Criança foi retirada aos pais por causa de videojogos

Agosto 27, 2015 às 9:00 am | Na categoria A criança na comunicação social | Deixe o seu comentário
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Notícia do i de 25 de agosto de 2015.

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Denúncia foi feita pela escola.

Uma criança cujos pais passavam demasiado tempo a jogar videojogos, foi retirada à família pelos Serviços Sociais. Segundo o The Sun, os assistentes sociais avançaram com o processo depois de entenderem que a obsessão era equiparada a “negligência”. Aconteceu no início deste mês em Walsall, no Reino Unido, e a situação foi inicialmente reportada pela escola da criança.

Claude Knights, chefe da instituição de caridade destinada apoiar crianças que está a tomar conta da ocorrência, disse que “os jogos de computador estavam a ter uma utilização extrema. Os pais estavam a perder demasiadas horas do dia à frente do ecrã”.

“Se a criança estava negligenciada ou com falta de cuidados, as autoridades não tinham outra opção se não intervir”, acrescenta a responsável.

No início deste ano, os directores de algumas escolas primárias no Reino Unido, alertaram os pais de que, caso permitissem que os filhos jogassem videojogos (como Call Of Duty e Grand Theft Auto, por exemplo), isso seria reportado à polícia e aos serviços sociais como caso de negligência. Os directores explicaram, ainda, de acordo com informação avançada pela polícia, que estes jogos podem provocar “comportamentos sexuais precoces”.

A carta enviada pela escola à polícia, no mês passado, disse que “várias crianças relataram jogar ou assistir adultos a jogar jogos que são inadequados para a sua idade, tendo descrito os níveis de violência e conteúdo sexual que testemunharam – como Call of Duty, Grand Theft Auto, Dogs Of War e outros jogos similares que são inadequados para crianças e aos quais não deveriam ter acesso.”

Esta investigação levou ainda a que dez crianças fossem retiradas às famílias por os pais fumarem.

 

 

Uso excessivo da Net pode vir a ser considerado perturbação mental

Agosto 25, 2015 às 8:00 pm | Na categoria A criança na comunicação social | Deixe o seu comentário
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Notícia do Público de 25 de agosto de 2015.

Maria João Gala

A Associação Americana de Psiquiatria, responsável pela edição do manual de diagnóstico das doenças mentais (DSM), uma espécie de bíblia para muitos dos que trabalham nesta área, está a ponderar incluir a chamada “perturbação de uso da Internet”, o uso excessivo das novas tecnologias, na próxima revisão da obra. A dependência extrema da Net poderá, assim, vir a integrar o catálogo das perturbações psiquiátricas, como já acontece, por exemplo, com o jogo patológico.

Especialistas contactados pelo PÚBLICO demonstram algumas reservas em relação a esta possibilidade, apesar de reconhecerem que o problema é “preocupante”. Tão preocupante que a equipa de Daniel Sampaio, director do serviço de psiquiatria do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, criou há cerca de um ano um “núcleo de utilização problemática de Internet” para dar resposta ao número crescente de pedidos de consulta para problemas deste tipo. Problemas de adolescentes e jovens adultos, basicamente, e que usam de forma excessiva uma série de novas tecnologias, sobretudo jogos online.

Os dados disponíveis para Portugal indicam que o problema é sério. Um recente estudo do Instituto Universitário de Psicologia Aplicada (ISPA) mostrou que quase três quartos dos jovens (até aos 25 anos) inquiridos apresentavam sintomas de dependência do mundo digital. E, destes, 13% exibiam níveis severos de dependência. Em casos extremos, o vício online pode implicar isolamento, comportamentos violentos e até exigir tratamento. Coordenado por Ivone Patrão, este trabalho passou por três fases de aplicação de questionários a cerca de 900 adolescentes e jovens dos 14 aos 25 anos.

O núcleo do Hospital de Santa Maria cobre escolas da zona, como as secundárias Virgílio Ferreirade Benfica e a Gomes Ferreira, exemplifica Daniel Sampaio. Mas quem se enquadra, afinal, neste tipo de definição? “São pessoas que não fazem mais nada, [estão viciadas] sobretudo em jogos online. Chegam a faltar às aulas, não cumprem os seus compromissos”, sintetiza, sublinhando que este comportamento está habitualmente “associado a ansiedade e a depressão” e que a adição surge muitas vezes como uma espécie de “tranquilizante”.

Na DSM 5 (que é de 2013), apesar a única dependência comportamental incluída ser o “o jogo patológico”, a Internet gaming disorder (perturbação de jogo na Internet) aparece já no apêndice das entidades que se reconhece precisarem de mais investigação. Mas o problema é mais lato, estendendo-se às novas tecnologias em geral.   Não deitem fora agenda em papel “Isto está em estudo há muito tempo”, frisa Daniel Sampaio, que lembra que estão a ser feitos trabalhos de campo para se perceber o uso excessivo da Net preenche ou não os critérios para ser considerado uma perturbação psiquiátrica. O que se pode dizer, por enquanto, é que o problema “existe e é preocupante”, enfatiza.  Mas não se sabe ainda se vale a pena elencá-la como uma perturbação independente por si mesma. Classificar como doença situações que podem ser apenas problemas de comportamento pode ser complicado, alerta.

“A maior parte das pessoas, mesmo que faça uso da tecnologia durante horas excessivas, ainda não o entende como uma adição”, sustenta Alexandra Rosa, que é psicóloga da saúde no Hospital dos Lusíadas e chama a atenção para outro problema relacionado com este: o da utilização constante de iPhones ou de agendas electrónicas, que pode acabar por prejudicar a memória. “Com os iPhone as pessoas deixam, por exemplo, de decorar datas de aniversário”.

A psicóloga até já se acostumou a recomendar aos seus doentes a não deitarem fora a velha agenda de papel. “A visualização e o treino de outros aspectos da memória são muito importantes, até porque a tecnologia também falha”, frisa.

Sobre o uso excessivo da Internet em geral, Alexandra Rosa lembra que está a ser tudo muito rápido: “No espaço de 15 anos, ficamos habituados ao contacto permanente, e agora sentimos ansiedade quando tememos ficar desligados do mundo”. O que defende é que a diferença entre o que será normal ou patológico deve ser ponderada em função da utilização que é feita da tecnologia. “Quando a pessoa deixa de ter padrões relacionais, quando prejudica o seu trabalho, o seu sono e até a sua alimentação, isso já é motivo de preocupação”, considera.

“Pode haver dependência de tudo e mais alguma coisa”, defende o coordenador nacional para a saúde mental, o psiquiatra Álvaro Carvalho, para quem nem todo o tipo de comportamentos excessivos deve ser entendido como patológico. “Isso depende de o uso da Internet poder ou não ser altamente pernicioso para o desenvolvimento, contribuir para desarranjar a vida, como acontece com a dependência do jogo”, compara.

“Face a uma  prevalência muito elevada, e no caso de pessoas que não vivem para outra coisa, estão sempre ligados à Net”, isto deve ser encarado como um motivo de preocupação, reconhece. Mas alerta que a DSM 5 “teve uma grande influência da indústria farmacêutica” e que esta perversidade até foi “denunciada pelo coordenador” da anterior versão do manual. O que Álvaro Carvalho teme é que “a psiquiatrização de comportamentos” seja usada para aumentar “a prescrição de medicamentos”.

O que se pode fazer nos casos extremos de dependência, então? É preciso que haja “um diagnóstico precoce e uma tentativa de reeducação”, nomeadamente através de “intervenção psicoterapêutica”, preconiza. Mas reconhece que existem “poucas respostas” deste tipo no Serviço Nacional de Saúde.

 

 

 

Estima-se que, em 2026, a hiperatividade nas crianças seja a norma

Agosto 25, 2015 às 1:00 pm | Na categoria A criança na comunicação social | Deixe o seu comentário
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Entrevista da Visão a Fernando Rodrigues no dia 23 de agosto de 2015.

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Clara Soares (VISÃO nº 1172 de 20 de agosto)

19:00 Domingo, 23 de Agosto de 2015

Fernando Rodrigues, neuropsicólogo e investigador, explica de que forma o consumo digital altera o cérebro e quais as implicações da omnipresença tecnológica nas nossas vidas

O uso da tecnologia transforma o funcionamento do nosso cérebro?

Os estudos disponíveis permitem dizer que há mudanças estruturais em várias zonas do cérebro nomeadamente no hipocampo, onde armazenamos memórias, que está a ficar mais pequeno.

Memorizar tornou-se uma competência menos adaptativa do que indexar, ou seja, localizar informação.

A exposição constante à tecnologia é inofensiva ou potencialmente aditiva?

O ser humano funciona de forma similar a um sistema operativo. Os gadgets estimulam o cérebro de muitas formas (auditiva, tátil, visual) e ativam alguns circuitos de recompensa (libertando dopamina): quanto mais se tem, mais se quer. O sucesso das redes sociais assenta nisso: estar ligado com todos, a toda a hora, numa lógica imediatista que depois se transfere para todas as áreas da vida.

Os contactos sociais, os namoros, tornam-se cada vez mais efémeros.

Porque não temos retiros de ‘detox’ digital, tão populares noutros países, no setor turístico?

Houve uma tentativa de um grupo francês, há uns anos, na Quinta da Romaneira (Douro). Fechou por falta de procura e dificuldade em admitir que se tem a dependência de apps, redes sociais, que produz o mesmo efeito que o jogo patológico mas, até há pouco tempo, estava classificada como um distúrbio no controlo dos impulsos.

Existe uma relação entre excesso de estimulação e hiperatividade?

As estimativas de investigadores que abordaram o tema num congresso internacional recente levantam uma questão inédita: estima-se que, em 2026, a prevalência de hiperatividade na população infantil seja de 52%, ou seja, a norma, nos EUA. E, se este funcionamento passar a ser a norma, justifica-se, como questionou uma psiquiatra nesse congresso, desenvolver fármacos para quem não é hiperativo?

Como encara esse futuro provável? Mais ‘tecnostresse’ e menos desfrute?

As crianças não vão poder comparar porque já nasceram num mundo em que todos estão ligados, num registo imediatista, volátil e orientado para a procura de novidade.

Ainda desconhecemos o impacto disto a médio prazo, mas imagino que haverá mais partilha, menos íntima e altruísta.

Que função vai ter o jogo, o brincar, cuja lógica não é comparável à da era pré digital?

Era um meio para a criança aprender a resolver problemas e a autonomizar-se, na presença dos pais. Hoje, o jogo é a recompensa: “Passaste na escola, não fizeste birras, toma lá um prémio.” Sem um modelo afetivo, o risco é que se tornem autómatos, e não autónomos.

É possivel reverter esta tendência, sem perder os ganhos conquistados pela evolução?

Sim, porque temos plasticidade cerebral e o processo de maturação vai até aos 30 ou 40 anos. Temos mais competências mas podemos gerir melhor o uso dos gadgets. O nosso hipocampo, que se tem reduzido à conta deles, pode voltar a expandir-se.

 

 

 

 

 

Quando a vida das crianças gira em torno dos ecrãs

Julho 28, 2015 às 2:00 pm | Na categoria A criança na comunicação social | Deixe o seu comentário
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Notícia do Diário de Notícias de 26 de julho de 2015.

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Sabe como são os miúdos de 2015?

Julho 8, 2015 às 8:00 pm | Na categoria A criança na comunicação social | Deixe o seu comentário
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Texto da Sábado de 28 de junho de 2015.

sabado

André Rito

Quando a campainha tocava, o rapaz raramente ia para o recreio: preferia passar os intervalos na biblioteca. Os professores estranharam, chamaram os pais e descobriram que o cenário em casa não era diferente, mas em vez da biblioteca, Bruno, de 9 anos, passava horas no quarto em frente ao computador. Tinha ciberadição.

Este é um dos fenómenos apontados por Mário Cordeiro, pediatra que publicou o livro Crianças e Famílias num Portugal em Mudança, onde analisa a realidade das crianças portuguesas ao longo das últimas décadas. Bruno é um caso paradigmático num país onde os menores passam 4,5 horas em frente ao computador – durante a semana –, e 7,5 horas, ao fim-de-semana.

“São valores que contrariam as recomendações pediátricas, numa idade que devia ser sensorial, de experimentação e destreza manual”, explica à SÁBADO o pediatra. Mas há mais: Portugal é o país europeu onde a utilização da Internet começa mais cedo, aos 6 anos.

A crise envergonha

Quando deixaram de ter televisão por cabo, o miúdo ficou envergonhado. Surgiram os primeiros sintomas de depressão: recusava ir à escola, tinha tendência para se isolar. “Era tudo uma chatice”, recorda o pediatra, lembrando que os pais estavam ambos desempregados.

“Chegava a ter vergonha de pedir um conjunto de lápis para a escola”. Os pais também não queriam concorrer a apoios sociais escolares – por vergonha, “não queriam o filho rotulado”, diz o clínico que um dia se sentou sozinho com o rapaz e lhe contou a história dos seus pais: “disse-lhe que chegámos a viver com água e comida racionada. É preciso relativizar, e ele percebeu. Nós somos nós e as nossas circunstâncias.”

Outro dado que a crise introduziu foi a necessidade dos pais emigrarem, deixando os filhos com familiares. Apesar dos problemas de estabilidade que esta mudança implica – mesmo mantendo contacto diário através da Internet– Mário Cordeiro lembra que “as crianças têm uma enorme resiliência e o que lhes interessa é saber que os pais, mesmo distantes, as amam e têm as mesmas saudades que elas têm deles.”

Gays e novas famílias

As mudanças na vida dos miúdos são proporcionais às transformações que as famílias sofreram nas últimas décadas. Em Portugal, que tem a taxa de natalidade mais baixa da Europa, assiste-se a um crescimento dos modelos monoparentais e de casais sem filhos, ou apenas com um filho. A ausência de irmãos, como explica o pediatra, pode contribuir “para o isolamento, egocentrismo, narcisismo e omnipotência da criança.” “Leva também a que a sobrecarga que os pais colocam em termos de ‘destino’ e de percurso de vida se concentre num só filho”, explica. Por outro lado, a vida nas cidades, aliada a preocupações de segurança exageradas, faz com que as crianças se sintam mais isoladas, não brinquem com outras. São “mais autónomas (ou mais sós) em alguns aspectos, mas muito dependentes afectivamente e na gestão do quotidiano.”

Com a família “em permanente transformação”, a aprovação do casamento entre pessoas do mesmo sexo introduziu uma nova variável e o pediatra já acompanhou vários casos de miúdos “com dois pais ou duas mães”. Apesar da lei da co-adopção não ter sido aprovada, na escola, nenhum dos casos que seguiu foi alvo de discriminação. “Os fantasmas estão na cabeça dos adultos, não na das crianças.”

Fast food e escola

Marta costumava enviar fotografias do almoço da cantina ao pai. Era uma forma de o pressionar: afinal, um prato de comida da escola não tinha o ar apetitoso de um hambúrguer, cuidadosamente produzido por uma cadeia de fast food. Mas a realidade é outra: em Portugal, uma em cada três crianças sofre de excesso de peso.

Mário Cordeiro, que costumava fazer visitas surpresa a refeitórios, diz que a generalidade das cantinas têm ementas equilibradas. Mas alerta para um outro problema: as guloseimas, em tempos símbolo de festas, hoje vendidas ao desbarato perto das escolas. “Não havia festa sem doces, e era isso que as tornava especiais, tinham um valor positivo em termos psicológicos e sociais. Hoje tudo se encontra em todo o lado.” Que o digam os miúdos, enquanto ainda têm dentes.

Números

65% das crianças portuguesas

tem um computador pessoal. A média europeia é de 25%. 

30 meses

foi o tempo médio que uma criança aguardou em 2013 pela regulação do poder paternal.

90% das crianças portuguesas

consome fast-food, doces e refrigerantes pelo menos quatro vezes por semana.

 

 

Apresentação do livro “Nascidos Digitais” na Biblioteca Municipal de Algés (Galeria)

Julho 2, 2015 às 4:00 pm | Na categoria Divulgação | Deixe o seu comentário
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oeiras

 

Informações:
210.97.74.80 | marta.silva@cm-oeiras.pt

http://bibliotecas.cm-oeiras.pt/index.htm

Os filhos têm direito a não ser amigos dos pais no Facebook

Abril 29, 2015 às 10:00 am | Na categoria A criança na comunicação social | Deixe o seu comentário
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Entrevista do i  a Margarida Gaspar de Matos de 26 de abril de 2015.

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Marta F. Reis

Margarida Gaspar de Matos, uma das maiores especialistas de comportamento de jovens fala ao i.

É uma das maiores especialistas nos hábitos dos jovens em Portugal e coordena os inquéritos à população escolar. Margarida Gaspar de Matos acaba de publicar o livro “Nascidos Digitais: Novas Linguagens, Lazer e Dependências”, uma colectânea de estudos sobre o uso da internet pelos mais novos.

A psicóloga e investigadora da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa diz que muitas vezes os receios digitais dos pais são exagerados, mas acredita que há uma explicação histórica para isso. E está mais preocupada com a falta de esperança da juventude que já não se lembra do antes da crise do que com as novas tecnologias.

Nesta geração de jovens nascidos na era do digital ainda faz sentido perguntar se passam muito tempo à frente do computador?

A internet veio para ficar. Não vale a pena pensar que vai passar, que é evitável. Em poucos anos a forma como encaramos este fenómeno já mudou. Hoje em dia nos inquéritos já não perguntamos quanto tempo os miúdos estão sentados à frente do computador porque já ninguém está apenas sentado à frente do computador, estão no telemóvel ou deitados com o tablet.

E miúdos que estejam sempre deitados com o tablet estão viciados?

Isso é outro aspecto que importa esclarecer. A dependência tem critérios que não são apenas usar nem usar de mais. Ser dependente é viver em função de. E o que temos concluído é que não há assim tantos jovens com sinais de dependência da internet: há uma percentagem de uso mais problemático na casa dos 3% a 4%, como sempre aconteceu.

É pior que seja no telemóvel ou noutra coisa qualquer?  Mas não estão a sacrificar nada? Concluímos que não deixam de fazer grande coisa. Eu quando andava no liceu chegava a casa e telefonava às minhas amigas para conversar. Eles agora ligam-se ao Facebook mas em geral é para fazer o mesmo: falar com os amigos da escola. Há uma questão que mete muito medo aos pais que é haver predadores à procura dos miúdos na net. Com certeza que existem e é preocupante, mas em geral os miúdos são consumidores exigentes e informados e não andam a falar com estranhos. Mesmo miúdos que parecem mais viciados naqueles jogos multiplayer, como o “World of Warcraft”, dizem uns tempos mais tarde que foi passageiro.

Enquanto não passa não almoçam, faltam às aulas…

Certo, mas um dia fartam-se. Não era uma verdadeira dependência. Do ponto de vista psicopatológico a dependência tem a ver com alguns tipos de personalidade e nem toda a gente tem propensão para isso. Os pais, mais que catastrofizarem a internet, devem monitorizar os jovens e acompanhá-los.

Quais são os sinais de alarme?

É estar enfiado no quarto, saltar refeições, não querer falar com ninguém, mas não se durar uma semana ou duas. Percebo que quando há uma semana disto o pai fica preocupado mas é preciso perceber se é uma dinâmica circunstancial ou algo estrutural e invasivo.

Concluem, contudo, que mais de metade dos jovens não dormem o que deviam, também graças à internet.

Sempre dormiram pouco. Antes do computador ouviam música, liam. É normal que o adolescente quando se fecha no quarto esteja a criar uma identidade e um espaço que o ocupa. Se calhar, se antes o fazia mais sozinho, agora tem mais amigos através das redes sociais.

Há uma nova publicidade que diz que os telemóveis e as redes sociais podem estar a conspirar contra a amizade real. Não tem essa visão pessimista?

Não tenho. Os jovens têm-nos convidado a reflectir sobre essa crença e de facto eles na net falam com os amigos que conhecem. Na maioria dos casos não há amigos virtuais e amigos reais.

O conceito de amizade não mudou então com os “amigos” do Facebook?

Não me parece, há é mais contacto. Em vez de falarem ao telefone e escreverem bilhetinhos, podem estar sempre em contacto. Até se podem estar a fortalecer os laços e miúdos que moram em zonas mais isoladas têm maior facilidade em estar em contacto. E se antigamente a família tendia a menosprezar a importância do contacto com os amigos, agora eles conseguem ultrapassar isso.

Quanto mais estuda os nascidos digitais, menos preocupada está?

Não estou preocupada. A internet não está a viciar mais que outras coisas que viciavam no passado. É evidente que se pode dizer que é mais acessível mas não acredito nessa visão pessimista. Miúdos com muitos problemas não são o país, são um grupo minoritário.

De onde vem essa demonização? Da desconfiança crónica dos mais velhos em relação aos hábitos dos mais novos?

Por um lado é isso. Por outro estamos numa altura histórica, em que os pais que ensinavam os filhos a fazer coisas nesta questão das tecnologias não conseguem. E os próprios pais perdem de certa forma o crédito que tinham junto dos filhos – os miúdos não pensam neles para pedir ajuda.

Os pais sentem-se ainda menos presentes na vida dos adolescentes?

Sim, creio que é muito isso.

O que será passageiro, não? Os pais de hoje já serão quase “nascidos digitais”.

Sim, mas atenção: isso pode ser verdade para si e para mim, que sou bastante mais velha mas utilizo muito a internet, mas não é verdade para toda a gente. Hoje em dia 99% dos miúdos têm acesso até através de programas como o Magalhães, mas ainda há pais de filhos adolescentes só com o primeiro ciclo, pessoas que mal sabem ler e escrever. A internet foi um grande desafio à parentalidade: é a primeira vez que os pais são incompetentes numa das coisas mais importantes na vida dos filhos. Deve ter acontecido o mesmo quando apareceu a roda.

Qual é a expressão do ciberbullying em Portugal?

Os jovens que dizem que são alvo de ciberbullying são 16% do total e apenas uma minoria, na ordem dos 2%, diz ter tido consequências que não conseguiu ultrapassar. Uma vez mais, não digo que não é importante, mas não é um problema de saúde pública. Sinceramente, vejo com muito mais preocupação e frequência miúdos que se sentem humilhados porque os pais usaram as suas passwords para entrar nas suas contas e ver o que escrevem e com quem falam.

Isso gera mais sofrimento?

Os miúdos sentem-se ofendidíssimos. Às vezes escrevem coisas que nem diriam a eles próprio, quase como num diário. E os pais, com a ajuda de um irmão mais velho, vão lá, lêem e confrontam-nos.

Por ser a internet, os pais desvalorizam mais a privacidade dos jovens?

Acho que sempre houve essa tendência e os miúdos sempre tentaram esconder a chave do diário e o que escreviam dos pais. Um adolescente quando está a crescer tende a reservar a sua intimidade. Os pais têm de estar perto, têm de os monitorizar e dialogar, mas tem de haver um espaço onde não entram pois isso é mau para o desenvolvimento.

Os pais por vezes queixam-se de que os filhos não querem ser amigos deles no Facebook. O que diz? 

Os filhos têm direito a não ser amigos dos pais no Facebook. Os pais não existem para ser amigos dos filhos, existem para ser pais. Não são melhores porque se vestem como os filhos, vão aos sítios deles e lidam com os amigos deles como se fizessem parte do grupo. O que acontece quando os pais aborrecem os miúdos para serem amigos é eles acabarem por criar outro perfil onde possam ser eles próprios. Dito isto, acho que antigamente ainda era pior. Hoje vejo os miúdos mais próximos dos adultos, mas aquela coisa de andar sempre em cima do filho nunca foi boa.

Os receios dos pais são exagerados?

É isso que nos dizem os jovens quando respondem que sabem bloquear, que escolhem com quem falam e que não se sentem mal. Hoje os miúdos aprendem isto tudo na escola. No estudo de 2010 houve uma subida no uso na internet mas em 2014 estagnou. Há uma maior utilização de dispositivos mais integrados mas os miúdos não estão a passar mais tempo na net. Claro que há riscos: há o sedentarismo, problemas nos olhos e activação muito rápida a nível cerebral por causa da luminosidade dos ecrãs que pode alterar o limiar de excitabilidade e fazer com que tenham menos interesse noutras coisas.

Qual é o tempo de ecrã seguro?

Fizemos um estudo sobre qualidade de vida e concluímos que os jovens que passam mais de quatro horas à frente do ecrã têm mais problemas mas os que não têm acesso também – percebem a sua vida com menos qualidade e sentem-se menos bem consigo. O que acho importante é que os pais expliquem os riscos numa conversa mas não no meio de uma discussão e que não imponham regras só para os pôr de castigo. A partir dos 12 anos um adolescente consegue cognitivamente perceber porque é que se estiver com o telemóvel na cama vai ter maior irritabilidade e uma pior qualidade de sono. E os jovens gostam de seguir regras desde que percebam a lógica e não lhes pareça que é só para os controlar.

É o problema de muitos pais: quando faz sentido dar o primeiro telefone ou tablet? 

Uma criança com dois anos agarra num tablet e consegue mexer naquilo mas por definição nestas idades os brinquedos acabados têm uma utilização muito curta – os miúdos desinteressam-se. Deve dar-se quando têm responsabilidade. Agora não vejo mal em começarem a usar os equipamentos dos pais mais cedo, até com dois ou três anos. Se gostam e há ferramentas que permitem trabalhar a atenção, a habilidade ou a identificação de padrões, porque não havemos de aproveitar? Tem é de haver regras: se gosta, joga um jogo. Acaba e vai fazer outra coisa. Agora o que acontece muitas vezes é os pais aproveitam que estão acabar alguma coisa e eles ficam ali jogo atrás de jogo e isso é que não pode ser.

Mas o que vemos são famílias todas de tablets e telefones na mão à mesa do restaurante e entre jovens o mesmo.

Sim, mas há pior. Estive na Coreia e lá é que não encontra ninguém que não esteja com auscultadores e telefone na mão.

E isso faz sentido?

Assim nunca tinha visto e fez-me um bocado de impressão, mas é um choque como noutras culturas ver as pessoas com os narizes furados.

Se isso for o futuro, admite que possa ser uma evolução positiva?

É uma evolução histórica e temos de esperar para ver os resultados. O que penso hoje é que se agora tenho uma pessoa ao meu lado mas tenho um dispositivo e estou a escrever a outra, o que acontecia antes? Se calhar as pessoas estavam caladas.

Estariam?

Já viu nos pequenos-almoços nos hotéis a quantidade de casais que entram, comem e não trocam uma palavra?! Agora há aqueles cartazes nos cafés que dizem “não temos net, falem uns com os outros”. Se as pessoas quiserem falar umas com as outras não estão agarradas ao telemóvel e se estão é porque se calhar querem falar com outras pessoas. Pode ser uma forma de estarem mais satisfeitas.

Sempre teve essa visão tão optimista?

No início achei que era algo que iria usar pouco. E depois veio a euforia. Lembro–me de pensar, quando fizemos o primeiro estudo, em 2006, que nada do que se estava a passar era normal. Tinha aparecido o jogo “World of Warcraft”, a Ségolène Royal tinha feito campanha no “Second Life” e tinha ido a uma conferência em Palermo em que os colegas estavam a abrir consultórios online. As coisas acabaram por não se extremar tanto como se imaginou. É engraçado: perguntámos aos miúdos no inquérito de 2014 o que tinha mudado para melhor nos últimos anos e dizem que agora conversam mais. Não estou a defender a crise e a austeridade mas estávamos a entrar num pico de consumismo e isso abrandou, o que se calhar explica o resto.

Estuda esta área há 30 anos: os jovens e as crianças já foram mais felizes?

O relatório internacional sobre jovens que saiu recentemente mostra que de 2002 a 2010 a população europeia ficou mais saudável: há menos consumo de álcool e a obesidade não continuou a aumentar. Deram-lhe até o título “Jovens mais saudáveis e mais felizes”.

Mas no inquérito de 2014 em Portugal concluíram que mais de 50% dos jovens se sentem tristes.

Era o que ia dizer. O que comentário que faço é que, em Portugal os dados mais recentes é que menos saudáveis ainda não estão, mas os jovens portugueses estão tristes como não estavam desde 2002.

Porquê?

Vamos passar este ano a discutir isto mas queixam-se de falta de expectativas.

A desesperança que tanto foi diagnosticada nos adultos?

Até pode ser pior. Os miúdos que têm agora 14 e 15 anos só se lembram da recessão. Não sabem o que foi o pós-modernismo ou o excesso dos irmãos cinco anos mais velhos. Cresceram a ouvir dizer que em Portugal não há lugar para eles, não há emprego. Estão numa desesperança enorme e isso assusta-me porque sem esperança não se cresce.

Esse estudo de 2014 revelou que um quinto dos jovens do 8.o e 10.o já se automutilaram. A percentagem impressionou-a?

Impressionou. Na clínica estamos a habituados a ver o comportamento autolesivo em reclusos e raparigas com bulimia, mas não estava habituada a ver isso no cidadão comum. Fizemos a pergunta pela primeira vez no inquérito de 2010 pela ligação que tenho a uma equipa em Itália, que tinha apurado uma incidência de 17%. Achava que teríamos 3% ou 4%, a percentagem normal para um assunto mais grave. Quando saiu 16% e em 2014 subiu para 20% comecei a pensar que não é de facto normal. Não vejo isto como patologia única mas como incapacidade de lidar com a frustração.

Mas estará ligado à crise?

Não me parece. Creio que está mais ligado à pressão que existe sobre os jovens em termos de resultados, de imagem.

Não será também pela visibilidade dessas agressões em séries e na net?

Acho que tem mais a ver com o facto de os jovens não serem ensinados a lidar com as más emoções. Claro que há internet ligada a alguns destes comportamentos, como acontece nas anorexias, mas irem cortar-se ou vomitar juntos em sites são fenómenos raríssimos.

E como é que isso se resolve?

Até há dois ou três anos havia as áreas curriculares não disciplinares em que algumas escolas promoviam competências psicossociais e os miúdos tinham um adulto de referência – o professor ou coordenador para a saúde – que os ajudava e podia dizer que essa questão da autolesão é uma estratégia para regular a ansiedade que não resulta. É como a bebida, resulta num segundo e no segundo depois está-se pior. Em vez de se ter reforçado isso, desinvestiu-se…

Que efeito da recessão nos jovens a deixou mais impressionada?

Aumentou o número de jovens que dizem que vão para a cama com fome porque não têm comida em casa. Não estava à espera de voltar a viver num país assim. Outra coisa é a percentagem de miúdos que dizem “sinto-me tão triste que às vezes penso que não aguento”, que também aumentou. E de facto foi isso que me fez reportar internacionalmente que ainda estamos mais saudáveis mas já não estamos mais felizes.

“Ainda”… 

Sim, os efeitos em termos de saúde nunca são a curto prazo. Se a conjuntura não muda, podemos ter um retrocesso nos indicadores e tenho imensa pena: tínhamos resultados muito bons quando comparados com a Europa.

A subida da idade para beber para os 18 anos está na ordem do dia. Parece-lhe que isto era o assunto prioritário em relação aos jovens?

Se fosse governante, apostava forte e feio na saúde mental dos jovens e em conseguir trabalhar com eles no sentido de lhes dar uma esperança, competências de liderança e empreendedorismo. É isto que tenho de fazer na faculdade para que os meus alunos não se deprimam: explicar–lhes que isto é uma crise, é uma onda. Criar projectos que os envolvam, dar-lhes meios e recursos para investir.

Como vê a alteração na lei do álcool?

Os nossos estudos dizem-nos que desde 1992 o consumo de álcool não tem aumentado entre os jovens. Nos últimos dois estudos (2010 e 2014) tudo leva a crer que estamos com um padrão diferente, com um consumo mais de fim-de-semana e maior de bebidas destiladas. E com as medidas de prevenção, que entretanto estão a acabar, os jovens não estavam a beber mais mas os que já bebiam estavam pior, portanto estava-se a circunscrever o problema e havia um grupo mais desviante.

Faz sentido então proibir a cerveja aos 16 anos?

A proibição dos consumos em geral, lendo como dificuldade de acesso, é óbvio que ajuda e tem efeito a curto prazo. E além disso achava estranho uma lei que não permitia beber uma bebida branca mas deixava beber dois litros de cerveja. Agora, se isso não for acompanhado de alternativas, vão fazer o quê? Vão fumar charros, vão partir a rua, vão cortar-se? É preciso criar projectos que canalizem a energia dos jovens.

A propósito da queda da natalidade e da falta de protecção dos menores, com casos de violência fatais, tem-se dito que Portugal não é um país amigo das crianças. Concorda? Preocupo-me também com esses pais, pessoas perturbadas mas que devem servir de alerta. Tive um professor etólogo, Bracinha Vieira, que quando nos levava ao zoo a ver os macacos dizia que as mães nunca agridem os filhos sem ser em cativeiro. Pense nisso relacionado com a sociedade actual. Se nós não estivéssemos num cativeiro simbólico não agredíamos as nossas crias. Em que raio de gaiola estamos? É um problema de saúde mental gravíssimo que precisa de resposta.

A saúde mental é um calcanhar de Aquiles conhecido. A quebra de natalidade está a tornar-se outro.

Não concordo que se diga que não somos um país amigo das crianças, não temos é uma política amiga das crianças. O país não considera ter cidadãos novos um investimento nacional. Há uma comissão para estudar quando todos sabemos quais são os problemas. Não há condições, as creches custam uma fortuna.

Se fosse governante, que solução implementava?

É uma mudança de abordagem. Os noruegueses nos anos 90 tiveram uma grande quebra de natalidade e implementaram medidas consistentes. Uma mãe é considerada trabalhadora a tempo inteiro. Pode entrar em qualquer sítio para mudar uma fralda ou aquecer o biberão. Tem de haver investimento. E o mesmo acontece com as comissões de protecção de menores, com défice de técnicos. O que hão-de fazer? Tem de haver investimento e compromisso político e em tempo de crise é preciso perceber o que se corta.

O psiquiatra José Gameiro dizia há dias que não percebia como em crise não se tinham reforçado as comissões de protecção de menores e a prevenção. Isso também a surpreendeu?  

Sim, o Estado social tinha de estar em toda a sua pujança. Agora recuperar este país é obra, as sequelas não passam com a crise. Mesmo as medidas para protecção de emprego tinham de ser muito mais. O impacto de um pai desempregado sentado num sofá em casa é enorme, e não só no dinheiro que não entra. Os filhos preocupam-se, os pais ficam envergonhados.

Em ano de eleições está optimista com o futuro ou ainda não viu solução?

Não vi. E se ao menos se tivesse trabalhado na coesão social as pessoas estavam desiludidas mas juntas. Esta aposta na clivagem social, dos mais novos contra os mais velhos, público contra privado, homens contra mulheres, é muito prejudicial.

Poderia ter sido de outra forma?

Se tivesse a resposta não estaria aqui mas a dar palestras por todo o lado. Não sei. Ao longo de todo o processo da crise houve várias coisas que me afligiram do ponto de vista técnico. Não sou especialmente partidarizada, mas senti que os especialistas não foram suficientemente ouvidos na escolha das prioridades e dos cortes, para que não se ficasse com um problema maior.

Nunca foi ouvida?

Não, mas repare, quando se fala da crise e de défices, um cidadão comum não consegue dar solução. Eu diria que não se pode cortar o futuro aos jovens. Uma pessoa mais velha tem o passado inteiro para lembrar, os jovens não. Quando visito uma escola e os miúdos dizem todos que vão para cozinheiros e línguas para emigrar… não queria viver num país assim. Pergunto-me se não teria valido a pena termos tido direito a vetar uma coisa por dia.

Faltou o quê ao governo, estar na rua?

Não podem estar em todo o lado mas há ali qualquer coisa que não funcionou e não foi só a crise.

A professora tem filhos? Com tudo o que tem aprendido acerca dos jovens, teria feito alguma coisa diferente?

Tenho filhos e netos já. Isso teria de lhes perguntar a eles mas acho que correu bem. É evidente que me lembro de ter feito uma licenciatura grávida, e isto é muito difícil de conciliar, mas temos de ter tempo de qualidade com os filhos e procurei sempre fazer isso. E hoje com as novas tecnologias é mais fácil. Quando o meu neto mais novo nasceu eu estava na América do Sul de sabática e tive pena de perder cinco meses do bebé. Pensei que ele se ia esquecer de mim mas como falávamos todos os dias pelo Skype quando cheguei reconheceu-me. Mais uma vez não estou deslumbrada com isto e há riscos, mas há muitas coisas boas nas novas tecnologias.

Um conselho para pais e filhos felizes?

Os pais não têm de se responsabilizar por todas as coisas que acontecem aos filhos mas têm de se habituar a ouvi-los desde novos e a assumir que não têm as soluções todas. Às vezes quando estamos a tentar resolver tudo perdemos a capacidade de os ouvir e soluções eles têm – às vezes querem é uma validação e partilhar. Acho que devíamos falar muito menos e ouvir muito mais.

 

 

 

 

Conflitos dos jovens com a família associados a dependências online

Abril 24, 2015 às 3:51 pm | Na categoria Estudos sobre a Criança | Deixe o seu comentário
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Notícia do Público de 22 de abril de 2015.

Manuel Roberto  Arquivo

Adriana Neves

Isolamento e depressão são outros sintomas de quem passa demasiado tempo na internet.

Um em cada dez jovens apresenta sintomas do uso problemático da Internet. Quatro em cada dez admitem que são dependentes do mundo online. Estas são algumas das conclusões de um estudo que envolveu 645 adolescentes do 3.º ciclo do ensino básico.

O projecto “Uso da internet nos jovens: um projecto de promoção da saúde” tem como objectivo alertar para os riscos da dependência online e, ao mesmo tempo, tirar algumas conclusões acerca do comportamento dos jovens e do ambiente em que se inserem.

Os resultados da linha de investigação vão ser apresentados na íntegra esta quinta-feira no Congresso Internacional de Psicologia da Criança e do Adolescente, em Lisboa.

Ivone Patrão, coordenadora de investigação na área das dependências online no Instituto Superior de Psicologia Aplicada-Instituto Universitário (ISPA – IU), explica ao PÚBLICO que na investigação desenvolvida concluiu que pessoas com grandes dependências online estão mais predispostas ao “isolamento, à depressão e a conflitos com a família”. A investigadora alerta que, para além de não ser um estilo de vida saudável, “há riscos relacionais e sociais associados” às pessoas que “vivem através da Internet”.

Segundo Ivone Patrão, os hábitos relacionados com a Internet são diferentes para os rapazes e para as raparigas. Eles preferem os jogos online enquanto elas passam grande parte do tempo nas redes sociais. No entanto, Ivone Patrão indica que não há informação suficiente que permita concluir que uma dependência tem mais efeitos negativos do que outra.

A investigadora adianta que colaborou também numa intervenção paralela realizada numa escola profissional na área de Lisboa que abrangeu 80 jovens do ensino secundário. Ivone Patrão explicou que promoveu diversas actividades onde se envolvem directamente os jovens, como “teatros, vídeos e palestras”, com o objectivo de alertar toda a comunidade escolar para os riscos do uso excessivo da Internet. A ideia foi que, em vez de uma palestra tradicional, todos pudessem divulgar informação de forma criativa. A temática das dependências online foi dinamizada durante uma semana.

Em Novembro, a mesma investigadora explicou ao PÚBLICO que tinha realizado um outros estudo que concluia que quase três quartos da população dos 14 aos 25 anos apresentava sinais de dependência do mundo digital. Na altura, foram 900 os jovens inquiridos.

Esta quinta-feira, para além deste estudo, vão ser apresentados no mesmo congresso outros trabalhos com “Tecnologia e Criatividade” como tema central. É o caso de uma investigação que, por exemplo, concluiu que os rapazes transgridem mais na condução do que as raparigas ou que há um aumento de comportamentos violentos associados ao uso do computador.

Depois da apresentação de resultados dos vários trabalhos, pretende-se encontrar resposta para “Crianças e jovens e as novas tecnologias: risco ou oportunidade?”.

Texto editado por Andrea Cunha Freitas

A geração da net está sem rede

Abril 8, 2015 às 8:21 am | Na categoria A criança na comunicação social, Campanhas em Defesa dos Direitos da Criabnça | Deixe o seu comentário
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Reportagem do Público de 5 de abril de 2015.

Nuno Ferreira Santos

Paulo Moura (texto), Nuno Ferreira Santos (fotografia) e Vera Moutinho (video)

Num mundo onde tudo o que fazemos online é registado e vigiado, uma geração totalmente digital será particularmente vulnerável. Em Portugal, onde o hiato entre a literacia informática entre pais e filhos é dos maiores da Europa, a “geração Magalhães” está entregue a si própria.

Marta Gonzaga, 14 anos, 9.º ano, Funchal. Nem precisa de sair da cama. Basta estender um braço para enviar à melhor amiga, por Snapchat, uma imagem sua a acordar, mas só por um segundo, talvez dois, para que a amiga não se fixe nos pormenores. Pode ver um vídeo de cinco segundos de alguém conhecido a lavar os dentes, actualizar fotos de alguns desconhecidos que adicionou no Instagram, congelar num screenshot um momento banal registado do outro lado do mundo. Selfies no Instagram, acha feio. E chat no Facebook é pouco autêntico. “Já ninguém usa o Facebook. Há um ano, sim, mas agora…” A competição pelo número de “likes” é uma infantilidade do passado. Uma obsessão inútil por “ser ou não ser muito popular”. Que importância tem isso? “Tudo é falso no Facebook. Os verdadeiros amigos estão no Twitter. É um ambiente diferente.”

Tudo o que escreve no Twitter tem destinatário: os elementos da banda One Direction. Nunca responderam, mas “só de escrever as frases uma pessoa já se sente melhor”. Tal como formular desejos na Fandom da banda ou despejar milhares de caracteres de histórias inventadas com o One Direction Harry contracenando com outras celebridades, no site para jovens escritores Wattpad. As fics (fanfiction) de Marta são de leitura proibida a amigos e família, fintados com nicknames e passwords, embora já tenham ultrapassado as 27.840 visualizações, todas de leitores desconhecidos. Cada um dos 1700 seguidores recebe uma notificação sempre que Marta “lança ao mundo” um novo capítulo, tal como ela (e outros mil milhões de seguidores) foi notificada de cada um dos 300 capítulos da série After, que a americana Anna Todd foi publicando na Biblioteca Virtual, antes de os ler na íntegra no ecrã do telemóvel. E de ter respondido com comentários, sugestões e desabafos, no Wattpad, Fandom, WhatsApp, Instagram, Snapchat ou Twitter, em forma de emojis, abreviaturas ou onomatopaicos, sobre a vida social ou íntima dos One Direction, das amigas ou de si própria.

“Vou de férias mpts (meus putos)” e “Naqueles momentos em que a mãe grita contigo e tu finges que não ouves” são exemplos das frases que Marta lança no Twitter, para depois contar os retweets que provoca, as reacções do género “ahahah”, ou :) (smile), ou mesmo as reaction picture (selfies que as amigas fizeram com a cara com que reagiram ao tweet).

Tudo isto sem sair da cama, no seu quarto, onde é notório que a secretária nunca é usada, enquanto André Nunes, 12 anos, 7.º ano, Parede, Cascais, faz vigílias madrugada fora com dois monitores abertos ao mesmo tempo, um com o jogo multiplayer online League of Legends, ou Minecraft, ou Watchdog, outro com o Skype dividido em cinco chamadas simultâneas onde vai comentando o jogo com os amigos, e talvez ainda um vídeo no YouTube com explicações sobre o jogo, além do Facebook, as sms do telemóvel e provavelmente a PlayStation. Por vezes fica online seis ou sete horas seguidas, com a mãe no quarto ao lado a ameaçar desligar o router e a irmã a queixar-se da sobrecarga da rede que a torna lenta quando ela quer ver um filme no Wareztuga.pt, falar com as amigas no Facebook e constituir família no jogo Sims.

Mafalda Nunes, 13 anos, 8.º ano. Todas as suas conversas importantes decorrem online. Tem uma amiga com quem fala todos os dias no Facebook. Foi ela que colocou na rede social fotografias dos cadernos e dos apontamentos, quando Mafalda faltou às aulas por ter estado doente. Não há nada que não possa ser feito online, excepto ler livros, que Mafalda prefere em papel. Em tudo o resto, a Net é preferível à realidade. Nem a praia consegue competir. Não há tanta vontade de sair, ou de namorar, como, com a mesma idade, acontecia com a geração anterior. Comprar roupas de marca também já não é importante. Ter um iPhone, sim. Não é o mesmo que usar um qualquer smartphone de marca branca. Desculpa: a velocidade.

Mafalda vem à porta do quarto. “Quem está a usar a Net? Está tão lenta. O pior que há é a lentidão.” A mãe manda André para a cama.  Desculpa dele: “É frustrante sair a meio de um jogo. Porque tem de se recomeçar. Nos jogos online os jogadores têm penalizações se interromperem a partida a meio. Podem ficar impedidos de jogar por uma semana.”

Sofia prefere viajar. Sofia Lucas, 12 anos, 7.º ano, Braga. O Google Earth é o seu site favorito. Foi lá que conheceu Paris, Nova Iorque, Roma, Washington, Londres, lugares que quer visitar na realidade.

Também gosta de jogos, e conversa com as amigas no Facebook, onde também começou a namorar. Foi um caso que começou e acabou por via digital. O primeiro contacto aconteceu na realidade, mas aí o rapaz não se declarou. Admitiu mais tarde: “No primeiro dia em que te vi, achei que irias ser minha namorada.” Mas guardou a conjectura para si. Só no Facebook a inclinação ganhou realidade. Foi lá que se declarou, no Dia dos Namorados, e foi por sms que pôs termo a uma relação de 111 dias e mais de 5 mil mensagens (uma média de 50 por dia). Fê-lo movido pelo pragmatismo, quando Sofia mudou de escola: “Não te vou ligar mais, arranjei outra.”

A 400 quilómetros de distância, Duarte podia ter assistido a tudo isto, se usasse as suas técnicas hackerianas preferidas de Man in the Middle. Mas ele prefere usar as suas armas para o Bem. Duarte Marques, 14 anos, 9.º ano, Carnaxide, Oeiras. Aprendeu muito cedo a usar computadores, porque o pai tinha uma empresa de informática. Começou por um Magalhães, que lhe foi atribuído na escola. Um “Gamalhães”, diz ele, com que conseguia “gamar” música, software, ou tudo o que quisesse. Agora, sente que sabe mais do que a maioria, o que é uma forma de poder e uma responsabilidade. É contra a pirataria, mas a favor da total liberdade na Web.

É Anonymous. Tem a máscara de Guy Fawkes, que encomendou pela Net, em três versões — normal, dourada e prateada. Tenciona usar a Internet para mudar o mundo, que vê dominado pela corrupção, o crime e a injustiça. “O que pretendo é mudar o sistema político, do mundo em geral.” Através de sites de hactivismo, e da rede do Anonymous, imagina-se a praticar acções de rebeldia com consequências significativas, embora planeie vir a trabalhar numa grande empresa, como consultor de segurança informática. “Leio muitos artigos sobre Internet e informática. O conhecimento é gratuito e é poder. Quanto mais conhecimento reunirmos, mais poder temos.”

Ainda não lançou nenhum grande ataque, e nunca o fará de forma gratuita. Apenas umas habilidades, para treinar. “Com o Skype, consigo desligar o router de outra pessoa”, diz Duarte. “E posso interceptar comunicações no Skype, que não são encriptadas.” E inserir intempestivos scripts ou pop-ups quando as pessoas estão a navegar por um site qualquer. E aquelas imagens esquisitas, por exemplo um cavalo a galopar só com duas pernas, que apareceram no meio da projecção powerpoint da professora? Foi ele, confessa. “Tive pena. Por vezes as professoras querem o nosso bem, não são demoníacas.” É alterar as notas ou as faltas, que a professora introduz no portal da escola? “Esses sistemas são muito vulneráveis. Era muito mais difícil dantes ver o caderno onde os professores registavam as notas. Os professores ainda guardam algumas notas num caderno. Essas são as mais difíceis de ver.” Entrar no site para mudar uma nota ou uma falta é portanto fácil. Se Duarte o fez ou não, é informação secreta. Que o pode fazer, isso sim, gosta que se saiba.

Um dos objectivos de todas as acções dos Anonymous “é serem levados a sério”. Não cometem “actos ilegais que não façam sentido”, mas acham importante fazer sentir o seu poder. “Anonymous é uma comunidade. Não é um grupo para onde se entre ou a que se pertença. Quem quiser ser Anonymous é. Basta ter esta atitude, de resistir contra o sistema. Estamos atentos ao que acontece. Vemos tudo. Estamos em todo o lado. Somos o teu vizinho, o teu amigo, o teu professor.”

Atirar sites abaixo pode ser um aviso, uma demonstração de poder e revolta. Quanto mais importantes e mais supostamente invulneráveis forem os sites, melhor. O do PÚBLICO, por exemplo. Duarte pode fazê-lo colapsar, se quiser. “Fácil. Basta um telemóvel e a ajuda de uns tantos amigos. Posso experimentar? Só como teste, para ver até que ponto o site é vulnerável ou não? Mas depois pode levar semanas até que se consiga trazê-lo de novo à vida.” No dia da publicação da reportagem, hoje, domingo, 5 de Abril, o PÚBLICO sofreria um eclipse. Ficou no ar a possibilidade. Não serias capaz de o fazer, Duarte!

A Internet tem mais de 20 anos, mas nos últimos cinco transformou-se qualitativamente. Não só multiplicou as possibilidades, com aplicações que permitem fazer quase tudo de forma virtual, mas também se tornou ubíqua. Até há pouco tempo, ia-se à, ou usava-se a Internet. Agora estamos na Net em permanência, através dos portáteis ou dos smartphones, por redes wifi ou 4G.

Já se tinha identificado uma geração de “nativos digitais”, ou de “millennials”, mas só muito recentemente surgiram entre nós os primeiros seres totalmente conectados de nascença. Há quem lhes chame “hyperconnected” ou “cyberkids”, mas a verdade é que ainda não há nome para a nova espécie, e pouco se sabe sobre o que são ou virão a ser.

Para eles, escrever à mão num papel é uma actividade arcaica apenas obrigatória pela teimosia jarreta de alguns professores ou pais. Comunicar é algo natural, que não implica deslocações nem gastos, o conhecimento está disponível em quantidades ilimitadas, a informação brota de todo o lado, sem filtros nem critérios de validação, não há distâncias nem obstáculos, o consumo de arte e cultura é fácil e gratuito para todos, e a sua produção também, o que é real e virtual confundem-se, a liberdade é uma evidência e uma vertigem, a privacidade uma noção cada vez mais longínqua.

Que oportunidades e que perigos esperam os jovens que têm agora 12, 13 ou 14 anos? Serão donos de poderes nunca vistos ou estarão a posicionar-se para serem escravos? Servirá a sua fabulosa vida online apenas para os colocar à mercê de eventuais ditaduras do futuro?

Muitos dos perigos da vida online têm sido estudados e objecto de campanhas de informação dirigidas aos adolescentes e aos pais, hoje conscientes dos riscos relacionados com a pedofilia e vários tipos de crimes. Cuidados como o de não colocar fotografias de menores nas redes sociais, não divulgar moradas ou números de telefone, não aceitar desconhecidos como “amigos” são já mais ou menos habituais, segundo os conselhos divulgados pela polícia nas escolas.

As práticas de cyberbullying, ostracismo ou violência também têm sido alvo de alguma atenção. O mesmo com o vício e uso excessivo da Internet, e com os problemas da imagem e da reputação, sob o ponto de vista da aceitação social e da obtenção e manutenção de emprego. Mas ninguém está a informar os jovens sobre a vulnerabilidade global e irreversível que vem com a imersão no mundo digital.

Todos os nossos gestos digitais deixam uma pegada e podem ser gravados, descodificados, processados. Sabe-se que empresas usam dados fornecidos por redes sociais para conhecer os padrões de consumo dos utilizadores e orientarem as suas campanhas de vendas. Sabe-se também que agências de informação de governos acedem aos nossos telefonemas, mensagens, emails, conversas no Facebook, Twitter ou Skype, além de registos de despesas com cartões de crédito, levantamentos multibanco, sinais de localização de redes móveis e de GPS, imagens de câmaras de vigilância, etc.

Quanto maior for a porção da nossa vida que decorre nos dispositivos digitais, maior é a nossa exposição. Em breve não será possível dar um passo sem ser controlado por alguém. Há inegáveis vantagens nesta realidade e podemos optar por aceitá-la. Mas será possível a opção contrária? Ou estabelecer limites?

Para Teresa Paula Marques, psicóloga e directora clínica da Academia de Psicologia da Criança e da Família, a concluir uma tese de doutoramento sobre Facebook, Riscos e Oportunidades, uma das noções a ter em conta é que já não há distinção entre mundo real e mundo virtual. Para os jovens, é o mesmo ter falado com um amigo pessoalmente ou através do Facebook. “São duas faces da mesma realidade.” Por isso, é de esperar comportamentos idênticos. “Os adolescentes gostam de ser vistos por todos, admirados pelos seus pares. As meninas pela beleza, os rapazes pelas façanhas. São muito populares o desafio da canela (em que se ingere canela até ao vómito), o desafio do desmaio, as fotografias em locais arriscados. No Facebook, o efeito que temos nos outros é mensurável imediatamente pela quantidade de ‘likes’. Estes têm um grande impacto na auto-estima. Se forem poucos, a tendência será para acentuar as acções. No caso das meninas, para usar biquínis mais ousados, no dos rapazes para fazerem coisas mais perigosas. É por isso que o comportamento no Facebook tende a ser excessivo.”

Pelo mesmo motivo, são geralmente mais intensas, nas redes sociais, as manifestações tanto de afecto como de agressividade. “Há páginas de ódio e perseguição, e é difícil descobrir quem está por trás. Há casos de assédio online, são enormes os riscos de cyberbullying e de sexting, em que os namorados divulgam na Net, após terminada a relação, as fotografias íntimas que a rapariga lhe enviou. Mas por outro lado é muito fácil ‘desamigar’ alguém. Mais do que na vida real. E os estudos mostram que ser ‘desamigado’ tem um impacto negativo fortíssimo nos jovens.”

Uma das consequências inevitáveis da vida na Net é a confusão entre os níveis de privacidade e de intimidade. Entre estes e o nível do que é público, os jovens são capazes de distinguir. Mas o que é íntimo passa facilmente para a esfera do que é meramente privado, explica Teresa Marques. “As pessoas expõem facilmente a sua orientação sexual, ou outras informações íntimas, o que as torna particularmente vulneráveis.” Fazem-no porque não têm a consciência da verdadeira dimensão das audiências que podem atingir, nem do carácter indelével das informações disponibilizadas nas redes sociais. “Tudo o que está no Facebook é eterno e pode vir a ser perigoso mais tarde.” Quanto à noção da existência de poderes superiores, de alguma entidade que venha a pretender ter poder sobre nós e de quem nos deveríamos proteger, os jovens não a conhecem. Não identificam ninguém que devessem temer ou de quem fosse prudente esconder alguma informação íntima ou confidencial. Apenas um ser representa para eles uma autoridade simbólica, uma entidade com quem há que ter mil cuidados, a quem não se pode mostrar tudo. Não, não é a NSA, nem a Administração americana, o Estado Islâmico, as grandes empresas multinacionais ou o Clube de Bilderberg. É a avó. Por ela se pratica a autocensura e se faz uma criteriosa regulação dos botões de privacidade do Facebook. “O que não gostarias que a tua avó visse” — este parece ser o único limite à liberdade dos jovens na Internet. A avó é a última fronteira.

Ana Jorge, investigadora da Universidade Nova de Lisboa, a realizar um pós-doutoramento sobre Culturas dos Media e Consumos Infanto-Juvenis, cita a investigadora americana de redes sociais Danah Boyd para explicar o conceito de “colapso dos contextos”. Os jovens “perderam a capacidade de seleccionar discursos diferentes para audiências diferentes. Não têm consciência de que o que dizem estará disponível para vários tipos de públicos”. E, se as campanhas educativas têm sido bem sucedidas no que respeita às práticas de prevenção da criminalidade através da Internet, falta toda uma educação para a cidadania no que respeita ao uso consciente da Rede. Por exemplo no que respeita à partilha de informação e ao uso de dados. “As redes sociais não são de graça. No Facebook estão a gerar valor para os anunciantes. Nós somos audiência.” Para Ana Jorge, é arriscado falar de características próprias de gerações, porque não se pode generalizar excessivamente. Os estudos mostram que há muitas diferenças e muitos ritmos no seio de uma mesma geração, clivada por grupos sociais, culturais ou regionais.

As camadas mais pobres, por exemplo, são mais vulneráveis aos riscos da Internet. Numa família onde os pais não dominam as tecnologias, é menos provável que os filhos lhes contem os problemas que encontram ou aceitem os seus conselhos. Não reconhecem autoridade a quem não domina os gadgets ou a terminologia que lhes está associada. Também as raparigas são mais vulneráveis do que os rapazes, e os jovens de alguns países mais do que os de outros.

Entre os países da União Europeia, Portugal é um dos que apresentam um hiato maior entre a literacia digital de pais e filhos. Há toda uma geração iniciada nos computadores com a campanha dos Magalhães nas escolas. Foi um factor de unificação dos jovens, mas não dos pais. “Devido ao Magalhães em 2008 e ao projecto E-Escola, Portugal é um dos países europeus onde é maior o número de famílias onde são os filhos que sabem mexer nos computadores”, diz Ana Jorge.

Em parte por este motivo, Portugal é também um dos países onde os jovens acedem mais à Internet sozinhos a partir do seu quarto. Os pais associam o uso dos computadores à realização dos trabalhos escolares, pelo que abdicam de vigiar as actividades dos filhos na Internet. Neste sentido, os adolescentes portugueses, em particular os provenientes de famílias com níveis educacionais mais baixos, são particularmente vulneráveis aos perigos do mundo digital.

Os pais de Sofia exercem um controlo disfarçado, mas firme sobre tudo o que ela faz na Net. A mãe, Vânia Mesquita Machado, que é médica pediatra, explica todas as regras que  Sofia deve respeitar, diferentes das dos irmãos mais novos. Só teve acesso ao Facebook aos dez anos e na condição de os pais conhecerem a password. Apenas pode colocar fotografias suas com óculos de sol e só aceitar amigos que conhece. Se surgem problemas, a mãe sabe que ajudar a filha passa por dominar os mesmos meios. Uma vez, uma amiga de Sofia começou a ter um comportamento reprovável. Enviou mensagens e fez comentários sobre ela com outras amigas, mexeu nas suas coisas no cacifo da escola. Vânia pediu-lhe amizade no Facebook. Quando ela aceitou, fê-la explicar o que se passava, a responsabilizar-se e a corrigir o comportamento. “Se eu tivesse ido falar com a mãe dela, não teria resultado. O Facebook foi a solução.”

Os pais de Mafalda e André sabem da sua vida escolar através da plataforma Inovar, onde os professores registam as notas, faltas, sumários e outras observações, além das despesas do cartão de refeições. Sofia Martins, a mãe, dá grande liberdade aos filhos nos contactos com amigos nas redes sociais, porque viveram oito anos em Oleiros, uma aldeia da região de Castelo Branco, e perderam o contacto com os colegas. Agora vivem na Parede mas falam com eles todos os dias. A mudança não foi tão traumática graças à Internet. “Falo sempre com a minha melhor amiga, que será sempre a minha melhor amiga”, diz Mafalda. Sem a Net, a vida seria muito diferente. Uma vez, lembram-se de que a electricidade falhou. “Estivemos assim cinco horas, não sabíamos o que fazer”, diz André. “Foi dramático.” Mafalda acrescenta: “Foi o fim do mundo.”

Marta sonha com o dia em que um dos elementos dos One Direction lhe responda. Nunca chegou nenhum tweet deles, mas sim de um primo. Pelo menos de alguém que afirma ser seu primo. “Nesse dia foi uma emoção cá em casa”, diz Susana Gonzaga, mãe da Marta. Um primo respondeu. Mas como pode saber se é realmente primo? “Eu confirmei, fui ver os amigos e mensagens dele.” Marta mostra mensagens que trocou com o suposto primo. “Diz qualquer coisa sobre ti”, perguntou ela. A resposta: “I like feet” (gosto de pés).

O star system na Net é muito próximo da loucura. Há ídolos que nasceram no YouTube e nunca fizeram nada na vida real, os fandoms de bandas como os One Direction reúnem milhões de fãs que escrevem e lêem histórias inventadas, virtuais, sobre os rapazes da banda e se automutilam realmente quando um deles, Zayn Malik, abandona o grupo. “Eu sei que a música deles não é muito boa”, diz Marta. “Eu dantes gostava de Grunge, dos Red Hot Chilli Peppers, e não é a mesma coisa. Mas os One Direction são o meu guilty pleasure.” Apesar de toda a sua vida online, Marta gosta de ler livros em papel. E de capa dura. Anda a ler vários clássicos. Anna Karenina, Jane Eyre, todo sublinhado. Orgulho e Preconceito em inglês. Sabe passagens de cor. Diz sem hesitar: “If your feelings are still what they were last April, please tell me so at once…”

A mãe de Duarte, Ana Bastos, não lhe paga a Internet no telefone, mas ele “rouba” o sinal das redes que apanha por todo o lado. Conhecimento é poder. E a única saída para quem vai viver num mundo dominado pelo digital. “Hoje, os mais jovens são mais responsáveis”, diz ele. Porque já sentem na pele o que lhes vai acontecer.

Duarte vê o futuro com preocupação. “A tecnologia muda a personalidade das pessoas. A maioria vai ser como robôs. Mas alguns vão ser mais livres. Your ignorance is their power. Wake up!” Duarte imagina no futuro uma espécie de regresso da Idade Média. “Na época feudal, o povo era escravo, mas isso soava-lhes normal. A mente deles estava fechada. Não tinham capacidade para se revoltarem. Agora parece-me que essa realidade está a voltar. Na sua maioria, as pessoas são simples. Não vão reparar que estão a ser usadas.” Quem quiser resistir tem de fazê-lo dentro da Internet. De certa maneira, “a terceira guerra mundial já começou, é a guerra digital”. No futuro, Duarte imagina-se, se necessário, a ter duas vidas, uma normal, no emprego, seguindo as regras, outra como Anonymous. “A Internet não pode ser controlada. A Internet não é um país.”

mais fotografias e vídeo no link:

http://www.publico.pt/sociedade/noticia/a-geracao-da-net-esta-sem-rede-1691262

 

Crianças com smartphones ou tablets no quarto dormem menos

Janeiro 16, 2015 às 8:00 pm | Na categoria A criança na comunicação social | Deixe o seu comentário
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texto do site http://www.dinheirovivo.pt  de 8 de janeiro de 2014.

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Um estudo de especialistas canadianos publicado pela revista Pediatrics revela que as crianças que têm acesso a smartphones ou tablets nos quartos dormem menos do que aquelas que não têm acesso a estes dispositivos.

Os especialistas acreditam que os conteúdos veiculados pelos media emitem frequentemente mensagens que, segundo a Academia Americana de Pediatras, podem ter efeitos nocivos nos mais novos.

Um conjunto de pesquisas desenvolvido pela Academia Americana de Pediatras em conjunto com a Sociedade Canadiana de Pediatria revelou que crianças com idades compreendidas entre os 0 e os 2 anos, não devem ter contacto com qualquer aparelho tecnológico. Já a crianças com idades entre os 3 e os 5 anos, o acesso deve ser restrito a uma hora por dia.

A revista Parents divulgou uma lista com dez razões que limitam e servem de proibição para a utilização da Internet e dos media digitais pelos mais novos:

O rápido crescimento do cérebro. Esta é talvez a razão mais importante para a restrição do acesso às novas tecnologias por jovens e crianças. Entre os 0 e os 2 anos, o cérebro triplica de tamanho. É também nesta altura que se inicia o seu desenvolvimento determinado sobretudo por estímulos ambientais. Nesse sentido, a exposição a elementos multimédia pode afetar de forma negativa o seu funcionamento.

Atraso no desenvolvimento. Segundo os especialistas, o uso das tecnologias pode restringir os movimentos da criança, dificultando o seu desenvolvimento intelectual.

Epidemia e obesidade. A utilização excessiva da Internet pode provocar um aumento significativo de obesidade em crianças e jovens. Aqueles que possuem aparelhos eletrónicos nos quartos têm cerca de 30% de probabilidade de sofrer de obesidade. No Canadá, 30 % das crianças correm o risco de padecer de diabetes e de acidentes cardiovasculares.

Privação de sono. Segundo o mesmo estudo, cerca de 60% dos pais não supervisionam a utilização de Internet e redes sociais pelos mais novos. Dados indicam que 75% das crianças com idades compreendidas entre os 9 e os 10 anos têm televisão no local utilizado para dormir e, com efeito, sofrem de privação do sono.

Doença Mental. O uso da tecnologia é uma das razões utilizadas para explicar as taxas crescentes de depressão infantil e os comportamentos problemáticos de jovens e crianças.

Agressão. Cada vez mais mais crianças e jovens estão expostos a conteúdos considerados violentos. Nos EUA, a violência nos meios de comunicação social foi constituída como um risco à saúde pública devido ao seu impacto na vida dos mais novos.

Demência Digital. A veiculação de mensagens rápidas pelos media pode contribuir para a diminuição da concentração e da memória dos mais novos.

Vícios. Funciona quase como uma influência. Os mais novos veem cada vez mais os seus pais e os familiares a utilizarem as novas tecnologias, tornando-se também eles ‘dependentes’ da sua utilização.

Emissão de Radiação. A OMS (Organização Mundial de Saúde classificou a utilização de telemóveis e outros aparelhos tecnológicos como um risco, devido à emissão de radiação.

Insustentável. O último fator, mas não o de menos importância: o futuro das crianças. Pode ler-se no estudo: “as crianças são o nosso futuro, mas não há futuro para as crianças com overdose de tecnologia.”

As restrições à utilização de aparelhos tecnológicos fazem referência a um conjunto de fatores, passando pela saúde mental e física de jovens e crianças até às suas relações sociais e familiares.

 

 

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