, como Drake e Beyoncé, mas também bandas como os Coldplay, Fall Out Boy, ou Panic! At The Disco – e até os Beatles encontraram espaço nos corações, e ouvidos, da Geração Z.

A música ainda detém um papel importante na “fixeza”; para estes adolescentes, as celebridades mais importantes são, quase todas, músicos, destacando-se Selena Gomez, Chance the Rapper e Ariana Grande. O seu nível de popularidade mede-se, também, pelas suas ações: os mais “genuínos” e filantrópicos são considerados os “mais fixes”.

Por ter crescido rodeada de computadores e, mais importante ainda, pela Internet, não é de estranhar que esta geração mostre, também, um forte apego pela novidade tecnológica. De todos os inquiridos, 24% (14% rapazes, 10% raparigas) disseram que aquilo que é “mais fixe” são as novas tecnologias.

(Talvez) Por isso, são poucos os que afirmaram não possuir um smartphone: apenas 9,6% dos inquiridos, sendo que neste campo a Apple suplanta ligeiramente a Microsoft, com 42,3% a preferirem o Iphone aos Androids.

No que diz respeito às redes sociais, plataformas de partilha de imagens e vídeos, como o Snapchat e o Instagram, são rainhas. O Facebook ainda é utilizado, mas apenas para consumo diário – partilhar algo através desta rede já não é “fixe”.

E se, novamente, o preconceito ditar velhos adágios como “os jovens de hoje já não se interessam pela leitura”, saiba que nada se encontra mais longe da verdade: ler é uma atividade indispensável e “fixe”, lado a lado com os videojogos. Afinal de contas, estamos a falar de uma geração que não conheceu o mundo sem Internet – e que, por causa dela, se tornou na mais informada de sempre.

 

A Educação e as relações do mundo virtual

Abril 21, 2017 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do site http://uptokids.pt/ de 10 de abril de 2017.

A Educação e as relações do mundo virtual

É frequente ouvirmos o quanto as crianças de hoje são diferentes das crianças de há uma ou duas décadas atrás e como tem sido difícil adaptar relações, educações e o próprio sistema de ensino, que se mostra cada vez mais desadequado aos interesses e vontades desta nova geração. Na verdade, se educar já era por si só um grande desafio, com todas as alterações desta geração que nasce de olhos abertos e pronta para a vida, tornou-se uma tarefa especialmente delicada.

São realmente muitas as mudanças que esta geração do novo século apresenta. Embora por vezes seja difícil para as famílias compreenderem esta nova forma de se ser criança e jovem, diria que em muitas coisas mudaram para melhor. Maior consciência de si próprios, maior liberdade de ação e menos preconceitos! Que bom, que esta geração nos trouxe essa maravilhosa capacidade de aceitação da diferença, que reflete sempre uma maior possibilidade de aceitação de nós próprios. Este seria um passo gigante para a felicidade do ser-humano, se não tivesse sido acompanhada pelo desenvolvimento de um novo tipo de relacionamentos, infelizmente bem menos saudável e por uma compreensão distorcida do que realmente é liberdade.

O mundo virtual alterou por completo a forma como as pessoas se relacionam e atualmente estamos a assistir a uma espécie de “solidão acompanhada”. Os pais estão pouco em casa, as famílias alargadas são cada vez mais uma raridade, as crianças já não brincam na rua e acabam fechadas em quatro paredes à espera que alguém chegue a casa e lhes dê alguma atenção. Sem tempo, cansadas e sem paciência as famílias acabam por incentivar os ipads, as playstations e as redes sociais porque assim também têm algum sossego. Na verdade não há tempo nem disponibilidade para estar em relação.

O que são as “Relações líquidas”?

Nesta conjuntura assistimos cada vez mais ao desenvolvimento de “relações líquidas”, nas quais a confiança, a intimidade, a presença e o olho no olho, escorrem por entre os dedos das mãos e não permitem que se solidifiquem as relações.

Comprometemos o vínculo na união entre as pessoas e sem vínculo desenvolvemos relações frias, distantes, mais robotizadas e bem menos sentidas. Estamos mais permeáveis à imagem e aos “likes”, numa superficialização das relações que não pode ser reconfortante para ninguém. Vivem na ilusão de estarem acompanhados, sempre no burburinho e corre corre das redes sociais, mas na verdade sentem-se muito sozinhos.

Nesta solidão social e familiar, facilmente percebemos a razão da tristeza, abatimento, falta de energia, falta de motivação e depressão que avassala a vida de muitas crianças e jovens.

Esta semana numa consulta de acompanhamento familiar uma jovem dizia exatamente isso à sua mãe: “Não percebes porque é que eu estou sempre no telemóvel? Eu sinto-me sozinha, muito sozinha! Não compreendes a minha agressividade?! Nós nem conseguimos jantar em família a horas decentes, mas consegues ter tempo para me chatear constantemente com a arrumação do quarto e com as notas dos testes. Imagina então que eu sou como uma mesa. Quanto mais forte lhe bates mais te dói a tua própria mão… Se lhe bateres devagar a tua mão não te vai doer!

A verdade é que as redes sociais, a internet e os jogos de computador têm sido os verdadeiros refúgios desta geração, que se sente acima de tudo sozinha… As redes sociais permitem-lhes manter algum contacto com o mundo e com as pessoas, ainda que virtual, mas distorcem a noção de relacionamento interpessoal e aumentam o medo e a ansiedade das relações próximas, intimas, verdadeiras…

Como dizia Fernando Pessoa no seu poema Solidão – “sinto-me livre mas triste, vou livre para onde vou, mas onde vou nada existe”!

Não, não vamos voltar atrás no tempo, mas por favor vamos cuidar das nossas relações!

 

 

 

Rússia : Jogo na internet leva centenas de jovens ao suicídio

Abril 12, 2017 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do http://pt.euronews.com/  de 30 de março de 2017.

 

As autoridades da Rússia estão preocupadas e a investigar o jogo em linha Blue Whale (Baleia Azul).

Este é considerado um dos mais perversos e perturbadores jogos em linha e já levou ao suicídio mais de uma centena de jovens.

As autoridades russas começaram a investigar o jogo depois de duas jovens, Yulia Konstantinova, de 15 anos, e Veronika Volkova, de 16, se terem suicidado, em fevereiro, ao saltarem de um prédio de 14 andares, na cidade de Ust-Ilimsk, na Sibéria.

Segundo o jornal “The Siberian Times”, dias antes, outra jovem de 14 anos pos fim à vida ao atirar-se para a frente de veículos em movimento.

Como funciona o jogo?

O jogo tem proliferado através de vários grupos de jovens na rede social russa Vkontakte (semelhante ao Facebook).

Os jovens são levados a cumprir várias tarefas de automutilação como golpear a pele, inscrevendo palavras e símbolos nos braços, incluindo a baleia que dá nome ao jogo.

Os participantes são sujeitos a uma autêntica lavagem cerebral. Ficam sujeitos à privação de sono, são levados a visionar filmes de terror durante horas ininterruptas. Ao 50° dia, os jogadores recebem instruções para acabarem com a própria vida, ganhando assim o jogo.

Minutos antes de saltar do décimo quarto andar do prédio, Yulia Konstantinova publicou no seu perfil, na Vkontakte, a palavra “End”, postando ainda uma fotografia de uma baleia azul.

As autoridades detiveram Philip Budeikin, um jovem de 21 anos, por, alegadamente, ser o líder do grupo que, na rede social, incentiva os jovens a colocarem termo à vida.

 

 

Hiperatividade, ciência versus facebook

Abril 11, 2017 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto de Mário Cordeiro http://www.paisefilhos.pt/ publicado na a 7 de fevereiro de 2017.

Nem tudo o que mexe é hiperativo, nem todos os que sonham têm défice de atenção. Mas destruir um fármaco com “cultura de facebook” é demasiadamente leviano

Houve um aumento na prescrição de metilfenidato para o dobro, entre 2010 e 2014. Podem existir várias explicações, desde exagero de prescrições até melhor diagnóstico e medicação de crianças e jovens que necessitavam mas não o estavam a tomar. Por outro lado, o melhor conhecimento dos problemas de dispersão, falta de concentração e atenção, e de hiperatividade pode justificar o aumento. Especulação à parte, o que se sabe, sim, é que embora haja crianças medicadas inutilmente, é grande o número das que precisam e não estão medicadas e, entre as que estão, a esmagadora maioria colhe benefícios.

Recomenda-se este fármaco quando há uma perturbação da concentração e atenção que afete a vida das crianças de forma significativa, para lá do normal cansaço, má gestão dos estímulos artificiais que desviam a atenção ou da irrequietude natural das crianças e jovens, sobretudo do sexo masculino. Nem tudo o que mexe é hiperativo, nem todos os que sonham têm défice de atenção! As crianças, vivendo num mundo “entre quatro paredes”, precisam de se expandir, de se mexer. No entanto, a incapacidade de concentração num estímulo, sobretudo abstrato, desviando–se para “qualquer mosca que passe” faz com que a criança retire muito pouco das aulas, se sinta mais distante do “filme” que está a passar na sala de aula e invente outras coisas, mexendo-se, perturbe os outros e se comporte de modo hiperativo, sendo disruptivo para a aula e prejudicando gravemente o seu próprio processo de aprendizagem, ou então mergulhe na sua vida interior e se abstraia. Acresce que estar constantemente a ser admoestado e de castigo, ver as notas aquém do que sabe ser possível, ler apenas metade do cabeçalho e responder impulsivamente de modo incompleto, diminuem a autoestima, causam tristeza e geram problemas sociais e psicológicos.
Os benefícios da terapêutica, que pode ser instituída por um pediatra ou neuropediatra e que não necessita de ser baseada em testes e exames, vão ajudar o processo de aprendizagem e permitir à criança o desenvolvimento das suas capacidades.

O argumento de que “é um químico” é anedótico porque o cérebro funciona, exatamente, com mediadores químicos, e nos casos de hiperatividade e défice de atenção, dispersão e impulsividade, esse mediador está em falta. Com o crescimento o cérebro arranjará outras formas de funcionamento e não é precisa medicação para a vida toda, como alguns ignorantes dizem. Além disso, é boa prática as crianças interromperem a medicação nas férias letivas; a ideia de que se fica “preso a uma droga” é mais um dos mitos urbanos veiculados na Internet.
Quanto a contraindicações, nas redes sociais há pessoas que gostam muito de dizer que “é veneno”. Dá vontade de rir – leiam a bula do ibuprofeno ou do paracetamol, que dão aos vossos filhos e verão a “galeria de horrores”. Com o metilfenidato os efeitos colaterais são raros e, salvo exceções, resumem-se a situações transitórias e breves de baixa de apetite ou pequenas insónias.

O metilfenidato não dá “superpoderes”, apenas faz render melhor as capacidades naturais a estas crianças. Não ficarão engenheiros, pianistas ou escritores com o medicamento se não tiverem esses talentos, mas podem nunca vir a ser engenheiros, escritores ou pianistas, tendo esses talentos, por não conseguirem estudar, concentrar-se e andarem toda a escolaridade a saltitar de “mosca para mosca”, irritando os professores, enervando os pais e diminuindo a sua autoestima. E se pensássemos numa coisa chamada Ciência? Talvez valha mais do que o diz-que-diz das redes sociais…

 

 

 

A história de Mariana (ou como manter o seu filho seguro no mundo virtual)

Abril 6, 2017 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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texto da http://visao.sapo.pt/ de 26 de março de 2017.

John Holcroft/ Getty Imagens

Luísa Oliveira

O rapto de uma criança no Norte do País lembra-nos aquilo que nunca devíamos esquecer: o mundo virtual esconde perigos bem reais. Mas há formas de os evitar.

Dia 3 de março, Mariana Leirinha, 13 anos, sai de casa em Beiral do Lima (Ponte de Lima) sozinha, para ir para a escola. Mas não chega ao destino. Ao final do dia, os pais alertam a Polícia Judiciária (PJ). A menina é encontrada uma semana depois, numa casa perto de Aveiro. Lá dentro está Manuel Fernandes, 24 anos, referenciado pela prática de crimes de natureza sexual envolvendo menores. Fica em prisão preventiva pela suspeita de rapto agravado. A menina, aparentemente bem, regressa a casa. Tudo indica que Mariana tenha sido aliciada através da internet por este homem, que tinha um perfil falso no Facebook, usando a fotografia de um modelo francês. A história não é original. No ano passado foram vários os casos que chegaram a público dando conta de homens que utilizam o mesmo meio para abusarem de menores. De pouco servem as recomendações: o estudo de 2013 Teens, Social Media and Privacy, do americano Pew Research Center, diz que 71% dos adolescentes que usam o Facebook revelam o nome da sua escola ou da cidade onde vivem, 53% o e-mail, e 20% o número de telemóvel.

Rute Agulhas, 43 anos, psicóloga clínica e forense, nota que os miúdos se inscrevem nas redes sociais com o consentimento dos pais. “Os adultos não têm a noção do perigo e supervisionam pouco”, nota a profissional, que há um ano criou o jogo de tabuleiro As Aventuras do Búzio e da Coral, para ajudar a educar crianças dos 6 aos 10 anos, com perguntas validadas pela PJ. “O tema sobre o qual eles revelam mais desconhecimento é a internet.” No verão sairá uma aplicação para adolescentes, para que aprendam a lidar com situações de risco. Pode ser uma ajuda, já que, como nota Tito de Morais, 54 anos, o mentor do projeto Miúdos Seguros na Net, “na adolescência, os filhos tendem a dizer que sim aos pais e depois comportam-se de maneira a agradar ao grupo”.

Vidas seguras dentro (e fora) do ecrã

É possível estar nas redes sociais sem medos – desde que se sigam algumas regras

Medidas elementares

– Evitar a impulsividade típica das redes. É tão fácil aceitar uma amizade como rejeitá-la.

– Ser desconfiado e cético em relação às amizades que se aceitam de pessoas que não se conhece – e o critério da manada, leia-se muitos amigos em comum, não basta. Pode significar apenas que muitos, antes de nós, já cometeram o mesmo erro.

– Averiguar o perfil de quem nos pede amizade. Começa-se por ver se é recente ou não, se está identificado em fotografias de outras pessoas ou se as suas imagens foram todas descarregadas no mesmo dia.

– No caso de se desconfiar da fotografia de perfil (se são de pessoas muito bonitas e elegantes, por exemplo), pode-se descarregá-la e pesquisá-la nas imagens do Google para verificar se ela existe noutro local na internet.

– Nunca publicar fotografias pessoais com localização em tempo real, com a farda ou o cartão da escola visível, ou em poses sexy, que possam dar a ideia errada.

– Tapar a câmara do computador com um autocolante, porque ela pode ser ativada à distância e esta é a única forma segura de não sermos filmados sem consentimento.

– Não marcar encontros presenciais com amizades que se fazem nas redes sociais. Caso se opte por quebrar esta regra, ir acompanhado, avisar outras pessoas do local (que deve sempre ser público) e garantir que o telemóvel está à mão para pedir ajuda.

Medidas intermédias

– Exigir a password aos filhos e espreitar os perfis deles em caso de desconfiança.

– Falar com eles sobre os perigos e deixá-los à vontade para contarem se alguém os abordar de forma estranha nas redes sociais.

– Criar a norma de que o computador só pode ser usado num sítio por onde todos passem.

Medidas drásticas

– Instalar software de controlo parental sem que os menores saibam. Mas é algo intrusivo, que regista todos os passos dados no computador – há o risco de eles descobrirem e passarem ao modo clandestino ou a usar outro dispositivo. Tito de Morais, do projeto Miúdos Seguros na Net, só o aconselha em caso de desconfiança grave. “O melhor software é ensinar-lhes a autodefesa, ajudá-los a descobrir as suas vulnerabilidades.”

 

 

 

Sessão de lançamento do livro #GeraçãoCordão : a geração que não desliga! – 28 de março em Lisboa

Março 26, 2017 às 5:53 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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https://www.pactor.pt/pt/

 

“O meu agressor anda comigo no bolso”

Março 20, 2017 às 2:20 pm | Publicado em Vídeos | Deixe um comentário
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Texto do http://observador.pt/ de 18 de março de 2017.

Ana França

As ofensas, o gozo, os e-mails difamatórios, as fotografias tiradas no balneário. Na era da internet, o bullying é uma nódoa negra permanente. Nada se esquece e tudo se partilha.

Já não é só das nove às cinco. É todo o dia e toda a noite, e acontece dentro de um objeto que transportamos para todo o lado. “O meu agressor anda comigo no bolso”, ouviu Rosário Carmona, psicóloga que acompanha crianças e jovens vítimas de abuso, um dia, no seu gabinete. O bullying é um fenómeno que existe em todas as escolas do mundo e desdobrou-se, com a chegada da internet , no cyberbullying. O gozo, a ofensa, a violência psicológica, as críticas, as ameaças e a chantagem acontecem 24 horas por dia, sete dias por semana, no ecrã de um telemóvel do qual os jovens estão cada vez mais dependentes. O cordão que os liga ao mundo onde estão os seus agressores serve também como principal escape a essa agressão.

As marcas não desaparecem nunca, porque da internet nada desaparece nunca. O direito ao esquecimento é fundamental para quem sofre de cyberbullying, já foi aprovado por todos os países da Europa, mas é preciso que o caso chegue a tribunal. A lei, em Portugal, já considera o bullying e o cyberbullying como crimes, puníveis com pena de prisão até cinco anos quando o agressor é maior de 16 anos.

O principal risco para as crianças é que os pais e os educadores por vezes relativizam este tipo de violência como uma coisa banal, como só mais uma parte de se ser adolescente. Só que o bullying acontece nas idades que nos definem, naquela altura em que ter muitos amigos, ser convidado para festas de aniversário, ou ser escolhido em primeiro lugar para as equipas na aula de Educação Física são as batalhas mais importantes do mundo. O bullying não é apenas gozar com miúdo que é mais baixo que os colegas de turma. É um ataque sistemático e premeditado a alguém que vai deixando de acreditar, à medida que lhe espezinham a auto-estima, que é digno de amor e respeito no futuro.

O bullying é um problema sério, com uma influência direta e documentada nas tendências suicidas dos jovens de todo o mundo. Em Portugal este fenómeno ainda não está bem estudado, até porque os pais e os educadores precisam de mais formação para identificarem os alertas nas crianças e para estarem atentos ao que se passa dentro dos computadores e dos telemóveis. “É essencial que os professores e os pais entendam que aquele miúdo mais calado ao fundo da sala, que chega a casa com dores de cabeça e dores de barriga pode não ser apenas uma criança tímida mas sim uma criança que já não comunica com medo de ser gozada”, defende, numa entrevista ao Observador, Rosário Carmona. A psicóloga será uma das oradoras no debate “Novas tecnologias: Uso ou abuso?” que acontece este sábado, em Aveiro, organizado pelo SIPE – Sindicato Independente de Professores e Educadores.

Na semana passada, o caso da adolescente de Ponte de Lima que fugiu de casa cinco dias para se ir encontrar com um rapaz de 24 anos que já tinham sido identificado pela Polícia Judiciária como alguém “com perfil de predador online”, voltou a colocar a questão da segurança dos jovens no meio digital em primeiro plano. Infelizmente, já nem é possível contar os casos de homens — e algumas mulheres — que fingem serem outras pessoas na internet para aliciar jovens a enviar fotografias e vídeos em situações comprometedoras. Alguns chegam mesmo a convencer as vítimas a marcar um encontro, e não é preciso dizer o perigo que isso acarreta — ou é? “É sim. Parece óbvio para um migrante digital, que tem noção do que é a interação social antes da internet, mas nas redes sociais as coisas parecem sempre relativamente inofensivas. É só uma mensagem, qual é o problema? Se um homem nos abordar na rua começamos a correr ou chamamos a polícia, mas na internet expomo-nos mais, baixamos as defesas, somos desconhecidos, até podemos ser anónimos. Esta é a realidade de muitos adultos, e de muito mais crianças”, explica Rosário Carmona.

“O papel dos professores é essencial e a formação de professores e auxiliares tem que ser uma prioridade nas escolas”, defende, na mesma sala, Júlia Azevedo, presidente do SIPE. “A tecnologia é ensinada em aulas específicas, mas como estamos sempre a correr para dar o programa resta pouco tempo para incluir nas aulas essas advertências essenciais em relação aos perigos que se escondem em algo que os alunos utilizam todos os dias”. Na opinião da professora, falta “flexibilidade de horários e conteúdos”. Rosário Carmona e Júlia Azevedo já têm ideias. Por exemplo, nas aulas de Português ou Psicologia um dos trabalhos podia ser conduzir uma entrevista com um especialista em cyberbullying, e, em Matemática, construir um gráfico com a evolução da prevalência deste problema nos vários países da Europa”, dizem à vez.

“As formas de subjugação e violência possíveis na internet são inúmeras. Por exemplo, um agressor pode criar uma página na internet e colocar insultos ou fotos da vítima, ou então pode fazer circulá-las pelo Whatsapp ou outro chat, ou criar grupos fechados por exemplo no Facebook onde circulam comentários ofensivos à pessoa alvo do cyberbullying”.

Rosário Carmona, psicóloga clínica especializada em problemas da juventude

Alguns dos casos mais conhecidos chegam-nos pela imprensa estrangeira. Amanda Todd tinha 15 anos quando se suicidou, em 2012, em sua casa, depois de uma fotografia do seu peito ter sido partilhada por um homem que a chantageou por mais de dois anos. Aydin Coban, o agressor de Amanda, foi preso na quinta-feira e vai passar 11 anos na prisão. Também Jessica Logan, uma jovem de 18 anos de Cincinnati, escolheu acabar com a própria vida depois uma imagem do seu corpo nu ter sido partilhada centenas de vezes pelo namorado na rede social pré-Facebook, o MySpace, depois de ela ter terminado a relação. A chantagem está quase sempre subjacente a esta forma de violência e os golpes chegam de várias direções.

“As formas de subjugação e violência possíveis na internet são inúmeras. Por exemplo, um agressor pode criar uma página na internet e colocar insultos ou fotos da vítima, ou então pode fazer circulá-las pelo Whatsapp ou outro chat, ou criar grupos fechados por exemplo no Facebook onde circulam comentários ofensivos à pessoa alvo do cyberbullying“, diz Rosário Carmona.

Os jovens que chegam ao seu consultório trazem histórias que a ficção não conseguiria conjurar. Rosário Carmona conta a história de um jovem que é vítima de cyberbullying e que sabe perfeitamente que existe um grupo no Facebook criado para dizer mal dele. “Às vezes, os seus agressores concedem-lhe acesso, outras vezes bloqueiam-no. Numa das consultas ele disse-me que não sabia se era pior estar lá dentro e ler o que diziam dele, ou se era quando não podia ver, porque ficava horas a imaginar as coisas horríveis que estariam a circular”, exemplifica a psicóloga que além de um jogo de tabuleiro para tentar que as crianças e os pais se reúnam à volta destas questões tem um livro de perguntas e respostas para educadores e pais — “iAgora?” — que deve sair no início de abril.

“Para um migrante digital é óbvio que a internet representa um outro mundo, porque existe a noção do que é ou foi a interação social antes da internet mas nas redes sociais as coisas parecem sempre relativamente inofensivas. É só uma mensagem, qual é o problema? Se um homem nos abordar na rua começamos a correr ou chamamos a polícia mas na internet expomo-nos mais, baixamos as defesas, somos desconhecidos, até podemos ser anónimos”.

Rosário Carmona, Rosário Carmona, psicóloga clínica especializada em problemas da juventude

 

Apesar de não existirem estudos exaustivos realizados recentemente no nosso país, existe um publicado em 2014 (comparando dados de 2010 e 2014) pelo EU Kids Online, uma plataforma financiada pela União Europeia e sediada na London School of Economics que estuda os hábitos de utilização da internet dos jovens europeus, em parceria com um outro projeto com o mesmo objetivo, o Net Children Go Mobile. Os investigadores entrevistaram 28 mil jovens e a conclusão é que o fenómeno está a crescer. Em Portugal, Dinamarca, Itália, Irlanda, Roménia, Bélgica e Reino Unido, os sete países analisados, os dados mostram um aumento dos oito para os 12 por cento.

O crescimento aconteceu sobretudo entre as raparigas, e entre o grupo mais jovem do estudo (nove aos 16 anos). Outro dado preocupante é que o contacto com imagens ou informação de cariz sexual através das redes socais também aumentou (de 26 para 28%) na mesma faixa. Em quatro anos, as raparigas, que já eram o grupo mais vulnerável, ficaram ainda mais expostas (de 12 para 19 por cento).

Cristina Ponte, uma das investigadoras da equipa que tratou os dados dos jovens portugueses no estudo, destaca que, no nosso país, o dado mais interessante é que as crianças têm um acesso à internet quase universal, o que também acaba por os expor mais a mais riscos.

Já em 2016, Tito de Morais, autor do “Cyberbullying, Um Guia para Pais e Educadores” e fundador da página Miúdos Seguros na Net, disse que a violência propagada pelo espaço digital “atinge hoje entre 10 a 20% dos jovens portugueses mas “mas a sua verdadeira prevalência não se conhece”.

Repercussões perpétuas

Nos recreios dos idos anos 90, e nos de todas as décadas que lhe antecederam, as ofensas resolviam-se disferindo uma pior, ou, no máximo, um soco. A vergonha, fora nos casos mais graves, fazia mossa apenas até ao próximo miúdo ser gozado, ou pelo menos cessava quando a vítima se libertava das paredes das escola. Agora, o palco para este tipo de violência é, potencialmente, todo o mundo.

“Para que exista uma situação de bullying a violência tem que ser intencional, persistente e tem que haver um desequilíbrio de poder. Na internet tudo isto é mais fácil, mais rápido e mais abrangente”, explica Rosário Carmona, que completa com um exemplo.

“Uma das adolescentes que eu acompanho confessou que decidiu, com uma amiga, criar um email em nome de uma outra rapariga da escola e escrever, a partir daquele e-mail falso, e-mails para todos os rapazes da turma oferecendo-se para dormir com eles. Isto causa problemas complicados de perceção, e essa ‘fama’ é de uma grande violência para as raparigas nestas idades”.

Uma criança que seja vítima de cyberbullying não consegue ver um fim para o seu sofrimento e por isso “o risco de suicídio aumenta três vezes em relação ao bullying presencial”, diz Rosário Carmona.

O palco alarga-se e o controlo escorre-lhes das mãos. “Há duas características principais que distinguem os dois tipos de bullying. Uma é o palco e outra é o controlo. Uma fotografia comprometedora na internet pode ser partilhada centenas de vezes em poucos segundos, adquire uma exposição muito mais vasta, o palco é infinito. Por outro lado, o controlo deixa de existir como o conhecemos. Estou a ser agredida mas não o consigo evitar, não o consigo enfrentar. Não sei quem fez o site sobre mim, ou o print screen, quem publicou as ofensas ou as fotos, quantas pessoas viram, ou quando vai parar”, diz a psicóloga que há mais de uma década acompanha dezenas de jovens que todos os dias sofrem com este tipo de abuso cobarde e anónimo.

Terra de ninguém

Tal como na maioria dos casos de abuso fora dos meios digitais, as vítimas muitas vezes optam por não recorrer à ajuda dos pais, nem dos professores. Fecham-se, porque anteveem o pior caso denunciem os seus agressores: temem, em primeiro lugar, que a agressão se intensifique, depois têm vergonha de contar os abusos em si. Quando a vítima deixa de reagir ao abuso e depois volta a reagir, sem querer, está a ensinar ao agressor a partir de que ponto é que começa a obter uma reação “, diz Rosário Carmona.

Esperam que passe. Os pais, mesmo os que sabem, esperam que passe. “Só que raramente passa e os pais tendem a ignorar”, diz a psicóloga. Às vezes, na tentativa de ajudar, ainda causam mais ansiedade. “Alguns pais optam por retirar o computador, ou o acesso às redes sociais, ou o telemóvel. Alguns miúdos dizem-me que não falam com os pais porque têm a certeza que eles lhe vão retirar o telefone. Só que impedir o uso do telefone muitas vezes ainda desestabiliza mais”.

Isto apesar de Rosário Carmona defender uma restrição ao uso da internet e aconselhar que os pais controlem o que os filhos consultam, incluindo pedindo-lhes as passwords para as redes sociais, prometendo respeitar a privacidade e intervindo apenas em situações suspeitas. Alguns pais também lhe dizem que “não se querem meter” porque “não sabem utilizar muito bem a internet” mas, na opinião da psicóloga, os pais não precisam de saber utilizar redes sociais, ou qualquer outra plataforma, para proibirem alguma coisa que está claramente a afetar o comportamento dos seus filhos, ou pode colocá-los em perigo, ou quando têm alguma suspeita de que estejam a ser sujeitos a algum tipo de violência”.

A internet são fios invisíveis. Fios que ligam toda a gente sem que ninguém perceba quem está ligado a quem. “É muito possível que uma situação de cyberbullying se passe durante muito tempo sem ninguém reparar, porque muitas vezes os agressores não ofendem publicamente. Uma das minhas pacientes estava sentava nas aulas na mesma carteira que a sua agressora e aquilo deixava-a tão angustiada que começou a baixar consideravelmente o seu aproveitamento escolar”. Só mais um exemplo.

O cyberbullying, diz Rosário Carmona, é uma “terra de ninguém” porque “a escola não quer assumir o problema e os pais não sabem o que se passa, por isso também não agem. É por isso que a formação e a educação das crianças é tão importante. É absolutamente essencial que os pais saibam ensinar aos jovens as competências para lutarem eles contra isto: assertividade, interação, tolerância à frustração, regulação do comportamento e adiamento da recompensa”, explica.

O que isto quer dizer, basicamente, é que há ferramentas que ajudam a lutar contra todas as adversidades da vida, e que os jovens estão a perder, porque hoje a regulação dos comportamentos é sempre feita através de um estímulo externo. Depende-se do iPad para uma criança comer, por exemplo, o que quer dizer que a paciência para esperar, a capacidade para esperar pela resolução de uma situação desagradável, a resiliência, tudo isto está em causa quando falamos não do uso mas do abuso da utilização da internet.

Rosário Carmona pergunta a Júlia Azevedo em que deve focar a apresentação que irá fazer em Aveiro. “Sinais de alerta, sinais de alerta, sinais de alerta”, responde a professora, que não se cansa de frisar que a formação é essencial para todos os membros da comunidade escolar que têm de estar preparados para identificar estes alunos. “Tanto as vítimas como os agressores”, diz a professora, “porque os agressores, muitas vezes já foram vítimas e as vítimas estão a um click de se tornarem agressores”.

 

 

Apps para dispositivos móveis: manual para professores, formadores e bibliotecários

Março 15, 2017 às 12:00 pm | Publicado em Recursos educativos | Deixe um comentário
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As páginas do Facebook que usam fotos de crianças doentes para ganhar cliques – e dinheiro

Março 11, 2017 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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texto da http://www.bbc.com/portuguese/ de 23 de fevereiro de 2017.

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Leo Kelion BBC News

O Facebook deletou duas contas que usavam fotografias de uma criança doente sem autorização da família e as usavam na rede social afirmando que o menino tinha câncer.

As imagens eram publicadas para atrair usuários e roubar dados deles ou para o envio de publicidade e ofertas.

Nas fotos, o menino aparece doente, com manchas pelo corpo. A postagem falsa afirmava que se os usuários curtissem ou comentassem na foto, o Facebook doaria dinheiro para que a criança passasse por uma cirurgia.

Mais de um milhão de pessoas compartilharam a publicação e centenas de milhares reagiram – curtindo ou comentando.

A mãe do menino, Sara Allen, então viu as imagens na internet. Ela acredita que as fotos foram retiradas de notícias que saíram na mídia online quando Jasper teve um caso grave de catapora, em agosto do ano passado.

A enfermidade dele chamou a atenção da imprensa na época e ele virou personagem de várias reportagens veiculadas na internet justamente por causa da gravidade do problema.

Sua mãe chegou a fazer uma campanha pressionando o governo do Reino Unido pela gratuidade da vacina contra a doença.

“Nos alertaram de que isso poderia acontecer porque a busca por catapora no Google sempre resgata as imagens dele. Então estávamos conscientes de que isso poderia ocorrer, mas não dessa forma, dizendo que ele tem câncer”, contou Allen à BBC.

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Reclamação

Allen afirmou que alguns amigos viram as fotos e entraram em contato com ela perguntando se Jasper estava com câncer. Ela disse ainda que entrou enviou diversas mensagens ao Facebook com reclamações sobre a infração ao direito autoral da imagem.

Em 10 de fevereiro, a rede social respondeu afirmando que havia cancelado as contas porque elas infringiam suas regras.

Segundo mãe, porém, as contas voltaram a ficar ativas 24 horas depois sem nenhuma explicação.

O Facebook só deu instruções para que a equipe responsável revisasse o caso quando os veículos de comunicação – inclusive a BBC – passaram a cobrir o ocorrido.

A princípio, a empresa apenas eliminou as publicações fraudulentas sobre Jasper, mas depois cancelou completamente as contas associadas a essas publicações.

Prática recorrente

Além disso, foi identificado que as mesmas contas estavam difundindo informações com textos idênticos, mas usando imagens de outras crianças.

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Algumas publicações diziam que as crianças tinham câncer. Outras as mostravam em hospitais e afirmavam que os usuários que vissem as fotos teriam má sorte caso não curtissem ou compartilhassem as postagens.

O especialista em cibersegurança Graham Cluley afirma que esses parecem ser casos de “like farming” – ou “fazenda de cliques” -, uma fraude virtual na qual os criminosos fazem com que os usuários interajam com publicações no Facebook para que posteriormente possam enviar mensagens com publicidade e ofertas a esses perfis ou mesmo para vender os dados do usuário e de seus contatos.

“Há muitas fraudes que usam essas imagens emocionais somente para ganhar dinheiro”, disse.

“Em alguns casos, depois da publicação eles entram em contato dizendo que você ganhou um prêmio e tentam te convencer a dar seu número de telefone ou a se inscrever em um determinado tipo de serviço ou dar seus dados pessoais”, afirmou.

Segundo ele, o problema é que “a maioria das pessoas acredita em tudo que vê na internet. Deveriam ser mais cuidadosas sobre o que curtem e compartilham nas redes”.

 

 

 

Fotos dos filhos no Facebook. Sim ou não?

Fevereiro 16, 2017 às 5:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Hugo Daniel Sousa publicado no https://www.publico.pt/ de 5 de fevereiro de 2017.

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A Maria acabadinha de nascer. O João a dormir como um anjinho. A Sofia com aquele olhar sedutor. O Miguel com um sorriso maroto de quem só tem dois dentes. Os primeiros passos do Pedro. Ou a acrobacia da Mariana no parque. Há poucas coisas mais ternurentas do que uma foto de uma criança. Especialmente se forem as nossas. Por esta razão, e mais algumas, os pais adoram mostrar as fotos dos filhos aos amigos e familiares. E os feeds do Facebook e do Instagram ou a timeline dos blogues enchem-se de fotos de crianças,

A grande questão — que até já chegou aos tribunais — é se os pais têm o direito de publicar fotos dos filhos nas redes sociais, em particular, e na Internet, em geral?

Para não ficar apenas com a minha opinião (e a minha prática), fiz uma rápida sondagem por alguns amigos. “Publicas fotos dos teus filhos no Facebook?” A primeira resposta foi curta e grossa. “Não”. Porquê? “É um assunto da vida privada”. Outra mãe, outra resposta: “Publico algumas, sempre irreconhecível e demos instruções ao resto da família para fazerem o mesmo”. “Porquê? Achas que não tens o direito de publicar ou é só por segurança?”, perguntei. “Ambas”, foi a resposta.

Voltei a fazer a pergunta, desta vez a alguém que está fora do país. “Sim, publico. Porque vivo longe e é uma maneira fácil de os meus amigos e família poderem acompanhar o crescimento deles, já que raramente os vêem”, respondeu-me um dos pais, deixando um par de ressalvas: “Tenho a preocupação de não os mostrar em situações que impliquem desconforto/embaraço (para futuro registo digital) e nunca, mas nunca, os localizo geograficamente.” E juntou uma adenda. “Num futuro próximo, poderei deixar de publicar fotos deles e até as poderei apagar todas, se for esse o desejo deles.”

A última resposta que recebi é muito parecida com a anterior. Os pais só publicam fotos dos filhos às vezes, mas com o cuidado de as limitar aos amigos e não deixar que sejam vistas por conhecidos deles. A razão para publicar fotos é fácil de adivinhar. “Porque sou uma mãe estupidamente babada. E para ir dando noticias nossas à família e amigos espalhados pelos quatro cantos do mundo.”

Esta discussão já começou há alguns anos e promete continuar. Até na justiça. Num caso de um casal divorciado, o tribunal definiu as condições da regulação do poder parental e, entre elas, incluiu o dever de os pais não divulgarem “fotografias ou informações que permitam identificar a filha nas redes sociais”. A mãe recorreu para o Tribunal da Relação de Évora, que foi bem claro na resposta. “Na verdade, os filhos não são coisas ou objectos pertencentes aos pais e de que estes podem dispor a seu belo prazer. São pessoas e consequentemente titulares de direitos”, escreveram os juízes Bernardo Domingos, Silva Rato e Assunção Raimundo num acórdão de Julho de 2015.

Argumentando que há um “perigo sério e real” de a divulgação de fotos de crianças nas redes sociais as deixar mais susceptíveis a predadores sexuais, os juízes concluem que a proibição de publicar fotos que permitam identificar a criança é “adequada e proporcional à salvaguarda do direito à reserva da intimidade da vida privada e da protecção dos dados pessoais e sobretudo da segurança da menor no ciberespaço”.

Confesso que mais do que ser um legalista ou proibicionista, sou fã da lei do bom-senso. E, por isso, o que realmente me choca são os pais que publicam fotos dos filhos sem qualquer pudor ou contenção (e, como viram, não é o caso dos amigos acima citados). Mas há muitos que não respeitam as dicas básicas de segurança, como enumerava um artigo da Notícias Magazine, de Junho de 2014: nunca publicar fotos de crianças no banho ou de fraldas, nem com uniformes escolares; evitar pôr fotos em alta resolução; não fazer post de imagens em que crianças aparecem com objectos de valor ou imagens em que seja fácil identificar o local (a escola, a casa, etc). Também fundamental é ter o cuidado de restringir ao máximo o número de pessoas que podem ter acesso à imagem no Facebook, limitando, por exemplo, a acesso a amigos mais próximos — e, mesmo assim, as definições de privacidade no Facebook são um mundo em constante mutação, sendo fácil cometer erros.

Estes conselhos são todos úteis para quem não resistir à tentação. Eu, porém, prefiro seguir neste caso a regra do menos é mais: zero fotos é igual a zero riscos. E as imagens hão-de chegar, por outros meios (menos fáceis mas mais seguros), aos avós, tios e amigos que vivem longe. É que — como alguém escreveu num texto erradamente atribuído na Internet a José Saramago — um “filho é um ser que nos emprestaram para um curso intensivo de como amar alguém além de nós mesmos, de como mudar os nossos piores defeitos para darmos os melhores exemplos e de aprendermos a ter coragem”. Na feliz (e assustadora) expressão desse autor desconhecido, os filhos “são apenas um empréstimo”. E, por isso, prefiro que um dia não me cobrem essa dívida: “Pai, como foste capaz de publicar esta foto minha no Facebook?”.

 

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