Crianças de hoje são pequenos adultos antes do tempo. Os avisos dos especialistas

Março 26, 2020 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do Sapolifestyle de 3 de março de 2020.

A infância dos nossos dias vive-se de forma muito mais acelerada do que antes. Cabe aos progenitores travar essa tendência. “Há muita informação danosa que lhes chega e os pais têm de estar atentos”, adverte a psicóloga Cristina Valente.

As crianças de hoje têm cada vez menos tempo para viver a sua infância. Entre as mil e uma atividades em que estão inscritas e as horas que perdem a saltar de uma para a outra, o tempo que passam agarradas à tecnologia, a roupa que os faz parecer adultos antes do tempo e o contacto precoce com a sexualidade, esquecem-se de ser crianças, alertam os analistas. Cristina Valente, psicóloga e especialista em aconselhamento parental, não podia estar mais de acordo.

“Se, em algumas áreas, os pais têm tendência para infantilizar os filhos durante muito tempo, como é o caso da alimentação, em que há miúdos com três anos que nunca comeram sopa sem ser passada, noutras adultizam-nos excessivamente”, critica. E a culpa deste desequilíbrio é a existência de “um desalinhamento entre as nossas expetativas enquanto pais e a capacidade dos bebés ou crianças responderem com os recursos internos que têm em cada etapa”, sublinha.

“Isto acontece porque ainda há atualmente uma ignorância muito grande em relação às etapas de desenvolvimento infantil e adolescente e quais os desafios de cada uma, bem como das potencialidades e fragilidades de cada ser humano”, explica ainda a psicóloga. Mas será esta tendência incutida apenas pelos pais? “Não, eu diria pelos pais, pelas escolas, pelos media, pela internet, pela sociedade inteira… Mas parte desse processo é inconsciente”, refere, contudo.

Claro que os pais podem fazer toda a diferença. “Tirando a escola, que é obrigatória, tudo o resto é da responsabilidade dos pais”, realça a especialista. “Os miúdos vêm televisão em casa, têm acesso a telemóveis em casa, jogam videojogos em casa e têm de ser acompanhados pelos progenitores nessas atividades”, realça a psicóloga. Esqueça aquela ideia pré-concebida de que as crianças se sentem excluídas se não tiverem acesso ao que os colegas têm. Isso é um mito!

“Os pais têm de ter autoridade para lhes dizer que não e explicar porquê”, recorda a especialista em aconselhamento parental portuguesa, que revela um episódio da sua experiência. “O meu filho, aos 11 anos, queria ter Facebook e o primeiro argumento que me apresentou foi que todos os seus colegas já tinham. Mas isso não me demoveu! Expliquei-lhe que se o fizesse estava a infringir uma lei e, na altura, eu fui perentória no não”, acrescenta ainda Cristina Valente.

“Se eu tivesse cedido, corria o risco de ele, antes dos 18 anos, me dizer que queria conduzir um carro e, se eu lhe falasse nos limites da legislação, ele não teria problemas em lembrar-me que já tínhamos infringido uma lei anteriormente”, argumenta a especialista em aconselhamento parental portuguesa. “Os miúdos são autênticos polícias do nosso comportamento”, alerta. “Temos de estar sempre seguros do que estamos a dizer”, acrescenta ainda Cristina Valente.

As consequências nefastas da falta de tempo dos pais

A fase inicial da infância é decisiva. “É nos primeiros sete anos de vida que os adultos que rodeiam a criança, como é o caso dos pais, dos avós e dos professores, conseguem descarregar programas mentais nos mais pequenos”. Utilizando a linguagem de programação, “a criança nasce com o disco rígido limpinho e, depois, vai absorvendo tudo o que a rodeia e há muita informação danosa que lhes chega e os pais têm de estar atentos”, compara Cristina Valente.

Mas é aí que entra a tão falada falta de tempo, um dos maiores dramas sociais dos tempos atuais. “Uma relação entre pais e filhos só cresce se houver disponibilidade e a vida da maior parte dos pais no século XXI é de total escravatura do tempo e do trabalho. Essa ausência é colmatada, preenchendo os mais pequenos com atividades. Por um lado, para os distrair, e, por outro, para os armadilhar com todas as ferramentas externas para que consigam singrar, segundo os pais, num mundo extremamente competitivo. Por isso, acham que se os filhos forem aprender mandarim e tecnologias da informação aos três anos, se tiverem um telemóvel aos cinco e se conseguirem fazer três desportos ao mesmo tempo, vão ser adultos de sucesso”, relata ainda a psicóloga.

Tudo isto leva obrigatoriamente a criança a adultizar-se e a crescer rápido, o mesmo acontece quando são instigadas a ser as melhores em tudo. “Hoje em dia, as crianças não podem ter preferências e têm de ser boas a todas as disciplinas e isso leva a uma baixa autoestima, porque a criança não se sente valorizada por ser quem é, mas pelas notas que tem”, refere a especialista em aconselhamento parental. Mas este não é o único senão do crescimento demasiado rápido.

Cristina Valente aponta a privação de sono atual como uma das mais relevantes, também já criticada por uma das mais reputadas neurologistas nacionais, Teresa Paiva. “As crianças não têm tempo para dormir suficiente, o que tem consequências nefastas a nível do sistema imunológico, influencia o desempenho escolar e estimula problemas comportamentais, sintomas de hiperatividade e défice de atenção e aumenta a obesidade infantil”, adverte ainda.

O vestuário de adulto que muitas crianças já usam

A roupa é outro fator que tende a adultizar as crianças. Há pais e filhos que se vestem da mesma maneira e há já marcas que fazem linhas duplas. Cristina Valente vê isto como “uma ferida narcísica dos pais”. Nota-se, na sua opinião, “uma vontade inconsciente de adultizarem os filhos e de se infantilizarem a eles próprios. Na verdade, querem parecer amigos dos filhos em vez de pais”, acrescenta. Se olharmos só para as meninas, há ainda outra tendência que se destaca.

O uso de roupas sexualizadas é uma realidade atual. “A autoimagem das meninas é incutida desde cedo por séries da Disney para adolescentes que as crianças de cinco e seis anos também veem”, condena. Este aspeto remete para o sexo precoce. “As crianças despertam para a sexualidade muito antes de estarem preparadas. É por isso que vemos miúdas de 13 anos a saírem à noite de minissaia e maquilhadas e miúdos de 15 anos a levarem as namoradas para casa”, refere. Mais uma vez, têm de ser os pais a desconstruir imagens perversas associadas à sexualidade, que lhes é mostrada como uma coisa física e violenta.

Cristina Valente alerta ainda para o facto do contacto com realidades para as quais ainda não estão preparadas também estar a afetar muitas crianças. “Aos seis, sete anos, é comum uma criança já ter contactado com imagens de pornografia na internet sem querer. Como não podemos controlar tudo, temos de prepará-los para isso e de conversar desde sempre sobre este tema. É importante, por exemplo, sublinhar que a sexualidade implica amor e respeito”, afirma.

Conselhos para pais conscientes

As recomendações que Cristina Valente, psicóloga, gosta de fazer aos que a procuram:

– Aprenda a confiar na sabedoria inata das crianças.

– Lide com a sua própria ansiedade de forma a não criar ansiedade nos mais pequenos.

– Fazer meditação, várias vezes por dia, é algo que muda a nossa vida. Para meditar, apenas tem de estar imobilizado e concentrado apenas na respiração.

– Saber quais são os desafios e as fragilidades de cada fase de desenvolvimento e respeitar o ritmo das crianças é outra das recomendações.

– Ame incondicionalmente os seus filhos e não deixe que este amor dependa daquilo que as suas crianças lhe dão.

– Criar um clima de literacia de emoções em casa é outra das estratégias. Se as emoções são aquilo que nos mantém vivos, temos de saber lidar com elas de forma natural, tal como respiramos, comemos ou bebemos água.

– Pense nos valores que quer transmitir aos seus filho e aja de forma a ser congruente com eles. Tenha noção que somente cerca de 7% do que comunicamos é processado via verbal.

5º Congresso Internacional Sexualidade e Educação Sexual: Interação, Interdependência e Interseccionalidade – com a presença do IAC- Humanização

Novembro 23, 2019 às 1:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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A Drª Ana Lourenço, Drª Anabela Reis e a Drª Vera Abecasis do Sector da Humanização do Instituto de Apoio à Criança, irão participar no congresso no dia 29 de novembro com as comunicações:

P60 -Leave the toys alone, they are not girls or boys! | Deixem os brinquedos em paz, não são de rapariga nem de rapaz! Vera Abecasis, Ana Lourenço, Anabela Reis, Inês Agostinho & Melanie Tavares

PR61 -The Discovery of Being -Health Education: Sexuality | A Descoberta do Ser – Educação para a Saúde: Sexualidade Vera Abecasis, Ana Lourenço, Anabela Reis, Inês Agostinho & Melanie Tavares

PR64 -Gender issues in children’s play activity | As questões de género na atividade lúdica das crianças Ana Lourenço, Anabela Reis, Vera Abecasis, Inês Agostinho & Melanie Tavares

mais informações no link:

http://www.eventos.ciec-uminho.org/5cises/index.html

Seminário Banda Larga: Igualdade e Direitos Sexuais, 12 de junho no Porto

Junho 6, 2019 às 8:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Seminário Banda Larga: Igualdade e Direitos Sexuais, 22 de maio em Évora

Maio 15, 2019 às 8:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Inscrição gratuita e obrigatória, através do formulário de inscrição, disponível através do seguinte link :

https://www.facebook.com/events/665593980538668/

Estudo revela que mais de um terço dos jovens não usou preservativo na última relação sexual

Abril 22, 2019 às 12:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Mais de um terço dos jovens inquiridos num estudo nacional relatou não ter usado preservativo na última relação sexual e 14,5% disse ter tido relações sexuais associadas ao consumo de álcool ou drogas.

“Uma minoria significativa” reportou não ter usado preservativo na última relação sexual (34,1%), sublinha o estudo “Comportamentos sexuais de risco nos adolescentes”, divulgado a propósito do 10.º Congresso Internacional de Psicologia da Criança e do Adolescente, que vai decorrer na quarta e na quinta-feira em Lisboa.

A investigação, a que a agência Lusa teve acesso, concluiu que são os rapazes que mais frequentemente usam preservativo, que têm relações sexuais associadas ao consumo de álcool ou drogas e que não têm a vacina contra o vírus do papiloma humano (HPV).

O estudo realizado em Portugal faz parte do Health Behaviour in School Aged Children (HBSC) 2018, um inquérito realizado de quatro em quatro anos em 48 países, em colaboração com a Organização Mundial de Saúde, que pretende estudar os comportamentos dos adolescentes nos seus contextos de vida e a sua influência na sua saúde/bem-estar.

Segundo os dados recolhidos em Portugal, os jovens mais novos, do 8º ano, são os que mais frequentemente têm relações sexuais associadas ao consumo de álcool ou drogas, realça o estudo, advertindo que estes resultados “podem ter implicações significativas na alteração das políticas de educação e de saúde, direcionando-as para o desenvolvimento de competências pessoais e sociais nas várias estruturas que servem de apoio aos adolescentes portugueses”.

Os autores do estudo apontam como justificações possíveis para estes resultados “o desinvestimento na educação sexual”, a redução do número de campanhas de prevenção e o facto de a infeção se ter passado a considerar uma doença crónica e não uma “sentença de morte”, o que “poderá estar a desvalorizar a importância da proteção.

O estudo “Comportamentos sexuais de risco nos adolescentes” abrangeu 5.695 adolescentes, 53,9% dos quais raparigas, com uma média de idades de 15,46 anos, a frequentarem o 8º ano, o 10º ano ou o 12º ano.

A maioria dos adolescentes inquiridos mencionou já ter tido um relacionamento amoroso, apesar de não ter no momento (48,4%), sobretudo os rapazes (51,8%) e os adolescentes do 8.º ano (50,9%).

Segundo o estudo, a maior parte disse não ter tido relações sexuais (77%). Dos que referiram já ter tido, contaram que a primeira relação sexual foi aos 15 anos.

Os dados indicam também que 85,6% dos inquiridos não realizaram o teste de VIH e 84,7% não têm a vacina contra o HPV.

Segundo os últimos dados estatísticos da UNICEF, cerca de 30 jovens entre os 15 e os 19 anos foram infetados com o VIH/sida, por hora no mundo em 2017, números “particularmente alarmantes se se considerar que nos restantes grupos etários a epidemia estará a diminuir”.

Em Portugal, a situação é também preocupante pois cerca de um terço dos infetados com o VIH/sida tem menos de 30 anos e cerca de 16% tem entre 15 e 24 anos.

O estudo lembra que o melhor meio de evitar a infeção VIH/sida e outras infeções sexualmente transmissíveis continua a ser o preservativo.

HN // JMR

Lusa/fim

 

Alunos querem educação sexual menos vaga e mais interessante

Março 31, 2019 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 17 de março de 2019.

Obrigatória nas escolas desde há dez anos, a educação sexual continua a estar refém de tabus e dos meios ao dispor nas escolas. Quando é a sério faz a diferença.

Clara Viana

Renato tem 18 anos, está no ensino secundário e diz que durante todos os anos que já passou na escola só teve uma aula de educação sexual. “Foi com uma enfermeira”, especifica. É por estas e por outras que ele e outros colegas seus da Escola Secundária de Albufeira chegam a esta proposta após uma troca de opiniões na redacção do PÚBLICO: criar uma disciplina de Educação Sexual, com um estatuto igual ao das outras e com presença semanal no horário dos alunos.

Dizem que seria uma forma de se tentar pôr fim ao “faz-de-conta” que ainda muitas vezes marca a abordagem à sexualidade promovida pelas escolas, apesar de a educação sexual ser uma área obrigatória em todos os estabelecimentos escolares desde 2009. O médico de Psiquiatria da Infância e da Adolescência Rui Carvalho, 26 anos, aponta uma razão para que tal aconteça: “Temos uma tradição de punição e repressão da abordagem à sexualidade, que ainda tem grande peso, e que pode estar na base da opção de apresentar os tópicos que devem ser abordados de uma forma muito vaga”.

Por exemplo, no último Referencial da Educação para a Saúde, aprovado em 2017, que inclui os temas a ser abordadas em Educação Sexual, a questão da identidade de género, considerada uma das mais sensíveis, está expressa assim: “Compreender e respeitar a diversidade na sexualidade e na orientação sexual.” Destinatários: os alunos do 1.º ciclo do ensino básico ao secundário.

“A impressão que tenho é que se aborda tudo muito pela rama”, comenta o presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais (Confap), Jorge Ascenção. O dirigente da Associação de Estudantes da Escola Secundária Camões, em Lisboa, Samuel Oliveira, diz mais: “A educação sexual tem sido útil, mas os temas tabus continuam a não ser falados na escola”. Acrescenta que é o que se passa, por exemplo, com as questões ligadas aos “comportamentos sexuais”.

De volta à proposta dos alunos de Albufeira, a psicóloga Margarida Gaspar de Matos, que fez parte do grupo de trabalho que esteve na origem da lei da educação sexual de 2009, assinala que chegou então a ser equacionada a criação de uma disciplina específica para esta temática. “Seria uma opção muito válida e era até a de mais fácil implementação, mas que corria dois perigos: por um lado “deixar de fora” outras áreas transversais de maior importância, como a educação para a equidade, diversidade ou cidadania; e por outro levar a que os alunos ficassem com uma carga de aulas ainda maior”.

Por essas razões, optou-se antes por “deslocar” estas temáticas para as chamadas Áreas Curriculares Não Disciplinares, como Formação Cívica ou Área de Projecto, que no anterior Governo foram suprimidas do currículo, o que ainda veio baralhar mais as coisas, embora se tivesse mantido em vigor a lei de 2009 em que se estipula que a carga horária dedicada à Educação Sexual não deve ser inferior a seis horas para o 1.º e 2.º ciclos do básico, nem a 12 no que toca ao 3.º ciclo e ao ensino secundário.

“E agora, Rosa?”

Esta lei não foi, entretanto, revogada, apesar da Educação Sexual ter transitado este ano lectivo para a nova disciplina de Cidadania e Desenvolvimento, que em muitas escolas tem apenas 45 minutos por semana e um longo painel de temas a abordar, que passam entre outros pela igualdade de género, desenvolvimento sustentável, saúde ou literacia financeira.

Em resposta ao PÚBLICO, o Ministério da Educação indicou que esta transferência para a Cidadania e Desenvolvimento “continua a permitir promover uma abordagem transdisciplinar da educação sexual, nomeadamente no ensino secundário”. Ou seja, ser tratada em várias disciplinas.

A última avaliação sobre a aplicação da lei de 2009 diz respeito ao ano lectivo 2015/2016, está actualmente outra em curso, e confirma uma velha tendência: na grande maioria dos casos, é nas disciplinas de Ciências Naturais e de Biologia que se dá conta desta tarefa.

Aires Alexandre é professor destas duas disciplinas. Diz que “tem feito o que é normal fazer nesta matéria”, mas que o problema é o tempo ou melhor a falta dele, “porque há todo um programa que é preciso cumprir”. “Felizmente contamos com a colaboração do centro de saúde, que é muito importante, e com uma equipa de psicólogos escolares, que geralmente tratam dos temas mais delicados, como por exemplo, a identidade sexual”, comenta.

“Os alunos sentem-se mais à vontade para falar connosco do que com os professores e estes também muito frequentemente não se sentem bem a abordar estas temáticas da sexualidade com os seus estudantes e inconscientemente acabam por as enquadrar nas suas próprias ideias de como se deve pensar ou agir”, testemunha Rosa Franco, enfermeira, que há uma década trabalha na área da Saúde Escolar no Centro de Cuidados na Comunidade do Agrupamento de Centros de Saúde de Oeiras. Ela e outra colega sua “respondem” por cerca de dois mil alunos.

Rosa Franco defende que é, por isso, tão importante que os chamados Gabinetes de Informação ao Aluno, previstos na lei de 2009, estejam a funcionar nas escolas, para que os estudantes saibam que estão ali técnicos que os podem ouvir e ajudar: “A nossa função não é estarmos ali para criticar comportamentos, mas sim para apoiar os jovens que muitas vezes precisam de respostas rápidas para resolver situações complicadas em que se encontram”. Que podem passar por serem confrontados com uma gravidez ou por terem contraído infecções sexualmente transmissíveis. Neste tempo todo, tem tentado não falhar quando lhe perguntam: “E agora, Rosa?”. O problema, mais um, é que em muitas escolas estes gabinetes não estão em funcionamento ou se estão os alunos não sabem da sua existência, como se alertou numa outra avaliação feita à aplicação da Educação Sexual.

Quando lhe chegam, muitos destes alunos já andaram num ricochete “do pai para a mãe e da mãe para o pai para tentar ter respostas que muitas vezes não são dadas”. “Acabam por estar muito sozinhos”, constata Rosa Franco. Dos sete alunos de Albufeira com quem o PÚBLICO se encontrou, a três aconteceu o mesmo. E é por isso, por os pais nunca terem falado com ele sobre estas questões, que Eric, de 19 anos, diz que aquilo que aprendeu nas aulas de educação sexual  tem sido “muito útil” na sua vida: “Levei os avisos que fizerem a sério e apliquei os cuidados que me transmitiram. Só quando me viram mais crescido e responsável é que os meus pais tentaram falar comigo, mas então eu já sabia”.

Através de questionários anónimos dirigidos a alunos, o projecto SexEd tem constatado que é a actividade sexual propriamente dita que levanta mais dúvidas aos jovens. A orientação sexual aparece em sexto lugar.

Sempre o mesmo?

“Partimos do princípio que os alunos já vêm com alguns conhecimentos sobre a sexualidade, mas isso não acontece com os mais novos. Muitos pais não abordam estes assuntos e eles também ainda não têm idade para entender o que vão encontrando na Internet”, refere Glória Ramalho, professora de Biologia e responsável pelo Programa de Educação para a Saúde na Escola Básica e Secundária Quinta das Flores, em Coimbra.

Foi por essa razão que, neste ano lectivo, voltaram a centrar-se também nos conteúdos da educação sexual no 7.º ano de escolaridade. “Tínhamos optado por uma abordagem mais ampla, mas constatámos que pura e simplesmente se tinha deixado de falar de educação sexual à entrada do 3.º ciclo por se assumir que já tinha sido abordado no 5.º e 6.º ano”, explicita.

Num estudo realizado em 2014 também para avaliar a aplicação da lei de 2009, em que Margarida Gaspar Matos participou, uma das queixas recorrentes transmitidas pelos alunos era a de os temas “serem apresentados anualmente de forma idêntica e sem progressão”. Os alunos da Secundária de Albufeira corroboram e acrescentam o seguinte: “o problema é também que a escola aborda estas coisas de um modo que não nos desperta suficientemente o interesse. E isto pode resolver-se se fossem apresentando exemplos concretos com os quais nos possamos identificar”, resume Paulo, 17 anos.

Cativar é possível

Margarida Gaspar de Matos refere que, embora com algumas especificidades, os problemas com a Educação Sexual são idênticos ao “problema da escola em geral”. “Programas intermitentes, ministrados por professores desmotivados, stressados, desvalorizados, e pouco formados nestas áreas são desmotivantes e os alunos tendem a achá-los repetitivos, estéreis e pouco ligados a algo que os interesse”.

A professora do ensino básico Anabela Diogo, com investigação na área da educação sexual, considera que os alunos também se queixam de lacunas por entenderem que “conteúdos que abordem a diversidade, o respeito ou questões de género não são entendidos como parte da educação Eexual”. E os manuais em vigor ajudam pouco nesta matéria como comprovou na investigação que fez para o seu doutoramento em 2011. Desde então, adianta, “tem havido alguma evolução, mas muito há ainda a realizar na promoção da igualdade de género e na prevenção da violência a partir dos manuais”.

Guilherme, de 17 anos, do grupo de alunos de Albufeira tem mais uma sugestão a fazer: “Em vez de terem sempre um mesmo papel para segurar nas aulas, seja qual for a turma, os professores podiam primeiro recolher quis são as nossas dúvidas e os temas que nos interessam ou preocupam para depois adaptarem as suas aulas. Isso sim, podia cativar-nos”. É precisamente esta a metodologia seguida pelo projeto SexEd, conta o médico Rui Carvalho. Mais concretamente, têm guiões elaborados com os temas a abordar consoante a faixa etária, mas que vão sendo adaptados às dúvidas colocadas pelos alunos nos questionários que promovem. Com uma condição à partida: os tópicos escolhidos pelo projeto não são negociáveis.

 

 

Já explicou o que são partes íntimas para uma criança?

Março 4, 2019 às 12:00 pm | Publicado em Vídeos | Deixe um comentário
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II Reunião Interdisciplinar: Cruzadas – «Crescer em Wire(less)» 20 novembro em Guimarães

Novembro 10, 2018 às 4:46 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Inscrições até 16 de novembro

Mais informações:

http://www.hospitaldeguimaraes.min-saude.pt/page3.asp?b=32&fbclid=IwAR1NC_JaRpIF7qGE-06au2r2AIBIXyQa-P_zmeiwVhOAgE-jwReUhEVrVQc#1185

Pós Graduações em Saúde Mental – Promoção da Saúde Mental e do Bem Estar em Contexto Escolar e Educação Sexual – Intervir na Promoção e Bem estar da Saúde Sexual e Reprodutiva na FMH

Fevereiro 1, 2018 às 9:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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mais informações:

http://posgrad.fmh.ulisboa.pt/saude-mental/

mais informações:

http://posgrad.fmh.ulisboa.pt/educacao-sexual/

Elas perguntam, nós respondemos – Sexualidade

Agosto 7, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do http://expresso.sapo.pt/ de 9 de julho de 2017.

Falar de sexualidade com as crianças pode não ser fácil, mas não deve ser evitado. E é melhor aguardar pelas interrogações do que as suscitar. Elas só acontecerão se existir espaço para isso — e esse espaço é construído desde o berço

Luciana Leiderfarb  texto

Carlos Esteves  infografia

Há sempre um momento em que a nossa criança formula a pergunta de um milhão. Aquela que sabíamos que viria, mas que não estamos preparados para responder — ou, pior ainda, que achávamos que ela não estava preparada para sequer perguntar. Por mais comunicação que exista entre pais e filhos, abordar o tema da sexualidade pode nem sempre ser fácil ou simples. E atire a primeira pedra quem não tiver desviado o assunto pelo menos uma vez.

“Muitos pais têm medo do que ouvem por parte dos filhos, e podem não responder logo. Podem até dizer: ‘tenho de pensar sobre isso’, de forma a terem tempo para encontrar as palavras certas. Mas não podem não responder”, diz Sofia Nunes da Silva, psicóloga e terapeuta familiar no Hospital de Santa Maria. Nestas coisas, o silêncio não é uma opção. E, se por acaso o tiver sido, não é na adolescência que ele será quebrado. “Essa ideia é irrealista e errada. Quem não tiver criado esse canal de comunicação até à puberdade, não o vai criar a partir daí. O silêncio mostra que este é um tema incómodo. E pode fazer com que a criança não exteriorize as suas dúvidas ou o faça só com os pares — que nem sempre têm informação completa ou estruturada”, complementa Duarte Vilar, diretor executivo da Associação para o Planeamento da Família (APF). “O silêncio é horrível”, continua Sofia Nunes da Silva. “É um sinónimo de indiferença.”

Dito isto, e tendo mesmo que falar, há várias formas de o fazer. E convém mesmo não evitar ou contornar os assuntos. Desde as primeiras perguntas mais ‘básicas’ às mais tardias e elaboradas, a linguagem deve ser “simples e verdadeira”, aconselha o urologista Manuel Mendes Silva, autor do livro “A sexualidade explicada às crianças”. “Aos seis anos, deve-se esperar que seja a criança a colocar as questões. A partir dos oito, já se pode ser mais proativo”, explica o clínico. Quer isto dizer, reformula Sofia Nunes da Silva, que os adultos têm de ouvir mais do que falar, aguardar que seja a criança a trazer as temáticas, tentando não antecipar as suas perguntas. Fazê-lo pode provocar ansiedade, sentimentos de incompreensão, ou aquilo que os pais mais temem: “Suscitar curiosidades deslocadas para a idade dos filhos e levá-los a uma exploração para a qual não estão ainda preparados.”

Se toda a pergunta é sempre um começo atrás do qual se escondem muitas outras, ela representa também o fim e a finalidade de um longo processo. A pergunta acontece porque, desde a nascença, foi criado espaço para tal. “A criança não quer falar do que não lhe interessa, pelo que é preciso esperar que ela ‘puxe’ o assunto. Mas isto só ocorre se ela sentir que os pais estão disponíveis.”, comenta Duarte Vilar. A disponibilidade constrói-se. Para Sofia Nunes da Silva, a chamada ‘educação sexual’ mais não é do que a educação dos afetos, “o modo como a criança se relaciona com os outros”. Por isso mesmo, “começa no berço”: “Inicia-se na relação da criança com os pais e com os irmãos. Com eles, ela aprende os limites e o respeito pelo próprio corpo e o do outro, e adquire as noções fundamentais que, mais tarde, serão a base da sexualidade adolescente.” Desde cedo, defende a psicóloga, espera-se dos pais uma postura recetiva do que as crianças têm para dizer.

E elas não se expressam de qualquer maneira. Duarte Vilar aconselha a que os pais não procurem “ter ‘a’ conversa”. “Resumir tudo numa conversa formal é uma ideia antiquada. Numa família, a comunicação é informal e constrói-se em torno de comentários, de respostas, do que os miúdos ouvem fora de casa, do que passa na televisão. Há muitas formas de conversar”, opina o sociólogo. Por outro lado, as próprias dúvidas que os jovens colocam vão também alterando a configuração. “Não adianta pensar que se já explicamos uma coisa, a criança não precisa de voltar a falar disso. Ela compreende, a cada momento, o que tem a capacidade de compreender. E vai aprofundando os assuntos.”

“Se os jovens têm dúvidas e perguntas é porque são capazes de entender as respostas”, concorda Margarida Gaspar de Matos. E a escola tem igualmente de participar no processo. Porém, por mais legislação que exista, é urgente haver continuidade. “O que falha? O facto de nem sempre se achar que a educação para a saúde é importante. Faz-se um grande investimento e depois interrompe-se o processo.” Coordenadora do projeto Aventura Social, que integra o Health Behavior in School-aged Children, da Organização Mundial da Saúde, a psicóloga relembra algumas das conclusões do estudo de 2014 sobre a vida dos adolescentes — o próximo será divulgado em janeiro de 2018. Entre elas, a ênfase dada nas escolas à prevenção do risco sexual e não tanto à abordagem da sexualidade em termos de “competências pessoais, relações interpessoais, de equidade de género e de direitos humanos”.

O problema surge quando a educação sexual “é dada como matéria” estritamente ligada à saúde, à biologia e às ciências da natureza, dispensando o debate em torno dos comportamentos e das relações afetivas. Em última instância, frisa Gaspar de Matos, é esse lado da aprendizagem que mais tarde irá prevenir situações de abuso ou de violência sexual, ou que irá fixar a noção de consentimento sexual. “A educação sexual na escola trouxe melhorias, como uma diminuição da gravidez adolescente [segundo os últimos dados do INE]. E há escolas a fazer grandes trabalhos. Só que o panorama é muito desigual e o Ministério da Educação deveria garantir que todas as escolas cumpram os mínimos”, diz Margarida Gaspar de Matos, para quem a mera existência de gabinetes de apoio à saúde não garante que estes funcionem eficazmente. Para tal acontecer, é necessário voltar a treinar os professores, pois “não é com um PowerPoint que se esclarecem as dúvidas” dos mais novos.

Para Margarida Gaspar de Matos, cabe à escola dar o que, por vezes, a família não consegue. Por exemplo, a orientação necessária face às tecnologias, onde as crianças obtêm todo o tipo de informações nem sempre fiáveis. “Os pais podem ser ajudados não só a falar com os filhos mas também a orientá-los na procura de informação.” Para Duarte Vilar, “a educação sexual na escola tem de ser consistente e regular, e não resumir-se a uma conversa a cada cinco anos”. Agora, o recém-homologado Referencial de Educação para a Saúde — uma espécie de guia da educação para a saúde em ambiente escolar — pode significar o preenchimento deste hiato e a reativação desse espaço no ensino. E um simples relance pelos seus conteúdos mostra que o lado físico da sexualidade surge a par do relacional. A secção respetiva chama-se “Afetos e Educação para a sexualidade” e foca subtemas como a identidade e género, os valores e os direitos sexuais e reprodutivos.

DESENVOLVIMENTO DA SEXUALIDADE

0-3 anos O bebé torna-se consciente do seu corpo e começa a explorá-lo. Precisa de ser tocado e acarinhado. Aprende se é rapaz ou rapariga.

4-6 anos Surgem a curiosidade sobre a reprodução e a fase dos ‘palavrões’. A exploração do corpo traduz-se em jogos. Nascem as amizades preferenciais.

7-9 anos Aparece o sentimento de pudor. Faz-se menos perguntas sobre sexo. Meninas e meninos juntam-se em grupos à parte.

10-15 anos Iniciam a puberdade e, a seguir, a adolescência. Há mais interesse pela sexualidade. Nas raparigas aparece a menstruação. Nos rapazes, a primeira ejaculação. A masturbação em ambos aumenta. Um novo corpo começa a desenhar-se.

16-18 anos A orientação sexual é agora clara. As experiências sexuais consolidam-se na relação com o outro. Há uma cada vez maior independência dos pais.

Fonte: OMS, Policies for Sexuality Education in the European Union, 2013

 

 

 

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