Estudo demonstra que ter uma grande biblioteca em casa tem um efeito positivo na vida adulta

Dezembro 20, 2018 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do Life Style Sapo de 16 de novembro de 2018.

Quem gosta de ler, gosta de colecionar livros e por isso vai ficar contente por saber que ter uma grande biblioteca em casa poderá trazer benefícios às crianças na vida adulta.

A socióloga Joanna Sikora da Universidade Nacional da Austrália publicou recentemente o estudo “Scholarly culture: How books in adolescence enhance adult literacy, numeracy and technology skills in 31 societies” (Cultura Académica: como os livros na adolescência melhoram a literária, numeraria e capacidades tecnológicas na vida adulta em 31 sociedades).

Neste estudo a Dra. Joanna Sikora analisou as respostas de 160.000 adultos de 31 países diferentes, com idades entre os 25 e os 65 anos, a perguntas sobre a sua educação, especificamente sobre a quantidade de livros que tinham em sua casa aos 16 anos.

Supondo que um metro de estante tem capacidade para uns 40 livros, a resposta média foi de 115 livros. Com estes dados, a socióloga concluiu que os adolescentes com menos de 80 livros em casa tinham níveis de alfabetização e aritmética abaixo da média, na idade adulta.

Mais surpreendente ainda foi a conclusão de que adolescentes sem um título universitário mas com uma grande biblioteca em casa normalmente têm tanto conhecimento, capacidade matemática e aptidão tecnológica na idade adulta como aqueles que efetivamente concluíram o ensino universitário mas cresceram rodeados de poucos livros.

Sikora destaca assim a importância de ter materiais de leitura em casa e a influência que a exposição a esse ambiente pode ter nos primeiros anos de vida, orientando as crianças na direção do sucesso escolar, bem como da realização profissional e construção da carreira enquanto adultos.

Precisava de uma boa desculpa para comprar mais livros? Aqui a tem. E da próxima vez que ficar aborrecido pela trabalheira que dá limpar as estantes de livros lá de casa, lembre-se deste artigo.

 

 

Que livros para bebés dos 6 meses aos 2 anos?

Dezembro 8, 2018 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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DAT

Texto e imagem do site DAT de 15 de junho de 2018.

É frequente encontrar pais e professores a perguntar que livros são apropriados para o seu filho/aluno de determinada idade.

By João Manuel Ribeiro

Infelizmente não existe uma fórmula mágica, para esta pergunta. Quem nos dera! Damo-nos conta amiúde de que mesmo entre crianças da mesma idade há diferenças assinaláveis em termos de interesses, capacidades e experiências de leitura que se (co)relacionam com a personalidade, os gostos, o contexto (familiar e não só) e ainda com outros fatores. Se a isto juntarmos a constatação de que existem muitos e variados livros, resta-nos concluir que à resposta inicial só podemos responder, oferecendo considerações gerais e sugestões. São as crianças e os adultos que com eles privam quem melhor pode determinar as leituras adequadas para si.

O ideal seria ter, em termos de leitura, uma alimentação equilibrada e variada. Como uma dieta de leitura, com dois ingredientes que devem evitar-se: linguagem excessivamente difícil, narrativas excessivamente longas ou demasiado complexas.

Ler, folhear os livros que vamos oferecer/ler, saber se nos agradam a nós, pode ser a “receita” certa para nos ajudar na tarefa de escolher livros.

Assim, sem nos substituirmos aos leitores e acreditando no seu sentido crítico, deixamos algumas sugestões para bebés de 6 meses a 2 anos.

1 – Nesta fase da vida do bebé, é importante que o livro se faça presente como um objeto familiar, porque, para eles, os livros funcionam como uma presença física, um brinquedo para morder, apertar, chupar, mexer, passar as páginas. Juntamente com as rimas e as cantilenas, as histórias contadas no regaço, constituem o primeiro contacto afetivo e efetivo com a literatura.

  • Livros (não tóxicos) de cartão, plástico ou pano, de encadernação resistente e arredondado nas pontas.
  • Livros que o bebé possa levar à boca, manipular e/ou até usar no banho.

2 – Mais tarde virão os livros para reconhecer objetos familiares; quando o bebé identifica com o seu dedito o animal que está na ilustração do livro e o chama pelo nome, está a fazer a transição do físico ao mental. Nos livros mais complexos, os objetos familiares relacionam-se uns com os outros através das páginas.

  • Livros de imagens que retratem objetos e personagens próximas ao mundo do bebé, como os livros sobre brinquedos, alimentos ou animais.

3 – Depois da etapa de identificação podem introduzir-se os livros com alguma trama: o animal é agora o protagonista de uma história simples com princípio, meio e fim.

  • Livros ilustrados que incluam as primeiras histórias de forma ágil, muito breve e simples.
  • Rimas infantis e cantilenas breves, narrativas simples para ler ao colo ou no regaço

 

 

Pedro Strecht: “Uma criança passa menos tempo ao ar livre do que um recluso”

Novembro 3, 2018 às 1:00 pm | Publicado em Livros | Deixe um comentário
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Entrevista de Pedro Strech ao Observador no dia 20 de outubro de 2018.

Ana Cristina Marques

Crianças agarradas aos ecrãs, fechadas em salas, com agendas preenchidas e pouco tempo para estar com os pais. No seu novo livro, Pedro Strecht faz uma análise aos desafios desta geração.

Em média, uma criança até aos 10 anos passa diariamente 8 horas na escola, enquanto o tempo de interação exclusiva entre pais e filhos, também num registo diário, resume-se a 37 minutos. Os ecrãs ocupam mais de duas horas e meia por dia e os reclusos passam mais tempo ao livre do que uma criança em idade escolar. Estas são algumas das conclusões assinaladas na nova obra do pedopsiquiatra Pedro Strecht, que acaba de lançar o livro Pais Sem Pressa, da editora Contraponto, numa tentativa de convencer os pais a abrandar.

Em entrevista ao Observador, Pedro Strecht, autor de diversos livros e com um percurso profissional intenso, fala em pais exigentes e perfecionistas, demasiado preocupados com o rendimento escolar dos filhos, e discursa sobre aulas muito longas, com poucos intervalos, TPC em excesso e recreios fisicamente diminutos. A tecnologia é também tema de conversa, com o pedopsiquiatra a acusar pais de usar tablets e suas aplicações para “para colmatar pequenas coisas, muitas delas tarefas diárias do nosso dia a dia que dão trabalho, confronto e insucesso”. Porque a tecnologia não pode servir de am

“É entre o primeiro e o segundo ano de idade que os miúdos começam a andar, a correr e a explorar o mundo; o tablet é para se estar quieto. E é a partir do segundo ano, e também no terceiro, que há uma expansão enorme da linguagem também enquanto modelo de ligação. Ou seja, quando é que os miúdos desenvolvem mais a linguagem? É nessa idade. É imaginá-los quietos em vez de estarem a explorar o mundo e é imaginá-los a não falar porque a linguagem e o som que vem de uma série ou de algo que estejam a ver num tablet não pede reciprocidade.”

O livro chama-se Pais sem Pressa, mas aborda precisamente o contrário. Quem são estes pais sem tempo?
Estes pais sem tempo somos, no fundo, quase todos nós. Há muitos fatores à nossa volta que não controlamos — muitos deles têm que ver com a forma como as sociedades estão a evoluir em vários campos, no profissional, económico e relacional. O livro surge um pouco como um apelo à necessidade de ficarmos mais conscientes disto. Acho cada vez mais importante destacar a necessidade de criarmos um balanço diferente entre trabalho e lazer, ocupação profissional e tempo livre. Vivemos socialmente em estruturas que nos pedem cada vez mais, do ponto de vista do trabalho e do ponto de vista económico. É engraçado, a maior parte da linguagem que hoje caracteriza muitas coisas é quase exclusivamente economicista ou tecnológica. É muito menos humanista ou muito menos relacional. Por outro lado, cada vez mais vemos em crianças e em adultos situações que têm que ver com perturbações de ansiedade ou perturbações na linha depressiva que, em muitos casos, não são mais do que situações de burnout, de esgotamento, de excesso de tensão, de incapacidade de parar e respirar.

Os pais sem tempo estão conscientes destas limitações?
Há muitos pais que dizem que não têm tempo para fazer determinadas coisas. Por vezes, apercebem-se disso, mas dão como dado adquirido a incapacidade de lutar mais ativamente contra isto. É algo que se verifica nas sociedades mais desenvolvidas. É uma coisa muito transversal. Vivemos no tempo que nos é imposto de fora, sem que as pessoas sintam que têm capacidade de o gerir mais autonomamente, quando na realidade têm. Não é preciso fazer grandes ruturas, mas podem fazer-se pequenos movimentos de equilíbrio sem cortes radicais.

No livro encontramos as seguintes expressões: “ritmo diário extremamente exigente” e “elevados níveis de tensão emocional”. Estamos perante um problema geracional?
Sim. Acho que é muito geracional. Costumo dizer aos meus filhos que tive o meu primeiro telemóvel aos 26 anos. Em Portugal, os telemóveis com internet têm menos de 10 anos… Estamos a falar de diferenças geracionais não só muito fortes, como também cada vez mais rápidas — e isto acontece em quase todas as áreas. Agora, as mudanças acontecem de uma forma muito mais surpreendente e num ritmo muito mais intenso. Acho sempre que a evolução das sociedades, com todas as oscilações que há em cada momento, têm acontecido num sentido positivo. O que vai havendo são realidades diferentes — todos os miúdos que nasceram neste século já nasceram completamente mergulhados em determinadas vivências que nós próprios, os pais, não vivemos e não temos. Este é um desafio diferente para os dias de hoje. É uma questão adaptativa.

“Muitas crianças passam uma média de 8 horas na escola”

De que forma é que isto afeta a parentalidade?
Desde há muitos anos que temos tido um decréscimo significativo em termos de natalidade. A média de natalidade hoje em dia em Portugal é 1,1. Portanto, a maioria dos casais tem um filho. Três filhos já corresponde a uma família numerosa. Em Portugal, quando se pergunta aos casais porque é que não têm mais filhos, as duas respostas mais frequentes são fatores económicos e falta de tempo, de disponibilidade concreta. A vida dos adultos mudou bastante. Hoje, o normal é pai e mãe trabalharem, é homem e mulher serem ambos pessoas ativas do ponto de vista profissional. Muitas vezes, em algumas áreas, há mulheres que querem cumprir a sua função materna e que são frequentemente prejudicadas na sua atividade profissional. Já falei com mães que trabalham em áreas bancárias em que ter um filho é um desafio de confrontação com a entidade empregadora. O que sentimos é que, por um lado, os pais sabem mais e querem participar mais, por outro, acabam por ter menos disponibilidade concreta para o fazer e, quando ela existe, tendem a não ser capazes de se descentrar de algumas coisas que podiam ser mais secundárias e não tão essenciais.

Como por exemplo?
Pais e filhos podem ter tempo livre, mas há pais extremamente preocupados com o rendimento escolar dos filhos. Há pais que sobrecarregam as crianças com mais atividades letivas — “Ao sábado, vou pô-lo na explicação”, “Se conseguir trabalhar mais horas, posso ter mais isto e aquilo”. É uma questão de prioridades. São situações deste género que cada vez acontecem mais. Depois, há outras situações que são externas e que se veem muito na medida em que as sociedades se organizam: o tempo das deslocações, o tempo dos horários profissionais… Muitas crianças passam, hoje em dia, uma média de 8 horas na escola.

De acordo com o livro, são, em média, 8 horas diárias na escola e, também em média, 37 minutos diários de interação exclusiva entre pais e filhos…
Este rácio é completamente desproporcional. Há miúdos que estão na escola às 08h e que chegam a casa já são 19h30, 20h… são 12 horas fora de casa para uma criança. Hoje em dia, há crianças que passam muito mais tempo em interação direta com um professor de uma escola primária do que com uma mãe ou um pai. Vemos noutros países da Europa, como os países nórdicos, situações em que o tempo de permanência na escola é menor e nem por isso os miúdos têm menos capacidades escolares e cognitivas.

Como profissional, defenderia menos tempo passado na escola ou horários de aulas mais curtos? Qual é a alternativa?
Passaria por horários escolares francamente mais intervalados, até porque estamos a dar aos miúdos estímulos de pergunta-resposta com grande rapidez e na escola pedimos exatamente o inverso, que fiquem quietos durante uma hora e meia. Aulas mais curtas e com mais tempo de intervalo favorecem os mais novos. Esta geração passa muito mais tempo na escola e faz muito mais na escola do que qualquer pessoa da minha geração. Conheço alguns pais que me dizem “Ah, mas ele está a estudar pouco, vou metê-lo em explicações”… Às vezes recordo aos pais que, na nossa geração, começávamos as aulas em outubro e não em setembro, tínhamos aulas de 50 minutos e não de uma hora e meia. Há vivências temporais completamente distintas só de uma geração para a outra.

Devia existir algum incremento de atividades, que até podem decorrer no espaço da escola, mas que não têm de ser necessariamente letivas: os miúdos podem ter desporto, música e/ou ateliers de várias coisas. Também defendo que há imensas escolas que pedem um excesso de trabalho de casa. E muitas escolas esquecem-se ou não investem nos espaços de recreio — pensam na sua função centradas naquilo que acontece dentro da sala de aula e depois, no recreio, não têm vigilantes ou, então, os recreios são muito pequenos, em termos de tempo e/ou de espaço. Há escolas em Lisboa cujo espaço físico é mínimo para o número de alunos.

É por isso que escreve que um prisioneiro tem mais tempo ao ar livre do que uma criança?
É um pequeno filme que está no Youtube. É norte-americano, mas também corresponde à realidade portuguesa. Nesse filme mostra-se que uma criança norte-americana, tal como muitas portuguesas, passa menos tempo por dia ao ar livre do que um recluso. É verdade. Nas grandes cidades já não é tão frequente vermos crianças pela rua. A cultura de bairro também se perdeu. Onde estão os miúdos? Estão nas escolas, estão em casa ou estão em trânsito no transporte escola-casa. Até mesmo o espaço de brincadeira, para muitas das nossas crianças e adolescentes, acontece no quarto, em casa, e é à base de tecnologias — Playstation, internet… Brincam no espaço de quarto, embora ligados a outros, mas não propriamente num espaço livre, de expansão, de risco, de procura.

“Estamos a pedir às crianças que cresçam demasiado depressa”

No livro também escreve que, além dos horários aplicados nas escolas e dos TPC, há uma tendência para que os pais transformarem as atividades lúdicas preferidas dos filhos numa espécie de obrigação…
Sim. E numa espécie de preocupação com imensa antecipação. Os pais  projetam nos filhos um peso enorme em termos do desempenho escolar, como se os miúdos — às vezes de 9 ou 10 anos — tivessem de pensar no curso que vão tirar, na média que vão ter, no ordenado que vão ter ou não com aquele curso. Há uma projeção demasiado pesada e até negativa sobre a perspetiva de futuro, muito centrada na questão da rentabilidade — acho que isso começou de uma maneira muito mais nítida nos anos de crise. Nos últimos 5 anos comecei a ver uma coisa que não via há bastante tempo: os pais a induzirem, de uma forma ainda mais ativa, as escolhas das áreas de estudos no final do nono ano. Isto já foi uma coisa muito mais livre. Agora, ouvem-se frases como “Ah, mas não vás para isso, nisso não há emprego”, “Assim não tens ordenado nenhum”, “Artes? Artes é para o desemprego”…

Esse discurso começa cada vez mais cedo?
Sim. Cada vez mais cedo e, sobretudo, naquela fase do nono ano, em que os miúdos têm de fazer opções.

Os pais de agora são muito exigentes?
Há uma ideia errada de perfeição, parece que todos temos de ser perfeitos em tudo: no corpo, no trabalho, na educação, na escola, etc. O ótimo é inimigo do bom: as pessoas precisam de ser boas em algumas áreas e de perceber que também têm limites e que, às vezes, as coisas correm mal. É preciso que os pais deixem de ser tão exigentes consigo próprios e até para com os filhos — nesse ritmo, por muito bem que as coisas possam estar a correr, há sempre um sentimento de insatisfação recorrente. Parece que o copo nunca está cheio. Por isso é que falo do conceito “pais suficientemente bons”, que reporta para a ideia de que os adultos também têm falhas e não precisam de ser os melhores pais do mundo para serem bons pais.

Tendo em conta agendas muito preenchidas, é possível que o tempo passado entre pais e filhos comece a ser, de alguma forma, encarado como uma espécie de “obrigação”? Estamos a perder o foco do que é estar em família?
Sim, sobretudo o foco do que é estar em família de uma maneira até mais espontânea e livre. Porque cada vez mais as pessoas tendem a programar muito os dias, mesmo sem notarem. Depois, parece que a vivência do espaço livre, do espaço sem um rumo predefinido assusta e inquieta. Às vezes é bom a pessoa entregar-se a isso. Os miúdos precisam de estar no quarto, sem estar a fazer nada de especial, a brincar ou olhar para o teto. Não há uma agenda. Há cada vez mais pais que referem que os filhos, em diferentes etapas de crescimento, quando acabam uma tarefa perguntam o que podem fazer a seguir. Em casos extremos, há muitos adultos que trabalham imenso durante a semana e que, quando chegam à véspera do fim de semana, têm uma espécie de angústia porque não estão naquele ritmo de adrenalina e de tensão.

Estamos a pedir às crianças que cresçam demasiado depressa?
Sim. Estamos a atirá-las demasiado para a frente. O engraçado é que, mesmo que por vezes não notem, há cada vez mais adultos a quererem andar demasiado para trás — vivências eternamente adolescentes porque, talvez, não tenham vivido tudo como deve de ser na infância. Os mais novos são projetados muito para a frente e os mais velhos querem voltar atrás. Os adultos quererem escapar à passagem do tempo. Há frases muito engraçadas como “Agora os 40 são os novos 30”.

“Há pais que usam a tecnologia como se fosse uma ama”

Esta semana foi apresentado um estudo, com base num inquérito feito a quase 2.000 pais, que mostrou que as crianças até aos 2 anos são das que mais usam aplicações. Como comenta isto?
Crianças até aos 2 anos que são levadas a usar aplicações, porque elas não as usam autonomamente, não têm capacidade para isso, os pais metem-nas nas mãos ou à frente delas. E põem cada vez mais — e isto é mesmo uma crítica séria — para colmatar pequenas coisas, muitas delas tarefas diárias do nosso dia a dia que dão trabalho, confronto e insucesso. Um exemplo concreto? Os miúdos nem sempre comem bem e fazem birras, mas, hoje em dia, somos capazes de passar por um restaurante e vemos uma criança pequena sentada à mesa com os pais e com o tablet à frente, a ver as imagens quando, distraidamente, lhe dão a comida. Ainda neste caso dos tablets até aos dois anos, ocorre-me o seguinte: é entre o primeiro e o segundo ano de idade que os miúdos começam a andar, a correr e a explorar o mundo; o tablet é para se estar quieto. E é a partir do segundo ano, e também no terceiro, que há uma expansão enorme da linguagem também enquanto modelo de ligação. Ou seja, quando é que os miúdos desenvolvem mais a linguagem? É nessa idade. É imaginá-los quietos em vez de estarem a explorar o mundo e é imaginá-los a não falar porque a linguagem e o som que vem de uma série ou de algo que estejam a ver num tablet não pede reciprocidade.

As tecnologias, neste caso as aplicações, podem realmente interferir no desenvolvimento das crianças?
Podem, nesse aspeto podem. E o mesmo em relação a algumas áreas cognitivas e de relação social. Se um menino de 8 anos brinca no tablet ou se um de 12 anos joga na playstation, diria que isso é normal e não vejo mal nisso — só aconselho os pais a darem os jogos apropriados à idade dos filhos; mas se ele só brincar com o tablet ou com a playstation… Há crianças que crescem quase só com experiências de relação e de estímulo centradas no ecrã. Há pessoas que acham que tenho uma visão muito crítica em relação às tecnologias… As tecnologias têm coisas ótimas que podem facilitar ganhos de tempo, simplesmente acho que, nos dias de hoje, elas próprias se tornam tão opressivas no chamado tempo tecnológico que também bloqueiam a nossa vivência, o nosso tempo biológico e emocional.

A tecnologia começa a ser encarada como uma ama?
Exatamente. E isso é um risco em imensas circunstâncias. Não tem mal os miúdos verem os seus desenhos animados, não tem mal usarem as tecnologias, mas isso precisa de ser enquadrado em muitas outras coisas que fazem parte de um plano muito mais vasto de estimulação e de relação.

O livro também fala na importância de estabelecer rotinas, algo que parece estar associado à diminuição de ansiedade. Como é a criança que cresce sem rotinas?
A criança que cresce sem rotinas, sem regras ou limites, é uma criança que vai correr o risco de ficar progressivamente desregulada em relação a ela própria e na relação com os outros. As rotinas dão muita segurança e são uma maneira de se poupar tempo — a criança já sabe que, em princípio, é para tomar banho todos os dias antes do jantar… As rotinas dão uma certa pervisiblidade ao que vai acontecer. Não precisam de funcionar ao minuto, mas os miúdos agradecem estas regulações de tempo. Falando no sono, por exemplo, somos dos países da União Europeia que tem piores dados sobre o sono na infância, na adolescência e no estado adulto: dormimos pouco e dormimos mal. Telemóveis ligados durante a noite, que vão tocando, ou jogar na playstation imediatamente antes ir de para a cama… Assim não se consegue adormecer por causa do nível de excitação e de ativação cerebral. As rotinas facilitam muitas áreas do crescimento infantil e adolescente.

Qual a diferença entre a criação de rotinas e as agendas preenchidas de que há pouco falámos?
As rotinas implicam que algumas coisas básicas do dia, quer das crianças quer da relação das crianças com os adultos, possam decorrer de uma forma mais ou menos semelhante. É o acordar, por exemplo, às 07h durante a semana porque há aulas; é o jantar todos juntos à mesa sem os telemóveis por perto… Isto é diferente do excessivo preenchimento da agenda do tempo dos miúdos.

E como é uma criança que cresce sem contacto com a natureza?
É uma criança que em muitas áreas pode ser bastante mais inábil e, tendo conta áreas da estimulação cognitiva e emocional, pode ter dificuldades acrescidas. A natureza reporta-nos para determinados ritmos naturais que existem, aos quais não podemos fugir. O próprio contacto de adultos com a natureza é relaxante — baixa o ritmo cardíaco e dá-nos muito mais espaço para refletir sobre as nossas coisas.

Somos pais cada vez mais tarde. De que forma é que isso pode afetar a parentalidade?
Por um lado é bom porque, durante muito tempo, fomos recordistas de gravidez adolescente. Agora, acho que há pais que adiam muito a questão da natalidade porque fogem um pouco à responsabilidade que isso implica ou, então, têm aquela perspetiva da perfeição: primeiro querem um bom emprego, depois um bom ordenado, uma casa maior… Portanto, vão adiando, como se adia a saída de casa dos pais ou a autonomia económica. Estamos com vontade em não crescer e, sobretudo, com muito pouca vontade em assumir responsabilidades. Recordo-me de um estudo que dizia que, em algumas cidades, já há mais cães do que crianças. É mais fácil ter um cão, não vai à escola e tem um tempo de vida mais curtinho, obedece quase sempre. Crescer não é propriamente perder coisas, é somar coisas ao que já adquirimos.

Seria essencial trazer o conceito de mindfulness para a parentalidade?
Sim, eu acho que sim. No fundo, é orientar o nosso espaço mental para aquilo que é mesmo importante, no aqui e agora, connosco próprios e com aqueles que temos à nossa frente, as pessoas de quem gostamos.

 

 

Lançamento do livro de Vânia Beliz “Chamar as coisas pelos nomes : como e quando falar sobre sexualidade” 19 setembro FNAC Chiado 19.00 horas

Setembro 18, 2018 às 12:00 pm | Publicado em Divulgação, Livros | Deixe um comentário
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CHAMAR AS COISAS PELOS NOMES: Como e quando falar sobre sexualidade.

Editora Arena

Convido-vos a conhecer o meu novo livro dirigido às famílias, aos educadores e às educadoras. “Chamar as coisas pelos nomes” é o meu desafio de oferecer, a quem educa, estratégias simples para que se possam abordar com crianças e com jovens alguns dos temas mais importantes da sexualidade. O prefácio de Jorge Ascensão, Presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais, é o ponto de partida do reconhecimento da importância desta temática na educação para a saúde.

Porque falar de sexualidade ultrapassa, em muito, a temática do sexo, convido-vos a descobrir como podemos promover a saúde e o bem-estar das nossas crianças desde o nascimento. Educamos para a sexualidade desde que nascemos, e a forma como nos comportamos e como educamos meninos e meninas é um ponto de partida importante para o sucesso das nossas relações. A forma como viveremos a nossa intimidade e como construiremos a nossa felicidade depende sempre da forma como integramos a nossa identidade, de como lidamos com o nosso corpo e as suas transformações, e de como vivemos os primeiros relacionamentos… Será que sente ter competências para abordar todos estes temas importantes?

E as questões da identidade: quem sou e como sou? a puberdade e a adolescência? Bem, “Chamar as coisas pelos nomes” poderá ser, assim, uma ferramenta que considero importante para todos e para todas que se preocupam com a felicidade dos seus filhos e das suas filhas, e que querem responder eficazmente a todas as perguntas e desafios que surgirem.

De forma objetiva e sem medo, chamemos as coisas pelos nomes!

O meu obrigada

Vânia Beliz 

 

8 livros para as crianças lerem antes do regresso às aulas

Agosto 31, 2018 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto da Evasões de 25 de agosto de 2018.

Cláudia Carvalho

As férias já vão longas e é preciso começar a preparar mais um ano. Porque não pô-los a ler banda desenhada e livros ilustrados? Dos grandes nomes da filosofia à história dramática de Anne Frank, do inventário ilustrado de aves a um guia para descobrir a natureza, as propostas são muitas e variadas.

Banda desenhada, rock, viagens, botânica, natureza ou História… São múltiplos os temas abordados nestes 8 livros ideais para pôr as crianças a ler (e a aprender) enquanto não chega o dia do regresso às aulas de mais um ano letivo. Tome nota das sugestões percorrendo a fotogaleria acima.

 

Lançamento do livro “Do telemóvel para o mundo” de Daniel Sampaio – 11 abril, 18.30, Fundação Medeiros e Almeida

Abril 11, 2018 às 11:20 am | Publicado em Divulgação, Livros | Deixe um comentário
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mais informações:

http://www.caminho.leya.com/pt/eventos/?id=831

 

Crianças preferem livros ao YouTube na Alemanha

Agosto 26, 2017 às 1:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia da http://exame.abril.com.br/ de 13 de agosto de 2017.

Mais de 60% das crianças entre 6 e 13 anos alemãs têm a leitura como forma de entretenimento principal no país europeu

Por Daniela Barbosa

São Paulo – Avessas às novas tecnologias, as crianças na Alemanha gostam de passar o tempo lendo livros, revistas e histórias em quadrinhos. Pelo menos foi isso que apontou uma pesquisa publicada recentemente e realizada pelas editoras Panini, Gruner + Jahr, Egmont Ehapa Media, Spiegel e Zeit.

De acordo com o estudo, que ouviu cerca de 2000 famílias, mais de 60% das crianças entre 6 e 13 anos preferem a leitura como forma de entretenimento principal no país europeu. Isso não significa, no entanto, que elas não acessem a internet; mas quando acessam somente 30% delas assistem vídeos no YouTube e outros 28% gostam de jogos online.

Para os pais ouvidos na pesquisa, o gosto pela leitura está relacionado principalmente ao incentivo que as crianças costumam receber em casa e na escola. Eles costumam mostrar que o hábito tem o poder da ativar a criatividade.

Outros dados

A leitura só não aparece como passatempo preferido entre as crianças de 4 e 5 anos que participaram do levantamento. Nesta faixa etária, a televisão acabou sendo o melhor mecanismo de entretenimento dos pequenos, que muitas vezes estão ainda em processo de alfabetização – o que justificaria tal porcentagem.

Já tecnologias que estão caindo em desuso, como o DVD, são apreciadas apenas por 15% das crianças.

Outro dado que chamou atenção foi o uso de celulares entre as crianças por lá. Menos de 40% delas possuem um aparelho na faixa etária entre 6 e 9 anos. Já 84% das crianças maiores, entre 10 e 13 anos, têm celular no país.

 

 

E viveram com livros para sempre. Como criar um leitor

Agosto 9, 2017 às 8:00 pm | Publicado em Livros | Deixe um comentário
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Texto do http://observador.pt/ de 9 de julho de 2017.

Catarina Homem Marques

De pequenino, torce-se o pepino e também se começa a gostar de livros. Basta que os pais leiam aos bebés – até receitas –, que a leitura se faça em família e que todos se deixem levar pelos livros.

Nem todas as histórias têm de ter um final feliz para serem bonitas, nem sequer as histórias que se contam às crianças, mas o final feliz para os pais que querem que os filhos leiam é que eles comecem mesmo a gostar de livros. E isso, já que não é uma capacidade que nasça com as crianças, é algo que se pode – e deve – trabalhar, como afirmam Pamela Paul e Maria Russo, especialistas em literatura infanto-juvenil do New York Times, num artigo cheio de dicas para as famílias.

Não é apenas um capricho – está mais do que comprovado que os livros contribuem para o desenvolvimento das crianças, e que são também aliados saudáveis para a vida adulta. É por isso que se contar um conto deve mesmo acrescentar um ponto, e mais um ponto, e mais um ponto, até que a leitura seja um elemento de proximidade familiar, uma atividade enriquecedora para todos e, mais importante, um momento feliz.

Os bebés dormem, comem, choram… e gostam de livros

Há aquela imagem dos filmes em que uma mulher grávida embevecida põe os auscultadores em cima da barriga para o filho começar logo a ouvir música. E faz sentido. Os bebés reagem a estímulos sensoriais e esses estímulos contribuem para o desenvolvimento das suas capacidades. O que significa que – embora o bebé possa não mostrar grande entusiasmo quando está a acontecer – também faz sentido que os pais leiam para os filhos desde as primeiras fraldas.

“Como não se nasce leitor, é necessário guiar e acompanhar a criança, ao longo do percurso, desde a descoberta do pré-leitor até à sedimentação da leitura. O mergulho progressivo nos livros constituirá, decerto, um desafio apetecível porque as crianças são, por natureza, curiosas e a curiosidade é motor das aprendizagens ao longo da vida”, explicam os responsáveis pelo Plano Nacional de Leitura ao Observador.

Nesta primeira fase, as boas notícias é que os pais nem sequer têm de ler histórias com sentido: podem ler o livro que já estavam a ler antes sobre a II Guerra Mundial, um manual de instruções para alguma máquina que estava a dar trabalho ou a receita de um bolo para o jantar. O importante é o som da voz dos pais, a cadência típica da leitura e que as palavras sejam dirigidas para o bebé.

“Em nenhum genoma humano está presente uma inclinação para os livros. O que se sabe é que um leitor – tal como um escritor, ou um artista em geral – descobre-se quando acende o seu fogo interior, que a escritor Laura Esquível comparou a uma caixa de fósforos imaginária. Segundo ela, cada um de nós traz no interior essa caixa de fósforos e, para acendê-los, é necessário um prato apetitoso, uma companhia agradável, uma canção, uma carícia, uma palavra. Mas a chispa varia de pessoa para pessoa, e cada um tem de descobrir os seus detonadores… a tempo, ou a caixa de fósforos humedece e nunca poderá acender um único fósforo”, diz Álvaro Magalhães, autor de dezenas de livros para crianças que já foi integrado na lista de honra do prémio internacional Hans Christian Andersen.

Os outros sentidos também podem ajudar nesta detonação. Mesmo que o bebé interrompa a leitura para puxar as páginas ou comece a fazer sons em resposta aos sons que está a ouvir, não faz mal. Este é o tipo de leitura em que os pais têm de estar disponíveis para a interrupção. E até há livros cheios de texturas que podem ajudar. Tal como ajuda ter tempo e paciência.

“O ouro da literatura sempre foi o tempo, e é cada vez mais isso. Por isso é que a nossa livraria é afastada de um local de passagem. Se é para virem até aqui, é mesmo para escapar à rotina. E se há uma obrigação que os pais têm, desde que os filhos são muito pequenos, é de cuidar da curiosidade dos filhos, e a leitura faz parte disso. Só que a leitura não se faz apenas sentado com um livro na mão. Tecnicamente, temos de transformar a leitura num jogo que se realiza em diferentes dimensões, que é um universo comum em que a palavra abre espaço para dança, música, movimento e tudo o que quisermos”, explica Mafalda Milhões, responsável pela livraria Bichinho de Conto, em Óbidos, a primeira que abriu em Portugal dedicada apenas ao livro infanto-juvenil.

A leitura é para ocupar a casa toda. E a família.

Para criar um leitor é preciso ser um leitor. E isto não implica que o serão da família tenha de incluir sempre um debate profundo sobre literatura russa ou sobre poesia japonesa do século XIX. Acontece apenas que, ao partilhar leituras com as crianças desde cedo, ao tornar-se uma atividade que se faz em conjunto – o que acontece naturalmente quando as crianças ainda não sabem ler sozinhas –, os livros começam a ficar associados à voz dos pais e a um sentimento positivo de proximidade.

© Getty Images/iStockphoto

“Infelizmente, fala-se muito em leitura sem falar em comunicação. E nisso a família tem um poder que não tem a escola, é a melhor incubadora para um leitor, para abrir horizontes e fazer ligações”, diz Mafalda Milhões.

Há pequenos truques para ir expandindo esta sensação e para a prolongar nas diferentes fases de crescimento da criança: em vez de ler para a criança só à noite, antes de deitar, é importante arranjar tempo para ler em outras alturas do dia – e, milagre, isso vai fazer também com que a criança abrande; transformar a leitura numa atividade interessante para as duas partes – nem tem de ler sempre livros que deteste, nem a criança tem de gostar das caretas que os pais fazem ao ler e pode interromper a qualquer momento; não fazer da leitura uma obrigação ou um castigo, mas sim um momento de brincadeira e alegria; ter livros espalhados pela casa, em vários sítios, que possam a qualquer momento transformar-se num ponto de interesse e num fator de distração; ir associando os livros e a leitura independente a um ato de maturidade – também dando o exemplo – sem provocar uma quebra abrupta na possibilidade de se continuar a fazer a leitura em conjunto.

“Há quem leia porque aos dez anos teve uma pneumonia e para matar as horas de aborrecimento não lhe ocorreu melhor coisa do que ler Stevenson. Até hoje. O curioso é que todas as pessoas, sejam ou não leitoras, podem falar da sua genealogia como leitores ou não-leitores, sempre com referência a uma contingência ou um mero acaso. Ou seja, o ato de ler não nasceu quase nunca de um ato puro de vontade ou da falta dessa vontade. Foi sempre a resposta a uma situação. Convém então repeti-lo: chega-se à leitura graças a um golpe de dados, quer dizer, a encontros e desencontros ocasionais”, explica Álvaro Magalhães.

E se os pais não são leitores, porque perderam o interesse pelos livros ou porque nunca encontraram esse golpe de dados, podem ser as crianças a servir de inspiração. “Há algumas famílias que não sabem mesmo fazer isto, mas podem aproveitar para seguir as crianças. Os pais têm de ter coragem para essa predisposição, para aprender isso com os filhos”, diz Mafalda Milhões. Uma ideia que Álvaro Magalhães completa: “No meu livro O Brincador há uma epígrafe que é todo um programa de vida, dois versos de Carlos Queiroz: ‘Menino que brincas no jardim / Tu sim, podias ser um Mestre de mim.’ Eles afirmam a minha fé numa inteligência infantil ainda não contaminada nem corrompida pelo mundo. Um dia perguntaram a Stanislavsky como se fazia teatro para crianças e ele respondeu: ‘Como se faz teatro para adultos, mas melhor’. É o que tento fazer, pois, tal como a concebo, a literatura para os mais novos é uma arte maior. Para comunicar com eles é preciso elevarmo-nos, e não o contrário – traduzirmo-nos, imbecilizarmo-nos, infantilizarmo-nos, que é o que mais se faz, infelizmente.”

Os livros também fazem coisas

Os livros fazem coisas. E não são só aqueles livros que têm pássaros que saltam em formato pop up, que emitem sons ou que servem, numa pilha, para levantar o monitor de um computador. Os livros são histórias, e são imagens, e levantam questões que se podem associar depois a outras actividades. “Se a criança gostou muito de um livro sobre animais, se calhar era divertido a seguir irem todos ao Jardim Zoológico com o livro”, exemplifica Mafalda Milhões.

Além disso, os livros são também uma desculpa para ir à livraria do bairro, ou para entrar numa biblioteca. Há cada vez mais atividades que se podem encontrar em diferentes livrarias: desde oficinas de ilustração, como aquelas que acontecem regularmente na It’s a Book, em Lisboa, a atividades pelo bairro ou oficinas de leitura entre avós e netos, como são comuns na Baobá, em Campo de Ourique, passando pela simples possibilidade de andar de baloiço ou ouvir uma história no grande quintal da Bichinho de Conto. É importante que a família fique atenta à agenda das livrarias nas proximidades ou tire um tempo para ir a uma que fique mais distante.

A Bichinho de Conto, em Óbidos, foi a primeira livraria dedicada apenas ao livro infanto-juvenil em Portugal. © Divulgação

Na Bichinho de Conto, por exemplo, Mafalda Milhões sente que muitas vezes o espaço se transforma “no quintal da avó que muitas crianças já não têm isso”. “As crianças vêm aqui para ler, mas também para andar de baloiço, para brincar com as cabras, e isso tem tudo de literatura, não tem? Isto antes era só uma sensação que eu tinha, mas agora já é conhecimento técnico ao fim de muitos anos de trabalho: na leitura, o mais importante é a relação. Nós conhecemos os nossos leitores desde pequenos e agora vejo-os na faculdade e continuamos a fazer parte da vida uns dos outros.” É essa a relação que se pode criar com um livreiro, que pode ser importante a ajudar na escolha dos livros, e que se pode integrar nesta relação que se tem – ou não – com os livros.

“O PNL e outros programas institucionais da leitura só se preocupam com números e estatísticas. Do que precisamos é de leitores que contagiem leitores e sejam capazes de transmitir a sua paixão. Pequenas comunidades, círculos de leitura, clubes de leitores – que estão agora mais ativos com as redes sociais –, pessoas que partilhem e propaguem a sua paixão e a sua felicidade. Só quem verdadeiramente sente esse prazer e essa paixão a pode comunicar aos outros”, diz Álvaro Magalhães.

Outra coisa que os livros podem fazer é transformar-se numa prenda divertida para dar aos amigos que fazem anos, uma prenda que se pode escolher em família e que depois se pode aproveitar em conjunto com o aniversariante. E podem também ser uma coleção: as crianças gostam naturalmente de colecionar, e vão adorar ter uma prateleira ou uma estante só delas para irem arrumando os seus livros.

É um ovni? É da Amazon? Não. São dois livros infantis por mês, surpresa

 

 

Afonso, Alexandre e João são “meninos especiais” com histórias em papel

Novembro 16, 2016 às 8:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Texto do http://p3.publico.pt/ de 24 de outubro de 2016.

joao

Cada livro da colecção “Meninos Especiais” conta a história de uma criança com necessidades especiais. O Afonso tem um atraso global de desenvolvimento. O Alexandre tem síndrome de X frágil. O João ainda não tem diagnóstico. Escritores e ilustradores foram desafiados a conhecer estes meninos e a entrar nos seus mundos reais

Texto de Andreia Cunha

Afonso tinha um ano quando foi vítima de uma meningite. Durante três meses lutou contra a morte numa cama de hospital e finalmente voltou para casa. Livrou-se da meningite, mas esta doença levou consigo muitas competências — sentar-se, andar, falar ou agarrar um objecto já não estava ao seu alcance. O Afonso tem um atraso global de desenvolvimento. O que pouca gente sabe é que este menino tem uma espada mágica e adora pintar. Todos os dias trazem novas aprendizagens. E são estes momentos que Isabel Stilwell conta no livro “Afonso e a Espada Mágica”.

Madalena Braga aceitou sem hesitar o desafio de ilustrar uma realidade que não conhecia. No entanto, foi fácil inspirar-se e trazer para o papel uma dimensão especial do dia-a-dia do Afonso. O baloiço onde se sente seguro, as mãos todas as sujas de bolo de chocolate e Filipe (pai adoptivo) montado num cavalo, um animal que Afonso adora, são alguns dos momentos que a ilustradora polvilhou no livro. “O que mais me cativou a representar o Afonso foi a expressão daquele olhar, bastante intenso e feliz, e um sorriso que acompanhou o encontro que tivemos quando o fomos visitar a casa”, diz a ilustradora.

Este encontro resultou numa “relação mágica com o Afonso através da ilustração”. “Quando conheci o Afonso lembro-me que a imagem que melhor registei na minha cabeça foi quando ele veio ter comigo com um brilho nos olhos e um sorriso enorme. Essa foi a maior fonte de inspiração para poder ilustrar a vida do Afonso e tentar exaltá-lo como se fosse o herói da história”, explica ao P3.

Contar as histórias de três meninos reais foi o desafio lançado por Luísa Beltrão, presidente da associação Pais em Rede, a seis escritores e ilustradores. “Como escritora comecei a pensar que seria excelente fazer pequenos livros com bons escritores da nossa praça que pudessem ir conhecer crianças com determinado problema, conhecer cada uma na sua casa e criar uma história que pudesse fazer outras crianças entrar no mundo desse colega diferente”.

Ana Zanatti teve oportunidade de conhecer Alexandre, um menino simpático e irrequieto que adora comer gelados na praia e tocar bateria enquanto a mãe toca piano. O Alexandre tem síndrome de X frágil, uma doença genética causada pela mutação de um único gene. Apesar de demorar um pouco mais a aprender do que os colegas da escola, Madalena Bastos, ilustradora, conseguiu captar o Alexandre e alguns momentos de descoberta e de alegria junto dos familiares e amigos.

Já a vida do João é uma caça ao tesouro e, todos os dias, em casa deste menino descobre-se a música antes de encontrar os peluches cheios de dentadas. O livro de Afonso Reis Cabral é “um testemunho” da realidade em que vive o João, uma criança que tem grandes impedimentos em qualquer aprendizagem. Um almoço e uma tarde juntos foram o suficiente para o romancista descrever o mundo do João e “transmitir esse ambiente aos leitores”. O João não fala, quase não anda, não come sozinho, mas não é isso que se vê nos desenhos de Carla Isidro. A ilustradora mostra o quarto onde o João guarda tudo o que gosta, o jardim com o baloiço e a relva onde passeia e a sala onde encontra a irmã pequena antes de lhe dar um abraço.

Estes meninos são agora protagonistas de livros que têm como objectivo a inclusão social de crianças e jovens com deficiência. Luísa Beltrão é também mãe de uma mulher com deficiência e acredita que “esta colecção dos Meninos Especiais é, de certa maneira, o melhor expoente do que é o espírito dos Pais em Rede”, uma associação que nasceu em 2008 pela mão de um grupo de pais preocupados com o futuro dos filhos.

Mas os principais destinatários destes livros não são as crianças com necessidades especiais. As histórias podem ser lidas pelos pais e familiares de crianças com as mesmas patologias, pelos pais de crianças que não tiveram qualquer contacto com estes problemas, pelos professores e educadores nas escolas e até pelos próprios alunos. “Estes livros são dirigidos a todas as crianças e a todos os adultos”, salienta Edite Vasconcelos, coordenadora do projecto “Meninos Especiais”.

Histórias que são difíceis de compreender

O projecto já vai no quarto ano e, doze livros depois, o objectivo mantém-se. Em 2012, a primeira colecção mostrava síndromes mais conhecidas como autismo e trissomia 21. Depois, foram dando a conhecer outras histórias que ainda hoje são difíceis de compreender como é o caso do João. “Há muitas crianças que não têm diagnóstico, têm uma série de deficiências mas estas não se enquadram em nenhuma patologia descoberta. Fizemos este livro porque representa uma fatia grande das crianças e jovens com deficiência deste país e de todo o mundo”, explica Edite Vasconcelos.

Os livros da colecção “Meninos Especiais” não estão à venda nas livrarias, apenas podem ser adquiridos por encomenda através de correio electrónico. Além destas edições, há ainda livros inclusivos com textos a negro e em braille para garantir que o objectivo da inclusão seja cumprido. Depois de terem sido vendidos mais de 18 mil exemplares em quatro anos, Luísa Beltrão não deixa de sublinhar o “sucesso retumbante” destes livros infantis trabalhados gratuitamente por escritores, ilustradores, paginadores e editores, contando ainda com o apoio de várias instituições. Cada livro custa cinco euros e a receita reverte na totalidade para os projectos da associação.

A quarta colecção é apresentada a 24 de Outubro, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa. Mas Luísa Beltrão garante que estas histórias não terminam aqui: “Para ano há outra colecção e já há vários escritores que estão interessados em escrever mais livros”.

Livros que trouxeram um novo olhar sobre as deficiências, modificaram a experiência dos escritores, ajudaram os pais destas crianças a “desdramatizar” os problemas dos filhos e todas as crianças a compreender as suas necessidades e os comportamentos dos outros. Estes livros, refere Luísa Beltrão, “são fruto de uma rede de boa vontade” e uma forma de permitir que estas crianças sejam incluídas na sociedade onde vivem.

http://paisemrede.pt/

 

 

 

 

Cerca de 10 por cento dos alunos do secundário nunca leu um livro até ao fim

Outubro 31, 2016 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.publico.pt/ de 10 de julho de 2015.

publico

Lusa

Estudo da Universidade do Minho revela ainda que 14 por cento das famílias dos alunos participantes no inquérito não têm livros em casa

Cerca de 10 por cento dos alunos do secundário nunca leram um livro até ao fim, revela um estudo realizado em 15 escolas secundárias integradas no programa Ler+Jovem, que foi apresentado esta sexta-feira, em Lisboa.

“No ensino secundário, num nível de ensino em que muitos pretendem aceder ao ensino superior, 10 por cento dos alunos nunca leu um livro até ao fim. É um dado que nos deve por a pensar”, disse hoje à agência Lusa Leopoldina Viana, da Universidade do Minho e responsável pelo estudo.

O estudo decorre desde 2013 no âmbito da iniciativa Ler+Jovem e foi apresentado estar sexta-feira , em Lisboa, no primeiro encontro nacional de escolas participantes neste programa. A ideia é, segundo a responsável, perceber o que é que os alunos lêem, onde lêem e quais as suas preferências. Globalmente, adiantou Leopoldina Viana, os alunos lêem e, desde que é feito o estudo, não se têm registado grandes variações em termos de leitura.

O estudo revela ainda que 14 por cento das famílias dos alunos participantes no inquérito não têm livros em casa e que um quarto dos alunos afirma que não gostava de ler em criança porque tinham dificuldade de compreender o que liam. “É um dado importante para investir mais na compreensão da leitura nos anos iniciais”, disse Leopoldina Viana.

Leopoldina Viana manifestou ainda preocupação pelo facto de o professor como motivador de leitura aparecer em último lugar entre as motivações dos alunos para lerem. “Dá-nos a entender que há trabalho a fazer e que o professor tem que ter um papel mais activo nesta área”, considerou.

A procura do conhecimento e de actualização são as principais motivações apontadas pelos alunos para ler, bem como a influência do grupo de amigos. Os alunos do secundário lêem literatura sobretudo dos tempos livres e nas férias, conclui ainda o estudo, que revela, contudo, um “uso intensivo das bibliotecas escolares”.

O livro continua a ser o suporte preferencial de leitura e, entre 2013 e 2014, registou-se uma diminuição do número de alunos que acede à Internet e que tem computador. “Provavelmente tem que ver com a crise e as dificuldades económicas”, disse Leopoldina Viana.

Leopoldina Viana sublinhou ainda que os alunos escolhem por vezes um tipo de literatura que não é aconselhada pela escola o que leva os professores a pensarem que os alunos não são leitores. “Há muitos jovens que lêem bastante, lêem um tipo de literatura que não é muito consagrada do ponto de vista académico e relativamente à qual os professores fazem tábua rasa. Se calhar é preciso que a escola pense nesta leitura e possa integrar este tipo de leitura para seduzir o leitor”, disse.

Professores, alunos e professores bibliotecários de todo o país estão, esta sexta-feira, reunidos em Lisboa no I Encontro de Escolas Ler+Jovem, uma iniciativa do Plano Nacional de Leitura e da Rede de Bibliotecas Escolares, que visa fomentar a leitura nos alunos do ensino secundário.

 

 

 

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