Mais de um terço dos jovens portugueses já se sentiu desconfortável na Internet

Outubro 15, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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A utilização intensiva das redes sociais intensifica a sensação de solidão, mesmo entre os jovens que tenham, à partida, uma boa rede de relações sociais e familiares GettyImages

Notícia e imagem do Expresso de 17 de setembro de 2019.

Estudo nacional revela que 14% dos jovens também já foram ofensivos ou agiram incorretamente com alguém.

Um em cada três jovens portugueses já se sentiu desconfortável enquanto navegava na Internet e 14% já foram ofensivos ou agiram incorretamente com alguém, segundo um estudo nacional divulgado esta terça-feira

O estudo, conduzido pela Netsonda e promovido pelo Faceboook, hoje divulgado, revela que 38% dos jovens já se sentiram desconfortáveis enquanto navegavam na internet, em oposição com os restantes 62% que dizem nunca terem sentido qualquer incómodo.

Dos jovens inquiridos, 14% admitiram mesmo já terem dito algo ofensivo ou terem agido incorretamente com alguém através da ‘web’, sendo que “chamar nomes” foi o ato mais apontado.

Comparando rapazes com raparigas, eles são mais agressivos também na Internet (17% contra 10% das raparigas).

Perante a hipótese de alguém ser desagradável com eles ou com alguém seu conhecido, a maioria optaria por enviar mensagem privada ao “agressor” ou pedir ajuda aos pais, professores ou algum adulto de confiança.

No entanto, 29% ignorariam o ato, enquanto outros 22% optariam por falar diretamente com a pessoa. Os amigos surgem como a quinta opção: 19% dizem que recorreriam aos seus amigos para tentar resolver o problema.

É através das redes sociais que os jovens se mantêm em contacto com os amigos, mas é também em frente a um ecrã que se divertem, acompanham as novidades e tendências, segundo um inquérito online realizado durante o mês de agosto a mil jovens portugueses, entre 14 e 19 anos

O estudo tentou perceber o que fazem os mais novos quando estão nas redes sociais, de que forma acedem à Internet, como reagem perante uma “agressão” virtual ou que experiências já vivenciaram.

Hoje em dia, são raros os jovens que não têm um ‘smarphone’ e é através dele que acedem à Internet: 69% usam o telemóvel, seguindo-se o computador (17%).

As consolas de vídeo jogos e o computador de família são as opções menos recorrentes (2%).

É precisamente para estar em contacto com os amigos que os jovens mais usam as redes sociais (79%), mas também como forma de entretenimento (61%).

Já 49% dizem que lhes permite acompanhar as novidades das marcas e os “influencers”. Numa comparação entre rapazes e raparigas, elas estão muito mais interessadas em acompanhar as tendências (60% contra 39% de rapazes) enquanto eles usam muito mais as redes para entretenimento (74% contra 47%).

“Ler notícias” também é um dos principais motivos para usar as redes sociais, principalmente entre os mais velhos: os jovens entre os 17 e os 19 anos colocam esta função em terceiro lugar, enquanto entre os mais novos o desejo de se manter informado surge em quinto.

Apenas um em cada três jovens diz usar as redes sociais para manter o contacto e ver as publicações da família.

O estudo hoje divulgado revela ainda a atitude que os jovens imaginam que teriam perante um eventual abuso, sendo apresentada a hipótese de ser publicada uma fotografia sua sem consentimento: oito em cada dez (79%) dizem que pediriam que a foto fosse retirada, 76% acreditam que reportariam a situação à rede social e 61% retiravam a sua identificação da imagem.

No universo de inquiridos, 60% já comunicaram situações nas redes sociais.

Bloquear ou deixar de seguir alguém já faz parte dos hábitos dos jovens, com mais de 60% dos inquiridos a admitirem que já utilizaram estas ferramentas para gerir o contacto ‘online’ com outros.

Apenas 3% desconheciam que tal era possível e 12% disseram conhecer essa opção, mas nunca a utilizaram.

O estudo tentou ainda perceber se seriam capazes de partilhar as suas ‘passwords’ com alguém. A maioria disse que não, mas 35% responderam afirmativamente, colocando a família, os namorados e os melhores amigos como as pessoas a quem estavam dispostos a entregar as palavras passe de acesso às redes sociais, e-mails ou ‘smartphones’.

Um em cada 100 jovens disse mesmo que partilharia a ‘password’ com os professores ou diretores da escola.

Uma geração de inábeis sociais

Outubro 11, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto de Mafalda Anjos publicado na Visão de 4 de abril de 2019.

Esta semana, descreveram-me um cenário que me causou arrepios: o recreio de um colégio de Lisboa, daqueles no topo dos rankings nacionais, repleto de miúdos, mas, em vez do rebuliço normal das crianças a brincar, o cenário era de paz. Uma paz podre. Os muitos miúdos que ocupavam o pátio estavam sentados pelas escadas, nos bancos corridos ou no chão, agarrados ao seu smartphone. Era cada um por si, cérebros abstraídos e dormentes, isolados do mundo à sua volta, tão sozinhos entre uma multidão de colegas – pequenos e tristes zombies digitais.

Não é só nas escolas. Basta ver os encontros de famílias com crianças pequenas ou os grupos de teenagers quando se juntam –, algo que acontece com muito menos frequência do que na minha geração, em que passávamos horas perdidas à conversa nas esplanadas ou nos jardins. É ver cada um no seu telefone, um dedinho a deslizar para ver o vídeo, a foto ou a storie seguinte, dois dedinhos de cada lado para jogar ao jogo da moda: mata este, atira sobre aquele.

Estamos longe de perceber exatamente como estes nativos digitais vão ser no futuro, por mais estudos que se comecem agora a fazer ao impacto da tecnologia nos cérebros destes miúdos. Terão com toda a certeza competências extraordinárias que nós não temos, vão inventar maravilhas que nos hão de deixar boquiabertos e pôr-nos a pensar como é que vivemos sem isso até àquele dia. Sei que teremos computadores excecionais capazes de fazer coisas que não conseguimos sequer ficcionar – cálculos mirabolantes, matchs perfeitos entre ofertas e vontades cada vez mais caprichosas, velocidades estonteantes para tudo e mais alguma coisa. Mas tudo indica que, ao fim do dia, vamos continuar a ser esta amálgama de matéria e de sentimento, com algumas necessidades e instintos básicos de algumas centenas de milhares de anos: sobreviver, socializar, amar e ser amado. Continuaremos a ser, assim espero, apenas humanos. E é precisamente isso que nos vai distinguir cada vez mais das máquinas e dos robots, que serão anos-luz mais competentes do que nós nas coisas, para usar uma expressão simplista, mecânicas ou, pelo menos, não emocionais.

Voltando ao recreio e aos dedinhos nos ecrãs… Não sei como serão daqui a uma ou a duas dezenas de anos estes nativos digitais, mas uma coisa não é difícil de antecipar: serão muito mais socialmente inábeis. E isso é inquietante, porque estamos, afinal, a falhar em formar as novas gerações no que garantidamente mais vamos precisar no futuro: melhores seres humanos, com o que, na verdade, nos distingue na nossa humanidade – a capacidade de ouvir, ler ou tocar o outro, de interagir em sociedade. Uma criança que não aprendeu a brincar num recreio não sabe criar empatias, gerir conflitos e emoções, ultrapassar frustrações. Como vão estas crianças trabalhar em equipa, integrar-se num grupo ou empresa? Que caminho das pedras tardio terão de fazer para desformatar um cérebro de sinapses condicionadas pelos ecrãs que nós – pais, educadores, adultos – lhes enfiámos à frente?

Isto não são apenas considerandos gerais de ordem filosófica. O caso é sério, não podemos encolher os ombros. Todos os dias saem novos estudos que dizem que a dependência de jogos eletrónicos e das redes sociais causa verdadeiros distúrbios emocionais, e a Organização Mundial de Saúde já propôs inseri-la como doença mental na próxima revisão do manual de classificação de patologias. Um estudo da Ordem dos Médicos, a crianças portuguesas de 11 anos, conclui que um terço está em risco de dependência. Muitos passam quatro horas por dia, todos os dias, a jogar. Além de inábeis sociais, estamos a criar uma geração de viciados numa droga tão ou mais aditiva do que as que conhecíamos até agora.

Escrevo com sentimento de culpa, note-se. Também eu coloco tablets e smartphones à frente dos meus filhos. Mas é mesmo preciso pararmos todos para pensar no que estamos, coletivamente, a fazer aos nossos miúdos. Daqui a uns anos, pode ser tarde demais.

As Crianças e o uso da Internet, Redes Sociais, Videojogos, Smartphones, Tablets, etc no Reino Unido

Outubro 8, 2019 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Imagem retirada daqui

Programa Educativo GeraZão

Outubro 5, 2019 às 1:00 pm | Publicado em Recursos educativos, Site ou blogue recomendado | Deixe um comentário
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Acede a experiências e recursos de formação

Com GeraZão quem decide és tu. Oferecemos-te várias possibilidades de formação adaptadas às tuas necessidades. Neste espaço, podes aceder a diferentes materiais de formação como a Biblioteca de Literacia Digital, utilizações didáticas e de formação do Facebook e Instagram bem como recursos de entidades colaboradoras de interesse na utilização segura da Internet, concebidos por peritos.

https://www.gerazao.org/index.php

Até 67% das crianças, entre os 0 e os 3 anos, utilizam novas tecnologias

Setembro 30, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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© iStock

Notícia e imagem do Notícias ao Minuto de 23 de Setembro de 2019.

por Liliana Lopes Monteiro

Alertas para a urgência de refletir sobre os potenciais riscos do consumo excessivo das tecnologias por parte das crianças e dos jovens, no dia 1 de outubro – adolescentes, pais, professores e médicos juntam-se, no Auditório do Centro do Conhecimento do Hospital CUF Descobertas, para discutir a questão: ‘Internet a mais, convívio a menos?’.

“Os jovens de hoje vivem num contexto nunca antes visto. A internet, redes sociais e mundo digital têm uma presença constante e imediata que veio revolucionar a vida de todos nós – a forma como comunicamos, como socializamos, como trabalhamos e como estudamos. Mas, no caso das gerações mais jovens, influencia também a forma como crescem” contextualiza Hugo Faria, pediatra no Hospital CUF Descobertas, que irá participar no Evento.

Os benefícios e vantagens das novas tecnologias são vários, mas trazem também riscos que não conhecemos ainda na totalidade.  “Que impacto tem o consumo das tecnologias em excesso no desenvolvimento – quando sabemos que 90% das crianças e adolescentes acedem às novas tecnologias e que 69% utiliza as novas tecnologias por mais de uma hora e meia, por dia; e, em particular, olhando para os dados sobre crianças com  idades entre os 0 e os 3 anos, onde sabemos que 67% utiliza novas tecnologia? – incita Hugo Faria para o debate, recordado resultados do Estudo de caracterização dos hábitos de utilização das novas tecnologias por crianças e jovens dos 0 aos 18 anos de idade, em que participou recentemente no Centro da Criança e do Adolescente do Hospital CUF Descobertas,  contando com respostas de 412 cuidadores.

É durante os primeiros anos de vida que através de interações presentes e da estimulação sensorial se estruturam áreas muito importantes como a emoção, a cognição, a motricidade e a linguagem. Para Hugo Faria “interessa discutir e sensibilizar as pessoas para o que acontece quando estas interações são substituídas por tempo passado em frente aos ecrãs”.

A Conferência ‘Internet a mais, convívio a menos’ tem entrada gratuita, colocando a discussão aberta a toda a comunidade.

Congresso (In)Dependências: Prevenir e intervir nas adições com e sem substância – 11 outubro em Leiria

Setembro 27, 2019 às 6:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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mais informações nos links:

http://congresso2019.psivalor.pt/?fbclid=IwAR2kKwuxLIJbxnzQ9KyuZ_fhWxJJ7YA-_ca9sSG6sJcCy7Pclu5lgZggVy4#hipercontainer

https://www.facebook.com/events/2286651014703563/

WhatsApp. Nova versão vai barrar utilizadores com menos de 16 anos

Setembro 18, 2019 às 8:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Notícia do Expresso de 20 de agosto de 2019.

A plataforma de mensagens, propriedade da Facebook, tem qualquer coisa como 500 milhões de utilizadores diários. A nova versão está ainda a ser afinada nas oficinas da empresa.

A nova versão do WhatsApp (2.19.222), a plataforma de mensagens que pertence à Facebook, vai banir os utilizadores europeus que tenham menos de 16 anos, conta o “El Mundo”.

Esta regra já constava da política de privacidade daquela empresa (AQUI) desde 2012. Em 2016, conta o diário espanhol, a versão europeia estava condizente com o resto do mundo: menores de 13 anos não podiam usar a app. Mas na última atualização a idade mínima voltou a subir para 16.

Existem ainda muitas reticências sobre de que maneira a empresa vai identificar, monitorizar e banir os utilizadores europeus com menos de 16 anos.

O WhatsApp tem qualquer coisa como 500 milhões de utilizadores diários. A nova versão está ainda a ser afinada nas oficinas da empresa.

Pais preocupados com ideias extremistas da internet. Como proteger as crianças?

Setembro 17, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto e imagem do site MAGG de 20 de agosto de 2019.

por Rafaela Simões

Os pais têm medo de que os filhos se tornem em supremacistas brancos de direita. A solução começa em casa: educar sobre a internet.

A semana passada, 13 de agosto, uma escritora, critica dos media e mãe de três filhos escreveu um tweet que se tornou viral. Joanna Schroeder mostrou preocupação com o facto de os adolescentes estarem expostos a conteúdos extremistas online e o potencial de influência que isso pode ter nos seus comportamentos. Falamos aqui de adolescentes associados a um padrão: são jovens, brancos e do sexo masculino.

Esta preocupação adensa-se com os últimos acontecimentos: a 28 de julho, um ataque de um adolescente que matou três pessoas num festival de comida, em Gilroy, na Califórnia. Apenas seis dias depois, acontece um outro episódio, classificado como um dos tiroteios em massa mais violentos dos Estados Unidos. Aconteceu a 8 de agosto no supermercado Walmart, em El Paso, no Texas, e provocou mais de 20 mortos. O jovem branco de 21 anos terá agido por ódio, já que antes de entrar no supermercado publicou na internet um manifesto anti-imigração, que entre as quatro páginas explicava o objetivo: matar o maior número de pessoas que encontrasse.

Perante esta série de acontecimentos sucessivos, os pais e professores estão mais alerta e tentam perceber o que está a acontecer com a geração do digital. Já os jovens, não sentem que este seja um problema generalizado. “Sou um adolescente branco que passa a maior parte do meu tempo aqui. No YouTube, no Twitter, nos jogos, apenas por entretenimento. Tenho ideias conservadoras porque eu penso que são lógicas e são o caminho certo. Não porque alguma figura da internet está a fazer-me uma lavagem cerebral para uma fantasia de ‘supremacia branca’”, responde um adolescente ao tweet de Schroeder que tem mais de 80 mil retweets e quase 180 mil gostos.

A mãe disse ao jornal “BBC” que a sua preocupação começou quando há cerca de um ano os seus filhos começaram a fazer perguntas que pareciam ter vindo de discursos de alta direita. Questionaram porque é que os negros podiam “copiar a cultura branca, mas os brancos não podiam copiar a cultura negra”. O alerta foi acionado aqui, e depois de pesquisar percebeu que os adolescentes partilhavam entre si conteúdos como memes machistas e racistas (que aparentemente seriam inofensivos).

Alguns especialistas referem que os algoritmos nas plataformas online podem estar a alimentar a expansão de pontos de vista extremistas e de conspirações, que afetam também os adultos, mas os jovens continuam a ser o principal foco de preocupação, pelo facto de serem mais vulneráveis e de ainda estarem a desenvolver o sentido critico. E o algoritmo é uma das razões que leva Joanna Schroeder a preocupar-se, já que assistir, por exemplo, a um vídeo com conteúdos influenciáveis pode ser o inicio do problema: “É provável que seja conteúdo cuidadosamente criado para atrair os jovens rapazes. Depois de assistir a um desses, os próximos vídeos podem ficar cada vez mais extremistas”.

Tudo começa em casa

“Devíamos estar a ensinar o pensamento crítico e a empatia. Não devíamos ensinar às crianças o que pensar, mas podemos ensiná-las a ouvir as pessoas que têm um pensamento diferente delas”, refere Tom Rademacher, professor do oitavo ano em Minnesota, nos Estados Unidos, ao jornal americano.

O caminho passa pelas escolas, mas começa em casa, onde a professora de sociologia Margaret Hagerman, passou dois anos a estudar um grupo de famílias brancas ricas e a maneira como discutiam e ensinavam sobre raça. Percebeu que os pais achavam que os seus filhos eram “daltónicos” no que toca às raças e que este mesmo assunto deixava os pais desconfortáveis quando abordado entre adultos: “Se os adultos brancos não conseguem ter conversas sobre racismo na América com outros adultos brancos, eu não percebo como é que eles pensam estar preparados para ter essas conversas com crianças”.

Mas por mais que os pais pensem que esta é uma realidade distante ou que não afeta os seus filhos, não é isso que acontece se estiverem atentos. Além dos jovens viverem rodeados de pessoas de raça branca — os vizinhos e os colegas de escola — que os induz para ideias relacionadas com supremacia branca, as conversas entre eles abordam temas como raça, racismo e desigualdade. “As crianças estão a aprender sobre raça na América através de diferentes aspetos das suas vidas quotidianas”, refere a professora.

Também a sala de aula é palco de estudo de Margaret que refere que “[os jovens brancos] estão a tentar perceber onde está a linha de pensamento. Porque é que as coisas são engraçadas e porque é que são ofensivas.” Neste limbo, os jovens acabam por se sentir “como se estivessem sob ataque” pela sociedade dominante, acrescenta.

Os pais não devem temer mensagens “anti-branco”

Os pais devem funcionar como educadores ou, mais precisamente, como explicadores críticos. Ou seja, quando uma dúvida surgir no seguimento de algo que os adolescentes viram online, a professora se sociologia sugere que os pais perguntem onde é que os jovens ouviram aquela ideia para poderem ter conhecimento do contexto e explicar de forma critica aquele meme, fotografia ou comentário que lhes pareceu inofensivo.

“Os nossos filhos precisam de saber que esperamos que eles sejam bondosos, respeitosos e honestos. Não porque pensemos que eles não são assim, mas porque sabemos que eles têm uma bondade natural dentro deles”, refere. Acrescenta que seria mais fácil implantar algumas destas ideias num ano do currículo escolar para ensinar a lidar com a radicalização na internet.

Contudo, os pais temem que a ideia acabe por passar mensagens “anti-branco”. Margaret desmistifica a ideia explicando que a sua sugestão é que “a sala de aula possa ser um local onde as crianças possam explorar sem se sentirem envergonhados. Quando aplicamos vergonha num grupo, estamos a empurrá-lo para um caminho mais negativo”, conclui.

Caso Team Strada. Vale tudo no YouTube? “O primeiro ‘influencer’ tem de estar em casa”

Setembro 11, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia e imagem da Rádio Renascença de 13 de agosto de 2019.

Daniela Espírito Santo

Os problemas são os de sempre, mas em plataformas novas. Crianças e adolescentes procuram fama e aceitação nas redes sociais e no YouTube. Se não forem guiados, podem ser levados a quebrar as regras à procura de cliques.

A recente polémica a envolver a “Team Strada”, um grupo de jovens “youtubers” liderado por um “agente” de 36 anos, fez levantar muitas questões sobre a utilização das redes sociais por parte de menores.

Diversos especialistas entrevistados pela Renascença acreditam que a sociedade tem de estar atenta a este fenómeno, mas que, apesar de as plataformas usadas pelos mais novos serem, também elas, muito recentes, os problemas inerentes são os mesmos que apoquentavam os pais de outras gerações.

Os jovens que almejam uma carreira como “influenciador” ou “youtuber” querem, no fundo, o mesmo que todos os jovens sempre quiseram – ser famosos para se sentirem aceites pelos seus pares. Se não forem guiados, podem colocar-se em situações de risco em nome de cliques e visualizações.

Tito de Morais, responsável pelo projeto “Miúdos Seguros na Net”, reconhece que foi surpreendido pelo caso “Team Strada”, que está agora a ser investigado pelo Ministério Público. Hugo Strada, 36 anos e líder do grupo de jovens, foi filmado a beijar na boca um jovem de 16 anos, gerando uma onda de indignação nas redes sociais.

“Fiquei horrorizado com o que vi”, confessa Tito de Morais à Renascença, acrescentando não se recordar de nenhum caso similar, nem sequer a nível internacional. “Poderá haver situações que não sejam próprias em canais com menor expressão. A mim espantou-me foi ter sido num canal com a dimensão que aquele tinha e com os apoios que também tem. Este caso apanhou toda a gente de surpresa e isso deve fazer-nos refletir.”

Ana Neves, psicóloga clínica, psicoterapeuta e presidente da Comissão de Proteção de Crianças e Jovens (CPCJ) da Amadora, considera que podemos estar perante “uma relação de poder de um adulto relativamente a estes jovens, consentida pelos pais”, um cenário não muito comum. “A questão do adulto que influencia não é muito conhecida. Não sei se as pessoas estão preparadas para isto”, salienta.

“Este caso apanhou toda a gente de surpresa e isso deve fazer-nos reflectir”

Também Ana Jorge, professora e investigadora da Universidade Católica na área da comunicação, acredita que este caso é relativamente novo, razão pela qual captou a atenção do público.

“É uma coisa nova, no sentido de haver um adulto suspeito de interações com crianças e jovens, menores de idade, de uma forma que pode comprometer a sua saúde e bem-estar”, esclarece. Ana Jorge também não se recorda de casos similares em que se suspeite de comportamentos que lesem crianças e jovens “envolvidos enquanto produtores”.

Plataformas novas, problemas antigos

Se este caso em particular parece novo, a questão de fundo não é, contudo, inédita. “Isto é só uma forma nova de comunicar um problema que já existia noutra forma”, defende Ana Neves. “Adultos que se aproveitam de crianças, isso já existia.”

Também não é novo o facto de haver polémica no Youtube. “O que talvez não seja novo é a preocupação em torno de ‘youtubers’ que promovem entretenimento muito inconsequente, muito irresponsável para atrair público”, adianta a investigadora da Católica. “Isso já era visto com alguma preocupação por parte de pais de crianças.”

Ana Neves mostra-se preocupada com o que viu, mas também com quem viu. “Nós vimos estes vídeos com jovens, mas existem crianças que assistem a isto. Estudos apontam para percentagens elevadas de adolescentes entre os 11 e os 16 anos que se sentem pressionados a serem perfeitos nas redes sociais. Sentem-se pressionados precisamente por estes influenciadores, que passam uma imagem daquilo que eles devem ser”, lamenta.

Afinal de contas, o desejo de aceitação dos mais jovens é transversal e intemporal. A única coisa que muda é a plataforma. “Antes, muitas crianças queriam ser futebolistas ou atores nos ‘Morangos com Açúcar'”, relembra Ana Jorge, que entende que “ser youtuber” não é um mau sonho, mas que não pode ser o único.

Ana Jorge aponta a “falta de horizontes” de muitas crianças como fator que as leva a procurarem no Youtube “um sonho de vida”.

“Não ver outras alternativas pode torná-los suscetíveis à influência de pessoas com outras intenções“, ressalta a especialista.

“Os miúdos querem ser ‘youtubers'” para serem aceites e famosos

Ser “youtuber” é, hoje em dia, uma opção profissional e foram os mais novos que mais rapidamente repararam nas vantagens de uma carreira “mediática”.

“Vejo professores que perguntam aos seus miúdos e 80% deles querem ser ‘youtubers'”, diz Tito de Morais, que acredita que pais e filhos deixam-se, muitas vezes, levar pela promessa da fama fácil e rápida.

“As pessoas ficam com a ideia de que vamos ser todos ricos a criar canais no Youtube e a jogar Fortnite. Esqueçam. Isto é uma realidade para muito poucos”, assegura, pedindo às autoridades para estarem “atentas a este tipo de situações” que envolvem “youtubers” menores.

“Na realidade, estamos a falar é de exploração de trabalho infantil”, sublinha, acrescentando que, neste caso, também se trata de “manipulação”.

“Vejo professores que perguntam aos seus miúdos e 80% quer ser youtuber”

Ana Jorge também defende que é preciso orientar os pais. “Há novas questões a surgir. Os pais estão à procura de orientação e não há fórmulas únicas e milagrosas para dizer como é que isto se deve fazer”, admite. “Mesmo tendo conhecimentos mais técnicos sobre o mundo digital, por vezes surgem questões que não são previsíveis”, remata.

A psicóloga Ana Neves concorda e diz acreditar que os pais têm de ser “educados para este novo fenómeno”.

“Os pais têm de saber o que está a acontecer e têm de perceber o que isto significa para os seus filhos, mas também precisam de ser educados e perceber o que isto significa para eles, enquanto pessoas, e quais são as repercussões disto no futuro.”

A culpa é dos pais?

Muitos foram os dedos apontados aos pais dos jovens que aparecem nos vídeos. Tito de Morais, no entanto, tem outra visão do que poderá acontecer nestes casos.

“É muito fácil cairmos em cima dos pais e perguntar onde estão os pais destas crianças. Às tantas, muitos deles estavam a acompanhar os filhos e não se apercebiam das situações”, refere.

Tal acontece porque, muitas vezes, os pais “acompanham os filhos de forma ingénua”, pensando que estão a ajudá-los a cumprir o sonho de se tornarem famosos no Youtube. “Os pais precisam de ser críticos. Não podem entregar os filhos a qualquer ‘youtuber'”, lamenta, acreditando que, nestes casos, o gestor pode ser encarado como uma figura de autoridade ou um meio de atingir um fim.

“Somos treinados para aceitar aquilo que as autoridades nos dizem”, o que nos deixa vulneráveis “quando somos expostos a pessoas que se fazem passar por uma autoridade”.

Já Ana Jorge entende que o papel de um agente de “celebridades digitais” ou das agências que fazem a assessoria destes “influencers” é o de ajudar os jovens e as suas famílias a lidarem com a potencial fama repentina.

“Os outros agentes que existem no mercado estão completamente na invisibilidade a ajudar precisamente os adolescentes nestes empreendimentos”, garante. “Não o vejo tanto como neste caso que, de facto, se mostra algo estranho e que merece, no mínimo, investigação por parte da Justiça.”

“Os pais precisam de ser críticos. Não podem entregar os filhos a qualquer youtuber”

Para Tito de Morais, é precisa mais “regulamentação, educação e sensibilização”, não só para as crianças e jovens, mas também para pais e professores.

A surpresa chega também por desconhecimento. Muitos pais consomem vídeos de Youtube mas escapam à “moda” dos influenciadores. Apesar de muitos terem Facebook, Instagram e até WhatsApp, falha a compreensão das plataformas que os filhos mais usam, como o Snapchat ou o Tik Tok.

“Instagram, Youtube e Facebook é o universo dos pais”, assegura Tito de Morais.

Qual é a responsabilidade das plataformas?

Muitos “youtubers” fazem carreira a chocar para chamar a atenção. É o caso, por exemplo, de PewDiePie, um dos mais conhecidos nomes do Youtube, que começou por mergulhar no mundo do “gaming”, mas rapidamente ganhou milhões de visualizações com conteúdo diversificado que se destacava por ser provocante e polémico.

A popularidade do sueco que se filmava a jogar acabou por ser beliscada quando publicou um vídeo onde pagava a dois homens para empunharem sinais onde se podia ler “Morte a todos os judeus”. A brincadeira saiu-lhe cara: foi notícia em todo o planeta pelas piores razões e levou-o a perder o apoio da Disney, com quem estaria a preparar negócios.

Mais recentemente, outro “youtuber”, Paul Logan, também foi obrigado a pedir desculpa depois de ter filmado um homem enforcado numa floresta no Japão.

Os dois casos levantam questões sobre quem produz conteúdo, mas também sobre as plataformas que os albergam. O Youtube, por exemplo, na sequência do sucedido com Paul Logan, mudou as regras do jogo. Mas será isso suficiente?

Estes “youtubers”, defende Ana Jorge, são “reféns” da necessidade de “tentar atrair audiências e produzir continuamente” para continuarem relevantes.

“Os produtores estão a ser pressionados a produzir constantemente, quase diariamente, a cativar audiência, a ultrapassar novos limites porque os algoritmos assim o ditam.” A especialista aponta o dedo às plataformas “que estão a lucrar com o conteúdo produzido” por estes jovens, e que deviam “controlar os conteúdos de forma a que cumpram certos princípios aceites socialmente”.

Isto torna-se especialmente premente se nos recordarmos que estes jovens estão a falar para outros jovens, que acreditam no que veem no ecrã.

“O que os ‘youtubers’ mais populares dizem é tomado como verdade pelo público a que chegam”, refere Ana Jorge, salientando o risco da “desinformação” que isto representa, mas também do “surgimento de discursos mais extremistas e populistas”, que rapidamente podem espalhar-se por estes meios.

“É preciso olhar com atenção para estas plataformas que estão a ganhar muita visibilidade e uma grande importância na vida das crianças”, remata a professora da Universidade Católica.

“Os produtores estão a ser pressionados a produzir constantemente”

Para contrariar esta tendência, Ana Jorge acredita que há um “movimento para recalibrar” a realidade, sob o qual se defende que “há certos limites que têm de ser respeitados”.

Apontar o dedo às marcas

Tito de Morais, responsável pelo projeto “Miúdos Seguros na Net”, sublinha que as marcas que patrocinam este tipo de fenómenos têm culpas no cartório.

“As marcas também têm responsabilidades, têm de ter noção do que estão a apoiar e a incentivar”, defende. “Devia haver algum escrutínio às entidades que apoiaram este grupo. Alguns deviam fazer ‘mea culpa’.”

Ana Jorge defende o mesmo tipo de escrutínio. A investigadora acredita que os patrocinadores têm “a responsabilidade de verificar e de fazer algum controlo sobre o tipo de comunicação e conteúdos que eles estão a passar”, servindo as mesmas para “balizar e dar referências do que é aceitável”.

Quem está mais vulnerável?

Para Ana Jorge, os “adolescentes mais novos”, entre os 10 e os 13 anos, sobretudo as raparigas, são o público mais vulnerável nas interações digitais. Juntam-se a esse grupo as crianças e jovens “de famílias mais desfavorecidas” que, explica a investigadora, têm maior tendência a ligarem-se “a esta cultura da celebridade clássica”.

Também Ana Neves acredita que as vulnerabilidades aparecem “quando a família está mais vulnerável”. “Acredito que os jovens estão vulneráveis porque andam à procura de influências externas, de uma imagem que lhes é dada”, diz.

Nas redes sociais, no entanto, ninguém está imune a “esta ideia de ser famoso”, que “parece ter-se tornado acessível a qualquer um”, diz Ana Jorge. “Há mais a ilusão de que qualquer um pode ser famoso.”

Ana Neves acrescenta, por sua vez, que “a promessa de ter muitos seguidores” e de ter “uma boa vida” com isso pode ter repercussões “nas relações humanas do dia a dia”.

“Não podemos achar que vamos retirar uma criança de uma situação de perigo quando não dotamos a sua família de competências para conseguir ultrapassar este problema”, diz.

“Há coisas que não são para partilhar”

Uma tendência a que também poucos parecem estar alheios é a partilha da intimidade. Afinal de contas, as redes sociais servem para partilhar, mas será que não estamos a partilhar demais?

“A questão da privacidade é fundamental. Há coisas que não são para partilhar, que não são para contar aos pais. São coisas pessoais. Uma das coisas que mais me assusta ver é a perda da intimidade e da individualidade”, explica, acreditando que, sem isso, “perdemos a noção do nosso limite”.

“As redes sociais não me assustam. Estamos todos lá. Temos é de ter noção de que há coisas que não são daquela esfera, são da nossa esfera. E é bom e bonito ser privado.”

Como estabelecer limites no “admirável novo mundo” digital?

Há que ajudar os jovens a navegar nas movediças lides das redes sociais. Especialmente se houver sinais de que algo não está bem.

“Os pais têm de perceber se existem sinais de ansiedade, tristeza, quebra do rendimento escolar, isolamento, dificuldades em dormir, baixa auto-estima”, explica a psicóloga Ana Neves. “Os pais devem estar atentos a isto e falar com os seus filhos para perceber se precisam de algum tipo de apoio e se existe algo que os está a influenciar, a coagir ou a chantagear de alguma forma.”

Se tal se verificar, tanto os pais como a própria criança podem pedir ajuda às autoridades competentes ou diretamente à Comissão de Proteção de Crianças e Jovens (CPCJ), pois são estes organismos que “protegem os direitos das crianças”.

“Só conseguimos combater situações de violência com apoio e os jovens têm de perceber isso: que não existem estes segredos maus, que eles não têm de viver sozinhos com isto”, esclarece.

Igual opinião tem a investigadora Ana Jorge, que acredita que a melhor estratégia passa pelo acompanhamento, por parte dos pais, dos “tipos de canais e tipos de conteúdo” que os filhos consomem para “suscitar a conversa” e “dar referências” aos mais novos “do que é aceitável e do que não é”.

Ana Neves completa: “Eles que não tenham medo de olhar para o que os filhos procuram. Temos de ser capazes de não nos assustarmos, porque não se consegue uma relação com o adolescente proibindo. É preciso saber o que se estáa passar para estabelecer o limite, que é fundamental para o jovem.”

A questão do limite repete-se quando se olha para estes fenómenos. “Os pais precisam de ouvir, de querer perceber onde os filhos estão, o que é que eles veem, como é que veem, com quem veem, quem são os amigos e depois tentar, para além de compreender, explicar e viver a relação com os filhos”, acrescenta.

Ambas acreditam que, para além dos pais, que devem procurar informar-se sobre os novos desafios que os filhos enfrentam, também a escola pode ser uma boa alavanca para um maior entendimento deste “novo” mundo.

“As escolas estão preparadas”, admite Ana Neves, lembrando que os estabelecimentos de ensino “têm psicólogos a pensar nestas questões e a olhar para os jovens”.

“O primeiro ‘influencer’ tem de estar em casa”

Para a psicóloga Ana Neves, nada no comportamento das crianças da nova geração, que desejam ser influenciadoras ou estrelas do Youtube, é surpreendente.

“O que estes miúdos querem é ser aceites. Querem ser populares, ter um estatuto social elevado, ser aceites pelos seus pares e estar no topo”, explica. “Isto faz parte das relações humanas. Queremos sentir-nos bem, queremos ser aceites pelos outros. As queixas são as mesmas, as plataformas é que mudam”, salienta.

Nada disto é novidade, mas pode ter um significado diferente nos tempos que correm: tudo está no que “este tipo de relação e de necessidade de aceitação quer dizer”.

“Será que estas crianças estão a ter relações pessoais e de amizade com laços afetivos que são importantes? Temos de regular as relações das crianças de forma a que elas não sejam superficiais”, alerta.

É esse exatamente o maior desafio para os pais, acredita a psicoterapeuta: “criar relações de qualidade” e “ter tempo para brincar com os filhos”.

“O que estes miúdos querem é ser aceites”

“Olhem para os seus filhos, percebam quem são os amigos, percebam o que é que eles veem, que redes sociais utilizam, que videos vêem, fiquem com eles, percebam o que eles estão a ver, percebam o que eles querem ser no futuro, entendam-nos e percam tempo com isto. Estejam com eles, relacionem-se com eles. O primeiro ‘influencer’ tem de estar em casa”, defende, lamentando a falta de tempo dos pais para os filhos, muitas vezes imposta pelo ritmo frenético do dia-a-dia.

“Os pais, hoje em dia, têm muita dificuldade em ter tempo para parar, para ouvir, para estar, para brincar”, diz. Por isso, acabamos por não olhar para as suas necessidades e não nos “conseguirmos colocar no lugar deles”.

Apesar disso, Ana Neves defende que as redes sociais “não têm de ser encaradas como um grande problema”, mesmo que tenham os seus perigos.

Um deles é a figura do ‘influenciador’. Porquê? “Estamos a estruturar uma imagem igual para todos. Temos de ter cuidado para que a singularidade de cada um seja respeitada e permitir que as crianças sintam que podem ser diferentes. Temos de passar a ideia aos nossos jovens de que podem ser únicos”, defende.

“Há o perigo de massificarmos. Em vez de procurarmos novas formas de expressão da singularidade de cada um, há este perigo de massificar a forma como se pensa”, entende, pelo que apela aos pais para “estarem atentos” e reforçarem as relações que criam com os filhos, até porque o perigo da massificação abrange todas as gerações.

“Acho que os adultos também estão a passar por isto”, sentencia.

No final, no entanto, há uma constante que não deve mudar tão cedo… “As formas de comunicação são muito rápidas e têm mudado muito depressa, mas o amor não muda assim tão rapidamente”, assegura.

“Estamos um bocadinho perdidos a tentar entender como é que se faz tudo isto e como é que se comunica mas, não querendo ir ao cliché, o amor salva tudo. As pessoas quando gostam e quando querem perceber e entender, acabam por arranjar forma de o fazer”, remata.

Agarrados ao YouTube

Setembro 9, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Gonçalo Delgado

Notícia do Notícias Magazine de 14 de agosto de 2019.

Estudos, psicólogos e pais constatam tendência crescente. Influenciadores seduzem com o discurso simples, muitas vezes “proibido”, e com a ilusão da fama e de uma vida faustosa. Mas o que tem de divertido e didático também pode ter de pernicioso – e o caso da “Team Strada” é só o mais recente exemplo disso. Um manual de instruções para lidar com o projeto de estrela que tem lá em casa.

Por Ana Tulha

Beijos na boca a menores, toques ostensivos no peito e nas pernas de jovens raparigas e até uma entrada repentina e prolongada pela casa de banho onde uma adolescente clama por privacidade. Tudo registado em vídeo e amplamente exposto na Internet. Estas e outras imagens arrastaram, no final da semana passada, o canal do YouTube “Team Strada” (gerido por Hugo Strada, youtuber de 36 anos) para o olho do furacão.

Depois de várias denúncias no Twitter e de uma queixa do grupo VOST Portugal – Voluntários Digitais para Situações de Emergência – à Comissão Nacional de Proteção de Crianças e Jovens, foi o próprio YouTube a fechar o canal “Team Strada”. O caso está agora nas mãos do Ministério Público, a quem competirá decidir da legalidade das práticas seguidas pelo projeto. Mas a polémica teve já o condão de despertar a atenção e a preocupação de muitos pais em relação a esta rede social.

Afinal, o que andam os nossos filhos a ver e que impacto é que isso pode ter na postura e no desenvolvimento deles? Há riscos? O que fazer quando não largam os tablets (ou os computadores ou os telemóveis) para não perderem pitada dos conteúdos divulgados pelos youtubers que gostavam de ser? Estas e outras questões andam, por estes dias, na mente de muitos pais, zelosos pelo bem-estar e são crescimento dos filhos.

E essa necessidade de saber mais só pode ser uma boa notícia. É Tito de Morais, responsável pela associação “Miúdos Seguros Na .Net”, quem o garante: “Isto serve-nos de alerta, porque andávamos todos distraídos. Para mim, o interessante [neste caso] é o alerta que fica sobre a forma como este tipo de youtubers e personalidades podem fazer grooming [aliciamento] sexual através da Internet. A ideia de que uma figura externa poder ser aquela que vai realizar os nossos sonhos é perigosa, pelo ascendente que exerce. Os miúdos têm de ter noção de que aquilo que mais desejam pode ser a maior vulnerabilidade.”

O totó, o gay, a jovem abonada

Com conta aberta desde abril de 2018, o projeto “Team Strada” foi criado por Hugo Strada, youtuber de 36 anos (também autointitulado gestor de artistas e produtor de eventos), com o objetivo de juntar jovens youtubers e criar conteúdo colaborativo. O projeto incluía uma casa partilhada, cenário de muitos dos vídeos divulgados no canal que, antes de ser encerrado, andava já perto dos 200 mil seguidores. Entre o conteúdo dos vídeos, havia partidas, desafios e atividades radicais.

E à boleia da fama cibernética, a “Team Strada” tinha já dado o salto para outros palcos, com a participação em vários eventos públicos e até parcerias com artistas e marcas. João Leal, professor de 38 anos, natural de Montemor-o-Velho, pai de duas crianças, de 11 e 6 anos, esteve recentemente num desses eventos, que decorreu no princípio de julho, na Figueira da Foz.

“Arrastado” pela filha mais velha, seguidora do grupo, João assegura ter saído de lá profundamente dececionado – e preocupado – com o que tinha acabado de ver. “Foi um espetáculo deprimente. Andavam para lá aos saltos, a tentar cantar em play-back algumas covers, e notava-se que muitos deles não estavam no seu estado normal. Pelos movimentos que faziam, pelas caras com que estavam, dava todo o ar de estarem alcoolizados ou sob o efeito de estupefacientes”, relata à Notícias Magazine, dando conta de um grupo pensado na fidelização de um público o mais abrangente possível.

“Era evidente que havia ali vários miúdos, de todos os estratos e grupos sociais. Desde o betinho ao miúdo que é mais totó, passando pelo gay, pela menina afro, pela miúda com um peito enorme, exposto de forma quase gratuita. Percebia-se que aquela organização foi pensada para que houvesse o máximo de população possível a segui-los.” João lamenta ainda que, além de apelarem aos fãs para lhes levarem uma variedade de produtos (“Coca-Colas, bolachas e outras coisas”), os elementos da “Team Strada” tenham decidido à última que não iam ficar para autógrafos, desiludindo os fãs presentes. “Tudo aquilo levou-me logo a alertar a minha filha para os comportamentos daquele grupo”, recorda João.

Pouco tempo depois, estalava a polémica: primeiro foi o humorista Pedro Teixeira da Mota a partilhar no Twitter o vídeo de um excerto da participação do grupo no programa Curto Circuito de 22 de julho, em que é possível ver Hugo Strada a beijar na boca um dos elementos do grupo (menor de idade), depois foi o youtuber João Sousa a publicar, também no Twitter, uma compilação de imagens duvidosas dos vídeos da “Team Strada” – entre as quais, as tais cenas envolvendo toques ostensivos e entradas inapropriadas em casas de banho ocupadas.

Pelo meio, até ex-elementos do grupo recorreram às redes para lançar queixas e acusações. Daí até o caso ganhar dimensão generalizada, com intervenções do Ministério Público e do próprio YouTube, foi um pequeno passo. A tudo isto, Hugo Strada respondeu com uma curta mensagem divulgada no Instagram, em que garante estar a ser alvo de comentários difamatórios e de manipulação de imagens, prometendo “encaminhar o assunto para que sejam tomadas medidas legais para repor a verdade”. A NM tentou, através do contacto telefónico que está disponível na página da “Team Strada” no Facebook, obter mais algum comentário ao caso, mas não recebeu qualquer resposta.

O sonho de ser famoso

Entretanto, as reações, dos psicólogos aos académicos, multiplicaram-se. “Acho que [o que se vê nos vídeos] é perigoso e faz com que as pessoas fiquem desconfiadas de todos os conteúdos”, admite Bárbara Romão, especialista em pedopsiquiatria desde 2008 e coordenadora de um estudo sobre o uso das redes sociais pela comunidade juvenil em São Miguel, nos Açores.

Entre as conclusões do estudo, baseado numa amostra de 547 estudantes, destaque para o facto de 51% dos inquiridos ter começado a utilizar a Internet a partir dos três anos de idade e de o YouTube ser já a rede social mais utilizada pelos jovens ouvidos neste inquérito – no seguimento de outros estudos internacionais recentes, que também têm apontado essa tendência. Habituada a ter no consultório muitas crianças e jovens que não passam sem esta rede social, Bárbara Romão, também ela mãe de um jovem de 12 anos, ajuda a explicar o fascínio exercido pelos youtubers junto dos seguidores, sobretudo entre os mais novos.

“O facto de estes youtubers serem, regra geral, jovens adultos que por um lado têm uma vida aparentemente independente, sem adultos a controlar, e por outro já aparentam ter uma vida que muitos desejam, até exibindo casas com boas condições, é algo que atrai muito os jovens”, justifica a pedopsiquiatra, que arrisca traçar um perfil-tipo dos youtubers mais conhecidos: “São carismáticos, bons comunicadores, têm o poder de conseguir que as pessoas lhes prestem atenção e utilizam muito o humor.” Como? Através de vídeos que vão desde os relatos do quotidiano às paródias, passando por críticas e dicas das mais diversas áreas.

Tito de Morais acrescenta outras explicações para o encantamento. “O facto de comungarem do mesmo tipo de interesses também é relevante. Até porque muitas vezes estes youtubers também são gamers, que jogam os mesmos jogos que eles. E depois também é o efeito manada. O desejo de pertença a um grupo que partilha do mesmo tipo de interesses faz com que os miúdos não se sintam excluídos.” E ainda há o chamariz de parte destes influenciadores exibirem vidas faustosas, que despertam em muitas crianças e jovens o sonho de se tornarem, eles próprios, youtubers.

Tito de Morais, habituado a receber contactos das mais variadas proveniências, através da página “Miúdos Seguros Na .Net”, conta que, recentemente, teve duas professoras do primeiro ciclo a partilharem a estupefação por perguntarem aos alunos o que queriam ser e três em cada quatro responderem que querem ser youtubers. E um estudo recente da Harris Poll, a mais antiga empresa de estudos de mercado dos Estados Unidos, aponta no mesmo sentido. De um inquérito preenchido por pais e crianças entre os oito e os 12 anos, dos EUA, China e Reino Unido, resultou que 29% destes jovens sonhavam, antes de mais nada, ser youtubers.

Os riscos começam aí, na ilusão de que esse “estatuto” garante uma vida desafogada – e de que é fácil chegar lá. “Há dez anos, para se ser famoso, regra geral, tinha de se passar pela televisão. Hoje em dia não. Está-se a criar o mito da fama. Há a sensação de que ao ser youtuber se pode conseguir ter uma boa vida, que dificilmente se consegue com um part-time, por exemplo. E isto do querer ser famoso pode tornar-se uma grande vulnerabilidade, possivelmente aproveitada por pessoas com más intenções”, alerta Ana Jorge, professora de Comunicação na Universidade Católica de Lisboa e autora de uma tese de doutoramento relacionada com a cultura das celebridades e os adolescentes.

A investigadora ajuda a compreender os primórdios do fenómeno. “Inicialmente, o YouTube surgiu muito como um repositório de vídeos, que já tinham circulado noutros meios. Aos poucos, foi-se tornando mais um lugar propício para alojar este lado dos produtores de conteúdo original, até pela possibilidade de monetização.” É neste contexto que, no início da década, surgem em Portugal os primeiros vloggers – bloggers que produzem conteúdos vídeo. De vloggers passaram a youtubers (e a influenciadores), associaram-se a populares campanhas de telemóveis e até se juntaram em mansões luxuosas. Tudo sementes de um fenómeno de popularidade hoje incontestável, capaz de fazer sonhar os mais jovens com o estrelato.

Sónia Sousa, mãe do youtuber João Sousa, de 18 anos (e de uma menina de nove anos que já é vidrada no YouTube), reconhece que as coisas nem sempre são assim tão simples. “Confesso que no início achei mais piada do que o que acho agora. Quando eles começam, há menos responsabilidade. Não há agentes, não há nada. É só uma distração. Depois, quando são agenciados, têm de cumprir contratos, torna-se quase uma profissão”, admite.

Sónia conta que com 10, 11 anos, o filho (que tem um canal no YouTube desde os oito) andava convencido que ia ganhar muito dinheiro à conta desta rede social, mas que agora, também com a ajuda dos pais, que sempre lhe tentaram incutir isso, “já tem outra consciência”, tanto que está a pensar avançar para uma licenciatura na área da Comunicação Social. Ainda em relação ao YouTube, o melhor para Sónia Sousa, 45 anos, é mesmo “ver o carinho dos miúdos – e mesmo dos adultos – pelo filho”.

Tomar banho para quê?

Para os mais novos, os influenciadores depressa se tornam “role-models”. Nalguns casos, a influência exercida pelos youtubers junto dos seguidores é de tal ordem que estes chegam a imitar posturas, comportamentos e expressões dos ídolos. Por vezes, até a própria língua. Quem acompanha de perto o fenómeno garante que há cada vez mais crianças e adolescentes a falarem frequentemente com sotaque brasileiro, por influência dos youtubers daquele país (bem mais populares e numerosos do que os portugueses).

“Já tive uma menina numa consulta que simplesmente se recusava a falar português sem sotaque brasileiro”, partilha a pedopsiquiatra Bárbara Romão. A replicação de comportamentos, que dependerá sempre da idade e da personalidade do jovem em causa, pode ser tanto mais preocupante quanto mais duvidosas forem a postura e a mensagem passadas por estes influenciadores. Luísa Agante, investigadora na área do marketing infantil e autora da página Agante & Kids, aponta um exemplo concreto.

“A quantidade de tempo que os miúdos passam no YouTube e a quantidade de coisas a que têm acesso é enorme e condiciona-os completamente. Por exemplo, há um youtuber brasileiro, o Lucas Neto, que costuma dizer: ‘Eu quero ser rico e ter uma casa de oiro.’ Os miúdos replicam isso. Há uns tempos, fez um vídeo em que dizia que só precisava de tomar banho uma vez por semana.

Entre os youtubers portugueses também já houve polémicas deste género. Wuant, por exemplo, foi alvo de duras críticas quando, num vídeo intitulado “soluções para os problemas”, aconselhou os jovens a mandarem as mães “para o cara…” quando os acordassem para ir para a escola. De resto, nos vídeos partilhados por este youtuber, é comum ouvirem-se palavrões aqui e ali. O registo não agrada aos pais, mas, por vezes, funciona como chamariz para os mais novos.

“Eu costumo ir às escolas fazer ações de sensibilização e já tive miúdos que me estão a falar dos youtubers que veem e depois acrescentam: ‘Mas não vá ver, que ele diz muitas asneiras.’ Ou: ‘Mas não vai contar nada disto ao meu pai, pois não?’ É uma espécie de segredo que fica entre a criança e o youtuber”, frisa Tito de Morais.

Os riscos não se esgotam na replicação de postura e palavreado menos corretos. “O maior perigo é o isolamento que se cria. O YouTube pode tornar-se algo aditivo, viciante. E há outras coisas associadas a isso. Com a exposição a um ecrã que, por vezes, em termos de conhecimento é muito pobre, os jovens acabam por perder espírito crítico e a possibilidade de ver coisas construtivas. Pode haver também um bloqueio da criatividade e um baixo tempo de permanência em tarefa. Aborrecem-se facilmente. Além de que é um elemento perturbador das dinâmicas familiares. Às vezes, só o facto de terem de ir para a mesa é uma seca porque têm de desligar as máquinas. Então, vão aborrecidos e mortinhos para voltar para o computador”, destaca a pedopsiquiatra Bárbara Romão, que refere ainda uma “crise de autoridade dos pais, que têm dificuldade em traçar limites e acham que tudo tem de ser decidido pelos filhos”.

O que fazer. E as boas notícias

Um sinal dos tempos? “O principal risco é olhar para isto como algo inócuo. Na verdade, tem tudo a ver com o tipo de vida que temos. Numa altura em que vivemos com muita pressa e com muito stress, quando os pais chegam a casa é confortável ter os miúdos distraídos com o YouTube. E, depois, os vídeos têm que ser todos tão estimulantes que acho que os nossos filhos estão a perder a capacidade de ficarem aborrecidos”, acrescenta Luís Pereira, que estuda a área da literacia digital.

O investigador, que pertence ao departamento de desenvolvimento académico da Coventry University, no Reino Unido, deixa por isso um alerta: “É importante que os pais percebam quanto tempo os filhos passam a ver estes programas. E que deem uma vista de olhos no histórico, para perceber, por exemplo, se andam a ver algum vídeo que não deviam. Há que impor limites, em termos de tempos e o dos vídeos que são vistos. E há que promover uma certa diversidade de conteúdos.”

Acompanhar é, por isso, a regra de ouro. Saber de que vídeos os filhos gostam, que canais seguem, quem são os ídolos. Sob pena de se criar uma barreira intransponível entre pais e filhos. No caso dos mais novos, cingir o acesso ao “YouTube Kids”, com conteúdos muito mais restritos, ou mesmo recorrer a software de controlo parental (ver caixa) são também soluções a ter em conta.

A investigadora Luísa Agante chama ainda a atenção para a necessidade de haver outros intervenientes no processo: “É preciso muita intermediação parental, mas professores e educadores também deviam intervir mais neste processo. Para isso, é preciso instruí-los para falarem sobre estes temas.”

Até porque também há que ter em conta o elevado potencial didático e construtivo do YouTube. “É uma fonte de conhecimento como nunca existiu na vida. Pode ser uma atividade altamente enriquecedora”, enfatiza o investigador Luís Pereira. Tito de Morais acrescenta que “uma criança que comece a produzir os seus vídeos vai ganhar conhecimentos de edição e desenvolver a criatividade, ao pensar conteúdos”.

“É preciso transformar isso num projeto familiar, para que se possa tornar educativo e para que permita desenvolver interesses pela música ou pelo desporto, por exemplo.” SirKazzio, youtuber português com mais de cinco milhões de subscritores, garante que tenta “ao máximo passar uma imagem alegre, divertida, mas respeitosa”, tentando também fazer ver aos mais jovens que, além dos vídeos, “há mais coisas que os podem entreter, como os livros ou a música”.

“Embora nem todos o façam, acho que a maioria dos youtubers tenta fazer entender às crianças que primeiro devem estudar, que não devem ser agressivos, que não devem tentar imitar alguns vídeos, entre muitas outras coisas.” Sobre o caso “Team Strada”, não teceu comentários.

A esse propósito, Ana Jorge, investigadora na Universidade Católica de Lisboa, deixa uma questão, que vai além dos utilizadores: “Como é que estes conteúdos circulam tanto tempo sem que ninguém se aperceba? As pessoas que veem este tipo de coisas devem denunciar. E o YouTube deve verificar, até porque é quem mais beneficia economicamente”.

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