Já não sabe como entreter os miúdos? Estes livros valem minutos (ou mesmo horas) de descanso

Setembro 12, 2017 às 12:00 pm | Publicado em Livros | Deixe um comentário
Etiquetas: ,

Texto do http://observador.pt/ de 29 de agosto de 2017.

Ana Dias Ferreira

As aulas estão quase a começar, o problema é o quase. Para entreter os miúdos, reunimos livros de histórias e de passatempos publicados nos últimos meses (incluindo um mistério que usa a matemática).

1. Os Livros do Rei

De David Machado e Gonçalo Viana (Alfaguara). 12,50€

É uma história ao género do “era uma vez” e ao mesmo tempo uma homenagem ao poder da literatura. Em Os Livros do Rei, David Machado (vencedor de vários prémios na categoria infanto-juvenil) apresenta um jovem príncipe obrigado a suceder ao pai quando este morre depois de um terramoto. Para além de colocar a coroa na cabeça, o inexperiente monarca tem de reconstruir todo o reino. Habituado a passar os dias sozinho na biblioteca do palácio, quer fazer uma cidade à semelhança do que leu nos livros de fábulas, aventuras e viagens. Uma visão enigmática até para os melhores arquitetos do reino, mas familiar para quem está habituado a exercitar a imaginação nas páginas de um livro.

2. Capitão Coco & O Caso das Bananas Desaparecidas

De Anushka Ravishankar e Priya Sundram (Orfeu Negro). 12,90€

Há um mistério para resolver e a cena do crime é uma fruteira de onde desapareceram uma série de bananas. Como se isto não fosse suficientemente bizarro, o detetive convocado para esclarecer tudo chama-se Capitão Coco, desloca-se numa mota e orgulha-se de ter uma cabeça brilhante, assim como uma chave que abre todas as fechaduras (ou não). Escrita por duas autoras indianas e apresentado como uma novela gráfica ao estilo de Bollywood, Capitão Coco & O Caso das Bananas Desaparecidas é do mais original que tem aparecido nas estantes de literatura infantil. Para além de misturar técnicas de ilustração, de reservar algumas páginas para momentos musicais e de não poupar no humor, conseguido sobretudo pela personalidade da personagem principal, o livro ainda tem um bónus: para resolver o mistério é preciso fazer algumas contas de matemática. Ou seja, bela forma de rever a matéria.

3. A Menina dos Livros

De Oliver Jeffers e Sam Winston (Presença). 12,90€

Logo no início, em letras muito pequenas, estão os nomes de vários clássicos infantis: Rapunzel, O Feiticeiro de Oz, Hansel & Gretel, Peter Pan, O Polegarzinho, entre muitos outros. Partes dessas histórias são mais à frente transformadas em figuras e cenários, com as palavras a formarem ondas do mar, nuvens, monstros ou estrelas. A Menina dos Livros junta dois artistas — entre eles um dos mais prolíficos autores para crianças, Oliver Jeffers — num bonito e adequado propósito: fazer uma homenagem aos contos de fadas, ao mundo que as histórias constroem e à liberdade da imaginação.

4. Triciclo – Especial de Verão

De Ana Braga, Inês Machado e Tiago Guerreiro (Triciclo). 11€

Chegou sobre rodas em meados de junho recheada de passatempos para as férias. A Triciclo é uma nova micro-editora de pequenas revistas (as chamadas zines) infantis que, depois de um primeiro número, lançou um especial de verão de tiragem limitada e impresso em risografia a duas cores. É assim, em tons de amarelo e azul e com ilustrações dos editores Ana Braga, Inês Machado e Tiago Guerreiro (e que incluem um belo gelado geométrico na capa), que os mais pequenos podem acompanhar as férias em Portugal dos três primos do André (o protagonista que já aparecia no primeiro número) enquanto resolvem passatempos que os levam pela praia, o campo, o museu de História Natural e até um jogo da Supertaça.

Esta edição encontra-se à venda em lojas e livrarias selecionadas, entre elas A Vida Portuguesa do Intendente, Ler Devagar, MAG kiosk, Baobá e Ó! Galeria, em Lisboa; Livraria Gigões & Anantes (Aveiro), Manifesto (Matosinhos) e GATAfunho (Oeiras).

5. Tonton Lulu – Uma aventura de Laurinha e Sulivão

De Nuno Neves e Susana Vilela (Serrote). 12,80€

A terceira aventura de Laurinha e Sulivão leva os dois irmãos até Paris, mais concretamente ao Louvre. É aí, no célebre museu que serve de tecto à Mona Lisa e a outros quadros e esculturas famosas que o avô Bartolomeu Tirapicos trabalha como vigilante. Como se o cenário não fosse já de si excitante, o passado do avô também está cheio de histórias e peripécias. E em plena joia parisiense, Laurinha e Sulivão, os protagonistas desta bela coleção da editora Serrote, podem até tornar-se heróis da República Francesa.

6. Porque Tem a Arte Tanta Gente Nua?

De Susie Hodge (Bizâncio). 15€

Uma tabuleta estrategicamente colocada à frente do escultural David de Michelangelo informa que este livro fala de questões importantes sobre arte. Uma delas está no título — porque tem a arte tanta gente nua? — mas muitas outras são levantadas ao longo das suas 90 páginas (“a arte é tão cara porquê?” e “há estátuas feias?” são apenas duas). De forma direta, com ilustrações originais e muitas representações de obras, Susie Hodge faz ao mesmo tempo as vezes de guia de museu e de professora de História de Arte, atravessando movimentos tão diversos como o Cubismo e o Renascimento e autores tão variados como Rembrandt, Munch, Frida Kahlo, Velázquez e Keith Haring. Interessante mas não maçudo, ou não estivessem os textos partidos em pequenos blocos e o livro salpicado de chamadas que remetem para outras páginas e prometem deixar a curiosidade dos miúdos tão inquieta como as pinceladas de Van Gogh.

7. Maria Trigueira

De Ivone Gonçalves (Kalandraka). 12€

Maria Trigueira é o nome pelo qual é conhecida a avó Maria, uma avó que nasceu na serra e é morena e bonita. Tal como a alcunha, a avó que aqui aparece como menina é indissociável do campo: cresceu no meio das searas de trigo, gosta de ver as estrelas e as suas tranças abanam ao vento “como as espigas”. No entanto, nem a beleza dos montes a faz esquecer o grande sonho de ir ver o mar e boiar na água. Um álbum intimista escrito e pintado a duas cores por Ivone Gonçalves, sobre as coisas simples da vida.

8. Hora de deitar Baltasar!

De Yasmeen Ismail (Booksmile). 11,99€

Ah, a hora de deitar. Ter de ir para a cama quando só apetece continuar a brincar, correr e saltar em poças de lama. Poças de lama? Calma, o protagonista deste livro não é uma criança — parecia, não parecia? — mas sim um cão chamado Baltasar, que foge do dono quando percebe que é hora de fechar os olhos. As parecenças com a rotina noturna de quem tem filhos são muitas, e esse é claramente o objetivo da autora Yasmen Ismail — de quem foi também lançado recentemente Nada! Deixa-te levar pela Imaginação –, o que faz de Hora de Deitar, Baltasar, uma história feita à medida da hora de ir para a cama.

9. Fazer, conhecer, criar — Manual de Aventura

De Anastacia Zanoncelli (Livros Horizonte). 22€

Dirige-se a rapazes e raparigas aventureiros e é um manual de capa dura com centenas de jogos e desafios para explorar a natureza (ou simplesmente o jardim). Desde saber reconhecer insetos e constelações a preparar a mochila para ir acampar, passando pelas regras do código Morse e outros alfabetos secretos, esta obra da italiana Edizioni del Baldo, traduzida este verão para português, vem acompanhada de mais de 1.500 ilustrações e ideias. Um calhamaço perfeito para os arrancar do sofá e aproveitar a vida ao ar livre.

10. Rio Acima

De Vanina Starkoff (Orfeu Negro). 12€

Horizontal, como as águas de um riacho, Rio Acima é uma travessia. Um livro em que todas as personagens seguem num barco, canoa ou batel, e onde o objetivo é que cada um encontre o seu ritmo — quem sabe, melhor ainda, a felicidade. Ao invés do tradicional e esperado azul, a argentina Vanina Starkoff pinta as águas deste rio de um amarelo vibrante e como se isso não bastasse batiza as embarcações que o cruzam com nomes como “Sorriso Bonito”, “Amor de Mãe”, “O Paraíso” e “Escolinha da Felicidade”. No final, e embrulhada numa onda poética e que apela ao sonho, a mensagem desta travessia é tão vibrante como as cores usadas: qualquer coisa como “tá-se bem, a vida é linda e tu também”.

11. A Maratona dos Bichos

De Regina Boratto e Vanda Romão (Caminho).

Como uma espécie de nova versão da fábula da lebre e da tartaruga, A Maratona dos Bichos reúne uma série de animais que resolvem correr a maratona. A ideia parte de três amigos que decidem fazer uma aposta para ver quem é mais rápido e consegue saltar mais obstáculos. O problema é que esses três amigos são o “porquinho gordinho, o urso panda e a tartaruga cascuda”, ou seja, nenhum deles é particularmente veloz ou dado a desporto. Solução? Convidar animais mais lentos, neste caso “o bicho preguiça, o burrinho bufador e o rinoceronte gigante”, para aumentar as probabilidades de vencer. Quem cruzará a meta? É preciso seguir a história, contada em rima, e contar com os imprevistos (e muita poeira).

12. Coleção Tesouros da Literatura

Vários autores (Fábula). De 8,99€ a 11,99€

Uma nova chancela nasceu para recuperar velhos livros. Por velhos entendam-se clássicos, publicados dentro de uma mesma coleção chamada “Tesouros da Literatura”. Os quatro primeiros volumes são A Volta ao Mundo em 80 Dias, de Júlio Verne, Os Maias, de Eça de Queirós, Contos Maravilhosos, de Hans Christian Andersen, e As Aventuras de Pinóquio, de Carlo Collodi. Todos traduzidos diretamente dos originais (à exceção de Os Maias, bem entendido) e em edições de capa mole e acessíveis. Quem sabe um primeiro passo — ou os quatro primeiros alicerces — para uma rica biblioteca.

13. Emoji, Livro de Atividades

De Natalie Barnes (Jacarandá). 9,90€

Se é difícil convencê-los a largar o telemóvel ou o tablet para pegar num livro, esta última sugestão talvez possa ajudar. São mais de mil autocolantes com emojis de todas as formas e feitios, para colar à frente de expressões, descrever amigos ou preencher camisolas. Há também páginas para desenhar penteados criativos para os conhecidos smilies ou postais para decorar e enviar por correio . A premissa é sempre a mesa: “emojifica tudo”.

 

 

 

Anúncios

Enid Blyton (1897-1968): 75 anos de Os Cinco – mostra e colóquio na Biblioteca Nacional

Setembro 7, 2017 às 6:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , ,

MOSTRA | 24 jul. – 7 out. ’17 | Sala de Referência | Entrada Livre
COLÓQUIO | 3 out. ’17 (hora a anunciar) | Auditório da BNP | Entrada Livre

mais informações no link:

http://www.bnportugal.pt/index.php?option=com_content&view=article&id=1274%253Amostra-enid-blyton-1897-1968-75-anos-de-os-cinco-jul-data-a-anunciar-7-out-17&catid=168%253A2017&Itemid=1288&lang=pt

Livros para as férias de Verão dos meninos mais crescidos

Julho 21, 2017 às 6:00 am | Publicado em Livros | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , ,

texto do http://www.dn.pt/ de 7 de julho de 2017.

Maria João Caetano

Na praia, na rede, no jardim, no fresquinho da casa, nada como estes dois meses de férias para descobrir o prazer de ler. Aqui ficam algumas sugestões para crianças e adolescentes.

Começamos por um clássico: Tom Sawyer é aquele rapaz descalço e brincalhão, amigo de Huck Finn, que muitos de nós descobriram na série de animação da década de 1980. O livro que lhe deu origem é As Aventuras de Tom Sawyer, de Mark Twain. Retrato da vida (e das contradições) numa pequena cidade junto ao Mississípi, no século XIX, este é um livro de aventuras sobre a liberdade, os medos e os desejos de dois rapazes. Para ler com o olhar crítico de hoje.

As férias são também tempo para viajar – no país ou no estrangeiro. E os mais pequenos podem ajudar a planear as viagens com os guias da coleção A Minha Cidade. Depois de Beja por Susa Monteiro e Edimburgo por Markus Oakley, há agora mais dois guias: Madrid por Manuel Marsol e Viseu por Ana Seixas. Na sua cidade natal, a ilustradora Ana Seixas propõe, por exemplo, uma ida ao Teatro Viriato, um passeio no Parque do Fontelo e um petisco na Casa Bóquinhas, uma taberna da Rua Escura. São 12 os sítios ilustrados e descritos por quem melhor os conhece.

O Estranhão é uma das coleções juvenis de maior sucesso neste momento. O mais recente volume, Viagem no Tempo em Cuecas, põe Fred, o miúdo de 11 anos, QI acima da média e uma imaginação prodigiosa, a viajar até ao tempo das cavernas, ao tempo dos romanos, ao tempo dos castelos e a muitos outros tempos. Os livros de Álvaro Magalhães são acompanhados pelas muitas e divertidas ilustrações de Carlos J. Campos que são uma grande ajuda para aqueles meninos que ainda “têm medo” dos livros com muitas letras e poucos bonecos.

Mary Poppins é mais uma daquelas personagens que conhecemos sobretudo dos ecrãs: o filme de 1964, realizado por Robert Stevenson, tinha como protagonista Julie Andrews – que recebeu um dos cinco Óscares atribuídos a esta produção. Mas antes de estar no cinema, esta ama com poderes mágicos surgiu nos livros da australiana Pamela Lyndon Travers. Dos oito livros, originalmente publicados entre 1934 e 1986, a Relógio D”Água já editou os dois primeiros volumes.

Este O Regresso de Mary Poppins, com ilustrações de Susana Oliveira, traz a ama de volta à Rua das Cerejeiras para um chá “de pernas para o ar”, um circo no céu e o nascimento de Annabel, o quinto e último bebé da família Banks (que fica completa com cinco crianças).

O ideal seria mesmo ler a coleção toda antes da estreia de Mary Poppins Returns, o filme realizado por Rob Marshall que tem data de estreia marcada para 25 de dezembro de 2018, tendo como protagonista a atriz Emily Blunt e contando ainda com participações de Lin-Manuel Miranda (no papel de Jack, o homem que acende candeeiros na rua), Colin Firth (o banqueiro Weatherall) e Angela Lansbury (a senhora dos balões).

A coleção Caderno de Memórias de Difícil Acesso nasceu este ano pelas mãos de Raquel Palermo e João Lacerda Matos. No primeiro volume ficamos a conhecer Santiago Castelo. Este é o seu diário, por isso o livro é escrito com a linguagem de um rapaz de 11 anos que vive em Portugal em 2017, que implica com a irmã mais velha, que desespera com as regras que os pais lhe impõe, que odeia os alarmes que o acordam de manhã e que conta aqui as suas aventuras – nem sempre bem comportadas – com os amigos e os colegas da escola, nos treinos de futebol ou nas férias de verão.

Por último, uma sugestão para aqueles que estão agora a começar a ler livros maiores. Jatakas – Seis Contos Budistas é mais um livro delicioso da Pequena Fragmenta, com texto de Marta Millà e ilustrações de Rebeca Luciani. Jatakas são os ensinamentos de Buda, “contos, metáforas e lições que foram passando de mestres a discípulos através dos tempos”. Muitos dos protagonistas das jatakas são animais. “Não pretendem dar lições, apenas inspirar uma conduta consciente ética”, explica a autora. Os contos que aqui estão são versões livres de algumas jatakas e há um, A Avó Pirilampo, que é original.

 

 

Leituras para as Férias Grandes, por Ana Ramalhete

Junho 5, 2017 às 9:00 am | Publicado em Livros | Deixe um comentário
Etiquetas: , ,

Texto do site https://revistafabulas.com/ de 7 de junho de 2017.

Ana Ramalhete

Vamos aproveitar as férias para olhar com atenção. Olhar para cima, olhar para baixo, olhar para dentro, olhar para fora,  olhar para eles, olhar para nós…Olhar para todos os lados!

Inventário ilustrado das aves – texto de Virginie Aladjidi, ilustração de Emmanuelle Tchoukriel, tradução de Elisabete Ramos

«Do pinguim ao cardeal, do melro à andorinha… são quase 80 as espécies de aves que voam e trinam por entre as páginas deste inventário repleto de penas e plumas coloridas.»

Um inventário minucioso de várias espécies de aves, ensinando a identificar e a nomear cada parte do corpo, desde o bico até às penas. Descreve a alimentação, as atividades preferidas, os cantos e o chilrear característico de cada espécie. Recheado de ilustrações realistas e coloridas, este inventário é um companheiro indispensável na descoberta das aves e dos seus voos.

Noite Estrelada – Texto e ilustração de Jimmy Liao, tradução de Ana M. Noronha e Domenica Ignomeriello, edição Kalandraka

«Noite estrelada tem como protagonista uma jovem menina, cuja narrativa na primeira pessoa mostra a forma como é afectada pela sua realidade e pelo mundo que a rodeia. É uma história sobre a solidão e a amizade, a perda e a descoberta, sobre o crescimento e sobre como a arte e a imaginação podem ser veículos de liberdade.»

Nesta história dedicada a todas «as crianças que não se sentem em sintonia com o mundo», a imaginação e a fantasia surgem como formas de libertação de uma realidade pouco atraente, onde estão presentes os conflitos familiares, a solidão e o bullying. O nascimento de uma amizade inesperada vai despontar como um meio de libertação, de fortalecimento individual e de descoberta da beleza, da natureza ou da arte. O quadro A noite estrelada de Van Gogh inspirou Jimmy Liao no título, em partes do texto e nas aguarelas intensas, onde predominam os amarelos e os azuis fortes. Como é habitual nos seus álbuns, as imagens funcionam como um outro texto que desenvolve, completa e acrescenta o que está escrito.

O que aconteceu à minha irmã? Texto De Simona Ciraolo, tradução de Rui Lopes, edição Orfeu Negro

«Esta é a história ternurenta de uma menina que muito intrigada com a irmã adolescente, tenta desvendar a todo o custo este grande mistério. Quem é esta nova irmã? Porque já não quer brincar aos mesmos jogos e anda aos segredinhos pela casa?»

Este álbum ilustrado aborda a cumplicidade entre irmãs e o momento em que esta é perturbada pelas alterações de comportamento e pelas mudanças físicas que a irmã mais velha sofre, da noite para o dia. A consciência e investigação de tal fenómeno, pela mais nova, são acompanhadas página a página pelas ternas ilustrações que jogam com os tons de laranja e vermelho em contraste com os azuis e cinzentos, embrenhando-se texto e imagem numa fusão perfeita.

Na Boca do Lobo – Texto de Sara Monteiro, Ilustração de Susana Carvalhinhos, edição APCC (Associação para a promoção cultural da criança)

«Estes poemas, inspirados em expressões idiomáticas comuns, como por exemplo “fazer uma tempestade num copo de água”, “dar nome aos bois” ou “perder a cabeça”, foram escritos como se se desconhecesse o seu significado, abrindo caminho para o mundo do imaginário.»

Dezassete poemas que nos afastam das conceções iniciais com que certas expressões idiomáticas são utilizadas e nos fazem sorrir e pensar e olhar para todos os lados: para a cidade, para o mundo animal, para o mar, para a lua, para o corpo humano, para o céu. São versos que não batem na mesma tecla e que certamente não nos levam por maus caminhos. As ilustrações coloridas e bem-humoradas de Susana Carvalhinhos vestem os poemas e lavam-nos alma.

Olhos tropeçando em nuvens e outras coisas – Texto de João Pedro Mésseder, ilustração de Rachel Caiano, edição Caminho

«Há olhos que quase só deslizam no telemóvel; e olhos que tropeçam em nuvens, em bolas, em pessoas, em patas de aranha, eu sei lá em quê. Às vezes, esses olhos tropeçantes querem que as mãos escrevam textos à maneira de haicais (este livro explica o que são). Os olhos tropeçam num melro, a mão escreve um; numa borboleta, a mão escreve outro, e por aí fora. E há mãos que gostam de desenhar…haicais. Mas será isso possível? É abrir o livro e logo se verá.»

João Pedro Mésseder tropeça em coisas e como das coisas nascem outras coisas escreveu estes poemas de instantes ou instantes de poemas inspirados nos haicais japoneses. São versos que nos transportam ora para a claridade das manhãs, ora para as nubladas tardes de verão e que, em certos momentos, nos fazem lembrar Eugénio de Andrade. A delicadeza e beleza das ilustrações de Rachel Caiano, a preto, vermelho e azul, traduzem-se em fortes imagens poéticas, quais haicais desenhados. Um livro que nos deixa com «Olhos Tropeçando nas nuvens, Aturdidos de alegria»

 

 

 

Farto da Elsa? Chegou a Coleção Antiprincesas

Março 5, 2017 às 7:00 pm | Publicado em Livros | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , , , ,

Notícia do http://observador.pt/de 1 de março de 2017.

pitu-saa

A escritora brasileira Clarice Lispector é uma das quatro mulheres sul-americanas cuja vida é agora contada a um público infanto-juvenil. Pitu Sáa

 

Ana Dias Ferreira

Em vez de castelos e superpoderes, uma nova coleção de livros conta a história de mulheres reais que conseguiram ser extraordinárias. Frida Kahlo e Clarice Lispector são duas das “antiprincesas”.

Não usam tiaras e não têm superpoderes mas mudaram o mundo à sua maneira. Frida Kahlo, Clarice Lispector, Violeta Parra e Juana Azurduy são as quatro heroínas de uma nova coleção infanto-juvenil “para meninos e meninas” que chega dia 3 de março às livrarias. “Quatro mulheres do mundo real para combater estereótipos de género junto dos mais novos”, lê-se na apresentação da coleção batizada, sugestivamente, de Coleção Antiprincesas.

“Contamos histórias de mulheres porque sabemos de muitíssimas histórias de homens importantes, mas não tantas de mulheres. Conhecemos algumas histórias de princesas, é certo, mas quão longe da nossa realidade estão essas raparigas que vivem em castelos enormes e frios? Há muitas mulheres que quebraram os padrões da sua época, que não se resignaram a desempenhar as funções que a sociedade lhes impunha (os maridos, os pais, os irmãos mais velhos) e seguiram o seu próprio caminho”, escreve Nadia Fink, jornalista argentina que teve a ideia da coleção — editada originalmente pela conterrânea Chirimbote — e assina todos os textos.”

Para começar são quatro livros, um por cada uma destas mulheres, escritos com uma linguagem acessível e ilustrados a cores (com recurso a algumas imagens reais) pelo também argentino Pitu Sáa. Em Portugal a edição está a cargo da Tinta da China — numa parceria com a EGEAC e o programa Lisboa por Dentro — e a 8 de março, Dia da Mulher, há direito a lançamento no Cine-Teatro Capitólio, no Parque Mayer.

pitu-saa2

Da pintura à literatura, passando pelas lutas políticas e a música, estas são quatro histórias inspiradoras que não podiam estar mais longe do “viveram felizes para sempre” da Disney e dos poderes mágicos de Frozen. Por isso mesmo, a primeira coisa que se vê quando se abrem os livros são as pernas de Branca de Neve, reconhecíveis pela enorme saia amarela, a irem embora para dar lugar a outras mulheres que “não se deixaram ficar à espera e, com vontade de ir mais longe, procuraram compreender o mundo de outra maneira, superar obstáculos e deixar uma obra que está para lá do tempo”. Sem tiaras nem coroas mas com muitas outras coisas na cabeça.

Quem são estas antiprincesas?

Antiprincesa nº 1: Frida Kahlo

Exemplo de força e de um imaginário sem igual, Frida Kahlo usou cores fortes para pintar o sofrimento da sua vida. Resumindo com a mesma linguagem acessível do primeiro livro da coleção — e que poupa os leitores mais pequenos, e bem, aos pormenores do famoso acidente que a deixou com a coluna partida (contados magistralmente por Alexandra Lucas Coelho num outro livro da Tinta da China, Viva México) –, Frida nasceu em 1907 mas preferia dizer que tinha nascido em 1910 “porque foi nesse ano que os camponeses começaram uma grande revolução no seu país, e por isso decidiu que ela e o novo México tinham nascido juntos”. Teve uma perna defeituosa, motivada por uma doença aos seis anos (poliomelite), e ficou presa à cama e com as costas engessadas depois do autocarro onde viajava ser esmagado por um elétrico, aos 18 anos. Para a entreter, a mãe montou um cavalete e um espelho sobre a cama: “A princípio, Frida enfurecia-se por se ver tão imóvel, mas acabou por decidir que seria a sua própria modelo. (…) Começou assim a pintar auto-retratos. E, para que a acompanhassem na solidão, acrescentava animais: nas suas pinturas passeavam macacos, cães, veados e papagaios.” Ao longo da vida pintou-se a si própria e ao México, ao muralista Diego Rivera, com quem casou, aos animais que a acompanhavam na grande Casa Azul, hoje uma casa-museu, e às lutas sociais.

tinta

Antiprincesa nº 2: Violeta Parra

Menos conhecida dos leitores portugueses, Violeta Parra foi uma artista chilena que viajou pelo seu país de guitarra ao ombro, para ouvir e salvar do esquecimento as canções tradicionais do Chile. Nascida em 1917, numa família pobre, aprendeu a tocar sozinha, imitando os pais às escondidas (eles eram músicos de folclore mas já lhe tinham dito: “nada de ganhar a vida com a música”). Teve de usar saias feitas de cortinados e cantar na rua, em troca de esmola, encontrou e perdeu o amor em Santiago do Chile, para onde se mudou à procura de uma vida melhor, e percorreu as zonas mais recônditas do país, muitas vezes com os filhos pequenos, para ouvir e gravar, da boca dos mais velhos, as canções tradicionais que já estavam a desaparecer. “A minha única vantagem é que, graças à guitarra, pude deixar de descascar batatas. Porque eu não sou ninguém. Há muitas mulheres como eu por todo o Chile” é uma das suas frases citadas no livro. Outra, para terminar: “Eu não quero exibir-me. Quero cantar e ensinar uma verdade, quero cantar porque o mundo vale a pena e está mais confuso do que eu.”

tinta2

Antiprincesa nº 3: Juana Azurduy

A ser uma princesa da Disney, Juana Azurduy seria Mulan (ou Mulan é Azurduy, melhor dizendo). Guerreira e heroína nascida em 1780, foi uma espécie de Joana D’Arc da Bolívia que pegou na espada para lutar pela libertação do seu país, na altura colonizado pelos espanhóis. História e mito cruzam-se no livro, mas há factos que é possível balizar: aos 17 anos entrou num convento, “para onde as mulheres da altura iam para se tornarem freiras ou para estudarem”, mas foi expulsa pouco tempo depois. Casou aos 19 anos com um lavrador e juntos batalharam pela independência, ao lado dos guerrilheiros. Juana lutava a cavalo e armada com pistolas e um sabre, numa altura em que as mulheres não eram permitidas no exército. Não só lutava como um dia teve de salvar o marido que tinha sido feito prisioneiro, invertendo a ordem das histórias dos cavaleiros que salvam princesas de dragões em castelos. Comandou um esquadrão chamado Os Hussardos, teve cinco filhos — terá mesmo combatido grávida e com a filha recém-nascida nos braços — e depois da morte do marido, Manuel Padilla, numa batalha, foi lutar para a Argentina, tendo regressado à Bolívia com a independência do país, em 1824.

tinta3

Antiprincesa nº 4: Clarice Lispector

Mais do que antiprincesa, “esta brasileira considerava-se ‘anti-escritora’, porque não gostava de estruturas, das coisas académicas, nem de regras, e escrevia onde e como podia: em papelinhos, guardanapos ou com a máquina de escrever no colo, enquanto os filhos corriam e ela atendia o telefone e os ajudava com os trabalhos de casa”, lê-se na primeira página do quarto livro da coleção. Fascinante na obra e na personalidade, Clarice Lispector é o tipo de mulher difícil de resumir — até Benjamin Moser, que assinou uma monumental e excecional biografia sobre a escritora (publicada em Portugal pela Civilização, em 2010), dizia que Clarice é como a esfinge, um mistério difícil de desvendar. De “olhar felino”, como escreve Nadia Fink, Clarice Lispector nasceu em 1920, na Ucrânia, e foi para o Brasil com um ano, no navio que os pais, judeus, tiveram de apanhar para fugir das perseguições anti-semitas. Desde pequena gostava de inventar histórias com as amigas, sobretudo de contos que não tinham fim. “Quando chegava em um ponto impossível, por exemplo, todos os personagens mortos, eu pegava. E dizia: ‘Não estavam bem mortos.’ E continuava.” Ao longo da vida escreveu romances (muitos com o famoso final aberto, todos desconcertantes), livros infantis protagonizados por animais (estão publicados pela Relógio D’Água) e crónicas nos jornais para ganhar a vida, sobretudo depois de se divorciar do diplomata com quem tinha casado e regressar ao Brasil. O melhor será ficar com as palavras da própria Clarice, citada no livro anti-princesas, e esperar que a sua leitura incite os mais jovens a descobrirem-lhe a obra: “Escrever é usar a palavra como isca, para pescar o que não é palavra.”

tinta4

 

 

 

 

3º Encontro de Literatura Infanto-Juvenil da Lusofonia

Março 3, 2017 às 12:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
Etiquetas: , ,

16729143_454942254630019_6742308052751377351_n

mais informações no link:

http://lusofonia.oseculo.pt/

Biblioteca de livros digitais do Plano Nacional de Leitura – faixa etária dos 3 aos 16 anos

Setembro 13, 2016 às 8:00 pm | Publicado em Livros, Recursos educativos | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , ,

paraiso

visualizar todos os livros no link:

http://www.planonacionaldeleitura.gov.pt/bibliotecadigital/index.php?idades=1

Integrado nas múltiplas acções do Plano Nacional de Leitura, a Biblioteca de Livros Digitais é um espaço dinamizador de iniciativas relacionadas com leitura e a escrita, que se assume como um agregado de livros de autores consagrados e aprovados pelo Plano Nacional de Leitura e, em simultâneo como um repositório de trabalhos realizados por pessoas interessadas em criar outros textos motivados pelo livro que acabaram de ler.

A Biblioteca de Livros Digitais é uma iniciativa Web 2.0, estruturada pela agregação de um número considerável de projectos individuais partilhados, entretecidos numa teia dinâmica de ligações e RSS.

A Biblioteca visa criar um espaço comunitário na Internet, que se situa para lá do conceito tradicional de lugar da publicação na rede, entendido como mero repositório de trabalhos.

A Biblioteca é um lugar de partilhas, de troca de experiências, agregador de todos quantos promovem e usufruem do prazer de ler e estão interessados em alargar o seu ciclo de amigos e conhecidos.

  • O que oferece a Biblioteca de Livros Digitais?

Todos os interessados em inscrever-se como membros da Biblioteca têm direito a dispor de 1 Gigabyte de espaço de disco,  para guardar as produções que desejem vir a publicar nos livros que mais apreciam.

Os membros do da Biblioteca de Livros Digitais têm direito a participar nos múltiplos concursos e iniciativas promovidas pela organização.

  • Quem pode ser membro do clube?

Jovens entre os 8 e os 888 anos de idade interessados em

  • melhorar as competências de leitura e escrita,
  • partilhar competências e saberes,
  • participar em iniciativas integradas nas múltiplas formas de leitura e escrita, características do século XXI.

 

Beatrix Potter: A rebelde obediente que mudou a literatura infantil

Agosto 25, 2016 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , ,

Texto do https://www.publico.pt/ de 22 de agosto de 2016.

1068920

Beatrix Potter Cortesia da PIM

Maria João Monteiro

A escritora e ilustradora britânica nasceu em 1866. Para assinalar os seus 150 anos, são editados pela primeira vez em Portugal os Contos Completos.

“Era uma vez quatro coelhinhos, e os seus nomes eram Florinda, Melinda, Rabinho-de-Algodão e Pedro”. Assim começa Pedro Coelho, um dos mais celebrados contos infantis de todos os tempos, com 45 milhões de cópias vendidas em todo o mundo e traduzido em mais de 36 línguas. No ano em que se celebram os 150 anos do nascimento de Beatrix Potter, foram emitidos dez novos selos pelo Royal Mail, no Reino Unido, com algumas das suas personagens mais emblemáticas, como o próprio Pedro Coelho, o Esquilo Trinca-Nozes e a Senhora Pica-Pisca. Que passaram, também, a ter um nome em português, já que a efeméride proporcionou, finalmente, a edição em Portugal do primeiro dos quatro volumes de Contos Completos que reúnem a totalidade do seu trabalho literário.

“São histórias fáceis de se gostar pelo aprumo estético que atrai as crianças e pelos piscares de olhos que fazem à inteligência dos pais”, diz o coordenador editorial Vladimiro Nunes, da editora PIM, uma nova chancela criada em parceria entre a Ponto de Fuga e a Europress. A publicação dá-se ao mesmo tempo que o Canal Panda está a transmitir A História do Pedrito Coelho. Carlos Vintém, da PIM, refere que é importante levar os grandes autores do passado às novas gerações, assoberbadas pela tecnologia. “Queremos que estes contos criem hábitos de leitura”, afirma o editor.

Pedro Coelho, o coelhinho de casaco azul que desobedece à mãe e vai comer as hortaliças do quintal do Sr. Gregório, Trinca-Nozes, o impertinente esquilo vermelho que tenta escapar à fúria do Senhor Pena-Parda, e a Senhora Pica-Pisca, a ouriço-cacheiro que leva roupa lavada aos animais com a ajuda de Lúcia, são algumas das criações mais marcantes de Beatrix Potter. E é um legado que continua bem vivo na sua antiga casa em Hill Top, no condado verdejante da Cúmbria, que pouco mudou desde que morreu em 1943.

Propriedade do National Trust, a casa de Beatrix Potter recebe todos os anos mais de dois mil visitantes de todo o globo ansiosos por explorar os locais que inspiraram as famosas ilustrações dos seus livros. Uma das nacionalidades que mais visita a casa é o Japão, porque é comum no país usar Pedro Coelho para ensinar inglês. “Todos os japoneses gostam muito da natureza e, quando li o conto, quis vivenciar um cenário tão bonito”, disse uma das visitantes japonesas à BBC News.

Filha de um casal da alta burguesia e a mais velha de dois irmãos, Beatrix Potter teve uma infância solitária e foi educada em casa por preceptoras, de acordo com os princípios da era vitoriana. Aprendeu Pintura e História Natural, sem descurar o gosto por contos de fadas, rimas e lengalengas. E começou, então, a explorar o exterior de caderno e máquina fotográfica na mão, rabiscando plantas e animais como ratos, coelhos e ouriços-cacheiros. “Encontrava um escape na criatividade e na observação da Natureza. Não há escape melhor do que a imaginação”, reconhece Vladimiro Nunes.

Foram os Verões passados em Dalguise, na Escócia, e no Lake District, em Inglaterra, que deram a Beatrix um refúgio face às obrigações familiares e às restrições de género em vigor na sua época. Entre 1881 e 1897, manteve um diário ilustrado com um código por si inventado que apenas foi desvendado em 1958, após a sua morte, aos 77 anos. Linda J. Lear, historiadora e autora do livro Beatrix Potter: A Life in Nature, explica ao PÚBLICO, por e-mail, que “não era um diário em que escondia os seus pensamentos e actividades, era mais uma forma de ter alguma coisa interessante para fazer todos os dias a nível intelectual e criativo”.

Durante este período, a escritora começou a escrever cartas ilustradas destinadas aos filhos dos seus amigos e cartões para vender de forma a poder ganhar algum dinheiro. Em 1883, conhecera Annie Carter, a sua nova preceptora, uma jovem culta e viajada. As duas ficaram amigas quando Annie se despediu para casar com Edwin Moore. Beatrix frequentava a casa dos Moore e enviava regularmente histórias ilustradas aos seus oito filhos.

A primeira referência a Pedro Coelho aparece aliás numa carta de 1893 dirigida a Noel Moore, o filho de cinco anos de Annie, que começava assim: “Meu querido Noel, não sei o que te escrever, por isso vou-te contar a história de quatro coelhinhos cujos nomes eram Florinda, Melinda, Rabinho-de-Algodão e Pedro.” Baseado no dócil coelho de estimação de Beatrix, Peter Piper, Pedro Coelho foi rejeitado por seis editoras. Determinada, a escritora publicou o conto de forma independente em 1901, ano em que saíram 250 exemplares distribuídos entre família e amigos. O sucesso não tardou e até Arthur Conan Doyle, autor das aventuras de Sherlock Holmes, comprou um para os filhos. Mais 200 cópias saíram até ao final desse ano.

A Frederick Warne & Co, que tinha rejeitado anteriormente a proposta, não ficou indiferente e pediu a Beatrix que refizesse a cor as ilustrações, originalmente a caneta preta. O conto foi republicado em 1902 e vendeu 50 mil exemplares no espaço de um ano, alcançando a sexta edição. “Todas as histórias [de Beatrix] começaram como cartas ilustradas, mas quando ela percebeu que havia mercado passou a fazer os desenhos a cor”, diz Linda J. Lear.

Aguarelas e palavras adultas

Foi a estreia da escritora de então 35 anos, que até ao final da sua vida viria a publicar 23 contos ilustrados. O equilíbrio entre o texto de fácil compreensão e o detalhe das aguarelas que retratam o campo, o interior das quintas e as tocas dos animais explica o êxito de Beatrix. “Ela respeitava o sentido de humor e a imaginação das crianças e não se coibia de usar palavras adultas como ‘soporífico’ e ‘afrontado’ nas suas histórias”, acrescenta a investigadora.

O trabalho de Beatrix Potter mudou para sempre a literatura infantil. A simplicidade das suas histórias e a riqueza das suas ilustrações atravessam gerações e diluem as fronteiras do mundo anglo-saxónico. Mark Brown, de 31 anos, é do País de Gales e lembra-se de passar serões no aconchego da sua cama a ler as histórias com os pais. “Tínhamos sempre os livros lá em casa e eu podia olhar para as imagens antes de saber ler bem”, diz ao PÚBLICO. Mark destaca as personagens “carismáticas e ternurentas” dos livros de Beatrix.

Jane Flanagan, de 43 anos, é da Nova Zelândia e recorda a colecção completa dos contos que havia em casa da avó. Começou a folhear as histórias antes mesmo de saber juntar as letras. “Ou alguém me lia A História do Pedro Coelho, ou eu sentava-me sozinha a ver as imagens”, conta.

A neozelandesa admite que foram as ilustrações que chamaram a sua atenção em primeiro lugar. “Através destes contos, aprendi a ler e encontrei prazer na leitura”, diz Jane, que ainda hoje convive com as histórias de Beatrix Potter. Agora é a sua mãe que tem os contos completos e, da última vez que a visitou com as sobrinhas, leu-lhes o conto de Pedro Coelho. “Foi um momento de nostalgia pela minha infância e de partilha da delas”, conta.

A inglesa Heather Nettleship, de 22 anos, também se lembra de ser apresentada ao mundo de Beatrix Potter quando era pequena. “A minha mãe costumava mostrar-me os livrinhos dela”, recorda. Segundo Heather, as ilustrações “delicadas e bonitas”, assim como as “histórias adoráveis” tornam os desenhos de Potter “intemporais”.

Isso explica que em 1980, quase quatro décadas após a sua morte, tenha surgido em York a Beatrix Potter Society (BPS), uma associação de profissionais envolvidos na curadoria do material da escritora. Linda J. Lear, membro da BPS, refere que “o objectivo é promover o estudo e a apreciação da vida e obra de Potter que, além de ter escrito 23 contos, era uma artista ligada à paisagem e à história natural, agricultora e conservacionista”.

O grupo tem cerca de 650 membros em todo o mundo, do Reino Unido aos EUA e do Japão à Austrália, que recebem trimestralmente um diário ilustrado e uma newsletter com informações sobre os eventos organizados. Uma das actividades mais importantes é o programa Reading Beatrix Potter, que incentiva a leitura das histórias da escritora nas escolas e bibliotecas locais. A iniciativa, que começou em 1998 no Reino Unido e em 2001 nos EUA, já chegou a países como França, Austrália e Canadá.

Antes de Walt Disney

Beatrix Potter era uma mulher à frente do seu tempo e a familiaridade dos pais com os negócios dotou-a de uma visão empreendedora. Assim que publicou o primeiro livro, registou a patente para um boneco de Pedro Coelho, pois achava que o merchandising seria uma boa estratégia para dar a conhecer os seus contos. “Foi um dos primeiros fenómenos da cultura popular e abriu caminho, por exemplo, a Walt Disney”, diz Vladimiro Nunes. Aos peluches, seguiram-se livros de colorir, puzzles e jogos de tabuleiro; aos poucos, a escritora construiu a sua independência financeira.

Sem nunca desobedecer à austeridade moral da época nem desrespeitar o compromisso de tomar conta dos pais, começou a investir os seus lucros numa propriedade rural do Lake District. A morte prematura de Norman Warne, de quem estava noiva, levou a que encontrasse no campo a cura para a tristeza, vindo a casar com William Heelis aos 47 anos, em 1913. Inspirada pela criação do National Trust for Places of Historic Interest or Natural Beauty, Beatrix comprou grandes terrenos para poder protegê-los do desenvolvimento da área.

Tida como uma “revolucionária alinhada”, Beatrix manifestava a sua rebeldia na forma como via o mundo, na relação afirmativa que mantinha com os seus editores – e através das suas personagens. Vladimiro Nunes dá o exemplo de Pedro Coelho, que é “medroso, mal comportado, pateta, um herói muito pouco vitoriano”.

Apesar de ser sobretudo conhecida por ter enriquecido a infância de milhares de crianças, Beatrix Potter era também uma talentosa cientista natural, com um particular interesse por arqueologia, entomologia e micologia, e que pintava também aguarelas de fósseis e fungos. Nos anos 1890, a sua habilidade para gerar esporos de uma determinada classe de fungos chamou a atenção do tio, o químico Henry Roscoe, que apresentou o trabalho de Beatrix nos Royal Botanical Gardens de Kew, arredores de Londres, e na Linnean Society, o mais antigo grupo britânico dedicado ao estudo da zoologia, da botânica e da biologia.

O seu trabalho, On the Germination of the Spores of Agaricineae, não recebeu muita atenção por ser assinado por uma mulher. No entanto, algumas das suas ilustrações ficaram no Armitt Museum and Library, em Ambleside, e ajudaram os micologistas a identificar alguns fungos. Em 1997, a Linnean Society emitiu um pedido de desculpas póstumo pelo sexismo com que tratou a sua pesquisa.

Os últimos anos da vida de Beatrix foram dedicados à conservação do património do Lake District e à melhoria de condições de vida no campo. Em 1930, começou a trabalhar directamente com o National Trust e ficou encarregue de algumas quintas, de hectares de floresta e de vários rebanhos. Decidiu que as quintas deveriam ser geridas por locais e ter obrigatoriamente rebanhos de ovelhas Herdwick, originárias da região. A conservação desta espécie em muito se deve à escritora.

A escrita continuou a ser parte da sua vida, mas a visão reduzida e o entusiasmo pela exploração pecuária determinaram que The Tale of Little Pig Robinson, publicado em 1930, fosse o seu último conto. Em 1926, tinha publicado nos Estados Unidos um livro mais longo, The Fairy Caravan, que achou demasiado autobiográfico para ser vendido em Inglaterra, o que só aconteceu nove anos após a sua morte. Entretanto, em 2014, foi descoberto o conto The Tale of Kitty-in-Boots, para o qual Beatrix só deixara, cem anos antes, uma ilustração pronta. A nova edição terá ilustrações do cartoonista inglês Quentin Blake e será publicada em Setembro.

Durante a Segunda Guerra Mundial, Beatrix Potter contribuiria para o esforço de guerra assegurando comida e lã. Acabou por morrer de pneumonia e problemas cardíacos ainda antes do fim do conflito, a 22 de Dezembro de 1943, deixando 14 quintas com mais de quatro mil hectares ao National Trust.

Mais de 70 anos depois, os leitores portugueses podem finalmente folhear os seus Contos Completos. Os próximos três volumes, que contêm algumas das histórias ainda inéditas em língua portuguesa, serão publicados em Setembro, Outubro e Novembro.

Texto editado por Inês Nadais

 

 

A Anita faz uma festa: são 50 anos em Portugal

Maio 31, 2016 às 6:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , ,

Notícia do Observador de 24 de maio de 2016.

A célebre Anita não envelheceu, só mudou de nome. editora Zero a Oito

A célebre Anita não envelheceu, só mudou de nome.
editora Zero a Oito

Joana Emídio Marques

Não podemos ouvir falar nela sem ficar com nostalgia. A Anita, que agora se chama Martine, começou a ser publicada em Portugal há meio século. E no Dia da Criança há festa.

Quando, em 1954, o ilustrador belga Marcel Marlier foi convidado pela editora Castman para criar uma menina que pudesse ser heroína de uma coleção de livros infantis, estava longe de imaginar que a sua personagem se iria tornar a estrela das infâncias de milhões de crianças de todo o mundo e que iria desenhá-la ao longo de 56 anos e 60 livros.

Em Portugal a coleção surgiu 11 anos depois, no final de 1965, pela mão da editora Verbo. A menina chamava-se Anita (e não Martine como o original belga), e rapidamente se tornou um clássico entre as crianças, especialmente as raparigas, mas não só. Quantos rapazes leram os livros da Anita, talvez um pouco embaraçados por gostarem tanto dela como as raparigas, irmãs, primas, colegas de escola?

1

As aguarelas realistas de Marlier, aliadas à vida quotidiana da Anita descrita por Gilbert Delahaye, tornavam cada acontecimento banal — como ir às compras, à praia, andar de comboio, ou passear no campo — uma aventura invejável. Ajudaram a criar todo um imaginário que muitos acusam de ser conservador e sexista, mas que a travessia da Anita/Martine pelas décadas fora mostra que ela é sobretudo intemporal.

Durante os anos 70, 80 e 90 os livros da Anita eram um presente com o qual todas as crianças contavam nas suas festas de aniversário ou no Natal. Serviam para tudo: para treinar a leitura, para copiar os desenhos com papel vegetal, para mostrar aos mais problemáticos as regras de boa educação e doçura. Liam-se e reliam-se vezes sem conta. Sabiam-se de cor.

Ao longo das décadas as ilustrações mudaram o rosto da Anita e os temas das histórias procuraram adaptar-se aos tempos. Nos anos 80 a coleção começou a ser acusada de “convencionalismo burguês”, “sexismo” e “conservadorismo”. As correntes feministas disseram que Anita/Martine veiculava uma imagem retrógrada das mulheres. A heroína que nos, anos 60, ia às compras ou cuidava do irmão, passou a ser ecologista, a fazer cursos de culinária e a usar calças. As aventuras terminaram em 2010 já com um travo a contos de fadas politicamente corretos com Anita/Martine e o Príncipe Misterioso. Marlier morreria em 2010 tão famoso como a sua personagem

2

Em 2015 os direitos da coleção foram adquiridos pela editora Zero a Oito, foi feita uma nova tradução e a Anita passou a chamar-se Martine como a edição original belga. Esta mudança destinada às crianças do futuro foi contudo uma machadada dolorosa para os que cresceram com a Anita.

O Observador falou com a Zero a Oito para saber como está a correr a nova vida da personagem.

3

A celebração dos 50 anos vai contar com vários eventos. A saber:

Na véspera do Dia da Criança será oferecido um cocktail na residência oficial dos Embaixadores da Bélgica, que contará com a presença inédita do Mr. Casterman, o descendente da editora belga que criou a personagem, e de várias personalidades conhecidas dos portugueses.

Vai ser lançada uma nova coleção vintage, chamada “Clássicos da Martine”, que apresenta as versões originais dos livros tal como foram criados por Gilbert Delahaye e Marcel Marlier há mais de 60 anos na Bélgica. São, ao todo, seis livros de histórias para reavivar a memória de pais e avós.

No Dia da Criança haverá uma festa de anos da Anita/Martine junto ao stand da editora na Feira do Livro de Lisboa com algumas animações especiais.

4

Na fotogaleria fica uma viagem pelos livros, desde quando ela ainda se chamava Anita até aos dias de hoje.

 

Lançamento do livro infantil sobre adoção “Reis procuram Príncipes” de Ana Kotowicz , dia 1 de junho às 18h na Bertrand do Amoreiras

Maio 27, 2016 às 9:43 am | Publicado em Divulgação, Livros | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , ,

13310483_1362510800443452_9055197132249115866_n

Entrada gratuita!

Confirme para geral@livroshorizonte.pt ou 21 3466917

No dia 1 de junho, celebrando o Dia da Criança, chegará às livrarias a nova aposta da Livros Horizonte, Reis Procuram Príncipes, da jornalista Ana Kotowicz. Um livro infantil que através de um conto explica aos mais pequenos o caminho da adoção, com as ilustrações mágicas de Rita Correia, onde as imagens e a história parecem ganhar vida e saltar do papel. Numa linguagem sensível e adaptada às crianças, a autora dá a descobrir uma forma diferente de construir uma família.

No próprio dia 1 de junho será o lançamento do livro, às 18h na Bertrand das Amoreiras. Com apresentação de Luís Osório, esta será uma tarde para ser passada em família, pois a ilustradora preparou algumas atividades também para os mais pequenos. Estão todos convidados!

Press Reis procuram príncipes

http://www.livroshorizonte.pt/

https://www.facebook.com/LivrosHorizonte/?fref=ts

 

 

Página seguinte »


Entries e comentários feeds.