O lugar onde menina veste azul e menino veste rosa

Outubro 20, 2019 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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A escola é o lugar ideal para questionar as desigualdades de gênero
(© Keystone / Christian Beutler)

Notícia e imagem do site Swissinfo de 11 de outubro de 2019.

“Quando eu estava na escola, a aula de economia doméstica só era feita por meninas, elas aprendiam a costurar meias ou cozinhar”, lembra uma suíça de 60 anos. Uma aluna de 15 anos, que mora no mesmo bairro da senhora suíça, não consegue imaginar tal segregação: “Com a gente, nas aulas de economia doméstica, meninas e meninos cozinham e aprendem a trocar lâmpadas juntos”.

No entanto, a igualdade de gênero na educação ainda está longe de ser alcançada na Suíça. O desenvolvimento ainda depende muito do fato de você ser uma menina ou um menino. No final da escolaridade obrigatória, as mulheres tendem a escolher empregos que pagam menos e oferecem menos oportunidades de carreira.

Na verdade, o modelo de família tradicional, onde o homem trabalha e a mulher cuida das crianças, ainda é bem popular. Os dados do Departamento Federal de Estatística mostram que, em 2018, entre a população ativa com filhos menores de 25 anos, a proporção de mulheres que trabalham a tempo parcial atingiu 78,8%, contra apenas 11,7% para os homens.

Estereótipos implícitos

Como em todos os outros lugares onde as crianças são socializadas, a escola também transmite mensagens sobre a diferença de gênero. De acordo com uma pesquisa realizada em escolas primárias nos cantões da Suíça francesa, o 2e ObservatoireLink externo, um instituto suíço de pesquisa e formação sobre relações de gênero, constatou que os professores nas escolas tendem a se concentrar em:

  • dar mais voz aos meninos
  • ser mais tolerante com o barulho dos meninos
  • chamar os nomes das meninas com menos frequência do que os dos meninos na sala de aula
  • disciplinar menos as meninas do que os meninos

Em seu Guia de PrevençãoLink externo publicado no ano passado, o instituto observa que “os profissionais da primeira infância, como os professores, têm expectativas diferentes e atribuem certas características às meninas e outras aos meninos”.

Na escola, os estereótipos de gênero estão geralmente implícitos na linguagem. “Por exemplo, quando falamos de tudo relacionado à família, como almoço, aventais para trazer para a escola etc., muitas vezes nos referimos a ‘sua mãe’ ao invés de ‘seus pais'”, observa Seema Ney, responsável pelo projeto Escola da IgualdadeLink externo.

Na Escola da Igualdade

“Certamente, as escolas reproduzem certas desigualdades, mas acima de tudo são também um lugar onde essas desigualdades podem ser questionadas”, continua Seema Ney. Um dos objetivos da Escola da Igualdade, uma nova ferramenta pedagógica lançada no início deste ano, é sensibilizar os alunos para os estereótipos de gênero, a fim de lhes permitir identificá-los e ultrapassá-los.

“Com este material didático fácil de usar, esperamos encorajar os professores a introduzir considerações sobre a igualdade de gênero de tempos em tempos, seja através das aulas de francês, matemática, geografia ou história”, enfatiza o professor.

Uma das sequências pedagógicas da primeira cartilhaLink externo, por exemplo, abre a discussão em torno de um e-mail. “Olá vovô, estamos preparando na escola as fantasias para o desfile de fim de ano. O tema é o esporte. Na minha turma, as meninas vão se vestir de bailarinas e os meninos de jogador de futebol. Você sabe que adoro futebol… Mas não me atrevi a dizer que queria me vestir de jogadora… Beijos! Zora”.

Ao ler o texto, e entrando no papel do avô para respondê-lo, os alunos aprendem a escrever um e-mail e a se questionar: por que Zora está frustrada? O que eu poderia dizer para ela? O que eu faria no lugar dela?

O objetivo é abrir a discussão sobre estereótipos para permitir que os alunos, meninas e meninos, façam suas próprias escolhas. Não se trata de incentivar as meninas a se vestirem de jogadoras de futebol, mas de fazê-las entender que elas podem se vestir como jogadoras ou bailarinas, desde que as escolhas não sejam feitas só para combinar com os papéis tradicionais de gênero.

O pátio da escola no centro das questões

As meninas que gostam de futebol não são deixadas de fora só no desfile, mas também na hora do recreio. “Isso me irrita, que os meninos na escola não nos deixam jogar futebol… não é legal… O problema é que eles têm muito espaço no pátio e às vezes eles saem do espaço deles e por isso temos ainda menos espaço…”, diz uma menina de 9 anos no curta “Espace”:

Os estereótipos e desigualdades de gênero são frequentemente expressos em interações entre meninas e meninos. O 2e Observatoire ressalta que as meninas tendem a brincar em espaços restritos, enquanto os meninos se espalham por todos os lados, invadindo o espaço ocupado pelas meninas.

“O pátio da escola é muitas vezes considerado um espaço livre para os alunos e os professores não vão discutir com eles o que pode ser feito durante o recreio”, diz Seema Ney. “Ser capaz de intervir adequadamente levaria, sem dúvida, a uma partilha de espaço que seria mais apropriada para todos”.

Para meninas, mas também para meninos

De fato, no pátio da escola, não só os meninos proíbem as meninas de jogar futebol, mas também as meninas proíbem os meninos de brincar de elástico. Na escola, os meninos também são envolvidos por normas de gênero, que exigem, por exemplo, que eles provem sua masculinidade. “É muito difícil para alguns. E pode levar a consequências graves, como assédio, se não prestar atenção”, diz Seema Ney.

Além disso, de acordo com um relatórioLink externo publicado em 2014, os meninos devem enfrentar mais pressão social do que as meninas se estiverem interessados em profissões “atípicas”. Quando uma menina diz querer ser pilota de caça ou bombeira, sua família e amigos, mesmo que pareçam surpresos à primeira vista, apreciarão a particularidade e a coragem de sua escolha. Ao contrário, se um menino diz querer trabalhar em uma creche, ser enfermeiro ou florista, ele risca de ser considerado uma pessoa sem virilidade ou mesmo sem futuro profissional.

Na Suíça, a maioria dos jovens deve escolher a orientação profissional antes dos 15 anos de idade. Para meninas e meninos, ansiosos para serem aceitos por seus pares e sensíveis a gênero, não é fácil ir contra a definição rígida da sociedade. Portanto, é particularmente importante estabelecer a capacidade de identificar e resistir aos estereótipos de gênero desde a infância.

Na escola da igualdade, a princesa trabalha com madeira, o super-homem leva o bebê para passear. Nas aulas de ciências, os alunos aprendem que “nos pinguins, é o macho que choca o ovo e a fêmea que vai longe para procurar comida”; nas aulas de matemática, os alunos ajudam Rosie, uma garota apaixonada por máquinas de inventar, a contar suas ferramentas ou ajudam o florista Oscar a calcular o número de buquês vendidos.

“As desigualdades de gênero são prejudiciais para meninas e meninos”, diz Seema Ney. “As nossas cartilhas visam promover a igualdade entre meninas e meninos em formação e alcançar uma melhor igualdade de gênero.”


Adaptação: Fernando Hirschy, swissinfo.ch

Calendário Escolar 2019/20 para impressão

Outubro 16, 2019 às 8:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Alunos querem aulas com pausas para conseguirem manter concentração e interesse

Outubro 2, 2019 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Expresso de 25 de setembro de 2019.

Sugestão faz parte de livro que contempla várias recomendações dos estudantes. Secretário de Estado da Educação esteve presente no lançamento.

Os alunos defendem que as aulas devem ter momentos de pausa que permitam recuperar a concentração e o interesse pelas matérias, segundo um caderno apresentado esta quarta-feira com recomendações de centenas de estudantes.

No passado ano letivo, cerca de 400 alunos de Lisboa, Moura e Figueira da Foz participaram no projeto ComParte & Educação, que começou em 2015 com o objetivo de ouvir a opinião dos estudantes sobre o que se poderia mudar nas escolas para melhorar o ensino.

O impacto das relações humanas para a aprendizagem foi o foco dos encontros e debates ocorridos no ano passado, durante os quais os jovens refletiram sobre a relação docente-aluno e sobre as condições para o bem-estar na escola.

“Os professores marcam, fazem a diferença e as relações estabelecidas com eles têm enorme impacto para toda a vida”, refere o documento tornado público esta quarta-feira num encontro em Lisboa, que contou com a presença de estudantes e do secretário de Estado da Educação, João Costa.

“Pequenas pausas nas aulas” é uma das oito recomendações dos “prós”, nome atribuído aos alunos que aqui são considerados os grandes especialistas em educação, por serem quem diariamente está nas escolas e para quem é desenhado o ensino.

Os alunos lembram que a duração das aulas – por vezes superior a uma hora – torna impossível manter a concentração e acreditam que fazer uma pausa em algumas disciplinas poderia ser benéfico para a aprendizagem, mas também para melhorar a relação com os professores.

“Na altura de voltar à matéria, estamos mais capazes de estar atentos e vamos aproveitar melhor o que ouvimos. Ganhamos mais motivação nas aulas em que nos divertimos com o professor”, defendem.

Para os “prós” é também importante que os professores e restantes funcionários se preocupem com eles e tenham disponibilidade para os ouvir e conversar.

Os alunos acreditam que seria benéfico criar uma relação de amizade e cumplicidade que permitisse falar de outros assuntos além das matérias que estão nos manuais: “Gostamos que nos façam perguntas. É bom sentir que o professor se importa com a nossa opinião sobre o mundo e com a nossa vida”.

“Obrigada por numa fase em que eu estava mal ter sido a primeira pessoa a reparar” e “obrigada por estar à minha espera à porta de minha casa quando recebi aquela notícia dolorosa” são duas das mensagens publicadas no livro intitulado “O início de muitas soluções: conhecermo-nos melhor!”.

Entre as outras recomendações, os alunos dizem que os docentes devem “puxar pelo melhor” que há em cada um e devem “acreditar, incentivar e valorizar” todos os estudantes.

Para os “prós”, valorizar os talentos “pode passar apenas por um comentário na aula ou uma conversa no bar, pode ser um prémio, pode ser um convite pode ser um desafio para fazer parte de um clube da escola, pode ser uma pergunta na aula ou mesmo um elogio”.

“Descobrir além dos rótulos” é a terceira recomendação de quem pede que haja “pessoas na escola disponíveis para conversar”. “Confiança é a palavra-chave, a condição essencial para abrirmos o coração. As relações, no entanto, precisam de tempo. Não é de repente que se partilha a vida mais profunda, por mais vontade que haja”, lê-se ainda no livro.

Fazer mais coisas em conjunto e a importância da primeira aula são as outras recomendações tornadas públicas. “Este caderno reflete sobre o papel da relação adulto-jovem no sucesso da educação. Dá-nos sugestões sobre a importância de conhecer bem os professores e dos alunos ou sobre o que pode ser a primeira aula. Hoje, a legislação sobre o currículo contempla que as escolas desenvolvam instâncias de auscultação de alunos, o que tem sido concretizado com eleição de alunos como diretores adjuntos ou a criação de conselhos consultivos”, defendeu João Costa.

Desde 2015, mais de 3.800 alunos participaram no ComParte & Educação e contribuíram com as suas experiências, recomendações e sugestões para uma Educação melhor.

Mais informações no link:

O ComParte

Pais que estudam pelos filhos

Setembro 28, 2019 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Rute Agulhas publicado no DN Life de 22 de setembro de 2019.

O ano lectivo ainda agora começou e já vemos pais e mães empenhados em organizar o processo de estudo… o seu, não o dos seus filhos. Pois é, existem milhares de pais que estudam, não com os filhos, mas sim pelos filhos.

Assumem os testes como sendo deles, as notas como sendo suas. Recordo-me, inclusive, de uma adolescente que chegou a casa e começou aos gritos com a mãe, acusando-a de não ter estudado “como deve de ser” e, por isso, ela (adolescente, a aluna) ter tido má nota. A mãe pediu desculpas…

Bem, temos mesmo que reflectir sobre isto.
O que queremos para os nossos filhos?

Queremos que cresçam e que sejam autónomos, ou que se mantenham dependentes dos pais ad eternum?

Queremos que sejam responsáveis e assumam as consequências dos seus comportamentos, ou que atribuam aos outros essa mesma responsabilidade?

A resposta a estas perguntas dita a forma de agir dos pais e educadores.

Se pretendemos fomentar a autonomia, independência e responsabilidade, então ensinamo-los a ler e a resumir, distinguindo o essencial do acessório. Ensinamo-los a fazer esquemas, a relacionar as matérias e a pensar! Pensar, esse verbo tantas vezes esquecido… e não apenas memorizar sem nada perceber! Ensinamo-los, ainda, a adquirir hábitos de estudo e a perceber que é bom aprender. Pelo prazer de descobrir coisas novas.

Damos-lhes a papinha toda feita, que é como quem diz, a matéria digerida e organizada. Eles apenas têm de ler ou ouvir esses tais resumos e fazer os testes.

Se pretendemos fomentar a dependência, pois estudemos por eles, Façamos os trabalhos de casa e os trabalhos de férias também. Lemos, fazemos os resumos e até os gravamos em ficheiros áudio! Damos-lhes a papinha toda feita, que é como quem diz, a matéria digerida e organizada. Eles apenas têm de ler ou ouvir esses tais resumos e fazer os testes.

Chegará o dia em que os pais fazem mesmo os testes pelos filhos? Já não sei…

Sei que no ensino superior há alunos que pedem para que os atendimentos sejam feitos… aos pais!

Sei que no ensino superior os alunos se queixam porque… há aulas ao sábado! (que professores ditadores são estes que sugerem aulas ao sábado??).

Sei que no ensino superior há alunos que perguntam se um texto deve ter uma introdução, um desenvolvimento e uma conclusão…. conteúdos que fazem parte do currículo do 2.º ano de escolaridade… sim, do 1.º ciclo…

Sei que no ensino superior há alunos que fazem queixa dos professores… porque não disseram as páginas exactas dos livros que teriam de estudar! Isto de sugerir uma bibliografia assim “sem mais nem menos” não pode ser! Temos de indicar as páginas e os parágrafos que devem ler!

Pois estes alunos, antes de chegarem ao ensino superior, passaram por todos os outros níveis de ensino. O que se passou para que atingissem este nível de dependência, desconhecimento, imaturidade e irresponsabilidade?

Naturalmente que não podemos sobregeneralizar. Mas, efectivamente, muitos destes alunos tiveram pais que sempre fizeram por eles. Estudaram por eles. Resolveram por eles. Pensaram por eles.

O que dizer destes pais? Muitas vezes, projectam nos filhos os objectivos e ambições que tinham para si próprios. Ou encontram nos filhos um meio para atingir um fim. O fim da realização e do sucesso.
Mesmo que seja um pseudo sucesso.

Siga-nos no Facebook e fique a par de todas as crónicas de Rute Agulhas (leia aqui um perfil da psicóloga).

Bibliotecário escolar e fake news

Setembro 26, 2019 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Visualizar o artigo no link:

https://app.box.com/s/wt45quv35obl1o5nmepss4bzzm2f5id0

Redação : O que eu fiz nas minhas férias de verão…!!

Setembro 4, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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“As crianças que não sabiam ler nem escrever eram postas na chamada ‘fila dos burros'”

Setembro 3, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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© Sara Matos/Global Imagens

Entrevista de Raul da Silva Mendes ao Diário de Notícias de 13 de agosto de 2019.

Carlos Ferro

Deu aulas durante 52 anos, sempre no ensino básico. Ajudou agricultores e pescadores a aprender a ler e a escrever e desenvolveu um método com que conseguiu “ganhar” para a escola crianças com dificuldades de aprendizagem. Combateu, assim, a “fila dos burros”.

Raul da Silva Mendes tem uma vida dedicada ao ensino, com especial atenção às crianças com dificuldades de aprendizagem. Estudioso, desenvolveu um método para ensinar os miúdos mais “complicados” a ler e a escrever, aqueles que há muitos anos eram colocados na “fila dos burros” na escola primária. E ainda hoje anda com um bloco onde aponta as suas investigações que gostava de ver aplicadas principalmente no ensino dos imigrantes que chegam a Portugal.

Durante a conversa, que por vezes interrompia dizendo que se calhar estava a falar demasiado – “já se sabe, um velho tem muitas história” -, falou do seu método de ensino Do Número à Palavra (cada letra está associada a um número, A=1 etc., o que permite aos alunos associarem letras até formarem palavras), das dificuldades que enfrentou e dos projetos que abraçou.

E das aulas dadas aos pescadores do Montijo, em que um deles um dia lhe disse: “A minha filha faz lá em casa uns desenhos…” E quem era essa filha que desenhava essas coisas? A artista plástica Fernanda Fragateiro.

Raul Mendes nasceu em Évora a 24 de agosto de 1940, ali tirou o curso na Escola de Magistério Primário – “era a solução para quem não podia ir para as três universidades que havia, Lisboa, Porto e Coimbra” -, mas foi no Montijo que cumpriu praticamente toda a sua carreira. É nesta cidade do distrito de Setúbal que já reconheceu o mérito do seu trabalho que vive.

Sentado numa esplanada num dos jardins da cidade, Raul Mendes desfia memórias – das aulas de Marcelo Caetano na Faculdade de Direito, das exigências de Salazar – que vão sempre dar aos alunos que ajudou. “Tive dois alunos chineses que eram muito bons. Só fizeram até ao nono ano. Hoje são dois grandes amigos. Tiveram um restaurante onde deixei de ir almoçar porque não pagava.”

Com tantos anos de carreira, ainda hoje tem uma mágoa: o não ser aproveitado como devia ser o livro de Vergílio Ferreira Vagão J, que chegou a ser censurado em 1971 e no qual as diferenças entre estratos sociais é o tema central.

Se lhe pedir para se definir, o que diria?
Sou um antigo professor do ensino primário, que agora se chama básico, natural de Évora, ali estudei e frequentei a Escola de Magistério Primário, que designei como a universidade do povo. E universidade do povo porquê? Porque a classe pobre ou mesmo média não podiam ir para as três universidades: Lisboa, Porto, Coimbra.

Portanto, o objetivo foi sempre ser professor?
A estratégia era fazer um curso médio de professor. Antigamente para se ser professor do ensino básico bastava a quinta classe, o nono atual. Fiz logo a seguir o antigo sétimo ano, que agora é o 12.º, na alínea D, Direito, fui frequentar esse curso. Só que vi que o programa jurídico não tinha nada que ver com o programa pedagógico. Pus de lado o Direito, ainda frequentei um ano – como curiosidade, era professor de Introdução ao Estudo de Direito e Direito Administrativo o professor Marcelo Caetano-, a partir daí comecei a dedicar-me aos meus alunos e sobretudo a observar melhor o que era uma sala de aula e o que era o meio familiar e as influências que tinha na escola.

E onde começou a dar aulas?
Fui morar para Carcavelos, dei aulas em Manique do Estoril.

Falou-me num livro de Vergílio Ferreira…
Há um livro dele, Vagão J, que me serviu de guia. É pouco conhecido, foi editado em 1944 e focava precisamente a ação do professor na escola e na aldeia, a influência social e política do professor e na melhoria das condições sociais dessa população. Claro que entra em contradição com Carneiro Pacheco, o ministro da Educação Nacional [entre 1936 e 1940], porque ele entendia que as crianças aos 7 anos tinham um cérebro tão plasticável, que todas as ideias que lhes incutissem lá ficavam, sobretudo as de pátria, amor a Portugal, amor ao Estado, dentro da trilogia Deus, pátria, família.

O que Vergílio Ferreira contestou?
Nesse seu livro ele diz que as crianças têm um cérebro que faz lembrar a cera, simplesmente têm outros sulcos que lhes tinham sido transmitidos ao nascer. Essa contradição custou que esse livro que eu digo tão importante e tão pouco conhecido fosse censurado. Depois é reeditado pela Livraria Bertrand numa pequena abertura do Estado Novo, em 1971, já com Marcelo Caetano.

Como foi o seu início no ensino?
Comecei a trabalhar e fiquei alarmado com a quantidade de crianças que não conseguiam fazer a primeira classe – na altura, havia avaliações na primeira classe – porque não sabiam ler nem escrever. Esses eram sistematicamente postos numa fila a que os colegas chamavam a “fila dos burros”. Logo no primeiro ano em que comecei a ensinar crianças da primeira classe reparei que eles afinal na matemática, nas operações e no cálculo eram absolutamente normais e na disciplina de Educação Visual até tinham ideias interessantes.

O problema era o português…
E então surgiu a questão: porque é que eles ao entrarem no domínio da língua portuguesa, na iniciação da leitura, se desinteressavam, mas depois nos domínios da matemática eram paralelos aos outros. Pensei: será que uma criança com dificuldades na aprendizagem da leitura prefere o número? A matemática? Será que eles na sua vida prática, ao contarem as caricas, ao contarem as pedrinhas, adquirem essas noções? E gostam de ligar a vida, a brincadeira, ao estudo, à prática? E então pensei: se fizer a simbiose do número à palavra, será que vou interessá-los? E então, no ano de 1985-86, introduzi na minha classe, a par da turma “normal”, cinco alunos que já tinham vários anos de repetentes e eram totalmente analfabetos.

Como foi a integração?
O meu estudo baseou-se no selecionar as palavras da língua portuguesa que se escrevem apenas com uma letra e, para meu espanto, são apenas seis: u, o, ã, a, é, i. Essas foram as primeiras letras que começaram a conhecer. A diferença é que, enquanto nos anos anteriores lhes davam logo de início palavras e sílabas que não lhes faziam sentido, eu só com palavras com uma letra fazia textos. Consegui pô-los a dialogar: “É o i? É o. É o u?.” Este diálogo motivou-os, diziam “já sabemos ler”.Isso dava a noção de que a leitura estava muito ligada ao número. Era a chapa 1, depois passava para a chapa 2 – palavras com duas letras -, etc., quando se chega às palavras com três letras já se podia fazer inúmeras variantes. O aluno, antes de iniciar a fase da leitura, tem de dominar o alfabeto, então construí tabelas com o alfabeto e numeradas por baixo: A -1; B – 2; C – 3 e por aí.

É uma lógica diferente do que se ensina.
Esta lógica do número e do fonema possibilitava iniciar jogos com dinâmica. Por exemplo: onde vou buscar letras que possam formar a palavra pai? E eles iam ver os números a que correspondia a letra. Esta ligação do número ao fonema ia ao encontro do problema de que a criança parece gostar mais das coisas concretas, do número. Essa é a raiz do meu trabalho. Obtive resultados sobretudo na resposta das crianças, que depois diziam “eu já não sou maluco”, “eu já sei ler”.

O suborno em bifes e os desenhos da futura artista Fragateiro

Depois das crianças, os adultos…
Fiz um curso de especialização no ensino de adultos. Para ter a carta de condução era obrigatório ter a quarta classe. Ora, havia imensas pessoas com negócios que precisavam das carrinhas e então surgiram muitos alunos a frequentar os cursos de adultos.

E as dificuldades?
Também foi uma longa aprendizagem, porque eles, ao escreverem – sobretudo os agricultores -, tinham tanta força na mão que entre a caneta e o papel rasgavam o papel. Então a estratégica foi esta: se eu fosse cavar a sua terra, não conseguia fazer um sulco. Agora aqui [na aula] estava com força a mais.

Como o professor “dá a volta” à questão?
O professor foi sempre um ator que em todas as circunstâncias tem de se adaptar e saber motivar. Porque com um aluno desmotivado não há aprendizagem.

E como conseguiu ter sucesso?
Apresentava palavras com uma letra, com duas e dizia: cá está um texto. A novidade que introduzi é que produzia um texto com significado juntando os três vetores que considero fundamentais e que são universais: o movimento, a música e o drama. Todo o texto nestas idades [ensino básico] que não for possível ser dramatizado não é texto.

Hoje ainda é assim?
O problema da formação de professores é que se diluiu a especialização. O ensino, sobretudo da escrita e da língua, leva muito tempo, o professor tem de observar, pois a escola é um laboratório. Mas hoje eles estudam imensas disciplinas e ficam preparados de maneira igual. Não há especialização e perde-se o que é fundamental: o aluno sair do ensino primário a saber ler, escrever e contar e, sobretudo, saber descodificar mensagens. Hoje a vida é uma descodificação de mensagens. Um aluno que saia iletrado da escola terá sempre dificuldades enormes em sobreviver.

O que o seu método conseguia evitar…
Sempre tive um ensino muito dinâmico. Por exemplo, quando me chegaram à sala dois chineses, o problema foi que todos os alunos diziam “eles têm os olhos em bico” e eu tive um trabalho árduo para os integrar na sala de aula, dizendo que eram meninos com outras valências, outros costumes. Que até nos iam contar quando soubessem ler e escrever histórias do seu país, sobretudo dos jogos. Eles foram sempre excelentes no cálculo, na matemática. Eram ótimos alunos, todos os dias falava com eles, mesmo no ensino secundário, queria que continuassem a estudar, mas chegaram ao nono e pararam. Até aos pais disse que eles deviam ir para um curso de Gestão, ainda por cima dominando o chinês e o português. Mas não, estão por aí, tiveram um restaurante onde eu ia almoçar e deixei de lá ir porque nunca pagava nada. São dois grandes amigos que ficaram.

Regressando ao ensino de adultos. Foram momentos difíceis?
O Salazar exigiu que para se tirar a carta de condução era necessário ter a quarta classe. E então surgiram problemas curiosos. Como, por exemplo, o gerente de um balcão do Banque Franco-Portugaise, que tinha o curso de Economia tirado no estrangeiro e teve de ir tirar a quarta classe. Os frades capuchinhos tiveram de o fazer para poderem guiar os tratores e só falavam espanhol. Depois surgiram problemas dramáticos: na Base Aérea do Montijo, os soldados só podiam sair da base se fossem o braço-direito dos pais, por exemplo, na agricultura, quando fizessem a quarta classe. Agora veja o dilema do professor primário se reprovasse um aluno – ele não saía.

E exigentes…
Tinha de ser um diálogo muito estimulante, senão eles desistiam. Por exemplo, tive um pequeno grupo de pescadores do Montijo – seis – em que a sala de aulas era a sala da casa de um deles. Um era o pai da artista que fez as ondas do mar nos relvados, a Fernanda Fragateiro – e ele dizia: “A minha filha faz para lá uns desenhos.” Ia a casa deles, falava com eles sobre a pesca, as suas dificuldades. Acabei por me integrar no meio piscatório do Montijo. Era sempre muito difícil estimulá-los, queriam o fácil, o desistir. Um dia um talhante aqui do Montijo diz-me assim: “Eu pago-lhe [para o aprovar]. Quer que lhe pague em costeletas ou em bifes?.” E eu dizia-lhe “não, quero é que você vá à sala de aula. Ele desistiu, não sei como é que fez depois”.

O professor é um ator e um fingidor

Já disse várias vezes que o professor é um ator. Quer explicar melhor?
O ato de ensinar, a sala de aula, exige muito do professor. Ele não pode ir para casa pousar a caneta. Exige todo um planeamento para o dia seguinte. São cinco horas que passa como um ator. Tive um professor que antes de entrar na sala de aula chegava ao pé do cabide e, apesar de não usar chapéu, fazia o gesto de o tirar e colocar lá. Os miúdos diziam-lhe “porque está a tirar o chapéu, enganou-se, não tem chapéu” e ele respondia “estou a pôr aqui as preocupações”. Ou seja, a sala de aula tem de ser de uma concentração absoluta do professor para os alunos. E tem de preparar a lição porque tem de saber que tem de fazer este jogo, a seguir tem de preparar a aula, a seguir eles já estão muito cansados, têm de ir um bocadinho ao recreio se o tempo o permitir. Quando fui trabalhar, a empregada dizia: “Julgava que o senhor não estava lá [na sala de aula] porque estava habituada a ouvir os professores a gritar. Comigo não era assim, pois cada aluno sabia o que tinha de fazer.”

É por isso que um professor é um fingidor?
A sala de aula é um palco e um palco muito importante. Sabe, também dialoguei muito com os pais e isso foi uma inovação perigosa. Antes do 25 de Abril, reuniões só as autorizadas e essas eram poucas.

Conseguia ter uma boa relação com os alunos?
A ligação da vida à escola foi sempre a minha preocupação. Nos 3.º e 4.º anos destinava os primeiros dez minutos de aula para que eles me fizessem uma pergunta. Um dia fiquei de boca aberta quando um me perguntou “professor, o que é investigar? Estão sempre a falar na televisão em investigar”. Obrigou-me a fazer a ligação à vida.

E como foi a ligação dessa vez?
Eu era muito amigo de um agricultor e aproveitava as histórias dele para a escola. Um dia disse-me “ó professor, este ano foi um desastre para as ervilhas. Veja lá se consegue acompanhar a minha ideia: eu costumava guardar as sementes das ervilhas em frascos de vidro e este ano coloquei em caixas de plástico. Será que isso está ligado?” Peguei neste problema e investiguei. Tínhamos de arranjar uma amostra com frascos e caixas, registar tudo e depois ver na produção. Isto é que é investigar. Investigar não é responder sim ou não. Não podia responder ao senhor, pois não tinha investigado.

Nem sempre é assim que funciona a escola…
Eu ria-me com os inspetores que iam à minha sala de aulas e diziam: “Agora a escola ativa é que é o paradigma.” Continuavam como inspetores, mudava o governo, voltavam a aparecer e diziam “agora é a pedagogia por objetivos”. Eu perguntava-lhes: “Mas qual é a diferença?” Não sabiam. Depois iam dar uma aula e qual era a letra que escolhiam? O “i”, que é a mais fácil: um risco para cima, para o lado e uma pintinha. Ou o “o”. Simplesmente, dizia-lhes que tinham de ouvir primeiro os problemas do professor e então fazer ou tentar dar resposta a essa dúvida. Não era a escolha feita por eles, era a escolha dos professores. Agora, quando apresentamos um projeto, a pergunta, que não se ouve cá fora, é “de que partido é ele?”. Tem interesse se for do partido.

Que trabalho acha que deveria ser feito na educação?
Uma análise às escolas que fecham. Não há alunos, fecham-se as escolas e estas passam a ser o quê? Um café, um restaurante, quando defendo que deveriam ser um polo cultural, um local de encontro. É curioso que esse problema surgiu já no tempo do Salazar. O pai do Marcelo Caetano, que foi governador-geral de Moçambique e subsecretário de Estado da Educação, queria o aproveitamento das escolas como um polo cultural da aldeia. Por exemplo, levar lá um rancho folclórico. Mas o Salazar discordou – “isso era na Casa do Povo”, defendia. Pois na Casa do Povo fazia-se política.

Nessa vontade de estudar e aprender, o Raul Mendes tirou um doutoramento.
Foi o primeiro doutoramento em Ciências da Educação na Lusófona. Quando me aproximei do final da carreira e comecei a ter mais tempo livre, matriculei-me aos 54 anos na Escola Superior de Educação João de Deus, que para mim era o polo por excelência da formação de professores. Estive lá dois anos. O Dr. António rodeou-se de personalidades muito importantes no mundo pedagógico. O meu método era mais virado para a recuperação de crianças – não batia no método deles -, mas vi pela reação dele, quis ser o meu orientador da tese, para ficar com o domínio do trabalho. De qualquer modo, servi-me dessa escola para apresentar este método, lá está na biblioteca das teses o método Do Número à Palavra, simplesmente nunca teve, nem poderá ter, divulgação porque poderá colidir com o método João de Deus.

Não se ficou por aí…
Depois fiz o mestrado e o doutoramento sobre “A formação de professores em Portugal antes e depois do 25 de Abril – que mudanças”. Ouvi 34 professores que tinham exercido antes e outros depois dessa data.

E que diferenças encontrou?
Mais na idade do que na formação profissional. Os mais recentes aderiram melhor, no modo geral, ao 25 de Abril, enquanto os mais antigos estavam muito afetos à trilogia Deus, pátria, família. Mas sempre houve quem furasse o sistema. Eu não admitia que numa classe houvesse a fila dos burros e a dos outros. A única divisão que fazia era os que viam melhor ou pior, que ouviam melhor ou pior.

O orgulho nos netos

Como é a sua vida atual?
Tem sido ótimo acompanhar o estudo dos meus netos. Tenho dois – um está no 8.º ano e o outro entrou no Técnico, no 1.º ano de Engenharia Industrial. Fiquei muito contente quando há tempos fui ao quarto dele e tinha lá colado na secretária meia dúzia de pensamentos meus. Um deles era “na vida devemos ser honestos, trabalhadores”. Nos aniversários dei-lhes sempre uma prenda diferente, um poema, qualquer coisa que mostrasse o que era a vida. Ainda hoje mantenho a ligação ao estudo. Pensando sobretudo nos imigrantes que têm dificuldades na língua portuguesa e procuro conciliar o que é este método com pessoas com estrato social normal.

Já pensou em editar esse seu método de ensino?
Enviei a uma editora que passados 15 dias me respondeu que a parte editorial estava esgotada. Eles não explicam, mas no ensino há um milhão de alunos e com problemas são 10%, por isso não é rentável uma edição. Ainda por cima, o livro seria caro porque é todo baseado em gravuras.

O que lhe falta fazer ainda?
Falta fechar o ciclo, ou seja, ver esta obra continuada e aplicada pelo menos no sentido de experiência para ver se as crianças se desenvolvem e aprendem.

Sempre a pensar nas crianças…
Conto-lhe outra coisa curiosa: quando acabava a aula, dizia aos miúdos “hoje saímos mais ricos”. E alguém começava a mexer nos bolsos…

Alemanha aprova multas até 2.500 euros para pais que não vacinem filhos contra sarampo

Agosto 2, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Observador de 17 de julho de 2019.

A decisão aprovada entra em vigor em março de 2020 e também impõe que crianças em centros de refugiados sejam vacinadas, e determina a exclusão de crianças não vacinadas do direito às creches.

O conselho de ministros da Alemanha aprovou nesta quarta-feira multas que poderão chegar aos 2.500 euros para os pais que decidam não vacinar contra o sarampo os seus filhos em idade escolar.

A decisão aprovada nesta quarta-feira entra em vigor em março do próximo ano e também impõe que as crianças em centros de refugiados sejam vacinadas, e determina a exclusão de crianças não vacinadas do direito de frequentarem as creches.

“Queremos, dentro do possível, evitar que todas as crianças estejam expostas ao sarampo porque é uma doença altamente contagiosa e pode ter uma evolução muito má, às vezes fatal”, argumentou o ministro da Saúde, Jens Spahn.

De acordo com os dados oficiais, no ano passado registaram-se no país um total de 543 casos de sarampo e este ano, até ao momento, já foram contabilizados mais de 400.

A decisão do Conselho de Ministros surge num momento em que na Alemanha, assim como na maior parte da Europa, vários grupos questionam a importância das vacinas.

“Todos os dias, milhares de crianças de crianças vão para a escola medicadas simplesmente para ficarem sentadas”

Julho 31, 2019 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista de Cristina Camões ao i de 16 de julho de 2019.

O que é a psicoterapia? Qual é o potencial? A psicóloga clínica e psicoterapeuta Cristina Camões tem um novo livro em que desmonta os mitos em torno do consultório. “Um psicólogo não dá conselhos”, diz.

TEXTO | MARTA F. REIS

Cristina Camões, psicóloga clínica e psicoterapeuta, acaba de publicar Psicoterapia – Um caminho para a Felicidade, em que pretende desmontar os mitos e o estigma em torno do consultório do psicólogo. Defende que há uma ideia errada sobre o que é a felicidade, que não aceita que podem existir momentos maus e que o importante é reconhecê-los e lidar com eles. Uma ideia que se incute desde criança em frases como “não chores que é feio”. Em entrevista ao i, por escrito, fala sobre os objetivos da psicoterapia e os sinais de alerta numa sociedade que toma cada vez mais comprimidos e em que a saúde mental não tem sido prioridade.

Chamou ao seu livro publicado em maio Psicoterapia – Um Caminho para a Felicidade. É sempre assim?

Poderá ser sempre se o paciente levar o processo até ao fim. Mas convém entender melhor o que é a felicidade. A sociedade costuma pensar que a felicidade é algo que se atingirá um dia e que a partir daí será permanente. Nada mais errado: somos humanos e a vida não é retilínea. Quase todos os autores são unânimes em afirmar que a felicidade não é contínua, mas antes constituída por momentos. Hoje posso estar a sentir-me feliz porque atingi um objetivo muito importante, mas amanhã poderei estar triste, pois estou doente. Por outro lado, a felicidade não advém de fatores externos, mas internos. Aqui estaremos desde logo a entender o porquê de a maioria das pessoas não se sentirem felizes. Por um lado, acham que a felicidade é algo utópico e, por outro, procuram no sítio errado. Se observarmos a sociedade, esta está cada vez mais desligada de si, do sentir e da autoconsciência. Daí o aumento vertiginoso nos últimos anos dos índices de depressão e das taxas de suicídio.

Propõe-se lançar os leitores numa viagem aos bastidores do consultório. 

Pretendo com este livro acabar com os equívocos relativamente a fazer um processo psicoterapêutico. Chegam-me pacientes que já tinham tentado fazer psicoterapia, mas que foram sujeitos a situações éticas e profissionais graves que em nada dignificam esta profissão. Torna-se condição essencial que toda a gente saiba de facto o que pode esperar de um especialista desta área e, por outro lado, que saiba reclamar o seu direito a um atendimento clínico de qualidade e alicerçado em profissionalismo.

Quais são as questões mais comuns em consulta e que a preocupam mais?

Atualmente, as problemáticas mais frequentes são a depressão clínica e a perturbação de ansiedade grave, com ou sem ataques de pânico. O que mais me preocupa é o facto de estas patologias aparecerem em idades cada vez mais precoces. Imagine o que seria se sentisse que quer adormecer e nunca mais acordar; que deseja ser colhida por um carro para não ter de ser você mesma a acabar com a vida; que falta aos exames de faculdade porque prefere não os fazer perante a hipótese de tirar má nota; que há muito deixou de sair, pois sente que não tem nada de interessante para dizer; que sente que toda a gente é feliz e você nunca conseguirá sê-lo; ou que ontem esteve pendurada na ponte a decidir se devia saltar e deu-se uma última oportunidade, vir hoje à consulta. São estes os pensamentos e sentimentos que escuto diariamente e refletem o que se passa na mente daqueles que sobrevivem com uma depressão ou perturbação de ansiedade.

Quer também com este livro desmistificar o papel do psicólogo na sociedade e da própria psicologia. O que costuma ouvir?

É importante desmistificar o papel do psicólogo na sociedade, mas mais ainda desmistificar a saúde mental. Foram-se criando alguns mitos acerca das consultas de psicoterapia. Um deles é acharem que o psicólogo irá dar conselhos, opiniões e caminhos a seguir. O psicólogo não dá conselhos, exceto se forem recomendações clínicas, de acordo com o quadro clínico. Não emite opiniões nem diz o caminho a seguir. Se assim fosse, o paciente não precisava de um especialista em saúde mental, bastaria falar com a família e amigos. A arte da verdadeira psicoterapia consiste na capacidade do psicólogo conseguir introduzir técnicas do modelo teórico que utiliza, ativando áreas cerebrais e elicitando mudanças bioquímicas que, consequentemente, levarão a mudanças comportamentais, emocionais, relacionais e estruturais no cérebro do paciente.

Porque sentiu necessidade de escrever sobre esta disciplina?

Fala-se muito de psicoterapia e quase nunca se sabe o que se diz. O meu livro não foi escrito para académicos, mas para o público em geral. A responsabilidade desta disciplina ser menos compreendida não é da sociedade, mas sim daqueles que falam daquilo que não sabem. Tenho a certeza de que, se a sociedade soubesse de facto o que é a psicoterapia e soubesse o que poderia ganhar com ela, os consultórios dos psicólogos ficariam cheios. Os filhos já não desenvolvem uma anorexia nervosa, a mãe aprenderia a ser mãe, o pai aprenderia a ser pai, as profissões eram escolhidas de acordo com o que a pessoa sente e não com o que os outros querem, as urgências dos hospitais deixavam de ser entupidas com casos de perturbações do foro psicológico, reduzindo a despesa pública drasticamente na área da saúde. Os suicídios diminuíam, os profissionais das diversas áreas eram melhores, ninguém aceitaria ficar numa relação tóxica ou de violência – a lista é infinita. Importa salientar que se trata é de um caminho a dois em que o psicólogo irá, além de tratar as patologias, ajudar o paciente a encontrar o seu sentido de vida.

Não haverá sempre recaídas, momentos de descompensação?

Os resultados são eficazes quando a psicoterapia é feita por um psicólogo especialista e se o doente não desistir do processo. Tem de ser o psicólogo a dar alta clínica. Por outro lado, como neuropsicóloga posso afirmar que, depois de ativar áreas cerebrais, o cérebro não perde as capacidades ganhas, só se existir algo externo, por exemplo um AVC ou um tumor cerebral. Todo o trabalho é alicerçado em modelos cientificamente validados, por isso afirmamos que a psicologia é uma ciência. De acordo com o modelo teórico em que me especializei, é uma condição obrigatória fazer um exame psicológico ou neuropsicológico. O psicológo não é mágico e, embora seja formado para diagnosticar, o olho clínico poderá errar. Não deve intervir sem antes avaliar cientificamente a condição psicológica do paciente. A escolha dos testes poderá variar de acordo com a idade e o quadro clínico apresentado. Depois darão origem a um relatório em que é explicado o caso clínico e o que se passa com o paciente, tal como um médico não pode operar um doente sem solicitar exames. Só depois, tendo em conta o quadro clínico apresentado, é que o psicólogo escolhe o tipo de técnicas a utilizar. São esses passos que explico no livro. Se, dentro do consultório, o paciente tivesse elétrodos ligados ao seu cérebro representado num computador (como acontece nos laboratórios de neurociências), poderíamos verificar que a ativação cerebral varia de acordo com as técnicas utilizadas.

Nos últimos anos, procurar ajuda profissional e fazer terapia passou a ter maior visibilidade. Há menos estigma ou ainda existe caminho a percorrer? 

Infelizmente, ainda se pensa que consultar um psicólogo é para “malucos”. Costumo dizer que nós tratamos pessoas que não são doentes mentais mas têm uma doença do foro psicológico, que sofreram traumas, violência ou outras situações que os impediram de crescer de forma emocionalmente equilibrada. Muitos pacientes escondem das suas famílias que fazem psicoterapia. No entanto, os média têm ajudado a desmistificar esta questão com séries televisivas. Várias figuras públicas revelam que recorreram a um psicoterapeuta e acho muito bem que o façam. Os atores, apresentadores e artistas em geral estão sujeitos a uma exposição mediática e nem sempre é fácil lidar com as consequências que daí advêm. Fazer psicoterapia deveria ser entendido como algo natural e um motivo de orgulho. Quem passa por um processo destes não se vê apenas livre da depressão ou da ansiedade, sofre um profundo caminho de crescimento e de autoconsciência que, de outra forma, seria impossível de atingir.

Defende que as pessoas ficam diferentes depois de passarem por processos psicoterapêuticos. Que transformações a têm impressionado mais? 

A pessoa que nos chega à consulta deixa de existir após o processo psicoterapêutico. Já imaginou se, a dada altura da sua vida, começasse a dizer não a quase toda a gente, a ter coragem de dizer às pessoas chatas que são chatas, a assumir os seus sentimentos verdadeiramente, a recusar sair com quem não deseja? No processo psicoterapêutico, o paciente passa por transformações que vão resultar na construção de uma nova identidade, forte, assertiva e emocional, ainda que por vezes pareça egoísta aos olhos dos outros. Mas essa é a verdadeira pessoa, aquela que deveria ter sido sempre.

A quem se destina a psicoterapia? Deve ser encarada como tratamento ou como um “cuidado de higiene mental”, portanto para todos, como defendem alguns autores?

A psicoterapia não se destina apenas àqueles que têm uma doença do foro psicológico. Poderá ser feita por qualquer pessoa. Aliás, para nos ser atribuído o título de especialista avançado em psicoterapia pelo colégio da Ordem dos Psicólogos é obrigatório o próprio psicólogo passar por um processo demorado de psicoterapia que a ordem designa como “desenvolvimento pessoal”. Nos casos em que não existe uma patologia há um caminho de crescimento magnífico que trará consequências positivas em todos os papéis que desempenha: profissional, académico, amoroso, relacional, familiar, entre outros.

A partir de que idade se pode fazer psicoterapia?

Pode ser feita em qualquer idade. Nas crianças dos 0 aos 12/13 anos (depende da maturidade da criança) chama-se ludoterapia e, a partir daí, é psicoterapia. Há psicólogos que se especializam apenas em psicoterapia infantil e outros em adultos.

Por vezes existe a ideia de que mergulhar nas emoções abre quase uma caixa de Pandora. Todos temos traumas? Não há o risco de destapar problemas que não eram relevantes?

Vivemos numa sociedade que educa as suas crianças castrando a sua capacidade de sentir o mundo. Frequentemente, ouvimos os pais dizerem às crianças “não chores que é feio”, “não penses nisso, desvaloriza”, “se te portares mal, não gosto de ti”. Fico perplexa pois, à medida que cresce e fica impregnada com este afastamento emocional de si própria e do mundo real, a criança vê-se mergulhada numa racionalidade extrema que a leva a desenvolver uma neurose. Tendo em conta o que acabei de dizer, tudo o que é dito em consulta é importante. Em cada momento, o cérebro vai descarregando as memórias passadas que escondem medos, inseguranças, sentimentos de inutilidade e desvalorização, tristeza e fobias. Vamos juntos ao fundo da caixa de Pandora. Isto irá permitir ao paciente sentir revolta, desilusão e frustração, que lhe permitirão, finalmente, reclamar para si o direito de se sentir triste, desiludido com as pessoas que julgava serem boas para si e desempenhar apenas e só o seu papel.

Como vê o interesse crescente em torno da descoberta da espiritualidade, a popularidade, por exemplo, da meditação mindfulness, e toda uma indústria em torno da autoajuda? 

É intrínseca a necessidade do ser humano de ter um sentido para a sua vida e, por outro lado, de sentir felicidade. No entanto, essa busca é tão interna e individual como subjetiva. A capacidade de evocar experiências espirituais pode estar relacionada ou não com o contexto religioso. O ser humano precisa de algo que lhe dê a capacidade de acreditar em algo. Este facto veio trazer para a sociedade novas formas de levar este caminho às pessoas, através da autoajuda, da literatura descartável ou milagreira. Na prática clínica diária verifico que o processo psicoterapêutico abre espaço mental no paciente para dar sentido à sua vida e, consequentemente, desenvolver a sua inteligência espiritual. Tal como advoga Damásio, desde que a pessoa esteja equilibrada, a felicidade poderá ocorrer através do desporto, da pintura, da música, da leitura, entre outras atividades. Cada um irá descobrir o que faz sentido para si. O importante é que entendam que, se a pessoa estiver com uma doença do foro psicológico, terá de ser tratada por um especialista da área da psicologia clínica. Os casos clínicos não se tratam com literatura de autoajuda nem com mindfulness.

Mas sente que o psicólogo tem perdido o lugar que tinha, protagonismo?

O psicólogo clínico é, antes do mais, um profissional da área da saúde. Seria muito importante que a sociedade deixasse de brincar com coisas sérias. Reitero as palavras do prof. Quintino Aires no prefácio do meu livro: “As ofertas multiplicam-se, especialmente em workshops e cursos breves que são a nova banha da cobra do séc. xxi”. Costumo dizer que a meditação e as frases de autoajuda descartáveis podem ter algum impacto naqueles que não têm nenhuma doença do foro psicológico. Aliás, nenhum doente com depressão ou ansiedade consegue fazer meditação, porque o seu cérebro está desequilibrado quimicamente e é invadido por milhares de pensamentos que o impedem de relaxar. Sinceramente, o que mais me preocupa são aqueles que, sem qualquer licenciatura em Psicologia Clínica ou Psiquiatria, se intitulam psicoterapeutas. Posso dizer-lhe que temos observado, mesmo nos média, pessoas que falam de casos clínicos na televisão, e se formos ao site da Ordem dos Psicólogos verificamos que os seus nomes não existem enquanto membros efetivos da ordem.

O último estudo feito em Portugal estimou que um terço da população tenha algum problema do foro mental. O país tem um elevado consumo de ansiolíticos e antidepressivos. Há um recurso excessivo a medicação?

A situação é altamente preocupante, não só em Portugal mas um pouco por todo o mundo. A toma de medicação psiquiátrica está a alastrar drasticamente e, na maioria dos casos, as receitas são passadas por médicos de clínica geral. Todos os dias, milhares de crianças vão para a escola medicadas psiquiatricamente simplesmente para ficarem sentadas e não perturbarem as aulas. Os estudos comprovam que é na infância que o cérebro da criança vai desenvolver-se e sofrer ativações neurológicas extraordinárias, não só ao nível cognitivo como relacional, do pensamento e emocional. O que acontecerá se o seu cérebro estiver “adormecido” nestes momentos de desenvolvimento? Estará disponível para aprender ou para se relacionar com o grupo de pares? Chegam-me casos de crianças que vão para a escola completamente dopadas, com suores frios, tremuras, dores físicas, como consequência dos efeitos secundários da medicação. Existem outros estudos que alertam para o facto de existir uma probabilidade maior de uma criança medicada na infância vir a ser um consumidor de drogas na adolescência ou na vida adulta.

Recebe muitos casos em que a medicação foi usada demasiado tempo sem acompanhamento psicológico?

Um caso muito grave que me apareceu foi um jovem de 19 anos que chegou à consulta a tomar 12 comprimidos por dia fixos e dois em SOS. Só ao fim de dois anos foi possível começar a fazer o desmame da medicação. Por outro lado, é muito fácil para os pais aceitar que o filho “resolverá” os seus problemas tomando comprimidos, demitindo-se da sua responsabilidade enquanto pais. A medicação não trata as causas da doença, mascara apenas os sintomas, porque a pessoa deixa de pensar, deixa de ter espírito crítico, vê as suas capacidades cognitivas diminuir (memória, atenção e concentração), o seu discurso fica confuso e incoerente – no fundo, afasta-se do mundo real. A psicoterapia, obviamente feita por um especialista, trata porque vai remover as causas. Costumo dizer que não somos mágicos para alterar o passado, mas vamos conseguir fazer com que esse passado deixe de interferir com o presente.

Quanto custa o acompanhamento por um psicoterapeuta? Está ainda longe de ser algo a que a maioria da população possa ter acesso?

A Ordem dos Psicólogos não estabelece um valor de honorário mínimo nem máximo. Por outro lado, o custo e o tempo de tratamento dependem de cada quadro clínico, por isso não poderei dar uma resposta objetiva. Infelizmente, os ministérios da Saúde não têm investido nesta área, levando a uma quase inexistência de psicólogos clínicos no Sistema Nacional de Saúde, e o caso ainda é mais grave quando falamos da existência de psicólogos especialistas. Qualquer valor que um paciente gaste num tratamento psicoterapêutico é mínimo relativamente à sua cura e à sua oportunidade de ser feliz. Quanto vale a vida de um jovem ou um adulto que comete suicídio e que, se fizesse este tratamento, nunca o faria? A sociedade tem de mudar as suas prioridades.

Que mensagem gostava de transmitir com este livro?

O primeiro objetivo deste livro é desmistificar a saúde mental e que todos aqueles que sofrem com doenças do foro psicológico possam encontrar a cura se consultarem um psicólogo especialista em psicoterapia; por outro lado, mostrar que no cérebro do ser humano existem todas as características e oportunidades para a cura, basta que para isso tenha a coragem de fazer esta viagem para dentro de si; mostrar também que a depressão e a ansiedade não se curam com medicação, pois esta não vai tratar as causas da doença, mas sim camuflar os sintomas, transformando a pessoa num ser dopado e alheio ao mundo.

Na visão do psicoterapeuta, a medicação nunca é necessária?

Nada disso. Há situações em que pode ser necessária, uma depressão clínica muito grave. É importante distinguir duas coisas. Por um lado, há as doenças mentais, doenças que geralmente não têm cura, por exemplo uma esquizofrenia, uma doença bipolar, uma criança autista; ou doenças do foro neurológico, como demências. Aí, obviamente que é necessária medicação. Ninguém imagina que uma pessoa com esquizofrenia não faça medicação, senão vai ter delírios, pode cometer suicídio ou até um homicídio. Nesta vertente é obrigatório ter medicação e são casos que são tratados na área da psiquiatria. Poderão beneficiar da psicoterapia não no sentido de tratar, pois são doenças que não têm cura, mas para diminuir a sintomatologia e para ajudar os doentes a lidarem com as consequências da doença e ajudarem até a família a lidar com o doente, a permitir uma vida o mais equilibrada possível. Do outro lado temos então as doenças do foro psicológico, em que se incluem a depressão, a ansiedade, uma anorexia nervosa, uma bulimia. Quando falamos de perturbações do foro psicológico, se a pessoa fizer psicoterapia não vai precisar de medicação. Mas se chegar medicada ao consultório, não vai deixar logo a medicação. Existe risco clínico. Só o médico é que pode fazer o desmame, em parceria com o psicólogo. A pessoa só poderá deixar a medicação de forma progressiva.

Por vezes ouve-se pessoas a quem os médicos prescrevem antidepressivos ou ansiolíticos mas dizem que não os vão tomar.

Não aconselho ninguém a fazer isso. Se o médico entendeu prescrever a medicação, o doente deve fazê-la. Nos EUA e mesmo em Portugal há alguns psiquiatras que se especializam em psicoterapia, mas não é muito frequente; o mais habitual é o médico usar a abordagem farmacológica. Quando digo que não trata é porque um medicamento, seja antidepressivo, ansiolítico ou antipsicótico, vai atuar ao nível das células nervosas bloqueando a passagem de informação. É quase como fazer um penso a áreas cerebrais. A pessoa fica mais calma, mas não fica tão capaz para lidar com o dia-a-dia. A crianças, não existindo doença mental, não aconselho de todo; devem procurar acompanhamento especializado. Mas é preciso sublinhar que há casos de depressão clínica em que é preferível usar medicação inicialmente e só depois, ao longo do processo psicoterapêutico, iniciar o desmame.

Há perguntas que sejam mais reveladoras nas sessões de psicoterapia? 

Não. Excetuando as questões do foro emocional “o que sentiste quando soubeste que o teu pai morreu?”, “o que sentiste quando estavas prestes a tomar aquela embalagem de comprimidos?”, “o que sentiste quando ele disse que já não te amava?”, o psicoterapeuta abstém-se quase sempre de transformar a consulta num interrogatório. A arte do verdadeiro psicoterapeuta é conseguir, com as técnicas científicas que são introduzidas na conversa psicoterapêutica, ativar áreas cerebrais e produzir neuroquimicamente neurotransmissores que levarão a um alívio progressivo dos sintomas, por exemplo, tristeza, desvalorização, sentimentos de inutilidade, baixa autoestima, pensamentos de acabar com a vida. Por isso posso afirmar que as doenças do foro psicológico têm cura com psicoterapia.

OCDE: Escolas no Brasil têm menos tempo para ensino e mais bullying entre alunos do que média internacional

Julho 29, 2019 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia da BBC News de 19 de junho de 2019.

Paula Adamo Idoeta -@paulaidoeta Da BBC News Brasil em São Paulo

As escolas brasileiras perdem mais tempo com tarefas não relacionadas ao aprendizado e são um ambiente mais propício ao bullying e à intimidação do que a média internacional, segundo dados obtidos a partir da avaliação dos próprios professores e diretores escolares. E isso acaba prejudicando os esforços pedagógicos para melhorar a educação.

Em uma aula típica, os professores brasileiros passam, em média, apenas 67% do tempo com o processo de aprendizado – o restante acaba sendo dedicado a tarefas administrativas, como fazer chamada, ou disciplinares, como manter a ordem da classe.

A informação é parte da pesquisa Pesquisa Internacional sobre Ensino e Aprendizagem (Talis, na sigla em inglês), que acaba de ser divulgada pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico).

Na média da OCDE – que entrevistou 250 mil professores e líderes escolares de 48 países ou regiões -, os professores usam 78% do tempo de sala de aula com aprendizagem. Atrás do Brasil, só professores da África do Sul e da Arábia Saudita gastam mais tempo com tarefas não relacionadas ao aprendizado.

Para a OCDE, o efeito cumulativo disso traz grandes perdas para o aluno.

“A perda de alguns minutos por dia, somados, acaba totalizando a perda de vários dias no ano escolar, por isso o tempo gasto no aprendizado é tão importante”, diz à BBC News Brasil Karine Tremblay, principal autora do estudo.

“Um exemplo concreto: uma perda de apenas 5% no tempo gasto ensinando corresponde a 12 dias e meio no ano.”

A única ressalva que ela faz é que esse tempo administrativo pode estar sendo positivamente gasto se for explicando novas tarefas aos alunos ou acompanhando-os em atividades especiais, como as extraclasse, que tendem a exigir mais tempo de gerenciamento.

Intimidação e bullying

Outro dado que chamou a atenção de Tremblay é que 28% dos diretores escolares brasileiros relataram ter testemunhado situações de intimidação ou bullying entre alunos, o dobro da média da OCDE. Semanalmente, 10% das escolas brasileiras pesquisadas registram episódios de intimidação ou abuso verbal contra educadores, segundo eles próprios, com “potenciais consequências para o bem-estar, níveis de estresse e permanência deles na profissão”, diz a pesquisa. A média internacional é de 3%.

“É claramente uma questão preocupante e alta para os padrões da OCDE”, afirma Tremblay. “O Brasil não está sozinho – países como a França e regiões como a comunidade flamenga da Bélgica, também parte da pesquisa – têm índices elevados (de bullying e intimidação), mas o Brasil está entre os de índices mais altos do mundo, que têm se mantido estável nos últimos cinco anos.”

Tremblay explica que a OCDE não analisou os motivos por trás desses índices, mas explica que “as tendências estatísticas mostram que eles são muito sensíveis às políticas públicas de combate ao bullying”.

A pesquisadora explica que, em muitos ambientes escolares, o bullying e a agressividade acabaram sendo “normalizados” e minimizados, com impactos negativos sobre o aprendizado. “Claramente, se os estudantes não se sentem seguros em sua própria escola, não há condições para aprender.”

Tremblay opina que é só quando “todos no ambiente escolar, de pais a educadores e estudantes, entenderem que essa questão não é aceitável e precisa ser enfrentada é que o problema será combatido. É preciso informar diretores de que isso é um problema sério, que afeta o bem-estar e portanto o aprendizado dos alunos, e realizar campanhas de conscientização para estimular vítimas e testemunhas a relatar os casos.”

Perfil dos educadores brasileiros

A Talis 2018 – maior pesquisa mundial de educadores – entrevistou 2.447 professores da educação básica e 184 diretores de escolas brasileiras.

A média de idade dos professores brasileiros é de 42 anos e a dos diretores escolares, 46 anos (o que significa, nos cálculos da OCDE, que um quarto dessa força de trabalho terá de ser renovada pelo país em pouco mais de uma década, à medida que esses educadores se aposentarem).

É, majoritariamente, uma carreira feminina no Brasil: 69% dos professores e 77% dos diretores são mulheres.

Do total de educadores, quase dois terços afirmaram que o magistério foi sua primeira escolha de carreira profissional.

Entre os pontos positivos destacados pela pesquisa, 80% dos entrevistados brasileiros afirmaram que há apoio entre colegas para a implementação de novas ideias no ambiente escolar. E a proporção (33%) de professores novatos brasileiros que contam com a ajuda de mentores mais experientes – uma prática recomendada pela OCDE – é 11 pontos percentuais mais alta do que a média internacional.

Para a OCDE, a pesquisa sobre o universo docente é importante porque a educação atual deixou de ser relacionada “apenas a ensinar algo a alunos, mas sim a ajudá-los a desenvolver uma bússola confiável e ferramentas para navegar, com confiança, um mundo cada vez mais complexo, volátil e incerto”.

“O professor atual precisa ajudar os alunos a pensar por si próprios e a trabalhar em conjunto, desenvolver sua identidade, agência e propósito. Por isso exigimos tanto dos nossos professores. (…) Estudantes dificilmente serão eternos aprendizes se não enxergarem seus professores como eternos aprendizes ativos.”

O documento citado na notícia é o seguinte:

TALIS 2018 Results (Volume I) : Teachers and School Leaders as Lifelong Learners

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