“Nunca vamos saber os números reais do incesto”

Janeiro 26, 2021 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

Notícia do Diário de Notícias de 17 de janeiro de 2020.

Fernanda Câncio

Em França, onde no início do mês um livro-choque acusa um reputado intelectual de ter abusado do enteado de 13 anos, um inquérito assevera que um em cada dez franceses foi vítima de incesto. Será possível? E em Portugal, que se sabe daquilo que a OMS considera “uma emergência sanitária silenciosa”?

bomba explodiu em França a 4 de janeiro, quando foi noticiada a publicação, daí a três dias, do livro La Familia Grande, da jurista Camille Kouchner, de 45 anos, no qual esta conta como o padrasto, o constitucionalista e político Olivier Duhamel, agora com 70 anos, abusou sexualmente do seu irmão gémeo a partir de 1988, quando os enteados tinham 13 anos. O rapaz confessou à irmã o que se passava, mas pediu-lhe para não falar; a avó materna tinha-se suicidado e a mãe, Evelyne Pisier, outra conhecida intelectual, passava por uma depressão e uma fase de alcoolismo; além disso, adoravam o padrasto, com quem viviam desde os 8 anos.

Atormentados pelas típicas lealdades e pelos pavores conflituantes destas situações, os gémeos mantêm o segredo durante décadas; é só em 2008, ante a possibilidade de os filhos do irmão mais velho passarem uma parte das férias grandes com Duhamel na sua casa de veraneio, que decidem, para defender os sobrinhos, contar ao irmão e depois à mãe. Se ele fica possesso, porém (como ficará o pai biológico, Bernard Kouchner, outra grande figura da sociedade francesa, ex-secretário de Estado e fundador dos Médicos sem Fronteiras), ela assume a defesa do marido. Chega a usar a palavra consentimento: o filho teria consentido, já que não se recusara nem denunciara; o silêncio dos gémeos é usado contra eles – outro clássico no abuso sexual de menores (e não só). O facto de os atos sexuais em causa não envolverem penetração anal mas sexo oral é mais um argumento usado pela mãe: afinal, a seu ver, nem sequer houvera propriamente violência. A rutura familiar é inevitável e durará até à morte da matriarca, em 2017.

“Quando eu já cá não estiver vais atacá-lo”, teria dito esta a Camille na última vez que se encontraram. É isso mesmo que sucede: com a autorização do irmão, escreve sobre o que se passou. O escândalo que daí resulta leva Duhamel a abandonar todos os cargos e atividades públicas e está a contaminar muitos dos intelectuais e políticos do seu círculo, que Camille acusa de terem sido sabedores e coniventes: “Toda a gente sabia.”

Um crime só reconhecido muito recentemente

O caso surge nem dois meses depois da divulgação de um inquérito sobre incesto em França cujos resultados (que podem ser questionados pelo método, já que se trata de autopreenchimento de respostas online, mesmo se a partir de uma amostra validada e supostamente representativa da população) asseveram que 10% dos respondentes foram dele vítimas e mais de 30% conhecem quem o tenha sido. E na sequência de outro escândalo relacionado com abuso de menores e com outro livro-choque, Consentimento, de Vanessa Springona.

Publicado em janeiro de 2020, neste, como no de Camille, descreve-se como uma parte da intelligentsia francesa foi conivente com o abuso sexual de uma menor – a autora, então com 14 anos – por outro conhecido intelectual francês, Gabriel Matzneff, de 49 anos. Vanessa assegura que o círculo de amigos de Gabriel, do qual a sua própria mãe fazia parte, sabia, permitiu e até incentivou – e que na verdade toda a sociedade francesa conviveu pacificamente com as descrições que o escritor fazia das suas aventuras com jovens raparigas como ela e até com crianças (por exemplo nas suas viagens de turismo sexual ao Sudeste Asiático) sem levantar questões. Uma convivência cúmplice ou “distraída” com a vitimização de menores que os relatos e as investigações sobre abuso sexual em orfanatos e outras instituições de acolhimento de jovens e crianças, assim como no seio da Igreja Católica, demonstram ter sido praticamente uma regra até há muito pouco tempo.

A benefício de contexto, lembre-se que nos anos de 1980, quando ocorreram os dois casos citados, o crime de abuso sexual de menores ainda não existia na generalidade dos ordenamentos jurídicos (em Portugal, por exemplo, surge apenas na década de 1990, mais precisamente em 1995) e a noção de consentimento estava muito longe de assumir a importância que tem vindo a ganhar, nomeadamente com o movimento #Metoo.

Na verdade, a maioria das pessoas ou não estava alerta para a possibilidade do abuso sexual ou não o via como crime – quando muito, torcia o nariz. A palavra “pedofilia”, hoje tão conhecida e tão mal utilizada – a maioria dos abusadores de menores não são pedófilos, no sentido em que não sofrem da parafilia com esse nome, que significa atração específica por corpos pré-púberes; o abuso sexual parece ser preponderantemente um crime de oportunidade e acesso – ainda não dera entrada no vocabulário público.

Não existindo o tipo criminal até ao final do século XX, não podia haver dados sobre o crime – em Portugal como no resto do mundo. E menos ainda sobre a sua subdivisão incestuosa.

“Mulher” aos 12 no Código Penal

A ideia de que é errado ter sexo com menores de uma certa idade porque estes não têm capacidade para decidir em consciência é muito recente mesmo no mundo ocidental, como o é a de que as crianças têm direitos e não se limitam a ser propriedade dos pais ou de quem quer que tenha poder sobre elas.

No primeiro Censo português, de 1864, que contou uma população de pouco mais de quatro milhões num país no qual milhares de crianças eram anualmente abandonadas na roda e o infanticídio tolerado – e cujo Código Penal dava ao pai de família tal propriedade sobre mulher e filhas que podia matá-las se o “desonrassem” sem mais castigo que seis meses de desterro da comarca – elencou-se a barbaridade de 153 meninas casadas e até oito viúvas entre os 11 e os 15 anos, assim como 31 rapazes casados na mesma faixa etária.

Nessa altura, uma menina era mulher a partir da entrada na puberdade; ainda que não a tivesse iniciado, porém, podia na mesma casar-se. Com o abuso sexual de menores legalizado e consagrado pela Igreja Católica (a esmagadora maioria dos casamentos era celebrada religiosamente), o que não seria o triste destino das crianças menos afortunadas – e eram tantas.

Mais de um século depois, o primeiro Código Penal (CP) da democracia portuguesa (1982) integrava a violação de meninas com menos de 12 anos no tipo de crime genérico de violação, definido como “cópula com mulher” (homens e rapazes não podiam ser violados) através do emprego de violência ou da colocação da vítima em estado de inconsciência ou de incapacidade “de resistir”. A pena era de dois a oito anos de prisão quer para quem forçasse uma adulta quer para quem praticasse cópula ou “ato análogo” com menor de 12 ou favorecesse esses atos com terceiro. A possibilidade de incesto surgia como agravação – a pena era aumentada num terço nos seus limites mínimo e máximo se a vítima fosse “ascendente ou descendente, filho ou neto do outro cônjuge, parente em segundo grau, filho adoptivo, pupilo” ou estivesse “sob tutela ou curatela, custódia ou autoridade do agente”.

A mesma agravação se aplicava aos outros crimes sexuais com crianças ou adolescentes como vítimas – sendo que para o legislador a partir dos 12 anos a vítima era já “mulher”. É assim que é tratada no tipo criminal “violação de mulher inconsciente”: a pena é de dois a cinco anos quer se trate de cópula com adulta inconsciente, incapaz de resistir ou com anomalia psíquica, ou de adolescente entre 12 e 13 anos. Caso a “mulher” tivesse entre 14 e 15 anos e não se provasse ter existido crime de violação, a cópula só seria crime – de estupro – se se provasse “abuso de inexperiência” (código para virgindade) ou “promessa séria de casamento”. E a pena não ultrapassava dois anos.

Tudo o que não fosse cópula – incluindo sexo anal e oral – com menor de 14, e aqui incluindo já o sexo masculino, era penalizado pelo crime “atentado ao pudor com violência” (sendo atentado ao pudor definido como ser “levado a sofrer, presenciar ou praticar um acto que viola, em grau elevado, os sentimentos gerais de moralidade sexual”), punido com prisão até três anos. Existia ainda, com a mesma pena, o crime de “homossexualidade com menores” (em 2007 retirado do CP por inconstitucionalidade). Que, curiosamente, punia mais severamente “desencaminhar menor de 16 anos do mesmo sexo para a prática de ato contrário ao pudor, consigo ou com outrem do mesmo sexo” que a cópula com uma adolescente mais nova abusando da sua inexperiência.

Incesto pai-filha é o mais comum

É só em 1995 que aparece o crime de abuso sexual de crianças e a idade do consentimento passa agora para os 14, sem gradações como no CP de 1982. As penas aumentam e a violação passa a incluir o coito anal (o oral só é adicionado em 1998). Quem tem cópula ou coito anal com menor de 14 passa a incorrer numa pena entre três e 10 anos; para “ato sexual de relevo” com crianças da mesma idade prevê-se de um a oito anos (a moldura penal é igualada à do coito em 1998). Surge também a atuação “sobre menor de 14 anos, por meio de conversa obscena ou de escrito, espectáculo ou objecto pornográficos, ou o utilizar em fotografia, filme ou gravação pornográficos; é punido com pena de prisão até 3 anos.” E passam a existir vátios outros crimes sexuais com menores como vítimas, como o de “atos sexuais com adolescentes”, que pune, com pena até três anos, o abuso da inexperiência quando a vítima tem entre 14 e 15 anos e o ato consiste em cópula, coito anal, oral ou “introdução vaginal ou anal de partes do corpo ou objetos”.

Desde a criação do tipo criminal, e ainda que com a noção de que se trata de uma realidade com enormes cifras negras (ou seja, na qual existe grande percentagem de ocorrências não denunciadas) passou a haver números relativos às queixas por abuso sexual. Em 2019, segundo o Relatório Anual de Segurança Interna, houve 117 detidos por esse crime, que é de entre os delitos sexuais aquele que apresenta mais queixas. Quase metade das quais – 44,8% – dizendo respeito a abusos no contexto de relações familiares.

Se o conceito clássico de incesto abrange apenas as relações sexuais entre pessoas com vínculo de sangue – pais biológicos e filhos, avós e netos, tios e sobrinhos, irmãos – tem também vindo a incluir, na perspetiva criminal, as relações entre padrastos e enteados, como no caso de Duhamel.

Em Portugal, como em França e Espanha, o incesto em si não é penalizado (é-o no entanto noutros ordenamentos legais europeus – Suíça, Alemanha, Dinamarca, Inglaterra e País de Gales, Itália – quando as pessoas envolvidas são adultas), constituindo uma agravação em crimes como abuso sexual de crianças e sexo com adolescentes, tal como é agravante a existência de outras relações de poder e responsabilidade entre o agressor e a vítima.

A estimativa da sua prevalência varia em função da cultura/geografia e do tipo de estudo/inquérito, mas parece assente que de todos os tipos de incesto/abuso sexual o pai-filha é o mais comum.

Caracterização do incesto paternal no Norte de Portugal, um estudo de 2010, é segundo a autora, Vânia Sofia da Silva Gomes, o primeiro no país a debruçar-se especificamente sobre este assunto. Para tal, examina 215 casos de suspeita desse tipo de incesto com menores de 18 anos, observados entre 2003 e 2008 na Delegação e Gabinetes Médico-Legais do Norte. Conclui que estes corresponderam a 13,3% dos casos de abuso sexual de crianças ali alvo e perícias forenses nesse período.

A maioria das vítimas da amostra são, como é típico, do sexo feminino e têm a idade média de 7,9 anos, tendo o alegado abuso começado cedo – mais de metade das vítimas teria entre 1 e 5 anos aquando da primeira ocorrência – e durado em média 18,4 meses, com elevada frequência. Isto porque, explica-se, “o fácil acesso do pai à criança ou jovem, a ocultação dos atos por ocorrerem no domicílio e o recurso a ameaças (verbais e físicas) que visam impedir a criança indefesa de revelar o abuso permitem que este ocorra de forma continuada, ao longo de anos.” Também por isso “as práticas sexuais são fisicamente menos intrusivas e menos violentas [que no abuso extra familiar], tendo como objetivo não causar lesões importantes, mas são particularmente intrusivas do ponto de vista emocional”.

Em 59% dos casos, o local é a casa da vítima e/ou do abusador. Quando a suposta vítima tem irmãos, há em 39,6% das situações suspeita de abuso em relação a eles também; em 8,9%, existe outro alegado abusador, na maioria das vezes um familiar próximo (tio, irmão ou avô). Em 23%, os alegados abusadores têm história prévia de crimes sexuais contra crianças, maioritariamente filhos ou sobrinhos.

Em mais de um terço das denúncias, o abuso teria consistido em carícias sexuais explícitas, incluindo contacto entre corpos e órgãos sexuais; em 20% houve penetração vaginal ou anal e em 9,8% tentativa. À medida que a idade da criança aumenta, as práticas tornam-se fisicamente mais intrusivas. Nas situações em que há informação quanto a quem fizera a denúncia, a mãe fora responsável em mais de metade.

Confinamento faz aumentar incesto?

A importância do abuso intrafamiliar no universo do abuso sexual de crianças pode resultar, numa situação de confinamento como a de 2020, num aumento das ocorrências?

Certo é que até novembro, de acordo com a Polícia Judiciária, haviam sido detidos, apenas na região de Lisboa, 52 suspeitos de abusos sexuais – número superior ao de todas as detenções ocorridas na área durante 2019 (48) pelo mesmo crime, tendo 80% dessas detenções dito respeito a abuso sexual de menores (não há para já informação sobre a preponderância do abuso intrafamiliar nesses casos). A situação é idêntica no resto do país: ao longo do ano passado, foram abertos cerca de 600 inquéritos por abusos sexuais; os casos relativos a crianças são entre 75% e 80% do total.

Ainda antes de estes números serem revelados, Daniel Cotrim, da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima, antecipava já o cenário ao DN. “Não sei se o abuso sexual e o incesto não aumentaram por as crianças não terem ido à escola, estarem sempre por casa.” Sem um inquérito epidemiológico, porém, é impossível ter noção da magnitude de um fenómeno do qual as vítimas chegam à APAV já adultas e por outras razões.

“Cerca de 70% das mulheres que nos chegam vítimas de violência doméstica foram vítimas de abuso sexual na infância. Por parte do pai, avô, tio”, informa este psicólogo. “Muitas vezes essas situações de abuso sexual condicionam estas mulheres. Houve uma barreira que foi ultrapassada – trocaram-se os papéis, estamos à espera de que o nosso pai e mãe nos protejam, nos deem mimo, não de que nos apalpem, nos toquem sexualmente – e a vida dessas pessoas está submersa em culpa.”

Muitas vezes, explica, as próprias relações violentas são uma tentativa de expurgar essa culpa, ou de prolongar o ciclo tóxico: “Eu mereço ser maltratada porque isto me aconteceu.” Como se houvesse uma incapacidade de separar o afeto da dominação e da violência.

Essa é uma das sequelas reconhecidas do incesto, como se reconhece no paper Ramifications of Incest (Ramificações do incesto), do psiquiatra americano Richard P. Kluft, publicado em 2011 no Psychiatric Times“A vítima habitua-se a relacionar maus-tratos com uma forma perversa de afeto.”

17 meses entre denúncia e entrevista da vítima

Por outro lado, explica Kluft, a confusão de sentimentos criada – “incompreensão, vergonha, conflitos de lealdade, medo de retaliação, a ideia de que é própria a criança que tem culpa do que aconteceu” – torna a denúncia difícil. Ainda segundo a mesma fonte, só cerca de 30% das denúncias vêm diretamente das vítimas, e nesse caso são em regra feitas por crianças mais velhas ou adolescentes. Em 43% dos casos, a revelação é acidental. Nos casos restantes, a denúncia deve-se a testemunhas oculares ou a inferência a partir de “comentários vagos ou ambíguos”.

Mais: a maioria “ainda tem medo de represálias depois de adulta. Acredita que o seu silêncio protege a família, teme a vergonha ou a estigmatização, desconfia das autoridades e muitas vezes teve experiências tão negativas com tentativas de denúncia que estão relutantes em voltar a fazê-lo. Isto é especialmente verdade no caso daqueles que tentaram cedo revelar a situação e sofreram consequências terríveis.”

Há aliás dados que apontam para o facto de que mais de metade – 51,9% – dos que confessaram a um dos progenitores estarem a ser maltratados continuarem a sê-lo um ano depois. A reação da mãe de Camille não é pois incomum, como não é incomum que as vítimas só denunciem as situações décadas depois de ocorrerem – ou nunca.

Acresce que mesmo quando há denúncia atempada a prova é complicada – e pelo menos em Portugal a forma como a justiça trata este tipo de casos deixa muito a desejar. Tal resulta do estudo citado sobre o incesto paternal no Norte – só em 16,7% dos casos o exame médico-legal foi efetuado menos de 72 horas após o último suposto abuso; a média foi de 133 dias – e parece não ter melhorado entretanto, como salienta um outro estudo, este de 2017 e efetuado uma equipa da qual fez parte a perita forense Teresa Magalhães, da Universidade do Porto.

O estudo (Interviews of Children in a Portuguese Special Judicial Procedure) debruça-se sobre 137 tomadas de declarações para memória futura de crianças vítimas de abuso, com idades de 3 a 17 anos, entre 2009 e 2014. E conclui que não só tende a haver uma distância temporal absurda – a média é 17 meses – entre a denúncia e a entrevista inicial (e mais 11 meses entre esta e as declarações para memória futura), o que leva a que uma parte muito significativa da prova se perca, como o tipo de questionário é inapropriado, com muitas perguntas de opção sim ou não e outras que induzem a resposta, quando o ideal são questões “abertas”, que deem às crianças latitude para contar as coisas à sua maneira, sem as pressionar.

“Estamos a deixar que muita prova se perca”

“Há uma falha que ainda persiste em Portugal: a de uma entrevista forense feita o mais cedo possível por um especialista habilitado e com questionários validados. Estamos a deixar que muita da prova se perca porque o testemunho da criança não é usado como deve ser“, comenta a especialista. “Já melhorámos e avançámos muito, mas a entrevista forense com um profissional preparado, com gravação em vídeo, como recomendado pela legislação internacional, daria ao juiz de instrução criminal e a todos os operadores judiciais maior segurança.”

Não só isso como a primeira entrevista deveria corresponder à tomada de declarações para memória futura. É o que defende o estudo citado, concluindo: “Estas mudanças serão um importante avanço na defesa dos direitos das crianças e na promoção de um sistema judicial justo tanto para as vítimas como para os suspeitos.”

Trata-se de uma lacuna legislativa, frisa Teresa Magalhães, que urge sanar. “Tivemos aqui [na Unidade de Medicina Legal e Ciências Forenses da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto] um curso para entrevistadores forenses, e houve até bastantes interessados, mas acabei com ele em 2016 ou 2017 porque depois não havia seguimento, o sistema não pede esses especialistas.”

Assumindo ser a pessoa que em Portugal mais tem publicado sobre a questão do abuso sexual de menores no seio da família – “Tem a ver com ter-me interessado pela violência doméstica, considero que faz parte da violência doméstica” -, Teresa Magalhães hesita quando confrontada com os números do inquérito francês: pode existir uma percentagem tão alta – 10% – de pessoas vítimas de abusos na família?

“Não quero dar palpites”, responde. “Desde logo coloca-se a questão do rigor científico e de qual é o conceito de abuso utilizado no inquérito. Mas acho que nunca vamos saber os números reais do incesto. Por ser um tema absolutamente tabu ainda e por causa do segredo que se cria – entre a vítima e o abusador quando são muito próximos, na própria família e devido à vergonha que as vítimas sentem e ao facto de serem muito pequenas e não perceberem o que se passa. E há muitas vezes o problema de que a denúncia pode pôr em causa o sustento da família. São muitos motivos para não falar. Vi muito, e ainda vejo, em contexto clínico, irmãs mais velhas que foram abusadas a vida toda e só denunciam quando veem que a irmã mais nova está em perigo.” Suspira. “É um problema da família, e a família tem de ser tratada de uma forma mais profunda. Até porque há uma certeza: as pessoas abusadas abusam. Há estudos que apontam para mais de 80% de taxa de “transmissão”. Não só de violência sexual, de violência em geral. Podem existir até alterações do foro genético, a nível dos cromossomas.”

Ainda assim crê que, ao contrário do que podem fazer supor as crescentes revelações, “não se pode dizer que o incesto está a aumentar. Acredito até que diminuiu. O que se passa é que há mais consciência, as pessoas estão mais atentas. A sensibilidade da sociedade está a crescer. Repare que há uns anos nem se falava de abuso sexual de homens, por exemplo. E como não se falava, quando se fala parece que aumentou, quando apenas se começou a ver a realidade.”

Interviews of Children in a Portuguese Special Judicial Procedure

Detetados em Portugal 101 casos de mutilação genital feminina no ano passado

Janeiro 21, 2021 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , ,

Notícia do Sapolifestyle de 15 de janeiro de 2021.

Os profissionais de saúde detetaram 101 casos de mutilação genital feminina em 2020, num ano em que os serviços foram afetados pela pandemia, mas mesmo assim prosseguiram sensibilizados para este crime, que obteve recentemente a primeira condenação em Portugal.

Dados do gabinete da secretária de Estado para a Cidadania e a Igualdade, Rosa Monteiro, solicitados pela agência Lusa, indicam uma diminuição das situações identificadas, em relação a 2019 (129).

“Portugal conta hoje com uma equipa estruturada e qualificada de profissionais nos Agrupamentos de Centros de Saúde (ACES), que partilham recursos e atuam em rede nos cinco ACES em que o projeto se iniciou: Almada-Seixal, Amadora, Arco Ribeirinho, Loures-Odivelas e Sintra”, afirmou o gabinete de Rosa Monteiro.

Nestes territórios, de acordo com a mesma fonte, foram realizados, em 2019, um total de 68 ações de formação sobre esta temática, que capacitaram 1.176 profissionais de setores-chave como a saúde (médicos, enfermeiros e psicólogos) e a educação (docentes, assistentes operacionais e técnicos).

Iniciativas desenvolvidas no âmbito do projeto “Práticas Saudáveis — Fim à Mutilação Genital Feminina”, criado em 2018, e que em fevereiro de 2020 viu alargada a ação a mais cinco ACES: Cascais, Estuário do Tejo, Lisboa Central, Lisboa Ocidental e Oeiras, e Lisboa Norte.

Este projeto, uma iniciativa da secretária de Estado Rosa Monteiro, tem vindo a “reforçar e estruturar, no panorama nacional, o combate à mutilação genital feminina, através da integração e responsabilização dos serviços de saúde de proximidade, pela qualificação e trabalho em rede de profissionais de terreno (saúde, educação, Ministério Público, entre outros), com uma profunda e estreita relação com as organizações não-governamentais (ONG) especializadas no terreno.

A Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo, a Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género (CIG) e o Alto Comissariado para as Migrações partilham a coordenação das iniciativas, tendo as ONG passado a contar com um financiamento específico através da subvenção da CIG.

O gabinete de Rosa Monteiro ressalva que, em 2020, e “embora constrangida pela eclosão da pandemia de covid-19, a atividade dos ACES manteve-se e beneficiou da estreita parceria com estas oito ONG nos diferentes territórios do projeto”.
Neste período, foram dinamizadas 44 ‘workshops’/’webinars’/ações de sensibilização e de formação, num total de mais de 900 pessoas abrangidas, entre profissionais de saúde, de educação, estudantes de medicina e enfermagem, psicólogos, assistentes sociais e pessoas de comunidades de risco.

O número de casos assinalados reflete “a maior capacitação de profissionais para detetar, sinalizar e agir perante situações de mulheres e meninas vítimas de mutilação genital feminina”.

Em 08 de janeiro foi conhecida a sentença do primeiro julgamento por um crime de mutilação genital feminina em Portugal, onde a prática é considerada crime autónomo desde 2015, punido com pena de prisão de dois a 10 anos.

Rugui Djaló, cidadã guineense residente em Portugal, foi condenada, no Tribunal de Sintra, a uma pena de três anos de prisão efetiva pelo crime de mutilação genital da sua filha.

Maimuna, nascida em Portugal em 25 agosto de 2017, tinha 1 ano e alguns meses quando viajou com a mãe para a Guiné-Bissau, em 04 de janeiro de 2019. Rugui queria “mostrar a filha aos familiares” residentes no país africano.

Regressaram em 15 de março de 2019 e três semanas depois Rugui levou a filha a uma consulta no centro de saúde, alegando que ela estaria com “assadura da grada”.

Apesar de ter sido aconselhada nesse sentido, a arguida não levou a filha ao hospital.

Já no decurso do julgamento, a menina foi sujeita a perícia médica, na qual foram detetadas cicatrizes “compatíveis com uma mutilação genital feminina de tipo IV” e “não compatíveis com assadura da fralda”, como alegado pela defesa.

Realçando as “lesões permanentes” causadas à filha menor, na altura com 1 ano de idade, o coletivo entendeu que a arguida “sabia o que estava a fazer e o que isso significava” em termos de consequências, concretamente que “tal conduta era punida por lei”.

Em Portugal, estima-se que 6.576 mulheres com mais de 15 anos possam ter sido sujeitas a mutilação genital feminina, a qual consiste na remoção parcial ou total dos órgãos genitais femininos externos. Serão 500 mil em toda a União Europeia e 200 milhões em todo o mundo, segundo dados das organizações nacionais e mundiais que lutam contra esta prática.

Britânicos e alemães põem as escolas sob suspeita na transmissão da covid-19

Janeiro 12, 2021 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , , , , , , , , , , ,

Notícia do Público de 10 de janeiro de 2021.

Países do sul da Europa estão a esforçar-se por manter o ensino presencial, ainda que a pandemia esteja a crescer. Estudos sugerem que ainda está mal compreendido o papel das crianças no contágio pelo novo coronavírus.

Clara Barata

O que convenceu Boris Johnson a encerrar as escolas no Reino Unido, quando decretou novo confinamento por causa da covid-19? Estudos de cientistas britânicos divulgados em Dezembro, quando o número de casos de covid-19 começou a disparar e foi detectada a nova variante do coronavírus, mostraram uma clara relação entre as taxas de infecção entre os alunos e pessoal das escolas e as da comunidade.

Antes, o primeiro-ministro britânico defendia ser “de importância vital” que as crianças pudessem manter-se na escola – juntando-se ao consenso internacional sobre os efeitos de ter interrompido as aulas presenciais em todo o mundo na Primavera, quando foi declarada a pandemia. Mas o Estudo de Infecção nas Escolas, uma parceria entre a Public Health England (equivalente à Direcção-Geral da Saúde), o Instituto Nacional de Estatísticas britânico e a Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres, que testou dez mil estudantes e pessoal de escolas em Inglaterra durante o mês de Novembro, assustou o Governo.

conclusão, divulgada online a 17 de Dezembro, foi que 1,24% dos alunos e 1,29% dos funcionários tinham tido um teste positivo para a infecção pelo novo coronavírus – com um peso maior nas escolas secundárias do que nas escolas primárias. Um outro estudo revelava que 1,2% da população de Inglaterra tinha sido infectada na semana de 8 a 14 de Novembro.

Foi nestes estudos que se começou a basear o conselho do Grupo de Aconselhamento Científico para Emergências (conhecido pela sigla SAGE, “sábio” em inglês) para não reabrir a maioria das escolas após as férias do Natal. Só dessa maneira se manteria o valor do R – a velocidade a que o vírus se espalha na população – abaixo de 1 e a epidemia poderia ser controlada. Daí saiu também a proposta para que fosse decretado um novo confinamento geral, como o que actualmente está a ser vivido, com o Serviço Nacional de Saúde britânico a dar sinais de saturação. Em Portugal, o Governo já disse que o novo confinamento geral que começa na quinta-feira deverá manter as escolas abertas. A decisão final será conhecida na véspera, já depois da reunião no Infarmed que juntará decisores políticos e especialistas em saúde pública.

Os dados da última semana do Instituto Nacional de Estatísticas britânico já mostram uma redução do número de casos entre as crianças em idade escolar e nos adultos de 35 a 49 anos – e um aumento em todos os outros. Mas a maior parte do ensino está a fazer-se à distância. Só os filhos de trabalhadores considerados essenciais estão a ir à escola, bem como crianças consideradas vulneráveis.

Mas creches e jardins-de-infância continuam a funcionar normalmente. Além disso, há planos para introduzir um sistema de testes regulares de despistagem nas escolas secundárias, para permitir a sua reabertura.

Mais crianças contaminadas

O caso do Reino Unido é talvez o melhor conhecido, e o mais falado, pela dimensão que a pandemia reassumiu naquele país. Mas este não é o único país europeu que, face à escalada de infecções, voltou atrás na política de manter as escolas abertas, pelo receio de que as crianças possam espalhar o vírus, apesar de não terem sintomas.

A Alemanha é um deles: o encerramento das escolas foi incluído nas medidas mais restritivas impostas a partir de 13 de Dezembro. No dia 5, a chanceler Angela Merkel anunciou que creches, escolas e lojas não essenciais devem permanecer encerradas até 31 de Janeiro, e foram limitados os deslocamentos a um raio de 15 km em torno do domicílio, nas zonas onde o número de casos é superior a 200 por 100 mil habitantes.

A 4 de Janeiro, relata a Deutsche Welle (DW), a equipa do microbiólogo Michael Wagner, da Universidade de Viena (Áustria), que tem defendido a necessidade de testar mais, apresentou um estudo em que dizia ter detectado uma criança infectada e sem sintomas em cada três a quatro das turmas que estudaram. Diz que as crianças deviam ser testadas mais frequentemente. “Pergunto-me se haverá mais casos – se não testarmos crianças sem sintomas, não podemos adivinhar a origem da infecção”, defendeu.

A Áustria está desde dia 7 e até 15 de Janeiro em regime de ensino remoto. Para regressar ao ensino presencial, o ministro da Educação, Heinz Fassmann, anunciou que as escolas vão receber, a partir de dia 18, os 5000 kits de testes de despistagem do coronavírus adquiridos para tentar tornar as aulas mais seguras. No caso das crianças mais pequenas, vai ser pedido aos pais que façam o teste aos seus filhos em casa. “Claro que haverá pais que vão recusar”, reconheceu o ministro, citado pela Reuters. “Mas é a oportunidade de reabrir as escolas.”

Outro estudo, da cientista alemã Annette-Gabriele Ziegler, do Centro de Investigação da Saúde Ambiental, usou testes de anticorpos para testar amostras de sangue de 12 mil crianças da Baviera (com idades entre 12 meses e 18 anos) e descobriu que as infecções pelo novo coronavírus são seis vezes mais frequentes do que se pensava até agora – o que pode afastar a ideia de que as crianças desempenham apenas um papel marginal na disseminação da covid-19, explica ainda a DW.

Outros países, mais a Sul, resistem ainda ao encerramento. Espanha tem mantido as escolas abertas, tal como França, que retomou o calendário escolar esta semana, a 4 de Janeiro, sem alterações ao protocolo sanitário em vigor. “É uma escolha profundamente educativa e social e também política, de preservar o direito das crianças à educação”, declarou o ministro da Educação, Jean-Michel Blanquer.

Isto apesar de o próprio director-geral da Saúde, Jérôme Salomon, ter dito que as duas novas variantes do coronavírus que estão a preocupar, identificadas no Reino Unido e na África do Sul, parecerem afectar mais os jovens e, por isso, ser necessário estar mais atento “ao meio escolar e universitário”.

Em Bagneux, decorre neste momento uma despistagem em massa em três escolas, desde sexta-feira, depois de ter sido identificado um caso de doença pela nova variante britânica, uma pessoa que trabalhava em dois estabelecimentos de ensino da cidade. Todos os habitantes são convidados a ir fazer o teste PCR, diz o Le Monde.

Em Itália, onde cresce o alarme devido aos já chamados “contágios panettone”, por estarem relacionados com as festas de Natal, as escolas primárias reabriram a 7 de Janeiro – mas no Sul, onde a pandemia atacou com muito mais força desta vez, só devem reabrir no fim desta semana, início da próxima. O ensino superior só regressará a partir desta segunda-feira (com 50% do ensino em formato presencial), também com grandes variações regionais.

Cancro está a aumentar nos adolescentes e jovens adultos

Janeiro 4, 2021 às 12:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , , , ,

Notícia da TV Europa de 1 de dezembro de 2020.

Nos últimos 40 anos o número de casos de cancro entre adolescente e jovens adultos já aumentou 30%, e tornou-se a principal causa de morte. Os cancros de rim, tireoide e gastrointestinal estão acrescer a taxa elevada.

O número de casos de cancro aumentou 30% nas últimas quatro décadas em adolescentes e jovens adultos. O cancro renal está a crescer a taxas mais altas, indicam investigadores do Penn State College of Medicine, EUA. A equipa de investigadores referiu que são necessários mais estudos sobre testes, diagnóstico e tratamento para lidar com esta tendência de crescimento.

Nicholas Zaorsky, investigador no Penn State Cancer Institute e especialista em oncologia por radiação e ciências da saúde pública, referiu que o cancro é a principal causa de morte entre adolescentes e jovens adultos e que o número crescente de casos é preocupante.

“Adolescentes e adultos jovens são uma população de cancro distinta”, referiu Nicholas Zaorsky. “Mas eles são frequentemente agrupados com pacientes pediátricos ou adultos nos estudos de investigação. É importante estudar como este grupo é diferente para que as diretrizes de atendimento possam ser desenvolvidas para abordar o aumento de casos”.

Os investigadores analisaram dados – incluindo sexo, idade no diagnóstico e tipo de cancro – de quase meio milhão de pacientes com cancro nos Estados Unidos, entre 15 e 39 anos, durante mais de quatro décadas. Os dados foram recolhidos pelo Programa de Vigilância, Epidemiologia e Resultados Finais do Instituto Nacional do Cancro. O objetivo da equipa era determinar o número de casos de cancro em adolescentes e adultos jovens entre 1973 e 2015. Os resultados acabam de ser publicados no JAMA Network Open.

Durante o período de tempo estudado, os investigadores descobriram que os diagnósticos de cancro aumentaram de 57 para 74 por 100.000 adolescentes e jovens adultos. Os tipos de cancro mais comuns em homens foram testicular, melanoma e linfoma não Hodgkin. Os tipos mais comuns em mulheres foram os cancros de mama, tireoide, cervical e uterino. Nicholas Zaorsky referiu que as taxas de cancro de rim, tireoide e gastrointestinal estão a aumentar nesta faixa etária.

O investigador indicou que outros estudos têm vindo a mostrar que estes tipos de cancro estão a aumentar nesta faixa etária, e acrescentou: “Os nossos dados reforçam o fato de que os médicos devem estar atentos a estes cancros em pacientes adolescentes e jovens adultos.”

De acordo com Nicholas Zaorsky, são necessárias mais estudos para determinar por que os cancros: renal, tireoidiano, gastrointestinal e outros tipos de cancro estão a aumentar em adolescentes e jovens adultos. Para o investigador as mudanças ambientais, dietéticas e de rastreamento durante o período de tempo estudado podem ter contribuído para o aumento das incidências.

“Todos estes tipos de cancro têm fatores de risco únicos”, referiu Nicholas Zaorsky, e concluiu: “Agora que há uma melhor compreensão dos tipos de cancros que são prevalentes e que mais aumentam nesta faixa etária, devem ser desenvolvidos protocolos de prevenção, rastreamento, diagnóstico e tratamento direcionados especificamente a esta população”.

O estudo mencionado na notícia é o seguinte:

Trends in Cancer Incidence in US Adolescents and Young Adults, 1973-2015

Covid-19: pobreza infantil vai manter-se elevada durante cinco anos

Dezembro 19, 2020 às 3:00 pm | Publicado em Relatório | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , , , , , ,

Notícia do Observador de 11 de dezembro de 2020.

Segundo um relatório divulgado pela UNICEF, da ajuda financeira atribuída pelos governos na primeira vaga da doença, apenas 2% foi dirigida às crianças.

A pobreza infantil vai permanecer acima dos níveis registados antes do aparecimento da Covid-19 durante pelo menos cinco anos nos países mais ricos, alertou a Unicef, defendendo um maior apoio direto às crianças.

Segundo um relatório divulgado esta sexta-feira pela Unicef (Fundo de Emergência Internacional das Nações Unidas para a Infância), a ajuda financeira atribuída pelos governos na primeira vaga da doença para combater a crise provocada pelos efeitos da pandemia tem sido destinada sobretudo às empresas e apenas 2% foi dirigida às crianças.

Por isso, a Unicef faz um apelo a “um maior equilíbrio das despesas de forma a garantir um apoio mais direto às crianças” no relatório “Apoios às Famílias e às Crianças Além da Covid-19: Proteção Social nos Países Mais Ricos”.

O documento, produzido pelo Centro de Investigação da Unicef, o Innocenti, conclui que 90% dos apoios financeiros foram dirigidos a empresas, tendo sido atribuídos, entre fevereiro e o final de julho, o “valor histórico” de 10,8 mil milhões de dólares.

Este valor, destinado a financiar a resposta à Covid-19 nos países desenvolvidos, foi atribuído através de pacotes de apoio fiscal dirigidos a empresas.

Embora sejam essenciais na resposta à crise, os apoios às empresas vão, inevitavelmente, excluir as crianças mais marginalizadas e as suas famílias, o que significa que as crianças que estão numa situação pior serão as mais afetadas”.

A Unicef sublinha ainda ser imprescindível um “maior equilíbrio” dos apoios, para beneficiar as crianças, referindo que cerca de um terço dos países da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico) e da União Europeia “não implementaram quaisquer políticas de apoio às crianças no âmbito da resposta à primeira vaga da pandemia”.

Mesmo entre os que investiram em intervenções de proteção social para crianças e famílias – incluindo cuidados infantis, alimentação escolar e abonos de família – “a maioria apenas o fez, em média, durante três meses”, alerta.

Para a Unicef, estas medidas de curto prazo são “completamente inadequadas” para enfrentar a duração estimada da crise e os riscos de pobreza infantil a longo prazo e, por isso, lança algumas recomendações.

É preciso aumentar as despesas de proteção social para proteger as crianças até porque “com o tempo, passará a haver uma procura maior por intervenções sociais mais intensivas”.

Além disso, a Unicef considera que é necessário flexibilizar os critérios de elegibilidade para as políticas familiares existentes “para permitir a todas as famílias vulneráveis com crianças (famílias desempregadas, pessoas no limiar da pobreza e migrantes) o acesso aos benefícios”.

As respostas de proteção civil também devem ser diversificadas durante a Covid-19, adianta a organização, propondo reforços na “alimentação escolar e/ou serviços de substituição, nos cuidados infantis, nos cuidados de saúde e nos perdões de dívida em serviços básicos, arrendamento e/ou hipotecas”.

O período após a crise mais direta da Covid-19 também deve ser alvo de preparação, defende a Unicef, considerando que a resposta à pandemia deve integrar “políticas familiares inclusivas – concebidas especificamente para proteger as crianças da pobreza, e melhorar o bem-estar de todas as crianças”.

A agência da ONU pretende ainda que sejam mantidos os apoios às empresas, mas que passem a incluir “condições que procurem promover o investimento público equitativo e amigo das famílias“, dando como exemplo, a regulação das licenças e as condições de trabalho dos pais.

É ainda necessário, adianta o relatório, “proteger os benefícios e serviços existentes, para crianças e famílias, da austeridade – cujo impacto tende a aumentar a violência, as situações de sem-abrigo, problemas de saúde e a institucionalização de crianças”.

Por fim, a Unicef apela a que se olhe para o longo prazo e reforce os sistemas de proteção social e as políticas que combatam a pobreza de crianças e famílias, para diminuir o impacto de possíveis crises futuras.

“Estamos a incentivar os governos a reforçar a proteção social das crianças, juntamente com o apoio às empresas”, afirmou a diretora do Gabinete de Investigação da Unicef-Innocenti, Gunilla Olsson.

Temos de ter “políticas mais fortes, centradas na família, [que] devem incluir uma combinação de apoio incondicional ao rendimento das famílias mais pobres, subsídios de alimentação, cuidados infantis e serviços básicos e perdão de dívidas de longo prazo, tanto no arrendamento como em hipotecas”, concluiu.

Mais informações na notícia do

Child poverty will remain above pre-COVID levels for at least five years in high-income countries

Relatório revela que HIV contamina uma criança ou jovem a cada 100 segundos

Dezembro 2, 2020 às 12:00 pm | Publicado em Relatório | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , , ,

Notícia da ONU News de 25 de novembro de 2020.

 

Fundo das Nações Unidas para a Infância mostra que, em 2019, quase metade das crianças não tiveram acesso a tratamento essenciais; pandemia piorou desigualdades no acesso a serviços de HIV/Aids para crianças, adolescentes e mulheres grávidas.

Segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância, Unicef, no ano passado, uma criança ou jovem com menos de 20 anos foi infectado com HIV a cada 100 segundos.

Num novo relatório, publicado esta quarta-feira, a agência pede que os governos mantenham e acelerem os esforços para combater o HIV em crianças.

Prevenção 

Ações de prevenção e tratamento para crianças permanecem entre os mais baixos. Em 2019, quase metade das crianças em todo o mundo não receberam os antirretrovirais.

No mesmo ano, 320 mil crianças e adolescentes foram infectados com HIV e cerca de 110 mil crianças morreram de Aids.

Em comunicado, a diretora-executiva do Unicef, Henrietta Fore, disse que “as crianças ainda estão se infectando em taxas alarmantes e morrendo de Aids.”

Segundo ela, esses números são antes “da Covid-19 interromper os serviços vitais de tratamento e prevenção do HIV, colocando inúmeras vidas em risco.”

Pandemia

De acordo com o Unicef, a pandemia piorou as desigualdades no acesso a serviços de HIV essenciais a crianças, adolescentes e mães grávidas em todo o mundo.

Também existem sérias preocupações de que um terço dos países com alta prevalência possam enfrentar interrupções relacionadas ao novo coronavírus.

Dados do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids, Unaids, citados no relatório, mostram o impacto das medidas de controle, interrupções na cadeia de suprimentos, falta de equipamentos de proteção individual e a realocação de profissionais de saúde.

Desafios 

Em abril e maio, coincidindo com o pico dos bloqueios para controlar a Covid-19, o tratamento pediátrico do HIV e o teste de carga viral em crianças caíram entre 50 e 70% em alguns países. Já o início de novo tratamento teve uma queda entre 25% e 50%.

Os partos nas unidades de saúde e pré-natal também caíram entre 20% a 60%. O teste de HIV materno e o início da terapia antirretroviral foram reduzidos de 25% a 50% e os serviços de testagem em bebês, 10%.

Nos últimos meses, a flexibilização das medidas de controle e o direcionamento estratégico de crianças e mães grávidas levaram a uma recuperação dos serviços. Apesar disso, os desafios permanecem, e o mundo ainda está longe de atingir as metas globais de HIV pediátrico para 2020.

Regiões

Apesar algum progresso na luta global contra o HIV/Aids, existem profundas disparidades regionais que persistem entre todas as populações, especialmente para as crianças.

Na região do Oriente Médio e Norte da África, por exemplo, 81% dos soropositivos infantis recebem terapia antirretroviral. Já na América Latina e Caribe, a porcentagem cai para 46% e África Ocidental e Central para 32%.

O Sul da Ásia tem uma cobertura de 76%. A África Oriental e Meridional apontam tratamentos para 58% da crianças e a Ásia Oriental e Pacífico para cerca da metade. iões

Ap

Mais informações na Press Release da Unicef:

320,000 children and adolescents newly infected with HIV in 2019, 1 every 100 seconds – UNICEF

Pneumonia grave afeta 4,2 milhões de crianças todos os anos

Novembro 19, 2020 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , ,

Noticia da ONU News de 12 de novembro de 2020.

Em Dia Mundial da Pneumonia, Unicef publicou novos dados sobre a doença; todos os anos, mais de 800 mil meninos e meninas menores de cinco anos morrem da infecção; número de óbitos supera o de malária, sarampo e diarreia juntos.

A cada ano, casos graves de pneumonia deixam cerca de 4,2 milhões de crianças com menos de cinco anos, em 124 países de baixa e média rendas, com níveis de oxigênio extremamente baixos.

A conclusão é de uma nova análise do Fundo das Nações Unidas para a Infância, Unicef, publicada esta quinta-feira, 12 de novembro, para marcar o Dia Mundial da Pneumonia.

Pandemia 

Segundo a pesquisa, as interrupções relacionadas à pandemia são mais uma dificuldade na batalha contra a maior causa de morte infecciosa de crianças. Todos os anos, cerca de mais de 800 mil crianças menores de cinco anos morrem da doença.

A pneumonia é causada por bactérias, vírus ou fungos. As crianças lutam para respirar enquanto seus pulmões se enchem de pus e líquido. A doença mata mais do que a malária, o sarampo e a diarreia juntos.

Em comunicado, a diretora executiva do Unicef, Henrietta Fore, disse que “enquanto o mundo luta com a pandemia e as graves consequências que ela representa para os mais vulneráveis, não deve perder de vista o fato de que a pneumonia continua a ceifar mais de 2 mil jovens todos os dias.”

Segundo ela, “o oxigênio medicinal pode ajudar a salvar algumas dessas vidas.”

Mas em muitos lugares, o oxigênio medicinal para tratar uma criança por três ou quatro dias pode custar pelo menos entre UK£ 30 e 45. Para as famílias mais pobres, esse custo representa uma grande barreira.

Dificuldades 

Mesmo antes do início da Covid-19, os países de baixa e média rendas já enfrentavam uma enorme falta de sistemas e suprimentos de oxigênio.

Após o início da pandemia, o agravamento da escassez e o aumento dos preços do foram relatados em países com alguns dos maiores números de mortes por pneumonia infantil, como Índia, Bangladesh e Nigéria.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde, OMS, as nações mais pobres podem ter atualmente apenas 5% a 20% do oxigênio medicinal de que precisam.

Boa notícia 

O Unicef diz que “a boa notícia é que o oxigênio pode ser produzido localmente a um custo acessível.”

Para aumentar o fornecimento, a OMS e seus parceiros distribuíram 30 mil concentradores de oxigênio para países em todo o mundo. Já o Unicef, entregou mais de 15 mil concentradores a pelo menos 90 nações.

A Universidade de Johns Hopkins, dos Estados Unidos, analisou os efeitos da interrupção de cuidados com recém-nascidos, problemas no acesso a antibióticos e distribuição nos níveis de pneumonia e sepse neonatal.

Segundo a análise, esses problemas podem estar custando a vida de cerca de 25 mil crianças adicionais a cada mês.

Mais informações na Press Release da Unicef:

https://www.unicef.org/press-releases/severe-pneumonia-leaves-42-million-children-desperate-oxygen-each-year

Mutilação genital feminina chega pela primeira vez a tribunal

Novembro 17, 2020 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , ,

Notícia do Público de 13 de novembro de 2020.

Portugueses começam a beber antes dos 13 anos

Novembro 17, 2020 às 6:00 am | Publicado em Relatório | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

Notícia do Jornal de Notícias de 12 de novembro de 2020.

Alexandra Inácio

Jovens de 16 anos não são os piores na Europa mas, quando bebem, ingerem mais. Ao nível da canábis, Portugal é o 5.º com mais consumidores de risco.

Os jovens portugueses são dos que começam a beber mais cedo (com 13 ou menos anos) e dos que mais preferem bebidas destiladas, revela um estudo hoje divulgado pelo Observatório Europeu da Droga e da Toxicodependência.

O relatório “European School Survey Project on Alcohol and Other Drugs”, feito de quatro em quatro anos, em 35 países europeus entre jovens de 16 anos, conclui que, apesar de a prevalência de álcool ser inferior à média europeia, os jovens portugueses ingerem maior quantidade.

“Em relação ao álcool, a percentagem de jovens portugueses de 16 anos que iniciaram o consumo de álcool aos 13 anos ou menos é consideravelmente superior à média europeia, embora a percentagem que se embriagou tão precocemente seja inferior à média europeia”, lê-se no estudo. Os portugueses são os segundos (a seguir aos espanhóis) a responder preferir bebidas destiladas (59%), na última vez que consumiram, por oposição à cerveja, ao vinho ou à cidra.

Comparativamente a 2015, Portugal foi dos países que registaram uma evolução “menos positiva”. Enquanto a média europeia, entre os jovens de 16 anos que ingeriram pelo menos uma bebida alcoólica ao longo da vida desceu de 82% para 80%, estando essa percentagem a cair desde 2003; em Portugal, entre 2015 e 2019, aumentou de 71% para 77%.

No indicador do consumo referente aos últimos 30 dias não há praticamente diferença em relação à média europeia, que se manteve nos 48%, enquanto em Portugal subiu ligeiramente dos 42% para os 43%. Na maior parte dos fatores analisados, Portugal fica abaixo da média, “destacando-se mais vezes pela positiva do que pela negativa”.

CONSUMO PROBLEMÁTICO

Portugal é dos países com maior número de ocasiões de consumo de canábis no último ano e o quinto com maior percentagem de consumidores recentes (24%) com padrão de consumo de alto risco, alerta o relatório. Apesar de a percentagem de jovens de 16 anos que consomem aquela substância ser inferior à média europeia, “aqueles que o fazem tendem a consumir de uma forma mais problemática do que se verifica na maior parte dos outros países”.

Quanto ao consumo de outras drogas ilícitas, os jovens portugueses estão em linha com a média europeia – por exemplo, na experimentação de anfetaminas e ou metanfetaminas -, mas é o 7.o país com a prevalência mais elevada de consumo de ecstasy.

Mais tempo na net

A percentagem de portugueses que assumiram ter problemas decorrentes da utilização da Internet em redes sociais e em jogo online é um pouco superior à média europeia. Portugal é dos países onde mais jovens de 16 anos passam mais tempo em redes sociais.

Tabaco

Portugal apresenta prevalências de consumo bastante inferiores à média europeia, especialmente nos cigarros eletrónicos.

Jogo a dinheiro

Os portugueses jogam menos online do que a média europeia, preferem apostar em lotarias e apostas desportivas.

ESPAD Report 2019:

http://www.espad.org/espad-report-2019

Síntese dos resultados obtidos em Portugal:

ESPAD2019_síntese_PT .pdf

Poluição do ar matou meio milhão de bebés em 2019

Novembro 11, 2020 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança, Relatório | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , , ,

Notícia da RTP de 21 de outubro de 2020.

A poluição do ar causou a morte a praticamente meio milhão de bebés no primeiro mês de vida. São dados preocupante revelados pelo relatório State of Global Air 2020.

Praticamente dois terços das 500 mil mortes de bebés estão associadas à poluição do ar em ambientes fechados. Em particular, situações relacionadas com combustíveis sólidos como carvão, madeira e até mesmo esterco animal para cozinhar.

Uma realidade infelizmente ainda muito comum em países em desenvolvimento, que mais sofrem com esta situação.

De acordo com este relatório agora conhecido, a exposição a poluentes no ar chega a ser prejudicial para bebés que ainda estão no útero, podendo mesmo provocar partos prematuros ou nascimentos com baixo peso. Duas situações diretamente ligadas à mortalidade infantil.

“Algo está a acontecer que está a causar problemas no crescimento dos bebés e, em última instância, no peso ao nascerem”, disse ao Guardian Katherine Walker, principal cientista do Health Effects Institute, que publicou o relatório.

Há algum tempo que era conhecido o impacto da poluição do ar nas pessoas mais velhas com com problemas de saúde. Este trabalho abre toda uma nova visão sobre o que a poluição está a fazer aos recém-nascidos e até mesmo a crianças que estão ainda no útero da mãe.

Bebés que nascem prematuramente, ou até mesmo com baixo peso, ficam mais suscetíveis a apanharem infeções e pneumonias, mais não seja porque, muitas vezes, os pulmões não estão ainda totalmente desenvolvidos.

Ao Guardian, uma professora de epidemiologia da Universidade da Califórnia explicava, em reação às conclusões deste estudo, que a poluição do ar em cidades da Índia, sudeste da Ásia e África chega a ser comparável com a de Londres vitoriana. “Esta não é a poluição do ar que vemos nas cidades modernas, mas a que tínhamos há 150 anos em Londres e outros lugares, onde havia fogueiras a carvão em ambientes fechados”, disse Beate Ritz.

O problema da poluição, acrescenta esta especialista, vai muito além da mortalidade infantil. “Também há danos ao cérebro e outros órgãos por causa dessa poluição”, afirmou. “Apenas sobreviver não é suficiente, precisamos reduzir a poluição do ar por causa do impacto em todos esses órgãos”.

Página seguinte »


Entries e comentários feeds.