Workshop sobre Prevenção do Abuso Sexual Infantil, 12 junho em Cantanhede

Junho 6, 2018 às 8:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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José Caldas de Almeida: “Um dos fatores mais devastadores na saúde mental é o abuso sexual”

Junho 5, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista do Observador a José Caldas de Almeida no dia 19 de maio de 2018.

Vera Novais

A violência sexual e a pobreza são os fatores que melhor permitem prever o aparecimento de doenças mentais. Perda e abandono na infância também têm um impacto importante na saúde mental das crianças.

Todos nós, em algum momento da vida, teremos de enfrentar uma situação que nos fará sentir “em baixo”, que nos deixará ansiosos ou que nos deixará sem dormir. A maior parte das vezes conseguiremos ultrapassar estas situações sem precisar de recorrer aos serviços de saúde, mas se tivermos de o fazer não precisamos de ter vergonha disso.

As doenças mentais podem ser incapacitantes, mas também podem ser tratadas e as pessoas podem voltar a ter uma vida normal, diz José Caldas de Almeida. O psiquiatra defende que as pessoas devem procurar os serviços de saúde assim que se apercebam que algo não está bem e devem iniciar os tratamentos o quanto antes. A recuperação será melhor e mais rápida.

E desengane-se se pensa que as doenças mentais só se tratam em asilos. Atualmente, a maior parte da recuperação é feita em casa e só se recorre a internamento em casos específicos e por pouco tempo, esclarece o professor de Psiquiatria e Saúde Mental da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa. A presença de familiares e amigos e a sensação de pertença à comunidade, não só podem ajudar na recuperação, como desempenham um papel importante na prevenção das doenças mentais.

“Dependendo do tipo de sociedade e de cultura em que se vive, vários são os interlocutores que podem auxiliar as pessoas nestas situações – família, amigos, vizinhos, membros da comunidade em quem se confia, grupos de autoajuda, etc”, escreve no livro ‘A saúde mental dos portugueses’, publicado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos. “Estudos realizados pela OMS [Organização Mundial de Saúde] mostraram que, por exemplo, entidades como os líderes religiosos e as cabeleireiras podem ter em alguns países um papel relevante no suporte psicológico a pessoas com depressão e na referenciação dos casos mais graves para os serviços de saúde.”

Como principais grupos de risco para as doenças mentais, Caldas de Almeida aponta os pobres e as mulheres, ambos sujeitos a maiores fatores de stress que podem condicionar o aparecimento de depressão ou estados de ansiedade. As mulheres são ainda o grupo mais sujeito a um dos mais importantes fatores de trauma que levam ao aparecimento de doenças mentais, segundo o psiquiatra: a violência sexual.

Ao Observador, José Caldas de Almeida contou como está a saúde mental dos portugueses e o que podemos fazer para diminuir a taxa de doença mental no país: mais prevenção e melhor qualidade nos serviços.

Devíamos preocupar-nos mais com a saúde mental em Portugal?
Sim, devíamos preocupar-nos e dedicar mais atenção aos problemas da saúde mental. Quando digo devíamos, não estou a pensar só nos decisores políticos, mas estou a pensar nos responsáveis a outros níveis, porque as coisas não se resolvem só com leis e com políticas, ou até com investimentos. Sobretudo em áreas como esta, em que há um desconhecimento muito grande disseminado na população portuguesa, na opinião pública, nos media.

Há muitas pessoas que ainda encaram uma ida ao psicólogo como um capricho ou uma ida ao psiquiatra como um atestado de loucura. Isto condiciona o acesso aos cuidados de saúde mental?
Isso é uma das questões complicadas: a associação que existe entre a doença mental e a ideia de que não são verdadeiras doenças ou de que não há nada a fazer para as tratar, no fundo, que não são um problema sério de saúde pública. E essa é uma questão importante, que leva a que uma proporção significativa de pessoas que têm problemas de saúde mental, e que deviam ser tratadas, acabam por não procurar cuidados, ou porque têm vergonha ou porque não têm ideia de que aquilo é um problema de saúde que pode ser tratado.

Mas o problema é mais vasto. Estudos em muitos países, entre os quais Portugal, trouxeram uma visão bastante diferente daquela que era a visão tradicional. Por um lado, há a prevalência das doenças mentais que é muito superior àquilo que se julgava e a associação entre essas doenças e as doenças chamadas físicas — uma associação que tem grandes implicações a vários níveis. Por outro lado, o conhecimento muito maior que existe quanto aos impactos, às consequências negativas da doença mental, e não só em termos de mortalidade. Não é das doenças que está associada a uma mortalidade mais elevada, mas tem impactos sobretudo em termos das incapacidades a que está associada. O que hoje se sabe é as doenças mentais são uma parte importante, em Portugal à volta de vinte, vinte e tal por cento, de toda a carga DALY [Disability Adjusted Life Years], que mede o tempo de vida boa que se perde, ou porque se morre prematuramente ou porque se fica seriamente incapacitado.

Quando se fala em incapacidade, associa-se muitas vezes à incapacidade física.
Pois, mas há incapacidades que são tão ou mais negativas do que as físicas: a incapacidade para trabalhar ou para se ser produtivo tem implicações muito grandes para a pessoa, para a família e para a sociedade; a incapacidade para se relacionar com os outros, para ter relações satisfatórias com os outros, tem implicações enormes, algumas que não são mensuráveis.

As pessoas estão despertas para este problema? É fácil perceber que uma pessoa que tenha uma lesão física possa não estar capaz de desempenhar determinadas tarefas, mas será que as pessoas estão preparadas para identificar as incapacidades causadas por problemas na saúde mental?
Cada vez há mais sensibilidade para isso. Os responsáveis das grandes empresas, que empregam muita gente, sabem perfeitamente que têm um número enorme de faltas ao trabalho — chamado absentismo — e sabem que têm presentaísmo (as pessoas que vão ao trabalho, mas produzem menos do que habitualmente). Hoje em dia, muitas grandes empresas levam isto muito a sério. Tão a sério que são cada vez mais aquelas que desenvolvem programas para identificarem estes casos e para ajudarem as pessoas. Há poucos dias, o Guardian publicou um artigo de [António] Horta Osório que falava dos programas que o banco que dirige tem — quem diz esse banco, diz muitas outras empresas. Isto para lhe dizer que há cada vez mais pessoas e entidades que se dão conta da importância disto.

Às vezes, para a própria pessoa que tem um problema de saúde mental, é difícil identificá-lo e assumir que pode ter um problema. As empresas, os colegas de trabalho, a família, os amigos destas pessoas têm um papel importante para encaminhar as pessoas para o médico?
Claro que facilita muito se a pessoa que sofre desse problema tiver familiares ou amigos ou colegas ou responsáveis no trabalho que lhe possam dizer, de uma forma apoiante — não de uma forma a que se sintam excluídas. Mas infelizmente isto [falar de forma negativa] é o que acontece muitas vezes, daí que muitas pessoas tenham medo de dizer no emprego que têm esse problema. Diria que, embora continuemos a ter um estigma muito grande associado à doença mental, embora continue a haver uma ignorância muito grande em relação ao que são as doenças mentais, quais são as suas implicações, o que se pode fazer para as prevenir e o que se pode fazer para as tratar, tem havido progressos muito grandes nestes últimos anos.

A pergunta é mesmo essa: o que são as doenças mentais? E se são a mesma coisa que problemas neurológicos?
Não, uma coisa são doenças neurológicas [acidentes vasculares cerebrais, doença de Parkinson, epilepsia], outras coisas são as doenças mentais [ou psiquiátricas]. Às vezes podem coexistir ou pode haver doenças que têm uma componente neurológica e uma componente psiquiátrica, como as demências. As doenças psiquiátricas manifestam-se por sintomas associados às funções psíquicas básicas, alterações do pensamento, alterações do afeto ou alterações do comportamento, assim como uma série de sintomas que podem ser mais físicos, como as alterações do sono, alterações do apetite, alterações da sexualidade, alterações da capacidade para desenvolver atividades.

Estas doenças estão, muitas vezes, associadas a outra doenças, é frequente a comorbilidade entre doenças psiquiátricas e não psiquiátricas. Durante muito tempo, o estigma das doenças mentais baseava-se em ideias distorcidas, ideias erradas, quanto à natureza destas doenças: sobretudo as mais graves, as que envolviam alterações do pensamento, ideias delirantes, alucinações, as chamadas psicoses. As psicoses, pela estranheza das suas manifestações, causam alguma apreensão, as pessoas tendem a ter mais receio do que de outras manifestações patológicas. Isso levou a este medo da loucura, a não querer pensar nisso, a querer se afastar.

Quanto custam as doenças mentais?

Também por isso é que as pessoas eram internadas e afastadas da sociedade.
Havia a tendência para tentar tirar essas pessoas de circulação. Na Europa, e noutras partes do mundo, foram criados asilos para onde iam estas pessoas, como iam pessoas indesejáveis. E muitas tentativas que foram feitas, a partir de certa altura, para substituir essas instituições isoladas, com funções sobretudo asilares foi muito difícil e ainda hoje é difícil.

Em Portugal, houve uma lei de saúde mental muito avançada em 1963. Criaram-se centros de saúde mental em todos os distritos, o que permitiu descentralizar e dar muito mais acesso aos serviços de saúde mental.

Numa altura em que a saúde mental não tinha muita importância.
Nenhuma. Foi na altura que entrei para a faculdade. Havia meia dúzia de tipos maduros que queria ir para psiquiatria. Mas o que aconteceu é que passado pouco tempo de terem sido criados, o Governo incorporou nestes centros de saúde mental — criados para serem coisas não-asilares e para serem uma alternativa — os albergues de mendicidade. Os albergues de mendicidade eram os caixotes do lixo sociais que existiam, onde se metiam os tipos que se queriam tirar de circulação, que não tinham capacidade para ter uma vida. Foi uma coisa terrível. Uma das razões do estigma, e para não se dedicar grande atenção às doenças mentais, é que durante muito tempo houve a ideia que não havia nada a fazer, de que eram pessoas que tinham uma doença para a qual não havia tratamento, e que portanto estavam condenadas. Quando comecei a trabalhar em psiquiatria, nos hospitais psiquiátricos, encontrei muitos doentes que estavam lá há 30, 40, 50 anos, uma vida inteira. E alguns não precisavam. Foram pessoas das quais se desistiu e ficaram ali.

Uma vez internados, essas pessoas conseguiam sair ou ficavam catalogados de loucos?
Não é que todas as pessoas que eram internadas não saíssem, mas para algumas pessoas que tinham situações mais graves ou que perdiam contacto com a família, era mais difícil dar-lhes alternativa, e ficavam. Hoje em dia nada tem de ser assim. Agora, a maior parte das situações, mesmo as mais graves, e mesmo as que em algum momento precisem de um internamento curto, podem ser tratadas em casa e as pessoas manterem a sua vida. Mesmo nos casos muito graves, em que há perda de capacidades, as pessoas podem ser reabilitadas e reinseridas na sua profissão. Em casos em que não têm residência, porque tiveram muito tempo no hospital, há vários dispositivos residenciais.

Queria perguntar-lhe exatamente isso: as pessoas que não têm apoio familiar, podem voltar a casa e retomar a sua vida?
Sim, desde que existam os serviços. O que acontece é que temos dois grandes grupos de patologia psiquiátrica (estou a simplificar). Um deles, são as chamadas doenças mentais comuns, sobretudo os casos de depressão e ansiedade. São muito frequentes, mas a maior parte das vezes não são muito graves, logo podem ser tratadas em consulta. Mas é um problema, e um problema grave, porque são muitos casos e porque têm impacto enormes: em termos de incapacidade, porque interferem imenso na vida das pessoas, porque lhes causam muito sofrimento, porque complicam imenso a vida das famílias e porque têm implicações sociais várias. Esse é um tipo, bastante diferente do outro grupo: as doenças mentais graves, que são doenças que interferem de uma forma muito significativa com o funcionamento das pessoas e engloba sobretudo as psicoses — esquizofrenia e doença bipolar. São doenças que exigem cuidados diferentes. Durante muito tempo as pessoas que tinham essas doenças eram internadas nos hospitais psiquiátricos, completamente separadas dos outros doentes, o que lhes dava logo uma etiqueta terrível. A pessoa que estivesse internada no hospital psiquiátrico entrava logo no clube dos loucos e isso causava muitos problemas na sua vida a todos os níveis. Algumas acabavam por ficar muito tempo internadas porque não havia meios de reabilitação.

O que aconteceu foi que, graças aos progressos científicos, novos medicamentos, novas intervenções psicológicas e psicossociais, novos modelos de organização dos serviços, hoje podemos ter serviços para tratar essas pessoas que conseguem uma taxa de sucesso bastante grande, mesmo em casos em que não consigam curar a doença — o que aliás acontece em imensas doenças não-psiquiátricas, mas tendemos a esquecer-nos disso. Hoje em dia o mundo está cheio de pessoas com doenças crónicas, às vezes com várias doenças crónicas. E isto é cada vez mais frequente, porque cada vez as pessoas vivem mais tempo e cada vez vamos tendo mais sucesso terapêutico. Mas tal como as restantes doenças crónicas, as doenças mentais graves são doenças para as quais se consegue controlar os sintomas, consegue ter remissões durante muito tempo, consegue evitar novos surtos e consegue que as pessoas tenham uma qualidade de vida aceitável (vida familiar, emprego). Para isso tem de ter serviços organizados, com princípios que ainda não estão generalizados em todo o lado e com recursos e capacidades que também não existem em todo o lado.

As coisas mudaram, mas as pessoas ainda associam que se forem ao psiquiatra vão tomar comprimidos e ficar prostradas e não gostam desta condição.
O que acabou é que, para estas doenças, não é nem o psiquiatra, nem o psicólogo sozinho que tratam estas coisas. As pessoas têm de ser tratadas por uma equipa. Têm um programa, têm alguém que se encarrega de orientar a pessoa e que se encarrega de evitar uma coisa que é específica deste caso: muitas vezes as pessoas não têm consciência patológica, não se apercebem que têm de ir à consulta, acham que aquilo não é suficientemente grave. Outro problema que não é só da psiquiatria é que passámos de um mundo em que tratávamos episódios agudos para um mundo em que tratamos pessoas com doenças crónicas. Isto implica serviços completamente diferentes, em que tem de ter um programa, tem de seguir o caso — a continuidade é muito importante, a pessoa não pode andar a saltar de médico para médico —, e, neste caso, se o doente não vai à consulta, a equipa deve telefonar, se for preciso ir a casa e convencê-lo. Em vez de ser uma atitude reativa é uma atitude proativa, é uma atitude de continuidade e é uma atitude em que a preocupação não é só diminuir sintomas, é ajudar a pessoa a reabilitar-se a integra-se socialmente. A exclusão social aqui é uma coisa terrível e se se entra no ciclo da exclusão social, estas pessoas têm riscos enormes.

Quais são os grupos mais vulneráveis?
Esse é outro progresso muito grande. Sabemos muito mais sobre quais são os fatores de risco para ter doenças mentais, o que nos permite prevenir, e sabemos também muito mais quais os impactos da doença mental a vários níveis [ver caixa]. Sabemos que o risco de ter doenças mentais, no caso das mais comuns (depressão e ansiedade), é muito maior nas mulheres do que nos homens. Nos homens é mais comum o alcoolismo e o consumo de outras drogas. Mas quem tem maior risco, em geral, são as mulheres. Outra coisa que se sabe é que os fatores sociais têm uma importância enorme, a pobreza está altamente associada ao risco. Havia uma ideia, há 20 ou 30 anos, que as doenças mentais eram um capricho de gente rica e ansiosa, que se podia dar ou luxo. É fantasia. Os pobres têm muito mais problemas mentais do que os ricos. A razão principal é muito simples: as pessoas mais pobres têm muito mais situações de stress do que têm as que são mais ricas. Têm mais privações financeiras, que levam a conflitos entre as pessoas, que levam à utilização de drogas. E cria-se aqui um ciclo vicioso, porque a doença mental leva a uma maior pobreza. São ciclos que são muito difíceis de quebrar depois.

E nas mulheres porque é que acontece mais do que nos homens?
Por várias razões. Por um lado, porque há variabilidades endócrinas [produção de hormonas]: por exemplo, sabemos que a seguir ao parto pode haver um quadro patológico de depressão pós-parto. Mas têm a ver com outras coisas, é que as mulheres, na maior parte das sociedades de hoje em dia, tem uma carga adicional de stress. Há uma fase da vida das mulheres que têm uma sobrecarga grande, que têm problemas muito grandes no dia a dia: levantar cedo todos os dias, tomar conta da comida e dos filhos, andar a correr de um lado para o outro, isto pode ser um stress muito grande. Esta sobrecarga leva a mulher a estarem em desvantagem em termos de apoios sociais.

Também sabemos que um dos fatores que tem um efeito devastador na saúde mental das pessoas é o abuso sexual. A violência sexual na infância é uma coisa terrível, paga-se caríssimo mais tarde. E também sabemos que a violência sexual continua a ser muito elevada. Uma das coisas que estudámos foram os fatores associados ao stress pós-traumático e havia esta ideia que a guerra é que era o grande fator. Fizemos um estudo, que vai ser publicado em breve, sobre quais os fatores a que as pessoas são expostas e que são sentidos como um trauma e que depois vão criar stress pós-traumático. Portugal, além de ter um fator que existe em todo o lado, que é a perda (de um marido, de um filho, etc), durante muito tempo teve um fator muito importante que eram os acidentes de viação, porque tínhamos uma taxa elevadíssima de acidentes. Claro que também tivemos, em valor absoluto, a guerra, embora a guerra tenha sido há muitos anos. Agora, o que nós descobrimos neste estudo é que a situação que tem valor preditivo mais forte é a violência sexual, embora a violência sexual possa ser exercida sobre homens e mulheres é mais sobre as mulheres.

Para as doenças graves, e talvez para as mais comuns, existe um fator genético associado?
As doenças mentais estão associadas, como a maior parte das outras doenças, a vários fatores. As doenças mentais talvez se distingam por estarem associadas a muitos mais fatores. É raro ter uma doença em que diga é só este fator. Vamos pensar no caso da depressão. Há casos de depressão em que a influência genética é muito forte, há vários casos na família. Há outros casos que o que conta fundamentalmente são os acontecimentos da vida das pessoas, condições sociais, etc. Diria que na maior parte, tem os ingredientes, que podem variar na proporção, mas pode ter uma certa vulnerabilidade genética, mas depois tem de haver outros fatores.

Estava a pensar sobretudo na esquizofrenia e na doença bipolar.
Nesses há. Nestes casos a componente genética é mais forte, embora sejam os outros fatores, como os eventos, que as podem desencadear.

Como é que se previnem as doenças mentais?
Há uns anos não se sabia quase nada sobre isso, podia prevenir-se duas ou três coisas. Hoje já conseguimos prevenir muita coisa. Na prevenção temos a prevenção primária, quando se consegue que não apareçam novos casos, e a prevenção secundária, que é atuarmos de tal maneira que os casos que aparecem são rapidamente tratados e que não se deixam prolongar no tempo nem agravar. Para algumas doenças, como a esquizofrenia, não sabemos muito sobre como prevenir, mas temos intervenções altamente eficazes, comprovadas cientificamente, de prevenção do suicídio, prevenção do consumo do álcool.

Mas não se pode prevenir que um familiar morra, não se podem prevenir muitas das situações traumáticas.
Os fatores genéticos ou de base biológica são difíceis de prevenir, mas pode ter intervenções preventivas que, por um lado diminuam a vulnerabilidade das pessoas ou que reforcem os fatores protetores. Um dos programas mais eficazes que foram desenvolvidos são os programas parentais, programas de apoio às mães no princípio da vida dos miúdos, porque o princípio da vida e a relação entre o bebé e mãe vai ter um papel importantíssimo na saúde mental e física da criança. O que se passar nessa fase inicial vai marcar a pessoa para a vida inteira [exemplos de eventos negativos: perda, abandono, depressão da mãe]. Dar apoio a essa relação é muito fácil de fazer. Em países com serviço nacional de saúde pública, como nós temos, é facílimo. Por exemplo, todas as grávidas, depois de terem a criança, terem uma enfermeira que faz três entrevistas nos primeiros tempos, faz educação e despista se há alguma coisa. São muito baratos e nada transcendentes, quase de senso comum. Isto tem um impacto na prevenção de problemas mais tarde, mas é um investimento a longo prazo. Há muitas intervenções na escola que também são altamente eficazes, como na prevenção do bullying, que é uma coisa que também tem efeitos devastadores, e tem outros que vão pela positiva, que são programas de desenvolvimento da resiliência.

Coisas negativas vão sempre acontecer e vão ter maior impacto numas pessoas do que noutras. Como é que nos preparamos para sermos mais fortes?
Fizemos um estudo sobre o impacto da crise económica [privação financeira, desemprego] na saúde mental. Utilizando o que tínhamos feito no início da crise fizemos outro a seguir. Ainda estamos agora a analisar os dados, mas já deu para perceber algumas coisas: houve muita gente que foi atingida a nível da saúde mental, houve um agravamento muito significativo do número de pessoas com problemas de saúde mental — ansiedade e depressão —, mais nos homens do que nas mulheres por causa da questão laboral. Outros fatores, como os fatores contextuais são mais difíceis de avaliar também são importantes: se têm serviços acessíveis ou não, de qualidade ou não. A estes somam-se os fatores financeiros, se a pessoa tinha dinheiro para comprar os medicamentos e para ir às consultas. Mas também vimos que houve fatores protetores, pelo menos dois que nós apanhámos — haverá outros. Primeiro, o chamado suporte social, que mede o número e a qualidade dos apoios sociais que as pessoas têm quando estão com problemas: família e amigos. Isto tem uma importância enorme para fortalecer as pessoas a resistir. Todas as pessoas estavam vulneráveis à perda do emprego, mas que tinham o apoio social estavam mais defendidas. O outro fator protetor é o envolvimento comunitário. As pessoas que vivem em comunidades em que participam, que estão integradas na comunidade, que têm um sentimento de pertença a um bairro, a uma comunidade, tem qualquer coisa que é muito importante. O suporte social e o envolvimento comunitário protegem de formas diferentes no caso da ansiedade e no caso da depressão. O que é curioso. Estamos agora a trabalhar esses aspetos para percebermos melhor essas nuances.

No livro referia que o sítio a que as pessoas com problemas de saúde mental mais recorrem são os centros de saúde. Os centros de saúde estão preparados?
Não, não estão. Temos uma acessibilidade muito boa. Em termos europeus, os portugueses se precisam de ir a uma consulta porque têm um problema de saúde mental estão melhor que a maior parte. Estamos sempre a dizer mal, mas é mentira. Em termos de acessibilidade somos bons. A rede dos cuidados primários foi uma coisa fantástica nesse aspeto. Agora, a qualidade dos cuidados já é outra conversa. Fomos medir os cuidados minimamente adequados. Em Portugal, 7% das pessoas tiveram uma depressão [diagnosticada pela equipa de investigação durante os inquéritos] no ano anterior. Destas, só 65% é que se deram conta de que se deviam tratar — há 35% que desaparecem logo, que não são tratadas porque não perceberam ou tiveram vergonha de se tratar. [Das que se procuram cuidados,] 88% conseguiram aceder aos cuidados de saúde primários ou secundários. Quando fomos ver os cuidados minimamente adequados, apenas 15% tinha tido. No final, da população inicial com depressão, só 9,1% teve acesso a cuidados de boa qualidade. Não é que fossem mal tratados, mas uma pessoa para ser bem tratada deve ser vista no mínimo quatro vezes por ano. É aqui que falha. Aqui e na articulação entre os cuidados primários e os serviços especializados. Perdem-se muitos doentes que deviam ir para a psiquiatria e não vão, ou vão mal mediados. Mas esse não é um problema só nosso, é um problema mundial. Esta articulação entre os serviços primários e os serviços especializados é um desafio enorme. E é uma coisa especialmente difícil de aceitar porque sabemos como é que se resolve este problema. Temos estudos que provam, sem nenhuma sombra de dúvida, que se pudéssemos fazer o que sabemos que funciona, estes 35% que se perdem ao princípio podiam diminuir para 20% ou para 15%, com campanhas de educação, etc. Os 88% podiam ir para 95%. Depois esses 15% podiam subir muito, muito, muito.

Além das campanhas o que é que se poderia fazer que não se faz?
Teria que haver organização dos serviços e organização de programas feitos de outra maneira: modelos colaborativos de cuidados. São modelos muito parecidos com os das doenças crónicas em geral, com passos: as pessoas vão a um primeiro passo, se não funciona são enviadas para outro passo, mas não se perdem, estão sempre em contacto com o serviço, há uma avaliação constante. Isso é muito difícil de implementar nos nossos serviços, nos nossos e em outros. Mas onde se implementou deu resultados fantásticos.

A dificuldade é a organização?
A organização e formação. Primeiro, teríamos de convencer muitos responsáveis que a saúde mental é importante. Teríamos de ter não só médicos, mas também enfermeiros — faltam imensos enfermeiros — e alguns psicólogos, teríamos de os convencer a haver uma colaboração e tratamento em comum. Faz-se nalguns sítios, no meu serviço há muitos anos que fazemos coisas destas.

Mas não está generalizado.
Está longe de estar generalizado. O problema é de implementação, não é de saber o que é que se tem de fazer.

Portugal tem a maior prevalência de doenças mentais do sul da Europa

Há outra questão, relacionada com as conclusões do estudo, que é: porque é que Portugal tem uma taxa de doenças mentais muito mais alta do que o resto dos países do sul da Europa?
Não lhe sei explicar, mas é um problema que me tem preocupado imenso, que me tem feito pensar muito. Pensei tanto e andei à procura de tantas coisas que descobri que a única situação que há parecida com a nossa é o Brasil [que tem uma taxa mais alta do que os restantes países da América latina], com uma prevalência ainda mais alta que a nossa. Primeiro é preciso dizer, temos de facto uma prevalência mais alta, mas não é em todas as doenças, é sobretudo nas perturbações da ansiedade, e dentro das perturbações da ansiedade, as perturbações fóbicas [medos e vergonhas]. O que pode explicar isto? Pode haver fatores genéticos, mas não sabemos. Há um fator que acho que existe de certeza: os diagnósticos das doenças mentais não são feitos por uma análise ao sangue, mas por questionários clínicos, e isto faz com que de cultura para cultura haja uma expressão mais fácil ou menos fácil do sofrimento psicológico. Há culturas em que é muito fácil as pessoas falarem que estão muito tristes ou alegres ou ansiosas e há culturas em que as pessoas não conseguem dizer disso. Na Ásia, as pessoas são incapazes de dizer que estão tristes. A cultura portuguesa, para o bem e para o mal, faz com que as pessoas não tenham dificuldade em se queixarem das suas desgraças. O que quero dizer é que uma parte desta prevalência elevada pode ter a ver com o facto de exprimirmos mais facilmente os sintomas e portanto muitos mais casos serem apanhados. Depois pode haver aspetos culturais em Portugal que acentuaram estes aspetos ansiosos, estes aspetos da vergonha, do medo do que é que os outros pensam, da exposição.

E depois — e isso nós observámos — existem menos apoios. Os pobres e as mulheres estão em desvantagem em relação aos pobres e às mulheres de outros países europeus. O que este estudo para mostrar o impacto da crise nos mostrou é que há dois Portugais — há muitos, mas há dois fundamentais. Curiosamente, quando fomos ver em relação à parte financeira, há uma parte de portugueses que não sofreu muito — e eu espantei-me. Mas há uns 30 ou 40% de todos os portugueses que são pobres a sério, que têm privações muito grandes, que estão desprotegidos — às vezes esquecemos deles porque é uma população que está escondida, mas ela existe e essa gente está muito vulnerável. Isto significa que os nossos serviços deviam estar preparados não só para dar acesso a toda a gente, mas preparados para poder apoiar de uma forma especial, para garantirmos o princípio da equidade a essas pessoas que estão numa desvantagem muito grande e que precisam de compensar isso. Claro que já se fizeram imensos progressos: quando comecei não haviam centros de saúde, os mais novos não fazem ideia o quanto isto melhorou nesse aspeto. Mas há gente que tem necessidade de apoios que ajudem a mitigar as desvantagens em que elas estão. Com o que aprendemos devíamos estar preparados para a próxima crise económica.

Vão comparar os dados de Portugal com a Grécia e outros países que também atravessaram uma crise económica?
Já fizemos a revisão de toda a literatura científica que existe, até fizemos um encontro cá em Lisboa sobre o impacto dos fatores económicos e sociais na saúde mental. Uma das coisas que trabalhamos nesse encontro foi que iniciativas e que programas é que devemos ter para mitigar, para proteger os grupos mais vulneráveis. Há estudos que compararam crises anteriores. Por exemplo, a Suécia teve uma crise muito grande já há muito anos, numa altura em que a Espanha também teve. Quando se compararam os resultados, mostraram como os suecos se saíram muito melhor, estavam preparados, ajudaram os grupos mais vulneráveis.

As doenças mentais

Perturbações mentais comuns: perturbações de ansiedade, perturbações do humor ou afetivas, perturbações do controlo dos impulsos e perturbações de uso de álcool e outras substâncias.Têm duas características em comum: encontram-se com relativa frequência na população em geral e nas populações que procuram cuidados de saúde, e não se fazem acompanhar, em regra, de alterações graves.

Perturbações mentais graves: esquizofrenia e a doença bipolar (no passado, denominada psicose maníaco-depressiva). Envolvem com frequência sintomas psicóticos (por exemplo, ideias delirantes, alucinações, afastamento da realidade, ausência de consciência patológica) e incapacidade significativa a nível das atividades diárias e profissionais.

Outras perturbações: perturbações mentais orgânicas (estados confusionais agudos e demências), perturbações do comportamento alimentar e perturbações do desenvolvimento.

“A saúde mental dos portugueses”, FFMS

The World Mental Health Survey Initiative

É um projeto que coordena a implementação e análise dos estudos epidemiológicos referentes à saúde mental, abuso de substâncias e distúrbios de comportamento na população em geral, em todas as regiões da Organização Mundial de Saúde. Os resultados serão comparados com as consequências sociais adversas e com os padrões de procura de cuidados.

Esta iniciativa conta com a participação de 27 países, incluindo Portugal, e mais de 154 mil participantes entrevistados presencialmente.

The World Mental Health Survey Initiative

 

XI Conferência Crianças Desaparecidas e Exploradas Sexualmente, 29 maio no Centro de Estudos Judiciários

Maio 28, 2018 às 12:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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mais informações no link:

http://www.iacrianca.pt/index.php/atualidades/noticias/item/934-x-conferencia-criancas-desaparecidas

XI Conferência Crianças Desaparecidas e Exploradas Sexualmente, 29 maio no Centro de Estudos Judiciários

Maio 24, 2018 às 1:15 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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mais informações no link:

http://www.iacrianca.pt/index.php/atualidades/noticias/item/934-x-conferencia-criancas-desaparecidas

 

Risco de violência sexual online mais agressiva é maior para eles do que para elas

Março 26, 2018 às 8:00 pm | Publicado em Relatório | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.publico.pt/ de 7 de março de 2018.

Embora as meninas representem perto de dois terços das vítimas identificadas, o abuso mais violento acontece com meninos.

Karla Pequenino

O pior do abuso sexual de menores online, com níveis de sadismo e violência elevados, é mais provável de afectar meninos do que meninas. A informação surge num novo relatório da Interpol e da ECPAT (sigla inglesa para Fim da Prostituição, Tráfico Sexual e Pornografia de Crianças).

“Estamos a falar de crianças muito pequenas, bebés de apenas alguns meses, a serem vítimas de violência sexual extrema”, frisou Björn Sellström, o director do departamento da Interpol que investiga crimes contra crianças, na apresentação do relatório.

Embora as meninas representem perto de dois terços das vítimas identificadas (65%), os meninos participavam em formas de abuso violento e fantasias de parafilia. De acordo com o relatório, isto inclui desejo sexual por comportamento que põe a outra pessoa em aflição psicológica, física e resulta em lesões ou morte.

As conclusões baseiam-se na análise do conteúdo e de metadados (origem, data, duração) de imagens e vídeos recolhidos pela base de dados de crimes sexuais contra crianças da Interpol entre Junho e Agosto de 2017. “É comum pensar que a maioria das vítimas de abuso e exploração sexual são meninas. Contudo, a proporção significativa de meninos nas imagens e vídeos da base de dados pede mais atenção a este grupo”, lê-se nas conclusões do relatório publicado esta terça-feira.

Nos últimos anos, o aumento da disponibilidade de Internet de banda larga, a preços reduzidos, combinado com o uso de smartphones, impulsionou a indústria do tráfico sexual online. Isto inclui crianças a serem abusadas, em vídeos em directo, a troco de dinheiro, ou a serem vendidas para sexo na Internet.

Desde 2009, altura em que a Interpol começou a recolher e arquivar dados sobre o abuso sexual de crianças na Internet, a organização já conseguiu identificar mais de 12 mil vítimas. Das que faltam identificar, mais de 60% são crianças de idades muito precoces (incluindo bebés) e um terço são rapazes. Cerca de 5,6% dos ficheiros com crianças não identificáveis (um total de 34.474 imagens ou vídeos), incluem um abusador conhecido das autoridades.

As armadilhas do online

Além de analisar extensas bases de dados, a Interpol e a ECPAT entrevistaram autoridades envolvidas na investigação de abuso sexual de menores em Novembro de 2017. O objectivo era perceber as dificuldades em investigar estes crimes na Internet, em diferentes partes do mundo.

Um dos problemas destacados é que cada vez mais jovens produzem imagens e vídeos sexuais que publicam, voluntariamente, na Internet. “O fenómeno de ‘conteúdo sexual produzido por jovens’ parece ser um desafio”, lê-se nas conclusões do relatório. “Há uma necessidade de adaptar a gestão destes casos para distinguir aqueles em que houve uma ofensa criminosa.” Um exemplo recente data de Janeiro, quando mais de mil jovens dinamarqueses foram convocados a entrevistas com a polícia devido à partilha de  vídeos que circularam na Internet de dois jovens a terem relações consensuais (os vídeos, porém, não tinham sido partilhados voluntariamente).

Parte do propósito do estudo actual era “desenvolver um perfil das crianças não identificadas” para investir em melhores sistemas de apoio. A grande conclusão é que as crianças mais novas são as maiores vítimas de abuso sexual online, com os meninos (um terço) a receber frequentemente o tratamento mais violento.

As imagens recolhidas também permitiram identificar o género do atacante em perto de 50% dos casos. A grande maioria (93%) era do sexo masculino. Nos 7% dos casos em que surgem mulheres, o abuso era feito quase sempre em parceria com homens. “Isto mostra que ainda há muito que não sabemos e é preciso mais investigação”, frisou um representante da  ECPAT em conversa com a Reuters. No futuro, as organizações responsáveis pelo relatório querem, também, comparar as diferenças entre o conteúdo estático e em vídeo, e ver os efeitos de abuso offline comparativamente àquele que é transmitido online.

Descarregar o relatório Towards a Global Indicator on Unidentified Victims in Child Sexual Exploitation Material

Não, as crianças de 11 anos não fazem sexo consentido

Março 16, 2018 às 11:45 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Paula Cosme Pinto publicado no http://expresso.sapo.pt/ de 19 de fevereiro de 2018.

A discussão sobre a idade de consentimento nas relações sexuais volta a estar acesa em França, e é urgente que existam alterações à lei daquele país (que não determina uma idade abaixo da qual um menor não pode concordar ter relações sexual). Contudo, não é só a lei que carece de reflexão, mas também as mentalidades. No recente caso que envolveu uma menina de 11 anos e um homem de 28, li reações amiúde que alinhavam com os argumentos da defesa: com quase 12 anos, a miúda já sabia o que estava a fazer. Isto faz sequer sentido.

Relembremos este caso em meia dúzia de frases: um homem de 28 anos leva uma menina de 11 anos para sua casa. Supostamente, foram por livre vontade de ambos. O homem alega ter acreditado que ela tinha “pelo menos 16 anos”. Lá, têm relações sexuais também voluntariamente, embora a menina relate ter “ficado paralisada” e “incapaz de reagir”. O caso chegou a tribunal e mais uma vez a discussão sobre a idade de consentimento, resultante da lacuna da lei francesa, volta a ser posta em cima da mesa. Alega a defesa que a miúda tinha quase 12, “o que muda a história toda,” porque “ela já não é uma criança”. E como supostamente “fez mais do que uma menina da sua idade” (palavras também da defesa), o seu consentimento deverá ter validade neste caso, que a acusação quer ver julgado como uma violação e não como abuso sexual de menores (que têm penas distintas). Quanto a isso, a defesa alega não ter havido “violência, coerção ou ameaça”.

AS MIÚDAS DE HOJE EM DIA SÃO TODAS UMAS LOLITAS?

Como é que este caso vai terminar ainda ninguém sabe, mas que é urgente mudar a lei e proteger o maior da interesse das crianças que residem naquele país ( e no resto do mundo!), lá isso é. Até porque basta pensar que os argumentos apresentados pelos advogados de defesa vão ao encontro de muitas das reações de quem tem escrutinado este caso, e que têm por base um senso-comum perigoso: o que acha que as miúdas de 12 anos que aceitam a atenção masculina de homens feitos não são mais do que umas Lolitas. Provocadoras (as roupas e a maquilhagem que muitas usam parece ser razão para “estarem a pedi-las”), sabidonas (comportam-se como mulheres, diz-se por aí) e que sabem muito bem o que estão a fazer. Aliás, há quem diga que são elas que têm a capacidade de manipular os adultos, recorrendo aos seus múltiplos encantos. E, coitadinhos dos adultos, eles deixam-se manipular. Nada disto é verdade, e é muito perigoso que se continue a pensar assim.

Vamos lá ter em atenção umas quantas coisas importantes: sim, os pré-adolescentes, seja qual for o género, muito provavelmente manifestam curiosidade sexual ao entrarem na puberdade. Sim, há realmente muitos miúdos e miúdas que com esta idade já experimentam fazê-lo com os seus pares. Mas não, o consentimento dado por alguém desta idade a uma pessoa adulta não pode ser considerado válido. Se em termos de idade até já podemos questionar se alguém de 12 anos ainda é criança ou não, já quando pensamos em capacidade de discernimento é inquestionável que a ciência nos diz que, com essa idade, a sua capacidade não está desenvolvida ao ponto de poder tomar tal decisão consciente sobre os seus atos. Nem tampouco tem noção das perturbações múltiplas que desse encontro poderão advir.

A ÚNICA PESSOA RESPONSÁVEL POR UM ATO SEXUAL ENTRE UM ADULTO E UMA CRIANÇA É O ADULTO

Parafraseando uma explicação que recomendo que leiam no site da APAV “mesmo que se diga que a criança não foi forçada a praticá-los, isso é irrelevante para a justiça: praticar atos de natureza sexual com crianças é crime”. Pensando neste caso concreto, também é importante deixar claro que “a violação subentende o não consentimento da vítima, isto é, a vítima não concordou com a prática dos atos e foi, de algum modo, forçada. Quando isto acontece, mesmo envolvendo crianças com menos de 14 anos, estamos na presença de uma violação, e não de abuso sexual de crianças”. Ou seja, entenda-se de uma vez que não importa se a criança diz ou não que quer, se ela se expõe voluntariamente, se toma a iniciativa ou se o momento foi ou não feito com recurso a violência: a única pessoa responsável por um ato sexual entre um adulto e uma criança é o adulto. E, como tal, deve ser responsabilizado por isso.

Uma coisa é alguém em plena puberdade, com todas as alterações provocadas pelo aumento da produção hormonal, querer explorar novas formas de estar – incluindo a sexualidade – com os seus pares. Outra coisa é discernir o que está implícito na decisão de manter relações sexuais com um adulto. Essa capacidade de discernimento é pedida, sim, aos adultos. Banalizarmos e desvalorizamos o abuso sexual de menores recorrendo ao chavão da vida sexual ativa por opção e demais comportamentos, durante a puberdade, é um caminho pouco construtivo, e que põe em risco aqueles que devíamos proteger acima de tudo, as crianças e adolescentes.

 

Relação sexual entre homem de 29 anos e menina de 11 reabre polémica em França

Março 2, 2018 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do http://observador.pt/ de 14 de fevereiro de 2018.

Homem de 29 anos foi acusado em França de abusar sexualmente de uma menina de 11 anos e não de a violar por não haver “violência ou coerção”. Defesa alega que, com quase 12 anos, “já não é criança”.

Um homem de 29 anos foi acusado de abusar sexualmente de uma menina de 11 anos, na terça-feira, em Pontoise. Mas a decisão da Justiça francesa de o julgar por “abuso sexual” e não por violação está a causar polémica.

Ao final da tarde, escreve o jornal Le Monde, o juiz presidente do Tribunal Penal de Pontoise pediu ao Ministério Público (MP) que reclassificasse os factos e ordenou que o caso fosse alvo de uma investigação aprofundada, por isso, o julgamento foi adiado. A decisão foi considerada “uma vitória” tanto pela advogada da menina, Carine Diebolt, como pelas associações de proteção dos direitos das crianças.

O caso remonta a 24 de abril de 2017 e o Ministério Público (MP) analisou-o de forma diferente da acusação: enquanto os pais da menina afirmam que o homem a violou, dizendo que a menina ficou “paralisada” e “incapaz de se defender”, o MP considerou que a relação sexual foi consentida porque “não foi exercida nenhuma restrição física sobre a menor”, de acordo com o jornal francês.

“Ela tinha 11 anos e dez meses de idade, quase 12 anos”, disse o advogado de defesa, Marc Goudarzian, acrescentando que “isso muda a história toda” porque “ela já não é uma criança”.

Os advogados de defesa contam que a menina e o homem se encontraram num parque e que ela o seguiu voluntariamente para o seu apartamento, onde os dois consentiram a relação sexual.

“Sem violência, coerção, ameaça ou surpresa” não é violação

Em França, a lei não prevê um limite mínimo de idade para o sexo consentido. Considerando o MP que não houve “violência, coerção, ameaça ou surpresa” neste caso de alegada violação, decidiu julgar o homem — com 28 anos na altura em que o caso ocorreu — tendo em conta o “abuso sexual a uma menor de 15 anos”, que dá cinco anos de prisão, ao invés de o acusar de violação, que pode dar até 20 anos de pena. 

Carine Diebolt, a advogada da menor, crê que os elementos de violação estão reunidos: para além da penetração, a “restrição moral” (que resulta da diferença de idades), a surpresa, a violência (“ele foi agressivo no elevador”, conta), e a ameaça(“ele ameaçou arruinar a sua reputação na cidade se ela falasse”).

O advogado de defesa argumentou que a suposta vítima “fez mais que uma menina da sua idade” e que o seu cliente pensou que “ela tinha pelo menos 17 anos”, afirmando que não se deve dar crédito às declarações da menina, que são “mentira”.

Idade mínima de consentimento — um debate na agenda

A advogada da menor afirma que num caso destes a dúvida não é permitida. “A questão do consentimento de uma criança de 11 anos não deve sequer surgir”, disse, mostrando apoio total a uma alteração na legislação francesa nesta área, de acordo com o jornal The Guardian.

As associações L’Enfant bleu e a Voix de l’enfant (“A criança azul” e “Voz da criança”, em português) consideram que este é mais um caso que ilustra “as falhas da justiça francesa”.

“Existe uma necessidade urgente de uma presunção de não consentimento para ter relações sexuais entre menores e adultos, à semelhança do que já foi implementado por quase todos os países preocupados com a proteção das crianças”, defenderam as associações em comunicado.”

A verdade é que, recordam, devido a “mecanismos psicológicos e neurobiológicos cientificamente reconhecidos, uma criança pode não se opor a uma relação sexual que um adulto lhe impõe”.

Este já não é o primeiro caso que acontece em França. Em novembro, um homem de 30 anos foi absolvido depois de ser acusado de violar uma criança de 11 anos. O governo do presidente Emmanuel Macron propôs um projeto de lei que visa introduzir então uma idade legal mínima para o consentimento sexual — a idade ainda não está decidida, mas será entre 13 e 15 anos. O projeto de lei deverá ser apresentado a 7 de março.

 

 

No Dia Europeu da Vítima de Crime, a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima apresenta um balanço do apoio feito a menores em 2016 e 2017

Fevereiro 22, 2018 às 2:34 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Há, pelo menos, 19 crianças e jovens vítimas de violência sexual todos os meses. Os números são da rede CARE – uma unidade especializada em violência sexual e integrada na Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) – são apresentados esta quinta-feira num seminário em que se assinala o Dia Europeu da Vítima de Crime.

Durante 2016 e 2017, esta rede – uma unidade composta por juristas e psicólogos que se deslocam a qualquer ponto do país – prestou apoio a 446 crianças e jovens vítimas e a 103 familiares e amigos das crianças e jovens, num total de 6141 atendimentos. A maioria dos crimes (63,6%) aconteceram de forma continuada.

Além do apoio prestado, a rede Care permite também fazer um perfil das vítimas e dos agressores. A maioria das crianças e jovens abusados sexualmente são do sexo feminino (79,1%), têm entre os 14 e os 17 anos (35,87%) e sofreram às mãos de um homem (92,5%). Os agressores são, em maioria, pessoas com que fazem parte do contexto familiar (53,1%).

As queixas indicam que os menores foram abusados pelas pessoas com quem viviam (21,4% pela mãe ou pai; 11,7% pelo padrasto/madrasta). Mas também há casos de tios (6,4%) e avós (4,8%), ou mesmo até de irmãos (1,8%). Fora do contexto familiar são os agressores são pessoas desconhecidas (11,6%), colegas e amigos (7%), ou vizinhos (4,2%).

Estes números estão hoje em debate no seminário, na APAV em Lisboa, sobre o apoio prestados a crianças e jovens vítimas de violência sexual.

 

Artigo de Carolina Reis para o jornal Expresso, em 22 de fevereiro de 2018.

Rede Care acompanha 446 crianças e jovens vítimas de violência sexual

Fevereiro 21, 2018 às 8:04 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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A APAV assinala amanhã o Dia Europeu da Vítima de Crime com enfoque nos abusos.

São crianças e adolescentes, a maior parte deles abusados por familiares, “pelo pai, pela mãe, pelo padrasto”, descreve a criminóloga Carla Ferreira, gestora técnica da Rede Care, uma unidade especializada em violência sexual que já acompanhou 446 menores vítimas de abusos em dois anos de existência. A Rede Care está integrada nos serviços de proximidade da APAV (Associação Portuguesa de Apoio à Vítima).

A APAV assinala amanhã o Dia Europeu da Vítima de Crime com um seminário/debate sobre o apoio a crianças e jovens vítimas de violência sexual, onde se fará o balanço de dois anos de atividade da Rede Care. “A maior parte das crianças que nos chegam já tem 13, 14 anos mas muitas vezes começaram a ser vítima de violência sexual anos antes, aos 9 ou aos 10”, explica Carla Ferreira.

Esta unidade especializada conta com nove técnicos efetivos, incluindo juristas e psicólogos, que se podem deslocar a qualquer ponto do país para dar apoio a casos urgentes que sejam denunciados à Rede. “A maior parte das denúnicas chega-nos da própria família da vítima e logo a seguir da Polícia Judiciária. Em 2016 e 2017 29% dos casos chegaram por via familiar e 25% através da PJ. Um quarto dessas vítimas ainda está a receber apoio”. A Rede Care providencia um técnico de referência para acompanhar sempre as crianças nas diligências ” e tenta garantir que o menor seja ouvido apenas as vezes necessárias”. A criminóloga nota que “houve um grande impulso dos tribunais em providenciar apoio às crianças vítimas de crimes sexuais que têm de comparecer em diligências judiciais”. Carla Ferreira regista que 9% das denúncias que chegaram à Rede Care nestes últimos dois anos foi através dos tribunais e Ministério Público. As outras participações chegam através dos hospitais e das comissões de proteção de crianças e jovens (CPCJ). A unidade especializada da APAV apoia jovens até aos 23 anos. “Os maiores de idade que tenham sido vítimas de crimes sexuais na infância podem apresentar queixa até aos 23 anos”.

Entre os casos que têm chegado à Rede Care estão também alguns de “crianças filhas de emigrantes que vêm de férias com a família no Verão e acabam por ser vítimas de abusos nesse período”.

A maior parte das participações vem da região de Lisboa e Vale do Tejo, logo seguida do Grande Porto.

O tipo de apoio que é prestado pela unidade especializada é extensível à família da vítima. “As as famílias vão precisando de esclarecimento ao longo do processo, sobre o timing para pedir advogado, para pedir indemnização, etc, e acabamos por ajudar no esclarecimento dessas dúvidas”. Como explica Carla Ferreira, a Rede Care “é uma ponte entre o processo crime e as famílias”. “Há situações que ficam na zona cinzenta, em que as pessoas não são elegíveis para ter o apoio jurídico via Segurança Social nem têm capacidade para pagar a nível particular”. Depois de um primeiro contacto da vítima com a unidade, os técnicos avaliam da necessidade que há (ou não) de apoio psicológico. “Temos de ver se foram atos físicos violentos, qual a relação da criança com o agressor, se tem vindo a acontecer há muito tempo, se há reataguarda familiar ou não. Depois fazemos a avaliação do processo crime como um todo, até para apoiar a vítima e a família”.

 

Notícia de Rute Coelho para o Diário de Notícias em 21 de fevereiro de 2018

26 anos em silêncio [Quebrar o Silêncio] – vídeo sobre abuso sexual de crianças

Fevereiro 7, 2018 às 8:00 pm | Publicado em Vídeos | Deixe um comentário
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mais informações:

https://quebrarosilencio.pt/

 

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