Como as crianças sentem os crimes – Reportagem do Observador com declarações de Manuel Coutinho do IAC

Janeiro 17, 2017 às 1:00 pm | Publicado em O IAC na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , , ,

Texto do http://observador.pt/ de 15 de janeiro de 2017.

O texto contém declarações do Dr. Manuel Coutinho (Secretário–Geral do Instituto de Apoio à Criança e Coordenador do  Sector SOS-Criança do Instituto de Apoio à Criança).

454599676_1280x640_acf_cropped

Sónia Simões

Para as crianças, testemunhar um crime pode ser tão ou mais traumático do que ser vítima. Os psicólogos alertam: “Em Portugal dá-se o apoio penso rápido”.

O som da bomba a rebentar foi demasiado forte para se esquecer dele. Júlia (nome fictício), 13 anos, estava a dormir e, num pulo, acordou. Ao lado, a mãe acabara também de acordar sobressaltada, mas sem se ter apercebido do estrondo. A criança, ainda ensonada, não teve dúvidas: era uma bomba. A mãe acreditava mais num tremor de terra ou numa trovoada. As dúvidas dissiparam-se quando perceberam que tinha sido mesmo detonado um engenho explosivo durante um assalto.

O crime foi tão rápido que a Polícia Judiciária acredita estar perante profissionais. Era madrugada. Horas depois, já com o sol bem alto, a criança teimava em não dormir mais. Também recusava ficar sozinha em casa. Tinha medo. Em casos mais graves, este medo poderá não passar com o tempo, garantem especialistas ao Observador.

“Uma criança é um ser frágil que absorve tudo, é como uma câmara de filmar. Significa que basta a criança assistir a um crime ou um ato violento para que indiretamente seja vítima desse crime e dessa violência. Perante um facto destes, uma criança é sempre vítima de um crime, mesmo quando é testemunha”, explica o secretário-geral do Instituto de Apoio à Criança (IAC), Manuel Coutinho. O psicólogo da Associação de Apoio à Vítima (APAV), Daniel Cotrim, concorda. “Uma criança que testemunha um crime sofre tanto ou mais do que uma criança que é vítima, porque é mais complicado perceber as sequelas que ficam e tratá-las”, explica.

Realmente, Júlia lembra-se de tudo: “Eu estava a dormir quando ouvi um grande estrondo que identifiquei como uma bomba. O que me passou pela cabeça naquele momento foi que fosse um atentado terrorista. Estava a dormir com a minha mãe e disse-lhe: ‘Mãe, o que é que foi isto? Que barulho foi este?’, mas ela tinha acordado já no final e não percebeu muito bem o que era. Mais tarde disse que lhe passou tudo pela cabeça: tremor de terra, trovoada, vento. Depois da explosão ouviam-se imensos gritos, parecia que estava alguém na cozinha a assaltar a casa, mas ao mesmo tempo, como tenho uma gata, deixei essa ideia de parte porque pensei que ela miava se alguém estivesse em nossa casa e ao mesmo tempo deixaram de se ouvir os gritos. A minha mãe foi perguntar ao meu pai se ele tinha ouvido e eles foram os dois à janela da cozinha ver o que se passava, mas sem acender a luz, com medo que fosse um assalto ou algo do género e ainda lá estivessem. O meu pai vestiu-se e foi ver o que se passava. Eu e a minha mãe vestimo-nos também e descemos. Enquanto estávamos no elevador pensei imediatamente num vizinho nosso que tem muitos problemas de coração e está sempre no hospital. Pensei que ele tivesse tido um enfarte com o susto. Tive medo que ele morresse (afinal está tudo bem com ele). Foi uma noite assustadora. Nunca pensei que isto acontecesse.”

Já Freud, lembra a pedopsiquiatra Ana Vasconcelos ao Observador, assim o defendia. Dizia que “às vezes é pior observar violência de alguém que gostamos do que sofrermos essa violência”. E que isso “pode causar memórias traumáticas terríveis”. A pedopsiquiatra refere que uma criança que assista a um assalto pode ficar cheia de medo e passar a pensar sempre naquela situação e nas suas consequências. E dá um exemplo: se a criança for testemunha da mãe a ser assaltada no metro, poderá vir a sentir medo de andar de metro e associar aquele local ao que viveu. “A criança fica com os mecanismos hipervigilantes”, diz Ana Vasconcelos.

Não existem dados estatísticos sobre quantas crianças testemunham crimes e quantas são afetadas por eles ao ponto de necessitarem de acompanhamento, mas, para o psicólogo responsável do IAC, Manuel Coutinho, “também é importante pôr a lupa neste tipo de situações”. Ao IAC, através do SOS-Criança, e também à APAV, chegam muitas vezes casos de menores que são testemunhas de crimes dentro das suas próprias casas e num contexto familiar. “Aqui a criança está exposta à dor, ao sofrimento, ao stresse, à angústia e à ansiedade”, relata o responsável. Por vezes, tempo demais. Manuel Coutinho lembra-se do caso de uma criança, a quem chama “super-homem” ou “super-mulher”, cujo corpo servia, muitas vezes, de barreira entre o pai e a mãe para evitar uma nova agressão. A pedopsiquiatra Ana Vasconcelos tem entre os pacientes um menino com “um comportamento completamente alienado” em relação ao pai — porque o viu bater na mãe. Estas crianças assumem muitas vezes uma postura com a mãe e outra com o pai e vivem em dois mundos completamente diferentes.

Daniel Cotrim lembra também que estas crianças se culpabilizam sobre o que está a acontecer à sua volta. “As crianças são apanhadas frequentemente no meio da turbulência das separações. Muitas vezes os adultos fazem disto um período de grande violência, a criança é jogada pela mãe ou pelo pai neste jogo de separação”.

Dificuldade de concentração é um dos sinais

Manuel Coutinho defende que uma criança absorve tudo, mas também pode ser vista como um espelho que pode refletir o seu estado psicológico através de alguns sinais. O psicólogo lembra que, sempre que uma criança está exposta, direta ou indiretamente, a situações de crime, de abuso ou a situações de violência, pode apresentar dificuldades de concentração, como défice de atenção. A criança pode tornar-se “mais agressiva ou mais agitada, ou também apresentar baixa de autoestima ou estados depressivos, fechando-se sobre si mesma”.

A pedopsiquiatra Ana Vasconcelos afirma que podem ser sinais de alerta os comportamentos que a criança apresenta. Por exemplo, em situações em que era suposto estar tranquila, mostra sinais de medo, pânico, ansiedade. Não quer ficar sozinha ou tem medo de dormir, pergunta muitas vezes quando os pais a vão buscar à escola. “São sinais de insegurança anormal ao que é habitual”, refere. Por vezes o problema revela-se fisicamente. “Estão sempre a fazer xixi, são sinais de ansiedade ou de pânico”, alerta. Estes comportamentos podem também aparecer apenas em situações que a possam fazer lembrar a “memória traumática” que sofreu. “É uma coisa que ela não domina, em determinadas alturas, mesmo numa situação que nada tenha a ver com aquela, essa memória pode aparecer”.

“Em Portugal dá-se o tratamento ‘penso rápido’”

Daniel Cotrim diz que se estes sinais “forem detetados de forma precoce, tudo é reparado”. Uma reparação mais fácil do que num adulto. “Falamos de estruturas cognitivas que rapidamente conseguem ultrapassar traumas, mais do que os adultos. Como a recuperação de partir uma perna é mais rápida numa criança do que num adulto”. Mas não é raro aparecerem crianças com traumatismos graves “que necessitam de muito acompanhamento psicológico e até psiquiátrico”, alerta. “Crianças com depressões, que já passaram a fase da tristeza, crianças com tendências suicidas”, exemplifica.

Na perspetiva de Manuel Coutinho, é fundamental que a criança seja “apoiada pelos pais e pelos professores”. Depois de uma criança ter testemunhado um crime, não se deve mentir-lhe. Deve falar-se com elas claramente “para que elas entendam”. Há que perceber qual o receio da criança e tentar desmontá-lo até ela voltar a sentir-se segura. “Vamos dando corda para a criança pôr cá fora a sua dor e as suas preocupações. Vamos tentando construir um diálogo ao nível da criança envolvida. Apazigua muitíssimo deitar fora a sua dor, as suas angústias.”

Este é um trabalho que a APAV e o IAC tentam fazer, mas para Daniel Cotrim devia ser feito por mais técnicos em mais instituições — como nas polícias e nos tribunais. “O sistema que trabalha com estas crianças tem que estar dotado de técnicos na área da Psicologia e Psiquiatria. Há crianças que testemunham o homicídio da mãe ou do pai e que não fazem o luto. Há crianças que assistem à morte da mãe e veem o pai ir preso e ficam órfãs. “É uma situação extrema, mas temos que pensar nisto. O apoio às crianças e aos jovens ainda depende muito do bom senso dos profissionais que estas pessoas procuram para ter ajuda, porque não há outro tipo de apoio. A saúde mental em Portugal é o parente pobre da saúde e quando se fala de crianças e jovens, mais pobre ainda”, denuncia.

É que, adverte Daniel Cotrim, uma criança com um problema de saúde mental por resolver pode “desenvolver comportamentos mais aditivos, mais agressivos, ser autor de bullying na escola, ser violenta no namoro, automutilar-se”. “Em Portugal dá-se o apoio penso rápido, para estancar, e depois não se continua o tratamento”, diz. E a falta de tratamento pode trazer consequências graves aos jovens. “Isto vai transparecer, vai ter custos sociais muito grandes. Porque não ensinaram a estas vítimas a perceber que a violência e o mau trato não é uma forma de relacionamento.”

Lei equipara vítimas e testemunhas

Na perspetiva do jurista da APAV, Frederico Moyano Marques, a justiça tem feito um esforço cada vez maior para vitimaequiparar as vítimas de um crime às testemunhas — sejam crianças ou adultos. As crianças, por seu turno, integram já o estatuto de vítima especialmente vulnerável só pela sua idade. Mas aos olhos desse estatuto, uma criança que seja testemunha “é também uma vítima especialmente vulnerável”.

Este estatuto permite que estas vítimas, mesmo que “secundárias”, possam ser ouvidas em videoconferência, à porta fechada ou para “memória futura”, não tendo que prestar declarações e recordar o momento traumático ao longo das várias fases do processo penal, que pode prolongar-se durante anos. Mais. O mesmo estatuto prevê um conjunto de medidas que visam proteger estas vítimas evitando o contacto com os arguidos. “O ideal é que entrem por portas diferentes, tenham casas de banho diversas, não se tenham que cruzar na sala de audiências ou não tenham sequer que estar presentes nas salas, podendo ser ouvidas por sistema vídeo”. O Observador confirmou junto do Ministério da Justiça que, pelo menos no Tribunal de Loures, estão previstas obras para satisfazer estes requisitos.

capturar

A lei, transposta de uma diretiva comunitária, prevê ainda que estas vítimas — quando estejam em causa crimes sexuais ou de violência doméstica — sejam ouvidas por pessoas do mesmo sexo. De fora da lei, critica o jurista, ficou uma regra da diretiva comunitária que estabelecia que estas vítimas têm que ser ouvidas por profissionais espacialmente qualificados na inquirição de crianças, de forma a não prejudicar a produção de prova. “Ou o magistrado ou o polícia tem formação nestas técnicas ou tem que recorrer a um técnico”, explica Frederico Marques. “Mas esta medida não entrou no nosso estatuto”, constata.

 

 

 

Com os brinquedos… não se brinca! Entrevista de Marta Rosa do IAC

Janeiro 11, 2017 às 1:00 pm | Publicado em O IAC na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , ,

Entrevista de Marta Rosa do Sector da Actividade Lúdica do Instituto de Apoio à Criança à Maria no dia 18 de dezembro de 2017.

clicar na imagem

marta-rosa-1

 

Há 616 crimes por mês nas escolas portuguesas

Janeiro 6, 2017 às 1:00 pm | Publicado em O IAC na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , , ,

Notícia do http://www.dn.pt/ de 6 de janeiro de 2017.

dn

Rute Coelho

Bullying e as agressões em ambiente escolar têm vindo a aumentar. No último ano letivo, PSP e GNR registaram 4757 crimes

“Tens piolhos, és foleira, olha as tuas roupas.” Os insultos repetiram-se durante meses, criando um clima de medo e de revolta numa aluna do 7.º ano de uma escola secundária na zona de Sacavém, Loures. O caso desta adolescente, de 14 anos, que chegou ao Gabinete de Apoio ao Aluno e à Família (GAAF), do Instituto de Apoio à Criança, na passada quarta-feira, é um dos 4757 atos de agressões, ameaças ou injúrias registados em ambiente escolar.

Uma realidade que tem aumentado nos últimos quatro anos, segundo os dados do Programa Escola Segura da PSP, a que o DN teve acesso. No ano letivo de 2015-2016 houve 4102 crimes registados nas escolas portuguesas pela PSP, aos quais se juntaram 657 reportados pelo programa equivalente da GNR, num total de 4757 situações. A maioria dos casos acontece no interior do espaço escolar, sobretudo no recreio.

Um dos casos que vão entrar na estatística é o de um menor agredido por vários adolescentes em Almada, num episódio de violência acontecido em novembro, filmado com um telemóvel e conhecido ontem (ver texto secundário).

Feitas as contas aos 167 dias úteis de aulas no último ano letivo (de 15 de setembro de 2015 a 9 de junho de 2016), chegou-se à média de 616 crimes por mês nas escolas portuguesas cobertas pelos programas Escola Segura da PSP e da GNR. E têm sido mais de 200 as vítimas que, por ano, são conduzidas ao hospital, segundo os registos do programa da PSP (ver caixa).

As agressões estão em maioria no total de crimes, numa média estabilizada de 1350 por ano, nas 3366 escolas asseguradas pelo programa da PSP. Na área da GNR houve mais 91 casos de alunos agredidos no ano letivo passado – 349 situações contra 258 de 2014-15. A maioria dos agressores e vítimas têm menos de 16 anos.

Mas o coordenador do Programa Escola Segura da PSP acredita que a subida de casos nas estatísticas não significa maior quantidade de crimes. “Há um aumento das denúncias dos miúdos em relação ao bullying devido às ações de sensibilização que temos feito nas escolas. As queixas que têm aumentado referem-se sobretudo a crimes ocorridos no interior do espaço escolar”, comentou o subintendente Hugo Guinote.

Vítima de bullying quer desistir

Regressando à escola na zona de Sacavém – considerado território de risco – na quarta-feira à tarde, a técnica de serviço foi surpreendida pelo relato de uma rapariga de 14 anos, aluna do 7.º ano, que se queixou de ser vítima de bullying. A técnica falou com o DN mas pediu para que nem ela nem a escola fossem identificadas de forma a proteger a jovem. A rapariga começou a faltar às aulas antes do final do 1.º período. Depois de três semanas de ausência, a diretora contactou os pais e sinalizou o caso ao GAAF. Na quarta-feira, a aluna voltou então à escola, acompanhada pela mãe. Em casa já tinha contado o que se passava: há meses que era vítima de bullying por parte de duas colegas de turma que a humilhavam com ofensas, dia após dia. “Tens piolhos, és foleira, olha as tuas roupas”, eram alguns dos insultos constantes.

Os pais querem que a filha seja transferida de escola. A técnica do GAAF vai mediar o conflito da criança com o estabelecimento de ensino, ouvindo também o diretor de turma, as duas agressoras e os pais, e a comunidade escolar.

Na turma desta adolescente ninguém sabia, aparentemente, o que se passava. “Também já sinalizámos a situação ao Programa Escola Segura da PSP. A PSP pode encaminhar o caso de agressão verbal e psicológica para o tribunal mas é difícil fazer a prova”, referiu a técnica. “A menor e os seus pais querem a transferência da escola mas ela não vai resolver o seu problema assim. É quase uma fuga. Quantas transferências escolares poderão existir motivadas pelo bullying?”, questiona. A técnica vai querer “trabalhar com as agressoras e com os seus pais, perceber o que se passa. Geralmente, o agressor já foi vítima de alguma situação”.

Nos 137 agrupamentos de escolas que se localizam em zonas de risco, os GAAF não têm mãos a medir. Ali promove-se a mediação escolar em territórios de guerra pouco habituados ao diálogo.

Apoiar a vítima e chegar a quem agride é um dos objetivos deste ano do Programa Escola Segura, da PSP. “A causa do problema reside na criança que é agressora e que muitas vezes é vítima de violência no seu espaço doméstico ou social. Poderão ser os criminosos de amanhã. Por isso, temos de fazer uma intervenção o mais precoce possível”, salienta o subintendente Hugo Guinote. A PSP já iniciou, há um ano, ações de sensibilização sobre o que significa agredir os outros física e verbalmente, junto das crianças do pré-escolar e primeiro ciclo.

O cenário nas escolas é cada vez mais duro e a violência está a ser banalizada pelas gravações de telemóvel que se colocam nas redes sociais. No ano letivo passado, a PSP deteve 90 alunos, 74 deles no interior da escola, por alegada participação em crimes. Uma subida de assinalar, pois no ano letivo de 2014-15 foram 58 os detidos, a maioria deles no exterior (47). Nos últimos quatro anos, as armas apreendidas pela PSP nas escolas superaram a média de cem por ano.

A socióloga Margarida Gaspar de Matos, que coordenou parte dos dados do relatório da UNICEF – “As crianças no mundo desenvolvido” – divulgado em abril, diz não ser possível associar a pobreza às vítimas de bullying e a riqueza aos agressores. “Um estudo recente num outro sentido associa o desafogo económico e o sucesso escolar a algum egocentrismo. Por isso, mais do que “diabolizar” a pobreza ou a riqueza, era importante providenciar aos jovens alternativas (competências, motivação e oportunidades) de optarem por modos de convívio mais pacíficos”, conclui Margarida Gaspar.

 

Indisciplina e más notas provocadas por sofrimento emocional acentuado

Janeiro 5, 2017 às 1:00 pm | Publicado em O IAC na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , , , , ,

Notícia do http://www.dn.pt/ de 30 de dezembro de 2016.

A notícia contém declarações da Dra. Melanie Tavares, Coordenadora dos Sectores da Actividade Lúdica e da Humanização dos Serviços de Atendimento à Criança do Instituto de Apoio à Criança.

nuno-pinto-fernandes

Isolamento pode ser um dos sinais de sofrimento | Nuno Pinto Fernandes/Global Imagens

Ana Bela Ferreira

Promoção da saúde mental é prioridade da Direção Geral da Saúde, que já formou 300 profissionais para ajudar jovens

As dificuldades de aprendizagem e indisciplina de muitas crianças resultam de “um sofrimento emocional acentuado”, alerta a Direção Geral da Saúde (DGS), no relatório do Programa Nacional de Saúde Escolar, feito no letivo 2014/2015 e recentemente apresentado. Preocupada com o problema, a promoção da saúde mental passou a ser “o eixo central da intervenção da Saúde Escolar”.

A aposta – resultado de uma parceria entre a DGS e Direção Geral da Educação – “tem a ver com a consciência de que o universo escolar traz atrelado uma série de preocupações e a certeza de quando há uma boa saúde mental é mais fácil a aprendizagem, a inserção social, o sucesso escolar e como é importante apostar desde o início nestas áreas”, defende Conceição Tavares Almeida, psicóloga e assessora para a área da infância e adolescência no programa nacional de saúde mental.

Para poder ajudar as crianças e jovens, arrancou, em fevereiro deste ano, um plano de formação “de cerca de 300 profissionais de saúde e de educação que ficaram capacitados para desenvolver projetos de promoção da saúde mental orientados pela tipologia de competências socioemocionais”, segundo explicou ao DN a coordenadora do Programa Nacional Saúde Escolar, Gregória Paixão von Amann. E que o coordenador do Programa Nacional para a Saúde Mental – que trabalhou em conjunto com a equipa da Saúde Escolar – confirma que está previsto manter em 2017. “Está no plano de atividades a continuidade deste programa de formação, para chegar mais ou menos a mais 300 pessoas e assegurar apoio a quem já teve esta formação. Está previsto, mas às vezes pode haver problemas de orçamento, tal como já tivemos no ano passado”, aponta o especialista.

Com estas ações, os responsáveis de saúde pretendem que sejam desenvolvidos projetos junto das crianças que as ensinem “a aceitar as diferenças entre si, a respeitarem-se mutuamente, a saberem identificar quando precisam de ajuda e recorrerem a um adulto de referência, a assumirem gradualmente a responsabilidade das suas ações e a tomarem as melhores decisões para a sua saúde e vida”, refere a coordenadora do programa de saúde escolar.

Além disso, “quando os professores estão alerta para a situação por detrás daqueles comportamentos, acabam por adequar a sua forma de estar e conseguem ter outros resultados, não tem que ser uma atitude desculpabilizante, mas de compreensão”. E como “comportamento gera comportamento”, os alunos “acabam por mudar a sua atitude perante o professor”, justifica Melanie Tavares, coordenadora da mediação escolar do Instituto de Apoio à Criança (IAC).

É “melhorando a qualidade da interação entre a criança ou jovem com a família, a escola e o meio sociocultural”, que a DGS acredita ser o caminho para combater o sofrimento emocional de muitas crianças. “No âmbito do Programa Nacional de Saúde Escolar a promoção da saúde mental é uma prioridade pois é a dimensão da saúde que permite lidar, de forma mais eficaz, com as emoções, os sentimentos, as frustrações e usufruir do seu contributo para a capacidade de pensar e de tomar decisões”, diz Glória von Amann.

Não há crianças mal educadas

Uma das razões para investir na saúde mental dos jovens é, segundo o psiquiatra Álvaro Carvalho, o facto de “nenhuma criança é mal educada porque sim”. “O caráter só se forma no final da adolescência, ou seja, até lá comportamentos de indisciplina ou agressivos são, com frequência, expressão de problemas emocionais, que podem ter origem na família ou na escola”.

Esse é o entendimento que tem estado na base da atuação dos gabinetes de apoio ao aluno e à família (GAAF) do IAC, desde que foram criados em 1998. “A nossa intervenção sempre assentou em quatro pilares: aluno, escola, família e comunidade. A nossa experiência diz-nos que na maioria das vezes o problema está na família, na falta de apoios socioeconómicos ou acompanhamento”, refere Melanie Tavares, coordenadora da mediação escolar do IAC. Da sua experiência, a psicóloga, lembra que “os alunos são o espelho das situações familiares”. “Uma criança quando não está bem só consegue por cá para fora coisas más. Se tivermos adultos educados para lidar com este tipo de crianças ou jovens, eles desistem do comportamento que tinham”, acrescenta.

Dos casos que acompanham, “sem fazer um estudo, diria que 80% dos alunos que identificámos com problemas emocionais, tiveram problemas de comportamento”. No ano letivo anterior, os GAAF identificaram 229 alunos com problemas do foro psicológico e 544 participações disciplinares (sendo que o mesmo aluno pode ter mais do que uma participação).

O número de crianças “com problemas mentais” não é conhecido em Portugal, como esclarece Álvaro Carvalho, que faz referência aos dados internacionais que apontam para uma incidência de 20% e dessas só um quinto das crianças são tratadas.

Por vezes o mais difícil é perceber os sinais. “A questão é que tudo pode ser sintoma”, aponta Melanie Tavares. “Pode ser começar a ficar agitada ou muito parada, deixar de ter capacidade de concentração, ou então ficar muito concentrada e sobre investir na parte escolar, alterações alimentares. No fundo, é preciso estar atento a mudanças”, sintetiza Álvaro Carvalho.

 

 

 

Todos os casais podem resolver a guarda dos filhos na conservatória

Dezembro 16, 2016 às 12:00 pm | Publicado em O IAC na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , ,

Notícia do Diário de Notícias de 8 de dezembro de 2016.

clicar na imagem

672656221

Vídeo da assinatura da Escritura de Constituição do Direito de Superfície sobre o Imóvel, que teve lugar no dia 12 de outubro nos Paços do Concelho da CML

Dezembro 15, 2016 às 1:00 pm | Publicado em O IAC na comunicação social, Vídeos | Deixe um comentário
Etiquetas: , ,

mais informações no link:

http://www.cm-lisboa.pt/noticias/detalhe/article/cml-cede-nova-casa-ao-instituto-de-apoio-a-crianca

SOS Criança apela à denúncia de situações que possam pôr em risco as crianças

Dezembro 9, 2016 às 1:00 pm | Publicado em O IAC na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , ,

Notícia da http://www.rtp.pt/noticias/ de 7 de dezembro de 2016.

A notícia contém declarações do Dr. Manuel Coutinho (Secretário–Geral do Instituto de Apoio à Criança e Coordenador do  Sector SOS-Criança do Instituto de Apoio à Criança).

Lusa

O coordenador do SOS Criança apelou hoje a todos os que conheçam famílias em situação de “maior vulnerabilidade” que apresentem o caso às instituições para ajudar as crianças e evitar que passem por situações de risco e negligência.

Os maus tratos físicos e a negligência a crianças estão a aumentar com as dificuldades das famílias, que não conseguem assegurar necessidades básicas como alimentação, vestuário e uma casa digna, alertou Deolinda Barata, da Sociedade Portuguesa de Pediatria e coordenadora do núcleo de crianças e jovens em risco do Hospital D. Estefânia, onde tem assistido a situações que não surgiam na prática clínica “há 20 ou 30 anos”.

“Sempre que existe uma situação de crise num país ou sempre que a sociedade começa a ver os seus direitos postos em causa, as famílias são as primeiras a sofrer com essas dificuldades”, disse à agência Lusa o coordenador do SOS Criança, do Instituto de Apoio à Criança (IAC).

Como as dificuldades persistem durante um tempo superior à média, as famílias não conseguem suportar tanta pressão e passam essa pressão para cima das crianças que “são, normalmente, as que sofrem duplamente e as que sofrem mais”, explicou Manuel Coutinho.

“Sempre que existem situações de desorganização social e de privação dos bens económicos, as crianças acabam por ser vítimas diretas, porque também ficam privadas de muitas coisas, e indiretas porque os pais não conseguem aguentar tanta pressão” e acabam por as vitimar, sustentou.

Manuel Coutinho alertou que é importante que as famílias percebam o que está efetivamente a acontecer e não se desorganizem em relação às crianças e peçam ajudam.

Por outro lado, as pessoas que conheçam casos de “famílias com maior vulnerabilidade devem apresentar a situação, nomeadamente ao serviço SOS Criança, através do número gratuito 116111, para que os serviços em parceria com a rede de ação social ou com os outros parceiros possam encontrar uma reposta” para que essas crianças sejam ajudadas e “não passem por uma situação efetiva de risco e negligência”.

Manuel Coutinho adiantou que “Portugal tem sido pioneiro e tem feito uma grande caminhada” no que respeita aos direitos das crianças.

Mas, neste momento, está “a viver um momento de grande tensão e devemos ser todos mais solidários uns com os outros”. Essa solidariedade passa por apresentar atempadamente os casos aos serviços: “Portugal tem recursos suficientes para que nenhuma criança venha a estar privada dos meios e direitos fundamentais, nomeadamente o direito à alimentação, educação e saúde”.

“São direitos que têm de prevalecer sempre. Portugal é um país solidário, responsável, que tem de estar organizado para que essas crianças não sejam duplamente vítimas de uma situação que está a atravessar o país”, frisou.

Atualmente existe a cultura de sensibilizar e denunciar os casos de maus tratos físicos e psicológicos, mas “as situações de maus tratos mais próximos da negligência e da pobreza também devem ser apresentados para que os serviços possam ajudar a socorrer estas crianças”.

Alertou ainda que as situações de pobreza e de negligência são sempre traumáticas para as crianças, que crescem com alguns receios e algumas dificuldades.

 

 

 

 

Aumentam casos de pais que não cumprem com deveres parentais

Novembro 14, 2016 às 12:00 pm | Publicado em O IAC na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , ,

Notícia do Jornal de Notícias de 2 de novembro de 2016.

A notícia contém declarações da Drª Ana Perdigão – Coordenadora do Serviço Jurídico do instituto de Apoio à Criança.

clicar na imagem

jn_

Daniel Sampaio: “Temos fobia e inveja dos adolescentes”

Outubro 20, 2016 às 8:00 pm | Publicado em O IAC na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , ,

Entrevista da http://activa.sapo.pt/ a Daniel Sampaio no dia 11 de outubro de 2016.

mike-sergeant

Por Catarina Fonseca

Não precisa de apresentações: o psiquiatra mais famoso de Portugal completa agora 70 anos e recebeu-nos para uma conversa sobre adolescentes, escola, pais, e a cultura da alegria.

Geralmente, encontro-o na feira do livro de Lisboa, onde é presença assídua há muitos anos. Desde que começou a escrever, Daniel Sampaio gosta de se encontrar com o seu público: lá está todos os anos, a dar autógrafos, a comer um Magnum e a falar com os seus leitores. Agora, recebe-me no gabinete da direção do Serviço de Psiquiatria, no Hospital de Santa Maria. Está calor, e não há ar condicionado. Nem gelados. Não sei como é que se pode recuperar a alegria e a esperança sem ar condicionado nem gelados. Ele é mais resistente. “A nossa maior virtude aqui é a paciência. Principalmente com as anoréticas, é de colher de chá de arroz em colher de chá de arroz.” Os livros, esses, continuam presentes, numa pequena biblioteca. E se a paciência é uma das suas virtudes, a comunicação é outra. Talvez seja normal, depois de anos a dar aulas, entrevistas, consultas. Digo-lhe que venho à procura dele como dantes se procuravam os sábios da tribo (por acaso só me lembrei disto agora, mas teria gostado de lho dizer). Aliás, digo eu, os pais andam agora muito perdidos, e eu pego nas dores deles e venho perguntar a quem sabe mais. Ele acena. “É verdade. As pessoas não sabem onde procurar apoio. Mas eles existem.” E falamos de quê, com um homem que investigou e desenvolveu áreas tão importantes como a terapia de casal, o suicídio, a adolescência, as perturbações alimentares, e tanto mais? Começa-se por onde? Acaba-se onde? “Está a escrever para pais, não é? Quer falar de adolescentes?” Vamos a isso.

A adolescência é mesmo complicada ou isso é mito?

É mesmo complicada. Para os filhos e para os pais. Há estudos que dizem que a adolescência é o período mais difícil na vida de um pai. Porque é preciso encontrar um equilíbrio entre dar alguma liberdade e exercer algum controlo, e isso pode ser bastante difícil. Uma vez perguntei a um jovem o que era ser adolescente, e ele respondeu: ‘Pedir tudo aos pais, e ficar com o que eles quiserem dar’ (risos). E é mesmo assim.

Diz que neste momento os pais estão mais próximos dos filhos do que nunca, mas há um marcado défice de autoridade. Por outro lado, às vezes a autoridade é exercida de modo totalmente arbitrário. Para nós, educar ainda é humilhar?

Sim. O problema é que essa autoridade clássica, que é mais autoritarismo que autoridade, não funciona com os jovens de hoje, que têm muita noção dos seus direitos. Portanto, é preciso criar outro tipo de autoridade. Se um pai acompanhar o filho desde pequeno, esta autoridade será natural e reconhecida. Agora, se for um pai castrador, o filho adolescente vai dizer que não a tudo. O que geralmente acontece é que temos dois extremos: ou pais que foram muito permissivos na infância, que deram tudo e mais alguma coisa aos filhos, ou pais muito autoritários, que criaram conflitos terríveis com os filhos. E portanto, não se desenvolveu uma autoridade naturalmente baseada na relação.

Hoje a autoridade ‘autoritária’ não funciona, é isso?

Pois não, porque hoje os mais novos têm voz. E têm canais por onde se fazer ouvir. Sabem ligar para o SOS Criança, sabem discutir na net, criam blogs, fazem-se ouvir. Por exemplo, escrevi um livro em 94, ‘Inventem-se novos pais’, porque os adolescentes não tinham voz e eu quis dar-lhes essa voz. Isso não se passa hoje, o que faz com que os pais vacilem. Dantes, dizia-se ‘É assim porque o pai quer’, e pronto. Hoje isso já não é aceite.

Os pais estão muito perdidos?

Muito. Querem muito fazer as coisas bem feitas e não sabem a quem recorrer. Mas na maioria dos casos, basta recorrerem a eles próprios. Muitas vezes não é preciso um psicólogo nem um psiquiatra, o que é preciso é que aquelas pessoas se sentem e conversem umas com as outras, em família. Portanto, os técnicos deviam existir para os casos mais graves de psiquiatria. Nós aqui o que fazemos muitas vezes é promover essa comunicação familiar.

As crianças de hoje são educadas com muitos medos…

Isso é muito importante, porque não crescemos sem medos. Mas se passamos a vida a dizer-lhes ‘não podes sair, não podes ir a casa dos teus amigos, não podes andar de comboio’, não estamos a promover a autonomia. O nosso papel devia ser ajudá-los a ultrapassar esses medos, não resguardá-los. ‘Vais lá e fazes o que tens a fazer, e eu estou aqui para te ajudar no que for preciso’. Esse deve ser o papel de um pai.

Pode dar um exemplo prático?

Recebi há tempos uma adolescente já com 18 anos. Tecnicamente era uma adulta, mas na prática não tinha muita margem de manobra. Ela queria ir passar uns dias a um acampamento numa serra com uma amiga. Isto resultou num terrível conflito familiar. Então trabalhámos os medos dos pais: que ela ficasse doente, que se perdesse, que fosse assaltada. A solução foi os pais ficarem num hotel relativamente próximo. Comentário da rapariga: “Acho bem. Porque um dia posso ter fome e vou jantar com vocês.” (risos). A adolescência é isto. É ter necessidade de estar longe dos pais mas manter a proximidade. Mas temos de os deixar afastar-se.

Diz que infantilizamos os adolescentes, que lhes damos uma vida monótona e sem objetivos, onde a única coisa que têm de fazer é ouvir os professores, e depois queixamo-nos de que são apáticos ou turbulentos…

Precisamos de responsabilizar mais os jovens. Na escola ainda há muita indisciplina, e tem de se encontrar uma forma de eles participarem mais. Tomam-se medidas inúteis como as expulsões, mas nunca ninguém lhes pergunta a eles se têm alguma solução. Quando lhes pergunto como as coisas poderiam ser diferentes, eles dão respostas interessantes: podia-se trabalhar mais em grupo, o professor podia não falar tanto. Os meus netos mais velhos são agora adolescentes, mas as coisas que me contam das aulas deles são iguais ao Liceu Pedro Nunes onde andei há mais de 50 anos. Mas dantes o professor tinha uma posição social de muito prestígio, ser professor de liceu era muito respeitado. Hoje esse mundo desapareceu. Hoje os miúdos aprendem uns com os outros, aprendem na net, e portanto não se pode manter o modelo de escola do século XIX com todos sentados em cadeiras enquanto o professor fala.

Estamos perto do regresso às aulas. De que tipo de escola precisamos agora?

De uma escola que valorize e responsabilize os jovens, e que os coloque numa posição ativa em todos os momentos da aula. Mas não o fazemos.

Temos medo dos adolescentes?

Mais do que medo: temos fobia. É uma fobia muito radicada na inveja. De uma forma geral, os jovens não são perturbados. Apenas 10% o são. Os outros 90% têm apenas dúvidas e problemas. E portanto nós precisamos de uma cultura que os ouça e os valorize.

Mas para conseguirem resolver esses problemas, os adultos têm de se confrontar com essa fobia e essa inveja e isso não deve ser fácil…

E não é. A fobia manifesta-se em relação ao corpo juvenil. A saúde, a beleza, a energia, suscita-nos muita inveja. A alegria também. É importante recuar à nossa adolescência, mas percebendo que a de hoje é totalmente diferente.

De que maneira é que os seus netos adolescentes são diferentes dos seus filhos quando eram adolescentes?

A internet é a diferença principal. Foi uma revolução em termos de comunicação. Os jovens hoje estão em constante contacto uns com os outros, e sempre em rede. O que é divertido é que os pais criticam-nos mas fazem a mesma coisa.

Isso abala a autoridade dos pais?

Se esta for exercida desde a infância, não. Desde um ano, tem de dizer ao bebé o que ele pode e não pode fazer. Quando o bebé começa a explorar o mundo, não se deve afastar do caminho todos os obstáculos, tudo o que ele pode partir. Deve-se é começar a dizer não. Dá trabalho? Pois dá. Mas eles aprendem. Há famílias onde ninguém contraria o bebé, ninguém lhe diz nada. Conheci uma avó que transformou a sala numa piscina. Tirou os móveis todos da sala, pôs uma piscina de plástico lá dentro, e lá andavam os netos. Isto é o que não se deve fazer.

Quem é? Acha que ela me adota?

(risos) Acho que não é um bom sistema. A sala da avó é a sala da avó, e não deve ser transformada por causa daquela criança. Estas crianças vão chegar à adolescência com um poder enorme sobre os adultos. E depois, quando nos damos conta disso, é demasiado tarde. Com um filho, tem de indicar-lhe desde pequeno quais são os seus limites, e ao mesmo tempo guardar tempo para brincar com ele, de maneira a não haver uma imagem castradora do pai.

Assim quando eles crescem a autoridade torna-se mais fácil…

Muito mais. No exemplo clássico das saídas à noite, não se pode cair no 8 ou 80. Nem o ‘não vais a lado nenhum’ nem o ‘sai à vontade e curte a vida’. As coisas devem ser combinadas e devemos ser flexíveis com um adolescente, permitir que estejam com os amigos em certas ocasiões e connosco em outras.

Como se deve educar um adolescente?

Para a autonomia. Mas nós povos do sul temos muita dificuldade em fazer isto. O papel cultural da mãe portuguesa é muito interessante. Dantes pensava-se que os rapazes falavam mais com o pai e as raparigas com a mãe, mas hoje sabe-se que ambos falam mais com a mãe. Portanto, a mãe continua a ser o centro da família, até porque geralmente continua a ser quem está mais disponível. Mas depois querem controlar toda a vida deles.

Um dos seus lemas é ‘Trata os teus filhos como gostarias de ser tratado’. E quando isso não acontece? Como é que se sobrevive a um pai ou a uma mãe tóxicos?

É sempre possível sobreviver. Mas geralmente sobrevivemos mal. Não há é uma lei determinística. Temos sempre poder sobre a nossa vida.

Nunca é tarde para ter uma infância feliz, como dizia a Clarice Lispector?

Pois não. Não podemos ficar reféns dos nossos pais. Podemos mudar a forma como nos relacionamos com os pais e com a infância que tivemos, e a adolescência é a melhor altura para fazer isto, porque está tudo em transformação. A adolescência serve idealmente para reparar alguns aspetos da relação com os pais.

Mas para muitos filhos esta revolta sabe a traição…

Vou citá-lo: “A obediência cega aos princípios da família pode manter-se toda a vida, se a desobediência sempre foi considerada uma traição.” Mas todas as famílias têm de evoluir. Podemos manter-nos leais a valores universais: a verdade, o respeito entre gerações, a capacidade de expressar pontos de vista, a pessoa sentir-se valorizada dentro da sua família. Mas o quotidiano muda muito, não se pode viver hoje como há 20 anos.

Como era em adolescente?

Era um pouco sombrio. Era um existencialista, com 17 ou 18 anos tinha grandes preocupações sociais, lia muito Camus e Sartre, interessava-me por política. Era muito sério, não tinha aquela alegria, aquele prazer de viver que muitos adolescentes hoje têm.

Isso não é uma coisa geracional? Essa alegria?

Talvez seja. Os jovens saudáveis de hoje têm o culto da alegria. Como o futuro é muito imprevisível, eles têm de aproveitar o dia de hoje da melhor maneira possível. Nós tínhamos tudo muito certinho. Quando entrei para medicina já sabia que ia ser psiquiatra, e depois sabia que ia ter emprego. Estava tudo previsto.

Porque é que decidiu ir para psiquiatra?

Fui muito influenciado pela filosofia. Tinha uma professora fantástica, a Dra. Maria Luísa Guerra. Os bons professores continuam a ter uma influência enorme nas nossas escolhas, e foi esse o caso. Eu achava que a psiquiatria ia explicar o que era a guerra, o amor, os comportamentos, e depois, claro, percebemos que a vida é mais complicada do que pensamos aos 17 anos. Achava que a psiquiatria tinha respostas para todos os problemas.

E tem?

Há doenças graves, como a doença bipolar e a esquizofrenia, que podemos controlar mas não tratar. Hoje em dia as terapias são incrivelmente mais avançadas. E depois há uma série de situações muito fáceis de tratar, desde que reconhecidas, como a depressão. Ao contrário do que se pensa, a grande maioria das depressões cura-se e a pessoa não volta lá, se o tratamento for bem feito.

Voltando ao adolescente sério que era, a segurança deu-lhe a possibilidade de explorar o seu lado sombrio?

Claro que sim. Quando nos sentimos mais seguros, exploramos melhor o mundo e descobrimos o sentido da nossa vida.

Hoje eles exploram menos o mundo?

Exploram de outra maneira. Mais imediata. Hoje há o culto do imediatismo, tudo tem de ser já. Estamos numa sociedade sem memória. As pessoas recordam muito pouco alturas importantes da sua vida, estão demasiado obcecadas a viver o momento.

Serve para quê, a memória?

Para encontrarmos um rumo. Para perceber os lados positivos da minha vida, e descobrir o meu caminho. Sem memória, andamos de um lado para o outro sem saber quem somos.

Que tipo de geração é esta que não tem um rumo?

A resposta imediata e a ausência de reflexão vêm em grande parte das novas tecnologias . O acesso à informação é tão rápido que eles perderam o gosto pela pesquisa. Não têm concentração para isso, nem prazer nisso. Um neto meu fez um trabalho sobre a Sophia de Mello Breyner. Achou graça ao facto de ela ser mãe do Miguel Sousa Tavares mas já não quis saber do pai. E enquanto eu ia buscar a obra completa da Caminho, ele procurava o poema na internet e dizia ‘Ai não me interessa o poema todo, só tenho que citar aqui uns versos’. E estamos assim. A citar uns versos. O conhecimento é muito rápido e muito pouco aprofundado.

Que consequências é que isto tem?

Consequências importantes ao nível das pessoas em que se estão a tornar. A geração atual tem criatividade, tem iniciativa, mas corre o risco de se tornar muito superficial. Por exemplo, eles leem cada vez menos. Não têm paciência nem concentração.

Estamos em tempos difíceis: crise, terrorismo, desemprego, austeridade. Ainda é possível ser feliz?

É possível: desde que se consiga construir a nossa história de vida, o nosso projeto. E depois, pensarmos que a felicidade se conquista no dia-a-dia. Ninguém é permanentemente feliz. Mas podemos ter muitos momentos de felicidade. Temos é de lutar por ela.

A lição de Daniel

Psiquiatra, professor e escritor, completa 70 anos e afirma que vai dar o lugar aos outros: ‘Não quero ser daqueles velhos chatos que ficam para sempre’. É diretor do Serviço de Psiquiatria do Hospital de Santa Maria, cofundador do Núcleo de Estudos do Suicídio, do Núcleo de Doenças do Comportamento Alimentar e da Sociedade Portuguesa de Suicidologia. Foi um dos introdutores, em Portugal, da Terapia Familiar, a partir da Sociedade Portuguesa de Terapia Familiar. Tem-se dedicado ao estudo dos problemas dos jovens e das suas famílias, e organizou, no Hospital de Santa Maria, o atendimento de jovens com anorexia e bulimia. Divulgador na rádio e nos jornais, é ainda autor de mais de 20 livros. É pai de três filhos, João, Miguel e Daniel, e avô de sete netos.

 

CML cede nova casa ao Instituto de Apoio à Criança

Outubro 13, 2016 às 1:13 pm | Publicado em O IAC na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , ,

Notícia da http://www.cm-lisboa.pt/ de 12 de outubro de 2016.

cml

cml2

O Instituto de Apoio à criança vai ter novas instalações. O prédio, localizado na Avenida da República, foi cedido pela Câmara Municipal de Lisboa.“ Este acordo vai permitir dar um destino mais feliz a um edifício que tem história na cidade“, disse o Presidente da CML após a assinatura da Escritura de Constituição do Direito de Superfície sobre o Imóvel, que teve lugar no dia 12 de outubro nos Paços do Concelho.

Com a constituição do direito de superfície a favor do Instituto de Apoio à Criança pelo prazo inicial de 25 anos, o IAC pode agora concretizar o Projeto – SONHO e “ter instalações com dignidade para melhor servir a criança”.

Para o Presidente da CML, o dia de hoje permite à CML o cumprimento da obrigação em tornar Lisboa uma cidade cada vez mais inclusiva, uma questão central na construção da cidade.

O acordo  assinado permite ainda o renovar de laços futuros entre a CML e o IAC, em prol dos direitos das crianças. “É uma prioridade da CML dar força às entidades que estão no terreno dando-lhes condições para agir,” disse Fernando Medina que elogiou ainda a “solução feliz” encontrada para o edifício que acolheu anteriormente a Livraria Municipal. 

 “ Um sonho antigo e possível graças ao apoio da autarquia” disse Manuela Eanes, presidente do IAC, que agradeceu o empenho e determinação de Fernando Medina e da sua equipa na concretização deste acordo entre as duas entidades.

A nova casa irá funcionar nos números 21 e 21A da Avenida da República permitindo, por um lado, o desenvolvimento das atividades do IAC e por outro a concentração de todos os projetos da instituição, nomeadamente o SOS/Criança, o SOS/Criança Desaparecida, o Projeto Rua, a Atividade Lúdica e a humanização dos serviços de atendimento à criança. 

A solução encontrada permite também que o IAC passe a ter um reforço da sua sustentabilidade financeira, estimando-se que as obras de instalação possam estar concluídas no prazo de seis meses.

O IAC é uma instituição sem fins lucrativos, criada em 1983, com o objetivo principal de contribuir para o desenvolvimento integral da criança, na defesa e promoção dos seus direitos.

mais fotografias no link:

http://www.cm-lisboa.pt/noticias/detalhe/article/cml-cede-nova-casa-ao-instituto-de-apoio-a-crianca

 

 

Página seguinte »

site na WordPress.com.
Entries e comentários feeds.