Ler notícias? Só se aparecerem no feed. Para os jovens, são “desinteressantes e repetitivas”

Fevereiro 18, 2020 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , , ,

Notícia do Público de 20 de novembro de 2019.

Mariana Durães

Lêem o que aparece nas redes sociais, não gostam dos temas nem da linguagem: assim é a relação dos jovens com as notícias. E ainda que confiram credibilidade aos jornalistas, nem sempre sabem distinguir a verdade da mentira. O projecto PSuperior quer contrariar isso, com a oferta de assinaturas digitais a estudantes universitários.

Ana Sofia Mendes e os amigos fizeram uma experiência: ver quantos deles tinham a aplicação de um órgão de comunicação social instalada no telemóvel. Resultado? “Quase ninguém tinha.” O cenário não surpreendeu a jovem de 21 anos, estudante da Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa, que diz ter uma perspectiva “crua” no que toca ao consumo de notícias por jovens: “Não lêem, não vêem jornais e nem sequer vêem televisão. Ficam só pelas letras garrafais que lhes vão aparecendo.”

Precisamente por saber que, por vezes, são só “as letras gordas” que contam, o PÚBLICO associou-se a nove empresas para oferecer assinaturas digitais a alunos finalistas ou de mestrado integrado de determinados cursos de universidades públicas e privadas de todo o país, ao abrigo do projecto PSuperior, que é lançado esta quarta-feira, 20 de Novembro. A ideia é alertar os jovens para a desinformação e para as fake news, num momento em que o que “lhes vai aparecendo” são as notícias que caem no feed das redes sociais que utilizam — e que nem sempre são de fonte fidedigna. E incentivar hábitos de leitura de jornais junto dos jovens universitários.

Para Inês Amaral, professora da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, a principal alteração no que toca ao consumo de notícias feito por jovens é na questão do acesso: “Até diria que os jovens consomem mais informação do que consumiam antes, mas o acesso passou a ser feito através do digital, das redes sociais. Agora não vem da procura por informação, mas de um acesso espontâneo”, explica a investigadora, que se tem dedicado a estudar a literacia mediática em Portugal, em entrevista telefónica ao P3.

Sara Pereira, investigadora do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade da Universidade do Minho, corrobora: “Há uma tendência grande para, hoje em dia, o contacto que os jovens têm com as notícias ser feito através das redes sociais. É aí que encontram a informação.” E se, por um lado, as redes sociais podem fazer notícias saltar à vista de quem não as procura, por outro são também terreno fértil para a disseminação de fake news. Ou para a criação de “bolhas” intelectuais: o algoritmo calcula os interesses de cada um de nós, oferecendo constantemente informações coincidentes com os nossos tópicos de eleição, excluindo todos os conteúdos que sabe que, à partida, não nos vão agradar. O que é, para Inês Amaral, “redutor”.

Depois do primeiro contacto com as notícias, feito através das redes sociais, “há aqueles que querem ler na íntegra e os que se ficam apenas pelo título”: as tais “letras garrafais que vão aparecendo” que Ana Sofia acredita ser o único contacto que os jovens têm com as notícias. A estudante de Direito, também presidente da Associação de Estudantes do mesmo curso, diz que “já nem fala” em comprar um jornal: “As pessoas nem têm interesse em ver notícias online.”

As notícias são “repetitivas e desinteressantes”

Mas, afinal, porque é que os jovens não lêem notícias? “Estão altamente desinteressados pelas hard news e pelas questões da actualidade”, atira Inês Amaral. Salvo excepções, como o tema das alterações climáticas, os assuntos que são tratados pelos media tradicionais “são considerados repetitivos e desinteressantes” para o público mais jovem.

Ana Sofia acredita que também contam questões como o hábito e o incentivo à leitura e a procura de informação: “Eu sempre fui instruída a ler notícias. E se formos habituados a isso desde os 14 ou 15 anos, aos 19 e 20 vamos continuar a fazê-lo.” Uma realidade que também é defendida por Sara Pereira, que relembra que a leitura de notícias depende dos “hábitos de consumo” de cada um.

Ao desinteresse acresce a incapacidade de compreender certos tópicos: “Há assuntos que até interessam aos jovens e que lhes podem ser mais próximos — como as questões de economia ou política —, mas que eles dizem não entender. É preciso uma adaptação da linguagem.” Mais ainda, o “consumo imediato”, típico do que é feito nas redes sociais, leva a que os jovens descartem rapidamente as notícias: “Ou está no título e no lead, ou não está.”

A solução para reverter o panorama pode passar “pela ideia de dar voz a assuntos cívicos, que parecem ser os que despertam mais atenção”, defende Inês. A professora refere que “tópicos sensacionalistas, como crime, violência, catástrofes e conflitos, são normalmente referidos como de interesse”. Mas salvaguarda a ideia de que “a informação não pode existir numa lógica de on demand” e que “o jornalismo precisa de cobrir aquilo que é a actualidade.”

Sara Pereira vai mais além: “Acredito que tem de haver mais visibilidade e representação dos jovens, mas se não é na fase de jovens adultos que se interessam pela actualidade, quando é que estamos a formar adultos?” A investigadora acredita também que não é necessário “transformar uma linguagem que já aceitável desde o ensino secundário.”

Mas o que diz uma jovem sobre o assunto? “Pode, de facto, haver um desinteresse pelas temáticas abordadas pelos media, mas o que acho que acontece é que a própria sociedade não dá a devida importância à comunicação social”, atira Ana Sofia.

O que está na Internet é “certamente verdade”

“A questão da literacia mediática é uma urgência há muito tempo, mas, com os consumos em grande velocidade, assumiu uma relevância maior”, refere Inês. “Sobretudo quando temos sites como os Bombeiros 24 a venderem coisas em que as pessoas acreditam e não questionam”, diz a investigadora de Coimbra, referindo-se a uma das páginas portuguesas mais vezes associadas a fake news.

Mas se seria de esperar que, como nativos digitais, os jovens estivessem mais sensíveis às notícias falsas, a verdade é que “são altamente vulneráveis nesse campo”. Até porque o facto de terem “nascido com o digital” faz com que haja uma enorme “credibilidade pelos pares, mesmo que não os conheçam pessoalmente”: “Se alguém partilha algum conteúdo através de uma conta no Twitter que eles já seguem há muito tempo e a quem atribuem credibilidade, não questionam”, explica Inês.

Ana Sofia resume numa frase: “Nós sempre procuramos tudo na Internet.” Por isso, tudo o que lá está é “certamente verdade”. Ainda assim, defende Sara Pereira, “os jovens têm noção de que quando querem informação credível e fidedigna, vão procurar a sítios feitos por profissionais”. “Há um reconhecimento grande do trabalho do jornalismo e de jornalistas.”

O que não quer dizer que seja suficiente para pagar uma assinatura de um jornal: “Ler uma notícia não desperta os mesmos sentimentos que ver uma série”, explica Ana Sofia. Por isso, diz, na hora de escolher, quem ganha a maior parte das vezes é a Netflix.

Unicef: 30% das meninas de famílias mais pobres nunca foram à escola

Janeiro 26, 2020 às 1:00 pm | Publicado em Relatório | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , , , , , ,

Notícia da ONU News de 20 de janeiro de 2020.

Agência da ONU listou investimentos com educação em 42 países; Brasil, única nação de língua portuguesa analisada, aparece no meio da relação; Unicef diz que falta de acesso à educação é falhar com as crianças e perpetuar a pobreza.

Um novo relatório do Fundo das Nações Unidas para a Infância, Unicef, revela que 30% das meninas adolescentes mais pobres do mundo, entre 10 e 19 anos, nunca frequentaram a escola.

Entre os meninos, nessa mesma condição, este índice é de 20%

Relatório

O relatório “Abordando a crise da aprendizagem: uma necessidade urgente de melhorar o financiamento da educação para as crianças mais pobres” destaca grandes disparidades na distribuição dos gastos públicos em educação. O financiamento limitado e distribuído, de forma desigual, resulta em turmas grandes, professores mal treinados, falta de material escolar e infraestrutura precária.

Segundo a agência da ONU, isso tem um impacto adverso na participação das crianças, índice de matrículas e aprendizado.

Obstáculos

O Unicef enfatiza que pobreza, discriminação por gênero, deficiência, etnia e língua de ensino são algumas das causas do problema.  Além disso, distância e infraestrutura precária continuam a impedir que essas crianças tenham acesso à educação.

A agência diz que a exclusão em todas as etapas da educação perpetua a pobreza e é um fator-chave de uma crise global de aprendizado.

Falha

Para a diretora-executiva do Unicef, Henrietta Fore, “os países estão falhando com as crianças mais pobres do mundo e consigo próprios.” Ela disse que “enquanto os gastos com educação pública forem desproporcionalmente direcionados às crianças das famílias mais ricas, as mais pobres terão poucas esperanças de escapar da pobreza, e aprender o necessário para ter sucesso no mundo de hoje e contribuir para as economias de seus países”.

Ao analisar dados disponíveis de 42 países, o estudo conclui que em média, em nações de baixa renda, 46% dos recursos de educação pública foram para 10% dos estudantes com os mais altos níveis de educação. Já nos países de renda média baixa, este índice é de 26%.

Distribuição

Dez países africanos concentram as maiores disparidades nos gastos com educação, com quatro vezes mais recursos destinados às crianças mais ricas do que às mais pobres.

Na Guiné-Conacri e na República Centro-Africana, países com algumas das taxas mais altas de crianças fora da escola, alunos mais ricos se beneficiam de nove e seis vezes mais, respectivamente, da quantidade de fundos públicos que as crianças mais pobres.

Brasil

O Brasil, o único país de língua portuguesa no estudo aparece em 16 º posição em relação à percentagem de recursos públicos em educação destinados a crianças das famílias mais pobres, em comparação com investimentos em menores de famílias mais ricas.

Barbados, Dinamarca, Irlanda, Noruega e Suécia são os únicos países na análise que distribuem o financiamento da educação igualmente sem favorecer pobres ou ricos.

Leitura

O relatório observa que a falta de recursos disponíveis para as crianças mais pobres está agravando uma crise de aprendizado quando as escolas deixam de oferecer educação.

Segundo o Banco Mundial, cerca de 53% das crianças que vivem em países de baixa e média rendas não conseguem ler ou entender uma história simples até o final da escola primária.

Recomendações

Entre as recomendações do Unicef está a alocação de recursos domésticos, que devem ser distribuídos para que as crianças dos 20% das famílias mais pobres se beneficiem de pelo menos 20% do financiamento da educação.

Outra diretriz é a priorização do financiamento público para níveis mais baixos de educação, onde estão a maioria das famílias mais pobres.

O estudo cita ainda a importância de pelo menos um ano de educação pré-primária universal. Para o Unicef, a educação pré-primária é a base sobre a qual cada estágio da escolaridade se baseia.

A agência destaca que as crianças que concluem o pré-primário aprendem melhor, têm maior probabilidade de permanecer na escola e contribuem mais para as economias e sociedades de seus países quando atingem a idade adulta.

O relatório citado na notícia é o seguinte:

Addressing the learning crisis: An urgent need to better finance education for the poorest children

Como desenvolver o hábito da leitura nas crianças?

Janeiro 7, 2020 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , ,

Notícia da Cláudia Abril de 23 de dezembro de 2019.

O conteúdo certo pode despertar o interesse e o hábito que dure a vida toda

Por Stéphanie Habrich

Ouço por aí muitos pais se perguntando o que devem fazer para incentivar os filhos a gostar de ler.

Eu costumo dizer que não existe receita de bolo para que as crianças se interessem pela leitura – e que não importa se o jovem está lendo uma receita de bolo ou um clássico da literatura. O importante é que ele leia algo que o incentive a tomar gosto pela leitura.

Quando se veem diante da tarefa de estimular os filhos a ler, muitos pais pensam automaticamente em munir a criança com livros. Embora eles sejam fundamentais para o desenvolvimento de um indivíduo, as obras literárias não precisam ser a única porta de entrada para o mundo da leitura.

No meu caso, acredito que as revistas infantojuvenis europeias foram, em grande parte, responsáveis por despertar o meu interesse para o hábito de ler. Meu pai, alemão, e minha mãe, francesa, assinavam para mim publicações infantis da França e da Alemanha – bastante comuns na Europa. As publicações traziam curiosidades, histórias e receitas, além de textos que explicavam o que estava acontecendo no mundo de uma forma que as crianças – como eu, na época – conseguiam entender. E eu adorava ficar por dentro de tudo.

Os jovens ouvem pais e outros adultos falando sobre assuntos da atualidade e querem compreender melhor os temas tratados. Ao terem contato com publicações infantojuvenis que tratam sobre essas questões, passam a ver nesses materiais a possibilidade de entenderem melhor o mundo à sua volta – e de não ficarem alheios ao que as pessoas estão falando por aí.

Além da possibilidade de obter informações novas, outra coisa que me encantava nas publicações da minha infância era a sensação de dever cumprido toda vez que eu terminava uma leitura – algo que não vinha de forma tão rápida com livros, onde, naturalmente, os textos são maiores do que as notícias curtas das publicações infantis.

Enfim, ler as publicações vindas da França e Alemanha era agradável, divertido e instrutivo. Toda vez que elas chegavam em casa, eu saía correndo para ler, de tão ansiosa que ficava. É essa mesma sensação que tento proporcionar aos leitores do Joca.

De leitora à empreendedora

Inspirada nas publicações infantis que eu lia quando criança, em 2011 lancei o Joca, o primeiro jornal para crianças e jovens do Brasil. Nele, tratamos dos mais variados assuntos – política, economia, cultura, tecnologia, esportes, entre outros – com uma abordagem específica para essa faixa etária.

Os textos que as crianças encontram no jornal são dinâmicos e objetivos, e costumam vir acompanhados de imagens, infográficos e ilustrações para facilitar a compreensão dos temas.

Além disso, fazemos questão de explicar termos e conceitos complexos e mostrar o contexto por trás de determinado acontecimento. Se vamos tratar sobre um encontro entre Donald Trump e Kim Jong-un, por exemplo, além de falar sobre a reunião em si, explicamos como se deu a relação entre os dois países ao longo da história. Assim, a criança terá mais condições de entender a importância de tal acontecimento para o cenário internacional.

Hoje, oito anos após a criação, o Joca é distribuído por todo o país. Contamos com tiragem de 30.000 exemplares, que chegam a escolas para uso em sala de aula, nas casas de assinantes e em ONGs.

Dentre todas as conquistas que tivemos nos últimos anos, a que me deixa mais feliz é ver como as crianças gostam de ler o jornal. Quando uma nova edição chega, vemos a animação no rosto dos jovens, ansiosos para saber das novidades.

Esse interesse também se comprova por uma pesquisa, realizada pela Planète D’Entrepreneurs, organização francesa que avalia negócios de impacto social pelo mundo, em parceria com a HEC Paris (uma das instituições mais conceituadas no mundo para estudar negócios). Participaram cerca de 1.000 leitores do Joca. O resultado mostrou que mais de 80% dos entrevistados gostam de ler o jornal. Além disso, dois em cada três afirmaram que leem o Joca por diversão – e não apenas para fazer a lição de casa.

Ouvimos sempre que os brasileiros, sobretudo as crianças, não gostam de ler. Mas, ao ver esses números, tenho a certeza de que essas afirmações não passam de mitos. Acredito que, quando as crianças têm acesso a materiais que são atraentes, lúdicos e respeitam a sua inteligência, a vontade de ler aumenta.

Se dermos às crianças os conteúdos certos, que despertem a curiosidade já existente nelas, estou certa de que as chances de desenvolverem o hábito da leitura de maneira natural serão muito maiores.

E, assim, todos agradecem: tanto as crianças como seus pais.

Stéphanie Habrich é fundadora e diretora executiva do jornal Joca, finalista do Prêmio CLAUDIA 2019, na categoria Educação

Um terço dos estudantes só lê quando é obrigado

Dezembro 12, 2019 às 9:30 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , ,

Notícia do Jornal de Notícias de 4 de dezembro de 2019.

Alexandra Inácio

Quase um terço dos alunos portugueses de 15 anos (31%) admite que só lê por obrigação; 46% só leem para encontrar uma informação que precisam e, para 22%, ler é uma perda de tempo.

Os resultados são piores nos rapazes. Os resultados do PISA revelam também que Portugal é o único país da OCDE que mantém uma evolução positiva nas três áreas (Leitura, Matemática e Ciências) desde 2000.

Os dados sobre o interesse pela leitura foram ontem revelados nos relatórios PISA (Programa de Avaliação Internacional de Alunos) e do Instituto de Avaliação Educativa (IAVE) sobre os resultados portugueses da avaliação internacional. Por cá, o desinteresse é mais baixo da que as médias registada nos 79 países avaliados pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) – onde, por exemplo, 49% só leem por obrigação -, mas piorou relativamente a 2009.

Por género, a proporção de rapazes que responde que ler é uma obrigação (41%), apenas para procurar uma informação (60,3%) ou uma perda de tempo (31,2%) chega a ser mais do dobro das raparigas (19,9%, 32,5% e 12,1% respetivamente).

Tanto a presidente da Associação de Professores de Português (APP), Filomena Viegas, como a comissária do Plano Nacional de Leitura, Teresa Calçada, alertam que os alunos de 15 anos associam a leitura ao estudo, obrigatório. “Eles leem muito nos tablets e nos telemóveis, mas não têm interesse pela literatura”, assume Filomena Viegas.

A presidente da APP considera que as listas de leitura para as disciplinas de Português devem incluir mais obras e autores. Além de maior liberdade de escolha, defende. “O leque tem de ser alargado para despertar interesse e prazer”, insiste. Teresa Calçada também considera que as bibliotecas das escolas têm de ter mais diversidade e novidades.

Literacia na média

“A mais-valia dos relatórios é que devem despertar o sentido crítico sem serem endeusados”, afirmou, sublinhando que, se as escolas não estivessem a trabalhar bem, os níveis de literacia não evoluiriam. “Não estamos descontentes mas também não estamos contentes. É preciso apostar na leitura em contextos diversos”, considera a comissária.

O PISA 2018 dedicou maior atenção à avaliação da literacia da leitura. Portugal conseguiu um resultado de 492 pontos (ligeiramente abaixo do de 2015) mas que acompanha a média da OCDE (487 pontos) e representa uma subida de dois pontos face a 2009 e 22 pontos em relação a 2000 (anos em que os relatórios também foram dedicados à Leitura). Portugal teve resultados que o colocam ao lado de países como a França, a Alemanha ou a Bélgica.

No retrato feito pelo PISA, os portugueses revelam-se ansiosos mas também mais felizes do que os restantes.

Um terço dos estudantes só lê quando é obrigado

Dezembro 7, 2019 às 1:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
Etiquetas: , , ,

Notícia do Jornal de Notícias de 4 de dezembro de 2019.

Alexandra Inácio

Quase um terço dos alunos portugueses de 15 anos (31%) admite que só lê por obrigação; 46% só leem para encontrar uma informação que precisam e, para 22%, ler é uma perda de tempo.

Os resultados são piores nos rapazes. Os resultados do PISA revelam também que Portugal é o único país da OCDE que mantém uma evolução positiva nas três áreas (Leitura, Matemática e Ciências) desde 2000.

Os dados sobre o interesse pela leitura foram ontem revelados nos relatórios PISA (Programa de Avaliação Internacional de Alunos) e do Instituto de Avaliação Educativa (IAVE) sobre os resultados portugueses da avaliação internacional. Por cá, o desinteresse é mais baixo da que as médias registada nos 79 países avaliados pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) – onde, por exemplo, 49% só leem por obrigação -, mas piorou relativamente a 2009.

Por género, a proporção de rapazes que responde que ler é uma obrigação (41%), apenas para procurar uma informação (60,3%) ou uma perda de tempo (31,2%) chega a ser mais do dobro das raparigas (19,9%, 32,5% e 12,1% respetivamente).

Tanto a presidente da Associação de Professores de Português (APP), Filomena Viegas, como a comissária do Plano Nacional de Leitura, Teresa Calçada, alertam que os alunos de 15 anos associam a leitura ao estudo, obrigatório. “Eles leem muito nos tablets e nos telemóveis, mas não têm interesse pela literatura”, assume Filomena Viegas.

A presidente da APP considera que as listas de leitura para as disciplinas de Português devem incluir mais obras e autores. Além de maior liberdade de escolha, defende. “O leque tem de ser alargado para despertar interesse e prazer”, insiste. Teresa Calçada também considera que as bibliotecas das escolas têm de ter mais diversidade e novidades.

Literacia na média

“A mais-valia dos relatórios é que devem despertar o sentido crítico sem serem endeusados”, afirmou, sublinhando que, se as escolas não estivessem a trabalhar bem, os níveis de literacia não evoluiriam. “Não estamos descontentes mas também não estamos contentes. É preciso apostar na leitura em contextos diversos”, considera a comissária.

O PISA 2018 dedicou maior atenção à avaliação da literacia da leitura. Portugal conseguiu um resultado de 492 pontos (ligeiramente abaixo do de 2015) mas que acompanha a média da OCDE (487 pontos) e representa uma subida de dois pontos face a 2009 e 22 pontos em relação a 2000 (anos em que os relatórios também foram dedicados à Leitura). Portugal teve resultados que o colocam ao lado de países como a França, a Alemanha ou a Bélgica.

No retrato feito pelo PISA, os portugueses revelam-se ansiosos mas também mais felizes do que os restantes.

Benefícios da leitura: muito além de aumento de vocabulário

Setembro 16, 2019 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , ,

Texto e imagem do site Quindim

Que a leitura desenvolve o vocabulário, todos sabem, mas poucos conhecem pesquisas empíricas que comprovem seu potencial no desenvolvimento da memória e na melhora do comportamento.

A memória precisa de exercício, e hoje está comprovado que a melhor forma de exercitá-la não são os “apps de desenvolvimento neuronal” das plataformas mobile, mas sim o velho hábito da leitura. É o que afirma o neurocientista Iván Izquierdo, pesquisador brasileiro que coordena as investigações do Centro de Memória, do Instituto do Cérebro da PUC: “A leitura é o melhor exercício para a memória. Quando o cérebro vê uma palavra, tem que formar um inventário de informações e termos que cada letra lhe traz”. Trata-se de um esforço gigantesco que muitas vezes passa despercebido:

“Se a primeira letra da palavra é R, por exemplo, podemos pensar em Raul, rato, revista… em questão de milissegundos o cérebro forma uma lista das palavras que conhecemos e que começam com essa letra – em todas as línguas que sabemos. É uma atividade intelectual poderosa. (…) Nenhum método se impôs sobre o outro no desenvolvimento da memória, só a leitura se destacou.”

Outro estudo, este realizado pela Universidade de Nova Iorque, em colaboração com o IDados e com o Instituto Alfa e Beto, demonstrou que ler para a criança regularmente aumenta em média 14% no vocabulário e 27% na memória de trabalho, além de 25% no índice de crianças sem problemas de comportamento. O resultado dessa pesquisa, realizada com 1250 responsáveis e 1250 crianças de Roraima, é bastante impressionante ao demonstrar que a leitura desenvolve não apenas aspectos cognitivos, como costumamos associá-la, mas também aspectos comportamentais.

Já dizia o grande professor Antônio Cândido que a literatura é, ou ao menos deveria ser, um direito básico do ser humano, pois a ficção atua no caráter e na formação dos sujeitos. Uma pesquisa demonstrando mudanças significativas em aspectos comportamentais através de uma metodologia empírica amplia essa constatação – tão conhecida pelos que trabalham pela leitura – para outros universos e áreas do conhecimento.

A importância da leitura compartilhada é outra constatação desses estudos. Trata-se de um momento de troca de afeto entre os responsáveis e as crianças, em que não apenas “o pequeno” se desenvolve mas também o adulto que lê para ele, que nessa troca passa a conversar mais com a criança, a conhecê-la (e a se mostrar mais para ela), discutindo questões que não seriam abordadas e refletidas se não fosse aquele livro e aquele momento. Esse hábito precioso oferece uma troca rara e importante que uma rotina diária sem ele dificilmente permitiria. E como consequência prática, aumenta o vocabulário, a memória, a empatia… e segue-se uma lista imensa. Não à toa a Sociedade Brasileira de Pediatria lançou a campanha “Receite um Livro”, com o objetivo de mobilizar os médicos pediatras a estimularem os pais a lerem para as crianças.

Não se engane, porém, ao acreditar que tal desenvolvimento aconteça com uma leitura irregular, uma vez ao mês. Para reverberar, é preciso o hábito, como a pesquisa empírica da Universidade de Nova Iorque considerou: a leitura compartilhada em pelo menos dois dias por semana.

Este desafio, de se criar o hábito, não é difícil de se construir. Ler à noite, antes de dormir, por exemplo, pode se tornar um ritual, um momento de relaxamento e convivência em que se constrói o afeto e todos os outros resultados práticos consequentes. Para isso, não é preciso muito: uma carteirinha de uma biblioteca e, se possível, um clube de assinatura de livros infantis, como o nosso, o Clube de Leitura Quindim, com curadoria de qualidade e livros selecionados por pessoas como Ziraldo, Walcyr Carrasco e Marisa Lajolo. Pois para se ter tantos benefícios, não basta também um livro de ficção banal. É o que diz outra pesquisa empírica, esta da Universidade de Cambridge, feita em uma parceria entre os departamentos de Neurociência, Pedagogia, Psicologia e Letras. Eles constataram o potencial que a literatura de qualidade tem de gerar empatia – a capacidade de se colocar no lugar do outro –, um potencial não encontrado em textos de ficção banais ou em textos de não ficção. Ou seja, para se desenvolver através da leitura, não basta ler: é preciso literatura de qualidade.

Renata Nakano é mestre em Literatura pela PUC-Rio e bacharel em Comunicação pela UAM. Como pesquisadora, foi premiada com bolsa da Biblioteca Internacional da Juventude, em Munique, e convidada a apresentar sua pesquisa sobre livro ilustrado em universidades como Cambridge e em eventos literários pelo Brasil. Como editora, desenvolveu catálogos de literatura infantil para diferentes casas editoriais, tendo conquistado prêmios como FNLIJ, BN e o Prêmio Jabuti.

5 Motivos para Ler

Setembro 7, 2019 às 1:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , ,

Imagem retirada daqui

20 livros infantis para as férias de verão

Agosto 13, 2019 às 8:00 pm | Publicado em Livros | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , ,

Texto do Observador de 24 de julho de 2019.

Ana Dias Ferreira

Qual “silly season”. Os livros infantis publicados nos últimos meses falam do mundo em infografias, de mulheres com muita garra (mas pouco conhecidas) e até de democracia.

Eu, Alfonsina

De Joan Negrescolor (Orfeu Negro). 14,50€

A Alfonsina do título é Alfonsina Strada, a primeira mulher ciclista a participar no Giro d’Italia (a conhecida volta à Itália em bicicleta), em 1924. Joan Negrescolor — autor de Há Classes Sociais e A Cidade dos Animais, também publicados na coleção Orfeu Mini — conta a sua história em tons fortes, desde o dia em que recebeu uma bicicleta do pai, aos 10 anos, até vestir a dorsal na famosa prova, aos 33, e os tons fortes rimam com o exemplo de determinação. Numa altura em que o desporto (e muitas outras coisas) estava vedado às mulheres, Alfonsina passou por cima de proibições e de preconceitos e mudou a sua alcunha de “maria-rapaz” para “Rainha do Pedal”. Nunca desistiu, quebrou recordes, desafiou a família, e por isso mesmo o livro é dedicado pelo autor “a todas as mulheres que não se rendem” até chegar à meta.

O Livro dos Ursos

De Katie Viggers (Bizâncio). 14€

Como diz o pós-título, este livro nasceu para ficar “tu cá tu lá com os ursos de todo o mundo”. São negros, são pardos, são polares, são beiçudos, pandas, americanos, malaios ou asiáticos — oito espécies provenientes de diferentes partes do mundo que se juntaram para fazer esta espécie de enciclopédia ilustrada. Cada urso tem direito a um capítulo próprio recheado de curiosidades, com outros temas ainda abordados como a alimentação e a hibernação. Todos são ilustrados pela autora, Katie Viggers, num registo entre o selvagem e o humanizado que os torna simplesmente irresistíveis.

Eu e o Mundo — Uma História Infográfica

Texto de Mireia Trius, ilustrações de Joana Casals (Edicare)

Num formato para lá de original, Eu e o Mundo faz uma história do planeta através de infografias. São 28 ao todo, construídas em torno de uma menina chamada Maria e usadas para apresentar dados mundiais relacionados com os nomes mais comuns, as línguas, a população, as profissões, a religião, os engarrafamentos, as cidades e museus mais visitados e até os tipos de pequenos-almoços. O resultado é graficamente apelativo e para ir descobrindo com tempo e demorar em cada página.

Eleição dos Bichos

De André Rodrigues, Pedro Markum, Paula Desgualdo e Larissa Ribeiro (Nuvem de Letras). 12,50€

Esqueçam o tempo de antena. Uma forma de lutar contra a abstenção é começar a ler este Eleição dos Bichos desde tenra idade. A história chega-nos do Brasil para falar da importância do voto em democracia, e parte de uma revolta anti-monárquica. Tudo porque um dia o leão resolve desviar toda a água do rio para construir uma piscina em frente à toca e os animais da floresta decidem dizer basta “aos mandos e desmandos do rei” e fazer uma eleição para escolher um novo líder. Assim se explica o que é uma campanha, um candidato, um governo, um comício, um debate ou quais as regras de uma eleição — é proibido dar presentes aos eleitores e devorar os adversários, por exemplo. Uma forma divertida e clara de explicar e valorizar o que é a democracia, com direito a um desfecho — neste caso um presidente — decidido pela maioria das crianças que participaram em oficinas com os autores em São Paulo e Florianópolis.

Uma Girafa Reticulada, uma Zebra Bem Riscada e uma Grande Caminhada

Texto de Manuela Castro Neves, ilustrações de Madalena Matoso (Caminho). 10,90€

Como muitas fábulas, a história de Manuela Castro Neves começa com um facto inexplicável caído do céu: uma zebra e uma girafa que aprenderam a ler, “não se sabe bem como”, e que um dia encontram, numa folha de jornal, a notícia de uma selva de betão que cresce a poucos quilómetros do mar. Intrigadas com a flora de que nunca ouviram falar, questionam todos os animais que encontram e começam uma longa caminhada para ver a novidade com os seus próprios olhos. O betão, como seria de esperar, revela-se uma desagradável e cinzenta surpresa. Mas nada que faça desanimar a girafa reticulada e a zebra riscada, cada uma bem letrada e pronta para defender um mundo mais verde.

Continuar a ler o artigo no link:

20 livros infantis para as férias de verão

 

Uma criança que lê será um adulto que pensa

Junho 30, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , ,

Texto e imagem do site Up to Kids

Uma criança que lê será um adulto que pensa, porque não há um domínio mais amplo de conhecimento do que aquele que os livros nos oferecem.

Uma criança que lê será um adulto que pensa

Fomentar a leitura em qualquer idade é sempre sinónimo de enriquecimento, mas incentivar este hábito entre os mais jovens da sociedade é uma garantia total de um futuro melhor. Uma criança que lê será um adulto com ideias próprias e mentalidade firme. Será capaz de questionar e de compreender mais facilmente o seu lugar no mundo.

Uma criança que lê será um adulto que pensa, porque não há um domínio mais amplo de conhecimento do que aquele que os livros nos oferecem. Quando lemos estimulamos o raciocínio e desenvolvemos a imaginação. Somos mais receptivos a tudo: as crianças, por não terem preconceitos, são capazes de depositar toda a criatividade na leitura.

Uma criança que lê será livre para sempre

Ler ajuda-nos a pensar. Pensar liberta-nos. Assim, se o seu filho gosta de passar tempo a ler, é um ótimo sinal. Na verdade, essa será a forma mais eficaz que terá para explorar sozinho o desconhecido, opiniões e condutas que a vida oferece. Isto ajudará a formar a tolerância da criança, a empatia, o respeito e a solidariedade.

Muitas vezes os adultos surpreendem-se ou sentem-se incomodados quando se deparam com opiniões diferentes das suas. Estes “conflitos” advêm sobretudo, por acreditarem que somente as suas ideias são válidas. Felizmente, este tipo de pensamento deriva sobretudo da ignorância.

Ler é como viajar

Ler é como viajar, em todos os sentidos. Ajuda-nos a abrir a mente. Uma criança que lê descobrirá outras culturas, outros modos de vida, outros costumes e saberá que existem outras coisas além do que conhece no seu dia-a-dia. Ter esta consciência fará com que se torne num adulto que não fará juízos de valor gratuitos. Um adulto mais tolerante, compreensivo e bem resolvido.

O refúgio contra as misérias da vida

Por sorte ou azar, o mundo dá vida plena aos que acreditam ser loucos. Já dizia Dom Quixote: lia e lia até que encontrou a forma de viver baseado nas suas crenças e ilusões. Isto permitia-lhe ser feliz, enquanto que à sua volta continuava preso a uma realidade convencional que julgava a sua maneira de viver.

Os “loucos” que leem são capazes de encontrar refúgio das misérias da vida. Os restantes vivem-nas sem sequer terem consciência disso. É preciso deixar uma criança chorar e rir ao ler um livro. Permitir que se apaixone por uma história e apoiá-la se decidir “ir com tudo” no campo da imaginação que está ao seu alcance..

Unamuno empregou as palavras corretas ao pedir que as crianças cresçam a ler porque assim serão adultos menos vulneráveis, menos indefesos e mais humanos.

Leitura é a fábrica da imaginação

Existem diversas actividades que ajudam a desenvolver e melhorar a imaginação independentemente da idade que tenhamos. A leitura é uma fábrica inteira onde é forjada e recolhida toda criatividade dos seres humanos.

Uma criança que lê será uma criança que pensa, afirmou algum pensador genial, e não estava enganado. Ler é brincar, é entretenimento, é construir sonhos, é refletir, é um estado de ânimo, é isolamento e companhia, é prazer. Ler é brindar às lembranças do que já fizemos um dia e ao que ainda queremos fazer. Move as incertezas mais internas para depois nos aproximarmos delas.

Uma crianças que lê, é uma criança feliz.

“Ler é como pensar, como rezar, como conversar com um amigo, como apresentar ideias, como ouvir as ideias dos outros, como ouvir música, como contemplar uma paisagem, como dar um passeio no praia” -Roberto Bolaño

Publicado em La mente es maravilhosa, adaptado por Up To Kids®

 

 

Leitores de berço: um guia nada definitivo de como ler para bebês

Junho 7, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , ,

iStock/Arte Lunetas Bebês experimentam o mundo com as mãos, a boca e o corpo todo. O objeto livro faz parte daquilo que ele vai ler.

Texto do site Lunetas de 26 de fevereiro de 2019.

por Renata Penzani

Ler é sempre um ato de poder“. A afirmação é do escritor argentino Alberto Manguel. Quando imaginamos um leitor adulto, fica fácil compreender o que ela significa: a potência do conhecimento para ampliar repertórios e transformar a noção de si mesmo e do ambiente; o poder, aqui, aparece no sentido de potência, de possibilidade para questionar e subverter o mundo como ele se apresenta.

Mas e quanto às crianças? E os bebês? O que a leitura representa na primeiríssima infância? No período que vai do zero até os três anos, quais experiências um livro pode oferecer?

O que ler para bebês e por que ler para bebês são assuntos que aparecem com frequência aqui no Lunetas. Mas, afinal, como ler para bebês? Como ganhar sua atenção com livros, dentre tantos estímulos que o mundo oferece? Mas e se o bebê morder, babar e estragar o livro? Considerando que estas são perguntas que chegam com frequência dos nossos leitores, e a pedido deles, convidamos especialistas no assunto leitura e primeiríssima infância para refletir sobre o assunto.

Conversamos com Pierre André Ruprecht, diretor executivo da SP Leituras – Associação Paulista de Bibliotecas e Leitura, que gerencia a Biblioteca Villa-Lobos e a Biblioteca de São Paulo.

Entrevistamos também a pesquisadora e professora Cássia Bittens, psicóloga especialista em psicanálise, autora do projeto Literatura de Berço, que desenvolve conteúdos, vivências e formações relacionadas ao universo literário na primeira infância.

A ideia, aqui, não é esgotar o assunto nem apontar receitas prontas, e sim assumir a sua complexidade, pensar junto sobre as questões que o tema contempla, e sugerir caminhos de como começar a trilhar um caminho de livros desde o berço.

O que é ler para bebês?

Essa pergunta talvez seja o único ponto de partida possível. Antes de pensar sobre a importância da leitura para qualquer público, e sobretudo para os bebês, é bem-vindo pensar primeiro no que é ler, afinal.

Quando falamos em leitura, ultrapassamos a ideia de apreender códigos e interpretar uma linguagem. Ler é também ler o mundo, as pessoas, o círculo social onde vivemos e a sociedade como um todo. Ou seja, leitura também se refere ao entendimento de um código social, cultural e histórico. Partindo desse princípio, chegamos à importância da leitura na primeira infância.

“Existe o código escrito e sua apreensão, mas também outras leituras. Por exemplo, a leitura de imagens. A criança muito pequena está atenta ao mundo e já consegue ler imagens. A primeira imagem que ela lê são os olhos da mãe, depois o rosto, e vai ampliando o escopo de percepção”, defende Cássia.

Por que ler para os bebês, se eles não estão alfabetizados e não podem ainda interpretar palavras e imagens? Essa é uma pergunta que muitos adultos costumam se fazer. Por que, então, estimular o contato com a literatura neste primeiro período da vida?

Essa questão realmente é a chamada pergunta de 1 milhão de dólares. A constatação da qual a gente parte é que crianças que, na primeira infância, são colocadas em contato com narrativas, músicas, sons estimulantes e não redundantes, tendem a ser crianças mais curiosas, interessadas e felizes”, diz Pierre.

Além disso, vale a pena considerar também que bebês são pesquisadores e, até os dois anos principalmente, experimentam o mundo com os cinco sentidos. Por isso, eles leem com o corpo todo – as mãos, a boca, o nariz e os ouvidos. Os livros serão, então, parte desse processo de investigação do mundo. Para a pesquisadora Denise Guilherme, do nosso parceiro A Taba, os primeiros livros dos bebês são o corpo, o rosto e a voz de seus pais – leia mais sobre isso.

Outra questão diretamente relacionada ao porquê da leitura para bebês e crianças é o envolvimento dos pais em torno das suas próprias histórias que transmitem, criando um momento de qualidade dentro das famílias que certamente determinam um convívio mais feliz com as crianças.

Então, podemos pensar que a literatura na infância é mais a construção de uma relação afetiva entre a criança e quem lê com ela do que aprendizado ou apreensão de linguagens do livro? De acordo com os especialistas em desenvolvimento infantil, sim.

A leitura como vínculo

Desde 2016, a Biblioteca Villa-Lobos oferece todos os finais de semana um momento de mediação de leitura com bebês. É o Lê no Ninho. O objetivo do projeto é oferecer a oportunidade de adultos e crianças se encontrarem a partir da leitura, sem o intuito de ensinar a ler, e sim de estimular o encanto pela potência da leitura como construtora de vínculos. “Não existe um pressuposto no Lê no Ninho de que a gente vá ensinar coisas, e sim oferecer oportunidades de contato”, explica o diretor.

O programa foi criado com a proposta de estimular o gosto pela leitura entre crianças de seis meses a quatro anos, e se baseia em quatro pilares principais: cultura leitora, vínculos afetivos, conteúdo adequado e atitudes inspiradoras.

“O que não nos interessa quando se fala em ler para bebês? Antecipar a alfabetização, fixação de códigos. Acreditamos que há um momento para isso. Ler para bebês para nós é uma oportunidade de criar um momento de qualidade entre cuidadores e crianças em torno das histórias da comunidade, da cultura e da linguagem”, explica Pierre.

“Crianças de seis meses e de quatro anos também se relacionam com o legado cultural. Por isso, não nos centramos somente na leitura literária. A criança não faz essa distinção, mas ela percebe e se relaciona com a cultura da sociedade”, diz Ruprecht.

Lê no Ninho
Famílias e bebês leem juntos no projeto Lê no Ninho, realizado na Biblioteca Villa-Lobos.

Assista ao vídeo do Lê no Ninho:

Literatura como arte afetiva

Lendo para bebês, favorecemos um processo poético. É o que Cássia Bittens defende e pratica em seu trabalho. Além da clínica em consultório, ela atua como pesquisadora na área de leitura e infância no curso de mestrado em Literatura e Crítica Literária na PUC de São Paulo.

É desse cuidado com o que significa apresentar os códigos – escritos e falados, mas também gesticulados, ouvidos e sentidos – de uma cultura que vem uma defesa constante do valor da literatura como arte.

“Antes de a gente aprender a falar, aprendemos (e apreendemos) o som das palavras. E isso a poesia traz, que a é palavra de forma sonora. A música da palavra. E o bebê primeiro apreende essa música, para depois atribuir um significado”, explica.

Cássia reforça também o lugar da leitura como espaço de segurança emocional para o bebê. Quando leem com e para o bebê, os pais e cuidadores transmitem uma mensagem de disponibilidade e afeto que ultrapassa – e muito – os limites do livro, defende a pesquisadora.

“A música da palavra traz conforto, psiquicamente falando. Além de ter os braços, que aninham e representam o ‘holding materno’, segundo Whinnicot”, explica Cássia, referindo aos estudos de Donald Woods Winnicott, pediatra e psicanalista inglês que pesquisou a relação entre a função materna e o desenvolvimento do bebê.

De acordo com a Psicanálise, a função materna é aquela que aninha e dá colo, preparando as bases emocionais da criança. Já a função paterna representa a ampliação de mundo da criança, que passa do colo para o ambiente externo, expondo-se a riscos e novas experiências. Essas não precisam ser necessariamente funções fechadas em uma única figura – pai, mãe, avó, avô ou qualquer outro cuidador podem exercê-las.

Considerando quais são os receios e inseguranças mais comuns dos adultos quando se trata de leitura e bebês, levamos algumas perguntas frequentes dos leitores para os dois pesquisadores.

Qual a diferença entre contar uma história e ler um livro?

Pierre André Ruprecht: “Aí tem várias nuances. Estamos falando de contar histórias e de como o livro entra nisso. Aqui no Lê no Ninho, descobrimos que ele entra como objeto cultural, que é algo extremamente interessante. Trabalhar livros-imagem com crianças, por exemplo, é fascinante.

Gostamos muito de uma ideia nutrida pela Geneviève Patte, uma bibliotecária francesa que trabalhou a vida toda com crianças e leitura, que algo que deve acontecer em um projeto como esse é simplesmente oferecer livros silenciosamente, e deixar que as crianças os explorem da maneira como elas podem explorar. E aí, claro, se vamos oferecer, é claro que deve ser algo de extrema qualidade.

E ‘qualidade’ significa aí oferecer possibilidades para que as crianças possam se relacionar e criar; não tem nada a ver com didatismo, e nem ensinar comportamentos.”

Cássia Bittens: “Essa é uma questão muito preciosa. Meus estudos vêm se pautando nela. Porque existe, sim, uma diferenciação – penso que até fundante – entre ler histórias e ler livros.

Quando contamos uma história, há todo um universo emocional e cultural em torno da contação da história, porque estamos contando do seu jeito. Transmissão cultural não necessariamente está ligada à capacidade de compreensão do bebê. Pelo contrário: muito possivelmente, ela está ligada à vinculação com o bebê. Não só vinculação amorosa, mas de vida mesmo, em que o bebê fica curioso pela vida. Ele quer ouvir mais, sentir mais. O bebê está na cultura; quer ser humano e fazer parte dela. A contação de história está muito ligada à transmissão da cultura.

Por um lado, temos livros para bebês, que têm narrativas mais curtas, com rimas, repetições, cores sólidas, textos mais simples (no sentido de ter menos camadas). São textos importantíssimos porque trazem autonomia pensante para o bebê. Se o bebê só ouve o que o adulto quer, ele perde capacidade de escolha. Mas, se ele consegue ter autonomia de abrir e fechar, e entender como o livro funciona é importantíssimo pra desenvolver o processo do pensamento.

E se o bebê estragar o livro?

Pierre André Ruprecht: Para nós, essa não é uma questão. Achamos que alguns livros têm que ser lambidos. Pelo próprio cuidado que se tem com o livro no programa, a criança vai percebendo a importância daquele objeto e vai aprendendo a se relacionar com ele. Deixamos isso acontecer de modo muito natural.

Quando falamos de qualidade, ela vai até aí. Qualidade de conteúdo, de forma e também do ponto de vista do uso que vai ser dado. Então, faz parte do processo, não é um desvio e nem pode ser um obstáculo. Isso faz com que o bebê consiga no futuro desenvolver sua capacidade de interpretação autônoma.

Cássia Bittens: Se um livro estimula o leitor a ser ativo naquela leitura, ele provavelmente vai ser mais resistente, porque o design faz parte da narrativa. Quando estamos na outra parte da linha, que é a contação de histórias, são capas menos resistentes, materiais mais finos, etc, o que realmente deixa os adultos preocupados. Então, se for um livro muito precioso para os pais, não é para estar no acesso da criança, que com o tempo vai entender o significado do livro, e que livro não é brinquedo. Agora, existem os livros próprios para bebês aos quais eles podem ter acesso dia e noite.

Qual o maior desafio de ler para um bebê?

 

Pierre Ruprecht: Ficamos muito ansiosos com a atenção do bebê, mas não é necessário que ele esteja prestando atenção a todo momento. A atenção do bebê é a escolha que ele faz a partir do que é oferecido a ele. Por isso, a gente insiste muito nisso: a oferta tem que ter muita qualidade. E deve ser uma oferta calma, no sentido de que não se deve construir um ambiente excessivamente estimulante, com muito ruído, por exemplo.

Estamos ali para oferecer experiências e as condições para que elas aconteçam de um jeito tranquilo, saboroso e surpreendente. Tanto é que, no final da mediação, as famílias que participam levam para casa um kit de leitura, com livros, fantoches e brinquedos para que a experiência possa ser reproduzida em casa.

Temos como missão alcançar não só a criança, mas os pais. Queremos mostrar aos adultos que ler, se envolver com jogos de palavras, histórias, parlendas e afins é uma experiência rica que traz muita felicidade, boas possibilidades para o futuro e que pode ser reproduzida todos os dias. O kit existe para isso.

Cássia Bittens: “Eu penso que o maior desafio é ser respeitoso com o bebê. Muitos parecem que não estão focados, mas estão ali e aqui ao mesmo tempo. Então, é preciso estar entregue ao bebê no momento da leitura. Tem algumas dicas: rimas e repetições sempre funcionam. Quando contamos uma história, o literário é apreendido pelo bebê por meio do corpo. Se o livro provoca pela sonoridade, ele vai se transformar naquele personagem, esse é o principio da alteridade.”

Quer montar a primeira biblioteca do bebê? Inspire-se:

Resumo

“Como ler para bebês, se eles não ainda interpretam letras e imagens?”. Conversamos com especialistas em leitura e primeira infância para pensar a leitura como ampliação de repertório e construção de vínculos emocionais seguros.

 

 

 

Página seguinte »


Entries e comentários feeds.