Relatório Anual de Avaliação da Atividade das CPCJ do ano de 2018

Maio 26, 2019 às 6:28 pm | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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descarregar o relatório no link:

https://www.cnpdpcj.gov.pt/cpcj/relatorios-de-avaliacao-da-atividade-estatistica/relatorio-20181.aspx

Indisciplina, droga e álcool. Comportamentos perigosos de crianças e jovens aumentou – notícia do DN com declarações de Dulce Rocha Presidente do IAC

Maio 23, 2019 às 2:00 pm | Publicado em O IAC na comunicação social, Relatório | Deixe um comentário
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A notícia contém declarações da Dra. Dulce Rocha, Presidente do IAC.

Notícia e imagem do Diário de Notícias de 23 de maio de 2019.

Ana Mafalda Inácio

Relatório de atividade das Comissões de Proteção de Crianças e Jovens alerta para o facto de estarem a aumentar situações de perigo que resultam de comportamentos sociais incontroláveis, indisciplina, consumo de estupefacientes, álcool, etc.

Em 2018, as Comissões de Proteção de Crianças e Jovens (CPCJ) acompanharam 60 493 menores, a maioria dos 6 aos 17 anos. Mas é no escalão dos 15 aos 17 que soaram os alertas. De acordo com o relatório de atividade das CPCJ, ontem divulgado num encontro nacional que decorre até sexta-feira, em Tavira, os comportamentos de perigo na infância e na juventude estão a aumentar. Nos últimos cinco anos, a subida é de três pontos percentuais de ano para ano.

A presidente da Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Proteção das Crianças e Jovens (CNPDPCJ), Rosário Farmhouse, disse mesmo num encontro com jornalistas que esta é uma situação preocupante e que de facto diferencia a realidade de anos anteriores. “Não há grandes diferenças de um ano para o outro. A não ser um aumento registado relativamente à negligência e à exposição dos jovens a comportamentos de perigo“, dos quais “os progenitores nem sequer se apercebem. Depois, não os conseguem proteger e acabam por pôr em causa o seu próprio bem-estar.”

Das 13 905 situações de perigo diagnosticadas em 2018, os comportamentos de perigo na infância e na juventude aparecem em segundo lugar, com 18,7%. Ou seja, 2606 situações que envolveram menores chegaram às comissões de proteção devido a comportamentos considerados perigosos. Mais rapazes do que raparigas, sobretudo entre os 15 e os 17 anos, e por “situações de comportamento social incontrolável e indisciplinado, consumos de álcool, estupefacientes e adição às novas tecnologias”, referiu ainda a presidente da comissão nacional.

A situação torna-se mais complexa porque, a partir dos 12 anos, os jovens já têm de dar o seu consentimento para serem acompanhados pelas CPCJ e nem sempre isso acontece. “Muitos fogem à assinatura de um acordo de proteção e promoção”, disseram-nos.

“Os jovens não nascem delinquentes, tornam-se e se não tivermos cuidado, família, sociedade, técnicos, o caminho deles será o dos processos titulares educativos.”

A presidente do Instituto de Apoio à Criança (IAC), Dulce Rocha, confirma que nesta faixa etária é difícil atuar, defendendo que a aposta para estes casos só pode ser a da prevenção, porque depois o caminho para muitos destes jovens é a delinquência. E “os jovens não nascem delinquentes, tornam-se e se não tivermos cuidado, família, sociedade, técnicos, o caminho deles será o dos processos titulares educativos e a criminalização para alguns comportamentos”, sublinha.

Por isso, defende, “tem de haver uma grande aposta na prevenção e esta só poderá resultar de forma positiva se houver uma aproximação muito grande entre as organizações não governamentais, que estão no terreno, que conhecem o público alvo, e o Estado, mas nem sempre isso acontece, porque o Estado também se fecha, pensa que pode agir sozinho, e não pode ser assim”, argumenta.

Para Dulce Rocha, ex-procuradora no Tribunal de Família e Menores de Lisboa, “tem de haver uma abertura maior do Estado para aceitar a intervenção das organizações independentes, porque nesta área tem de haver uma grande cooperação entre todos, mesmo a nível institucional, até entre CPCJ e tribunais. “Esta é a minha opinião, porque estas organizações estão no terreno e estes jovens precisam de um acompanhamento sistemático e educativo.”

A presidente do IAC, que salientou ao DN não conhecer ainda bem os dados do relatório das CPCJ, disse ser importante que fosse possível decifrar ao detalhe o porquê destas situações. “Os pais, quando se apercebem, já vão um pouco tarde também. Há situações que inicialmente não valorizam no comportamento dos filhos e quando se apercebem eles já faltaram muitas vezes às aulas, já têm notas muito baixas, já se isolaram muito e já entraram em situações graves de adição e até de aliciamento e o seu comportamento depois já não é possível prever.”

É muitas vezes nesta fase que estes jovens chegam às CPCJ, até pelo pedido de ajuda da própria família. “Numa situação destas pode já não haver muita margem de manobra para uma CPCJ atuar, porque os jovens já não aceitam ser acompanhados e depois passam para os tribunais e nem sempre estes têm os meios que são necessários para lhes dar acompanhamento.”

E dá o exemplo do protocolo que o IAC ainda tem com a Direção-Geral dos Serviços de Reinserção Social justamente para o acompanhamento educativo a esses jovens. “Jovens que ainda não estão institucionalizados e que não queremos que sejam, porque depois da institucionalização já não há muito a fazer.”

“Hoje em dia, nesta era global, as coisas acontecem tão depressa que às vezes se espera demasiado tempo para se atuar”, alerta.

É neste sentido que defende a multiplicação de acordos e de protocolos com instituições que permitam a aposta na prevenção. “Estes acordos devem ser multiplicados não só em Lisboa mas em todo o país, porque o que de facto interessa é que haja técnicos treinados, com preparação para um acompanhamento educativo eficaz. Se não houver técnicos treinados que consigam chamá-los à razão, através de pacotes de competências pessoais e sociais, para que eles se consciencializem que só uma vida responsável é que tem futuro, perdemos esses jovens.”

“Violência doméstica: mais de 1500 situações diagnosticadas pelas CPCJ”

A violência doméstica é a quarta causa das situações de perigo diagnosticadas às CPCJ em 2018. Num total de 13 905 de situações de perigo, 11,9% tinham na base este tipo de violência. Ou seja, 1661 casos, em que 99% das crianças e jovens não foram vítimas diretas, mas estiveram expostas à violência. De acordo com o relatório, as vítimas diretas eram um por cento.

Para Carla Ferreira, da Associação de Apoio à Vítima (APAV), independentemente desta distinção, de vítimas diretas ou indiretas, “não nos podemos esquecer que este número representa algo muito importante: estas crianças podem não ter sofrido violência diretamente, podem não ter sido agredidas diretamente, podem não ter sido diretamente injuriadas, ameaçadas ou maltratadas, mas estas crianças viveram um ambiente perigoso e danoso para a vida delas. Por isso, acabam também por ser vítimas”.

Aliás, “muitas vezes as consequências nestas crianças que experienciam situações destas são idênticas às situações de vitimização direta”, alertando para o facto de ter de ser cada vez mais uma preocupação a sinalização destas crianças pelas entidades competentes. Porque quando estas situações chegam às CPCJ “já há um histórico de violência bastante prolongado”.

Em qualquer dos casos há consenso que a “prevenção é fundamental”. Esta foi também a mensagem deixada pela secretária de Estado da Inclusão, durante a apresentação do relatório das CPCJ de 2018, como uma linha orientadora para o trabalho dos próximos anos.

O relatório citado na notícia é o seguinte:

Relatório Anual de Avaliação da Atividade das CPCJ do ano de 2018

 

Daniel Sampaio. “Os pais não devem ver pornografia com os filhos. Tenho casos de homens que o fazem

Janeiro 2, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista de Daniel Sampaio ao i 15 de dezembro de 2018.

Aos 72 anos, o psiquiatra quer viver até aos 80 e continuar a acompanhar famílias nos anos que tem pela frente.

É no escritório de sua casa, rodeado de livros, que Daniel Sampaio nos recebe para uma conversa que passa pela omnipresença da tecnologia mas também por questões clássicas na prática de um psiquiatra, como álcool, drogas e sexo. Gatos e psiquiatria são algumas das palavras que saltam à vista nas lombadas coloridas. Com uma experiência de mais de 40 anos a acompanhar famílias, adolescentes e casais, Daniel Sampaio defende o envolvimento dos pais na vida dos filhos, mas assinala que os mais novos também têm direito à sua privacidade. E acredita que a falta de tempo de que os pais se queixam é “um falso problema”, porque o envolvimento não passa só pela presença física.

Quando fala da sua família deixa sempre transparecer uma ideia de equilíbrio, de que cresceu com regras mas que os seus pais lhe deram sempre espaço para participar. É esse equilíbrio que faz falta às famílias?

Os meus pais eram pais com muito pouco tempo. Agora ouço pais dizer que não têm tempo, mas isso é um falso problema porque o tempo entre pais e filhos é sobretudo um tempo de momentos. Nós temos é de aproveitar bem os momentos do dia com os filhos, não é preciso estarmos muitas horas, porque o convívio intimo das pessoas que vivem em conjunto proporciona vários pequenos momentos. Os meus pais trabalhavam muito, o meu pai era médico de saúde publica e foi Diretor-Geral de Saúde. Vivemos em Sintra até aos meus 15 anos – portanto infância e parte da adolescência foi passada em Sintra. O meu pai saía muito cedo, voltava tarde, e a minha mãe era explicadora particular de inglês e dava lições todo o dia. O grande contributo para a minha educação foi o aproveitar muito bem o tempo do pequeno-almoço, do final da tarde, da hora de jantar e da hora de deitar, de que eu falo no meu livro “Do Telemóvel para o Mundo”, e proponho esses tempos como tempos essenciais. Depois, o mais importante é que estimulavam muito a participação. Promoviam conversas sobretudo à hora de jantar e nos fins de semana sobre temas variados, da atualidade. O meu irmão tem mais sete anos do que eu, havia uma diferença grande de idades, mas eles conseguiam mesmo assim um equilíbrio de modo a pôr os dois filhos a participar, e isso foi muito estimulante.

Lembra-se de algum episódio em particular?

Lembro-me por exemplo de aos 12 anos, quando Humberto Delgado se candidatou à Presidência da República. Eu não sabia nada sobre Humberto Delgado, o meu irmão tinha 19 e já sabia muito, mas eu fui chamado a participar e a dar opinião sobre Salazar e sobre Humberto Delgado, e era sempre assim. Essa participação foi muito formativa e estimulante.

Referiu-se à falta de tempo como “um falso problema”. Mas a verdade é que isso é algo de que os pais se queixam cada vez mais, não é?

Sim. Os pais usam muito esse argumento, quanto a mim mal. Evidentemente que os pais que têm filhos, crianças ou adolescentes, estão numa fase muito ativa da vida profissional e do ponto de vista físico não têm muito tempo, mas há uma falsa ideia nos pais de que têm de promover conversas com os filhos e estar muitas horas a falar com eles.

Não é isso que os filhos querem?

Nas crianças e adolescentes de hoje, esse não é um bom método porque eles gostam de coisas rápidas e não gostam de estar muito tempo sentados a conversar. Portanto nós temos de aproveitar os momentos em que o pai está a fazer a barba, em que a mãe está eventualmente a preparar o pequeno-almoço ou o jantar, e os filhos podem colaborar. E é aí que pode falar-se sobre o que aconteceu na escola, sobre uma coisa que apareceu na internet, sobre um encontro que eles tiveram. Tem de haver envolvimento emocional dos pais.

Esse envolvimento tem que ver com aquela ideia de que os pais devem ser amigos dos filhos? É defensor disso?

Não sou nada defensor disso, mas sim da renovação da autoridade. O que me preocupa hoje em dia, e tenho muitas consultas sobre isso, são pais que não têm autoridade sobre os filhos, porque eventualmente foram muito camaradas, estiveram muito próximos e portanto ficaram sem autoridade. E na adolescência é preciso ter autoridade, que tem de ser construída, porque uma criança e um adolescente não aceita imediatamente a autoridade do pai e da mãe. O pai verdadeiramente sábio é o pai que conhece bem os filhos e que está próximo dos filhos e daí emana uma autoridade natural. Se eu for muito próximo de uma pessoa, posso influenciá-la. Essa construção da autoridade começa na infância. As pessoas pensam que quem mais influencia são os amigos, os professores, a internet, os namorados; tudo isso é muito importante, mas a grande influência é dos pais. Quando os pais estiveram muito envolvidos e não conseguiram essa autoridade, é natural que haja uma contestação por parte dos filhos adolescentes. Apesar de essa contestação fazer parte do crescimento, se os pais têm uma autoridade natural conseguem ultrapassar esse obstáculo.

Mas essa gestão é um bocadinho complicada, não é? Porque os pais têm de se envolver, mas ao mesmo tempo não podem envolver-se demasiado…

Têm de se envolver afetivamente e isso passa pela proximidade física, pelo carinho, pela ternura, mas passa também pelo respeito da intimidade da criança e sobretudo do adolescente. É preciso haver alguma distância. O quarto do adolescente, por exemplo – é importante que os pais respeitem esse espaço, mas não quer dizer que o filho não tenha de arrumar o quarto de vez em quando. O envolvimento passa não por muito tempo físico, mas por muita atenção, orientação, companheirismo, respeito de parte a parte. Em Portugal devia haver muito mais estruturas que apoiassem os pais, como grupos de pais nos centros de saúde, onde pudessem trocar experiências. Muitos pais pensam que é preciso mandar o filho ao psicólogo e ao psiquiatra, mas nem sempre. Estimulo muito que os pais contactem com pais que tenham filhos da mesma idade porque a troca de experiências é muito importante, o falar sobre a condição de ser pai.

Porquê psiquiatria?

No final do secundário fui muito influenciado por uma professora de filosofia, Maria Luísa Guerra, que ainda está viva e lúcida, julgo que com 92 anos. Era uma pessoa que trabalhava com o grupo dos alunos, mandou-nos fechar o livro, que era muito mau, e dava textos para discutirmos. E portanto criou ali uma dinâmica de grupo muito boa, comecei a interessar-me por psicologia, que em Portugal estava muito pouco desenvolvida. Era filho de um médico, comecei a pensar que podia ir para psiquiatria e entrei na Faculdade de Medicina sempre a pensar que ia ser psiquiatra. Achei que o psiquiatra podia ter um campo mais vasto de atuação, porque pode fazer terapêuticas medicamentosas e pode fazer psicoterapia.

Como começou a dar aulas?

Fui convidado para assistente e depois fiz a carreira toda, que passa por vários graus. Foi muito bom, mas muito difícil. Tenho muitas saudades dos alunos e tenho saudades sobretudo do tempo em que a faculdade era professores e alunos, porque infelizmente a faculdade agora é professores, alunos e burocratas, há muitas pessoas nas faculdades que se perdem a exigir declarações e relatórios. Esses foram os últimos anos da minha carreira, quanto a mim houve muito tempo perdido a fazer relatórios e justificações.

Destaca em algumas conversas o facto de ter tido um gato até aos 18 anos. Os animais fazem falta às famílias?

Tenho tido sempre gatos, toda a vida. Agora tenho uma com 14 anos. Sou completamente um cat lover. Há ali uma oferta [aponta para uma estante] que um neto me trouxe de Roma, que diz “io amo i gatti”. Gosto muito da personalidade dos gatos e da companhia que fazem, acho que o gato é como os filhos: se nós tratamos bem o gato, o gato trata-nos muito bem; se tratarmos bem o filho, com muito envolvimento, com ternura, mas também com regras – os gatos também precisam de regras – o filho gosta muito de nós. Os animais são muito bons para as crianças. É muito importante que as pessoas possam desenvolver uma relação com o animal, possam cuidar do animal – às vezes pedem por exemplo um cão aos pais e depois não se interessam por cuidar dele e é o pai que vai levar o cão à rua, e isso é pena. Dá trabalho, mas vale muito a pena.

Além do seu irmão [o ex-presidente da República Jorge Sampaio], que é mais velho sete anos, teve também outra presença mais velha com quem conviveu bastante – o cientista Filipe Duarte Santos. Ambos foram pessoas bem sucedidas desde cedo, observá-los influenciou-o de alguma forma?

É meu primo direito, do lado da minha mãe. O que eu recordo da nossa infância e adolescência é que era a nossa avó que estimulava muito o nosso convívio, dos três netos. E esse convívio foi muito importante para mim. O meu primo sempre foi cientista, desde novo. De vez em quando estava connosco, era muito novo, pegava numa folha de papel e desatava a fazer fórmulas matemáticas à nossa frente e nós não percebíamos como era possível fazer aquilo. Sempre foi uma pessoa muito avançada do ponto de vista da ciência e fico muito satisfeito que agora tenha este reconhecimento internacional em termos das alterações climáticas. Foi pioneiro e está muito bem, com 76 anos. A par do meu irmão, foi muito formativo ter duas pessoas que sempre foram boas na sua área. São duas referências para mim.

Os pais queixam-se dos filhos, os filhos queixam-se dos pais. O que está a falhar?

As pessoas queixam-se, mas não quer dizer que esteja alguma coisa a falhar. Se nós pensarmos em grande números, na maioria dos casos as famílias correm bem. As queixas são inevitáveis. A relação entre pais e filhos passa por uma separação que é inevitável. Para crescer tenho de me separar das pessoas que estão comigo, se não não consigo enfrentar o outro. Tenho de me separar e é difícil não o fazer sem conflito. Na maior parte dos casos, os conflitos são pequenos. A contestação é fundamental, ocorre sobretudo entre os 15 e os 18. A adolescência é uma época boa, apesar de as pessoas costumarem dizer que é terrível, que é a idade do armário, na maioria dos casos não é assim – é uma época de descoberta, de fazer amigos, de descobrir o amor e a sexualidade, de ter novas experiências, de viajar. Acho que se dramatiza muito as questões. Mesmo nas situações em que os pais se separam, o que é sempre muito traumático – os divórcios nunca são felizes, é sempre muito traumático para as crianças e para os adolescentes, e isso é uma coisa que às vezes se esquece – é preciso estar muito atento às consequências que isso traz sobre os filhos. Depois do divórcio, sou a favor da guarda alternada para que a criança ou jovem fique em contacto com o pai e a mãe.

Mas isso não é, de outra perspetiva, mau para a criança? Porque acaba por andar mais cansada, por exemplo.

Não. Sabe que eu tenho 40 anos de experiência, já passei por tudo, como ficarem só com a mãe e com o pai de 15 em 15 dias e jantar à quarta-feira – que durante anos foi a extraordinária decisão unânime dos tribunais, mesmo que o pai vivesse a 300 quilómetros de distância da mãe. A evolução para a guarda conjunta e residência alternada tem que ver com o facto de os pais durante muito tempo estarem privados do convívio com os filhos, porque se se está com uma criança um fim de semana de 15 em 15 dias e num jantar por semana, não se consegue desenvolver intimidade. É preciso partilhar a vida para haver envolvimento e ganhar-se autoridade e esses pais não tinham autoridade porque não tinham intimidade. A residência alternada é mais parecida com a família, porque as crianças e adolescentes têm contacto com o pai e com a mãe e adaptam-se muito bem.

As gerações mais velhas têm muito aquela ideia de que antigamente havia mais respeito, de que os jovens eram mais bem educados. Concorda?

Havia mais respeito porque havia mais distância, não é? A disciplina está ligada ao respeito, mas muito do respeito que havia em relação aos pais e professores era baseado no medo e agora esse autoritarismo já não funciona. Temos de construir o respeito, mas recíproco. É preciso que os professores respeitem os alunos para que os alunos os respeitem. É circular. O que observo mais é que há invasões do espaço de um adolescente que hoje são inadmissíveis. Não faz sentido que um pai mexa no telemóvel de um filho, não faz sentido que um pai pesquise os bolsos de um filho ou a gaveta, é uma falta de respeito. Claro que quando um filho usa um palavrão para o pai isso é falta de respeito, também. O respeito também te de ser construído.

Já exercia antes do boom da tecnologia – telemóveis, internet… Desde que a tecnologia se generalizou, as dinâmicas familiares pioraram?

Não. Estamos numa fase de transição. Apesar de o Facebook já ter 14 anos, falamos sempre de novas tecnologias – o Facebook, de resto, já é muito pouco usado pelos adolescentes, que usam mais o Instagram. Há uma evolução como houve no século XV, com a revolução na imprensa. Nos períodos de grande mudança das comunicações há adaptações e o que é interessante é que os jovens são os precursores desta nova forma de comunicar, eles vão à frente. É um território onde os pais e sobretudo os avós se mexem com mais dificuldade, mas defendo que é preciso que pais e avós estejam muito atentos e se atualizem. Eu tive de me atualizar, primeiro como médico e como escritor, mas adaptei-me também a comunicar em família. Nós temos um grupo no Whatsapp que se chama “family project” e é muito interessante porque estamos sempre a comunicar uns com os outros. Eu, a minha mulher – que é a campeã dessa forma de comunicar, está sempre em contacto com os três filhos e sete netos, menos os dois mais pequenos, que têm 7 e 8 anos. Temos cinco adolescentes e estamos sempre em contacto com eles, é permanente. É algo muito importante para a família – lá está a questão do tempo, não estamos sempre juntos e isto é extremamente positivo.

Quando se deve dar o telemóvel?

A partir dos dez anos, mas antes deve-se explicar e ir acompanhando com o tal envolvimento afetivo.

Até a criança ter telemóvel, o ver televisão – o tempo passado no ecrã – pode ser usado como ferramenta para educar para o uso futuro do telemóvel?

Exatamente, é a mesma coisa. Não se deve deixar uma criança passar muito tempo a ver televisão, como não se deve deixar depois um adolescente muitas horas no computador e no telemóvel. É uma questão que é adequada à idade, mas desde muito cedo deve-se interiorizar a regra. A educação é muito interessante: se conseguirmos fazer uma criança interiorizar uma regra, ela depois vai tomar conta dessa regra e torna-se natural. Se desde o princípio as crianças perceberem que o telemóvel, o computador, o tablet é para utilizar com tempo relativamente curto, isso vai ser interiorizado. Agora, o proibir não resulta. E a investigação é muito interessante porque já se sabe que em relação às dependências da internet sobretudo nos rapazes não funciona o castigo. Os rapazes são mais turbulentos do que as raparigas, são mais dependentes, mas justamente pelas características diferentes nos rapazes e nas raparigas, nos rapazes funciona muito melhor a persuasão e a autorregulação, ajudá-los a perceber que têm desde muito cedo de autorregular a utilização. As raparigas são mais fáceis de convencer através da retirada. Alguns pais tiram o telemóvel, escondem o telemóvel, nalguns caso até chegam a desligar a luz elétrica da casa quando tudo está sem bateria e assim impedem os filhos de carregar os aparelhos. Não faz nenhum sentido, são casos extremos, mas existem.

No fundo, nessas situações há uma transferência de autoridade.

Exatamente. Nalguns casos o que se passa é que a autoridade está invertida. São os adolescentes que mandam nos pais e isso é muito mau sinal do funcionamento da família.

Como podem os pais lidar com essa perda de autoridade?

Falando com outros pais e até procurando ajuda especializada, terapia familiar. O último livro que escrevi [”Do Telemóvel Para o Mundo”] é muito comprado pelas famílias e apareceu-me uma família com o livro todo sublinhado e com um papelinho com as regras. E o adolescente de 16 anos, que passava a vida no jogo Fortnite e no telemóvel, disse uma coisa muito interessante: “para que é que estamos a falar do telemóvel, quando nós não falamos uns com os outros?”. Ou seja, muitas vezes, o telemóvel e a internet servem um propósito, que é esconder a dificuldade que as pessoas têm de falar umas com as outras. Tem de se perceber que não se pode passar a vida a guerrear por causa do telemóvel quando o que está em causa é a dificuldade de aproximação entre pais e filhos e a gestão daquilo que é autonomia e daquilo que é controlo. Tem de haver sempre muita troca de informação entre pais e filhos. Os pais não podem controlar demasiado.

Quais são os perigos?

Esses filhos, que são superprotegidos, não se desembaraçam na escola, tenho verificado muito isto. Na escola, hoje em dia, um adolescente tem de se afirmar. Se um rapaz ou rapariga não sabe gerir a sua afinação pessoal, se mostra medo, se de alguma forma é muito diferente dos outros e não se consegue integrar, esse jovem tem problemas de relacionamento e isola-se. E aí é vitima dos outros. Esta mensagem é muito importante para os pais: “eu tenho de tornar o meu filho competente e para tornar o meu filho competente tenho de educar contra o medo, tenho desde muito cedo dizer quenão pode mostrar medo, mesmo que o sinta”. Nas situações de bullying – e de cyberbullying, através da internet – temos de pensar nos agressores e ver o que podemos fazer em relação aos jovens que fazem isso, mas temos de pensar nas vítimas também, que muitas vezes são muito tímidas e muito inseguras e não se conseguem afirmar. E aí é muito importante que a educação seja uma educação para enfrentar os outros. Muitos me dizem isto, que é difícil estar na escola, que há muitos comentários – que somos gordos, caixa de óculos. Por exemplo, as raparigas falam muito no problema do cabelo. Além dos testes, os pais devem preocupar-se com o modo como o rapaz ou a rapariga está a viver a sua relação com os outros. Temos de educar para esta afirmação pessoal.

Falou em cyberbullying. Tem acompanhado muitos casos?

Sim, bastantes. É uma das minhas preocupações neste momento. O bullying tradicional é uma coisa visível no pátio, vemos uns a baterem noutros, o cyberbullying é silencioso, de intimidação e provocação através da internet, e o que se passa muitas vezes é que o jovem que está a ser vítima desse cyberbullying está a sofrer em silêncio, não fala sobre isso a ninguém porque tem vergonha – aos amigos, aos professores, aos pais. Às vezes isso mantém-se por muito tempo e as mensagens vão-se tornando-se mais agressivas. É um tema que tem de se discutir na escola e é preciso que os pais estejam atentos, quando as crianças começam a dizer que têm dores de barriga, que não querem ir a escola, começam a chegar a casa chorosos, tristes, são sinais indiretos de que algo se passa. E aí é preciso confrontar diretamente e perguntar: “Passa-se alguma coisa com o teu telemóvel, estás a receber alguma mensagem?”. Há casos de jovens que foram submetidos a esta pressão durante muito tempo em que ninguém fez nada.

Disse que os pais não podem mexer no telemóvel do filho, mas nesse tipo de casos têm licença o fazer?

Só com autorização do filho. Sei que é muito discutível, mas a minha experiência pessoal como avô – porque na altura dos meus filhos não havia internet – e como psiquiatra, trabalhando com dezenas de jovens por semana, é um território muito íntimo e a linha vermelha é os pais não poderem entrar. Para saber o que se passa no telemóvel do meu filho em caso de risco, tenho de estar próximo dele, e isso tem que ver com a construção da autoridade e com a construção da intimidade. Se eu estou próximo, sento-me ao lado dele e digo – “olha acho que estás aflito, estás sempre a olhar para o telemóvel, passa-se alguma coisa? Vou sentar-me ao teu lado para que me possas mostrar”. O mais importante não é a mensagem em si, é ele poder dizer ao pai ou à mãe que está a receber mensagens de humilhação e provocação.

Deve haver regras quanto a horas para uso?

Sim, mas combinadas. Deve haver períodos em que não há telemóvel, aqueles que são fundamentais para a convivência em família – o acordar e partir para a escola, o pequeno-almoço tomado em casa – que muitas vezes não é -, a hora de chegar a casa e fazer os trabalhos e jantar e a hora de deitar. Não concordo por exemplo que os jovens estejam a estudar e ao mesmo tempo a receber mensagens, e aí é preciso bom senso, porque eles às vezes estudam a partir do telemóvel. E aí o pai tem de gerir, dar um tempo ao filho para estudar no telemóvel com os amigos, mas depois estudar sozinho. À hora de deitar, estar com o telemóvel torna-se um pouco complicado, porque muitos namoram a essa hora. E sabemos que o uso a essa hora perturba o sono por causa da luz, ao contrário do que eles dizem, que dizem que é muito bom porque provoca sono.

Disse que a idade certa para ter o telemóvel são os dez anos, mas nem todos os jovens têm maturidade nessa idade para ter um telemóvel.

Sim, claro, isso é uma orientação. Tem que ver com a passagem da monodocência para a pluridocência, eles passam a ter mais estímulos, vão ter um horário com menos horas, vão chegar mais cedo a casa, estão na pré-adolescência e a descobrir coisas novas. Os pais é que precisam de gerir, e não precisam de dar de início um telemóvel de último modelo. Mas devem dar um smartphone.

Se não a criança acaba por ser alvo de chacota entre os colegas, não é?

Exatamente. Tive um adolescente com 13 anos a quem os pais não davam um smartphone e ele dizia “eu tenho o telemóvel da minha bisavó, porque a minha avó já tem um smartphone, a minha bisavó é que tem um telemóvel destes”. Deve dar-se um smartphone com regras de utilização.

E se os pais se recusam a dar telemóvel e o adolescente vai para casa a dizer que todos os amigos têm, como gerir isso?

Eles fazem sempre isso. Os amigos têm sempre os melhores ténis, a t-shirt mais à moda, têm o melhor tablet, saem à noite todos os dias… isso é discurso adolescente, não é? Mas os pais aí têm de marcar a sua posição e dizer, por exemplo, que dentro de seis meses ou um ano o filho poderá ter.

Exerce há quarenta anos. Tem vindo a aperceber-se de que as crianças têm cada vez menos vontade de ganhar responsabilidade, de crescer?

Sim, completamente, mas isso deriva da educação. Uma educação que é sobretudo típica da Europa do Sul, Grécia, Itália e que é superprotetora. E a educação superprotetora dá pessoas imaturas e pessoas menos responsáveis. E eu sou muito contra isso, sou absolutamente a favor de que os adolescentes muito novos andem sozinhos na rua, utilizem o metro – se bem que agora todos querem andar de Uber – e se saibam desembaraçar. Isso de brincarem na rua, andarem na rua desde cedo e saberem safar-se de situações difíceis é extremamente importante para a maturação emocional. Isto é uma coisa que os pais devem com cuidado ir fomentando. Poder ir a pé uma parte do trajeto, poder andar de metro muito cedo, com 11 ou 12 anos podem perfeitamente desembaraçar-se desde que tenham um amigo ou andem em grupo, são coisas que os pais devem fomentar em vez desta coisa terrível e completamente paradoxal que é a criança estar a uma relativa distância de um clube onde vai fazer desporto e podia perfeitamente ir a pé e o pai vai levá-la de carro. E portanto os adolescentes veem a cidade através dos vidros dos carros dos pais. Nas grandes cidades, os pais têm muito medo – dos assaltos, dos predadores sexuais.

E então, protegem demasiado.

Exato. E prejudicam a sua vida – porque muitas vezes têm de interromper o trabalho e ir a correr para levar ao futebol e depois voltar para o trabalho e isso dá um cansaço enorme que se repercute depois ao fim do dia quando chegam a casa. A educação deve ser para a autonomia. Desde muito cedo, a criança com um ano pode começar a perceber que pode arrumar os seus brinquedos num cantinho, logo que comece a andar com dois anos já pode fazer mais coisas, com sete ou oito anos pode pôr e levantar a mesa e pode ir dormir a casa de um amigo. Todas essas coisas são muito importantes.

Tem muitos casos de jovens deprimidos?

Sim, muitos.

Mas têm vindo a aumentar?

O que tem vindo a aumentar são as perturbações de ansiedade – jovens com muita ansiedade social, que têm dificuldade em contactar com os outros, situações de fobias, de ataques de pânico. Tenho jovens muito ansiosos, com muita angústia, muita dificuldade nos testes, por exemplo. Há jovens com medos em relação à sexualidade, que têm muito medo – sobretudo os rapazes têm medo de se afirmar sexualmente, de não serem capazes de estar à altura da rapariga.

E o que podem fazer quanto a essas angústias?

Exercício físico. Sabe-se hoje em dia que o exercício físico regular é fundamental para o nosso cérebro, que com o exercício liberta substâncias calmantes. E a estes jovens, de 15, 16, 17 anos, ponho-os a correr na cidade.

E os resultados são bons?

Os resultados são espetaculares. As raparigas é mais difícil porque dizem que os homens se metem com elas quando correm, mas os rapazes não têm esse problema. Muitas vezes consigo não dar medicamentos, converso com eles, converso com os pais e ponho-os a correr, duas ou três vezes por semana, é melhor até do que o ginásio. Ficam mais satisfeitos com a sua imagem, mais calmos e de alguma forma dá-lhes bem estar psíquico para as dificuldades que têm de enfrentar.

Há quem diga que as redes sociais aproximam, há quem diga o contrário. A amizade mudou muito?

Não, os jovens saudáveis contactam muito em presença e contactam muito através das redes sociais. Estiveram a conversar com os colegas de manhã e chegam a casa e falam com os mesmos. A internet permite até que falem com amigos de outros países – isso é sobretudo importante na faculdade, quando fazem Erasmus, que é uma coisa que faz muito bem. Quanto àqueles jovens que têm dificuldade de comunicação, refugiam-se muito na comunicação virtual e temos de promover a ida dos amigos lá a casa, fomentar o desporto…

Tem uma relação longa, que começou no quarto ano da faculdade.

Tenho um casamento de 48 anos. Estamos a dois anos das bodas de ouro.

Da mesma forma que as redes sociais alteraram a amizade, mudaram também o amor? O amor ganhou com as possibilidade que a internet oferece ou perdeu?

Nunca me tinham feito essa pergunta. Está diferente, sim. Acho que o risco de infidelidade é maior, começa-se muitas vezes com uma mensagem e de repente está-se numa situação diferente. Acho que a fragilidade do elo conjugal é cada vez maior – isso é válido também para os casais do mesmo sexo, que acompanho na terapia familiar. O elo é muito frágil, porque as pessoas idealizam o amor. As pessoas gostaram muito uma da outra de início, estiveram apaixonadas, há a química do início da relação, há a grande descoberta do outro, mas isso tem curta duração, ninguém está apaixonado durante muito tempo. E depois é preciso que se construa uma relação e o mais importante para tal é reconhecer o outro e estarmos permanentemente atentos ao outro. Ou seja, eu só consigo ter uma relação profunda com a pessoa que amei, só posso continuar a amar essa pessoa, se estiver permanentemente atento ao que ela está a sentir e àquilo que ela deseja. E a outra pessoa a mesma coisa em relação a mim. Outro dia disse isto a um jovem adulto que vive com a namorada, tem 30 anos, e ele disse “mas isso dá imenso trabalho”. E eu respondi “imenso trabalho”. E o que se passa neste momento é que as pessoas são muito narcísicas, estão muito viradas para si próprias, para o seu êxito pessoal, para o seu bem estar físico – há muito investimento no próprio corpo, os ginásios estão cheios de pessoas para tirar a barriga. Este investimento na própria pessoa dá pouco espaço emocional para o investimento no outro.

A par das redes sociais, os pais continuam a ter preocupações clássicas como o tabaco, o álcool, a droga, o sexo. O que os assusta mais nestas questões?

O que assusta mais, em geral, é a perda de controlo dos pais em relação aos filhos, que pode levar a uma perda de controlo dos filhos. Os pais a certa altura percebem que não podem continuar a controlar, e isso é bom, mas têm de continuar a acompanhar, e como vimos às vezes há dificuldade nessa questão. Ou seja, eu tenho de ir controlando, mas ao mesmo tempo tenho de promover autonomia e esse equilíbrio é muito difícil, sobretudo nas famílias em que as pessoas não falam umas com as outras. É muito frequente que eles comecem a beber aos 15 ou 16 anos, mas ao contrário do que se ouve na televisão, muito poucos ficam alcoólicos. E é preciso passar essa mensagem. “Tens de ter cuidado com o que bebes, mas não é uma catástrofe se beberes aos 16 anos. Tens de beber com moderação e ao mesmo tempo tens de beber agua, para evitar desidratação. Quando vais sair à noite e sais de casa à meia noite, deves comer antes de sair, porque com o estômago cheio o álcool faz menos efeito.” São várias mensagens que se devem ter para evitar essas coisas mais graves, como o coma alcoólico, não se deve é dramatizar.

E as drogas?

O mesmo em relação à experimentação de drogas. Sou absolutamente contra a canábis, como psiquiatra, vi muitos jovens que desencadearam psicoses por causa do uso sistemático da canábis. É uma droga perigosa que tem consequências graves sobre o cérebro dos nossos adolescentes, que é um cérebro em formação e devem dizer não às drogas. Mas, se por acaso experimentarem, não quer dizer que venham a ser toxicodependentes, como os pais me dizem. “Ah, é um drogado”, não é, essa mensagem é terrível. Se experimentou, é uma coisa, se está a consumir todas as semanas é outra coisa, se está a consumir todos os dias já é muito mais grave. E temos de perceber qual é o significado do consumo, porque a canábis serve um propósito – muitas vezes é usada por causa da ansiedade, porque é calmante de início.

E quanto ao sexo, como devem os pais por exemplo lidar com a clássica situação de apanhar um filho a ver pornografia?

Mais de 90% dos rapazes veem pornografia. Muito mais do que as raparigas. É uma coisa que deve ser valorizada sobretudo pelas consequências negativas que pode ter. O que se passa muitas vezes com alguns rapazes que veem muita pornografia é que pensam que a vida sexual das pessoas é aquilo que veem no telemóvel e portanto fazem uma ideia da vida sexual que não corresponde à realidade das pessoas com quem estão e das raparigas com quem se vão cruzar. E os pais não devem ver pornografia com o filhos.

Tem casos desses?

Sim, casos de homens que veem com os filhos. Acham tudo muito natural.

Mas isso é levar a questão a um extremo pouco saudável, não é?

Claro. E tenho também pais que fumam haxixe com os filhos. É o pai camarada. “Já que sou camarada dos meus filhos, posso fumar ganzas com eles, e porque não também ver pornografia com eles?”. Tenho casos assim e não é um ou dois. E eu digo logo que isso não se pode fazer. Mas quanto à pornografia, os pais devem falar sobre isso. Devem dizer que não corresponde à vida normal das pessoas e por outro lado é um negócio que explora o corpo da mulher e do homem e não é uma coisa saudável. Mas faz parte de um percurso, claro que depois quando arranjam namorada deixam de ver. Deve ser falado na escola e em casa sem constrangimentos. Eu passei a falar da questão da pornografia nas consultas, porque eles ficam aliviadíssimos, porque veem às escondidas dos pais. Noutro dia perguntei a um rapaz de 17 anos se de vez em quando via pornografia e a resposta foi “vejo todos os dias”, e a partir daí começámos a falar. Curiosamente este rapaz tem muita dificuldade na interação com as raparigas, e a pornografia prejudica a interação.

A educação sexual devia ter um papel nisso, não é?

Sim. É lamentável. Fez-se um esforço enorme entre 2005 e 2009 para se pôr educação sexual nas escolas, estive nisso, criou-se um grupo de trabalho e uma lei de educação sexual. Entre 2009 e 2018, houve um desinvestimento. É uma pena, porque educação sexual permite falar de tudo. Não é só falar do preservativo e da pila. Também é, mas o mais importante é que se fala de educação – respeito homem-mulher, respeito das minorias sexuais, afetos e emoções ligados à sexualidade. Quando há educação sexual as pessoas iniciam a vida sexual mais tarde, porque percebem que é um momento muito importante na vida.

Acha que as crianças e os jovens passam muito tempo na escola? Muitas vezes o que acontece é que perdem fins-de-semana a fio, por exemplo, para estudar. É sensato?

Isso acontece sobretudo com aqueles que querem ter boas notas no secundário para entrar na faculdade. Acho que a escola tem um horário excessivo, passam muito tempo na escola, sobretudo os mais novos. Mas o que me impressiona mais é que a escola é muito pouco caritativa, é muito semelhante à escola do meu tempo. Tenho netos no Pedro Nunes, onde eu andei, e as histórias que me contam de professores a falar durante 90 minutos são muito semelhantes às minhas, mas no meu tempo eram 50 minutos. A escola não evoluiu em termos de metodologia de ensino, o ensino continua muito dependente do professor, com muito pouco trabalho de grupo e muito pouco interativo. Ao contrário dos estudantes e da sua vida, que é muito interativa. E depois querem que estejam 90 minutos numa cadeira a ouvir os professores. A escola de hoje é um confronto entre professores e alunos, muitas aulas não são dadas por indisciplina.

Disse que acompanha também casais homossexuais. Uma criança que cresce dois pais ou duas mães é prejudicada?

Não. Não vejo nenhum problema nisso e a criança não se torna homossexual por isso, desde que esse casal tenha a preocupação de se dar com pessoas de outro sexo para que a criança possa diversificar as suas relações. Crianças educadas por casais do mesmo sexo não têm mais problemas do que as outras nem se tornam homossexuais, isso são receios das pessoas. O percurso para a aceitação da homossexualidade não é um percurso fácil, às vezes ouve-se que determinada pessoa “optou” por ser homossexual, isso não existe. As pessoas não optam, não é uma opção. A partir do momento em que uma pessoa aceita a sua homossexualidade e vive com uma pessoa do mesmo sexo, não vejo nenhum problema em que a pessoa adote uma criança. Aliás, eu fui das pessoas que falou logo a favor do casamento entre pessoas do mesmo sexo e tenho acompanhado vários casais.

Esses casais têm problemas semelhantes aos dos casais homossexuais?

Os problemas são exatamente os mesmos. São problemas de comunicação, de fidelidade, das redes sociais, da sexualidade. Tem que ver com partilhar a vida. é difícil partilhar a vida com uma pessoa, mas é mais difícil estar sozinho. As pessoas sozinhas têm muito mais doença mental e são mais infelizes, apesar de os casais se queixarem. As pessoas sozinhas sentem uma grande solidão e um grande desejo de encontrar a pessoa certa. Vejo isso em pessoas hetero e homossexuais.

Como é que vê a saúde em Portugal hoje em dia? Estamos a atravessar uma greve prolongada dos enfermeiros que põe em causa cirurgias programadas e, em alguns casos, a vida das pessoas.

Acho completamente inaceitável. As pessoas que a promovem deviam ponderar,  apesar de terem razões para reivindicar, porque estão vidas em jogor. Quem trabalhou 40 anos num hospital como eu sabe como é difícil ter cirurgiões e anestesistas disponíveis no SNS para fazer as operações programadas. Mas acho que o SNS funciona de uma maneira geral bastante bem, exceto na psiquiatria e saúde mental, onde há muitas lacunas.

Integrou a comissão de acompanhamento de apoio psicológico às vítimas dos incêndios. Como estavam aquelas pessoas que de repente perderam tudo?

Destaco que as vítimas tiveram um apoio muitíssimo bom. Na zona de Pedrógão havia uma equipa de saúde mental comunitária que partiu do serviço de psiquiatria dos hospitais universitários de Coimbra. Num ano, essa equipa realizou três mil consultas. A situação foi altamente traumática, as pessoas perderam familiares, mas podemos dizer que não houve casos de doença mental grave nas pessoas que ficaram. Não houve suicídios e houve muito poucos internamentos .

Há coisas que independentemente da tecnologia nunca vão mudar?

Sim. a relação entre pais e filhos e as questões de amor nunca vão mudar, são eternas. Têm novas facetas, mas os problemas são os mesmos. Na adolescência falamos de coisas que não existiam há 10 ou 20 anos, mas no fundo estamos a falar da mesma coisa: como educar. A mensagem principal é que não há felicidade maior do que amar e ser amado. Digo isto a pessoas que estão no auge da carreira, que querem fazer muitas coisas e trabalham das nove da manhã às dez da noite e depois não conseguem ter relações afetivas. Digo-lhes que a carreira é importante, mas também é importante estar com a pessoa amada. Na minha experiência, o mais importante é ter uma família e sentir-me amado, apesar da carreira que tive.

Chegou ao topo da carreira médica e da docência, tem uma família preenchida. O que lhe falta fazer?

Numa outra entrevista disse que queria chegar aos oitenta anos e uma doente minha perguntou-me: “só aos 80?”. Mas partindo do princípio que me faltam oito anos, quero dedicar os últimos anos da minha vida à relação entre pais e filhos.

Os 80 anos é por algum motivo em especial?

É simbólico, é um número redondo.

 

 

 

Curso de Formação de Voluntários – Projeto Nacional de Educação pelos Pares – 5 novembro em Lisboa

Outubro 30, 2018 às 9:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Mais informações nos links:

https://www.ff.ul.pt/media/eventos/curso-formacao-voluntarios-projeto-nacional-educacao-pelos-pares/

http://www.fpccsida.org.pt/index.php?option=com_content&view=article&id=1509:2018-10-25-11-10-34&catid=1:noticias

A nova vida dos filhos da droga

Setembro 19, 2018 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artur Machado

Texto do Notícias Magazine de 5 de setembro de 2018.

Texto de Filomena Abreu | Fotos de Artur Machado/Global Imagens

Tinha 11 anos quando começou a faltar às aulas. Aos 12, bebia álcool e consumia haxixe. Com 14, já estava na cocaína e no MD. Foi nessa altura que fugiu de casa. E, como não tinha dinheiro para a dose, roubava. Dormia na rua ou onde dava. Tiago – vamos chamar-lhe Tiago – era um carro sem travões. Aos 16 anos, conta algumas das experiências de vida que não deseja a ninguém.

Dessa vez, ninguém salvou ninguém, mas, algum tempo depois, tudo mudou. Faz agora um ano e dois meses. Após muitas tentativas, a mãe de Tiago conseguiu que o filho fosse acolhido na ART – Associação de Respostas Terapêuticas de Magrelos, a Quinta do Sol, no Marco de Canaveses. Entrou contrariado. Hoje, a conversa é outra. “Foi um grande plano de viragem. Se não tivesse vindo aqui parar, nem sabia o que seria de mim.”

A ART é a primeira resposta do país criada exclusivamente para adolescentes com problemas de uso e abuso de substâncias. Nasceu em 2009, depois do êxito de um projeto-piloto iniciado três anos antes, no polo da Quinta do Horizonte (Paredes de Viadores, Marco de Canaveses).

Os responsáveis começaram por inserir alguns jovens no grupo que já existia. Curiosamente, a comunidade percebeu que também fazia sentido estender a terapia aos jovens. Os adultos, que tinham problemas familiares graves, viam nos mais novos os próprios filhos. Porém, pouco a pouco, a equipa percebeu que os adolescentes tinham características muito próprias e foi necessário tomar opções.

Deste então, a ART só recebe miúdos em risco, dos 14 aos 18 anos. “É a última linha do acolhimento”, explica Diogo Soares, psicólogo na instituição. No ano passado, a associação foi certificada com o selo de Inovação e Empreendedorismo Social pelo IES – Social Business School. O conjunto das três unidades que existem em Portugal (duas no Marco e outra em Castro Verde, no Alentejo) corresponde a 50% da resposta nacional em programa para menores. O número de jovens que regressa à escola e se torna quadro de honra é o coroar de um conjunto sucessivo de vitórias.

Tiago acabou o ano com nota máxima a todas as disciplinas. Há de deixar a ART depois do verão. Quando concluir uma formação em agricultura, iniciada neste ano. O mundo lá fora poderia causar-lhe algum receio. Maiores são os sonhos.

Regresso ao passado. É ele quem faz a viagem, sem lhe pedirem. São sempre abismos de onde às vezes não se sai. “Hoje, sou outra pessoa. Era mentiroso, manipulador. Fazia de tudo para ter o que queria. Era muito agressivo e agora já me controlo. Não queria fazer nada, tudo me era indiferente. Só não queria que me chateassem.” A ART revirou-o do avesso. “Agora já falo com o meu pai e tenho objetivos.”

A comunidade terapêutica é apoiada pelo Ministério da Saúde e também pelo Ministério da Educação. Todos esses jovens têm algo em comum: uso ou consumo aditivo de substâncias. Mas as questões de fundo nunca ficam por aí. “À partida, quase todos os que têm problemas aditivos têm também medidas de promoção, proteção e problemas comportamentais graves. Além disso, há alguns com patologias do foro psicológico e psiquiátrico”, revela Diogo Soares.

Uma comunidade diversificada e heterogénea. Uma microssociedade, que se organiza dentro do próprio espaço. Com a particularidade de serem um grupo misto, de rapazes e de raparigas. “Essa é a novidade. Aqui convivem diariamente, com regras muito definidas de controlo e de respeito mútuo.” Um caminho que culmina na reinserção e do qual a escola, que abandonaram, é parte fundamental. Ficam na casa por um ano e meio, o tempo necessário para realizar as diversas fases do tratamento.

Sara está no início – Sara também não é o seu nome, como acontece com todos os outros jovens que dão a voz nesta reportagem. Entrou na ART há pouco mais de dois meses. “Ainda estou de pé atrás.” Com 15 anos, é a terceira vez que é institucionalizada.

Segundo Sara, os problemas começaram com o nascimento da sobrinha. A situação afastou-a dos pais e fez revoltar-se com a família. Aos 12 anos, os amigos eram tudo. Companhias que a levaram a faltar à escola e a consumir pólen, erva, MD. Todos os dias. “Não respeitava os meus pais e eles começaram a não ter mão em mim.” Foi parar a uma instituição em Vila Real. Ficou lá um ano e dois meses.

Quando voltou a casa, andou três ou quatro meses bem e recaiu. Tinha 14 anos quando tornou a ser institucionalizada, dessa vez na Régua. Aí, foi o descalabro. “Fugi de lá para regressar à mesma vida, até que a minha mãe pediu ajuda para que eu fosse para uma comunidade de reabilitação.” Quando entrou na ART, era ela contra o Mundo. Passados dois meses, diz que ainda não mudou muita coisa.

O número de pedidos de acolhimento que chegam à ART tem vindo a aumentar, principalmente do sexo feminino, segundo os responsáveis da instituição. Nos últimos três anos, as 27 vagas da unidade estiveram sempre 100% preenchidas. Os jovens chegam às três unidades por ordem do Tribunal ou da Comissão de Proteção de Crianças e Jovens. Mas também através das Estruturas da Divisão de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e Dependências e por via particular. Contudo, a maioria é encaminhada por decisão judicial. Vêm de todo o país. Sendo que grande parte já tinha sido institucionalizada antes de ser admitida.

O bom hábito de subir ao quadro de honra
Tiago Pinto é diretor da Quinta do Sol há seis anos, mas já ali trabalha há 12. O responsável garante que todos os dias há novos desafios para a equipa. “A nossa referência é o espírito de missão. Mais do que um ordenado, é percebermos que do outro lado há pessoas que precisam de apoio. Se estivéssemos no lugar deles, também gostaríamos de ter ajuda. Por isso, há uma entrega muito forte.”

Os números falam por si: desde 2009, houve 980 internamentos. “Obviamente ficamos tristes e desiludidos quando há insucesso, mas perceber que os sucessos estão a aumentar faz com que tenhamos um oxigénio muito maior”, sublinha Tiago. Em 2016, em 16 jovens, 11 deles foram quadro de honra na EB 2,3 de Sande. No ano passado, 11 em 19. E, neste ano, dos 16 inscritos na escola, metade atingiu o mesmo patamar.

É possível que, no próximo ano letivo, Kinder também comece a frequentar as aulas. A jovem, de 15 anos, iniciou uma dupla aprendizagem. A que a vai permitir integrar plenamente a sociedade e a que a vai levar a viver em paz consigo mesma. Desde pequena que salta de um lugar para o outro. Aos 11 anos, uma liberdade inesperada tirou-a do caminho que a família queria.

“A minha avó estava junta com um senhor. Ela pedia-me para não sair, ele incentivava-me a fazer o contrário. Eu fazia o que ele dizia, porque era o que eu queria.” Foi mais ou menos a partir daí que as coisas entortaram. “Comecei a fumar, a fazer mais porcaria, como grafitis no meio da rua e nos carros.” A mãe muito ausente – “estava sempre a trabalhar, saía às três da manhã e não tinha folgas”. A tenra vida já sem direção.

“Mandaram-me para Espanha morar com o meu pai. As coisas correram bem durante um tempo. Não faltava às aulas.” Contudo, passado alguns meses, “as parvoíces” voltaram. Bebia, fumava e foi recambiada para Portugal.

Tinha noção de que precisava de ajuda, mas não queria. “Era só para não ir para um sítio pior, em regime fechado.” Além dos consumos, a jovem passava ainda por problemas de autoestima. “Quando cheguei, tinha alopecia, que causa muitas falhas no cabelo. Parecia um pintainho. Andava sempre de ‘cap’ e nunca o queria tirar. Mas o doutor Diogo ajudou-me e comecei a sentir-me mais livre e melhor.”

A questão da identidade sexual também deixou de ser um bicho-de-sete-cabeças. “Gosto de ser tratada por Kinder porque esse nome não tem género. Nunca soube bem o que era a identidade sexual. Sei que sinto atração por mulheres, mas não me sinto homossexual. Sinto que sou um homem. Não é por eu achar que o meu corpo é feio. É porque, quando eu me olho ao espelho, sei que me sentia melhor se fosse do outro sexo, são coisas que não dão para explicar.”

Ainda que esse seja um ponto importante a ser trabalhado, de momento, prefere focar-se noutros aspetos.

De acordo com o último “Relatório Anual sobre a Situação do País em Matéria de Drogas e Toxicodependências”, divulgado neste ano, o número de toxicodependentes em tratamento está a crescer. Em 2016, estiveram em tratamento 27 834 utentes, o que representa um aumento de 841 doentes em relação ao ano anterior, invertendo a tendência de diminuição registada desde 2010. Na ART, essa subida também foi sentida. Os 313 miúdos admitidos em 2014 passaram para 576 em 2016. Sendo que cresceram também os pedidos de internamento femininos.

A institucionalização continua a ter o objetivo de os ajudar, tentando protegê-los das situações de conflito, degradantes e violentas, proporcionando um contexto de equilíbrio, que promova o desenvolvimento integral. Para isso, conta muito quem os orienta, no melhor e no pior dos dias.

Na ART, há educadores que são criminólogos, e que compreendem as razões de muitos terem chegado ao ponto onde estão ou estiveram. Mestres de kickboxing, que levam os jovens a perceberem que a força, a energia, a raiva, a agressividade e a impulsividade podem ser transformadas num jogo com hora de começar e de acabar. Monitores que vêm das Forças Armadas e que fazem com que muitos jovens, que não tinham projetos de vida, tenham enfim objetivos. E monitores que já passaram por estes mesmos tratamentos há duas décadas.

Pavlo Stepanov, 37 anos, é o melhor exemplo. Monitor na associação há quase quatro anos. “A minha vida começou com os problemas que os jovens daqui têm: comportamentos de risco, consumo de estupefacientes e tudo o que isso trazia.” Até que ficou agarrado às drogas pesadas.

Quando a mãe chegou a casa com um visto para Portugal e a possibilidade de uma reabilitação, Pavlo nem sabia onde o país ficava, mas aceitou. Uma vez cá, após várias intervenções e recaídas, acabou por perceber que não se podia afastar muito das casas onde lhe era estendida a mão. Foi assim que ficou a trabalhar como monitor numa comunidade terapêutica, em Torres Vedras. Endireitou a vida. Casou e foi parar ao norte do país.

Tornou-se profissional de kickboxing. Foi o treinador que o levou à ART. “O Luís Rasquinho, que sabia mais ou menos a minha história, telefonou-me e disse: ‘Estou a trabalhar numa instituição e acho que devias vir cá.’” Mal viu a casa, sentiu logo que era um ambiente familiar. “A estrutura destes centros é sempre muito parecida. Mas havia uma diferença em relação às que eu conhecia, aqui eram só jovens. Isso fez-me sentido.” Rebobinou a vida, lembrou-se do passado complicado e pensou: “É isto, vai ser esta a missão.”

Trabalhar com os miúdos, ensinar-lhes a usar no kickboxing o sexto sentido, que só quem passa por estes problemas tem, é o “vício bom” de Pavlo. Ele sabe, e os miúdos também, que sair da casa é a parte mais complicada.

Contudo, a ligação a quem lhes deu referências é tão grande que os pedidos de ajuda são constantes. Muitos dos que se veem em situações de risco contactam-no. “Às vezes, estou em casa a dormir, ao lado da minha mulher, e toca o telemóvel. Tenho de atender. Não posso ignorar porque sei o quanto a chamada é importante.” Do outro lado, um miúdo está com os amigos que o picam para fumar ganza. “O que é que eu faço?”, pergunta. E responde: “Esse telefonema faz diferença. Na maioria dos casos, basta dizer uma tontice qualquer, só para desviar a atenção dessa vontade.”

A importância das referências e dos objetivos

Quando acabar o tratamento, José, 17 anos, quer completar o secundário para depois poder tirar o curso de Ranger. Objetivo: ir para as operações especiais de Lamego, chegar a furriel, subir até sargento e fazer missões de paz no estrangeiro.

Foi preciso um ano e meio para que o jovem ganhasse referências, coisa que perdeu aos nove anos, quando o pai foi trabalhar para o estrangeiro. “Ele era o meu principal apoio. De um momento para o outro, passou a estar ausente e eu comecei a ser uma criança mais isolada e deprimida.” Piorou quando, aos 12 anos, deixou de fazer desporto, devido a uma operação.

“Tinha de ficar no meu canto para evitar que me aleijasse e sentia-me diferente dos outros”. Chumbou a primeira vez. Os amigos com quem andava eram todos mais velhos. Saía à noite. Estava descontrolado. “Queria afirmar-me de alguma maneira. Comecei a consumir drogas, a beber, a roubar em casa. Mais tarde, a roubar aos vizinhos.” Tudo que desse uns trocos para comprar a dose. Os dias já só tinham um sentido – consumir. Foi então que, quando “já estava no red line”, apareceu a ART.

A serenidade com que desfia as lembranças denota que já deu muitos passos em direção ao sucesso. De inseguro e tímido a destemido. “Agora, quando surge uma oportunidade, agarro-a, sigo em frente. Mesmo que às vezes possa não ter tanto jeito. Vou sem medo e dou sempre o meu melhor.” Enquanto trabalha a força interior escreve um livro sobre a sua história. E fez uma jura de fidelidade. “Pratico kickboxing, uma modalidade que descobri cá dentro. E quero continuar. O desporto foi muito importante na minha reabilitação e vai acompanhar-me sempre.”

No ginásio, agarra o haltere com a mesma força de quem não quer voltar a deixar escapar a vida. Na camisola, duas frases são como um lema de guerra: “Everything can change. Nothing is forever”. Tudo pode mudar. Nada é para sempre. Nem mesmo os pesadelos.

 

Guia Prático para as Famílias – Pré-escolar, Infância e Adolescência: Estratégias de Prevenção do Consumo de Substâncias Psicoativas Lícitas e Ilícitas

Agosto 28, 2018 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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descarregar o guia no link:

http://www.iasaude.pt/ucad/attachments/article/382/GUIA%202.pdf

Estudo indica que 85% dos jovens entre 14 e 24 anos já consumiram álcool

Agosto 3, 2018 às 12:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia de Expresso de 23 de julho de 2018.

Existe, em Portugal, um “consumo de álcool muito superior ao que é registado em tudo quanto está publicado”, inclusive em termos internacionais

Um estudo do Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde (CINTESIS), envolvendo 746 jovens do Norte dos 14 aos 24 anos, revela que 85% já consumiu álcool e que 15% bebe mais de uma vez por semana. Os resultados deste estudo mostram igualmente que 17% dos jovens já usaram drogas pelo menos uma vez e que um em cada dez as consome regularmente, hábito que iniciaram, em média, aos 16 anos, informou hoje o centro de investigação.

Dirigido pelo investigador Paulo Santos e publicado agora na revista científica Journal of International Medical Research, o trabalho revela que aproximadamente 15% dos jovens bebem álcool mais de uma vez por semana, 58% já fumaram, 17% são fumadores regulares e mais de 10% admitem consumir substâncias ilícitas semanalmente.

O também médico de família frisou que existe, em Portugal, um “consumo de álcool muito superior ao que é registado em tudo quanto está publicado”, inclusive em termos internacionais.
Dentro dessas drogas ilícitas, os canabinóides ocupam o primeiro lugar, seguindo-se as drogas adquiridas nas “smartshops”, que foram entretanto consideradas ilegais.

“Encontrámos uma elevada prevalência de consumo de substâncias aditivas, em particular de álcool, entre os jovens e adolescentes, existindo claramente uma atitude cultural que influencia esse consumo e que deve ser abordada”, explicou o investigador e médico de família, referido na nota informativa.

Outra das conclusões indica que os jovens tinham em média 14 anos apenas quando beberam álcool e fumaram pela primeira vez, tendo a iniciação nas drogas acontecido aos 16 anos. De acordo com o investigador, neste trabalho, o consumo de drogas aparece associado ao consumo prévio de álcool e de tabaco, “reforçando a ideia de que o consumo de substâncias legais pode levar ao consumo de substâncias ilegais”.

“Tudo indica que existe uma progressão no uso de drogas, isto é, uma escada de adição em que o uso de uma droga se associa um maior risco de consumir outras drogas ao longo da vida”, salientou.

É através do álcool, continuou Paulo Santos, “que se dá a entrada nas drogas, é por aí que se faz a escalada, porque é a substância que aparece mais precocemente na vida dos jovens, dos consumidores”. Segundo o CINTESIS, apesar de o consumo de álcool e de tabaco serem semelhantes entre os jovens que frequentam e os que não frequentam a escola, verificou-se que o uso de substâncias ilícitas é menos comum entre os que continuam a estudar e que ao desemprego associa-se com um maior consumo de drogas entre os mais novos.

A equipa de investigação observou também, através da perceção dos jovens sobre a sua própria saúde, que os sintomas psicológicos são mais frequentes entre os fumadores e os que consomem drogas. Estes sintomas, que afetam 55% dos jovens, sobretudo do sexo feminino, incluem tristeza, problemas de sono, ansiedade, raiva e medo pelo menos uma vez por semana, faltando saber se os mesmos “são causa ou consequência do consumo”.

O trabalho assinala ainda que as principais fontes de informação dos jovens sobre consumo de substâncias são os membros da família e os amigos, não aparecendo os médicos de família como uma escolha. Embora sejam recomendadas consultas aos 10-13 anos, aos 15 anos e aos 18 anos, os resultados demonstra que “os jovens não olham para os profissionais de saúde como parceiros”, o que se pode explicar, por exemplo, pela dificuldade em entender este tipo de consumo como um problema de saúde ou até como um comportamento de risco, notou Paulo Santos.

Como medidas para contornar os números apresentados, o investigador aponta a promoção da literacia, de forma a transmitir conhecimento e aptidões aos cidadãos, “capacitando-os para que percebam o que é bom e o que é mau”. Além disso, acredita que se deve apostar no “efeito educativo e persuasor” que a regulação pode ter, nomeadamente no que se refere à taxação fiscal, “que resultou muito bem com o tabaco”, acrescentou.

Este estudo foi apoiado pela Câmara Municipal de Paredes, tendo contado com a colaboração dos investigadores Carlos Franclim Silva, do CINTESIS, e Paula Rocha, da Universidade de Aveiro.

O estudo citado na notícia é o seguinte:

Consumption of licit and illicit substances in Portuguese young people: a population-based cross-sectional study

 

“Os jovens não têm noção de mortalidade. Ninguém pensa que vai morrer aos 13 ou 14 anos”

Julho 11, 2018 às 6:00 am | Publicado em Livros | Deixe um comentário
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Consumir drogas e perder a virgindade aos 12 anos é uma realidade em Portugal. Quem é o afirma é Francisco Salgueiro, que traça um retrato da adolescência em pleno século XXI. O escritor, autor de vários livros dedicados ao tema, lançou em junho “Sexo, Drogas e Selfies”, e revelou ao Expresso uma realidade que leva muitos jovens a arriscarem a vida para serem populares no grupo de amigos.

Francisco Salgueiro é autor de vários livros sobre um dos períodos mais complexos e exigentes na vida de pais e filhos: a adolescência. Em 2010 publicou o primeiro livro dedicado ao tema “O Fim da Inocência – Diário Secreto de Uma Adolescente Portuguesa” e três anos mais tarde repetia a dose com o 2.º volume – “O Fim da Inocência – Diário Secreto de Um Adolescente Português”. Este mês lançou “SDS – Sexo, Drogas e Selfies”. Uma visão crua sobre uma realidade que muitos pais continuam a ignorar.

O que é que o levou a escrever um terceiro livro sobre os adolescentes portugueses?
Os pais ainda não acreditam que esta é uma realidade e que acontece aos seus filhos. Continuo a ter muitos pais que me dizem: “também na nossa altura uns fumavam erva, outros cheiravam cocaína e apanhávamos bebedeiras de coma alcoólico”. Não percebem que há muito mais a acontecer. As crianças estão a começar cada vez mais cedo nas drogas, álcool e sexo. Há um mundo diferente que os pais têm de perceber. Os mais novos, de 12 anos, tentam imitar os mais velhos, de 14 e 15 anos.

Este livro é um alerta para os pais?
Sim. Quis passar a mensagem de que na realidade destes jovens não há afetos genuínos, há pessoas descartáveis, pessoas utilizadas pelos seus corpos, relacionamentos de amizade que não o são. Estes miúdos não estão atentos ao que se passa à volta deles e gostam em massa dos mesmos temas sem sequer os discutirem.

Como é que surgiu a necessidade de partilhar estas mensagens?
Sou uma esponja de inspiração, tudo aquilo que posso absorver à minha volta vou absorvendo e há uma altura em que tenho necessidade de partilhar o que andei a recolher. O SDS junta centenas de histórias desde o “Fim da Inocência”. Nos dois primeiros livros, as histórias que contava passavam-se aos 14 anos e os editores da Leya diziam “como é que é possível ser tão cedo? Se calhar temos que indicar outra idade”. Eu dizia-lhes que não, que tínhamos de ser sinceros. Ficaram boquiabertos com as histórias que conto neste livro e que envolvem jovens de 12 anos.

Qual a principal diferença entre este livro e os anteriores?
É a idade, tudo se inicia mais cedo. As selfies, por exemplo, vieram tornar as relações descartáveis. Ter uma conversa pouco importa se tirarmos uma selfie e parecermos muito contentes. Há uma falta de auto-estima muito grande e o ‘fear of missing out’ – o medo de perder alguma coisa. Os jovens vivem na era dos ‘likes’, precisam de fazer algo para serem validados, para terem aprovação social. Os pais não estão lá a dizer “não precisas da aprovação social porque eu estou aqui, eu valido-te, eu gosto de ti”.

Este livro retrata a sociedade ou apenas um estereótipo?
Não posso generalizar que todas as pessoas sejam assim. Mas dei muitas palestras de norte a sul do país e percebi que esta realidade existe de facto, porque há uma coisa comum a todos estes jovens: a internet.

A internet é o pólo agregador dos comportamentos de risco atuais. É lá que os miúdos vêem pornografia desde muito cedo, os ‘youtubers’, que podem comprar droga, é lá que tudo se passa…

Os jovens têm consciência do que estão a fazer?
Muitos miúdos afirmam ter tomado “um comprimido qualquer” que lhes ofereceram e eu pergunto-lhes: “então mas o que é que continha o comprimido? Perguntaram? Fizeram um teste? (existem muitas carrinhas que fazem esse tipo de testes)”. Respondem-me: “não me interessa, era uma coisa qualquer e eu tomei porque achei graça”. Existe a cultura do YOLO – you only live once (só vives uma vez). Não há noção de mortalidade, ninguém pensa que vai morrer aos 13 ou 14 anos. Portanto, é um comprimido que pode ter sido feito numa garagem na China e que ninguém faz a mínima ideia do que contém, e para os miúdos é totalmente indiferente tomar este ou outro qualquer.

São os protagonistas das suas histórias que o procuram?
No primeiro livro, foi a Inês que veio ter comigo e que se expôs, contando-me uma série de histórias, nas quais não acreditei desde logo. Encontrei-me com ela, mais tarde, e com o seu grupo de amigos no Bairro Alto e apercebi-me que o que ela contara não era assim tão descabido. Assisti a algumas das histórias relatadas, e se eu que saio à noite não conhecia aquela realidade, como é que os pais haveriam de conhecer? No “Sexo, Drogas e Selfies (SDS)” peguei em histórias de várias pessoas. De repente passei a ser o repositório das histórias que todas as raparigas me queriam escrever e contar porque não têm coragem para falar com os pais.

Há pais que o abordam ou pedem para falar consigo?
Há casos em que vieram falar comigo para me contar uma história que aconteceu, mas geralmente são poucos. Muitos dizem-me que têm medo de ler os meus livros e são eles quem mais precisa de os ler. Alguns acham que por os filhos não saírem à noite estão protegidos mas na verdade não estão. Basta terem um computador em casa, com ligação à internet, e fecharem-se no quarto.

Antigamente era preciso ir para a rua, agora bastam estes comportamentos dentro de casa. Os próprios pais cometem erros nas redes sociais, pelo que tem de haver um crescimento coletivo. Não se pode recorrer ao argumento “eu sou mais velho, sei mais coisas que tu”, até porque provavelmente isso não é verdade, os miúdos sabem muito mais das redes sociais.

Como é que um escritor se transforma (quase) num psicólogo de adolescentes?
Não é fácil. Tento não o ser. Há dois tipos de emails que eu recebo: o mail de exposição, de quem quer falar, desabafar, sem procurar mais. Depois há outras pessoas que querem procurar e precisam, porque não sabem o que fazer à sua vida. Eu não sou psicólogo, mas como já me cruzei com muitas destas histórias procuro dar-lhes força, agir com bom-senso, tentando alertar para os comportamentos de risco.

Como foi sair à noite com estes miúdos e perceber o que se passava?
Depois de terem tomado comprimidos, aconteceu estarem ao telemóvel comigo e dizerem-me “vou-me atirar da janela abaixo, porque é lindo, vou voar”. Como na história do comboio (partilhada no SDS), em que tirar uma selfie para se ser popular é uma prioridade, mesmo quando se está completamente bêbedo (ou quando se ingeriu qualquer coisa), colocando a vida em risco. Os jovens não ganham consciência, procuram cada vez mais imitar os mais velhos. O pensamento é este: “Se os mais velhos cheiram cocaína, eu com 13 anos também quero experimentar, se não lhes acontece nada de especial, porque é que me há-de acontecer a mim?”

A história em que me inspirei para a parte final do livro chocou-me muito, foi-me contada pela irmã da pessoa que passou pelo problema. Foi a que mais me chocou até hoje. Estamos a chegar ao limite, para lá daquilo não há mais nada.

O que falta na relação entre pais e filhos?
Muitas vezes os pais chegam cansados do trabalho e a última coisa que lhes apetece é dar atenção aos filhos e falar com eles. O “Fim da Inocência” trouxe à tona o interesse da comunicação social por estes temas que surgem muitas vezes nas primeiras páginas. Não há desculpa para que os pais não estejam alerta.

Como é que os pais conseguem falar com os filhos sem estes acharem as conversas uma “seca”?
Este tipo de livros e artigos da Comunicação Social podem ser tema de conversa. Tem de haver um espaço dinâmico e de troca de ideias, e não de moralismos. É a pior coisa. Os jovens falam muito comigo porque não sou moralista e tenho um espírito muito aberto. Se um filho diz aos pais “já experimentei”, não o podem colocar de castigo, e têm de desconstruir o problema para que o filho não volte a consumir. Se os pais optam por colocar os filhos de castigo, eles voltam a repetir, porque o fruto proibido é o mais apetecido.

 

Entrevista publicada no jornal Expresso em 2 de julho de 2018

Adolescência. 3 histórias chocantes de sexo, violência e selfies

Junho 20, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do site MAGG de 11de junho de 2018.

por MARTA GONÇALVES MIRANDA

Depois de “O Fim da Inocência”, Francisco Salgueiro recebeu centenas de relatos de jovens. O resultado é “S.D.S. — Sexo, Drogas e Selfies”.

Sexo, drogas, álcool. Noites levadas ao limite, partilhas incessantes nas redes sociais, bebedeiras que quase terminam em coma alcoólico. Foi em 2010 que Francisco Salgueiro publicou o livro “O Fim da Inocência“, inspirado na história real de uma adolescente portuguesa.

Inês tem uma vida aparentemente perfeita, frequenta um dos melhores colégios nos arredores de Lisboa e relaciona-se com filhos de embaixadores e presidentes de grandes empresas. Mas é também consumidora regular de drogas, participa em jogos sexuais arriscados e utiliza desregradamente a internet.

“Antes de terminar ‘O Fim da Inocência’, perguntava a toda a gente se alguém conhecia histórias de outros adolescentes e ninguém conhecia. Era uma espécie de tabu”, conta à MAGG Francisco Salgueiro, 45 anos. “Quando o livro é publicado, começo a receber imensas histórias.”

“O Fim da Inocência” foi um enorme sucesso — em vendas, é verdade (já vai na 13.ª edição), mas também no despertar de uma consciência adormecida. Os pais não faziam a menor ideia do que os filhos andavam a fazer, a comunicação social não abordava estes temas. Depois do livro, e ainda mais depois da adaptação ao cinema (“O Fim da Inocência” foi o filme mais visto em 2017), tudo isso mudou.

“Quando escrevi ‘O Fim da Inocência’ achava que aquela era a geração que mais riscos estava a correr. Agora vejo claramente que é esta.”

Oito anos depois, ainda é raro o dia em que Francisco Salgueiro não recebe pelo menos um email de um adolescente a narrar-lhe alguma coisa. Foi por isso que surgiu a ideia de publicar “S.D.S. — Sexo, Drogas e Selfies“, que reúne várias histórias reais que lhe foram enviadas. São relatos novos e verídicos que mostram o que os jovens do século XXI fazem no seu dia a dia, em particular à noite.

E mudou assim tanta coisa desde Inês? Sim. E está pior? Sem dúvida. “Quando escrevi ‘O Fim da Inocência’ achava que aquela era a geração que mais riscos estava a correr. Agora vejo claramente que é esta.”

Por um lado, culpa das suas próprias profissões e estilos de vida, os pais acabam por estar mais desligados. Por outro, os miúdos vivem a cultura do YOLO (You Only Live Once — só vivemos uma vez) e do FOMO (Fear of Missing Out — medo de estarem a perder alguma coisa).

“Para nós pode não parecer muito tempo, mas para os adolescentes oito anos é de facto muito tempo em termos de novidades do que eles fazem no seu dia a dia. Há coisas que eles fazem hoje em dia que não passa pela cabeça dos pais ou das pessoas mais velhas.”

A MAGG pediu a Francisco Salgueiro que escolhesse excertos das histórias que mais o chocaram. Uma rapariga apanhada pelo segurança da discoteca a fazer sexo oral na casa de banho, e a ser filmada por amigos e desconhecidos. Uma jovem que reflete sobre um grupo de amigos que só interage via redes sociais (mesmo quando estão na mesma sala). Uma saída à noite que termina com uma agressão verbal — e física. Três histórias chocantes de “S.D.S. — Sexo, Drogas e Selfies”.

Atenção: as histórias que se seguem contêm cenas e linguagem sexualmente explícitas que podem ser consideradas inadequadas e ofender.

Ler as histórias no link:

https://magg.pt/2018/06/11/adolescencia-3-historias-chocantes-de-sexo-violencia-e-selfies/

 

Programa vai ajudar a reforçar laços entre pais e filhos para prevenir comportamentos aditivos no futuro

Maio 30, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Apostar na prevenção de comportamentos aditivos a médio prazo, em crianças dos 6 aos 14 anos, através da envolvência da família é o principal objectivo do programa “prevenir em família e comunidade” que deverá estar no terreno em 2019. Ontem, durante uma reunião entre as várias entidades parceiras do projecto que já foi aplicado nas Ilhas Baleares, em Espanha, a Directora Regional de Prevenção e Combate às Dependências, Suzete Frias, explicou que o mesmo vai ser aplicado inicialmente em territórios mais vulneráveis da ilha de São Miguel, Terceira, Pico e Graciosa. Rabo de Peixe é para já a única comunidade onde se sabe que o projecto vai avançar, uma vez que ali está já implementado o “Trajecto Seguro”, na escola Luísa Constantino, com uma metodologia semelhante de ligação da comunidade à família e da família à escola. A seguir a Rabo de Peixe, serão os resultados do estudo de comportamentos aditivos e comportamentos que está a ser feito prelo Governo Regional a indicar qual a localidade onde se justifica uma intervenção com o projecto.

Um projecto que se baseia na prevenção, através da formação para pais e para crianças onde a novidade são as sessões de interacção entre ambos. “Mais do que criar competências parentais, promove a vinculação da criança aos pais, dos pais à criança, a empatia, saber escutar, é a promoção dos factores protectores em relação a comportamentos de risco. Os estudos mostram que quanto mais vinculação, mais sentimento de pertença temos a nós próprios e ao mundo que nos rodeia, mais protegidos estamos em relação a comportamentos de risco, entre os quais os aditivos”, explica Suzete Frias.

O projecto, que ainda está em fase de organização, está a ser estruturado para famílias “que necessitam de prevenção selectiva, onde são detectados alguns sinais de que poderá haver problemas” no futuro e pretende numa fase posterior “criar um módulo mais pequeno de prevenção universal, porque é importante que tenhamos uma abordagem universal para todas as crianças e pais”.

Um trabalho em rede, tal como o que já vem sendo desenvolvido desde 2004 nas Ilhas Baleares e em 14 grandes cidades espanholas.

Luís Ballester Brage, professor da faculdade de Métodos de Investigação em Educação da Universidade das Ilhas Baleares, deu conta de alguns resultados “muito bons” em determinados parâmetros. O programa decorre em 14 sessões, durante quase 4 meses em que “com trabalho muito intenso” se trabalha com pais e filhos individualmente e posteriormente juntos para que se criem os tais laços de pertença e se melhore a comunicação. “Os resultados são muito importantes em termos de coesão familiar, resiliência familiar, coesão interna na família, controlo da dinâmica das relações familiares e noutros factores associados”, explica Luís Ballester Brage que reforça que “melhorou-se muito as atitudes positivas em respeito às drogas e aos consumos, com resultados consistentes”. O que a longo prazo, “influencia o consumo, ou seja, o consumo baixa e controla-se. A conduta de pequena delinquência e os comportamentos disruptivos também baixam”, explica.

A avaliação que o responsável pela Universidade das Ilhas Baleares faz deste projecto é bastante positiva já que o trabalho em conjunto permite que os filhos percebam “que os pais se preocupam porque durante quatro meses, os pais vêm todas as semanas para falar e comunicar com eles e isso é positivo. Temos miúdos que dizem que não sabiam que os pais se preocupavam

e que se interessavam em melhorar em família. Descobrem que há um projecto de família, que podem dizer coisas à família, confiar que a família pode ajudar”. E está dado o passo da confiança, pois “se aprendem a pedir ajuda, outros assuntos como o bullying, problemas de isolamento, depressão, como aprendem a falar sobre isso e ganham confiança com os pais e irmãos, também a ganham com os professores e com os colegas. Aprendem a comunicar melhor” e a pedir ajuda quando o caso assim o justifica.

Presente na reunião esteve também Jorge Negreiros, da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto, que pretende também adoptar este projecto, bem como a responsável do departamento de psicologia da Universidade dos Açores, Célia Carvalho.

 

Escrito por Carla Dias para o Correio dos Açores, em 17 de maio de 2018

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