A importância das rotinas na promoção de um sono saudável

Outubro 21, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto e imagem do site Up to Kids

By Ser Mais®

Tem insónias? Dificuldade em adormecer? Não consegue dormir horas suficientes? Pois bem, tudo isto são sinais que poderá não ter um sono saudável.

Enquanto adultos sabemos bem as dificuldades que podemos ter devido à privação de uma noite de sono bem dormida. Contudo, quando falamos de crianças, é tudo ainda mais preocupante.

Assim, de forma a garantir que o seu filho tem um sono saudável, nada mais importante que caucionar que ele tem rotinas diárias. Continue a ler que vamos explicar-lhe melhor como tudo funciona.

Sono saudável: O que é e como promover?

Um sono saudável é tão somente o conjunto de diversos pontos, nomeadamente:

  • Duração adequada
  • Boa qualidade
  • Regularidade dos hábitos de sono

Os mesmos, são por norma facilitados devido a uma rotina, que engloba aquilo que chamamos de higiene do sono.

Ou seja, um conjunto de hábitos que têm como principal intuito a promoção de um padrão de sono saudável (resumidamente o muito comum: lavar os dentes, xixi e cama).

E porque é que esta rotina de higiene é tão importante? Porque a mesma vai preparar os jovens para a noite que se avizinha.

E, contrariamente ao que possa pensar, ter bons hábitos de sono na infância é a base para a obtenção de um sono de qualidade na idade adulta.

Claro que a partir de determinada idade torna-se mais complicada a regulação dos sonos e da rotina noturna. Principalmente devido a jogos de computador (como o Fortnite) ou smartphones.

Mas, de forma a protelar ao máximo essa quebra na rotina, existem alguns conselhos que pode ter em mente:

  • Promover um horário de sono regular (com a mesma hora de ir para a cama e acordar diariamente)
  • Estabelecer rotinas de higiene antes de ele se deitar (ou seja, criar uma sequência de ações)
  • Criar um ambiente adequado ao sono
  • O quarto não deve ser utilizado para ver televisão, jogar ou comer
  • Desligar os equipamentos eletrónicos pelo menos uma hora antes de ir para a cama, e nunca os levar para o quarto
  • Promover atividades extracurriculares (preferencialmente aquelas que imputam esforço físico)
  • Fazer refeições ligeiras de noite, mas nunca deixar o seu filho ir para a cama com fome
  • Não ingerir líquidos em excesso antes de ir para a cama
  • Evitar alimentos ou bebidas estimulantes nas horas que antecedem a ida para a cama

1 – Especificidades a considerar em crianças

A par dos conselhos que lhe demos anteriormente, existem algumas especificidades que deve adotar. Ao falarmos de crianças, deve considerar que:

  • É de extrema importância estar com os pais no final do dia e terem uma rotina acompanhada antes de se deitarem
  • A criança deve ser deitada ainda acordada (ou seja, não deve esperar que adormeça no sofá para a colocar na cama)
  • Deve ser estimulada a dormir na sua própria cama (e não na cama dos pais)
  • A sesta deve ser facilitada (principalmente para crianças até aos 6 anos)

Estes são 4 pontos importantes que deve ter em conta quando quer promover um sono saudável em crianças pequenas.

2 – Especificidades de adolescentes

Quando falamos de adolescentes, bem sabemos que nem sempre é simples fazê-los seguir as regras (principalmente em determinadas idades).

No entanto, tentar promover ao máximo um sono saudável nesta idade é também muito importante.

Assim, a par das dicas que lhe demos anteriormente, facilitamos-lhe mais três:

  • Todo o material eletrónico deve ser mantido ao máximo fora do quarto
  • Evitar e controlar ao máximo a ingestão de álcool e tabaco não só por questões associadas ao sono em si, mas essencialmente devido a problemas de saúde que daí possam surgir
  • O horário de sono dos adolescentes pode ser variável e deve sempre acompanhar o seu horário escolar. Contudo, as horas de sono corrido devem ser mantidas (idealmente entre 8 a 10 horas para adolescentes dos 14 aos 17 anos)

Como vê, uma rotina diária é essencial para que crianças e adolescentes tenham um sono saudável. Acredite que ao facilitar isso ao seu filho, irá estar a promover uma rotina de sono muito mais benéfica no futuro.

Mais de metade das crianças até aos três anos utiliza em excesso as novas tecnologias

Outubro 9, 2019 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Shutterstock

Notícia e foto do DN Life de 2 de outubro de 2019.

67% das crianças em idade pré-escolar usa um ecrã para ver vídeos, ouvir música, jogar. Em geral, passam mais tempo do que o recomendado em contacto com as novas tecnologias, muitas vezes criando dependência antes ainda dos três anos, o que contribui para um atraso na linguagem e no desenvolvimento emocional das crianças.

Texto de Rita Rato Nunes | Fotografia de Shutterstock

Tiago tem três anos e gosta de comboios e aviões. É isso que procura no YouTube quando os pais lhe emprestam o telemóvel, “ainda não sabe pesquisar, mas vai pelo histórico”, explica o pai, Miguel Gonçalves. “Já tem aquela sensibilidade para tocar no ecrã, sabe minimizar e maximizar as janelas, aumentar o som, carregar no YouTube e pouco mais do que isso”.

“As crianças hoje estão mais viradas para a tecnologia, dominam mais facilmente um telemóvel do que pessoas com 60 anos. É muito intuitivo. Mas uma criança de três anos não percebe muito, basicamente quer ver bonecos”, diz Miguel.

67% das crianças até aos três anos utilizam as novas tecnologias. A maioria em excesso, recorrendo aos aparelhos eletrónicos durante mais de uma hora e meia por dia com risco de dependência associado. Estes dados foram divulgados na revista Gazeta Médica, do Hospital CUF, num estudo sobre os Hábitos de Utilização das Novas Tecnologias em Crianças e Jovens, publicado no final do ano passado e apresentado esta terça-feira.

“Nós [pediatras] vemos os pais a utilizarem os seus telemóveis para porem um vídeo para os acalmar. É uma estratégia usual para quando vem ao médico, dão de comer ou há uma birra.”

“É muito frequente apercebermo-nos na consulta normal de pediatria, que a criança em idade precoce está demasiado exposta a ecrãs. Recentemente, tive na minha consulta um bebé com seis meses que a mãe só lhe conseguia dar comida com um tablet à frente com um vídeo do YouTube“, diz o pediatra Hugo Faria, um dos autores do estudo.

Segundo o médico, por volta dos dois anos, as crianças passam por uma fase em que os pais têm dificuldade em acalmá-las, principalmente em momentos de maior tensão, como podem ser as idas ao médico. “Nós [pediatras] vemos os pais a utilizarem os seus telemóveis para porem um vídeo para os acalmar. É uma estratégia usual para quando vem ao médico, para quando colocam a colher com a comida na boca dos filhos ou quando há uma birra. Os pais estão pressionados pela vida atual, que é uma vida atarefada, difícil, e isto é uma forma rápida e fácil de entreter e facilitar tarefas em casa. Eu compreendo isto, mas pode ter consequências”, indica Hugo Faria.

O Tiago “não é de muito boa boca e às vezes ao ver os bonecos no YouTube consigo distraí-lo para comer”, diz Miguel Gonçalves. O filho passa cerca de uma hora por dia com o telemóvel nas mãos: “Também gosta de ver um bocadinho antes de dormir ou quando está sentado no sofá, mas também brinca: gosta de jogar à bola, brincar com carrinhos”.

Há indícios claros de que o uso das novas tecnologias nos primeiros anos de vida pode contribuir para atrasar o início da linguagem e o desenvolvimento emocional das crianças.

Embora ainda não existam estudos suficientes sobre o impacto das novas tecnologias nos primeiros anos de vida, há indícios claros de que estas podem contribuir para atrasar o início da linguagem e o desenvolvimento emocional das crianças.

O estudo alerta ainda para “o aumento da probabilidade de excesso de peso e obesidade futura. O hábito de comer enquanto se utilizam estes meios de comunicação e a exposição regular à publicidade de produtos alimentares são fatores de maior risco”, pode ler-se no relatório.

Fica por clarificar o motivo exato pelo qual as novas tecnologias devem ser evitadas em idade pré-escolar: “Não sabemos ainda se isto acontece por efeito direto do estimulo que os ecrãs dão ou se acontece porque estamos a substituir tempo com os adultos, os pais, que são a principal fonte de estimulo para as crianças dessas idades”, refere o pediatra.

Vídeos, música e jogos é o que atrai mais as crianças

Ver vídeos, ouvir música e jogar: é assim que a maioria destas crianças passa mais de uma hora e meia com os aparelhos eletrónicos. Para a Academia Americana de Pediatria (APP), que tem emitido várias recomendações sobre o tema, os pais não devem permitir que crianças com menos de 18 meses tenham contacto com os meios digitais, com exceção feita para as videochamadas. Depois desta idade, devem escolher aplicações ou programas didáticos para assistir com os filhos, descodificando o seu conteúdo. Entre os dois e os cinco anos, a APP recomenda que o uso das novas tecnologias não ultrapasse os 60 minutos.

O estudo revela ainda que o aparelho tecnológico mais usado pelas crianças até ao três anos é o tablet, depois o telemóvel, o computador e a consola.

“Estes novos meios de comunicação são importantes, são o futuro, mas têm de ser limitados. É preciso deixar espaço para que haja outras atividades e é preciso deixar um espaço livre de estimulo para outras atividades, nomeadamente, o estudar, o dormir, o brincar, o convívio com a família. A internet deve abrir janelas de comunicação e não fechar outras”, diz Hugo Faria.

O artigo citado na notícia é o seguinte:

Efeitos da Exposição a Dispositivos Digitais no Desenvolvimento da Linguagem em Idade Pré-Escolar

As Crianças e o uso da Internet, Redes Sociais, Videojogos, Smartphones, Tablets, etc no Reino Unido

Outubro 8, 2019 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Imagem retirada daqui

“A brincar também se educa”. Um guia para envolver os pais e afastar as crianças dos ecrãs

Setembro 10, 2019 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia e imagem do Observador de 15 de agosto de 2019.

Ana Cristina Marques

90% das crianças entre 5 e 14 anos já têm telemóvel e preferem o smartphone aos jogos tradicionais. Os pais têm cada vez menos tempo. Mas os especialistas alertam: brincar sem ecrãs é fundamental.

Uma amostra de 1.200 crianças portuguesas, dos 5 aos 14 anos, concluiu que 90% tinha um telemóvel ou um Ipad próprio ou, então, partilhado com os irmãos. “São os dispositivos que os pais já não querem e que ficam para os filhos. Fiquei surpresa, os professores também não sabiam”, relata Ivone Patrão ao Observador, investigadora, psicóloga e terapeuta familiar do ISPA – Instituto Universitário. O estudo por ela coorientado teve por base alunos de escolas públicas e privadas e serviu para criar o jogo Missão 2050, lançado em junho último, que visa a promoção do uso saudável de tecnologia. “Enquanto investigadora foi uma surpresa”, insiste. “Tinha ideia que isto começava aos 10 anos, com a entrada para o 5.º ano. Mas não. E eles comunicam uns com os outros depois da escola, à noite.”

Enquanto se rendem aos ecrãs — assumam eles a forma de smartphones ou de tablets –, as crianças estão a tirar tempo aos estudos e à própria brincadeira. Ivone Patrão fala “na normalização de comportamentos”, isto é, de um comportamento online que substitui o ir brincar para a rua ou o jogar ao UNO, por exemplo. Não quer isto dizer que estas crianças sejam dependentes do uso do ecrã — isso é outra conversa — mas pode realmente existir um comportamento considerado excessivo.

Vários artigos que alertam para o facto de haver pais que usam os telemóveis e os tablets como babysitters: segundo o estudo “Happy Kids: Aplicações Seguras e Benéficas para Crianças”, do Católica Research Centre for Psychological, Family and Social Wellbeing (CRC-W), da Universidade Católica Portuguesa, as crianças que mais usam aplicações têm até 2 anos e são os pais os primeiros a dar aos filhos o acesso a dispositivos eletrónicos, além de 90% das casas portuguesas ter ligação à internet, “smartphones, computadores portáteis ou tablets”.

O debate em torno dos ecrãs é tanto que o insólito já aconteceu: nos EUA há famílias que contratam coaches para as ajudar a educar crianças longe dos ecrãs, porque é difícil recordar um tempo em que tal não existia. Também nos Estados Unidos, como já antes explicou o Observador, são cada vez mais os pais que atrasam de propósito a idade a que os filhos recebem smartphones para as mãos, existindo até movimentos organizados nesse sentido — por exemplo o “Wait Until 8th” (Espera até ao 8º).

O papel dos pais nas brincadeiras dos filhos

Brincar é essencial para o desenvolvimento dos mais novos, seja a nível sócio-emocional, psicomotor ou cognitivo. O ato de brincar deve seguir três etapas evolutivas: as atividades que geram ação (quando um bebé atira um brinquedo ao chão está a ter uma primeira noção da lei da gravidade), as simbólicas (pegar numa vassoura e transformá-la num cavalo é um exercício de imaginação) e as que exigem regras (os jogos de computador e os de tabuleiro ajudam a perceber que a vida se rege por um conjunto de normas).

A brincadeira funciona como uma espécie de tubo de ensaio para a vida real. Permite explorar, conhecer, aprender e percecionar o mundo, perceber como este funciona. Brincar faz parte da vida de uma criança e é tão importante que a Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda três horas diárias de atividade física, leia-se jogos e brincadeiras, a partir do primeiro ano. O gesto tão naturalmente associado à infância parece estar, por estes dias, em vias de extinção. Tanto que há sensivelmente um ano a Sociedade Norte-americana de Pediatria recomendava que os pediatras receitassem mais tempo para brincar. A escassez está, muito provavelmente, associada ao atual estilo de vida marcado por agendas cheias e acesso facilitado aos ecrãs, o que veio alterar a forma como as crianças olham o mundo à sua volta.

Para Inês Afonso Marques, psicóloga infantil e autora do livro “A brincar também se educa” (editora Manuscrito), quando os pais dão tempo aos filhos para brincar estão a educá-los, a ajudá-los a fazer escolhas e a usar a criatividade, entre outras vantagens. Mas o uso que fazemos da tecnologia pode estar a impedir as crianças de brincar, diz. E os pais são o modelo dessa realidade. Ao Observador, a psicóloga explica que brincar implica envolvimento e atividade, enquanto a tecnologia é passiva. “As crianças gostam de se sujar, de sentir, de envolver os cinco sentidos naquilo que estão a fazer. Tudo aquilo que possa suscitar a descoberta, tudo isso estimula uma criança.”

Foi Sílvia e o marido que aproximaram a tecnologia do filho de três anos para garantir aos pais momentos de descanso e para ajudar a criança nas refeições. Ao Observador, esta mãe admite que o filho sempre comeu mal, pelo que recorria ao ecrã para o distrair. “Talvez isto tenha sido um pouco mau porque ele hoje não come bem. Antes fazia as refeições sem saber o que estava a comer, hoje não tem uma relação boa com a comida.” Atualmente, o filho vê alguma televisão em casa — sempre sintonizada em canais infantis — e Sílvia congratula-se pelo facto de ele não ter ficado muito adepto dos ecrãs. “Sinto-me aliviada porque ele não os procura, não ficou dependente. Entretém-se sozinho, encarna personagens com acessórios.”

A psicóloga e investigadora Ivone Patrão é perentória quando argumenta que as crianças não deveriam ter ecrãs nas horas das refeições e no tempo de brincar porque “têm de estar concentradas no que estão a fazer, seja comer ou brincar”. O ecrã, continua, deve ser encarado como um complemento à brincadeira, mas não o pode substituir. “O ecrã é muito assumido como algo que os vai tranquilizar, mas é preciso fazer um uso adaptado, caso a caso, dependendo das necessidades da família. Acho que os pais devem perguntar-se porque usam a tecnologia. Muitas vezes dá-se a ferramenta, mas não o manual de instruções.”

Segundo a Sociedade Norte-americana de Pediatria, até aos 2 anos o uso de smartphones e de tablets não é recomendável, sendo que a introdução deve ser feita de forma gradual e com a supervisão dos adultos. Inês Afonso Marques insiste nesta tónica: é importante controlar o que é transmitido à criança, bem como limitar ao máximo todo o tipo de monitores. “Há crianças [em consultório] que verbalizam ‘Preciso do telefone porque não tenho nada com que me entreter’. Isso revela uma dependência associada à incapacidade de a criança encontrar outros estímulos.”

“Não gosto de culpar a tecnologia… Na minha infância tive consolas. Muitas vezes, no consultório, pergunto aos miúdos as brincadeiras preferidas e a maior parte responde o telemóvel, o tablet, o computador e a consola. Por outro lado, sinto que eles têm sede de brincadeiras, têm vontade de usar os jogos que estão nas prateleiras do consultório, jogos banais, mas o mais imediato é a tecnologia muito por observação e pelo modelo que têm à sua volta”, continua Inês Afonso Marques, que ressalva que cabe aos adultos quebrar o ciclo e encontrar ou reencontrar outras formas de brincar. A isso acrescenta-se a “falsa questão” da falta de tempo, até porque a psicóloga ouve em consultório como as crianças se queixam de que os pais não têm tempo para brincar e como os pais argumentam que já não sabem brincar. “Não é necessário muito tempo, desde que este seja de qualidade”, diz, aconselhando os adultos a seguir os interesses da criança e a seguir o ritmo desta.

O uso pouco saudável das tecnologias pode, entre outras coisas, impactar a criança do ponto de vista motor, no sentido em que pode prejudicar a sua destreza. Também por isso a OMS alertou recentemente para a necessidade de as crianças com menos de cinco anos terem de passar menos tempo sentadas diante dos ecrãs para passarem, ao invés, mais tempo a brincar de maneira a crescerem de forma saudável. Entre as recomendações da Organização Mundial de Saúde está, por exemplo, o facto de os bebés com menos de um ano de idade terem de ser “fisicamente ativos várias vezes ao dia e de formas diversas” e não ficarem “contidos” mais de uma hora de cada vez em cadeiras ou carrinhos. “Tempo de ecrã não é recomendável”, acrescenta a OMS.

Sobre isso, Carlos Neto, professor e investigador da Faculdade de Motricidade Humana (FMH), disse em 2015 ao Observador que o ecrã “alterou muito significativamente a vida das crianças e dos pais”. “Passou-se da trotinete ao tablet de uma forma rapidíssima e não há equilíbrio. E o que está em causa neste momento é que nem a atividade desportiva que as crianças fazem em clubes, nem a educação física escolar, nem o desporto escolar — que são muito importantes — são suficientes para acabar com o sedentarismo que existe.”

Aos 44 anos e com duas filhas, de 7 e 8 anos, Sofia não diaboliza a tecnologia, mas faz questão de impor regras que, espera, um dia, as miúdas levem consigo para a complicada fase da adolescência. O ecrã mais utilizado lá em casa é a televisão, sobretudo para ver desenhos animados e filmes familiares como a saga “Harry Potter”. “A regra, embora não seja sempre cumprida, é dois desenhos animados quando chegam da escola, o que dá no máximo uma hora de televisão”, conta ao Observador. Limitar o tempo de acesso à televisão deriva da preocupação de Sofia, que considera que os estímulos emitidos por este ecrã são muito rápidos para os cérebros das crianças. “Se passar o tempo, a mais nova, por ter alguns problemas, fica perturbada, começa a rodopiar em loop, sem parar, a mexer freneticamente as pernas, até o discurso dela fica mais confuso.”

Outra regra imposta por Sofia passa pelo uso de smartphones: o uso exclusivo dos telefones dos pais (elas não têm gadget próprio) serve para jogar jogos escolhidos a dedo e testados pela mãe, preferencialmente que estimulem o raciocínio matemático, embora também haja momentos para “maquilhar e vestir princesas”. As filhas só podem jogar duas a três vezes por semana, cinco jogos à vez. “Quanto mais cedo elas tiverem noção de que os ecrãs têm de ser usados com inteligência, melhor. Eu não uso o telemóvel à frente delas, caso contrário nada disto faria sentido. Faço questão de dar o exemplo.”

Também o pedopsiquiatra Pedro Strecht considera que as tecnologias — em particular as aplicações — podem interferir no desenvolvimento das crianças, sobretudo em relação a algumas áreas cognitivas e de relação social. “Se um menino de 8 anos brinca no tablet ou se um de 12 anos joga na playstation, diria que isso é normal e não vejo mal nisso — só aconselho os pais a darem os jogos apropriados à idade dos filhos; mas se ele só brincar com o tablet ou com a playstation… Há crianças que crescem quase só com experiências de relação e de estímulo centradas no ecrã. Há pessoas que acham que tenho uma visão muito crítica em relação às tecnologias… As tecnologias têm coisas ótimas que podem facilitar ganhos de tempo, simplesmente acho que, nos dias de hoje, elas próprias se tornam tão opressivas no chamado tempo tecnológico que também bloqueiam a nossa vivência, o nosso tempo biológico e emocional”, já antes disse ao Observador.

O que mais preocupa a psicóloga Ivone Patrão é precisamente o estado das relações sociais. A socialização, diz, deve ser mista, tanto presencial como online. “O que me preocupa é se for só online. Se as crianças começam assim já não vão ter relações”, afirma, referindo-se ao impacto nas respetivas competências sociais. “Elas deixam de estar treinadas para a resposta em direto.”

Afinal, o que dizem os estudos?

Indepentemente da idade, Ivone Patrão refere que o ecrã tem, de facto, afetado pela negativa o ato de brincar. “Vejo que isso os deixa sentados, inertes, parados do ponto de vista físico. E há outra questão: o ecrã dá-lhes um input… o output vai ter de sair. Quando deixam de estar ao ecrã podem ficar mais irrequietos. A energia natural da infância tem de sair de outra forma. Isso tem impacto ao nível do comportamento e do ponto de vista cerebral. A luz do ecrã, por exemplo, pode provocar alterações no sono”, assegura.

O problema não é necessariamente o ecrã, mas o uso que se faz deste. Porque também nos smartphones ou nos tablets há vantagens: como a facilidade de acesso à informação, a capacidade de aprender novas línguas ou o facto de ser uma ferramenta útil na sala de aula. Nem de propósito, segundo um estudo do ano passado, publicado no jornal semanal The Lancet Child & Adolescent Health, limitar o tempo que as crianças passam a olhar para um ecrã melhora a sua capacidade de aprendizagem — o ideal seria passarem menos de duas horas por dia nessa condição.

Em 2017, a Sociedade Norte-americana de Pediatria apresentava um estudo — feito entre 2011 e 2017 com 894 crianças entre os seis meses e os dois anos — que mostrava que as crianças menores de dois anos que usavam ecrãs táteis corriam o risco de começar a falar mais tarde. Sobre isso, Catherine L’Ecuyer, doutorada em Educação e Psicologia e autora do bestseller “Educar na Curiosidade”, já antes disse ao Observador que “o tipo de interação que o tablet promove não é como a interação humana, que requer um processo ativo. Diante do ecrã, a criança anda a reboque de estímulos frequentes e intermitentes. Transforma-se numa espécie de porta USB ou numa impressora.”

As recomendações já antes citadas pela Organização Mundial de Saúde, tendo em conta o uso do ecrã por parte das crianças, não foram bem aceites por todos, já que o The Guardian cita especialistas que argumentam que, na sua base, há falta de provas. Juana Willumsen, uma das autores das referidas recomendações, diz que não há como negar que os ecrãs fazem parte da vida moderna, ao mesmo tempo que argumenta que o grupo de trabalho em questão não encontrou vantagens em introduzi-las a crianças com menos de três anos. “Capacidades sociais e cognitivas são mais bem desenvolvidas com outra pessoa do que com um ecrã. Cuidadores que brincam interativamente são absolutamente vitais para o desenvolvimento das crianças, em particular nos primeiros anos.”

A geração de filhos que se sentem trocados pelo telemóvel

Agosto 12, 2019 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Texto e imagem do site Up to Kids

Telemóvel: Quando os pais o colocam à frente dos filhos

Só um segundo, filho! A mãe está só a acabar esta story e já falo contigo!”

Esta frase, que podia ser tirada de um cartoon, serve perfeitamente como alegoria a uma questão extremamente contemporânea que tem vindo a contaminar as relações entre pais e filhos. Cerca de 42% das crianças com idades entre 8 e 13 anos sentem-se trocadas pelo telemóvel dos pais. Esta é uma constatação do estudo Digital Diaries, realizado em junho por uma das maiores empresas globais de tecnologia de segurança.

Ficou surpreendido com os dados? Então leia o resto, porque não melhora.

O que diz o estudo?

Para este estudo a AVG entrevistou 6.117 pessoas de países como Austrália, Brasil, República Checa, França, Alemanha, Nova Zelândia, Reino Unido e Estados Unidos. Ou seja, o estudo reflete a realidade de pais e filhos de diferentes nacionalidades e culturas. Isto reforça o argumento de que o problema não é apenas reflexo do comportamento de um grupo específico de pessoas..

O estudo concluiu ainda que 54% das crianças reclamaram da frequência com que os seus pais olham para o telemóvel, especialmente enquanto conversam com elas.  Outra conclusão relevante: o sentimento de desprezo (32%) pela falta de concentração no diálogo, segundo informações do R7.

“Os meus pais estão sempre no telemóvel. Odeio o telefone e queria que nunca tivesse sido inventado”. Esta foi a declaração de uma criança após responder à simples pergunta da professora americana, Jen Adams: “Que invenção gostavas que nunca tivesse sido criada?”.

“Se eu tivesse que dizer qual a invenção que não gosto, diria que não gosto do telemóvel. Porque os meus pais estão sempre agarrados a ele. O telemóvel às vezes é um hábito muito mau. Eu odeio o telemóvel da minha mãe e gostava que não existisse. Essa é a invenção que eu não gosto”, respondeu um aluno do 2º ano de um colégio no estado de Louisiana, segundo a Crescer.

As idades e o desenvolvimento da criança

Donald W. Winnicott e Henri Paul H. Wallon, dois dos principais teóricos da aprendizagem, apontaram a relação mãe-bebé como um fator-chave para o sucesso do bom desenvolvimento cognitivo e emocional das crianças nos seus primeiros meses e anos de vida. O período que vai dos 0 aos 5 anos, para teóricos como Sigmund Freud, M. Klein, Lev Vygotsky, Jean Piaget, constitui uma fase crucial para esse desenvolvimento.

Não se trata apenas do desenvolvimento motor e cognitivo mas também do desenvolvimento emocional. Quanto mais segura afetivamente a criança se sente, melhor se torna a sua capacidade de superar adversidades e de encarar a vida. Para se desenvolver a criança absorve as referências que a rodeiam. Os pais são a sua maior referência. É com base no comportamento dos pais que a criança constrói a sua ideia de mundo, especialmente de relacionamentos.

A autoimagem da criança, isto é, a forma como se vê, também é reflexo da forma como os seus pais a tratam e se tratam mutuamente.

A falta de segurança e de referências na vida das crianças na geração atual tem produzido uma geração emocionalmente vulnerável, carente, insegura e ansiosa.

Crianças de 7, 10, 11 anos (período compatível com a evolução da internet) estão, cada vez mais, a apresentar problemas de ordem afetiva associados à falta de atenção dos pais. Isto afeta também a (falta de) disciplina.

Esta é a geração que nos últimos anos tem apresentado maiores índices de psicopatologias, suicídio, automutilação, depressão e “rebeldias”. Não é só a falta de referência dos pais, mas a substituição dela por outra qualquer, literalmente, já que diante da ausência da família, a criança procura encontrar-se no que o mundo lhe oferece de forma fácil e rápida.

E qual seria a solução?

É preciso que os pais e mães dediquem parte das suas vidas ao momento mais crucial da vida dos filhos. Falamos do período em que a personalidade se forma e as primeiras habilidades sociais se desenvolvem. Esta fase vai dos 0 aos 5 anos, sendo esse um período crítico, mas que se consolida até os 10/12 anos.

A partir da adolescência, já no início da puberdade (11/12 em diante), a lógica começa a inverter-se. Os filhos querem tornar-se mais independentes dos pais. É nessa fase que começam a “trocar” os pais pelos amigos. Isso é natural e necessário. É uma preparação para o mundo e algo contrário a isso não é um bom sinal.

Será nessa fase da adolescência que os seus filhos colocarão à prova toda a herança recebida durante a infância. Os que tiverem tido referências de segurança dificilmente deixarão para trás os conselhos dos pais. Aliás, antes pelo contrário, vão utilizá-los ao longo da vida. O bom vínculo parental construído até os primeiros 10/12 anos de relação servirá de âncora para toda a juventude.

Resumindo, vale a pena investir na atenção ao seu filho sem a presença da tecnologia. Até porque podemos estar no Facebook enquanto a criança dorme ou está distraída a ver bonecos animados. Porque ninguém é de ferro, certo?

Redação CONTI outra. Com informações do texto de Will R. Filho, em Opinião Crítica, adaptado por Up To Kids®

mais informações na notícia:

Kids Competing with Mobile Phones for Parents’ Attention

El perfil es el de un joven de entre 15 a 25 años que realiza 50 llamadas telefónicas y envía más de 400 WhatsApp diariamente

Agosto 11, 2019 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia e imagem do Salamanca24horas de 14 de julho de 2019.

Un adicto al teléfono móvil puede estar enganchado casi un día entero

El perfil es el de un joven de entre 15 a 25 años que realiza 50 llamadas telefónicas y envía más de 400 WhatsApp diariamente. Cuando el nivel de dependencia es total las consecuencias físicas y mentales de deterioro en el enfermo son evidentes.

El Centro Específico para el Tratamiento y Rehabilitación de Adicciones Sociales (CETRAS) de Valladolid, que trabaja en toda Castilla y León, ha hecho a través de su Grupo Mixto una evaluación de la actual situación de la adicción a la tecnología y, en concreto, se ha centrado en el teléfono móvil.

El actual perfil de adicto es un joven de entre 15 a 25 años que puede llegar a estar conectado entre 15 y 22 horas en un solo día, que tiene una relación permanente de contacto con el móvil.  Diariamente realiza más de 50 llamadas telefónicas, envía más de 400 mensajes de WhatsApp día y recibe más de 800.

Son personas que sacrifican sus intereses personales como dormir, comer, relacionarse en beneficio del interés del móvil -batería, saldo, cobertura, ofertas-. Algunos de los pacientes han llegado a tener hasta trece móviles a la vez.

Las consecuencias de esta adicción son evidentes cuando el nivel de dependencia es máximo. Además de un empobrecimiento económico, se producen alteraciones de su humor y carácter, volviéndose taciturnos, irritables, desconsiderados, mentirosos y cínicos. Físicamente también se dan cambios como inapetencia, insomnio, exclusión de las comidas y cefaleas.

“Hay casos en los que se ha gastado más de 6.000 euros en el último año -nuevos terminales, recargas de dinero, pago de facturas, abuso de datos- “apunta el fundador y director técnico de CETRAS, Blas Bombín.

Según Bombín, cada vez que un joven está “enganchado” a su teléfono crecen sus niveles de dopamina y de ácido gamma-aminobutírico (GABA), un neurotransmisor cuyo aumento es lo que provoca la fijación al gusto por el subidón producido, por ejemplo, por la heroína o la cocaína.

Al Grupo Mixto de Cetras llegan después de casi dos años de adicción en una situación muy precaria “debido a que el uso del teléfono móvil con el tiempo va generando una pérdida de la libertad y consecuencias clínicas importantes” señala el fundador y director técnico de CETRAS.

En la actualidad este tipo de conductas adictivas sin sustancia, al igual que la ludopatía, son agrupadas en el concepto de trastornos por déficit de control de los impulsos. No se contemplan en el Manual de Diagnóstico y Estadístico de los Trastornos Mentales ni en la Clasificación Internacional de Enfermedades de la OMS.

Evolución y fasese

En esta adicción existen dos etapas evolutivas bien diferenciadas. Una primera -egosintónica – en la que el individuo se siente identificado confortablemente con su conducta adictiva, “de la que sólo percibe el beneficio y en la que se acomoda sin que tener intención de tratamiento” comenta Blas Bombín.

Y una segunda -egodistónica- en la que por el avance evolutivo de la adicción y la consiguiente aparición de consecuencias clínicas, el sujeto comienza a percibir el perjuicio a que le conduce la práctica adictiva. “Esta situación induce a la persona a hacerse propósitos de autocorrección de la conducta adictiva y a admitir las sugerencias o presiones del entorno familiar para someterse a un tratamiento de rehabilitación” subraya el fundador y director técnico de CETRAS.

En cuanto a la conducta adictiva propiamente dicha es fácil distinguir dos fases, una apetitiva, inmediatamente previa a la acción, “en la que los adictos mantienen el móvil  a punto -batería, cobertura y saldo-, así como cuentan con la última tecnología en modelos, y a la red de compañeros de comunicación, que ansían ampliar de forma insaciable” apunta Blas Bombín.

La otra fase es la ejecutiva, que representa la acción adictiva propiamente dicha y produce gran sensación de placer, pero aísla socialmente a la persona. Incluso para conseguir un mayor grado de privacidad se colocan auriculares.

Redes sociales, compras online y videojuegos

Hoy el teléfono móvil se ha convertido en un instrumento de uso corriente, poseído y manejado por todos, tanto para la vida de relación como para el ámbito del trabajo.

Según un informe de la consultora de estrategia digital Ditrendia sobre los hábitos de consumo de móvil en España en 2018, el móvil es el dispositivo más utilizado para acceder a internet, usado ya por el 97% de los españoles. España se encuentra en el sexto lugar del ranking mundial, encabezado por Corea del Sur.

Uno de cada tres españoles es ‘solo móvil’. En España ya hay más usuarios móviles que de escritorio: 127%. El uso descontrolado de los móviles ha llevado a que uno de cada cuatro jóvenes revise las notificaciones de sus redes sociales en mitad de la noche, aunque el 41% de los españoles toma medidas para limitar su uso del “Smartphone”.

Prevención

La situación actual exige implantar unas medidas de prevención que competen a las Administraciones y también a la sociedad, destinadas a todas las franjas de edades “aunque el perfil de adicto es una persona joven, también estamos recibiendo a niños y personas de edad más adulta en nuestro centro que necesitan tratamiento”, apunta Bombín.

Por tanto, las políticas de prevención han de fomentar la conciencia social sobre el riesgo de adicción que conllevan las tecnologías de consumo.

Asimismo hay que controlar la publicidad que incide sobre la población, y en especial sobre los jóvenes, incentivando el ansia por las novedades tecnológicas.

Habilitar vías legales para la autoprohibición de la misma forma que se hace con el juego de azar, facultando a los padres en caso de minoría de edad para solicitar a las compañías operadoras, con el apoyo de las asociaciones de consumidores y usuarios.

Otra recomendación, utilizar el móvil sólo por razones de necesidad profesional, escolar, familiar o social; siendo los padres, en caso de minoría de edad, los que deben establecer las normas al respecto, velar por su adecuado cumplimiento

Y sobre todo, impulsar la comunicación interpersonal directa como alternativa natural y ventajosa de la comunicación tecnológica o virtual.

Grupo Mixto

El Grupo Mixto (Conductas adictivas, Grupo de Fobias y Grupo de Tabaco) de CETRAS agrupa diversas adicciones tales como: dependencia emocional, cleptomanía, adicción al teléfono móvil y a los videojuegos, compras, impulsos o sexo.

Desde su puesto en marcha, hace 26 años, ha tratado a un total de 663 casos, destacando la adicción a las compras con un 17 por ciento del total y la dependencia emocional, con un 14 por ciento del total. El dato que más ha aumentado en el balance total es la adicción al teléfono móvil, que en la actualidad registra el siete por ciento del total.

“Diante de um ecrã a criança transforma-se numa espécie de porta USB ou numa impressora”

Julho 26, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista de Catherine L’Ecuyer ao Observador de 13 de julho de 2019.

Tânia Pereirinha

Ou seja, transforma-se num ser amorfo, que em vez de agir, reage — ou nem isso. Quem o diz é Catherine L’Ecuyer, doutorada em Educação e Psicologia e autora do bestseller “Educar na Curiosidade”.

Canadiana a viver em Barcelona, tem um currículo que impressiona, desde os artigos académicos mais famosos à coluna de opinião no El País, passando pelos livros feitos bestsellers internacionais ou pelo doutoramento acabado de concluir em Educação e Psicologia. Ainda assim, não é por “Educar na Curiosidade” ter sido traduzido em oito línguas, incluindo português, e ir já na 25ª edição em Espanha, que Catherine L’Ecuyer é uma sumidade na matéria.

Só por isso, seria considerada “especialista”. Sobe para o degrau acima porque, além de estudar a fundo o tema, é também mãe, de quatro filhos, de 14, 13, 11 e 8 anos. E, garante ao Observador, é uma mãe que pratica em casa aquilo que advoga na vida profissional.

Quando o assunto são as novas tecnologias é peremptória: antes dos 2 anos nenhuma criança deve ser exposta a qualquer tipo de ecrã e o uso de telemóveis deve ser atrasado ao máximo, sendo que o máximo pode muito bem ser a chegada à idade adulta.

Fácil falar, difícil fazer? Assegura que não e revela que na sua própria casa não há tablets, videojogos, ou smartphones: “Temos um telemóvel familiar — que só dá para fazer chamadas, não tem Internet –, que [os meus filhos] utilizam quando necessitam”.

Explica que não é uma questão apenas educativa, mas também pediátrica: o uso das novas tecnologias por bebés, crianças e adolescentes pode ter efeitos críticos nas diferentes fases do desenvolvimento, para além de ainda poder potenciar outro tipo de consequências. “Atrás de um ecrã as crianças e os jovens desinibem-se e dizem coisas que não diriam cara a cara, mostram partes do corpo que na vida real nunca mostrariam”, exemplifica.

Nos Estados Unidos, cientes disto mesmo, são cada vez mais os pais a atrasar deliberadamente a idade com que dão smartphones aos filhos, existindo até movimentos organizados nesse sentido, como o “Wait Until 8th” (Espera até ao 8º), uma espécie de juramento que os pais podem fazer online em nome dos filhos, numa lógica de a união faz a força — já para não dizer que também diminui a pressão social. Outros pais americanos, admitindo a sua incapacidade para educarem sem tecnologia, estão por seu turno a esgotar as agendas dos “consultores de tempo de ecrã”, os mais novos especialistas na matéria, acabados de chegar, aproveitando o nicho de mercado.

Em Portugal recentemente, para dar uma conferência sobre a forma como as novas tecnologias estão a influenciar a capacidade de atenção das crianças, Catherine L’Ecuyer respondeu às perguntas do Observador sobre o tema e deixou pistas para pais e educadores.

Acha que aquelas imagens caleidoscópicas dos canais para bebés fazem maravilhas a acalmar o seu filho de meses? Tem a certeza de que tablets e televisões são coisas completamente diferentes? Acredita que o seu filho tem uma inteligência acima da média porque nenhuma criança da mesma idade poderá algum dia ser capaz de mexer tão bem num smartphone? Esta entrevista é para si.

Falemos de tecnologia, mas vamos por idades. Basta sair para jantar para ver bebés de meses que só comem diante de um ecrã. Outros, assim que conseguem sentar-se ou até antes disso, são deixados em frente à televisão. Que efeitos pode ter a exposição precoce a este tipo de estímulos visuais no cérebro e no comportamento dos bebés?
A Academia Americana de Pediatria e a Sociedade Canadiana de Pediatria recomendam que as crianças até aos 2 anos não vejam qualquer tipo de ecrãs, devido ao risco que acarretam nesse período crítico de desenvolvimento. Não é uma recomendação educativa, mas sim pediátrica. Os estudos associam a exposição a ecrãs nessa idade com a desatenção, a impulsividade, a redução do vocabulário, o défice de aprendizagem, etc. O cérebro habitua-se a um ritmo que não existe no  mundo real, logo a criança não está adaptada à realidade, que é lenta.

O que se passa a partir dessa idade, biológica e emocionalmente, para que essa exposição passe a ser “permitida”?
Estas mesmas associações pediátricas recomendam que as crianças entre os 2 e os 5 anos vejam menos de uma hora por dia, por que nessas idades o cérebro continua a estar num período crítico de desenvolvimento. Entre os 2 e os 5 há menos riscos, mas não convém estar a criar este tipo de necessidade. Como diz a Associação Canadiana de Pediatria, “não há provas de que os ecrãs sejam benéficos”.

Mas uma televisão não é o mesmo que um tablet, pois não? Um é preferível ao outro? Quais são as diferenças de efeitos entre o uso passivo e ativo das tecnologias em cérebros tão jovens?
A investigação é cara e morosa. Por isso mesmo, tem sempre um atraso em relação às inovações tecnológicas, que rapidamente se tornam obsoletas e dão lugar a produtos diferentes a cada ano. Em 2014, Dimitri Christakis (o especialista internacional nos efeitos dos ecrãs nas crianças) publicou um artigo em que questionava a comunidade científica sobre se o tablet seria diferente da televisão, precisamente por causa da sua natureza interativa. O artigo não dava respostas, fazia perguntas. Há estudos desse ano que demonstram que o tablet não é menos prejudicial do que a televisão; até é mais viciante porque é interativo. O tipo de interação que o tablet promove não é como a interação humana, que requer um processo ativo. Diante do ecrã, a criança anda a reboque de estímulos frequentes e intermitentes. Transforma-se numa espécie de porta USB ou numa impressora. A criança ainda não desenvolveu as suas capacidades de inibição e atenção, o seu locus de controlo é externo.

O  que significa isso?
O locus de controlo é o lugar a partir do qual uma pessoa acredita que as suas ações são controladas. Se é externo, a pessoa acredita que a sua ação é condicionada pelo ambiente, pela sociedade, pelos outros. Se é interno, a pessoa sente que tem controlo (capacidade de inibir, moderar, tomar a iniciativa, planear, etc) sobre as suas ações, pelo que age em consciência e de forma responsável.

Existe a ideia de que os cérebros das crianças devem ser estimulados e “trabalhados” desde cedo, sob pena de se fechar a “janela de oportunidade”. É especialmente crítica desta teoria. Porquê?
Não é uma opinião. A ideia de que é preciso enriquecer o ambiente durante os primeiros anos de vida para não perder a oportunidade de aprendizagem é um neuromito. Um neuromito é uma má interpretação da literatura em neurociência. Há períodos críticos (janelas de oportunidade irrepetíveis) para o desenvolvimento, mas não para a aprendizagem. Mais nem sempre é sinónimo de melhor. A aprendizagem é um processo lento que deve acontecer ao ritmo da criança. Estudos sobre apego indicam que as crianças não precisam de um bombardeamento sensorial, mas sim de interação de qualidade com o seu cuidador principal.

Outro conceito que não lhe é propriamente caro é o que se refere a esta geração como “nativa digital”. Acredita que existe um “plano” por trás disto? Que as empresas tecnológicas, por um lado, constroem os produtos de forma a serem facilmente utilizados pelas crianças; e por outro plantam na mente dos pais a ideia de que a capacidade de manusear a tecnologia é não só uma prova de inteligência dos filhos mas também uma ferramenta capaz de aumentar ainda mais essa inteligência?
O nativo digital é definido como aquele que, nascendo na era digital, está habituado a receber e a processar informações de uma forma que alguém que nasceu antes dessa época (o chamado Imigrante Digital) não consegue. De acordo com essa “hipótese”, os nativos digitais terão vantagens cognitivas que afetarão positivamente a sua aprendizagem, em relação à da geração que os precede, como por exemplo no que diz respeito à multitarefa tecnológica. Apesar da popularidade desta ideia, os estudos dizem que o conceito de nativo digital é sobrevalorizado. Embora demonstrem grande familiaridade e agilidade técnica com a tecnologia, os jovens também dependem demasiado dos motores de busca e não têm competências críticas e analíticas para perceberem o valor e a originalidade da informação que existe na rede. Concluindo: os estudos dizem que a chamada “Geração do Google” não tem o nível de alfabetização digital que lhe tem sido atribuído e que ao próprio conceito falta uma base científica. A crença de que uma pessoa nascida na era tecnológica tem mais habilidades cognitivas para o uso da tecnologia é um mito. E a multitarefa tecnológica também. Se o teu filho aprende a usar um smartphone em minutos não é porque é um génio, mas porque o engenheiro que o desenhou é muito inteligente.

O que é isso da multitarefa tecnológica?
É o ato de fazer muitas coisas que requerem o processamento de informação no âmbito tecnológico ao mesmo tempo. É um mito, a neurociência garante que não podemos realizar em simultâneo várias tarefas que requeiram o processamento de informação. Quando tentamos fazê-lo, o que acontece é que desempenhamos essas tarefas em paralelo e vamos oscilando entre todas elas.

Existem ou não diferenças cerebrais entre as crianças de hoje, que têm toda a informação do mundo à distância de um clique, e os dos seus pais, que quando queriam saber alguma coisa tinham de se dedicar e procurar em livros ou enciclopédias?  
As crianças de hoje aprendem da mesma forma que as de antigamente. Há permanências antropológicas. As previsões alarmistas de que a tecnologia estaria a reestruturar os nossos cérebros (“rewiring our brains”, em inglês) também não têm fundamento científico. Ainda assim, tal como avisa o Conselho Inter-Americano para o Desenvolvimento Integral, a plasticidade tem os seus limites, pelo que a tensão a que uma pessoa está sujeita só é possível dentro de alguns limites, para além dos quais os estímulos podem provocar alterações capazes de comprometer a sua integridade e, consequentemente, a sua aprendizagem. Isto é confirmado pelas evidências que relacionam a multitarefa tecnológica com a diminuição das funções executivas (atenção, capacidade para inibir estímulos externos, etc.). E também pelas evidências que relacionam hiper-estimulação e desatenção. Nas crianças estes efeitos são mais agudos, porque estão num período crítico de desenvolvimento.

Centremo-nos nas crianças entre os 6 e os 12. Há boa e má tecnologia? Que regras ou limites aconselharia nestas idades?
A tecnologia tem de adaptar-se ao ritmo interno da criança, não pode substituir as relações interpessoais reais e não deve veicular conteúdos violentos ou inadequados. A criança tem de desenvolver os seus sentidos de intimidade, privacidade, força, moderação e relevância e a sua capacidade de inibição antes de entrar no mundo virtual. Não é possível desenvolver a noção de intimidade nas redes, por exemplo. A melhor preparação para o mundo online é o mundo offline.

Bem sei que o ideal seria que os consumos fossem sempre acompanhados ou pelo menos supervisionados pelos pais, mas com as vidas atuais isso é praticamente impossível. Que estratégias aconselha a pais e educadores?
Os ecrãs são as amas do século XXI. Temos de oferecer alternativas de qualidade aos nossos filhos: música, desporto, amizades, brincadeiras, natureza, etc. Acreditamos mesmo que estes dispositivos lhes melhoram a qualidade de vida? Nunca houve tantas adições tecnológicas, tanto consumo de pornografia na infância. Tudo na sua medida e no seu devido tempo. Quando atrasamos o uso do smartphone, damos-lhes o luxo das interações pessoais e a oportunidade de fortalecerem qualidades que mais tarde lhes permitirão utilizar estes dispositivos de forma responsável. Um smartphone é um luxo. Por que motivo havemos de lhes comprar luxos?

Caso já tenham comprado esse “luxo”, como podem os pais limitar ou supervisionar o seu uso?  
Não há problema nenhum em atrasar a idade de uso. Eles vão dizer que toda a gente tem e que vão ficar de fora de tudo. Primeiro, é preciso ajudá-los a perceber as estatísticas, nem sempre é garantido que todos têm mesmo. Depois, mesmo que muitos tenham de facto, isso não é um argumento educativo. Muitas crianças consomem pornografia e embebedam-se e isso não é uma justificação para permitir que os seus filhos o façam.

Tem quatro filhos. É essa a estratégia que usa com eles, em casa?
Não sou uma mãe perfeita, pelo que aquilo que fazemos não é “a” solução. Cada família é um mundo e cada pai e mãe é no limite responsável pelas suas decisões. Em nossa casa há uma televisão que só serve para ver filmes selecionados. Temos dois computadores que são usados em espaços de passagem, para o meu trabalho e para o do meu marido. Os nossos filhos não têm videojogos, nem tablets, e só temos um telemóvel familiar — que só dá para fazer chamadas, não tem Internet –, que utilizam quando necessitam. Mas damos-lhes mil alternativas aos ecrãs: passeios, pesca, desporto, música, viagens, natureza, conversas, leitura, etc. Não podemos proibir só por proibir. Temos de dar-lhes alternativas de qualidade.

Há cada vez mais escolas a apostar no uso das tecnologias para ensinar. Paradoxalmente, diz que Steve Jobs, tal como a maioria dos executivos de Silicon Valley, põem os filhos em escolas tradicionais. É mesmo assim? Por que acha que isto acontece?
Os CEOs das empresas tecnológicas de Silicon Valley vendem tablets às escolas públicas da zona, mas têm os filhos em colégios privados que não os utilizam. Eles sabem que não existem estudos que apoiem o uso da tecnologia em sala de aula. Aliás, sabem que o que há são estudos que dizem o contrário. O tablet é parte de uma estratégia de marketing educativo. A novidade é um conceito essencialmente comercial, não educativo.

O que dizem exatamente esses estudos que vão contra o uso de tablets na escola?
Essa pergunta é demasiado complexa para ser respondida assim. Aquilo que posso afirmar é que não existe atualmente um conjunto de estudos que apoiem o uso de tablets na sala de aula. Não há um conjunto de estudos que estabeleça um benefício entre o uso de tablets e uma melhoria no desempenho académico e nas oportunidades de emprego.

Tempos de atenção cada vez mais curtos, dificuldades de concentração, incapacidade de desenvolvimento de pensamento lógico. Diria que estas expressões descrevem de algum modo a geração adolescente atual? Que papel desempenham as novas tecnologias neste quadro?
Como diz [a romancista americana] Meg Wolitzer, esta é a geração que tem manteiga mas não tem pão. A quem falta o contexto que dá sentido às aprendizagens. O contexto não se encontra na Internet, mas no mundo real. O professor é fundamental, precisamente porque dá esse contexto, torna a aprendizagem “significativa”. Por mais sofisticados que sejam os algoritmos, a educação será sempre uma questão profundamente humana e não tecnológica.

Fala-se muito em dependência e adição às novas tecnologias. Há idades mais permeáveis a isto, no que respeita às fases de desenvolvimento cerebral ou comportamental? A que sinais de alerta devem os pais estar atentos?
Muitas dessas tecnologias estão desenhadas para criarem adição. Quem trabalha nas empresas que as fabricam admite isso mesmo. Não existem estratégias para mitigar esses efeitos em mentes imaturas. Se nos custa a nós, que somos adultos, como é que não vai custar-lhes a eles? Quando uma criança mente para poder consumir tecnologia, está viciada. Mas quando isso acontece, já é um pouco tarde para fazer marcha-atrás. Eu defendo a prevenção: atrasar a idade de uso.

Crianças estão com dificuldades para segurar lápis devido ao uso excessivo de aparelhos eletrônicos, alertam especialistas

Julho 23, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia da Revista Crescer Globo de 7 de março de 2018.

Para contornar o problema, pais, professores e cuidadores devem promover mais atividades manuais dentro e fora de casa

Por Crescer online

Patrick, 6 anos, está há seis meses fazendo sessões semanais com uma terapeuta ocupacional para desenvolver a força necessária em seu dedo indicador e conseguir segurar corretamente o lápis. A mãe do garoto, Laura, culpa a si mesma pela situação. “Olhando para trás, vejo que dei muitos itens tecnológicos para Patrick brincar, excluindo os brinquedos mais tradicionais. Quando ele entrou na escola, os professores me chamaram e mostraram preocupação: ele segurava o lápis como um homem das cavernas. Ele simplesmente não conseguia segurar de outra maneira e, consequentemente, não conseguia aprender a escrever porque ele não consegue manejar o lápis com precisão”, disse a mãe em entrevista ao jornal The Guardian.

Ainda que a situação de Patrick cause estranheza, ela não é tão incomum. De acordo com médicos ingleses, cada vez mais, as crianças estão com dificuldades em segurar lápis e canetas devido ao uso excessivo de tecnologia. Tablets e smartphones, especialmente os sensíveis ao toque, quando utilizados exageradamente podem fazer com que os músculos dos dedos das crianças não se desenvolvam o suficiente para permitir que os pequenos segurem um lápis corretamente.

“As crianças não estão entrando na escola com a força da mão e a destreza que tinham há 10 anos. Para poder segurar um lápis e movê-lo corretamente é necessário um forte controle sobre os movimentos finos dos dedos. As crianças precisam de muitas oportunidades para desenvolver essas habilidades”, explica a terapeuta ocupacional pediátrica Sally Payne, da Heart of England foundation NHS Trust. Fica a dica.

Caligrafia

Segundo a terapeuta ocupacional pediátrica Melissa Prunty, especializada na dificuldade de caligrafia infantil, um número crescente de crianças está desenvolvendo a caligrafia tardiamente. O motivo também seria o uso excessivo de tablets e smartphones.

Para contornar o problema, as especialistas recomendam que as crianças façam mais atividades manuais, como recortar, rabiscar, colar, brincar com blocos, entre outros.

Uso de telas

A Academia Americana de Pediatria libera o uso de telas (que também inclui TV) para crianças maiores de 1 ano e meio, porém, até os 5 anos, o tempo de exposição não deve ser maior do que duas horas por dia. O ideal é que esse período seja intercalado com outras atividades, como leitura, brincadeiras e atividades ao ar livre.

Além de prejudicar a caligrafia, o uso excessivo de tecnologia pode trazer outros problemas, como dores musculares, nas articulações, má postura, dores de cabeça, alteração visual e do sono. As crianças ainda podem apresentar sintomas de ansiedade, irritabilidade, agressividade, queda no desempenho escolar e isolamento. Portanto, vale ficar de olho e usar tais aparelhos com bom senso.

Mais informações na notícia do The Guardian:

Children struggle to hold pencils due to too much tech, doctors say

E se os telemóveis fossem proibidos nas escolas?

Julho 19, 2019 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia da Visão de 28 de junho de 2019.

O ano passado, França proibiu o telemóvel nas escolas públicas. Agora, o estado de Victoria, na Austrália, decidiu fazer o mesmo. Em Portugal, várias instituições de ensino já adotaram regras semelhantes, mas também há escolas onde é utilizado para auxiliar a aprendizagem. Afinal, qual é a melhor opção?

Os estudantes de escolas públicas básicas e secundárias do estado australiano de Victoria vão ser proibidos de usar o telemóvel dentro dos estabelecimentos de ensino a partir de 2020. A medida foi implementada pelo ministro da educação James Merlino, numa tentativa de melhorar os resultados escolares, reduzindo as distrações e o ciberbullying.

Durante o período escolar, os estudantes devem desligar os telemóveis e colocá-los num cacifo, onde permanecerão até à hora de saída. Em caso de emergência, os pais devem passar a contactar a escola diretamente.

As únicas exceções à regra vão dar-se no caso de alunos que precisem do smartphone para monitorizar algum aspeto da sua saúde, ou quando algum professor quiser fazer uma atividade que requeira o uso do dispositivo.

A medida surgiu graças aos resultados observados na McKinnon Secondary College, que foi a primeira escola pública do estado a banir o uso de telemóvel e a reportar uma melhoria da concentração em sala de aula e da comunicação no recreio, por parte dos alunos. O parlamento francês já havia tomado a mesma decisão, em julho do ano passado.

Um estudo realizado pela Universidade de Chicago concluiu que a simples presença do telemóvel, mesmo quando não o estamos a utilizar, reduz a nossa capacidade de concentração. Os smartphones incentivam a conexão constante com outros, com entretenimento ou informação, pelo que é muito difícil “desligar”.

Essa é uma das razões pelas quais várias escolas proibiram a sua utilização. É o caso da Escola Básica António Alves Amorim, em Santa Maria da Feira, onde os telemóveis são recolhidos pelo professor, logo de manhã, e devolvidos no final do dia.

Contudo, os telemóveis não são completamente proibidos em contexto de sala de aula. Tal como acontecerá no estado australiano de Victoria, um professor pode decidir permitir o uso dos telemóveis para fins pedagógicos.

Jorge Ascenção, presidente da Confederação Nacional de Associações de Pais (CONFAP), concorda que os dispositivos de comunicação possam ser autorizados “dentro da sala para auxiliar as aprendizagens”.

No entanto, é fundamental que “haja liderança, para eles poderem ser utilizados com regras”. Na escola de Lourosa, antes da proibição, os alunos filmavam as aulas ou uns aos outros nos balneários. Esses vídeos eram depois publicados nas redes sociais, originando casos de ciberbullying e problemas disciplinares.

Para Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos Escolas Públicas, a melhor solução para o ciberbullying é educar os alunos para o problema, porque “não é só nas escolas, é um fenómeno global”. Na sua opinião, “a escola pública faz isso bastante bem”, convidando a Escola Segura para dar formação aos alunos sobre o tema. “A escola pública está muito preocupada com esse fenómeno e faz o seu trabalho”, afirma.

Existe ainda o problema da falta de socialização entre as crianças, que passam muito tempo no telemóvel durante o intervalo em vez de brincarem ou conviverem, atividades fundamentais para o seu desenvolvimento. Nesse caso, “faz sentido limitar o uso do telemóvel no recreio”, afirma o presidente da CONFAP. No entanto, “é preciso explorar isso de forma pedagógica”, “explicando [às crianças] as razões e as vantagens que eles próprios terão”. Até porque, recorda Filinto Lima, os problemas de socialização também acontecem em contexto familiar.

“Dar um celular para uma criança de 5 anos é um crime”

Julho 18, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia e imagem do Época Negócios de 31 de agosto de 2018.

Sharon Thomas, psicóloga especializada em educação, defende que pais e escolas têm o dever de estabelecer limites aos filhos no uso da tecnologia.

Saber escolher a idade e o momento para dar um celular ao filho envolve analisar duas questões. É preciso, previamente, saber qual função o aparelho desempenhará na vida da criança. Em paralelo, exige analisar o comportamento do filho e seu entendimento sobre limitações e privações.

Este é o conselho de Sharon Thomas, psicóloga especializada em educação com formação na Georgetown University, na Universidade de Londres e no Hunter College. Nascida no Brasil, mas vivendo nos Estados Unidos desde os 11 anos, Sharon fundou em Nova York o Centro de Educação e Recursos MAIA. Seu trabalho é orientar pais, escolas e professores sobre desenvolvimento acadêmico, déficits de aprendizado e, entre outros fatores, analisar a efetividade da tecnologia dentro e fora da sala da aula.

“Hoje, o celular virou um bem que as pessoas acham que devem ter porque todo mundo tem”, afirma Sharon em entrevista à Época NEGÓCIOS. “Muitos pais me falam: ‘Minha filha tem 5 anos, a amiguinha tem um celular já e ela quer também’, mas eu acho um crime dar um celular para uma criança de 5 anos. Nesta idade, ela não desenvolveu as habilidades básicas.”

As habilidades às quais Sharon refere-se são denominadas nos Estados Unidos como function executives. “Parece papo de CEO, mas a metodologia das escolas americanas é estruturada com base em funções desenvolvidas no lobo dos cérebros e são essenciais para tudo que fazemos em nossas vidas”, afirma. Entre essas funções executivas, estão a capacidade de planejamento, estabelecimento de metas no longo prazo, iniciativa para tomada de decisões e flexibilidade comportamental.

“Nos EUA, as escolas tentam entender como a tecnologia está afetando ou beneficiando o desenvolvimento dessas funções executivas. Às vezes, uma nova tecnologia entrega um aprendizado tão rápido, que dificulta que as pessoas foquem, absorvam e se aprofundarem no conhecimento. Parece que virou tudo bullet point”, diz.

As funções executivas, segundo Sharon, demoram de 25 a 32 anos para serem desenvolvidas por completo – por esta razão, diz a especialista, “seria irrealístico esperar que crianças e jovens consigam se automonitorar e impor os limites sobre o uso da tecnologia”. No caso da criança de cinco anos, um celular não teria a função prática (“uma criança nesta idade não fica sem supervisão”) e poderia expô-la a situações inseguras (“com quem ela vai começar a conversar?”). “A idade certa para dar um celular varia de pessoa para pessoa, mas é preciso entender o motivo dele ser necessário. Eu não daria para um adolescente só ‘porque todo mundo tem’. A função dos pais também é saber dizer não”, diz.

Sharon defende que é preciso celebrar os benefícios que a tecnologia proporciona, em termos de conhecimento e comunicação, mas é preciso monitorá-la para não criar vícios, desânimo e até comprometer o desenvolvimento dos filhos. “Muitos pais me procuram dizendo que seus filhos estão desanimados e indo mal na escola. Vamos analisar a rotina deles e vemos que eles passam grande parte do dia no quarto conectados, socializando com várias pessoas e, depois de várias horas, ficam exausto e ‘sem tempo'”.

Sharon recomenda que os pais mostrem aos filhos os benefícios da internet e as limitações do mundo virtual. “A vida online só aponta para tudo que é maravilhoso em geral. E, no caso de uma adolescente que está lutando para criar uma identidade diferente das dos pais, seu uso excessivo pode se tornar uma pressão e virar até bullying”, diz.

Um outro aspecto a trabalhar nesta relação, segundo Sharon, é dar o exemplo. “Uma das coisas ruins que a tecnologia trouxe para os adultos foi esse fácil acesso a todos o tempo todo. Eles se sentem impelidos a responder rapidamente a todos. E aí ocorre que ficamos o tempo todo online. Mas precisamos criar limites para nós mesmos. Do contrário, os filhos vão falar: você não quer que eu use o iPad, mas olha você conectado o tempo todo”, diz.

Do lado das escolas, Sharon diz que as instituições possuem a responsabilidade de entender se a tecnologia levada para a sala de aula está, de fato, ajudando no desenvolvimento dos alunos. E fazer intervenções, para garantir que não está desenvolvendo um aprendizado mais profundo e eficaz. É uma missão difícil, diz, porque o que vende hoje no mundo da educação é “tecnologia” e qualquer escola nova irá ser construída em torno de alguma novidade de mercado. “Vemos muitas escolas enchendo salas de iPads e novas ferramentas tecnológicas, mas sabemos que o nosso aprendizado não depende apenas de conseguirmos uma informação. Mas, de como sabemos usar essa informação de forma relevante.”

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