Trabalho de casa ou trabalho em casa

Maio 27, 2018 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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AFP/ Getty Images

Texto de opinião de José Morgado publicado na Visão de 8 de maio de 2018.

Creio que deve distinguir-se com clareza o Trabalho Para Casa e o Trabalho Em Casa. O TPC é trabalho da escola feito em casa, o trabalho em casa será o que as crianças podem fazer em casa que, não sendo tarefas de natureza escolar, pode ser um bom contributo para as aprendizagens dos miúdos

Desde há muito que o recurso ao trabalho escolar em casa prescrito pelos docentes (TPC) é objecto de estudo e reflexão.

Algumas notas a partir de algumas ideias já partilhadas no meu blogue.

Talvez fruto do clima de fortíssima crispação que nos últimos anos envolve a educação, os debates e as ideias também são quase sempre crispados, com opiniões definitivas e sem aparente margem de entendimento, o que inclui a discussão sobre os TPC, ou se é contra ou a favor.

Não tendo uma visão fundamentalista julgo que no contexto actual de funcionamento das escolas, tempos e estilos de vida de crianças e famílias, a discussão é pertinente como pertinentes me parecem algumas alterações sobretudo no que respeita à situação dos alunos mais novos. Se considerarmos a idade, os tempos escolares e a autonomia a reflexão sobre TPC no ensino secundário tem, evidentemente, contornos bem diferentes.

Parece interessante recordar um trabalho da OCDE, “Does homework perpetuate inequities in education?” produzido com base em dados recolhidos no âmbito do PISA nos anos de 2003 e 2012 os alunos portugueses de 15 anos, dados de 2012, gastam em média 4h semanais na realização de trabalhos de casa, menos uma hora que em 2003 e menos uma hora que a média dos 38 casos estudados pela OCDE.

Do meu ponto de vista, os dados mais relevantes deste relatório remetiam para o facto de que os alunos com famílias de meios sociais e económicos mais favorecidos gastarem mais 2 horas em trabalhos de casa que os seus colegas com famílias de estatuto mais baixo o que, sublinha a OCDE, poderá alimentar a falta de equidade.

Aliás, neste relatório da OCDE também se conclui que não há uma relação significativa entre o número médio de horas gastas nos TPC e os resultados escolares.

Citando o relatório, “But PISA also finds that the average number of hours that students spend on homework or other study set by teachers tends to be unrelated to the school system’s overall performance. This implies that other factors, such as the quality of instruction and how schools are organised, have a greater impact on a school system’s overall performance.”

Neste contexto, parece-me pertinente recuperar que o nível de escolaridade dos pais é um fortíssimo preditor do sucesso escolar dos filhos. Um recente trabalho da responsabilidade conjunta da Fundação Francisco Manuel dos Santos e do CNE (Conselho Nacional de Educação) mostrou que nove em cada dez alunos com insucesso escolar são de famílias de nível socioeconómico mais baixo.

Estes dados sustentam o entendimento de que os trabalhos de casa correm o sério risco de alimentar desigualdade de oportunidades e obriga-nos a reflectir sobre a sua utilização.

Parece-me também importante o facto de que no nosso sistema educativo os alunos do 1º, 2º e 3º ciclo podem passar 8 ou 10 horas diárias na escola considerando o tempo lectivo, as Actividades de Enriquecimento Curricular e a Componente de Apoio à família, (no limite algumas crianças poderão estar 55 horas semanais na escola, uma enormidade). Este tempo de permanência na escola é um dos mais longos dos países da OCDE.

Acresce que em muitas circunstâncias, muitos alunos têm ainda Trabalhos Para Casa que, com demasiada frequência, são a continuação ou a réplica de trabalhos escolares, ou seja, mais do mesmo.

Não tenho uma posição fechada, insisto, mas creio que deve distinguir-se com clareza o Trabalho Para Casa e o Trabalho Em Casa. O TPC é trabalho da escola feito em casa, o trabalho em casa será o que as crianças podem fazer em casa que, não sendo tarefas de natureza escolar, pode ser um bom contributo para as aprendizagens dos miúdos. O que acontece mais frequentemente é termos Trabalhos Para Casa e não Trabalho Em Casa.

Os TPC clássicos têm ainda o problema de colocar com frequência os pais em situações embaraçosas, querem ajudar os filhos mas não possuem habilitações para tal.

A este propósito, um episódio pessoal que muitas vezes partilho, numa reunião de pais em que participava e se discutia esta questão, dizia uma mãe, “O senhor, da maneira que fala se calhar é capaz de ajudar o seu filho, mas na minha casa chora a minha filha e choro eu. Ela porque quer ajuda e eu porque não sou capaz de lha dar”. Colocar os pais nesta posição parece-me no mínimo discutível.

Sim, será apenas uma situação, não se trata da floresta mas dá que pensar.

Torna-se, pois, necessário que professores e escolas se entendam sobre esta matéria, diferenciando trabalho de casa, igual ao da escola, de trabalho em casa, trabalho em que qualquer pai pode, deve, envolver-se e é útil ao trabalho que se realiza na escola.

Tudo isto considerado, o recurso ao TPC deveria ponderar se o aluno, cada aluno, tem capacidade e competência para o realizar autonomamente, por exemplo, o treino de competências adquiridas. Na verdade, não é muito provável que uma criança que tem dificuldade em realizar os seus trabalhos na sala de aula, onde poderá ter apoio de professores e colegas, seja capaz de os realizar sozinha em casa. Tal só acontecerá com a ajuda dos pais ou, eventualmente, de “explicadores” a que muitas famílias, sabemos quais, não conseguem aceder.

No entanto e do meu ponto de vista, sobretudo nas idades mais baixas, o bom trabalho na escola deveria dispensar o TPC ou recorrer a um tempo de trabalho muito curto. É uma questão de saúde e qualidade de vida.

É ainda de sublinhar e os estudos sugerem que é sobretudo a qualidade do trabalho em sala de aula, os recursos e dispositivos de apoio que mais do que o tempo global de trabalho se associam ao sucesso na aprendizagem.

Andaríamos melhor se reflectíssemos sem preconceitos e juízos fechados sobre questões desta natureza. Não é uma questão de ser a favor ou contra os TPC, é reflectir sobre o que são, como se utilizam, que efeitos têm na generalidade dos alunos, como se adaptam às circunstâncias e diferenças de contexto dos alunos como idade/ciclo de escolaridade, nível de escolarização da família, entre outras questões.

(Texto escrito de acordo com a antiga ortografia)

 

Doutorado em Estudos da Criança. Professor no Departamento de Psicologia da Educação do ISPA – Instituto Universitário. Membro do Centro de Investigação em Educação do ISPA – Instituto Universitário. Colaborador e consultor regular de Programas de Formação de Professores e de Projectos de Investigação e Intervenção. Colaborador regular em Programas de Orientação Educativa para Pais. Autor de diversas publicações nas áreas da qualidade e educação inclusiva, diferenciação pedagógica, etc.

Blogue – http://atentainquietude.blogspot.com

 

 

 

 

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O TPC faz bem aos alunos?

Maio 14, 2018 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Texto do Observador de 29 de abril de 2018.

Alexandre Homem Cristo

Os trabalhos para casa ajudam a melhorar os desempenhos escolares? Ou obrigam os alunos a trabalhar demasiadas horas e provocam stress desnecessário? Os números e conclusões de Alexandre Homem Cristo.

Os Ensaios do Observador juntam artigos de análise sobre as áreas mais importantes da sociedade portuguesa. O objetivo é debater — com factos e com números e sem complexos — qual a melhor forma de resolver alguns dos problemas que ameaçam o nosso desenvolvimento.

O trabalho para casa (TPC) faz parte do quotidiano dos alunos – e, porque é geralmente feito em casa, das famílias. “Já fizeste os TPC?” deve ser uma das perguntas mais repetidas nos serões das residências portuguesas. Até aqui, nada de novo. Toda a vida existiram TPC e em todo o mundo são aplicados pelos professores – e mesmo entre os professores houve sempre uns que os usaram mais do que outros. Contudo, nunca como hoje se ouviram tantos a questionar a sua utilidade. Seja entre pais que discordam da sobrecarga de horas de trabalho, em particular no caso de alunos que tenham actividades fora da escola. Seja entre professores que optam por não atribuir TPC aos seus alunos e preferem gerir a qualidade do estudo dentro da sala de aula. Seja entre médicos, nomeadamente psicólogos e pediatras, que salientam os efeitos nefastos do TPC no desenvolvimento cognitivo das crianças. Seja, por fim, entre políticos que vêem nos TPC um factor de promoção de desigualdades – isto porque nem todos os alunos têm boas condições de estudo em casa.

As críticas são geralmente ruidosas, mas há também o outro lado da moeda: não faltam vozes a defender que os TPC são necessários e eficazes, ou mesmo característicos de sistemas educativos competitivos e que formam bem os seus alunos. Exemplo: argumentam os seus defensores que os TPC ajudam a melhorar os desempenhos escolares. Mas não só: que servem também para desenvolver maior autonomia e responsabilidade nos alunos, assim como mantê-los focados e motivados em relação à escola.

Com dois lados em oposição, montou-se um debate fraturante em que se disparam discordâncias e em que não faltam opiniões. Mas e certezas? Ora, no meio de tudo isto, certezas há poucas. É que, afinal, sem olhar às evidências e aos indicadores sobre a realidade dos TPC, a pergunta fundamental permanece sem uma resposta satisfatória: os TPC são benéficos para os alunos? É a essa pergunta que este ensaio visa dar resposta. Isto é, dar várias respostas, porque a pergunta comporta várias dimensões – sobrecarga de tempo, desempenhos escolares e competências pessoais. E, no final, quase todas vão dar à mesma conclusão: sim, o TPC pode ser benéfico, mas torna-se prejudicial quando se acumulam várias horas diárias ou semanais.

1. Quantas horas estudam os alunos? Muitas

Um dos pontos-chave do debate sobre os TPC está no tempo que os alunos dedicam ao estudo em casa, que se soma ao tempo que já passaram nas aulas da escola. Será que, no total, os alunos passam demasiadas horas semanais a estudar/trabalhar, tempo esse que (em parte) poderiam investir noutras actividades (também importantes para o seu desenvolvimento)? Enquanto uns acham que sim e outros acham que não, não há nada como ir espreitar os números.

Horas de estudo por semana 

gráficos no link:

https://infogram.com/ahc-ensaio_tpc-01_03-1hxj48ro9vk56vg

Usando como referência os dados do PISA 2015 da OCDE, observamos que os alunos portugueses investem, em média, 17 horas semanais a estudar fora da escola (o que inclui TPC, explicações e estudo autónomo). No contexto europeu, isto coloca Portugal a meio da tabela – uma metade dos países da UE apresenta um valor mais elevado, a outra metade tem valores mais baixos (gráfico 1). Na Grécia e em Itália, os alunos investem 21 horas semanais em estudo fora da escola. Na Alemanha e na Finlândia, o tempo de estudo semanal fica entre 11 e 12 horas. A esmagadora maioria dos países posiciona-se entre as 15 e as 18 horas semanais. Ou seja, nesta perspectiva comparada, aparentemente tudo está normal em Portugal. Quer isto dizer que o debate está encerrado e que os alunos portugueses estão numa posição de equilíbrio em relação aos seus parceiros europeus? Não – falta olhar para o resto da fotografia.

O cenário muda de figura se olharmos ao tempo total de aprendizagem (gráfico 2). Isto é, se somarmos o tempo de estudo em casa ao tempo já despendido em aulas na escola (ou seja, “estudo em casa” + “aulas na escola”). Ora, sendo Portugal um dos países onde mais tempo se passa nas aulas, o tempo total de trabalho dos alunos portugueses ascende aos mais elevados da UE: 45 horas semanais, só superado por Dinamarca (46), Polónia (46), Espanha (47), Grécia (48) e Itália (50). O número impressiona, sobretudo porque está em causa uma duração superior à estabelecida no código de trabalho (as 40 horas semanais). Mas o que é realmente relevante para o debate não é tanto esse indicador – só três países não alcançam um total superior a 40 horas – mas o facto de Portugal estar nos lugares cimeiros entre os países europeus. Na prática, isto significa que os jovens portugueses têm 57% do tempo disponível nos dias úteis (excluindo as regulamentares 8 horas de sono) dedicado ao estudo. Um valor muito longe da Finlândia (45%) ou da Alemanha (46%), acima do de França (53%), Reino Unido (54%) e Irlanda (55%), e só superado por alguns, nomeadamente pelos países do sul europeu – Espanha (58%), Grécia (60%) e Itália (62%) (gráfico 3). Desconte-se agora mentalmente a duração dos trajectos casa-escola-casa e das refeições para se ficar com uma ideia clara de como a escola e o estudo preenchem a vida dos jovens um pouco por toda a Europa, estando Portugal no pelotão da frente.

2. O TPC ajuda a melhorar os desempenhos escolares? Sim, mas…

Os números mostram que os jovens passam muito tempo a estudar, seja na escola ou fora dela. A questão que se coloca é se esse tempo é bem investido. Dito de outro modo: será que os TPC ajudam a melhorar os desempenhos escolares? A resposta tem muitas áreas cinzentas, já que a investigação aponta geralmente em sentidos contraditórios. Por um lado, sim, as horas de estudo tendem a ter um efeito positivo nos desempenhos. Por outro lado, não, porque os efeitos no ensino básico são residuais e ainda porque, mesmo no secundário, muitas horas de estudo não produzem aumentos contínuos nos desempenhos. E depois há que filtrar estes resultados em função de outros factores, tais como a quantidade de TPC ou o perfil social dos alunos. Parece complicado, mas não é – como abaixo se mostra.

Efeito do TPC nos resultados

gráfico no link:

https://infogram.com/ahc-ensaio_tpc-04_05-1h9j6qmpnke54gz

Sim: fazer os TPC compensa – mas só até um certo ponto. Os dados do PISA 2015 (gráfico 4) são particularmente interessantes, porque expõem com clareza esses efeitos para alunos de 15 anos. Por um lado, fica claro que dedicar algumas horas por semana aos TPC diminui acentuadamente a probabilidade de maus desempenhos. Ou seja, quem faz os TPC de forma regular tem maior probabilidade de subir os seus desempenhos. Por outro lado, há um ponto a partir do qual esse investimento nos TPC deixa de produzir o efeito desejado. Um aluno que dedique 6 horas semanais tem menos 66% de probabilidade de apresentar maus desempenhos escolares e um aluno que dedique 7 horas semanais tem menos 70% de probabilidade de ter maus desempenhos. Mas um aluno que dedique 8 horas semanais já vê essa probabilidade diminuir – 68%, ou seja menos do que um aluno que dedicou menos uma hora semanal ao TPC. O que é que isto significa? Simples: não vale a pena dedicar tempo excessivo aos TPC, pois estes, se levados a excessos, vão perdendo a sua eficácia.

Esta ideia acima é fundamental para o debate: não importa tanto discutir os TPC, mas sim o tempo despendido com os TPC, porque é na duração que se encontra a chave para determinar se os seus efeitos são positivos ou não.

Mantendo o foco da análise no PISA 2015, é possível constatar que, olhando aos desempenhos dos países a ciências e cruzando com o tempo de estudo fora da escola, há uma relação negativa: quanto mais tempo se estuda fora da escola, piores são os resultados (gráfico 5). Os dados devem ser lidos com prudência, na medida em que diz pouco comparar os resultados de países com pontos de partida tão distantes, como é o caso da Finlândia e da Turquia. Mas os dados sublinham algo que os indicadores já mencionados apontaram: a relação entre TPC e desempenhos escolares não é linear. Mais TPC não significa forçosamente melhores desempenhos.

Até aqui está tudo mais ou menos consensual, tendo em conta que o público-alvo da investigação do PISA 2015 são alunos de 15 anos. Mas a controvérsia do debate vai mais fundo, com três questões principais que correspondem àqueles detalhes que fazem toda a diferença. Primeira questão: os efeitos positivos verificam-se tanto no ensino secundário como no ensino básico? Segunda questão: como determinar a duração a partir da qual os TPC deixam de ser eficazes? Terceira questão: os TPC têm impacto igual em todos os alunos? Veja-se o que dizem os dados para cada uma das questões.

Ensino básico vs. Ensino secundário. Uma meta-análise da literatura académica apontou para diferenças nos efeitos do TPC nos desempenhos escolares dos alunos em termos de idade. Em resumo, os efeitos mais significativos observam-se nos alunos do ensino secundário (nomeadamente no 12.º ano), sendo os efeitos fracos (ou quase inexistentes) ao nível dos primeiros ciclos do ensino básico. Atenção, isto não significa que os TPC sejam inúteis nessas idades, mas sim que, com alunos mais jovens, é aconselhável que os professores não dêem TPC para além dos 10-15 minutos de duração. Por que razão os alunos mais jovens tiram menos proveito dos TPC? A investigação indica algumas respostas possíveis, das quais duas se destacam. Primeiro, do ponto de vista do desenvolvimento cognitivo, os mais jovens têm dificuldade em ignorar a informação que é irrelevante, dispersando-se mais facilmente – e, assim, extraindo menos ganhos para os seus desempenhos. Segundo, os mais jovens têm efectivamente menos hábitos de estudo, i.e. menos prática em estudar e sistematizar informação, factor que também diminui o seu ganho com os TPC.

Não existe uma duração semanal óptima e universal. Os dados da OCDE acima mencionados estabelecem como duração razoável cerca de uma hora por dia. Apesar de ser a duração mais commumente referida, esse valor não é inteiramente consensual e, sobretudo, não pode ser levado à letra. Por um lado, diversos estudos (mais antigos) sugerem que entre 1 e 2 horas por dia é equilibrado – para jovens no ensino secundário. Por outro lado, não são raros os investigadores que sugerem que 10 a 15 minutos por dia é suficiente, uma vez que o objectivo é consolidar conhecimentos adquiridos no dia de aulas na escola – uma espécie de recapitulação da matéria. O mais famoso entre esses investigadores talvez seja John Hattie, investigador que defende que não há efeito algum dos TPC ao nível do ensino básico. De resto, nunca é demais recordar que os alunos reagem de forma diferente aos TPC e que não existem soluções mágicas na educação. Como tal, converter uma duração média numa regra universal não é ajuizado: a média serve para enquadrar, mas cada aluno é um caso.

O historial da relação com a escola conta mais do que o perfil socioeconómico. Os dados da investigação apontam para disparidades sociais entre alunos em relação aos TPC. À partida, isto poderia significar que o perfil socioeconómico tem um impacto significativo no proveito que os alunos retiram dos TPC – o que em parte seria simples de explicar: nas famílias cujo perfil socioeconómico é mais baixo, observa-se em média menor valorização da escola e menor capacidade/interesse dos pais em ajudar os filhos. No entanto, um estudo da Universidade de Oviedo (Espanha) confirmou que, mais do que o perfil socioeconómico do aluno, o que realmente afecta a relação dos alunos com o TPC é o seu historial com a escola. Ou seja, alunos que tenham uma má relação com a sua escola são também os alunos que menos investem nos TPC. Naturalmente, estando o perfil socioeconómico associado aos desempenhos escolares, muitos dos alunos que demonstram essa má relação com a escola são também jovens oriundos de famílias com baixo perfil socioeconómico – daí estes dois factores muitas vezes se confundirem.

3. O TPC desenvolve outras competências ou causa stress? Ambos

O debate sobre os TPC vai muito para além dos desempenhos escolares e estende-se a questões de desenvolvimento cognitivo e de competências pessoais – organização, sentido de responsabilidade, autonomia. Um dos argumentos dos seus defensores é precisamente esse: os benefícios do TPC abrangem muitas áreas da formação pessoal dos alunos. Mas, quando os olhos vão para essas outras áreas, os críticos respondem: os TPC estão na origem de situações de stress que podem desencadear problemas de saúde. São convicções antagónicas e inconciliáveis? Nem por isso: tal como acontece em relação aos desempenhos escolares, a duração dos TPC é um dos factores-chave para determinar se os efeitos são positivos (competências) ou negativos (stress).

Comece-se pelo início: afinal, quando o enfoque sai dos desempenhos escolares, o que dizem os estudos sobre os TPC? Dizem que a resposta não é conclusiva em relação às suas vantagens ou desvantagens. De facto, alguns investigadores associaram aos TPC melhorias na autonomia e autodisciplina dos alunos, mas, no geral, esses estudos carecem de dados empíricos suficientemente sólidos para se retirar uma conclusão definitiva. É, aliás, essa a constatação mais frequente quando se mergulha no tema: faltam dados fidedignos acerca desses efeitos, até porque medir competências como a “autodisciplina” é difícil – e ainda mais difícil estabelecer uma relação causa-efeito entre a melhoria dessas competências e os TPC. Ou seja, a haver uma conclusão aqui, é a de que não é possível ter certezas sobre os efeitos benéficos dos TPC noutras dimensões que não a do desempenho escolar.

Dito isto, há algo acerca do qual existem menos dúvidas: levados a excessos, os TPC têm efeitos negativos no bem-estar físico e emocional dos alunos. Por exemplo, um estudo liderado por investigadores de Standford constatou que, em comunidades educativas altamente competitivas e onde os alunos estudam durante três ou mais horas diárias, os dados confirmam casos de stress, problemas físicos (insónias, dores de estômago, dores de cabeça) e desequilíbrios emocionais.

Quer isto dizer que os TPC causam stress? Nem por isso. O ponto fundamental para a leitura correcta destes dados é este: o problema não está tanto nos TPC mas sim na sobrecarga de trabalho sobre os alunos e na percepção de que não há margem para falhar – o que acontece nomeadamente nos sistemas educativos que têm avaliações de alto risco ou exames. Ou seja, por um lado, é incorrecta a simples associação dos TPC a problemas de saúde – tais efeitos negativos são consequência do excesso e não dos TPC que, em condições normais, não causam este desgaste físico e psicológico. Por outro lado, os efeitos da sobrecarga das responsabilidades escolares de um aluno (exames, TPC, aulas, actividades extracurriculares) na sua saúde é uma dimensão importante e que deve ser tida em conta por escolas, professores e demais agentes educativos.

4. Os TPC são um assunto de políticas públicas

O debate público sobre os TPC é geralmente composto por lamentos de pais e aconselhamento às famílias sobre como lidar com a rotina dos TPC em casa. No campo do debate político, observa-se sobretudo um braço-de-ferro entre críticos e defensores dos TPC, que por vezes resvala em propostas políticas controversas – tal como a de François Hollandeem 2012, então Presidente francês, quando sugeriu a proibição de TPC ao nível do ensino básico. É, portanto, um debate pobre. Mas é também um debate com o potencial de ser muito mais rico: conhecendo-se os dados da investigação (os efeitos do TPC nos desempenhos escolares nas diferentes idades/ alunos, as limitações dos estudos) estão reunidas as condições para olhar para o tema da perspectiva das políticas públicas e perceber o que se poderia fazer para melhorar. Abaixo vão dois exemplos de medidas educativas possíveis e já testadas.

Centros de estudo após a escola. Diz a literatura académica que o TPC feito em casa é geralmente mais eficaz para a melhoria dos desempenhos dos alunos do que aquele TPC que é feito em contexto escolar. Mas, no caso de jovens de famílias desfavorecidas, o caso muda de figura: como não têm apoio ou condições em casa, a possibilidade de fazer os TPC após as aulas, num ambiente adequado e por vezes com apoio é muito benéfica para esses alunos. Benéfica como? A literatura académica divide-se sobre a força dos efeitos, mas concorda que existem resultados positivos nos domínios sociais, no relacionamento com a escola e nos desempenhos escolares (mesmo que aqui esses efeitos sejam menores) (gráfico 6). Isto, importa recordar, quando a oferta está inserida na rede pública e é gratuita.

Melhorar com os TPC

gráfico no link:

https://infogram.com/copy-ahc-ensaio_tpc-04_05-1hmr6gy15e5z6nl

Inovação ao serviço dos professores. Poder-se-ia fazer uma lista interminável de recomendações aos professores na hora de designar os TPC dos seus alunos – atribuir TPC que estejam adequados aos conhecimentos dos alunos, ser claro quanto às expectativas acerca do TPC, manter uma boa comunicação com os pais, variar no tipo de TPC atribuído. Mas, mais interessante, é salientar que é possível formar os professores em relação a técnicas para lidar com os alunos e aumentar o seu compromisso com os TPC.

Sim, à partida, não parece nada óbvio: como é que um professor pode ter influência no completar dos TPC se não está em casa do aluno? Uma resposta possível (e inovadora) é esta: desenvolver a perseverança dos alunos na realização de tarefas repetitivas através dos exemplos de heróis de banda desenhada (o chamado “efeito Batman”). Um estudo experimental verificou que, se os alunos forem desafiados a colocarem-se na pele de um dos seus super-heróis preferidos, aguentam mais tempo a fazer tarefas repetitivas e aborrecidas (como consideram ser os TPC) – isto porque os super-heróis são exemplos de quem coloca o dever acima das tentações lúdicas. No caso deste estudo, uma parte da experiência consistiu em dividir os alunos entre aqueles que devem personificar um super-herói (Batman) e aqueles que não têm de o fazer (que servem de grupo de controlo) e, depois, em pedir aos alunos que passassem 10 minutos a repetir uma tarefa, podendo interrompê-la livremente quando quisessem para jogar videojogos. Os resultados mostraram que os miúdos (tanto os de 4 anos como os de 6 anos) que personificaram um super-herói aguentaram mais tempo do que os outros – e que, como tal, este tipo de técnica pode ser eficaz para promover maior perseverança dos alunos nas tarefas escolares (gráfico 7).

5. So what? Quatro ideias-chave e uma conclusão

Primeira ideia: há uma certa sobrecarga de trabalho sobre os alunos. Os alunos portugueses não têm mais TPC do que a média europeia, mas se se somar o tempo de aulas (escola) ao tempo de estudo (fora da escola) os alunos portugueses ficam entre aqueles que, na Europa, mais horas passam a “trabalhar”. Ou seja, os TPC não são um problema especificamente português, embora Portugal esteja entre os países onde os alunos mais tempo dedicam ao estudo (dentro e fora da escola).

Segunda ideia: os TPC ajudam a melhorar os desempenhos escolares no ensino secundário, desde que usados com moderação. Na prática, isto quer dizer que é mais eficaz estudar 1 hora por dia do que estudar 3 horas por dia. Isto, sublinhe-se, no ensino secundário – é que, no ensino básico, os indicadores não apontam com clareza para uma relação causa-efeito entre os TPC e a melhoria dos desempenhos. De resto, a melhoria nos desempenhos escolares não é universal, isto é não se aplica de igual modo sobre todos os alunos – os alunos que têm uma má relação com a escola (geralmente também têm baixo perfil socioeconómico) tendem a diminuir o seu compromisso com os TPC, tornando-os menos eficazes.

Terceira ideia: não há uma relação directa entre os TPC e o desenvolvimento de competências ou de stress. Estima-se que sim, poderá haver benefícios quanto à autonomia e responsabilidade dos alunos – mas são dimensões particularmente difíceis de medir com clareza. O que se sabe é que, quando os alunos são sujeitos a muita pressão e sobrecarga de trabalho, podem surgir consequências para a saúde – mas isso tem mais a ver com a sobrecarga do que com os TPC em si mesmos. Ou seja, o ponto aqui é de reforço aos pontos anteriores: TPC com moderação ajuda, de forma excessiva prejudica.

Quarta ideia: os TPC não são só um problema das famílias, são também um problema de políticas públicas. Há medidas para tornar os TPC mais eficazes, como dar condições na escola aos alunos que não as têm em casa, ou como formar professores para técnicas inovadoras para lidar com os alunos menos comprometidos com a escola. Ou seja, há instrumentos ao dispor dos decisores políticos e dos legisladores. É esse o debate que importa promover.

Conclusão. Os TPC têm vantagens e desvantagens, nada de surpreendente. Mas se a conclusão é essa, então a discussão deve ser sobre formas de beneficiar das vantagens e de limitar as desvantagens, procurando soluções de políticas públicas que resolvam problemas concretos ligados aos TPC nas escolas – por exemplo, oferecendo condições de estudo em contexto escolar aos alunos socialmente desfavorecidos. Canalizem-se, portanto, para aí as energias gastas no inútil debate do “é a favor ou contra os TPC?”.

Alexandre Homem Cristo foi Conselheiro Nacional de Educação e, entre 2012 e 2015, foi assessor parlamentar do CDS na Assembleia da República, no âmbito da Comissão de Educação, Ciência e Cultura. É autor do estudo “Escolas para o Século XXI”, publicado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, em 2013

 

TPC – Tempo para Cooperar – Palestra na Casa da Praia – 16 maio

Maio 7, 2018 às 9:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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mais informações:

https://www.facebook.com/events/209266519804183/

 

Os pais devem estudar com os filhos: sim ou não?

Abril 8, 2018 às 6:33 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Shutterstock

Texto do https://www.noticiasmagazine.pt/ de 2 de abril de 2018.

O terceiro período está a chegar e é decisivo para o sucesso escolar dos seus filhos. Ver o desastre iminente e não fazer nada é difícil, mas devem os pais ajudar os miúdos a fazer os trabalhos de casa e estudar com eles para os testes ou deixá-los por conta própria? A resposta pode resumir-se com um «no meio está a virtude», sendo certo que esse meio-termo nem sempre é fácil de encontrar.

Texto de Sofia Teixeira | Ilustração de Sérigio Condeço/WHO

Andreia Reis senta-se algumas vezes por semana ao lado de Tomás, de 6 anos, para supervisionar os trabalhos de casa. Tomás ainda tem poucos trabalhos e a mãe costuma deixar que ele escolha quando quer fazê-los, tentando apenas que não adie demasiado.

O pequeno é despachado e a mãe acompanha-o lendo o que é solicitado e pedindo uma correção aqui e outra ali, sobretudo para o incentivar a melhorar a letra. O filho entrou no primeiro ciclo e a única dificuldade que Andreia lhe deteta é a de conseguir ficar sentado.

«Sempre tive uma imagem muito idílica do início da escola, dele a fazer os trabalhos comigo ao pé e tudo a correr muito bem. Mas a verdade é que às vezes eu própria fico impaciente, porque ele está sempre a querer levantar-se, não se concentra, arranja mil e uma desculpas para dispersar a atenção.»

Até ver, e apesar da agitação na altura de fazer os trabalhos, o filho está a sair-se bem. A mãe gosta de puxar por ele de forma lúdica: «Sentamo-nos à mesa e leio um livro com ele, fazemos jogos de palavras, brincamos com os números, fazemos contas de cabeça. Acho que isso vale mais do que estar sentado a escrever “P” e “L” vezes sem conta.»

O apoio que é necessário ou desejável por parte dos pais no que respeita ao estudo tem uma relação direta com a idade e com a maturidade: a autonomia na realização de qualquer tarefa é um processo gradual que, de início, tem de ser ensinado e treinado.

«Tal como uma criança não aprende a arrumar o quarto se não for ensinada e ajudada, o mesmo acontece com o estudar», defende Magda Gomes Dias, formadora certificada na área da inteligência emocional, educação positiva e coaching e conhecida pelo blogue Mum’s the Boss.

«É natural que quando a criança começa a escola ainda não saiba como fazer isso, pelo que é importante ajuda, de forma a criar bases de estudo, organização e disciplina.» Ou seja: ajudar nos estudos faz sentido antes de lhes ensinarmos estas competências, mas também é importante perceber quando é altura de parar. «Quando as competências estão apreendidas, devemos assumir que é responsabilidade deles», explica a coach.

Como em quase todos os temas que envolvem a educação dos filhos, há alguns extremos. Num deles, os pais que chegam a casa e veem todos os dias com os miúdos o que eles deram na escola, vigiam os TPC, ajudam a fazer trabalhos que contam para a nota e estudam com eles para os testes.

A estes, há quem chame os pais-helicópteros, aqueles que estão sempre a girar em torno dos miúdos e que frequentemente, com a melhor das intenções, acabam por lhes comprometer a capacidade de ser autónomos.

Por outro lado, há os que se distanciam e declaram: «Eu já fiz a escola, agora esse é o teu trabalho, eu também tenho o meu.» E a estes há quem chame desleixados e os responsabilize pelo insucesso dos miúdos.

Como aconselha o bom senso, é no meio-termo que está a virtude: não é benéfico assumir as responsabilidades deles, mas é importante acompanhar, perceber as dificuldades e motivar.

«Todo o apoio deve ser pensado para não pecar por excesso, o que provoca um alhear dos alunos no processo porque há sempre alguém a ajudar, nem por défice, fazendo o estudante sentir-se desamparado», defende Renato Paiva, diretor da Clínica da Educação e da Academia de Alto Rendimento Escolar WOWSTUDY, autor de vários livros sobre o estudo dos mais novos. Ainda assim, o autor defende que estudar com eles ou ajudar a fazer os TPC, passada a fase de adaptação à escola, não é boa opção.

«Os pais podem ser um auxílio em alguma dúvida, dar orientação, mas nunca serem companheiro de estudo. O estudo é, e deve ser, um ato individual que depois se socorre de auxílios, como o livro, a calculadora, a internet ou os pais», defende o autor.

Não só porque é necessário fomentar desde cedo a autonomia no estudo, como por razões de ordem mais prática: «Os pais não sabem todas as matérias nem são capazes de acompanhar todos os anos. Além disso, não é só preciso saber da matéria, mas também saber explicar de forma correta.»

A segunda atitude, de «não querer saber», defende que já esbarra no desleixo, porque a autonomia é, antes de mais, dar condições para o desenvolvimento dessa mesma autonomia.

E isso passa pela necessidade inicial de algum apoio e, sobretudo, pelo interesse.
Marta Simões, mãe de Diogo, de 11 anos e Joana, de 9 anos, alinha neste equilíbrio. «Eles sabem que a responsabilidade é deles e a minha participação funciona como uma “supervisão”.»

Diogo e Joana fazem os TPC sozinhos, mas sabem que podem tirar dúvidas com a mãe, que está sempre por perto, e em relação ao estudo gostam apenas que a mãe lhes faça perguntas sobre a matéria. «Opto sempre por lhes pedir que estudem sossegados no quarto, e quando acharem que já estão preparados tiro uma hora para estar com eles a fazer perguntas.»

Até hoje tem dado bons resultados e funcionado bem, são os dois responsáveis e bons alunos. Marta está ciente que de futuro não vai poder tirar-lhes dúvidas nem estudar com eles, à medida que o nível de exigência for subindo, mas acredita que, até lá, conseguirão adquirir em pleno os métodos e os instrumentos necessários para a sua autonomia e, um dia, o papel dela vai acabar por passar para os colegas dos filhos.

Os pais mais zelosos estão a ser bem intencionados, mas nem sempre estão a seguir o melhor caminho. Fazer os resumos para os filhos, por exemplo, pode parecer uma ajuda, mas é na realidade complicar-lhes a vida, pelo menos a médio prazo.

«Entendo o objetivo – que é poupar algum trabalho aos filhos para eles poderem brincar ou fazer outras coisas –, mas é estar a tirar-lhes a melhor forma que têm de aprender: resumir é mais de cinquenta por cento da aprendizagem, se os pais assumem essa tarefa, estão a tirar à criança a capacidade de aprender por ela própria», explica Magda Gomes Dias, Maria João Tavares está familiarizada com essa teoria, mas não concorda com ela.

Perante a desmotivação da filha Estela, de 10 anos, que está numa fase em que acha a escola uma seca e não gosta de estudar, acaba por se sentar junto dela para a ajudar a fazer resumos, sobretudo ao fim de semana. «Os TPC faz sozinha, mas o estudo tenho sempre de acompanhar, não tem motivação para o fazer sozinha.»

Nunca equacionou deixar a filha por sua própria conta, de forma a confrontá-la com a necessidade de estudar mais porque entende que ela com 10 anos ainda não tem maturidade para isso.

«Não receio criar uma dependência, um dia irá estudar sozinha: todos temos ritmos diferentes. Procuro encontrar formas de a motivar e acho que não devo desresponsabilizar-me», diz Maria João, que entretanto pôs também a filha num centro de estudos três tardes por semana.

Renato Paiva garante que uma das principais questões dos filhos é a do sentido da escola. «Há muitos alunos que não perceberam para que serve a escola. Porque devem estudar Físico-Química, ou Filosofia, ou Matemática se o interesse deles é outro», já os pais, garante, esperam demasiado desta.

«Delegam na escola grande parte do trabalho. Em parte com razão, mas também têm uma responsabilidade inerente da qual não devem alhear-se.» O tal meio-termo, tantas vezes difícil de alcançar.

A motivação é, de resto, um dos aspetos essenciais da relação dos miúdos com a escola e, muitas vezes, as dificuldades são consequência da sensação que têm de que aquilo que estão a aprender não serve para nada. Mas o que podem os pais fazer para combater isto?

«A motivação é uma porta que abre por dentro», diz Magda Gomes Dias. «Não consigo motivar ninguém que não queira ser motivado, mas é importante interessar-me e tentar ajudar a tornar a matéria interessante integrando-a, quando é possível, no dia-a-dia: ir dar um passeio para ver onde o escritor escreveu aquele livro, procurar um filme relacionado com a matéria e vê-lo com os miúdos», exemplifica.

Já as coisas abstratas, não integráveis no dia-a-dia, mas que têm de ser sabidas, permitem, de acordo com a coach, outra aprendizagem – penosa, mas importante: a do espírito de sacrifício, que vamos ter de usar tantas vezes pela vida fora.

Percorra a galeria de imagens acima clicando sobre as setas.

 

É bom ajudar as crianças a fazerem os trabalhos de casa? – vídeo

Março 30, 2018 às 6:00 am | Publicado em Vídeos | Deixe um comentário
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texto do http://blogue.rbe.mec.pt/

Ver programa completo.

Para mais informação e acesso à transcrição escrita clique aqui (por favor, deslize a página para baixo).

TPC: trabalho ou tortura para casa?

Março 5, 2018 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Hugo Rodrigues publicado no http://observador.pt/ de 15 de fevereiro de 2018.

Obrigar as crianças a fazer TPC só porque sim é assumir que elas são preguiçosas e que não se pode confiar nelas (motivo pelo qual têm que ser forçadas a aprender). Isso não poderia ser mais errado.

Os “famosos” Trabalhos Para Casa (TPC) estão longe de ser um tema consensual, particularmente no 1º Ciclo (e é sobre esta faixa etária que incide este artigo, uma vez que para o 2º e 3º Ciclos os argumentos poderão ser um pouco diferentes). Se, por um lado, há quem os defenda como instrumento pedagógico, há também quem os considere dispensáveis e questione a sua utilidade. Antes de começar este texto, devo confessar que me encontro neste segundo grupo, pelos motivos que vou explicar a seguir. No entanto, não existem verdades absolutas, pelo que haverá certamente quem tenha uma posição diferente da minha e também casos particulares que não se encaixam nestes princípios gerais.

Explicado o enquadramento, penso que é importante percebermos que o “trabalho” das nossas crianças é estudar. Assim, faz sentido olharmos para o Código do Trabalho para esclarecer alguns aspectos:

Artigo 73º: 1 – O período normal de trabalho do menor não pode ser superior a oito horas em cada dia e a quarenta horas em cada semana.

Artigo 75º: 1 – O trabalhador menor não pode prestar trabalho suplementar.

Artigo 76º: 1 – É proibido o trabalho do menor com idade inferior a 16 anos entre as 20 horas de um dia e as 7 horas do dia seguinte.

Artigo 79º: 1 – O descanso semanal do menor tem a duração de dois dias, se possível, consecutivos, em cada período de sete dias (…).

Ao observarmos todos estes artigos, rapidamente percebemos que, do ponto de vista legal, a existência dos TPC é, no mínimo, questionável, pois atenta claramente contra os seus direitos. É claro, não me parece que valha a pena comentar muito mais…

No entanto, há também quem defenda que existem algumas vantagens, seja do ponto de vista pedagógico, seja do ponto de vista do desenvolvimento das crianças. O problema é que a realidade não espelha bem essas possíveis vantagens teóricas, ou seja, há uma discrepância grande entre o que é idealizado e o que acontece realmente. Passo a explicar o meu ponto de vista.

Relativamente às desvantagens, algumas das principais são as seguintes.

Retiram tempo livre à criança e à família. Brincar é um direito fundamental de todas as crianças. É uma necessidade básica para o seu crescimento, desenvolvimento e Felicidade, pelo que é criminoso perceber que as nossas crianças têm menos tempo ao ar livre do que muitos presidiários. As crianças precisam de conhecer o seu corpo e de se relacionar com os outros e os tempos de brincadeira livre e não estruturada são imprescindíveis. Para além disso, mesmo para a aprendizagem se consolidar, é fundamental haver momentos de descanso, em que a actividade intelectual “abranda” um pouco para dar lugar às actividades lúdicas e de prazer.

São uma fonte de stress. Todos são afectados por esse stress, mas as crianças parecem ser particularmente vulneráveis. Há estudos que demonstram que o stress em idades precoces aumenta o risco de ansiedade e depressão na idade adulta, pelo que é um assunto bastante sério e que deve ser levado em atenção.

Condicionam o estado de saúde das crianças. Está bem estabelecido que os TPC podem ser um factor de risco para obesidade, visto serem uma actividade sedentária e que podem também interferir com o sono, levando a situações de privação (por mais tarde que as crianças se deitem, têm sempre que acordar cedo no dia seguinte). Para além disso, o facto de terem que carregar mochilas cada vez mais pesadas aumenta a probabilidade de desenvolver problemas ortopédicos, nomeadamente ao nível da coluna vertebral.

Há ainda algumas questões controversas relacionadas com os TPC que, apesar de não terem uma resposta objectiva, devem servir como ponto de partida para uma reflexão séria e sensata. Sei que são discutíveis e que podem levar a discussões bem acesas, mas vale a pena pensar nelas. Alguns exemplos são os seguintes:

  1. Pode a escola estender-se para além da sala de aula? Faz sentido que os professores interfiram de forma deliberada na vida pessoal e familiar das crianças?
  2. Será a actividade intelectual mais valiosa do que a não intelectual, particularmente nesta fase da vida? (Durante o meu curso de Medicina, todos os dias lia à entrada da minha Faculdade uma frase que dizia “Um médico que só sabe Medicina nem Medicina sabe” e não podia concordar mais…)
  3. Se os TPC ajudam a criança a tornar-se responsável, a decisão de não os fazer é sinónimo de irresponsabilidade ou, pelo contrário, pode ser encarada como uma opção consciente e responsável? Há responsabilização dos alunos nas salas de aula, nomeadamente o envolvimento nas escolhas que são feitas diariamente?
  4. Serão os TPC sinónimo de currículo escolar rigoroso ou será apenas um rigor “aparente” para compensar o trabalho realizado na escola?
  5. Serão os TPC uma forma de colocar todos os alunos em pé de igualdade ou aumentam ainda mais as desigualdades? É completamente diferente fazer os trabalhos num ambiente calmo e com todas as condições físicas e de envolvência necessárias ou fazê-los num ambiente de gritos e confusão, com os cadernos em cima dos joelhos…

Muito haveria ainda por dizer, mas parece-me que obrigar as crianças a fazer TPC só porque sim é assumir que elas são claramente preguiçosas e irresponsáveis e que não se pode confiar nelas (motivo pelo qual têm que ser forçadas a aprender) e isso não podia ser mais errado! Lamento desapontar algumas pessoas, mas eu não acredito no lema “sofrer é uma virtude” e, mesmo que acreditasse, não será seguramente aos 6-7 anos que isso se aprende.

Sei que hoje em dia as turmas têm demasiados alunos e os programas são extensos, mas não é massacrando as crianças que se vai conseguir corrigir isso. É preciso ter coragem de assumir que alguma coisa está mal e não é à custa de trabalhos forçados que se vai conseguir alterar seja o que for. O problema é que com tantas burocracias e avaliações, os professores muitas vezes ficam presos num sistema que não permite tomar outro tipo de decisões. Mas tem que permitir, porque as crianças têm muitos anos para ser adultos, mas muito pouco tempo para ser crianças! É um crime não as deixar aproveitar esses anos!

Por fim, uma palavra para os super-pais, que são cada vez mais frequentes. Hoje em dia temos muitos pais que quase querem ser “profissionais” nesse papel e que se preocupam mais com o futuro dos filhos do que com o seu presente. É urgente perceber que o caminho se faz mesmo andando e não tudo à pressa, como se fosse “para ontem” e que as crianças não têm que ser óptimas em tudo. Se se encaixa neste perfil, deixo-lhe o último conselho deste texto: MUDE IMEDIATAMENTE! O seu filho não merece ter um pai/mãe assim, mas precisa seguramente do seu Amor, tempo e disponibilidade para ser Feliz…

Pediatra no Hospital de Viana do Castelo. Autor do blogue Pediatria Para Todos.
‘Caderno de Apontamentos’ é uma coluna que discute temas relacionados com a Educação, através de um autor convidado.

 

Já está disponível para download o InfoCEDI n.º 73 sobre Os Trabalhos para Casa das Crianças

Janeiro 3, 2018 às 2:00 pm | Publicado em Publicações IAC-CEDI | Deixe um comentário
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Já está disponível para consulta e download o nosso InfoCEDI n.º 73. Esta é uma compilação abrangente e atualizada de dissertações, estudos, citações e endereços de sites sobre Os Trabalhos para Casa das Crianças.

Todos os documentos apresentados estão disponíveis on-line. Pode aceder a esta publicação AQUI.

Como não desesperar com os TPC em tempo de férias

Dezembro 19, 2017 às 2:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do https://www.publico.pt/ de 17 de dezembro de 2017.

As férias do Natal chegaram e com elas os trabalhos para casa. Como incentivar os filhos a fazê-los? O PÚBLICO ouviu alguns especialistas na matéria.

Susana Pinheiro

O primeiro período lectivo terminou, mas isso não significa que as crianças e os jovens estejam completamente de férias. Muitos saem da escola carregados de Trabalhos Para Casa, os famosos TPC, e sem muita vontade. E com razão, pelo menos é o que pensam alguns dos especialistas que o PÚBLICO contactou. Para o pedagogo Renato Paiva “na grande maioria dos casos, os TPC nas férias são absolutamente desnecessários”.

“Estudar pode não parecer uma tarefa divertida e os trabalhos de casa parecem ser uma invasão do tempo de férias”, justifica. No entanto, se os TPC são pedidos pelos professores, então devem ser feitos porque outra coisa que os pais têm de incutir é “a responsabilidade”, afirma o pedagogo. A mesma opinião tem a psicóloga Teresa Espassandim, do Instituto Superior de Engenharia do Porto (ISEP), lembrando que aos pais cabe ajudar os filhos “a compreender e a assumir as consequências da decisão de fazer ou não fazer [os trabalhos], com autonomia”.

“Os TPC em período de férias podem ser um contra-senso, porque as crianças e adolescentes deveriam estar libertos das actividades intencionais de aprendizagem em contexto formal e deveriam brincar, explorar outras actividades”, entende Teresa Espassandim.

Maria José Araújo, professora da Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico do Porto, defende que é “tudo uma questão de bom senso”. Se os adultos descansam nas férias, por que é que as crianças não podem fazer o mesmo? “É preciso prestar atenção aos exemplos que damos às crianças”, elucida a especialista para quem é ponto assente de que “as férias são para descansar, brincar e criar bem-estar!”

“Enquanto não se perceber isto andaremos todos a prestar um mau serviço às crianças”, realça a investigadora, acrescentando que a Convenção sobre os Direitos das Crianças, aprovada em 1989 pela ONU, estipula que elas têm “direito ao repouso, a tempos livres, a participar em jogos e actividades recreativas próprias da sua idade e a participar livremente na vida cultural e artística”. Araújo lamenta: “É sempre a condição de aluno a sobrepor-se à de criança.”

Cuidado com a carga

Pedro Rosário, investigador e professor da Escola de Psicologia da Universidade do Minho, não é da mesma opinião e lembra que os alunos não devem estar desligados do trabalho durante as férias. No entanto, salvaguarda que a quantidade de TPC deve ser adequada à idade da criança. “Se a carga não for adequada, vai acabar por transtornar a família e a criança”, alerta.

Também a psicóloga Rita Carreira, responsável do centro de estudos Geração +, em Lisboa, defende que “as férias são para descansar, mas a cabeça não pode parar”. Desaconselha que a criança passe o dia a jogar ou a ver televisão, porque “a cabeça precisa de estímulos cognitivos”. É isso que procura fazer em tempo de férias com os miúdos que frequentam o seu centro de estudo: jogos de memória, de diferenças, dominós, etc.

Na hora de discutir sobre os TPC, os pais não devem pressionar demasiado as crianças no que toca ao desempenho. “Esta sobrevalorização dos resultados pode colocar muita pressão, mesmo que não verbalizada, e sentimentos de impotência por parte dos pais”, descreve Teresa Espassandim. É importante reconhecer “os esforços e o trabalho feito pela criança ou adolescente”.

E nada de prometer recompensas recomendam os especialistas. “Isso é algo que não deve acontecer”, sublinha Renato Paiva.

Conselhos para os pais:

  1. Relaxe. Aproveite os TPC para passar algum tempo com o seu filho. Mostre que se preocupa e está ali para ele. A psicóloga Rita Carreira aconselha os pais a tornar o momento de estudo o mais agradável possível.
  2. Não se esqueça de ver se a carga de TPC e o espaço de trabalho são adequados, aconselha Pedro Rosário. Não deixe que as férias desorganizem a rotina do seu filho. É preciso ajudá-lo a manter a rotina com horas certas para comer, estudar, etc. “As férias são uma oportunidade para descansar, para quebrar a rotina, mas não todas as rotinas”, defende.
  3. Articule com os miúdos quando fazer os TPC e fazer uma planificação. “Assim torna-se mais simples de, ao final do dia, perceber se foram ou não cumpridos. Se é um compromisso, os pais podem desde logo colocar orientações específicas do que pode acontecer em caso de incumprimento”, sugere Renato Paiva.
  4. Evite conflitos com os filhos para que os TPC não estraguem o Natal e as férias. Por isso, tenha paciência, aconselha Maria José.
  5. E quando fazer os TPC, no princípio, no meio ou no fim das férias? “Não há receitas mágicas”, diz. Mas existe uma coisa muito importante: ensinar o seu filho a ser responsável. Lembre-se que o seu filho precisa de tempo livre para outras coisas que não a escola. Por isso, não se esqueça que há um tempo para tudo!

 

 

Temos trabalhos de casa a mais?

Fevereiro 17, 2017 às 10:03 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do i de 15 de fevereiro de 2017.

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A escola está a mudar. Tablets e TPCs diferentes aliviam costas dos alunos

Fevereiro 17, 2017 às 7:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do i de 15 de fevereiro de 2017.

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