Alemanha aprova multas até 2.500 euros para pais que não vacinem filhos contra sarampo

Agosto 2, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Observador de 17 de julho de 2019.

A decisão aprovada entra em vigor em março de 2020 e também impõe que crianças em centros de refugiados sejam vacinadas, e determina a exclusão de crianças não vacinadas do direito às creches.

O conselho de ministros da Alemanha aprovou nesta quarta-feira multas que poderão chegar aos 2.500 euros para os pais que decidam não vacinar contra o sarampo os seus filhos em idade escolar.

A decisão aprovada nesta quarta-feira entra em vigor em março do próximo ano e também impõe que as crianças em centros de refugiados sejam vacinadas, e determina a exclusão de crianças não vacinadas do direito de frequentarem as creches.

“Queremos, dentro do possível, evitar que todas as crianças estejam expostas ao sarampo porque é uma doença altamente contagiosa e pode ter uma evolução muito má, às vezes fatal”, argumentou o ministro da Saúde, Jens Spahn.

De acordo com os dados oficiais, no ano passado registaram-se no país um total de 543 casos de sarampo e este ano, até ao momento, já foram contabilizados mais de 400.

A decisão do Conselho de Ministros surge num momento em que na Alemanha, assim como na maior parte da Europa, vários grupos questionam a importância das vacinas.

“Todos os dias, milhares de crianças de crianças vão para a escola medicadas simplesmente para ficarem sentadas”

Julho 31, 2019 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista de Cristina Camões ao i de 16 de julho de 2019.

O que é a psicoterapia? Qual é o potencial? A psicóloga clínica e psicoterapeuta Cristina Camões tem um novo livro em que desmonta os mitos em torno do consultório. “Um psicólogo não dá conselhos”, diz.

TEXTO | MARTA F. REIS

Cristina Camões, psicóloga clínica e psicoterapeuta, acaba de publicar Psicoterapia – Um caminho para a Felicidade, em que pretende desmontar os mitos e o estigma em torno do consultório do psicólogo. Defende que há uma ideia errada sobre o que é a felicidade, que não aceita que podem existir momentos maus e que o importante é reconhecê-los e lidar com eles. Uma ideia que se incute desde criança em frases como “não chores que é feio”. Em entrevista ao i, por escrito, fala sobre os objetivos da psicoterapia e os sinais de alerta numa sociedade que toma cada vez mais comprimidos e em que a saúde mental não tem sido prioridade.

Chamou ao seu livro publicado em maio Psicoterapia – Um Caminho para a Felicidade. É sempre assim?

Poderá ser sempre se o paciente levar o processo até ao fim. Mas convém entender melhor o que é a felicidade. A sociedade costuma pensar que a felicidade é algo que se atingirá um dia e que a partir daí será permanente. Nada mais errado: somos humanos e a vida não é retilínea. Quase todos os autores são unânimes em afirmar que a felicidade não é contínua, mas antes constituída por momentos. Hoje posso estar a sentir-me feliz porque atingi um objetivo muito importante, mas amanhã poderei estar triste, pois estou doente. Por outro lado, a felicidade não advém de fatores externos, mas internos. Aqui estaremos desde logo a entender o porquê de a maioria das pessoas não se sentirem felizes. Por um lado, acham que a felicidade é algo utópico e, por outro, procuram no sítio errado. Se observarmos a sociedade, esta está cada vez mais desligada de si, do sentir e da autoconsciência. Daí o aumento vertiginoso nos últimos anos dos índices de depressão e das taxas de suicídio.

Propõe-se lançar os leitores numa viagem aos bastidores do consultório. 

Pretendo com este livro acabar com os equívocos relativamente a fazer um processo psicoterapêutico. Chegam-me pacientes que já tinham tentado fazer psicoterapia, mas que foram sujeitos a situações éticas e profissionais graves que em nada dignificam esta profissão. Torna-se condição essencial que toda a gente saiba de facto o que pode esperar de um especialista desta área e, por outro lado, que saiba reclamar o seu direito a um atendimento clínico de qualidade e alicerçado em profissionalismo.

Quais são as questões mais comuns em consulta e que a preocupam mais?

Atualmente, as problemáticas mais frequentes são a depressão clínica e a perturbação de ansiedade grave, com ou sem ataques de pânico. O que mais me preocupa é o facto de estas patologias aparecerem em idades cada vez mais precoces. Imagine o que seria se sentisse que quer adormecer e nunca mais acordar; que deseja ser colhida por um carro para não ter de ser você mesma a acabar com a vida; que falta aos exames de faculdade porque prefere não os fazer perante a hipótese de tirar má nota; que há muito deixou de sair, pois sente que não tem nada de interessante para dizer; que sente que toda a gente é feliz e você nunca conseguirá sê-lo; ou que ontem esteve pendurada na ponte a decidir se devia saltar e deu-se uma última oportunidade, vir hoje à consulta. São estes os pensamentos e sentimentos que escuto diariamente e refletem o que se passa na mente daqueles que sobrevivem com uma depressão ou perturbação de ansiedade.

Quer também com este livro desmistificar o papel do psicólogo na sociedade e da própria psicologia. O que costuma ouvir?

É importante desmistificar o papel do psicólogo na sociedade, mas mais ainda desmistificar a saúde mental. Foram-se criando alguns mitos acerca das consultas de psicoterapia. Um deles é acharem que o psicólogo irá dar conselhos, opiniões e caminhos a seguir. O psicólogo não dá conselhos, exceto se forem recomendações clínicas, de acordo com o quadro clínico. Não emite opiniões nem diz o caminho a seguir. Se assim fosse, o paciente não precisava de um especialista em saúde mental, bastaria falar com a família e amigos. A arte da verdadeira psicoterapia consiste na capacidade do psicólogo conseguir introduzir técnicas do modelo teórico que utiliza, ativando áreas cerebrais e elicitando mudanças bioquímicas que, consequentemente, levarão a mudanças comportamentais, emocionais, relacionais e estruturais no cérebro do paciente.

Porque sentiu necessidade de escrever sobre esta disciplina?

Fala-se muito de psicoterapia e quase nunca se sabe o que se diz. O meu livro não foi escrito para académicos, mas para o público em geral. A responsabilidade desta disciplina ser menos compreendida não é da sociedade, mas sim daqueles que falam daquilo que não sabem. Tenho a certeza de que, se a sociedade soubesse de facto o que é a psicoterapia e soubesse o que poderia ganhar com ela, os consultórios dos psicólogos ficariam cheios. Os filhos já não desenvolvem uma anorexia nervosa, a mãe aprenderia a ser mãe, o pai aprenderia a ser pai, as profissões eram escolhidas de acordo com o que a pessoa sente e não com o que os outros querem, as urgências dos hospitais deixavam de ser entupidas com casos de perturbações do foro psicológico, reduzindo a despesa pública drasticamente na área da saúde. Os suicídios diminuíam, os profissionais das diversas áreas eram melhores, ninguém aceitaria ficar numa relação tóxica ou de violência – a lista é infinita. Importa salientar que se trata é de um caminho a dois em que o psicólogo irá, além de tratar as patologias, ajudar o paciente a encontrar o seu sentido de vida.

Não haverá sempre recaídas, momentos de descompensação?

Os resultados são eficazes quando a psicoterapia é feita por um psicólogo especialista e se o doente não desistir do processo. Tem de ser o psicólogo a dar alta clínica. Por outro lado, como neuropsicóloga posso afirmar que, depois de ativar áreas cerebrais, o cérebro não perde as capacidades ganhas, só se existir algo externo, por exemplo um AVC ou um tumor cerebral. Todo o trabalho é alicerçado em modelos cientificamente validados, por isso afirmamos que a psicologia é uma ciência. De acordo com o modelo teórico em que me especializei, é uma condição obrigatória fazer um exame psicológico ou neuropsicológico. O psicológo não é mágico e, embora seja formado para diagnosticar, o olho clínico poderá errar. Não deve intervir sem antes avaliar cientificamente a condição psicológica do paciente. A escolha dos testes poderá variar de acordo com a idade e o quadro clínico apresentado. Depois darão origem a um relatório em que é explicado o caso clínico e o que se passa com o paciente, tal como um médico não pode operar um doente sem solicitar exames. Só depois, tendo em conta o quadro clínico apresentado, é que o psicólogo escolhe o tipo de técnicas a utilizar. São esses passos que explico no livro. Se, dentro do consultório, o paciente tivesse elétrodos ligados ao seu cérebro representado num computador (como acontece nos laboratórios de neurociências), poderíamos verificar que a ativação cerebral varia de acordo com as técnicas utilizadas.

Nos últimos anos, procurar ajuda profissional e fazer terapia passou a ter maior visibilidade. Há menos estigma ou ainda existe caminho a percorrer? 

Infelizmente, ainda se pensa que consultar um psicólogo é para “malucos”. Costumo dizer que nós tratamos pessoas que não são doentes mentais mas têm uma doença do foro psicológico, que sofreram traumas, violência ou outras situações que os impediram de crescer de forma emocionalmente equilibrada. Muitos pacientes escondem das suas famílias que fazem psicoterapia. No entanto, os média têm ajudado a desmistificar esta questão com séries televisivas. Várias figuras públicas revelam que recorreram a um psicoterapeuta e acho muito bem que o façam. Os atores, apresentadores e artistas em geral estão sujeitos a uma exposição mediática e nem sempre é fácil lidar com as consequências que daí advêm. Fazer psicoterapia deveria ser entendido como algo natural e um motivo de orgulho. Quem passa por um processo destes não se vê apenas livre da depressão ou da ansiedade, sofre um profundo caminho de crescimento e de autoconsciência que, de outra forma, seria impossível de atingir.

Defende que as pessoas ficam diferentes depois de passarem por processos psicoterapêuticos. Que transformações a têm impressionado mais? 

A pessoa que nos chega à consulta deixa de existir após o processo psicoterapêutico. Já imaginou se, a dada altura da sua vida, começasse a dizer não a quase toda a gente, a ter coragem de dizer às pessoas chatas que são chatas, a assumir os seus sentimentos verdadeiramente, a recusar sair com quem não deseja? No processo psicoterapêutico, o paciente passa por transformações que vão resultar na construção de uma nova identidade, forte, assertiva e emocional, ainda que por vezes pareça egoísta aos olhos dos outros. Mas essa é a verdadeira pessoa, aquela que deveria ter sido sempre.

A quem se destina a psicoterapia? Deve ser encarada como tratamento ou como um “cuidado de higiene mental”, portanto para todos, como defendem alguns autores?

A psicoterapia não se destina apenas àqueles que têm uma doença do foro psicológico. Poderá ser feita por qualquer pessoa. Aliás, para nos ser atribuído o título de especialista avançado em psicoterapia pelo colégio da Ordem dos Psicólogos é obrigatório o próprio psicólogo passar por um processo demorado de psicoterapia que a ordem designa como “desenvolvimento pessoal”. Nos casos em que não existe uma patologia há um caminho de crescimento magnífico que trará consequências positivas em todos os papéis que desempenha: profissional, académico, amoroso, relacional, familiar, entre outros.

A partir de que idade se pode fazer psicoterapia?

Pode ser feita em qualquer idade. Nas crianças dos 0 aos 12/13 anos (depende da maturidade da criança) chama-se ludoterapia e, a partir daí, é psicoterapia. Há psicólogos que se especializam apenas em psicoterapia infantil e outros em adultos.

Por vezes existe a ideia de que mergulhar nas emoções abre quase uma caixa de Pandora. Todos temos traumas? Não há o risco de destapar problemas que não eram relevantes?

Vivemos numa sociedade que educa as suas crianças castrando a sua capacidade de sentir o mundo. Frequentemente, ouvimos os pais dizerem às crianças “não chores que é feio”, “não penses nisso, desvaloriza”, “se te portares mal, não gosto de ti”. Fico perplexa pois, à medida que cresce e fica impregnada com este afastamento emocional de si própria e do mundo real, a criança vê-se mergulhada numa racionalidade extrema que a leva a desenvolver uma neurose. Tendo em conta o que acabei de dizer, tudo o que é dito em consulta é importante. Em cada momento, o cérebro vai descarregando as memórias passadas que escondem medos, inseguranças, sentimentos de inutilidade e desvalorização, tristeza e fobias. Vamos juntos ao fundo da caixa de Pandora. Isto irá permitir ao paciente sentir revolta, desilusão e frustração, que lhe permitirão, finalmente, reclamar para si o direito de se sentir triste, desiludido com as pessoas que julgava serem boas para si e desempenhar apenas e só o seu papel.

Como vê o interesse crescente em torno da descoberta da espiritualidade, a popularidade, por exemplo, da meditação mindfulness, e toda uma indústria em torno da autoajuda? 

É intrínseca a necessidade do ser humano de ter um sentido para a sua vida e, por outro lado, de sentir felicidade. No entanto, essa busca é tão interna e individual como subjetiva. A capacidade de evocar experiências espirituais pode estar relacionada ou não com o contexto religioso. O ser humano precisa de algo que lhe dê a capacidade de acreditar em algo. Este facto veio trazer para a sociedade novas formas de levar este caminho às pessoas, através da autoajuda, da literatura descartável ou milagreira. Na prática clínica diária verifico que o processo psicoterapêutico abre espaço mental no paciente para dar sentido à sua vida e, consequentemente, desenvolver a sua inteligência espiritual. Tal como advoga Damásio, desde que a pessoa esteja equilibrada, a felicidade poderá ocorrer através do desporto, da pintura, da música, da leitura, entre outras atividades. Cada um irá descobrir o que faz sentido para si. O importante é que entendam que, se a pessoa estiver com uma doença do foro psicológico, terá de ser tratada por um especialista da área da psicologia clínica. Os casos clínicos não se tratam com literatura de autoajuda nem com mindfulness.

Mas sente que o psicólogo tem perdido o lugar que tinha, protagonismo?

O psicólogo clínico é, antes do mais, um profissional da área da saúde. Seria muito importante que a sociedade deixasse de brincar com coisas sérias. Reitero as palavras do prof. Quintino Aires no prefácio do meu livro: “As ofertas multiplicam-se, especialmente em workshops e cursos breves que são a nova banha da cobra do séc. xxi”. Costumo dizer que a meditação e as frases de autoajuda descartáveis podem ter algum impacto naqueles que não têm nenhuma doença do foro psicológico. Aliás, nenhum doente com depressão ou ansiedade consegue fazer meditação, porque o seu cérebro está desequilibrado quimicamente e é invadido por milhares de pensamentos que o impedem de relaxar. Sinceramente, o que mais me preocupa são aqueles que, sem qualquer licenciatura em Psicologia Clínica ou Psiquiatria, se intitulam psicoterapeutas. Posso dizer-lhe que temos observado, mesmo nos média, pessoas que falam de casos clínicos na televisão, e se formos ao site da Ordem dos Psicólogos verificamos que os seus nomes não existem enquanto membros efetivos da ordem.

O último estudo feito em Portugal estimou que um terço da população tenha algum problema do foro mental. O país tem um elevado consumo de ansiolíticos e antidepressivos. Há um recurso excessivo a medicação?

A situação é altamente preocupante, não só em Portugal mas um pouco por todo o mundo. A toma de medicação psiquiátrica está a alastrar drasticamente e, na maioria dos casos, as receitas são passadas por médicos de clínica geral. Todos os dias, milhares de crianças vão para a escola medicadas psiquiatricamente simplesmente para ficarem sentadas e não perturbarem as aulas. Os estudos comprovam que é na infância que o cérebro da criança vai desenvolver-se e sofrer ativações neurológicas extraordinárias, não só ao nível cognitivo como relacional, do pensamento e emocional. O que acontecerá se o seu cérebro estiver “adormecido” nestes momentos de desenvolvimento? Estará disponível para aprender ou para se relacionar com o grupo de pares? Chegam-me casos de crianças que vão para a escola completamente dopadas, com suores frios, tremuras, dores físicas, como consequência dos efeitos secundários da medicação. Existem outros estudos que alertam para o facto de existir uma probabilidade maior de uma criança medicada na infância vir a ser um consumidor de drogas na adolescência ou na vida adulta.

Recebe muitos casos em que a medicação foi usada demasiado tempo sem acompanhamento psicológico?

Um caso muito grave que me apareceu foi um jovem de 19 anos que chegou à consulta a tomar 12 comprimidos por dia fixos e dois em SOS. Só ao fim de dois anos foi possível começar a fazer o desmame da medicação. Por outro lado, é muito fácil para os pais aceitar que o filho “resolverá” os seus problemas tomando comprimidos, demitindo-se da sua responsabilidade enquanto pais. A medicação não trata as causas da doença, mascara apenas os sintomas, porque a pessoa deixa de pensar, deixa de ter espírito crítico, vê as suas capacidades cognitivas diminuir (memória, atenção e concentração), o seu discurso fica confuso e incoerente – no fundo, afasta-se do mundo real. A psicoterapia, obviamente feita por um especialista, trata porque vai remover as causas. Costumo dizer que não somos mágicos para alterar o passado, mas vamos conseguir fazer com que esse passado deixe de interferir com o presente.

Quanto custa o acompanhamento por um psicoterapeuta? Está ainda longe de ser algo a que a maioria da população possa ter acesso?

A Ordem dos Psicólogos não estabelece um valor de honorário mínimo nem máximo. Por outro lado, o custo e o tempo de tratamento dependem de cada quadro clínico, por isso não poderei dar uma resposta objetiva. Infelizmente, os ministérios da Saúde não têm investido nesta área, levando a uma quase inexistência de psicólogos clínicos no Sistema Nacional de Saúde, e o caso ainda é mais grave quando falamos da existência de psicólogos especialistas. Qualquer valor que um paciente gaste num tratamento psicoterapêutico é mínimo relativamente à sua cura e à sua oportunidade de ser feliz. Quanto vale a vida de um jovem ou um adulto que comete suicídio e que, se fizesse este tratamento, nunca o faria? A sociedade tem de mudar as suas prioridades.

Que mensagem gostava de transmitir com este livro?

O primeiro objetivo deste livro é desmistificar a saúde mental e que todos aqueles que sofrem com doenças do foro psicológico possam encontrar a cura se consultarem um psicólogo especialista em psicoterapia; por outro lado, mostrar que no cérebro do ser humano existem todas as características e oportunidades para a cura, basta que para isso tenha a coragem de fazer esta viagem para dentro de si; mostrar também que a depressão e a ansiedade não se curam com medicação, pois esta não vai tratar as causas da doença, mas sim camuflar os sintomas, transformando a pessoa num ser dopado e alheio ao mundo.

Na visão do psicoterapeuta, a medicação nunca é necessária?

Nada disso. Há situações em que pode ser necessária, uma depressão clínica muito grave. É importante distinguir duas coisas. Por um lado, há as doenças mentais, doenças que geralmente não têm cura, por exemplo uma esquizofrenia, uma doença bipolar, uma criança autista; ou doenças do foro neurológico, como demências. Aí, obviamente que é necessária medicação. Ninguém imagina que uma pessoa com esquizofrenia não faça medicação, senão vai ter delírios, pode cometer suicídio ou até um homicídio. Nesta vertente é obrigatório ter medicação e são casos que são tratados na área da psiquiatria. Poderão beneficiar da psicoterapia não no sentido de tratar, pois são doenças que não têm cura, mas para diminuir a sintomatologia e para ajudar os doentes a lidarem com as consequências da doença e ajudarem até a família a lidar com o doente, a permitir uma vida o mais equilibrada possível. Do outro lado temos então as doenças do foro psicológico, em que se incluem a depressão, a ansiedade, uma anorexia nervosa, uma bulimia. Quando falamos de perturbações do foro psicológico, se a pessoa fizer psicoterapia não vai precisar de medicação. Mas se chegar medicada ao consultório, não vai deixar logo a medicação. Existe risco clínico. Só o médico é que pode fazer o desmame, em parceria com o psicólogo. A pessoa só poderá deixar a medicação de forma progressiva.

Por vezes ouve-se pessoas a quem os médicos prescrevem antidepressivos ou ansiolíticos mas dizem que não os vão tomar.

Não aconselho ninguém a fazer isso. Se o médico entendeu prescrever a medicação, o doente deve fazê-la. Nos EUA e mesmo em Portugal há alguns psiquiatras que se especializam em psicoterapia, mas não é muito frequente; o mais habitual é o médico usar a abordagem farmacológica. Quando digo que não trata é porque um medicamento, seja antidepressivo, ansiolítico ou antipsicótico, vai atuar ao nível das células nervosas bloqueando a passagem de informação. É quase como fazer um penso a áreas cerebrais. A pessoa fica mais calma, mas não fica tão capaz para lidar com o dia-a-dia. A crianças, não existindo doença mental, não aconselho de todo; devem procurar acompanhamento especializado. Mas é preciso sublinhar que há casos de depressão clínica em que é preferível usar medicação inicialmente e só depois, ao longo do processo psicoterapêutico, iniciar o desmame.

Há perguntas que sejam mais reveladoras nas sessões de psicoterapia? 

Não. Excetuando as questões do foro emocional “o que sentiste quando soubeste que o teu pai morreu?”, “o que sentiste quando estavas prestes a tomar aquela embalagem de comprimidos?”, “o que sentiste quando ele disse que já não te amava?”, o psicoterapeuta abstém-se quase sempre de transformar a consulta num interrogatório. A arte do verdadeiro psicoterapeuta é conseguir, com as técnicas científicas que são introduzidas na conversa psicoterapêutica, ativar áreas cerebrais e produzir neuroquimicamente neurotransmissores que levarão a um alívio progressivo dos sintomas, por exemplo, tristeza, desvalorização, sentimentos de inutilidade, baixa autoestima, pensamentos de acabar com a vida. Por isso posso afirmar que as doenças do foro psicológico têm cura com psicoterapia.

OCDE: Escolas no Brasil têm menos tempo para ensino e mais bullying entre alunos do que média internacional

Julho 29, 2019 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia da BBC News de 19 de junho de 2019.

Paula Adamo Idoeta -@paulaidoeta Da BBC News Brasil em São Paulo

As escolas brasileiras perdem mais tempo com tarefas não relacionadas ao aprendizado e são um ambiente mais propício ao bullying e à intimidação do que a média internacional, segundo dados obtidos a partir da avaliação dos próprios professores e diretores escolares. E isso acaba prejudicando os esforços pedagógicos para melhorar a educação.

Em uma aula típica, os professores brasileiros passam, em média, apenas 67% do tempo com o processo de aprendizado – o restante acaba sendo dedicado a tarefas administrativas, como fazer chamada, ou disciplinares, como manter a ordem da classe.

A informação é parte da pesquisa Pesquisa Internacional sobre Ensino e Aprendizagem (Talis, na sigla em inglês), que acaba de ser divulgada pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico).

Na média da OCDE – que entrevistou 250 mil professores e líderes escolares de 48 países ou regiões -, os professores usam 78% do tempo de sala de aula com aprendizagem. Atrás do Brasil, só professores da África do Sul e da Arábia Saudita gastam mais tempo com tarefas não relacionadas ao aprendizado.

Para a OCDE, o efeito cumulativo disso traz grandes perdas para o aluno.

“A perda de alguns minutos por dia, somados, acaba totalizando a perda de vários dias no ano escolar, por isso o tempo gasto no aprendizado é tão importante”, diz à BBC News Brasil Karine Tremblay, principal autora do estudo.

“Um exemplo concreto: uma perda de apenas 5% no tempo gasto ensinando corresponde a 12 dias e meio no ano.”

A única ressalva que ela faz é que esse tempo administrativo pode estar sendo positivamente gasto se for explicando novas tarefas aos alunos ou acompanhando-os em atividades especiais, como as extraclasse, que tendem a exigir mais tempo de gerenciamento.

Intimidação e bullying

Outro dado que chamou a atenção de Tremblay é que 28% dos diretores escolares brasileiros relataram ter testemunhado situações de intimidação ou bullying entre alunos, o dobro da média da OCDE. Semanalmente, 10% das escolas brasileiras pesquisadas registram episódios de intimidação ou abuso verbal contra educadores, segundo eles próprios, com “potenciais consequências para o bem-estar, níveis de estresse e permanência deles na profissão”, diz a pesquisa. A média internacional é de 3%.

“É claramente uma questão preocupante e alta para os padrões da OCDE”, afirma Tremblay. “O Brasil não está sozinho – países como a França e regiões como a comunidade flamenga da Bélgica, também parte da pesquisa – têm índices elevados (de bullying e intimidação), mas o Brasil está entre os de índices mais altos do mundo, que têm se mantido estável nos últimos cinco anos.”

Tremblay explica que a OCDE não analisou os motivos por trás desses índices, mas explica que “as tendências estatísticas mostram que eles são muito sensíveis às políticas públicas de combate ao bullying”.

A pesquisadora explica que, em muitos ambientes escolares, o bullying e a agressividade acabaram sendo “normalizados” e minimizados, com impactos negativos sobre o aprendizado. “Claramente, se os estudantes não se sentem seguros em sua própria escola, não há condições para aprender.”

Tremblay opina que é só quando “todos no ambiente escolar, de pais a educadores e estudantes, entenderem que essa questão não é aceitável e precisa ser enfrentada é que o problema será combatido. É preciso informar diretores de que isso é um problema sério, que afeta o bem-estar e portanto o aprendizado dos alunos, e realizar campanhas de conscientização para estimular vítimas e testemunhas a relatar os casos.”

Perfil dos educadores brasileiros

A Talis 2018 – maior pesquisa mundial de educadores – entrevistou 2.447 professores da educação básica e 184 diretores de escolas brasileiras.

A média de idade dos professores brasileiros é de 42 anos e a dos diretores escolares, 46 anos (o que significa, nos cálculos da OCDE, que um quarto dessa força de trabalho terá de ser renovada pelo país em pouco mais de uma década, à medida que esses educadores se aposentarem).

É, majoritariamente, uma carreira feminina no Brasil: 69% dos professores e 77% dos diretores são mulheres.

Do total de educadores, quase dois terços afirmaram que o magistério foi sua primeira escolha de carreira profissional.

Entre os pontos positivos destacados pela pesquisa, 80% dos entrevistados brasileiros afirmaram que há apoio entre colegas para a implementação de novas ideias no ambiente escolar. E a proporção (33%) de professores novatos brasileiros que contam com a ajuda de mentores mais experientes – uma prática recomendada pela OCDE – é 11 pontos percentuais mais alta do que a média internacional.

Para a OCDE, a pesquisa sobre o universo docente é importante porque a educação atual deixou de ser relacionada “apenas a ensinar algo a alunos, mas sim a ajudá-los a desenvolver uma bússola confiável e ferramentas para navegar, com confiança, um mundo cada vez mais complexo, volátil e incerto”.

“O professor atual precisa ajudar os alunos a pensar por si próprios e a trabalhar em conjunto, desenvolver sua identidade, agência e propósito. Por isso exigimos tanto dos nossos professores. (…) Estudantes dificilmente serão eternos aprendizes se não enxergarem seus professores como eternos aprendizes ativos.”

O documento citado na notícia é o seguinte:

TALIS 2018 Results (Volume I) : Teachers and School Leaders as Lifelong Learners

Actividade física: o mais importante entre o menos importante – crianças

Julho 25, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Cíntia França publicado no Público de 12 de julho de 2019.

Cíntia França

Professora de Educação Física e doutoranda em Ciências do Desporto pela Universidade de Coimbra.

Depois de uma criança estar inserida numa prática desportiva organizada, por exemplo, individual ou colectiva, dificilmente conseguirá deixar de a integrar por opção própria. O movimento é a paixão mais forte e benéfica que existe.

O aumento dos tempos lectivos veio acompanhado de mais trabalhos de casa. Esta equação de soma é subtraída do tempo, resultando no tempo livre. Isto, provavelmente, pelo facto de o sucesso escolar ser, na prática, o principal ditador do destino de uma criança. Afinal, só poderemos ser o que quisermos ser se a média o permitir, independentemente das tantas outras coisas que definem um ser humano.

O sistema é vicioso e tira mais do que oferece. O programa curricular é mais extenso e, quando aliado ao número de alunos por professor, percebemos que dificilmente será possível “acompanhar a matéria”. Por essa razão (e não só) surgiram as explicações, aumentando novamente a necessidade de enfiar a cabeça entre os livros. Este é mais um factor que afecta o tempo.

Em suma, é o tempo que está em jogo e, se considerarmos a quantidade de tarefas atribuídas às nossas crianças e jovens, ficamos quase com a sensação de que iremos viver para sempre. Afinal, onde está o tempo para estar na escola, fazer os trabalhos de casa, talvez ir até à explicação, estudar e, quem sabe, fazer algo que não esteja relacionado com a escola, como praticar desporto ou outra qualquer actividade? É preciso tempo para se ser saudável e para se crescer.

Curiosamente, talvez seja esta limitação do tempo que torna a actividade extra tão preciosa. Depois de uma criança estar inserida numa prática desportiva organizada, por exemplo, individual ou colectiva, dificilmente conseguirá deixar de a integrar por opção própria. O movimento é a paixão mais forte e benéfica que existe.

Assim, sobra-nos apenas uma opção: gerir o tempo. E como o tempo é, normalmente, gerido através das prioridades que são individualmente estabelecidas, adoptemos a noção de que o desporto é a “coisa” mais importante entre as “coisas” menos importantes. Continuemos a catalogar o sucesso escolar como o principal objectivo, mas, em detrimento dos tempos mortos em tecnologias, priorizemos o desporto. As crianças ficarão obrigatoriamente presas aos computadores, quer numa fase mais avançada do seu percurso escolar quer num emprego futuro. Portanto, resta-nos evitar que se dispersem na tecnologia enquanto realmente essa opção está disponível.

O desporto é um meio privilegiado para o desenvolvimento da disciplina, do sentido de responsabilidade e de compromisso, do respeito pelo colega ou adversário, da capacidade de superação e, consequentemente, melhoria da auto-estima, do espírito de equipa, resultando, sumariamente, na promoção da felicidade. Se pensarmos no que consiste a vida, lembrar-nos-emos destes princípios. Queremos seres humanos bem-sucedidos e queremos igualmente bons seres humanos. Vamos dar-lhes a conhecer o desporto e a recompensa humana será, provavelmente, bem mais valiosa do que a média

A infância acaba aos 6 – Eduardo Sá

Julho 19, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Eduardo Sá publicado no Observador de 7 de julho de 2019.

Se continuarmos por aqui, e se não cultivarmos mais as crianças para o brincar, a infância pode estar “à beira da extinção”.

A partir do momento em que a escola se tem vindo a transformar no “trabalho infantil” do século XXI, temos cada vez mais famílias a fazer com que os seus filhos entrem nela mais tarde – aos 7 – para que tenham direito a mais um ano de infância(!). Ou seja, no século XXI a infância parece terminar aos 6! Se, dantes, a escola se caracterizava como “O” indicador mais inequívoco das crianças com direito à infância, hoje, até porque todas elas vão (felizmente!) à escola, aquilo que distingue as crianças que têm infância daquelas que não a “têm” é o brincar. O tempo e a qualidade do brincar diários que os pais reservam para os filhos.

Como as crianças têm menos tempo de infância, menos irmãos e famílias menos alargadas, menos actividade física, menos recreio, menos convívio e menos relação com o ar livre, receio que tenhamos crianças cada vez mais quietas, mais apáticas e mais caladas. Crianças que não crescem aprendendo com o corpo mas contra o corpo. Crianças que convivem com famílias muito pequenas. Que não brincam tanto como deviam. Que vivem espartilhadas em compromissos escolares e confinadas a espaços reduzidos. Que, muitas vezes, mandam muito mais nos pais do que deviam. Que, por isso, se vão transformando em “novos chefes de família”. E que são tratadas como adultos de tamanho “S”. Restam-lhe os amigos. E os jogos! Até porque (já repararam?) as lojas de brinquedos vão morrendo, aos bocadinhos. Por outras palavras, a solidão no crescimento das crianças começa a ser assustadora. Se continuarmos por aqui, e se não as cultivarmos mais para o brincar, para a palavra, para a fantasia e para as histórias – de forma a minimizarmos a relação (cada vez mais hegemónica) que elas têm com as novas tecnologias – por mais que falemos das crianças como nunca o fizemos, a infância pode estar “à beira da extinção”.

É, portanto, urgente que se deixe de entender o brincar como um actividade de lazer. Ou como uma distracção. Ou quase como um proforme que entendemos conceder às crianças sempre que falamos da infância. Brincar é desconstruir mistérios. É intuir e analisar inúmeras hipóteses. É formular problemas. É discorrer sobre eles e resolvê-los. Brincar é, depois de entrar nelas, “desmanchar” as histórias. E entendê-las naquilo que elas nos querem dizer. E reconstruí-las de forma sempre mais simples, mais esquemática e mais sábia. Brincar é recolher imagens e, ao recombiná-las, cultivar e expandir a imaginação. Brincar não serve para distrair; serve para lavrar a atenção. (Aliás, não há nada que incentive mais a atenção do que o brincar!) Brincar é aprender. Brincar é melhor que fazer trabalhos de casa. Brincar educa para a intuição e para a interpretação. Brincar “puxa pela cabeça”, pelo corpo e pela “alma”. Brincar é “trabalhar”. E é pensar!

Ora, sejamos razoáveis, se continuarmos a estruturar o trabalho dos adultos, unicamente, pelas horas que eles lhe dedicam e nunca pelo realização das tarefas a que se comprometem, fazemos por ignorar que as horas que os adultos trabalham nunca correspondem aquelas em que eles conseguem estar, efectivamente, atentos e concentrados, e a produzir em concomitância com tudo aquilo de que são capazes. Trabalharmos muitas horas parece ser, às vezes, uma forma de expiarmos a culpa pela forma como reconhecemos que nunca conseguimos produzir tanto quanto trabalhamos. Aliás, quando distinguimos um  emprego de um trabalho – e somos capazes de estabelecer a distinção entre ambos e a expressão que alguns tornam sua quando afirmam: “Agora que me divirto, já posso deixar de trabalhar” – parecemos assumir que trabalhar é uma actividade monótona, soturna e onde ninguém nos paga para nos divertirmos. Deve ser por isso que consideramos o trabalho como o contrário do brincar. Como se o nosso trabalho e o das crianças fosse sisudo, difícil e, até, penoso. E o brincar leve, descontraído e amigo do prazer. Mas o mais grave é que, com os nossos filhos, reproduzimos estes vícios de forma. E acabamos a considerar que trabalhar é – sempre! – mais importante do que brincar.

É por tudo isto que não podemos deixar que as crianças continuem a perder, como tem vindo a acontecer desde há vinte anos, horas de brincar. É por tudo isto que é urgente que elas brinquem duas horas por dia, todos os dias! É por tudo isso que não podemos continuar a permitir que, na escola, o brincar seja uma actividade sazonal, de Primavera/Verão, e que esteja quase extinta. E é por tudo isso que, em casa, brincar não pode ser, unicamente, uma actividade de fim-de-semana. Da mesma forma como as crianças ganham quando brincam, os pais ganhariam se brincassem. Aliás, é por não saberem brincar que os pais “desconfiam” da sua utilidade! Portanto, deixe-mo-nos de “brincadeiras” e assumamos que é urgente o brincar! Para que o “fim” da infância não coincida com o início da escola. E para que todas as crianças tenham direito ao brincar indispensável sem o qual pode haver crianças sem que haja infância.

E se os telemóveis fossem proibidos nas escolas?

Julho 19, 2019 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia da Visão de 28 de junho de 2019.

O ano passado, França proibiu o telemóvel nas escolas públicas. Agora, o estado de Victoria, na Austrália, decidiu fazer o mesmo. Em Portugal, várias instituições de ensino já adotaram regras semelhantes, mas também há escolas onde é utilizado para auxiliar a aprendizagem. Afinal, qual é a melhor opção?

Os estudantes de escolas públicas básicas e secundárias do estado australiano de Victoria vão ser proibidos de usar o telemóvel dentro dos estabelecimentos de ensino a partir de 2020. A medida foi implementada pelo ministro da educação James Merlino, numa tentativa de melhorar os resultados escolares, reduzindo as distrações e o ciberbullying.

Durante o período escolar, os estudantes devem desligar os telemóveis e colocá-los num cacifo, onde permanecerão até à hora de saída. Em caso de emergência, os pais devem passar a contactar a escola diretamente.

As únicas exceções à regra vão dar-se no caso de alunos que precisem do smartphone para monitorizar algum aspeto da sua saúde, ou quando algum professor quiser fazer uma atividade que requeira o uso do dispositivo.

A medida surgiu graças aos resultados observados na McKinnon Secondary College, que foi a primeira escola pública do estado a banir o uso de telemóvel e a reportar uma melhoria da concentração em sala de aula e da comunicação no recreio, por parte dos alunos. O parlamento francês já havia tomado a mesma decisão, em julho do ano passado.

Um estudo realizado pela Universidade de Chicago concluiu que a simples presença do telemóvel, mesmo quando não o estamos a utilizar, reduz a nossa capacidade de concentração. Os smartphones incentivam a conexão constante com outros, com entretenimento ou informação, pelo que é muito difícil “desligar”.

Essa é uma das razões pelas quais várias escolas proibiram a sua utilização. É o caso da Escola Básica António Alves Amorim, em Santa Maria da Feira, onde os telemóveis são recolhidos pelo professor, logo de manhã, e devolvidos no final do dia.

Contudo, os telemóveis não são completamente proibidos em contexto de sala de aula. Tal como acontecerá no estado australiano de Victoria, um professor pode decidir permitir o uso dos telemóveis para fins pedagógicos.

Jorge Ascenção, presidente da Confederação Nacional de Associações de Pais (CONFAP), concorda que os dispositivos de comunicação possam ser autorizados “dentro da sala para auxiliar as aprendizagens”.

No entanto, é fundamental que “haja liderança, para eles poderem ser utilizados com regras”. Na escola de Lourosa, antes da proibição, os alunos filmavam as aulas ou uns aos outros nos balneários. Esses vídeos eram depois publicados nas redes sociais, originando casos de ciberbullying e problemas disciplinares.

Para Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos Escolas Públicas, a melhor solução para o ciberbullying é educar os alunos para o problema, porque “não é só nas escolas, é um fenómeno global”. Na sua opinião, “a escola pública faz isso bastante bem”, convidando a Escola Segura para dar formação aos alunos sobre o tema. “A escola pública está muito preocupada com esse fenómeno e faz o seu trabalho”, afirma.

Existe ainda o problema da falta de socialização entre as crianças, que passam muito tempo no telemóvel durante o intervalo em vez de brincarem ou conviverem, atividades fundamentais para o seu desenvolvimento. Nesse caso, “faz sentido limitar o uso do telemóvel no recreio”, afirma o presidente da CONFAP. No entanto, “é preciso explorar isso de forma pedagógica”, “explicando [às crianças] as razões e as vantagens que eles próprios terão”. Até porque, recorda Filinto Lima, os problemas de socialização também acontecem em contexto familiar.

Cumprimentar os alunos à entrada das salas de aula pode estimular o bom comportamento

Julho 5, 2019 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia da Visão de 18 de junho de 2019.

Estudo britânico sugere que os alunos podem comportar-se melhor durante as aulas se forem adotadas estratégias diárias que favoreçam o bom comportamento. Serem cumprimentados individualmente pelo professor pode ser uma das formas de o fazer

Um estudo da Education Endowment Foundation (EEF) conclui que não existem provas sólidas de que uma política de “tolerância zero” perante a falta de disciplina dos alunos, tenha algum impacto no seu comportamento. As orientações dadas pela EEF sugerem antes uma abordagem mais simples, regular e personalizada para melhorar o comportamento de alunos perturbadores.

Kevan Collins, diretor executivo da EEF, defende que “apesar de a maioria dos alunos na maioria das aulas se comportar bem, o mau comportamento é uma questão que tem desafiado as escolas há gerações” e, este tipo de abordagens, “pode ter um impacto duradouro na aprendizagem dos alunos e no bem-estar dos professores”.Para o responsável, uma “abordagem consistente” pode ser fundamental para construir “relações fortes entre professores e alunos, e formar as bases necessárias para a aprendizagem”.

Segundo o estudo, as escolas devem procurar adotar estratégias simples como parte de uma rotina habitual como, por exemplo, os professores dedicarem algum tempo para cumprimentar pessoalmente cada aluno à porta da sala de aula, oferecerem pequenos-almoços gratuitos antes do início das aulas, como parte de boa preparação para a aprendizagem, ou entregar boletins individuais diários.

Para reunir este conjuto de orientações, a EEF analisou as conclusões disponíveis relativamente ao comportamento dos alunos nas escolas e falou com professores, académicos e outros especialistas.

“Sabemos que estabelecer uma cultura educada e respeitadora nas escolas é importante para estabelecer padrões, e a ideia de os professores cumprimentarem os alunos individualmente à porta da sala de aula reflecte esta abordagem”, explica Geoff Barton, secretário geral da Association of School and College Leaders. “Quando ocorre um mau comportamento, ele é muitas vezes o resultado de problemas maiores que estão a ser experienciados pelo aluno em questão, e as escolas precisam de maior financiamento para que possam fornecer o nível de apoio de que estes jovens necessitam”, acrescenta.

Segundo Stephen Fraser, CEO adjunto da EEF, “as políticas de tolerância zero podem ser controversas devido à sua abordagem rigorosa e sem espaço para desculpas” porque “os defensores dizem que estas abordagens ajudam a elevar os padrões, enquanto os críticos dizem que podem levar a exclusões desnecessárias”, contudo, o “relatório descobriu que há falta de provas do impacto que as políticas de tolerância zero têm sobre os resultados dos alunos”.

Decreto-lei que permite pais acompanharem filhos no primeiro dia de escola já foi publicado

Julho 3, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 1 de julho de 2019.

A medida visa “promover um maior equilíbrio entre a vida profissional, pessoal e familiar” e vai dar aos funcionários públicos responsáveis pela educação de menor de 12 anos o direito a faltar justificadamente com vista ao seu acompanhamento no primeiro dia do ano lectivo, até três horas por cada menor.

Lusa

Os funcionários públicos vão poder faltar até durante três horas para acompanhar os filhos com idades até aos 12 anos no primeiro dia de escola, segundo o decreto-lei publicado nesta segunda-feira em Diário da República. Este decreto-lei, promulgado a 19 de Junho, entra em vigor a 1 de Agosto.

A medida, integrada no “Programa 3 em linha – Programa para a conciliação da vida profissional, pessoal e familiar” visa “promover um maior equilíbrio entre a vida profissional, pessoal e familiar”.

O programa tem por objectivo “melhorar o índice de bem-estar, no indicador ‘balanço vida-trabalho’”, sendo que conciliar melhor a vida profissional, pessoal e familiar favorece a diminuição do absentismo, o aumento da produtividade e a retenção de talento, contribuindo, também, para a sustentabilidade demográfica”, é referido no decreto-lei.

Por isso, o trabalhador da administração pública responsável pela educação de menor de 12 anos tem direito a faltar justificadamente com vista ao seu acompanhamento no primeiro dia do ano lectivo, até três horas por cada menor.

“A falta prevista no número anterior não determina a perda de qualquer direito do trabalhador e é considerada, para todos os efeitos, prestação efectiva de trabalho”, é referido.

No entanto, devem ser criadas condições para “o exercício efectivo do direito e de modo a salvaguardar o interesse público, evitando prejuízo grave para o funcionamento do órgão ou serviço”.

Portanto, a entidade patronal deve tomar as medidas de gestão com a antecedência necessária para promover a utilização deste mecanismo de conciliação.

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, promulgou a 19 de Junho, o “diploma do Governo que permite aos trabalhadores da Administração Pública faltarem justificadamente para acompanhamento de menor, até 12 anos, no primeiro dia do ano lectivo”.

Na altura, Marcelo Rebelo de Sousa louvou a medida do Governo, mas defendeu um regime idêntico para trabalhadores do sector privado e social, por forma a “evitar uma divisão no sector do trabalho em Portugal”.

O decreto-lei mencionado na notícia é o seguinte:

Decreto-Lei n.º 85/2019

Encontro “As Emoções vão à Escola?” A saúde mental na escola de hoje – 4 julho na Escola Secundária Frei Gonçalo de Azevedo (S. Domingos de Rana)

Junho 23, 2019 às 6:49 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Mais informações no link:

https://www.jf-sdrana.pt/comunicacao/noticias/Autarquia-organiza-encontro-As-Emocoes-vao-a-Escola-15-Anos-de-Psicologia-Clinica-na-Escola/1652/

Escolas preparam alunos para um “mundo que já não existe”

Junho 21, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Observador de 4 de junho de 2019.

Deixa de importar aquilo que sabemos e passa a importar o que “fazemos com a informação que temos”. O conhecimento está “à distância de um telemóvel” e a escola tem de adaptar-se à nova realidade.

O futuro das crianças que se iniciam agora na escola é uma incógnita mas, mesmo assim, continuam a ser ensinadas através de “um programa curricular pensado há muitos anos”, criticou Rod Allen, mentor e co-autor de uma profunda reforma curricular no Canadá, que esta terça-feira esteve no Encontro Nacional de Autonomia e Flexibilidade Curricular, a decorrer na Figueira da Foz.

A mudança no Canadá surgiu quando se aperceberam que estavam “a preparar os alunos para um mundo que já não existia”, recordou o ex-vice-ministro adjunto da província canadiana da Colúmbia Britânica.

“Hoje, se queremos saber alguma coisa temos os telemóveis que sabem muito mais do que nós”, ironizou, explicando que do outro lado do Atlântico decidiram mudar o enfoque: “Já não é importante o que sabemos, mas sim o que fazemos com o que sabemos”.

Deixou de fazer sentido a ideia de que a escola servia para debitar informação que era memorizada até ao dia do exame e rapidamente esquecida para decorar outra matéria. O foco transferiu-se do “saber” para o “perceber”.

“Não estamos formatados para aprender em fábricas”, defendeu Rod Allen, explicando que quando um professor ensina apontando para a média da sala de aula acaba por “perder metade da turma”.

A diversidade de estudantes obriga a um ensino que permita aos alunos “explorar paixões e vontades” numa escola onde a relação entre professores e estudantes mudou, afirmou.

“Temos professores excelentes que fazem magia na sala de aula”, disse o especialista, explicando que na sua província já não há hierarquia entre docentes e alunos: “São todos iguais, são todos aprendizes, só que uns são mais velhos do que outros”.

Para o sucesso do novo programa, envolveram os alunos e deixaram que participassem na sua própria aprendizagem, à semelhança do que aconteceu este ano em Portugal.

A escola passou a preocupar-se em ensinar a trabalhar em equipa, dar ferramentas para que os alunos tivessem capacidade de resistência ou conseguirem resolver um problema, exemplificou Rod Allen.

A aparência da escola também mudou. Houve quem tirasse as secretárias das salas de aula, quem permitisse aos alunos aprender em todos os espaços da escola ou optasse por sair para fora dos muros do recinto escolar para aprender.

“Pode parecer o caos, mas é desafiante”, explicou, acrescentando que também os manuais escolares deixaram de ser a peça chave da sala de aula.

A ideia é “alterar as escolas para que deixem de ser fábricas, mas sim sítios de aprendizagem”, lembrou o especialista que acredita que “todos os alunos podem aprender” e “ninguém é deixado para trás”.

Esta ideia também foi defendida pela secretária de estado adjunta e da Educação, Alexandra Leitão, que hoje apontou o programa de autonomia e flexibilidade curricular como uma das medidas do Governo que veio permitir uma “escola mais inclusiva”, mas também “mais exigente”.

O programa de flexibilidade garante que a “escola não deixa ninguém para trás”, acrescentou Alexandra Leitão, sublinhando a confiança nas escolas e a “capacidade e motivação dos professores” que tornaram realidade o primeiro ano de aplicação do programa de autonomia e flexibilidade curricular em todas as escolas.

Quando o novo programa curricular foi posto em prática no Canadá “houve muita gente preocupada”, mas “os resultados dos alunos melhoraram”, garantiu Rod Allen.

Por cá, também há quem se mostre receoso em relação às aprendizagens, mas o grupo de alunos que hoje esteve na conferência na Figueira da Foz garante que aprende mais agora e diz preferir esta “nova escola”, com mais liberdade, mas também mais responsabilidade.

 

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