Aumentam as multas por venda de álcool a menores

Maio 15, 2018 às 9:00 am | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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Gerardo Santos / Global Imagens

Notícia do Jornal de Notícias de 10 de maio de 2018.

Aumentam as multas por venda de álcool a menores

ASAE cobrou 1,3 milhões de euros em coimas desde 2016

Dependência Contraordenações em 2017 são quase o dobro do ano anterior. Sinalização de jovens diminuiu

Helena Teixeira da Silva

A Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE) cobrou mais de um milhão de euros nos últimos dois anos e meio a estabelecimentos que violaram a lei de venda de bebidas alcoólicas a menores de idade.

Este valor, que tem registado um aumento progressivo, resulta de 1737 processos instaurados por contraordenação desde 2016. “Tendo em consideração os processos concluídos e as decisões proferidas, foi determinada a aplicação de coimas num valor que corresponde a 390 mil euros em 2016, 637 mil euros em 2017 e 291 mil euros relativos a processos decididos já em 2018”, informou fonte da ASAE ao JN.

O valor das contraordenações oscila entre 500 euros e 3740 euros, no caso de o infrator que facilitou a venda e o consumo ser uma pessoa singular. E entre 2500 euros e 30 mil euros, no caso de o infrator ser uma pessoa coletiva. Acresce que, no caso de a infração estar ancorada na ausência de aviso visível dando conta da proibição da venda, a contraordenação pode variar entre 500 e 1500 euros (pessoa singular) ou 1500 e 5500 euros (pessoa coletiva). Desse montante, 60% reverte para o Estado, 25% para a própria ASAE e 15% para a entidade fiscalizadora.

A legislação foi alterada em abril de 2015 (Decreto-Lei nº 106/2015), uniformizando a proibição da venda de todas as bebidas alcoólicas para jovens menores de 18 anos. No âmbito das competências de fiscalização relativamente a essa restrição ao consumo, a ASAE instaurou 167 processos de contraordenação em 2016, número de processos que aumentou em 2017 para 211. Já este ano, foram instaurados 27 processos.

As principais infrações detetadas foram “facultar, vender ou colocar à disposição bebidas alcoólicas em locais públicos, a menores e a falta de afixação de aviso de forma visível com a menção de proibição”.

Menos sinalizados em 2017

Três anos após a alteração à lei do álcool, os dados do Relatório de Avaliação da Comissão Nacional de Promoção dos Direitos das Crianças (CPCI) são, pela primeira vez, positivos. Em 2017, as situações sinalizadas de jovens em risco desceram de 185 para 164. Contudo, no grupo etário entre os 15 e os 18 anos, que é o mais representativo, houve uma ligeira subida (de 121 para 123). Entre os 11 e os 14 anos, verificou-se uma descida acentuada (de 46 para 30).

Manuel Cardoso, subdiretor-geral do Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e Dependências (SICAD), confirma que as metas resultantes da alteração da lei estão a ser atingidas. “Os jovens que dizem que é ‘fácil’ ou ‘muito fácil’ encontrar bebidas alcoólicas reduziu. E a idade de início do consumo aumentou”. O cenário estará estabilizado mas, alerta, “continua fixado em níveis muito elevados, sobretudo entre as raparigas, que são cada vez mais um foco de preocupação”.

O responsável lamenta que a sociedade ignore os malefícios do álcool. “Há uma complacência enorme para o consumo excessivo. E um grande desconhecimento das patologias agudas que provoca, mas sobretudo das doenças crónicas.” Basta pensar, diz, “que hoje encontramos cada vez pessoas mais jovens com cirrose hepática, que não há muito tempo era uma doença diagnosticada apenas em pessoas com mais de 50 anos”.

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Adolescentes: chegou a altura de os deixar sair à noite (mas com regras…)

Dezembro 13, 2017 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do https://www.noticiasmagazine.pt/ de 2 de novembro de 2017.

Agressões, álcool, drogas, acidentes, sexo, sexo desprotegido… Os medos dos pais com as saídas dos filhos à noite é tão natural como o desejo de autonomia dos mais novos. A solução para os deixar crescer sem estar sempre de coração nas mãos passa por três pilares: diálogo, negociação e regras.

Leia também: Os seus filhos querem sair à noite? 5 conselhos práticos

Guilherme tem 17 anos e começou a sair à noite neste ano, depois de muito desafiado pelos amigos. A irmã, Margarida, com 14, já sai e adorava sair mais. «Ele não gosta de confusão, prefere ir a um bar, conversar com os amigos e jogar snooker», diz a mãe. «Ela é afoita e aventureira. Adora dançar.»

Com o Guilherme, as horas de chegada são negociadas caso a caso – chegou uma vez às seis da manhã, no aniversário da prima. Com a irmã as coisas ainda são diferentes. «Não sai à noite sem o irmão e vamos buscá-la sempre à meia-noite. Ainda não é negociável.

Mas às vezes vai dormir a casa das amigas ou elas vêm dormir cá a casa. Assim eu também as vou conhecendo e às famílias.» A diferença nas regras não se deve ao género. Deve-se, sustenta Joana Miranda, 36 anos, à diferença de idades e respetiva maturidade. Não há pediatra ou psicólogo que não diga o mesmo: sair ou não sair não tem que ver só com a idade, mas com a responsabilidade e a preparação de cada adolescente.

Os filhos reivindicam autonomia, os pais percebem até que ponto eles estão preparados para a ter. Sempre foi assim, sempre será. Uma avaliação que o psicólogo Vítor Rodrigues defende que só é possível «cultivando um relacionamento próximo e de respeito mútuo», no qual é essencial os pais enfrentarem os seus próprios receios e irem dando autonomia aos filhos. O especialista garante que muitos dos medos dos pais nascem do facto de eles se projetarem nos filhos. «Receiam, no fundo, que os filhos façam igual ou pior do eles mesmos fizeram. Isso é normal, mas não deve ser um entrave à autonomia.»

Em casa de Joana Miranda, as experiências dos pais, em vez de serem parte do problema, são parte da solução. Fala-se de tudo abertamente e o tema «saídas» foi sendo preparado ao longo dos anos. Ela e o marido, David Soalhães, contam com frequência as próprias peripécias nas saídas noturnas quando eram mais novos e perguntam aos filhos como reagiriam se fosse com eles.

Muitos dos exemplos que contam e perguntas que fazem estão relacionados com uma regra de ouro: evitar confrontos com pessoas alcoolizadas ou que procuram problemas. «Nunca sabemos quem está do outro lado e não vale a pena armarmo-nos em heróis», diz Joana. «Uma vez, numa noite, quando era adolescente, fui abordada na casa de banho por um grupo de raparigas que queriam arranjar confusão. Fiz por fugir dali o mais rapidamente possível. Perguntei aos meus filhos o que fariam no meu lugar. O Guilherme disse que tentaria fugir ou avisar alguém cá fora. A Margarida disse que não saberia o que fazer.»

A questão das drogas nas bebidas, que também preocupa hoje muitos pais, foi outra das que foram abordadas: o mais velho disse que se devia andar com a bebida sempre atrás, a mais nova não sabia que tal coisa existia. Razões, entre outras, para a mãe perceber que com Joana ainda tem de haver muita prudência, com Guilherme pode estar mais descansada.

Esta aproximação de experiências e pais que definem regras mas não proíbem é uma tendência. «As gerações que têm filhos adolescentes são mais flexíveis do que as anteriores. Intuem mais facilmente que regras e prisão são coisas diferentes», diz o psicoterapeuta Nuno C. Sousa. «É frequente que sejam os próprios pais a começar a levar os filhos a saídas noturnas. É uma aproximação de gerações muito construtiva, desde que não se percam os papéis na relação.» Até porque, como lembra, um objetivo pode ser alcançado por vários caminhos. «Se os pais pretendem incutir responsabilidade, será mais fácil através de uma relação de cumplicidade, porque os filhos sentirão uma verdadeira preocupação e não uma imposição de regras para chatear.»

Joana tem uma relação próxima, aberta e de diálogo, mas não deixa que os filhos se esqueçam quem é a mãe lá em casa. Há várias regras e são para ser cumpridas: o álcool não está permitido, as horas de chegada são bem estabelecidas e eles sabem que os pais devem sempre saber onde estão e com quem. Tem tudo corrido bem, mas talvez Joana Miranda tenha uma coisa a seu favor: a formação em coaching, com especialização em educação parental. Claro que isso não a deixa imune a preocupações, mas mais bem preparada para lidar com elas. E a principal preocupação são os excessos.

«O álcool, as drogas e o facto de saber que os adolescentes, quando em grupo, por vezes gostam de se mostrar. Fico preocupada, mas confio neles.» Aquilo que diz para dentro de si mesma é o mesmo que diz aos pais com quem trabalha: «Não se pode pura e simplesmente proibir só porque se sente medo. Faz parte do desenvolvimento deles e proibir é sempre o caminho mais penoso e o que vai gerar maiores confrontos.» Além da confiança nos filhos, a atenuar as preocupações está também está o facto de conhecer os amigos e os pais dos amigos, uma medida que também recomenda a todos os pais.

As preocupações dos pais não estão só nas cabeças deles. Vários estudos – e o senso comum – estabelecem uma associação entre saídas para sítios de diversão noturna e o consumo de tabaco, álcool e drogas. E é por isso que a maturidade dos adolescentes deve ser avaliada. É a única arma que têm para se defender dos riscos que as saídas à noite podem comportar.

A outra parte da história, da qual os pais falam menos, é o sexo. «É natural que na adolescência a ênfase na sexualidade e o despertar do instinto sexual façam recear que os nossos filhos se precipitem em relacionamentos de risco físico e afetivo», diz o psicólogo Vítor Rodrigues. «Os pais sabem que muito disso lhes escapa ao controlo e temem o que é mais difícil de controlar.»

Apesar de tudo, há uma forma de controlo e um tranquilizador que pais de hoje têm ao dispor: o telemóvel. Agora podem telefonar se estiverem preocupados, em vez de ficarem a agonizar no sofá ou a dar voltas na cama. «Apesar de ser um facilitador, não deve ser uma desculpa para estarem constantemente a pedir relatórios do que andam os filhos a fazer», alerta o psicoterapeuta Nuno C. Sousa.

«O segredo está numa negociação prévia equilibrada, que deve ser cumprida por ambas as partes. Determinadas as regras, é extremamente importante que os filhos sintam que há confiança por parte dos pais.» Que é como quem diz: não é para abusar. Se combinou com o adolescente que ele envia um sms às três da manhã, não vale enviar-lhe dois ou três a pedir novidades antes dessa hora, como também não vale ligar-lhe meia hora antes da hora marcada para estar em casa. As regras são para todos.

Para um adolescente, sair à noite ao fim de semana não se resume ao período entre o momento em que sai de casa e o momento em que entra. São as combinações que começam a meio da semana, em que se discutem os sítios onde ir, os amigos que se vão encontrar, as dezenas de mensagem trocadas para saber se o João ou a Catarina também vão lá estar, escolher a roupa para levar, etc. É um ritual – que não tem só problemas, riscos e perigos, também tem benefícios.

«Durante a adolescência a formação da personalidade está intimamente ligada às relações dos jovens com os pares», diz o psicoterapeuta Nuno C. Sousa. «Através do contacto com pessoas diferentes, em contextos diversos, o adolescente vai ganhando consciência do que gosta de fazer, como e com quem. Nas saídas à noite alarga-se a rede de conhecimentos além dos amigos da escola, num contexto em que o tempo de convívio não está limitado pela campainha dos intervalos.»

E depois, mais do que olhar para a questão pela ótica dos riscos e dos benefícios, há que vê-lo como uma inevitabilidade. «Na adolescência estamos a transitar de crianças para adultos e precisamos de desenvolver a nossa identidade. Para isso, temos de sentir e experimentar, não creio que exista outra via», diz o psicólogo Vítor Rodrigues.

Claro que nem sempre isso acontece sem sobressaltos e a tarefa dos pais não é fácil. Ainda assim, a «ditadura benévola» que resulta nas crianças pode ser uma péssima medida, geradora de muita revolta, na adolescência. «A transição para a democracia no lar costuma ser mais útil. Os adolescentes precisam de sentir que têm direito de voto.»

O psicólogo sabe do que fala: tem uma filha adolescente em casa e aquilo que aconselha na teoria é aquilo que também tem feito na prática, um equilíbrio entre respeito e vigilância: «Estar atento, acompanhá-la, combinar horas e lugares de encontro, ir percebendo quais os problemas que pode estar a atravessar e como posso contribuir para que encontre os materiais de que precisa para se autoesculpir.»

COMO AVALIAR O SENTIDO DE RESPONSABILIDADE DOS FILHOS?

  • Estar atento à maturidade que evidenciam a nível afetivo, social, sexual e intelectual.
  • Verificar se manifestam preferência por dizer a verdade, em vez de optarem pela mentira fácil.
  • Perceber se compreendem os riscos envolvidos nas saídas noturnas e avaliar a capacidade que têm para lidar com eles.
  • Não esquecer que todas estas capacidades dos filhos dependem muito do papel dos pais enquanto educadores.
  • Perceber até que ponto assumem responsabilidade pelos seus atos.
  • Avaliar se se mostram capazes de relativizar afetos e acontecimentos.

FONTE: VÍTOR RODRIGUES, PSICOTERAPEUTA

 

 

 

Adolescentes alcoólicos

Novembro 6, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Reportagem do http://expresso.sapo.pt/ de 15 de outubro de 2017.

Catarina Guerreiro

À noite, na zona de Santos, em Lisboa, as ruas enchem-se de adolescentes e copos. Cerveja, vinho, sangria e misturas. Alguns acabam alcoolizados no hospital. É assim de norte a sul do país: todos os meses há miúdos a chegarem às urgências com intoxicações ou comas alcoólicos. Os mais novos não têm ainda 13 anos

No passeio, puseram-se os dez numa roda. Cada um pegou no pequeno copo com líquido escuro, ergueram-nos ao centro, brindaram à mais nova de entre eles e beberam a mistura num gole. Era o ritual de um grupo de primos e aquele estava a ser o batismo de J., de 14 anos. Dentro do copo havia C 24, uma mistura de vodca preto e limoncello. Sempre que um deles completa 14 anos é assim: reúnem-se num bar e iniciam-no no mundo dos shots — dose de bebida alcoólica que se consome num só gole. Eram 00h28 da madrugada do último sábado quando J. engoliu em menos de um segundo o seu primeiro shot. Gritaram o nome dela e incentivaram-na. “Bebe, bebe…”

Estavam no Largo de Santos, em Lisboa, onde à noite se juntam muitos adolescentes. A uns metros de distância, a praceta na Avenida D. Carlos I estava cada vez mais cheia e animada com miúdos, de idades entre os 13 e os 17 anos. Desde as 22h30 que começaram a chegar. Na mão tinham copos de cerveja (uns mais pequenos, outros de meio litro) que compravam nos bares do lado oposto da rua. Alguns seguravam garrafas de vinho e outros ainda garrafas de vidro de um litro de cerveja — “litrosas”, como lhes chamam. Apareceram três miúdas com uma garrafa de plástico, de rótulo cor de laranja e imagens de fruta. “É sangria de vodca branco”, desvendaram. E continuaram: “Comprámos no indiano a caminho daqui.” A maioria tinha 15 e 16 anos e, por isso, estão totalmente proibidos de comprar álcool pela lei. Mas conseguem sempre: ou não lhes pedem identificação ou tratam de contornar o problema. “Arranjamos forma. Nem que seja pedir a um maior de idade que o faça.”

Um grupo de seis rapazes divertia-se a meter-se com as raparigas. Um deles exibia, orgulhoso, o charuto que trouxera de casa. Outro corria sorridente enquanto ia buscar mais uma cerveja a um dos bares, onde a afluência era tanta que parecia difícil chegar ao balcão. Mas conseguiu. E saiu de lá com a sua quinta cerveja. “Já estou a ficar acelerado”, avisava. Uns estavam mais calmos, outros não escondiam que gostam de beber sem limites. “Outro dia, bebi sozinho quase uma garrafa de whisky. Apanhei uma bebedeira e quando cheguei a casa vomitei imenso”, contava um dos miúdos, com ar de ‘menino bem’. Os adolescentes estavam em grupos, espalhados pela praceta. Ouviam-se gargalhadas, gritos. “Vou buscar um vodca”, anunciava alto uma miúda que não parecia ter mais de 15 anos. O amigo, ao lado, com um jarro de vidro de sangria na mão, começava a dar sinais do que já bebera. Cambaleava e, ao tentar pegar no telemóvel de uma amiga, deixou-o cair ao chão. Já passava da meia-noite e meia. O espaço, com bancos de madeira corridos e umas mesas de madeira com cadeiras, estava cada vez mais concorrido. Parecia o recreio de uma escola secundária. Mas em vez de ser de dia, era de noite; e em vez de livros, traziam nas mãos copos com bebidas alcoólicas. Alguns fumavam. Ali não havia restrições. “Às vezes, há uns que abusam muito e acabam a noite no chão”, descrevia A, de 16 anos, que, apontando para a berma da estrada, onde alguns se encontravam sentados, explicava: “Já vi aqui alguns em coma alcoólico.”

O número de adolescentes com excesso de consumo de álcool que dão entrada no Hospital Dona Estefânia, para onde são enviadas as crianças apanhadas naquela zona, confirmam o cenário: todos os meses entram pela porta da urgência pediátrica, pelo menos, cinco adolescentes com intoxicações alcoólicas agudas e alguns em coma alcoólico. Em 2016, o hospital registou 65 casos, e nos dois anos anteriores mais 132 (60 em 2015 e 72 em 2014). A maioria tinha 15 anos, mas dois deles eram crianças de 11 anos. E 39% tinham mais de 2 gramas de álcool por litro de sangue (g/l). O caso mais grave foi o de um adolescente que registou 3,84 g/l e que esteve em coma alcoólico. Há situações ocasionais, mas outras são mais preocupantes e têm de ser seguidas de perto, explica a pedopsiquiatra Neide Urbano, do Hospital Dona Estefânia, a médica que fez o levantamento sobre as ocorrências com esta substância, tema a que se tem dedicado. “O álcool atinge o sistema nervoso central e, em miúdos vulneráveis do ponto de vista da saúde mental, potencia comportamentos como a agressividade, a automutilação, a depressão e às vezes é o gatilho para quem tem tendências suicidas”, garante a médica.

Doze anos, 1,56 gramas de álcool

O fenómeno repete-se por todo o país. Na urgência pediátrica do Hospital de São João, no Porto, entre 2011 e 2015 deram entrada 346 adolescentes com álcool a mais. “E 8% tinham antecedentes de consumo”, nota o diretor da urgência, Luís Almeida Santos, para quem a situação “é muito preocupante”. “Estamos a falar de crianças bêbadas”, alerta, explicando que nesta análise verificou-se que os adolescentes de 12 anos que deram entrada na urgência tinham em média 1,56 g/l de álcool no sangue. Já a média dos de 13 anos foi de 1,46 g/l; a dos miúdos com 14 anos situou-se em 1,79 g/l; a dos de 15 ficou pelos 1,64 g/l; a dos 16 anos atingiu os 1,65 g/l; e a dos de 17 anos posicionou-se nos 1,68 g/l. Valores muito elevados, avisam os médicos. Basta ver que os condutores com menos de três anos de carta são multados quando têm mais de 0,2 g/l e todos os outros a partir de 0,50 g/l. E quem revelar 1,2 g/l é acusado de um crime.

“Houve miúdos que chegaram com taxas entre os 0,5 e os 3,8 g/l de álcool”, recorda o diretor da urgência, acrescentando que 40% foram situações com alguma ou muita gravidade, “com alterações do estado de consciência e sujeitos a exame neurológico”. Almeida Santos está agora a analisar os processos clínicos do ano passado para concluir as estatísticas de 2016. Mas o fenómeno não parece estar a diminuir. Aliás, 2015 foi o ano em que o São João registou mais casos: 87 num ano. Ou seja, todos os meses, sete ou mais adolescentes deram entrada alcoolizados.

O mesmo se passa no Centro Hospitalar Vila Nova de Gaia/Espinho, onde em 2016 apareceram “20 adolescentes com alteração do estado de consciência”, refere Hugo Tavares, de 40 anos, pediatra e responsável pela consulta do adolescente, para onde são encaminhados os miúdos que surgem nas urgências com excesso de álcool. Para medir a gravidade da situação e o estado de coma, os médicos usam uma escala chamada de Glasgow: através da observação das capacidades ocular, verbal e motora são atribuídos pontos. Quinze é considerado normal; a partir de 11 começa o estado de coma superficial, 8 significa que se perdeu reflexos vitais — como o de se impedir que o vómito vá para os pulmões; e com valor de 3 significa uma coma profundo.

Hugo Tavares concluiu um trabalho sobre os episódios que chegaram à urgência entre 2008 e 2016, para apresentar no Congresso Nacional de Pediatria, que se realiza no final deste mês. A maioria surgiu nas urgências à noite, ao fim de semana, ou em épocas de festivais e festas populares. A média de taxa de alcoolemia foi de 1,584 g/l. Mas um rapaz chegou com 2,74 g/l. Entre os embriagados havia uma criança de nove anos. As cenas vividas nas urgências revelam os perigos em que os adolescentes se colocam. Ao Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia, chegou um miúdo, transportado pela polícia, que estava embriagado a dormir na estrada, “como se estivesse em casa”, e deu entrada uma rapariga que bebeu álcool a mais e foi tomar banho ao mar. “Podia ter morrido afogada”, nota Hugo Tavares, garantindo que muitos jovens estão a aderir ao binge drinking: “Ingerem grande quantidade de álcool de forma súbita. Três, cinco, até sete bebidas de uma só vez.” Uma tendência que, assegura, tem um enorme “impacto, porque leva a consumo de grande quantidade de álcool antes de terem tempo de começar a sentir os efeitos do álcool”.

Foi provavelmente o que aconteceu a T., um rapaz de 16 anos que entrou em coma alcoólico. Estava com amigos numa feira em Santarém quando, a meio da noite, caiu e acabou internado no hospital. Bebeu sete cervejas e depois “empurrou tudo com 12 shots de absinto” e bebeu-os em pouco mais de 10 minutos. Não tardou até estar dentro de uma ambulância. Lembra-se de começar a ver tudo à roda, de ter momentos em que via tudo preto, de vomitar e de se sentir estranho. Mas a partir daí não se lembra de mais nada. Caiu, fez um traumatismo craniano e desmaiou. Foi levado para o Hospital de Santarém, onde os pais o foram buscar mais tarde. Ficou de castigo, apanhou um susto, mas não o suficiente para deixar de beber. Mas, para muitos, garante Hugo Tavares, passar por uma intoxicação destas é uma lição. O problema, diz, é que se cria uma falta de confiança entre os pais e filhos que às vezes é difícil recuperar. “Por isso estas consultas de adolescentes são importantes, pois também ajudam os pais.”

Naquela madrugada de sábado em Santos, no centro de Lisboa, ninguém parece preocupado com os riscos do que está a fazer. “Nós controlamos bem a bebida”, diz M., de 15 anos, enquanto dá mais um golo na sua garrafa de plástico cheia de sangria. Nas escolas é raro ouvirem falar dos perigos do álcool, contam.

Nas mãos da polícia

“É um grave problema de saúde pública. Mas a forma como estamos a passar a informação não dá. Assim não vamos lá”, diz Rui Tato Marinho, hepatologista e autor de vários estudos sobre os perigos do álcool para a saúde. “O consumo excessivo está ligado a mais de 100 doenças”, garante, dando o exemplo de cirroses alcoólicas, cancros, infertilidade. “E há riscos de morte súbita — que já vi acontecer no Hospital de Santa Maria — e de asfixia pelo vómito”, avisa, aproveitando para recordar um estudo da Universidade de Boston, onde se conclui que quem começa a beber com menos de 14 anos tem cerca de 50% de probabilidade de ficar dependente mais tarde. “A única hipótese é restringir mais o consumo”, defende Tato Marinho, notando que a. lei não está a ser eficaz.

É também essa ineficácia que a subcomissária da 1ª Divisão da PSP, Aurora Dantier, de 52 anos, admite testemunhar nas operações que faz durante a noite no Bairro Alto e em Santos, exatamente nos bares ao pé da Praceta D. Carlos I. Por estas zonas encontra regularmente cenas degradantes: menores a caírem de bêbados e a vomitarem, alguns em coma alcoólico; taxistas que não sabem o que fazer a adolescentes embriagadas que não conseguem explicar onde vivem. E, por vezes, chegou a ficar estupefacta quando lhe apareceram pais, a quem ela telefonou para irem buscar os filhos, completamente embriagados. “Não se mudam mentalidades com decretos”, diz Aurora Dantier. A subcomissária costuma fazer operações de vigilância de menores que estão na noite sem supervisão de adultos e é acompanhada por técnicas da comissão de proteção de menores, que com ela integram o projeto Sem Rótulos, para ajudar a prevenir situações de maior perigo. É comum a subcomissária entrar num bar e fazer na rua um perímetro de segurança. “Só deixo os adolescentes irem embora quando um adulto o for buscar.” Além disso, notifica por escrito os pais de todos os menores que forem encontrados a beber, como manda o artigo 7º da Lei 50/2013, que define a venda e o consumo de bebidas alcoólicas. Na última operação que liderou, estavam 20 ou 30 miúdos nessa situação.

P. de 16 anos, já esteve algumas vezes no sítio errado à hora errada e apanhou as operações da subcomissária. “Fazem uma espécie de quadrado e ficamos ali retidos até os nossos pais nos irem buscar.” Na madrugada do último sábado não houve ações policiais em Santos. Por isso, à medida que as horas corriam, o som das garrafas de vidro partidas no chão aumentava. Já passava da uma da manhã e se alguns ainda se comportavam, outros já davam sinais claros do que tinham bebido. E atravessavam a estrada a correr, a rir e a gritar, sem olhar para carros que passavam e sem noção de que podiam ser atropelados. É essa falta de avaliação do risco, dizem os especialistas, um dos perigos do excesso de consumo. “Com o álcool, eles têm comportamentos de risco no sexo, na condução, na agressividade”, nota Helena Fonseca, pediatra, responsável pela consulta do adolescente no Hospital de Santa Maria e professora da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa. “O álcool é o inimigo número 1”, avisa.

Ao Hospital de Viseu, por exemplo, já chegou um rapaz de 17 anos em estado grave por causa de um acidente de mota, resultado do seu estado de embriaguez. E outro entrou, numa madrugada, nas urgências a convulsionar. “Temos de estar muito atentos porque nestes casos há risco de hipoglicemia”, descreve Alzira Ferrão, de 58 anos, diretora do serviço de pediatria do Hospital de Viseu, onde aparecem também casos de adolescentes muito novos. Não há muito tempo, um casal foi ao hospital com o filho de 10 anos a cambalear. Estava de férias e teve acesso a bebidas alcoólicas através de amigos. O consumo que é feito pelos adolescentes preocupa-a e o hospital tem protocolos com as escolas da zona, onde a sua equipa costuma ir uma vez por semana falar com os alunos. Além disso, fazem sessões de formação nos estabelecimentos de ensino e no próprio hospital, para professores, pais e estudantes. “Tentamos mostrar-lhes que o álcool é tóxico e afeta as células.” Por isso, num dos filmes passam a imagem “de um neurónio a ser regado com gotas de álcool e a atrofiar”.

Da sua experiência, consegue perceber que grande parte dos casos são ocasionais e ficam internados menos de 24 horas, mas outros são mais complexos. “Já me disseram que bebem para esquecer.” Alzira Ferrão quer fazer um levantamento dos casos que entraram nos últimos anos nas urgências para comparar a situação com a que está descrita no último estudo feito no hospital de Viseu, que avaliou 74 casos entre 2006 e 2010. A taxa média de álcool foi de 1,78 g/l e 51% tinham consumido shots. Houve registo de escoriações, traumatismos e casos mais problemáticos, como uma fratura do osso frontal, que pode deixar sequelas. Não é assim tão raro, ocorrem acidentes graves.

No Centro Hospitalar de Setúbal, o pediatra José Freixo não esquece o que sucedeu a um rapaz de 16 anos que apareceu alcoolizado e com ataques epiléticos, e que teve de ser operado ao cérebro. O médico dá consultas de adolescentes no hospital, mas lamenta que metade não apareça. São reencaminhados pelos médicos que os atendem na urgência. Joana Cachão, de 29 anos, é interna na especialidade de pediatria neste hospital e já teve nas mãos algumas situações. “Em regra, são intoxicações leves e fazemos hidratação e aquecimento”, explica. Há uns tempos, ela e outras médicas fizeram um estudo sobre o tema: analisaram os processos clínicos dos 99 adolescentes que chegaram com excesso de álcool, entre julho de 2011 e julho de 2015. Desde então, já atendeu alguns.

O último foi um rapaz de 16 anos que apareceu embriagado e a vomitar sem parar. Ficou a descansar e a avó foi buscá-lo perto das seis da manhã. Sabia que o neto tinha ido sair e beber uns copos, mas nunca pensou que acabasse assim. Foi também com surpresa que os pais de uma estudante chegaram recentemente ao Hospital de Santa Maria, em Lisboa, para irem buscar a filha, que ali estava deitada numa cama com intoxicação alcoólica, fruto das festejos das praxes. Tinha bebido sangria a mais. “Tu?”, perguntaram, incrédulos, os pais quando chegaram ao pé dela, na enfermaria da urgência pediátrica. Foram ajudados pelo psicólogo que todos os dias passa pelas salas da urgência e que, entre outros casos, auxilia pais e crianças a lidar com os problemas que resultam destas situações. “Os miúdos acham que desiludiram os pais”, explica Gabriela Araújo e Sá, diretora da urgência pediátrica do Hospital de Santa Maria, onde todos os meses chega um adolescente com intoxicação alcoólica aguda.

Para estes casos, o serviço tem um protocolo de atuação estabelecido, refere, por seu lado, Celeste Barreto, diretora do Serviço de Pediatria, que define os exames a pedir, os passos a seguir e os sinais a observar. Um adolescente que apresente 0,5 a 1 g/l tem alterações da coordenação e desinibição; entre 1 e 1,50 revela desequilíbrio, entre 1,5 e 2, mostra letargia e dificuldade em estar sentado, com 3 entra em coma e com 4 a 7 corre risco de depressão respiratória. Uma atuação que segue as regras impostas em julho passado por uma orientação que a Direção-Geral de Saúde enviou para os hospitais, onde explica que estas intoxicações são um grave problema de saúde e impõe normas de procedimento.

“Sabe a álcool etílico”

Alheios a todas estas regras, naquela noite os miúdos continuavam a divertir-se em Santos. Entravam e saíam dos bares. São 1h20 quando J, de 14 anos, e os primos que a batizaram continuam no ritual. Entraram noutro bar e beberam todos um shot, desta vez cor-de-rosa. Entretanto, em grupos, dezenas de adolescentes dirigiam-se para a zona das discotecas na Avenida 24 de Julho. “Eh pá, o meu pai disse-me para eu não beber”, comenta uma adolescente com os amigos, enquanto dá um gole no copo que tem na mão. Não seguiu o pedido do pai: está embriagada e deita-se no chão da avenida. A um canto, um pouco atrás, uma outra adolescente, de 16 anos, vomita para poder continuar a noite, enquanto uma amiga aguarda pacientemente ao seu lado. Sentados no chão e num círculo, vários miúdos jogam à roleta com a garrafa e vão dando beijos uns aos outros. Num bar ali perto nota-se uma correria de entra e sai. “Vai lá buscar sete shots para nós”, pede uma miúda ao rapaz do grupo. Bebem cada um o seu, num gole. “Eh pá, isto sabe mesmo a álcool etílico.”

É natural, explica Luís Patrício, psiquiatra. “O álcool das bebidas é igual ao da farmácia, etanol, que é um químico neurotóxico”, explica o médico que se tem dedicado ao projeto ‘Mala da Prevenção’, através do qual tenta alertar para a grave realidade do consumo de álcool por menores. Em vídeos que costuma divulgar, tenta passar uma simples mensagem: “Até 0,5 g/l vem a euforia; com 0,5 a um grama chegam as perdas de memória, de atenção e de juízo; entre 1 e os 3 g/l começa a diminuição da marcha, da visão, da fala; com 3 a 5 g/l vem a falta de reflexos; e com mais de 5 g/l vem a morte”.

Os miúdos não fazem ideia, garante. Alguns são até novos demais. R está com amigos numa fila para a discoteca, mas nenhum, admitem tem 16 anos, a idade permitida para entrar. “Temos bilhete de identidade falsos”, acabam por confessar. Na realidade têm 14 anos, desvenda R, enquanto aponta para um outro grupo: “Aqueles ali são de 2004.” Ou seja, têm 13 anos. Segundo um estudo de 2015, do Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD), coordenado por Fernanda Feijão, o álcool continua a ser a substância mais consumida pelos adolescentes das escolas públicas. E 31% dos alunos com 13 anos já experimentaram álcool, especialmente cervejas e misturas. Num inquérito de 2015, feito em 35 países europeus por um grupo de trabalho de especialistas (Espad — The European School Survey Project on Alcohol and Other Drugs), 47% admitiram que consumiram álcool aos 13 anos e um em cada 12 estudantes europeus contou que teve uma intoxicação alcoólica com essa idade.

Começam a beber para serem aceites pelos amigos, funcionando muitas vezes como uma espécie de ritual, acredita Teresa Goldschmidt, pedopsiquiatra do Santa Maria, notando que em muitas famílias é aceite com naturalidade que os adolescentes bebam álcool. Nem todos os casos acontecem de noite, alguns dão-se no horário da escola. No Hospital Beatriz Ângelo, em Loures, Sofia Costa Lima, diretora da urgência pediátrica, conta que já aparecerem miúdas embriagadas à tarde. E, em Gaia, o pediatra António Vinhas lembra-se do caso de uma adolescente que foi de visita escolar ao parque biológico e acabou a ser levada para o hospital por uma professora, com álcool a mais.

Com o andar da noite, na Avenida 24 de Julho sente-se por vezes o cheiro a haxixe, que vem dos charros que os miúdos acendem e partilham. Pelo meio, fazem diretos para o Instagram, tiram selfies. A noite corre. Eram 3h17 quando o funcionário de um dos bares mais concorridos junto à Praceta D. Carlos I varria o chão, cheio de copos de plástico consumidos daquela noite. S. tem 31 anos e passou por um grave problema de álcool. Teve de se submeter a um tratamento e hoje diz que se sente bem e consegue beber com moderação. Mas viveu momentos complicados quando foi ao médico com uma depressão e descobriu que tinha problemas com o álcool. Ao olhar para trás, recorda-se bem como tudo começou. “Tinha 15 anos e comecei a beber shots.”

 

 

O consumo de álcool moderado dos pais afecta os filhos? Estudo diz que sim

Outubro 20, 2017 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança, Relatório | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.publico.pt/ de 19 de outubro de 2017.

Segundo um estudo do Institute of Alcohol Studies de Inglaterra, estes comportamentos afectam a forma como os filhos vêem os pais.

Catarina Lamelas Moura

Um estudo publicado esta semana pelo Institute of Alcohol Studies de Inglaterra (IAS) designa o álcool como “açúcar para adultos”. De acordo com os resultados obtidos, os impactos negativos do consumo de álcool por parte dos pais sobre os filhos acontecem também com quantidades menores, consideradas normalmente pelas entidades como comportamentos de baixo risco.

O estudo – centrado nos consumos sem dependência – analisou as respostas de 997 pais e os seus respectivos filhos, em Inglaterra. Foram realizados inquéritos ao público, quatro focus groups e um inquérito online.

O relatório publicado pela IAS alerta que o debate acerca do consumo de álcool se foca demasiado na questão da quantidade de álcool, em detrimento do verdadeiro impacto do mesmo nas crianças. Os resultados demostram que os pais não têm necessariamente de beber grandes quantidades de forma consistente para que os seus filhos notem mudanças no seu comportamento e sofram impactos negativos. As crianças que viram os pais alegres ou mesmo bêbados demonstraram algum tipo de consequência, como sentirem-se menos consoladas ou a perturbação das rotinas nocturnas. Há ainda uma probabilidade menor de não verem nos pais um exemplo positivo.

Os inquéritos conduzidos concluíram que “muitos pais assumem que os seus filhos não reparam naquilo que bebem” e que, por isso, “os impactos negativos são involuntários, em grande parte dos casos”. Esses hábitos acabam por reflectir-se na postura que os filhos tomam em relação ao álcool, indicam ainda os inquéritos online.

De acordo com os dados do IAS, 29% dos pais admitiu que já tinha estado bêbado em frente aos filhos e 51% disse que já tinha estado alegre. Dos pais inquiridos, 29% considera não haver problema em beber em frente aos filhos, desde que não aconteça com regularidade. Das crianças abordadas, 18% já se sentiu envergonhada devido ao consumo alcoólico dos pais.

“É preocupante que a maioria dos pais relate ter estado alegre em frente aos filhos. Todos os pais lutam por fazer o melhor para os seus filhos, mas este relatório realça a preocupante lacuna no seu conhecimento”, comenta Katherine Brown, chefe executiva dos IAS, citada pelo Guardian.

Um local “seguro” para beber

Aquilo que muitos pais consideram uma forma de educar os filhos a terem comportamentos responsáveis relativamente ao consumo de álcool – deixá-los experimentar uma bebida numa ocasião especial, em casa, por exemplo – pode não produzir os efeitos desejados.

“Os pais muitas vezes tentam evitar que o álcool se torne um tabu, contra o qual as crianças se rebelem, e têm tendência a ver a casa como um ambiente seguro para a aprendizagem de comportamentos adequados”, aponta o relatório do IAS. No entanto, aponta ainda, um estudo conduzido por Marie B. H. Yap e outros investigadores concluiu que as crianças cujos pais lhes fornecem bebidas alcoólicas, têm maior probabilidade de começar a beber mais cedo, de ter problemas alcoólicos e de beber em quantidades e frequência maiores.

O relatório citado na notícia é o seguinte:

Like sugar for adults: The effect of non-dependent parental drinking on children & families

 

 

Estudo revela que álcool na gravidez leva 1 em cada 13 bebés a nascer com problemas

Setembro 6, 2017 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do https://ionline.sapo.pt/ de 23 de agosto de 2017.

Shutterstock

O consumo de álcool nem sequer tem de ser frequente, basta beber uma vez ou duas para que o desenvolvimento dos bebés já tenha risco de ser afetado.

De acordo com um estudo recentemente realizado, há cerca de oito em cada mil bebés que nascem com o designado Síndrome Alcoólica Fetal – SAF, e que revela ainda que uma em cada 13 mulheres que consomem álcool na gravidez dão à luz um bebé com distúrbios do espectro da Síndrome Alcólica Fetal.

Esta síndrome aumenta o risco de a criança desenvolver deficiências físicas, mentais, comportamentais ou até mesmo de aprendizagem.

O estudo, publicado na revista JAMA Pediatrics, avança que a equipa de investigadores analisou a frequência com que os bebés nascem com SAF, em crianças desde o nascimento até aos 16 anos de idade, em 187 países.

De acordo com o Indian Express, apesar de a região europeia ser aquela que mostra níveis mais elevados, com cerca de 20 casos de SAF por cada mil crianças, o leste da região mediterrânea mostrou ter a menor prevalência.

Já nos Estados Unidos da América há cerca de 15 casos de SAF por cada mil crianças.

 O estudo citado na notícia é o seguinte:

Global Prevalence of Fetal Alcohol Spectrum Disorder Among Children and YouthA Systematic Review and Meta-analysis

 

Filhos do álcool. Vidas marcadas pela vergonha e pelo medo

Julho 13, 2017 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Reportagem do http://www.dn.pt/ de  3 de julho de 2017.

Dulce é filha de um alcoólico, que não bebe há 18 anos
| Henriques da Cunha/Global Imagens

Joana capucho

O vício dos pais consumiu-lhes a infância. Algumas crianças acabam por adotar comportamentos semelhantes

“Chamo-me Dulce e sou filha de um alcoólico.” Dezoito anos depois de o pai ter deixado de beber, Dulce, de 39, fala dele com orgulho. Já não tem vergonha como tinha quando, durante toda a infância e adolescência, o pai aparecia bêbado. Lembra-se de desejar que ele não fosse aos sítios onde estava para não se sentir embaraçada. “Não cambaleava nem andava a cair. E nunca nos tocou, mas era muito ríspido, muito brusco.” A par disso, o medo constante de um acidente de carro ou que algo de mau acontecesse. “Até aos 20 anos não tive pai. Não é fácil conviver com uma adição que é perfeitamente aceite pela sociedade.”

Maria, de 60 anos, conhece bem a vergonha da qual Dulce fala. “Se via o meu pai na rua quando vinha da escola, tentava ir mais devagar para não o apanhar. Lembro-me daquela figura magra a cambalear pela rua e eu a abrandar o passo”, recorda. São memórias que doem. “Uma vez, com uma grande bebedeira, vinha pela rua a dizer que matava a minha mãe. Tinha muito medo.” Ficaram marcas para o resto da vida. Uma depressão que nunca se curou. Um casamento para fugir do ambiente em que vivia, que acabou 12 anos mais tarde. “Para colmatar a dor, comecei a beber. Quando vi que estava a passar pelo mesmo que o meu pai, pedi ajuda aos Alcoólicos Anónimos.”

Dulce e Maria são filhas de pais alcoólicos, duas mulheres que viram a sua infância ser consumida pelo álcool. Como elas, milhares de portugueses, cujas vidas ficam marcadas para sempre. “Sempre que, na infância, os filhos são sujeitos a situações de tensão e violência, seja física ou pelo consumo de álcool, obviamente que ficam marcos para o resto da vida”, diz ao DN o psicólogo Carlos Céu e Silva.

Em muitos casos, são as crianças que assumem o papel de cuidadores, que tratam dos irmãos e que se encarregam de alimentar, lavar ou acalmar os progenitores alcoolizados. “Não têm momentos de pura liberdade infantil. Quando se tornam adultos, muitos ficam exageradamente aptos, pessoas rígidas ou com crises de identidade. Mais do que isso, há um descontentamento permanente, porque não viveram a infância, não tiveram modelos, assumiram o papel de pais”, explica o psicólogo.

Álcool leva à violência

Catarina Homem da Costa, psicóloga clínica, diz que “quando o alcoolismo é materno, está mais associado a situações de negligência, de não prestação dos cuidados básicos”. Já quando é paterno, está “muitas vezes associado a um aumento de comportamentos violentos e/ou inesperados. Outros casos graves são os que levam a situações de abuso sexual”. Há crianças que reconhecem pelos passos se o pai está bêbado, que vão aos bares buscar os pais para evitar que bebam demasiado. “Outras que descrevem que por vezes o pai acaba caído no chão e que o tapam com um cobertor para que não tenha frio. Em alguns casos o progenitor é descrito como tendo comportamentos infantis, em que a sua autoridade é desvalorizada.”

Dulce pensa que o pai terá começado a beber quando estava na tropa. “Naquela altura, quem mais bebesse, mais homem era.” Apesar dos repetidos pedidos dos filhos e da mulher, não reconhecia que tinha um problema. “Nós é que éramos malucos, dizia ele.” Filha de gentes do campo, que viviam no Alentejo, Maria recorda que o pai começava por beber o mata-bicho logo de manhã. “E continuava ao longo do dia.” Em casa, não se falava sobre o assunto.

Há casos, diz Catarina Homem da Costa, que são desvalorizados até pela própria família. “Ainda há muitos meios em que o alcoolismo é visto como um comportamento “normal” e habitual nas famílias. Estes comportamentos são desvalorizados ou desculpabilizados”, indica a psicóloga. Por vezes, alerta, “mesmo que estes casos sejam denunciados, é considerado que a criança não corre risco, porque o risco na nossa sociedade ainda está muito associado ao risco físico”.

No Reino Unido, por exemplo, há instituições específicas para filhos de pais alcoólicos, mas, em Portugal, não existe uma resposta direcionada só para estas crianças. Contactado pelo DN, o Instituto da Segurança Social diz que “a integração destas crianças ocorre em instituições sem valência específica para esta problemática, porque simplesmente não existem”. “Requer-se da instituição que seja protetora e promotora do bem-estar e dos direitos da criança que acolhe, promovendo sempre que possível, e em articulação com a equipa responsável pelo acompanhamento da medida, o seu retorno a meio natural de vida”, adianta.

Filhos dependentes

As marcas deixadas pelo alcoolismo dos pais podem manifestar-se de diferentes maneiras. Segundo Carlos Céu e Silva, há filhos que se tornam “adultos autónomos e reivindicativos em termos emocionais” e que têm “comportamentos opostos aos que receberam na infância”, muitas vezes com a ajuda de terapeutas, familiares ou amigos. Há também situações ambivalentes, ou seja, “filhos que têm dificuldade em gerir emocionalmente a questão do pai biológico e que ao mesmo tempo só trouxe desilusão e sofrimento”. E o lado mais negro, ressalva, que “são filhos que não se sabem libertar e que, quando se tornam adultos, mantêm relação com as dependências”. Estão “sempre insaciáveis, à procura de mais, não só nas dependências mas também no amor, no trabalho”. São pessoas “que nunca estão completas”.

Maria sabe que poderia ter tido uma vida diferente se o pai não fosse alcoólico. “O medo bloqueou-me bastante. Comecei desde muito cedo a sofrer do sistema nervoso”, recorda. Foi nos Alcoólicos Anónimos, onde entrou em recuperação há 13 anos, que aprendeu a lidar com o passado e os medos que a atormentavam. Ficou a mágoa, lamenta, de não ter tido a oportunidade de dizer ao pai que o compreendia.

Dizem os especialistas que é comum os filhos de alcoólicos manifestarem problemas comportamentais e emocionais. Catarina Homem da Costa sublinha o impacto da violência, da negligência, da autoridade exercida através da força, do medo, de reações inesperadas e inexplicáveis. Pais que num momento são responsáveis e carinhosos e que rapidamente passam “a ser pessoas com comportamentos imprevisíveis, a precisar de cuidados, a causar medo ou mesmo repugnância”.

 

VII Congresso e XXIV Jornadas da Sociedade Portuguesa de Alcoologia | Lisboa | 20, 21 e 22 de Outubro

Outubro 7, 2016 às 6:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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spa

mais informações no link:

http://spalcoologia.pt/553/vii-congresso-e-xxiv-jornadas-da-sociedade-portuguesa-de-alcoologia/

Metade dos pais no Reino Unido permitem que crianças bebam bebidas alcoólicas em casa

Setembro 14, 2016 às 12:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do http://lifestyle.sapo.cv/ de 5 de setembro de 2016.

mais informações na Press Release da Churchill Home Insurance:

Half of parents let their under-14s drink alcohol at home

pixabay

 Susana Krauss

Esta é a conclusão de um novo estudo realizado pela companhia de seguros Churchill.

Esta nova pesquisa descobriu que mais de um terço dos pais (34%) com filhos menores de 14 anos usa o álcool como moeda de troca para o bom comportamento. E que 11% dos pais permitiu que crianças entre os 5 e os 7 anos bebessem em casa. Um quarto dos entrevistados que autorizou que os seus filhos bebessem em casa consideram que esta atitude nada tem de errado.

Apesar de não ser ilegal que crianças com idades entre os 5 e os 16 anos bebam bebidas alcoólicas em casa, o relatório de saúde alerta que crianças com idades inferiores a 14 anos que bebem, têm mais probabilidade de terem problemas de saúde, incluindo tentativas de suicídio, envolvimento em situações de violência e acidentes relacionados com o álcool.

Perto de um terço dos pais afirma que ao permitirem que os filhos bebam em casa faz com que possam controlar melhor o consumo de álcool dos mesmos. A pesquisa também sugere que um em cada cinco pais permitiria o consumo de álcool nas suas casas por parte de crianças que não fossem membros da família.

Martin Scott, responsável pelos seguros de casa da Churchill afirma: “A relação entre as crianças e o álcool no Reino Unido sempre foi um assunto mais preocupante do que para outros países. Muitos pais querem que os seus filhos tenham uma atitude responsável ao beber e preferem introduzir a bebida num ambiente seguro e controlado. No entanto, o desafio de qualquer pai é como evitar o consumo excessivo, especialmente entre os adolescentes. Quando as pessoas bebem em casa existe um risco maior de acidente e danos materiais/físicos, já que o álcool tem um impacto significativo na coordenação”.

artigo do parceiro: Susana Krauss

 

Falar claro sobre consumo de bebidas alcoólicas

Abril 29, 2016 às 12:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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texto do site Educare de 18 de abril de 2016.

Projeto lança manual para que pais, filhos e educadores conversem sobre hábitos que podem ser perigosos. Iniciativa quer chegar a 900 mil jovens e adolescentes.

Sara R. Oliveira

O livro chama-se “Falar Claro: Conversas sobre o Álcool entre Pais e Filhos”, os conteúdos foram elaborados pelo médico psiquiatra e pedopsiquiatra da infância e adolescência António Lorena Trigueiros, validados e certificados pela Direção-Geral de Educação e Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências, no âmbito do Fórum Nacional de Álcool e Saúde. Este manual debruça-se sobre um assunto delicado. A ideia é que pais, filhos, professores, educadores, e comunidade, falem abertamente sobre o consumo responsável de álcool e sobre os perigos que os excessos podem provocar a vários níveis.

O Projeto Falar Claro quer chegar a 900 mil jovens e adolescentes. A iniciativa parte da APCV – Associação Portuguesa dos Produtores de Cerveja e deu origem a um protocolo de cooperação assinado com várias entidades, com a Confederação Nacional das Associações de Pais (CONFAP), a Associação Nacional de Professores (ANP) e o Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ). Este projeto encaixa nos objetivos do Fórum Nacional Álcool e Saúde, já que procura contribuir para a redução do consumo nocivo em jovens sem idade legal para o consumo e alertar para um hábito de risco nos jovens maiores de idade.

“O comportamento abusivo dos jovens perante as bebidas alcoólicas, em geral, é um assunto que preocupa a APCV, pois esse consumo irresponsável não só é prejudicial para o indivíduo como também para a sociedade no seu conjunto. É com grande orgulho que APCV, em conjunto com os nossos parceiros – ANP, CONFAP e IPDJ – implementa um projeto válido e capaz de obter resultados reais no combate ao uso nocivo de bebidas alcoólicas por jovens”, refere o presidente da APCV, Rui Lopes Ferreira.

Dentro das suas competências e campo de intervenção, as entidades envolvidas estão a desenvolver ações de formação e sensibilização para que o manual chegue ao seu universo de contactos. A CONFAP, por exemplo, quer que o manual chegue ao maior número de pais e jovens, através da distribuição massiva do manual junto das suas associadas, e vai promover ações de sensibilização. O objetivo é chegar a mais de um milhão de pais e encarregados de educação.

A CONFAP aplaude a publicação do manual de apoio que permite aos pais trabalharem a problemática do álcool em conjunto com os seus filhos. “É preciso falar claro e enfrentar sem tabus nem constrangimentos a existência deste problema na nossa juventude, pois só assim poderemos contribuir para uma melhor informação dos nossos jovens que lhes permita ter uma qualidade de vida mais saudável”, refere Jorge Ascenção, presidente da CONFAP.

A ANP também já arregaçou as mangas e certificou uma ação de formação destinada a professores do 2.º e 3.º ciclos do Ensino Básico e do Secundário com o objetivo de fornecer aos docentes informações e ferramentas para a integração do projeto nas suas atividades curriculares. A ação de formação está em curso e já foi concretizada em quatro agrupamentos de escolas, no Norte e Sul do país. Para Paula Carqueja, presidente da ANP, o tema é relevante, “ajuda e provoca conversas, linhas de diálogo, numa triangulação perfeita: pais, alunos/as e professores, onde todos se movimentam de acordo com o seu papel”.

O IPDJ, por seu turno, planeia abranger, já este ano, cerca de 7 mil jovens através da inclusão desta temática, numa metodologia de educação não formal, em mais de 500 projetos de campos de férias do Programa Férias em Movimento e de programas de Ocupação de Tempos Livres (OTL) de curta duração. Augusto Baganha, presidente do IPDJ, adianta que o instituto público “fará a divulgação do manual deste programa junto dos monitores dos programas de ocupação de tempos livres e campos de férias, com o propósito de os motivar a trabalharem com os jovens os temas relacionados com o consumo responsável de álcool e os perigos que decorrem do consumo excessivo”.

 

Seminário “Velhos e Novos Consumos de Álcool e Boas Práticas de Intervenção” IPDJ de Viseu 18 de fevereiro

Fevereiro 15, 2016 às 12:30 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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viseu

A inscrição é gratuita, mas obrigatória e é limitada aos lugares existentes.

mais informações:

http://www.apdes.pt/index/snvc.html

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