Manual de Ação Para Jovens : Dá a Tua Opinião sobre os teus direitos online!

Outubro 4, 2017 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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O Instituto de Apoio à Criança é um dos parceiros da iniciativa.

Descarregar o manual aqui

Página no Facebook:

https://www.facebook.com/GDPRhaveyoursay/

 

Sabias que em maio de 2018 o Regulamento Geral de Proteção de Dados (RGPD) 1 entrará em vigor nos sistemas jurídicos de todos os países da União Europeia? A boa notícia é que este Regulamento visa proteger a privacidade e os dados pessoais na Internet, assegurando que os fornecedores de serviços de informação e de média sociais:

  • tratam os teus dados de forma transparente e justa
  • param de transferir os teus dados pessoais para terceiros sem o teu consentimento explícito
  • respeitam o teu “direito a ser esquecido”
  • param de tratar, analisar e agrupar os dados pessoais de menores de idade.

A má notícia é que, a menos que atuemos agora, o Regulamento impedirá qualquer menor de 16 anos de idade de aceder aos serviços da sociedade da informação (ou seja às redes sociais e muitos outros websites), sem o consentimento dos seus pais ou cuidadores (artigo 8) ! Agora imagina as consequências que isso poderia ter para ti, enquanto jovem cidadão da União Europeia. Acabaram-se as redes sociais ou a exploração de novos sites ou aplicações, a menos que os teus pais autorizem cada uma das tuas escolhas? E as consequências para as crianças com menos de 13 anos de idade?

Mas tu tens o poder de mudar isso, porque o Artigo 8 2 do RGPD diz:

“Os Estados-Membros podem dispor no seu direito uma idade inferior para os efeitos referidos, desde que essa idade não seja inferior a 13 anos”.

Este Manual de Ação Para Jovens não pretende apenas fazer-te pensar sobre os teus direitos na Internet, mas também te dá a possibilidade de garantires que a tua voz seja ouvida pelas entidades que decidem e que legislam em Portugal.

 

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Pais processados por partilha de centenas de fotos no Facebook

Setembro 27, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do site https://pplware.sapo.pt/ de 17 de setembro de 2017.

Apesar dos alertas dados relativamente aos perigos da partilha de fotos de crianças na Internet, a verdade é que se os responsáveis legais das crianças autorizarem essa partilha, se forem os próprios a fazê-la, ninguém os pode impedir.

Mas, além das muitas consequências graves que este tipo de partilha pode constituir, as crianças (que um dia crescem) podem não gostar de ter a sua infância exposta na Internet. Foi isso mesmo que aconteceu recentemente com uma jovem que viu mais de 500 fotos suas de criança, incluindo as mais íntimas e embaraçosas, serem expostas pelos próprios pais no Facebook. Agora, aos 18 anos, está a processar os pais.

Desde que, em 2009, a rede social Facebook surgiu na vida dos pais desta jovem austríaca, agora com 18 anos, que toda a sua infância foi exposta na Internet sem a sua autorização.

Fotos na sanita, despida e muitas outras fotos de quando ainda era criança e que considera embaraçosas – mais de 500 fotos -, foram partilhadas pelos seus pais na Internet, numa página de Facebook com mais de 700 amigos, que ignoraram todos os seus pedidos de remoção.

referiu a jovem em entrevista ao The Local

Agora, com 18 anos, a jovem está a processar os pais de forma a obrigá-los a retirar todas estas suas fotografias da rede social.

Segundo o seu advogado, esta partilha das fotografias viola o direito de privacidade da jovem, acreditando que os pais serão obrigados a apagá-las, contudo, o pai opõe-se e considera que tem direito a partilhar as fotos uma vez que foi ele que as captou.

Esta é apenas uma das consequências a que os responsáveis legais das crianças estão sujeitos quando partilham pela Internet fora as peripécias das suas crianças. Mas há mais. Deve estar bem ciente de que qualquer fotografia que “cai na Internet” deixa de ser sua, mesmo que ache que só a partilhou na sua conta de Facebook para mostrar à sua lista de amigos. Não é assim. O controlo sobre elas deixa de estar nas suas mãos assim que clica em partilhar e passa para as mãos de quem tiver acesso a elas e nada poderá ser feito.

Aqui no Pplware já elaborámos uma lista de 10 tipos de situações em foto ou vídeo que envolvem os seus filhos e os filhos dos outros, que nunca deve expor nas redes sociais. O artigo que explica os 10 pontos abaixo, pode ser encontrado aqui.

10 fotos dos seus filhos que não deve publicar na Internet

1 – Fotos de momento íntimos da criança

2 – Fotos que localizam

3 – Fotos que identificam sítios e hábitos

4 – Fotos institucionais

5 – Fotos com os amiguinhos

6 – Fotos que revelam mais que o necessário

7 – Imagens embaraçosas

8 – Fotografias exibicionistas de ostentação

9 – Imagens de uma vida

10 – Fotos publicitárias

 

 

 

E depois dos ecrãs: que vida pode sobrar?

Maio 11, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do https://www.publico.pt/ de 1 de maio de 2017.

Estamos rodeados de ecrãs e a vida parece caber em meia dúzia de polegadas. Nos transportes públicos, nos restaurantes, em casa. Há quem pense que a utilização febril dos dispositivos conduz afinal a uma nova forma de ignorância.

Inês Chaíça

“Nada é mais significativo e deprimente do que ver numa entrada de uma escola, ou num restaurante popular, ou na rua, pessoas que estão juntas, mas que quase não se falam, e estão atentas ao telemóvel, mandando mensagens, enviando fotografias, vendo a sua página de Facebook, centenas de vezes por dia”, escreveu o colunista José Pacheco Pereira na sua última crónica de 2016 para o PÚBLICO. Nela, define um novo tipo de ignorância: aquele que não está apenas relacionado com a falta de conhecimento pura e dura, mas com a falta de interesse pelo que nos rodeia – e que estaria, em grande parte, relacionada com os dispositivos electrónicos e as redes sociais.

Fala também da falta de capacidade de questionar o mundo e de distinguir a informação certa da falsa. E, pior: porque a informação não-verificada se propaga de forma tão rápida nas redes sociais, Pacheco Pereira define-as como “viveiros de populismos”. Será apenas isso?

Miguel C. Tavares e José Alberto Gomes estiveram em Hong Kong e as imagens que trouxeram parecem ilustrar a crónica de Pacheco Pereira (ainda que não estejam directamente relacionadas). Em cinco minutos, a curta-metragem In Between mostra uma sociedade alheada do que se passa à sua volta e presa aos ecrãs.

Miguel Tavares, formado em arquitectura mas que hoje em dia é realizador freelancer, explicou ao PÚBLICO que não foi para Hong Kong com uma ideia pré-definida – passou lá um mês a misturar-se com a população e com a cidade e a perceber como funcionam as dinâmicas de comunicação. “A ideia surgiu lá, não foi algo pensado”, explica. “É um tema que também me interessa e é bastante actual e pertinente: essa alienação, o facto de cada pessoa viver no seu mundo”. E trouxe para Portugal imagens de pessoas nas suas deslocações quotidianas, mas que não conseguem desligar-se: os olhos estão presos ao ecrã do smartphone e os auriculares não saem dos ouvidos.

Conta que sentiu mais isso em Hong Kong do que em Portugal, “pela própria dinâmica da cidade” e “pelas distâncias que as pessoas percorrem de transportes”, que acabam por atirá-las para o refúgio do telemóvel e das redes sociais. “Em Portugal não há nada parecido”, considera. Talvez nas grandes metrópoles europeias, mas ainda assim com algumas reservas.

As reacções que teve enquanto filmava são sintomáticas dessa diferença entre as sociedades ocidentais e orientais: “Era impossível tentar fazer o mesmo em Portugal. Eles têm um à-vontade muito grande com as fotografias e com as câmaras”. No entanto, salienta uma certa falta de abertura em relação ao outro, uma certa reserva e uma vontade de manter as distâncias – salvaguardando que o choque de culturas pode ser a causa disso.

Miguel C. Tavares já não é novato nas andanças dos festivais de cinema. Com a curta-metragem Sizígia, realizada pelo colectivo Ruptura Silenciosa, do qual fez parte, esteve no Festival Internacional de Cine de Mar del Plata, na Argentina, no Festival Court c’est Court, em Cabrières d’ Avignon, França, e no Indie Lisboa, todos em 2013. A curta-metragem ??? IN BETWEEN ???, filmada em 2016, ainda não se estreou em nenhuma plataforma e é mostrada publicamente agora pela primeira vez.

A “linha da vida” que é o smartphone

Estamos cada vez mais ligados e já quase não sobram dúvidas: o smartphone passou a ser o veículo principal da navegação na Internet a nível global – e os jovens são os seus principais utilizadores. “No Brasil, em três anos, passou-se de 30% de jovens que acediam à Internet pelo smartphone para 85%”, explica Cristina Ponte, investigadora e professora na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (FCSH-UNL) que se especializou nas questões que envolvem crianças e jovens e os media. “Num estudo com 44 jovens universitários angolanos, verificou-se que menos de 10 têm um computador e uma ligação à Internet a partir de casa, por isso é o smartphone que os liga ao mundo”. Em Portugal, ainda há uma grande tradição na utilização do computador porque “os jovens cresceram com os programas do e-escolas e e-escolinhas, que lhes deram acesso a computadores portáteis”, explica a investigadora.

Mas a tendência para a crescente utilização do smartphone é real e começa a ter consequências. Pacheco Pereira, por exemplo, alerta para a alienação quase total dos jovens: “Não há maior punição para um adolescente do que se lhe tirar o telemóvel, e alguns dos conflitos mais graves que ocorrem hoje nas escolas estão ligados ao telemóvel que funciona como uma linha de vida”, escreveu.

Cristina Ponte, professora universitária, confirma que os jovens confiam cada vez mais no smartphone. “Por exemplo, os meus alunos dizem-me muitas vezes que deram uma vista de olhos no texto que mandei para ler no telemóvel, mas isso não dá para nada”. A investigadora diz que há coisas que têm de levar o seu tempo – e ler é uma delas. “Concordo com Pacheco Pereira quando ele diz que o tempo da leitura não é o tempo da imagem em movimento – sobretudo se estas imagens durarem apenas 60 segundos e forem mudas. Há um tempo que pede para ser vivido de forma mais lenta”.

No entanto, salienta que a sensibilidade para os perigos da Internet e dos ecrãs é fruto da cultura familiar e dos processos prévios – e não apenas do facto de se ser jovem, como parece sugerir Pacheco Pereira na passagem citada acima. O espírito crítico nasce de um “ambiente estimulante” criado em casa, diz a investigadora, de jovens que foram incentivados, desde cedo a exprimirem as suas opiniões. “Não podemos ver os jovens e a tecnologia e ignorar os ambientes familiares em que viveram, a educação que tiveram, o facto de terem crescido em condições de liberdade e de acesso a um conjunto diversificado de literatura, cinema, teatro…”, explica a investigadora, acrescentando que todas as pessoas têm recursos diferentes, o que justifica o facto de a tecnologia não actuar em todas as pessoas da mesma forma. Por isso, defende, é perigoso generalizar, como fez Pacheco Pereira.

Activismo político e as redes sociais

“Há jovens que têm a capacidade de ter um espírito crítico e tiram partido das redes sociais, normalmente com um sentido mais activista”, adianta a mesma investigadora. O que explica, em parte, os movimentos activistas (de jovens e não só) nascidos nas redes sociais. Cristina Ponte considera que os telemóveis e as redes sociais facilitam a organização e mobilização em torno de uma causa. Isso ganha mais expressão no caso dos jovens porque “estão sempre na vanguarda das tecnologias, são capazes de se mobilizar e fazer curto-circuito à informação mainstream”.

Ao mesmo tempo, assiste-se a um tempo em que os jovens não parecem ter outra alternativa às redes sociais. Cristina Ponte salienta que na actualidade há alguns espaços que lhes são interditos, e que os obrigam a procurar outras formas de estarem em contacto uns com os outros. A rua, por exemplo, tornou-se num espaço quase proibido e os adolescentes são vistos como arruaceiros se andarem em grupo.

Já Tiago Lapa, investigador do Centro de Estudos de Sociologia do ISCTE-IUL e professor na mesma universidade, salienta o carácter mais tradicional das manifestações de interesses políticos que começam nas redes sociais e que passam para a rua. “Quem usa as redes sociais quer transmitir uma mensagem”, sintetiza. “Os movimentos sociais organizam-se a partir das redes sociais – o que provoca uma certa globalização desses movimentos – mas há que perceber que um dos objectivos dessas mobilizações é, precisamente, aparecer na televisão”, acrescenta o investigador.

Exemplo disso foi a manifestação de 12 de Março de 2011, que ficou conhecida como manifestação da “gração à rasca. Tiago Lapa diz que as redes sociais foram peças centrais nessa manifestação, mas que se “não tivesse sido televisionada, não teria o impacto que teve na percepção das pessoas”.

Já António Guerreiro, ensaísta, crítico literário e cronista, tem uma visão mais céptica sobre a possibilidade de as redes sociais se constituírem como a voz de um movimento político. Conta ao PÚBLICO que, até hoje, “não há uma comunidade política ou um sujeito social constituídos através das redes sociais”. O que não quer dizer, explica, que as redes sociais não produzam efeitos, mas são “de outra ordem”. “As redes sociais são um bom exemplo de um mecanismo hipertélico, algo que vai para além dos seus próprios fins e se anula por isso”, considera.

“Quem não está na rede é como se não existisse”

Se não foi fotografado, comentado ou gravado no Facebook, no YouTube, no Twitter ou no Instagram é porque não aconteceu: é esta a lógica que parece reger a comunicação nas redes sociais. E, segundo Cristina Ponte, é importante pensar nos tipos de vigilância que instaura. Por um lado, a vigilância positiva, o facto de “podermos tirar uma fotografia a algo que achemos injusto”, como descreve a investigadora, e partilhá-lo numa questão de segundos. Por outro, instaura “um tipo de vigilância e controlo, tidos quase como naturais, e que colocam muitas questões de privacidade e reserva”. E, de facto, o que está na Internet não sai da Internet – para o bem e para o mal. O direito ao esquecimento impõe-se como um novo debate político, cujas bases só agora foram lançadas. “É uma batalha política pura que poderá ganhar algum relevo nos próximos anos”, avalia Tiago Lapa.

Parecemos cada vez mais alheados do mundo – mas saltamos de aplicação em aplicação e sabemos exactamente o que cada um dos nossos amigos está a fazer. Como Pacheco Pereira coloca a questão: “quem envia um ping espera um pong”, escreveu o colunista da sua primeira crónica deste ano no PÚBLICO, em que voltou ao tema. “É uma pressão para estarmos constantemente ligados e a responder num tempo vertiginoso”, confirma Cristina Ponte. “[Os novos meios] são quase totalitários. Quem não está na rede é como se não existisse”, afirma a investigadora da FCSH.

Em Portugal são cada vez menos os casos de pessoas que optam por não pertencer ao universo das redes sociais. O número de utilizadores continua a aumentar e isso tem a ver com a “nossa cultura latina”, de querer saber sempre o que os outros estão a fazer. “A cuscar”, como resume a professora.

“A sociedade da transparência, ditada pelos media sociais, retira a distância mas ao fazer isso retira a possibilidade da descoberta e da curiosidade”, explica Tiago Lapa. Dá a falsa impressão de que é possível conhecer e saber tudo sobre uma pessoa, apenas através daquilo que ela escolhe publicar na Internet. “Essa transparência é enganadora e extremamente redutora”, adverte o investigador do CIES, até porque a personagem online é construída e “aquela pessoa tem outra vida, outras máscaras e outros sentimentos, é apenas uma versão de si mesma”.

Contudo, não se trata, necessariamente, de “sociedades sem relações humanas de vizinhança, de companhia e amizade, sem interacções de grupo, sem movimentos colectivos de interesse comum” como avalia Pacheco Pereira. Cristina Ponte afirma, que, pelo menos no caso dos adolescentes, estas dinâmicas sociais não são novas. “É o que faz com que o jovem se sinta integrado”, especialmente no caso das raparigas. Antigamente “eram as cartas, depois as cassetes, os telefones, todo um conjunto de recursos tecnológicos que eram dados aos adolescentes” e que, na essência, não são diferentes dos media sociais.

Alienação e a (aparente) ascensão dos populismos 

Quando se tira o holofote dos jovens e adolescentes e se passa para os adultos, o cenário não sofre grandes alterações. Pacheco Pereira escreve que “não é por acaso que o grande reservatório do populismo político e social nas sociedades ocidentais são as redes sociais, que, não sendo a causa do populismo, são um seu grande factor de crescimento e consolidação”. Será que há necessariamente uma relação entre as duas coisas?

A opinião de Tiago Lapa não é totalmente contrária. Explica que o problema não é exclusivo das redes, mas de um conjunto de condições políticas especiais que “tornam esses discursos atractivos”. As pessoas transmitem as suas opiniões sobre um determinado assunto “utilizando uma ferramenta que têm à mão, que são as redes”. Mas ressalva que tem mais a ver “com os mensageiros do que com os meios” – portanto isto podia acontecer na Internet, na rua ou nas páginas de um jornal. De acordo com o professor do ISCTE, as redes sociais suprimem algumas necessidades de sociabilidade mas “ainda são um meio que temos de aprender a utilizar”. O que falta, muitas vezes, é uma abordagem crítica sobre o que se lê – uma certa desconfiança em relação à fidedignidade e credibilidade das pesquisas online. E para generalizar esse espírito crítico há que aumentar a literacia da população: fazer com que saibam descodificar mensagens e perceber o objectivo do emissor quando escreve e publica nas redes sociais.

Não se trata de uma época com falta de informação. Trata-se, antes, de um contexto em que há “várias informações contraditórias disponíveis” – há demasiada informação e não se sabe em quem acreditar. Em paralelo, houve a deterioração de “um conjunto de autoridades, sendo o jornalista uma delas”. Também neste ponto, Tiago Lapa e Pacheco Pereira estão de acordo.

Discordam apenas na definição de “nova ignorância”. Pacheco Pereira define “este novo tipo de ignorância” como um “ataque ao saber, ao conhecimento certificado, em nome de um igualitarismo da ignorância”. Tiago Lapa tem algumas reservas. A existência de várias fontes de informação não é necessariamente negativa: “Permitem canais alternativos para obter informação fora dos canais mainstream”, diz Tiago Lapa, o que é positivo porque cada pessoa pode fazer a sua dieta informativa própria.

O investigador, por outro lado, não concorda que os ecrãs e as redes sociais por si sejam um meio de alienação, como sugere Pacheco Pereira. A discussão, aliás, já é antiga. “É uma associação muito antiga e que já vem com o cinema, com a televisão, com os grandes meios de comunicação e que agora é associado à Internet”, explica Tiago Lapa. Essa teoria baseia-se num conjunto de pressupostos, como a falta de pensamento crítico e passividade dos consumidores de conteúdos. “Sim, qualquer meio tem potencial de alienação”, admite o professor, “mas há que perceber para que grupo e em que condições”.

António Guerreiro, por sua vez, coloca a questão da alienação noutra perspectiva: “o mundo que nos rodeia não é o das tecnologias, da realidade virtual, das imagens sem referente? Se estamos atentos a esse mundo, estamos atentos ao real porque não existe outro”. Não se trata necessariamente de alienação. Na perspectiva do ensaísta aceitar que existe alienação “seria aceitar uma velha concepção de que estamos mergulhados na ‘ideologia’”, que precisa de ser afastada, “como um véu”, para aceder à verdade.

Para além dos ecrãs, o que existe?

Nem a Organização Mundial de Saúde nem o manual da Associação Americana de Psicologia definem a dependência da Internet como uma doença mental. No entanto, há programas de tratamento para a dependência da Internet, que a equiparam a adições a substâncias como a droga ou o álcool. Daniel Sampaio, psiquiatra responsável pelo Núcleo de Utilização Problemática da Internet do Hospital de Santa Maria, explica ao PÚBLICO que “as pessoas que têm dependências da Internet, do ponto de vista do cérebro, não são muito diferentes das que são dependentes das drogas ou do álcool”: “Tem a ver com a diminuição da ansiedade”, explica.

O que distingue a utilização normal da utilização abusiva da Internet é o prejuízo da vida pessoal e social. Faltar à escola, ao trabalho, às refeições e aos convívios com amigos seriam sinais de uma utilização abusiva. O simples facto de estar sempre ligado não faz com que alguém seja viciado na Internet – acontece apenas a partir do momento em que se deixar de lado as actividades do quotidiano. Na categoria dos casos pouco problemáticos estão as “pessoas sozinhas”, mas com “óptimas relações em presença”, que desenvolvem com recurso a vários dispositivos, descreve Daniel Sampaio.

“O grande problema das pessoas dependentes da Internet é que muitas vezes têm patologias associadas, sintomas de outras doenças mentais, particularmente sintomas depressivos ou ansiosos”, afirma o psiquiatra. O tratamento é psicológico e psiquiátrico e consiste em tratar as perturbações associadas, fazendo, ao mesmo tempo, uma desabituação à Internet – mas nunca cortando abruptamente o seu uso.

Os casos de pessoas que apresentam sintomas de dependência relançam o debate sobre o progresso. Este debate é antigo, e no entender de Tiago Lapa, está resolvido. O progresso técnico nem sempre anda de mãos dadas com o progresso social e isso é óbvio em muitas esferas da vida quotidiana. “Não é por termos melhores aparelhos que vivemos melhor”, resume.

A questão do trabalho é sintomática de uma utilização da Internet que nem sempre se traduz numa melhoria das condições de vida, que é, por sua vez, um debate político. Algumas profissões tornaram-se obsoletas e a intensificação do trabalho é uma realidade. O direito a desligar, que deu origem a uma nova lei em França e que tem passado, também, para as agendas políticas de outros países europeus, é exemplo disso. Para Cristina Ponte, a questão é simples: trata-se de bom senso da parte de quem manda um e-mail ou tenta telefonar fora do expediente. “Esta discussão é importante para nos fazer pensar que temos que ter respeito pelo outro e pelo seu tempo de descanso”, considera. Resume a questão de maneira peremptória: “Podem mandar e-mail, mas não fiquem à espera que responda”.

No entanto, evidencia que “na maior parte do tempo, as pessoas estão ligadas, não por causa do trabalho, mas porque há um certo horror ao ‘não fazer nada’”. E isso reflecte-se na maneira como os pais educam os filhos: “Há pais que acham que o tempo dos ecrãs deve ser útil, por isso, os filhos devem estar a fazer alguma coisa educativa”, resume a investigadora. E isso nem sempre é o melhor do ponto de vista pedagógico.

Esta nova sociabilidade “faz parte de sociedades em que deixou de haver silêncio, tempo para pensar, curiosidade de olhar para fora, gosto por actividades lentas como ler, ou ver com olhos de ver”, escreve Pacheco Pereira. As questões avolumam-se – a Internet mudou assim tanto o nosso quotidiano? Constitui um tipo de progresso? É uma nova forma de expressão política? A comunidade cientifica ainda não chegou a um consenso mas estas questões – que começam a ser agora discutidas no âmbito político – tornam-se cada vez mais relevantes.

Texto editado por Sérgio B. Gomes e Hugo Daniel Sousa

 

 

 

 

 

 

Fotos dos filhos no Facebook. Sim ou não?

Fevereiro 16, 2017 às 5:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Hugo Daniel Sousa publicado no https://www.publico.pt/ de 5 de fevereiro de 2017.

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A Maria acabadinha de nascer. O João a dormir como um anjinho. A Sofia com aquele olhar sedutor. O Miguel com um sorriso maroto de quem só tem dois dentes. Os primeiros passos do Pedro. Ou a acrobacia da Mariana no parque. Há poucas coisas mais ternurentas do que uma foto de uma criança. Especialmente se forem as nossas. Por esta razão, e mais algumas, os pais adoram mostrar as fotos dos filhos aos amigos e familiares. E os feeds do Facebook e do Instagram ou a timeline dos blogues enchem-se de fotos de crianças,

A grande questão — que até já chegou aos tribunais — é se os pais têm o direito de publicar fotos dos filhos nas redes sociais, em particular, e na Internet, em geral?

Para não ficar apenas com a minha opinião (e a minha prática), fiz uma rápida sondagem por alguns amigos. “Publicas fotos dos teus filhos no Facebook?” A primeira resposta foi curta e grossa. “Não”. Porquê? “É um assunto da vida privada”. Outra mãe, outra resposta: “Publico algumas, sempre irreconhecível e demos instruções ao resto da família para fazerem o mesmo”. “Porquê? Achas que não tens o direito de publicar ou é só por segurança?”, perguntei. “Ambas”, foi a resposta.

Voltei a fazer a pergunta, desta vez a alguém que está fora do país. “Sim, publico. Porque vivo longe e é uma maneira fácil de os meus amigos e família poderem acompanhar o crescimento deles, já que raramente os vêem”, respondeu-me um dos pais, deixando um par de ressalvas: “Tenho a preocupação de não os mostrar em situações que impliquem desconforto/embaraço (para futuro registo digital) e nunca, mas nunca, os localizo geograficamente.” E juntou uma adenda. “Num futuro próximo, poderei deixar de publicar fotos deles e até as poderei apagar todas, se for esse o desejo deles.”

A última resposta que recebi é muito parecida com a anterior. Os pais só publicam fotos dos filhos às vezes, mas com o cuidado de as limitar aos amigos e não deixar que sejam vistas por conhecidos deles. A razão para publicar fotos é fácil de adivinhar. “Porque sou uma mãe estupidamente babada. E para ir dando noticias nossas à família e amigos espalhados pelos quatro cantos do mundo.”

Esta discussão já começou há alguns anos e promete continuar. Até na justiça. Num caso de um casal divorciado, o tribunal definiu as condições da regulação do poder parental e, entre elas, incluiu o dever de os pais não divulgarem “fotografias ou informações que permitam identificar a filha nas redes sociais”. A mãe recorreu para o Tribunal da Relação de Évora, que foi bem claro na resposta. “Na verdade, os filhos não são coisas ou objectos pertencentes aos pais e de que estes podem dispor a seu belo prazer. São pessoas e consequentemente titulares de direitos”, escreveram os juízes Bernardo Domingos, Silva Rato e Assunção Raimundo num acórdão de Julho de 2015.

Argumentando que há um “perigo sério e real” de a divulgação de fotos de crianças nas redes sociais as deixar mais susceptíveis a predadores sexuais, os juízes concluem que a proibição de publicar fotos que permitam identificar a criança é “adequada e proporcional à salvaguarda do direito à reserva da intimidade da vida privada e da protecção dos dados pessoais e sobretudo da segurança da menor no ciberespaço”.

Confesso que mais do que ser um legalista ou proibicionista, sou fã da lei do bom-senso. E, por isso, o que realmente me choca são os pais que publicam fotos dos filhos sem qualquer pudor ou contenção (e, como viram, não é o caso dos amigos acima citados). Mas há muitos que não respeitam as dicas básicas de segurança, como enumerava um artigo da Notícias Magazine, de Junho de 2014: nunca publicar fotos de crianças no banho ou de fraldas, nem com uniformes escolares; evitar pôr fotos em alta resolução; não fazer post de imagens em que crianças aparecem com objectos de valor ou imagens em que seja fácil identificar o local (a escola, a casa, etc). Também fundamental é ter o cuidado de restringir ao máximo o número de pessoas que podem ter acesso à imagem no Facebook, limitando, por exemplo, a acesso a amigos mais próximos — e, mesmo assim, as definições de privacidade no Facebook são um mundo em constante mutação, sendo fácil cometer erros.

Estes conselhos são todos úteis para quem não resistir à tentação. Eu, porém, prefiro seguir neste caso a regra do menos é mais: zero fotos é igual a zero riscos. E as imagens hão-de chegar, por outros meios (menos fáceis mas mais seguros), aos avós, tios e amigos que vivem longe. É que — como alguém escreveu num texto erradamente atribuído na Internet a José Saramago — um “filho é um ser que nos emprestaram para um curso intensivo de como amar alguém além de nós mesmos, de como mudar os nossos piores defeitos para darmos os melhores exemplos e de aprendermos a ter coragem”. Na feliz (e assustadora) expressão desse autor desconhecido, os filhos “são apenas um empréstimo”. E, por isso, prefiro que um dia não me cobrem essa dívida: “Pai, como foste capaz de publicar esta foto minha no Facebook?”.

 

Debate: Controvérsias Tech and Touch sobre a disponibilização de dados pessoais de alunos no sítio da Internet dos estabelecimentos de educação e ensino – 26 de janeiro na Fundação Portuguesa das Comunicações.

Janeiro 22, 2017 às 8:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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mais informações:

http://www.anpri.pt/mod/forum/discuss.php?d=1923

Workshop “Privacidade na Internet | Direitos e Responsabilidades, que Futuro?” Fórum Picoas, LISBOA | 28 de outubro

Outubro 23, 2016 às 7:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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mais informações:

https://www.eventbrite.pt/e/registo-workshop-privacidade-na-internet-direitos-e-responsabilidades-que-futuro-28730215849

Escolas não podem mostrar dados pessoais de alunos na Net

Outubro 12, 2016 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.publico.pt/de 12 de outubro de 2016.

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Mariana Oliveira

Em causa divulgação de informação em sites abertos. Publicação de fotografias e vídeos de alunos em ambiente escolar suscita “as maiores reservas” da Comissão Nacional de Protecção de Dados.

A Comissão Nacional de Protecção de Dados (CNPD) condena numa deliberação recente o que considera ser “uma prática generalizada” de divulgar dados pessoais dos alunos nos sites das escolas, como as pautas com as classificações, imagens dos menores e os horários lectivos. E alerta para os riscos que esta publicação traz para essas crianças e jovens, nomeadamente para a sua segurança.

A comissão diz que os dados podem ajudar a produzir “juízos estigmatizantes com elevado potencial discriminatório” ou permitir a um criminoso saber a hora a que uma criança sai da escola.

É esta constatação que leva a comissão a emitir “orientações precisas” às escolas públicas e privadas, desde o pré-escolar até ao ensino secundário, sobre o que podem difundir através da Internet, numa deliberação datada de 6 de Setembro.

A porta-voz da CNPD, Clara Guerra, afirma que esta deliberação foi tomada por iniciativa da própria comissão, na sequência de diversas queixas de pais feitas ao longo dos últimos anos e que não sabe contabilizar. Clara Guerra adianta que alguns destes casos já resultaram na aplicação de coimas às escolas.

Na deliberação, a comissão destaca o papel das escolas na formação e desenvolvimento individual das crianças, realçando que estas instituições têm uma particular obrigação de “proteger activamente os alunos e respeitar os seus direitos fundamentais”.

A CNPD considera compreensível e desejável que as escolas recorram à Internet como um meio expedito e eficaz de divulgar informação, mas sublinha que a exposição pública dos dados dos menores detidos pelas escolas “é altamente violadora da privacidade e tem um impacto muito significativo na vida actual e futura dos alunos”.

A comissão lembra que a Internet “é acessível por qualquer pessoa, em qualquer parte do mundo”, os dados podem ser copiados e reproduzidos infinitamente, propiciando “a utilização abusiva dessa informação para vários fins, inclusivamente com propósitos criminosos”. E nota que nos sites pode ser divulgada um manancial de informação útil sobre a actividade escolar que não envolve dados pessoais, isto é, “informação relativa a uma pessoa singular, identificada ou identificável”.

Consentimento dos pais

A publicação de fotografias e vídeos de alunos em ambiente escolar suscita “as maiores reservas” da comissão. A comissão diz que a divulgação de imagens e até da voz dos alunos, por iniciativa das escolas, “cria um universo de oportunidade para reproduzir e adulterar os dados, fomentando a sua reutilização para outras finalidades que não são sequer à partida imagináveis”.

A deliberação refere que esta questão não está prevista na lei, mas considera que mesmo o consentimento expresso e livre dos pais pode não ser suficiente. E lembra um acórdão da Relação de Évora, de Junho de 2015, que impôs aos pais o dever de se absterem de divulgar fotografias ou informações que permitissem identificar a filha nas redes sociais.

“Em todo o caso, compreendendo o interesse subjacente à divulgação das actividades da escola, será admissível a divulgação de imagens que não permitam a identificação das crianças e jovens”, lê-se no texto, que aconselha as escolas a privilegiar “a captação de imagens de longe e de ângulos em que as crianças não sejam facilmente identificáveis”. Mesmo nestes casos a CNPD considera ser necessário o consentimento dos pais, já que existe uma certa subjectividade na definição do que é uma imagem identificável.

A comissão não admite sequer remeter estes conteúdos para uma área reservada dos sites, acessível só a utilizadores com palavra-passe, uma solução que a comissão defende no caso das pautas de avaliação e nas listas de alunos matriculados. “Não é possível controlar a forma como cada um dos utilizadores pode vir a fazer do uso das imagens, inclusivamente manipulando-as ou reproduzindo-as em redes sociais e divulgando informação não só sobre si e sobre o seu educando, mas também sobre as restantes crianças”, justifica.

Pautas devem ser retiradas

Relativamente às pautas com as avaliações dos alunos, considera-se que não podem ser publicadas em site de acesso livre e que as que já o foram devem ser retiradas. A comissão admite que essa informação seja publicada em áreas reservadas dos sites, “sujeita a mecanismos rigorosos de autenticação de utilizadores devidamente autorizados”. Mas insiste que cada encarregado de educação só deve ter acesso aos dados do aluno que tutela.

Lembrando que as pautas só são afixadas no interior das escolas “por um curto período de tempo”, sustenta que a regra deve ser igualmente seguida na Internet. “As classificações devem ser eliminadas do sítio com eficácia, isto é, não apenas ‘escondidas’, mas efectivamente apagadas, não podendo nunca exceder o prazo máximo do final do ano lectivo em causa.”

Também as listas dos alunos matriculados apenas podem ser divulgadas em áreas reservadas dos sites e não devem conter “mais informação do que a necessária”. A CNPD alerta ainda para os perigos da informação dispersa, que apesar de não ter o nome dos alunos, pode ser cruzada com outros dados permitindo, por exemplo, perceber qual é o horário de uma determinada criança.

 

 

Internet: até onde deve ir a vigilância dos pais?

Setembro 20, 2016 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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texto do https://www.publico.pt/ de 12 de setembro de 2016.

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Natália Faria

Um pai ou uma mãe devem bisbilhotar emails e caixas de mensagens dos filhos menores nas redes sociais para acautelarem a sua segurança? A solução está na infância. E na confiança, respondem os especialistas.

Um pai ou uma mãe têm o direito de invadir a intimidade dos filhos para garantirem que estes não se expõem a riscos desnecessários na Internet? Devem, porque lhes compete zelar pela segurança dos filhos, aceder a passwords para vasculharem o que andam a fazer e com quem falam os menores no Facebook, WhatsApp, Instagram ou Snapchat? A questão extravasa cada vez mais as fronteiras domésticas e familiares para invadir os consultórios dos psiquiatras, chegando nos casos mais graves até à Polícia Judiciária (PJ), onde são crescentes os pedidos de ajuda de pais cujos filhos foram vítimas de abusos, chantagem ou extorsão na Internet.

“Quando trabalhei na divisão de Sintra da PSP, recordo-me de vários casos de menores assediados via Internet. E os casos chegaram-nos porque houve mães que acederam ao espaço das mensagens privadas das filhas nas redes sociais e descobriram lá mensagens de teor sexual”, relata Hugo Palma, actualmente director do gabinete de comunicação da PSP e responsável pela gestão das páginas oficiais da polícia nas redes sociais.

Uma fonte da PJ confirma que “há um número crescente de queixas e, em dois terços dos casos, são os pais que denunciam a situação, já no limite, depois de os seus filhos terem sido vitimizados”. E aqui é escusado, como alerta Rute Agulhas, psicóloga clínica e forense e perita no Instituto Nacional de Medicina Legal, os pais agarrarem-se a uma “visão cor-de-rosa das coisas” e considerarem que episódios destes só acontecem aos outros.

“Não há muito tempo, chegou-me o caso de uma miúda depois de uma tentativa de suicídio grave porque alguém tinha publicado uma fotomontagem em que ela aparecia com o corpo de uma vaca, fazendo a metáfora com a miúda que vai com todos. Ela andava no 7.º ano de escolaridade e isso tornou-se viral. E lembro-me de outro caso, de uma miúda com 13 ou 14 anos — carente e que ficava muito tempo sozinha em casa —, que acabou por se encontrar presencialmente com alguém que se apresentou na Internet como tendo 17 anos e com quem estabeleceu uma relação virtual. O indivíduo, afinal, tinha 35 anos, mas quando ela o viu e sentiu esse choque já estava criada uma relação afectiva e de confiança e ele lá lhe explicou que tinha mentido por sentir medo de ser rejeitado. Acabou por coagi-la a ter relações sexuais”, relata Rute Agulhas, que é também professora no ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa e autora de um jogo para prevenir abusos sexuais em crianças onde decidiu incluir a problemática da Internet depois de ter percebido que “há crianças com seis e sete anos de idade com acesso à Internet”.

Espaço cinzento

Numa altura em que os miúdos se inscrevem nas redes sociais com oito e nove anos de idade, até onde deve chegar a vigilância dos pais? E aos 15 ou 16 anos? Justifica-se que os progenitores sacrifiquem o direito de reserva da vida privada dos filhos para lhes garantir segurança? “Há um espaço cinzento muito complicado e difícil de definir”, hesita Hugo Palma. Para o intendente da PSP, “as mensagens privadas são, em princípio, espaços onde os pais não devem entrar, mas aí coloca-se a questão ética de saber se os pais não têm o dever de fazer esse controlo para salvaguarda da protecção da criança”.

Sem respostas prontas, a investigadora na área do Direito da Informação, Maria Eduarda Gonçalves, posiciona a questão do ponto de vista jurídico: “Aqui joga-se o dever legal e o direito da família a proteger os filhos que ainda não atingiram a maioridade legal face aos riscos potencialmente gravosos que as redes sociais comportam. A questão coloca-se quando esse dever entra em tensão com o direito constitucionalmente garantido de protecção de reserva da vida privada, que todos têm, nomeadamente as crianças. Portanto, trata-se de saber a que ponto se justifica que, face a determinados riscos, os pais interfiram nessa liberdade e autonomia individuais dos filhos, consultando-lhes o email, os espaços de mensagens”, cogita a jurista. E o mais próximo que chega de uma conclusão é isto: “Diria que nenhum direito é absoluto. Em abstracto, não se pode ir muito mais longe do que admitir que há limites a esse direito e que os pais não podem descurar essa questão, desresponsabilizando-se e deixando as crianças menores sozinhas no exercício desse direito à privacidade.”

Na cabeça — e no consultório — de Daniel Sampaio, psiquiatra e terapeuta com mais de 30 anos de experiência com adolescentes e famílias, a equação coloca-se a outros níveis. “Sou contra o conhecimento de passwords e contra a invasão de privacidade por parte dos pais”, introduz. E sustenta: “Não é através de uma vigilância do tipo policial que se resolvem os problemas entre pais e filhos e a quebra da confiança na relação entre uns e outros é um ingrediente decisivo para o conflito.” Porque “o clima entre pais e filhos tem de ser de confiança e partilha e a vigilância policial degrada as relações e leva ao conflito”, o psiquiatra mostra-se também avesso ao recurso às aplicações que permitem vigiar a actividade dos filhos na Internet sem o seu consentimento, a não ser “como medida extrema”. Não se trata de ignorar os riscos. “Em primeiro lugar, é importante que os pais utilizem bem as redes sociais eles próprios e que falem disso com os filhos. Se uma criança perceber o que está certo e errado terá menos possibilidades de errar”, preconiza.

Em casa, não na escola

Imagine-se então uma criança de dez anos que insista em criar uma conta no Facebook. “Os pais devem acompanhar a inscrição e a publicação dos primeiros conteúdos e têm que ter uma dimensão ética, explicando-lhe o que deve e o que não deve fazer. Têm que lhe explicar que não deve comentar as imagens dos outros, que não deve fazer comentários sobre os corpos dos amigos, que pode comunicar e trocar determinadas imagens dos sites que encontra mas que não deve publicar imagens de pessoas”, aconselha Daniel Sampaio. O psiquiatra insiste que a chave está na confiança e que esta se ganha na infância. “É aí que se estabelece a possibilidade de um filho que tem um problema desabafar com os pais. Feito isso, será mais fácil que, perante uma situação de maior risco, os filhos recorram aos pais e desabafem com eles.”

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E não, não compete às escolas fazer esse trabalho de sensibilização. “Os miúdos na escola aprendem os riscos associados às redes sociais no 8.º ano, em que já têm mais de 13 anos e podem legalmente aceder às redes sociais. Mas basta ir a um auditório de uma escola do 1.º ciclo para perceber que 80% dos miúdos com oito ou nove anos já têm contas nas redes sociais”, relata Tito de Morais, fundador do MiudosSegurosNa.Net, um projecto dedicado a promover a utilização segura das novas tecnologias por crianças e jovens.

“A situação em que os pais se encontram perante um filho de oito ou dez anos que queira abrir uma conta numa rede social não é fácil e coloca-lhes um dilema: ou respeitam as regras e recusam abrir a conta porque isso implica mentir — no Facebook, por exemplo, a idade mínima são os 13 anos —, e aí correm o risco de o miúdo abrir a conta sozinho, ou aceitam abrir a conta mas ficam com a password e o username para poderem fazer algum acompanhamento.”

Claro que o que é válido para um miúdo de dez anos dificilmente o é para um de 16. “Aqui, o controlo parental, mesmo que pareça consentido, pode funcionar ao contrário, ou seja, os miúdos vão esconder a verdadeira conta que usam e os pais ficam com acesso a uma conta fictícia onde não publicam nada, porque a tendência nesta idade será para ver a supervisão dos pais como uma intrusão e uma bisbilhotice”, aponta Tito de Morais.

E voltamos aqui à questão da confiança. “Os pais não podem deixar os filhos com rédea solta na Internet mas têm que ter noção que, se eles quiserem esconder a sua actividade na Internet, não lhes faltam formas de o fazer. Por isso é que é tão importante que os pais consigam criar uma relação de confiança com os filhos e mantenham as linhas de comunicação abertas para que estes se sintam à-vontade para pedir ajuda no dia em que fizerem uma asneira ou forem vítimas de uma situação na Internet”, sugere, dizendo-se seguro de que esse dia chegará, mais cedo ou mais tarde: “Não há anjinhos, todos fazemos asneiras. A diferença é que hoje essas asneiras tendem a chegar ao conhecimento de todos e a ficar registadas para a posteridade.”

Quebrar tabus

Ao longo das suas inúmeras incursões pelas escolas, Tito de Morais ouviu muitas histórias. “Cada vez mais os jovens usam estas tecnologias como forma de expressar a sua sexualidade e partilham fotos e vídeos com as pessoas com quem mantêm relações amorosas. Mas as relações tendem a ser menos duradouras que as fotografias e os vídeos. E aquilo que foi partilhado com a intenção de ser visto pelo namorado ou pela namorada acaba muitas vezes disseminado pela Internet.”

Cabe aqui aos pais explicar o risco de registar a intimidade em formato digital. E, no equilíbrio necessário entre o dever de supervisão e o respeito pela privacidade dos filhos, quando estes se mostrem menos receptivos à ingerência parental, Tito de Morais aponta como exemplo o amigo que estabeleceu um pacto com os filhos: “Ele não sabe a password dos filhos mas combinaram mantê-la num envelope fechado que o pai pode abrir caso suspeite de alguma coisa. Mas também conheço pais que não hesitam em sacrificar a privacidade dos filhos e outros que recusam assumir o papel de polícias na vida deles. Tudo depende da postura e dos valores.”

Claro que, como lembra Rute Agulhas, “aos 15 anos ninguém quer os pais a invadir-lhes a privacidade, a entrar no quarto sem bater ou a inspeccionar as mochilas”. Mas, se esse dever de supervisão e os cuidados que é preciso ter forem devidamente explicados desde a infância, já será mais fácil na adolescência equilibrar o controlo parental com o respeito pela privacidade. “Se este trabalho começar na infância — e tenderia a defender que, mais do que bisbilhotar sem os filhos saberem, os pais devem exigir ter conhecimento das passwords até aos 14 ou 15 anos, porque a supervisão faz parte das suas responsabilidades parentais —, o resto surge naturalmente.”

Tudo depende da capacidade — “que muitos pais não têm”, como lembra Rute Agulhas — de quebrar os tabus e começar a falar de sexualidade com os filhos. “Muitos pais ou cuidadores dizem-nos que até querem falar mas que não conseguem arranjar um canal de comunicação. Mas têm mesmo de o fazer. De serem capazes de explicar que uma câmara num computador, mesmo desligada, pode ser accionada remotamente e que o melhor é tapá-la com fita-cola. E têm de ser capazes de o fazer sem provocar alarmismos, com a mesma naturalidade com que alertam os miúdos para os cuidados que estes têm de ter quando atravessam a rua numa passadeira.”

O que é proibido, isso sim, é continuar a confiar na aparente segurança que lhes confere o facto de a criança ou o jovem estarem em casa, sentados no sofá, entretidos com o tablet, o telemóvel ou o computador. E “infelizmente”, conclui Rute Agulhas, “muitos pais continuam a preferir ignorar que os perigos a que os filhos estão expostos na Internet, mesmo as crianças de seis anos que acebem ao YouTube, são muito maiores do que se estivessem na rua a brincar em frente ao prédio”.

 

 

 

 

 

 

Should Parents Post Photos of Their Children on Social Media?

Junho 6, 2016 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do The Wall Street Journal de 23 de maio de 2016.

 A parent on average will post almost 1,000 photos of a child online before the child turns 5, a recent survey found. Photo: John Weber for The Wall Street Journal

A parent on average will post almost 1,000 photos of a child online before the child turns 5, a recent survey found. Photo: John Weber for The Wall Street Journal

Those in favor say it’s a great way to help build a community. Others say sharing violates children’s privacy and may have long-term consequences.

It’s a question any social-media user faces after snapping a great photo: Should I post this? Or it going to come back to haunt me?

The questions get doubly complex when they involve people’s children. A parent on average will post almost 1,000 photos of a child online before the child turns 5, according to a recent survey. Many parents don’t ask children’s permission before posting, and many have never checked their privacy settings—even though photos often contain data about where they were taken.

That leads many privacy advocates to urge restraint on parents. The risks of putting your child in danger now, or embarrassing them later, are too big to ignore, these critics say. The best course is to keep their photos off the Internet.

But some parents strongly argue for posting photographs of children. It’s a way to strengthen an online social circle, they say, and connect with people you didn’t know before. What’s more, children are going to end up on social media eventually, they say, and parents can set a good example for them by being careful about what photos they post and asking permission when children are old enough to consent.

Lauren Apfel, a writer and mother of four (including twins) and founder and executive editor of Motherwell magazine, makes the case for sharing photos. Arguing the case against sharing is Morgan G. Ames, a postdoctoral scholar at the Center for Science, Technology, Medicine, and Society and a fellow at the Center for Technology, Society and Policy at the University of California, Berkeley.

YES: In an Isolated Age, It’s a Great Way to Help Build a Community

By Lauren Apfel

Sharing photos of your children online can be a rewarding experience and a way to connect with other parents. But you must be prepared to be responsible about what you post.

The big reason to share is to build community. Raising children is a more isolated endeavor than ever before. I live, for example, thousands of miles from my family. In this atmosphere of modern parenthood, we all struggle to make it through the day, and the Internet has become an incredible source of support. In the early years of mothering twins, one of the things that brought me the most happiness was posting pictures of them on Facebook. Sharing those photos and engaging with an online community was a lifeline.

1Many people fear those pictures will spread further than intended. To me, that’s part of the joy of it. My work as a writer has helped me create a community on social media, and the images I post of my children allow me to engage with a range of “friends” I wouldn’t necessarily include on a tailored list. I delight in seeing their photos, too. You don’t know whom a picture will touch, what connection will be made. Unexpected people have seen my pictures and commented on how much they enjoyed them or could relate to them.

I know there is much concern about the potential dangers in sharing pictures of children: catfishing, identity theft or projected scenarios where our bundles of joy are judged by future employers because of a virtual fingerprint they did not create. But none of this bothers me. My children are my children because of the choices I make about them. They were born to parents who believe that the benefits of sharing photos of them online outweigh the risks—this is their lot, and it has been a constant, familiar part of their upbringing, one with which they seem innately comfortable.

I don’t actively avoid unintended negative consequences, because I don’t fear them per se and certainly not enough to stop posting. If problematic unintended consequences did arise because of a photograph I posted, I would deal with them on an ad hoc basis.

I will not share photos that I think are tasteless or inappropriate, or that I feel mock my children in any way. Nor will I share photos that my older children have expressly asked me not to (and, with my 10-year-old and 8-year-old, I tend to request permission).

2As critics of sharing photographs argue, there might well be much about the effects of the Internet we don’t yet know. There are always unpredictable repercussions when it comes to new technologies—but there are always new solutions. Instead of fearing the unknown, we should be embracing the digital world and all it has to offer by interacting with it in a civilized, dignified way. Parenting (indeed, life!) is hard enough without letting vague and unsubstantiated concerns for the future dictate present-day decisions.

My oldest son will soon be entering the brave new world of social media. The same way our children are the first to grow up immersed in screens, so too are they the first to be raised in the age of online parenting. We should be using our own forays into

the Internet as an opportunity: Parenting is nothing if not setting a good example.

When my son follows the winding trail of my online history, I know what he will find: a mother who prioritizes posting photos of herself and others respectfully, moderately and tactfully. And this is exactly what I will expect from him.

Ms. Apfel is a writer and mother of four (including twins). She is co-founder and executive editor of Motherwell magazine. She can be reached at reports@wsj.com.

NO: They Violate Privacy, and Without a Child Giving Consent

By Morgan G. Ames

Facebook seems to be full of friends’ adorable babies and precocious children. But a healthy proportion of parents—myself included—have decided that sharing photos carries too many risks for their children.

Why do we opt out? And what issues should parents consider when posting pictures of their children online?

My own reasons center on privacy and consent. In the early days of the Web, those few with an online presence often felt that they were protected by security through obscurity. But in today’s world, data mining is big business. Much of our content is hosted on sites where we may not only lack control over what happens to it, but where it is aggressively used in aggregation and profiling.

The pictures parents post may follow children from birth to death as their data profiles are sold and resold to marketers. They can reinforce prejudices and barriers as marketers decide what sort of person someone is, what kinds of content will be marketed to them, and even what kinds of loans they might be worthy of based on their past. And there are likely long-term implications of these data profiles that we don’t yet understand.

It can also be difficult for parents to keep in mind just who their actual audience is. They may be targeting grandparents in their posts, but on many sites, including Facebook, sharing to one’s whole network is the default that many never change, and photos are visible years in the future. It can also be hard to control re-sharing, so that photos that people think are private can eventually take on a life of their own.

These issues are thorny enough when deciding to post pictures of ourselves online—in fact, research shows that adults are sharing less personal content on social-networking sites (much to Facebook’s chagrin!). They may be compounded for children.

3Some people who share photos say they are building an online community. Indeed, there are definitely benefits to creating such support structures of parents. But the benefits to children are less clear, and the risks are high enough that I would encourage parents to think about posting a few paragraphs of text instead of a photograph.

It’s also true, as some people who share argue, that information will end up online eventually. But rather than use that fact as a reason to post photographs of our own, we should take it as a warning to be even more cognizant of the information about us and our children that ends up online.

Finally, there’s the crucial issue of consent. Children are rarely given the opportunity to agree to having pictures of themselves shared online by others, and they may not fully understand what they are consenting to. Children also often don’t have control over how they are portrayed when others are posting. They may not understand how that embarrassingly cute photo of them that parents adore might come back to haunt them years later when bullies or future employers or bitter ex-lovers unearth it.

This isn’t to say youth don’t make missteps when managing their own online identities. But allowing them to create those identities themselves, rather than contending with something their parents have already crafted for them, could be an important part of developing independence while maintaining trust.

Ms. Ames is a postdoctoral scholar at the Center for Science, Technology, Medicine, and Society and a fellow at the Center for Technology, Society and Policy at the University of California, Berkeley. She can be reached at reports@wsj.com.

What Twitter and Facebook Said

We asked readers on social networks if it’s a good idea for parents to post photos of their children on social media. Here’s what we heard.

 

 

 

Cibercrime no Ambiente Escolar – Webinar com Pedro Verdelho, coordenador do Gabinete Cibercrime da Procuradoria-Geral da República

Fevereiro 28, 2016 às 1:00 pm | Publicado em Vídeos | Deixe um comentário
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