Leitores de berço: um guia nada definitivo de como ler para bebês

Abril 5, 2019 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do site Lunetas de 26 de fevereiro de 2019.

por Renata Penzani

Ler é sempre um ato de poder“. A afirmação é do escritor argentino Alberto Manguel. Quando imaginamos um leitor adulto, fica fácil compreender o que ela significa: a potência do conhecimento para ampliar repertórios e transformar a noção de si mesmo e do ambiente; o poder, aqui, aparece no sentido de potência, de possibilidade para questionar e subverter o mundo como ele se apresenta.

Mas e quanto às crianças? E os bebês? O que a leitura representa na primeiríssima infância? No período que vai do zero até os três anos, quais experiências um livro pode oferecer?

O que ler para bebês e por que ler para bebês são assuntos que aparecem com frequência aqui no Lunetas. Mas, afinal, como ler para bebês? Como ganhar sua atenção com livros, dentre tantos estímulos que o mundo oferece? Mas e se o bebê morder, babar e estragar o livro? Considerando que estas são perguntas que chegam com frequência dos nossos leitores, e a pedido deles, convidamos especialistas no assunto leitura e primeiríssima infância para refletir sobre o assunto.

Conversamos com Pierre André Ruprecht, diretor executivo da SP Leituras – Associação Paulista de Bibliotecas e Leitura, que gerencia a Biblioteca Villa-Lobos e a Biblioteca de São Paulo.

Entrevistamos também a pesquisadora e professora Cássia Bittens, psicóloga especialista em psicanálise, autora do projeto Literatura de Berço, que desenvolve conteúdos, vivências e formações relacionadas ao universo literário na primeira infância.

A ideia, aqui, não é esgotar o assunto nem apontar receitas prontas, e sim assumir a sua complexidade, pensar junto sobre as questões que o tema contempla, e sugerir caminhos de como começar a trilhar um caminho de livros desde o berço.

O que é ler para bebês?

Essa pergunta talvez seja o único ponto de partida possível. Antes de pensar sobre a importância da leitura para qualquer público, e sobretudo para os bebês, é bem-vindo pensar primeiro no que é ler, afinal.

Quando falamos em leitura, ultrapassamos a ideia de apreender códigos e interpretar uma linguagem. Ler é também ler o mundo, as pessoas, o círculo social onde vivemos e a sociedade como um todo. Ou seja, leitura também se refere ao entendimento de um código social, cultural e histórico. Partindo desse princípio, chegamos à importância da leitura na primeira infância.

“Existe o código escrito e sua apreensão, mas também outras leituras. Por exemplo, a leitura de imagens. A criança muito pequena está atenta ao mundo e já consegue ler imagens. A primeira imagem que ela lê são os olhos da mãe, depois o rosto, e vai ampliando o escopo de percepção”, defende Cássia.

Por que ler para os bebês, se eles não estão alfabetizados e não podem ainda interpretar palavras e imagens? Essa é uma pergunta que muitos adultos costumam se fazer. Por que, então, estimular o contato com a literatura neste primeiro período da vida?

Essa questão realmente é a chamada pergunta de 1 milhão de dólares. A constatação da qual a gente parte é que crianças que, na primeira infância, são colocadas em contato com narrativas, músicas, sons estimulantes e não redundantes, tendem a ser crianças mais curiosas, interessadas e felizes”, diz Pierre.

Além disso, vale a pena considerar também que bebês são pesquisadores e, até os dois anos principalmente, experimentam o mundo com os cinco sentidos. Por isso, eles leem com o corpo todo – as mãos, a boca, o nariz e os ouvidos. Os livros serão, então, parte desse processo de investigação do mundo. Para a pesquisadora Denise Guilherme, do nosso parceiro A Taba, os primeiros livros dos bebês são o corpo, o rosto e a voz de seus pais – leia mais sobre isso.

Outra questão diretamente relacionada ao porquê da leitura para bebês e crianças é o envolvimento dos pais em torno das suas próprias histórias que transmitem, criando um momento de qualidade dentro das famílias que certamente determinam um convívio mais feliz com as crianças.

Então, podemos pensar que a literatura na infância é mais a construção de uma relação afetiva entre a criança e quem lê com ela do que aprendizado ou apreensão de linguagens do livro? De acordo com os especialistas em desenvolvimento infantil, sim.

A leitura como vínculo

Desde 2016, a Biblioteca Villa-Lobos oferece todos os finais de semana um momento de mediação de leitura com bebês. É o Lê no Ninho. O objetivo do projeto é oferecer a oportunidade de adultos e crianças se encontrarem a partir da leitura, sem o intuito de ensinar a ler, e sim de estimular o encanto pela potência da leitura como construtora de vínculos. “Não existe um pressuposto no Lê no Ninho de que a gente vá ensinar coisas, e sim oferecer oportunidades de contato”, explica o diretor.

O programa foi criado com a proposta de estimular o gosto pela leitura entre crianças de seis meses a quatro anos, e se baseia em quatro pilares principais: cultura leitora, vínculos afetivos, conteúdo adequado e atitudes inspiradoras.

“O que não nos interessa quando se fala em ler para bebês? Antecipar a alfabetização, fixação de códigos. Acreditamos que há um momento para isso. Ler para bebês para nós é uma oportunidade de criar um momento de qualidade entre cuidadores e crianças em torno das histórias da comunidade, da cultura e da linguagem”, explica Pierre.

“Crianças de seis meses e de quatro anos também se relacionam com o legado cultural. Por isso, não nos centramos somente na leitura literária. A criança não faz essa distinção, mas ela percebe e se relaciona com a cultura da sociedade”, diz Ruprecht.

Literatura como arte afetiva

Lendo para bebês, favorecemos um processo poético. É o que Cássia Bittens defende e pratica em seu trabalho. Além da clínica em consultório, ela atua como pesquisadora na área de leitura e infância no curso de mestrado em Literatura e Crítica Literária na PUC de São Paulo.

É desse cuidado com o que significa apresentar os códigos – escritos e falados, mas também gesticulados, ouvidos e sentidos – de uma cultura que vem uma defesa constante do valor da literatura como arte.

“Antes de a gente aprender a falar, aprendemos (e apreendemos) o som das palavras. E isso a poesia traz, que a é palavra de forma sonora. A música da palavra. E o bebê primeiro apreende essa música, para depois atribuir um significado”, explica.

Cássia reforça também o lugar da leitura como espaço de segurança emocional para o bebê. Quando leem com e para o bebê, os pais e cuidadores transmitem uma mensagem de disponibilidade e afeto que ultrapassa – e muito – os limites do livro, defende a pesquisadora.

“A música da palavra traz conforto, psiquicamente falando. Além de ter os braços, que aninham e representam o ‘holding materno’, segundo Whinnicot”, explica Cássia, referindo aos estudos de Donald Woods Winnicott, pediatra e psicanalista inglês que pesquisou a relação entre a função materna e o desenvolvimento do bebê.

De acordo com a Psicanálise, a função materna é aquela que aninha e dá colo, preparando as bases emocionais da criança. Já a função paterna representa a ampliação de mundo da criança, que passa do colo para o ambiente externo, expondo-se a riscos e novas experiências. Essas não precisam ser necessariamente funções fechadas em uma única figura – pai, mãe, avó, avô ou qualquer outro cuidador podem exercê-las.

Considerando quais são os receios e inseguranças mais comuns dos adultos quando se trata de leitura e bebês, levamos algumas perguntas frequentes dos leitores para os dois pesquisadores.

Qual a diferença entre contar uma história e ler um livro?

Pierre André Ruprecht: “Aí tem várias nuances. Estamos falando de contar histórias e de como o livro entra nisso. Aqui no Lê no Ninho, descobrimos que ele entra como objeto cultural, que é algo extremamente interessante. Trabalhar livros-imagem com crianças, por exemplo, é fascinante.

Gostamos muito de uma ideia nutrida pela Geneviève Patte, uma bibliotecária francesa que trabalhou a vida toda com crianças e leitura, que algo que deve acontecer em um projeto como esse é simplesmente oferecer livros silenciosamente, e deixar que as crianças os explorem da maneira como elas podem explorar. E aí, claro, se vamos oferecer, é claro que deve ser algo de extrema qualidade.

E ‘qualidade’ significa aí oferecer possibilidades para que as crianças possam se relacionar e criar; não tem nada a ver com didatismo, e nem ensinar comportamentos.”

Cássia Bittens: “Essa é uma questão muito preciosa. Meus estudos vêm se pautando nela. Porque existe, sim, uma diferenciação – penso que até fundante – entre ler histórias e ler livros.

Quando contamos uma história, há todo um universo emocional e cultural em torno da contação da história, porque estamos contando do seu jeito. Transmissão cultural não necessariamente está ligada à capacidade de compreensão do bebê. Pelo contrário: muito possivelmente, ela está ligada à vinculação com o bebê. Não só vinculação amorosa, mas de vida mesmo, em que o bebê fica curioso pela vida. Ele quer ouvir mais, sentir mais. O bebê está na cultura; quer ser humano e fazer parte dela. A contação de história está muito ligada à transmissão da cultura.

Por um lado, temos livros para bebês, que têm narrativas mais curtas, com rimas, repetições, cores sólidas, textos mais simples (no sentido de ter menos camadas). São textos importantíssimos porque trazem autonomia pensante para o bebê. Se o bebê só ouve o que o adulto quer, ele perde capacidade de escolha. Mas, se ele consegue ter autonomia de abrir e fechar, e entender como o livro funciona é importantíssimo pra desenvolver o processo do pensamento.

E se o bebê estragar o livro?

Pierre André Ruprecht: Para nós, essa não é uma questão. Achamos que alguns livros têm que ser lambidos. Pelo próprio cuidado que se tem com o livro no programa, a criança vai percebendo a importância daquele objeto e vai aprendendo a se relacionar com ele. Deixamos isso acontecer de modo muito natural.

Quando falamos de qualidade, ela vai até aí. Qualidade de conteúdo, de forma e também do ponto de vista do uso que vai ser dado. Então, faz parte do processo, não é um desvio e nem pode ser um obstáculo. Isso faz com que o bebê consiga no futuro desenvolver sua capacidade de interpretação autônoma.

Cássia Bittens: Se um livro estimula o leitor a ser ativo naquela leitura, ele provavelmente vai ser mais resistente, porque o design faz parte da narrativa. Quando estamos na outra parte da linha, que é a contação de histórias, são capas menos resistentes, materiais mais finos, etc, o que realmente deixa os adultos preocupados. Então, se for um livro muito precioso para os pais, não é para estar no acesso da criança, que com o tempo vai entender o significado do livro, e que livro não é brinquedo. Agora, existem os livros próprios para bebês aos quais eles podem ter acesso dia e noite.

Qual o maior desafio de ler para um bebê?

Pierre Ruprecht: Ficamos muito ansiosos com a atenção do bebê, mas não é necessário que ele esteja prestando atenção a todo momento. A atenção do bebê é a escolha que ele faz a partir do que é oferecido a ele. Por isso, a gente insiste muito nisso: a oferta tem que ter muita qualidade. E deve ser uma oferta calma, no sentido de que não se deve construir um ambiente excessivamente estimulante, com muito ruído, por exemplo.

Estamos ali para oferecer experiências e as condições para que elas aconteçam de um jeito tranquilo, saboroso e surpreendente. Tanto é que, no final da mediação, as famílias que participam levam para casa um kit de leitura, com livros, fantoches e brinquedos para que a experiência possa ser reproduzida em casa.

Temos como missão alcançar não só a criança, mas os pais. Queremos mostrar aos adultos que ler, se envolver com jogos de palavras, histórias, parlendas e afins é uma experiência rica que traz muita felicidade, boas possibilidades para o futuro e que pode ser reproduzida todos os dias. O kit existe para isso.

Cássia Bittens: “Eu penso que o maior desafio é ser respeitoso com o bebê. Muitos parecem que não estão focados, mas estão ali e aqui ao mesmo tempo. Então, é preciso estar entregue ao bebê no momento da leitura. Tem algumas dicas: rimas e repetições sempre funcionam. Quando contamos uma história, o literário é apreendido pelo bebê por meio do corpo. Se o livro provoca pela sonoridade, ele vai se transformar naquele personagem, esse é o principio da alteridade.”

 

El impacto de leer 15 minutos al día en los niños

Março 21, 2019 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Photo by Josh Applegate on Unsplash

Texto do blog El Bosque de las Fantasías de 14 de novembro de 2018.

Publicado por Jesús Falcón

Un niño de preescolar que lee solo 15 minutos al día en casa o en el colegio, escucha nada más y nada menos que una cantidad de 2 millones de palabras por año. Eso quiere decir que habrán leído un total de 900 horas cuando lleguen a sexto curso y lo más probable es que sus notas sean mejores que las de otros alumnos que no lo hayan hecho.

Pero si esto no es suficiente para motivar a tu hijo hacia el camino de la lectura, te damos otras 5 razones para conseguirlo:

Ayuda al desarrollo del lenguaje

Leer a nuestros hijos desde el momento en que nacen en voz alta, puede influir de manera muy positiva en ellos. El cerebro podrá ir haciendo conexiones entre las palabras escritas y las palabras que escucha, ampliando así su vocabulario sin que el niño/a se dé cuenta. Además, mejorará enormemente su ortografía y su manera de expresarse.

Mejora el desarrollo del cerebro

Muchos profesores y profesionales de la educación están de acuerdo en que la gente que lee es más inteligente. Un estudio realizado por la Academia Americana de Pediatría, concluye que los niños que encuentran un hueco para dedicar a la lectura, activan la parte de su cerebro encargada de comprender y relacionar conceptos para almacenarlos posteriormente en la memoria.

Ayuda a comprender un mundo fuera del nuestro

Leer ayuda a comprender a grandes pensadores de la historia, mediante reflexiones o palabras que fueron inspiradas por experiencias personales. Esto hace que los niños puedan entender el mundo de una manera distinta, ampliando su realidad y abriendo su mente para reflexionar.

Estrecha los lazos familiares y la comunicación

Todos estamos de acuerdo en que leer estrecha los lazos familiares. Podemos empezar leyendo con ellos en su habitación o en el salón, eligiendo al principio libros que tengan muchas ilustraciones ya que de esa forma les costará menos. Poco a poco podremos ir eligiendo otros materiales con menos ilustración para fomentar la imaginación de los niños.

Muchas posibilidades para elegir

No hay excusa para no leer. Siempre es recomendable hacerlo mediante libros físicos, pero podemos optar por otras opciones que están muy de moda, como los libros digitales. Además, podemos encontrar geniales apps de cuentos aptos para niños en plataformas móviles de Android o IOS. Cualquier opción es buena para empezar a fomentar el hábito de la lectura en ellos.

 

 

 

Há mais mundo quando as histórias são contadas em voz alta

Março 16, 2019 às 1:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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snews

Texto e imagem do site Educare de 1 de março de 2019.

As crianças entram no texto e viajam pelo mundo. Aprendem e questionam. E a imaginação, a curiosidade, o vocabulário, e a aprendizagem saem reforçados. Ler em voz alta aos mais pequenos estará em vias de extinção?

Sara R. Oliveira

Há novidades do outro lado do Atlântico que revelam que a leitura em voz alta para os mais novos está a aumentar desde 2014. Nos Estados Unidos da América, há cada vez mais crianças, entre os seis e os oito anos, que escutam histórias em voz alta pelo menos cinco dias por semana. É um momento especial em família e as boas notícias estão no estudo da Scholastic “Kids & Family Reading Report – The Rise of Read-Aloud”. Mais de 80% dos pais e filhos inquiridos confessaram apreciar bastante essa experiência e esta partilha em família.

Susana Almeida é mãe de dois filhos e blogger (sersupermaeeumatreta). Os seus filhos têm cinco e três anos e todas as noites há histórias para contar lá em casa. Muito cedo, habituaram-se a olhar para um livro como um brinquedo. Ler em voz alta tem várias virtudes e benefícios para as crianças. “Além de fomentar o contacto com os livros, estimula a imaginação, aumenta e diversifica o vocabulário e desperta a curiosidade para mais leituras”, refere a blogger ao EDUCARE.PT.

“A leitura deve ser incentivada”, defende. Susana Almeida não tem dúvidas. Ler em voz alta para os seus filhos “é um momento único de partilha, de conversa e de descoberta de mundos novos”. “A imaginação de uma criança é um terreno fértil, mas precisa de ser regado. Em famílias em que não existem hábitos de leitura enraizados, a escola tem um papel muito importante de levar os livros até às crianças e de fazer esse intercâmbio entre a escola e a casa. Nem todas as crianças vão ser futuros leitores, mas o papel dos pais e da escola é tentar que o sejam”, sublinha.

Em seu entender, não será apenas a leitura em voz alta que está em vias de extinção, a leitura no geral também não respira saúde. “Lemos cada vez menos, seja jornais, revistas ou livros em papel, que têm vindo a ser substituídos pelo que vamos lendo superficialmente na Internet. E acredito que os pais que não têm hábitos de leitura dificilmente vão criar esse hábito nos filhos”.

Mikaela Öven, especialista em parentalidade positiva, vê imensos benefícios na leitura em voz alta aos mais pequenos, seja na aprendizagem, seja no desenvolvimento da linguagem, no raciocínio, entre outras capacidades e competências. “É um excelente momento de conexão e de possibilidade de aprendizagens”, afirma ao EDUCARE.PT. Mas tudo depende dos livros que se escolhem. Uma coisa é ler “A Bela Adormecida”, outra coisa é ler “O Monstro das Cores”. “Depende também se nos limitarmos apenas ao ler, ou se também conversamos sobre o que estamos a ler”, diz.

“Dependendo dos livros que escolhemos é um excelente momento para elaborar e refletir sobre questões emocionais, sobre medos, sobre relações, sobre consentimento, sobre igualdade de género, sobre imensas coisas”. Os benefícios, na sua opinião, dependem muito do género de livro que se escolhe para ler e acredita que uma escolha consciente de livros é muito importante.

Para a especialista em parentalidade positiva, contar as histórias dos livros em voz alta para os mais pequenos não é uma prática em extinção. “Não tenho essa ideia. Acho que as pessoas são muito mais conscientes em relação às suas escolhas de livros infantis. Pelo menos quem se interessa pela parentalidade consciente”. Pais e escolas não devem esquecer que essa prática estimula a aprendizagem. “Certamente! Nas escolas acho que se deveria principalmente estimular a reflexão e a crítica em relação àquilo que estamos a ler. Sejam livros ou coisas online”, refere.

Imaginar, comentar, duvidar
Os benefícios de ler em voz alta para quem está a crescer e a aprender são variados. A criança entra no texto e viaja pelo mundo. Aprende e questiona. “O momento da leitura de uma história, em família ou na escola, é um momento muito especial, uma oportunidade de conexão e de comunicação entre o adulto e a criança”, afirma Tânia Reis, terapeuta da fala. “A literatura infantil desenvolve a imaginação, promove a criatividade, facilita o entendimento do mundo e constitui uma excelente forma de potenciar o desenvolvimento linguístico, e não só, da criança”, realça.

Explorar uma história é conhecer mais mundo. Conhecer animais, plantas, flores, números, letras. “A exploração de histórias permite ampliar o conhecimento do mundo! A leitura de histórias permite à criança imaginar, iniciar um pensamento crítico e reflexivo, fazer relações com os diferentes conhecimentos, comentar, indagar, duvidar, criar uma opinião”.

Na linguagem oral, a leitura em voz alta e a exploração de histórias facilitam o contacto, a aquisição e a exploração de um maior número de palavras e, frequentemente, de palavras que são menos usuais no dia-a-dia da criança. Ouvir livros em voz alta também aumenta o vocabulário. Para Tânia Reis, “a leitura de histórias por um adulto possibilita o contacto com estruturas sintáticas mais complexas e menos frequentes (construção de frases), contribuindo para o aumento compreensão e expressão oral”.

A melodia da leitura produz efeitos. “Ouvir um adulto a ler permite à criança observar os padrões prosódicos (entoação) que terão uma importância extrema, futuramente, na compreensão leitora e na pontuação. Explorar em conjunto a leitura permite à criança fazer inferências, previsões, gerar conhecimento, atribuir significado, fulcrais para a literacia. Porque ler é muito mais do que transformar as letras em sons”, repara.

Ver como um adulto explora um livro permite à criança aceder a pré-competências de leitura. A terapeuta da fala exemplifica. Não é apenas o folhear de um livro, é igualmente “perceber que existem símbolos visuais que são transformados em palavras (descodificação), entender a ordem da leitura e da escrita (esquerda para a direita)”. “Com os livros contribuímos para a pré-história leitora da criança”, realça, lembrando o psicólogo russo Leo Vigotsky que, no século passado, escreveu: “A aprendizagem escolar nunca parte do zero. Toda a aprendizagem da criança na escola tem uma pré-história”.

O estudo mencionado no texto é o seguinte:

Kids & Family Reading Report – The Rise of Read-Aloud

Por que as crianças precisam conhecer bruxas, duendes e fadas? 10 livros infantis para entender a importância dos contos de fadas

Março 15, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto e imagem do blog Clube Quindim de 27 de fevereiro de 2019.

Os seres mágicos acompanham a humanidade muito antes da escrita. Mas, para a infância, eles ganharam mais relevância no formato que chamamos de contos de fadas ou contos maravilhosos. Os contos de fadas possuem raízes históricas e são narrativas estruturadas como um sonho: uma linguagem condensada e carregada de simbolismos. Nem todo conto de fada tem a presença da fada, mas todos têm um ser ou elemento mágico. Portanto, é importante que o adulto compreenda que personagens como bruxas, duendes, fadas, unicórnios e sereias representam muito mais que uma leitura simplista ou um olhar ligado à figura estereotipada e difundida no popular.

A psicanalista e escritora Ninfa Parreiras, curadora do Clube Quindim, em seu livro Confusão de línguas na Literatura: o que o adulto escreve, a criança lê (editora RHJ), traz diversos exemplos:

“A casa de doces da bruxa da história de João e Maria, dos irmãos Grimm, pode representar o mundo novo, a voracidade, a fome, a saciação da fome. Pode ser ainda o encantamento, a falsidade, a beleza, a sedução, a aparência, a oralidade da criança, a ganâcia, o excesso.”

Ou seja, João e Maria é uma história que aborda temas fundamentais para o desenvolvimento infantil e humano, tanto na época em que foi escrita como nos dias de hoje.

Os contos de fadas e os seres que nele habitam sobreviveram ao longo dos séculos porque estão ligados à essência do ser humano. Trazem sentimentos que pertencem às crianças desde os seus primeiros dias de vida, como amor, ciúme, medo, abandono, perda. A força do conto de fadas está nesse encontro entre o real e o imaginário.

Contos de fadas seriam histórias muito assustadoras para crianças?

O adulto se equivoca ao evitar que a criança tenha contato com histórias de bruxas e monstros para que ela não vivencie o medo. Para o psiquiatra e escritor Celso Gutfreind, “o medo tem uma função importante nos contos, representando uma emoção fundamental para toda a vida do ser humano e constituindo-se em um fator de proteção durante a infância. Aprender a lidar com ele é um desafio para a criança. Entretanto, as possibilidades de representação de situações assustadoras parecem ser um dos atrativos em um conto infantil” (Contos e desenvolvimento psíquico, Editora Viver, Mente & Cérebro).

A presença de “seres mágicos” pode despertar uma porção de sentimentos, tornando-se tanto um modelo de coragem como de medo. Ao contrário do que acontece em muitas (más) adaptações, um personagem pode representar coisas boas e ruins ao mesmo tempo, não precisando seguir o caminho dos maniqueísmos, do bem contra o mal.

Um ser mágico pode fazer maldades para proporcionar o crescimento pessoal do herói, dando-lhe a possibilidade de reflexão e superação, como no conto “A Bela e a Fera”, em que uma fada malvada condenou o príncipe a viver sob forma animal até que a moça tivesse coragem e consentisse em se casar com ele, redimindo-o do feitiço. Um outro exemplo é na própria história de João e Maria em que o encontro com a bruxa contribui para evidenciar a esperteza e a inteligência dos personagens.

Encontramos na literatura infantil e juvenil histórias com seres mágicos escritas por importantes autores do mundo e do Brasil. Autores que se dedicaram e se preocuparam com o desenvolvimento da criança e da construção do seu imaginário. Provavelmente a atual geração de pais, tios e avós ouviram ou leram histórias com bruxas, duendes, fadas, ogros, centauros desses escritores. Então, antes de descartar dar acesso a esses livros pergunte a sua memória afetiva o quanto você se divertiu e o quão foi importante conhecer algumas dessas histórias.

No livro A psicanálise dos contos de fadas (Editora Paz e Terra), o psicólogo Brunno Bettelheim afirma que “dentro da literatura infantil, nada pode ser tão enriquecedor e satisfatório, tanto para crianças como para adultos, do que os contos de fadas folclóricos. Eles ensinam pouco sobre condições específicas da vida contemporânea, mas através deles pode-se aprender muito sobre os problemas interiores dos seres humanos.”

A seguir, o Clube de Leitura Quindim selecionou 10 contos de fadas que já foram entregues aos nossos assinantes e ajudam a entender a importância desses seres mágicos para a infância.

Continuar a ler no link:

https://blog.clubequindim.com.br/por-que-criancas-precisam-conhecer-bruxas-e-contos-de-fadas/?fbclid=IwAR3G71UpUpGzPilcKatBjCMAv7gg1O_xG9tyM37mucXxAUr1TlOvJ8lTl48

 

 

Prefere ler em papel ou no ecrã? A ciência responde: há uma “superioridade do papel”

Março 11, 2019 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Adriano Miranda

Notícia do Público de 26 de fevereiro de 2019.

Ler em papel é mais eficaz do que ler em formato digital, sobretudo quando se tem o tempo contado. Estudo em que foram analisadas as respostas de mais de 170 mil pessoas alerta que é preciso pensar este problema no contexto de sala de aulas. Nos livros de ficção, a diferença é quase nula.

Claudia Carvalho Silva

Há quem prefira ler em papel, mesmo não sabendo bem porquê. Agora, um estudo da Universidade de Valência, em Espanha, pode ajudar a justificar: os investigadores chegaram à conclusão de que existe uma “superioridade do papel” – quando se lê em papel, a compreensão do que é lido é maior, ao contrário do que acontece quando o mesmo conteúdo informativo é lido em ecrãs. E, para surpresa dos cientistas, isto é sobretudo flagrante em crianças, o que exige uma reflexão política sobre os métodos de ensino que devem ser utilizados nas salas de aulas.

O resultado nestas camadas jovens surpreendeu os cientistas: “Não é por as crianças e jovens estarem mais habituadas aos ecrãs que a compreensão é maior — é precisamente o contrário”, alerta o investigador Ladislao Salmerón, um dos autores do estudo. Ao PÚBLICO, ​Salmerón explica que uma das hipóteses para justificar que a compreensão digital seja menor em crianças é a “associação destes dispositivos a interacções curtas e recompensas imediatas”. Isto, por sua vez, torna difícil que os jovens se consigam concentrar na leitura, por não se “desligarem” daquilo que esperam quando estão diante de um ecrã. “Precisamos de estar calmos, concentrados. É altamente incompatível com o uso actual que fazemos da tecnologia”, diz.

Para chegar a estes resultados, foram analisadas as respostas de mais de 171 mil participantes, “uma amostra generalizada e com uma grande variedade de idades, das crianças aos idosos”. Cada participante leu individualmente, em silêncio, na língua que usa no dia-a-dia. Na análise foram só usados estudos que tinham por base textos simples e lineares, tanto no papel como na parte digital (evitando links ou animações que privilegiariam este formato).

Como a amostra não incluiu estudos em Portugal – “pode haver, mas restringimos a nossa pesquisa a estudos publicados em inglês” –, o investigador ressalva que os resultados podem variar no caso português. Para Espanha, foi somente analisado um estudo feito com alunos em que se analisava a compreensão textual em artigos lidos em papel ou em tablets – os investigadores aperceberam-se de que havia um “ligeiro efeito negativo associado ao uso de tablets”.

O grande número de participantes foi conseguido porque este estudo, intitulado “Não se livrem dos livros impressos”, é uma meta-análise (ou seja, combina os dados e conclusões de outros 54 estudos, feitos entre 2000 e 2017). “É mais poderoso do que um só estudo”, esclarece o investigador espanhol, reconhecendo que só não é vantajoso por estarem restringidos por aquilo que os outros investigadores fizeram. Além de Salmerón, o estudo foi levado a cabo por três outros cientistas da Universidade de Valência e uma investigadora do Technion — Instituto de Tecnologia de Israel.

Como se lê no estudo, as pessoas adoptam um “estilo de processamento mais superficial” quando estão a ler num formato digital, podendo também estar envolvida uma falha na qualidade e na capacidade de atenção. Seguindo esta hipótese, “quanto mais as pessoas utilizarem os meios digitais para estas interacções superficiais, mais difícil será usá-los para tarefas desafiantes”, daí que os cientistas recomendem cautela com a utilização de dispositivos electrónicos para leitura na sala de aulas.

Outro dos factores a ter em conta para uma compreensão eficaz é o tempo disponível para a leitura – o que é um “condicionamento clássico”, em salas de aulas. Quanto menos tempo for dado, mais eficaz é a leitura em papel. O investigador espanhol esclarece que isto está relacionado com “a forma como o nosso cérebro gere recursos no processo de leitura”: “Podemos pensar nisto como se fosse uma corrida. Se tivermos de correr 100 metros sem que o tempo conte, podemos ir ao ritmo que quisermos e consegue-se fazê-lo; se só tivermos um minuto, é diferente.” E acautela: “É por isso verdadeiramente importante que os estudantes estejam a gerir recursos de forma eficaz. É por isso que nestas situações se torna crítico que o dispositivo não nos perturbe, ou que nos faça pensar que estamos a ler e a interpretar quando na verdade não estamos.”

O investigador admite que também ele prefere ler em papel, mas por questões profissionais acaba por ler muitos textos no ecrã. “De outra forma, não conseguiria conciliar todos os pequenos relatórios e textos que tenho para ler”, diz.

Quando se trata de textos narrativos (romances, poesia), pouco importa se se lê em papel ou em suporte digital, porque a linguagem é menos técnica e mais próxima daquela que é utilizada no dia-a-dia, com mais diálogos, explica Ladisla​ ​Salmerón. “Trata-se mais de quão desafiante é o texto, e as narrativas tendem a ser menos. Os textos informativos são mais desafiantes para a nossa estrutura mental, precisamos de analisar vocabulário mais complexo, mais técnico”, adianta. No estudo, os cientistas alertam que há terrenos incertos e que ainda é precisa mais investigação para aprimorar técnicas.

A equipa também considerou importante investigar a diferença que existe entre a leitura digital feita em computadores e aquela que é feita em telemóveis, em e-readers (leitores de texto, como o Kindle) ou em tablets. “Na maior parte dos estudos, o digital refere-se a ecrãs de computador. Os tablets e ebooks são muito mais recentes, talvez daqui a cinco anos tenhamos algo diferente”, diz. Os investigadores reiteram que há poucos estudos e meta-análises sobre a influência da natureza do meio nos resultados de leitura.

E soluções?

Voltando à forma como a leitura em formatos digitais afecta a interpretação, sobretudo nos mais novos, Ladisla​ ​Salmerón diz que não é preciso vilipendiar a tecnologia, mas encontrar soluções. “Não quero acreditar nem defender que é a tecnologia em si a causadora disto – mas é o uso que fazemos dela. As redes sociais, as conversas superficiais, as recompensas imediatas… não está a fazer nada de bom”, lamenta.

O estudo, publicado em Novembro de 2018 e feito no âmbito de um projecto europeu, mostra “de forma inequívoca que há uma inferioridade dos ecrãs, com resultados de menor eficácia de compreensão de leitura nos textos digitais quando comparados com os textos em papel”. Essa desvantagem é ainda maior em textos em que é preciso fazer scroll.

A leitura digital acaba por ser uma parte inevitável nas escolas. “O facto de não podermos impedir a tecnologia de chegar às escolas não significa que não possamos ser mais selectivos”, observa Ladislao Salmerón. “Isto é real. Não é um problema científico, é um verdadeiro problema que as crianças estão a enfrentar. Precisamos de mais intervenção do lado pedagógico, é preciso perguntar ‘o que podemos fazer para melhorar a interpretação textual através da tecnologia?’

 

 

Leitura: hábito praticado pelos pais reduz problemas de comportamento nas crianças, diz pesquisa

Fevereiro 13, 2019 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia da Revista Crescer de 6 de julho de 2016.

Estudo feito em Roraima, comandado pela Universidade de Nova York, mostra o impacto positivo da leitura quando é praticada pelos próprios pais, em casa

Uma pesquisa divulgada hoje (6) pela manhã, em Brasília, durante o IV Seminário Internacional do Marco da Primeira Infância, mostrou que quando os próprios pais leem para seus filhos, em casa, com regularidade, a família tem diversos benefícios. Realizado com a população de Boa Vista, em Roraima, o estudo apontou, por exemplo, um aumento de 25% de crianças sem problemas de comportamento e 50% de aumento da leitura interativa, em que os pais leem conversando e estimulando os filhos. A pesquisa foi conduzida por Alan Mendelsohn, professor associado de Pediatria e Saúde Populacional da Faculdade de Medicina da Universidade de Nova York e Adriana Weisleder, cientista pesquisadora da mesma instituição, em colaboração com o IDados e o Instituto Alfa e Beto. “Quando o pai ou a mãe lê para a criança faz toda a diferença, não é a mesma coisa de quando a professora lê, por exemplo. Não é um momento de simples história, é algo muito maior, é a formação do vínculo”, destacou Osmar Terra, ministro do Desenvolvimento Social e Agrário, durante o evento desta manhã.

A pesquisa
O trabalho “Prevenindo Disparidades na Prontidão Escolar de Famílias de Baixa Renda em Boa Vista” foi feito com 1.250 famílias (com crianças de 1 a 4 anos) de baixa renda do município, frequentadoras das creches das Casas-Mãe (parte do programa Família que Acolhe, da prefeitura). Elas foram  divididas em grupos experimentais, sendo um deles com atendimento normal da creche, que inclui leitura interativa diária pelos educadores, e outro no qual além desse trabalho, os pais receberam treinamento e capacitação para que tivessem habilidades para ler e interagir com os filhos em casa. Durante as sessões, eles recebiam orientações, trocavam experiências e faziam relatórios diários. Segundo João Batista Oliveira, presidente do Instituto Alfa e Beto, a receptividade dos pais a esse aprendizado foi muito boa. “Eles passaram a trocar mensagens e fotos pelo celular mostrando cenas dessas leituras em casa com as crianças e as reações delas. Os pais aprenderam instrumentos para fazer algo que sempre quiseram, mas não sabiam como”, diz. Ele também conta que durante o processo havia o “livro viajante”, um caderno que era levado a cada dia por uma criança, para que, em casa, registrasse com desenhos, fotos e comentários dos pais como havia sido a leitura do livro naquele dia. “Os pais foram se acostumando e adquirindo orgulho de trocar suas experiências com outros – e as crianças cobravam isso deles”, lembra João Batista.

Os resultados desse trabalho são melhorias não só no desenvolvimento das crianças (como aumento de 14% no vocabulário), mas também nas relações familiares, como menor índice de punições físicas e maior estimulação cognitiva em casa. O hábito da leitura passou a fazer parte da rotina dessas famílias: houve aumento de 50% naquelas que passaram a ler com os filhos três vezes por semana ou mais e ainda redução de 50% do número de famílias que não liam para as crianças.

Até mesmo os casos de pais que não sabiam ler não representaram um obstáculo para os bons resultados. Isso porque, durante as oficinas de treinamento, foram ensinadas duas técnicas: uma para usar os livros de imagens e outra para basear a interação nas ilustrações. Os livros utilizados no trabalho foram selecionados pela equipe do Instituto Alfa e Beto, seguindo diversos critérios, como diversidade de temas, gêneros, tipos de texto e idade recomendada.

mais informações no link:

http://www2.camara.leg.br/atividade-legislativa/comissoes/comissoes-permanentes/cssf/arquivos-de-eventos/seminario-06-07-2016/sem-06-07-2016-ml-1a-inf-alan-mendelsohn

 

O que leem (e como leem) os adolescentes?

Fevereiro 8, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Notícias Magazine de 6 de janeiro de 2019.

 

Carta ao aluno que não lê “Os Maias”

Dezembro 24, 2018 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto de Afonso Reis Cabral publicado na Visão de 6 de dezembro de 2018. Imagens da Visão

O escritor Afonso Reis Cabral, trineto de Eça de Queirós, escreveu para a VISÃO uma carta aos estudantes sobre o “calhamaço” publicado há 130 anos e ensinado nas nossas escolas. “Vês como respira? Como precisa de ti para sobreviver?”

O calhamaço que te obrigam a ler na escola está velho. Foi escrito há 130 anos (imagina a tua vida multiplicada por oito), é pois natural que te pareça demasiado pesado, um cadáver de papel do qual queres livrar-te o mais rapidamente possível. Mas atenção, tem calma. Pega-lhe com cuidado, sopesa-o na palma da mão como o telemóvel do qual dependes.

Vês como respira? Como precisa de ti para sobreviver?

Eu sei: a obrigação pesa. Só o facto de te meterem o livro à frente, de o analisarem contigo; pior, de o limitarem àquele tipo de estudo muito vazio que visa o exame, só isso já te estraga a vontade. A mim também estragou. Mas repara: o Eça não tem culpa de o submeterem à burocracia do ensino, de o terem posto nessa camisa de forças, e de te obrigarem a ti, que tens mais que fazer, a acatar ordens. Pensa que ele não escreveu para ti. Quer dizer, para te estragar a vida. Muito pelo contrário.

Talvez por te sentires encurralado, preferes trocar apontamentos nos corredores, pedir os esquemas ao idiota útil que até conseguiu ler a obra toda, ou, mais simples, talvez te decidas pelos primeiros cinco resultados no Google. Estes falam das características físicas e psicológicas das personagens, dão-te tabelas com datas, citações, resumos de cada capítulo, expõem a biografia do Eça – esse escanzelado de monóculo –, explicam a analepse inicial, sempre gigantesca, mostram laivos da vida no século XIX, e descrevem o virar do Romantismo para o Realismo. Mas que te interessa a ti como viviam as pessoas daquela época? De facto, concluis tu, só um parvo pode achar que este livro tem qualquer interesse.

Os bons professores libertam-se dos formalismos do ensino burocrático e são generosos a ponto de te mostrarem Os Maias a outra luz, apesar de perceberem que tentas ignorá-los. Querem mostrar-to não como livro-montanha, uma seca difícil de escalar, mas sim como porta para a descoberta.

Se te mantiveres na tua, até podes acabar o ano lectivo com uma nota decente no exame e a consciência tranquila. Mas confessa lá, sê honesto. Apesar dos muitos preconceitos, aposto que algures entre os teus afazeres já surgiu uma suspeita inquietante.

De noite, ouves um chamamento vindo da mochila onde esqueceste o calhamaço, como se este cantasse baixinho. Embora queiras rejeitá-lo, talvez acabes por aceitar, e ainda agora to disseram na aula de Português, que estás no limiar da tal descoberta.

Por isso levantas-te, resgatas o livro (sim, tem 130 anos mas aguenta-se firme enquanto o manuseias) e passas além de “A casa que os Maias vieram habitar em Lisboa, no Outono de 1875, era conhecida na rua de São Francisco de Paula, e em todo o bairro das Janelas Verdes, pela casa do Ramalhete ou simplesmente o Ramalhete.”

Quando dás por ti, a obrigação de ler nada significa; depois de superares a primeira descrição mais longa, os diálogos mais enfadonhos, estás em pleno ritual de passagem, cativado por essa coisa maravilhosa e produtiva chamada curiosidade; quando chegas a meio, percebes que o medo do desconhecido, que até então te constrangia, caracteriza quem evita crescer; e ao acabares, até sorris num momento autodepreciativo próprio de quem é inteligente.

Descobriste que a ironia é uma forma de realçar incongruências (o “foi ali” de Alencar), que a cultura é insignificante se não entrarmos a fundo na vida (Carlos da Maia, a quem tudo foi dado, nada fez), que há sempre dois lados na mesma relação (os beijos da condessa de Gouvarinho a compensarem a indiferença de Carlos), que o humor ilumina os momentos mais tensos (Vilaça a buscar o chapéu em plena conversa difícil), e que a procura de projecção social sem substância é ridícula (quantos Dâmasos Salcede não existem no Instagram?), entre tantos outros exemplos.

Tal como te avisaram, percebes que ainda hoje muitas das pessoas que ali encontras se repetem, não porque a nossa sociedade seja igual à do século XIX, mas porque o ser humano continua o mesmo, e o Eça conseguiu captá-lo na sua universalidade.

Repara que nem falei de incesto. Mas se queres ir por aí, muito bem: vais encontrar dois irmãos na cama, sendo que um deles continua a deitar-se nela mesmo depois de saber a verdade. Deixo-te o spoiler porque a boa literatura não depende só do enredo.

Se ainda não estiveres convencido, asseguro que este livro, embora calhamaço, te vai dar simplesmente o prazer único e memorável de uma boa história.

Enquanto tens esse prazer, usas o melhor dos músculos. O mais potente. Exercitas o cérebro contra a superficialidade, conheces os fios que cosem o dia a dia, enriqueces o raciocínio – vais ganhando experiência. Na verdade, precisas de muitas vidas para viver a tua vida, e podes encontrá-las nos livros.

A tua obrigação não é para com a escola, os professores, a nota. A tua única obrigação é para contigo, para com o teu próprio crescimento, e obras como Os Maias e escritores como o Eça de Queiroz dão-te armas para o futuro.

Se suspeitares disto e mesmo assim decidires não ler, preferindo resumos que esquecerás logo depois do exame, paciência. Tu é que ficas a perder.

 

 

A criança para ler – Miguel Esteves Cardoso

Dezembro 5, 2018 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Miguel Esteves Cardoso publicado no Público de 22 de novembro de 2018.

A única maneira segura de pôr uma criança a ler para o resto da vida é ver os pais constantemente a ler. Não gostam de ser interrompidos porque gostam de ler.

A única maneira segura de pôr uma criança a ler para o resto da vida é ver os pais constantemente a ler. Não gostam de ser interrompidos porque gostam de ler.

Assim a criança vê os livros como um prazer adulto. Ler como andar e falar é uma coisa que consegue fazer quase tão bem como os mais velhos. E, tal como andar e falar, a criança depressa repara que está sempre a melhorar, para mais a um ritmo agradavelmente rápido.

A criança deve descobrir a leitura sem sermões sobre o lindo que é ler ou exortações agressivas a ler ou ficar burro toda a vida.

Aquilo que se descobre nos livros é uma maneira de fugir às ordens e desejos dos nossos pais. Os pais querem impingir-nos livros bons, artísticos e poéticos, cheios de lições de vida.

Lembro-me perfeitamente do prazer de descobrir os livros do William escritos por Richmal Crompton que se tornou a minha primeira escritora preferida. William era desobediente, mentiroso, ladrão, megalómano, vaidoso e azarado. Era o meu herói.

Quando Tom Sawyer e o Huckleberry Finn abriram a minha imaginação ao mundo eu recebi-os como extensões gloriosas do William. Se tivesse começado como os meus pais queriam teria lido devagar e sem urgência porque o texto era difícil de mais para a minha idade e para o meu apetecimento.

Ao fingirem que não gostavam das minhas leituras os meus pais souberam viciar-me nos livros. Era eu que os escolhia e era através deles que eu fugia para um mundo onde não havia regras e onde as famílias eram coisas chatas que nos atravancavam as vidas.

 

Como pôr os miúdos a ler

Julho 23, 2018 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Josh Applegate

Texto do MAGG de 12 de julho de 2018.

Ana Roque

Tornar um livro atrativo pode não ser tarefa fácil, sobretudo se estivermos a falar de crianças. Fomos pedir ajuda a quem sabe.

Um livro pode muito bem ser um amigo, e não só pela companhia que nos faz – também pede tempo e muita dedicação. Mas o YouTube é mais rápido, e as séries, assim como assim, também contam uma história. Pôr os miúdos a ler pode ser díficil, e até já foi mais fácil fazê-lo com os adultos. Para nos ajudar com esta tarefa, recrutámos uma mãe, uma psicóloga e uma professora de Português.

Sónia Morais Santos, autora do blog “Cocó na Fralda” e mãe de quatro filhos, acredita que “há livros que não podem passar ao lado de certas idades”, e que ninguém vai ler “Os Cinco” aos quarenta anos. Ao perceber que, para além de terem crescido num ambiente em que os livros não são (nem nunca foram) estranhos, os filhos não pegavam num livro por iniciativa própria, tomou uma atitude – há cerca de um ano e meio, criou um “clube de leitura” em casa.

Todos têm de ler um livro por mês (os pais também), e todos os meses há uma tertúlia em que cada um faz uma apresentação do livro que leu – e não, não pode ser um resumo encontrado no Google. Quanto aos livros, num mês escolhem os pais, noutro escolhem os filhos. Tudo para evitar “escolhas duvidosas”.

Quem não ler o livro do mês, fica sem acesso a tablets, computadores e telefones, no mês seguinte. A questão da obrigatoriedade da leitura não preocupa a blogger, que acredita que este tipo de leituras “pode começar como uma obrigação, mas acabar por derivar num prazer”. Deu, como exemplo, o filho mais velho, que já toma a iniciativa de procurar livros, e cada vez mais complexos.

Para Rita Castanheira Alves, a história não é bem assim. A psicóloga clínica infanto-juvenil e de aconselhamento parental disse à MAGG que “ler por obrigação pode resultar, mas só até uma certa idade”, e que os hábitos de leitura deverão ser incutidos de forma gradual, sem exigências nem imposições, uma vez que obrigar as crianças a ler pode impedir o desenvolvimento do gosto pela leitura.

“A leitura deve produzir prazer, e não stress. As respostas químicas cerebrais são diferentes para os dois casos. Se a leitura produzir prazer, há mais probabilidade de ser um escolha repetida pela criança, pela vida fora”

Mas há uma distinção a fazer: uma leitura que resulte, não de uma imposição, mas de uma negociação com os pais, pode derivar num gosto real pela leitura. É importante que ela esteja associada a memórias e momentos bons, e por isso mesmo, um castigo terá sempre menos sucesso, se o objetivo for o de fazer dela um hábito.

Os livros devem entrar na vida das crianças mesmo antes de elas saberem ler

A “Psicóloga dos Miúdos” sugere que se coloquem livros adequados a cada faixa etária (desde sempre) perto das crianças, começando com os indicados para os mais novos, com poucas palavras e muitas ilustrações – é importante que os livros não sejam um objeto estranho. Mais tarde, o momento da história para adormecer também é crucial, mas tem de haver um envolvimento da criança com a leitura – uma leitura interativa, em que se dá atenção não só ao que está escrito, mas também às imagens, e em que se fazem perguntas sobre a história.

Para os mais crescidos que não tenham adquirido hábitos de leitura, também há soluções: ler revistas, artigos de jornal, visitar bibliotecas e livrarias ou falar sobre livros.  Os pais têm um papel preponderante – podem ajudar na escolha dos livros, tentando sempre ir ao encontro dos interesses dos filhos, e dando-lhes a conhecer livros que eles próprios tenham gostado naquela idade.

Salomé Carvalho, professora de Português do primeiro ciclo do ensino básico (num colégio), disse à MAGG que, no que toca a incentivar as leituras, o professor da língua materna tem um papel determinante, mas “não há nenhuma fórmula. Era bom que houvesse”.

“As crianças leem pouquíssimo. Cabe aos professores e aos familiares facilitar o acesso à leitura, e incentivá-la.”

Antes de começar a ler um livro, será uma boa estratégia explorá-lo enquanto objeto. Tal como Rita Castanheira Alves, a professora acha importante que o livro não seja algo estranho. Por isso, deve perder-se tempo a explorar a capa, as ilustrações, o título e nome dos capítulos. Fazer de tudo para que haja interesse pelo livro, mesmo antes de se iniciar a leitura.

Depois, também a família pode ser um excelente facilitador de leitura. É boa ideia que haja leituras em conjunto, feitas em voz alta, e a terminarem precisamente naquele momento em que toda a gente quer saber o que vem a seguir. Tal como nas séries, é também isso que nos mantém presos: a curiosidade.

No que toca à escolha dos livros, Salomé Carvalho avançou que “quando queremos pôr alguém a ler, é importante escolher o livro certo. Se estivermos a falar de crianças, devemos ter sempre em mente que elas continuam a ser crianças, e a adorar clichês.

 

 

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