Fotografias dos filhos nas redes sociais? Por vezes, os pais são os primeiros a pô-los em risco

Maio 12, 2020 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 10 de abril de 2020.

Unidade de Cibercrime da APAV lembra que “aquilo que colocamos nas redes sociais pode ser usado em nosso desfavor” a partir do momento em que perfis podem ser “acedidos por desconhecidos”.

Daniel Dias

Com a propagação da pandemia que nos obriga ao isolamento, tem havido quem recorra às redes sociais para, através da câmara do telemóvel, mostrar o pequeno pedaço do mundo que consegue ver a partir da sua janela. Os filhos incluídos. Por isso, especialistas recomendam: em tempos de quarentena, e com o mundo “ainda mais ‘conectado’ do que é costume”, é importante não nos esquecermos da cibersegurança e dos perigos que podem espreitar.

“Nós temos a ideia de que as pessoas olham sempre para uma fotografia de uma criança de forma carinhosa. Mas, infelizmente, há quem, por exemplo, veja um objecto de desejo”, alerta Tito de Morais, fundador do projecto Miúdos Seguros na Net, que assume como missão ajudar “famílias, escolas e comunidades a promover a utilização responsável das novas tecnologias de informação e comunicação por jovens”.

“É óbvio que, em princípio, pensamos que não corremos nenhum risco quando o que circula não sai da rede de amigos”, faz questão de frisar o consultor. Mas, conta Ricardo Estrela, responsável pela Unidade de Cibercrime da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV), “precisamos de ter em mente que, se há uma mínima possibilidade de os nossos perfis no Facebook ou no Instagram serem acedidos por desconhecidos, o que lá colocamos pode ser usado em nosso desfavor”.

“Temos um hábito muito mau. Primeiro, publicamos as coisas e só depois, normalmente na sequência de algum problema que nos acontece, é que pensamos nestas questões de segurança e de privacidade”, observa Tito de Morais. “De um dia para o outro, tivemos de passar do ensino presencial para as aulas à distância, assim como precisámos de nos adaptar ao teletrabalho. Fizemos essa transição atabalhoadamente. Começou tudo a correr para o Zoom, quando, pelo que temos vindo a ouvir e descobrir, essa plataforma não é necessariamente segura”, exemplifica.

Para o criador do Miúdos Seguros na Net, “não admira que as famílias estejam mal preparadas para mudanças desta magnitude se o próprio Estado não dá o exemplo”. Quando, no Dia Nacional do Estudante, a 24 de Março, o Ministério da Educação promoveu a iniciativa #EstudoEmCasa — na qual desafiou pais a partilharem fotografias do novo e provisório ambiente de trabalho dos seus filhos, “criando um movimento nacional de motivação” para que estes pudessem continuar empenhados, num ano lectivo “com contornos diferentes do habitual” —, a tutela “deixou a nota de que não seriam divulgadas as imagens que incluíssem os rostos das crianças, mas, se clicarmos na etiqueta, vemos que isso não aconteceu”, alerta.

Ricardo Estrela aponta para a necessidade de os pais “terem consciência do direito à salvaguarda da imagem dos filhos menores” e sublinha a importância de “não revelarmos ‘pistas’ ou informações visuais que permitam identificar a nossa localização quando decidimos divulgar essas imagens que mostram as ‘vistas’ do nosso distanciamento social”. Isto, explica o gestor da Linha Internet Segura, “não é paranóia”; é, sim, o que, “no mínimo”, devia ser “etiqueta” nas redes sociais.

E-mails duvidosos e perfis falsos

Durante as últimas semanas, a Unidade de Cibercrime da APAV tem identificado várias “tendências perigosas” na Internet. “Temos estado atentos a perfis falsos que se fazem passar por entidades ligadas à área da saúde e que se aproveitam da falta de acesso no mercado para vender máscaras protectoras a um preço muito acima do normal”, avisa Ricardo Estrela. “Normalmente”, continua, “as formas de pagamento não são comuns. Pede-se o IBAN para a realização da transferência. As pessoas precisam de ter cuidado com as páginas a que acedem e as fontes que consultam.”

Outro problema detectado tem que ver com “muitas tentativas de phishing” – a circulação de e-mails falsos com o objectivo de enganar utilizadores e induzi-los a fraudes em que revelam informação privada ou palavras-passe. Algumas mensagens de correio electrónico “seduzem com títulos espectaculares” — sugerindo, por exemplo, que foi encontrada uma cura para o novo coronavírus. Outras tentam dar a entender que “vêm da empresa onde a pessoa trabalha”. São, por norma, “e-mails muito genéricos”, “com um PDF executável que supostamente contém dados como as novas políticas de segurança no trabalho”, quando, na verdade, corresponde a uma armadilha.

Nos primeiros três meses de 2020, o Portal da Queixa registou mais de mil reclamações relativas a esquemas de burla e fraude, um aumento de mais de 30% face a 2019. Uma tendência que deve crescer nos próximos tempos “tendo em conta a obrigação da permanência das pessoas em casa, alterando os seus hábitos de consumo”, com o “fluxo de compra direccionado para os canais digitais”. O envio de SMS que dão conta de que o destinatário venceu um alegado passatempo constitui uma das “tácticas” comuns. Neste momento de pandemia, a rede aponta para a necessidade de uma “navegação consciente”.

Texto editado por Bárbara Wong

Estudar em tempo de pandemia : Guia para pais e cuidadores – Ordem dos Psicólogos

Abril 21, 2020 às 12:00 pm | Publicado em Recursos educativos | Deixe um comentário
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Descarregar o guia no link:

Click to access covid_19_estudar_em_tempo_de_pandemia.pdf

Câmara Municipal do Funchal publica guia para ajudar pais durante a quarentena

Abril 11, 2020 às 3:00 pm | Publicado em Recursos educativos | Deixe um comentário
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Visualizar o guia no link:

https://covid19.cm-funchal.pt/cmf-preparou-guia-para-ajudar-pais-durante-a-quarentena/

Coronavírus : Um Guia Prático para os mais pequenos e para os pais – Edição do Instituto de Apoio à Criança

Abril 7, 2020 às 11:51 am | Publicado em Divulgação, Recursos educativos | Deixe um comentário
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COVID_Guia Criancas

 

COVID-Um guia para os pais

Escolas fechadas. Pais a trabalhar em casa desesperam com exagero de TPC

Março 20, 2020 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Diário de Notícias de 18 de março de 2020.

Já não é saber como conciliar o teletrabalho com a presença dos filhos em casa: os pais agora questionam-se como trabalhar e ao mesmo tempo acompanhar as crianças com o volume “exagerado” de exercícios que os professores estão a mandar para substituir as aulas.

Gravar um vídeo diário a praticar piano, flauta ou guitarra; resmas de exercícios que ultrapassam largamente os 50 minutos de uma aula; trabalhos que os alunos estranham, como um poema sobre conteúdos de Fisico-Química; pais que recebem vários vídeos diários da professora do pré-escolar com atividades físicas e desafios, e depois devem devolver vídeos ou fotos para mostrar como as crianças praticaram… Passaram poucos dias do encerramento das escolas decretado pelo governo para combater o novo coronavírus, mas já há pais a dar em loucos. E os desabafos, em tom de desespero, nas redes sociais são prova disso – estão eles próprios a adaptar-se ao teletrabalho e sem a disponibilidade necessária para acompanhar os filhos 24 horas por dia e, ao mesmo tempo, fazerem o papel de professores.

“Para nós já é o quinto dia e começa a ficar difícil. Os trabalhos de casa, a falta de braços e de paciência. Acho que se entrou numa onda de loucura porque se está a pensar que os pais estão de férias e têm todo o tempo do mundo para acompanhar as crianças”, diz Vítor Jorge, jornalista de publicações especializadas, que está fechado em casa desde sexta-feira com os dois filhos, um rapaz de 9 anos e uma menina de 4.

“Os pais que estão em teletrabalho não estão no sofá a ver séries e filmes.”

Na segunda-feira à noite, conta, um grupo de pais entrou em contacto com a professora do filho – aluno do 3.º ano – a dizer que era importante as crianças terem algumas tarefas. “Passou-se do 8 não para 80, mas para 800. Hoje a professora deve ter feito scanner do livro e mandou fichas até ao final do ano, sem timings. Temos de ver que os tempos não são fáceis e que os pais que estão em teletrabalho não estão no sofá a ver séries e filmes.”

Crianças na idade das de Vítor exigem acompanhamento constante, ainda mais quando estão fechadas em casa, estão sempre a interromper, pedem ajuda para os exercícios. Depois há a questão logística: se antes da quarentena os pais deixavam as crianças na escola de manhã e iam buscá-las ao fim do dia, agora têm de lhes fazer o almoço, garantir que comem, dar lanches, sempre a interromper o trabalho – a adaptação é difícil.

E há a questão de pura e simplesmente não se ter conhecimento das matérias para poder ajudar os filhos – quem é da área de letras desespera com a matemática, há quem fique com os cabelos em pé com as artes plásticas. “O meu filho está no 3.º ano e alguns exercícios que ele tem de fazer são de matérias que eu só dei no 6.º ou no 7.º ano. Vejo-me obrigado a ter o computador ao lado para fazer pesquisa no Google.”

Filinto Lima, presidente da Associação Nacional dos Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas, reconhece que “nos primeiros dias possa ter existido algum exagero” no pedido de trabalhos aos alunos em quarentena, mas refere que os exercícios não são para hoje, não são para amanhã nem para depois de amanhã.

“Deixem a correção a cargo dos professores”

E deixa uma mensagem de tranquilidade aos encarregados de educação: “Os pais devem estar calmos, são exercícios para serem realizados durante alguns dias. Não devem ficar angustiados, trata-se de aulas, de exercícios para algumas horas. Os pais não devem esquecer-se de que quem está a ter aulas são os filhos. O pai é um coordenador, um supervisor, por isso apelo a que façam uma supervisão das tarefas diárias que as crianças têm para fazer e deixem a correção a cargo dos professores.”

Filinto Lima considera ainda que é importante que os pais estejam ao lado dos professores “para que isto corra bem”. Também acredita que esta crise é uma oportunidade para muitos reconhecerem “quão nobre é a arte de ser professor”.

Os pedidos de trabalhos chegam por via eletrónica, por WhatsApp, pelas várias plataformas, como o Inovar ou o Moodle. E isso levanta outra questão: a existência de tecnologias em casa. Se é certo que praticamente toda a gente as tem, também é verdade que quem está em teletrabalho não pode dispensar o computador aos filhos a qualquer hora.

Essa é a vertente da nova realidade escolar trazida pelo coronavírus que Leonor Santos enfatiza. “Não podem partir do princípio de que toda a gente tem computador, nem todos têm, nem têm de ter.”

Na sua casa, por exemplo, há apenas um – para Leonor trabalhar em casa e para os dois filhos, António (16 anos) e Pedro (11). Nesta terça-feira, o mais velho teve de fazer o TPC de Português antes de a mãe se sentar e iniciar o seu dia de teletrabalho. Da escola do Pedro pediram-lhe que se inscrevesse na Escola Virtual e no Google Classroom – Leonor ainda não tinha tido tempo para isso, mas o rapaz já sabia que teria de entregar trabalhos nesta quarta-feira. A questão é: como vai ser quando todos precisarem de usar o computador ao mesmo tempo?

“É uma medida que estimula a desigualdade”

Leonor faz questão de frisar que não está contra as aulas à distância depois do encerramento das escolas – o que defende é que o processo seja feito faseadamente. “Tem de se garantir que todos têm acesso, têm tecnologia, para serem autónomos.”

E isso leva-a a apontar o que considera ser o segundo problema desta questão: “É uma medida que estimula a desigualdade e a discriminação, é elitista. O elo mais fraco são sempre os mesmos.” Lembra ainda que “é preciso que os professores percebam que os pais não estão a viver a sua vida normal”. “Fui de manhã ao supermercado e passei uma hora em filas, depois tive de fazer o almoço”, o que não acontece quando está no seu local de trabalho e os filhos na escola.

O presidente da Associação de Diretores de Agrupamentos entende que esta é igualmente uma oportunidade para se perceber que crianças e adultos têm de ter instrumentos e rede wi-fi nas suas casas. “É uma questão social a que o governo tem de estar atento, e as juntas de freguesia também”, diz, não deixando de referir que a maioria dos alunos do escalão A têm excelentes telemóveis.

Na casa de Vítor Jorge existem dois portáteis, mas quando o filho precisar, ou ele ou a mulher terão de parar o trabalho. Os TPC que a professora enviou por e-mail – e ainda não começaram as videoconferências – vai ainda obrigá-lo a sair de casa para imprimir as folhas de exercício porque não tem impressora. “Isto quando toda a gente está a sugerir que não se vá à rua.”

Mais matéria do que nas aulas

Desde que as escolas fecharam na segunda-feira que Alice, aluna do 9.º ano, recebe na plataforma digital Inovar os trabalhos que devem ser realizados todos os dias, como se estivesse na escola. Está a cumprir-se o horário semanal. Ela concorda que os alunos tenham de continuar a aprender, mas discorda da “quantidade exagerada de exercícios, alguns completamente despropositados”, que lhe estão a ser pedidos pelos docentes.

“Seria bom se os professores nos mandassem ler umas páginas, uma pequena parte da matéria, e mandassem perguntas de consolidação. Mas o que estão a fazer é a pedir trabalhos como se tivéssemos todo o tempo disponível para a escola. Mandam mais trabalhos do que iríamos efetivamente realizar na aula. Quarentena não são férias, mas temos de ter tempo para fazer outras coisas, tal como tínhamos quando estávamos em aulas”, diz a jovem.

Por exemplo, para a aula de Francês desta terça-feira teria de fazer dois exercícios do livro e vários outros – ouvir duas músicas e responder a questões sobre as mesmas e ainda visualizar um vídeo na internet para responder a outras três perguntas. “É óbvio que em 50 minutos de aula – e não são 50 minutos porque entre sentar e começarmos a trabalhar perdemos 15 minutos – nunca conseguiríamos fazer isto. Mesmo em casa, sem a confusão da turma, levei mais de uma hora.”

O que custa alterar rotinas

Quando os trabalhos pedidos pelos professores começaram a chegar, Inês Malhão precisou de ajudar o filho, aluno do 8.º ano, a organizar-se. Chegaram apenas exercícios de cinco disciplinas, mas dado o volume – e até porque o filho é um pouco desorganizado – teve de ser ela a pôr ordem nas coisas. “Ele estava completamente assoberbado com tanta coisa.”

A solução foi estabelecerem um horário por disciplina para que o rapaz trabalhe como se estivesse na escola que frequenta, a Padre António Vieira, em Lisboa. Inês não tem do que se queixar, considera que aquilo que está a ser pedido pelos professores é equilibrado. Ao contrário do que pensa Vítor, Leonor e a aluna Alice e tantos pais que desesperam nas redes sociais. E até o representante dos diretores de turma, que admite alguns exageros nestes primeiros dias.

A cambalhota na rotina das famílias com filhos em idade escolar ilustra bem como as vidas se alteraram de um dia para o outro. “É uma aprendizagem para as famílias, que devem encontrar estratégias para diminuir a pressão de ter as crianças em casa e estarem em teletrabalho, mas não deixa de ser difícil”, diz Cláudia Vieira, psicóloga educacional.

Aconselha, contudo, a que as famílias se organizem no sentido de estabelecer horários, porque o teletrabalho exige muita disciplina e é interrompido pelos pequenos-almoços, almoços, lanches… Mas alerta os pais que os miúdos precisam de monitorização, mas têm de ter alguma autonomia na realização dos trabalhos, tal como na escola. Outra dica é estimular a interação entre os irmãos.

A psicóloga educacional entende que, quando as crianças são obrigadas a passar tanto tempo em casa, deve-se trabalhar para o seu desenvolvimento integral e não apenas os conteúdos escolares. “É a oportunidade para, por exemplo, realizar um trabalho-projeto com a família, em várias áreas – se for sobre uma borboleta, pode ter uma abordagem de Biologia ou um poema para Português. Não estamos preparados para a flexibilidade de conteúdos.”

Esta novidade na vida das famílias, que de um dia para o outro ficaram com os filhos em casa, levou a Direção-Geral da Educação a lançar um vídeo dirigido aos encarregados de educação com dez conselhos práticos sobre como ajudar as crianças durante a suspensão das aulas presenciais.

O vídeo, com Margarida Pinto Correia, sublinha que o primeiro passo é garantir que os horários são cumpridos e a verificação de que todos os trabalhos preparados foram realizados. E incentiva os pais a participar e a ajudar a identificar dúvidas.

A Direção-Geral da Educação diz ainda que os pais devem manter o contacto com os professores e os diretores de turma porque os alunos não estão de férias. Mas também faz questão de lembrar que as crianças precisam de tempos livres e que se deve incentivar a leitura.

Construir a resiliência desde a infância: qual o papel do adulto?

Março 13, 2020 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do Público de 10 de março de 2020.

Sofia Garcia da Silva

A resiliência não é uma qualidade inata que se detém ou não ao nascer. É algo que se desenvolve através de um processo dinâmico entre fatores individuais e do ambiente e da interação entre estes dois.

A física refere-se ao termo “resiliência” como “propriedade de um corpo de recuperar a sua forma original após sofrer choque ou deformação” (in Priberam). Nas ciências sociais, apesar de encontrarmos múltiplas aceções, a mais comum é aquela que define a resiliência como a capacidade ou o conjunto de capacidades que permitem ao ser humano lidar e adaptar-se de forma positiva às circunstâncias adversas. Porém, ao contrário dos corpos a que a física se dedica, sabemos que no ser humano as experiências, sobretudo na infância, permanecem connosco e modificam a forma como pensamos e sentimos.

Apesar de vivermos uma era em que a adversidade é frequentemente abafada pelo aparente estado contínuo de felicidade que as redes sociais promovem, a verdade é que, em determinados momentos, todas as famílias vivem situações difíceis e stressantes. Divórcios, problemas de saúde física e mental e experiências escolares negativas estão talvez entre as mais frequentes, mas não nos esqueçamos de uma parte significativa da nossa população (e das nossas crianças) que vive em grande desvantagem social, na pobreza e/ou exposta à violência. Neste sentido, a ciência tem demonstrado que exposição sistemática e prolongada a experiências adversas na infância está associada a um maior risco de desenvolvimento de doença mental, abuso de substâncias, abandono escolar e perturbações de ansiedade.

Perante isto, devemos questionar-nos: porque é que há crianças que superam melhor a adversidade do que outras? Como podemos ajudá-las a desenvolver o seu sentido de resiliência e prepará-las para as dificuldades que poderão enfrentar durante a adolescência e a vida adulta?

Para tal, importa entender que a resiliência não é uma qualidade inata que se detém ou não ao nascer. É algo que se desenvolve através de um processo dinâmico entre fatores individuais e do ambiente e da interação entre estes dois (Beyond Blue Ltd., 2017). Imagine uma balança com dois pratos: a resiliência manifesta-se quando a saúde mental e o desenvolvimento de uma criança se encontram numa direção positiva, apesar do peso que os fatores negativos exercem no outro lado (Center on the Developing Child, 2015). E, ainda que o acompanhamento adicional e especializado não deva ser descurado em crianças que passam por eventos traumáticos ou por experiências negativas continuadas, a literatura aponta para várias estratégias e abordagens consideradas universais e ajustáveis a todas as crianças. Vejamos algumas delas.

Fale sobre resiliência 
Leia livros e conte histórias que abordem a superação de situações difíceis. Incentive a criança a falar sobre casos que conheça. Explique-lhe onde e a quem pode recorrer quando necessitar de ajuda.

Construa e fomente relações de suporte
Crie uma relação próxima e afetiva. Faça com que a criança ganhe um sentido de pertença. Dê atenção e afeto, brinque, conforte, ouça os seus interesses e mostre empatia, o que não significa que concorde sempre com ela, mas que é capaz de se pôr no seu lugar e entender os seus sentimentos.

Promova o autocontrolo e a autorregulação
A criança aprende a autorregular o seu comportamento através das interações diárias com os cuidadores. Por isso, garanta bons hábitos de sono e de alimentação. Ajude-a a acalmar-se, através da respiração ou a imaginar algo que lhe dê prazer. Ensine-a a saber esperar desde cedo: recorra a rimas e lengalengas enquanto espera por algo; defina rotinas e momentos próprios para determinadas ações; elogie sempre que se mostra paciente. Encoraje a perseverança perante os desafios e a frustração.

Fomente a autonomia e a responsabilidade 
Dê oportunidade para que a criança tome decisões relevantes sobre os contextos em que está envolvida e que possa ser ela própria, e não o adulto, a encontrar formas de resolver os seus problemas. Permita-lhe correr riscos saudáveis, adequados à sua idade e fase de desenvolvimento.

Ajude a gerir emoções 
Nem todas as adversidades são traumáticas e muitas delas podem ser positivas. Ao experienciar dificuldades, criam-se oportunidades de crescimento. Ser resiliente não é estar sempre bem ou ter menores reações emocionais. É saber lidar e gerir essas emoções de forma saudável e positiva. Por isso, valide os sentimentos da criança, incentive-a a nomear o que sente, fale com ela sobre situações que a deixam ansiosa e ajude-a a encontrar formas de se sentir mais segura.

Em conclusão, a construção da resiliência na infância deve iniciar-se no seio de relações afetivas, através de modelos positivos em casa e na comunidade, em que pais, cuidadores e educadores assumem um papel de máxima importância na promoção da saúde mental.

Técnica Superior de Educação Especial no CADIn

Partilhar ou não partilhar: o que fazer com as fotos dos nossos filhos?

Fevereiro 27, 2020 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do Notícias Magazine de 20 de fevereiro de 2020.

Alguns pais não se importam de partilhar fotos dos filhos. Outros não mostram a identidade dos descendentes nas redes sociais. Três famílias, três experiências.

Sofia Filipe

Há quatro meses, Filipa Salvaterra vivia os últimos dias da segunda gravidez. A 23 de outubro, véspera do nascimento de Duarte, assinalou o quinto aniversário de Maria partilhando com 295 amigos do Facebook uma fotografia do bolo e uma dedicatória à filha. A mensagem sobre a nova fase, “com o mano”, estava nas entrelinhas e só era entendida por familiares e amigos que privam com a engenheira química, de 37 anos, no Centro Nacional de Embalagem. “É uma questão de privacidade.” Moradora no Montijo, Filipa justifica assim o facto de não publicar nenhuma fotografia dos filhos nas redes sociais nem de avançar pormenores da vida privada.

O marido, Pedro Cruz, um ano mais novo, pensa da mesma forma. “É mais seguro. Também não indicamos locais nem moradas. É a nossa vida pessoal e ninguém tem de saber o que fazemos ou onde estamos”, declara o engenheiro de manutenção na Hovione, Loures. “Dos 571 amigos que tenho no Facebook, só devo falar com cerca de dez. Muitos andaram comigo na escola, outros são da mesma terra ou foram colegas. Não há grandes ligações com a maioria.”

Mostrar ou não mostrar os filhos nas redes sociais? Eis uma questão pouco dada a unanimidade. O poder de decisão, esse, nem sempre pertence aos pais. Em 2015, durante um processo de regulação de responsabilidades parentais, o Tribunal de Setúbal proibiu os pais de uma criança de 12 anos de partilharem fotografias da filha nas redes sociais. A mãe recorreu para a Relação e o Tribunal da Relação de Évora manteve a decisão. Vem referido no acórdão que, “na verdade, os filhos não são coisas ou objetos pertencentes aos pais e de que estes podem dispor a seu belo prazer. São pessoas e consequentemente titulares de direitos”.

Se existe o direito à imagem das crianças, por que motivo é atropelado com a constante divulgação nas redes sociais? “Orgulho e vontade de mostrar ao mundo a felicidade. Também algum exibicionismo, necessidade de reconhecimento e afirmação social”, responde Tito de Morais, fundador de MiúdosSegurosNa.Net, um projeto que ajuda famílias, escolas e comunidades a promover a segurança online. Ao ato de partilhar excessivamente fotografias e informações acerca dos filhos, sem consentimento, dá-se o nome de sharenting. O especialista compreende que os pais o façam, mas aconselha a evitar. “A necessidade de afirmação social dos pais não se pode sobrepor à segurança e proteção da privacidade dos filhos.”

Para a psicóloga especialista em adolescentes Bárbara Ramos Dias, “todas as pessoas têm direito à privacidade. Os filhos ainda mais. São crianças inocentes”. Sensibiliza para os riscos associados à partilha de fotografias a mostrar a cara, de dados pessoais ou de localização geográfica nas redes sociais e dá como exemplo situações de rapto.

“A necessidade de afirmação social dos pais não se pode sobrepor à segurança e proteção da privacidade dos filhos”
Tito de Morais
Fundador de MiúdosSegurosNa.Net

Filipa e Pedro têm consciência dos perigos associados à exposição de crianças na Internet, destacando o uso de fotos manipuladas em sites de pedofilia. O fundador de MiúdosSegurosNa.Net explica que “a manipulação digital das fotos através de montagens e a criação de deep fakes elevam a fasquia ao nível da sofisticação”. Por seu turno, defende que “basta mudar o contexto em que as imagens aparecem para adquirirem logo outro significado”.

A última fotografia partilhada pelos pais de Ódin, seis anos, e Aron, quatro, retrata uma brincadeira com água num campo. Estão de costas e afastados da objetiva. Para Carla Santos e Duarte Cera, ambos de 35 anos, partilhar momentos em que os filhos estão de costas, tapar-lhes o rosto, editar as fotografias ou usar imagens de baixa resolução são algumas estratégias para não exporem os descendentes nas redes sociais. Além disso, fazem a publicação depois da atividade em família e não referem local nem horário. Este casal de Cascais acredita que “existe o risco de serem identificadas rotinas da família e assim dar azo a situações perigosas”.

Carla é doula e usa o Facebook (conta pessoal com 791 amigos e página profissional com 465 seguidores) e o Instagram (conta pessoal com 200 seguidores e a profissional com 707). Duarte concilia a atividade de leitor de contador das águas com a de baterista dos Invoke e utiliza as redes sociais Facebook (790 amigos) e Instagram (185 seguidores). “O acesso às fotos é reservado a listas definidas por nós, por questões de segurança”, afirma Carla.

Em tempos, colocou uma fotografia sua, grávida, como foto de perfil, e recebeu “uma mensagem de um desconhecido a questionar se o bebé já tinha nascido, porque gostava muito de ver uma imagem. Foi assustador”. Duarte faz referência ao impacto negativo mencionando que “a imagem fica para sempre online, pode ser usada no futuro como ferramenta de bullying, por colegas ou pessoas das relações profissionais”. Carla sublinha: “É a privacidade dos nossos filhos, que não têm noção do que é a exposição. Quando tiverem, será algo unicamente gerido por eles. Não vamos interferir”.

Na net como no parque ou nos transportes públicos

Como a partir de uma certa idade os filhos ganham o sentido de individualização, os pais devem perguntar-lhes se podem fazer determinada publicação, segundo Bárbara Ramos Dias. “Há miúdos que não gostam de se expor. Deve-se respeitar a opinião e a vontade.” Exemplo: na pré-adolescência e adolescência, sobretudo as raparigas, têm preocupação com a imagem. “Consideram que estão gordas, feias ou com borbulhas. Não gostam quando os pais põem online fotos que não lhes agradam.” É uma fase da vida com inseguranças e fragilidades que a exposição “pode aumentar”. Dados do EU Kids Online Portugal, de 2018, mostram que 28% dos participantes, entre os nove e os 17 anos, indicaram que os pais publicaram textos, vídeos ou imagens sobre eles sem lhes perguntarem. Dos inquiridos, 14% pediram aos pais para retirar conteúdos, dos quais um quinto são raparigas entre os 13 e os 17 anos; e 13% disseram ter ficado incomodados com a partilha sem consentimento.

“Todas as pessoas têm direito à privacidade. Os filhos ainda mais. São crianças inocentes”
Bárbara Ramos Dias
Psicóloga especialista em adolescentes

Experiências que não foram vividas pelos irmãos Matilde e Samuel, de 13 e 11 anos, de Caneças. Os pais têm sempre o cuidado de perguntar se concordam com determinada publicação em que são visados. “São pessoas independentes. Não é por sermos pais que temos o direito de usar a imagem deles sem a sua autorização”, diz Miguel Campos, de 46 anos, motorista. “Desde que têm idade para manifestar opinião que lhes pergunto se posso publicar as fotos em que aparecem”, corrobora Sílvia Campos, 42 anos. Pelas respostas que recebe dos filhos, a angariadora imobiliária nota que estão mais interessados em perceber se “estão mais ou menos bonitos”.

Miguel usa o WhatsApp e o Facebook (452 amigos). Sílvia é mais ativa: 3 446 amigos nesta rede social, 777 seguidores no Instagram e 256 contactos no WhatsApp. Esta mãe nunca se coibiu de mostrar a cara dos filhos, com publicações esporádicas. É o orgulho que sente nos filhos que a motiva a partilhar o bom aproveitamento escolar, uma atividade especial, vivências durante as férias, momentos engraçados com familiares e amigos ou uma comemoração festiva. Com reservas. Usa definições de privacidade, as fotos de férias só são publicadas posteriormente e, por norma, não dá referências geográficas. Sílvia tem consciência de perigos mas ressalva que estes não existem apenas na Internet. “Também lhes podem tirar fotos na escola, no parque, na praia, nos restaurantes, nos transportes públicos”, enumera, referindo que é apologista das conversas educativas. “Alerto para os perigos, tiro dúvidas e estou atenta. Como pais, temos de os proteger e assegurar que as publicações não sejam prejudiciais no futuro. Não considero nenhuma das opções [mostrar ou não mostrar a cara dos filhos] certa ou errada. Sentirmo-nos bem e fazer com que os nossos filhos também se sintam bem deve ser a regra.”

Maria e Duarte são menores e não têm a noção dessa dinâmica. Os pais Filipa e Pedro decidiram salvaguardar os filhos para precaver eventuais problemas no futuro não mostrando nada. “São menores e um dia podem não querer ou não gostar de ter fotos deles online”, comenta a mãe, lembrando que as fotografias digitais estão guardadas no computador e/ou na nuvem. “Qualquer pessoa pode aceder. Se forem colocadas no Facebook, é abrir ainda mais a vida privada ao mundo.”

A mãe de Ódin e Aron acredita que “explorar a vida e a imagem de uma criança tira autenticidade às relações e às vivências”. “A mensagem que transmite não me deixa muito segura. Somos valorizados por seguidores/gostos/reações? Somos o que acham de nós? A opinião dos outros pesa assim tanto? Tenho receio da superficialidade.”

Cuidados a ter nas redes sociais

Tito de Morais, fundador de MiúdosSegurosNa.Net, aconselha a evitar:
• Partilhas públicas. Mesmo não mostrando a cara da criança, inadvertidamente podem ser revelados outros aspetos.
• Fotos que mostrem o corpo despido da criança. Há quem olhe para esse tipo de fotos como objeto de desejo sexual.
• Fotos potencialmente embaraçosas, tais como mudança da fralda, na sanita ou no banho. Na adolescência, envergonham com facilidade.
• Localizar a criança em sítios que frequenta (escola, ATL, etc.).
• Fotos com amigos, sobretudo se não tiverem autorização por escrito dos respetivos pais (ambos, pois no caso de pais divorciados pode haver opiniões discordantes).

Decreto-lei que permite pais acompanharem filhos no primeiro dia de escola já foi publicado

Julho 3, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 1 de julho de 2019.

A medida visa “promover um maior equilíbrio entre a vida profissional, pessoal e familiar” e vai dar aos funcionários públicos responsáveis pela educação de menor de 12 anos o direito a faltar justificadamente com vista ao seu acompanhamento no primeiro dia do ano lectivo, até três horas por cada menor.

Lusa

Os funcionários públicos vão poder faltar até durante três horas para acompanhar os filhos com idades até aos 12 anos no primeiro dia de escola, segundo o decreto-lei publicado nesta segunda-feira em Diário da República. Este decreto-lei, promulgado a 19 de Junho, entra em vigor a 1 de Agosto.

A medida, integrada no “Programa 3 em linha – Programa para a conciliação da vida profissional, pessoal e familiar” visa “promover um maior equilíbrio entre a vida profissional, pessoal e familiar”.

O programa tem por objectivo “melhorar o índice de bem-estar, no indicador ‘balanço vida-trabalho’”, sendo que conciliar melhor a vida profissional, pessoal e familiar favorece a diminuição do absentismo, o aumento da produtividade e a retenção de talento, contribuindo, também, para a sustentabilidade demográfica”, é referido no decreto-lei.

Por isso, o trabalhador da administração pública responsável pela educação de menor de 12 anos tem direito a faltar justificadamente com vista ao seu acompanhamento no primeiro dia do ano lectivo, até três horas por cada menor.

“A falta prevista no número anterior não determina a perda de qualquer direito do trabalhador e é considerada, para todos os efeitos, prestação efectiva de trabalho”, é referido.

No entanto, devem ser criadas condições para “o exercício efectivo do direito e de modo a salvaguardar o interesse público, evitando prejuízo grave para o funcionamento do órgão ou serviço”.

Portanto, a entidade patronal deve tomar as medidas de gestão com a antecedência necessária para promover a utilização deste mecanismo de conciliação.

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, promulgou a 19 de Junho, o “diploma do Governo que permite aos trabalhadores da Administração Pública faltarem justificadamente para acompanhamento de menor, até 12 anos, no primeiro dia do ano lectivo”.

Na altura, Marcelo Rebelo de Sousa louvou a medida do Governo, mas defendeu um regime idêntico para trabalhadores do sector privado e social, por forma a “evitar uma divisão no sector do trabalho em Portugal”.

O decreto-lei mencionado na notícia é o seguinte:

Decreto-Lei n.º 85/2019

“Os filhos são as primeiras vítimas do stress dos pais. E de forma muito violenta”

Abril 5, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto e foto do site NIT de 19 de março de 2019.

Não é novidade para ninguém. Cada vez mais parece que a sociedade ocidental vive a um ritmo acelerado, com as pessoas na rua a correrem de um lado para outro, com menos tempo para as refeições, para o lazer, e, em geral, para tudo. Isso faz com que todos fiquemos mais stressados e, como sabemos, o stress é contagiante.

Que o diga o pediatra Mário Cordeiro, especialista na área da saúde infantil e ex-professor universitário. É autor de vários livros e tem um novo trabalho. “Pais Apressados, Filhos Stressados” foi publicado a 15 de fevereiro e é uma edição da Desassossego. Tem 240 páginas e está à venda por 14,94€.

O pediatra dá consultas a muitas crianças que apresentam sintomas de stress por causa da forma como os pais vivem e gerem a sua vida. As refeições à mesa são um dos exemplos que dados no novo livro.

“Curiosamente, numa altura em que tanto se fala do ‘regresso ao básico’ e às dietas do Paleolítico, valha isso o que valer, a hora das refeições parece estar cada vez mais relegada para segundo (ou quinquagésimo segundo) plano”, escreve Mário Cordeiro.

“O pequeno-almoço raramente é tomado e, quando o é, toma-se de pé, a correr, com a escova de cabelo numa mão e a escova de dentes na outra. Ao almoço está cada um em seu lado — as crianças na escola ou sozinhas em casa em frente ao televisor, os pais no emprego, os avós sabe-se lá onde —, o lanche não existe (engole-se meia dúzia de ‘faz-de-conta-que-são-alimentos’ altamente calóricos, mas que se podem comer com as mãos ao volante ou enquanto se leem os jornais nos transportes públicos; desde que sejam doces ou carregados de açúcar, ou então pastéis fritos) e, finalmente, o jantar é muitas vezes um momento em que cada um chega à sua hora e procura qualquer coisa que lhe cale o apetite e que não lhe consuma muito tempo a preparar — o dia já vai longo e são quase horas de o despertador tocar outra vez, além de que cada um precisa ‘urgentemente’ de ir para o seu ecrã, seja computador, televisão, tablet ou telemóvel. A refeição é vista, assim, como ‘mais uma’ maçada, uma perda de tempo, uma chatice consumada, uma prova da ausência de liberdade para gerirmos o (escasso) tempo de que dispomos. Infelizmente, são cada vez menos os que olham para o espaço-refeição como um espaço de libertação.”

Neste livro, o pediatra dá dicas aos pais para tentarem mudar os hábitos do dia a dia — o objetivo é melhorar a própria qualidade de vida e, claro, a dos filhos. Mário Cordeiro explica de que forma é que o stress dos pais influencia os filhos. A NiT entrevistou o especialista.

É muito comum ter crianças stressadas entre os seus pacientes? Foi por isso que quis escrever um livro sobre este tema?
Creio que andamos todos stressados, em certo grau, mas muitas pessoas ultrapassam os limites da razoabilidade e, sim, encontro muitos pacientes, pais e filhos, muito angustiados, inquietos e descontentes com os seus estilos de vida e com o quotidiano. A observação da sociedade, passatempo que me fascina, revela-me muitas coisas que demonstram este grau de stress, latente e patente, na sociedade e, portanto, nas pessoas, em todos os seus ecossistemas: casa, escola, rua, lojas, empregos… Até nas férias. A razão do livro reside aí, claro, se bem que escreva, também, por prazer e por “upgrading” intelectual, dado que me obriga a “ginasticar os neurónios” e a ler, rever, debater, pesquisar, investigar… O meu lado científico fica radiante com estas coisas, bem como o de escritor e leitor.

Se os pais estiverem stressados, devem esconder isso dos filhos, para não os preocupar e stressar?
Creio que o stress não é passível de esconder. Impossível. Os filhos leem os pais, a alma dos pais, através de tudo: o nosso sistema nervoso autónomo que, como o nome indica, é independente da vontade, gere a produção hormonal das suprarrenais e de outras glândulas: as hormonas adrenalínicas e as endorfínicas. As primeiras, quando produzidas em excesso ou desajustadamente, acabam por produzir stress, manifestando-se numa série de pormenores comportamentais e fisiológicos, do tónus muscular ao brilho do olhar, do timbre de voz à inquietação da própria pessoa. Claro que os pais podem poupar os filhos de várias formas: não andarem stressados para não andarem, consequentemente, irritados, sem paciência, deixando de pensar que “crianças são crianças” e evitando cair até no ridículo que é dizer a um filho de dois ou três anos: “Não sejas criança!” e coisas assim; por outro lado, envolver as crianças em discussões e assuntos com acrimónia, que elas não entendem, apenas sobrará para elas os gritos e berros, mesmo até que a discussão possa ser sobre o Brexit ou sobre o futebol… Finalmente, o stress é contagioso, no sentido em que, quando um elemento da família está “à beira de um ataque de nervos”, todos os outros ficam também em stress, e estou em crer que este estado de coisas, vivido semanas após semanas, meses após meses, mina totalmente o amor, a cumplicidade, o “trabalho de equipa” da família, levando também, estou em crer, a muitos dos divórcios, separações e conflitos entre pais e filhos.

Que dicas práticas costuma dar às pessoas que enfrentam este problema?
As que constam do livro, em que exemplifico amiúde situações de stress no quotidiano. A primeira e mais importante é parar para pensar. Parar para pensar e refletir sobre o dia a dia, sem ter receio do que se pode encontrar mas, pelo contrário, entender que esse processo de análise pode conduzir a encontrar graus de liberdade para ajustamentos – mesmo que pequenos – que levam a uma melhor qualidade de vida e, até, a uma nova hierarquização das prioridades. Por outro lado, há que separar claramente a nossa parte de ação, trabalho, escola, fazer, empreender, etc., e a parte de descanso, lazer, prazer, gozo e afetos… Se isto não se faz, se trazemos tendencialmente para casa as “guerras” do trabalho, do trânsito, do “mundo lá fora”, então estará tudo contaminado e as crianças, claro, serão as primeiras a sofrer com isso e de uma forma muito violenta. É bom ter isso em mente, quando nos interrogamos sobre que tipo de vida queremos ter e proporcionar aos nossos filhos. Andamos a correr, a correr, a correr, arrasando tudo e todos, mas para onde, para quê e porquê?

Quais são as causas mais comuns para o stress dos pais que, por sua vez, passa para os filhos?
A relação laboral, que no nosso País é completamente absurda (e a escolar, nas crianças), ultrapassando o que o trabalho deve constituir: uma forma de dignificação do ser humano, de utilidade social, de realização de talentos e capacidades, e não de escravatura; o trânsito ou, dito de outra forma, as deslocações, os problemas de mobilidade, as horas e horas que se perdem, diariamente, dentro de um automóvel a vociferar com tudo e todos; a crispação relacional, muito comum a todos os níveis, até quando vamos pedir um café numa esplanada ou comprar o jornal no quiosque, e as redes sociais que estimulam o dislate, a agressão, a violência verbal no anonimato e o descarregar catártico de tudo o que há de pior na condição humana. A tecnologia, que prezo e da qual gosto e uso, quando hiper-utilizada e não controlada, também invade o espaço de descanso mental e físico, e “estoira” com o equilíbrio da pessoa e das que a rodeiam. Os filhos, obviamente, são as primeiras vítimas desta situação, não apenas porque são os “sacos de pancada” do stress dos pais, mas porque são forçados, desde o nascimento, a ritmos e hábitos que, muitas vezes, estão em plena contradição com as suas necessidades irredutíveis biológicas, psicológicas e sociais.

Que outros problemas é que o stress costuma desencadear nas crianças?
O mesmo que nos adultos: irritabilidade, desconcentração, incapacidade de escutar o outro e até de reconhecer que ele pode ter razão, obstinação, egocentrismo, falta de paciência, vontade de “emigrar para uma ilha deserta”, má performance escolar… Enfim, um cortejo de atitudes e comportamentos (e sentimentos) que não são nada bons e que se resumem a muita infelicidade, frustração e mais stress.

 

 

 

Crianças também vítimas se pais morrem ou matam

Março 23, 2019 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Jornal de Notícias de 9 de março de 2019.

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