Solidariedade é a palavra a usar este ano no Dia Mundial do Refugiado – 20 de junho

Junho 20, 2018 às 11:15 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do CPR de 19 de junho de 2018.

Lisboa, 19 de junho de 2018 (LUSA/CPR) – A palavra “solidariedade” dá o mote este ano às iniciativas do Conselho Português para os Refugiados (CPR) marcadas para o Dia Mundial do Refugiado, data assinalada esta quarta-feira.

“No Dia Mundial do Refugiado, pretendemos mobilizar o apoio público e expressar a nossa solidariedade para com os refugiados e as comunidades que os acolhem”, referiu a organização não-governamental, numa nota enviada à Lusa.

Nesta data, instituída em dezembro de 2000 pela Assembleia-Geral das Nações Unidas, “o mundo celebra a coragem e a resiliência de milhões de refugiados, numa altura em que as guerras e os conflitos civis se multiplicam e as necessidades superam, muitas vezes, a assistência oferecida a esta população tão vulnerável”, destacou o CPR, relembrando ainda que “uma retórica anti-migração está em ascensão na Europa” e que “os esforços para a combater são essenciais”.

Depois de 2017 ter homenageado as autarquias que acolheram migrantes em Portugal, o CPR foca este ano as atenções nas associações que foram criadas para apoiar os refugiados.

Neste contexto, o CPR promove na quarta-feira, entre outras iniciativas, um fórum de refugiados, “uma reflexão alargada que dará voz aos refugiados” segundo a organização não-governamental, que vai contar com a participação da Associação de Refugiados em Portugal (ARP) e da União dos Refugiados em Portugal (UREP).

As iniciativas são desenvolvidas em estreita parceria com o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR).

Neste dia, o CPR relembra ainda a petição online lançada em junho de 2016 pelo ACNUR (#WithRefugees).

A petição, que na segunda-feira à tarde ultrapassava as 1,9 milhões de assinaturas, foi criada para “enviar uma mensagem aos governos de que devem trabalhar em conjunto e fazer a respetiva parte”.

O Dia Mundial do Refugiado é assinalado este ano num momento em que a comunidade internacional, sob os auspícios das Nações Unidas, está em negociações para tentar formalizar, até finais de 2018, um pacto global para os refugiados e para uma migração segura, regular e ordenada.

O ‘Global Compact for Migration’ (na versão em inglês) deu os primeiros passos em setembro de 2016, quando os 193 membros da Assembleia-Geral da ONU adotaram por unanimidade a chamada “Declaração de Nova Iorque”. Até ao próximo mês de julho, o texto preliminar do documento está a ser discutido em consultas formais.

O processo sofreu um revés quando, em dezembro passado, o Presidente norte-americano, Donald Trump, decidiu retirar os Estados Unidos deste pacto da ONU, alegando que o acordo é “incompatível” com a política da atual administração norte-americana.

Apesar da retirada norte-americana, as Nações Unidas mantêm a meta de adotar o pacto global durante uma conferência intergovernamental a realizar ainda este ano.

 

mais informações nos links:

https://www.unicef.org/press-releases/around-30-million-children-displaced-conflict-need-protection-now-and-sustainable

http://www.acnur.org/portugues/2018/06/19/mais-de-68-milhoes-de-pessoas-deslocadas-em-2017-e-essencial-um-novo-acordo-global-sobre-refugiados/

https://www.ohchr.org/EN/NewsEvents/Pages/DisplayNews.aspx?NewsID=23223&LangID=E

 

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Pedidos de asilo de menores não acompanhados cai para metade na UE em 2017

Maio 19, 2018 às 8:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 16 de maio de 2018.

Pelo contrário, recebeu mais pedidos em 2017 do que no ano anterior. Foram 40 os menores não acompanhados que requereram asilo no país.

Lusa

Um total de 31.395 menores não acompanhados pediram asilo na União Europeia (UE) em 2017, praticamente metade face ao ano anterior (63.245), segundo dados divulgados pelo Eurostat nesta quarta-feira.

Em Portugal, foram 40 os menores não acompanhados que pediram asilo no ano passado, uma subida face aos 25 de 2016, número que representa 6,8% do total da UE.

Dos 40 menores que pediram asilo em Portugal, 10 são oriundos da Eritreia, 10 da Guiné e outros 10 do Afeganistão.

No total da UE, 5.340 (17%) dos menores não acompanhados chegaram do Afeganistão, 3.110 (10%) da Eritreia e 2.580 (8%) da Gâmbia.

Os dados citados na notícia podem ser consultados na News Release da Eurostat:

Over 31 000 unaccompanied minors among  asylum seekers  registered  in  the EU  in  2017

 

 

Fotografias de Crianças Refugiadas da Agência Magnum

Fevereiro 13, 2018 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Olivia Arthur Sophia, Scottish of Irish-Pakistani heritage, Glasgow, Scotland. GB. 2017. © Olivia Arthur | Magnum Photos

visualizar todas as fotos no link:

https://www.magnumphotos.com/arts-culture/society-arts-culture/magnum-retold-children-europe-olivia-arthur/?utm_source=fb-social&utm_medium=social&utm_campaign=Editorial

Texto do site https://www.magnumphotos.com/

Magnum Retold: Olivia Arthur’s Children of Europe

How collaborating on portraits makes for a refreshing take on the experience of child refugees

In the aftermath of the Second World War, Magnum co-founder David ‘Chim’ Seymour traveled across Europe as refugees traversed its fractured lands. With a humanistic sensibility, he documented the lives of child survivors and the efforts of the charities who endeavored to help them, providing them with food, shelter, shoes and vaccinations. His journey took him to refugee camps, homes, schools hospitals and remote villages blighted by war, creating a comprehensive portrait of the human impact of the war on society’s youngest and most vulnerable members.

As part of Magnum Retold – a series where contemporary Magnum photographers find inspiration in some of the most resonating stories in the agency’s 70-year history – Olivia Arthur documented the lives of child refugees of today. As the world witnesses the largest number of displaced people since the Second World War, a natural parallel with Seymour’s is drawn.

Working with charity Positive Action in Housing, Olivia Arthur met children and their families settling in Glasgow and London. Her portraits presented an opportunity to take stock of Europe’s shift in attitude towards refugees in the decades since David Seymour’s original Children of Europe work. “What interested me most was this idea of how much things have changed since then, rather than trying to replicate or retrace what he had done but more kind of looking at how much things in Europe have changed, and may, in fact, be turning around again,” says Arthur.

“Sadly, there are more people displaced around the world than at any time since the Second World War,” says Robina Qureshi from Positive Action in Housing. “Today’s refugee tragedy is characterized by indifference. Over half the world’s refugees have been in exile for at least five years, many in closed refugee camps where they do not have the right to work or move freely.  The press doesn’t call them refugees anymore, they use the word ‘migrants’, implying that this is a story about travelers or economic migrants, not humans seeking protection.”

The refugee families photographed by Olivia Arthur left behind their loved ones and their homes. Many are still traumatized by the journeys they took and experience problems finding their way and becoming accepted in their new home cities. Positive Action in Housing helps refugees deal with the stumbling blocks to citizenship and provides support.

Olivia Arthur’s portraits look beyond the refugee status of her subjects, and aim to capture the children as individuals. “I’d like to think that the portraits I’ve taken of these children are pretty positive. The pictures were really about the children, and they would choose if they wanted to have their toy in the picture.”

“I think there’s something about this kind of portraiture where you really engage with people properly. It’s not a documentary about people stuck in a big system in these apartments that are not really like a home. They mostly don’t have a lot of belongings there, and they don’t really make them like home because they’re waiting to get their status. So it really became more about what the people wanted to show themselves.”

Arthur invited her subjects to direct how they would like to appear in photographs, asking them what they wanted to do, which resulted in children being photographed with their favorite toy or teddy bear, playing with friends and doing cartwheels. The process felt collaborative and inclusive, and shattered clichés pertaining to how refugees are ordinarily presented in the press. “I found a really positive energy there with them,” says Arthur. “One of the girls that I met said, ‘I love Glasgow, I love it here, I love the rain’ and it was just amazing positivity that I thought was really great.”

 

 

 

Há alunos que nos chegam à alma…

Janeiro 25, 2018 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto de Carla Machado publicado na http://visao.sapo.pt/ de 7 de janeiro de 2018.

O T. tem um caderno pequenino tipo Moleskine de capa dura que usa para todas as disciplinas do 11º ano num curso de Ciências. A J. descreve-se como preta e alta e no dia do seu aniversário teve um bolo de aniversário. E afirmou, num português hesitante: a professora fez mim feliz

O T. tem dezasseis anos e quer mudar o mundo. Já mo disse várias vezes e insiste que tem um plano meticulosamente delineado para esse efeito. Quando lhe propus que se candidatasse ao prémio do concurso lançado pelo Centro Nacional de Cultura “Vamos mudar o Mundo” (com o apoio da Revista EGOíSTA e da Organização das Nações Unidas e o Alto Patrocínio de Sua Excelência o Presidente da República de Portugal), respondeu-me, hesitante, que ia pensar. E pensou e pensou e pensou (o T. pensa muito). Este concurso pretende isso mesmo: levar os portugueses – sem restrições de idade – a refletir, na tentativa de ser encontrada uma ideia original para tornar este mundo melhor. Quando, dias mais tarde, lhe perguntei se já tinha começado a escrever a sua proposta para mudar o mundo (as regras impõem um texto até 5.000 carateres cujo prazo de entrega termina dia 21 de Janeiro de 2018), o T. fitou-me com ar sério e penetrante. Não, stora. Não sei se vou conseguir fazer isso. Claro que vais! – respondi-lhe. E podes mesmo ganhar uma viagem a Nova Iorque para entregares a tua ideia de como mudar o mundo no Gabinete do Secretário Geral das Nações Unidas. O meu plano para mudar o mundo é individual – disse-me convicto. Como? Individual? Mas se não o partilhares, como vais conseguir que as tuas ideias se espalhem? – insisti. Não, a stora não me compreende. Só eu é que sei como posso mudar o mundo. Tenho já várias ideias escritas (nisto mostra-me um caderno repleto de apontamentos nesse sentido). Mas a mudança do mundo parte de dentro de mim e só depois se poderá espalhar aos outros…

O T. não gosta de cadernos diários e não tira apontamentos nas aulas. De facto, não precisa assim tanto deles pois consegue melhores resultados sem caderno do que outros alunos com vários, um para cada disciplina. O T. tem um caderno pequenino tipo Moleskine de capa dura que usa para todas as disciplinas do 11º ano num curso de Ciências. Pedi-lhe, numa das últimas aulas do primeiro período, se mo deixava ver. Deixou. Fiquei alguns minutos parada e perdida num mundo de gatafunhos e desenhos e setas e poucas, muito poucas palavras. Diria mesmo que apenas as que ele considera essenciais para mudar o mundo. Ao longo das aulas, olha-me atenta e fixamente, presenteando-me sempre nas suas intervenções com uma ideia, pergunta ou resposta que me fazem parar. E pensar. Na última aula do primeiro período, pedi ao T. para fazer a sua autoavaliação. Respondeu-me apenas, imperturbável: – Mereço um vinte. E se calhar merece. Mas a escola pública não está preparada para lho dar.

A J. veio da Serra Leoa e com apenas dezassete anos já viu o seu mundo mudar várias vezes. Fugiu. Do ébola. Da circuncisão. Da dor. Da morte. Passou pela Guiné e pelo Senegal, primeiro. Chegou a Portugal e a Lisboa, depois. Tem saudades de Freetown mas diz que Lisboa é uma boa cidade e que em Portugal se come muitas vezes e há muita comida. E frequenta uma escola pública T.E.I.P. (território educativo de intervenção prioritária) que a recebeu mesmo sem ela falar português. A J. perdeu os pais e toda a família. Chegou até nós através de um Centro de Refugiados e mesmo sem falarmos a mesma língua, comunicamos como se nos conhecêssemos desde sempre. Contou-me da sua vida de antes. A vida difícil que os pais levavam. O esforço que fizeram para que ela frequentasse a escola diariamente. O almoço que era sempre o mesmo e que consistia em pão com manteiga. O desaparecimento dos pais que saíram para trabalhar e nunca mais voltaram. A fuga à circuncisão que lhe era imposta. E contou-me da sua vida de agora: as pequenas compras que faz no supermercado, o seu prato favorito de arroz com feijão e folha de mandioca que cozinha para si própria, as longas extensões com caracóis que ambiciona poder comprar. A J. descreve-se como preta e alta e no dia do seu aniversário teve um bolo de aniversário. E afirmou, num português hesitante: a professora fez mim feliz. Na última aula que tivemos, a J. confessou-me, com os seus olhos negros penetrantes: Portugal mudou minha vida.

E se calhar mudou. A escola pública, afinal, vai ainda conseguindo mudar vidas…

Carmo Miranda Machado é formadora profissional na área comportamental e professora de Português no ensino público há vinte e sete anos, tendo trabalhado com alunos do 7º ao 12º anos de escolaridade. Possui um Mestrado em Ciências da Educação (Orientação das Aprendizagens) pela Universidade Católica Portuguesa e tem como formação base uma Licenciatura em Línguas e Literaturas Modernas pela Universidade Nova de Lisboa. Tem dedicado a sua vida às suas três grandes paixões: o ensino, a escrita e as viagens pelo mundo. Colabora na Revista Mais Alentejo desde Fevereiro de 2010 como autora da crónica Ruas do Mundo, tendo ganho o Prémio Mais Literatura atribuído por esta revista nesse mesmo ano. Publicou até ao momento, os seguintes títulos pela editora Colibri: Entre Dois Mundos, Entre Duas Línguas (2007); Eu Mulher de Mim (2009); O Homem das Violetas Roxas (2011) e Rios de Paixão (2015).

 

 

XVIII Encontro de Agentes Sócio Pastorais de Migrações, 12 e 13 de janeiro em Alfragide, com a presença de Dulce Rocha do IAC

Janeiro 10, 2018 às 2:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Presença da Dra. Dulce Rocha, Presidente do IAC, no Painel 2 – “Proteger: em defesa dos direitos e da dignidade de todos” pelas 11.30 no dia 13 de janeiro.

mais informações sobre o encontro no link:

http://www.caritas.pt/site/nacional/index.php?option=com_content&view=article&id=4162:acolher-proteger-promover-e-integrar&catid=177:noticias

Para milhões de crianças, viajar não é uma escolha

Janeiro 9, 2018 às 6:00 am | Publicado em Vídeos | Deixe um comentário
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Famílias gregas abrem portas a menores refugiados

Novembro 10, 2017 às 9:00 pm | Publicado em Vídeos | Deixe um comentário
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Os processos para reunir os menores refugiados e os familiares que se encontram a viver na Europa pode demorar vários meses. Durante este período, as famílias de acolhimento fazem a diferença.

Efi e Mike têm quatro filhos, mas ao longo dos últimos dois meses é como se tivessem seis. O casal abriu, temporariamente, as portas a duas crianças sírias ao abrigo do programa Ação para a Migração e Desenvolvimento, a cargo da ONG grega Metadrasi e financiado pelo Alto comissariado das Nações Unidas para os Refugiados.

A família fala de uma experiência indescritível.

“O amor que recebemos destas crianças faz esquecer qualquer dificuldade. Elas apreciam e agradecem o que lhe damos. Por exemplo, são capazes de nos agradecer 25 vezes o facto de lhe termos oferecido uma simples refeição” refere Efi Michou, da família de acolhimento.

Neste momento, 10 famílias de Atenas e Salónica acolhem 13 refugiados menores. Todas as semanas, estas famílias recebem a visita de assistentes sociais. Vasia Patsi destaca as vantagens da iniciativa. “Esta ação destina-se a famílias que queiram acolher refugiados menores que viajam sozinhos. Ficam com eles até que o processo para reunir as famílias das crianças que vivem na Europa fique completo. Desta forma, não só protegemos os menores de traficantes como proporcionamos um ambiente familiar enquanto esperam” afirma.

Um processo que pode demorar vários meses. Desde fevereiro de 2016, o programa permitiu acolher 37 crianças.

 

Euronews em 30/10/2017

 

“Crianças refugiadas merecem oportunidade como eu tive”

Outubro 3, 2017 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista do http://www.dn.pt/ a Lord Dubs no dia 21 de setembro de 2017.

Crianças judias da Europa Central encontraram refúgio na Grã-Bretanha em vésperas da Segunda Guerra Mundial

Entrevista a Lord Dubs, ativista britânico pelos direitos das crianças refugiadas e um dos colaboradores de Vanessa Redgrave no documentário Sea Sorrow.

Foi depois de ver Sea Sorrow (título tirado de uma citação de A Tempestade de Shakespeare) que me sentei com Alfred Dubs à conversa nuns sofás no Medeia Monumental, em Lisboa. A ideia era uma entrevista curta, mas Lord Dubs estava à espera de que Vanessa Redgrave, realizadora de Sea Sorrow, acabasse também uma entrevista e portanto ficámos à conversa, com a Irlanda do Norte, o brexit e a atual liderança trabalhista como assuntos extra. Ouvir este homem de 84 anos falar de refugiados, ele que foi um fugitivo ao nazismo na Europa, funcionou como uma lição de história.

Tendo em conta a sua experiência pessoal como criança refugiada, quão emocional é este filme de Vanessa Redgrave, emocional para si, que também participa em Sea Sorrow?

É muito emocional. Durante anos não pensei na minha infância e agora, com todo este debate sobre os refugiados, muitas coisas regressam à minha memória. Na verdade, tive muita sorte. Vim para a Grã-Bretanha, como refugiado, criança e desacompanhado, num Kindertransport em fuga do nazismo, e tudo me correu muito bem. Por isso, gosto de pensar que as crianças refugiadas que tentam chegar hoje à Grã-Bretanha deveriam ter as mesmas oportunidades de reconstruir as suas vidas que eu tive. E essa é uma das missões da minha vida. Mas a argumentação a favor das crianças não pode depender da minha experiência pessoal, é, isso sim, um argumento humanitário forte. Mas torna-se mais difícil ao governo ter argumentos contra a aceitação de crianças refugiadas tendo em conta que eu fui uma delas.

Pode dizer-se que está a usar o seu passado de criança judia em fuga do nazismo como arma para conseguir do governo compreensão para os refugiados, sobretudo para as crianças?

Vejamos, eu falo do meu passado, e os media veem nisso um interesse humano e divulgam, o que tem sido muito útil para a nossa causa. Não gosto que se pense que uso o meu passado de uma forma cínica, mas, se isso ajudar às crianças refugiadas de hoje, porque não?

O facto de este documentário, que se estreia para a semana em Portugal, ter sido realizado por Vanessa Redgrave, uma atriz de enorme popularidade, também joga a favor dos refugiados?

Sim, mas tanto pela sua popularidade como pelo seu envolvimento nestas causas desde há muitos anos. Ela tem sido uma tremenda advogada da causa dos refugiados e penso que, tendo levado o problema para além dos políticos, para a área do cinema, é uma forma poderosa de chamar a atenção da opinião pública. E a participação de atores como Emma Thompson e Ralph Fiennes é também muito boa porque ajuda a espalhar a causa. Mas, acima de tudo, impressiona o compromisso de Vanessa.

Sei que depois da votação na Câmara dos Lordes, impulsionada por si, o governo britânico mostrou vontade de acolher crianças refugiadas, mas agora voltam as hesitações. Porquê?

Creio que o governo simplesmente percebeu que, depois da votação pelos Lordes, o documento ia para os Comuns e aí iam perder. Por isso, fizeram tudo para o parar. Andou para trás e para a frente e a opinião pública começou a ter influência nos deputados conservadores. Por isso, Theresa May pediu-me para me reunir com ela uma segunda vez. Não era que o governo quisesse receber os refugiados, mas a pressão da opinião pública era suficiente para o contrariar.

Vê diferenças entre trabalhistas e conservadores nesta questão?

Vejo algumas diferenças. Mas tentámos manter a campanha pelas crianças acima dos partidos, porque dessa forma podíamos pressionar mais o governo. No final, a oposição, os deputados do Labour, o meu partido, dos Lib-Dem e mesmo do Partido Nacionalista Escocês deram bastante apoio. A pressão estava nos deputados conservadores que não estavam connosco. Mais recentemente, o governo tentou recuar tanto quanto podia, mas a minha função, politicamente falando, é manter a pressão.

Como vê a opinião pública britânica em relação aos refugiados? É diferente da que era no final dos anos 30, quando recebeu crianças como o senhor?

Quando cheguei tinha 6 anos, era uma criança, não sei como era a opinião pública. Não me preocupava com essas coisas. Penso que os migrantes e refugiados ganharam destaque na agenda política e por isso há mais apoio e, ao mesmo tempo, mais hostilidade. O mundo é diferente do que era nos anos 30. Naquela época os outros países europeus fecharam as portas aos Kindertransport. Só o Reino Unido os recebeu. O problema é que os refugiados e os migrantes se tornaram uma verdadeira bola de futebol político em muitos países europeus. Por outro lado, a opinião pública tem sido muito importante. E quando as pessoas veem um filme como o da Vanessa, quando veem a foto de uma criança morta numa praia do Mediterrâneo, percebem que há algo que temos de fazer. Há duas correntes: os que dizem que há demasiadas pessoas destas a chegar, o que, temo, levou ao desastre do brexit, por outro lado, as pessoas que percebem que temos de fazer algo, sobretudo em relação às crianças mais vulneráveis. O governo britânico tomou algumas medidas, aceitou algumas pessoas. É um pequeno número, mas já é alguma coisa. Mas pode fazer mais. Com exceção dos alemães e dos suecos, que agiram bem, a maioria dos países europeus podia fazer mais e melhor. Sobretudo, os de Leste, que dizem nada ter que ver com os refugiados.

Acha que a Alemanha está a agir de forma correta e Angela Merkel é diferente dos outros líderes europeus?

A Alemanha recebeu um milhão de refugiados, mas o seu apelo de que toda a Europa deve receber refugiados caiu em ouvidos moucos e isso pôs mais pressão em Merkel. Se todos os países europeus partilhassem a responsabilidade, haveria menos pressão sobre a Alemanha. A certa altura teremos de partilhar as responsabilidades. Não podemos deixar a Itália carregar com o fardo de receber as pessoas que chegam pelo Mediterrâneo. É demasiada pressão. Temos de a apoiar. Não podemos lavar dali as nossas mãos.

Para si, como vítima da Alemanha nazi, surpreende-o agora esta posição da Alemanha, 80 anos depois?

Estou encantado. Não consigo viver com o ressentimento da dor do meu passado. O mundo é como é e tenho de dar crédito aos alemães pelo que eles fizeram pelos refugiados.

 

Boletim do IAC n.º 124

Setembro 22, 2017 às 2:00 pm | Publicado em CEDI, Publicações IAC-CEDI | Deixe um comentário
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Descarregar o Boletim do IAC nº 124 aqui

Três quartos das crianças e jovens enfrentam abusos, exploração e tráfico nas rotas migratórias do Mediterrâneo – UNICEF, OIM

Setembro 21, 2017 às 8:00 pm | Publicado em Relatório | Deixe um comentário
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COMUNICADO DE IMPRENSA CONJUNTO de 12 de setembro de 2017.

Três quartos das crianças e jovens enfrentam abusos, exploração e tráfico nas rotas migratórias do Mediterrâneo – UNICEF, OIM

As crianças da África subsariana são mais visadas do que qualquer outro grupo, o que resulta de discriminação e racismo

Novo relatório apela à Europa para que crie “percursos seguros e regulares” para a migração

NOVA IORQUE/BRUXELAS, 12 de Setembro de 2017 – As crianças e os jovens migrantes e refugiados que tentam chegar à Europa enfrentam níveis chocantes de violação de direitos humanos patentes nos relatos de uma percentagem impressionante de 77% dos que viajam pela rota do Mediterrâneo Central, que dão conta de experiências pessoais de abuso, exploração e práticas que por vezes chegam a tráfico humano – afirmaram hoje a UNICEF e a OIM, a Agência das Nações Unidas para as Migrações, num novo relatório.

Harrowing Journeys (Jornadas Angustiantes) revela que, embora todos os migrantes e refugiados estejam em elevado risco, as crianças e os jovens em movimento têm muito mais probabilidades de serem vítimas de exploração e tráfico do que os adultos com idade igual ou superior a 25 anos: quase o dobro de probabilidade na rota do Mediterrâneo Oriental e 13 por cento mais na do Mediterrâneo Central.

Aimamo, um adolescente de 16 anos não acompanhado, da Gâmbia, entrevistado num abrigo em Itália descreveu ter sido obrigado pelos traficantes a meses de trabalho físico esgotante quando chegou à Líbia. “Se tentas fugir, disparam sobre ti. Se paras de trabalhar, espancam-te. Éramos verdadeiros escravos. No final do dia, trancavam-nos sem que pudéssemos sair.”

O relatório baseia-se nos testemunhos de cerca de 22.000 migrantes e refugiados, incluindo cerca de 11.000 crianças e jovens, entrevistados pela OIM.

“A dura realidade é que actualmente é prática comum as crianças que se deslocam pelo Mediterrâneo serem abusadas, traficadas, espancadas e discriminadas”, afirmou Afshan Khan, Directora Regional da UNICEF e Coordenadora Especial para a Crise de Refugiados e Migrantes na Europa. “Os líderes da UE devem pôr em prática soluções duradouras que incluam vias de migração seguras e legais, a criação de corredores de protecção e alternativas à detenção das crianças migrantes”.

“Para as pessoas que deixam os seus países para escapar à violência, à instabilidade ou à pobreza, os factores que as levam a migrar são muito duros e embarcam em jornadas perigosas sabendo que podem ser obrigadas a pagar com a sua dignidade, bem-estar ou até mesmo com a própria vida”, disse Eugenio Ambrosi, Director Regional da OIM para a UE, Noruega e Suíça.

“Sem o estabelecimento de vias migratórias mais regulares, outras medidas serão relativamente ineficazes. É também essencial reforçar uma abordagem às migrações com base nos direitos humanos, melhorando os mecanismos para identificar e proteger os mais vulneráveis ao longo do processo de migração, independentemente do seu estatuto legal.”

O relatório mostra ainda que, embora todas as crianças em movimento corram um risco elevado, as que são originárias da África subsariana têm muito mais probabilidade de serem vítimas de exploração e tráfico do que as provenientes de outras partes do mundo: 65% comparativamente a 15% na rota do Mediterrâneo Oriental, e 83% comparativamente a 56% na rota do Mediterrâneo Central. O racismo é provavelmente um dos principais factores que estão na origem desta disparidade.

Concluiu-se ainda que as crianças e os jovens que viajam sozinhos ou por longos períodos, assim como os que têm níveis de educação mais baixos, são também altamente vulneráveis à exploração de traficantes e grupos criminosos no decurso das suas jornadas. De acordo com o relatório, a rota do Mediterrâneo Central é particularmente perigosa, dado que a maioria dos migrantes e refugiados passa através da Líbia, que continua dominada pela anarquia, por milícias e criminalidade. Em média, os jovens pagam 1.000 a 5.000 USD pela viagem e muitas vezes chegam à Europa endividados, o que os expõe a novos riscos.

O relatório apela a todas as partes interessadas – países de origem, trânsito e destino, à União Africana, à União Europeia, organizações internacionais e nacionais com o apoio da comunidade de doadores – que dêem prioridade a uma série de medidas.

Estas incluem o estabelecimento de vias seguras e regulares para as crianças em movimento; o reforço dos serviços para proteger as crianças migrantes e refugiadas, seja em países de origem, trânsito ou destino; a criação de alternativas à detenção de crianças em movimento; um trabalho entre os vários países para combater o tráfico e a exploração; e o combate à xenofobia, ao racismo e à discriminação contra todos os migrantes e refugiados.

Nota:

A UNICEF continua a apelar aos governos para que adoptem os seis pontos da sua Agenda para a Acção, a fim de proteger as crianças refugiadas e migrantes e assegurar o seu bem-estar.

  1. Protejam as crianças refugiadas e migrantes da exploração e da violência, em especial as crianças não acompanhadas;
  2. Acabem com a detenção de crianças requerentes do estatuto de refugiada ou migrante;
  3. Mantenham as famílias juntas como a melhor forma de protege crianças e de lhes atribuir um estatuto legal;
  4. Mantenham a aprendizagem de todas as crianças refugiadas e migrantes lhes garantam acesso a serviços de saúde e outros de qualidade;
  5. Pressionem para que sejam tomadas medidas para combater as causas subjacentes aos movimentos de refugiados e migrantes em larga escala;
  6. Promovam medidas para combater a xenofobia, a discriminação e a marginalização em países de trânsito ou de destino.

descarregar o relatório no link:

https://www.unicef.org/publications/index_100621.html

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