CURSO: Técnico de Apoio à Vítima em Apoio a Crianças e Jovens Vítimas de Violência Sexual – 6, 23 e 27 de novembro em Coimbra

Outubro 19, 2018 às 2:55 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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A violência sexual contra crianças e jovens constitui uma gravíssima violação dos direitos e da integridade física e mental. Trata-se de um problema social complexo e com impactos muito negativos e duradouros nas crianças, que requer uma abordagem integrada e uma estreita articulação e cooperação entre várias entidades e os profissionais. As crianças e jovens vítimas de violência sexual representam um grupo de risco e particular vulnerabilidade entre as vítimas de crime, pela sua idade, desenvolvimento cognitivo e emocional.

Com este curso, dinamizado pela APAV,  pretendesse capacitar profissionais para atender crianças e jovens vítimas de violência sexual, bem como familiares e amigos, respeitando os melhores procedimentos e normas.

Mais informações no link:

http://www.iacrianca.pt/index.php/setores-iac-cj/noticias-forum/item/959-curso-tecnico-de-apoio-a-vitima-em-apoio-a-criancas-e-jovens-vitimas-de-violencia-sexual-dia-6-23-e-27-de-novembro-2018

Como evitar que um pedófilo se transforme num abusador?

Outubro 5, 2018 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 15 de setembro de 2018.

Director do Instituto de Sexologia da Charité – Universidade de Medicina de Berlim esteve na Faculdade de Medicina do Porto a explicar como é que a Alemanha está a fazer prevenção de abuso sexual.

Ana Cristina Pereira

A pergunta foi lançada por Klaus M. Beier, director do Instituto de Sexologia da  Charité – Universidade de Medicina de Berlim, no auditório da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto: como prevenir o abuso sexual de crianças? E a resposta saiu-lhe clara. “Ajudando os pedófilos a controlarem os seus impulsos.”

Desenvolveu um projecto pioneiro na Alemanha, que apresentou na 13.ª edição do Young European Scientis Meeting, a conferência internacional organizada por alunos daquela faculdade. E diz-se disposto a treinar quem desejar seguir-lhe as pisadas. “Gostava que houvesse em Lisboa ou Porto um grupo de terapeutas que se disponibilizassem para avançar com um serviço destes”, afiança.

O abuso sexual pode provocar nas vítimas stress pós-traumático. Os efeitos de longa duração afectam o sistema imunitário, abrindo caminho a outras doenças. E isto leva Beier a questionar por que se investe tão pouco em prevenção primária.

O projecto foi lançado em 2005, com uma campanha que incluiu cartazes e spots. A mensagem era mais ou menos esta: “Tu não és culpado por ter este desejo sexual, mas és responsável pelo teu comportamento sexual. Há ajuda! Não te tornes num agressor.”

A pedofilia, classificada pela Organização Mundial de Saúde como uma doença, “não é uma escolha, é um destino”, enfatiza Beier. “Manifesta-se durante a puberdade e mantém-se estável ao longo da vida. Não tem cura. Uma pessoa pode, porém, aprender a controlar os seus ímpetos, evitar passar à prática.”

Importa não confundir pedófilos com agressores sexuais de crianças. Cerca de 60% dos agressores sexuais identificados usam crianças como substituto. Têm, por exemplo, uma debilidade mental, um distúrbio de personalidade anti-social ou uma atmosfera familiar traumatizante. “Eles gostariam de ter sexo com uma mulher; recorrem a uma menina, porque é mais fácil”, diz. Cerca de 40% sofrem de pedofilia (atracção por crianças pré-púberes) ou hebefilia (atracção por púberes ou recém-púberes). E esses, pelo nível de sofrimento que experienciam, estarão mais abertos a procurar ajuda.

“A sociedade tem de parar de demonizar a pedofilia”, considera o especialista. Só se conseguirá tratar estas pessoas a título preventivo se houver um serviço especializado e se esse serviço for capaz de estabelecer uma relação de confiança (o que implica não denunciar) e de empatia (compreender o sofrimento).

A mensagem que, em seu entender, importa interiorizar é: “Sabemos que isto faz parte da sexualidade humana, sabemos que essa é a orientação sexual de 1% da população, gostaríamos de integrar essas pessoas, não queremos que passem à prática, porque não queremos que façam mal às nossas crianças. Oferecemos-lhe tratamento. Quem abusar de crianças será castigado.”

Parece-lhe que os media têm responsabilidades. “No primeiro ano do programa, os jornalistas foram muito hostis”, recorda. “Perguntavam-nos: ‘O que estão a fazer aí? Estão loucos? Estas pessoas são criminosas. Têm de fazer queixa delas.’ Nós tivemos de os convencer de que esta é a maneira certa de proteger as crianças. E eles compreenderam. Começaram a usar termos mais neutros.”

A linguagem não é de somenos. “Se és um arquitecto ou um médico que sofre de pedofilia e lutas contra isso, não vais aceitar entrar num programa que diga que és um abusador de crianças”, exemplifica. “Tu vais pensar: eu tenho controlado o meu comportamento e tu estás a dizer que eu sou um abusador de crianças! Eu nunca abusei de uma criança! Eu não quero abusar de nenhuma criança!”

O programa para adultos existe em 11 cidades alemãs. Nos primeiros 12 anos, 8497 pediram ajuda e 1418 revelaram-se aptos para tratamento, que combina psicoterapia individual e de grupo com fármacos. Em 2014, arrancou um programa para adolescentes em Berlim. Até Junho deste ano, 114 pediram ajuda e 51 receberam luz verde.

Dois terços dos adultos que se sujeitaram a tratamento estão a conseguir controlar a sua pulsão sexual. Um terço admite ter voltado a ver pornografia infantil. Nos adolescentes, até agora não há registo de reincidência. Beier quer alargar a oferta a adolescentes de todo o país. Por terem uma idade mais próxima da das vítimas, “correm maior risco” de passar do desejo à prática.

O que pode fazer quem está longe? A equipa criou uma ferramenta de autoajuda para quem sente atracção por menores e não tem acesso a terapia e colocou-a online. Está em inglês e em alemão. No futuro, deverá existir noutras línguas, incluindo português. Já recebeu pedidos de ajuda de pedófilos de cerca de 60 países, nomeadamente de Portugal.

 

Há cinco crianças por dia vítimas de crimes sexuais

Setembro 25, 2018 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do Jornal de Notícias de 12 de setembro de 2018.

P.R.E.V.E.N.I.R. O abuso sexual de crianças e adolescentes

Setembro 17, 2018 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto de Rute Agulhas publicado no Observador de 7 abril de 2018.

As crianças devem aprender a distinguir as partes privadas e não privadas do seu corpo e identificar as situações em que essas partes privadas podem ser tocadas (como em contextos de higiene e saúde).

Abril é, desde o início deste século, assinalado em diversos países como o mês da prevenção dos maus tratos na infância e juventude. Uma forma simbólica de assinalar a importância da prevenção primária e de sensibilizar a comunidade, de uma forma geral, para o papel fundamental que desempenha na prevenção, detecção e sinalização de qualquer forma de mau trato.

Porque devemos privilegiar uma cultura preventiva, de natureza universal, atuando sobre os factores de risco associados aos maus tratos, minimizando-os, ao mesmo tempo que se potenciam factores protectores. Prevenir ao invés de apenas intervir ou reagir.

Mas como se faz esta prevenção? O que implica? Que papel pode desempenhar cada um de nós?

Vamos centrar-nos sobre o abuso sexual infantil, por ser a forma de mau trato que é menos abordada, quer na família, quer na escola, talvez por estar associada ao tema da sexualidade, que continua ainda a ser um tabu.
A sigla ajuda a sistematizar as principais ideias e regras básicas a reter.

P.R.E.V.E.N.I.R.

P (Privadas)
O corpo tem parte privadas (mamas e órgãos genitais) e não privadas. As crianças devem aprender a distinguir as partes privadas e não privadas do seu corpo e identificar as situações em que as suas partes privadas podem ser tocadas (por exemplo, em contextos de higiene ou de saúde).
Devem ainda aprender que o seu corpo lhes pertence. «O meu corpo é meu!» é algo que todas as crianças devem interiorizar.

R (Risco)
Existem situações de risco que as crianças devem aprender a identificar. Nem sempre são situações muito óbvias, na medida em quem os agressores sexuais (que podem ser de ambos os sexos, ter qualquer idade, profissão ou aparência) recorrem a estratégias de sedução e envolvimento, de forma gradual, bem como a comportamentos que podem ter um duplo significado. Por exemplo, mascarando comportamentos progressivamente mais sexualizados com brincadeiras de cócegas, massagens, ou mesmo cuidados de higiene. As crianças mais novas, em particular, têm maior dificuldade em identificar estas situações, sendo que nem sempre as percepcionam como abusivas.

E (Escutar)
O abuso sexual reveste-se de segredo e o processo de revelação é muitas vezes inibido por sentimentos de culpa, vergonha e medo. A criança sente medo de não ser acreditada ou medo de consequências negativas, para si ou para terceiros. Medo ainda de ser afastada da família ou de que algo mau possa acontecer ao abusador, tantas vezes uma pessoa especial e de quem a criança gosta, o que potencia conflitos de lealdade.
No entanto, muitas crianças fazem tentativas de revelação junto de adultos em quem confiam. Tentativas estas que nem sempre são explícitas, e que é preciso saber descodificar. «Não gosto dos beijos do tio»,ou «não quero mais ir para casa da avó»são alguns exemplos de tentativas de dizer algo. Algo que nem sempre é compreendido.
O adulto deve escutar activamente a criança, dar-lhe espaço para falar, mas também e, acima de tudo, estar atento a eventuais alterações de funcionamento que possam surgir (por exemplo, alterações de comportamento, emocionais, sociais).
Escutar a criança significa ouvir para além daquilo que é dito. Ver para além do que é observado. E manifestar disponibilidade emocional para ouvir, mostrar que se acredita na criança e desresponsabilizá-la pelo abuso.

V (Valorizar)
Valorizar as competências da criança, os seus recursos e potencialidades e ajudá-la a perceber que pode desenvolver competências para lidar com eventuais situações de risco.
Aprender a distinguir segredos bons e segredos maus. Segredos bons são segredos que nos fazem sentir bem e que, mais tarde ou mais cedo, acabam por ser revelados (por exemplo, uma prenda ou surpresa que se prepara para alguém). Pelo contrário, os segredos maus estão associados a emoções negativas, geram desconforto e mau estar. Os segredos bons podem ser guardados, mas os segredos maus devem sempre ser revelados.

E (Emoções)
Crianças mais novas, em idade pré-escolar, já conseguem distinguir emoções positivas e negativas, e associar estas últimas à necessidade em pedir ajuda. Emoções como a tristeza, a zanga, o medo, a vergonha e a culpa podem surgir relacionadas com toques ou conversas sobre as partes privadas ou, ainda, com segredos maus. Qualquer situação que seja geradora de emoções negativas deve ser revelada a um adulto de confiança.

N (Não)
A criança tem o direito de dizer «Sim» e dizer «Não». Dizer «Não» aos toques ou conversas sobre as partes privadas, aos segredos maus, a qualquer interacção que a faça sentir emoções negativas.
Dizer «Não» e pedir ajuda a um adulto de confiança. E se esse adulto não acreditar em si? Pedir ajuda a outro adulto. E assim sucessivamente, até que seja acreditada e protegida.
Não estamos a proteger as crianças quando lhes dizemos que devem obedecer sempre aos adultos. Pois nem sempre os adultos têm razão.

I (Internet)
O uso do Internet faz parte da vida diária da maioria das crianças e adolescentes, com recurso aos telemóveis e outros dispositivos. Em muitas situações, esta ligação à Internet tem claros benefícios, permitindo aprender e estudar, socializar e jogar com os amigos, partilhar fotos e vídeos, ou conversar em salas de chat. Mas também existem riscos associados ao uso da Internet, que podem envolver interacções de natureza sexual. Podem ser expostos a imagens de natureza sexual, receber mensagens sexuais, ser vítimas de chantagem, exploração ou abusos sexuais.
Os pais e cuidadores desempenham um papel fundamental no sentido de promover boas práticas do uso da Internet, estando atentos e conversando abertamente sobre estes riscos, no sentido de promover uma navegação segura. A utilização de controlos e filtros parentais também ajuda na protecção das crianças online.
Novos termos reflectem novas práticas que os pais têm de conhecer, para poder identificar e sinalizar às entidades competentes.
«Sextortion»- exploração de crianças online, em que o agressor chantageia, ameaçando publicar imagens sexuais desta em troca de favores sexuais, dinheiro ou outros benefícios.
«Sexting»- enviar e receber imagens sexualmente explícitas.
«Sex-Chatting»- chat de natureza sexual, em que existe troca de imagens e conteúdos sexuais entre crianças e adultos. Muitas vezes é nestes chats que se inicia o processo de aliciamento gradual da criança (o chamado «grooming»), com vista ao envolvimento em pornografia infantil ou coerção sexual.
As crianças devem aprender a usar a Internet em segurança. Não revelar dados pessoais, não marcar encontros com pessoas que apenas conhecem online. Não abrir mensagens ou ficheiros de pessoas que não conhecem e saber que devem sempre contar a um adulto de confiança qualquer situação que os faça sentir-se desconfortáveis.

R (Revelar)
Os toques ou conversas sobre as partes privadas, os segredos maus, ou qualquer outra situação que gere emoções negativas deve ser revelada a um adulto de confiança. As crianças devem ser ajudadas a identificar estes adultos, fazendo aquilo que alguns autores chamam do «círculo da confiança».Quem está dentro do círculo de confiança? Quem são as pessoas a quem posso pedir ajuda se precisar?
Dentro deste círculo devem estar várias pessoas, a quem a criança deve revelar qualquer situação potencialmente abusiva até que seja acreditada e protegida.

Em resumo, prevenir o abuso sexual não envolve falar de penetração, masturbação ou expor a criança a conteúdos sexualmente explícitos. Implica abordar temas como o corpo, os toques, os direitos, as emoções, os segredos e os riscos associados ao uso da Internet. Implica também aprender a identificar potenciais situações de risco e pedir ajuda.

A prevenção do abuso sexual é da responsabilidade de todos nós, enquanto comunidade. Exige uma abordagem sistémica e holística, envolvendo a criança, os pais, professores e técnicos de uma forma geral.
Exige ainda (talvez o mais difícil) que toda a comunidade passe a abordar este tema com a mesma naturalidade com que aborda a prevenção rodoviária ou realiza simulacros de sismos nas escolas. No fundo, dotar as crianças de competências para lidar com potenciais situações de risco.

Não podemos ignorar. Devemos P.R.E.V.E.N.I.R.

 

“Bullying” e crimes sexuais contra crianças aumentam em Portugal

Setembro 4, 2018 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Foto: Daniel Garcia/Unsplash

Notícia da Rádio Renascença de 23 de agosto de 2018.

“Estas situações continuam a acontecer debaixo de uma cultura do silêncio”, alerta APAV, que hoje divulga estatísticas relativas a crianças e jovens vítimas de violência doméstica.

Os pedidos de apoio relativos a crimes sexuais contra crianças e jovens e à violência em meio escolar aumentaram, nos últimos anos, em Portugal. É a conclusão Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV), que esta quinta-feira divulga estatísticas relativas aos últimos quatro anos.

Os dados mais significativos dizem respeito aos anos de 2016 e 2017, altura em que aumentaram os casos de violência sexual: entre 30% e 60%.

No que diz respeito ao “bullying”, o aumento abrange o período analisado pela estatística (2013/2017) e tem merecido a preocupação da associação.

“É uma situação que nos continua a preocupar e na qual a APAV tem investido, não só no apoio como na prevenção, trabalhando estas questões junto das escolas, dos alunos, dos professores e do pessoal não docente, numa lógica de cultivar uma cultura da intolerância à violência”, afirma à Renascença Carla Ferreira, da associação.

Outro dado a reter é o facto de 70% dos pedidos de apoio dizerem respeito a atos de violência em ambiente familiar.

“Continuamos a ter aqui uma enorme prevalência de situações que acontecem no contexto doméstico – portanto, mais de 70% destas situações que nos foram reportadas acontecem em contexto doméstico e mais de 60% destas crianças vítimas foram-no vítimas por parte do pai ou da mãe, portanto são filhos ou filhas dos alegados autores”, refere Carla Ferreira.

Os dados indicam também “um decréscimo quer do número de vítimas apoiadas quer do numero de crimes registados” entre 2013 e 2015. Carla Ferreira deixa, contudo, um alerta: “não devemos que isto nos contente muito, porque sabemos que muitas destas situações continuam a acontecer debaixo de uma cultura do silêncio, que tem de ser combatida”.

Os números dos últimos dois anos podem levar-nos a pensar que haverá menos violência, mas “isso não ser necessariamente assim”, frisa.

“Não podemos deixar de estar atentos a estes casos que acontecem com estas vítimas, que são vítimas especialmente vulneráveis, e deixar que as situações possam estar a acontecer e estarmos todos a contribuir para este silêncio”, sublinha.

A estatística revela ainda casos residuais de xenofobia, racismo e discriminação religiosa. “São número muito pequeninos em relação ao global do número de crianças e jovens que apoiamos, mas há uma tendência crescente”, admite a responsável da APAV.

Entre 2013 e 2017, a associação apoiou 4.687 crianças e jovens, vítimas de 8.035 crimes.

O documento citado na notícia é o seguinte:

Crianças e Jovens Vítimas de Crime e de Violência 2013-2017

 

Estatísticas APAV | Crianças e Jovens Vítimas de Crime e de Violência 2013-2017

Agosto 31, 2018 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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descarregar o documento no link:

https://apav.pt/apav_v3/index.php/pt/1823-estatisticas-apav-crianc-as-e-jovens-vi-timas-de-crime-e-de-viole-ncia-2013-2017

I Jornadas do Alto Alentejo Contra a Violência, 12 outubro em Ponte de Sor

Agosto 27, 2018 às 6:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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mais informações no link:

https://apav.pt/jornadas/index.php/home-alto-alentejo

 

Lista de pedófilos com 728 novos nomes em 2018

Agosto 23, 2018 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Diário de Notícias de 11 de agosto de 2018.

Roberto Bessa Moreira

Desde o início do ano, 728 pedófilos foram acrescentadas ao Registo de Condenados por Crimes Sexuais contra Crianças (RCCSC), lista que, atualmente, é constituída por 5252 nomes. Este último número é inferior ao que se verificava em setembro do ano passado (5487) e no final de 2016 (5739).

A divergência justifica-se com a existência de menos condenações pela prática de crimes sexuais em que a vítima seja menor de idade – 1096 no ano passado e 1261 em 2016 – mas também pela saída contínua, como prevê a lei, de pedófilos de uma lista em constante mutação.

“Importa sublinhar que o número de registos não é o somatório dos registos que vão sendo criados até então, pois também há registos que vão sendo cancelados pelo decurso do respetivo prazo legal conforme a pena aplicada. O número de registos em cada momento varia em função destes dois fatores: registos criados e registos cancelados até então”, explica ao JN o Ministério da Justiça, responsável pela gestão do RCCSC.

A lei que criou a chamada “lista de pedófilos” foi aprovada em 2015 e nunca foi consensual. No Parlamento, só a então maioria PSD/CDS votou a favor de uma proposta apresentada pelo ministério liderado, na altura, por Paula Teixeira da Cruz e o diploma contou com a oposição de diferentes entidades, nomeadamente da Comissão Nacional de Proteção de Dados, que emitiu parecer a considerar a proposta de lei inconstitucional. Mas, apesar das ameaças diversas, o diploma nunca chegou a ser apreciado pelo Tribunal Constitucional e entrou em vigor em novembro do mesmo ano.

Acesso restrito

Desde 2015, sempre que um pedófilo é condenado o seu nome é acrescentado ao RCCSC, que só pode ser consultado por magistrados judiciais e do Ministério Público, para fins de investigação criminal. As forças de segurança, como a Polícia Judiciária, PSP ou GNR, também podem consultar este registo, desde que tal se justifique durante atos de inquérito. A Direção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais e a Comissão de Proteção das Crianças e Jovens são as outras entidades com acesso à identificação dos condenados por crimes sexuais contra crianças.

De fora ficam os encarregados de educação que suspeitem que os seus filhos possam a estar importunados. “Os pais não têm acesso ao RCCSC. O que a lei faculta é a possibilidade de os pais requererem à autoridade policial a confirmação ou averiguação de situação concreta, que lhes justifique um fundado receio de que na área de residência, ou na área em que o menor frequente estabelecimento de ensino, resida ou trabalhe pessoa que conste do registo, sem que lhes seja facultado o acesso a identidades ou moradas que constem no registo”, esclarece o Ministério da Justiça.

Números

Vinte anos é o período máximo que um pedófilo, condenado a uma pena de prisão superior a 10 anos, pode permanecer no RCCSC. Se a pena for entre cinco e 10 anos, a permanência no registo é de 15 anos, mas se a condenação for entre um e cinco anos de prisão, a ficha é válida por 10 anos.

Uma condenação até um ano de prisão equivale a cinco anos de permanência no RCCSC.

Alteração de morada comunicada

Um pedófilo inscrito na base de dados tem de comunicar, no prazo de 15 dias, qualquer alteração no seu local de residência e de trabalho. Também tem de informar ausências do país.

 

 

 

Workshop sobre Prevenção do Abuso Sexual Infantil, 12 junho em Cantanhede

Junho 6, 2018 às 8:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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mais informações:

https://www.facebook.com/APFamiliaCentro/

 

José Caldas de Almeida: “Um dos fatores mais devastadores na saúde mental é o abuso sexual”

Junho 5, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista do Observador a José Caldas de Almeida no dia 19 de maio de 2018.

Vera Novais

A violência sexual e a pobreza são os fatores que melhor permitem prever o aparecimento de doenças mentais. Perda e abandono na infância também têm um impacto importante na saúde mental das crianças.

Todos nós, em algum momento da vida, teremos de enfrentar uma situação que nos fará sentir “em baixo”, que nos deixará ansiosos ou que nos deixará sem dormir. A maior parte das vezes conseguiremos ultrapassar estas situações sem precisar de recorrer aos serviços de saúde, mas se tivermos de o fazer não precisamos de ter vergonha disso.

As doenças mentais podem ser incapacitantes, mas também podem ser tratadas e as pessoas podem voltar a ter uma vida normal, diz José Caldas de Almeida. O psiquiatra defende que as pessoas devem procurar os serviços de saúde assim que se apercebam que algo não está bem e devem iniciar os tratamentos o quanto antes. A recuperação será melhor e mais rápida.

E desengane-se se pensa que as doenças mentais só se tratam em asilos. Atualmente, a maior parte da recuperação é feita em casa e só se recorre a internamento em casos específicos e por pouco tempo, esclarece o professor de Psiquiatria e Saúde Mental da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa. A presença de familiares e amigos e a sensação de pertença à comunidade, não só podem ajudar na recuperação, como desempenham um papel importante na prevenção das doenças mentais.

“Dependendo do tipo de sociedade e de cultura em que se vive, vários são os interlocutores que podem auxiliar as pessoas nestas situações – família, amigos, vizinhos, membros da comunidade em quem se confia, grupos de autoajuda, etc”, escreve no livro ‘A saúde mental dos portugueses’, publicado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos. “Estudos realizados pela OMS [Organização Mundial de Saúde] mostraram que, por exemplo, entidades como os líderes religiosos e as cabeleireiras podem ter em alguns países um papel relevante no suporte psicológico a pessoas com depressão e na referenciação dos casos mais graves para os serviços de saúde.”

Como principais grupos de risco para as doenças mentais, Caldas de Almeida aponta os pobres e as mulheres, ambos sujeitos a maiores fatores de stress que podem condicionar o aparecimento de depressão ou estados de ansiedade. As mulheres são ainda o grupo mais sujeito a um dos mais importantes fatores de trauma que levam ao aparecimento de doenças mentais, segundo o psiquiatra: a violência sexual.

Ao Observador, José Caldas de Almeida contou como está a saúde mental dos portugueses e o que podemos fazer para diminuir a taxa de doença mental no país: mais prevenção e melhor qualidade nos serviços.

Devíamos preocupar-nos mais com a saúde mental em Portugal?
Sim, devíamos preocupar-nos e dedicar mais atenção aos problemas da saúde mental. Quando digo devíamos, não estou a pensar só nos decisores políticos, mas estou a pensar nos responsáveis a outros níveis, porque as coisas não se resolvem só com leis e com políticas, ou até com investimentos. Sobretudo em áreas como esta, em que há um desconhecimento muito grande disseminado na população portuguesa, na opinião pública, nos media.

Há muitas pessoas que ainda encaram uma ida ao psicólogo como um capricho ou uma ida ao psiquiatra como um atestado de loucura. Isto condiciona o acesso aos cuidados de saúde mental?
Isso é uma das questões complicadas: a associação que existe entre a doença mental e a ideia de que não são verdadeiras doenças ou de que não há nada a fazer para as tratar, no fundo, que não são um problema sério de saúde pública. E essa é uma questão importante, que leva a que uma proporção significativa de pessoas que têm problemas de saúde mental, e que deviam ser tratadas, acabam por não procurar cuidados, ou porque têm vergonha ou porque não têm ideia de que aquilo é um problema de saúde que pode ser tratado.

Mas o problema é mais vasto. Estudos em muitos países, entre os quais Portugal, trouxeram uma visão bastante diferente daquela que era a visão tradicional. Por um lado, há a prevalência das doenças mentais que é muito superior àquilo que se julgava e a associação entre essas doenças e as doenças chamadas físicas — uma associação que tem grandes implicações a vários níveis. Por outro lado, o conhecimento muito maior que existe quanto aos impactos, às consequências negativas da doença mental, e não só em termos de mortalidade. Não é das doenças que está associada a uma mortalidade mais elevada, mas tem impactos sobretudo em termos das incapacidades a que está associada. O que hoje se sabe é as doenças mentais são uma parte importante, em Portugal à volta de vinte, vinte e tal por cento, de toda a carga DALY [Disability Adjusted Life Years], que mede o tempo de vida boa que se perde, ou porque se morre prematuramente ou porque se fica seriamente incapacitado.

Quando se fala em incapacidade, associa-se muitas vezes à incapacidade física.
Pois, mas há incapacidades que são tão ou mais negativas do que as físicas: a incapacidade para trabalhar ou para se ser produtivo tem implicações muito grandes para a pessoa, para a família e para a sociedade; a incapacidade para se relacionar com os outros, para ter relações satisfatórias com os outros, tem implicações enormes, algumas que não são mensuráveis.

As pessoas estão despertas para este problema? É fácil perceber que uma pessoa que tenha uma lesão física possa não estar capaz de desempenhar determinadas tarefas, mas será que as pessoas estão preparadas para identificar as incapacidades causadas por problemas na saúde mental?
Cada vez há mais sensibilidade para isso. Os responsáveis das grandes empresas, que empregam muita gente, sabem perfeitamente que têm um número enorme de faltas ao trabalho — chamado absentismo — e sabem que têm presentaísmo (as pessoas que vão ao trabalho, mas produzem menos do que habitualmente). Hoje em dia, muitas grandes empresas levam isto muito a sério. Tão a sério que são cada vez mais aquelas que desenvolvem programas para identificarem estes casos e para ajudarem as pessoas. Há poucos dias, o Guardian publicou um artigo de [António] Horta Osório que falava dos programas que o banco que dirige tem — quem diz esse banco, diz muitas outras empresas. Isto para lhe dizer que há cada vez mais pessoas e entidades que se dão conta da importância disto.

Às vezes, para a própria pessoa que tem um problema de saúde mental, é difícil identificá-lo e assumir que pode ter um problema. As empresas, os colegas de trabalho, a família, os amigos destas pessoas têm um papel importante para encaminhar as pessoas para o médico?
Claro que facilita muito se a pessoa que sofre desse problema tiver familiares ou amigos ou colegas ou responsáveis no trabalho que lhe possam dizer, de uma forma apoiante — não de uma forma a que se sintam excluídas. Mas infelizmente isto [falar de forma negativa] é o que acontece muitas vezes, daí que muitas pessoas tenham medo de dizer no emprego que têm esse problema. Diria que, embora continuemos a ter um estigma muito grande associado à doença mental, embora continue a haver uma ignorância muito grande em relação ao que são as doenças mentais, quais são as suas implicações, o que se pode fazer para as prevenir e o que se pode fazer para as tratar, tem havido progressos muito grandes nestes últimos anos.

A pergunta é mesmo essa: o que são as doenças mentais? E se são a mesma coisa que problemas neurológicos?
Não, uma coisa são doenças neurológicas [acidentes vasculares cerebrais, doença de Parkinson, epilepsia], outras coisas são as doenças mentais [ou psiquiátricas]. Às vezes podem coexistir ou pode haver doenças que têm uma componente neurológica e uma componente psiquiátrica, como as demências. As doenças psiquiátricas manifestam-se por sintomas associados às funções psíquicas básicas, alterações do pensamento, alterações do afeto ou alterações do comportamento, assim como uma série de sintomas que podem ser mais físicos, como as alterações do sono, alterações do apetite, alterações da sexualidade, alterações da capacidade para desenvolver atividades.

Estas doenças estão, muitas vezes, associadas a outra doenças, é frequente a comorbilidade entre doenças psiquiátricas e não psiquiátricas. Durante muito tempo, o estigma das doenças mentais baseava-se em ideias distorcidas, ideias erradas, quanto à natureza destas doenças: sobretudo as mais graves, as que envolviam alterações do pensamento, ideias delirantes, alucinações, as chamadas psicoses. As psicoses, pela estranheza das suas manifestações, causam alguma apreensão, as pessoas tendem a ter mais receio do que de outras manifestações patológicas. Isso levou a este medo da loucura, a não querer pensar nisso, a querer se afastar.

Quanto custam as doenças mentais?

Também por isso é que as pessoas eram internadas e afastadas da sociedade.
Havia a tendência para tentar tirar essas pessoas de circulação. Na Europa, e noutras partes do mundo, foram criados asilos para onde iam estas pessoas, como iam pessoas indesejáveis. E muitas tentativas que foram feitas, a partir de certa altura, para substituir essas instituições isoladas, com funções sobretudo asilares foi muito difícil e ainda hoje é difícil.

Em Portugal, houve uma lei de saúde mental muito avançada em 1963. Criaram-se centros de saúde mental em todos os distritos, o que permitiu descentralizar e dar muito mais acesso aos serviços de saúde mental.

Numa altura em que a saúde mental não tinha muita importância.
Nenhuma. Foi na altura que entrei para a faculdade. Havia meia dúzia de tipos maduros que queria ir para psiquiatria. Mas o que aconteceu é que passado pouco tempo de terem sido criados, o Governo incorporou nestes centros de saúde mental — criados para serem coisas não-asilares e para serem uma alternativa — os albergues de mendicidade. Os albergues de mendicidade eram os caixotes do lixo sociais que existiam, onde se metiam os tipos que se queriam tirar de circulação, que não tinham capacidade para ter uma vida. Foi uma coisa terrível. Uma das razões do estigma, e para não se dedicar grande atenção às doenças mentais, é que durante muito tempo houve a ideia que não havia nada a fazer, de que eram pessoas que tinham uma doença para a qual não havia tratamento, e que portanto estavam condenadas. Quando comecei a trabalhar em psiquiatria, nos hospitais psiquiátricos, encontrei muitos doentes que estavam lá há 30, 40, 50 anos, uma vida inteira. E alguns não precisavam. Foram pessoas das quais se desistiu e ficaram ali.

Uma vez internados, essas pessoas conseguiam sair ou ficavam catalogados de loucos?
Não é que todas as pessoas que eram internadas não saíssem, mas para algumas pessoas que tinham situações mais graves ou que perdiam contacto com a família, era mais difícil dar-lhes alternativa, e ficavam. Hoje em dia nada tem de ser assim. Agora, a maior parte das situações, mesmo as mais graves, e mesmo as que em algum momento precisem de um internamento curto, podem ser tratadas em casa e as pessoas manterem a sua vida. Mesmo nos casos muito graves, em que há perda de capacidades, as pessoas podem ser reabilitadas e reinseridas na sua profissão. Em casos em que não têm residência, porque tiveram muito tempo no hospital, há vários dispositivos residenciais.

Queria perguntar-lhe exatamente isso: as pessoas que não têm apoio familiar, podem voltar a casa e retomar a sua vida?
Sim, desde que existam os serviços. O que acontece é que temos dois grandes grupos de patologia psiquiátrica (estou a simplificar). Um deles, são as chamadas doenças mentais comuns, sobretudo os casos de depressão e ansiedade. São muito frequentes, mas a maior parte das vezes não são muito graves, logo podem ser tratadas em consulta. Mas é um problema, e um problema grave, porque são muitos casos e porque têm impacto enormes: em termos de incapacidade, porque interferem imenso na vida das pessoas, porque lhes causam muito sofrimento, porque complicam imenso a vida das famílias e porque têm implicações sociais várias. Esse é um tipo, bastante diferente do outro grupo: as doenças mentais graves, que são doenças que interferem de uma forma muito significativa com o funcionamento das pessoas e engloba sobretudo as psicoses — esquizofrenia e doença bipolar. São doenças que exigem cuidados diferentes. Durante muito tempo as pessoas que tinham essas doenças eram internadas nos hospitais psiquiátricos, completamente separadas dos outros doentes, o que lhes dava logo uma etiqueta terrível. A pessoa que estivesse internada no hospital psiquiátrico entrava logo no clube dos loucos e isso causava muitos problemas na sua vida a todos os níveis. Algumas acabavam por ficar muito tempo internadas porque não havia meios de reabilitação.

O que aconteceu foi que, graças aos progressos científicos, novos medicamentos, novas intervenções psicológicas e psicossociais, novos modelos de organização dos serviços, hoje podemos ter serviços para tratar essas pessoas que conseguem uma taxa de sucesso bastante grande, mesmo em casos em que não consigam curar a doença — o que aliás acontece em imensas doenças não-psiquiátricas, mas tendemos a esquecer-nos disso. Hoje em dia o mundo está cheio de pessoas com doenças crónicas, às vezes com várias doenças crónicas. E isto é cada vez mais frequente, porque cada vez as pessoas vivem mais tempo e cada vez vamos tendo mais sucesso terapêutico. Mas tal como as restantes doenças crónicas, as doenças mentais graves são doenças para as quais se consegue controlar os sintomas, consegue ter remissões durante muito tempo, consegue evitar novos surtos e consegue que as pessoas tenham uma qualidade de vida aceitável (vida familiar, emprego). Para isso tem de ter serviços organizados, com princípios que ainda não estão generalizados em todo o lado e com recursos e capacidades que também não existem em todo o lado.

As coisas mudaram, mas as pessoas ainda associam que se forem ao psiquiatra vão tomar comprimidos e ficar prostradas e não gostam desta condição.
O que acabou é que, para estas doenças, não é nem o psiquiatra, nem o psicólogo sozinho que tratam estas coisas. As pessoas têm de ser tratadas por uma equipa. Têm um programa, têm alguém que se encarrega de orientar a pessoa e que se encarrega de evitar uma coisa que é específica deste caso: muitas vezes as pessoas não têm consciência patológica, não se apercebem que têm de ir à consulta, acham que aquilo não é suficientemente grave. Outro problema que não é só da psiquiatria é que passámos de um mundo em que tratávamos episódios agudos para um mundo em que tratamos pessoas com doenças crónicas. Isto implica serviços completamente diferentes, em que tem de ter um programa, tem de seguir o caso — a continuidade é muito importante, a pessoa não pode andar a saltar de médico para médico —, e, neste caso, se o doente não vai à consulta, a equipa deve telefonar, se for preciso ir a casa e convencê-lo. Em vez de ser uma atitude reativa é uma atitude proativa, é uma atitude de continuidade e é uma atitude em que a preocupação não é só diminuir sintomas, é ajudar a pessoa a reabilitar-se a integra-se socialmente. A exclusão social aqui é uma coisa terrível e se se entra no ciclo da exclusão social, estas pessoas têm riscos enormes.

Quais são os grupos mais vulneráveis?
Esse é outro progresso muito grande. Sabemos muito mais sobre quais são os fatores de risco para ter doenças mentais, o que nos permite prevenir, e sabemos também muito mais quais os impactos da doença mental a vários níveis [ver caixa]. Sabemos que o risco de ter doenças mentais, no caso das mais comuns (depressão e ansiedade), é muito maior nas mulheres do que nos homens. Nos homens é mais comum o alcoolismo e o consumo de outras drogas. Mas quem tem maior risco, em geral, são as mulheres. Outra coisa que se sabe é que os fatores sociais têm uma importância enorme, a pobreza está altamente associada ao risco. Havia uma ideia, há 20 ou 30 anos, que as doenças mentais eram um capricho de gente rica e ansiosa, que se podia dar ou luxo. É fantasia. Os pobres têm muito mais problemas mentais do que os ricos. A razão principal é muito simples: as pessoas mais pobres têm muito mais situações de stress do que têm as que são mais ricas. Têm mais privações financeiras, que levam a conflitos entre as pessoas, que levam à utilização de drogas. E cria-se aqui um ciclo vicioso, porque a doença mental leva a uma maior pobreza. São ciclos que são muito difíceis de quebrar depois.

E nas mulheres porque é que acontece mais do que nos homens?
Por várias razões. Por um lado, porque há variabilidades endócrinas [produção de hormonas]: por exemplo, sabemos que a seguir ao parto pode haver um quadro patológico de depressão pós-parto. Mas têm a ver com outras coisas, é que as mulheres, na maior parte das sociedades de hoje em dia, tem uma carga adicional de stress. Há uma fase da vida das mulheres que têm uma sobrecarga grande, que têm problemas muito grandes no dia a dia: levantar cedo todos os dias, tomar conta da comida e dos filhos, andar a correr de um lado para o outro, isto pode ser um stress muito grande. Esta sobrecarga leva a mulher a estarem em desvantagem em termos de apoios sociais.

Também sabemos que um dos fatores que tem um efeito devastador na saúde mental das pessoas é o abuso sexual. A violência sexual na infância é uma coisa terrível, paga-se caríssimo mais tarde. E também sabemos que a violência sexual continua a ser muito elevada. Uma das coisas que estudámos foram os fatores associados ao stress pós-traumático e havia esta ideia que a guerra é que era o grande fator. Fizemos um estudo, que vai ser publicado em breve, sobre quais os fatores a que as pessoas são expostas e que são sentidos como um trauma e que depois vão criar stress pós-traumático. Portugal, além de ter um fator que existe em todo o lado, que é a perda (de um marido, de um filho, etc), durante muito tempo teve um fator muito importante que eram os acidentes de viação, porque tínhamos uma taxa elevadíssima de acidentes. Claro que também tivemos, em valor absoluto, a guerra, embora a guerra tenha sido há muitos anos. Agora, o que nós descobrimos neste estudo é que a situação que tem valor preditivo mais forte é a violência sexual, embora a violência sexual possa ser exercida sobre homens e mulheres é mais sobre as mulheres.

Para as doenças graves, e talvez para as mais comuns, existe um fator genético associado?
As doenças mentais estão associadas, como a maior parte das outras doenças, a vários fatores. As doenças mentais talvez se distingam por estarem associadas a muitos mais fatores. É raro ter uma doença em que diga é só este fator. Vamos pensar no caso da depressão. Há casos de depressão em que a influência genética é muito forte, há vários casos na família. Há outros casos que o que conta fundamentalmente são os acontecimentos da vida das pessoas, condições sociais, etc. Diria que na maior parte, tem os ingredientes, que podem variar na proporção, mas pode ter uma certa vulnerabilidade genética, mas depois tem de haver outros fatores.

Estava a pensar sobretudo na esquizofrenia e na doença bipolar.
Nesses há. Nestes casos a componente genética é mais forte, embora sejam os outros fatores, como os eventos, que as podem desencadear.

Como é que se previnem as doenças mentais?
Há uns anos não se sabia quase nada sobre isso, podia prevenir-se duas ou três coisas. Hoje já conseguimos prevenir muita coisa. Na prevenção temos a prevenção primária, quando se consegue que não apareçam novos casos, e a prevenção secundária, que é atuarmos de tal maneira que os casos que aparecem são rapidamente tratados e que não se deixam prolongar no tempo nem agravar. Para algumas doenças, como a esquizofrenia, não sabemos muito sobre como prevenir, mas temos intervenções altamente eficazes, comprovadas cientificamente, de prevenção do suicídio, prevenção do consumo do álcool.

Mas não se pode prevenir que um familiar morra, não se podem prevenir muitas das situações traumáticas.
Os fatores genéticos ou de base biológica são difíceis de prevenir, mas pode ter intervenções preventivas que, por um lado diminuam a vulnerabilidade das pessoas ou que reforcem os fatores protetores. Um dos programas mais eficazes que foram desenvolvidos são os programas parentais, programas de apoio às mães no princípio da vida dos miúdos, porque o princípio da vida e a relação entre o bebé e mãe vai ter um papel importantíssimo na saúde mental e física da criança. O que se passar nessa fase inicial vai marcar a pessoa para a vida inteira [exemplos de eventos negativos: perda, abandono, depressão da mãe]. Dar apoio a essa relação é muito fácil de fazer. Em países com serviço nacional de saúde pública, como nós temos, é facílimo. Por exemplo, todas as grávidas, depois de terem a criança, terem uma enfermeira que faz três entrevistas nos primeiros tempos, faz educação e despista se há alguma coisa. São muito baratos e nada transcendentes, quase de senso comum. Isto tem um impacto na prevenção de problemas mais tarde, mas é um investimento a longo prazo. Há muitas intervenções na escola que também são altamente eficazes, como na prevenção do bullying, que é uma coisa que também tem efeitos devastadores, e tem outros que vão pela positiva, que são programas de desenvolvimento da resiliência.

Coisas negativas vão sempre acontecer e vão ter maior impacto numas pessoas do que noutras. Como é que nos preparamos para sermos mais fortes?
Fizemos um estudo sobre o impacto da crise económica [privação financeira, desemprego] na saúde mental. Utilizando o que tínhamos feito no início da crise fizemos outro a seguir. Ainda estamos agora a analisar os dados, mas já deu para perceber algumas coisas: houve muita gente que foi atingida a nível da saúde mental, houve um agravamento muito significativo do número de pessoas com problemas de saúde mental — ansiedade e depressão —, mais nos homens do que nas mulheres por causa da questão laboral. Outros fatores, como os fatores contextuais são mais difíceis de avaliar também são importantes: se têm serviços acessíveis ou não, de qualidade ou não. A estes somam-se os fatores financeiros, se a pessoa tinha dinheiro para comprar os medicamentos e para ir às consultas. Mas também vimos que houve fatores protetores, pelo menos dois que nós apanhámos — haverá outros. Primeiro, o chamado suporte social, que mede o número e a qualidade dos apoios sociais que as pessoas têm quando estão com problemas: família e amigos. Isto tem uma importância enorme para fortalecer as pessoas a resistir. Todas as pessoas estavam vulneráveis à perda do emprego, mas que tinham o apoio social estavam mais defendidas. O outro fator protetor é o envolvimento comunitário. As pessoas que vivem em comunidades em que participam, que estão integradas na comunidade, que têm um sentimento de pertença a um bairro, a uma comunidade, tem qualquer coisa que é muito importante. O suporte social e o envolvimento comunitário protegem de formas diferentes no caso da ansiedade e no caso da depressão. O que é curioso. Estamos agora a trabalhar esses aspetos para percebermos melhor essas nuances.

No livro referia que o sítio a que as pessoas com problemas de saúde mental mais recorrem são os centros de saúde. Os centros de saúde estão preparados?
Não, não estão. Temos uma acessibilidade muito boa. Em termos europeus, os portugueses se precisam de ir a uma consulta porque têm um problema de saúde mental estão melhor que a maior parte. Estamos sempre a dizer mal, mas é mentira. Em termos de acessibilidade somos bons. A rede dos cuidados primários foi uma coisa fantástica nesse aspeto. Agora, a qualidade dos cuidados já é outra conversa. Fomos medir os cuidados minimamente adequados. Em Portugal, 7% das pessoas tiveram uma depressão [diagnosticada pela equipa de investigação durante os inquéritos] no ano anterior. Destas, só 65% é que se deram conta de que se deviam tratar — há 35% que desaparecem logo, que não são tratadas porque não perceberam ou tiveram vergonha de se tratar. [Das que se procuram cuidados,] 88% conseguiram aceder aos cuidados de saúde primários ou secundários. Quando fomos ver os cuidados minimamente adequados, apenas 15% tinha tido. No final, da população inicial com depressão, só 9,1% teve acesso a cuidados de boa qualidade. Não é que fossem mal tratados, mas uma pessoa para ser bem tratada deve ser vista no mínimo quatro vezes por ano. É aqui que falha. Aqui e na articulação entre os cuidados primários e os serviços especializados. Perdem-se muitos doentes que deviam ir para a psiquiatria e não vão, ou vão mal mediados. Mas esse não é um problema só nosso, é um problema mundial. Esta articulação entre os serviços primários e os serviços especializados é um desafio enorme. E é uma coisa especialmente difícil de aceitar porque sabemos como é que se resolve este problema. Temos estudos que provam, sem nenhuma sombra de dúvida, que se pudéssemos fazer o que sabemos que funciona, estes 35% que se perdem ao princípio podiam diminuir para 20% ou para 15%, com campanhas de educação, etc. Os 88% podiam ir para 95%. Depois esses 15% podiam subir muito, muito, muito.

Além das campanhas o que é que se poderia fazer que não se faz?
Teria que haver organização dos serviços e organização de programas feitos de outra maneira: modelos colaborativos de cuidados. São modelos muito parecidos com os das doenças crónicas em geral, com passos: as pessoas vão a um primeiro passo, se não funciona são enviadas para outro passo, mas não se perdem, estão sempre em contacto com o serviço, há uma avaliação constante. Isso é muito difícil de implementar nos nossos serviços, nos nossos e em outros. Mas onde se implementou deu resultados fantásticos.

A dificuldade é a organização?
A organização e formação. Primeiro, teríamos de convencer muitos responsáveis que a saúde mental é importante. Teríamos de ter não só médicos, mas também enfermeiros — faltam imensos enfermeiros — e alguns psicólogos, teríamos de os convencer a haver uma colaboração e tratamento em comum. Faz-se nalguns sítios, no meu serviço há muitos anos que fazemos coisas destas.

Mas não está generalizado.
Está longe de estar generalizado. O problema é de implementação, não é de saber o que é que se tem de fazer.

Portugal tem a maior prevalência de doenças mentais do sul da Europa

Há outra questão, relacionada com as conclusões do estudo, que é: porque é que Portugal tem uma taxa de doenças mentais muito mais alta do que o resto dos países do sul da Europa?
Não lhe sei explicar, mas é um problema que me tem preocupado imenso, que me tem feito pensar muito. Pensei tanto e andei à procura de tantas coisas que descobri que a única situação que há parecida com a nossa é o Brasil [que tem uma taxa mais alta do que os restantes países da América latina], com uma prevalência ainda mais alta que a nossa. Primeiro é preciso dizer, temos de facto uma prevalência mais alta, mas não é em todas as doenças, é sobretudo nas perturbações da ansiedade, e dentro das perturbações da ansiedade, as perturbações fóbicas [medos e vergonhas]. O que pode explicar isto? Pode haver fatores genéticos, mas não sabemos. Há um fator que acho que existe de certeza: os diagnósticos das doenças mentais não são feitos por uma análise ao sangue, mas por questionários clínicos, e isto faz com que de cultura para cultura haja uma expressão mais fácil ou menos fácil do sofrimento psicológico. Há culturas em que é muito fácil as pessoas falarem que estão muito tristes ou alegres ou ansiosas e há culturas em que as pessoas não conseguem dizer disso. Na Ásia, as pessoas são incapazes de dizer que estão tristes. A cultura portuguesa, para o bem e para o mal, faz com que as pessoas não tenham dificuldade em se queixarem das suas desgraças. O que quero dizer é que uma parte desta prevalência elevada pode ter a ver com o facto de exprimirmos mais facilmente os sintomas e portanto muitos mais casos serem apanhados. Depois pode haver aspetos culturais em Portugal que acentuaram estes aspetos ansiosos, estes aspetos da vergonha, do medo do que é que os outros pensam, da exposição.

E depois — e isso nós observámos — existem menos apoios. Os pobres e as mulheres estão em desvantagem em relação aos pobres e às mulheres de outros países europeus. O que este estudo para mostrar o impacto da crise nos mostrou é que há dois Portugais — há muitos, mas há dois fundamentais. Curiosamente, quando fomos ver em relação à parte financeira, há uma parte de portugueses que não sofreu muito — e eu espantei-me. Mas há uns 30 ou 40% de todos os portugueses que são pobres a sério, que têm privações muito grandes, que estão desprotegidos — às vezes esquecemos deles porque é uma população que está escondida, mas ela existe e essa gente está muito vulnerável. Isto significa que os nossos serviços deviam estar preparados não só para dar acesso a toda a gente, mas preparados para poder apoiar de uma forma especial, para garantirmos o princípio da equidade a essas pessoas que estão numa desvantagem muito grande e que precisam de compensar isso. Claro que já se fizeram imensos progressos: quando comecei não haviam centros de saúde, os mais novos não fazem ideia o quanto isto melhorou nesse aspeto. Mas há gente que tem necessidade de apoios que ajudem a mitigar as desvantagens em que elas estão. Com o que aprendemos devíamos estar preparados para a próxima crise económica.

Vão comparar os dados de Portugal com a Grécia e outros países que também atravessaram uma crise económica?
Já fizemos a revisão de toda a literatura científica que existe, até fizemos um encontro cá em Lisboa sobre o impacto dos fatores económicos e sociais na saúde mental. Uma das coisas que trabalhamos nesse encontro foi que iniciativas e que programas é que devemos ter para mitigar, para proteger os grupos mais vulneráveis. Há estudos que compararam crises anteriores. Por exemplo, a Suécia teve uma crise muito grande já há muito anos, numa altura em que a Espanha também teve. Quando se compararam os resultados, mostraram como os suecos se saíram muito melhor, estavam preparados, ajudaram os grupos mais vulneráveis.

As doenças mentais

Perturbações mentais comuns: perturbações de ansiedade, perturbações do humor ou afetivas, perturbações do controlo dos impulsos e perturbações de uso de álcool e outras substâncias.Têm duas características em comum: encontram-se com relativa frequência na população em geral e nas populações que procuram cuidados de saúde, e não se fazem acompanhar, em regra, de alterações graves.

Perturbações mentais graves: esquizofrenia e a doença bipolar (no passado, denominada psicose maníaco-depressiva). Envolvem com frequência sintomas psicóticos (por exemplo, ideias delirantes, alucinações, afastamento da realidade, ausência de consciência patológica) e incapacidade significativa a nível das atividades diárias e profissionais.

Outras perturbações: perturbações mentais orgânicas (estados confusionais agudos e demências), perturbações do comportamento alimentar e perturbações do desenvolvimento.

“A saúde mental dos portugueses”, FFMS

The World Mental Health Survey Initiative

É um projeto que coordena a implementação e análise dos estudos epidemiológicos referentes à saúde mental, abuso de substâncias e distúrbios de comportamento na população em geral, em todas as regiões da Organização Mundial de Saúde. Os resultados serão comparados com as consequências sociais adversas e com os padrões de procura de cuidados.

Esta iniciativa conta com a participação de 27 países, incluindo Portugal, e mais de 154 mil participantes entrevistados presencialmente.

The World Mental Health Survey Initiative

 

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