Onde há um adolescente, há sempre um smartphone (ou dois)

Março 13, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Antonio Gibotta

Texto e foto do P3 de 2 de março de 2018.

O fotógrafo italiano Antonio Gibotta começou a fotografar para o projecto The New Addiction em 2011, momento em que, para si, se tornou evidente que existia um relacionamento de natureza pouco saudável entre os adolescentes e os seus smartphones. “O número de jovens que utilizam a Internet aumentou, ao longo dos anos”, pode ler-se no site do fotógrafo. “As redes sociais são os sítios mais visitados; alguns adolescentes afirmam utilizá-las para se manterem em contacto com amigos distantes, enquanto outros dizem usá-las para criar relacionamentos e fazer novos amigos.” Seja qual for o motivo, “de acordo com estudos recentes“, os adolescentes passaram, em 2017, “cerca de 40 horas semanais nas redes e a jogar jogos de vídeo”. Gibotta considera que a linha que separa a diversão da dependência se esbateu e que, actualmente, muitos adolescentes vêem “a sua performance escolar diminuir”, a sua vida social ruir, apresentam sintomas de ansiedade e depressão e transformam-se em vítimas ou perpetuadores de bullying, “além de apresentarem dores corporais relacionadas com a má postura que assumem quando utilizam os telemóveis”. Quanto maior a utilização, maior o risco, na opinião do fotógrafo. “Infelizmente, os adultos ainda compreendem mal os possíveis riscos associados a este novo tipo de dependência e assumem uma postura de confiança passiva perante os seus filhos.”

O projecto The New Addiction venceu o terceiro prémio no concurso Picture of The Year International, em 2015, na categoria Feature Picture Story. Dois anos mais tarde, Antonio Gibotta foi distinguido com um segundo prémio pelo concurso World Press Photo, na cateogoria People, com a cobertura fotográfica de um golpe de Estado encenado em Alicante, Espanha. É possível acompanhar o fotógrafo através da sua conta oficial no Facebook, e no Instagram.

 

 

 

Cristina Ponte: «O ciberbullying é a situação que mais incomoda os miúdos na internet»

Março 13, 2019 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Reinaldo Rodrigues

Entrevista do DN Life de 26 de fevereiro de 2019 a Cristina Ponte.

A esmagadora maioria das crianças e adolescentes portugueses está online três a quatro horas por dia e, quando não está, muitas vezes sente-se aborrecido por isso. Relacionam-se online com pessoas que não conhecem na vida real e mais de metade encontrou-se com esses «estranhos» cara a cara. E gostou. Para falar destes e de outros resultados do mais recente estudo da rede EU Kids Online, entrevistámos a responsável portuguesa pelo mesmo, Cristina Ponte, investigadora e professora universitária do Departamento de Ciências da Comunicação da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, da Universidade Nova de Lisboa.

Entrevista Catarina Pires | Fotografia Reinaldo Rodrigues/Global Imagens

Como é a relação das crianças e adolescentes com a internet, nas palavras dos próprios? Responder a esta pergunta (e a muitas outras que cabem nesta) é o objetivo da Rede EU Kids Online que, para isso, e para perceber a evolução, faz estudos periodicamente, desde 2010, em diversos países da União Europeia. Portugal participou em 2010, 2014 e 2018. Os resultados nacionais do último já estão disponíveis, os europeus (o estudo está a ser realizado em 19 países) serão divulgados no final do ano.

No próximo dia 28 de fevereiro, na Conferência “Crianças e Jovens Portugueses no Contexto Digital”, será apresentado o mais recente estudo nacional da rede EU Kids Online, que teve a sua primeira edição em 2010. Quais são as grandes diferenças?
Em 2010, o panorama era marcado pelos computadores, os smartphones eram raros. O objetivo do estudo europeu – em 25 países, entre eles Portugal – era perceber riscos do uso da internet pelas crianças – pornografia, sexting, bullying e encontros com estranhos que conheceram online –, qual era a sua dimensão e como é que elas os reportavam.

Esse estudo levou a conclusões importantes, por exemplo, que os riscos nem sempre levam a situações que as crianças consideram danosas. Conhecer pessoas novas na internet era visto como uma oportunidade e não como um risco. O ciberbullying era o que mais incomodava e a pornografia era reportada pelos mais novos como perturbadora.

O estudo teve um grande impacto e inclusive influenciou políticas europeias no sentido de não olhar só para os riscos, mas também para as oportunidades, porque as duas coisas são indissociáveis – quanto mais se usa, mais riscos se corre, mas também mais oportunidades são criadas.

E em 2018, que mudanças verificaram?
A primeira grande mudança é a maneira como se acede à internet, que passou a fazer-se de forma esmagadora através do smartphone, o que permite um uso frequente, todos os dias, a toda a hora. 87% das crianças e jovens deste estudo usam-no todos os dias ou quase para aceder à internet, ou seja o acesso passou a ser muito mais instantâneo.

É como se o smartphone fosse uma extensão do próprio corpo.
Sim. E estão constantemente a receber informação, o que torna mais difícil a vigilância ou o acompanhamento dos pais. O tablet, que também é um meio novo, tem importância entre os mais novos, mas rapidamente a perde na pré-adolescência e na adolescência.

Portanto, o smartphone tornou-se hegemónico e isto reflete-se nas atividades online, verificando-se uma intensificação de tudo relativamente a 2010.

Dizem passar cerca de três (os mais novos) a quatro horas (os mais velhos) online por dia e, nesse tempo, ouvem música, veem vídeos (cerca de 80%) e comunicam com amigos e familiares e estão nas redes sociais (cerca de 75 %).

Procurar notícias, que ficou em oitavo lugar entre as atividades realizadas online, subiu muito relativamente aos estudos anteriores e isso deve-se claramente ao acesso mais simples (através de smartphone e das aplicações, é muito mais fácil e intuitivo).

Também as próprias crianças e adolescentes vivem hoje em lares com muito mais tecnologia. E os pais também estão sempre agarrados ao telemóvel, nas redes sociais, etc… Em 2010 e em 2014, não havia esta dimensão tão intensa do digital.

O uso mais intenso leva a que crianças e adolescentes estejam mais preparados para gerir a utilização que fazem da internet e das redes sociais, vão ganhando literacia digital, ou pelo contrário estão mais expostos aos riscos?
Eles acham que sabem (os resultados deste estudo baseiam-se num inquérito a crianças e adolescentes, dos 9 aos 17 anos, portanto trata-se da opinião deles).

O interessante será que todos – os próprios jovens, os pais, os professores… – olhem para estes números e tentem perceber até que ponto espelham a realidade.

Por exemplo, eles dizem que é muito fácil escolher as palavras chave para fazer pesquisas na internet mas não estarão a ser muito otimistas? Assim como quando dizem – pouco mais de metade – que é fácil verificar se a informação que encontram online é verdadeira.

São, portanto, dados para ler com cautela?
São sobretudo um ponto de partida para refletir e eventualmente mudar as práticas familiares neste campo. Uma das coisas de que as crianças e os jovens se queixam – e a grande maioria afirma que os ambientes familiares são bons – é de que são pouco ouvidos pela família.

Se calhar, este pode ser um ponto de partida para uma conversa sobre a internet em que a família discuta estas questões. As competências informacionais (saber distinguir credibilidade da informação, dentro e fora da internet) são as que colocam mais abaixo e são tão importantes para lidarem com a avalanche de informação. Os pais (e a escola também) podem ajudá-los nisto.

Em relação a 2014, a exposição a conteúdos desadequados cresceu exponencialmente: sites com mensagens sobre formas de automutilação (de 6% para 45%); com conteúdos discriminatórios (de 8% para 43%); com informação sobre formas de cometer suicídio (de 3% para 29%), entre outros. Isto é sintoma de quê? Comparando com os outros resultados do estudo, diria que são dados preocupantes em que sentido?
Esses valores elevados ilustram a diversidade de conteúdos negativos que circulam na internet, muitos deles estão ligados ao extremismo e discurso de ódio que têm vindo a crescer tirando partido das redes e das conexões digitais, onde tudo está ligado.

Não quer dizer que todos os jovens os procuram deliberadamente, por exemplo muitos referem que imagens reais de grande violência contra os mais fracos (crianças, pessoas com deficiência, animais) ou conteúdos que discriminam pessoas pela cor da pele ou orientação sexual os incomodam muito.

Os valores elevados destes conteúdos negativos são um alerta para que estes temas sejam também mais conversados e que os jovens sejam mais ouvidos sobre a sua experiência digital, e como conseguem construir a sua resiliência a esses conteúdos negativos e mesmo gerar outros discursos.

A campanha recente do Conselho da Europa contra o Discurso de Ódio, que também decorreu em Portugal, assentava precisamente no protagonismo dos jovens como agentes de intervenção.

São as tais competências sociais, informacionais e criativas assentes em direitos humanos que temos também de trabalhar cada vez mais, em casa, na escola, nos espaços informais, com eles e escutando-os também mais.

Vários estudos nos últimos tempos têm alertado para o risco de este uso intensivo da internet e da comunicação virtual ou mediada levar a uma diminuição da capacidade de desenvolver empatia.
Essa é outra questão importante e tem que ver com as competências sociais que devem ser trabalhadas em relação ao digital. Neste estudo, notámos que eles gostam mais do contacto face a face e dizem que as suas relações com os amigos são mais face a face do que virtuais – o que contraria a ideia de uma maioria de contactos mediados.

Eles gostam de estar face a face, muitas vezes não têm é oportunidade para o fazer, a escola é onde estão mais. Temos feito outros estudos de natureza mais qualitativa e, em relação às questões do comportamento, nas tais competências sociais para o digital que devem ser trabalhadas, a empatia é fundamental, o ser capaz de se colocar no lugar do outro.

Para lidar com a agressão, como o ciberbullying há programas que recorrem a atividades de role play, um faz de vítima, outro faz de agressor, outro faz de testemunha, para perceber com se sente quando está nessa posição, mesmo que na vida real nunca tenha passado por isso. Uma das conclusões que identificámos logo em 2010 foi que muitos dos que são vítimas de ciberbullying também são (ou tornam-se) agressores. É preciso trabalhar muitas competências – informacionais, sociais, criativas e para isso temos que desconstruir o mito dos nativos digitais.

Desconstruir o mito dos nativos digitais? Não o são?
Não, não são nem nativos digitais nem são ignorantes digitais, nem nascem ensinados e sabem tudo da internet e das novas tecnologias nem são uns coitadinhos desprotegidos num ambiente que só tem riscos.

Eles têm o direito a viver com os recursos do seu tempo e nós, pais, educadores, sociedade, temos o dever de trabalhar com eles competências que desenvolvam literacias digitais: não só a tecnológica, que essa até dominam com facilidade, mas as competências sociais, emocionais, a capacidade de perceber o ponto de vista do outro e como reagirá, a capacidade de criar, mas também conseguir lidar com as críticas, positivas ou negativas, e com a frustração que vem daí, porque isso faz parte da vida, o ter a noção de até onde se quer expor, porque não somos obrigados a expor toda a nossa vida online.

Ou seja, há um conjunto de competências sociais muito importantes para tirar partido dos recursos do digital, que são imensos. Muitas crianças gostariam que os pais acompanhassem mais o que elas fazem.

O sharenting [partilha, pelos pais, de fotos ou informações sobre os filhos nas redes sociais] é um risco sobre o qual questionaram pela primeira vez crianças e adolescentes e eles revelaram-se incomodados, não foi?
Quisemos perceber como é que uma prática cada vez mais corrente – a de os pais exporem nas redes sociais a vida familiar sem autorização das crianças e dos adolescentes – vai contra o direito que estes têm à sua privacidade e a serem ouvidos nessa opção.

Metade daqueles cujos pais publicaram coisas sobre eles (comentários, fotografias, vídeos) sem o seu consentimento ficaram aborrecidos com isso e pediram aos pais para eles tirarem esses conteúdos. Alguns chegaram a receber comentários negativos ou ofensivos de colegas por causa de coisas publicadas pelos pais sobre eles.

Mais uma questão para pôr os pais a pensar?
Sim. Os pais devem pensar que isto fica para sempre e que não é só o ciclo de amigos que vai ver. Pensar antes de publicar. E depois envolver a criança ou adolescente para saber se se importa ou não. É uma questão de direitos.

Essa é uma questão que queremos relevar: o direito a viver este espaço digital com a garantia da proteção, do acesso e da participação. Eles têm direito a participar e a definir como é que os outros lhes fazem referência.

É uma questão de direitos das crianças?
Sim, esta questão dos direitos digitais das crianças tem vindo a ser destacada pela UNICEF. Na continuação do nosso trabalho na rede EU Kids Online, a UNICEF criou e apoia a rede Global Kids Online e que assenta nesta perspetiva dos direitos digitais das crianças: o direito a ter proteção – existirem ambientes adequados, que tenham botões onde possam reportar abuso, por exemplo –, o direito a conteúdos adequados à sua idade e o direito a participar, a ter voz. Estes são os Direitos da Convenção: proteção, provisão, participação. Como se garantem estes direitos? Com o empenho da indústria, dos responsáveis por políticas de inclusão, para que as crianças também possam ter mais literacia digital.

Mas para isso seria preciso que os adultos, pais e professores, também tivessem literacia (muitas vezes não têm)?
Sim. Por isso é que estamos a fazer o lançamento deste estudo. Gostaríamos que servisse para pôr as pessoas a pensar. As crianças dão-nos este retrato. Por exemplo, as questões do tempo: as crianças passam demasiado tempo nos ecrãs, e os pais? As crianças sentem-se aborrecidas quando não estão ligadas. E os pais? Ou seja, desconstruir essa ideia de que as crianças vivem num mundo que não tem nada que ver com o mundo dos adultos. Hoje, nos países desenvolvidos não há ninguém que não tenha um telemóvel e não esteja sempre a olhar para ele. Se calhar, é tempo de refletir sobre como estamos a educar os nossos filhos.

As raparigas passam mais à ação do que os rapazes quando se sentem incomodadas. Isto deve-se a uma maior maturidade ou a uma vigilância por parte dos pais que é maior em relação a elas do que a eles?
Há diferenças de géneros curiosas. Elas dão sempre respostas mais baixas do que eles no reconhecimento das suas competências. Eles são mais confiantes. Mas depois, quando vamos ver o que fazem em situação de risco, elas agem mais do que eles, reportando o problema ou bloqueando a pessoa.

Pode ser porque estão mais expostas a situações de incómodo, mas também é verdade que, de acordo com o estudo, elas falam mais com os pais e os pais preocupam-se mais com a mediação das filhas do que dos filhos. Será que a maneira como acompanho a atividade do meu filho rapaz é diferente, deixo-o mais à vontade? É uma pergunta que os pais podem fazer-se.

Uma das maiores preocupações dos pais é a exposição a conteúdos sexuais. Aumentou a exposição e aumentaram, sobretudo rapazes, os que dizem não se importar ou até gostar. Quais são os maiores riscos?
Neste estudo introduzimos uma nova pergunta: o que sentiram nas situações consideradas de risco? O bullying é a situação que mais incomoda.

Mas quando vamos para as imagens sexuais, que é uma coisa que os adultos em Portugal têm muita dificuldade em aceitar que os filhos vejam, o que encontramos é um número muito alto dos que ficaram contentes, sobretudo entre os rapazes adolescentes.

Faz parte da exploração da sexualidade e muitas vezes não têm outro espaço para a ter. Isto desconstrói a ideia de que os jovens ficam muito incomodados ao ver imagens de sexo. Contudo, os pequeninos dizem ficar incomodados e é preciso os tais mecanismos de proteção.

E os encontros com pessoas que só conheciam online – também cresceram. Isto apesar das campanhas feitas, dos avisos dos pais, das aulas de cidadania…
As campanhas têm também de ouvir os jovens para terem como base a sua experiência. O que vemos é que esses encontros cara a cara com pessoas que conheceram na internet são na esmagadora maioria com «amigos de amigos», com pessoas com quem partilham interesses e daí quase oitenta por cento nos dizer que ficaram contentes com esses encontros. Como os pais também faziam na sua adolescência, com a criação de novos amigos.

Não quer dizer que não se deva falar dos perigos de falsas identidades, mas em vez do «não vás» certificar que o jovem está capacitado para lidar com a situação e que sabe que tem a confiança dos pais, não precisando de lhes mentir. Um ambiente de mais comunicação familiar é também o que este estudo aponta como desejo dos mais novos.

 

 

O Tempo que as crianças/jovens passam online. O que os pais podem fazer – 1 de março na Biblioteca Municipal Ruy Belo (Pendão / Queluz)) com a participação de Cláudia Manata do Outeiro do IAC

Fevereiro 28, 2019 às 2:00 pm | Publicado em CEDI | Deixe um comentário
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A Dra. Cláudia Manata do Outeiro do IAC-CEDI (Centro de Documentação e Informação sobre a Criança), irá participar na sessão “O Tempo que as crianças/jovens passam online. O que os pais podem fazer”.

Encontro “Encontrar Respostas: Internet – Novas Dependências” 27 fevereiro em Lisboa

Fevereiro 24, 2019 às 9:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Mais informações no link:

Há uma nova ameaça nas salas de aulas, chama-se Fortnite

Fevereiro 14, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Diário de Notícias de 20 de janeiro de 2019.

Rita Rato Nunes

O jogo online mais popular do mundo, que supera os 200 milhões de utilizadores registados, encanta crianças cada vez mais novas. Numa escola primária do Montijo, as aulas passaram a decorrer de forma diferente por causa do Fortnite. Também os psicólogos começam a receber casos de pré-adolescentes com dependência do videojogo e pedem aos pais para estarem atentos.

Nuno Cantoneiro é professor primário na Escola Básica Ary dos Santos, no Montijo. À sua frente tem todos os dias uma turma de quarto ano “com muito bons alunos”; dez raparigas e dezasseis rapazes. Mas em novembro do ano passado começou a notar alterações no comportamento dos rapazes: ficaram “mais agressivos, nervosos, entre eles havia conflitos, picardias frequentes, até chantagem”. E chegadas as avaliações intercalares, as notas “desceram, mesmo no caso dos muito bons alunos”, confirmando o já suspeitado. Na sala reservada aos docentes, a outra professora de quarto ano da escola queixava-se do mesmo.

Em comum, estes alunos tinham uma “fixação” pelo Fortnite . Um videojogo em que cem jogadores/personagens têm como objetivo eliminar os outros avatares e sobreviverem aos ataques dos inimigos, enquanto o cenário vai sendo reduzido para incentivar o confronto. Existem dois modos de jogo: o Battle Royale (gratuito) e o Save The World (pago).

Para os professores não foi difícil fazer a associação entre a atitude dos alunos e o jogo: os estudantes traziam o mundo virtual para o real sempre que lhes era dada uma hipótese. Quando lhes era pedido um desenho, na folha surgia “uma relação com o Fortnite, cada vez que tinham um bocadinho começavam logo a falar do jogo” ou faziam o “floss” – o popular movimento das personagens em que os braços balançam de um lado ao outro junto à cintura. Além disto, “entre eles [alunos] notava-se ainda um clima de chantagem. Ouvi várias vezes conversas como: ‘Se não fores às tantas horas jogar, eu conto não sei o quê.’ Eles criavam represálias. Mas isto só acontecia com o grupo dos rapazes”, conta Nuno Cantoneiro ao DN.

“Nunca tinha notado isto por causa de um videojogo. No passado, todos jogaram ao berlinde, depois ao pião, mas agora todos jogam Fortnite. Tornou-se uma fixação“, acrescenta.

O sistema europeu de classificação etária de jogos – Pan European Game Information – declarou que o Fortnite deve ser jogado a partir dos 12 anos por conter cenas de violência, mas na prática os jovens começam a juntar-se a este mundo mais cedo.

Pedro Hubert é psicólogo e dá apoio, no Instituto de Apoio ao Jogador, a pessoas viciadas no jogo. Os casos que tem acompanhado relacionados com videojogos eram sobretudo de estudantes universitários, que se mudaram para Lisboa sozinhos e a quem os estudos não estavam a correr tão bem.”Mas comecei a ter alguns pacientes com 15 anos e já tive um com 13, que devem ter começado a ter problemas antes, porque eles só chegam aqui quando o problema é muito grande e manifesto”, refere o psicólogo ao DN.

O professor Nuno optou por esperar pela reunião de avaliação intercalar para ter uma conversa com os pais. E os encarregados de educação não ficaram indiferentes ao tema. “Alguns pais disseram logo que andavam a notar diferenças no comportamento dos filhos. A mãe de um aluno, que é muito bom aluno, disse logo que notou que o filho estava mais intempestivo, que antes não era preciso nunca mandá-lo fazer os trabalhos de casa e que passou a ter de o obrigar.”

“Os pais limitaram o uso do jogo e notou-se logo a diferença: passaram a falar menos do Fortnite durante as aulas e as notas voltaram a subir”, afirma o professor.

O que é que os faz jogar?

“Já tive pais que dizem que os filhos estão o fim de semana todo a jogar, dez, 12, 14 horas seguidas. E nos dias de semana, quando vêm da escola e vão para casa dos avós, também estão horas a fio a jogar”, reconhece o psicólogo Pedro Hubert.

Segundo o especialista, o fenómeno atinge faixas etárias mais baixas, porque o jogo tem um conceito simples e é “fácil de perceber as regras”. “E depois não é só o jogo, é também toda aquela componente streaming – ver os outros a jogar, ver as dicas para jogar melhor, as danças”, diz Pedro Hubert.

Além destes aspetos, o psicólogo chama ainda a atenção para o facto de este ser um jogo gratuito e estar disponível em todas as plataformas (tablets, telemóveis, computadores, consolas).

“Estes jogos são todos muito bem construídos por forma a agarrarem o utilizador e a terem muito atrativos: os gráficos, o enredo, o facto de nunca acabar, o facto de se poder jogar sozinho ou em equipa, a existência de um ranking. Há uma receita para os videojogos e este foi muito bem conseguido”, continua.

O fundador do projeto MiudosSegurosNa.Net, Tito de Morais, vai mais longe e questiona se são os jogos que “podem conter mecanismos viciantes” ou se são as pessoas que usam “os videojogos como meios de escapar a realidades que lhes são desagradáveis e para as quais não desenvolveram mecanismos e resiliência para os enfrentar”.

Impacto do jogo nos mais novos

Tanto Pedro Hubert como Tito de Morais reconhecem que o videojogo com mais de 200 milhões de utilizadores “tem coisas positivas”. O que os preocupa é a quantidade de tempo despendido com o Fortnite. Jogar pode melhorar “a tomada de decisões, a resolução de problemas, o trabalho de equipa, o pensamento estratégico”, refere Hubert.

“Agora quando é demais pode trazer situações muito graves ao nível de ansiedade social, problemas de depressão, agravar problemas de socialização, aumentar o isolamento e uma grande irritabilidade que vem da falta de sono”, enumera o psicólogo.

Horas em excesso nos videojogos podem ainda levar uma diminuição do aproveitamento escolar, a uma perda de interesse noutra atividade e a conflitos com os outros. Em junho, a Organização Mundial da Saúde incluiu na listas das doenças o vício em videojogos.

“A minha psicóloga disse-me que este jogo não é muito adequado para as crianças, mas eu gosto”, confessa Guilherme Oliveira, de 11 anos, que vive em Lisboa e também joga Fortnite. “Ela [a psicóloga] disse-me que é como quando os adultos tomam drogas. Depois as crianças ficam alteradas e batem nos pais. Eu nunca vou bater na minha mãe, eu sei que temos de respeitar os mais velhos.”

Descobriu o jogo na escola, no ano passado, e como ainda não tinha uma plataforma para jogar começou por ver vídeos no YouTube de outros jogadores e das danças associadas ao Fortnite. Agora, já tem uma Nintendo Switch, que recebeu da irmã no Natal e que é o pesadelo da mãe.

“Este jogo tira-me do sério. É viciante. Os miúdos não querem jogar outra coisa e é um bocadinho violento: é só matar”, diz Maria Oliveira, mãe de Guilherme.

Maria Oliveira consegue reconhecer as consequências do tempo excessivo em frente ao jogo no filho. “Ele é uma criança ansiosa, por isso não o posso deixar estar em contacto com este tipo de jogos muito tempo.” Guilherme fica mais enervado, principalmente no momento em que tem de largar a consola. Por isso, Maria limita o tempo que o pré-adolescente passa a jogar: “Só pode jogar vinte minutos três vezes por semana.” O controlo é matemático: Maria tem uma aplicação no telemóvel onde define o tempo durante o qual Guilherme tem acesso ao jogo.

Atenção, pais

Pedro Hubert e Tito de Morais aconselham precisamente os pais a estarem atentos à forma como os filhos jogam online. Para isto, segundo os especialistas, é importante:

– perceber quem está do outro lado do ecrã quando os jogos envolvem outras pessoas;

– conhecer o jogo, se possível experimente, e confirme que é adequado à idade do jogador;

– conversar com os filhos sobre aspetos relacionados com a segurança no jogo;

– apesar de o Fortnite ser gratuito, o jogo inclui compras dentro da aplicação, para a aquisição de extensões, personagens, bónus, roupas, armas e equipamentos. Segundo Tito de Morais, o ideal é proteger estas compras com uma palavra-passe.
Para colocar filtros parentais, pode utilizar estes sites: https://www.netnanny.com/ , https://www.cybersitter.com/ , https://www.qustodio.com/pt

– definir um limite de tempo para o jogo;

– impor requisitos para jogar, como ter boas notas;

– estar atento à relação do filho com o jogo, para que este último não possa ser usado como um refúgio;

– pode ainda contactar a Linha de ajuda SOS perturbação de jogo (968 230 998), que apoia pessoas com problemas de abuso, dependência ou adição ao jogo.

 

Prevenir Fenómenos de Dependência Online

Fevereiro 11, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do site Internet Segura de 18 de janeiro de 2019.

A utilização da Internet, principalmente de plataformas digitais como o Facebook, Instagram ou Youtube ocorre cada vez mais de uma forma regular, independentemente da idade dos seus utilizadores, tornando-se um desafio estabelecer uma utilização saudável das mesmas. Segundo dados obtidos da PORDATA (Base de Dados de Portugal Contemporâneo), o total de utilizadores da Internet até 2018 atingiu os 74,7%.

Dentro da população de utilizadores da Internet, surgem diferentes padrões de utilização: Desde os utilizadores mais casuais, que consultam algumas plataformas online algumas vezes por semana ou por mês, a utilizadores mais intensivos que estão em permanente contacto com diversas plataformas. Esta tipologia de utilizadores  pode estar mais sujeita ao aparecimento de sintomas de dependência associados à utilização intensiva das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC). Sintomas como a ansiedade, o stress, o desajustamento dos horários de período de sono e refeições, entre outros, podem estar associados a esta utilização intensiva e pouco saudável das TIC. Esteja atento a estes sinais e opte por algumas estratégias de prevenção, nomeadamente:

1 – Registos diários.

Efetue registos relativos ao tempo investido nas diferentes plataformas online e dispositivos que utiliza para comunicar/interagir através da Internet. Aponte num caderno as horas que passa e cada vez que se ligar à rede. Pode inclusive optar pela instalação de aplicações que fazem esta monitorização e lhe enviam alertas sobre o tempo dispendido.

2 – Opinião da família e amigos.

Peça à sua família e amigos mais chegados, um feedback relativo ao tempo que consome quando está online e em que medida este tempo online pode estar a convergir com atividades importantes para si e para os seus amigos e familiares.

3 – Estabeleça limites.

Defina alguns limites relativos ao tempo que passa online. Pode inclusive determinar momentos do dia em que está afastado dos diferentes dispositivos que utiliza para estar online, ou até…

4 – Internet Free Day.

Escolha um dia da semana (ou do fim-de-semana) para promover um “Dia Sem Internet”. Este dia poderá ajudá-lo a lentamente, saber aproveitar as diversas atividades offline e a sentir uma menor ansiedade quando reduz o tempo em que está online.

 

 

Farta de vê-los diante de ecrãs? Veja estas alternativas simples

Janeiro 28, 2019 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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thumbs.web.sapo.io

Texto do Sapolifestyle de 31 de dezembro de 2018.

Passar horas diante de um computador trava a criatividade e a imaginação. Mas, caso se tenha esquecido, há outras formas de entreter as crianças. E de uma forma bem mais construtiva.

Há muitas maneiras de criar oportunidades de aprendizagem infantil que não envolvam telefones, tablets ou computadores. Com um pouco de criatividade e muita diversão, pode conseguir que as mentes mais acomodadas se desenvolvam sem que o percebam. A Family Online Magazine dá algumas alternativas divertidas.

  • A leitura é a melhor maneira de preservar ou melhorar o que foi aprendido durante a escola. Uma viagem à biblioteca uma vez por semana pode ser um programa divertido.
  • As crianças adoram jogar, portanto vá buscar os jogos de tabuleiro que tem arrumados. Muitos promovem a leitura e as habilidades de memória, outros ensinam o valor do dinheiro.
  • Livros e autocolantes são uma ótima maneira de se divertir e aprender ao mesmo tempo.
  • Incentive as crianças mais velhas a manterem um diário ou a escreverem cartas aos amigos e membros da família que estão longe.
  • Um simples passeio, ao parque ou ao zoo, pode ser transformado numa grande experiência de aprendizagem, especialmente para as crianças mais novas. Observar animais estimula a curiosidade.
  • Leve os seus filhos a um campo de desporto, proporcionando-lhes experiências em grupo com crianças da sua idade. Pode fazer o mesmo com atividades artísticas. Isto é especialmente importante para filhos únicos, porque permite-lhes interagir e brincar com outras crianças.
  • Encene uma peça de teatro. Incentiva o uso da imaginação, que permanece inativa enquanto a criança vê televisão. Arranje algumas roupas velhas que possam vestir.

 

 

Paulo Oom: «Os pais têm de dar o exemplo»

Janeiro 23, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social, Vídeos | Deixe um comentário
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Notícia e imagem do Notícias Magazine de 20 de maio de 2018.

Vários estudos indicam que a idade média em que uma criança começava a ver TV regularmente em 1970 era 4 anos. Em 2016, essa média era de 4 meses. Que caminho estão as crianças a fazer e que atitude devem os pais adotar? Estas foram algumas das questões a que Paulo Omm, pediatra convidado da conferência da Notícias Magazine, respondeu no auditório do ISCTE, em Lisboa.

Texto de Alexandra Pedro

A criança hoje vive à frente do mundo digital. Tem tudo à sua disposição», começou por dizer o especialista na conferência da Notícias Magazine sobre se «Há tecnologia a mais na vida dos nossos filhos?».

«Para dar uma ideia do impacto que a tecnologia tem, há uma métrica muito fácil de usar. Quanto tempo demora determinada tecnologia, quando aparece, até estar presente na casa de cinquenta milhões de pessoas?», questionou Oom, enumerando dados da televisão e da rádio.

«A rádio demorou 38 anos a existir na habitação de cinquenta milhões de pessoas em todo o mundo. O telefone, vinte anos. E a televisão, 13.» E a internet? «Apenas quatro anos», afirmou o pediatra. E foi ainda mais longe: «A última versão do Google+ nem chegou a três meses.» Hoje, a tecnologia espalha-se a uma «velocidade vertiginosa e não temos mão nela», considerou, perante a plateia esgotada daquele auditório.

Para explicar as suas ideias sobre o tema, Paulo Oom dividiu a intervenção em duas fases. Primeiro falou sobre as crianças dos 0 aos 8 anos. Os dados sobre a utilização tecnológica nestas idades confirmam a rapidez referida acima.

«Em 2011, 38 por cento das crianças tinham usado uma vez o telemóvel, dois anos depois [2013] já 72 por cento das crianças tinham estado em contacto com um telemóvel», diz, com base num estudo americano sobre o tema.

No caso das crianças americanas, dos 0 aos 2 anos, um estudo indica que estas estão cerca de uma hora e quinze minutos por dia a olhar para ecrãs. O problema agrava-se porque, segundo Paulo Oom, até aos 2 anos as crianças têm «níveis muito imaturos de atenção, memória e pensamento simbólico», além de que, nesta idade, as crianças não conseguem «transformar o que estão a ver de 2D para 3D, ou seja, não percebem que o que estão a ver no ecrã é adaptável à sua vida».

É aqui que entra o papel fundamental dos pais. «Se a criança for deixada sozinha com o ecrã aprende zero, não retém nada. É necessário um desenvolvimento por proximidade» e é por isso que os pais «devem estar presentes para lhes explicarem como aplicar o que estão a ver». Além da crescente utilização, outro alerta do pediatra é sobre os conteúdos. «Há um predomínio do entretenimento quando se compara com os programas educacionais.

Podíamos pensar que haveria maior uso das tecnologias porque as crianças tinham muitas aplicações para estudo ou para ensino, mas, pelo contrário, é o entretenimento que domina. E dentro do entretenimento, quer na Europa quer nos EUA, o YouTube é o rei da utilização nos ecrãs», explica Oom.

A partir dos 4 anos, há estudos que confirmam que aplicações tecnológicas podem treinar a persistência, ajudar a controlar impulsos e emoções e aumentar a criatividade. Ainda assim, as crianças com grande utilização de tecnologia podem mostrar atrasos cognitivos, atrasos na linguagem e menor interação social.

O ideal? «Estimular a criança a aprender mas sem que a tecnologia substitua o papel que tem a interação com um adulto ou com outras crianças», explica o especialista com vários livros publicados na área da infância.

Paulo Oom deixa vários conselhos para os pais, «que devem ser o primeiro exemplo», nomeadamente «evitar ecrãs nas refeições, durante brincadeiras e uma hora antes de dormir». É igualmente «importante monitorizar o conteúdo, estabelecer regras em relação ao tempo e ao contexto da utilização dos aparelhos e assegurar que as regras são cumpridas».

Os dados alarmantes espelham-se também na adolescência, a outra fase do discurso de Paulo Oom, que indica que dos 10 aos 18 anos a criança americana está «ligada à tecnologia sete horas e 38 minutos por dia. E 24 por cento destas crianças dizem que vivem permanentemente ligadas», frisou.

Contudo, Paulo Oom não tem dúvidas: «A culpa não é só das crianças.» «A culpa é também dos pais, que dão o exemplo. Um adulto americano, fora do seu emprego, está 33 horas por semana ligado ao seu ecrã, o que significa que em 20 anos está quatro a olhar para um ecrã, fora do trabalho», esclareceu.

No debate moderado por Catarina Carvalho, diretora executiva do Diário de Notícias, Manuel Laia, Head of International Sales da Science4you – empresa de brinquedos tecnológicos e científicos – explicou como esta indústria se tem adaptado a uma nova realidade.

«Inicialmente procurámos ter brinquedos educativos e diferentes e que fossem virados para a coordenação motora e para o desenvolvimento de outro tipo de capacidades. Contudo, ao longo do tempo, percebemos que tínhamos de nos juntar ao digital, mas tentámos que fosse na medida certa», frisou o responsável da empresa. Laia esclarece que atualmente são os brinquedos offline que têm mais procura. «Os pais escolhem-nos para evitar que os filhos se viciem na tecnologia.»

O eurodeputado Carlos Zorrinho, da comissão da Indústria e Investigação, outro dos convidados, lembrou que seria «importante introduzir a componente social» na temática, quando questionado sobre o interesse dos pais.

«Tudo isto tem de ser feito com um propósito. Todos desejamos que os nossos filhos sejam saudáveis, que sejam felizes, que aprendam a pensar e que desenvolvam o seu raciocínio lógico», frisou o eurodeputado português.

Vídeo da conferência de Paulo Oom no link:

https://www.noticiasmagazine.pt/2018/paulo-oom-os-pais-dar-exemplo/

 

Os peixes nas redes – Miguel Esteves Cardoso

Janeiro 18, 2019 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Miguel Esteves Cardoso publicado no Público de 4 de janeiro de 2019.

O que não há nos livros é o eu. Não estou lá de maneira nenhuma. Só há outras pessoas. O mal das redes sociais é o eu-eu-eu e o meu-meu-meu e o vício de usar os likes como um espelho de tique-tiques.

Estou numa esplanada onde não há rede. Vejo um rapaz com onze ou doze anos de braço esticado a olhar para o telemóvel. Diz sempre “no service“. Faz isto durante uma hora inteira. Não fala com os pais. Não abre um livro. Não olha para a paisagem. Não brinca. Tem sempre a mesma expressão chateada e desiludida. Sente-se que não é a primeira vez que isto acontece.

Eu estou a ler no meu Kindle. Mas parece que estou na Internet. O rapaz deve pensar que eu consegui rede. Na volta, é por causa disso que o desgraçado não desiste.

Passa uma pessoa atrás de mim e percebe que estou a ler. Comentário dela: “Grande seca!” Não compreendi. Respondi: “Não! Estou a ler o…” mas já não deu para acabar. Há décadas que ninguém me pergunta o que estou a ler. Estou habituado.

Depois percebi. A grande maioria das pessoas já não associa a leitura ao prazer. Só pode ser isso. Lêem para estudar, para aprender, porque pensam que lhes faz bem ou dá jeito. Mas não lêem pelo prazer de ler, de ser transportado para outros mundos, onde não sabemos o que vai acontecer – ou sabemos mas gostamos de lá voltar, à procura duma coisa diferente em que não tenhamos reparado.

O que não há nos livros — e é por isso que é um tão grande alívio — é o eu. Não estou lá de maneira nenhuma. Só há outras pessoas. O mal das redes sociais é o eu-eu-eu e o meu-meu-meu e o vício de usar os likes como um espelho de tique-tiques.

O prazer de ler — ficar absorto, desaparecer, ficar pendurado — é uma solidão acompanhada, uma viagem sem fim e sem esforço.

 

 

Ação “Novas Tecnologias: O impacto do excesso de ecrãs no desenvolvimento dos filhos e das famílias” 17 janeiro em Lisboa

Janeiro 11, 2019 às 6:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Tópicos:

  • O impacto do excesso dos ecrãs nos primeiros anos de vida
  • Como gerir o tempo de ecrãs nas diferentes fases de desenvolvimento
  • A dependência da internet – sinais de alerta e o que fazer
  • Crianças desatentas, ansiosas ou tristes e a sua relação com os ecrãs

com Rosário Carmona e Costa

mais informações no link:

http://www.red-apple.pt/workshops-redapple/item/209-encontros-_pais

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