Regresso a que aulas?

Outubro 9, 2018 às 12:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Expresso

Texto de opinião de Nuno Lobo Antunes publicado no Expresso de 16 de setembro de 2018.

Em tempo de regresso às aulas, o neuropediatra Nuno Lobo Antunes discorre sobre as mudanças ocorridas na sociedade e questiona se o tempo da educação, a velocidade com que se mudam prioridades e programas, reflete as alterações na forma de viver e pensar das comunidades.

A sociedade mudou. E o ensino?

Pertenço a uma geração que aprendeu com o modelo educativo francês. Na verdade, do final dos anos 50 até à primeira metade dos anos 60, a cultura era francesa. As senhoras liam o “Paris-Match” em vez da “Hola”. As revistas para jovens eram francesas (“Salut les copains”), tal como a música que se ouvia, ou o cinema de autor. A banda desenhada chegava da Bélgica. O segundo idioma era o francês, de ensino obrigatório durante cinco anos. A minha geração e a dos meus pais falava essa língua bastante melhor do que o inglês.

As aulas do Liceu (Lycée), baseavam-se no decorar de informação em séries consecutivas de “abre chavetas”. A memória era o instrumento de aprendizagem do Ensino Primário à Universidade. Começava por se cantarolar a tabuada e acabava-se a “empinar a sebenta”. Francesa a moda e a educação.

Nos finais dos anos 60, início dos anos 70, surge um movimento de juventude muito forte. A luta pelos direitos civis nos EUA, a revolução estudantil de Maio de 68, a luta pela autonomia universitária e democracia em Portugal. As universidades americanas manifestam-se contra a Guerra do Vietname e há mortes nos campus universitários. Os ventos de mudança atravessam o Atlântico e faz-se a transição do “Il est interdit d´interdire” para “make love not war”.

Com o 25 de Abril, a democratização do ensino, a igualdade de género e a revolução sexual viraram os costumes de pernas para o ar. A relação entre os educadores e os alunos transforma-se. Métodos e matérias perdem fixidez. Para muitos professores o processo é traumático: não tinham sido educados assim.

A questão é se a educação acompanha as mudanças da sociedade. É banal dizer-se que o tempo da justiça é diferente do tempo mediático. A pergunta é se o tempo da educação, a velocidade com que se mudam prioridades e programas, reflete as alterações na forma de viver e pensar das comunidades.

A resposta não é difícil. Quem detém o poder não pertence à geração que transforma, antes à que transformou, e passada a fase de mudança torna-se conservadora, isto é, envelhece e defende-se do que não domina.

Quando era um médico jovem, ficava espantado pelas recomendações dos livros de texto para as situações de urgência. Muitas vezes sugeriam medicamentos em desuso há décadas. Um dia percebi porque era assim: os autores dos livros de referência tinham mais de 40 anos, e nos EUA, há muito tempo tinham deixado de fazer urgências. Dizia Bernard Shaw: “Quem sabe faz. Quem não sabe ensina”. A ironia, por vezes, é um retrato.

Durante o último centénio os professores ensinavam, isto é, forneciam conhecimento, na maior parte das vezes sinónimo de informação: rios de Portugal, capitais da Europa, datas, teoremas, reis das diferentes dinastias, preposições simples, etc. Fazia sentido: a informação estava em livros, os livros eram caros, as famílias no geral culturalmente pobres. Hoje, o Google faz esse papel com maior rapidez a custo (quase), zero. A maior biblioteca do mundo cabe no bolso de trás dos jeans.

A velocidade com que os filhos encontram a novidade num smartphone é bem superior à dos pais. Pela primeira vez na história da humanidade, os alunos são mais eficientes do que os professores a manipular os instrumentos de acesso à informação.

Pais e professores defrontam-se com problemas inteiramente novos: a pornografia é universal e grátis. Rapazes e raparigas desde o início da adolescência são espectadores de imagens para além do explícito. No entanto, como utilizar essa informação para educar é um assunto adiado.

Se antes as questões da educação sexual já eram difíceis para uma geração dividida entre os valores da liberdade individual, e uma espécie de bússola moral herdada dos seus pais, hoje mais complexo se torna para o adulto gerir o que não é possível proibir. Não se pode afastar o olhar do omnipresente. Já não basta saber usar o power-point, é necessário ensinar a utilizar a tecnologia que, paradoxalmente, as crianças manipulam com maior proficiência do que os professores.

Há, contudo, algo que um motor de busca não faz: ensinar a pensar, a selecionar a informação, a distinguir o trigo do joio. Navegar perante os escolhos da mentira, da desinformação e marketing, para selecionar o que é relevante. As redes sociais reforçam os enviesamentos em vez de estimular a interrogação sobre as nossas próprias convicções. As pessoas agrupam-se por certezas partilhadas que desencorajam a experiência de pensar diferente

Creio que um dos papéis fundamentais da escola do novo tempo é esse mesmo: ensinar a perguntar mais do que a responder, assim os professores o compreendam e se libertem eles mesmos dos pecados enunciados. É preciso demonstrar que ter opinião dá muito trabalho, e o Google é ponto de partida e não de chegada.

 

 

Cientistas comprovam importância do exercício físico para o rendimento escolar

Outubro 9, 2018 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia da Visão de 13 de setembro de 2018.

Mais memória, mais flexibilidade cognitiva e maior capacidade de atenção levam especialistas a recomendar a adoção de comportamentos saudáveis o mais cedo possível

Já tínhamos documentado que quem tem melhor capacidade aeróbia (ou seja, o potencial que temos de produzir energia corporal por meio do oxigénio) tende a ter melhor rendimento escolar. Agora, através da imagiologia, é possível comprovar que, com o exercício físico, há uma tendência para aumentar o número de neurónios e as ligações das sinapses, que são essenciais no desempenho do cérebro e, portanto, na aprendizagem”, revela Luís Bettencourt Sardinha, Presidente do Conselho Consultivo da Faculdade de Motricidade Humana e coordenador do 9º Simpósio European Youth Heart Study, que decorre até sábado no Pavilhão do Conhecimento, em Lisboa.

A iniciativa, que vai abordar questões como o sedentarismo, a alimentação e os fundamentos epidemiológicos e fisiológicos associados à atividade e aptidão físicas, permitirá também partilhar experiências de sucesso nos sistemas educativo e desportivo. “Os argumentos de melhor saúde vascular e cardiovascular só ganham peso mais tarde. O que estes dados indicam é que há outros ganhos que são imediatos mais cedo”, avança o especialista, a lembrar ainda a importância de sensibilizar as famílias para esta questão. “O problema, muitas vezes, não é saber que a aptidão física é boa; é preciso também avaliar que condições as escolas e a comunidade têm para proporcionar esse desenvolvimento saudável”.

European Youth Heart Study

 

 

Palestra “Escola, Pais e Responsabilidades Parentais” com Ana Perdigão do IAC, 19 de setembro em Silves

Setembro 13, 2018 às 2:30 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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A Drª Ana Perdigão – Coordenadora do Serviço Jurídico do instituto de Apoio à Criança, será a oradora da palestra.

A Palestra “Escola, Pais e Responsabilidades Parentais”, organizada pela CPCJ de Silves, decorrerá no próximo dia 19, pelas 14h30, no auditório da Câmara Municipal de Silves.

As inscrições são gratuitas, mas obrigatórias, através do email cpcj@cm-silves.pt ou do telefone 282 440 889.

Calendário escolar 2018/2019 para edição e impressão

Setembro 6, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do Blog Professores Lusos de 3 de setembro de 2018.

Tal como em outros anos letivos, deixo-vos de seguida com uma pequena lista de links para calendários escolares editáveis.
Nota: este será porventura o calendário que mais vezes vejo impresso pelos colegas, e como tal, é o que consta na imagem deste post)

Regresso às Aulas – Fotografias

Setembro 5, 2018 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Paris
“Rentrée des classes”
Photo de Presse
vers 1980

anonyme
“Rentrée des classes”
Paris 1980

“Liberté d’expression” anonyme Classe Montessori à Berlin, 1949

Imagens retiradas do Facebook Culture und Kultur 

Mais imagens aqui

Porque é tão importante para os adolescentes serem populares?

Agosto 20, 2018 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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thumbs.web.sapo.io

Notícia do Sapolifestyle de 8 de agosto de 2018.

Porque precisam de colmatar a insegurança própria de uma idade em que muitas mudanças ocorrem ao mesmo tempo. O problema é quando são populares por causa da roupa que vestem ou do telemóvel que usam. Saiba o que dizer ao seu filho sobre popularidade e, acima de tudo, amigos.

As crianças gostam de agradar aos outros e de fazer novos amigos, mas quando crescem um pouco mais e tornam-se adolescentes isso torna-se quase uma obsessão. Tendo em conta os diferentes tipos de personalidade, pode-se dizer que os tímidos fazem tudo para se integrar no grupo, mas preferem passar algo despercebidos, enquanto os mais efusivos não se importam de ser reconhecidos – e seguidos.

Num extenso artigo do suplemento infantil do El Mundo, questiona-se quais são afinal os critérios para ser popular. E parece que também neste campo o sexo faz a diferença. Assim, se as raparigas “tendem a promover sua beleza física, vestindo roupa da moda, tentando ser sociáveis e atrair rapazes, estes valorizam, acima de tudo, a boa forma física e as habilidades sociais e, e gostam de exibir as mais modernas tecnologias”, por exemplo um bom smartphone.

“A popularidade pode dever-se a vários fatores, nomeadamente ao prestígio (granjeado por mérito académico ou habilidade desportivas), caraterísticas emocionais que facilitem as relações no grupo (por exemplo companheirismo, simpatia e bom caráter) e facilidade em representar o ideal do grupo”, defende-se no estudo “Relações Sociais na Escola: o Problema do Abandono Escolar”, de Estefanía López, Belén Ferrer e Teresa Jimenéz Gutiérrez. As autoras afirmam ainda que “os adolescentes populares mostrar maior competência social e habilidades cognitivas, comportamentos menos agressivos e perturbadores e menos sentimentos de solidão”.

Ter muitos amigos é um bom sinal. A questão, abordada neste artigo, é se os adolescentes granjeiam esta admiração de forma justa ou sobretudo à conta de fatores alheios: “O problema surge quando essa popularidade assenta em fatores externos, nomeadamente pela forma como se vestem ou pelos dispositivos tecnológicos que possuem”.

Esta ansia de popularidade, segundo os especialistas, serve para colmatar a insegurança própria de uma idade difícil, em que muitas mudanças físicas e emocionais ocorrem ao mesmo tempo. Mas atenção: nada de querer ser popular à força se isso fizer o adolescente passar por cima dos seus princípio e velhos amigos.

Veja alguns conselhos que o El Mundo recolheu para dar aos pais desses jovens:

Conselhos para dar aos adolescentes

1. Reforço da autoestima

Os pais têm de explicar aos filhos que serão sempre especiais e únicos para eles. “Devemos reforçar a sua autoestima e ajudá-los a valorizarem-se pelo que são – em matéria de valores e habilidades”. É preciso dizer-lhes que “a adolescência é um palco e que estamos cá em baixo a apoiá-los, sejam eles populares ou não”. É importante também reforçar que há certas características neles que valorizamos mais do que a popularidade.

2. Manter amizades saudáveis – e sinceras

Quando um adolescente é popular, costuma andar rodeado por amigos que o procuram para também serem populares ou para se destacarem socialmente de alguma forma. No entanto, “ele pode sentir-se sozinho porque, em alguns momentos, vai perceber que essa amizade é transitória”. Os pais devem ajudar os adolescentes a promover amizades saudáveis. “Temos de tentar que os nossos filhos encontrem amigos que os estimem pela sua personalidade e caráter e não pela roupa que usam ou pelo smartphone que têm”.

3.Não rejeitar amigos de toda longa data

Tentar ser popular a todo custo pode levar o adolescente a rejeitar amigos que não ligam a esse “status”. “Os pais têm de perguntar aos filhos por que razão se afastaram de amizades duradouras e tentar refletir sobre a atitude deles”.

4. Desvalorizar a popularidade

Ao conversar com os adolescentes sobre este assunto, eles começam a compreender que o importante não é ser popular, ou acumular amigos, mas sentir que essas amizades são fortes e saudáveis. “No futuro, eles agradecerão aos pais essa lição”.

O estudo citado na notícia é o seguinte:

Las relaciones sociales en la escuela : el problema del rechazo escolar

Acabaram os telemóveis e tablets nas escolas francesas

Agosto 14, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia e imagem do PPLWare de 31 de julho de 2018.

Há mais de um mês, informámos aqui que em França estavam a ser tomadas medidas para proibir a utilização de telemóveis nas escolas. O ministro da Educação francês batizou tal lei de “medida de desintoxicação” e apenas faltava a votação para saber se iria ser aprovada ou não.

A medida foi a votação ontem e ganhou de forma estrondosa! A partir do início de setembro acabaram-se os telemóveis nas escolhas francesas.

Está aprovada a medida que visa proibir a utilização de telemóveis nas escolas francesas segundo revela o jornal  Le Monde. A proposta do partido de Emammunel Macron, La République en Marche, ganhou com maioria absoluta, tendo conseguido 62 votos a favor e apenas um contra. De referir que o partido de Emammunel Macron detém uma maioria absoluta na Assembleia Nacional.

O que proíbe tal lei?

Esta nova lei, que será aplicada a partir de setembro, permite às escolas decidir o modo como querem aplicar a proibição, podendo obrigar os alunos a colocarem os dispositivos numas bolsas específicas dentro das mochilas escolares, mas permitindo o acesso em caso de emergência, ou uso pedagógico, mas também proibir a sua utilização por completo, sob a pena de sanções. Isto aplica-se a alunos, a partir dos 15 anos, que frequentem a escola secundária.

Crianças entre os três e os 15 anos não poderão ter ligados nas escolas francesas os seus smartphones, tablets, smartwatches ou outros equipamentos com ligação à internet.

Segundo a agência France Presse, a lei faz exceções para “uso pedagógico”, atividades extracurriculares e no caso de alunos com necessidades especiais.

Mais de 90 por cento das crianças francesas entre os 12 e os 17 anos tinham smartphones em 2016, de acordo com a agência reguladora de telecomunicações francesa ARCEP.

Pedro Pinto

 

A meditação que salvou os rapazes tailandeses também cá ajuda nas escolas

Julho 25, 2018 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 15 de julho de 2018.

Alunos mais calmos, menos ansiosos e concentrados. Em Portugal há projectos de meditação e ioga aplicados às salas de aula.

Susana Pinheiro

Silêncio, chiu! Ao sinal do toque na taça tibetana, duas dezenas de crianças, com quatro e cinco anos, já sabem que os próximos minutos são para meditar. Sentadas no chão, pernas cruzadas, têm os olhos fechados à excepção de duas ou três, e inspiram e expiram devagar. Seguem viagem pela floresta até ao arco-íris guiados pela voz da educadora da creche para depois “regressarem” à sala em Miramar, Vila Nova de Gaia. Estão a meditar tal como milhares de crianças já fazem em contexto de sala de aula em Portugal. E com resultados: mais calmas, menos ansiosas e com mais concentração.

Por estes dias, muito se falou na importância da meditação com o mundo de olhos postos no resgate dos rapazes da equipa de futebol e do seu treinador de uma gruta de Thuam Lang, no Norte da Tailândia. Esta gestão emocional terá sido importante para os jovens e para o professor manterem a calma e controlarem a ansiedade perante o perigo que viveram por mais de duas semanas. Como evitar ataques de pânico e não ter medo? Com o mindfulness – um “ramo” da meditação –, “as pessoas aprendem a controlar e desenvolver a atenção, a estabilizar o estado mental, o que lhes permite ter mais consciência dos seus pensamentos e emoções que influenciam as suas respostas e comportamentos”, defende o presidente da Associação Portuguesa para o Mindfulness (APM), o psiquiatra José Pinto Gouveia. Logo, sublinha, “a ansiedade e a depressão são menores”, o que pode ter sido o caso dos rapazes da equipa de futebol.

A meditação também poderá ter ajudado a não se deixarem sucumbir aos pensamentos negativos, como por exemplo a possibilidade de morrerem, enquanto estavam presos na gruta. “A meditação treina-nos para não considerar o pensamento como sendo realidade”, explica Dulce Gonçalves, mentora do projecto Mentes Sorridentes, que começou há quatro anos com alunos de educação especial, do agrupamento de escolas João Villaret, em Loures, e que já se alargou a outras escolas como em Odivelas e Póvoa de Varzim.

Neste último ano, Dulce Gonçalves avaliou o projecto na Escola Secundária da Ramada, em Odivelas, com o apoio da APM. E constatou que o grupo de alunos do 3.º ciclo e secundário, com uma média de 15 anos de idade, que praticou mindfulness conseguiu controlar os pensamentos. Este grupo experimental concretizou o projecto durante oito semanas a fazer mindfulness, uma vez por semana, e havia um outro grupo de controlo que não fez. Nesta avaliação também se constatou o aumento do bem-estar físico e qualidade das relações sociais entre os jovens. “O mindfulness  é uma atitude de vida, há uma consciência do que está a acontecer sem que nos deixemos ser controlados pelos pensamentos porque, ao meditar, vou focar-me, por exemplo, na respiração ou nos sons que ouço”, explica Dulce Gonçalves, com uma pós-graduação em terapias cognitivo-comportamentais.

Também Tomás de Mello Breyner, mentor do projecto O Pequeno Buda, defende que a meditação “é uma ferramenta que ajuda a controlar as flutuações mentais cada vez que surge um pensamento negativo e [ajuda] a estar calmo”, de maneira a não reagir a quente e de forma precipitada. No caso dos rapazes da Tailândia poderá ter sido essencial, acredita. Mello Breyner já pôs dez mil crianças a meditar em escolas de todo o país, como o que acontece no Colégio do Sol dos Pequeninos, em Vila Nova de Gaia.

Como lidar com a raiva e a frustração

As aulas de ioga e meditação chegaram às escolas com o objectivo de ajudar as crianças. Tomás de Mello Breyner quis “ensinar o que não se ensina na escola: a perceber o que é a nossa mente”. “Vivemos numa sociedade muito agitada, com um ritmo de vida acelerado que é imposto às crianças, que lhes causa ansiedade e falta de concentração e, como consequência, algumas acabam por sentir frustração e baixa auto-estima, o que muitas vezes leva à medicação”, descreve.

Além disso, continua, há “a imensa carga de trabalhos de casa e avaliações, uma elevada carga horária e um excesso de estímulos da era digital” que também contribui para o stress e ansiedade. O projecto O Pequeno Buda “não vai fazer desaparecer os elementos causadores de stress, mas sim ensinar aos alunos uma técnica que lhes vai permitir fazer uma melhor gestão intelectual e emocional” da vida, defende. Como? Através do “Quiet Time”, ou seja, um momento em que as técnicas de meditação e de relaxamento são aplicadas, de modo a que as crianças e os jovens fiquem mais calmos, concentrados, empáticos entre si e em relação ao professor.

Também o projecto de mindfulness da Mentes Sorridentes, que é aplicado por uma equipa multidisciplinar de professores, psicólogos e médicos, em escolas de Norte a Sul do país, “treina o desenvolvimento de uma atenção estável e focada no presente, na consciência das sensações, sentimentos e pensamentos que emergem na mente”, elucida Dulce Gonçalves, que foi finalista do prémio Melhor Professor de Portugal.

É o treino da mente, tal como se vai ao ginásio para exercitar o corpo. “O mindfulness é um treino mental estudado cientificamente. Nos EUA há estudos que mostram que ajuda os miúdos com défice de atenção e hiperactividade”, sublinha o presidente da APM, que aplica esta metodologia em determinadas situações clínicas. Um dos projectos, que dura oito semanas, chama-se Kg-free, pensado para mulheres obesas, que sofrem de distúrbio de ingestão alimentar compulsivo. “Os resultados são positivos em meia centena de mulheres”, informa José Pinto Gouveia. No contexto da psicologia, o mindfulness surge, então, defende, como uma ferramenta importante para a psicoterapia. “Como psiquiatra defendo que o mindfulness pode ser uma ferramenta útil nas escolas quando bem utilizado. Temos aplicado e avaliado. É preciso informar as pessoas, explorar o que é”, considera, ressalvando que “os professores não devem fazer este tipo de meditação sem terem formação e que devem fazer dela uma prática regular”.

Também o professor de Educação Física Sabino Soares, que foi finalista do prémio de Melhor Professor de Portugal, usa o mindfulness para trabalhar as emoções, melhorar o desempenho escolar e o comportamento dos alunos na escola n.º 6 de Olhão, situada num bairro social algarvio, com muitos alunos com dificuldades de aprendizagem e falta de concentração nas aulas. Chama-lhe Pausa M, que acontece duas vezes por dia, também para atenuar conflitos, pois ensina os alunos a “fazer stop, respirar fundo duas a três vezes quando estão perante uma situação que não é fácil, para não reagirem a quente e não baterem, chamarem nomes ou gritarem”, elucida. No caso dos meninos tailandeses fazer stop pode ter ajudado a evitar uma precipitada tomada de decisões e a não correrem risco de vida.

“Uma perda de tempo”

Também o projecto-piloto de ioga no Agrupamento de Escolas do Alto do Lumiar, em Lisboa, dado pela Confederação Portuguesa de Yoga e que foi proposto à escola pela Câmara Municipal de Lisboa, procura ajudar as crianças a ficarem mais serenas e concentradas.

Todos estes projectos, ressalvam os responsáveis, não têm qualquer vínculo com religiões ou crenças; são exercícios que servem para o desenvolvimento natural de todos. “O mindfulness é uma técnica, treino da mente, que não tem nada de esotérico nem sequer mexe com energias. Gostaríamos que fosse levado mais a sério, pois estamos a avaliar cientificamente os dados”, salvaguarda Dulce Gonçalves. “Já tive casos de miúdos que se automutilavam e tinham ataques de pânico e o sucesso resulta de sermos uma equipa multidisciplinar”, assegura.

João Lopes, professor da Universidade do Minho na área da psicologia da educação, contrapõe, baseando-se em três tipos de artigos publicados sobre o assunto nos EUA. E diz que existe uma “fraca evidência” na utilização do mindfulness para reduzir a ansiedade e depressão. Os estudos não encontram ganhos significativos em comportamentos sociais em pessoas que foram sujeitas a este tipo de metodologias, afirma. “Em relação às escolas é uma perda de tempo, porque enquanto se está a fazer isto, não se está a fazer outras coisas”, avalia. Mais ainda, questiona, “havendo tanta gente a queixar-se que não tem tempo para dar os programas lectivos, por que é que têm tempo para fazer este tipo de actividade que a literatura não mostra melhorarem os comportamentos agressivos e a ansiedade?”.

A evidência científica não pode assentar em opiniões das pessoas e para haver estudos deste género é preciso haver um grupo de controlo, acrescenta João Lopes. Dulce Gonçalves, das Mentes Sorridentes, diz serem feitas avaliações da aplicação do projecto e haver um grupo de controlo. “Avaliamos o impacto com um conjunto de testes certificados cientificamente, aplicados por psicólogos e há uma avaliação pré e pós-intervenção.” Ao fim dos três anos, constataram melhorias da gestão emocional na relação com os outros. “Em termos científicos, não podemos dizer que as notas melhoraram por causa do mindfulness, [não podemos] estabelecer uma relação directa, mas melhoraram”, acrescenta a professora. O psicólogo João Lopes não acredita que seja possível as notas subirem com a utilização de métodos de relaxamento.

Também o psicólogo José Morgado, do ISPA-Instituto Universitário, em Lisboa, “não acredita em receitas milagrosas. Nenhuma criança é a igual a outra. As crianças não vêm com um manual de instruções”. Contudo, o especialista em psicologia educacional considera boas as ferramentas do ioga e da meditação. “Se as ferramentas se encaixam, óptimo. Mas não pensemos que vêm revolucionar”, considera. “Sou mais reservado em centrar numa única resposta só pela capacidade de achar que há muitas variáveis que mexem com o comportamento das crianças”, justifica.

Morgado confessa ter “alguma reserva em relação à utilização de recursos exteriores à sala de aula”. A solução está em toda a gente, já que “para educar uma criança é preciso uma aldeia, uma comunidade educativa”, logo, defende que o ideal é criar ambientes com menos agitação para as crianças. Tudo começa em casa, “se der mais atenção ao meu filho, se estou mais tempo com ele, se o estímulo mais vou notar benefícios”, exemplifica. Também João Lopes, da Universidade do Minho, que costuma ir às escolas fazer acções de formação aos professores, em que ensina técnicas de gestão e organização da sala de aula, crê que não é a meditação que vai resolver tudo, é preciso, sim, “estabelecer rotinas”, reforça. “Tenho pena que a educação seja uma área em que o experimentalismo é a palavra de ordem”, lamenta. O professor considera que a meditação nas escolas é “uma moda que dentro de algum tempo irá ser substituída por outra”.

A “taça do silêncio”

Numa sala cheia de brinquedos, com todo tipo de distracções, as crianças do Colégio Sol dos Pequeninos conseguem estar sossegadas à espera do toque da “taça do silêncio” como a educadora de infância Diana Alves Costa chama ao objecto de metal. Umas esfregam os olhos com as mãos, outras cerram-nos com toda a força enquanto a educadora de infância os vai guiando: “Pomos as nossas costas numa posição confortável, sentimos o ar entrar no nosso corpo, inspiramos e expiramos. Vamos imaginar que está muito quentinho e vamos dar um passeio pela floresta…” No final, pede-lhes: “Devagarinho podemos abrir os nossos olhinhos e espreguiçar.” É vê-los de braços esticados no ar, alguns deles a bocejar, os olhinhos a abrirem-se devagar com um enorme sorriso. “Imaginei-me mesmo na floresta a pisar as folhas e até ouvia o barulho delas. Estava a meditar”, conta Carla Mónica, cinco anos, com um ar muito sério. Os meninos com quem o P2 falou decidiram baptizarem-se com nomes fictícios de que gostam.

Mas afinal o que é isso de meditar? “É tipo relaxar, acalmar a nossa cabeça, ficar mais descansada, e inspirar e expirar muito tranquila”, responde logo a Madalena, de cinco anos, com um enorme sorriso, interrompida por Carlos Tiago, olhos verdes grandes, seis anos de reguila, para explicar: “Pomos as pernas à chinês, fechamos os olhos e depois só vejo preto enquanto respiro fundo, mas gosto”, e ri-se perdido. “É acalmar o nosso corpo e tanto acalmo que estava quase a dormir”, acrescenta Matilde, cinco anos. Tomás de Mello Breyner, mentor do projecto Pequeno Buda, diefine a meditação como “a repetição contínua da mesma acção”.

Meditação é coisa que Martim de três diz perceber bem: “Faço tom tom na taça e sinto assim uma coisa cá dentro e depois entra e sai oxigénio.” A mãe, Vânia Guedes, graceja: “Em casa, o Martim toca numa taça parecida com esta que há aqui na creche e depois deita-se a meditar. Às tantas diz a ele próprio: ‘Martim já te podes levantar’.” A mãe acha-lhe piada e diz que desde que começou a meditação na creche está muito mais relaxado e concentrado.

Vânia Guedes é educadora de infância noutro espaço mas já fez um workshop de meditação, ministrado pelo projecto Pequeno Buda. “Foi importante como estratégia para usar com o meu filho e na minha profissão junto dos meninos em momentos de birras e quando estão agitados”, justifica. Sónia Aires, directora do Sol dos Pequeninos, diz que o projecto vem responder à missão do colégio de “trabalhar os valores, a humanização e a identidade das crianças”. E nota que estão mais calmas e concentradas.

Há alguns anos, numa das muitas viagens à Índia, “ao passar por uma escola na cidade de Kanpur, os miúdos antes de começarem as aulas iam para o ginásio fazer dez minutos de meditação. Aquilo mexeu comigo e disse para mim mesmo que, quando regressasse a Portugal, queria fazer o mesmo”, recorda Tomás de Mello Breyner. Assim foi. “Começámos, em 2014, com uma escola de Lisboa e aos poucos o projecto foi-se alargando”. No fundo, “é um sonho tornado realidade, é a prova de que a mudança da consciência global está a manifestar-se e isso é uma grande alegria”, realça.

Mais a Norte, no Agrupamento Cego do Maio, na Póvoa de Varzim, há uma sala propositadamente preparada para acolher os primeiros participantes do projecto Mentes Sorridentes. Estamos em Janeiro – o P2 acompanhou o início do projecto na escola com alunos do 3.º ciclo – e a professora Ana Ribeiro vai dizendo: “Em casa podem fazer sentados, deitados. Hoje, vamo-nos colocar numa postura que nos ajude. Corpo direito, mais descontraído, pernas paralelas e afastadas, pés assentes no chão.” E eles anuem, alguns mais calados, outros com risos, mas seguem as orientações de um áudio: “Feche os olhos ou fixe um ponto perto de si sem desviar o olhar. Inspire tranquilamente o ar pelo nariz e liberte-o sem pressa pelo nariz ou boca. Inspire tranquilamente. Expire devagar”. Uns fazem-no, outros ainda mantêm os olhos abertos, como que um pouco desconfiados. “É natural que a sua mente fuja e traga pensamentos”, ouve-se. No final, os alunos começam a mexer os pés e as mãos devagar, e a abrir os olhos. E escutam: “Sorria! Vai tornar-se uma mente sorridente!”

A professora Ana Ribeiro pergunta-lhes o que sentiram. “Fechei os olhos e senti-me um bocado aliviada; acho que vou melhorar na escola e em casa. Vim para descontrair, organizar as ideias e acalmar, porque tenho alguma dificuldade de concentração na sala de aula”, responde Maria, nome fictício, 14 anos, do 8.º ano. Ao seu lado, Miguel, nome fictício, 15 anos, suspira e acrescenta: “Tenho bicho-carpinteiro (risos) e até senti um formigueiro nos pés, mas gostei de fazer esta experiência orientada. Aconselharam-me a participar para melhorar o meu comportamento e as notas.” A professora aconselha-os: “Há pessoas que se assustam no início por causa das sensações novas, mas tentem fazer em casa uma vez por dia, durante dez minutos. Vão ver que funciona.”

Ana Ribeiro acrescenta ainda: “Quando se enervarem, respirem. Inspirem e expirem antes de darem uma resposta torta.” Oito semanas depois, o P2 regressa à escola e volta a estar com os alunos que relatam estar mais calmos e concentrados nas aulas. “Adquiriram ferramentas para aplicar em qualquer situação da vida. Se se tornar uma rotina, funciona”, conclui a professora.

A psicóloga e psicoterapeuta Joana Vaz, de O Pequeno Buda, diz que, “ao nível da neuropsicologia está provado que o cérebro muda ao fim de alguns anos de meditação; a paciência é muito trabalhada, é um treino”. Logo, acaba por ser, reconhece, “uma forma diferente de estar na vida” que permite parar para pensar.

 

Código a código, Andreas quer ensinar todas as crianças a programar

Julho 8, 2018 às 5:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do Público de 28 de junho de 2018.

É jovem, empreendedor e cria aplicações que permanecem no topo dos rankings mundiais. Andreas Vilela fundou também a Sharkcoders, uma escola onde os mais pequenos aprendem a programar.

Joana Costa Lima

Como muitos jovens, Andreas Vilela descobriu a paixão pela informática no ensino secundário. Treze anos depois, criou um jogo e uma aplicação de sucesso, abriu a própria empresa e fundou a Sharkcoders, uma escola onde se ensina programação, jogos e robótica aos mais pequenos. O projecto é fruto da imaginação do sobrinho, que um dia partilhou com o tio o quanto gostava de ser como ele. E porque é que uma criança não haveria de poder criar os seus próprios jogos e aplicações? Andreas não encontrou resposta e, a partir daí, não baixou os braços.

Ainda que a formação em programação, jogos e robótica para crianças e adolescentes não existisse em Portugal, esse era um mercado que começava a ser explorado no Brasil e nos Estados Unidos. Andreas não pensou duas vezes: fez as malas e apanhou um avião até São Paulo, onde reuniu com as quatro maiores empresas da área. O objectivo era exportar a marca para o outro lado do Atlântico, mas as negociações não correram como estava à espera. Nem por isso descansou e, em Março de 2017, decidiu avançar com uma marca própria.

Sharkcoders, inaugurada em Fevereiro último, foi a primeira rede de escolas portuguesa de programação, jogos e robótica para crianças e adolescentes. “É um projecto novo, ambicioso e que tem um impacto enorme no futuro da sociedade”, nota Andreas. “Estamos a preparar futuros profissionais, a dar competências e a criar literacia digital nos miúdos.”

A primeira escola, no Porto, conta com mais de 40 alunos, entre os cinco e os 17 anos, mas as crianças de Vila Real também têm uma escola por perto. Todas as semanas, em aulas de 90 minutos, os jovens desenvolvem o raciocínio lógico, a resolução de problemas, a matemática, o inglês, o trabalho em equipa, o foco e a concentração. Na primeira aula, as crianças de cinco anos aprendem a levar os Angry Birds até a uma meta, seguindo instruções simples. E, em breve, poderão também tornar-se mini-youtubers.

O “bichinho” do empreendedorismo nunca mais o largou

Foram as aulas de Tecnologias de Informação e Comunicação, no 11.º ano, que o convenceram. E, à entrada na faculdade, Andreas não teve dúvidas de que o seu percurso passaria pela licenciatura em Engenharia Informática na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, em Vila Real. Só aqui, confessa, se apaixonou pela área da programação e robótica.

Nas férias de Verão, entre o segundo e o terceiro anos, voou até Manchester para aquela que seria a sua primeira experiência profissional: estagiar durante sete semanas na empresa Clicks and Links Ltd. No último ano, com um projecto final em mãos, trabalhou em parceria com a Portugal Telecom Inovação, onde viria a trabalhar mais tarde.

Daí até criar o seu primeiro jogo de computador, Kill The Duck, foi um instante. Inspirou-se em Duck Hunt — que jogava durante horas com o irmão mais velho — e quando o disponibilizou na App Store, em 2011, nunca imaginou o sucesso que viria a ter. Um mês depois, o jogo estava no top 10 e não tardou a atingiu o segundo lugar a nível mundial. É, até à data, a melhor posição de sempre de uma aplicação móvel desenvolvida por um estudante.

O objectivo do Kill The Duck é simples e desvendado no título: matar o pato. “É um jogo efectivamente simples, com diferentes níveis, diferentes mundos. Os próprios patinhos foram desenhados no Paint e apenas fui ao Photoshop para lhes tirar a border e fazer a animação das asas a mexer”, explica o jovem de 30 anos. “Foi um jogo efectivamente muito básico, muito simples, não tinha mais competências na altura.”

Depois do sucesso do jogo, que conta com mais de dois milhões de downloads, Andreas começou a trabalhar na Portugal Telecom Inovação, em Aveiro. Mas a experiência despertou no jovem o “bichinho” do empreendedorismo. E em 2012, com o lançamento do Windows 8, decidiu estabelecer uma parceria com a Microsoft e criar uma aplicação de wallpapers: a Backgrounds Wallpapers HD revelou-se um êxito e ainda hoje se mantém no top mundial das aplicações mais utilizadas em Windows.

Em 2014, o jovem decidiu deixar a Portugal Telecom Inovação; arrancar com a própria empresa era um sonho há muito por cumprir. E a IZILABS Software, sediada no Regia Douro Park, em Vila Real, foi a concretização disso mesmo. Actualmente, Andreas dedica 95% do seu dia a desenvolver a YUGOUP – Let’s grow up, uma plataforma de marketing digital destinada a micro, pequenas e médias empresas. Apesar de ainda não ter sido lançada, já mereceu algumas distinções, levando Andreas a Silicon Valley, nos Estados Unidos, em Abril, e a Amesterdão, na Holanda, em Maio.

“Hoje em dia quem está à frente das empresas é a geração X e a geração Y, são pessoas que, de certa forma, evitam mexer com o software, não sabem como fazê-lo. Sabem que têm de marcar presença no mundo digital, mas não sabem bem como. E então nós vamos entrar com uma solução transversal em todos os canais para combater esta iliteracia digital, colocar as empresas online e aumentar o próprio negócio”.

Para o futuro, Andreas espera concluir a escola de Vila Real (actualmente em instalações temporárias), expandir o projecto para outras cidades do país e implementar a programação e a robótica no programa de algumas escolas. Aos jovens informáticos, deixa uma mensagem: “É preciso levantar a cabeça e lutar, é preciso também ser inovador, pensar diferente, fora da caixa.” O segredo, arrisca, reside “no esforço, na dedicação, em tentar novamente e, obviamente, num pouquinho de sorte”.

 

 

 

“Olá, eu sou o judeu» Antissemitismo nas escolas

Julho 4, 2018 às 8:00 pm | Publicado em Vídeos | Deixe um comentário
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Texto do site Swissinfo de 26 de junho de 2018.

Por Sibilla Bondolfi

Jovens judeus visitam classes da rede pública suíça para responder a perguntas sobre o judaísmo para evitar a desinformação que gera o anti-semitismo. Intitulado “Likrat”, esse projeto de diálogo é tão bem-sucedido que os países vizinhos, como Alemanha e Áustria, estão também adotando-o.

Hinwil, na região de Zurique Oberland: a maioria dos jovens daqui nunca viu um judeu, muito menos falou com um. Há muitos anos que não existe mais uma comunidade judaica nessa região rural.

Os jovens se dirigem para uma sala de aula onde as cadeiras foram organizadas em círculo. Duas moças, vestidas de maneira moderna, com longos cabelos castanhos, sentam-se no meio. Uma delas rapidamente retoca sua maquiagem.

Nesse momento, pode acontecer que um aluno exclame: “Mas onde está o judeu?” E Liora, uma das duas belas moças do projeto, responde: “Eu sou o judeu”.

Superando os preconceitos que precedem o anti-semitismo

Cenas como essa em um encontro do Likrat podem ser vistas no documentário de Britta Wauer, ganhadora do Prêmio Grimme, um dos grandes prêmios da televisão pública alemã (no link abaixo, em suíço-alemão, com legendas em francês):

O Likrat é um projeto de diálogo da Federação Suíça de Comunidades Judaicas (FSCI), realizado desde 2002 na Suíça de língua alemã e desde 2015 na Romandie (Suíça francófona). Em cada encontro, dois jovens judeus visitam uma escola e respondem perguntas sobre o judaísmo, em uma média de cem reuniões por ano em todo o país.

A ideia é quebrar os preconceitos antes que o anti-semitismo possa se firmar. “Há vinte anos, a comunidade judaica da Suíça confrontou-se com diferentes acontecimentos que tornaram os velhos preconceitos parcialmente aceitáveis ​​novamente na sociedade”, diz Jonathan Kreutner, secretário geral do FSCI, referindo-se ao nascimento do projeto.

Nenhum tema é tabu

Com sua colega, Liora responde a perguntas sobre sua vida como judia. Pode-se perguntar sobre qualquer coisa. “Sem tabus”, confirma Liora. E as perguntas afloram: “Seu pai tem cachos nas têmporas?”

“Em geral, as crianças e os jovens fazem perguntas sobre o dia a dia, roupas, amor ou necessidades alimentares”, observa Jonathan Kreutner. “Dependendo das circunstâncias, pode ser um pouco mais controverso, quando se trata dos clichês sobre a aparência típica dos judeus, por exemplo. Mas essas questões são perfeitamente normais, e não têm nada a ver com ódio.

Um modelo de sucesso – também para outros países

Na Suíça, o Likrat é um sucesso total, e o modelo já foi exportado para a Alemanha, a Áustria e a Moldávia. E de acordo com Jonathan Kreutner, outros países seguirão. “Um projeto de diálogo” feito na Suíça “se tornará global. Isso obviamente nos deixa contentes”.

Na Alemanha, em particular, o anti-semitismo e o assédio religioso nas escolas tomaram as manchetes nos últimos meses. O fato de os agressores serem frequentemente filhos de pais turcos ou árabes reviveu o debate sobre o anti-semitismo muçulmano e a política de migração.

Existe também na Suíça anti-semitismo de parte de crianças muçulmanas ou de origem imigrante?” Até agora, não sabemos muito dos jovens ou de seus pais”, diz Jonathan Kreutner. “Mas a maioria das crianças e jovens judeus já vivenciou provocações, até mesmo insultos por causa de sua religião, mesmo na Suíça”. E é aí que entra o projeto Likrat.

O projeto foi também estendido a adultos. Com o Likrat Public, os jovens ajudam empresas ou hotéis a entender melhor seus clientes judeus. Que esses workshops são necessários, não há dúvidas, graças a casos como o “erro” de um hotel em Graubünden que havia postado um lembrete para seus hóspedes judeus pedindo-lhes para tomar um banho antes e depois de usarem a piscina.

Você pode entrar em contato com a autora desta matéria @SibillaBondolfi no FacebookLink externo ou no TwitterLink externo.

 

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