Mais e novas “Histórias do Lucas” Segunda série já chegou à RTP

Fevereiro 5, 2016 às 2:30 pm | Na categoria O IAC na comunicação social, Vídeos | Deixe o seu comentário
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lucas

mais informações no comunicado de imprensa da Go To em baixo:

PR_Segunda Série Histórias do Lucas_04022016

Falar de sexo com a ajuda de Peludim

Janeiro 14, 2016 às 8:00 pm | Na categoria A criança na comunicação social, Livros, O IAC na comunicação social | Deixe o seu comentário
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texto do http://lifestyle.publico.pt de 12 de janeiro de 2016.

DR

Por Bárbara Wong

A autora Sara Rodi e a sexóloga Vânia Beliz juntaram-se à ilustradora Célia Fernandes e criaram um projecto de Educação Sexual.

A autora Sara Rodi e a sexóloga Vânia Beliz juntaram-se à ilustradora Célia Fernandes e criaram um projecto de Educação Sexual.

Nem sempre é fácil falar de sexo com os filhos e, talvez por isso, volta e meia surja um livro com o objectivo de desmistificar o tema. A Viagem de Peludim, da autora Sara Rodi, da sexóloga Vânia Beliz e com ilustrações de Célia Fernandes, pretende isso mesmo: ajudar as crianças a compreender melhor o seu corpo e a sua origem.

O livro, para crianças dos 3 aos 8 anos, responde àquelas perguntas que atormentam os mais pequenos como: Quem sou? De onde vim? Como nasci?

Peludim é um ser extraterrestre que conhece os gémeos Salvador e Clara, um menino e uma menina, e quer saber o que os diferencia. A roupa? O corte de cabelo? Os objectos com que brincam? A partir do que parecem evidências, Peludim (mas também os meninos que vão ouvir a sua história) aprende conceitos como a igualdade de géneros, o respeito pela diferença e até a prevenção da violência sexual.

Sara Rodi conta ao Life&Style como tudo começou, há três anos. Por um lado, a sexóloga trabalhava já este tema com crianças. Por outro, Sara enquanto mãe de uma família numerosa começa a confrontar-se com as dúvidas dos filhos e a “manifesta incapacidade dos professores em responder-lhes”.

No entanto, reconhece que as suas capacidades “não eram melhores…” “Percebi nessa altura que havia falta de livros sobre a matéria, sobretudo que ajudassem os pais a ler a história e a saber como responder às questões que fossem surgindo.”

Foi assim que surgiu a ideia de um livro que fosse também um guia para pais e educadores. E, página a página – esta edição com prefácio do pediatra Mário Cordeiro e recomendado pelo Instituto de Apoio à Criança –, vai ajudando o adulto que conta a história a responder às dúvidas das crianças e a introduzir diferentes temas. Por exemplo, quando o Peludim observa o pai dos seus novos amigos a aspirar a casa, é a altura ideal para os adultos explicarem aos mais novos que existem tarefas domésticas e que estas podem ser repartidas por todos os elementos da família.

Além do livro existe ainda um site com propostas de actividades para os educadores fazerem em sala. As autoras estão ainda disponíveis para irem às escolas, falar com as crianças, mas também com os pais.

Título: A Viagem de Peludim

Autor: Sara Rodi e Vânia Beliz

Ilustração: Célia Fernandes

Editora: Marcador

PVP: 15 euros

 

 

 

Vídeo de Tributo a Manuela Eanes na RTP Memória

Janeiro 14, 2016 às 1:00 pm | Na categoria O IAC na comunicação social, Vídeos | Deixe o seu comentário
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Visualizar o vídeo no link:

http://www.rtp.pt/rtpmemoria/?t=Manuela-Eanes.rtp&article=4531&visual=2&layout=32&tm=56

Visita do PCP ao IAC

Dezembro 18, 2015 às 11:54 am | Na categoria O IAC na comunicação social | Deixe o seu comentário
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O IAC recebeu ontem uma comitiva do PCP formada por Jerónimo de Sousa, Fernanda Mateus e Mariana Guerra na sede do Instituto de Apoio à Criança. Foram abordados na reunião vários assuntos entre os quais a pobreza infantil, abandono escolar, a importância das condições sociais que condicionam as expectativas das crianças, o apoio às ONG como o IAC, entre outros assuntos. O Instituto de Apoio à Criança esteve representado pela Vice-Presidente Drª Dulce Rocha e pelo Dr. Vasco Alves, igualmente da Direcção do IAC e por representantes de todos os Sectores: Projecto Rua, SOS Criança, Apoio Jurídico, Humanização e Actividade Lúdica e Centro de Estudos, Documentação e Informação sobre a Criança.

http://www.pcp.pt/encontro-com-instituto-de-apoio-crianca

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Há uma equipa que tenta salvar vidas de crianças pelo telefone

Novembro 23, 2015 às 1:00 pm | Na categoria O IAC na comunicação social | Deixe o seu comentário
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Reportagem do Público de 22 de novembro de 2015.

a reportagem contém declarações do Dr. Manuel Coutinho (Secretário–Geral do Instituto de Apoio à Criança e Coordenador do  Sector SOS-Criança do Instituto de Apoio à Criança).

Adriano Miranda

Hugo Morgadinho

Desde 1988, a Linha SOS-Criança já ajudou mais de 116 mil crianças e jovens. Por dia, são cerca de 10 chamadas recebidas. São histórias, tristes, trágicas, “de alguém que está em sofrimento”. Este domingo, o serviço telefónico comemora 27 anos.

Quando ouviu o desabafo daquele menino que lhe ligara, Maria percebeu de imediato que este seria mais um caso difícil. Do outro lado da linha estava uma criança que lhe falava sobre a dor que sentia pela morte da mãe, sobre a família que o culpabilizava por essa morte, sobre o pai ausente, sobre como era difícil viver num país diferente e não ter ninguém. Quando estava menos triste, contava também os sonhos que tinha e falava sobre os amigos da escola. Mas, quando se lembrava das saudades que tinha da mãe, chorava. Apesar de estar na equipa da Linha SOS-Criança há cerca de 10 anos, e de ter por isso acompanhado inúmeras histórias dramáticas, Maria não conseguiu ficar indiferente ao sofrimento deste menino. O caso levantava questões delicadas. O pai não aceitava que a criança falasse sobre a morte da mãe com os técnicos da SOS-Criança, o facto de viver fora de Portugal dificultava o acompanhamento e, sobretudo, havia também o risco da criança se afeiçoar em demasia a Maria, numa tentativa de colmatar a perda da mãe. Isso poderia comprometer não apenas o apoio da técnica da linha SOS-Criança, mas sobretudo poderia prejudicar ainda mais o estado emocional do menino.

Desta vez foi uma criança, mas os adultos também ligam para o 116 111, uma das linhas do serviço telefónico criado pelo Instituto de Apoio à Criança (IAC) há exactamente 27 anos atrás. A linha é gratuita, funciona das 9h às 19h, e a denúncia pode ser feita de forma anónima. Apenas se identifica quem quer. Alguns telefonam para denunciar casos de violência ou negligência na própria família. São tios, avós, primos ou irmãos. Por vezes, é até um dos pais quem denuncia o próprio companheiro. São sobretudo as mães. Quando não são pessoas da mesma família, são professores, educadores ou até vizinhos. Noutras situações são simplesmente pessoas, homens ou mulheres, que assistiram a algum tipo de abuso.

Em média, a equipa da Linha SOS-Criança recebe 10 chamadas por dia. Algumas chegam a durar mais de uma hora. Uma tarefa exigente para uma equipa de apenas cinco técnicas. São psicólogas, assistentes sociais e, por vezes, têm de ser educadoras de infância ou mediadoras escolares. O IAC disponibiliza ainda gratuitamente um serviço jurídico e também acompanhamento psicológico nas suas instalações. Existe ainda a linha SOS-Criança Desaparecida (116 000), um segundo número gratuito, que funciona 24h por dia e 365 dias por ano, criado para combater situações de desaparecimento, rapto ou abuso sexual. No ano passado, esta linha recebeu quase 300 apelos relacionados com situações de possíveis vítimas de violência sexual. Para além do telefone, os apelos chegam também através do e-mail  iac-soscriança@iacrianca.ptdisponibilizado pelo instituto desde 2011. São histórias de violência física e psicológica, casos de pais que não têm dinheiro para dar de comida os filhos ou também apelos desesperados de pais que não sabem como lidar com os filhos.

“São histórias tristes”, conta Maria – nome fictício por questões de segurança -, são apelos de alguém que está “em sofrimento, em situação de grande perigo, casos de maus tratos ou de negligência”. “Por vezes, temos a sorte de acompanhar histórias tristes que acabam por ter um final feliz, mas não é vulgar”, explica a técnica ao PÚBLICO. São casos dramáticos e angustiantes, que deixam por vezes a equipa da Linha SOS-Criança de “coração dilacerado”. Uma vez foi uma mãe que dizia pelo telefone que ia para o Estádio Nacional do Jamor, em Oeiras, para matar os dois filhos. Outra vez foi uma mulher que contou que o marido dizia-lhe por telefone que ia espetar uma faca no coração do filho. Noutra altura foi alguém que colocou as mãos de uma criança num forno quente, porque essa criança tinha mentido. Há também casos de crianças que tinham o corpo coberto de marcas de chicote ou queimaduras de cigarro.

No momento em que desligam o telefone, as reacções são muito variadas. Por vezes raiva, outra vez indignação. “Depois de muitos anos, e quando pensamos que já ouvimos de tudo, ainda surgem situações que nos indignam bastante e nos revoltam”, conta Maria. O coordenador da linha, Manuel Coutinho, que esteve na primeira equipa deste serviço, em 1988, diz ao PÚBLICO que cada técnico tem de ter “muito e boa formação humana”. Explica também que quando se deparam com uma história difícil, vão “fazendo a catarse internamente”, vão desabafando uns com os outros. “Infelizmente, a realidade é muito dura”, lamenta.

Ligam apenas falar com alguém

Nos últimos anos, os apelos são cada vez mais complexos e variados. As técnicas notam que “o acompanhamento tem sido muitas vezes difícil”, aponta Maria. Os dados do IAC relativos a 2014 mostram que a maioria das chamadas (64%) foram feitas por crianças que se sentiam sós e apenas queriam “falar com alguém”. “As crianças passam muito tempo numa solidão acompanhada. Estão em casa, acompanhadas, mas não se sentem à vontade para falar com essas pessoas”, alerta Manuel Coutinho, psicólogo clínico e também secretário-geral do IAC, explicando que, apesar de um decréscimo do número de apelos, “há um aumento do número de intervenções para cada caso”.

No ano passado, chegaram à equipa do IAC 5799 novas situações. Os dados do instituto mostram que 25% destes casos dizem respeito a pedidos de “prevenção e apoio”, efectuados por “crianças com dúvidas existenciais” ou adultos que procuram ajuda, explica Manuel Coutinho. Vinte por cento são apelos de “crianças em risco”, 18% são casos de negligência infantil, 12% dizem respeito a “vítimas de maus tratos dentro da família”, 9% são de violência psicológica e 8% de questões relacionadas com a “regulação do exercício das responsabilidades parentais”.

Quando recebem uma chamada, as técnicas tentam perceber o motivo do telefonema e os contornos de cada história. Identificada a problemática de cada caso, passam a procedimentos específicos. Em casos de crianças que apenas ligam para desabafar, procuram dar-lhes apoio emocional e ajudam-nas a encontrar uma solução para o sofrimento, como por exemplo sugerir que conversem com um amigo, uma avó ou alguém com quem se sintam à vontade. Em casos mais difíceis, o procedimento não é tão linear. Nestas situações, depois de recolherem todas as informações, procuram verificar a sua veracidade junto de escolas, de centros de saúde, da polícia ou até de paróquias. Feito esse levantamento, os casos são por vezes encaminhados para a Comissão de Protecção de Crianças e Jovens e, em algumas situações, para tribunal.

Para Maria, as histórias que mais lhe custa ouvir são as histórias que envolvem bebés. “Quando percebemos que no contexto familiar há maus tratos físicos em crianças com menos de um ano… São situações que mexem muito connosco. É difícil de ‘digerir’. Perceber que o próprio ambiente familiar, que deveria ser seguro e de afecto, acaba por ser o meio mais perigoso. É angustiante”, explica. Quando regressou da licença de maternidade, foi muito difícil para a técnica ouvir alguns destes casos. Houve uma vez que não aguentou e teve de soltar as lágrimas depois de desligar a chamada.

Não é uma relação de amizade

Algumas crianças costumam ligar várias vezes. Por vezes, até mais de uma vez por dia. As histórias são, por isso, já familiares. “Algumas preocupam-nos muito e acabam por mexer muito connosco”, desencadeando emoções que acabam por gerar um grande envolvimento da parte destas técnicas, explica Maria. Mas, tal como numa relação entre psicólogo e paciente, é importante criar uma distância de segurança para não comprometer o apoio. “A nossa postura é sobretudo de escuta, de grande neutralidade e imparcialidade. Longe de ser uma relação de frieza, mas de distanciamento suficiente para podermos dar o suporte. Seja num momento com algumas palavras para tranquilizar, seja noutro para amenizar alguma angústia”, conta.

No caso do menino que perdeu a mãe, foi Maria quem respondeu ao primeiro contacto, que chegou por e-mail. Depois, passaram a conversar por telefone. Estabeleceu-se uma relação de confiança e a criança procurou falar sempre com a mesma técnica. Maria explica que nestes casos as crianças tendem a afeiçoar-se às técnicas, e a vê-las como amigas. Mas é importante estabelecer os limites e explicar-lhes que não pode ser uma relação de amizade. Estão ali para ouvir, apoiar e ajudar a encontrar soluções, tal como qualquer psicólogo. “Tentamos dar suporte, mas não podemos fazer uma abordagem pessoal. Não podemos personalizar”, explica. “Não posso falar da minha vida, porque não é isso que está em causa”, continua. Neste caso, foi importante esclarecer tudo isto logo de início para evitar uma aproximação inadequada que pudesse criar alguns constrangimentos e, mais tarde, levar a uma nova sensação de perda.

A infelicidade está em casa e na escola

“A angústia e a ansiedade que povoa a vida emocional de muitas destas crianças atravessa todas as classes sociais”, diz Manuel Coutinho. “Há crianças de uma classe social que estão muito fechadas em casa e outras que estão muito fechadas na rua. No fundo, a causa é a mesma: solidão”, continua. Mas não é só a ausência dos pais que afecta o estado emocional dos filhos. O coordenador da Linha SOS-Criança lembra que quando se fala de violência doméstica, muitas vezes “não se tem em mente a situação das crianças”, que por vezes “são quem mais sofre”. Às vezes, gera-se dentro de casa “um ciclo de violência”. O psicólogo lembra um desabafo que uma vez ouviu de um menino para ilustrar tudo isto: “A minha mãe diz que o meu pai é um cobarde porque lhe bate. E diz que os mais fortes não podem bater nos mais fracos. Então, por que é que ela me bate a mim?”.

A escola também é apontada por Manuel Coutinho como uma das causas para a infelicidade das crianças e dos jovens. Segundo o psicólogo, existem cargas horárias “brutais” e reina um clima de pressão nas salas de aula. “Criou-se a ideia de que têm de ser as melhores e que o mediano não serve. E isto é um princípio completamente errado. São as notas, os rankings, as horas de matérias… Não faz sentido não haver tempo para as crianças viverem o seu tempo. Estão muito espartilhadas. Não se valoriza tanto as áreas criativas, que fazem parte da natureza das crianças”, diz.

Desde que a Linha SOS-Criança surgiu, há precisamente 27 anos, já milhares de crianças foram salvas pelos técnicos deste serviço. O percurso nem sempre foi fácil. A equipa é reduzida face ao número de apelos que recebem todos os dias e a situação financeira também já foi melhor. “Estamos a trabalhar nos limites”, alerta Manuel Coutinho que faz questão de dizer que é em “situações de crise que os orçamentos devem ser reforçados, pois é nestas alturas que as pessoas mais recorrem às organizações da sociedade civil. Não se pode dar folgas à emergência social”. O Estado tem por isso de apoiar as instituições sociais de forma “regular, atempada e suficiente”. Mas as dificuldades não lhe retiram o orgulho que tem no serviço telefónico que ajudou a fundar: “Tem sido um privilégio. É muito gratificante saber que já ajudámos mais de 116 mil crianças e jovens”. Apesar de tudo isto, a equipa não pára, “há muita vontade e muita determinação”. Sentem que é fundamental continuar a missão. Neste momento aliás, enquanto lê este texto, Maria e as colegas estão por certo a ouvir os desabafos de uma criança a precisar de ajuda, num qualquer sítio do país. Texto editado por Andrea Cunha Freitas

 

 

 

Há dois arguidos por dia suspeitos de abusos sexuais de menores

Novembro 23, 2015 às 6:00 am | Na categoria O IAC na comunicação social | Deixe o seu comentário
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Notícia do Diário de Notícias de 3 de novembro de 2015.

A notícia contém declarações da Drª Dulce Rocha, Vice-Presidente do Instituto de Apoio à Criança.

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A PJ deteve nos primeiros seis meses do ano 68 pessoas, na maioria homens, por abuso sexual de crianças

A Polícia Judiciária deteve nos primeiros seis meses do ano 68 pessoas, na maioria homens, por abuso sexual de crianças e constituiu ainda 248 arguidos (identificados mas não detidos). No conjunto, em média, a PJ fez quase dois arguidos por dia (1,7) por um crime que é transversal a todas as classes sociais. Os alegados abusadores são homens, na maioria dos casos.

E se a realidade ainda nos mostra que este é cometido entre quatro paredes, praticado na maioria entre familiares, também acontece ser muito utilizado como instrumento na disputa parental por um filho, em casais em separação.

Colocado no Tribunal de Família e Menores do Barreiro, o juiz António Fialho já apreciou muitos casos de alteração da responsabilidade parental por causa de um processo-crime que está a correr e em que o pai do menor é visado por abuso sexual. O processo Casa Pia tornou “muito frequentes as alegações de abuso sexual em casos de disputa parental”, adiantou o juiz, acrescentando que atualmente “nos mesmos casos são mais frequentes as denúncias de violência doméstica”. Como explicou, as queixas por abuso sexual – na maioria dos casos apresentadas pela mãe dos menores contra o pai – chegam aos tribunais de família e menores por via da transferência da responsabilidade parental (que pode vir a ser alterada devido ao processo-crime).

Muitos dos casos de abuso sexual de crianças não chegam sequer aos tribunais por medo ou por vergonha das vítimas em contar o que se passou, adianta fonte judicial.

Os números da Judiciária dizem-nos que as participações por este crime diminuíram ligeiramente neste ano, se compararmos períodos homólogos. No primeiro semestre de 2014, a PJ deteve 74 pessoas por abuso sexual de crianças e constituiu 315 arguidos. Na maioria dos casos, os crimes são praticados entre familiares (o pai, o tio, o padrasto) e são marcados por um véu de vergonha e silêncio que se pode prolongar por anos. Já os casos de falsas denúncias e instrumentalização do crime por pais em divórcio e em disputa pelos filhos não estão contabilizados nem são consensuais no meio judicial.

“Nunca assisti a casos falsos”

A experiência da magistrada Dulce Rocha, vice-presidente do Instituto de Apoio à Criança, que também trabalhou muitos anos como procuradora em tribunais de família e menores, é a de que “não existem falsas denúncias, ou se existem são uma ínfima minoria”. Dulce Rocha é perentória: “Nunca assisti a casos falsos”. “Todos os estudos que conheço dão uma percentagem mínima de casos arquivados por as denúncias serem falsas. Aliás, acho que essa questão é usada para a descredibilização das vítimas.” Dulce Rocha recorda ter trabalhado em processos em que o abusador sexual era o pai, o tio ou o avô, com as denúncias apresentadas pelas mães dos menores que chegaram a presenciar os atos.

Família ilustre no banco dos réus

O fenómeno do abuso sexual é transversal a todas as classes sociais. Atualmente, está a ser julgado nas Varas Criminais de Lisboa um processo por abuso sexual de criança que começou por ser arquivado pelo Tribunal de Instrução Criminal por falta de indícios do crime e depois, em sede de apreciação de recurso na Relação de Lisboa, acabou por haver a decisão contrária, de mandar para julgamento. Trata-se de um caso que envolve uma família ilustre. No banco dos réus, Frederico Abecasis David Cardigos, 45 anos, ex-diretor regional dos Assuntos do Mar dos Açores, e sua mãe, Maria Leonor Braga Abecasis, 73 anos, filha de um major-general e sobrinha de um antigo presidente da Câmara de Lisboa (Nuno Krus Abecasis).

O pai e a avó são acusados de terem infligido vários abusos sexuais à criança, entre os Açores e Lisboa, de julho de 2012 a maio de 2013, segundo o despacho de acusação a que o DN teve acesso. O menor tinha 3 e 4 anos à data dos factos. Os alegados abusos começam quando Frederico Cardigos se separa de Carla Cook e é fixado o regime provisório de responsabilidades parentais, passando a criança a ficar com o pai por períodos de 15 dias. No dia 10 de novembro é a segunda sessão e prevê-se a audição da irmã de Maria Leonor.

 

Linha SOS Criança tem recebido cada vez mais denúncias de tráfico e rapto de menores

Novembro 20, 2015 às 7:00 pm | Na categoria O IAC na comunicação social, Vídeos | Deixe o seu comentário
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Notícia do Porto Canal de 19 de novembro de 2015.

O vídeo da notícia contém declarações do Dr. Manuel Coutinho (Secretário–Geral do Instituto de Apoio à Criança e Coordenador do  Sector SOS-Criança do Instituto de Apoio à Criança) e da Drª Maria João Pena (Instituto de Apoio à Criança – SOS-Criança/Criança Desaparecida).

Visualizar a reportagem no link:

http://portocanal.sapo.pt/noticia/60729

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A Linha SOS Criança tem recebido cada vez mais denúncias de tráfico e rapto de menores, embora as situações de negligência e maus tratos sejam as mais frequentes. E é sobretudo em contexto familiar que ocorre o abuso infantil.

 

 

SOS Criança recebeu 298 apelos relacionados com violência sexual

Novembro 18, 2015 às 9:57 am | Na categoria O IAC na comunicação social | Deixe o seu comentário
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Notícia do i de 17 de novembro de 2015.

A notícia contém declarações do Dr. Manuel Coutinho (Secretário–Geral do Instituto de Apoio à Criança e Coordenador do Sector SOS-Criança do Instituto de Apoio à Criança).

Shutterstock

Quase 300 situações de crianças que alegadamente foram vítimas de violência sexual foram comunicadas ao serviço SOS-Criança nos últimos cinco anos, segundo dados do Instituto de Apoio à Criança (IAC) divulgados hoje à agência Lusa.

Entre 2010 e 2014, a linha SOS-Criança Desaparecida e Abusada Sexualmente recebeu 298 apelos relacionados com alegados crimes de violência sexual sobre crianças, que representam 2,16% do total das chamadas recebidas no serviço.

Segundo os dados do IAC, o número de apelos relacionados com este tipo de crimes tem vindo a descer ligeiramente nos últimos cinco anos: 76 em 2010, 74 em 2011, 65 em 2012, 43 em 2013 e 40 em 2014.

“Desde 1988 que os técnicos do serviço recebem apelos de crianças e jovens que são abusados sexualmente ou que pedem esclarecimentos” sobre o que fazer nestas situações, disse à Lusa o secretário-geral do IAC, Manuel Coutinho.

Lembrando que “a violência sexual contra as crianças é um crime gravíssimo e devastador que tem de ser denunciado”, o psicólogo defendeu a importância de “cada um de nós” diligenciar no sentido de prevenir “todo mal-estar que é causado às crianças”.

“Prevenir é, em primeiro lugar, esclarecer as crianças, dizer-lhes que elas têm o direito sobre o corpo delas e que, por exemplo, debaixo da roupa interior ninguém pode tocar, é uma zona íntima”, explicou o também coordenador do SOS-Criança.

Manuel Coutinho defendeu que, desde muito cedo, as crianças devem ser incentivadas a falar sempre que existam situações que as deixem constrangidas.

“As crianças sempre que se sentirem desconfortáveis não devem ter medo de contar a alguém aquilo que se passa, seja ao pai, seja à mãe, ao professor ou ao médico”, frisou.

Fazendo uma análise dos últimos 15 anos, o IAC refere que a o serviço recebeu, neste período, 1.095 apelos a denunciarem este tipo de situações.

Os anos que registaram o maior número de apelos foram 2004 (146) e 2005 (126), adianta os dados divulgados a propósito do Dia Europeu sobre a Protecção de Crianças contra a Exploração Sexual e o Abuso Sexual, que se assinala pela primeira vez na quarta-feira, por iniciativa do Conselho da Europa.

Manuel Coutinho explicou que “há uns anos” houve um “incremento de apelos e preocupações em relação aos abusos sexuais” causado pelo fenómeno Casa Pia, que fez com que “muita gente ficasse alerta” e denunciasse situações de crianças abusadas.

Passada esta situação, os casos, “infelizmente, continuam a acontecer”, mas “temos também a percepção que a sociedade está mais consciente, que denuncia mais facilmente as situações e já não silencia”.

“As pessoas passaram a acreditar nas crianças que dizem que estão a passar por uma situação de abuso sexual”, disse o psicólogo, que apelou aos pais, médicos, educadores para estarem atentos a comportamentos que não são habituais na criança.

Numa situação de abuso sexual, as crianças não dizem claramente o que lhes aconteceu, mas começam a ter, por exemplo, pesadelos, infecções urinárias, baixo rendimento escolar, choram muito.

Manuel Coutinho destacou a importância da data que se assinala na quarta-feira, porque a prevenção destes crimes também passa pelo conhecimento dos serviços que lutam contra este fenómeno.

O IAC foi pioneiro nesta luta ao criar o SOS-Criança, uma linha telefónica gratuita (116000) que funciona 24 horas por dia e 365 dias por ano.

Dados do Conselho da Europa indicam que cerca de uma em cada cinco crianças na Europa é vítima de alguma forma de violência sexual, estimando-se em 70% a 85% dos casos, o abusador é alguém que a criança conhece e em quem confia.

Lusa

 

 

 

 

O lançamento da nossa agenda em Coimbra, no passado sábado, teve direito a presença na comunicação social

Novembro 9, 2015 às 5:40 pm | Na categoria O IAC na comunicação social | Deixe o seu comentário
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Artigo publicado no Diário de Coimbra

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Diário As Beiras

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O preço do silêncio – reportagem do Expresso sobre bullying

Novembro 7, 2015 às 4:11 pm | Na categoria A criança na comunicação social, O IAC na comunicação social | Deixe o seu comentário
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Reportagem do Expresso de 20 de outubro de 2015.

O artigo contém declarações da Dra. Cláudia Manata do Outeiro do IAC-CEDI (Centro de Estudos, Documentação e Informação sobre a Criança).

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Quando se celebra mundialmente a prevenção e o combate ao bullying, fomos conhecer quem já esteve nessa encruzilhada. Cinco vítimas e um agressor contam a sua história.

Luciana Leiderfarb

Tenho de falar, já fiquei muito tempo calado.” O caminho que levou Pedro do silêncio ao discurso foi longo e brutal. Para lá do que uma criança deveria suportar. Por não falar, por se esconder atrás da sua carapaça, quase morreu. E acordar com vida depois de desejar perdê-la aos 12 anos teve o efeito de o tornar um falador. Um falador cujas frases lutam por igualar a velocidade do pensamento. No entanto, já não podem.

Aos 10 anos assumiu a escola como hostil. Pedro era alvo diário de agressão dos rapazes mais velhos da turma. Encontrões e ameaças foram o início de uma rotina que a passagem para o 6º ano agravou. Somaram-se ataques de pânico e de asma. No 7º era frequente os agressores aparecerem à sua porta. Uma vez, um vizinho conseguiu protegê-lo. Noutra ocasião não teve a mesma sorte: “Foi nas férias. O S. tocou à campainha para eu descer, eu disse que estava ao computador. Então ameaçou que subia e partia a casa toda.” Ao descer, Pedro viu a navalha.

Antes de atravessar a porta do prédio, ainda tirou a argola de ouro da orelha e pô-la na caixa do correio. Eles começaram logo a bater-lhe. Hoje, é arrepiante ouvi-lo dizer: “Não doeu muito.” Foi a partir deste episódio que a mãe, Rosa, confirmou o que andava a intuir e o filho ocultava. Ainda pensou em mudá-lo de escola, mas convenceu-se de que seria melhor esperar até ao ano letivo seguinte. Pedro escondia a situação dos pais por achar que não iam compreendê-la. Às vezes escrevia “mensagens” em pedaços de papel que amachucava e deixava em diferentes cantos do apartamento. A 4 de fevereiro, voltou para casa a pé e mandou à mãe um SMS: “Cheguei. Gosto muito de si.” Rosa ligou-lhe, lembrou-lhe que tinha de estudar para o teste de História. Meia hora depois, o telefone dela tocou. O irmão mais velho de Pedro encontrara uma multidão à entrada do prédio. A multidão rodeava o corpo do irmão mais novo, inerte no chão. Acabara de se atirar do 3º andar.

Pedro esteve três meses em coma no Hospital de Santa Maria e oito no Hospital de Alcoitão. Ficou com lesões a nível da coluna, da visão e da fala. Em 2010, em cadeira de rodas, reiniciou a escola e já recuperou o andar. Tem amigos e define-se como “um brincalhão”. Mas, se pudesse, voltaria atrás. “Aquilo virou-se contra mim. Destruí a minha família”, afirma, enquanto dá palmadinhas no joelho da mãe, que nega, abanando a cabeça. Tentando afastar do filho os novos fantasmas que substituíram os antigos.

antonio pedro ferreira

“As crianças são exímias em esconder e camuflar”, reflete Sónia Seixas, psicóloga com um doutoramento na área do bullying. As razões por que o fazem variam entre a vergonha, a humilhação e o temor de que os pais desvalorizem o quadro — e isto acontece muitas vezes. Para esta profissional, o bullying é uma noção que importa circunscrever e que não se dilui em confrontos pontuais: “É um comportamento sistemático, repetido e intencional, em que há sempre desigualdade de poder.” Sem intervenção do adulto “raramente se resolve”.

Cinco anos de perseguição

Com o Filipe, os problemas apareceram mais cedo. E teve de aguentar cinco anos até recuperar a infância. Ainda agora se encolhe se alguém levantar a mão para dizer adeus ou acenar ao pé dele. Desde a entrada no 1º ano, aos cinco, que os rapazes da turma o perseguiam para lhe bater. Eram liderados pelo neto de um ex-presidente da junta de freguesia, que gozava de “imunidade” tácita entre os adultos da escola. “Quando ele não estava, os outros eram simpáticos”, diz Filipe, que fugia, passava os intervalos na biblioteca ou colava-se aos mais novos para se proteger. Se o apanhassem, agarravam-no pelos braços e pelas pernas, dando-lhe pontapés. No 4º ano, a quantidade de nódoas negras que marcavam o seu corpo frágil chamou a atenção do pediatra, que interpelou os pais. E estes interrogaram o filho até Filipe responder.

Ficaram a saber que, durante quatro anos, o miúdo se escondeu “até de si próprio” (palavras dele), que chegava a casa e “descarregava a estudar”. Na vila pequena onde viviam ninguém interveio, defendeu-o ou contou aos pais, que tarde perceberam o motivo por que Filipe insistia em não ir à escola. Porém, não o transferiram. No 5º ano, numa aula de ginástica na piscina municipal, o agressor quis afogá-lo. Pôs-lhe a mão na cabeça, impedindo-o de voltar à superfície. A professora travou-o, chamou os pais e a decisão de mudarem de terra impôs-se por fim. “Foi um alívio, virei um capítulo inteiro”, diz Filipe. Há pouco tempo, quase três anos depois, recebeu um SMS do agressor a ameaçá-lo.

“É uma caçada”, comenta Luís Fernandes, que escreveu o livro “Plano Bullying” com Sónia Seixas — um manual com ferramentas de intervenção que desde 2012 é utilizado em centenas de escolas. “O bullying está a aumentar e acontece cada vez mais cedo. Além disso, continua quando a criança vai para casa, na internet e no telemóvel”, observa. Na escola, 70% dos atos de bullying ocorrem no recreio, espaço que se tornou “terra de ninguém”. Para o psicólogo clínico, o problema não é apenas a escassez de adultos, mas o facto de, muitas vezes, não saírem do papel de observadores. “A passividade dos adultos perpetua estes comportamentos, enquanto a sua ação pode diminuí-los para metade”, afirma.

Descodificar os sinais

É em Beja e pela mão de Luís Fernandes que encontramos Daniel, um jovem de 15 anos, novo na cidade. Saído de Mértola, deixou para trás uma história de perseguição e manipulação. O agressor levava os outros a cuspirem-lhe, vedava-lhe a permanência em certos espaços da escola ou mandava-o calar. Só porque a sua voz “o irritava”. Um dia, no 6º ano, Daniel não acatou a ordem. E o agressor agarrou-o pelo pescoço com uma força tal que as marcas duraram mais de um mês. Passou a usar gola alta, a ter pesadelos, a urinar na cama e a trancar-se na casa de banho. A mãe estranhou, mas culpou a medicação para a hiperatividade ou a recente prisão do pai.

“Um dia entrei durante o duche”, conta Susana. Viu as nódoas negras, efeito das caneladas e dos beliscões, e as marcas no pescoço. Soube que o perseguiam da escola até casa à pedrada e que o diretor de turma lhe chegara a dar boleia para o resguardar da agressão. Uma única reunião com a direção da escola pôs a descoberto 12 responsáveis, que suspenderam o ataque físico mas mantiveram o virtual, enviando-lhe SMS com epítetos como “deficiente” ou “chibo”. A espiral só parou quando Susana recorreu à GNR. Daniel repetiu o 6º ano e esteve mais dois nesta turma até a mãe arranjar trabalho em Beja, onde o filho hoje frequenta o 9º. Houve quem lhe pedisse desculpas.

Por vezes, os pais conseguem descodificar os sinais dos filhos porque já pertenceram à mesma comunidade silenciosa. É o caso de Rui e de Isabel. Logo no 1º ano, o miúdo começou a ser alvo de sovas e insultos. Luís Fernandes via-o a “sozinhar” no recreio e Isabel diz que chegava a casa “pensativo, sem vontade de nada”. Ela conhecia bem os sintomas. No 5º ano, um simples comentário seu desencadeara o ataque de vinte raparigas, ao estalo e ao pontapé. Depois, a agressão passou a ser verbal. “O que é pior”, conta Isabel. Aos 10 anos, “só pensava no que ia acontecer no dia seguinte”. E assim aguentou mais cinco. “Não sou escrava do que passei, mas mudou a minha vida”, admite. Para ajudar o filho, pediu ajuda a Luís Fernandes. O rapaz — a iniciar o 2º ciclo — também se esforçou, treinando futebol em casa para saltar a barreira que o separava das outras crianças.

Como identificar os sinais de bullying? Sónia Seixas avisa que não existe um padrão único. Nas vítimas destaca o isolamento, o procurar a proximidade dos adultos, a insistência para mudar de turma ou de escola, o desaparecimento ou perda do material escolar ou de dinheiro; as alterações de sono, de humor, o choro exagerado, as dores de cabeça ou de barriga que surgem do nada, nódoas negras, rasgões na roupa ou ferimentos que a criança “não se lembra” como aconteceram. O agressor será em geral uma criança desafiadora com os adultos e dominadora com os colegas, com pouca empatia pelo sofrimento alheio, que aparece em casa com objetos que não lhe pertencem, que nas expressões simbólicas — jogos de faz de conta ou desenhos — cedo manifesta agressividade.

Muitos destes traços confundem-se com o início da adolescência, alerta Sónia Seixas. E o crescimento aumenta a eficiência em camuflá-los. “Há pais que ainda acham que o bullying faz parte de uma infância normal, mas o normal são os conflitos, não a violência continuada e intencional”, frisa. Cláudia Outeiro, do Instituto de Apoio à Criança, que nas ações com as escolas utiliza a metodologia do “Plano Bullying”, salienta por sua vez a facilidade com que, nas atividades feitas com as turmas, é possível reconhecer “quem tem perfil de agressor, de vítima e de observador.”

Crianças que “sozinham”

Nessa constelação de relações, Maria João soube qual era o papel da filha. Bastou reparar no espaço vazio que as colegas criavam à sua volta. E se P., na altura com oito anos, garantia “estar tudo bem”, as férias de verão provaram o contrário: “Chorava muito, tinha reações extremas, não se sentia bem em lado nenhum”, recorda a mãe. Já em casa, Maria João questionou-a. “Desabou logo. Nunca a vi assim. Soluçava para dentro, não emitia um som.” Quando conseguiu falar e deixar de puxar os próprios cabelos, contou que ninguém brincava com ela, que lhe chamavam estúpida e deficiente.

P. tem uma deficiência não cognitiva que está a ser tratada em terapia da fala. Até agora, este problema nunca fora objeto de exclusão. E a verdade é que não era a única vítima. Maria João descobriu que a mandante há meses semeava o terror na turma e dirigiu-se à mãe desta expondo a situação. A resposta que obteve foi primeiro evasiva, depois brutal. “Chegou a gritar-me que o pesadelo de P. estava só a começar.” De certa forma, estava. Com os pais das outras vítimas a demitirem-se de intervir e a escola a recusar mudar a agressora de turma, P. passou parte do 4º ano sozinha. Até fazer amigos entre os rapazes. “Não a mudei de escola porque precisava de aprender a defender-se”, diz Maria João. A filha negou-se a ir à festa de fim do 1º ciclo. A mãe levou-a à praia e ela fez a festa a brincar na areia. Sozinha, desta vez por opção.

“As escolas têm de ser implacáveis”, exorta Margarida Gaspar de Matos, uma das pioneiras na investigação deste campo em Portugal e coordenadora do estudo “A Saúde dos Adolescentes Portugueses”, integrado num projeto da Organização Mundial de Saúde que abrange 44 países.

“Não adianta mudar os regulamentos se não se mudar a cultura escolar. Há que formar os adultos e trabalhar nos observadores, que são 60%, não participam no bullying nem fazem nada para o travar”, diz a psicóloga. Os alunos devem ser obrigados a reportar, de forma escrita e anónima, qualquer incidente suspeito. “Enquanto o agressor tiver aura de herói e de sem-medo, não vai parar”, avisa.

A aura do agressor

Joaquim tem isso tudo. Ou teve. Era um sem-medo e gostava de dominar. Desde o 2º ano que se juntava aos mais velhos na perseguição dos seus pares. Gozava-os. Se o mandassem bater, ele ia. “Os mais pequenos fazem tudo o que queremos”, admite. A sensação de poder empolgava-o. No final do 1º ciclo a mira apontou para as miúdas. Apalpava-as, levantava-lhes as saias. No 4º ano, a escola inteira temia-o. A mãe era convocada todos os dias: Joaquim envolvia-se em lutas, partia vidros, importunava raparigas. Os pais de uma delas acusaram-no de molestar a filha durante meses. Noutra ocasião, os mais velhos forçaram-no a beber água de uma poça. Ficou tão furioso que atacou os que ficaram a observar, empurrando-os para o meio da lama. Nenhum ousou defender-se.

tiago miranda

Reinou até ao 6º ano e só os sucessivos processos disciplinares o fizeram abrandar. “Parei para não arranjar mais problemas”, diz. Sentia remorso? “Mais ou menos.” Quando repetiu o ano e foi integrado numa turma nova, o líder desta virou-a contra ele. Ficou no papel da vítima. O seu comportamento começou a mudar, mostrando arrependimento em casa, em especial perante a mãe. Mas não deixou de pertencer “ao grupo dos gozões”. Ainda és agressor? “Sou um bocado. Gosto de mandar.”

Há anos que Luís Fernandes trabalha com agressores e conhece as suas estratégias para exercer o poder. Uma das que mais o impressionou veio de um rapaz que escolhia as vítimas olhando para o quadro de honra da escola, a que chamava ‘ementa’. O caso de Joaquim, que Luís segue desde o 1º ciclo, é diferente: “Muitas vezes nem é ele a começar as brigas. Mas insulta, goza e humilha até que a vítima ou alguém próximo dela reage. E aí ataca com força.”

Portugal já teve em cima da mesa uma proposta de lei para a criminalização do bullying. Mas caducou em 2011. Desde então, não houve qualquer iniciativa semelhante. “Um projeto de lei deve ser secundado por uma estrutura preventiva. Não adianta apenas punir”, opina Luís Fernandes, que em poucas semanas se juntará a Sónia Seixas e a Margarida Gaspar de Matos, entre outros profissionais, para começar a delinear um futuro Plano Nacional de Luta contra o Bullying, a ser apresentado na AR.

Joaquim está a repetir o 6º ano pela terceira vez. É a sua última oportunidade de normalizar o percurso escolar. Perseguido pela má fama, chegou ao ponto em que lhe é imputada qualquer coisa que aconteça na escola. Porém, parece ainda não ter chegado ao ponto de viragem. Falou connosco num dia cinzento e quente, em Beja. Esboçava um meio sorriso ao contar ou ouvir contar os seus feitos. Se por timidez, vergonha ou orgulho, é impossível saber.

Nesta reportagem, os nomes de P. e de Joaquim são fictícios.

 

 

 

 

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