Ler histórias às crianças pode torná-las mais felizes e menos agressivas

Fevereiro 25, 2019 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Texto do MAGG de 30 de abril de 2018.

Costuma ler histórias em voz alta aos seus filhos? Se não o faz, saiba que este é um hábito que lhes pode trazer vantagens psicológicas.

por Catarina da Eira Ballestero

Basta ligar a televisão na Baby TV ou num canal do mesmo género para encontrarmos cenas de desenhos animados em que uma mãe ou um pai conta uma história ao filho para o adormecer (se tiverem filhos com um ano ou menos, é provável que estejam a ter na vossa cabeça a imagem do programa Boa Noite Ursinho).

Mas para além de momentos de qualidade entre pais e filhos e uma ótima estratégia para conseguir adormecer os miúdos, a verdade é que este hábito pode ter benefícios no desenvolvimento psicológico das crianças — e a conclusão é de uma investigação norte-americana.

O estudo intitulado “Reading Aloud, Play, and Social-Emotional Development” estabeleceu que ler em voz alta às crianças lhes pode trazer diversos benefícios comportamentais. Para além de melhorar as suas capacidades literárias, este hábito pode influenciar positivamente fatores como tristeza, agressividade e até o tempo que os seus filhos conseguem permanecer sentados e tranquilos.

Os momentos entre pais e filhos podem ajudar as crianças a controlar o seu comportamento

A investigação, que teve uma amostra de 675 famílias com crianças até aos cinco anos de idade, funcionou da seguinte forma: os pais eram gravados enquanto liam histórias em voz alta e brincavam com os seus filhos e, de seguida, essas gravações eram vistas pelos pais.

Em declarações ao “The New York Times”, Adriana Weisleder, uma das co-autoras do estudo, afirmou que “ver as reações das crianças às diferentes interações com os pais pode ser uma verdadeira chamada de atenção, um ‘abre-olhos’. Tentámos que os pais vissem o lado positivo destes momentos. É claro que os adultos podem-se sentir um pouco tontos ao verem-se a fazer vozes estranhas, mas depois também conseguiram ver o quanto os filhos adoraram esses momentos e o divertidos que foram — e isso pode ser muito motivador”.

Os resultados demonstraram que, após um ano e meio, as crianças que participaram no estudo tinham menos probabilidades de exibir problemas comportamentais como agressividade e hiperatividade.

“Na minha opinião, a mensagem-chave do estudo é percebermos que quando os pais leem e brincam com seus filhos numa tenra idade (estamos a falar de uma faixa etária entre o nascimento e os três anos), este é um hábito que tem um grande impacto no comportamento das crianças”, realçou também ao “The New York Times” Alan Mendelsohn, um dos investigadores do estudo, que acrescentou que “todas as famílias precisam de saber que quando leem, quando brincam com os filhos, ajudam-nos a aprender a controlar seu próprio comportamento”.

 

Leitura: hábito praticado pelos pais reduz problemas de comportamento nas crianças, diz pesquisa

Fevereiro 13, 2019 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia da Revista Crescer de 6 de julho de 2016.

Estudo feito em Roraima, comandado pela Universidade de Nova York, mostra o impacto positivo da leitura quando é praticada pelos próprios pais, em casa

Uma pesquisa divulgada hoje (6) pela manhã, em Brasília, durante o IV Seminário Internacional do Marco da Primeira Infância, mostrou que quando os próprios pais leem para seus filhos, em casa, com regularidade, a família tem diversos benefícios. Realizado com a população de Boa Vista, em Roraima, o estudo apontou, por exemplo, um aumento de 25% de crianças sem problemas de comportamento e 50% de aumento da leitura interativa, em que os pais leem conversando e estimulando os filhos. A pesquisa foi conduzida por Alan Mendelsohn, professor associado de Pediatria e Saúde Populacional da Faculdade de Medicina da Universidade de Nova York e Adriana Weisleder, cientista pesquisadora da mesma instituição, em colaboração com o IDados e o Instituto Alfa e Beto. “Quando o pai ou a mãe lê para a criança faz toda a diferença, não é a mesma coisa de quando a professora lê, por exemplo. Não é um momento de simples história, é algo muito maior, é a formação do vínculo”, destacou Osmar Terra, ministro do Desenvolvimento Social e Agrário, durante o evento desta manhã.

A pesquisa
O trabalho “Prevenindo Disparidades na Prontidão Escolar de Famílias de Baixa Renda em Boa Vista” foi feito com 1.250 famílias (com crianças de 1 a 4 anos) de baixa renda do município, frequentadoras das creches das Casas-Mãe (parte do programa Família que Acolhe, da prefeitura). Elas foram  divididas em grupos experimentais, sendo um deles com atendimento normal da creche, que inclui leitura interativa diária pelos educadores, e outro no qual além desse trabalho, os pais receberam treinamento e capacitação para que tivessem habilidades para ler e interagir com os filhos em casa. Durante as sessões, eles recebiam orientações, trocavam experiências e faziam relatórios diários. Segundo João Batista Oliveira, presidente do Instituto Alfa e Beto, a receptividade dos pais a esse aprendizado foi muito boa. “Eles passaram a trocar mensagens e fotos pelo celular mostrando cenas dessas leituras em casa com as crianças e as reações delas. Os pais aprenderam instrumentos para fazer algo que sempre quiseram, mas não sabiam como”, diz. Ele também conta que durante o processo havia o “livro viajante”, um caderno que era levado a cada dia por uma criança, para que, em casa, registrasse com desenhos, fotos e comentários dos pais como havia sido a leitura do livro naquele dia. “Os pais foram se acostumando e adquirindo orgulho de trocar suas experiências com outros – e as crianças cobravam isso deles”, lembra João Batista.

Os resultados desse trabalho são melhorias não só no desenvolvimento das crianças (como aumento de 14% no vocabulário), mas também nas relações familiares, como menor índice de punições físicas e maior estimulação cognitiva em casa. O hábito da leitura passou a fazer parte da rotina dessas famílias: houve aumento de 50% naquelas que passaram a ler com os filhos três vezes por semana ou mais e ainda redução de 50% do número de famílias que não liam para as crianças.

Até mesmo os casos de pais que não sabiam ler não representaram um obstáculo para os bons resultados. Isso porque, durante as oficinas de treinamento, foram ensinadas duas técnicas: uma para usar os livros de imagens e outra para basear a interação nas ilustrações. Os livros utilizados no trabalho foram selecionados pela equipe do Instituto Alfa e Beto, seguindo diversos critérios, como diversidade de temas, gêneros, tipos de texto e idade recomendada.

mais informações no link:

http://www2.camara.leg.br/atividade-legislativa/comissoes/comissoes-permanentes/cssf/arquivos-de-eventos/seminario-06-07-2016/sem-06-07-2016-ml-1a-inf-alan-mendelsohn

 

Porque é que as crianças pedem sempre a mesma história na hora de dormir?

Abril 24, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia da https://www.tsf.pt/ de 9 de abril de 2018.

A psicóloga Clementina Almeida acredita que esse pedido está relacionado com uma necessidade de rotina. “A rotina dá-lhes uma sensação de previsibilidade. Não é por acaso que eles pedem para ler aquela história outra vez e outra vez e é sempre a mesma – porque isso lhes dá segurança”, explica a psicóloga clínica.

Clementina Almeida explica que a previsibilidade, o saberem o que vem a seguir, ajuda as crianças a acalmarem-se e os momentos que antecedem a hora de dormir são muito importantes.

Para Clementina Almeida, não interessa qual é a rotina (porque cada família é uma família), o que importa é que ela exista.

Ouvir a psicóloga Clementina Almeida no link:

https://www.tsf.pt/sociedade/interior/porque-e-que-as-criancas-pedem-sempre-a-mesma-historia-na-hora-de-dormir-9244306.html

Menina de quatro anos já leu mais de mil livros

Janeiro 25, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social, Vídeos | Deixe um comentário
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Notícia do http://www.jn.pt/ de 14 de janeiro de 2017.

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Uma menina de 4 anos que leu mais de mil livros foi convidada para ser bibliotecária por um dia, na Biblioteca do Congresso norte-americano.

Daliyah Marie Arana tinha 2 anos e 11 meses quando leu o primeiro livro de forma independente.

Haleema Arana, a mãe, contou ao jornal “The Washington Post” que quando estava grávida de Daliyah lia, diariamente, para outras crianças e que quando a filha era bebé ouvia o irmão mais velho a ler capítulos de livros em voz alta pela casa, em Gainesville, na Geórgia, nos Estados Unidos da América.

“Ela queria ler sozinha”, afirmou a mãe ao jornal. “Quanto mais palavras aprendia mais vontade tinha de ler”, explicou.

Agora, com 4 anos, a menina já leu mais de mil livros e alguns textos do ensino superior.

A mãe contactou a Biblioteca do Congresso e perguntou se era possível usufruir de uma experiência no local com a filha. Na última quarta-feira, Daliyah concretizou o sonho de ser bibliotecária por um dia.

A menina visitou a secção de crianças da Biblioteca, leu livros para Carla Hayden, 14ª bibliotecária do Congresso norte-americano, e conheceu alguns funcionários da instituição.

No entanto, quando a equipa lhe pediu algumas recomendações, a criança sugeriu que instalassem quadros brancos nos corredores da biblioteca para que as crianças, como ela, pudessem praticar a escrita.

Carla Hayden ficou impressionada com a paixão da menina pela leitura e pela literatura e publicou algumas fotografias da visita no Twitter.

Haleema Arana revelou ao “The Washington Post” que a filha estava sempre a dizer que a Biblioteca do Congresso era a sua preferida em todo o mundo.

Daliyah tem um cartão de leitor e frequenta a biblioteca local, em Gainesville, com bastante regularidade. “Eu gosto de verificar os livros todos os dias”, revelou a menina. “Eu quero ensinar outras crianças a ler cedo também”, disse a criança ao jornal “Gainesville Times”.

A mãe teve a ideia de começar a contar o número de livros que a filha lia, através do programa “1000 livros antes do jardim-de-infância”. De acordo com Haleema, a menina, aos 3 anos, já devia ter lido mil obras.

Os pais nunca testaram o nível de leitura da filha. Contudo, a mãe, para atender ao amor da menina por livros, lançou-lhe um desafio e deu-lhe o discurso “The Pleasure of Books” (O Prazer dos Livros), de William L Phelps, considerado de grau universitário, para ler. Acontece que Daliyah leu tão bem o texto e pronunciou tão bem as palavras que a mãe publicou um vídeo da leitura no YouTube.

Daliyah pretende atingir a meta de 1500 livros até entrar, no próximo outono, no infantário e espera ajudar o professor a ensinar outras crianças a ler.

 

 

 

 

“Histórias Assim” para ler e partilhar em voz alta

Janeiro 10, 2017 às 8:00 pm | Publicado em Livros | Deixe um comentário
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Texto do http://www.dn.pt/ de 30 de dezembro de 2016.

Taffy, a protagonista de dois contos de Rudyard, pelo traço do ilustrador Sébastien Pelon   |  Sébastien Pelon

Taffy, a protagonista de dois contos de Rudyard, pelo traço do ilustrador Sébastien Pelon
| Sébastien Pelon

Com ilustrações de Sébastien Pelon, os 12 contos que Rudyard Kipling escreveu para contar à filha já estão disponíveis em português, num só volume.

Como arranjou a baleia a sua garganta, porque tem o camelo uma bossa, porque é que os rinocerontes têm mau feitio e grandes pregas na pele? A resposta a estes e vários outros fenómenos ou simples acontecimentos do dia-a-dia surge no livro Histórias assim, que reúne doze contos do escritor inglês Rudyard Kipling num só volume.

Não se espere explicações complexas nem muito convencionais. Afinal, trata-se de contos originais de um dos maiores e mais inovadores escritores de literatura infantil, não de um livro científico. E embora com alguma veracidade, muitas das explicações são bastante fantasiosas. E mágicas.

Na origem destes contos que respondem a dúvidas que inquietam as mentes dos mais novos estão histórias que Rudyard, o primeiro autor inglês a ser distinguido com o Prémio Nobel da Literatura (1907), escreveu para à noite contar à sua filha Josephine. E surge no seguimento de O Livro da Selva, a sua obra mais popular, publicada em 1894, dois anos após o nascimento da rapariga. No caso da história protagonizada pelo pequeno Mowgli, num dos exemplares da primeira edição foi mesmo encontrada uma nota que comprovava a identidade do destinatário da produção literária de Kipling: “Este livro pertence a Josephine Kipling para quem foi escrito pelo seu pai.”

A explicação do título, Histórias assim (Just so Stories, no original, publicado em 1902, três anos após a morte da filha), também está relacionada com Josephine: as palavras usadas tinham de ser exatamente aquelas a que ela estava habituada.

E a tradução do livro, de Ana Mafalda Tello e João Quina, recentemente coeditado em Portugal pela Bertrand Editora e pelo Círculo de Leitores, mantém essas mesmas palavras, mesmo que algumas sejam pouco utilizadas atualmente e sendo o livro para um público infantil. Topete, badejo, tamariscos, drávido são palavras a procurar no dicionário antes de iniciar a leitura em voz alta para se ter resposta pronta porque o mais certo é os pequenos ouvintes terem uma curiosidade tão insaciável como o Elefante, do conto O filho de elefante.

Dizer que estas histórias são para partilhar é pôr em evidência a forma como foram escritas, interpelando quem as ouve – “Era uma vez, no fundo do mar, ó Mais-que-Tudo” -, passadas “no princípio dos tempos” ou “há muito, muito tempo” em épocas tão distantes quanto mágicas em que “a pele do rinoceronte se abotoava no ventre com três botões” e o elefante não tinha tromba, “só um nariz escuro e volumoso, do tamanho de uma bota”. E em locais tão reais como o mar Vermelho ou imaginários como “as desoladas Terras Completamente Desabitadas do Interior”, atravessadas pelo “grande, esverdeado e lamacento rio Limpopo” onde “há sorrisos que dão a volta à cara duas vezes”.

Segundo a editora, Ana Lúcia Duarte, do Círculo de Leitores, Histórias assim “tem todos os contos originais, só não se mantiveram os poemas que existiam no final de cada conto, por estarem ligados às ilustrações que o próprio escritor fez e que não são aqui reproduzidas, tendo-se antes optado pelas ilustrações de Sébastien Pelon, ao mesmo tempo doces e cheias de malícia”.

Aliás, estas características das ilustrações acompanham o tom das histórias de Rudyard Kipling que são também pontuadas de bom humor. Veja-se, por exemplo, o nome da protagonista de dois dos contos (Como se escreveu a primeira carta e Como se inventou o alfabeto) Taffimai Metallumai “que significa “Pequena-sem-maneiras-que-merecia-uma surra”; mas nós, Mais-que-Tudo, vamos chamar-lhe Taffy”. Ora, a pequena Taffy é, muito provavelmente, Josephine. E foi ela quem escreveu a primeira carta (desenhada), num pedaço de casca de bétula, com um dente de tubarão. Ela, que também inventou o alfabeto, é apenas uma das muitas personagens “de que o autor troça com ternura, para nos revelar a sua humanidade e as suas fraquezas”, como assinala Ana Lúcia Duarte no prefácio. Para descobrir ao longo desta 110 páginas.

mais informações sobre o livro no link:

http://www.bertrand.pt/ficha/historias-assim?id=17946814

 

 

Nascidos para ler

Janeiro 10, 2017 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto da http://www.paisefilhos.pt/ de 2 de janeiro de 2017.

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Escrito por Ana Sofia Rodrigues

Quando, em junho de 2014, a Academia Americana de Pediatria recomendou a leitura para bebés desde o nascimento, não foram poucos os que ficaram surpreendidos. A pediatra Pamela C. High, autora da nova conduta, revelava que “fortes evidências mostram que o facto de o pediatra, durante a consulta, recomendar a leitura em casa, pode fazer a diferença na vida das crianças e das suas famílias”. Uma confirmação científica que se baseou em inúmeros estudos que comprovam que ler para um bebé, desde o nascimento, estimula o cérebro de uma forma única e reforça o vínculo entre pais e filhos. Os efeitos desta “terapêutica” são unânimes: desenvolve a atenção, a concentração, o vocabulário, a memória e o raciocínio; estimula a curiosidade, a imaginação e a criatividade; ajuda a criança a perceber e a lidar com os sentimentos e as emoções; possibilita conhecer mais sobre o mundo e as pessoas; auxilia no desenvolvimento da capacidade de empatia; estimula o desenvolvimento da linguagem oral… além de criarem-se as fundações de um prazer incomparável para a vida.

Leituras intrauterinas
Antes desta recomendação, as práticas de promoção da leitura junto de pré-leitores (crianças entre os zero e os seis anos) eram já uma realidade consolidada em diversos países, integrando mesmo políticas oficiais. Desde os anos 90 do século passado, a escritora brasileira Alessanda Roscoe desenvolve inclusivamente programas de leitura ainda em útero, com grupos de grávidas que convocam a sua família para ler para o bebé, ainda na barriga da mãe. “Aletramento Fraterno” é a sua proposta mais recente, defendendo que os livros são o leite da alma e que estimular o hábito da leitura numa criança é uma tarefa que pode envolver toda a família. De facto, estudos mostram que o bebé, ainda em útero, já é capaz de captar as vibrações emitidas pela voz da mãe e consegue identificar a emoção das suas palavras. Após o nascimento, a missão é continuar. E apesar de a criança ainda não compreender o significado das palavras, elas servem como estímulo para o seu desenvolvimento.

Rimas de encantar
Infelizmente, ainda é comum a ideia de que se o bebé não percebe o que lhe estamos a ler, então não vale a pena fazê-lo. Muitos pais não compreendem a utilidade de um hábito tão precoce e também não sabem como pô-lo em prática. Dora Batalim, doutoranda de Literatura Infantil na Universidade Autónoma de Barcelona e coordenadora da Pós-Graduação em Livro Infantil da Universidade Católica, surpreende ao defender que “a primeira grande literatura, importantíssima para os bebés, são as lengalengas, as canções de embalar, as rimas infantis, os jogos de mãos e de corpo. É um mundo genial. Se não tivéssemos livros para bebés, este universo chegaria”. Tão balalão, cabeça de cão, orelhas de gato, não tem coração… Janela, janelinha, porta, campainha. Trrrimmm… Mão morta, mão morta, vai bater àquela porta… “Antigamente, as avós não tinham cursos de contadores de histórias, nem de mediação de leitura, nem liam blogues a explicar como se deve fazer… e faziam tudo”, reforça com graça. Estes textos que se repetem ao longo do dia, ditos por caras conhecidas, dão uma segurança e um vínculo ao bebé que ele adora. “Eles gostam e acalmam-se porque a maioria destas toadas está relacionada com os ritmos do bater do coração e da circulação sanguínea, que eles escutavam na barriga da mãe”, explica Dora Batalim. No entanto, muitos pais atuais já não as ouviram e não dominam esse reportório. Para eles, pedimos a esta especialista que indicasse algumas obras a que pudessem recorrer. “Já há bons livros que reúnem canções e rimas tradicionais, inclusivamente musicadas com CD a acompanhar. Por exemplo: ‘Rimas e Jogos Infantis’ (Raiz Editora/Lisboa Editora), ‘Cantar Juntos 1’ (Estúdio Didático/A PAR) e ‘Sementes de Música’ (Caminho)”. Ficam as sugestões.

Dieta variada
Depois deste “banho” de tradição oral, por que livros se pode então começar? Lamentavelmente, a publicação de autoria portuguesa dirigida a bebés é praticamente inexistente, mas algumas editoras já incluem nos seus catálogos várias traduções muito interessantes. Dora Batalim fica encantada com as potencialidades dos livros para a faixa etária dos zero aos dois anos. “A literatura para bebés é como se fosse um microcosmo: o que funciona ali é verdade para o resto”. Ao contrário do que se poderia pensar, a escolha do que comprar para os mais novos deveria ser muito exigente. “Normalmente, as pessoas reduzem a equação livros para bebés a livros muitíssimo básicos, mais ligados a jogo do que a fruição estética. E os pais esperam que sejam livros que ensinem coisas. Precocemente, há uma grande necessidade de injetar logo conhecimento científico! São as cores, as formas, os opostos…”, descreve Dora Batalim. Além disso, “há uma perseguição muito grande do texto verbal, pois o adulto não tem uma relação muito clara com a imagem. Não sabe lê-la, não está habituado e acha que as imagens estão ali ou para enfeitar ou para explicar melhor as palavras”. Pelo contrário, nos livros infantis mais atuais, as imagens formam textos autónomos, complementares, até divergentes do texto verbal e isso é uma riqueza a explorar.

A escolha dos livros para bebés deveria ser “uma dieta muito variada, ao nível das tipologias e das funções que desempenham, mas também ao nível das representações”. No início, Dora sugere começar com ofertas muito tranquilas, com uma progressão na intensidade das emoções. Com representações gráficas “muito limpas”, mas não necessariamente “abebezadas”. Com funções diversas: uns que ajudem o bebé a entender o mundo e a si próprio, outros puramente estéticos, uns com narrativas para cultivar as emoções, outros ainda para explorarem sozinhos com todos os sentidos. “Para que os livros sirvam de mapa seguro de começo no mundo”.
Não é difícil identificá-los. São livros com poucas páginas, pois o tempo de concentração dos bebés é muito curto, muitos são cartonados com pontas arredondadas, as imagens apresentam-se em grandes dimensões, as temáticas são familiares ao universo do bebé (alimentação, meios de transporte, animais, vestuário…), apelam ao contacto físico, o discurso verbal é simples, muitas vezes rimado e interpelativo e os textos recorrem a repetições, refrões, onomatopeias, jogos de sons e palavras.

Pontes literárias
Não há dúvida que os pais devem funcionar como exemplos e modelos de leitores e a leitura deve surgir habitualmente em casa, associada a momentos de prazer, encontro e afetividade. E quando os pais não são leitores? “Um filho é uma desculpa para fazermos o que nunca fizemos. Em nome dele, transformamo-nos”, defende Dora Batalim. Mas, sem prática, essa iniciação pode ser difícil. É precisamente na criação de pontes entre as famílias e os livros, que as bibliotecas representam um papel muito importante. Como? Criando programas, espaços e contextos específicos para a promoção precoce da leitura. Joaquim Mestre foi um dos impulsionadores do novo conceito de biblioteca, no início dos anos 90, em Beja. Referindo-se às “bebetecas”, costumava defini-las de uma forma inspiradora: “A bebeteca funciona como um imenso útero materno, com vários cordões umbilicais ligados ao bebé, aos pais e aos livros, como se fossem um complexo sistema de vasos comunicantes”. Susana Silvestre, atual responsável pelas bibliotecas municipais da Câmara de Lisboa, dedica-se à importância de partilhar livros com bebés há cerca de 16 anos. Primeiro, na Biblioteca de Odivelas e, agora, em Lisboa, promove programas continuados de promoção de literacia emergente. Ao longo de seis meses, de 15 em 15 dias, “tentamos fazer pais leitores, que consigam dominar as ferramentas para eles próprios serem mediadores de leitura em casa. E não fazemos em mais locais, pois os promotores de leitura ainda não se sentem à vontade com estas idades”, reconhece. As listas de espera são imensas, mostrando a necessidade de formação que muitos adultos sentem nesta área. “Verificámos, por exemplo, que os pais não se sentem à vontade com os álbuns de imagens ou com livros com poucas palavras”, destaca Susana Silvestre. Com um trabalho personalizado, são dadas ferramentas aos pais, apostando no prazer da leitura partilhada. “Os pais não devem ler para os bebés só porque é bom para eles aprenderem a ler mais depressa. Sou contra aos pais estarem a contar uma história sem prazer. Têm que se criar momentos de alta qualidade, mesmo que sejam menos do que a ‘literatura’ manda…” Para tal, a escolha dos livros pode representar um papel muito importante. “Os livros escolhidos devem ser objetos de prazer para pais e filhos”. Para tal, Susana Silvestre aconselha a que os adultos “não fiquem presos à indicação etária habitualmente presente na contracapa” e experimentem livros inusitados.
Também no caminho da leitura, os pais são chamados a um papel fundamental, transformando-a num hábito relevante. Leva tempo e exige afeto, dedicação, partilha, prazer, encanto e cumplicidade. Mas vale muito a pena.

São poucas, mas as lojas de literatura infantil são pequenos oásis, para pais e filhos.

Essenciais, segundo Dora Batalim

– “Eu Vejo”, “Eu Ouço”, “Já Sei” e “Eu Sinto”, de Helen Oxenbury (Gatafunho)
– “Primeiros Livros”
(Coleção de mini-livros),
de Stella Baggot (Edicare)
– “A Primeira Biblioteca do Bebé”,
de Madeleine Deny e Marianne Dubuc (Edicare)
– “As Roupinhas do Martim”,
de Xavier Deneux (Edicare)
– “Será… Um Caracol?”, “Será… Um Rato?”, “Será… Um Gato?”, “Será… Uma Rã?”, de Guido Van Genechten (Gatafunho)
– “Aí Vou Eu” e “Pequeno
Ou Grande”, de Hervé Tullet (Gatafunho)
– “Miffy” (vários títulos), de Dick Bruna (ASA)
– “As Estações”  e “O Balãozinho Vermelho”, de Iela Mari (Kalandraka)
– “Todos no Sofá”, de Luísa Ducla Soares e Pedro Leitão (Livros Horizonte)
– “Boa viagem bebé!”, de Beatrice Alemagna (Orfeu Mini)
– “A Lagartinha Muito Comilona”,
de Eric Carle (Kalandraka)
– “Tanto, Tanto!”, de Trish Cooke (Gatafunho)

Casas de livros

Aqui há Gato
Rua Dr. Mendes Pedroso, 21 – Santarém

Cabeçudos
Rua António Lopes Ribeiro, 7A – Lisboa

Gigões & Anantes
Rua Dr Nascimento Leitão, 30 – Aveiro
http://www.facebook.com/gigoeseanantes

Hipopótamos na Lua
Rua Gomes de Amorim, 12-14 – Sintra

Livro Voador

Av. Menéres, 536 – Matosinhos

Mercado Azul

Rua Calouste Gulbenkian, 419, R/C – Guimarães

O Bichinho do Conto

Estrada dos Casais Brancos, 60 – Óbidos

Salta Folhinhas

Rua António Patrício, 50 – Porto

 

 

 

Aprenda como escolher livros para crianças de acordo com sua idade

Março 2, 2016 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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texto do blog http://blog.arvoredelivros.com.br/ de 4 de fevereiro de 2016.

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Criar o hábito e gosto por leitura é muito importante para o desenvolvimento intelectual e criativo de qualquer pessoa. Para crianças, ler é muito mais do que uma oportunidade de aprender a usar as palavras e formar frases — ela também é estimulada a ter uma outra visão do mundo em que vive, usando a imaginação para formar as imagens daquilo que está descrito no papel. Para agradar cada faixa etária, entretanto, é preciso saber adequar o estilo do livro com a idade — não se deve oferecer para uma criança de três anos o mesmo livro que para um garoto de 11 anos.

Para escolher o livro certo e agradar o aluno, você deve estar se perguntando: como escolher livros para crianças de acordo com cada idade? Para ajudá-la nessa tarefa, esse é o assunto do nosso artigo. Confira!

Crianças de até 3 anos

Qual livro dar para uma criança que ainda não sabe ler e, além disso, entretê-las com esse tipo de objeto? Se engana quem pensa que os livros infantis devem ser somente formado por frases ou palavras. Muitos deles têm conteúdo interativo através de imagens, desenhos, cores, texturas e até sons — características que estimulam a criança, desenvolvem o aprendizado e aprimoram as suas habilidades. Durante essa fase da vida, a experiência com o livro deve ser mais sensorial e audiovisual.

4 a 6 anos – alfabetização

Crianças a partir dos quatro anos já conseguem assimilar boa parte das histórias contadas para ela. Apesar de muitas ainda não saberem ler e interpretar frases longas, elas podem ser entretidas com leituras simples — e com o auxílio dos pais — encontradas em livros de contos de fadas ou em outros enredos mais lúdicos e educativos. As ilustrações exercem papel importante, já que ajudam a prender a atenção da criança no conteúdo.

Crianças a partir de 7 anos

Aos sete anos, algumas crianças já conseguem ler frases completas e compreender histórias maiores. Essa faixa etária também é caracterizada pela formação da personalidade, que já sabe inclusive apontar as histórias ou livros que mais lhe agradam. Para poder despertar cada vez mais a proximidade dela com os livros, é interessante permitir que a criança seja capaz de escolher algumas das histórias que deseja ler, sem deixar de lado a valorização do estímulo à criatividade, a leitura mais complexa e de acordo com o seu nível de aprendizado.

Pré-adolescência

A partir dos 10 anos a relação com a leitura muda muito, já que o jovem tem certo conhecimento do vocabulário, dos tipos de história e uma personalidade cada vez mais forte e influente na hora da escolha do livro. Nessa idade, as histórias clássicas juvenis são as que fazem mais sucesso, por estimularem a criatividade, imaginação e a inteligência. Os enredos mais comuns são suspense, mistério e fantasia.

Após os 12 anos, a leitura deve passar a ser mais aprofundada, explorando os clássicos, temas densos e os diferentes gêneros literários. Aqui os livros deixam de valorizar imagens para focar quase que exclusivamente no seu conteúdo, que deve ser capaz de estimular, educar e cativar esses leitores.

Estimular o hábito da leitura é uma prática importante em qualquer fase da vida da criança. Que tipo de estratégia você costuma adotar para escolher os livros dos seus alunos? Costuma separá-los por idade? Compartilhe sua experiência nos comentários.

 

Crie o hábito de ler com as crianças

Novembro 3, 2015 às 8:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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foto de Colégio Colibri.

 

A leitura na primeira infância é fundamental – Entrevista com Evelio Cabrejo Parra

Setembro 8, 2015 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista publicada no site http://revistaescola.abril.com.br

revista escola abril

Elisa Meirelles (elisa.meirelles@fvc.org.br)

Pesquisador colombiano radicado na França diz que a leitura na primeira infância é fundamental para a construção do sujeito e explica o que e como ler para crianças desde os primeiros meses de vida.

A maior companheira do ser humano, quem sabe a única capaz de acompanhá-lo por toda a vida. Essa é a definição de linguagem elaborada por Evelio Cabrejo Parra, pesquisador colombiano radicado na França, doutor em Linguística e mestre em Filosofia e Psicologia.

Quando nascemos, a voz é uma velha conhecida: a partir do quarto mês de gestação, a audição do feto passa a ser desenvolvida e ele começa a distinguir vários aspectos acústicos.

Ao ler histórias para os pequenos, damos a eles a chance de encontrarem nelas ecos de sentimentos que ainda não conseguem explicar, embora os experimentem com frequência. E assim começa para cada um de nós um mergulho num universo particular.

O mundo em que crianças e livros se encontram é o campo de investigação a que Parra, vice-diretor do Departamento de Formação e Pesquisas Linguísticas da Universidade Paris Diderot, na França, se dedica há anos. Nesta entrevista, ele discorre sobre a revolução que a literatura é capaz de fazer na vida da meninada desde os primeiros meses de vida e explica como a linguagem e o pensamento estão intimamente conectados.

Suas pesquisas abordam a importância de os bebês escutarem para a construção da linguagem e da relação deles com as pessoas que os cercam. Como é essa relação?

EVELIO CABREJO PARRA

Quando estudamos os pequenos, é preciso entender as competências naturais que carregam consigo ao nascer, dentre elas, a faculdade da linguagem. O bebê vem ao mundo com uma sensibilidade muito grande à voz humana. Ao ouvir, tenta construir significados. A voz se forma assim. Eu falo, por exemplo, porque escutei os meus pais quando ainda estava no berço e comecei a roubar algumas coisas da voz deles para construir a minha própria.

Por que ler para as crianças contribui para o processo de aquisição da linguagem?

CABREJO PARRA

Se o adulto fala com elas usando unicamente a linguagem cotidiana, dando ênfase a expressões como “Venha aqui”, “Pegue isso” e “Não toque ali”, estará somente dando ordens, sem deixar espaço para o processo de escutar, que não acontece nessas situações. É durante a leitura que os bebês têm a oportunidade de ouvir e esse tempo é fundamental. Eles se colocam em posição de escuta e podem construir significados à sua maneira: observam o rosto do leitor e a direção do olhar dele e vão aprendendo o que é um livro. Ao mesmo tempo, já possuem um pequeno léxico usado no dia a dia – os verbos ser e estar, por exemplo – e conseguem identificá-lo no texto lido. Descobrem, então, que algo que está neles também está na obra. Assim, começam a compreender os textos de maneira prazerosa, tomam gosto pela leitura e entendem o espaço cultural dos livros no mundo. Na primeira infância, o hábito de ler deve ser integrado às competências naturais que as crianças têm. Assim, elas constroem significados para as coisas.

Por que é importante trabalhar com diversos tipos de leitura logo na primeira infância?

CABREJO PARRA

O falar cotidiano é pobre. Devemos dar aos bebês a chance de desfrutar ao máximo as possibilidades dos textos poéticos e literários. Nossa língua é uma fonte inesgotável de produção de frases e de encontro de palavras, coisas que só são descobertas pelos pequenos quando temos o hábito de ler muitas histórias para eles. A partir de então, a linguagem começa a se transformar em uma companheira para toda a vida, possivelmente a única que estará sempre à disposição para falar, escutar, sonhar, fantasiar. Por meio dela, é possível colocar dentro de si harmonias e significados diferentes, elaborando um capital psicológico que poderá ser acessado em muitos momentos. Temos dois nascimentos: um biológico e outro psíquico, e a linguagem é a matriz simbólica da construção do sujeito.

Como se dá a relação afetiva entre as crianças e as histórias?

CABREJO PARRA

Os bebês fazem projeções por meio do que escutam: é assim que as obras entram em diálogo com a psique. Elas permitem que, lentamente, eles comecem a entender o que sentem, enviam ecos de questões que ainda não entendem. Na infância, sofremos com conflitos horríveis e fortes, que não entendemos e os adultos ignoram: os ciúmes são imensuráveis, a cólera é tremenda e até perigosa, e a tristeza, terrível. Embora essas sensações estejam incorporadas quando temos pouca idade, elas ainda não estão centradas culturalmente. Então, não temos como pensar nelas.

Que características as obras devem ter para proporcionar esse laço de afetividade?

CABREJO PARRA

Os bons livros para bebês são aqueles que falam com eles, e não sobre eles. É importante, por exemplo, que haja consonância entre a obra e o que estão vivendo. No período de ambivalência, que vai dos 4 meses ao final do primeiro ano, os pequenos tendem a ter um comportamento nervoso. Nesses momentos, podem ser lidas histórias que falem da questão por meio de metáforas. Assim, eles encontrarão uma representação de sua própria vida interior. O texto vai ajudá-los a se sentir compreendidos. Outra recomendação é não trabalhar com obras muito simples. Melhor optar por aquelas bem construídas, que não se deixam interpretar definitivamente e podem ser retomadas sempre que se quiser viajar de um jeito diferente.

Na escola, como organizar uma seleção de obras para ler para a turma?

CABREJO PARRA

Não é interessante escolher os livros apenas se baseando em critérios adultos. O ideal é deixar que os pequenos também decidam. Por volta de 1 ano, eles mesmos já são capazes de eleger os livros que lhes interessam, primeiramente observando as cores da capa e outras características que mais chamam a atenção e, em segundo lugar, considerando a história em si. Sugiro ao professor a seguinte experiência: organizar uma seleção de bons títulos, colocar todos apoiados em uma parede, em frente ao grupo, e explicar que vai contar a história que cada um escolher. No fim de um programa de leitura estruturado, de três ou quatro semanas, é possível ver cada um segurando um livro, esperando que a história seja lida em sala.

Muitas crianças querem ouvir sempre a mesma história. Isso é um problema?

CABREJO PARRA

Não. Quando elas gostam de um texto, é comum pedirem que ele seja lido um número incontável de vezes. Saber por que essa identificação ocorre é difícil, mas o mais importante é compreender e considerar que os pequenos necessitam encontrar novamente algo que está dentro de si e imaginá-lo por uma vez mais. É um processo de internalização.

Que atitudes um adulto deve ter ao ler uma história?

CABREJO PARRA

A primeira coisa é ter disponibilidade para amar as obras destinadadas às crianças. Isso pode parecer um pouco romântico, no entanto, durante a leitura de um adulto para uma criança, é preciso haver cumplicidade. Se você não gostar da história lida, não adianta nada. As pessoas generosas são capazes de fazer uma espécie de regressão: permitem que o bebê que foram um dia no passado fale com o outro que está ali diante delas. Isso torna o contato mais profundo entre eles. Também é importante não atormentá-los fornecendo um resumo do texto logo no princípio ou explicar palavra por palavra lida. Se a criança comenta a leitura, é interessante que o leitor faça uma festa, comemore, para que ela se dê conta de que está sendo ouvida de verdade.

Por que é interessante os pequenos manusearem os livros mesmo havendo o risco de rasgá-los?

CABREJO PARRA

Os bebês buscam as obras para tentar lê-las, e não para destruí-las. Eles se interessam ao ver os adultos folheando-as e querem imitar. Os que têm pouca ou nenhuma experiência nessa tarefa rasgam alguns exemplares ou os colocam na boca por não saberem manuseá-los. Apesar disso, aos poucos, podem se transformar em pessoas que vão utilizar gestos compatíveis com o comportamento leitor. O livro é um objeto que necessita do contato com o ser humano para se transformar em um objeto de cultura. Ao mesmo tempo, uma das funções da leitura na primeira infância é permitir que o bebê ultrapasse o sujeito físico e alcance o cultural.

O que acontece quando as crianças chegam à escola sem antes terem tido algum contato com a leitura?

CABREJO PARRA

Se nunca pegaram um livro nas mãos nem viram um exemplar em casa, elas simplesmente não sabem do que se trata nem como aquilo deve ser usado, para que serve. Ao tentar abri-lo, é comum o educador dizer “Não é assim” e “Não faça isso” por várias vezes. O pequeno percebe, então, que vários colegas sabem o que fazer com o objeto, e ele não. Com esse cenário, o livro pode começar a se transformar em alvo de humilhação e angústia, e ele acaba preferindo fechá-lo. Isso é muito grave porque esses são os meninos e as meninas que muitas vezes acabam abandonando a escola sem aprender a ler e escrever.

Como evitar problemas como esse e fomentar a leitura desde cedo?

CABREJO PARRA

O caso da Colômbia, por exemplo, é muito interessante. O governo tem dado prioridade à primeira infância, o correspondente aos quatro primeiros anos da vida escolar, e dedica bastante foco à leitura. Acredito que deveria haver um movimento como esse em todos os países. Isso ajudaria a criar um espaço para os bebês nas bibliotecas públicas, algo muito importante, por exemplo, para as famílias que não dispõem de condições financeiras para comprar livros.

 

 

 

Como a leitura em casa molda o cérebro das crianças em idade pré-escolar

Setembro 7, 2015 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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notícia da Visão de 19 de agosto de 2015.

O estudo mencionado na notícia é o seguinte:

Home Reading Environment and Brain Activation in Preschool Children Listening to Stories

Getty images

Que ler para as crianças têm um efeito positivo é um dado adquirido. Mas um novo estudo analisou a fundo a complexa – e em alguns pontos surpreendente – relação entre o crescer a ouvir ler livros e o desenvolvimento linguístico.

Este mês, a publicação científica Pediatrics inclui um estudo que, através de ressonância magnética funcional, observou a atividade cerebral de crianças entre os 3 e os 5 anos enquanto ouviam histórias apropriadas à sua idade. Os investigadores encontraram diferenças significativas entre as crianças às quais eram lidas histórias à noite e as outras.

As crianças cujos os pais reportaram ler mais em casa, com maior frequência e maior número de livros, mostraram uma ativação bastante maior de áreas cerebrais numa região do hemisfério esquerdo ligada à integração multissensorial, conforme explica o principal autor do estudo, John S. Hutton, investigador clinico no Cincinnati Children’s Hospital Medical Center.  Esta zona do cérebro, que é conhecida por estar extremamente ativa quando crianças mais velhas leem livros por si próprias, revelou o mesmo efeito quando crianças mais novas ouvem histórias.

Uma das descobertas mais surpreendentes do estudo foi a de que as crianças mais expostas a livros e à leitura em casa mostram uma diferença significativa de atividade em áreas do cérebro que processam associação visual, mesmo que a crianças estejam apenas a ouvir ou não haja imagens nos livros.

“Quando as crianças estão a ouvir histórias, estão a imaginar na sua mente”, explica Hutton. “Por exemplo, ‘o sapo saltou por cima do tronco’. Eu já vi um sapo, eu já vi um tronco, como é que isto será?”  Os diferentes níveis de ativação cerebral, disse, sugerem que uma criança que tem mais prática a desenvolver estas imagens visuais terá uma maior probabilidade de desenvolver habilidades que a ajudarão a produzir imagens e textos próprios mais tarde.

“Ajuda-os a perceber qual o aspeto das coisas e poderá ajudar na transição para livros sem imagens,” disse. “Irá ajudá-los a ser melhores leitores mais tarde porque desenvolveram essa parte do cérebro que os ajuda a perceber o que se passa na história.”

O investigador acredita que o livro poderá ajudar também a estimular a criatividade de uma forma que a televisão não consegue. “Quando lhes mostramos um vídeo de uma história, será que estamos a cortar um pouco o processo?” pergunta. “Estamos a tirar-lhes o trabalho? Eles não têm de imaginar a história; está apenas a ser-lhes dada.”

O estudo concluiu ainda que a linguagem dos livros, quando comparada com a linguagem usada pelos pais ao falar com os filhos, é mais completa, expondo, por isso, as crianças a um vocabulário mais alargado.

 

 

 


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