Tem filhos viciados em videojogos? 5 dicas para lidar com o problema

Maio 20, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do Observador de 7 de maio de 2019.

Há cada vez mais crianças a trocar o hábito de brincar ao vivo por longas sessões de videojogos. Cabe aos pais impor regras simples para evitar comportamentos de risco.

O novo bicho papão para os pais de crianças a partir, sensivelmente, dos oito anos chama-se Fortnite Battle Royale. Não, não é o nome de um novo vírus incurável ou de uma qualquer estranha substância psicotrópica. É, apenas e só, um videojogo que tem atraído milhões e milhões de crianças e adolescentes no mundo inteiro. A premissa é muito simples: cada jogador — ou equipa — é lançado numa ilha e tem de lutar pela sua sobrevivência, eliminando os outros jogadores — ou equipas — que têm o mesmo objetivo. O jogo é gratuito, intuitivo e, sobretudo, viciante. Pais e professores denunciam, com frequência, alterações de comportamento em crianças que jogam Fortnite Battle Royale diariamente. Muitas ficam mais agressivas e desinteressadas de outras actividades. Mas as dicas que se seguem podem ajudar a lidar com o vício neste e noutros videojogos.

1. Mostre-se interessado/a, jogue com as crianças

A melhor maneira de entender o fenómeno Fortnite Battle Royale ou outros não é submeter as crianças a interrogatórios nem pesquisar na Internet. A melhor maneira é estar por dentro, jogar. De preferência com elas. Por isso, nada como mostrar interesse na actividade e procurar jogar com a criança. Podem fazer disso, por exemplo, uma actividade em família. Sendo que este jogo, especificamente, nem sequer é particularmente violento — os gráficos fazem lembrar banda desenhada.

2. Imponha limites, use o controlo parental

À semelhança do que já aconselhámos num artigo anterior, relacionado com a navegação na Internet, também neste caso é importante usar as ferramentas de controlo ao dispor. Todas as consolas, telemóveis, computadores ou tablets possuem opções que permitem aos pais gerir e controlar a sua utilização por parte dos filhos. Não só o tempo, mas também as compras online — e é muito importante ter atenção a essa parte —, os jogos que estão autorizados a jogar e com quem. Além das ferramentas deste género que cada aparelho traz por defeito há software especializado que aumenta o leque de opções e protecção. Uma vez estabelecidos esses limites, seja firme, não abra exceções.

3. Conversem sobre o assunto

Mas atenção: conversar não é discutir. É mais provável que a criança responda honestamente sobre o que a atrai em determinado jogo, os seus hábitos, com quem joga e de que forma se isso surgir numa conversa amigável com os pais do que se sentir ameaçada ou interrogada de forma agressiva. Pior do que o jogo em si são, muitas vezes, os comportamentos agressivos e/ou de bullying que a ele estão associados. Procure perceber com quem é que a criança joga, e de que fala enquanto joga. É possível desligar a opção de chat, caso entenda necessário.

4. Traga as crianças para fora do ecrã

O problema não são os videojogos per se mas sim o tempo que as crianças passam em frente ao(s) ecrã(s) nos dias de hoje. Pode não ser fácil trazê-las de volta à vida real, já que muitas tendem a achar tudo desinteressante em comparação com o YouTube ou os videojogos. Mas há que fazer um esforço. Se as crianças já têm por hábito jogar Fortnite Battle Royale (ou outros jogos) com os amigos da escola, pode tentar envolvê-los — e aos respectivos pais — nesta missão, planeando saídas em conjunto ou formando uma equipa de um qualquer desporto, por exemplo.

5. Em caso de necessidade, procure ajuda profissional

Se perceber que o vício nos videojogos está a afectar gravemente o rendimento escolar da criança, a forma como se comporta — mais agressiva e irritável — e as suas relações interpessoais, e nenhum dos passos anteriores pareceu resultar, não será descabido procurar ajuda profissional. Os psicólogos e pedopsiquiatras estão cada vez mais equipados para lidar com este tipo de problemas, também eles cada vez mais recorrentes: não é por acaso que a Organização Mundial de Saúde incluiu, há cerca de um ano, o “distúrbio de jogo” na lista de doenças classificadas como perturbações do foro mental.

 

Workshop Gaming, Gambling e Cenas – Como intervir nos comportamentos aditivos SEM substâncias? 24 maio em Viana do Castelo

Maio 13, 2019 às 8:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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mais informações no link:

https://www.gaf.pt/pt/jornadas/XXV/workshop-gaming-gambling-cenas

 

 

Eu parti o telemóvel

Maio 2, 2019 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Carmo machado  publicado na Visão de 15 de abril de 2019.

Muitos dos nossos alunos estão na escola porque é obrigatório. Não têm escapatória. Podem tirar-lhes tudo, dentro da escola, e eles não reagirão. Tentem tirar-lhes o telemóvel e virá a mãe e o pai e a tia a exigir a sua devolução imediata. Preparem-se até para ser agredidos, se necessário for. Por favor, mas não lhe tirem o telemóvel! Se têm dúvidas, tentem!

Nunca imaginei fazer esta afirmação. Hoje, porém, após muita reflexão e em plena interrupção letiva de Páscoa, assumo que sonho com uma escola sem internet e com alunos sem telemóveis. Pronto, já disse. Hesitei várias vezes antes de escrever isto mas, por vezes, as decisões são como os precipícios. A gente atira-se por ali a baixo e deixa de haver lugar para arrependimento…

Ando há vários meses a observar os alunos dentro e fora das aulas, sobretudo nos intervalos. Sofrem, quase todos, de nomofobia (fobia causada pelo desconforto ou angústia resultante da incapacidade de acesso à comunicação através de aparelhos celulares ou computadores). De facto, assim que dá o toque de saída, os alunos na sua maioria limitam-se a ligar o telemóvel e ali ficam, presos ao ecrã. Antes, saíam para os pátios, iam à sala de convívio, jogavam, cantavam, namoravam, sei lá… Agora, limitam-se simplesmente a olhar para o ecrã do telemóvel, que para eles parece ser tão importante como os seus próprios pulmões. Passei há dias por um corredor onde estavam, sem exagero absolutamente nenhum, mais de quinze alunos solitários – como se de ilhas se tratassem – agarrados ao ecrã. Falo de uma escola. De um espaço de socialização por excelência. De descoberta. De partilha. De confronto. Mas não! Aquilo que observo diariamente (e garanto-vos que estou atenta) é preocupante. Os alunos passeiam pela escola de telemóvel na mão e auscultadores nos ouvidos. Julgo mesmo que nada do que ali se passa lhes interessa. Muitos dos nossos alunos, especialmente nos cursos profissionais (experiência própria), estão na escola porque é obrigatório. Não têm escapatória. Podem tirar-lhes tudo, dentro da escola, e eles não reagirão. Tentem tirar-lhes o telemóvel e virá a mãe e o pai e a tia a exigir a sua devolução imediata. Preparem-se até para ser agredidos, se necessário for. Por favor, mas não lhe tirem o telemóvel! Se têm dúvidas, tentem!

A internet veio para ficar e eu própria, tanto na minha vida pessoal como profissional, já não saberia viver sem ela. Porém, analiso as horas que literalmente perco, agarrada aos motores de pesquisa, e tenho dias em que quase me esqueço de abrir um livro. Quando isto acontece, sinto-me culpada e prometo a mim própria controlar o tempo gasto com o uso da tecnologia. Chego a ter vontade de partir o telemóvel… Mas até que ponto isto acontece com as nossas crianças e os nossos jovens, que dele fazem uma utilização livre na maior parte das vezes, sem qualquer controlo parental?

Dentro da sala, utilizo cada vez menos a internet. Infelizmente, quando esta me é necessária, ou não está disponível ou os equipamentos (quase obsoletos) não funcionam. Já me preocupei mais, confesso! Quando isto acontece (quase sempre), a alternativa encontrada para colmatar a falta da ligação à rede acaba por revelar-se muito mais criativa e interativa. É nestas situações que a verdadeira comunicação acontece, a partilha de ideias ocorre e a aprendizagem se desenvolve. Talvez por isto tenha andado a pesquisar o fenómeno Waldorf.

O colégio Waldorf, localizado na Califórnia, foi criado em 1984 por pais e encarregados de educação preocupados com a necessidade de a escola ensinar numa perspetiva global, holística, ajudando os alunos no seu desenvolvimento como indivíduos totais, em termos cognitivos mas também emocionais e motivacionais. Aspeto importante: nesta escola não há computadores. E, interessante analisar porquê, é exatamente para esta escola privada que muitos cérebros de Silicon Valley (funcionários da Google, da Apple e de outras empresas de ponta) enviam os seus filhos. Esta nova tendência – a desconexão – pode ser o futuro do ensino. Voltar às raízes, à essência, à valorização dos sentidos, das emoções, dos espaços, dos afetos…

As escolas estão equipadas com computadores mas o uso que deles se faz nem sempre é produtivo. O computador é apenas uma ferramenta, como muitas outras. E, de facto, como afirma um pai de um aluno a frequentar Waldorf, aquele que só tem um martelo acha que todos os problemas são pregos. Por outro lado, o uso permanente do telemóvel com ligação à internet (entrando os alunos em absoluto estado de nervos quando não têm ligação à rede ou quando esgotam o seu pacote de dados) é a forma mais consistente de distração, de ocupação dos tempos livres e de socialização destas novas gerações.

Sonho com uma escola desconetada. Com alunos sem telemóvel. Com professores capazes de dar uma boa aula sem a bengala da tecnologia. Lembram-se? O luxo, numa escola de futuro, passará por cada aluno possuir uma árvore e estar desligado da internet.

 

“Diga ao meu filho para deixar de jogar”. Psicólogo prescreve bom senso

Abril 18, 2019 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Magnus Fröderberg

Notícia da Rádio Renascença de 5 de abril de 2019.

Marta Grosso

Pedro Hubert é especialista em dependência no jogo e esteve nas Três da Manhã para comentar um estudo recente, segundo o qual um terço das crianças corre o risco de ficar dependente de videojogos.

Quando chegam ao consultório, os pais estão cansados e desesperados. Consideram que os filhos estão dependentes dos jogos de ecrã. Segundo o psicólogo Pedro Hubert, esta é uma dependência em tudo igual às restantes (álcool, tabaco, drogas…).

“Os critérios de diagnóstico são muito parecidos. Por exemplo, ficar muito irritado se não pode aceder aos videojogos, e às vezes há casos de agressão; aumentar o tempo de jogo e a intensidade; troca de prioridades, ou seja, “em vez de estudarem, em vez de dormirem, em vez de comer como deve ser” vão jogar.

“Tendo mais do que quatro destes critérios, sim, há um problema de dependência”, confirma o especialista na Renascença, esta sexta-feira.

Cada caso é um caso, mas Pedro Hubert privilegia sempre o “bom senso”, combinado com “uma espécie de contrato terapêutico”. Tem sempre de haver, sobretudo, no tempo de exposição ao ecrã.

“Às vezes, não é só o jogo em si, é todo o tempo que passam no fórum de jogadores a ver os outros a jogar, o streaming relacionado com o jogo, enfim, é o tempo de ecrã”, explica.

Dependendo da pessoa em causa, deve definir-se uma, duas ou três horas de exposição. “Há pessoas que podem estar três horas em frente ao ecrã, mas andam na ginástica, andam na música, têm amigos, divertem-se, saem”. Nestes casos, não há problema.

“Há outros que vivem aquela hora de modo tão intenso, quase tão doentio, que nessas fases é preciso um período de abstinência e depois introduzir um período limitado. E a hora de ecrã é depois de fazerem os trabalhos, depois de lhes dar outros interesses em vez de afunilarem só naquele”, sublinha o psicólogo.

No programa As Três da Manhã, este especialista em dependência de jogos conta que o caso mais grave que lhe apareceu foi com um homem de 35 anos. Foi a mãe que o levou à consulta.

“Desde os 13,14 anos que não fazia nada mais do que videojogos em casa, na internet. Nunca tinha trabalhado, tirando um ou dois dias e vinha-se embora; tinha mudado de curso frequentemente porque arranjava sempre desculpas. Estava branco, branco, branco, olheiras até às orelhas, mal conseguia falar e tinha problemas gravíssimos de depressão e ansiedade”, relata.

Só foi a duas sessões e nunca mais apareceu. “A mãe não conseguiu impor as tais regras. Ele já tinha demasiada força em casa, demasiada manipulação e continuou a fazer como queria”, conclui.

O pior é que Pedro Hubert quase “pode garantir que, daqui a uns anos, vai haver muitos muitos jovens neste estado, que não sabem falar, trabalhar, não sabem estar, porque a família não soube impor as regras”.

De acordo com um estudo conhecido esta semana, elaborado pelo hospital Cuf Descobertas, um terço das crianças corre risco de dependência dos videojogos, uma vez que passam mais de duas horas por dia a jogar. Uma em casa 10 crianças joga durante mais de quatro horas por dia, indica ainda a investigação, realizada a partir de uma amostra reconstituída por alunos do sexto ano de duas escolas de Cascais.

Outra conclusão é que os videojogos são também causa cada vez mais frequente de conflito no seio da família.

 

 

As bebedeiras instantâneas dos miúdos

Abril 15, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Maria João Gala

Reportagem do Notícias Magazine de 6 de março de 2019.

Os miúdos portugueses bebem menos do que a média dos miúdos europeus – é uma boa notícia. Outra: o consumo de álcool entre menores tem vindo a diminuir paulatinamente há 12 anos. Mas há dois problemas: a iniciação nas bebidas alcoólicas fortes aos 13 anos é mais acentuada entre os portugueses e os casos das bebedeiras episódicas extremas, o célebre “binge drinking” em que bebem compulsivamente, estão a aumentar – e aqui há um número grave: em 2017, o INEM atendeu no país 1 270 menores em coma alcoólico, ou seja mais do que três por dia, todos os dias. Como bebem eles?

Texto de José Miguel Gaspar | Fotos de Maria João Gala/GI

As duas irmãs loiras começaram a beber juntas há cinco ou seis anos e continuam a beber juntas agora. São de Aveiro, são ambas bonitas, têm hoje 17 e 18 anos, a mais nova é mesmo muito bonita, tem a cara da supermodelo inglesa Rosie Huntington-Whiteley, que já foi a Splendid Angharad, uma personagem incontaminada de “Mad Max – Estrada da Fúria” (2015) em que a Imperatriz Furiosa conduzia com determinação de ferro e um só braço uma caravana motorizada de mulheres pelo apocalipse adentro em direção ao nascer do sol e à libertação do tirano Immortan Joe.

Foi no ano da estreia desse filme de George Miller, tinha a rapariga mais nova 14 anos e a irmã 15, que aconteceu o episódio da bebedeira no mar que só não acabou em desgraça porque não calhou, ainda hoje a mais velha recorda a tremer, olha, já estou toda arrepiada, diz ela a arregaçar um braço e a parar para o olhar.

Foi num dia de verão normal, tinham ido de férias com os pais para o Algarve e passavam grande parte do dia, e depois as noites também, horas seguidas sem os ver, casa, praia, piscina, às horas que cada um quisesse.

Nesse dia que acordou com algum tédio, começaram a beber as duas à tarde, o céu estava nublado, não havia grande coisa que fazer, o bar da casa estava bem nutrido. Começaram com vinho branco, depois passaram às cervejas, depois safaris-cola, variaram as bebidas sem beber muito só de uma para depois ninguém notar, havia de tudo na casa de férias, até copos pequeninos e tequila.

Os pais não estavam, tinham ido a uma expedição com outros pais, elas não, a música crepitava alta na sala branca de estar e elas riram-se que se fartaram, acabaram a tarde aos shots e a desfilar da sala para a varanda, a fazer poses, a voltear, a imitar as passarelas com os páreos a esvoaçar, a língua de fora, desfeitas no sofá a rir muito, a música muito alta, a barriga a doer de tanto rir.

Não se lembram quanto isto durou, nem quanto entornaram, mas adormeceram e quando acordaram já era noite e tinham as barrigas a roncar. McDonalds para as duas, batatas a dobrar, colas XL – McDonalds é o melhor cura ressacas, a nossa mãe também diz, dizem elas -, comem em casa, comem depressa, depois arranjam-se e vão sair.

Cruzam-se logo com um grupo de quatro miúdos ingleses que conheceram vagamente na piscina no dia anterior, eles eram mais velhos, 16 ou 17 anos, não tinham 18, nenhum, já traziam bebidas na mão, vinham tocados, e um deles uma mochila carregada a tilintar. Bebem na rua, a luz da lua abriu, a noite está quente, passeiam, correm, fingem que fogem, voltam a rir, gozam uns com os outros, os rapazes tinham as caras incendiadas do sol, riem agora todos muito, já estão na praia, vamos lá abaixo ver o luar.

Corre tudo lindamente, a noite rodava, o álcool rodava, o céu todo a estrelar, amanhã vai estar um rico dia de praia, e estão todos sentados em roda na areia a jogar ao penálti com copinhos de vodka preta e o absinto que saiu da mochila a tilintar.

E caiu de chapa na água, a cara para baixo e ficou ali

Eu lembro-me de estar muito bem, mesmo bem, diz a rapariga muito bonita de 17 anos que na altura tinha 14, lembro-me de estar maluca, eu sou tímida, estava alegre, solta, ria-me com tudo e com nada, maluca, e disse que queria ir ao mar. Não sei o que eles disseram, estávamos bêbados, todos bêbados, os ingleses estavam sempre a dizer penálti! e quando alguém diz penálti todos têm de beber o que tiverem no copo de uma vez, e eu levantei-me, ninguém me impediu, e fui.

Não me lembro de caminhar, não me lembro de chegar à água, lembro-me só que a água me dava pelos tornozelos e era quente, quentinha, e depois lembro-me, mas aqui lembro-me muito mal, de cair de chapa na água.

E ela ficou assim, diz agora a abrir muito os olhos a irmã que tem 18 anos e na altura tinha 15, caída de cara para baixo na água, não se mexia ou parecia que não se mexia, eu só via o vestido branco dela a ondular no mar. Também eu agora não me lembro bem, não sei se passou um minuto ou se passaram dez, mas lembro-me de repente de saltar na areia, parece que me passou logo a bebedeira, e já estou de pé na água com ela, já estou a levantá-la pelos braços, ela toda molhada, a virá-la, a tirar-lhe o cabelo da cara, a chamar por ela mas ela não respondia, pesava muito, caía, abria e fechava logo os olhos, não dizia nada, nada de nada.

Devo ter entrado em choque térmico e fiquei inconsciente, diz a primeira virada para a segunda ligeiramente envergonhada enquanto desenha círculos invisíveis no tampo da mesa do café onde as duas se vieram sentar. Não conseguia falar, não conseguia andar, eles disseram-me depois que tiveram que me arrastar até casa, a minha irmã e os ingleses, arrastaram-me mesmo, eu não mexia as pernas nem os pés, fui a arrastar como se estivesse desmaiada, e conseguiram subir comigo e deitar-me na cama sem que os pais, eles já tinham chegado e já se tinham deitado, dessem por nada, eram férias, deviam ser umas duas da manhã.

No dia a seguir quando acordei, continua ela a contar, tinha os lençóis pretos, todos pretos. Acordei bué de tarde, toda baralhada, só fazia perguntas à minha irmã, estava à toa, mas o que é que aconteceu? Vomitei-me toda, não me lembro, os lençóis ficaram assim por causa da vodka que era preta. E depois passei o dia a vomitar, inclusive no almoço de família, levantei-me duas vezes para ir à casa de banho gregar, disse aos pais que tinha comido fritos, eles dizem que os fritos fazem mal, os pais nunca souberam, ainda hoje não sabem que aquilo aconteceu.

Beberam dentro da sala de aula aos 14 anos

E ela e a irmã acendem mais um cigarro – não é bem acender, é mais dar um clique, ambas fumam dos cigarros curtos Oikos ou Heets que se enfiam numa maquineta que parece uma lapiseira gorda mas é só uma boquilha gorda -, há mais miúdos ali na mesa do café, uma outra rapariga loira de 17, outra de 18, morena, também muito bonita, parece uma jovem Jaclyn Smith dos “Anjos de Charlie”, os anjos originais de 1976 onde também estava a áurea Farrah Fawcet – a Farrah já morreu, ninguém se lembra porque ela morreu no mesmo dia do Michael Jackson -, na mesa também estão rapazes, um de 19 e outro de 20, e eles e elas, todos, também estão a fumar.

Também começaram a beber com 12, com 13 ou com 14, que são as idades com que dizem ter começado a sair livremente à noite. E a outra rapariga loira que é mais tímida e pareceria a Farrah se não tivesse o cabelo todo entrançado até à nuca a apertar, conta que ela e a morena uma vez, tinham 14 anos, andavam no 9.º ano, e a meio da tarde de uma segunda-feira resolveram comprar uma garrafa de vodka num minimercado, aqui compras na boa, a mulher da caixa nem olhou para mim, e desafiaram-se a beber, com mais quatro rapazes, dentro da aula de matemática. Foi na boa, a prof nem topou, diz a menina loira a cintilar orgulho ou pundonor ou um inchaço excêntrico desconjuntado do ego.

A prof de matemática não topou, mas a professora da aula a seguir, a de educação física, topou-os a todos à légua. Foram os rapazes que deram barraca, dizem elas, entraram no ginásio todos a abrir, a abandalhar, nós só nos ríamos, ela parou logo a aula, separou-nos dos outros e fomos ao diretor de turma. Tivemos que dizer tudo o que se passou e tivemos depois que escrever tudo e entregar uma folha cheia. E chamaram os nossos pais.

Dos rapazes não sei, dela, e aponta para a morena parecida com a Jaclyn, não a encontraram, a mãe dela não veio, e a minha deu-me um sermão, que seja a última vez, estás a ouvir?! Mas acho que ela não se chateou muito, diz a miúda, tanto foi que nem tocou mais no assunto no dia a seguir. Mas nesse ano eu chumbei, confessa ela a baixar os olhos, mas não foi do álcool, eu não queria nem gostava de estudar, também não preciso de estudar muito para passar, quero ir para a universidade, claro, a não ser que me saia o Euromilhões.

E a outra menina loira, a mais bonita de todas que parece a Splendid Angharad do “Mad Max”, a que esteve para se afogar com água pelos tornozelos, sente vontade de dizer: eu sou boa aluna, aliás sou a melhor aluna, tirei sempre as melhores notas da turma. E com isso clica mais um cigarro.

Há três crianças em coma alcoólico todos os dias

É impossível não termos visto as manchetes, em 2017 o Instituto Nacional de Emergência Médica atendeu 1 270 menores em coma alcoólico nos vários hospitais do país, são mais do que três por cada dia, são 3,4 casos registados em cada um dos dias do ano, “e isso é apenas a ponta do iceberg”, sublinhou na altura a secretária de Estado Adjunta e da Administração Interna, Isabel Oneto, enquanto a tutela lançava mais uma campanha de sensibilização que expunha os riscos das crianças enfrentarem consequências mais sérias do que uma ressaca.

Há miúdos muito novos que bebem muito, mesmo muito, o fenómeno “binge” veio como uma moda, ficou e ainda não passou, “binge drinking” é uma nova forma social de beber em grupo, muito popular entre os menores, é o epíteto moderno da bebedeira instantânea, bebe-se pesada e compulsivamente num período muito curto de tempo, como por exemplo engolir em cinco minutos cinco ou seis ou dez shots de vodka – há vodkas com 40% e há vodkas com 80% de álcool, como a Devil Springs de New Jersey, ou de 95%, como a Everclear, a mais forte do mundo, diz o Guinness, uma vodka sem odor, sem aroma, sem cor, o “intoxicante invisível”.

E entre o primeiro e o último shot não se sentiu nada, só um leve ardor interior, mas depois há uma súbita deflagração etílica, uma coisa de movimento vulcânico, e quando a bebedeira chega ferra imediatamente como um arpão, é uma moda perigosa o “binge”, é uma forma suicida de beber, diz Luís Almeida Santos, o diretor da Urgência Pediátrica do Hospital de S. João, no Porto.

O médico, que nunca mais esqueceu os quatro miúdos de 11 e 13 anos que atendeu na Urgência num domingo há muito tempo às oito da manhã – estiveram a vazar dezenas de fundos de garrafa do vidrão atrás de uma discoteca que havia no Shopping Dallas e a média alcoólica deles era superior a três gramas de álcool por litro de sangue, coma alcoólico, portanto, em crianças de 11 e 13 anos -, está agora a compilar e destrinçar os episódios brutos atendidos na Urgência de S. João em 2018. Foram 74 mil casos, falta separar os que são de menores de idade e, dentro desses, os que são episódios alcoólicos. Não espero uma diminuição, diz o especialista, e não me espantaria que houvesse um aumento.

Mas Luís Almeida Santos já desenredou os 348 mil episódios brutos atendidos na Urgência do hospital central do Porto que ocorreram entre 2014 e 2017. Entre esses todos, apontou 407 casos com menores em coma ou à beira desse estado patológico em que há perda de consciência, ausência ou redução das reações a estímulos e alteração nociva de funções vitais. E desdobrou os casos pelos quatro anos em que aconteceram. Sem surpresa, sublinhou o arco crescente: 90 casos em 2014, 95 em 2015, 112 em 2016 e 109 em 2017.

Aos 13 anos, um em cada três já começou a beber

Os consumos entre os jovens têm vindo a diminuir, tanto em Portugal como na Europa, é o que nos dizem os estudos da Organização Mundial de Saúde do ano passado com inquéritos feitos entre 2002 e 2014 a adolescentes de 15 anos. Nessa dúzia de anos, o consumo regular ao longo da semana desceu para metade, com 16% registados em 2002 e 8% registados em 2014.

A média europeia era de 28% em 2002 e desceu para 13% em 2014. Os nossos miúdos estão melhor do que os espanhóis (21% e 9% nos anos respetivos), do que os franceses (15% para 10%), do que os ingleses (47% para 9%, é uma das mais abruptas descidas na UE) e sobretudo muito melhor do que os miúdos gregos de 15 anos, que em 2002 registavam 30% de bebedores e em 2014 ainda têm 23% que admitem beber álcool ao longo da semana.

Mas os estudos do SICAD (Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências) e os exames do ESPAD (European School Survey Project on Alcohol and Other Drugs) feitos por diversos especialistas em 35 países europeus não são sossegadores. Ambos centraram-se em miúdos de 13 anos e no ano de 2015.

No primeiro estudo, só com portugueses, 31% admitia já ter experimentado álcool, sendo essa a substância mais consumida pelos adolescentes nas escolas públicas – é um número gravoso, praticamente um em cada três. No segundo, 47% dos miúdos europeus de 13 anos admitia já ter experimentado álcool – e um em cada 12 estudantes relatou já ter tido um episódio comatoso com essa tenra idade.

Evidentemente preocupado, muito preocupado, tanto como médico como cidadão, até porque não sabemos bem da realidade total, que há de ser pior do que a dos números das Urgências, diz o pediatra Luís Almeida Santos, tudo isto é altamente alarmante, muito preocupante.

Os números são uma avalancha e João Goulão, diretor do SICAD, concorda. Cita: em 2015, 48% dos menores de idade admitia já ter experimentado beber pela modalidade “binge” e em 2016 e 2017 esse número subiu e chegou aos 50%. É grave, gravíssimo, continua a aumentar. E há mais números que atestam uma evolução paulatina e lenta mas segura: em 2015, 83% de jovens com 18 anos admitia ter consumido álcool nos últimos 12 anos. Em 2016, o valor subiu para 84% e em 2017 para 85%.

A lei existe, mas a lei é contornada

A lei portuguesa que proíbe os menores de beber é recente e entrou em vigor em duas fases, ambas sob a regência do XIX Governo Constitucional liderado por Pedro Passos Coelho e pelo PSD/CDS-PP. A primeira foi adotada em 2013 e trancava a porta das bebidas alcoólicas aos menores, mas deixava duas janelas abertas. Dizia a lei que até aos 16 anos todo o álcool estava proibido, mas a partir dos 16, a idade com que se pode entrar numa discoteca, os menores podiam comprar dois tipos de bebidas: cerveja e vinho.

Na altura, a exceção foi enquadrada pelos nossos brandos costumes culturais – “Beber vinho é dar de comer a um milhão de portugueses”, dizia o marketing oficial dos tempos de Salazar – e pelo poder de lóbi das cervejeiras, que conseguiram impor junto do Governo a sua exceção. Seguiram-se dois anos de debate de uma lei pouco eficaz, discutiu-se por que é que havia um álcool bom e um álcool mau e dois anos depois concluiu-se que não, todo o álcool é nocivo. E a lei de 2015 proibiu tudo, cerveja, vinho, licores, aguardentes, brancas e espirituosas, tudo trancado em proibição até aos 18 anos e à maioridade. Fim de discussão.

Fim de discussão? João Goulão, que há duas décadas dirige o SICAD, diz: há ainda muita complacência social relativamente ao álcool entre menores, há adultos que passam álcool a crianças, facilitam, fecham os olhos, recalcam erros e valores culturais. E diz mais: em Portugal, o álcool é extremamente acessível, todas as casas têm álcool e os preços na rua descem cada vez mais; hoje é muito mais barato beber do que era há dez anos; há discotecas e bares em que o álcool custa tanto como a água! É preciso, evidentemente, mudar isto, e condicionar mais a oferta, conclui Goulão. Mas os miúdos riem-se da lei, sabem da lei e riem-se.

ASAE só identifica 12 menores por mês a beber

Os dados oficiais da Autoridade para a Segurança Alimentar e Económica (ASAE) estão cheios de icebergs de que só vemos a ponta. A lei de 2015 que proíbe a venda e consumo de álcool aos menores de 18 anos fará este ano quatro anos, mas a ASAE só consegue identificar, em média, 12 jovens por mês a beber em locais públicos. Em 2017, o número de menores identificados aumentou superficialmente quando comparado com o ano anterior: 108 em 2016, 133 em 2017.

O aumento está longe de representar a realidade, as violações são flagrantes, diz a associação sindical que representa a ASAE, admitindo ser muito difícil fiscalizar por exemplo em discotecas quando a idade para entrar é de 16 anos mas a idade para beber é de 18. E o sindicato sublinha que tem menos de 200 inspetores para ir à rua em todo o país e que aos fins de semana e à noite ainda tem menos operacionais a trabalhar.

Porto, Lisboa, Aveiro, só não vê quem não quer reparar

Os miúdos riem-se. São 11 da noite, eles são seis, dois rapazes, o resto raparigas, três delas falam brasileiro, o mais velho tem 19, o mais novo 16, estão juntinhos todos sentados numa ponta da escadaria do Palácio da Justiça, na Baixa do Porto, que fica nas costas do jardim de plátanos e grandes sombras da Cordoaria, onde tombam também os homens estatuificados de Juan Muñoz, “13 Que Riem Uns dos Outros”.

O que ali se vê e que se estende aos cafés do canto depois de se passar a colossal estátua esverdeada que segura a balança e a espada pousada, e ao Campo dos Mártires da Pátria, do outro lado do jardim onde há sempre juventude aos magotes e fumo azulado de haxixe no ar, não é diferente do que todos veem, mas muitas vezes sem ver realmente, isto é sem reparar, não é diferente do que se vê ao fim de semana em Lisboa, no Largo de Santos, nas ruas junto à cerca das mimosas do Jardim Nuno Álvares ou no Largo Vitorino Damásio ou, mais à frente, no Cais do Sodré, ou mais acima no Bairro Alto.

Como não é diferente daquilo que se avista nas ruas de luz branda amarela e calçada branca da Praça do Peixe em Aveiro ou na zona Red que fica encostada à Antiga Fábrica Jerónimo Pereira Campos com a sua enorme fachada de tijoleira de cor vulcânica com parques vermelhos abertos no miolo dos prédios de classe média. O que se vê em todos eles, à vista desarmada, é o mesmo: a maioria são maiores de idade, mas há sempre dezenas, centenas, de menores a passar, a parar, com copos e garrafas na mão, a continuar a beber.

Eu estou beeeem, diz o rapaz a cair nas escadas de cu

Eles empinam na pedra da escadaria do Palácio da Justiça as garrafas que saíram do saco largo de supermercado, duas de vodka Eristoff branca, duas de vodka Misss preta, duas de plástico de litro e meio de sumo sem marca cor de laranja luzente, e riem-se. Foi o mais velho que comprou, zero stress, diz ele, ou vão ao supermercado ou às lojas dos indianos ou trazem de casa, quem quer beber bebe sempre, não há cá stress, repete ele a rir.

Jantaram cada um em sua casa e só depois vieram para cá, só agora, 23 horas, uns vieram de Matosinhos, outros são do Porto, começaram a beber, mas o mais novo, o de 16, que já chegou todo quente e tem a cara e os olhos pretos parados de um Anthony Perkins imberbe, está claramente embriagado, espalma-se pelas escadas, retorcido, e é o centro das atenções. Vai beber o quinto shot, ou o 15.º, diz ele, não sei bem, os outros repetem o seu nome, repetem-no animadamente em crescendo, ele bebe de um só trago, levanta-se ou tenta levantar-se para fazer aquilo que parecia que seria uma vénia, mas cambaleia e cai de cu.

Eu estou bem, eu estou bem, diz ele a afastar desajeitadamente os braços das raparigas que o iam segurar, estou beeeem, deita a língua de fora e a língua é negra, toda negra da vodka pastosa Misss que parece mercúrio e sabe a amora traçada com álcool etílico. Estás bem, estás, diz o amigo mais velho a estender-lhe um chocolate para ele repor os níveis de açúcar, enquanto uma das miúdas brasileiras, elas as quatro trazem saias curtinhas, a que fala com sotaque do Porto também, unhas coloridas, afiadas e compridas, e começa a dar-lhe um sermão que ele não vai ouvir.

Logo a seguir há uma rodada para todos, roda a garrafa da Misss pastosa a tingir os copinhos plásticos brancos e uma das raparigas que está a segurar o copo com a mão esquerda diz de repente: direita é penálti, direita é penálti! E todos eles emborcam a vodka viscosa de supetão enquanto ela bebe a bebida aos golinhos engasgada a rir.

É meia-noite, passam no sopé das escadas e do granito do Palácio dois miúdos de skate a zarpar, do outro lado há um grupo ruidoso que está a brindar e a prolongar muito alto um bramido de éééééé, ouvem-se dois cavaquinhos a desafinar e o rapaz mais velho do primeiro grupo diz para o mais novo que está a cair de bêbado, é pá, tu bêbado és muito chato!

Depois alça-lhe um braço pelo pescoço, os dois descem as escadas da Justiça a bambolear, mais o mais novo do que o mais velho, anda, vamos mijar. E atravessam a estrada sem olhar, sobem o pequeno morro muito verde do jardim da Cordoaria, põem-se ao lado de uma das esculturas dos homens que tombam a rir uns dos outros do madrileno Muñoz, e acenam vigorosamente do outro lado para o grupo de cá, os dentes tingidos a sorrir pretidão.

 

 

 

Videojogos colocam um terço das crianças em risco de dependência

Abril 15, 2019 às 6:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Magnus Froderberg

Notícia da Rádio Renascença de 2 de abril de 2019.

Pensar nos jogos quando não se está a jogar, jogar mais quando se está triste ou zangado, ficar chateado ou inquieto quando não se pode jogar são comportamentos a que os pais devem estar atentos.

Um terço das crianças corre risco de dependência dos videojogos. A conclusão é de um estudo feito pela Cuf Descobertas, publicado no mês de março na revista “Acta Médica Portuguesa” e citado na edição desta terça-feira do jornal “i”.

O estudo tem uma amostra reduzida, 152 alunos do sexto ano de duas escolas do concelho de Cascais, mas permite ter uma primeira noção do problema em Portugal, lê-se no jornal.

A iniciativa para a realização partiu do grupo de pediatras do centro da Criança e do Adolescente do Hospital Cuf Descobertas, depois de constatarem que os videojogos são um fator cada vez mais frequente de conflito na família.

Hugo Faria, pediatra e um dos responsáveis pelo estudo, refere que é muito frequente ouvir “queixas de pais que não conseguem que os filhos joguem menos, que dizem que há discussões quando dão instruções para interromperem a PlayStation”.

De acordo com o pediatra, após análise dos resultados, um dos aspetos mais relevantes é o risco de dependência, se as crianças mantiverem o mesmo padrão de jogo. Pensar nos jogos quando não se está a jogar, jogar mais quando se está triste ou zangado, ficar chateado ou inquieto quando não se pode jogar e a tendência para jogar quando ninguém está a ver são comportamentos a que os pais devem estar atentos.

Segundo o estudo, a maioria das crianças recebe o primeiro aparelho eletrónico entre os seis e os 10 anos. A maioria das crianças indicou passar menos de duas horas por dia a jogar, mas 19,2% reportaram uma utilização diária entre duas a três horas e 9,9% jogavam mais de quatro horas por dia durante a semana.

Ainda de acordo com este documento, ao fim-de-semana 17,1% das crianças jogam duas a três horas diárias e 24,3% mais de quatro horas por dia.

A “Acta Médica Portuguesa” é a revista científica da Ordem dos Médicos.

Artigo citado na notícia é o seguinte:

Dependência de vídeojogos : um problema pediátrico emergente?

Sozinhos entre milhares de “amigos”. Estudo associa redes sociais a solidão nos jovens

Março 29, 2019 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 13 de março de 2019.

Investigação em Portugal indica que passar muito tempo online faz os jovens sentirem-se sozinhos, mesmo quando não deixam de falar com os amigos frente a frente. É a natureza da comunicação online que provoca a solidão? Investigadores dizem que há uma conexão.

Karla Pequenino

Num mundo em que é cada vez mais normal usar o Facebook, o Twitter, o Instagram, ou o YouTube para comunicar com outras pessoas – a qualquer hora, em qualquer lugar –, são vários os trabalhos que começam a encontrar uma relação entre usar Internet e sentir mais solidão. Particularmente, nos jovens.

Um estudo do Instituto Universitário de Ciências Psicológicas, Sociais e da Vida (ISPA), em Lisboa, mostra que os jovens portugueses que passam muito tempo nas redes sociais se sentem mais sozinhos. É uma conclusão comum na área da solidão digital: em 2016, um inquérito a utilizadores portugueses do Facebook, feito na Universidade Lusófona do Porto, mostrou que quem passa mais tempo na rede social se sente mais só. Em 2017, outro estudo, desta vez focado nos EUA, mostrou que passar mais de duas horas por dia em redes como Facebook, Snapchat e Twitter duplicava a probabilidade de alguém se sentir isolado.

Só que os investigadores do ISPA descobriram que o sentimento de solidão entre os jovens portugueses mantém-se, mesmo quando o tempo que passam online não interfere com o tempo que passam a falar com amigos fora da Internet, frente a frente. Em causa pode estar a falta de riqueza sensorial das conversas online.

“O nosso estudo sustenta que há qualquer coisa na comunicação online que causa a solidão, que é a forma como a comunicação acontece online que cria esse sentimento”, resume ao PÚBLICO o investigador do ISPA Rui Costa. “Nas raparigas, em particular, o sentimento de solidão não se explicava por passarem menos tempo com os amigos. Foi uma das questões que nos chamou a atenção.”

As conclusões foram publicadas na revista académica International Journal of Psychiatry in Clinical Practice. O estudo, em que foram inquiridos 548 jovens em Portugal (dos 16 aos 26 anos) entre 2015 e 2016, mostra que as redes sociais eram de longe a actividade preferida dos jovens quando estão na Internet. Os participantes foram avaliados quanto à percepção de solidão, ao ambiente familiar, e se têm um “uso problemático da Internet”. Foi questionado o grau de identificação com afirmações como “A interacção social online é mais confortável do que frente-a-frente”, e “Faltei a compromissos sociais devido ao meu uso da Internet”.

Inicialmente, o objectivo do estudo era avaliar a relação entre o uso problemático, ou vício, da Internet e o grau de interacção social. “A Internet começa a ser um problema quando há problemas de privação”, explica Costa. “Quando não dormimos, quando deixamos de fazer o trabalho, ou quando usamos o telemóvel para resolver problemas como a ansiedade ou a depressão. Se nos sentimos ansiosos e agarramos o telemóvel, estamos a ignorar o problema subjacente.”

No caso dos rapazes que participaram, como já se tem visto noutros estudos sobre o tema, um uso problemático da Internet estava associado a menos tempo para os amigos ou parceiros fora da Internet. Mas com as raparigas, embora o tempo online interferisse com algumas relações familiares, não interferia com o tempo que passavam a falar com os amigos em pessoa. Só que, mesmo assim, elas reportavam sentimentos de solidão.

“E mesmo com os rapazes, que passavam menos tempo com os amigos, não havia uma conexão directa ao maior sentimento de solidão”, diz Costa. “E isto foi muito interessante. Até agora pensava-se que a Internet levava as pessoas a passar menos tempo a falar com amigos e que isso levava à solidão. Mas agora podemos ver que é a própria Internet que causa a solidão.”

Hormonas, evolução, ou facilidade em apagar amigos?

Para os investigadores do ISPA, o motivo pode estar associado à evolução da espécie humana, durante a qual a vida em sociedade foi necessária para a sobrevivência. Como tal, os mecanismos cerebrais aprenderam a reconhecer a satisfação em interacções sociais apenas quando há informação sensorial suficiente a acompanhar.

“A hipótese que colocamos agora é que a comunicação online não tem a mesma riqueza sensorial que a comunicação offline”, explica Rui Costa. “Quando falamos da Internet, não há informação a nível do olfacto, por exemplo, e a forma das pessoas falam é diferente.”

É uma opinião partilhada pela psicóloga clínica Raquel Carvalho, que trabalha com adolescentes e crianças na Oficina da Psicologia, em Lisboa. Diz que é comum os jovens que acompanha (especialmente, a partir dos 13 anos) falarem em sentimentos de solidão, mesmo que não seja o motivo principal que os leva às consultas. Um dos motivos é que é nesta idade que se começam a afastar da família e a “tentar criar vínculos afectivos com os pares”.

“Nota-se que com o mundo digital os jovens se refugiam muito na tecnologia e, por isso, as interacções com os pares são mais pobres. É com relacionamentos cara a cara que se desenvolvem capacidades como a empatia e a cooperação”, diz Raquel Carvalho. “Depois ao nível das neurociências há hormonas que são produzidas como resposta à sensação de toque. É o caso da oxitocina.”

Conhecida como a “hormona do amor” ou a “hormona do abraço”, nos humanos a oxitocina é libertada durante o toque com outros humanos. No cérebro, o neurotransmissor está relacionado com fenómenos como a criação de laços afectivos, empatia, desenvolvimento de confiança com outras pessoas, e diminuição da agressividade.

“O refúgio na Internet da adolescência pode ser visto como normal, porque actualmente é uma forma de se criarem ligações aos pares”, ressalva Raquel Carvalho. “Mas é preciso garantir que não se estão a substituir encontros reais.”

O aumento da solidão entre os jovens é uma realidade observada também no Observatório da Solidão, do Instituto Superior de Ciências Empresariais e do Turismo (ISCET), no Porto. “A solidão digital é um facto”, diz ao PÚBLICO o coordenador do observatório, o investigador Adalberto Dias de Carvalho. “Muitas vezes tem-se a percepção de que a solidão surge principalmente na população mais idosa. Não é bem assim. As vivências de solidão surgem com mais frequência nos jovens. A diferença é que os mais jovens têm mais facilidade em sair do estado de solidão.”

Adalberto Dias diz que as redes sociais são vistas como um “veículo para superar a solidão”, tanto pelos mais jovens como por outras faixas etárias. Mas – tal como a psicóloga Raquel Carvalho o estudo do ISPA notam – “as relações mediadas pelas redes sociais têm uma natureza diferente”.

Um dos problemas refere Adalberto Dias, é que “as redes sociais criam um estado ilusório de conexão” que se nota, por exemplo, com a facilidade com que se elimina um amigo. “Na Internet basta carregar num botão e uma relação desaparece. A gestão de conflitos é diferente das relações interpessoais”, nota o investigador.

Travar o aumento da solidão

Para a psicóloga Raquel Carvalho é importante travar comportamentos que podem levar à solidão digital cedo. “É cada vez mais normal ver bebés agarrados aos tablets. Nos adolescentes são as redes sociais e também os jogos online. É bom começar a introduzir limites nos mais novos. A propor alternativas ao tempo online, por exemplo, com outros colegas, frente a frente.”

Os efeitos negativos da solidão na saúde estão bem documentados. Um estudo da Universidade de Harvard ao longo de 75 anos mostrou que a sensação pode ser tóxica: quanto mais isoladas as pessoas estão, mais rapidamente se deteriora a sua saúde física e mental.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) nota que boas redes de suporte social são um factor determinante para o bem-estar. Em Janeiro, o Reino Unido nomeou um ministro para a Solidão (o primeiro do mundo), que é um problema que afecta mais de nove milhões de britânicos. O objectivo é impedir a proliferação de um fenómeno que pode dar azo a demência, ansiedade, e aumentar a mortalidade precoce.

Em 2019, os mais jovens são entre aqueles que mais sozinhos se sentem em todo o mundo: numa investigação da estação britânica BBC sobre a solidão – em que foram inquiridas 55 mil pessoas em todo o mundo – 40% dos jovens entre os 16 e os 24 anos admitiram sentirem-se frequentemente sozinhos. A percentagem foi superior à de outras faixas etárias. Além disso, os inquiridos que mais reportaram sentimentos de solidão eram aqueles que tinham mais “amigos online” no Facebook.

A equipa do ISPA quer continuar a estudar o fenómeno da solidão digital em Portugal. “No futuro, queremos analisar o uso problemático do smartphone com o phubbing”, avança Costa. A expressão phubbing (uma amálgama das palavras inglesas phone e snubbing) designa o acto de ignorar alguém, numa ocasião social, ao olhar para o telemóvel em vez de prestar atenção a essa pessoa.

Um estudo recente das universidades de Oxford e Warwick, no Reino Unido, revelou que embora as crianças e jovens passem 30 minutos a mais em casa com os pais do que em 2000, esse tempo não é dedicado a mais interacções familiares. Os dispositivos móveis, como consolas portáteis e tablets, são particularmente usados nestes períodos.

“Queremos perceber o impacto que há nos sentimentos de solidão em Portugal quando se utiliza o telemóvel quando se está com os amigos ou com a família”, diz Rui Costa.

“Qualquer pessoa pode encontrar benefícios em usar redes sociais”, observa a psicóloga Raquel Carvalho. “Só que têm de manter relações reais. Não se podem limitar às relações virtuais. A tecnologia tem de ser um complemento, caso contrário há riscos de – nos jovens, em particular – não se desenvolverem competências fundamentais.”

 

Seminário “Olhares com sentido : As mãos não são para bater” com a participação de Cláudia Manata do Outeiro do IAC,12 abril em Coimbra

Março 28, 2019 às 3:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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No âmbito da 9ª Campanha Regional de Prevenção de Maus Tratos a Crianças e Jovens: SILÊNCIO??? Não!!!, promovida pela Rede de Parceiros da ARS Centro, à qual pertence o Instituto de Apoio à Criança, irá decorrer o Seminário do Mês da Prevenção dos Maus Tratos na Infância, a realizar no Hospital Pediátrico de Coimbra, no dia 12 de abril de 2019 e que irá contar com a presença da Profª Claudia Manata do Outeiro IAC-CEDI (Centro de Documentação e Informação sobre a Criança).

Mais informações no link:

https://caritascoimbra.pt/2019/noticias/caritas-coimbra-promove-9a-campanha-de-prevencao-de-maus-tratos-a-criancas-e-jovens/

 

Os ecrãs impedem os jovens de desenvolver empatia. E as sociedades tornam-se “brutais”

Março 26, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 2 de fevereiro de 2019.

A resiliência constrói-se. Num ambiente de segurança, o cérebro de alguém que sofreu um trauma regenera-se “muito mais rapidamente do que imaginamos”. Mas, atenção, avisa o psiquiatra Boris Cyrulnik, uma criança que cresce a olhar para ecrãs não consegue desenvolver empatia.

Alexandra Prado Coelho

A nossa capacidade de resistência à adversidade – a chamada resiliência – não está inscrita nos genes. Não nascemos com uma determinada predisposição, antes somos moldados pelo ambiente desde o útero materno e pela vida fora, e é isso que nos torna mais ou menos resilientes.

O defensor desta ideia, o neuropsiquiatra francês Boris Cyrulnik – que esteve em Portugal esta semana para fazer uma conferência na Noite das Ideias, iniciativa da Embaixada de França e do Instituto Francês, dia 31 de Janeiro, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa – sabe do que fala. Ele próprio é um exemplo de resiliência e tornou-a o tema principal das suas pesquisas e do seu trabalho de toda a vida.

Hoje com 81 anos, este sobrevivente do Holocausto tem trabalhado com pessoas, sobretudo crianças e jovens, que passaram por situações traumáticas. “A resiliência”, diz, “é uma construção constante, é um fenómeno de desenvolvimento e nós desenvolvemo-nos o tempo todo, a nível biológico, psicológico, afectivo, social.” E acrescenta, com um sorriso de garoto: “Só paramos de nos desenvolver aos 120 anos. Depois disso, é possível, mas é difícil.”

Muito do processo de regeneração de um cérebro que sofreu um trauma passa pela segurança mas também pela empatia com os outros. Ora, actualmente, com a presença constante da tecnologia nas nossas vidas, é precisamente a capacidade de criação de empatia que começa a estar em risco. E que consequências isso tem para uma sociedade?

“Uma pessoa nunca pode ser reduzida ao seu trauma”

Antes de entrarmos por aí, vamos começar por perceber o que pode afectar, positiva e negativamente, o nosso cérebro desde o início da vida. O poder dos genes, ou seja, o determinismo genético, tem o seu momento alto “no encontro do espermatozóide com o óvulo”, depois disso é o meio que começa a agir sobre o jovem feto. “Há meios que orientam [a criança] para a aquisição de factores de protecção e outros para a aquisição de factores de vulnerabilidade. Se a mãe está stressada, segrega substâncias que passam no líquido amniótico e o bebé adquire esses factores de vulnerabilidade. Se a mãe se sente segura e feliz, o bebé desenvolve-se bem e tem factores de protecção.”

A forma como, por exemplo, essas substâncias segregadas pela mãe alteram o cérebro do bebé pode ser observada em exames neurológicos. As crianças afectadas pelo stress materno “nascem com uma alteração dos dois lóbulos pré-frontais e do sistema límbico e a amígdala do cérebro reage muito fortemente”. Isto significa que “chegam ao mundo com uma alteração cognitiva pela situação de precariedade social da mãe”.

Um ambiente onde a criança se sinta protegida é, por isso, essencial. A boa notícia é que “o cérebro regenera muito rapidamente”. Mesmo um trauma profundo pode curar-se “muito mais facilmente do que imaginamos”. A consciência disso deve-se, em grande parte, ao trabalho que Cyrulnik desenvolveu. “Antes dizíamos sobre estas crianças, é genético, não vale a pena preocupar-nos com elas. E não nos ocupávamos. Hoje rodeamo-las de segurança e a resiliência regressa. Em 48 horas começam a segregar hormonas de crescimento e hormonas sexuais, sejam masculinas ou femininas. Mas se não os rodearmos de segurança passam a vida toda em sofrimento.”

Boris Cyrulnik tinha sete anos quando perdeu os pais, levados pelos nazis para Auschwitz, onde morreram. Antes de ser detida, a mãe confiou o rapaz a uma família, que acabou por o entregar também aos alemães. Conseguiu escapar, escondendo-se numa sinagoga, da qual acabou por conseguir fugir, tendo trabalhado numa quinta para conseguir sobreviver até ao final da guerra. Só aos dez anos é que foi entregue a uma família que o criou.

Depois disso, as tentativas que fez para falar da sua situação depararam com um muro de indiferença. Os franceses não queriam ouvir, da boca de uma das vítimas, a história de como tinham abandonado e condenado à morte crianças judias. Num país também ele profundamente traumatizado, Boris Cyrulnik percebeu que não valia a pena insistir em contar a sua história. Mas foi também esta experiência que o fez perceber que queria ser psiquiatra.

A ideia de que uma criança, por maior que seja o trauma que sofreu, não pode ser ajudada a ultrapassá-lo é o que mais o indigna – e, trabalhando com órfãos na Roménia, vítimas de genocídio no Ruanda, ou crianças-soldado na Colômbia, foi reforçando essa convicção. “Uma pessoa nunca pode ser reduzida ao seu trauma”, costuma dizer.

Há, contudo, outros factores que devem ser tidos em conta – a diferença entre rapazes e raparigas, por exemplo, que se nota logo no desenvolvimento nos primeiros anos de vida. “As raparigas começam a falar cerca de cinco meses antes dos rapazes. Porquê, não sei. Mas é um factor de protecção, porque quando estão infelizes podem dizê-lo, podem pedir ajuda, enquanto os rapazes não sabem dizê-lo e passam à acção mais rapidamente.” Passagem à acção que vão manter como característica de comportamento ao longo da vida.

Quando chegam à adolescência, “as raparigas, que têm uma biologia mais estável, têm um avanço neuropsicológico de cerca de dois anos relativamente aos rapazes”. Não só falam melhor, como são “mais estáveis emocionalmente” e já terminaram a sua “fadiga de crescimento”.

Nas décadas seguintes, nota-se que as raparigas e as mulheres “aprendem os rituais de interacção melhor que os rapazes” e continuam a “dominar a palavra” – se isso ainda não parece ser evidente no espaço público, onde a visibilidade das mulheres continua a ser menor, Boris Cyrulnik acha que é apenas uma questão de tempo: “Há aí [nessa invisibilidade] um grande determinismo social. Mas penso que isso vai desaparecer em dez anos”.

O domínio masculino no espaço público está ligado à força física e à violência. “A violência foi um factor adaptativo em todas as culturas. Muitos sociólogos dizem que é pela violência que a sociedade se constitui. Se os homens não fossem violentos, a espécie humana teria desaparecido”.

Na sua infância e juventude, durante a II Guerra Mundial, “o trabalho era uma forma de violência, 15 horas por dia, seis dias por semana”. Recorda as vidas duríssimas dos mineiros em França ou dos operários dos estaleiros navais. “Era um trabalho de uma violência extrema, os operários tinham as costas feridas pelos pedaços de carvão que lhes caiam em cima, as mulheres tinham que os lavar para evitar as infecções e para que eles pudessem ir trabalhar no dia seguinte, senão, não haveria dinheiro nem comida.”

A força e a violência eram, portanto, essenciais e isso fazia com que os homens fossem “vistos como heróis”, sendo, por isso mesmo, “sacrificados na mina ou na guerra”. Esta violência adaptativa não faz sentido nas actuais sociedades ocidentais como a europeia, por exemplo, mas continua a fazer sentido em países em guerra. A diferença é clara: “A violência é destruição num contexto de paz mas é construção social num contexto de guerra”. Daí que no Médio Oriente “um rapaz que não é violento, é desprezado, pela mãe, a mulher, os outros rapazes”.

“No mundo actual [ocidental], o sector terciário desenvolveu-se, a escola também, as mulheres têm desempenhos iguais ou superiores aos homens e a violência já não tem valor de construção da sociedade, é apenas destruição”, explica. “Mas isso só acontece desde os anos 60 do século XX. Eu nasci em 1937, faço parte de uma geração na qual apenas 3% das crianças estudavam. Os outros iam trabalhar, com 12, 13 anos, os rapazes para a mina, as raparigas para casa, e a maternidade acontecia aos 16, 17 anos. Hoje isso é impensável.”

E, no entanto, mesmo que desadaptada ao contexto actual, a violência contínua de certa forma inscrita na nossa “memória transgeracional” – pronta a renascer assim que for necessária. “Acontece nas sociedades que se afundam, por exemplo, o Brasil, a Venezuela, que estavam numa curva ascendente e a violência era muito combatida, sobretudo pelas mulheres, porque se manifestava apenas na destruição do casal, da família, da sociedade.” Quando a crise económica faz afundar o país, “a violência reaparece e torna-se um valor adaptativo e nesse contexto um homem que não é violento é imediatamente eliminado”.

Ao longo da sua carreira, Cyrulnik viu muitas situações nas quais esses instrumentos de adaptação da espécie humana vinham ao de cima, tanto a violência como, por outro lado, a solidariedade. E percebeu que são valorizados de forma diferente conforme o contexto. No entanto, nota, a solidariedade que surge nessas circunstâncias é geralmente “de clã, de grupos com as mesmas crenças religiosas, a mesma cultura, a mesma cor de pele, o mesmo nível social”.

Quanto à violência, “nas guerras decoramos os psicopatas quando matam um adversário, e em alturas de paz colocamo-los na prisão – eles são sempre psicopatas, é o meio que valoriza, ou não, a passagem ao acto”.

Esta presença da violência, que “atravessa todas as culturas”, ajuda a perceber também a vitimização da mulher. “Elas sofreram, foram massacradas, porque são menos dotadas para a violência”. Por outro lado, quando a situação piora e a violência se torna novamente adaptativa, “as mulheres valorizam os homens violentos e querem estabelecer laços com eles”. O que acontece hoje, em contextos de paz, é que “as mulheres, que foram de facto vítimas, e algumas ainda são, servem-se da noção de vítima para tomar o poder e legitimar a própria violência, que não é física, mas verbal”.

O bebé “precisa do cheiro” da mãe

Está também a surgir nas nossas sociedades outro fenómeno que preocupa o psicanalista: a dificuldade de desenvolver empatia, que afecta sobretudo os mais jovens. A empatia é algo que implica interacção humana, sublinha. E quando grande parte da relação com o mundo é feita não através de outros seres humanos mas sim de ecrãs de televisões, computadores ou telemóveis, é muito mais difícil aprender a empatia.

E, no entanto, esta é algo que um bebé recém-nascido adquire com uma surpreendente facilidade. “Os bebés compreendem imediatamente a menor variação da mímica facial da mãe, desde muito pequenos. Somos uns virtuosos, únicos entre as espécies vivas a lidar com a mímica facial.” Daí que seja difícil criar um robot que possa realmente substituir uma pessoa.

Mas, relativamente à tecnologia, Cyrunik não tem uma posição redutora. “Tinha um amigo com uma clínica de hemodiálise e duas ou três vezes por semana as pessoas dormiam na clínica e criavam laços com a máquina, queriam sempre a mesma porque já conhecia as reacções deles. Como na psicanálise, havia uma relação transferencial.”

Por outro lado, “quando as crianças são criadas com ecrãs, são privadas da interacção, das palavras, do piscar de olhos, dos sorrisos; com um ecrã não há rituais de interacção”. Isso faz com que “tenham um atraso no desenvolvimento da linguagem quase como uma criança autista, não sabem descodificar as interacções, se alguém lhes sorri não compreendem, não aprendem os pequenos gestos que nos permitem viver juntos, socializam mal, tornam-se impulsivos”. Um bebé, frisa Cyrulnik, “precisa do cheiro, do calor dos braços da mãe”.

Se um bebé “é isolado antes de adquirir a palavra, o que acontece até aos 21 meses, há uma atrofia dos lóbulos pré-frontais e dos anéis límbicos”. São crianças que crescem “com um cérebro moldado pelo fracasso social e cultural” e “não conseguem controlar as suas emoções”.

Por isso, a ligação que muitos jovens (e não só) estabelecem hoje com esses ecrãs omnipresentes preocupa-o. “Já há consequências. Os jovens que passam mais de três horas por dia em frente a ecrãs mexem-se menos, encontram-se menos com os outros, têm mais depressões e, sobretudo, param o desenvolvimento da empatia – a aptidão a descentrarem-se de si próprios para conseguir a representação do mundo mental dos outros”.

A ausência de empatia manifesta-se, diz Cyrulnik, na forma como muitas pessoas “não estão atentas aos outros”. “No metro de Paris, por exemplo, isso é flagrante. Estão no meio da porta e não se mexem quando os outros querem entrar ou sair. Estão centrados neles mesmos porque a escola centrou-os sobre eles mesmos, os ecrãs também e aprenderam mal os rituais de interacção”.

O exemplo do metro pode ser menor, mas Cyrulnik confirmou esta constatação noutras situações mais graves. Recorda um rapaz que, no hospital e quando uma pessoa da família acabara de morrer e os outros familiares choravam, ria a olhar para alguma coisa no telemóvel. Ou outro que assaltara uma senhora que caíra acabando por morrer em consequência de uma pancada na cabeça e que respondia apenas que “se ela tivesse largado a mala, não teria morrido”.

“Sociedades brutais”

Uma sociedade com menores níveis de empatia é necessariamente mais perigosa, conclui. “Os psicopatas podem matar, roubar, violar, sem culpabilidade”. Por isso defende a necessidade de se desenvolver uma “pedagogia da empatia”, que deve começar nas escolas, para explicar que “não nos podemos permitir tudo”. Tal como é preciso perceber que “se um rapaz tem um desejo sexual não pode permitir-se tudo”, também uma rapariga que não esteja interessada nele “não pode permitir-se tudo, não pode humilhá-lo”.

Conseguirmos colocar-nos no lugar do outro – é isso a empatia e também, segundo Cyrulnik, a base da moralidade – ajuda a perceber que nem tudo é possível. “Temos, como sociedade, que ter uma maior consciência disso”. Em França, após a I Guerra Mundial havia um enorme número de órfãos e “praticamente todos conseguiram rapidamente uma família de acolhimento”. Hoje, nessa mesma França, em paz, “passam 16 meses entre o alerta de que uma criança está em risco e o momento em que vai encontrar uma família, e são 16 meses em que a criança é infeliz”. A ausência de empatia, avisa, “faz sociedades brutais”.

 

 

 

Onde há um adolescente, há sempre um smartphone (ou dois)

Março 13, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Antonio Gibotta

Texto e foto do P3 de 2 de março de 2018.

O fotógrafo italiano Antonio Gibotta começou a fotografar para o projecto The New Addiction em 2011, momento em que, para si, se tornou evidente que existia um relacionamento de natureza pouco saudável entre os adolescentes e os seus smartphones. “O número de jovens que utilizam a Internet aumentou, ao longo dos anos”, pode ler-se no site do fotógrafo. “As redes sociais são os sítios mais visitados; alguns adolescentes afirmam utilizá-las para se manterem em contacto com amigos distantes, enquanto outros dizem usá-las para criar relacionamentos e fazer novos amigos.” Seja qual for o motivo, “de acordo com estudos recentes“, os adolescentes passaram, em 2017, “cerca de 40 horas semanais nas redes e a jogar jogos de vídeo”. Gibotta considera que a linha que separa a diversão da dependência se esbateu e que, actualmente, muitos adolescentes vêem “a sua performance escolar diminuir”, a sua vida social ruir, apresentam sintomas de ansiedade e depressão e transformam-se em vítimas ou perpetuadores de bullying, “além de apresentarem dores corporais relacionadas com a má postura que assumem quando utilizam os telemóveis”. Quanto maior a utilização, maior o risco, na opinião do fotógrafo. “Infelizmente, os adultos ainda compreendem mal os possíveis riscos associados a este novo tipo de dependência e assumem uma postura de confiança passiva perante os seus filhos.”

O projecto The New Addiction venceu o terceiro prémio no concurso Picture of The Year International, em 2015, na categoria Feature Picture Story. Dois anos mais tarde, Antonio Gibotta foi distinguido com um segundo prémio pelo concurso World Press Photo, na cateogoria People, com a cobertura fotográfica de um golpe de Estado encenado em Alicante, Espanha. É possível acompanhar o fotógrafo através da sua conta oficial no Facebook, e no Instagram.

 

 

 

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